O Estado de S.Paulo - 07/02
A falta de competitividade do Brasil em vários segmentos não é novidade, mas impressiona a extensão do problema, que agora contamina mais um setor: o de balas. Os números de exportação de 2013 não deixam dúvidas. A indústria de balas fechou o primeiro semestre com queda de 10,4% nas exportações do produto, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab). Foi a maior retração no comércio com países estrangeiros nos últimos cinco anos.
Contribuíram para reduzir a exportação: a competitividade de países como Colômbia, México e Turquia, que contam com importantes acordos comerciais; os conflitos no Oriente Médio; e a alta do dólar nos países compradores, que dificultou a inserção dos produtos brasileiros no mercado externo. Uma solução para incrementar os resultados de exportação são os acordos bilaterais, pois reduzem os impostos de entrada em diversos mercados.
O papel do governo na conquista de bons acordos é fundamental e, por ora, deixa a desejar. Há alguns anos o governo sul-africano subiu o imposto sobre produtos estrangeiros de 25% para 37%. Até hoje a carga tributária excessiva naquele país não foi revista. O Sistema Geral de Preferência (SGP) dos Estados Unidos, que facilita a entrada de determinados produtos de países em desenvolvimento, ainda não foi renovado pelo Congresso americano. Cabe a pergunta: será que o governo brasileiro está fazendo algo a respeito?
Os Estados Unidos são o segundo principal destino de exportação do setor e o primeiro destino das exportações de candies, sendo, portanto, de extrema relevância. Já a África do Sul atualmente é o 10.º destino de exportações brasileiras de candies (participação de 2,1% no total). Em 2012, também ocupava a 10.ª posição; em 2011, a 9.ª. Em 2005, era o segundo principal mercado do segmento, responsável por 17,8% do valor exportado.
Sem o SGP americano, o preço das balas e de outros produtos brasileiros sofre um aumento de aproximadamente 6% naquele mercado. Essa "gordura" deverá ser absorvida pelo exportador ou compartilhada com o importador, reduzindo automaticamente as margens de lucro de ambos. Ou, ainda, pode inviabilizar a venda, uma vez que esse porcentual é considerado alto no segmento de balas.
O Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela, é outro ponto de atenção. O bloco peca pela falta de agilidade e consenso. Há uma luz no fim do túnel, porém. O relacionamento comercial entre Brasil e Argentina, travado há dois anos, recentemente deu sinais de que poderá ser retomado em novas bases, tendo em vista o movimento de flexibilização econômica empreendido pela presidente Cristina Kirchner. A governante se mostra disposta a repensar as Declarações Juramentadas Antecipadas de Importação (Djai), que desde 2012 obrigam importadoras a obterem intermináveis licenças para adquirir produtos do país vizinho. Provavelmente o recurso não será extinto, mas "suavizado", desburocratizando os trâmites com aquele país.
O governo argentino também acenou com a possibilidade de eliminar o esquema de "um a um" no comércio exterior, pelo qual uma empresa se via obrigada a exportar o mesmo valor da importação realizada, criando bizarrices como empresas de autopeças vendendo alimentos para "fechar as contas" de acordo com a regra.
Se a Argentina de fato realizar essas mudanças, o Brasil poderá reconsiderar o Mercosul como um caminho efetivo e seguro para o comércio com a União Europeia. Do contrário, restará a solução já conhecida de todos, mas sempre evitada. As tratativas com países estratégicos deverão ser feitas isoladamente pelo Brasil e com o eficiente apoio do governo, responsável por abrir as "portas" no cenário internacional. É o que o setor de balas e muitos outros aguardam para recuperar o tempo perdido e trilhar o caminho do crescimento novamente.
sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Não podemos esperar 2015 - FRANKLIN L. FEDER
FOLHA DE SP - 07/02
Não houve a formulação consistente de políticas que permitissem a preservação da vitalidade da cadeia produtiva da indústria do alumínio
A Alcoa celebrará seu cinquentenário no Brasil em 2015. São hoje quase 6.500 alcoanos e alcoanas reconhecidos pela prática de segurança no trabalho, qualidade, engajamento, sustentabilidade, diversidade, inclusão e voluntariado.
Com a mesma disposição que tinha quando chegou ao Brasil, a Alcoa investiu quase US$ 5 bilhões no país na década passada, mesmo durante a crise iniciada em 2008. No entanto, em função do contexto global e nacional, tivemos que anunciar no ano passado o fechamento de um terço da nossa capacidade de produção de alumínio primário.
O mais surpreendente foi que o telefone não tocou nem sequer uma vez. Tínhamos certeza de que tocaria e do outro lado da linha viria a pergunta: "O que podemos fazer para evitar esse fechamento de capacidade?". Nada disso aconteceu.
Os fatos: além dos ajustes de produção anunciados pela Alcoa, duas das sete fábricas de alumínio primário no Brasil pertencentes a outras empresas já fecharam as portas; as importações cresceram 246% nos últimos dez anos e as maiores empresas do setor ocupam as principais posições dos rankings com os mais elevados prejuízos. Isso apesar de o país possuir a terceira maior reserva mundial de bauxita, um significativo potencial hídrico ainda inexplorado, um mercado interno demandante e uma produtividade de mão de obra comparável às melhores fábricas de alumínio do mundo.
Não houve intencionalidade alguma, tampouco a situação atual da indústria de alumínio no Brasil é consequência exclusiva de questões meramente nacionais. Esses dois fatos são indiscutíveis.
Mas também é indiscutível que não houve a formulação consistente de políticas que permitissem a preservação da vitalidade da cadeia produtiva, de empregos de brasileiros talentosos e da robustez da balança comercial.
Com o agravamento da crise mundial de 2009 a 2012, veio o declínio do preço do alumínio, reforçado pela valorização da moeda brasileira. Nesse contexto, três tiros, quase de misericórdia. Na energia, depois de anos de diálogo com o governo brasileiro, a medida provisória nº 579, transformada na lei nº 12.783, trouxe um alívio de apenas 6% na nossa conta de energia comparado com os 28% prometidos. Aparentemente, decidiu-se privilegiar a modicidade tarifária, e não a competitividade da indústria de base brasileira.
Concomitantemente, surge no Congresso o projeto do novo Código de Mineração, ainda não votado e louvável em múltiplos aspectos, mas que sinaliza um potencial de aumento dos custos da atividade de mineração. E, como uma pá de cal, por questões fundamentalmente de licenciamento ambiental sem a definição de critérios concretos há mais de uma década, o governo solicitou a devolução de duas concessões de hidrelétricas já licitadas.
Diz-se que 2014 está predestinado a ser um ano perdido. Afinal, teremos Carnaval, Copa do Mundo e eleições. Nada de concreto se faz, segundo a crença popular, num ano como este. Mas não precisa necessariamente ser assim. O que tem de ser feito já é conhecido: a contínua retirada de encargos e tributos, implementação de mecanismos para evitar o "dumping" de produtos importados a preços marginais, o fortalecimento do mercado livre de energia elétrica por meio de cotas para os eletrointensivos e incentivos para que autogeradores invistam na expansão da capacidade geradora e na transformação das reservas minerais brasileiras.
Todas essas medidas são políticas voltadas para fortalecer a competitividade da indústria, não só a do alumínio. São vitais para assegurar a continuidade tanto de programas sociais como da robustez do parque industrial brasileiro. São ações imperativas para que possamos ser mais do que meros exportadores de minério. São medidas necessárias para a preservação de empregos de brasileiros. Não podemos esperar 2015 chegar.
Não houve a formulação consistente de políticas que permitissem a preservação da vitalidade da cadeia produtiva da indústria do alumínio
A Alcoa celebrará seu cinquentenário no Brasil em 2015. São hoje quase 6.500 alcoanos e alcoanas reconhecidos pela prática de segurança no trabalho, qualidade, engajamento, sustentabilidade, diversidade, inclusão e voluntariado.
Com a mesma disposição que tinha quando chegou ao Brasil, a Alcoa investiu quase US$ 5 bilhões no país na década passada, mesmo durante a crise iniciada em 2008. No entanto, em função do contexto global e nacional, tivemos que anunciar no ano passado o fechamento de um terço da nossa capacidade de produção de alumínio primário.
O mais surpreendente foi que o telefone não tocou nem sequer uma vez. Tínhamos certeza de que tocaria e do outro lado da linha viria a pergunta: "O que podemos fazer para evitar esse fechamento de capacidade?". Nada disso aconteceu.
Os fatos: além dos ajustes de produção anunciados pela Alcoa, duas das sete fábricas de alumínio primário no Brasil pertencentes a outras empresas já fecharam as portas; as importações cresceram 246% nos últimos dez anos e as maiores empresas do setor ocupam as principais posições dos rankings com os mais elevados prejuízos. Isso apesar de o país possuir a terceira maior reserva mundial de bauxita, um significativo potencial hídrico ainda inexplorado, um mercado interno demandante e uma produtividade de mão de obra comparável às melhores fábricas de alumínio do mundo.
Não houve intencionalidade alguma, tampouco a situação atual da indústria de alumínio no Brasil é consequência exclusiva de questões meramente nacionais. Esses dois fatos são indiscutíveis.
Mas também é indiscutível que não houve a formulação consistente de políticas que permitissem a preservação da vitalidade da cadeia produtiva, de empregos de brasileiros talentosos e da robustez da balança comercial.
Com o agravamento da crise mundial de 2009 a 2012, veio o declínio do preço do alumínio, reforçado pela valorização da moeda brasileira. Nesse contexto, três tiros, quase de misericórdia. Na energia, depois de anos de diálogo com o governo brasileiro, a medida provisória nº 579, transformada na lei nº 12.783, trouxe um alívio de apenas 6% na nossa conta de energia comparado com os 28% prometidos. Aparentemente, decidiu-se privilegiar a modicidade tarifária, e não a competitividade da indústria de base brasileira.
Concomitantemente, surge no Congresso o projeto do novo Código de Mineração, ainda não votado e louvável em múltiplos aspectos, mas que sinaliza um potencial de aumento dos custos da atividade de mineração. E, como uma pá de cal, por questões fundamentalmente de licenciamento ambiental sem a definição de critérios concretos há mais de uma década, o governo solicitou a devolução de duas concessões de hidrelétricas já licitadas.
Diz-se que 2014 está predestinado a ser um ano perdido. Afinal, teremos Carnaval, Copa do Mundo e eleições. Nada de concreto se faz, segundo a crença popular, num ano como este. Mas não precisa necessariamente ser assim. O que tem de ser feito já é conhecido: a contínua retirada de encargos e tributos, implementação de mecanismos para evitar o "dumping" de produtos importados a preços marginais, o fortalecimento do mercado livre de energia elétrica por meio de cotas para os eletrointensivos e incentivos para que autogeradores invistam na expansão da capacidade geradora e na transformação das reservas minerais brasileiras.
Todas essas medidas são políticas voltadas para fortalecer a competitividade da indústria, não só a do alumínio. São vitais para assegurar a continuidade tanto de programas sociais como da robustez do parque industrial brasileiro. São ações imperativas para que possamos ser mais do que meros exportadores de minério. São medidas necessárias para a preservação de empregos de brasileiros. Não podemos esperar 2015 chegar.
Mercados e tempestades - PAULO SILVA PINTO
CORREIO BRAZILIENSE - 07/02
Serão conhecidos hoje os números da pesquisa periódica mais completa sobre o mercado de trabalho norte-americano, que, de acordo com as expectativas lá e cá, não devem ser muito favoráveis. Em levantamento um pouco menos abrangente, divulgado na quarta-feira, a criação de vagas em dezembro ficou aquém do que era esperado.
Não foi grande surpresa, por uma questão momentânea: em função do frio extremamente intenso nos Estados Unidos, as pessoas têm deixado de sair às ruas para procurar emprego. Mas foi o suficiente para levar pessimismo às bolsas de valores do país e de vários emergentes, incluindo o Brasil.
Embora a expectativa com os resultados a serem publicados hoje já esteja no radar de muitos operadores - portanto, precificado, como se diz no jargão do mercado -, é de esperar certa intensificação do mau humor.
São tempos difíceis os nossos, desses em que faz todo sentido a frase "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Qualquer indício de frustração quanto à retomada da economia norte-americana faz a bolsa brasileira cair e as expectativas de nosso crescimento econômico se deteriorarem. Mas se a atividade se intensifica por lá, a cobrança vem de outro jeito. O dólar sobe em relação ao real, porque os Estados Unidos se tornam mais atraentes aos investidores, ainda mais ariscos neste ambiente de turbulências.
O perigo de divisa estrangeira mais cara no Brasil é inflação mais alta, contaminada pelo comércio exterior. E todo mundo passa a contar com o remédio mais fácil para combatê-la: uma carga maior de juros - expectativa que se transforma em realidade imediata nos mercados futuros.
Muitos analistas acham que há pouco a fazer além de esperar a tempestade passar. Mas ponderam que estaríamos menos sujeitos à intempérie se tivéssemos construído abrigo melhor, na forma de situação fiscal mais sólida. E como o mercado é alimentado por expectativas, não custa começar a trabalhar já, mesmo que haja pouca margem de manobra no momento.
Todo verão, quando as chuvas se intensificam, somos relembrados de que os deslizamentos e as enchentes poderiam ter sido evitados com o trabalho de prevenção nos meses de sol. Este verão está mostrando o quanto a mesma recomendação é útil para a economia.
Não foi grande surpresa, por uma questão momentânea: em função do frio extremamente intenso nos Estados Unidos, as pessoas têm deixado de sair às ruas para procurar emprego. Mas foi o suficiente para levar pessimismo às bolsas de valores do país e de vários emergentes, incluindo o Brasil.
Embora a expectativa com os resultados a serem publicados hoje já esteja no radar de muitos operadores - portanto, precificado, como se diz no jargão do mercado -, é de esperar certa intensificação do mau humor.
São tempos difíceis os nossos, desses em que faz todo sentido a frase "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Qualquer indício de frustração quanto à retomada da economia norte-americana faz a bolsa brasileira cair e as expectativas de nosso crescimento econômico se deteriorarem. Mas se a atividade se intensifica por lá, a cobrança vem de outro jeito. O dólar sobe em relação ao real, porque os Estados Unidos se tornam mais atraentes aos investidores, ainda mais ariscos neste ambiente de turbulências.
O perigo de divisa estrangeira mais cara no Brasil é inflação mais alta, contaminada pelo comércio exterior. E todo mundo passa a contar com o remédio mais fácil para combatê-la: uma carga maior de juros - expectativa que se transforma em realidade imediata nos mercados futuros.
Muitos analistas acham que há pouco a fazer além de esperar a tempestade passar. Mas ponderam que estaríamos menos sujeitos à intempérie se tivéssemos construído abrigo melhor, na forma de situação fiscal mais sólida. E como o mercado é alimentado por expectativas, não custa começar a trabalhar já, mesmo que haja pouca margem de manobra no momento.
Todo verão, quando as chuvas se intensificam, somos relembrados de que os deslizamentos e as enchentes poderiam ter sido evitados com o trabalho de prevenção nos meses de sol. Este verão está mostrando o quanto a mesma recomendação é útil para a economia.
Os debochados de Banânia - REINALDO AZEVEDO
FOLHA DE SP - 07/02
Vamos nos condenando a ser o que já somos, porém um pouco piores a cada dia porque outros melhoram
Países não acabam, não encerram as atividades. Existirão sempre, de um jeito ou de outro, pouco importam as condições em que operem. Está em curso no Brasil uma lenta, porém contínua, degradação institucional. Sei bem como são as coisas. Nessas horas, os profissionais do "progressismo" costumam acusar de "apocalípticos" seus adversários "conservadores", a "direita alarmista". Bem, este escriba não acha que o país caminhe para o desastre. Nunca achou. Até o Sudão do Sul e o Haiti existem quando se é um empirista empedernido. Por que não existiria o Brasil? Não vislumbro a derrota final, mas a continuidade da mediocridade aviltante.
"Na ditadura era melhor?" Não, mas a pergunta é cretina. A democracia tem de ser avaliada segundo seus próprios valores. Há 20 anos --ou cinco...--, um vice-presidente da Câmara dos Deputados não receberia, a exemplo do que fez o sr. André Vargas (PT-PR), o presidente do Supremo com o punho cerrado, num ato de suposta resistência à decisão da corte suprema do país, que condenou larápios.
Ainda que, vá lá, os petistas queiram, como eles dizem, "politizar a questão" e disputar a opinião pública, há canais e instrumentos mais adequados, nunca uma solenidade oficial do Congresso, na abertura do ano legislativo. Ao receber o ministro Joaquim Barbosa com aqueles modos, Vargas mandou às favas seu papel institucional e se comportou como um chefete de facção, um arruaceiro, um "black bloc" do Parlamento. Tornou-se um depredador da ordem democrática.
Igualmente estupefaciente é a decisão do PT --e é ação partidária, sim-- de arrecadar fundos na internet para pagar as multas impostas pelo STF aos mensaleiros. Ao fazê-lo, note-se, marca um reencontro com aquela turma que se negou a homologar a Constituição de 1988, há longos 26 anos. Tratou-se, é sabido, de um gesto simbólico, a deixar claro, no entanto, que o partido não se colocava como um dos procuradores da ordem democrática. Evidenciava-se, e se reitera hoje, que o petismo não se sentia representado por aquele arcabouço legal e institucional nem se comprometia com a defesa dos seus valores.
A cerimônia em que Alexandre Padilha transferiu o comando do Ministério da Saúde para Arthur Chioro foi um emblema da degradação republicana. A solenidade foi transformada numa peça cínica de antecipação da disputa eleitoral, com generalizações e omissões grosseiras sobre os próprios feitos e os alheios. Os discursos estavam eivados de provocações baratas e mesquinharias que nada tinham a ver com o interesse público.
O Brasil vai acabar por isso? Não. O Sudão do Sul não acaba. O Haiti não acaba. Mas vamos nos condenando a ser o que já somos, porém um pouco piores a cada dia porque outros melhoram. Vejam o que aconteceu, por exemplo, com a Coreia do Sul em 26 anos. No Brasil, o futuro demora tempo demais para chegar. Mercadistas sem imaginação e oportunistas travestidos de esquerdistas pragmáticos acham isso tudo bobagem. Os banqueiros e a CUT fingem acreditar que existe lugar entre os bons para um país com moldura institucional estropiada.
Musil, em "O Homem Sem Qualidades", define assim o advento de uma nova era em Kakânia, um país imaginário: "Algo imponderável. Um presságio. (...) Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar. ("¦) Ideias que antes possuíam um magro valor engordavam. Pessoas antigamente ignoradas tornavam-se famosas. O grosseiro se suaviza. ("¦) Havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados ("¦)".
