sábado, outubro 05, 2013

Coerência - RENATO ANDRADE

FOLHA DE SP - 05/10

BRASÍLIA - Marina Silva deu mostras de que o espírito político de quem recebeu 20 milhões de votos fala alto em situações complexas.

Sem conseguir o aval para disputar a corrida presidencial com sua Rede Sustentabilidade, a ex-senadora usará todo o tempo disponível para costurar argumentos que justifiquem abraçar outra legenda e ter seu nome na urna eletrônica de 2014.

A pavimentação desse caminho começou a ser feita ainda ontem.

Ao explicar por que decidiu deixar para hoje a definição sobre o ingresso ou não em outro partido, Marina demonstrou ter consciência do peso político adquirido e do impacto que sua presença terá na disputa pelo Planalto no ano que vem.

De acordo com as palavras da ex-senadora, pesará em sua decisão a disposição dos partidos que estão lhe oferecendo abrigo de se preocupar em quebrar a polarização que ficará evidente caso Dilma Rousseff e Aécio Neves repitam a disputa PT-PSDB dos pleitos anteriores.

Por mais que o ideário sonhático de Marina não seja palatável para uma gama considerável de eleitores, é preciso reconhecer que a presença da ex-senadora tornará o embate menos previsível.

A tarefa principal de Marina será mostrar para seus apoiadores que aceitar o convite para ingressar em outro partido não significa o abandono do discurso de coerência com os princípios que nortearam a proposta de construção da Rede.

Marina acredita efetivamente que carrega um espírito de renovação na forma de fazer política, e boa parte de seus aliados compartilham dessa crença. Por isso, o peso das críticas que virão tende a ser relativamente menor do que as palavras de apoio.

Outro fator joga a favor desse movimento pragmático que a ex-senadora deve fazer. Apesar da miríade de partidos no país, boa parte da população vota em nomes, e não em legendas. Essa é uma vantagem para a provável candidata.

Tapetão eleitoral - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA

CORREIO BRAZILIENSE - 05/10
Se houve deliberada rejeição de assinaturas em cartórios eleitorais, como suspeitam adeptos da Rede, Marina Silva não poderia ficar de fora da disputa em 2014. Resignar-se com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - e rejeitar o apelo de companheiros para que aceite concorrer ao Planalto por outra legenda - equivaleria a fazer o jogo dos supostos sabotadores. É como se eles tivessem vencido, no tapetão, um primeiro turno antecipado da eleição do ano que vem. E, agora, zombassem da ingenuidade da mulher que desponta hoje como a maior ameaça à reeleição de Dilma.
Sim. É verdade. A Rede era uma tentativa de criação de um partido diferente das demais legendas. Mas é justo, caso se confirmem as suspeitas, ser alijada do processo eleitoral justamente por uma maracutaia de quem a quer longe dos palanques? Esperar por 2018 pode ser tarde demais. Sei que no Brasil, hoje, não há espaço para isso: mas imagina se até lá, como pregam blogueiros chapas-brancas, o país já tenha se transformado numa república bolivariana, com a Justiça, a imprensa e tudo o mais dominado?
Em 2010, praticamente sem tempo na propaganda eleitoral na tevê, Marina recebeu quase 20 milhões de votos no país. Hoje, mostram pesquisas de opinião, a ex-ministra aparece em segundo lugar em todas as pesquisas de opinião. Sua ausência na disputa deixaria órfãos milhares de brasileiros que cravaram seu nome nas urnas e tencionam repetir o gesto. Boa parte desses eleitores são do Distrito Federal. Vale lembrar que, aqui, Marina bateu Dilma na eleição anterior. Poderia repetir a dose ano que vem e até influir no destino da sucessão ao Buriti. Mas não se ceder às forças que a querem fora da política.
Além disso, no cenário hoje, Marina é a única candidatura à esquerda com força política para vencer em 2014. Afinal, ela ocupa um vácuo aberto desde que os petistas deram a guinada à direita e se aliaram a caciques que, antes de chegarem ao poder, eram inimigos históricos. Sarney, Collor, Maluf, Jader, Renan. Hoje, com Lula, eles são a antítese do que os sonháticos - como são chamados os seguidores da Rede - querem para o futuro do país. Mas a esperança de mudança ficará ainda mais frágil se ela se deixar derrotar em primeiro turno no tapetão eleitoral.

