segunda-feira, outubro 07, 2013

O "x" da questão - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 07/10
O leitor há de estranhar que me volte para um problema que vem se desdobrando de maneira dramática, senão patética, originalmente de natureza privada, embora de repercussão pública. Pois é exatamente por este motivo que me arrisco a enfrentar o caso Eike Batista.

Um empresário, possuidor de uma das maiores fortunas do mundo, de poderosa criatividade. Por onde passava, empresas nasciam, cresciam, ganhavam identidade na bolsa, e os resultados eram festejados de antemão; enfim, um futuro promissor, tanto mais expressivo quando o quadro indicava sinais de retração.

Eis senão quando uma espécie de terremoto atingiu em cheio aquele mundo de maravilhas. Sem entrar em pormenores, partindo do que vem sendo divulgado pela totalidade dos meios de comunicação, lamento o desastroso insucesso do empreendimento econômico, laureado ontem, flagelado hoje. Jornais não hesitaram em dizer tratar-se do maior calote do século e a fortuna do empresário passou a ser uma sombra do que era, dado revelador da facilidade em vender sonhos. Obviamente, o bom sucesso não nasceu no vácuo, mas em meio no qual é relevante um sistema bancário. Outrossim, é da natureza do ofício do banqueiro a posse de qualidades específicas, porque o risco faz parte do seu dia a dia e ele não pode ser o último a saber da catástrofe. Ao sistema bancário parece que nada de estranho embaciava o singular esplendor do bilionário. Mais não posso dizer porque os negócios não se noticiam, "o segredo é a alma do negócio". Mas há outro aspecto. O sistema financeiro estatal entre nós apresenta inegável relevância, chegando a financiar obras em países da América do Sul e até Cuba, por exemplo. Também foi noticiado que o Grupo Eike Batista, agora em declive notório, é um dos grandes financiados pelo BNDES.

O Banco é destinado a ser instrumento do governo federal para fomentar o desenvolvimento econômico e social do país, sua natureza e particularidade são inseparáveis de sua origem e destinação; ainda agora, o ministro da Fazenda anunciou um reforço ao BNDES. O financiamento do grupo Eike Batista pelo BNDES, em condições que banqueiros não poderiam ignorar, não deixa bem o governo. A direção do Banco não pode fazer generosidade para uma das maiores fortunas do mundo sem as reservas de estilo. O mesmo se pode dizer, mutatis mutandis, em relação à Petrobras, que passou, está passando e ainda vai passar por enormes dificuldades. A maior empresa do Brasil fez coisas que não podia fazer, a compra em condições onerosas e a venda em condições perniciosas de uma refinaria em território americano. Foi tão flagrante o abuso, que, até onde sei, não houve quem se arvorasse em defensor da traficância.

O castelo de areia ruiu de uma hora para outra. Não sei se os bancos privados não amargaram grandes perdas, mas o BNDES, por ter sido o grande financiador do grupo Eike Batista, seria o principal prejudicado. Incompetência? Irresponsabilidade? Ufanismo inconsequente? Como o caso da Petrobras, o do BNDES é tão chocante, que autoriza deduções menos decorosas. Esse o x da questão.

Autonomia de verdade - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 07/10

SÃO PAULO - Há 25 anos, o governador Orestes Quércia vinculou o custeio das três universidades públicas paulistas a uma cota do ICMS. O mecanismo, que hoje destina às instituições R$ 9,57 de cada R$ 100 recolhidos pelo imposto ao cofre estadual, foi festejado como marco da autonomia universitária no Brasil.

Estranha comemoração. Tratou-se apenas de regularizar o repasse de verbas a USP, Unesp e Unicamp. A dependência do Tesouro estadual continuou firme. Dependência é antônimo de autonomia.

Comemorar essa forma mais regular de submissão revela também a inclinação varguista da nossa melhor elite universitária. Contenta-se em proteger o seu quinhão, impedindo que seja abocanhado por outros lobbies com acesso ao poder.

A sociedade se moderniza, entretanto. Poderá questionar por que as universidades têm esse privilégio, diante de necessidades abissais de recursos na saúde e no ensino básico. Essa demanda legítima, fincada na concepção universal dos direitos, desafiará o velho corporativismo.

USP, Unesp e Unicamp não estão se preparando para a hipótese dessa reviravolta, o que significaria pleitear um modelo de emancipação substantiva.

Universidade autônoma não depende só do governo. Financia-se na sociedade, oferecendo em contrapartida a excelência no ensino e na pesquisa como ativos intangíveis e imprescindíveis para o progresso de indivíduos, famílias e do país.

É escandalosa a gratuidade oferecida por uma instituição como a USP a famílias capazes de desembolsar R$ 50 mil anuais para custear a educação dos filhos. A universidade autônoma de qualidade cobra caro dos alunos que podem pagar, financia os remediados e isenta os demais.

Universidade autônoma também busca na sociedade as doações desinteressadas de indivíduos abastados. Num Estado rico como São Paulo, existem milhares deles.

A praga - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 07/10

A questão é política, por dizer respeito precisamente ao modo de relacionamento da pessoa com a coisa pública



A burocracia é uma verdadeira praga na vida do brasileiro. Até morrer se torna difícil, dados os trâmites burocráticos que envolvem o falecimento de uma pessoa. Um cidadão quando comparece a um guichê público enfrenta filas, frequentemente descaso, e deve preencher um monte de requisitos, alguns simplesmente duplicados, porque um outro órgão público já possui a informação. Uma prefeitura, por exemplo, exige do cidadão uma informação que outro departamento da mesma prefeitura já detém. Isto vale, igualmente, para as esferas estaduais e federal.

Perde-se, desta maneira, a noção, absolutamente central, de que a burocracia deveria ser um instrumento de atendimento a reivindicações e demandas dos cidadãos, ajudando-os a dar conta de trâmites administrativos. Por definição, estes deveriam ser simples, precisamente para simplificar a vida de todos. Burocracia é meio, instrumento, e não um fim em si mesmo.

Há aqui envolvido todo um conceito de cidadania e de relação da sociedade com o Estado. Não se trata de algo trivial, uma mera questão secundária, mas algo que se situa como central na vida de cada um. No melhor sentido da palavra, a questão é política, por dizer respeito precisamente ao modo de relacionamento da pessoa com a coisa pública.

A burocracia não deveria ser um instrumento alienante, que afasta o indivíduo do cumprimento de suas obrigações, em boa parte dos casos por absoluta falta de possibilidade de atendê-las. Não espanta que a informalidade seja tão grande em nosso país. E isto se deve a que a formalização para muitos é um verdadeiro calvário.

Neste sentido, deve ser extremamente bem-vindo o projeto em curso da Secretária da Micro e Pequena Empresa, conduzida pelo ministro Guilherme Afif Domingos, de levar para esse setor do empresariado todo um processo de simplificação de suas vidas. O Simples, sendo redundante, deveria ser simplificado! Normalmente, dever-se-ia simplificar o complexo, mas essa não é a realidade para esses empresários e, de modo mais geral, para os empresários em geral. O aparente paradoxo não deixa de ser significativo.

Observe-se, preliminarmente, que esse setor da economia nacional abrange 7 milhões de unidades de negócio. Se a modernização administrativa for introduzida para os micros e pequenos empresários, liberando-os de suas pesadas cargas burocráticas, poderia ser criado um emprego por empresa, impactando em torno de 22% a taxa de emprego privado no país. Considerando, ademais, que o emprego de uma pessoa envolve toda uma família, digamos 4 pessoas, tal iniciativa poderia atingir 28 milhões de pessoas, transformando essencialmente as suas vidas.

No estágio atual, vigora nesse setor um tipo de economia mercantilista, com as pessoas tendo os seus pés amarrados aos grilhões da regulamentação burocrática. O avanço a ser feito consiste em uma liberação rumo à economia de mercado propriamente dita, e, mais precisamente ainda, uma economia de tipo digital.

O artigo 179 da Constituição Federal já prevê a simplificação para esse setor nos domínios administrativo, tributário, previdenciário e creditício, garantindo-lhe um tratamento diferenciado. Ora, no momento de fazer valer a Constituição, como frequentemente ocorre em nosso país, há leis e regulamentações administrativas que terminam invalidando ou seriamente obstaculizando o que é constitucionalmente garantido.

Há mesmos casos em que governos estaduais, para abastecerem os seus cofres, fazem legislações complementares que impedem que valha o que uma lei federal assegura, como é o caso da substituição tributária. Ou seja, os benefícios do Simples nacional foram praticamente anulados na esfera burocrática estadual. Há uma espécie de lei aqui envolvida, a saber, a toda desburocratização sucede uma nova burocratização, como se o ganho da livre iniciativa devesse ser contrabalançado com a sua anulação. É a lei brasileira da gravitação burocrática!

Outra proposta que está sendo apresentada reside na efetiva universalização do Simples, que passaria a valer não apenas para um tipo de atividade, mas para todas as atividades econômicas, sendo limitado apenas pelo porte das empresas. O setor de serviços, no caso, passaria também a ser contemplado, fazendo justiça a todo um setor importante e dinâmico da economia nacional. Se um empresário fatura até R$ 3,6 milhões, ele estaria imediatamente incluído no Simples, pois o que conta é o tamanho.

Outro ponto igualmente relevante consiste na concessão de crédito para bens de produção, poderoso instrumento de alavancagem de empresas. Sem investimentos, uma empresa não cresce nem pode se modernizar, em uma economia mundial concorrencial e em constante mutação tecnológica.

Ocorre que, em nosso país, o crédito é privilegiadamente direcionado para bens de consumo. Um carro, uma televisão e um fogão, por exemplo, contam com condições de crédito que podem se estender sobre vários anos. Agora, investir em uma máquina, nova ou usada, exige pagamento à vista. Não há economia que possa avançar, com força e progressivamente, com esse tipo de contrassenso.

A abertura e o fechamento de empresas, algo fundamental em uma economia dinâmica, não poderiam estar submetidos às vicissitudes de uma teia burocrática que tudo captura e imobiliza. Se um empresário informal procura se formalizar, ele termina caindo em uma rede de cartórios e certidões, onerando a sua atividade e fazendo com que ele perca um tempo precioso. Surge o medo da formalização, sentimento contrário ao de um verdadeiro empreendedorismo. Trâmites poderiam, por exemplo, ser centralizados na Junta Comercial, em um processo transparente e digital, válido para todos os órgãos públicos. O cidadão seria contemplado e a economia nacional disto se beneficiaria.

O que está em questão é se o Brasil vai ou não se dirigir rumo a uma efetiva concretização de uma economia de mercado, da livre iniciativa e da liberdade de escolha, ou se prefere continuar refém de sua tradição cartorial.

O custo da Lei Anticorrupção - RAFAEL VÉRAS DE FREITAS

O GLOBO - 07/10

A Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846, de 01 de agosto de 2013) só entra em vigor em 29 de janeiro de 2014, mas já vem causando preocupações em diversas empresas que se relacionam com o Poder Púbico. Isso porque os atos de corrupção nela tipificados são considerados muito abertos , como frustrar o caráter competitivo de licitações ou manipular o equilíbrio financeiro de contratos celebrados com a administração pública.