Servia para Kakânia. Serve para Banânia. No país imaginário de Musil, gênios até podiam ser tomados como patifes, mas patifes jamais eram tomados como gênios. Já aqui...
Vamos nos condenando a ser o que já somos, porém um pouco piores a cada dia porque outros melhoram
Países não acabam, não encerram as atividades. Existirão sempre, de um jeito ou de outro, pouco importam as condições em que operem. Está em curso no Brasil uma lenta, porém contínua, degradação institucional. Sei bem como são as coisas. Nessas horas, os profissionais do "progressismo" costumam acusar de "apocalípticos" seus adversários "conservadores", a "direita alarmista". Bem, este escriba não acha que o país caminhe para o desastre. Nunca achou. Até o Sudão do Sul e o Haiti existem quando se é um empirista empedernido. Por que não existiria o Brasil? Não vislumbro a derrota final, mas a continuidade da mediocridade aviltante.
"Na ditadura era melhor?" Não, mas a pergunta é cretina. A democracia tem de ser avaliada segundo seus próprios valores. Há 20 anos --ou cinco...--, um vice-presidente da Câmara dos Deputados não receberia, a exemplo do que fez o sr. André Vargas (PT-PR), o presidente do Supremo com o punho cerrado, num ato de suposta resistência à decisão da corte suprema do país, que condenou larápios.
Ainda que, vá lá, os petistas queiram, como eles dizem, "politizar a questão" e disputar a opinião pública, há canais e instrumentos mais adequados, nunca uma solenidade oficial do Congresso, na abertura do ano legislativo. Ao receber o ministro Joaquim Barbosa com aqueles modos, Vargas mandou às favas seu papel institucional e se comportou como um chefete de facção, um arruaceiro, um "black bloc" do Parlamento. Tornou-se um depredador da ordem democrática.
Igualmente estupefaciente é a decisão do PT --e é ação partidária, sim-- de arrecadar fundos na internet para pagar as multas impostas pelo STF aos mensaleiros. Ao fazê-lo, note-se, marca um reencontro com aquela turma que se negou a homologar a Constituição de 1988, há longos 26 anos. Tratou-se, é sabido, de um gesto simbólico, a deixar claro, no entanto, que o partido não se colocava como um dos procuradores da ordem democrática. Evidenciava-se, e se reitera hoje, que o petismo não se sentia representado por aquele arcabouço legal e institucional nem se comprometia com a defesa dos seus valores.
A cerimônia em que Alexandre Padilha transferiu o comando do Ministério da Saúde para Arthur Chioro foi um emblema da degradação republicana. A solenidade foi transformada numa peça cínica de antecipação da disputa eleitoral, com generalizações e omissões grosseiras sobre os próprios feitos e os alheios. Os discursos estavam eivados de provocações baratas e mesquinharias que nada tinham a ver com o interesse público.
O Brasil vai acabar por isso? Não. O Sudão do Sul não acaba. O Haiti não acaba. Mas vamos nos condenando a ser o que já somos, porém um pouco piores a cada dia porque outros melhoram. Vejam o que aconteceu, por exemplo, com a Coreia do Sul em 26 anos. No Brasil, o futuro demora tempo demais para chegar. Mercadistas sem imaginação e oportunistas travestidos de esquerdistas pragmáticos acham isso tudo bobagem. Os banqueiros e a CUT fingem acreditar que existe lugar entre os bons para um país com moldura institucional estropiada.
Musil, em "O Homem Sem Qualidades", define assim o advento de uma nova era em Kakânia, um país imaginário: "Algo imponderável. Um presságio. (...) Como quando fios de novelos se desmancham. Quando um cortejo se dispersa. Quando uma orquestra começa a desafinar. ("¦) Ideias que antes possuíam um magro valor engordavam. Pessoas antigamente ignoradas tornavam-se famosas. O grosseiro se suaviza. ("¦) Havia apenas um pouco de ruindade demais misturada ao que era bom, engano demais na verdade, flexibilidade demais nos significados ("¦)".
Servia para Kakânia. Serve para Banânia. No país imaginário de Musil, gênios até podiam ser tomados como patifes, mas patifes jamais eram tomados como gênios. Já aqui...
O preço do desleixo - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 07/02
Conforme demonstram os repetidos apagões no fornecimento de energia elétrica, não há publicidade nem garantias lastreadas em palavrório que possam fazer frente às agruras da realidade, essa rebelde renitente.
Assim ocorre com todas as questões que são tratadas apenas sob a perspectiva do ganho eleitoral. No governo se diz agora que há preocupação com o prejuízo dos apagões à reeleição de Dilma Rousseff, quando antes não se cuidou com o mesmo zelo de medidas de longo prazo para assegurar o abastecimento de energia à população.
Um jornal do Chile está preparando uma reportagem sobre as implicações das falhas no setor de energia para o governo Dilma. A jornalista envia por e-mail algumas perguntas que incluem os atrasos nas obras para a Copa do Mundo, os protestos. Ela manifesta curiosidade específica sobre dois pontos.
Um de caráter geral: "Há má gestão das crises e mau planejamento dos megaeventos em que o Brasil se envolveu?". Outro de cunho eleitoral: "A presidente poderá sair sem danos dessa situação?".
A resposta à primeira indagação está no enunciado da pergunta. Inexiste gestão e planejamento. O bem-estar da população, as medidas de longo prazo para assegurar o "risco zero" de apagões foram deixados de lado em nome da soberba, do incentivo irresponsável ao consumo e da demagogia nas tarifas.
A segunda é uma incógnita. Por ora, o que se pode dizer é que há potencial danoso para a presidente, pois a persistirem os transtornos na vida cotidiana do brasileiro é provável o reflexo no humor do eleitorado.
O governo não se sai dessa alegando que não se pode politizar o assunto. O PT foi o primeiro a fazer pesado uso político dos apagões do governo Fernando Henrique Cardoso, muito embora na ocasião tenha havido uma atitude diferente: o governo admitiu a situação, atuou, chamou a sociedade a economizar e evitou o racionamento.
Em 2010 Dilma, ex-ministra das Minas e Energia, foi apresentada e celebrada como a solução para todos os problemas de gestão, notadamente no setor energético. O resultado está aí: doze anos depois daquela campanha de 2002 o problema volta a assombrar. Desta vez rondando o PT nas urnas.
Mas isso não é o mais grave. O preço eleitoral que o partido terá (ou não) de pagar é um pormenor perto do prejuízo que a imprevidência governamental causa ao País e à vida das pessoas.
Mal comparado. Um caso remete ao outro, mas não há termos de comparação entre os pedidos de extradição de Cesare Battisti e de Henrique Pizzolato.
Battisti foi condenado na Itália por assassinato. Fugiu para o Brasil e teve pedida sua extradição, concedida pelo Supremo Tribunal Federal. O governo brasileiro, em decisão monocrática do então presidente Lula da Silva, negou e pôs em dúvida a legitimidade da sentença da Justiça italiana. Recorreu ao mesmo argumento dos mensaleiros de agora: o julgamento teria sido produto de perseguição política, um rito de exceção.
Dedução bastante questionável, para dizer o mínimo, tendo em vista a vigência plena da democracia na Itália. Assim como aqui o processo do mensalão foi examinado em ambiente de normalidade institucional.
Já a recusa praticamente certa do governo italiano a extraditar Pizzolato tem lastro na Constituição que permite a imunidade para cidadãos natos.
Obedeceria a esse critério, pois o condenado tem dupla cidadania. Além disso, não entraria em choque com decisão da mais alta instância judicial do País nem teria o viés ideológico do ato que beneficiou Battisti.
Conforme demonstram os repetidos apagões no fornecimento de energia elétrica, não há publicidade nem garantias lastreadas em palavrório que possam fazer frente às agruras da realidade, essa rebelde renitente.
Assim ocorre com todas as questões que são tratadas apenas sob a perspectiva do ganho eleitoral. No governo se diz agora que há preocupação com o prejuízo dos apagões à reeleição de Dilma Rousseff, quando antes não se cuidou com o mesmo zelo de medidas de longo prazo para assegurar o abastecimento de energia à população.
Um jornal do Chile está preparando uma reportagem sobre as implicações das falhas no setor de energia para o governo Dilma. A jornalista envia por e-mail algumas perguntas que incluem os atrasos nas obras para a Copa do Mundo, os protestos. Ela manifesta curiosidade específica sobre dois pontos.
Um de caráter geral: "Há má gestão das crises e mau planejamento dos megaeventos em que o Brasil se envolveu?". Outro de cunho eleitoral: "A presidente poderá sair sem danos dessa situação?".
A resposta à primeira indagação está no enunciado da pergunta. Inexiste gestão e planejamento. O bem-estar da população, as medidas de longo prazo para assegurar o "risco zero" de apagões foram deixados de lado em nome da soberba, do incentivo irresponsável ao consumo e da demagogia nas tarifas.
A segunda é uma incógnita. Por ora, o que se pode dizer é que há potencial danoso para a presidente, pois a persistirem os transtornos na vida cotidiana do brasileiro é provável o reflexo no humor do eleitorado.
O governo não se sai dessa alegando que não se pode politizar o assunto. O PT foi o primeiro a fazer pesado uso político dos apagões do governo Fernando Henrique Cardoso, muito embora na ocasião tenha havido uma atitude diferente: o governo admitiu a situação, atuou, chamou a sociedade a economizar e evitou o racionamento.
Em 2010 Dilma, ex-ministra das Minas e Energia, foi apresentada e celebrada como a solução para todos os problemas de gestão, notadamente no setor energético. O resultado está aí: doze anos depois daquela campanha de 2002 o problema volta a assombrar. Desta vez rondando o PT nas urnas.
Mas isso não é o mais grave. O preço eleitoral que o partido terá (ou não) de pagar é um pormenor perto do prejuízo que a imprevidência governamental causa ao País e à vida das pessoas.
Mal comparado. Um caso remete ao outro, mas não há termos de comparação entre os pedidos de extradição de Cesare Battisti e de Henrique Pizzolato.
Battisti foi condenado na Itália por assassinato. Fugiu para o Brasil e teve pedida sua extradição, concedida pelo Supremo Tribunal Federal. O governo brasileiro, em decisão monocrática do então presidente Lula da Silva, negou e pôs em dúvida a legitimidade da sentença da Justiça italiana. Recorreu ao mesmo argumento dos mensaleiros de agora: o julgamento teria sido produto de perseguição política, um rito de exceção.
Dedução bastante questionável, para dizer o mínimo, tendo em vista a vigência plena da democracia na Itália. Assim como aqui o processo do mensalão foi examinado em ambiente de normalidade institucional.
Já a recusa praticamente certa do governo italiano a extraditar Pizzolato tem lastro na Constituição que permite a imunidade para cidadãos natos.
Obedeceria a esse critério, pois o condenado tem dupla cidadania. Além disso, não entraria em choque com decisão da mais alta instância judicial do País nem teria o viés ideológico do ato que beneficiou Battisti.
Coisas que não combinam - LOURDES MARIA FRAZÃO DE MORAES
CORREIO BRAZILIENSE - 07/02
Acompanho os noticiários na tevê, com comentaristas anunciando crimes bárbaros em família ou fora dela, latrocínios, sequestros relâmpagos e toda sorte de atentado à vida e à segurança da população. Ouço as últimas notícias do dia trazidas pela minha doméstica, sobre o atendimento perverso recebido pelo povo carente (quando é atendido) nos postos de saúde e hospitais. E fico pensando aqui com meus botões: parece que o apocalipse chegou; pelo menos para nós, brasileiros.
Nunca se matou tanto, nunca se roubou tanto, nunca se cometeu tanta violência, nunca a insensibilidade foi tão grande. Mas, pensando melhor, será que o nosso apocalipse não foi fomentado aqui mesmo, numa mistura explosiva de injustiça, corrupção generalizada, descrença na política e em seus agentes, desesperança total, somados à opção de muitos pela malandragem e o querer se dar bem com pouco ou nenhum esforço?
Vejo no noticiário a evolução do tal rolezinho e o espaço dado pela mídia a esse movimento de menores desocupados, agregados a delinquentes contumazes, chegando a elevar os atentados desses bandos à segurança pública e privada, pasmem, ao nível de movimento social. Me economizem, como diria uma amiga carioca. Essa mesma tropa vem queimando, sistematicamente, os meios de transportes que os servem e a toda a população trabalhadora. Destroem o comércio que lhes oferece emprego.
A quem querem atingir, afinal? Não sabem. Qualquer desculpa é válida. Até o atropelamento de uma galinha passa a ser motivo para se interditar vias públicas e pôr fogo em ônibus. Não têm ideologia. Destroem apenas, com o mesmo raciocínio de uma manada de búfalos estourando sem rumo, movida pelo instinto de pisotear, destruir o que acham pela frente.
Deputados e senadores, responsáveis por leis equivocadas, obsoletas, casuísticas, que funcionam como combustível para tanta revolta, não andam de ônibus, de trem nem de metrô. Andam em veículos blindados de altíssimo custo, com seguranças a postos. Deslocam-se para outros cantos e para fora do país em aviões da Força Aérea Brasileira ou em voos de primeira classe em aviões de carreira pagos pelos impostos tirados de nosso bolso, para não sofrerem o desgosto de enfrentar nossos aeroportos lotados e a cara desesperada do povo que os elegeu.
Mas o que pode ainda ser feito? Pode ser feito o que deveria ter sido feito desde a elaboração da Constituição Federal. Elevar a saúde, a educação e a segurança à condição de prioridade nacional em todos os níveis de governo. Essa trilogia funcionando em perfeita harmonia nos elevaria do plano da barbárie em que nos encontramos ao estado do homo sapiens, pelo menos, e já seria um ganho expressivo.
Vejam o SUS, por exemplo. Jamais deveria ter sido criado, posto não possuirmos confiabilidade em qualquer nível político, seja no federal, seja no estadual, seja no municipal, para administrar recursos econômicos vultosos com credibilidade. Os meios de fiscalização de que dispõe o SUS são os colegiados formados por pessoas da confiança do prefeito. Colocam a raposa para cuidar dos carneirinhos. No estado é a mesma coisa, com um pouco menos de descaramento. Nesse caso, são os aliados políticos que formam o tal colegiado.
Na segurança pública, o pior embaraço são as leis penais que favorecem o criminoso ou infrator, e as péssimas condições de trabalho a que são submetidos seus agentes. Fizemos um código do menor sem qualquer condição de cumpri-lo da forma como foi idealizado e escrito. Assim como foi feito o planejamento para a saúde como coisa de primeiro mundo, para o primeiro mundo. Não poderia dar certo. Os presídios estão superlotados, porque construir cadeias não dá ibope. É como construir muro de cemitério e infraestrutura sanitária. Não dá mídia. Ninguém vê.
Volto à questão dos políticos que andam em avião da FAB e carro de última geração, blindado, de preferência. Qual a formação que se exige de um político desses, suficiente a que proponha leis realmente de interesse social? Qual deles sabe para que serve a Constituição? Quantos sabem ler e escrever com acerto? O que sabem do Brasil do ponto de vista socioeconômico? Acercam-se de assessores para formularem propostas de leis e com isso formarem currículo eleitoral. É o que a eles importa.
Tais propostas esbarram na Comissão de Constituição e Justiça por total ou parcial inconstitucionalidade ou por repetirem proposições já formuladas e indeferidas. O resto do tempo é para passear em outros países e gargantear para as próximas eleições. Faço justiça aos políticos verdadeiros que, infelizmente, estão em fase de extinção, mas ainda existem para garantir alguma decência no processo legislativo.
E o que a população faz, diante de tais despautérios? Pratica a autofagia. Destroe-se, destruindo os meios que a servem, ou elege figuras caricatas para o Congresso Nacional, como protesto. Quem é atingido com tal insensatez? Quem seriam as vítimas desse "protesto"? Pois é, adivinhou.
Era questão de tempo - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 07/02
BRASÍLIA - Reproduzo o que foi publicado aqui em 25 de agosto passado: "Ninguém pode ser contra um programa que leva médicos, mesmo estrangeiros, até populações que não têm médicos. Mas o meio jurídico está em polvorosa com a vinda de 4.000 [hoje já são mais de 7.000] cubanos em condições esquisitas e sujeitas a uma enxurrada de processos na Justiça".
Não deu outra. É óbvio que a médica Ramona Rodriguez está se usando e sendo usada politicamente: foi acolhida pelo oposicionista DEM e está sendo contratada por associação radicalmente contrária ao Mais Médicos. Mas ainda não é óbvio é se ela é um caso isolado ou se vai gerar uma enxurrada de processos na Justiça.
Elementos para isso não faltam, como juristas ilustres já alertavam desde o início. Como um médico cubano pode embolsar dez vezes menos que colegas venezuelanos, colombianos ou portugueses, ali nos municípios vizinhos, pelo mesmo trabalho, as mesmas horas e o mesmo contratante? Se não for ilegal, é no mínimo imoral.
Além de aguardar as respostas do Conare (órgão do Ministério da Justiça que analisa refúgios) e da embaixada americana (onde pediu visto), Ramona anunciou que pretende entrar com uma ação na Justiça exatamente por danos morais e pedindo ressarcimento da diferença de valores entre o que ela ganhava e o que os colegas de outros países ganham. E se a moda pega?
Há milhares de cubanos no Brasil com olhos, ouvidos e corações ligados nessa aventura, por ora solitária, de Ramona. Se ela tiver êxito --e as condições são favoráveis--, poderá servir de exemplo e criar uma legião de desertores do Mais Médicos. Uma tragédia política para o governo.
Esse movimento, porém, não é nada fácil. Diferentemente dos colegas de outros países, os cubanos não puderam trazer suas famílias, que ficaram na ilha, à mercê do regime. Sabe-se lá a que tipo de punições e constrangimentos estão sujeitos.
BRASÍLIA - Reproduzo o que foi publicado aqui em 25 de agosto passado: "Ninguém pode ser contra um programa que leva médicos, mesmo estrangeiros, até populações que não têm médicos. Mas o meio jurídico está em polvorosa com a vinda de 4.000 [hoje já são mais de 7.000] cubanos em condições esquisitas e sujeitas a uma enxurrada de processos na Justiça".
Não deu outra. É óbvio que a médica Ramona Rodriguez está se usando e sendo usada politicamente: foi acolhida pelo oposicionista DEM e está sendo contratada por associação radicalmente contrária ao Mais Médicos. Mas ainda não é óbvio é se ela é um caso isolado ou se vai gerar uma enxurrada de processos na Justiça.