Controvérsia e certeza do Direito - MIGUEL REALE JÚNIOR

O ESTADO DE S. PAULO - 05/10

O julgamento da aceitação ou não dos já famosos embargos infringentes no STF trouxe a muitas pessoas inquietação em vista da existência de tão flagrante controvérsia nas decisões judiciais, deixando no ar insegurança na aplicação da justiça.

O juiz penal, ao julgar, enfrenta dois desafios: 1) reconhecer por meio das provas o fato ocorrido, no seu contexto, em todas as circunstâncias objetivas e pessoais; e 2) adequar ao fato a norma cabível, interpretando seus termos, seu sentido e o fim visado, casando-os com a hipótese real em apreço. O magistrado não apenas diz a lei, como se a decisão já se contivesse pronta, acabada no texto legal, mas tem a tarefa, com limites, de estabelecer a norma para o caso concreto.

Coordenei trabalho em quatro volumes (Editora GZ), denominado Jurisprudência em Debate, no qual com dez jovens penalistas realizamos estudo doutrinário de crítica aos julgados contraditórios, para examinar qual a orientação que nos parecia correta: a que afirma A ou a que afirma não A.

Vejamos exemplos. No crime de ameaça, consistente em prometer causar a alguém mal injusto e grave, decisões se dividem em vista do surgimento ou não de temor na vítima: haveria intimidação se o ameaçador se encontra em estado de ira? Ou, para se configurar o crime, o agente precisa estar calmo, em atitude refletida?

Forma-se a seguinte confrontação: de um lado, só se admite o crime de ameaça se provir de pessoa com ânimo calmo e refletido, considerando-se que a ameaça não se configura quando a afirmação é proferida no calor de uma discussão, pois não houve, com seriedade e idoneidade, promessa de mal futuro, já que em estado emocional de exaltação está ausente o propósito refletido de causar temor ou inquietação de ânimo à vítima.

Em sentido diametralmente oposto, decidiu-se que a ameaça feita por encolerizado tem maior energia intimidativa, é mais convincente que a produzida a frio. Na verdade, diz o acórdão, ressalvada a hipótese de mensageiro "mafioso", se a ameaça é produzida a frio, isto é, se o ameaçador se mostra perfeitamente sereno, radicalmente isento de paixões, e aparenta ter completo domínio de seus nervos, então de duas, uma: é mentalmente desequilibrado ou está pilheriando.

Na análise crítica que fiz, ponderei não ser correto que a ameaça proferida em momento de cólera, durante discussão acalorada, não venha a configurar a intenção de atemorizar, pois o medo não surge apenas diante de promessa de mal feita com "ânimo e refletido". A questão está em verificar se a ameaça, dita friamente ou em acesso de raiva, no caso se reveste de seriedade, com força para infundir temor à vítima, atingindo o direito de cada qual de se sentir seguro.

Vejamos agora dois exemplos referentes à responsabilidade penal em acidente automobilístico. Há decisões entendendo bastar ao motorista não ter habilitação para ser considerado imperito e, portanto, defluindo evidente sua culpa. Para outras decisões, todavia, não se deve presumir a imperícia do agente para dirigir visto não ser habilitado, não se lhe podendo, por isso, atribuir culpa em caso de acidente. A meu ver, a falta de habilitação pode, quando muito, constituir indício, mas jamais presunção absoluta de culpa, pois é viável, no caso concreto, não ter sido essa circunstância o fator determinante do evento delituoso, causado, por exemplo, por transeunte que se projetou sobre o veículo.

A derrapagem é outro dado posto em discussão. Para algumas decisões, derrapagem é acontecimento previsível, que só sucede em casos de velocidade incompatível ou imperícia do motorista. Em sentido contrário, para outro acórdão, a derrapagem nem sempre é previsível, pois pode ter sido determinada pelo estado da pista, sem que para ela concorresse com qualquer parcela de culpa do acusado. Comentando a divergência, observei haver rigorismo destituído de base real na decisão que fixa de modo determinante ser a derrapagem sempre previsível, fruto da imperícia ou de imprudência consistente na alta velocidade, pois esta pode ter sido causada efetivamente por invisível mancha de óleo esparramada.