A nova lei tem fundamento constitucional no princípio da moralidade administrativa, mas difere de outras, como a Lei de Improbidade Administrativa, ao não ter o viés de penalizar o agente público corrupto. O objetivo é inibir que agentes privados financiem a prática de tais ilícitos. No entanto, é preciso tomar cuidados para evitar condenações arbitrárias.

Um dos pontos mais polêmicos diz respeito à previsão de que as pessoas jurídicas serão responsabilizadas objetivamente - independentemente da existência de culpa - pelos atos de corrupção praticados em seu interesse. Deve-se destacar que a responsabilidade objetiva não se confunde com a responsabilidade pelo risco integral. Ou seja, se a empresa acusada de atos de corrupção provar que não houve violação à ordem jurídica, ou que tal evento não decorreu da conduta de seus representantes, não há que se falar na aplicação das sanções previstas.

Por outro lado, é digna de nota a previsão no sentido de atenuar a penalização do infrator, caso seja constatada a existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades, além da aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta. Isso carece de regulamentação, mas vai ajudar a prevenir a corrupção, ao fazer com que as pessoas jurídicas adotem mecanismos de Accountability e de transparência dos atos práticos pelos seus prepostos que lidam diretamente com agentes públicos. É isso que tem mobilizado as empresas.

Importado do Direito Concorrencial, o Acordo de Leniência é outra novidade que vale destacar. Segundo ele, a pessoa jurídica acusada poderá ter reduzidas as sanções administrativas, caso colabore com as investigações no processo administrativo. Tudo isso leva a crer que a Lei Anticorrupção efetivamente vá surtir efeitos. Não obstante, se não for corretamente aplicada, propiciará um aumento na burocratização da gestão empresarial e, por consequência, do Custo Brasil . Isso não só tem o potencial de afastar investidores, como o de, por mais paradoxal que possa parecer, aumentar a corrupção.

A limonada de Marina - OCTÁVIO COSTA

BRASIL ECONÔMICO - 07/10

Quando voltou do exílio em 1979, Leonel Brizola trazia na cabeça o projeto de refundar o Partido Trabalhista Brasileiro, legenda criada por Getúlio Vargas e herdada por João Goulart. A ideia de resgatar a história havia sido debatida com companheiros em Portugal e constava da chamada Carta de Lisboa, com 150 signatários, entre eles dez deputados federais. Os militares, porém, trataram de sabotar os planos de Brizola. Incentivada pelo general Golbery do Couto Silva, chefe da Casa Civil do governo João Figueiredo, a ex-deputada Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio, entrou com processo na Justiça Eleitoral reivindicando o legado do trabalhismo. No dia 12 de maio de 1980, o TSE deu ganho de causa a Ivete, sepultando o sonho do cunhado de Jango. Inconformado, Brizola chorou em público, rasgou um papel com as letras do PTB, mas não entregou os pontos. Quatorze dias depois, fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e voltou à cena política, frustrando o maquiavelismo de Golbery.

Os tempos são outros e o Brasil vive na plenitude do Estado de Direito. Mas o episódio da criação da Rede Sustentabilidade pela ex-senadora Marina Silva guarda semelhança com a experiência brizolis-ta. Segunda colocada nas pesquisas de opinião para a disputa presidencial do ano que vem, Marina pretendia investir na nova legenda para marcar a diferença com a política hoje praticada no país. Com a sigla independente, ficaria mais afinada com o sentimento de mudança das manifestações de junho. A estratégia era correta, mas enfrentou resistência entre os burocratas que mandam nos cartórios eleitorais. Quase cem mil assinaturas pedindo a criação do partido foram rejeitadas, sem explicações. Curiosamente, os mesmo cartórios inflexíveis com as assinaturas da Rede aceitaram a presença até de mortos no processo do Solidariedade, além do pagamento de R$ 2,00 por assinatura obtida pelos militantes do PROS. Houve, sem dúvida, critérios distintos. Mas a Justiça é cega. O registro oficial exigia 482 mil adesões e a Rede só conseguiu comprovar 440 mil. Seu pedido foi fulminado pelo plenário do TSE, por 6 votos a 1.

Os adversários de Marina reagiram em festa. Houve gente do PT que apressou-se a afirmar que a eleição do ano que vem, sem a ex-ministra do Meio Ambiente no páreo, seria um passeio de Dilma Rousseff. A atual presidente não daria nenhuma chance a Aécio Neves e Eduardo Campos e ganharia fácil no primeiro turno. Porém, eles confundiram a vontade com a realidade. Sequer esperaram pelo próximo passo de Marina para concluir que, sem a legenda, ela era carta fora do baralho. Mas, como Leonel Brizola em 1980, Marina Silva soube transformar o limão em limonada. Mais do que isso: mostrou que não é tão ingênua quanto parece. Sua decisão, eminentemente pessoal, de se filiar ao PSB, do governador Eduardo Campos, pegou o mundo político de surpresa pela ousadia. "A minha decisão foi de não ficar carimbada como aquela que tentou criar um partido e foi abatida na pista e foi atrás de uma sigla de aluguel", afirmou.

Em questão de horas, a ex-ministra se refez da derrota e voltou rapidamente ao jogo da sucessão. Ela é carta de peso e ainda vai dar muito trabalho aos responsáveis pela campanha de reeleição de Dilma Rousseff. Que fique a lição: a corrida é de longa distância. E não permite comemorações antecipadas.

SOBE E DESCE

Sobe
O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, afirmou que pretende implantar pistas de atletismo oficiais e piscinas olímpicas em todas as capitais brasileiras. Onde já houver, o governo vai construir instalações mais modernas.

Desce
Ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda assinou, discretamente, a ficha de filiação ao PR. Chefe do mensalão do DEM, Arruda teve o mandato cassado e foi o primeiro governador preso.

Reformas ineficazes - ALOYSIO NEVES E RODRIGO TÁVORA

O GLOBO - 07/10

O Estado brasileiro é um agente econômico expressivo, demandando bens e serviços em uma escala cada vez mais intensa para a consecução de seus objetivos. Esse crescimento no número de contratações públicas, no entanto, não é acompanhado por uma necessária busca de eficiência, situação essa que os gestores públicos atribuem em grande medida às dificuldades criadas pela legislação vigente. Apregoa-se, em particular, que a reforma da lei que estabelece as normas gerais sobre licitações e contratações públicas servirá como tábua de salvação na busca da eficiência. Mas será mesmo esse o caminho?

Sem dúvida o excesso de regulação reduz o campo de liberdade de ação do agente público, mas não há necessariamente uma relação de causa e efeito entre regulação e corrupção. O excesso de formalismo não foi capaz de conter a corrupção em nosso País. Ao contrário, práticas perniciosas como a utilização do jogo de planilhas de forma a justificar o aumento do valor dos contratos - e os sucessivos aditivos daí decorrentes - tornaram-se externalidades recorrentes nas contratações públicas. E o que é mais grave: essa regulação excessiva também não permitiu que agentes públicos honestos buscassem a forma mais eficiente de contratação.

O que se busca aqui sugerir é que já há na legislação vigente inúmeras normas que permitem assegurar maior eficiência nas contratações públicas. Tendo como marco inicial a Lei 8.666/93, a disciplina jurídica das contratações foi sendo agregada por outros diplomas normativos, a exemplo da Lei do Pregão, da Lei das Parcerias Público-Privadas e da Lei do Regime Diferenciado de Contratações Públicas, formando um estatuto jurídico das contratações públicas. Inúmeras inovações normativas, tais como a utilização de meios eletrônicos e a permissão de negociação mesmo após a apresentação da proposta, aumentam sobremaneira a competitividade e a eficiência nas contratações. As leis apontadas não se restringem a modificar a disciplina conferida pela Lei 8.666/93, e sim adensam o conteúdo do estatuto.

Por outro lado, o fomento à atuação dos órgãos de fiscalização e controle - destacadamente os Tribunais de Contas - é essencial para que se busque uma maior eficiência nas contratações públicas e na própria prestação de serviços. Não raro se observam reduções significativas nos preços quando realizada análise preventiva dos editais pelos Tribunais de Contas. A eliminação de itens impertinentes e a redução de unidades de custo - com a adoção de parâmetros mais apropriados - são práticas recorrentes nesse tipo de fiscalização, que também se estende à execução dos contratos.

Esse caminho não se revela tão sedutor como o trilhado pelos defensores de uma messiânica reforma legislativa. Mas, sem dúvida, é um caminho possível para a desburocratização dos contratos públicos e a busca de maior eficiência.

Contas reprovadas - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 07/10

Escrevo neste domingo de Nova York, onde estou para proferir palestra a investidores internacionais interessados nas oportunidades e nos potenciais da América Latina.

Por aqui ainda repercute a decisão da Moody's, uma das principais agências globais de classificação de risco do mundo, de piorar a perspectiva da dívida pública brasileira de "positiva" para "estável".

O mais grave é que a decisão ocorre pouco mais de quatro meses após a Standard & Poor's, outra grande agência de classificação de risco, ter rebaixado a perspectiva de "estável" para "negativa".

A Moody's foi mais longe ao também rebaixar a nota da Petrobras, exatamente no dia em que ela comemorava 60 anos de fundação, mergulhada na maior crise de sua história.

Antes que venham as desculpas oficiais de sempre, denunciando "conspirações" contra o governo e o PT, convém examinar as razões apresentadas pelas agências.

Elas apontam como causa principal a crescente deterioração das contas públicas brasileiras, geridas sem compromisso com a austeridade e a qualidade dos gastos públicos.

Também se preocupam com o crescimento pequeno da economia após 2010 e especialmente com as manobras fiscais das quais o governo se utiliza para tentar fechar suas contas. É a chamada contabilidade criativa, cuja face mais visível é a promíscua relação entre o Tesouro Nacional e os bancos públicos.

A desconfiança dos brasileiros, expressa nos diversos índices que medem o ânimo de empresários e de consumidores, alcança os investidores internacionais, que se afastam do país devido também à incerteza dos marcos regulatórios, como mostram as dificuldades dos leilões de concessões para estradas e exploração do petróleo do pré-sal.

A revista "The Economist" trouxe importante reportagem em que ampliou, para público que ultrapassa o círculo fechado dos especialistas, os questionamentos sobre as dificuldades enfrentadas pelo Brasil.

A decisão da Moody's é um alerta que não deve ser subestimado. Nosso entendimento é o de que é hora de enfrentar desafios que não podem mais ser adiados, adotando-se iniciativas capazes de produzir resultados no curto prazo, criando bases sólidas também para médio e longo prazos.

Pelo menos quatro desafios precisam ser superados para ampliar a produtividade e a competitividade da economia brasileira --a simplificação do nosso sistema tributário, a qualificação da educação e da nossa mão de obra; maior integração internacional e a adoção de políticas públicas de incentivo à inovação.