Elementos para isso não faltam, como juristas ilustres já alertavam desde o início. Como um médico cubano pode embolsar dez vezes menos que colegas venezuelanos, colombianos ou portugueses, ali nos municípios vizinhos, pelo mesmo trabalho, as mesmas horas e o mesmo contratante? Se não for ilegal, é no mínimo imoral.
Além de aguardar as respostas do Conare (órgão do Ministério da Justiça que analisa refúgios) e da embaixada americana (onde pediu visto), Ramona anunciou que pretende entrar com uma ação na Justiça exatamente por danos morais e pedindo ressarcimento da diferença de valores entre o que ela ganhava e o que os colegas de outros países ganham. E se a moda pega?
Há milhares de cubanos no Brasil com olhos, ouvidos e corações ligados nessa aventura, por ora solitária, de Ramona. Se ela tiver êxito --e as condições são favoráveis--, poderá servir de exemplo e criar uma legião de desertores do Mais Médicos. Uma tragédia política para o governo.
Esse movimento, porém, não é nada fácil. Diferentemente dos colegas de outros países, os cubanos não puderam trazer suas famílias, que ficaram na ilha, à mercê do regime. Sabe-se lá a que tipo de punições e constrangimentos estão sujeitos.
Mais Médicos na berlinda - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 07/02
O caso da médica cubana Ramona Rodríguez, que abandonou o programa Mais Médicos e está abrigada provisoriamente no gabinete do deputado do DEM Ronaldo Caiado em Brasília, traz de volta ao debate público questões básicas da democracia relacionadas com a contratação dos médicos cubanos para o programa.
Não está em jogo a capacitação desses médicos criticada por setores médicos brasileiros - ou se o programa governista significa a solução para os problemas da Saúde Pública brasileira, como a propaganda oficial quer fazer crer. Essas questões merecem ser discutidas, mas, diante dos problemas éticos e de direitos humanos que surgiram com o sistema de contratação dos cubanos, devem ficar em segundo plano, enquanto o Ministério Público do Trabalho intervém para garantir os mínimos direitos a esses estrangeiros - que aqui estão ainda sob a vigilância da ditadura cubana, o que é inadmissível numa democracia.
Assim é que os médicos cubanos não podem sair de férias, a não ser que vão para Cuba, não podem manter contato com estrangeiros sem comunicar ao governo cubano, não podem desistir do programa e continuar por aqui. E, se depender do parecer do advogado-geral da União, Luís Adams, não podem nem mesmo pedir asilo ao Brasil.
Essa atitude brasileira já produziu fatos vergonhosos, não condizentes com o Estado democrático, como a entrega ao governo cubano dos pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que haviam fugido da concentração durante os Jogos Pan-Americanos no Rio, em 2007, e queriam ficar no Brasil asilados.
Meses depois, desmentindo o governo brasileiro, que dissera que os cubanos pediram para voltar ao seu país, Erislandy Lara, bicampeão mundial amador da categoria até 69 quilos, chegou a Hamburgo, na Alemanha, depois de ter fugido em uma lancha de Cuba para o México.
Em 2009, Rigondeaux acabou fugindo para Miami, nos Estados Unidos.
Como já escrevi aqui, o caso dos médicos cubanos tem a mesma raiz ideológica. Cuba ganha mais com a exportação de médicos do que com o turismo, isso porque o dinheiro do pagamento individual é feito diretamente ao governo cubano, que repassa uma quantia ínfima aos médicos.
O governo brasileiro não apenas aceita essa mercantilização de pessoas como dá apoios suplementares: enquanto as famílias de médicos de outras nacionalidades podem vir para o Brasil, o governo brasileiro aceita que o governo cubano mantenha os parentes dos médicos enviados ao Brasil como reféns na ilha dos Castro.
O contrato dos médicos cubanos, sabe-se agora, é intermediado por uma tal de "Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Cubanos", o que deveria ser investigado, pois não se sabe para onde vai o dinheiro arrecadado.
Há desconfiança na oposição de que parte desse dinheiro volta para os cofres petistas, o que seria uma maneira de financiar um caixa dois para as eleições.
O Ministério Público do Trabalho, que não tivera até o momento acesso aos contratos firmados pelo governo brasileiro e a tal "Sociedade Mercantil", o que é espantoso, a partir do depoimento da médica cubana decidiu cobrar do governo que mude a relação de trabalho com os médicos cubanos, obrigando a que seja igual à de outros médicos estrangeiros, que ficam integralmente com os R$ 10 mil pagos pelo governo brasileiro.
Não é de espantar que a deserção de médicos cubanos não seja maior, pois há uma série de constrangimentos legais e pessoais que tornam difícil uma atitude mais radical. O que importa é que o governo brasileiro está usando mão de obra explorada por uma ditadura para fingir que está resolvendo o problema de falta de médicos, enquanto nada está sendo feito para resolver o problema de maneira definitiva.
Não está em jogo a capacitação desses médicos criticada por setores médicos brasileiros - ou se o programa governista significa a solução para os problemas da Saúde Pública brasileira, como a propaganda oficial quer fazer crer. Essas questões merecem ser discutidas, mas, diante dos problemas éticos e de direitos humanos que surgiram com o sistema de contratação dos cubanos, devem ficar em segundo plano, enquanto o Ministério Público do Trabalho intervém para garantir os mínimos direitos a esses estrangeiros - que aqui estão ainda sob a vigilância da ditadura cubana, o que é inadmissível numa democracia.
Assim é que os médicos cubanos não podem sair de férias, a não ser que vão para Cuba, não podem manter contato com estrangeiros sem comunicar ao governo cubano, não podem desistir do programa e continuar por aqui. E, se depender do parecer do advogado-geral da União, Luís Adams, não podem nem mesmo pedir asilo ao Brasil.
Essa atitude brasileira já produziu fatos vergonhosos, não condizentes com o Estado democrático, como a entrega ao governo cubano dos pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que haviam fugido da concentração durante os Jogos Pan-Americanos no Rio, em 2007, e queriam ficar no Brasil asilados.
Meses depois, desmentindo o governo brasileiro, que dissera que os cubanos pediram para voltar ao seu país, Erislandy Lara, bicampeão mundial amador da categoria até 69 quilos, chegou a Hamburgo, na Alemanha, depois de ter fugido em uma lancha de Cuba para o México.
Em 2009, Rigondeaux acabou fugindo para Miami, nos Estados Unidos.
Como já escrevi aqui, o caso dos médicos cubanos tem a mesma raiz ideológica. Cuba ganha mais com a exportação de médicos do que com o turismo, isso porque o dinheiro do pagamento individual é feito diretamente ao governo cubano, que repassa uma quantia ínfima aos médicos.
O governo brasileiro não apenas aceita essa mercantilização de pessoas como dá apoios suplementares: enquanto as famílias de médicos de outras nacionalidades podem vir para o Brasil, o governo brasileiro aceita que o governo cubano mantenha os parentes dos médicos enviados ao Brasil como reféns na ilha dos Castro.
O contrato dos médicos cubanos, sabe-se agora, é intermediado por uma tal de "Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Cubanos", o que deveria ser investigado, pois não se sabe para onde vai o dinheiro arrecadado.
Há desconfiança na oposição de que parte desse dinheiro volta para os cofres petistas, o que seria uma maneira de financiar um caixa dois para as eleições.
O Ministério Público do Trabalho, que não tivera até o momento acesso aos contratos firmados pelo governo brasileiro e a tal "Sociedade Mercantil", o que é espantoso, a partir do depoimento da médica cubana decidiu cobrar do governo que mude a relação de trabalho com os médicos cubanos, obrigando a que seja igual à de outros médicos estrangeiros, que ficam integralmente com os R$ 10 mil pagos pelo governo brasileiro.
Não é de espantar que a deserção de médicos cubanos não seja maior, pois há uma série de constrangimentos legais e pessoais que tornam difícil uma atitude mais radical. O que importa é que o governo brasileiro está usando mão de obra explorada por uma ditadura para fingir que está resolvendo o problema de falta de médicos, enquanto nada está sendo feito para resolver o problema de maneira definitiva.
Modelo elétrico danoso - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 07/02
Relatórios do governo sobre o setor elétrico, assim como suas tentativas de justificar apagões como o de terça-feira passada, podem transmitir ao público a falsa sensação de que o sistema nacional de energia elétrica vai bem e continua a se expandir. No caso da rede de transmissão, por exemplo, a expansão tem sido contínua, com aumento de quase 28% entre 2007 e 2013, embora a maioria dos projetos esteja atrasada. O que os frequentes apagões demonstram, porém, é que a expansão da rede, embora necessária, não é suficiente para dar segurança ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
O programa de expansão da capacidade do setor elétrico adotado pelo governo do PT, baseado na construção de grandes unidades geradoras em locais cada vez mais distantes dos principais centros de consumo, tornou essencial o papel da rede de transmissão na preservação da capacidade operacional de todo o sistema. E a rede tem crescido. Apesar de levantamentos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apontarem que 227 de 448 obras de construção, ampliação e requalificação de linhas e subestações estão atrasadas, números do Ministério de Minas e Energia indicam que a malha vem se expandindo com rapidez. De 2007 a 2013, a rede passou de 91,3 mil quilômetros para 116,8 mil quilômetros, e a previsão é de que, até 2016, entrem em operação mais 26,7 mil quilômetros de linhas.
No entanto, para que a rede de transmissão desempenhe com eficácia e confiabilidade seu papel, não basta apenas expandi-la. É preciso investir também na manutenção e na segurança do sistema já existente, para reduzir os riscos de acidentes que provoquem a interrupção do abastecimento. Mas a imposição, pelo governo, de um novo modelo para o setor vem inibindo os investimentos em manutenção e modernização da rede. O resultado é a perda de eficiência e o aumento do risco de pane do sistema.
O modelo de renovação das concessões nas áreas de geração e transmissão de energia elétrica imposto às empresas do setor pelo governo em 2012, por meio da Medida Provisória 579, paralisou os investimentos das antigas concessionárias. Segundo as empresas, a proposta de renovação das concessões implicava na prática a transferência de todos os seus ativos para a União, e elas passariam a ser remuneradas pela operação e manutenção da rede, não mais pelos ativos, o que desestimulou novos investimentos.
As empresas que não renovaram as concessões, de sua parte, ficaram sem garantias de que os novos investimentos serão contabilizados pela Aneel. Se o investimento não resultar em aumento da capacidade do sistema, a Aneel não o reconhecerá como tal, razão pela qual a empresa ficará sem a remuneração correspondente. Obviamente, nenhum empreendedor investirá se não tiver a expectativa de que seu investimento será remunerado. Assim, obras já previstas atrasaram, outras foram suspensas.
Mesmo no caso de investimentos em expansão da malha, há informações de projetos que ficaram no papel. "Todo mundo está fazendo o básico, não há qualquer estímulo para aprimorar a infraestrutura", disse ao jornal Valor (6/2) o diretor executivo da Associação Brasileira das Grandes Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), Cesar de Barros.
Além das falhas do novo modelo imposto ao setor pelo governo Dilma - que, para evitar o aumento das tarifas em ano eleitoral, terá de transferir até R$ 18 bilhões do Tesouro para empresas geradoras, distribuidoras e transmissoras de energia elétrica -, a execução do programa de ampliação do sistema tem enfrentado problemas variados. Entre eles estão as dificuldades para o cumprimento do cronograma das obras por diferentes motivos e a falta de sincronia entre as obras de geração e as de transmissão.
Na prática, por causa dos atrasos, a transmissão está sempre atrás da geração. Cada nova unidade geradora que entra em operação sem a necessária ampliação da malha de transmissão, ou seu reforço para absorver volumes maiores de energia, implica mais carga sobre a rede, o que aumenta a possibilidade de ocorrência de falha.
Relatórios do governo sobre o setor elétrico, assim como suas tentativas de justificar apagões como o de terça-feira passada, podem transmitir ao público a falsa sensação de que o sistema nacional de energia elétrica vai bem e continua a se expandir. No caso da rede de transmissão, por exemplo, a expansão tem sido contínua, com aumento de quase 28% entre 2007 e 2013, embora a maioria dos projetos esteja atrasada. O que os frequentes apagões demonstram, porém, é que a expansão da rede, embora necessária, não é suficiente para dar segurança ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
O programa de expansão da capacidade do setor elétrico adotado pelo governo do PT, baseado na construção de grandes unidades geradoras em locais cada vez mais distantes dos principais centros de consumo, tornou essencial o papel da rede de transmissão na preservação da capacidade operacional de todo o sistema. E a rede tem crescido. Apesar de levantamentos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apontarem que 227 de 448 obras de construção, ampliação e requalificação de linhas e subestações estão atrasadas, números do Ministério de Minas e Energia indicam que a malha vem se expandindo com rapidez. De 2007 a 2013, a rede passou de 91,3 mil quilômetros para 116,8 mil quilômetros, e a previsão é de que, até 2016, entrem em operação mais 26,7 mil quilômetros de linhas.
No entanto, para que a rede de transmissão desempenhe com eficácia e confiabilidade seu papel, não basta apenas expandi-la. É preciso investir também na manutenção e na segurança do sistema já existente, para reduzir os riscos de acidentes que provoquem a interrupção do abastecimento. Mas a imposição, pelo governo, de um novo modelo para o setor vem inibindo os investimentos em manutenção e modernização da rede. O resultado é a perda de eficiência e o aumento do risco de pane do sistema.
O modelo de renovação das concessões nas áreas de geração e transmissão de energia elétrica imposto às empresas do setor pelo governo em 2012, por meio da Medida Provisória 579, paralisou os investimentos das antigas concessionárias. Segundo as empresas, a proposta de renovação das concessões implicava na prática a transferência de todos os seus ativos para a União, e elas passariam a ser remuneradas pela operação e manutenção da rede, não mais pelos ativos, o que desestimulou novos investimentos.
As empresas que não renovaram as concessões, de sua parte, ficaram sem garantias de que os novos investimentos serão contabilizados pela Aneel. Se o investimento não resultar em aumento da capacidade do sistema, a Aneel não o reconhecerá como tal, razão pela qual a empresa ficará sem a remuneração correspondente. Obviamente, nenhum empreendedor investirá se não tiver a expectativa de que seu investimento será remunerado. Assim, obras já previstas atrasaram, outras foram suspensas.
Mesmo no caso de investimentos em expansão da malha, há informações de projetos que ficaram no papel. "Todo mundo está fazendo o básico, não há qualquer estímulo para aprimorar a infraestrutura", disse ao jornal Valor (6/2) o diretor executivo da Associação Brasileira das Grandes Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), Cesar de Barros.
Além das falhas do novo modelo imposto ao setor pelo governo Dilma - que, para evitar o aumento das tarifas em ano eleitoral, terá de transferir até R$ 18 bilhões do Tesouro para empresas geradoras, distribuidoras e transmissoras de energia elétrica -, a execução do programa de ampliação do sistema tem enfrentado problemas variados. Entre eles estão as dificuldades para o cumprimento do cronograma das obras por diferentes motivos e a falta de sincronia entre as obras de geração e as de transmissão.
Na prática, por causa dos atrasos, a transmissão está sempre atrás da geração. Cada nova unidade geradora que entra em operação sem a necessária ampliação da malha de transmissão, ou seu reforço para absorver volumes maiores de energia, implica mais carga sobre a rede, o que aumenta a possibilidade de ocorrência de falha.
Protesto forçado - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 07/02
Demonizar os shoppings e aqueles que não concordam com os rolezinhos é mero oportunismo ideológico que serve apenas para criar mais tensão
Depois do susto inicial causado pela onda de rolezinhos por todo o país, as coisas começam a entrar nos eixos. Em São Paulo, por exemplo, um acordo firmado entre prefeitura, Ministério Público e a Abrasce, associação que reúne mais de 250 donos de shoppings no Brasil, estabeleceu regras para os eventos, incluindo a destinação de espaços específicos como estacionamentos para os jovens se reunirem com mais segurança. O número de eventos do gênero também tem diminuído, o que pode significar que os eventos “saíram de moda” entre os jovens. De qualquer maneira, é necessário refletir sobre o real significado desses encontros de jovens.
O fenômeno dos rolezinhos se dividiu em dois. O primeiro é o rolezinho original, convocado por jovens da periferia para ocorrer em shoppings também em áreas periféricas das metrópoles. Como os próprios organizadores e participantes admitiam, não se tratava de nenhum tipo de protesto político, mas apenas de reunir um grande grupo de jovens e adolescentes, a maioria fãs do chamado “funk ostentação”, caracterizado pelo elogio ao consumo de marcas caras ou consideradas de elite. Diversão e paquera eram os motivos mais citados pelos participantes para ir a um rolezinho.
No entanto, tais aglomerações foram recebidas com oposição por lojistas e pelos demais frequentadores de shoppings, e essa foi a deixa para o sequestro político do rolezinho. Especialistas das mais diversas áreas passaram a falar em “apartheid social”, discriminação contra pobres e até mesmo racismo, como na declaração irresponsável da ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, para quem o medo dos rolezinhos era “reação de branco”. Pouco importava o fato de os shoppings nunca terem barrado frequentadores negros, ou de os rolezinhos serem uma atividade sem nenhum componente racial, com participantes brancos, pardos e negros.
Surgiram, então, os rolezinhos “de protesto”, convocados por movimentos sociais para ocorrer não mais em shoppings de periferia, mas naqueles associados à elite, para protestar seja contra o racismo, seja contra a sociedade de consumo, ou contra qualquer outra coisa. Frequentemente se mostraram um fracasso de público, às vezes atraindo mais jornalistas que “rolezeiros”.
Em 20 de janeiro, o colunista da Gazeta Friedmann Wendpap mostrou o que realmente estava por trás da reação aos rolezinhos: o instinto de preservação, e não o preconceito racial ou contra os pobres. “Somos equipados pela natureza com o medo da multidão: um boi não assusta, uma boiada espalha pânico. Sabemos, instintivamente, que o comportamento multitudinário difere do individual e, de regra, para pior”, afirma o colunista. “O medo que os de fora da multidão sentem é natural, e não produto de cultura discriminatória contra pobres, jovens, mal vestidos, de outra cor, raça, religião, opinião política. Confundir medo com discriminação e desconhecer a potencialidade explosiva de multidão sem organização é negar a natureza humana”, acrescenta. No entanto, para quem só consegue enxergar o mundo pelo prisma da luta de classes, a natureza humana vale muito pouco.