Só à luz do caso concreto será possível saber o que é justo.

Também na seara do crime de quadrilha ou bando há divergências. Segundo certa orientação jusprudencial, para a caracterização do crime de quadrilha ou bando basta uma organização rudimentar, capaz de levara cabo o fim visado, não se exigindo nítida divisão de funções, estatutos, hierarquia ou mesmo contato pessoal dos agentes. Em sentido diametralmente oposto, requer-se que a associação se traduza por dolo de planejamento, divisão de trabalho, organicidade, provado o efetivo funcionamento do bando com caráter permanente.

A permanência e a estabilidade da associação são elementos básicos do crime de quadrilha ou bando. Mas não se confundem com organização estruturada, mediante hierarquia, planejamento e divisão de trabalho. Assim, a meu ver, como já afirmara, basta uma organização rudimentar, em vista da distinção a ser feita entre organização criminosa, estruturada, e associação para cometer crimes.

Como se vê, o Direito é o que a interpretação fundamentada for. O ato de julgar não se reduz a uma atitude passiva diante dos textos legais. A criação judicial do Direito Penal, frisa Ricardo Andreucci, é necessária para ajustar as leis, feitas para a generalidade, ao que emana da realidade de modo multifário.

Em busca de certeza cumpre obedecer aos limites da Constituição e de seus princípios, da lei, dos precedentes e da doutrina. Assim, relevantes são a uniformização da jurisprudência pelo STJ, a formulação de súmulas pelos tribunais superiores e, por fim, o papel crítico e aprofundado da doutrina. Dessa maneira se tenta combinar liberdade de interpretação com segurança jurídica contra abusos do ativismo judicial.

A grande arte do vacilo - LEONARDO CAVALCANTI

CORREIO BRAZILIENSE - 05/10

Ao anunciar a decisão hoje, Marina estará jogando com as regras eleitorais, as mesmas que vetaram a criação da Rede



A indefinição de Marina Silva apenas reforçou a imagem de pouca praticidade da senadora, já revelada na dificuldade de contabilizar assinaturas para criar a Rede Sustentabilidade. Ao manter um mistério por quase 48 horas sobre os rumos, a ex-ministra passou a sensação de vacilo, que em outros políticos poderia ser definido como barganha. Agora, por mais que Marina desista hoje da candidatura - algo improvável e descartado por todos os aliados - terá escancarado de qualquer forma a vontade de entrar na corrida presidencial por um partido ordinário, igual a todos os outros.

Mas, para a sorte de Marina, apenas o vacilo demonstrado ontem - e o próprio discurso enviesado - é que pode atrapalhá-la na corrida presidencial. Na prática, disputar por outro, e não pela Rede, deve fazer pouca ou nenhuma diferença ao eleitor brasileiro, mais atento aos personagens do que às próprias legendas. Isso não quer dizer que Marina tem garantido o capital de quase 20 milhões de votos conquistados na última eleição, mas definitivamente não será o nome do partido o que poderá atrapalhá-la. E, sim, ela mesma, com uma retórica entre a defesa do meio ambiente e o conservadorismo, que pode ficar mais evidente na campanha do próximo ano. Parte do eleitorado da ex-ministra se identifica com o discurso verde, mas defende a descriminalização da maconha ou a legalização do aborto nos primeiros meses de gestação, ou até mesmo o casamento igualitário - ou os três ao mesmo tempo.

No mais, Marina tem toda a legitimidade para disputar por uma legenda, independentemente da cor partidária ou ideológica. Aliás, ela joga dentro das regras, como quando tentou oficializar a Rede e perdeu. Explico. Acusar Marina de jogar no lixo toda uma história política por se candidatar a um partido que não a Rede é coisa de adversário receoso do estrago que a ex-ministra pode fazer na campanha, principalmente os petistas. Sem conseguir confirmar a legenda, Marina, dentro do prazo, regularmente, deverá confirmar a candidatura. E embolar uma campanha.