Por estes caminhos, com certeza é possível construir um país diferente daquele que a comunidade financeira internacional --e grande parte dos brasileiros-- enxerga hoje.

A Constituição traída - PAULO DELGADO

O GLOBO - 07/10

Governar passou a ser mudar a Carta. Um revisionismo permanente, um Legislativo avaro em boas leis, um Executivo pródigo em qualquer lei, um Judiciário que assombra o país com tantas interpretações da lei



A Constituinte foi convocada para moderar a ira social, resolver o impasse do esgotamento do modelo econômico e conduzir o país ao estado de direito. Visou a impedir que o processo político confrontasse o sistema ditatorial moribundo com o sistema civil que emergia pela via eleitoral.

A Constituinte buscou, de forma barulhenta, confusa e pelo caráter generoso e distributivista de suas ideias socioeconômicas, se harmonizar com o sentimento da sociedade. A uma época de máxima restrição seguiria outra com o máximo de direitos. Contudo, uma traição original marca até hoje o presidencialismo brasileiro dali derivado.

Com base na Constituição da ditadura, as decisões políticas relevantes foram antecipadas para esvaziar a possibilidade de mudança real via Constituinte. O país foi embriagado com eleição presidencial direta, voto do analfabeto, legalização de partidos: o novo, vestido na roupa velha; e ficamos contaminados com esse eleitoralismo sem fim onde o eleitor precisa de senha para entender o jogo jogado. Sem poder tocar na política velha, que nunca morreu, a Constituinte ousou socialmente: tentou colocar o Estado a serviço da sociedade.

Assim, o texto não começa com a definição dos poderes, mas com o rol dos direitos individuais e coletivos. Deveres do Estado para com a sociedade, prevalência do cidadão como sonha o SUS e consagra o Código de Defesa do Consumidor.

Mas a alma cidadã da Constituição é sempre traída quando vira política de governo. Governar passou a ser mudar a Constituição. Um revisionismo permanente, um Legislativo avaro em boas leis, um Executivo pródigo em qualquer lei, um Judiciário que assombra o país com tantas interpretações da lei!

O Ministério Público, nossa maior ousadia de constituintes, glamourizou-se e acha pouco o que lhe demos. Com independência institucional, sente-se árbitro da legitimidade da lei e julgador de seu conteúdo; invade doutrinariamente a competência da vida civil para resolver conflitos. Tornou-se polícia de costumes. Interpreta a Constituição — ao contrário de ser interpretado por ela — e fez-se parte da hierarquia dos três poderes em competição aberta com o Judiciário e o Executivo. Ruma para um gigantismo sem sentido, inunda o Estado com sua presença, faz-se cego à compreensão de que a sociedade também é capaz de reconhecer, respeitar, conviver e defender seus direitos.

A Constituição atual é um texto da arte de vitral. Introduziu tantos intermediários entre o povo e o Estado que levou o país à dependência civil de caráter geral como se só houvesse vida útil no Estado e suas autoridades.

Por isso a Constituição não assegurou acumulação de energia capaz de levar ao livre progresso da Nação. Grudou na sociedade, como goma arábica, tutelou a economia, paralisou a ousadia civil. Estatizou o cidadão, a arte, prosperidade, família, trabalho e a compaixão. Levou os jovens a abandonarem sonhos para serem funcionários públicos, qualquer posto ou função, para ali, concursados, remunerados, adoecerem privilegiados.

De anões e tratores - JOSE ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 07/10

"Dilma vai ganhar no primeiro turno porque ocorrerá uma antropofagia de anões. Vão se comer lá embaixo, e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo". O momento pitonisa foi de João Santana, o marqueteiro de Lula e Dilma Rousseff, para a revista Época, pouco antes de a chapa "EduMarina" ser anunciada.

Apesar de fazer previsões, Santana não tem bola de cristal. Nem ele nem ninguém anteviu que Eduardo Campos levaria Marina Silva para o seu PSB. O governador pernambucano cevou a adversária com discrição, para só dar a fisgada na última hora. Pegou-a pela fígado: ofereceu-lhe uma boa chance de vingar-se do PT, de Lula e de Dilma sem perder a pose nem o discurso - só a autonomia.

Os ditos anões não se comeram, se somaram. O resultado da operação é imprevisível. Pode ser uma potência ou uma subtração. Tudo depende de como o eleitor vai perceber a fusão. Se Marina potencializar Eduardo, a candidatura de Aécio Neves (PSDB) perde estatura. Mas Dilma ganhará um problema. Mais um, diga-se, se o marqueteiro traduziu bem o estado de espírito presidencial.

O que mais chama a atenção na frase de Santana não é verbo nem substantivo, mas o adjetivo com que descreveu Dilma. O Houaiss define "sobranceira": "que encara as pessoas com superioridade; arrogante". Não há melhor receita para a autofagia dos gigantes.

Por que tamanha sobrançaria?

Enquanto Marina se enredava num drama existencial-partidário, Dilma acelerava a campanha eleitoral. Literalmente. A presidente doou 7.326 máquinas pesadas para quatro de cada cinco prefeituras do Brasil. Mais de 6 mil foram entregues este ano. Há outras 11 mil para ela entregar antes da eleição. Tenta tratorar a oposição.

A ação eleitoral não se limita a dar retroescavadeiras (4,5 mil) e motoniveladoras (2 mil). A campanha de Dilma reorientou a estratégia de comunicação para desnivelar ainda mais o jogo. Sua prioridade se voltou para veículos regionais e locais. Metade das entrevistas exclusivas que Dilma concedeu a rádios desde que tomou posse ocorreram após sua popularidade despencar em julho.

Na sexta-feira, a presidente foi ao interior do Paraná. Falou só às rádios Musical FM e Maringá FM. A locutora sintetizou o que seria a entrevista: "Estamos em rede para Campo Mourão, Maringá e todos os municípios do noroeste do Paraná. Vamos falar com exclusividade com a presidenta Dilma Rousseff, que veio ao Paraná para a entrega de obras e anúncio de investimentos".

Não deu outra. Dilma despejou cifras e siglas, bilhões para cá e para lá. Anunciou tratores para 92% das cidades paranaenses. "São 367 municípios que vão receber esse kit de motoniveladora, retroescavadeira e caminhão-caçamba", declamou a presidente. Dois dias antes, repetira a fórmula com as rádios Nordeste Evangélica AM e 96 FM, do Rio Grande do Norte.

Dilma interiorizou a campanha eleitoral. Voltou-se para onde mantém popularidade mais alta - lugares cuja ruas não foram tomadas por manifestantes em junho. Às rádios potiguares, ela foi explícita: "Uma das melhores iniciativas que tivemos foi a interiorização tanto dos cursos técnicos como das universidades, das faculdades criando campus (sic) no interior do Brasil".

É para o interior que vão também mais médicos e casas dos programas federais. Esse é o contexto da aliança de Dilma com a "agrogirl" Katia Abreu (TO). Eleita pela oposição, a senadora saiu do DEM para o PSD e agora filiou-se ao PMDB, levando a bancada ruralista cada vez mais para perto do governo.

Some-se a recuperação de parte da popularidade perdida, a liderança nas pesquisas eleitorais e a previsão de ter mais tempo de propaganda na TV do que teve em 2010 e vê-se de onde vem o "sobranceira" atribuído a Dilma por seu marqueteiro. O futuro parece definido. Só falta combinar com anões e eleitores.

De alma lavada - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 07/10

BRASÍLIA - Marina Silva exibia semblante de quem sabia estar protagonizando o lance mais inesperado da campanha eleitoral, indo à desforra contra aqueles que, segundo ela, tentaram lhe tirar da disputa.

Eduardo Campos não escondia a surpresa pelo presente que acabava de ganhar e deixava transparecer, no olhar, o sentimento de felicidade por dar o troco naqueles que tentaram minar sua candidatura.

Ambos, no evento de sábado em que Marina anunciou sua filiação ao PSB e o apoio a Campos, estavam se sentindo de alma lavada. Certos de terem dado um golpe de mestre.

Marina soube tomar o caminho menos previsível, fiel a seu estilo de incorporar uma cara nova na política. Escapou do pragmatismo que até seus aliados defendiam.

Campos exalava ares de confiança, agora munido de armas --a mobilização social da Rede-- para tentar se viabilizar como a terceira via da eleição presidencial de 2014 e em condições de derrotar Dilma.

Por sinal, por mais que o Palácio do Planalto transfira ao tucano Aécio Neves a maior parte do prejuízo, o que pode se tornar real, a turma palaciana ficou atônita e teme ser atingida mais à frente.

Os dois novos aliados podem se apresentar como herdeiros do lulismo e assumir o discurso de que vão fazer mais do que Dilma. Campos tem fortes ligações com o ex-presidente. Marina veio do PT.

Agora, porém, a jogada de mestre terá de mostrar força eleitoral. Uma pergunta: os sonháticos vão seguir Marina e tonificar o líder do PSB? Afinal, a soma de dois candidatos nem sempre resulta em ganhos de igual proporção. O tempo mostrará, na dupla, quem ganha mais.

Campos tirou de Marina o compromisso de que é o candidato, mas precisa viabilizar seu nome antes do início da campanha. Caso contrário, terá abrigado um fantasma dentro de casa. Isso, porém, é dor de cabeça para amanhã. Hoje, os dois querem é celebrar. Com razão.

Esperanças renovadas - PAULO GUEDES

O GLOBO - 07/10
A filiação de Marina Silva ao PSB de Eduardo Campos tem por objetivos apresentar à sociedade brasileira um programa capaz de sepultar de vez a Velha República , criar uma alternativa à polarização entre o PT e o PSDB , acabar com o chavismo que se instalou no Brasil e mudar as nossas práticas políticas , explica a ex-senadora. A coligação democrática com a Rede Solidariedade contribui para que o Brasil efetivamente mude, para que possamos enterrar a velha política no país. Vamos semear a boa política. Vamos renovar as nossas práticas. Ninguém vai melhorar este país se não melhorar a política , diz o governador de Pernambuco. É uma boa notícia: pela primeira vez desde que retomamos as eleições diretas, em 1989, a reforma de degeneradas práticas políticas é apresentada como plataforma eleitoral nas eleições presidenciais.
O momento é oportuno, pois as expectativas de mudanças acabam de sofrer um duro golpe com o inocente voto útil do ministro Celso de Mello. A última decisão do Supremo tribunal Federal agrava a atmosfera de descrédito com as instituições. A indicação de dois novos membros do STF pelo governo, após rumores de conversas com candidatos para comprometê-los com um comportamento brando no julgamento do Mensalão, exemplifica a contaminação da pureza jurídica pelas pressões políticas , registra o ex-presidente FHC, que patrocinou em benefício próprio emenda constitucional pela reeleição, com uma receita tucana aperfeiçoada pelos petistas: suspeitas alianças com vorazes conservadores em nome da governabilidade, adiando para sempre as reformas.