Isso significa que, se a intenção for apenas a de se divertir, os shoppings têm a obrigação de abrir as portas aos rolezinhos sem questionamentos? Não nos parece que seja assim. Shoppings são espaços com finalidade essencialmente comercial. Ao concentrar milhares de pessoas em uma área limitada como é a desses estabelecimentos, o rolezinho acaba prejudicando a finalidade para qual aquele espaço existe. Assim, torna-se um abuso do direito de ir e vir, cerceando os direitos de todos os demais frequentadores e dos proprietários e funcionários de lojas, que têm no comércio o seu ganha-pão. Tanto a população percebe esse aspecto da questão que uma recente pesquisa Datafolha feita entre paulistanos mostrou oposição de 82% aos rolezinhos. Mesmo entre os mais pobres e os mais jovens há rejeição: 80% dos entrevistados com renda familiar de até dois salários mínimos e 70% dos entrevistados de 16 a 24 anos são contrários. Apenas 25% dos pardos e 32% dos negros veem preconceito racial na ação de shoppings que recorrem à Justiça para impedir rolezinhos.
Um shopping center não pode negar a ninguém o direito de adquirir e consumir qualquer produto em suas lojas; isso, sim, seria discriminação. Mas procurar se resguardar judicialmente contra manifestações ou eventos que provocam uma clara ruptura no cotidiano dos shoppings é um direito que lhes cabe – recordemos, trata-se de estabelecimentos privados, e não de espaços públicos como as ruas. Demonizar os shoppings e aqueles que não concordam com os rolezinhos é mero oportunismo ideológico que serve apenas para criar mais tensão e não para compreender adequadamente esse fenômeno.
Demonizar os shoppings e aqueles que não concordam com os rolezinhos é mero oportunismo ideológico que serve apenas para criar mais tensão
Depois do susto inicial causado pela onda de rolezinhos por todo o país, as coisas começam a entrar nos eixos. Em São Paulo, por exemplo, um acordo firmado entre prefeitura, Ministério Público e a Abrasce, associação que reúne mais de 250 donos de shoppings no Brasil, estabeleceu regras para os eventos, incluindo a destinação de espaços específicos como estacionamentos para os jovens se reunirem com mais segurança. O número de eventos do gênero também tem diminuído, o que pode significar que os eventos “saíram de moda” entre os jovens. De qualquer maneira, é necessário refletir sobre o real significado desses encontros de jovens.
O fenômeno dos rolezinhos se dividiu em dois. O primeiro é o rolezinho original, convocado por jovens da periferia para ocorrer em shoppings também em áreas periféricas das metrópoles. Como os próprios organizadores e participantes admitiam, não se tratava de nenhum tipo de protesto político, mas apenas de reunir um grande grupo de jovens e adolescentes, a maioria fãs do chamado “funk ostentação”, caracterizado pelo elogio ao consumo de marcas caras ou consideradas de elite. Diversão e paquera eram os motivos mais citados pelos participantes para ir a um rolezinho.
No entanto, tais aglomerações foram recebidas com oposição por lojistas e pelos demais frequentadores de shoppings, e essa foi a deixa para o sequestro político do rolezinho. Especialistas das mais diversas áreas passaram a falar em “apartheid social”, discriminação contra pobres e até mesmo racismo, como na declaração irresponsável da ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros, para quem o medo dos rolezinhos era “reação de branco”. Pouco importava o fato de os shoppings nunca terem barrado frequentadores negros, ou de os rolezinhos serem uma atividade sem nenhum componente racial, com participantes brancos, pardos e negros.
Surgiram, então, os rolezinhos “de protesto”, convocados por movimentos sociais para ocorrer não mais em shoppings de periferia, mas naqueles associados à elite, para protestar seja contra o racismo, seja contra a sociedade de consumo, ou contra qualquer outra coisa. Frequentemente se mostraram um fracasso de público, às vezes atraindo mais jornalistas que “rolezeiros”.
Em 20 de janeiro, o colunista da Gazeta Friedmann Wendpap mostrou o que realmente estava por trás da reação aos rolezinhos: o instinto de preservação, e não o preconceito racial ou contra os pobres. “Somos equipados pela natureza com o medo da multidão: um boi não assusta, uma boiada espalha pânico. Sabemos, instintivamente, que o comportamento multitudinário difere do individual e, de regra, para pior”, afirma o colunista. “O medo que os de fora da multidão sentem é natural, e não produto de cultura discriminatória contra pobres, jovens, mal vestidos, de outra cor, raça, religião, opinião política. Confundir medo com discriminação e desconhecer a potencialidade explosiva de multidão sem organização é negar a natureza humana”, acrescenta. No entanto, para quem só consegue enxergar o mundo pelo prisma da luta de classes, a natureza humana vale muito pouco.
Isso significa que, se a intenção for apenas a de se divertir, os shoppings têm a obrigação de abrir as portas aos rolezinhos sem questionamentos? Não nos parece que seja assim. Shoppings são espaços com finalidade essencialmente comercial. Ao concentrar milhares de pessoas em uma área limitada como é a desses estabelecimentos, o rolezinho acaba prejudicando a finalidade para qual aquele espaço existe. Assim, torna-se um abuso do direito de ir e vir, cerceando os direitos de todos os demais frequentadores e dos proprietários e funcionários de lojas, que têm no comércio o seu ganha-pão. Tanto a população percebe esse aspecto da questão que uma recente pesquisa Datafolha feita entre paulistanos mostrou oposição de 82% aos rolezinhos. Mesmo entre os mais pobres e os mais jovens há rejeição: 80% dos entrevistados com renda familiar de até dois salários mínimos e 70% dos entrevistados de 16 a 24 anos são contrários. Apenas 25% dos pardos e 32% dos negros veem preconceito racial na ação de shoppings que recorrem à Justiça para impedir rolezinhos.
Um shopping center não pode negar a ninguém o direito de adquirir e consumir qualquer produto em suas lojas; isso, sim, seria discriminação. Mas procurar se resguardar judicialmente contra manifestações ou eventos que provocam uma clara ruptura no cotidiano dos shoppings é um direito que lhes cabe – recordemos, trata-se de estabelecimentos privados, e não de espaços públicos como as ruas. Demonizar os shoppings e aqueles que não concordam com os rolezinhos é mero oportunismo ideológico que serve apenas para criar mais tensão e não para compreender adequadamente esse fenômeno.
‘Justiceiros’ são agentes da tirania - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 07/02
A sociedade corre sérios riscos quando permite o surgimento de grupos de aparentes bons propósitos, mas que atuam à margem da lei e do Estado
A imagem do adolescente negro, nu, preso pelo pescoço ao poste por uma trava de bicicleta lembra gravuras da época da escravidão. A cena, porém, deriva de outra mazela social, a da ação de “justiceiros” que, nos últimos dias, segundo o noticiário, têm agido no bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio, supostamente para, ao espancar jovens delinquentes — caso do menino de 15 anos atado ao poste —, proteger a sociedade dos criminosos.
A foto correu redes sociais, surgiram novos casos da ação do mesmo grupo de “vingadores” ou outros, e se estabeleceu o confronto entre defensores e críticos das ações punitivas à margem da lei e do Estado. Tão preocupante quanto o fato em si é constatar a existência de algum apoio à “justiça com as próprias mãos”.
Ingenuidade, no mínimo. Não faltam evidências, inclusive na História, de que toda vez que grupos se formam à margem da lei e do Estado, por melhores que sejam os propósitos, a sociedade dá um passo rumo à barbárie e nasce uma serpente no ninho da tirania.
Surgem dessa deformação milícias, esquadrões da morte, pistoleiros de aluguel e similares. Na longa guerra civil colombiana, o país padeceu — e continuará a padecer, se as atuais negociações de paz não chegarem a bom termo — devido às Farc, de um lado, e, de outro, aos grupos de "autodefesa", tão violentos e criminosos quanto os guerrilheiros.
Até na época posterior à das Cruzadas, a Igreja teve de conter ordens religiosas militarizadas criadas para proteger os cristãos nos avanços sobre Jerusalém, mas que depois se tornaram perigosas forças autônomas.
A questão dos “justiceiros”, hoje, no Brasil, se torna grave também por ser de fácil manipulação ideológica: por grupos racialistas, supremacistas e por aqueles que enxergam tudo pelo viés da luta de classe. Já houve pelo menos um bate-boca no Congresso, sobre o que aconteceu no bairro do Flamengo, por meio deste viés equivocado, simplificador. Nada justifica a ação desses grupos, mesmo que o Estado brasileiro, no sentido amplo, se mostre ineficiente na proteção à sociedade. Seja porque polícias esbanjam incompetência, e, em alguns casos, têm contingentes pequenos diante das necessidades de segurança pública. Seja porque a Justiça é lenta, e o próprio arcabouço legal, inadequado para enfrentar a criminalidade entre os jovens. O exemplo já clássico é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), blindagem de proteção dos menores de 18 anos de idade, mas que funciona como aval de impunidade para adolescentes criminosos. Distorção usada há tempos por quadrilhas, ao escalar "di menores" para crimes violentos.
A resposta a ser dada à deformação do "justiceiro", além de sua repressão e punição pelos meios legais, também é tratar de aprimorar polícias, bem como rever-se métodos e sistemas legais desatualizados diante do avanço e mudanças da criminalidade nas últimas décadas.
A sociedade corre sérios riscos quando permite o surgimento de grupos de aparentes bons propósitos, mas que atuam à margem da lei e do Estado
A imagem do adolescente negro, nu, preso pelo pescoço ao poste por uma trava de bicicleta lembra gravuras da época da escravidão. A cena, porém, deriva de outra mazela social, a da ação de “justiceiros” que, nos últimos dias, segundo o noticiário, têm agido no bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio, supostamente para, ao espancar jovens delinquentes — caso do menino de 15 anos atado ao poste —, proteger a sociedade dos criminosos.
A foto correu redes sociais, surgiram novos casos da ação do mesmo grupo de “vingadores” ou outros, e se estabeleceu o confronto entre defensores e críticos das ações punitivas à margem da lei e do Estado. Tão preocupante quanto o fato em si é constatar a existência de algum apoio à “justiça com as próprias mãos”.
Ingenuidade, no mínimo. Não faltam evidências, inclusive na História, de que toda vez que grupos se formam à margem da lei e do Estado, por melhores que sejam os propósitos, a sociedade dá um passo rumo à barbárie e nasce uma serpente no ninho da tirania.
Surgem dessa deformação milícias, esquadrões da morte, pistoleiros de aluguel e similares. Na longa guerra civil colombiana, o país padeceu — e continuará a padecer, se as atuais negociações de paz não chegarem a bom termo — devido às Farc, de um lado, e, de outro, aos grupos de "autodefesa", tão violentos e criminosos quanto os guerrilheiros.
Até na época posterior à das Cruzadas, a Igreja teve de conter ordens religiosas militarizadas criadas para proteger os cristãos nos avanços sobre Jerusalém, mas que depois se tornaram perigosas forças autônomas.
A questão dos “justiceiros”, hoje, no Brasil, se torna grave também por ser de fácil manipulação ideológica: por grupos racialistas, supremacistas e por aqueles que enxergam tudo pelo viés da luta de classe. Já houve pelo menos um bate-boca no Congresso, sobre o que aconteceu no bairro do Flamengo, por meio deste viés equivocado, simplificador. Nada justifica a ação desses grupos, mesmo que o Estado brasileiro, no sentido amplo, se mostre ineficiente na proteção à sociedade. Seja porque polícias esbanjam incompetência, e, em alguns casos, têm contingentes pequenos diante das necessidades de segurança pública. Seja porque a Justiça é lenta, e o próprio arcabouço legal, inadequado para enfrentar a criminalidade entre os jovens. O exemplo já clássico é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), blindagem de proteção dos menores de 18 anos de idade, mas que funciona como aval de impunidade para adolescentes criminosos. Distorção usada há tempos por quadrilhas, ao escalar "di menores" para crimes violentos.
A resposta a ser dada à deformação do "justiceiro", além de sua repressão e punição pelos meios legais, também é tratar de aprimorar polícias, bem como rever-se métodos e sistemas legais desatualizados diante do avanço e mudanças da criminalidade nas últimas décadas.
Patrulhar as patrulhas - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 07/02
Depois do fenômeno dos grupos black bloc, milícias de jovens de classe média estariam surgindo como nova ameaça social
Não são apenas os "rolezinhos", os diversos atos de protesto ou as tantas outras manifestações coletivas surgidas em tempos mais recentes que encontram nas redes sociais uma espécie de catalisador.
Ao lado dos atos de vandalismo que alguns desses movimentos terminaram por propiciar, vai se registrando outro fenômeno preocupante. Pela internet, um grupo de jovens cariocas propaga seu intuito de reagir aos constantes assaltos no aterro do Flamengo, área do Rio que costumam frequentar.
Segundo se noticia, não ficaram no plano das intenções, tendo passado a agir com as próprias mãos. Seus atos, além de ameaças e agressões, incluem a hostilização explícita de "mendigos e pobres".
Na semana passada, Yvonne Bezerra de Mello --fundadora do Projeto Uerê, voltado à educação de crianças e jovens carentes-- deparou-se com uma cena bárbara em uma movimentada avenida da zona sul do Rio de Janeiro. Um garoto negro de 15 anos, nu e com ferimentos por todo o corpo, estava agrilhoado a um poste pelo pescoço.
Mello, que socorreu e fotografou o adolescente, afirma estar sofrendo ameaças de morte, além de ataques verbais pela internet.
Outro morador do bairro, que não quis se identificar, diz ter visto o que qualificou de "arrastão homofóbico": 20 homens, com porretes, marchavam aos gritos, declarando-se dispostos a limpar a região de "gays, drogados e ladrões".
A novidade do caso está em sua capacidade de conjugar tantas das correntes sociais que ameaçam erodir o solo, já por si mesmo acidentado, do cotidiano brasileiro.
De um lado, as clássicas deficiências do policiamento preventivo nas grandes cidades se somam à degradação do espaço urbano, levando setores da classe média a se sentirem sitiados. De outro, cresce o preconceito contra o pobre, o negro, o diferente.
Nas comunidades carentes, formam-se milícias contra traficantes. Nos círculos abastados, o fenômeno da auto-organização por redes sociais ganha uma versão sinistra.
O vandalismo de esquerda dos "black blocs" estaria conhecendo a contraparte fascista dos patrulheiros do Flamengo. Sintoma, entre outros que se acumulam, de uma inquietação, de uma descrença e de um impulso destrutivo a que o poder público não sabe responder.
Qualquer que seja sua origem ideológica, comportamentos abusivos precisam ser reprimidos. É característica das sociedades modernas que o Estado detenha o monopólio da violência. No caso brasileiro, é crucial que esse poder seja usado com mais eficiência.
O fiasco da política industrial - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 07/02
O fracasso econômico da presidente Dilma Rousseff acaba de ser atestado oficialmente, mais uma vez, com os números do desastroso desempenho da indústria em 2013. A produção industrial cresceu só 1,2% no ano passado. Precisaria ter crescido pouco mais que o dobro disso apenas para compensar a redução de 2,5% em 2012 e retomar o nível de 2011, primeiro ano do atual governo, quando a expansão ficou em 0,4%. De fato, ficou pouco abaixo do nível de 2010. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dirigido por pessoas até agora insuspeitas de envolvimento em guerra psicológica. Depois de três anos de diagnósticos errados e medidas tão inúteis quanto custosas, o balanço é inequívoco: a produção do setor encolheu ao longo de três quartos da atual gestão.
A aritmética é simples: quando o produto cresce 0,4% no primeiro período, encolhe 2,5% no segundo e aumenta 1,2% no terceiro, o valor acumulado é um número negativo (-0,93%). O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, candidato ao governo paulista, deve ter a respeito do assunto informações muito exclusivas e desconhecidas do pessoal do IBGE e de outros analistas da atividade industrial. "Em três anos", disse ele em Brasília, na segunda-feira, em cerimônia no Ministério, "conseguimos reverter legados malditos, fruto da ausência de uma política industrial neste país nos anos 90."
Pode-se falar com propriedade sobre dois legados malditos, um do presidente Lula para sua sucessora e outro da presidente Rousseff para quem assumir a chefia de governo em 2015. Os dois legados, complementares, incluem contas públicas em mau estado, inflação muito alta pelos padrões internacionais e economia com baixo nível de competitividade.
A insuficiente formação de capital fixo - demonstrada novamente pelos dados da indústria - é parte dessa herança dupla. Segundo a presidente e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, a economia brasileira é agora puxada pelo investimento, isto é, pela aplicação de recursos em máquinas, equipamentos, edificações civis e infraestrutura. Os atrasos do programa de infraestrutura são conhecidos. Só dentro de alguns anos as graves deficiências do setor de transportes começarão a diminuir de forma significativa. No setor industrial o investimento continua estagnado e ninguém sabe quando esse quadro começará a mudar.
Autoridades chamaram a atenção mais de uma vez para o crescimento, em 2013, da indústria de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. Mas os números só impressionam quando examinados em perspectiva muito limitada. No ano passado, o segmento de bens de capital produziu 13,3% mais que no ano anterior, segundo o IBGE. O resultado parece muito promissor e até entusiasmante. Mas a produção havia diminuído 11,8% no ano anterior. Havia caído, portanto, a um nível correspondente a 88,2% do alcançado em 2011.
Um crescimento de 13,3% sobre essa base leva a um patamar ainda equivalente a 99,93% do alcançado dois anos antes. Ou seja, o resultado acumulado em 2012 e 2013 foi um crescimento pouco abaixo de zero. Além disso, o aumento da produção de bens de capital foi altamente concentrado em caminhões e máquinas agrícolas e refletiu, portanto, a evolução do setor mais dinâmico e mais eficiente do Brasil, a agropecuária.
Outros indicadores da indústria completam harmonicamente o quadro sombrio. O crescimento da produção de bens intermediários foi nulo. O segmento de bens de consumo duráveis foi 0,7% maior que em 2012, quando havia diminuído 3,5%. A fabricação de bens de consumo semiduráveis e não duráveis encolheu 0,5%, depois de ter aumentado apenas 0,2% no ano anterior.
Mas o emprego e o consumo ainda cresceram em 2013. De fato, o emprego cresceu, mas principalmente em atividades pouco produtivas. A expansão do consumo refletiu-se em parte no aumento de preços - maior que o do ano anterior - e em parte no aumento das importações e na deterioração do saldo comercial. São tópicos interessantes para os próximos comentários econômicos do candidato Alexandre Padilha.