Lula e os médicos

Depois de uma semana da entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a este Correio, um ponto ficou de fora do debate, talvez o mais representativo sobre políticas públicas: o financiamento da saúde. Ao falar do Programa Mais Médicos, o petista disse: "É uma coisa fantástica, mas vai fazer com que o povo fique ainda mais exigente com a saúde", afirmou Lula. Aqui, a primeira observação. O ex-presidente elogia o programa, mas faz ressalvas - não pode ser comparado a um torcedor irracional. "O sujeito vai subir o primeiro degrau. Vai ter um médico que vai lhe pedir os primeiros exames, e a saúde vai ser problema outra vez." Lula puxa o mote para o que queria discutir de verdade, o fim da CPMF.

O assunto da saúde - ao contrário de outras e várias respostas do petista que foram comentadas por adversários e aliados - ficou restrito às páginas do Correio, como se o debate levantado por Lula não valesse ou mesmo fosse um assunto proibido. "Discutir saúde sem discutir dinheiro, não acredito. E não adianta dizer, como fazem os hipócritas, que o problema é só de gestão. Chamem os 10 melhores gestores do planeta e perguntem como oferecer tomografia, ressonância ou tratamento contra o câncer sem dinheiro", continuou Lula. "O hipócrita diz: "Eu pago caro por um plano de saúde, porque o SUS não me atende". Mas quando ele vai fazer a declaração de renda, desconta tudo do imposto a pagar. Então quem paga a alta complexidade para ele é o povo. E aí vem a Fiesp fazer campanha para acabar com a CPMF. Não foi para reduzir custos, mas para tirar do governo o instrumento de combate à sonegação."

De uma só tacada, o ex-presidente foi mais realista sobre o Mais Médicos - ao contrário do que prega a maioria dos governistas, que incensam a iniciativa como a grande marca de Dilma -, reclamou do fim da contribuição para a saúde, atacou "hipócritas" e foi para cima dos empresários. O tema, entretanto, foi ignorado por todos que resolveram repercutir a entrevista, do governo à oposição.

O Solidariedade

Estão mais do que claras as denúncias de irregularidades cometidas na formação do Solidariedade, o partido de Paulinho da Força, o homem dos incríveis 38.750 votos (0,63%) nas últimas eleições para a prefeitura de São Paulo. Depois dos servidores do Senado que descobriram os próprios nomes em listas que nunca assinaram, o repórter João Valadares, deste Correio, revelou que o partido tentou passar um morto, o ex-servidor José Washington Chaves, no rol de apoio para criação da legenda. A ficha foi registrada no cartório da Asa Norte, em Brasília. Falta algo mais para uma investigação minuciosa?

Vacina na marra - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 05/10

SÃO PAULO - Penso que a homeopatia não passa de um placebo e não creio que pais tenham o direito moral de negar vacinas a seus filhos. As duas medidas que mais contribuíram para derrubar os índices de mortalidade infantil da faixa de 200 por mil nascimentos com vida em 1900 para a de menos de 20 por mil hoje são saneamento básico e imunizações. Vejo com desconfiança, porém, a decisão da Justiça de obrigar os pais homeopatas de duas crianças de Jacareí (SP) a vaciná-las.

A liminar determina que os garotos sejam imunizados imediatamente, sob pena de multa diária (até aí, tudo bem) e, na hipótese de a recusa persistir, mediante mandado de busca e apreensão. Isso significa que eles poderão ser retirados de seus guardiães com recurso à força policial, processo algo traumático que me parece claramente um caso de remédio pior que a doença.

Ora, mesmo as mais exitosas campanhas de imunização ficam muito aquém de atingir a totalidade da população. E o Estado não sai implacavelmente à caça dos pais relapsos. Na verdade, isso nem é tão necessário já que, quando a cobertura de vacinas contra doenças infectocontagiosas transmitidas de pessoa a pessoa ultrapassa certo limiar, lá pelos 80%, começa a ocorrer aquilo que os cientistas chamam de imunidade de grupo. A ideia aqui é que, como há menos gente suscetível à moléstia, as cadeias de transmissão não funcionam tão bem, o que acaba em alguma medida protegendo também as crianças que não foram imunizadas.