O falso despertar do Judiciário, apesar dos históricos esforços do ministro Joaquim Barbosa, devolve a iniciativa de mudanças das práticas políticas à candidatura presidencial do PSB. Seria uma alternativa à feroz disputa entre o PT e o PSDB pelo nicho ecológico da política convencional, de práticas inaceitáveis sob o pretexto da governabilidade. Cessariam as guerras de extermínio entre espécies igualmente incapazes de resolver os problemas da corrupção e do baixo crescimento econômico, as duas faces de um Estado do Antigo Regime que alianças espúrias entre despreparados social-democratas e conservadores oportunistas não souberam nem ousaram reformar.

Novo alerta para Dilma - FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 07/10

Se ocorrer, o rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela agência Moody's não será uma surpresa. Decorrerá da piora nas contas públicas, da falta de transparência do governo e da redução do ritmo de crescimento da economia. Nada disso é novidade.

Por ora, a agência de classificação de risco apenas emitiu um alerta. A Moody's manteve a nota (Baa2, grau de investimento com risco moderado) e se limitou a mudar a perspectiva para a dívida brasileira, de "positiva" para "neutra".

Outra agência norte-americana, a Standard & Poor's, havia reduzido a perspectiva dos títulos de "neutra" para "negativa" em junho, mas também sem mudar a classificação. Em ambos os casos, a mensagem é clara: se nada mudar, haverá um rebaixamento. As consequências não seriam boas. O país perderia credibilidade e, claro, recursos de investidores.

Pode-se argumentar que o prestígio das agências não é tão alto. Erraram, por exemplo, ao atribuir boas notas aos títulos que estiveram no centro da crise financeira dos EUA, iniciada em 2008.

É difícil tirar-lhes a razão quanto ao cenário brasileiro. O ponto essencial é que a dívida pública bruta aumentou muito nos últimos anos e já atinge R$ 2,75 trilhões (59,1% do PIB), nível superior à média dos países emergentes com nota similar à do Brasil.

Um bom pedaço do aumento decorre da prática, inaugurada pelo governo Lula, em 2009, de colocar recursos do Tesouro em bancos estatais, especialmente no BNDES, para empréstimos ao setor privado.

A piora do Orçamento também teve influência. O saldo primário (antes de pagar os juros) das contas públicas caiu para menos de 2% do PIB, o mínimo necessário para evitar que a dívida aumente.

A agência ainda destaca a redução do crescimento da economia, em um contexto de baixa participação do investimento, como fator que limita a margem de manobra do governo. Considerando que a carga tributária de 36% do PIB já é alta (a maior entre os emergentes), a combinação não é alvissareira.

A Moody's destaca, por fim, os parâmetros que a levariam a reduzir a nota do país: PIB abaixo de 3% após 2014, juros de dois dígitos (para conter inflação) e farta concessão de crédito público. Nada que não venha sendo dito por analistas brasileiros e estrangeiros.

O governo Dilma Rousseff, entretanto, resiste a aceitar esse diagnóstico e agir de acordo com ele.

A culpa sempre é dos outros - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 07/10

Depois da “herança maldita” e dos “brancos de olhos azuis”, agora é em Eike Batista que o governo coloca a culpa pela situação da economia brasileira


Pobre Eike Batista: não bastassem as dificuldades que suas empresas estão enfrentando, com dificuldade para pagar dívidas e valor de mercado em queda livre, o ex-bilionário ganhou de presente uma cruz pesada demais para carregar: a culpa pelo descrédito com que o mercado internacional vem olhando o Brasil ultimamente. “A situação da OGX já causou um problema para a imagem do país e para a Bolsa da Valores”, disse, na segunda-feira passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, referindo-se à empresa de petróleo do grupo EBX. Mantega ainda deixou claro que Eike está sozinho na tentativa de resgatar a OGX, que foi inflada com generosa ajuda do governo, via BNDES. “É uma solução de mercado. Espero que eles consigam se ajeitar o mais rápido possível”, afirmou o ministro, que ultimamente vem se destacando pelas suas previsões irreais a respeito do crescimento do país.

Eike não é o primeiro bode expiatório do petismo, que tem o hábito recorrente de culpar os outros pelos desacertos do governo e pelos problemas do país. Assim que assumiu, Lula não perdia uma chance de se referir à “herança maldita” deixada por Fernando Henrique Cardoso, termo que só perdia em frequência de uso para o “nunca antes neste país”. O ex-presidente nunca chegou a explicar exatamente que “herança maldita” era essa: seria a estabilização da moeda? A Lei de Responsabilidade Fiscal? O saneamento dos bancos? A privatização das telecomunicações? A muleta da “herança maldita” tinha dupla finalidade: deixar claro que o governo Lula estava reconstruindo o Brasil do zero e eximir o PT de culpa por qualquer solavanco nesse processo de reconstrução, uma espécie de “já estava assim quando eu cheguei”.

Quando a vida útil da “herança maldita” já estava no fim, com o PT no governo por tempo suficiente para ter resolvido muitos dos problemas atribuídos aos antecessores, Lula ganhou de presente outro bode expiatório. Depois de um crescimento consistente no PIB de 2003 a 2008, a economia do Brasil encolheu em 2009, como consequência da crise internacional (aquela que, no Brasil, seria sentida apenas como uma “marolinha”, nas palavras do então presidente em outubro de 2008). Em março daquele ano, Lula já tinha escolhido seus culpados: os “brancos de olhos azuis”, afirmou, ao lado do então premiê britânico, Gordon Brown. É claro que a crise teve influência importante no desempenho da economia nacional, e que o Brasil sofreu menos que vários outros países, mas também é preciso lembrar que o governo não aproveitou os anos anteriores para fazer as reformas e os investimentos que permitiriam ao Brasil passar com tranquilidade pela turbulência mundial.

A já muito citada edição de 28 de setembro da revista britânica The Economist apresentou uma lista infindável de gargalos que emperram a economia brasileira. O que Eike Batista e os banqueiros internacionais, por exemplo, têm a ver com a deterioração da infraestrutura brasileira, que tira competitividade dos nossos exportadores? Foram os “brancos de olhos azuis” que definiram as políticas protecionistas ou decidiram ser tolerantes com uma inflação que ronda os 6% ao ano? Foi o dono da EBX que elevou a carga tributária brasileira de 31,8% do PIB em 2003 para 36,27% no ano passado? Foi Wall Street a responsável pela 130.º colocação do Brasil, entre 185 países, no mais recente ranking do Banco Mundial que mede o clima para negócios? Qual a responsabilidade de Eike Batista no aparelhamento político da Petrobras, que completou 60 anos na quinta-feira passada sem muito o que festejar, graças a maus resultados que são fruto de decisões populistas?

Ao contrário do que costuma dar a entender em sua propaganda política, o PT não construiu o Brasil a partir do zero; isso significa, da mesma forma, que parte dos gargalos econômicos do país também não surgiu em 2003. Mas o partido está no poder há 11 anos (o período mais longo de um grupo à frente do país, exceto pelos períodos ditatoriais), quase sempre com maioria parlamentar que permitiria fazer muito pelo Brasil. Mas o que se vê é o crescimento do protecionismo, do desperdício, da burocracia, da “criatividade contábil” para fechar as contas públicas, do aparelhamento do Estado a serviço do partido. Isso é o que causa o descrédito internacional em relação ao país, e se deve apenas a decisões do próprio governo; não é fruto de nenhuma “herança maldita”, da ação dos “brancos de olhos azuis” ou de ex-bilionários em dificuldades. Mesmo assim, o PT, Lula, Dilma e Mantega se recusam a admitir que têm culpa no cartório. E, como sabe qualquer pessoa que já lidou com dependentes, sem admitir o problema é impossível sair do buraco.

Mais rapidez e eficiência - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/10

A mais recente rodada de sessões de julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, que admitiu a apreciação de embargos infringentes no processo de réus condenados no maior escândalo político da era lulopetista e um dos mais retumbantes da República, reabriu um crônico dilema do Judiciário brasileiro: como tornar a Justiça do país mais ágil, refratária a chicanas jurídicas (que estendem processos, não poucas vezes, ao limite da prescrição de crimes) sem, por óbvio, cair na precarização do amplo direito de defesa, assegurado pela Constituição?

Não é uma questão retórica: trata-se de estabelecer um limite entre a busca de um sistema em que o cidadão esteja protegido contra eventuais falhas nos ritos processuais e a complacência com maquinações forenses que, procrastinando a execução de sentenças, deixam na sociedade a sensação de que ações que não chegam ao fim correspondem à prática da injustiça.

A lentidão da Justiça desserve ao estado de direito. De um lado, conduz ao inevitável atulhamento das prateleiras dos tribunais com um cada vez maior número de ações à espera de julgamento. De outro, reforça um crônico axioma: o de que, no Brasil, o arcabouço judiciário, com suas quase infinitas possibilidades de estender a execução de sentenças, é a expressão de uma elitização que vai de encontro à natureza de um Poder que deveria assegurar a igualdade de todos perante a lei.

Nessa ossatura contabilizam-se cerca de 40 possibilidades de recursos, entre embargos, agravos etc. Transitar nesse cipoal de dispositivos tornou-se especialidade de advogados movidos a honorários milionários, logicamente fora do alcance da grande maioria dos réus. É nesse espaço entre uma elite que pode pagar fortunas para se livrar, ainda que pela procrastinação, do ajuste de contas com a Justiça e os que, processados e sem ter como recorrer das decisões, acabam de fato cumprindo — de resto, como manda o Direito — suas sentenças que o axioma reforça o ceticismo com a Justiça: ao réu pobre, ou de conta bancária incompatível com altos honorários, a expiação; ao endinheirado, a protelação e a prescrição.

Justiça sumária é característica de regime autoritário. Ela não pode ser confundida com o ideal de tribunais indistintamente ágeis e eficientes — princípios nem sempre presentes no sistema judiciário do país. Discussões em curso para a reforma de dispositivos legais têm de levar em conta esses pressupostos.

Quando ainda presidia o STF, o ministro Cezar Peluso sugeriu que sentenças dos tribunais de segunda instância fossem imediatamente aplicadas, independentemente do direito à interposição de recursos. É uma proposta que merece ao menos ser levada à mesa de discussões, assim como outras que visem a aperfeiçoar o sistema judiciário. O crucial é que, sem prejuízo do direito à ampla defesa, o Brasil encontre um meio termo entre o agravo sumário e as manobras protelatórias, ambos contrários ao ideal de uma Justiça eficaz.

Nosso calcanhar de aquiles - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 07/10

Um novo estudo do Fórum Econômico Mundial mostra que o estado lastimável da educação talvez seja o mais grave entre todos os entraves ao pleno desenvolvimento profissional e pessoal dos brasileiros.

O Fórum mediu pela primeira vez o chamado "capital humano" de 122 países. A expressão resume a capacidade, os talentos e o conhecimento dos trabalhadores para gerar valor.