O fracasso econômico da presidente Dilma Rousseff acaba de ser atestado oficialmente, mais uma vez, com os números do desastroso desempenho da indústria em 2013. A produção industrial cresceu só 1,2% no ano passado. Precisaria ter crescido pouco mais que o dobro disso apenas para compensar a redução de 2,5% em 2012 e retomar o nível de 2011, primeiro ano do atual governo, quando a expansão ficou em 0,4%. De fato, ficou pouco abaixo do nível de 2010. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dirigido por pessoas até agora insuspeitas de envolvimento em guerra psicológica. Depois de três anos de diagnósticos errados e medidas tão inúteis quanto custosas, o balanço é inequívoco: a produção do setor encolheu ao longo de três quartos da atual gestão.
A aritmética é simples: quando o produto cresce 0,4% no primeiro período, encolhe 2,5% no segundo e aumenta 1,2% no terceiro, o valor acumulado é um número negativo (-0,93%). O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, candidato ao governo paulista, deve ter a respeito do assunto informações muito exclusivas e desconhecidas do pessoal do IBGE e de outros analistas da atividade industrial. "Em três anos", disse ele em Brasília, na segunda-feira, em cerimônia no Ministério, "conseguimos reverter legados malditos, fruto da ausência de uma política industrial neste país nos anos 90."
Pode-se falar com propriedade sobre dois legados malditos, um do presidente Lula para sua sucessora e outro da presidente Rousseff para quem assumir a chefia de governo em 2015. Os dois legados, complementares, incluem contas públicas em mau estado, inflação muito alta pelos padrões internacionais e economia com baixo nível de competitividade.
A insuficiente formação de capital fixo - demonstrada novamente pelos dados da indústria - é parte dessa herança dupla. Segundo a presidente e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, a economia brasileira é agora puxada pelo investimento, isto é, pela aplicação de recursos em máquinas, equipamentos, edificações civis e infraestrutura. Os atrasos do programa de infraestrutura são conhecidos. Só dentro de alguns anos as graves deficiências do setor de transportes começarão a diminuir de forma significativa. No setor industrial o investimento continua estagnado e ninguém sabe quando esse quadro começará a mudar.
Autoridades chamaram a atenção mais de uma vez para o crescimento, em 2013, da indústria de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. Mas os números só impressionam quando examinados em perspectiva muito limitada. No ano passado, o segmento de bens de capital produziu 13,3% mais que no ano anterior, segundo o IBGE. O resultado parece muito promissor e até entusiasmante. Mas a produção havia diminuído 11,8% no ano anterior. Havia caído, portanto, a um nível correspondente a 88,2% do alcançado em 2011.
Um crescimento de 13,3% sobre essa base leva a um patamar ainda equivalente a 99,93% do alcançado dois anos antes. Ou seja, o resultado acumulado em 2012 e 2013 foi um crescimento pouco abaixo de zero. Além disso, o aumento da produção de bens de capital foi altamente concentrado em caminhões e máquinas agrícolas e refletiu, portanto, a evolução do setor mais dinâmico e mais eficiente do Brasil, a agropecuária.
Outros indicadores da indústria completam harmonicamente o quadro sombrio. O crescimento da produção de bens intermediários foi nulo. O segmento de bens de consumo duráveis foi 0,7% maior que em 2012, quando havia diminuído 3,5%. A fabricação de bens de consumo semiduráveis e não duráveis encolheu 0,5%, depois de ter aumentado apenas 0,2% no ano anterior.
Mas o emprego e o consumo ainda cresceram em 2013. De fato, o emprego cresceu, mas principalmente em atividades pouco produtivas. A expansão do consumo refletiu-se em parte no aumento de preços - maior que o do ano anterior - e em parte no aumento das importações e na deterioração do saldo comercial. São tópicos interessantes para os próximos comentários econômicos do candidato Alexandre Padilha.
Além das urnas - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 07/02
O Congresso retomou as atividades de 2014 de olho nas urnas de outubro. Como ocorre em anos eleitorais, regra não escrita autoriza o ritmo lento nas duas casas. Fala-se até em recesso branco. O adjetivo - que qualifica o período em que deputados e senadores abandonam os gabinetes para entrar na disputa dos respectivos estados - adoça a realidade.
Trata-se de eufemismo que atenua fato pouco lisonjeiro: o parlamentar faz de conta que trabalha, o eleitor faz de conta que acredita, medidas importantes para o país ficam na fila de espera. Distante dos interesses nacionais, o foco de preocupação dos partidos é a manutenção e a ampliação do poder. A luta por cargos na Esplanada serve de pálida amostra do toma lá, dá cá em que se transformou a política.
Neste ano o quadro ganha cores pesadas. Com a Copa do Mundo disputada no Brasil, o tempo dá a sensação de ter ficado mais curto. Não se trata apenas dos dias que se estendem da abertura ao final do campeonato. Fatos ligados ao certame exigem atenção especial. É o caso da segurança, da mobilidade, da recepção adequada às delegações e aos turistas que virão ao país - cujo forte não reside no planejamento.
Não só. A economia parece sair dos trilhos. Inflação insistente obrigou o Banco Central a elevar os juros que repôs o Brasil no indesejável pódium dos campeões de taxas altas. De 7,25% em abril de 2013, a Selic saltou para 10,5% em janeiro de 2014 com indicativo de alta. Bancos estrangeiros revisaram a expectativa de crescimento do PIB - de 2% para 1,5%.
Mais: a balança comercial registrou o pior mês da história: as importações superaram as exportações em US$ 4,06 bilhões. A indústria encolhe, com retração média de 0,3% por ano desde a posse de Dilma Rousseff. A inadimplência voltou atrás na tendência de queda e subiu 7,84% em janeiro. Esta semana, apagão em 13 estados e no DF jogou descrédito na política energética nacional.
O cenário externo também preocupa. Entre os fatores que causam dor de cabeça, sobressaem a redução dos estímulos à economia americana, a desaceleração do crescimento chinês, a elevação dos juros dos países emergentes, que, além de empurrar a Selic para o alto, diminui a atração do mercado nacional. Sem ter feito a lição de casa apta a impulsionar a competividade, o Brasil se condena ao atraso.
Ano eleitoral é sempre difícil. Com um olho nas urnas e o outro nas pesquisas, os governantes temem tomar medidas que lhes possam roubar votos ou reduzir apoios. A situação, porém, exige ação efetiva. Adiar providências urgentes cobrará preço ainda mais alto dos cidadãos. Impõe-se variar o foco. Em vez de mirar só as urnas, Executivo e Legislativo precisam se entender.
Do Congresso, espera-se maior comprometimento com o país ao votar projetos que se traduzam em ganhos para a sociedade. Do governo, o real compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Ajuste fiscal consistente ajudaria a controlar a inflação, abriria espaço para o BC reduzir os juros, a produção ganhar fôlego, o crescimento retomar o ritmo desejado. É vida além das urnas.
Trata-se de eufemismo que atenua fato pouco lisonjeiro: o parlamentar faz de conta que trabalha, o eleitor faz de conta que acredita, medidas importantes para o país ficam na fila de espera. Distante dos interesses nacionais, o foco de preocupação dos partidos é a manutenção e a ampliação do poder. A luta por cargos na Esplanada serve de pálida amostra do toma lá, dá cá em que se transformou a política.
Neste ano o quadro ganha cores pesadas. Com a Copa do Mundo disputada no Brasil, o tempo dá a sensação de ter ficado mais curto. Não se trata apenas dos dias que se estendem da abertura ao final do campeonato. Fatos ligados ao certame exigem atenção especial. É o caso da segurança, da mobilidade, da recepção adequada às delegações e aos turistas que virão ao país - cujo forte não reside no planejamento.
Não só. A economia parece sair dos trilhos. Inflação insistente obrigou o Banco Central a elevar os juros que repôs o Brasil no indesejável pódium dos campeões de taxas altas. De 7,25% em abril de 2013, a Selic saltou para 10,5% em janeiro de 2014 com indicativo de alta. Bancos estrangeiros revisaram a expectativa de crescimento do PIB - de 2% para 1,5%.
Mais: a balança comercial registrou o pior mês da história: as importações superaram as exportações em US$ 4,06 bilhões. A indústria encolhe, com retração média de 0,3% por ano desde a posse de Dilma Rousseff. A inadimplência voltou atrás na tendência de queda e subiu 7,84% em janeiro. Esta semana, apagão em 13 estados e no DF jogou descrédito na política energética nacional.
O cenário externo também preocupa. Entre os fatores que causam dor de cabeça, sobressaem a redução dos estímulos à economia americana, a desaceleração do crescimento chinês, a elevação dos juros dos países emergentes, que, além de empurrar a Selic para o alto, diminui a atração do mercado nacional. Sem ter feito a lição de casa apta a impulsionar a competividade, o Brasil se condena ao atraso.
Ano eleitoral é sempre difícil. Com um olho nas urnas e o outro nas pesquisas, os governantes temem tomar medidas que lhes possam roubar votos ou reduzir apoios. A situação, porém, exige ação efetiva. Adiar providências urgentes cobrará preço ainda mais alto dos cidadãos. Impõe-se variar o foco. Em vez de mirar só as urnas, Executivo e Legislativo precisam se entender.
Do Congresso, espera-se maior comprometimento com o país ao votar projetos que se traduzam em ganhos para a sociedade. Do governo, o real compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Ajuste fiscal consistente ajudaria a controlar a inflação, abriria espaço para o BC reduzir os juros, a produção ganhar fôlego, o crescimento retomar o ritmo desejado. É vida além das urnas.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“O PT vai ter de rebolar para tirar essa comissão de mim”
Deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), de olho na sucessão de Marco Feliciano (PSC-SP)
ROMBO NO BANCO DO NORDESTE SUPERA R$ 2 BILHÕES
O Ministério Público Federal do Ceará suspeita que o rombo no Banco do Nordeste do Brasil, na gestão do ex-presidente Roberto Smith, entre 2003 e 2008, supere os R$ 2 bilhões. Auditores do Tribunal de Contas da União e da Controladoria-Geral da União estão em maratona de reuniões com procuradores para mapear empresas e beneficiários. O MPF-CE já acionou o ex-presidente e mais dez dirigentes pela fraude.
SIGA O DINHEIRO
Relatório do TCU, de 2009, apontou supostas irregularidades na gestão do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste.
ESQUEMA
Segundo a denúncia, os ex-gestores do BNB autorizaram ao menos 52 mil empréstimos milionários a empresários que nunca foram cobrados.
FICHA-SUJA
Protegido do governador Cid Gomes, que chamou a ação do MPF de “exibicionismo”, Smith é hoje seu secretário de Desenvolvimento.
DENUNCIADOS
Também foram acionados Paulo Rebouças Ferrado, ligado a Jaques Wagner (PT-BA), e Luiz de Farias, indicado de Wellington Dias (PT-PI).
PIZZOLATO: EXTRADIÇÃO IMPROVÁVEL DÁ ALÍVIO AO PT
Levou alívio à direção do PT a notícia de que são remotas as chances de extradição de Henrique Pizzolato, banqueiro do mensalão condenado a 12 anos de cadeia pelo Supremo Tribunal Federal. Os petistas temem que, “abandonado”, como já se queixou a interlocutores do partido, Pizzolato conte a quem servia e quem chefiava o esquema de corrupção do qual foi protagonista, como diretor do Banco do Brasil.
VERGONHA?
O novo líder do PT na Câmara, deputado Vicentinho (SP), disse ontem que a fuga de Pizzolato levou “vergonha ao partido”. Difícil de acreditar.
FALTA A MULTA
Pizzolato foi condenado pelo STF a pagar multa de R$ 2,1 milhões. Resta saber quando o PT iniciará a “vaquinha” para ajudar o meliante.
ALGEMAS PENDURADAS
Serão penduradas algemas na porta de superintendências regionais da Polícia Federal, hoje, às 12h, mostrando a desmotivação dos agentes.
CHUMBO GROSSÍSSIMO
A direção do PT nacional trata como “segredo de Estado” a iminência de um escândalo envolvendo a cúpula do governo do Distrito Federal, e suas famílias, numa investigação sobre crescimento patrimonial.
CUMPRINDO TAREFA
Obediente ao líder do PMDB, o presidente da Câmara, Henrique Alves (RN), avisou à ministra Ideli Salvatti que vai colocar em votação o Marco Civil da Internet, de qualquer jeito, na próxima terça-feira (11).
AMEAÇA
Perambulando no Congresso, quinta, gaúcho Tarso Genro (PT) parecia uma ameaça à médica cubana que pediu asilo ao Brasil.
Foi ele quem mandou prender e mandar de volta dois boxeadores cubanos que tentaram desertar para a liberdade, nos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro em 1997.
#EDUARDORESPONDE
O Twitter escolheu estrear sua sabatina virtual com Eduardo Campos e Marina Silva (PSB/Rede), considerados os políticos que melhor usam a internet. Será nesta sexta, a partir das 17h, no #EduardoResponde.
CHAVE DE CADEIA
Protagonista no escândalo de exploração sexual contra crianças e adolescentes em Coari, o prefeito amazonense Adail Pinheiro (PRP) está envolvido em 56 processos na Justiça do Estado.
PAC NA CÂMARA DO DF
Silenciosamente, em Brasília, os deputados distritais dobraram a verba indenizatória dos últimos quatro anos. O gasto subiu de R$ 1,8 milhão, em 2010, para R$ 3,8 milhões em 2013.
Assim, ligeirinho.
SEM AGENDA
Mal retornou do recesso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, já enforcou a primeira sexta-feira. Na agenda divulgada pela assessoria, o aviso: “Não temos agenda”... Mas trabalho acumulado há, certamente.
CASO DE POLÍCIA
Funcionária da ONU guardou seu carro no estacionamento nº 2 do aeroporto de Brasília e pagou R$ 438. Ao voltar, 15 dias depois, o carro havia sido surrupiado. O delegado Miguel Lucena, da 10ª DP, suspeita da participação de empregado da Alfa Park, que explora o negócio.
PENSANDO BEM...
...trocar a extradição de Cesare Battisti pela de Henrique Pizzolato é o mesmo que trocar zero por abaixo de zero.
PODER SEM PUDOR
CLANDESTINO NUMA FARRA
História saborosa de Cleto Falcão no livro
Dez anos de silêncio (LGE, Brasília, 375 pp), sobre o ex-deputado Eduardo Bomfim (PCdoB). Em 1980, perseguido pela repressão, ele ficou uma semana escondido no apartamento de Falcão. Combinou que se trancaria num quarto e ao ouvir um "Bomfim, é o Cleto", era a senha: a Polícia Federal descobrira o esconderijo. Falcão organizara uma farra para celebrar o aniversário e não a cancelou, até para não levantar suspeitas. Alta madrugada, mulheres e bebidas no meio da canela, o anfitrião solidário bateu à porta do quarto levando uísque e gelo:
- Bomfim, é o Cleto - sussurrou a senha combinada.
Ele abriu a porta com as mãos ao alto, em rendição.
Rendeu-se à farra.
Deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), de olho na sucessão de Marco Feliciano (PSC-SP)
ROMBO NO BANCO DO NORDESTE SUPERA R$ 2 BILHÕES
O Ministério Público Federal do Ceará suspeita que o rombo no Banco do Nordeste do Brasil, na gestão do ex-presidente Roberto Smith, entre 2003 e 2008, supere os R$ 2 bilhões. Auditores do Tribunal de Contas da União e da Controladoria-Geral da União estão em maratona de reuniões com procuradores para mapear empresas e beneficiários. O MPF-CE já acionou o ex-presidente e mais dez dirigentes pela fraude.
SIGA O DINHEIRO
Relatório do TCU, de 2009, apontou supostas irregularidades na gestão do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste.
ESQUEMA
Segundo a denúncia, os ex-gestores do BNB autorizaram ao menos 52 mil empréstimos milionários a empresários que nunca foram cobrados.
FICHA-SUJA
Protegido do governador Cid Gomes, que chamou a ação do MPF de “exibicionismo”, Smith é hoje seu secretário de Desenvolvimento.
DENUNCIADOS
Também foram acionados Paulo Rebouças Ferrado, ligado a Jaques Wagner (PT-BA), e Luiz de Farias, indicado de Wellington Dias (PT-PI).
PIZZOLATO: EXTRADIÇÃO IMPROVÁVEL DÁ ALÍVIO AO PT
Levou alívio à direção do PT a notícia de que são remotas as chances de extradição de Henrique Pizzolato, banqueiro do mensalão condenado a 12 anos de cadeia pelo Supremo Tribunal Federal. Os petistas temem que, “abandonado”, como já se queixou a interlocutores do partido, Pizzolato conte a quem servia e quem chefiava o esquema de corrupção do qual foi protagonista, como diretor do Banco do Brasil.
VERGONHA?
O novo líder do PT na Câmara, deputado Vicentinho (SP), disse ontem que a fuga de Pizzolato levou “vergonha ao partido”. Difícil de acreditar.
FALTA A MULTA
Pizzolato foi condenado pelo STF a pagar multa de R$ 2,1 milhões. Resta saber quando o PT iniciará a “vaquinha” para ajudar o meliante.
ALGEMAS PENDURADAS
Serão penduradas algemas na porta de superintendências regionais da Polícia Federal, hoje, às 12h, mostrando a desmotivação dos agentes.
CHUMBO GROSSÍSSIMO
A direção do PT nacional trata como “segredo de Estado” a iminência de um escândalo envolvendo a cúpula do governo do Distrito Federal, e suas famílias, numa investigação sobre crescimento patrimonial.
CUMPRINDO TAREFA
Obediente ao líder do PMDB, o presidente da Câmara, Henrique Alves (RN), avisou à ministra Ideli Salvatti que vai colocar em votação o Marco Civil da Internet, de qualquer jeito, na próxima terça-feira (11).
AMEAÇA
Perambulando no Congresso, quinta, gaúcho Tarso Genro (PT) parecia uma ameaça à médica cubana que pediu asilo ao Brasil.
Foi ele quem mandou prender e mandar de volta dois boxeadores cubanos que tentaram desertar para a liberdade, nos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro em 1997.
#EDUARDORESPONDE
O Twitter escolheu estrear sua sabatina virtual com Eduardo Campos e Marina Silva (PSB/Rede), considerados os políticos que melhor usam a internet. Será nesta sexta, a partir das 17h, no #EduardoResponde.
CHAVE DE CADEIA
Protagonista no escândalo de exploração sexual contra crianças e adolescentes em Coari, o prefeito amazonense Adail Pinheiro (PRP) está envolvido em 56 processos na Justiça do Estado.
PAC NA CÂMARA DO DF
Silenciosamente, em Brasília, os deputados distritais dobraram a verba indenizatória dos últimos quatro anos. O gasto subiu de R$ 1,8 milhão, em 2010, para R$ 3,8 milhões em 2013.