Desde que a militância antivacinal fique restrita a meia dúzia de gatos-pingados, não configura uma ameaça à saúde pública. Também não dá para comparar a não vacinação com a recusa de ministrar antibióticos a uma criança com sepse, hipótese em que a ação coercitiva do Estado é legítima. Uma Justiça sábia fecha os olhos para faltas menores, e um Estado democrático dá aos cidadãos o direito de acreditar até em tolices.

O estapafúrdio quadro partidário brasileiro - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 05/10

A rejeição, pela Justiça eleitoral, do pedido de registro da Rede e a oficialização do Solidariedade e PROS enfatizam a necessidade de uma ‘cláusula de barreira’



Se o partido em fase de organização pela ex-senadora Marina Silva, a Rede Sustentabilidade, não conseguiu preencher o quesito do apoio formal de um número mínimo de eleitores, não havia mesmo como a legenda obter o registro para participar das eleições do ano que vem. Impossível, como entenderam seis dos sete ministros do TSE, recorrer a casuísmos para criar uma exceção inexistente na lei. Neste sentido, não há o que se questionar.

Parece ter havido um erro de planejamento, talvez devido ao excesso de confiança do grupo de Marina — ela, a grande a surpresa das últimas eleições presidenciais, quando, com cerca de 20 milhões de votos, forçou um saudável segundo turno. Parece evidente que a coleta de assinaturas e o trabalho junto a cartórios eleitorais não mereceram a atenção devida e no tempo certo.

Enquanto isso, "profissionais" da política — em todos os sentidos do termo — atenderam ao preceito formal da necessidade de mais de 400 mil assinaturas e conseguiram fundar dois partidos dentro do figurino de legendas de aluguel, o Solidariedade, do deputado federal (SP) e sindicalista Paulo Pereira da Silva, e o Partido Republicano da Ordem Social (PROS), de Eurípedes Júnior, ex-vereador em Planaltina, Goiás, cidade próxima a Brasília.

Fica a ironia: a Rede, com apoio claro na sociedade — haja vista Marina, sem qualquer cargo eletivo, aparecer em segundo lugar nas primeiras pesquisas eleitorais para 2014 — fica de fora das eleições, enquanto legendas criadas para atuar no mercado da fisiologia política obtêm o alvará para disputar votos e cargos.

O caso Rede, Solidariedade e PROS se inscreve na questão mais ampla, e séria, do excessivo número de partidos com atuação nas Casas legislativas. A exclusão da Rede do pleito do ano que vem — ela pode muito bem ser fundada e atuar a partir de 2016 —, enquanto legendas com nome de fantasia obtêm registro, serve para enfatizar a enorme distorção do quadro partidário brasileiro: 32 legendas, mais de 20 das quais donas de bancadas no Congresso, com a grande maioria sem qualquer projeto sério de governo e poder.

As distorções do sistema partidário ficaram tão evidentes que até mesmo os ministros do STF Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, polos opostos no julgamento do mensalão, concordam com a necessidade da criação de uma cláusula de barreira para partidos poderem ter representação nas Casas legislativas. É necessária, ainda, uma radical desburocratização para liberar a criação de legendas, condicionando o acesso a recursos públicos, ao Congresso e Câmaras apenas a uma proporção mínima dos votos.

Ainda sobre a Rede: o TSE não tinha, de fato, alternativa a não ser barrá-la, mas falta explicar por que cartórios em áreas de domínio eleitoral do PT (ABC paulista), contrário à criação da legenda, apresentaram índices de rejeição de assinaturas em apoio ao partido e acima de 50%. Algo suspeito