Para essa mensuração, os pesquisadores criaram o Índice de Capital Humano, baseado em quatro pilares: saúde e bem-estar, que indica a situação física e mental da população, desde a infância até a idade adulta; educação, que avalia a qualidade do ensino em todos os níveis e diz respeito não apenas aos trabalhadores de hoje, mas aos do futuro; força e mercado de trabalho, que quantifica o preparo intelectual e o nível de treinamento da população em idade de trabalhar; e, por último, a existência de infraestrutura e de parâmetros legais para que os três pilares anteriores não apenas se desenvolvam, mas também que sejam bem explorados.

No ranking criado a partir dessas informações, o Brasil aparece em 57.º lugar entre os 122 países - a Suíça lidera, e há 8 europeus entre os dez primeiros. Embora não seja motivo de festa, a colocação brasileira tampouco deve ser vista como desastrosa, para um país com a vasta quantidade de problemas que o Brasil tem. Há Brics em pior situação, como a Índia (78.º) e a África do Sul (86.º), mas, na América Latina, o Chile (36.º) e o Uruguai (48.º) estão à nossa frente.

No desdobramento do índice, observa-se que o Brasil está em posição razoável no quesito saúde e bem-estar da população - aparece em 49.º lugar, bem próximo dos Estados Unidos (43.º). No que diz respeito ao emprego, o Brasil está em 45.º.

Quando o tema é educação, no entanto, o Brasil despenca para a 88.ª colocação. Entre os latino-americanos, perde até mesmo da Venezuela (75.º) e da Bolívia (86.º), países que, no ranking geral, aparecem entre os últimos - os venezuelanos em 101.º e os bolivianos em 99.º.

Tal resultado desastroso não surpreende. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012 mostrou que o analfabetismo no Brasil voltou a crescer, após apresentar constante queda desde 1998. Segundo o IBGE, ainda há 27,8 milhões de brasileiros acima de 15 anos de idade, ou 18,3% do total, que têm menos de quatro anos de estudo. Além disso, 11,9% da população com mais de 25 anos tem menos de um ano de estudo ou nenhuma instrução.

Esse quadro atesta o fracasso da educação brasileira ante o desafio de preparar o País para os tempos ultracompetitivos que se avizinham. Essa vergonhosa situação não passou despercebida pelos pesquisadores do Fórum Econômico Mundial.

Ao abordar esse pilar, o estudo sobre capital humano mostra o Brasil em 105.º lugar quando se mede a qualidade de todo o sistema educacional. A colocação é igualmente constrangedora no que diz respeito à qualidade das escolas primárias (109.º) e do ensino de matemática e ciências (112.º).

Desse modo, mesmo que o Brasil esteja razoavelmente bem colocado quando a pesquisa do Fórum mede a força de trabalho e o emprego, constata-se grande dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados - nesse item, o País aparece apenas em 101.º lugar.

Trata-se de um problema que o Brasil deve resolver o quanto antes, pois "a chave para o futuro de qualquer país está no talento, na capacidade e nas habilidades de sua população", conforme escreveu Klaus Schwab, presidente executivo do Fórum, na introdução da pesquisa.

Investir em capital humano, diz Schwab, não é um luxo. "Pode ser mais determinante para o sucesso econômico no longo prazo do que virtualmente qualquer outro recurso", afirma o estudo, que salienta o fato de que o mundo está entrando numa era de escassez de talentos.

Observando-se sob esse aspecto, fica ainda mais claro o tamanho do problema que o Brasil tem a resolver, principalmente na área da educação, antes de considerar-se realmente apto a encarar a cada vez mais acirrada competição internacional.

A terceira via - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 07/10
Depois de 20 anos de polarização entre o PT, que ocupa o governo, e o PSDB, que esteve durante oito anos no poder, o Brasil ingressa numa nova fase de sua vida política com a formação da aliança entre a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, e o PSB, de Eduardo Campos, ambos ex-ministros de Lula. Aparentemente, trata-se de uma força política capaz de disputar a preferência do eleitorado com os partidos tradicionais, por reunir o ideá-rio ambientalista da ex-ministra e a alardeada competência gerencial do governador pernambucano, cuja administração estadual é a melhor avaliada no país. A surpreendente parceria, que mexe profundamente com o quadro político nacional um ano antes do pleito presidencial, foi motivada pela decisão da Justiça Eleitoral de negar registro ao partido organizado pela ex-ministra do Meio Ambiente.
Ainda é cedo para se saber que conformação tomará o PSB a partir da adesão dos marineiros, mas a aliança certamente obrigará os demais participantes da corrida presidencial a mudar o discurso bipolar de governo contra oposição ou esquerda contra direita. Alguns pontos, porém, carecem de melhor esclarecimento a partir do inesperado apoio de Marina Silva a Eduardo Campos. Em primeiro lugar, cabe à ex-ministra formalizar a denúncia que vem insinuando desde a rejeição do registro de seu partido, sobre o aparelhamento petista em alguns cartórios eleitorais que anularam ou sequer examinaram as listas de apoiadores da Rede. Trata-se de uma suspeita muito grave: os cartórios estão sujeitos à fiscalização da Justiça, não podem deixar de cumprir suas obrigações por interesses político-partidários.

Caso seja confirmada má-fé em algum episódio relativo às assinaturas descartadas, é evidente que os responsáveis devem ser punidos. O país não pode começar a campanha eleitoral à sombra de tamanha suspeita, sob o risco de ver o jogo sujo se transformar em regra geral.

Outra questão em aberto é a união de opositores. Embora faça questão de dizer que a nova aliança tem sentido programático, e não pragmático, o certo é que Marina Silva terá que compactuar com políticos de pensamento diverso ao seu. Entre os integrantes do PSB há, por exemplo, duas dezenas de parlamentares que ficaram ao lado dos ruralistas nas recentes votações do Código Florestal - uma das bandeiras da Rede Sustentabilidade.

Porém, como o acordo firmado entre a Rede e o PSB garante a integridade partidária das duas siglas, parece ter sido preservado o espaço para o convívio de ideias diferentes, o que, aliás, é um recurso obrigatório para a existência de coligações. Além disso, os líderes dos dois partidos reconhecem que o PSB será apenas um "abrigo transitório" para a Rede, até que a nova organização consiga o seu registro no TSE. Mantém-se indefinida, inclusive, a formação da chapa que disputará a eleição presidencial, embora a perspectiva maior seja de que o governador pernambucano a encabece e a ex-ministra entre como vice. Em qualquer hipótese, o surgimento de uma terceira via tende a tornar a disputa presidencial mais plural e mais democrática.

Após filiar-se ao PSB, cabe à ex-ministra Marina Silva formalizar a denúncia que vem insinuando desde a rejeição do registro de seu partido, sobre o aparelhamento petista em alguns cartórios eleitorais.

Luz vermelha na academia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 07/10
A queda da Universidade de São Paulo (USP) no principal ranking internacional deve ser encarada como alerta vermelho para o país. Em um ano, a instituição paulista passou do 158º lugar para compor um grupo que vai do 226º ao 250º. Perder pelo menos 68 posições no Times Higher Education (THE) tira o Brasil da relação dos 200 melhores do mundo.
Seis itens compõem os critérios de avaliação - ensino (30%), pesquisa (30%), citações (30%), internacionalização (7,5%) e dinheiro externo (2,5%). Os que mais pesaram no baque foram dois - enquete de reputação e impacto da pesquisa produzida. O primeiro, resultado de questionários enviados a acadêmicos dos cinco continentes, é contaminado, sem dúvida, por certa subjetividade. O segundo, porém, oferece dados objetivos que permitem repensar rumos.

O impacto da pesquisa é emblemático. Mostra os dois lados da moeda. Num, o esforço para aumentar a produção de artigos. O Brasil ocupa o prestigiado 13º lugar entre as nações que disputam espaço na divulgação de conhecimento. Noutro, a qualidade do saber levado à comunidade internacional. O baixo número de citações demonstra o óbvio - quantidade não significa excelência.

Um fato deve ser lembrado. Muitos textos, escritos em português, limitam o número de leitores. A língua de Camões e Machado, falada por 240 milhões de pessoas, não goza de prestígio na comunidade científica. Mais: a USP, como a maior parte das universidades brasileiras, negligenciou a internacionalização. Sem oferecer cursos em inglês - tendência crescente no mundo globalizado - fica duplamente marginalizada: pelo idioma (que restringe o intercâmbio) e pela localização distante dos grandes centros.

O rebaixamento, como não poderia ser diferente, cobra preço alto do país. De um lado, compromete a imagem das universidades brasileiras no exterior. Vale lembrar, a propósito, que a Unicamp também caiu no ranking. Em 2012, figurava entre a 251ª e a 275ª posição. Neste ano, ficou entre a 301ª e 350ª. De outro, põe em xeque a produção intelectual dos acadêmicos nacionais. Se eles publicam muito, mas não são citados, parece formarem um clube verde-amarelo.

Generalizar é injusto. Talvez seja o caso de o Brasil ser mais seletivo. Em vez de atirar a esmo, focar os alvos nos quais sobressai. É o caso das ciências biológicas, área em que o país figura entre os 100 melhores do planeta. No mundo globalizado não basta ser bom. Impõe-se ser melhor que os outros. Para ter chance na disputa, falar a língua geral constitui pré-requisito. Sem atendê-lo, as universidades protagonizam diálogo de mudos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

SOLIDARIEDADE E PROS NASCEM GRANDES E CAROS
Solidariedade e Pros, criados há uma semana, somados, formam a sexta maior bancada da Câmara. Apesar de desfalcar seus antigos partidos, os deputados não levam os cargos. Para acomodar os aspones da nova estrutura, o gasto extra será de pelo menos R$ 6,5 milhões por ano. Ato da mesa, de 1995, garante a cada nova sigla dez nomeações sem concurso, com salários de R$ 10,4 mil a R$ 14,8 mil.


BOQUINHA GARANTIDA

Solidariedade e Pros correm contra o tempo para incluir emendas na Lei de Diretrizes Orçamentárias e garantir sua gastança em 2014.


É UM MISTÉRIO

A briga por espaço na Câmara é grande entre os novos partidos. O PSD, com 62 nomeados, teve direito a apenas uma saleta de 1,5m².


ASSIM É FÁCIL

O Dia do Servidor Público, que seria comemorado segunda (28), será na quinta (31), que ninguém é de ferro sem uma sexta-feira no meio.


AMIGO BRASILEIRO

O governo do Brasil, que adora ditaduras africanas, perdoou a dívida de US$ 43,5 milhões do Sudão. A ditadura se instalou há 24 anos.