Assim, ligeirinho.
SEM AGENDA
Mal retornou do recesso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, já enforcou a primeira sexta-feira. Na agenda divulgada pela assessoria, o aviso: “Não temos agenda”... Mas trabalho acumulado há, certamente.
CASO DE POLÍCIA
Funcionária da ONU guardou seu carro no estacionamento nº 2 do aeroporto de Brasília e pagou R$ 438. Ao voltar, 15 dias depois, o carro havia sido surrupiado. O delegado Miguel Lucena, da 10ª DP, suspeita da participação de empregado da Alfa Park, que explora o negócio.
PENSANDO BEM...
...trocar a extradição de Cesare Battisti pela de Henrique Pizzolato é o mesmo que trocar zero por abaixo de zero.
PODER SEM PUDOR
CLANDESTINO NUMA FARRA
História saborosa de Cleto Falcão no livro
Dez anos de silêncio (LGE, Brasília, 375 pp), sobre o ex-deputado Eduardo Bomfim (PCdoB). Em 1980, perseguido pela repressão, ele ficou uma semana escondido no apartamento de Falcão. Combinou que se trancaria num quarto e ao ouvir um "Bomfim, é o Cleto", era a senha: a Polícia Federal descobrira o esconderijo. Falcão organizara uma farra para celebrar o aniversário e não a cancelou, até para não levantar suspeitas. Alta madrugada, mulheres e bebidas no meio da canela, o anfitrião solidário bateu à porta do quarto levando uísque e gelo:
- Bomfim, é o Cleto - sussurrou a senha combinada.
Ele abriu a porta com as mãos ao alto, em rendição.
Rendeu-se à farra.
SEXTA NOS JORNAIS
- Globo: Pizzolato quer ser solto ou prisão de 1º mundo
- Folha: Grupo de bancos vai comprar até 15% da tele Oi
- Estadão: Dilma rebate versão de que raio causou apagão
- Correio: Uma tragédia em quatro atos
- Valor: Governo tenta socorrer elétricas e conter inflação
- Estado de Minas: Inflação assombra o interior
- Jornal do Commercio: Mil vagas para a Copa
- Zero Hora: Raios podem levar culpa por apagão em 13 Estados
- Brasil Econômico: Um executivo para falar ao setor privado
quinta-feira, fevereiro 06, 2014
Rolezinhos - CONTARDO CALLIGARIS
FOLHA DE SP - 06/02
O que os shoppings têm de mágico e desejável? Qual é seu valor simbólico para os jovens do 'rolezinho'?
Na Europa da minha juventude, não havia shopping centers --e, se não me engano, isso não mudou. Havia, isso sim, lojas de departamentos: a Rinascente em Milão, Harrods em Londres e, em Paris, o Bazar de l'Hôtel de Ville, a Samaritaine, as Galeries Lafayette, o Bon Marché.
As lojas de departamentos são os primeiros grandes templos do consumo, como Zola contou deliciosamente no "Paraíso das Damas". Nelas, pode haver um café/restaurante no último andar, mas não há uma área de alimentação, nem cinemas, nem teatros: são lugares funcionais --para comprar, não para passear. Ninguém, em Milão, teria a ideia de dar um rolê na Rinascente. O rolê seria no Corso Vittorio Emanuele, fora da loja.
Em Manhattan também há lojas de departamentos (Saks, Lord and Taylor, Bergdorf, Barneys, Bloomingdale's, Macy's etc.), mas não são lugares para rolê --eventualmente, para expedições quase militares em dia de liquidações anuais. O único shopping center de Manhattan é o Manhattan Mall, do qual, aliás, os nova-iorquinos tendem a fugir.
Nas áreas suburbanas e rurais dos EUA, os shopping centers se parecem com os do Brasil. Mesmo assim, foi no Brasil que eu aprendi que dar rolês em shopping é um programa. Passeamos pelos shoppings, e não é para comprar nem para lamber vitrines. Por quê, então?
Uma amiga me diz que ela passeia pelos shoppings para ter a impressão de estar fora do Brasil, ou seja, num espaço público que não seja ansiógeno e violento. Claro, é uma ilusão fugaz; basta olhar para as vitrines para constatar que tudo é brutalmente mais caro do que no exterior --pelos impostos, pela produtividade medíocre ou pela corrupção endêmica, tanto faz. Mesmo assim, insiste minha amiga, a ilusão de civilidade é um alívio.
Hoje, à brutalidade de impostos, corrupção e mediocridade produtiva acrescentam-se os "rolezinhos" dos jovens da periferia. O que eles querem, afinal?
Talvez eles gostem de apavorar. Não seria de se estranhar. É um axioma: para quem vive na incerteza (de seu status, do reconhecimento dos outros, de seu lugar no mundo), apavorar é um jeito de encontrar no medo dos outros uma confirmação de sua própria relevância. Apavoro, logo existo: espelho-me na preocupação dos seguranças e na cara fechada dos clientes que voltam correndo para o estacionamento.
Mas apavorar é um efeito colateral. Os jovens dos "rolezinhos" pedem sobretudo uma bola branca: a admissão ao clube. A prova, a roupa que eles preferem e que grita para ser reconhecida como luxo.
Tudo bem, alguém perguntará, eles pedem acesso a quê? À classe privilegiada? Ao consumo de quem tem grana?
Não acredito em nada disso, aposto que eles pedem acesso ao próprio lugar para o qual eles vão: eles pedem acesso ao shopping. O que esse lugar tem de mágico? De desejável? Qual é seu valor simbólico?
Na nossa cultura (justamente pela quase inexistência de espaços públicos minimamente frequentáveis, ou seja, pelo horror que a rua é para todos, ricos e pobres), os shoppings integram a lista histórica dos refúgios.
Ao longo da história, nem todos os refúgios foram democráticos. Na época de minha adolescência, discutia-se para saber quem ganharia um lugar no refúgio antiatômico (os critérios eram variados, mas, por exemplo, a idade avançada não era um ponto a favor). Mais tarde se discutia para saber quem subiria na única nave espacial que levaria um grupo seleto para outro planeta, visto que a morte da Terra ou do Sol era próxima e inelutável --apreciem minha coragem: para as duas seleções, escolher ciências exatas seria uma vantagem considerável.
Mas, antes disso tudo, houve uma época em que os refúgios eram abertos. Por exemplo, as igrejas em épocas de pestilência ou de invasão por exércitos saqueadores: todos podiam entrar. Duvido que eles acreditassem numa intervenção milagrosa que salvasse a todos, mas a própria civilidade do ato de rezar em comum era provavelmente um gesto de resistência contra a barbárie, que reinava lá fora.
Agora, o primeiro refúgio da história foi elitista: na Arca de Noé, era só um casal por espécie, e uma família de humanos, a do próprio Noé.
Falando nisso, como é que funcionou a Arca de Noé? Os lobos, as hienas, os chacais etc. declararam trégua e comeram só sucrilhos durante o tempo das águas ou então, irresistivelmente, eles comiam um cordeiro ou um bezerro de vez em quando?
O que os shoppings têm de mágico e desejável? Qual é seu valor simbólico para os jovens do 'rolezinho'?
Na Europa da minha juventude, não havia shopping centers --e, se não me engano, isso não mudou. Havia, isso sim, lojas de departamentos: a Rinascente em Milão, Harrods em Londres e, em Paris, o Bazar de l'Hôtel de Ville, a Samaritaine, as Galeries Lafayette, o Bon Marché.
As lojas de departamentos são os primeiros grandes templos do consumo, como Zola contou deliciosamente no "Paraíso das Damas". Nelas, pode haver um café/restaurante no último andar, mas não há uma área de alimentação, nem cinemas, nem teatros: são lugares funcionais --para comprar, não para passear. Ninguém, em Milão, teria a ideia de dar um rolê na Rinascente. O rolê seria no Corso Vittorio Emanuele, fora da loja.
Em Manhattan também há lojas de departamentos (Saks, Lord and Taylor, Bergdorf, Barneys, Bloomingdale's, Macy's etc.), mas não são lugares para rolê --eventualmente, para expedições quase militares em dia de liquidações anuais. O único shopping center de Manhattan é o Manhattan Mall, do qual, aliás, os nova-iorquinos tendem a fugir.
Nas áreas suburbanas e rurais dos EUA, os shopping centers se parecem com os do Brasil. Mesmo assim, foi no Brasil que eu aprendi que dar rolês em shopping é um programa. Passeamos pelos shoppings, e não é para comprar nem para lamber vitrines. Por quê, então?
Uma amiga me diz que ela passeia pelos shoppings para ter a impressão de estar fora do Brasil, ou seja, num espaço público que não seja ansiógeno e violento. Claro, é uma ilusão fugaz; basta olhar para as vitrines para constatar que tudo é brutalmente mais caro do que no exterior --pelos impostos, pela produtividade medíocre ou pela corrupção endêmica, tanto faz. Mesmo assim, insiste minha amiga, a ilusão de civilidade é um alívio.
Hoje, à brutalidade de impostos, corrupção e mediocridade produtiva acrescentam-se os "rolezinhos" dos jovens da periferia. O que eles querem, afinal?
Talvez eles gostem de apavorar. Não seria de se estranhar. É um axioma: para quem vive na incerteza (de seu status, do reconhecimento dos outros, de seu lugar no mundo), apavorar é um jeito de encontrar no medo dos outros uma confirmação de sua própria relevância. Apavoro, logo existo: espelho-me na preocupação dos seguranças e na cara fechada dos clientes que voltam correndo para o estacionamento.
Mas apavorar é um efeito colateral. Os jovens dos "rolezinhos" pedem sobretudo uma bola branca: a admissão ao clube. A prova, a roupa que eles preferem e que grita para ser reconhecida como luxo.
Tudo bem, alguém perguntará, eles pedem acesso a quê? À classe privilegiada? Ao consumo de quem tem grana?
Não acredito em nada disso, aposto que eles pedem acesso ao próprio lugar para o qual eles vão: eles pedem acesso ao shopping. O que esse lugar tem de mágico? De desejável? Qual é seu valor simbólico?
Na nossa cultura (justamente pela quase inexistência de espaços públicos minimamente frequentáveis, ou seja, pelo horror que a rua é para todos, ricos e pobres), os shoppings integram a lista histórica dos refúgios.
Ao longo da história, nem todos os refúgios foram democráticos. Na época de minha adolescência, discutia-se para saber quem ganharia um lugar no refúgio antiatômico (os critérios eram variados, mas, por exemplo, a idade avançada não era um ponto a favor). Mais tarde se discutia para saber quem subiria na única nave espacial que levaria um grupo seleto para outro planeta, visto que a morte da Terra ou do Sol era próxima e inelutável --apreciem minha coragem: para as duas seleções, escolher ciências exatas seria uma vantagem considerável.
Mas, antes disso tudo, houve uma época em que os refúgios eram abertos. Por exemplo, as igrejas em épocas de pestilência ou de invasão por exércitos saqueadores: todos podiam entrar. Duvido que eles acreditassem numa intervenção milagrosa que salvasse a todos, mas a própria civilidade do ato de rezar em comum era provavelmente um gesto de resistência contra a barbárie, que reinava lá fora.
Agora, o primeiro refúgio da história foi elitista: na Arca de Noé, era só um casal por espécie, e uma família de humanos, a do próprio Noé.
Falando nisso, como é que funcionou a Arca de Noé? Os lobos, as hienas, os chacais etc. declararam trégua e comeram só sucrilhos durante o tempo das águas ou então, irresistivelmente, eles comiam um cordeiro ou um bezerro de vez em quando?
Feliz aniversário, Facebook! - CORA RÓNAI
O GLOBO - 06/02
O que é que tanto nos atrai no Facebook? A resposta é simples: gente. Somos animais gregários, gostamos de viver em comunidade e de contar histórias uns para os outros
Meus netos são lindos. Não digo isso por corujice sem critério; digo por fato bem comprovado. Todas as minhas amigas de Facebook concordam que Fábio e Nina são as criancinhas mais fofas do mundo (logo depois dos seus próprios netos, mas isso é só um detalhe).
Minhas amigas são avós militantes que fazem programas com os netos e que viajam para os lugares mais improváveis do mundo para acompanhar o seu nascimento e conferir como estão crescendo. Por causa disso, minha timeline começa a ter mais fotos de criancinhas do que de gatos, o que confirma algo de que eu já desconfiava há tempos:
— O Facebook é o canal das vovós — escreveu a Andrea, que ainda outro dia foi dar as boas-vindas à Mila em Nova York. — Antes do FB, como é que elas trocavam notícias de suas belezuras?
Não trocavam, ou trocavam de forma muito mais restrita e ocasional: uma gracinha compartilhada durante um telefonema ou um almoço, uma ou outra foto exibida numa festa. Se não fosse pelo Facebook, eu jamais saberia que um dos bebês mais gostosinhos do mundo é o Logan, netinho da Ana Pinta que mora em Londres.
______
Segundo estatísticas amplamente divulgadas, 16% dos adolescentes deixaram de frequentar o Facebook no ano passado. É compreensível. Uma rede que faz o encanto das avós não é o lugar onde a garotada quer passar os seus momentos de lazer — e não faltou quem, por conta disso, decretasse o fim da rede social para daqui a dois ou três anos. Essa espécie de profecia maia pós-apocalíptica me pareceu um pouco exagerada, até porque os adolescentes podem ser o público alvo preferencial de 11 entre dez empresas, mas estão longe de ser a única faixa etária do mundo. Sem falar que o FB continua crescendo, ainda que não à velocidade vertiginosa dos últimos anos.
A ideia por trás dessas previsões sombrias é que o Facebook — que fez dez anos anteontem — estaria perto de cumprir o ciclo que rege os movimentos sociais. Tendo passado pelo nascimento, pela consolidação e pela inclusão no sistema, estaria chegando à dissolução, que é quando as pessoas se cansam da brincadeira. Isso já aconteceu com diversas redes sociais, do Second Life ao My Space, passando pelo Multiply e pelo Fotolog; não duvido de que, um dia, venha a acontecer também com o Facebook. Mas daqui até lá muita informação ainda vai correr por baixo da ponte.
Ainda que tenha sido abandonado por um percentual significativo de adolescentes, ele tem um público praticamente cativo nos adultos que aprenderam a usá-lo e sentem-se confortáveis com ele. Nenhuma rede social teve, até hoje, o alcance do Facebook, que tem mais de 1,2 bilhões de usuários, ou seja, cerca de metade do total de pessoas com acesso à internet. E olha que ele é proibido na China! Quando, na manhã de ontem, li a mensagem de aniversário postada por Mark Zuckerberg, ela já tinha sido curtida por 1.542.872 pessoas, e compartilhada 102.405 vezes.
______
O que é que tanto nos atrai no Facebook? A resposta é simples: gente. Somos animais gregários, gostamos de viver em comunidade e de contar histórias uns para os outros, de preferência em rodinhas. Ora, desde que deixamos de viver em aldeias onde todos se viam constantemente, ainda não foi inventada forma mais simples de fazer isso do que usando o Facebook, onde tanto cabe um grave manifesto contra a violência quanto uma piada boba — exatamente como acontecia com a praça, no tempo em que as cidades eram calmas, as ruas, seguras, e a vizinhança toda se encontrava durante o footing.
Na praça virtual do Facebook podemos ter notícias dos que estão viajando, dos que moram longe e dos que vivem perto (mas mal têm tempo para respirar, que dirá tomar um chope na esquina). Podemos reencontrar amigos de infância dos quais nunca mais tínhamos ouvido falar, assim como podemos descobrir, em vagos conhecidos do dia a dia, afinidades de pensamento surpreendentes.
As teias que tecemos se ampliam e se consolidam também através dos amigos dos amigos, e nos dão um sentimento que é a base de qualquer comunidade humana: o do pertencimento. Não só encontramos a nossa tribo, como a informamos aos que nos cercam através de curtidas, comentários e compartilhamentos de postagens. Em suma: para além das relações que mantemos uns com os outros, há a percepção dessas relações num contexto mais amplo. Unir — e expor — tecidos sociais tão intrincados de forma tão simples talvez seja o grande segredo do sucesso do Facebook.
Antes de começar a escrever este último parágrafo, fui até o Orkut para ver se ainda acontece alguma coisa por lá (sim, surpreendentemente, acontece); encontrei uma foto antiga em que estou com o meu filho de um ano no colo, e a levei para o Facebook. No minuto seguinte, o bebê da foto, que vai fazer 42 anos na semana que vem e que mora longe do Brasil, fez um comentário:
— Hoje nem os meus bebês são tão novinhos. E você, gatíssima na foto, mamãe.
Quase nada, um alô, um fiapinho de conversa na madrugada; mas foi um carinho, um aceno que nos fizemos, mãe e filho, marcando presença na vida um do outro. Há dez anos, isso não teria acontecido.
Valeu, Facebook.
O que é que tanto nos atrai no Facebook? A resposta é simples: gente. Somos animais gregários, gostamos de viver em comunidade e de contar histórias uns para os outros
Meus netos são lindos. Não digo isso por corujice sem critério; digo por fato bem comprovado. Todas as minhas amigas de Facebook concordam que Fábio e Nina são as criancinhas mais fofas do mundo (logo depois dos seus próprios netos, mas isso é só um detalhe).
Minhas amigas são avós militantes que fazem programas com os netos e que viajam para os lugares mais improváveis do mundo para acompanhar o seu nascimento e conferir como estão crescendo. Por causa disso, minha timeline começa a ter mais fotos de criancinhas do que de gatos, o que confirma algo de que eu já desconfiava há tempos:
— O Facebook é o canal das vovós — escreveu a Andrea, que ainda outro dia foi dar as boas-vindas à Mila em Nova York. — Antes do FB, como é que elas trocavam notícias de suas belezuras?
Não trocavam, ou trocavam de forma muito mais restrita e ocasional: uma gracinha compartilhada durante um telefonema ou um almoço, uma ou outra foto exibida numa festa. Se não fosse pelo Facebook, eu jamais saberia que um dos bebês mais gostosinhos do mundo é o Logan, netinho da Ana Pinta que mora em Londres.
______
Segundo estatísticas amplamente divulgadas, 16% dos adolescentes deixaram de frequentar o Facebook no ano passado. É compreensível. Uma rede que faz o encanto das avós não é o lugar onde a garotada quer passar os seus momentos de lazer — e não faltou quem, por conta disso, decretasse o fim da rede social para daqui a dois ou três anos. Essa espécie de profecia maia pós-apocalíptica me pareceu um pouco exagerada, até porque os adolescentes podem ser o público alvo preferencial de 11 entre dez empresas, mas estão longe de ser a única faixa etária do mundo. Sem falar que o FB continua crescendo, ainda que não à velocidade vertiginosa dos últimos anos.