BANCO DRIBLA REGRA DO BC PARA EVITAR CASTIGO

O banco Itaú fez barulho lançando títulos atrelados a crédito imobiliário, no valor de R$ 4,4 bilhões. Só não contou que é a forma de driblar regra do Banco Central obrigando converter em financiamento da casa própria 52% dos depósitos da poupança, pelo SFH. Estourado em R$ 3 bi, o Itaú teria de depositar esse dinheiro no BC, como castigo. Mas usou brecha na legislação para fazer a leitura de que esses títulos equivalem a aplicação o recurso da poupança em crédito habitacional.


EMBROMATION

Ao driblar a regra do BC, a rigor o Itaú não financia ninguém. Segundo estimativas, o banco deixou de financiar cerca de 10 mil mutuários.


COTA PRA ÍNDIO

É de Nilmário de Miranda (PT-MG) a ideia de jerico de propor emenda acrescentando 4 vagas aos 513 deputados existentes, para índios.


PR ‘ARRUDOU’

O PR mudou de cor, nos comerciais de TV em Brasília. Agora é verde, a cor-símbolo do ex-governador José Roberto Arruda, seu novo filiado.


QUE PERIGO…

O deputado Paulinho da Força (SP), fundador do Solidariedade, calcula que ele e sua turma, enquanto ficaram no PDT, “davam” mais de R$ 1 milhão mensais do fundo partidário a Carlos Lupi, dono da sigla.


INCOMPETENTES

Dilma reclamou da espionagem americana, mas esqueceu de perguntar aos incompetentes que chefiam o Ministério da Defesa e Abin, que aliás se fingiram de mortos, por que não conseguem nem mesmo proteger as comunicações da Presidência da República.


EIS A QUESTÃO

Com a chegada do tal “e-mail tupiniquim”, prometido pelos Correios, restará um dilema de fácil opção: é melhor ser espionado por Barack Obama, para quem você não existe, ou ser espionado pelo PT?


PERDEU, MANÉ

Agora que Inês é morta e José Serra já não pode trocar de partido, ele logo descobrirá que a cúpula do PSDB não fará o menor esforço para ajudá-lo a se tornar candidato ao Senado. O preferido é o arquiinimigo de Serra, José Aníbal, que, aliás, controla 70% dos diretórios paulistas.


CONSOLAÇÃO

Além de cadeira no Turismo, o senador Walter Pinheiro (PT-BA) é cotado para assumir o Ministério de Ciência e Tecnologia, hoje sob o comando de Marco Antônio Raupp, pupilo de Aloizio Mercadante.


PRECIPITAÇÃO

O mensaleiro Valdemar Costa Neto (PR-SP) trocou o domicílio eleitoral para Brasília, habilitando-se a cumprir lá sua prisão em regime fechado. Mas o odor de pizza deixa nele a sensação de que se precipitou.


MARINEIRO

Apesar de ter se filiado ao Pros, que está afinado com o governo Dilma, o deputado Miro Teixeira afirmou que dará palanque no Rio à ex-senadora Marina Silva, caso ela saia candidata à Presidência em 2014.


PROGRAMA DE ÍNDIO

Esta semana, a ministra de Desenvolvimento da Holanda, Lilianne Ploumen, vai a Mato Grosso ver de perto a violenta disputa de terras entre índios e fazendeiros. Os holandeses são acionistas da Bunge.


PENSANDO BEM…

… Sérgio Cabral deve ter providenciado guardanapos para enxugar as lágrimas de crocodilo dos amigos e Eike Batista e Fernando Cavedish.


PODER SEM PUDOR

O SEGURO MORREU DE VELHO

Prefeito de São Paulo em 1987, Jânio Quadros tinha um hábito peculiar, sempre que se falava no nome do ex-governador Paulo Maluf em seu gabinete. Instintivamente enfiava as mãos no bolso e dizia para seus auxiliares mais próximos:

- Instinto de sobrevivência! Não gosto de surpresas indefensáveis.

Todos caíam na risada.

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Eleições 2014 – Decisão de Marina eleva a pressão sobre Dilma
Folha: acordo de Marina e Campos esquenta disputa por alianças
Estadão: Planalto revê estratégia para enfrentar Campos-Marina
Correio: Uma nova ordem eleitoral
Valor: Dilma agirá para abrandar a desconfiança de empresários
Estado de Minas: Depois da balada, o medo
Jornal do Commercio: Santa com vitória e fé
Zero Hora: Marina organiza e embaralha sucessão
Brasil Econômico: Contra fuga de capital: ‘rezar’

domingo, outubro 06, 2013

Tão óbvio - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 06/10


Sempre tive mais tendência a simplificar do que complicar, mas agora isso se intensificou a ponto de eu começar a flertar com o budismo. Lendo alguns livros e assistindo palestras, tenho percebido como o caminho para ser feliz é óbvio eu mesma já fui acusada de escrever sobre coisas óbvias, e não tenho como me defender contra isso: escrevo obviedades, sem dúvida. Porém me pergunto, intrigada: por que as obviedades andam tão necessárias?

É que normalmente o óbvio fica soterrado sob camadas e mais camadas de auto boicotes: as pessoas se irritam por besteiras, fazem escolhas idiotas, brigam no trânsito, não se abrem sobre o que sentem, desperdiçam energia à toa, desrespeitam o coletivo e são refratárias a tudo que seja simples e fácil, já que a dor, a culpa e o ódio faz parecer que elas têm uma vida mais profunda.

Felicidade é algo que todos desejam e ao mesmo tempo renegam, já que não saberiam lidar com algo que lhes deixaria tão soltos e leves. Com péssimo ibope junto aos intelectuais, a felicidade (que nada tem a ver com bobice, mas com paz de espírito) ficou associada à superficialidade, enquanto que o sofrimento produz arte e filosofia.

Sob esse aspecto, óbvio que ser um deprimido é mais charmoso.

Pena que isso seja um estereótipo. Ora, filosofia busca a consciência, que é chave para a felicidade, e a arte faz um bem danado a mentes atormentadas, que através dela conseguem realizar catarses e se conectar com um mundo que lhes parece hostil. Ou seja, não importa quem ou de que forma, todos querem viver melhor, sem esquecer que esse “melhor” tem sentidos diversos para uns e para outros. Seja qual for o significado de “melhor” pra você, ele é a sua perseguição. Só que alguns escolhem vias cheias de obstáculos e acabam não aproveitando a viagem.

O bem-estar vem de onde? Óbvio: da convivência com amigos, de relações saudáveis, de não permitir que frustrações e ressentimentos virem a tônica da vida, de não reagir com exagero diante de insignificâncias, da valorização das miudezas grandiosas do cotidiano, de sentir-se disponível para o novo e o diferente a fim de enriquecer a própria existência, mantendo uma espiritualidade básica que envolva a generosidade, a compaixão, a tolerância (não é obrigatório ter religião pra isso). Mais: de aceitar as mudanças, de trocar de perspectiva quando se estiver obcecado com algo, de buscar a evolução da mente.

Inventei a pólvora? Estou dizendo alguma coisa que você já não esteja careca de saber? É tudo tão evidente, tão incontestável, que dá até sono. O que você ainda está fazendo lendo essa página? Acorde e vá pra rua.

Aí você sai e cruza com centenas de outros cidadãos para quem o óbvio é uma teoria sem aplicação prática, e que continuam encrencando-se de forma absurda, a fim de voltarem para casa estressados e sentindo-se vítimas do próprio destino. Charmosos, sem dúvida. Resta saber a que custo pessoal.

Adolescentes até quando? - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA


Quanto mais se preparam, menos eles se sentem aptos a viver como gente grande

A adolescência agora vai até os 25 anos – e não apenas até os 18, como era previsto. Essa é a nova orientação dada a psicólogos americanos. É como se a neurociência pudesse eximir a todos de responsabilidade por um fenômeno deste século: jovens demoram muito mais a amadurecer, sair de casa e ser independentes. As pesquisas revelam que “a maturidade emocional de um jovem, sua autoimagem e seu discernimento são afetados até que o córtex pré-frontal seja totalmente desenvolvido”. E isso só acontece aos 25 anos.

Então o culpado é o córtex? Não é por falta de esforço dos filhos. Nem por superproteção dos pais. Tampouco é porque a competitividade exige mais estudos e especializações. Quanto mais eles se preparam, menos se sentem aptos a viver como gente grande. Por uma mistura de insegurança pessoal, liberdade e mordomias na casa dos pais, muitos jovens se paralisam, especialmente nas famílias de classe média para cima, no Brasil. Não é “qualquer trabalho” que os realizará. Criticam os pais. Acham que eles fizeram concessões demais à sobrevivência e à prole: “Quem mandou vocês darem tudo para mim?”.

Antes, era diferente. Aos 18 anos, os cinquentões de hoje só pensavam em sair da casa dos pais. Era preciso ter um emprego, não necessariamente o dos sonhos. Bastava que o salário fosse suficiente para não depender de pai e mãe, alugar um quarto e sala, poder dormir com o namorado ou a namorada, chegar tarde em casa. Se o emprego se relacionasse aos estudos, que privilégio! Almejávamos múltiplos destinos, mas não havia tempo nem grana para experimentar primeiro e decidir depois. Ralávamos a alma para ascender rápido. Só soube agora que meu córtex pré-frontal não estava totalmente desenvolvido quando saí de casa aos 21 anos. Se me chamassem de adolescente, me sentiria ofendida.

“A ideia de que de repente, aos 18 anos, a pessoa já é adulta não é bem verdade”, disse à BBC a psicóloga infantil Laverne Antrobus, da Clínica Tavistock, em Londres. “Minha experiência com jovens sugere que eles ainda precisam de muito apoio e ajuda além dessa idade.” Diante da extrema condescendência com quem tem 18 ou 25 anos, penso em quem tem 60 ou 80. Não sei em que idade o ser humano pode prescindir de apoio ou ajuda. Dos pais, filhos, parceiros e amigos.

“Amadurecer é um termo complexo, e sabemos que não se limita à independência financeira”, diz a psicanalista Eliane Mendlowicz. “Crescer, dar adeus à proteção dos pais, enfrentar um certo desamparo é uma tarefa árdua, mas vale a pena por seu efeito libertador.” Mesmo assim, trintões e trintonas continuam na casa de papai e mamãe. “Frequentemente se apontam razões econômicas para esse fenômeno”, diz o professor de sociologia Frank Furedi, da Universidade de Kent, na Inglaterra. “Mas houve também uma perda da aspiração por independência. Quando fui para a universidade, se fosse visto com meus pais, decretaria minha morte social.”

Muitos pais financiam filhos casados. Não é raro que filhos divorciados voltem a morar com o pai ou com a mãe. São chamados de “filhos bumerangues”. “Há também os pais que estimulam o comportamento infantil dos filhos para evitar o ‘ninho vazio’”, diz Eliane. Outros, que acreditavam ter criado o filho para ser independente, reagem com sentimentos que se alternam: resignação, preocupação, irritação e perplexidade. O que deu errado?