A ideia por trás dessas previsões sombrias é que o Facebook — que fez dez anos anteontem — estaria perto de cumprir o ciclo que rege os movimentos sociais. Tendo passado pelo nascimento, pela consolidação e pela inclusão no sistema, estaria chegando à dissolução, que é quando as pessoas se cansam da brincadeira. Isso já aconteceu com diversas redes sociais, do Second Life ao My Space, passando pelo Multiply e pelo Fotolog; não duvido de que, um dia, venha a acontecer também com o Facebook. Mas daqui até lá muita informação ainda vai correr por baixo da ponte.
Ainda que tenha sido abandonado por um percentual significativo de adolescentes, ele tem um público praticamente cativo nos adultos que aprenderam a usá-lo e sentem-se confortáveis com ele. Nenhuma rede social teve, até hoje, o alcance do Facebook, que tem mais de 1,2 bilhões de usuários, ou seja, cerca de metade do total de pessoas com acesso à internet. E olha que ele é proibido na China! Quando, na manhã de ontem, li a mensagem de aniversário postada por Mark Zuckerberg, ela já tinha sido curtida por 1.542.872 pessoas, e compartilhada 102.405 vezes.
______
O que é que tanto nos atrai no Facebook? A resposta é simples: gente. Somos animais gregários, gostamos de viver em comunidade e de contar histórias uns para os outros, de preferência em rodinhas. Ora, desde que deixamos de viver em aldeias onde todos se viam constantemente, ainda não foi inventada forma mais simples de fazer isso do que usando o Facebook, onde tanto cabe um grave manifesto contra a violência quanto uma piada boba — exatamente como acontecia com a praça, no tempo em que as cidades eram calmas, as ruas, seguras, e a vizinhança toda se encontrava durante o footing.
Na praça virtual do Facebook podemos ter notícias dos que estão viajando, dos que moram longe e dos que vivem perto (mas mal têm tempo para respirar, que dirá tomar um chope na esquina). Podemos reencontrar amigos de infância dos quais nunca mais tínhamos ouvido falar, assim como podemos descobrir, em vagos conhecidos do dia a dia, afinidades de pensamento surpreendentes.
As teias que tecemos se ampliam e se consolidam também através dos amigos dos amigos, e nos dão um sentimento que é a base de qualquer comunidade humana: o do pertencimento. Não só encontramos a nossa tribo, como a informamos aos que nos cercam através de curtidas, comentários e compartilhamentos de postagens. Em suma: para além das relações que mantemos uns com os outros, há a percepção dessas relações num contexto mais amplo. Unir — e expor — tecidos sociais tão intrincados de forma tão simples talvez seja o grande segredo do sucesso do Facebook.
Antes de começar a escrever este último parágrafo, fui até o Orkut para ver se ainda acontece alguma coisa por lá (sim, surpreendentemente, acontece); encontrei uma foto antiga em que estou com o meu filho de um ano no colo, e a levei para o Facebook. No minuto seguinte, o bebê da foto, que vai fazer 42 anos na semana que vem e que mora longe do Brasil, fez um comentário:
— Hoje nem os meus bebês são tão novinhos. E você, gatíssima na foto, mamãe.
Quase nada, um alô, um fiapinho de conversa na madrugada; mas foi um carinho, um aceno que nos fizemos, mãe e filho, marcando presença na vida um do outro. Há dez anos, isso não teria acontecido.
Valeu, Facebook.
Sartre e Flaubert, idiotas - MARIO SERGIO CONTI
O GLOBO - 06/02
Acabou a história de refazer a vida e mudar a sociedade. Flaubert e Sartre continuam vivos como exemplo de idiotas ultrapassados
Nunca é tarde. Quarenta e dois anos depois da sua publicação chega ao Brasil “O idiota da família”, o último livro de Jean-Paul Sartre. O notável trabalho da editora L&PM e da tradutora Julia da Rosa Simões recoloca em circulação as ideias de um intelectual do século XX a respeito de um artista do XIX, Gustave Flaubert. O livro é, pois, a síntese de duas vidas maiores e de dois séculos. É o choque da arte pela arte de Flaubert com a literatura engajada de Sartre. O seu método é o da confluência do marxismo com psicanálise, de modo que o estudo não dilua o indivíduo na sociedade. “O idiota da família” é um fracasso monumental.
Começa pela sua legibilidade. São três volumes (publicou-se aqui por enquanto o primeiro) e três mil páginas, com notas explicativas rarefeitas e mirradas indicações bibliográficas. Prossegue no seu arcabouço: “O idiota da família” é a continuação do prefácio que Sartre escreveu no final dos anos 50, intitulado “Questões de método”, para um livro de filosofia que não chegou a terminar, “Crítica da razão dialética”. E termina que o livro não termina. Ele acaba no melhor da história.
A ideia de Sartre era investigar a formação de Flaubert, da sua história familiar à constituição como prosador, e concluir o trabalho com a análise de “Madame Bovary”. A última parte não foi feita porque Sartre teve um ataque cardíaco em 1971, ficou debilitado e, posteriormente, cego. Ademais, com a radicalização desencadeada a partir da greve geral do Maio de 1968, ele aplicou na política toda a força de que dispunha. Explicou-se assim: o engajamento não é a palavra, é a ação.
O livro parte de uma pergunta singela: o que se pode saber de um homem, hoje em dia? Poderia ser qualquer homem. Sartre escolheu Flaubert porque havia inúmeros documentos sobre a vida do romancista, os 13 volumes de sua correspondência e seus primeiros escritos. E também porque, depois da incompreensão na infância ao ler “Madame Bovary”, Sartre veio a ter empatia pelo seu autor. A empatia é melhor que a simpatia e a antipatia.
Nas mãos de um biógrafo convencional, a vida de Flaubert resultaria num volume apimentado de anedotas e fofocas sobre um indivíduo de gênio, e mais um escândalo iria parar na lista dos livros bem vendidos. Com Sartre, não. Ele está longe tanto do comercialismo como do materialismo vulgar. Escreveu um romance filosófico no descrê do protagonista. Prefere chamar o indivíduo Flaubert de “universal singular” — o homem que é universalizado pela história e por sua época, pelo passado e o presente, e nele interfere por meio da sua singularidade.
A história do escritor é passada pelo crivo da psicanálise. Isso está fora de moda, mas é real: a existência precede a essência; as chagas do passado apodrecem no presente; o adulto é fruto do que lhe aconteceu na infância. Sartre mostra que o pai de Flaubert era autoritário e remoto. Já a mãe queria que na sua segunda gravidez, depois do primogênito desejado pelo patriarcalismo, viesse uma menina. Tinha até escolhido o seu nome. Seria Caroline como ela, para superar a morbidez que ela própria viveu na infância. Mas veio Gustave, e só anos depois Caroline, a queridinha.
Flaubert, o indesejado filho do meio, não foi amado pela mãe; e a imago paterna lhe era uma sombra. Desenvolveu uma apatia neurótica cujo primeiro sintoma foi a demora em ler, que só aprendeu aos 7 anos. Por isso, era chamado na família de “retardado”. Teve uma primeira crise nervosa com vinte e poucos anos, que lhe serviu de pretexto, ante o pai, para abandonar a faculdade e se recolher à Normandia, onde comporá sua obra. Sartre chama essa crise de A Queda. Considera-a uma neurose — e não epilepsia, como o grosso dos flaubertianos — e a detecta em todos os escritores franceses do Segundo Império, que é visto por uma perspectiva marxista.
Elucida-se assim o título e a ambição do livro — explicar como o iletrado e retardado da família tornou-se o grande escritor cujo tema por excelência foi a idiotia. Emma e Charles Bovary, Bouvard e Pécuchet, Félicité e Julien (que mata o pai e a mãe) são todos idiotas. Eles se iludem diante da realidade, não a veem na sua inteireza. São pessoas concretas que compartilham uma neurose.
Aí está a arte para o Flaubert de Sartre: “o conjunto de procedimentos que permitem conservar o Ser apodrecendo no álcool do Não Ser”. Ambos conseguiram fazer de si homens diferentes do que queriam a família e a sociedade, as circunstâncias e a História.
Agora é tarde. Tudo isso fracassou, existencialismo, psicanálise, marxismo. Mais: acabou a história de refazer a vida e mudar a sociedade. Flaubert e Sartre continuam vivos como exemplo de idiotas ultrapassados.
Acabou a história de refazer a vida e mudar a sociedade. Flaubert e Sartre continuam vivos como exemplo de idiotas ultrapassados
Nunca é tarde. Quarenta e dois anos depois da sua publicação chega ao Brasil “O idiota da família”, o último livro de Jean-Paul Sartre. O notável trabalho da editora L&PM e da tradutora Julia da Rosa Simões recoloca em circulação as ideias de um intelectual do século XX a respeito de um artista do XIX, Gustave Flaubert. O livro é, pois, a síntese de duas vidas maiores e de dois séculos. É o choque da arte pela arte de Flaubert com a literatura engajada de Sartre. O seu método é o da confluência do marxismo com psicanálise, de modo que o estudo não dilua o indivíduo na sociedade. “O idiota da família” é um fracasso monumental.
Começa pela sua legibilidade. São três volumes (publicou-se aqui por enquanto o primeiro) e três mil páginas, com notas explicativas rarefeitas e mirradas indicações bibliográficas. Prossegue no seu arcabouço: “O idiota da família” é a continuação do prefácio que Sartre escreveu no final dos anos 50, intitulado “Questões de método”, para um livro de filosofia que não chegou a terminar, “Crítica da razão dialética”. E termina que o livro não termina. Ele acaba no melhor da história.
A ideia de Sartre era investigar a formação de Flaubert, da sua história familiar à constituição como prosador, e concluir o trabalho com a análise de “Madame Bovary”. A última parte não foi feita porque Sartre teve um ataque cardíaco em 1971, ficou debilitado e, posteriormente, cego. Ademais, com a radicalização desencadeada a partir da greve geral do Maio de 1968, ele aplicou na política toda a força de que dispunha. Explicou-se assim: o engajamento não é a palavra, é a ação.
O livro parte de uma pergunta singela: o que se pode saber de um homem, hoje em dia? Poderia ser qualquer homem. Sartre escolheu Flaubert porque havia inúmeros documentos sobre a vida do romancista, os 13 volumes de sua correspondência e seus primeiros escritos. E também porque, depois da incompreensão na infância ao ler “Madame Bovary”, Sartre veio a ter empatia pelo seu autor. A empatia é melhor que a simpatia e a antipatia.
Nas mãos de um biógrafo convencional, a vida de Flaubert resultaria num volume apimentado de anedotas e fofocas sobre um indivíduo de gênio, e mais um escândalo iria parar na lista dos livros bem vendidos. Com Sartre, não. Ele está longe tanto do comercialismo como do materialismo vulgar. Escreveu um romance filosófico no descrê do protagonista. Prefere chamar o indivíduo Flaubert de “universal singular” — o homem que é universalizado pela história e por sua época, pelo passado e o presente, e nele interfere por meio da sua singularidade.
A história do escritor é passada pelo crivo da psicanálise. Isso está fora de moda, mas é real: a existência precede a essência; as chagas do passado apodrecem no presente; o adulto é fruto do que lhe aconteceu na infância. Sartre mostra que o pai de Flaubert era autoritário e remoto. Já a mãe queria que na sua segunda gravidez, depois do primogênito desejado pelo patriarcalismo, viesse uma menina. Tinha até escolhido o seu nome. Seria Caroline como ela, para superar a morbidez que ela própria viveu na infância. Mas veio Gustave, e só anos depois Caroline, a queridinha.
Flaubert, o indesejado filho do meio, não foi amado pela mãe; e a imago paterna lhe era uma sombra. Desenvolveu uma apatia neurótica cujo primeiro sintoma foi a demora em ler, que só aprendeu aos 7 anos. Por isso, era chamado na família de “retardado”. Teve uma primeira crise nervosa com vinte e poucos anos, que lhe serviu de pretexto, ante o pai, para abandonar a faculdade e se recolher à Normandia, onde comporá sua obra. Sartre chama essa crise de A Queda. Considera-a uma neurose — e não epilepsia, como o grosso dos flaubertianos — e a detecta em todos os escritores franceses do Segundo Império, que é visto por uma perspectiva marxista.
Elucida-se assim o título e a ambição do livro — explicar como o iletrado e retardado da família tornou-se o grande escritor cujo tema por excelência foi a idiotia. Emma e Charles Bovary, Bouvard e Pécuchet, Félicité e Julien (que mata o pai e a mãe) são todos idiotas. Eles se iludem diante da realidade, não a veem na sua inteireza. São pessoas concretas que compartilham uma neurose.
Aí está a arte para o Flaubert de Sartre: “o conjunto de procedimentos que permitem conservar o Ser apodrecendo no álcool do Não Ser”. Ambos conseguiram fazer de si homens diferentes do que queriam a família e a sociedade, as circunstâncias e a História.
Agora é tarde. Tudo isso fracassou, existencialismo, psicanálise, marxismo. Mais: acabou a história de refazer a vida e mudar a sociedade. Flaubert e Sartre continuam vivos como exemplo de idiotas ultrapassados.
Sob o edredom - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O Estado de S.Paulo - 06/02
George Orwell não foi, afinal, um mau profeta, foi apenas um profeta apressado. A sociedade controlada por um Big Brother que tudo vê e tudo sabe, que Orwell previu para 1984, só começou a existir, com os avanços da bisbilhotice eletrônica, há pouco tempo. Hoje sabemos que tudo que mandamos por e-mail ou falamos pelo telefone, mesmo que seja apenas notícia do furúnculo da vovó, pode estar sendo monitorado. Os americanos, principalmente, têm os meios para nos controlar completamente, todo o tempo, dia e noite. Não é mais o Big Brother, mas o Big Uncle, o grande tio do norte, de olho em todos nós.
No livro de Orwell uma das funções do Big Brother é a de impedir o amor entre os cidadãos. O sexo tem que ser escondido, e é quase impossível esconder-se dos olhos do grande controlador. O que torna irônico o significado que "Big Brother" adquiriu com o tempo, como sigla de TV, em todo o mundo. Um dos atrativos do programa é o prazer do voyeurismo, o de ver o que acontece quando jovens dos dois sexos, e às vezes de três, são reunidos num clima de sensualidade exposta, e o sexo é tacitamente permitido, desde que embaixo do edredom. A distopia de Orwell, do estado onipresente, até na cama, se transformou na utopia do sexo sem restrição, em que em vez de se esconder das câmeras os competidores a procuram, para aparecer mais.
O Big Uncle não deve se interessar pelo que fazemos sob o edredom. A minha vida sexual eu tenho certeza que não causa nenhum frisson em Washington. Mas em todos os outros sentidos, a profecia de Orwell foi confirmada. 1984 finalmente chegou.
O beijo. Não sei se é verdade, mas ouvi que a discussão, na Globo, sobre autorizar o não o beijo gay na novela foi mais longa e difícil do que se imagina. Havia duas facções: a que defendia beijo de língua e a que só aceitava boca fechada. Só na última, tormentosa, reunião ficou decidido: boca fechada. O Brasil ainda não está pronto para a língua.
George Orwell não foi, afinal, um mau profeta, foi apenas um profeta apressado. A sociedade controlada por um Big Brother que tudo vê e tudo sabe, que Orwell previu para 1984, só começou a existir, com os avanços da bisbilhotice eletrônica, há pouco tempo. Hoje sabemos que tudo que mandamos por e-mail ou falamos pelo telefone, mesmo que seja apenas notícia do furúnculo da vovó, pode estar sendo monitorado. Os americanos, principalmente, têm os meios para nos controlar completamente, todo o tempo, dia e noite. Não é mais o Big Brother, mas o Big Uncle, o grande tio do norte, de olho em todos nós.
No livro de Orwell uma das funções do Big Brother é a de impedir o amor entre os cidadãos. O sexo tem que ser escondido, e é quase impossível esconder-se dos olhos do grande controlador. O que torna irônico o significado que "Big Brother" adquiriu com o tempo, como sigla de TV, em todo o mundo. Um dos atrativos do programa é o prazer do voyeurismo, o de ver o que acontece quando jovens dos dois sexos, e às vezes de três, são reunidos num clima de sensualidade exposta, e o sexo é tacitamente permitido, desde que embaixo do edredom. A distopia de Orwell, do estado onipresente, até na cama, se transformou na utopia do sexo sem restrição, em que em vez de se esconder das câmeras os competidores a procuram, para aparecer mais.
O Big Uncle não deve se interessar pelo que fazemos sob o edredom. A minha vida sexual eu tenho certeza que não causa nenhum frisson em Washington. Mas em todos os outros sentidos, a profecia de Orwell foi confirmada. 1984 finalmente chegou.
O beijo. Não sei se é verdade, mas ouvi que a discussão, na Globo, sobre autorizar o não o beijo gay na novela foi mais longa e difícil do que se imagina. Havia duas facções: a que defendia beijo de língua e a que só aceitava boca fechada. Só na última, tormentosa, reunião ficou decidido: boca fechada. O Brasil ainda não está pronto para a língua.
Socuerro! A Dilma apagou a luz! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 06/02
E o ministro da Energia? O Lobão! Com aquela cara de porteiro de necrotério. Não tem energia nem pra ele!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República!
Continua a Frente Frita! Test drive pro inferno. O calor é tanto que até dá saudades daquele amigo que falava cuspindo! Rarará! E o calor é tanto que se alguém me tratar com frieza, eu até agradeço!
E atenção! Olha essa barbaridade: "Quem nunca deu um murro na cara do outro?', pergunta presidente da Gaviões da Fiel!". EU!
O cara fala como se isso fosse a coisa mais normal, já deu seu soco hoje? Campanha Gaviões da Fiel: Já Deu Seu Soco Hoje?
E o povo no Twitter: "Nunca dei, mas agora deu vontade, e olha que eu sou corintiana". "Então a polícia pode dar um murro na cara dele?" "Claro, normal, pode até levar foguete pro estádio." "Eu já tomei, serve?". Rarará. E mais: "Eu já, mas foi em treino de muay thai". Por isso que eu chamo essas torcidas organizadas de "trucidas". Trucidas organizadas!
E a manchete do Piauí Herald: "Torcedores do Corinthians protestam de punhos cerrados contra o time". Fiéis aos mensaleiros! Rarará!