“Os pais desejam que seus filhos sejam lindos, magros, inteligentes, carismáticos, felizes, competentes, amados. E o que querem os jovens hoje? Buscam aflitos uma maneira de cumprir tantos ideais”, diz a psicanalista Gisela Haddad. Para ela, essa geração precisa encarar um fato: “O futuro está em aberto, e tudo pode ser possível”. Paradoxalmente, isso tem causado, segundo Gisela, pânicos, depressões, vícios em drogas.

Uma pesquisa com mais de 2 mil entrevistados entre 18 e 30 anos, em seis capitais do Brasil, mostrou que 70% não se sentem preparados para enfrentar o mercado de trabalho. Culpam a universidade por não oferecer aulas práticas e não orientar para o empreendedorismo. Sempre foi assim. A universidade nunca formou profissionais prontos.

A legislação tenta se adequar aos novos tempos. Em agosto, o Senado aprovou projeto que aumenta o limite de idade para dependentes no Imposto de Renda dos atuais 21 para 28 anos, ou mesmo 32, quando cursarem universidade ou escola técnica.

O córtex tem pouco a ver com isso. Como diz o psiquiatra Luiz Alberto Py, “o amadurecimento cortical é perfumaria, apenas um álibi”. A adolescência é cultural, depende do país e da sociedade. O fenômeno fisiológico é a puberdade. “Crianças de rua não têm adolescência, só puberdade. Rapidamente se tornam adultos.”

Prolongar a adolescência além dos 18 anos é prolongar a angústia. O jovem não é tão despreparado quanto teme. Nem tão brilhante quanto gostaria.

Professores da vida - FÁBIO PORCHAT

O Estado de S.Paulo - 06/10

Eu estudei a minha vida toda numa mesma escola, o Nossa Senhora do Morumbi. Da primeira série ao terceiro colegial. (Nem sei mais como chama hoje, "colegial" mudou pra "nono ano", sei lá, to me sentindo que nem minha mãe que falava que estudou no científico. Às vezes, a gente não envelhece, envelhecem a gente. Enfim...) Tenho as melhores lembranças possíveis de lá. A começar pelo ambiente, um pedaço de mata Atlântica no meio da cidade. Fazíamos passeios pelo meio do mato dentro da própria escola, olha que legal! Soube que estão querendo destruir a mata para a construção de condomínios e afins. Sou contra e fica aqui o meu apoio aos que lutam pra manter o verde de pé.

Lembro da minha primeira professora. Tia Itamara. Ela era ótima. Lembro que a turma toda gostava dela e ela era uma pessoa muito doce. Na segunda série, veio a Tia Ingrid (que dizia que não era nossa tia). Era severa, mas eu adorava. Talvez porque eu e o Alexandre (meu grande amigo até hoje) éramos seus preferidos. Lembro que de vez em quando, no finzinho da tarde, a Ingrid ficava fitando o horizonte com um olhar perdido, como se lembrasse de alguém, ou estivesse feliz por existir. Era nesse dia que a classe podia fazer a maior bagunça que ela nem ligava.

A Vivian (não mais tia agora) foi nossa professora na terceira e na quarta série. Ela era perfeita. Divertida, boa professora, atenciosa, propunha atividades, nos ouvia, nos aguentava, era rígida no ponto certo, coroou o fim do primeiro grau. Quando entrei pra quinta série, aconteceu o pior. Passei a estudar de manhã. Acordar às seis e quinze da manhã em São Paulo é o que eu chamo de punição/tortura/porquê. É um frio cão. Uma tristeeeeeza. No lugar de um professor, vários. Da quinta a oitava me lembro de muitos. Dona Lídia, de História, era uma das minhas favoritas. Muito por causa dela, que era divertida sem saber que o era, porque falava com um sotaque muito curioso de paulistana da Mooca, mas que ensinava muito bem, e muito também porque História sempre foi minha matéria preferida.

Dona Tereza (não sei se era com 's' ou com 'z') foi uma professora de português que me marcou muito. Ela me ensinou como ler contos e poesias. Lembro até hoje o do Café com Pão. Ela me incentivou muito a ler. Nos deixava ler, entre um clássico e outro, o livro que quiséssemos e isso foi uma maravilha. Ela era super séria, firme, mas precisa. Dona Beth me fez odiar menos a matemática. Miss Vivian era divertidíssima. Newton, meu professor de educação física era um cara boa gente, bom de papo e que adorava misturar futebol com outros esportes. Trivelato, meu professor de Ciências, era imbatível. Ótimo, e de tão fechado, hilário. Um dia jogou um apagador na parede. Todos ficaram mudos e ele: isso é velocidade e atrito. Fiquei amigo de seu filho Guilherme (cadê você?) e íamos pro seu sítio, onde passei parte da minha adolescência.

Esses e muitos outros foram responsáveis por me tornar quem eu sou hoje. E eu tenho certeza de que você também é muito daqueles seus professores. Hoje, os professores, estão nas ruas do Rio de Janeiro reivindicando um aumento de salário, melhores condições e mudanças (necessárias) na área da educação. Eles estão apanhando por isso. A polícia assassina e despreparada da cidade do Rio de Janeiro está batendo na cara daqueles que transformam crianças e adolescentes em pessoas. Na verdade, estão batendo é na nossa cara.

O jornal de domingo - ADRIANA CALCANHOTTO

O GLOBO - 06/10

Nunca este instante deste domingo, neste jornal de domingo existiu antes ou voltará a existir, ainda que o próximo possa ser bastante parecido


Domingão de sol ou de chuva, não sei, hoje é quinta-feira. Sei é que neste instante deste domingo, neste jornal de domingo sendo lido agora, neste instante, este instante é agora. Todo domingo, gostando-se ou não, é domingo. Nascem Domingas e Domenicos. Inevitável este instante deste domingo, agora. Cada palavra revelando-se nesta página deste jornal, deste domingo, neste instante deste domingo, sendo lida, agora, no instante em que está sendo lida, é esta palavra, neste instante. Nunca antes deste instante houve este instante deste domingo.

Domingo é dia de domingo, não há disfarce para este instante de agora deste domingo. O jornal de domingo não foi feito no domingo, mas é domingo quando, neste instante deste domingo, cada palavra é lida neste instante, nem antes nem depois do instante em que este domingo está sendo este domingo, agora. Domingas e Domenicos sendo velados. Nunca este instante deste domingo, neste jornal de domingo existiu antes ou voltará a existir, ainda que o próximo possa ser bastante parecido.

Enquanto está sendo lido o jornal de domingo deste domingo, neste instante de agora, este instante de agora está sendo este instante de agora. É domingo enquanto este instante de agora neste jornal de domingo está sendo este instante de agora deste domingo, enquanto Domingas e Domenicos estão sendo concebidos.

Cada palavra sendo lida neste jornal de domingo deste domingo, neste instante, agora, é lida enquanto este instante está sendo este instante. No instante de agora, este instante, neste instante, neste jornal de domingo, é o instante, neste instante.

A palavra sendo lida neste jornal de domingo, porque cada palavra só é palavra neste instante de agora em que está sendo lida, cada palavra lida neste jornal de domingo deste domingo, enquanto agora está sendo agora, irrecuperavelmente agora, cada palavra sendo lida agora neste instante, nesta contracapa do Segundo Caderno do jornal de domingo, só é palavra por estar sendo lida, agora.

É agora que este instante está sendo agora. Neste jornal de domingo deste domingo, este instante, no instante em que cada palavra é a palavra lida, e só assim ela é palavra, ela, a palavra é o instante de agora neste jornal de domingo, deste domingo. Amanhã, segunda-feira, o jornal de domingo não deixará de ser o jornal de domingo. Poderá ser o jornal de ontem, mas não escapará de ser jornal de domingo e é nesse escaninho dos acervos em que vai jazer. Os que escrevem para o jornal já vivem normalmente atormentados desde que Rubem Braga disparou “escrever para o jornal é como escrever na areia”. Imagina no domingo. Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite quando o jornal de domingo já está consumado. Como este instante, consumido, neste instante, agora. Há quem leia o jornal de domingo já no sábado, mas será este domingo neste instante, este, de agora, ainda que o jornal já esteja lido, o horóscopo dissecado, as palavras-cruzadas feitas. Nada se sabe do instante seguinte, a não ser que virá. E que já foi.

Nenhuma outra espécie de vida sobre o planeta está neste instante lendo o jornal de domingo porque para nenhuma outra espécie de vida sobre o planeta é domingo, ou deixa de ser. O jornal de domingo, neste instante sendo lido por um espécime da única espécie que lê o jornal de domingo, procurando por alguma coisa que não saberia nomear e que talvez seja por isso mesmo que procura a cada página, instante por instante. Um exemplar da espécie que está destruindo o até então único planeta que conhece bem e do qual necessita para sobreviver. Os golfinhos por exemplo, não leem os classificados do jornal de domingo, as crônicas mal traçadas ou o caderno de esportes, estão muito ocupados em ser golfinhos.

Todo mundo espera alguma coisa do jornal de domingo. Deste jornal de domingo, deste domingo, neste instante, de agora. Neste, este. Este.

GOSTOSA




Para onde vamos? - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 06/10

O mercado é um campo de batalha: quem não dispõe de armas e munição em quantidade não sobrevive


Que o sonho da sociedade comunista, onde todos seriam iguais em direitos e propriedades, acabou, não é novidade para ninguém. É verdade que, apesar disso, há quem ainda insista em defender uma opção ideológica alimentada por aquele mesmo sonho.

Não obstante, na prática social, tudo indica que os valores de esquerda foram assimilados por uma boa parte dos políticos que já não lhes atribuem propósitos revolucionários. Do meu ponto de vista, isso é um avanço, já que defende o fim das desigualdades como o caminho inevitável da sociedade humana.

De qualquer modo, o projeto da sociedade comunista se desfez. Tudo bem. E o capitalismo? Para onde vai o capitalismo? É difícil dizer para onde ele vai, mas, no meu modo de ver, ele vai mal.

Não me refiro apenas à recente crise iniciada em 2008, porque muito antes dela, mesmo nos Estados Unidos, o mais rico país capitalista do mundo, o problema da desigualdade social jamais se resolveu.

Não me refiro à eliminação definitiva da pobreza. Isso parece fora de cogitação. Se não se encontra lá o mesmo nível de pobreza que encontramos em países menos desenvolvidos, nada justifica um tal grau de exploração do trabalho humano num país que produz a riqueza que ali se produz.

Não há nenhuma novidade em dizer-se que o capitalismo é o regime da exploração. E isso independe do empresário capitalista, que pode ser um feroz explorador ou um patrão generoso. Independe, porque a exploração é inerente ao sistema, voltado para o lucro máximo. E veja bem, como isso é a essência do sistema, quem descuida disso vai à falência. Ao contrário do que Marx dizia, a luta de classes não se dá entre trabalhadores e patrões, mas, sim, entre os patrões: é um tentando engolir o outro.

Não estou dizendo nenhuma novidade. Todos os dias nascem milhares de empresas, a maioria das quais vai à falência, derrotadas pelas outras. O mercado é de fato um campo de batalha, uma zona de guerra: quem não dispõe de armas e munição em quantidade necessária e com a suficiência exigida não sobrevive. É a lei da selva, que determina a sobrevivência do mais apto; a seleção natural a que se referia Charles Darwin.

Para vencer essa guerra, o recurso fundamental é o lucro máximo, o que pode ser sinônimo de maior exploração, seja do trabalhador, seja do consumidor. Claro que não é tão simples assim, porque, hoje em dia, os trabalhadores também dispõem de meios para se defender. Não obstante, na Coreia do Sul, hoje um dos países capitalistas mais florescentes, a quantidade de trabalhadores que se suicida é espantosa. A pergunta a fazer é: por que se matam? Certamente porque não são felizes naquele paraíso capitalista.

E não é porque todo o empresário capitalista seja por definição explorador e cruel. Nada disso. Na verdade, ele (a empresa) está voltado para tirar cada vez mais vantagem dos negócios que faz, e isso não apenas resulta em explorar os empregados --fazer com que o trabalhador produza mais ao menor custo possível-- como pode provocar desastres como a bolha imobiliária norte-americana, que levou a economia do país ao desastre, arrastando consigo o sistema bancário e o empresariado europeus.

Os estudiosos do assunto garantem que, a certa altura do processo, era possível antever o que inevitavelmente ocorreria, mas a aspiração ao lucro e tudo o mais que isso envolve não permitem parar. Não por acaso, as crises do capitalismo são cíclicas.

E o mais louco de tudo isso é que o capitalista individualmente pode acumular bilhões de dólares em sua conta bancária. Mas de que lhe serve tanto dinheiro? Quem necessita de bilhões de dólares para viver?

Ninguém precisa. Por isso, Bill Gates doou sua fortuna a uma entidade beneficente que trata de crianças com Aids e, depois disso, ele mesmo abandonou a direção de sua empresa para ir dirigir aquela entidade beneficente. Em seguida, convenceu outros capitalistas a fazerem o mesmo. É que ganhar dinheiro por ganhar dinheiro, a partir de certo ponto, perde o sentido.

O que o capitalismo tem de bom é que ele estimula a produção de riqueza e isso pode ajudar a melhorar a vida das pessoas, mas desde que não se perca a noção de que o sentido da vida é o outro.

Vestidos para matar - JAIRO BOUER

O Estado de S.Paulo - 06/10

Dois crimes que ocorreram nas últimas semanas em São Paulo chocaram não só pela violência e brutalidade, mas também pela frieza dos supostos autores. Eles reagiram como se as suas ações fossem naturais e até esperadas diante das circunstâncias.

No primeiro caso, há duas semanas, o estudante de Engenharia Dênis Papa Casagrande, de 21 anos, foi assassinado em uma festa na Unicamp. Dênis teria ido ao banheiro quando, por motivos ainda pouco claros, foi esfaqueado por Maria Tereza Peregrino, de 20, e agredido por um grupo de jovens (entre eles Anderson Mamede, de 20 anos, namorado da garota).

O casal, que continua preso em Campinas, alega que Dênis teria tentado agarrar a moça à força e ela teria agido em legítima defesa. Os amigos do estudante contestam a versão. Em primeiro lugar, pela sua índole e comportamento. Em segundo, porque ele se recuperava de uma cirurgia no joelho, feita há um mês, e mal caminhava sozinho. Maria e o namorado fazem parte de um grupo punk e teriam ido à festa com facas.

Por que alguém que pretende ir a uma festa para se divertir leva uma faca escondida no bolso? O argumento de se defender de uma ameaça parece o mais óbvio e, também, o menos crível. Nessa situação, não seria melhor nem sair de casa? Parece já haver uma predisposição para se envolver em confusão e até um certo orgulho em estar preparado para qualquer tipo de situação.

Quem assistiu à entrevista de Anderson (disponível na internet), dada logo após o crime, se impressiona com os maneirismos, linguagem e frieza. É quase como se esfaquear e agredir fossem a única saída possível. Curioso notar que ele, que inicialmente disse ter sido esfaqueado na perna durante a briga, depois voltou atrás e assumiu que havia se ferido intencionalmente, para tentar evitar um linchamento.

No segundo caso, há uma semana, um racha em uma avenida apertada e escura da periferia de Mogi das Cruzes deixou seis jovens mortos e dois feridos. Reginaldo Ferreira da Silva, de 41 anos, depois de ter bebido duas garrafas de cerveja em uma festa, disse que foi provocado por outro motorista. Em uma via em que o limite de velocidade era de 50 km/h, ele teria acelerado a até 120 km/h, perdido o controle do carro e atropelado um grupo de jovens, que se reuniam com frequência na rua. Fugiu sem prestar socorro e foi preso no dia seguinte. O outro motorista, Paulo Henrique Batista, de 23, se apresentou à polícia na última semana, mas negou ter participado de um racha. Para Silva, no calor do momento, aceitar o desafio parece ter sido a atitude mais natural.

Guiar um carro depois de beber e se envolver em uma disputa perigosa, em alta velocidade, é assumir um grande risco. Guardadas as proporções é como ir a uma festa levando uma faca no bolso. O ponto a se pensar é por que, semana após semana, temos assistido ao que parece ser um escalonamento de violência gratuita, às custas de comportamentos sabidamente perigosos (dirigir embriagado ou carregar armas).

No Brasil de hoje, quase 3 em cada 4 mortes de jovens são provocadas por causas externas evitáveis. Homicídio em primeiro lugar, acidentes com carros e motos em seguida. É bem comum que o álcool (em geral, em excesso) esteja associado a essas duas situações. Se a bebida é uma potente alteradora da nossa capacidade de avaliar riscos e de fazer crítica, detonando explosões de violência, armas e carros são o uniforme perfeito para se usar nessas noites de selvageria.

Sem repensar essa agressividade gratuita e a forma de se relacionar com os outros, vamos ficar cada vez mais acostumados com cenas de brutalidade e com a indiferença dos criminosos. E muitos jovens que, por mero acaso, decidam ir ao banheiro ou conversam em uma esquina qualquer da cidade vão pagar com a sua vida por isso!

Milton: a música - CAETANO VELOSO

O GLOBO - 06/10

A música de Milton Nascimento é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom Jobim e João Gilberto


Recebi um livro que me arrebatou. Trata-se de “A música de Milton Nascimento”, escrito por Chico Amaral. Muitas das ideias a que, ao longo dos anos, esse artista excepcional tem me levado aparecem de modo articulado pelo autor, coisa que a mim mesmo não seria possível. É preciso ser muitíssimo mais músico do que sou para captar com consciência técnica as peculiaridades harmônicas e rítmicas que fazem o mundo único de Milton aflorar em timbres e formas. Quando canto que a bossa nova é foda, estou me referindo à explosão do João Gilberto dos LPs “Chega de saudade”, “O amor, o sorriso e a flor” e “João Gilberto”, com as composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Roberto Menescal; as letras de Vinicius, de Bôscoli, do próprio Lyra ou do próprio Tom; as releituras de sambas de Caymmi, Ary, Bid & Marçal, Lauro Maia; os arranjos econômicos e perfeitamente elegantes de Jobim (e os de Walter Wanderley em parte do terceiro disco): foi o Big Bang. As bandas jazzísticas que apareceram depois, sobretudo no Beco das Garrafas, sendo, a meus ouvidos, apenas uma pequena regressão virtuosística. Em suma, a “bossa nova” de que falo no verso desaforado não é um gênero mas um acontecimento. Respeitei seus desdobramentos mas nunca os pude pôr no mesmo nível do ápice revolucionário. O aparecimento de Milton, coincidindo cronologicamente com o do grupo tropicalista, veio a mudar esse esquema. Ou pelo menos se apresentou como algo mais que relevante (além de intenso e genuíno) nascido de uma relação diferente com essa história: Milton desenvolveu uma visão da música que dava mais atenção aos floreios do Tamba Trio do que ao rigor fundador de João.

Claro que Milton não era o único brasileiro a ser mais atraído por aqueles desdobramentos. Conheci dezenas de amantes da música que, no início dos anos 60, tendiam mais para o culto dos Zimbos e Tambas, do Donato do “Muito à vontade” — e das canções de Edu, fundamente informadas pela riqueza harmônica da bossa nova mas saindo para modos do Nordeste e para paisagens sonoras mais grandiosas. Mas Milton fez de tudo isso um mundo novo. Eu próprio, admirador de Edu (apesar de manter fidelidade estética e crítica ao minimalismo do Jobim de João), compus, em 1964, a canção “Boa palavra”, que o próprio Milton, anos depois, me disse ter sempre amado. Mas não só eu não tinha adesão estética total ao que se insinuava nessa segunda fase do momento bossanovista da nossa canção: faltava-me o talento musical para produzir algo orgânico. Terminei, no apego à exigência joãogilbertiana, indo para o ruidismo roqueiro e para a mirada pop da produção cancional.

Muito mais musical do que eu, Gil percebeu a força e o significado de Milton. Bastou-lhe ouvi-lo cantar a música de Baden no festival da TV Excelsior. Quando, pouco depois, ele tomou conhecimento das composições do mineiro, era-lhe evidente que Milton era a coisa mais importante que tinha acontecido à música brasileira. De minha parte, embora me fosse óbvio que “Canção do sal” e “Travessia” fossem composições belas, só comecei a perceber algo de especial em Milton quando o conheci pessoalmente. Desde que o vi algumas vezes no Redondo (bar que ficava em frente ao Teatro de Arena de São Paulo) tive a sensação de estar diante de alguém com conteúdos muito densos — e uma forma externa à altura: a beleza de seu rosto negro valeria por si só, não fosse o sentimento indescritível sugerido por seu olhar. Mas só vim a combinar essa experiência com a música que saía dali quando, de volta de Londres, em 72, vi o show do Teatro da Lagoa. Foi o show que encantou Wayne Shorter. Em Londres, Dubas chegou com um LP “Courage”. Ouvi, admirei mas não me deixei tomar. Vendo Milton com a banda no palco, de repente entendi tudo.

A música de Milton é a maior força de presença da música brasileira no mundo depois da bossa de Tom e João. Isso se deve a sua capacidade intuitiva para com as relações dos sons — e a forças atávicas, históricas e sociais da feitura de sua individualidade. (Quando vi, no resultado dos testes de DNA feitos com celebridades brasileiras, que Milton apresentava a mais alta percentagem de gens negros, pensei: tinha que ser no mínimo isso!) Primeiro a turma do jazz-fusion, depois a turma do rock e do pop: o mundo viu algo imenso erguer-se no Brasil.

E o próprio Brasil passou a gerar talentos grandes que tinham tido em Milton a inspiração: Ivan Lins, Djavan, Gonzaguinha, João Bosco…

Escrevo isto sob o impacto da leitura do livro de Amaral. E com o “Coração de estudante” a que o nó dos professores convida. Ainda o estou lendo, já mais perto do final. Mas não tenho outra coisa na cabeça.