E o Apagão? Foi a Cristina Kirchner que puxou um gato pra tomar um banho e apagou o Brasil. Apagão! Foi o Sarney carregando o marca-passo! Apagão! Culpa dos brasileiros que botaram todos os iPhones pra carregar ao mesmo tempo! Apagão! A Dilma apagou a luz do fim do túnel! E o ministro da Energia? O Lobão! Com aquela cara de porteiro de necrotério. Esse não tem mais energia nem pra ele. E lobão gosta de lua cheia. Luz do luar!
E o secretário dos Transportes Quebrados de São Paulo: "A pane no metrô é culpa de vândalos orquestrados". Culpou a vítima pelo estupro! E o tuiteiro elgroucho: "Vândalos orquestrados eu imagino um monte de vândalo de fraque com um vândalo de fraque e batuta na frente". Rarará! E o metrô vândalo de São Paulo: superfaturado, roubado, descarrilado, trilho podre e vagão velho! Foram os vândalos da Alstom! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha essa placa em Abaeté, Minas, num restaurante por quilo: "Atenção! Não é permitido comer duas pessoas no mesmo prato!". Gulosos sacanas. Pode comer duas pessoas. Mas em pratos diferentes. Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E o ministro da Energia? O Lobão! Com aquela cara de porteiro de necrotério. Não tem energia nem pra ele!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República!
Continua a Frente Frita! Test drive pro inferno. O calor é tanto que até dá saudades daquele amigo que falava cuspindo! Rarará! E o calor é tanto que se alguém me tratar com frieza, eu até agradeço!
E atenção! Olha essa barbaridade: "Quem nunca deu um murro na cara do outro?', pergunta presidente da Gaviões da Fiel!". EU!
O cara fala como se isso fosse a coisa mais normal, já deu seu soco hoje? Campanha Gaviões da Fiel: Já Deu Seu Soco Hoje?
E o povo no Twitter: "Nunca dei, mas agora deu vontade, e olha que eu sou corintiana". "Então a polícia pode dar um murro na cara dele?" "Claro, normal, pode até levar foguete pro estádio." "Eu já tomei, serve?". Rarará. E mais: "Eu já, mas foi em treino de muay thai". Por isso que eu chamo essas torcidas organizadas de "trucidas". Trucidas organizadas!
E a manchete do Piauí Herald: "Torcedores do Corinthians protestam de punhos cerrados contra o time". Fiéis aos mensaleiros! Rarará!
E o Apagão? Foi a Cristina Kirchner que puxou um gato pra tomar um banho e apagou o Brasil. Apagão! Foi o Sarney carregando o marca-passo! Apagão! Culpa dos brasileiros que botaram todos os iPhones pra carregar ao mesmo tempo! Apagão! A Dilma apagou a luz do fim do túnel! E o ministro da Energia? O Lobão! Com aquela cara de porteiro de necrotério. Esse não tem mais energia nem pra ele. E lobão gosta de lua cheia. Luz do luar!
E o secretário dos Transportes Quebrados de São Paulo: "A pane no metrô é culpa de vândalos orquestrados". Culpou a vítima pelo estupro! E o tuiteiro elgroucho: "Vândalos orquestrados eu imagino um monte de vândalo de fraque com um vândalo de fraque e batuta na frente". Rarará! E o metrô vândalo de São Paulo: superfaturado, roubado, descarrilado, trilho podre e vagão velho! Foram os vândalos da Alstom! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Olha essa placa em Abaeté, Minas, num restaurante por quilo: "Atenção! Não é permitido comer duas pessoas no mesmo prato!". Gulosos sacanas. Pode comer duas pessoas. Mas em pratos diferentes. Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Perigos em Sochi - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 06/02
PARIS - Sochi, às margens do Mar Negro, é uma tranquila estância balneária apreciada pelos apparatchiks - funcionários em tempo integral do Partido Comunista soviético da era de Stalin - e também pelos burocratas da época de Putin, aparentemente por ser um pequeno paraíso, com o mar, as palmeiras, as espreguiçadeiras e o ar de indolência de suas graciosas ruas.
Hoje, em razão dos Jogos Olímpicos de Inverno, a cidade abriga uma população flutuante de 100 mil militares e sua serenidade é perturbada por helicópteros e drones.
Sochi é chamada "a cidade do sol", o que não é um bom prenúncio para quem organiza competições de esqui alpino, biatlo e assim por diante. A neve é escassa este ano. Mesmo na montanha próxima onde ocorrerão as competições, a 600 metros de altitude, há penúria de neve.
Os organizadores não ligam. Suas enormes baterias de canhões de neve preparam-se para abrir fogo. E, na pior das hipóteses, poderão sempre recorrer ao estoque de neve armazenada no inverno passado, que chega a 300 mil metros cúbicos. Portanto, não há com que se preocupar. O que preocupa é outra coisa: são os atentados. Sochi está a poucas centenas de quilômetros das áreas mais perigosas da Rússia, as regiões muçulmanas do Cáucaso na direção do Mar Cáspio: Daguestão, Chechênia, Ingushétia e Kabardino-Balkaria.
Regiões bravias, que lutam desde sempre contra o Estado russo - a guerra já era endêmica na época de Tolstoi -, onde a energia e a cólera se multiplicaram com a pregação islamista que provoca grande desordem, principalmente a dos salafistas. Basta lembrar o horror da recente guerra da Chechênia.
Os atentados jamais cessaram e os Jogos Olímpicos de Sochi são uma dádiva para os terroristas, se é que se pode dizer assim. Aliás, eles o anunciaram em alto e bom som. No final de dezembro, dois ataques enlutaram a cidade de Volgogrado, deixando 34 mortos. Um mês depois, dois jovens jihadistas reivindicaram a autoria do ataque. E anunciaram outras ações. "Um presente para você, Putin, e para os turistas, para vingar o sangue dos muçulmanos", disseram. No ano passado, na República do Daguestão, as forças do governo mataram 190 islamistas radicais.
Uma expressão é particularmente temida pelos habitantes de Sochi, e mais ainda por 1 milhão de visitantes que a Olimpíada atrairá para a região: a "viúva negra". Trata-se de jovens mulheres cujos maridos foram mortos na jihad. Extremamente piedosas, um dia elas desaparecem. Mais tarde, fica-se sabendo que explodiram diante de um edifício público. Em 2010, duas jovens viúvas do Daguestão foram a Moscou, tomaram o metrô, ativaram o mecanismo e provocaram a morte de 40 pessoas.
Em Makhatchkala, capital do Daguestão, Madina Alieva, casada com um muçulmano morto em combate, detonou-se diante do Ministério do Interior, matando um homem. Inna Tcherenkova, casada com um terrorista, também se tornou famosa. Ela mudou o nome russo pelo de Mariam e foi morta pela polícia russa.
Felizmente, se há um homem que não cede ao pânico é Vladimir Putin. Ele gostaria imensamente que esses Jogos "mostrassem aos visitantes e aos jornalistas a nova Rússia, seu verdadeiro rosto, a fim de que pousasse sobre ela um olhar novo e imparcial". Não há o que temer. "Nós conhecemos perfeitamente a situação", afirmou Putin. "A menor manifestação de fraqueza de nossa parte, o menor medo, só ajudariam os terroristas a pôr em prática os seus projetos."/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
PARIS - Sochi, às margens do Mar Negro, é uma tranquila estância balneária apreciada pelos apparatchiks - funcionários em tempo integral do Partido Comunista soviético da era de Stalin - e também pelos burocratas da época de Putin, aparentemente por ser um pequeno paraíso, com o mar, as palmeiras, as espreguiçadeiras e o ar de indolência de suas graciosas ruas.
Hoje, em razão dos Jogos Olímpicos de Inverno, a cidade abriga uma população flutuante de 100 mil militares e sua serenidade é perturbada por helicópteros e drones.
Sochi é chamada "a cidade do sol", o que não é um bom prenúncio para quem organiza competições de esqui alpino, biatlo e assim por diante. A neve é escassa este ano. Mesmo na montanha próxima onde ocorrerão as competições, a 600 metros de altitude, há penúria de neve.
Os organizadores não ligam. Suas enormes baterias de canhões de neve preparam-se para abrir fogo. E, na pior das hipóteses, poderão sempre recorrer ao estoque de neve armazenada no inverno passado, que chega a 300 mil metros cúbicos. Portanto, não há com que se preocupar. O que preocupa é outra coisa: são os atentados. Sochi está a poucas centenas de quilômetros das áreas mais perigosas da Rússia, as regiões muçulmanas do Cáucaso na direção do Mar Cáspio: Daguestão, Chechênia, Ingushétia e Kabardino-Balkaria.
Regiões bravias, que lutam desde sempre contra o Estado russo - a guerra já era endêmica na época de Tolstoi -, onde a energia e a cólera se multiplicaram com a pregação islamista que provoca grande desordem, principalmente a dos salafistas. Basta lembrar o horror da recente guerra da Chechênia.
Os atentados jamais cessaram e os Jogos Olímpicos de Sochi são uma dádiva para os terroristas, se é que se pode dizer assim. Aliás, eles o anunciaram em alto e bom som. No final de dezembro, dois ataques enlutaram a cidade de Volgogrado, deixando 34 mortos. Um mês depois, dois jovens jihadistas reivindicaram a autoria do ataque. E anunciaram outras ações. "Um presente para você, Putin, e para os turistas, para vingar o sangue dos muçulmanos", disseram. No ano passado, na República do Daguestão, as forças do governo mataram 190 islamistas radicais.
Uma expressão é particularmente temida pelos habitantes de Sochi, e mais ainda por 1 milhão de visitantes que a Olimpíada atrairá para a região: a "viúva negra". Trata-se de jovens mulheres cujos maridos foram mortos na jihad. Extremamente piedosas, um dia elas desaparecem. Mais tarde, fica-se sabendo que explodiram diante de um edifício público. Em 2010, duas jovens viúvas do Daguestão foram a Moscou, tomaram o metrô, ativaram o mecanismo e provocaram a morte de 40 pessoas.
Em Makhatchkala, capital do Daguestão, Madina Alieva, casada com um muçulmano morto em combate, detonou-se diante do Ministério do Interior, matando um homem. Inna Tcherenkova, casada com um terrorista, também se tornou famosa. Ela mudou o nome russo pelo de Mariam e foi morta pela polícia russa.
Felizmente, se há um homem que não cede ao pânico é Vladimir Putin. Ele gostaria imensamente que esses Jogos "mostrassem aos visitantes e aos jornalistas a nova Rússia, seu verdadeiro rosto, a fim de que pousasse sobre ela um olhar novo e imparcial". Não há o que temer. "Nós conhecemos perfeitamente a situação", afirmou Putin. "A menor manifestação de fraqueza de nossa parte, o menor medo, só ajudariam os terroristas a pôr em prática os seus projetos."/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
Fazendo a cabeça - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 06/02
Mais de cinco mil pessoas já deram seu “voto de apoio”. Se alcançar 20 mil, a proposta será apreciada pela Comissão de Direitos Humanos da casa.
Dupla maternidade
Um casal de mulheres garantiu o direito de ter o nome das duas como mães no registro de uma criança gerada por reprodução assistida com espermatozoide de doador anônimo.
A decisão é da 20ª Câmara Cível do Rio.
Nelson 70
O jornalista e compositor Nelson Motta vai ser tema de documentário. Coproduzido pelo Canal Brasil, “Nelson 70” será dirigido por Guto Barra e Tatiana Issa.
Merece.
Bruna e Neymar
Em um trote na ESPM, ontem, os alunos tiveram que ir fantasiados. Um deles foi vestido de Neymar e chegou com três louras.
Ao lado, sua acompanhante foi “fantasiada” de Bruna Marquezine, namorada do craque. Ela levava uma placa, brincando com a personagem de Bruna na novela “Em família”: “A Helena sempre sofre.”
Baixaria
O MPF do Rio recebeu, dia destes, uma representação contra Cássio Lannes, do BBB 14. Ele é mais uma vez acusado de racista ao dizer, meio à brinca, meio a sério, que uma negra morreu depois de transar com ele, por causa do tamanho de seu pênis:
“E eu pensei: afrodescendente... pô, aguenta tudo. E eu atravessei (ela)”, disse Lannes.
Que horror! Brasil exporta golpe
A coleguinha Janaína Figueiredo, repórter do GLOBO em Buenos Aires, recebeu um telefonema assustador na madrugada de ontem. Bandidos, aos berros, diziam estar com um filho dela.
Mas era a versão argentina daquele velho golpe do falso sequestro.
Aliás...
Umas meninas americanas brincaram, semana passada, de rolezinho no Aventura Mall, em Miami. Foi assim: elas viram um brasileiro, agacharam e deram um gritinho.
Por fim, perguntaram se estavam iguais às meninas daqui.
Trio de ouro
“Sonho grande”, livro sobre a saga dos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, donos da Ambev, acaba de ser lançado em Portugal.
E já está entre os mais vendidos lá. No Brasil, vendeu 170 mil cópias.
Aliás...
A Rádio Finanças estima entre R$ 50 e 100 milhões o valor que Pipo, como é conhecido Jorge Felipe Lemann, filho do lendário Jorge Paulo, vai receber pela venda de sua parte no Banco Plural.
Chuva de camisinhas
A turma do canal Sexy Hot vai distribuir 15 mil camisinhas no desfile do bloco Fogo & Paixão, dia 23, no Largo de São Francisco. Elas vêm com mensagens.
Veja duas delas: “Plastifico documentos” ou “Longe de mim querer colocar pressão, mas eu tenho prazo de validade, tá?”.
Faz sentido.
Cadeira cativa
Os proprietários das cadeiras cativas do Maracanã vão receber hoje seus cartões personalizados da Superj, segundo o secretário André Lazaroni.
As carteiras permitirão o acesso ao estádio a partir do próximo jogo.
‘Waiting for you’
Paula Lavigne vai produzir e dirigir o clipe da nova música de trabalho do grupo Jota Quest, “Waiting for you”.
Camarote Brahma
Tiago Abravanel e Preta Gil assinaram contrato com a Brahma.
Os dois vão fazer o show da festa de abertura de carnaval que a cervejaria comanda dia 18, para 400 convidados, no Maracanã. O nome será Abre-Alas Camarote Brahma 2014.
Já...
O camarote do Supermercados Guanabara, que ano passado ganhou destaque na Sapucaí, este ano pretende receber mil pessoas por noite num espaço com cerca de 3 mil m2.
Delegata
A delegada Monique Vidal assumirá a 14ª DP (Leblon).
Conhecida como delegata, ela estava na delegacia do Catete.
Recalque - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 06/02
CONTA DE LUZ
O governo de São Paulo deve ir à Justiça contra a administração de Dilma Rousseff. A ação vai pedir R$ 1,9 bilhão de indenização pelo fim da concessão da usina Três Irmãos.
NO BARCO
Os dois governos entabularam negociação há alguns meses para tentar chegar a um valor consensual. O secretário de Energia de SP, José Aníbal (PSDB-SP), apresenta uma conta de R$ 3,6 bilhões, incluindo no valor as eclusas que foram construídas na usina. O ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, diz que paga a metade: as eclusas fariam parte do transporte fluvial.
NO BARCO 2
"Fizemos um cálculo usando critérios adotados mundialmente", diz Márcio Zimmermann, secretário-executivo de Minas e Energia. Com as negociações empacadas, Aníbal afirma que SP "vai entrar com a ação".
VOU DE ÔNIBUS
Lula deve embarcar no ônibus da campanha de Alexandre Padilha (PT-SP), que pode sair de Brasília nos próximos dias para trazer o candidato a SP. O veículo foi adaptado para ser a "casa" de Padilha quando ele viajar pelo interior do Estado.
CONTA
O Ministério Público manteve a investigação contra Antonio Donato (PT-SP) pela suspeita de envolvimento com a máfia do ISS. A defesa do vereador solicitou o arquivamento do inquérito, mas o conselho superior do órgão rejeitou o pedido por unanimidade. Os promotores querem verificar se o patrimônio de Donato aumentou.
CONTA 2
Donato declara, via assessoria de imprensa, que "sempre esteve e continua à disposição do Ministério Público para qualquer investigação". Ele nega ter recebido dinheiro do grupo.
NO TOPO
"Adele, Live at the Royal Albert Hall", da cantora Adele (Sony Music), atingiu a maior marca de vendas de DVD no país, com mais de 840 mil unidades comercializadas desde o lançamento.
Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos, o registro já ganhou seis discos de diamante e mais 19 de platina.
SAPECADA
A propaganda em que uma mulher diz ao marido que está "sapecando" uma colega de trabalho dele virou alvo de investigação pelo Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). O órgão recebeu queixas de ao menos dez consumidores reclamando de "desrespeito ao núcleo familiar", "abordagem agressiva" e "estímulo à traição" no anúncio do H2OH! Limoneto.
SAPECADA 2
Mariana Hein, atriz que faz a campanha "Affair", criada pela agência AlmapBBDO, diz que o objetivo foi apenas fazer uma abordagem bem-humorada. "Ninguém foi desrespeitoso em nenhum momento. Tivemos cuidado, bom gosto." A PepsiCo, fabricante do produto, afirma ainda não ter sido notificada pelo Conar. O caso deve ser julgado no mês que vem.
BROCHURA
Danilo Gentili vai lançar o "Guia Politicamente Incorreto do Humor".
O apresentador e humorista acaba de fechar contrato com a LeYa para assinar o título da coleção best-seller da editora.
SOM E RISO
E o ator e comediante carioca Fábio Porchat pode ganhar o título de cidadão paulistano.
A proposta é do presidente da Câmara Municipal, José Américo (PT).
DO CROISSANT AO PÃOZINHO
O publicitário Erh Ray recebeu convidados em seu apartamento para comemorar a chegada da agência de publicidade francesa BETC a São Paulo. Christian Gebara, da Vivo, com a mulher, a consultora de imagem Luciana, e a relações-públicas Fabiana Pastore estiveram na festa. O casal de empresários Marina e Fabiano Al Makul, o executivo Guy Hayward e Fabiola Kassain também foram à reunião.
CURTO-CIRCUITO
A exposição "Flávio de Carvalho: a Experiência como Obra" abre hoje, às 10h, na Oca, no Ibirapuera.
No MIS, será lançada hoje antologia da revista "Souza Cruz", organizada por Marcio Debellian.
A Cia Luna Lunera inicia temporada hoje no Sesc Santo Amaro com a peça "Cortiços", às 21h. 16 anos.
Aydano Motta autografa "Blocos de Rua do Carnaval do Rio de Janeiro - Volume 2", hoje, às 19h, no Leblon.
Assinar:
Postagens (Atom)