O BC e a turbulência externa - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 05/10
O Brasil tem instrumentos para lidar com movimentos bruscos nos mercados financeiro e cambial, disse o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, em Londres, tentando passar uma mensagem tranquilizadora aos investidores. Diante das incertezas quanto às políticas fiscal e monetária dos Estados Unidos, as preocupações do auditório são facilmente compreensíveis, assim, como o cuidado de Tombini. Até há poucos dias, a agitação nos mercados era associada principalmente à esperada mudança de rumo do Federal Reserve, o banco central americano, com a redução dos estímulos mensais de até US$ 85 bilhões, Essa expectativa permanece, mas a maior fonte de insegurança, nos últimos dias, tem sido o impasse entre a Casa Branca e a oposição em torno do orçamento para o ano fiscal iniciado em I.° de outubro. Se essa disputa impedir ou atrasar a elevação do teto da dívida federal, o governo terá dificuldade para evitar um calote, a redução dos gastos federais será desastrosa e as consequências serão sentidas em todo o mundo,
Nenhum governo sério pode menosprezar esses perigos, mesmo quando se mantém a esperança de uma solução para o problema da dívida pelo menos no último instante, como já ocorreu nos Estados Unidos. Diante do risco visível para todos, a prioridade para qualquer investidor é saber se o seu dinheiro terá alguma segurança em caso de turbulência. O papel de Tombini foi apresentar um BC preparado para enfrentar os desafios. As últimas intervenções, destinadas a limitar a depreciação do real, foram executadas com razoável sucesso e - detalhe importante - sem queima de reservas. O Brasil, disse o presidente do BC, dispõe de moedas estrangeiras em volume suficiente para atuar no mercado quando necessário. De fato, reservas acima de US$ 370 bilhões podem ser um importante fator de segurança.

Bons estoques de moedas fortes, no entanto, são apenas um dos componentes da segurança, em caso de instabilidade internacional O déficit na conta corrente do balanço de pagamentos e a forma de seu financiamento também são relevantes para á avaliação do quadro. O BC estima para este ano um déficit de US$ 75 bilhões nessa conta, equivalente, segundo suas projeções, a 3,35% do PIB.

Em 2012, esse déficit correspondeu a 2,41% do PIB. Há uma indisfarçável piora das contas externas e também das condições de cobertura do buraco nas transações correntes. No ano passado, o investimento estrangeiro direto correspondeu a 2,9% do Pife e foi mais que suficiente para essa função. Neste ano, segundo as projeções do BC, essa proporção deve ficar em 2,68%, bem abaixo da desejável. Esse tipo de investimento é destinado diretamente ao setor empresarial, atende a objetivos de longo prazo e é menos instável que outros tipos de aplicação.

A cobertura deverá ser facilmente completada com outras classes de investimento. De toda forma, o arranjo será menos que ideal. Apesar disso, Tombini descreveu o déficit brasileiro como "confortavelmente financiado". A descrição será razoável, se "confortável" for entendido como sinônimo de "sem endividamento".

Mas a deterioração, das contas externas resulta principalmente de fatores fora do alcance do BC. A causa principal do aumento do déficit em conta corrente é a piora da balança comercial de mercadorias.

Segundo as projeções da instituição, a receita de exportações deve ficar em US$ 241 bilhões, pouco menos que o valor alcançado em 2012, de US$ 242,58 bilhões. O gasto com importações, estimado em US$ 239 bilhões, deve ser, no entanto, 7% maior que o do ano passado. O grande problema é esse descompasso, decorrente de problemas estruturais, bem mais graves que a valorização cambial acumulada em anos.

Mesmo o desajuste cambial teria sido provavelmente menor, se a inflação fosse mais baixa. Mas, segundo Tombini, a inflação está controlada e convergirá para a meta de 4,5%. Faltou um detalhe relevante: isso dependerá da política de juros, se o governo insistir na gastança.

Marina e os partidos - EDITORIAL GAZETA DO POVO- PR

GAZETA DO POVO- PR - 05/10

As dificuldades da Rede Sustentabilidade provocam uma reflexão sobre as distorções do atual sistema partidário brasileiro


Ficou para hoje a definição sobre o futuro político de Marina Silva, após seu partido, a Rede Sustentabilidade, ter o registro negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por não cumprir o número necessário de assinaturas requeridas pela legislação. Marina pretendia ser candidata à Presidência da República pela Rede. Sem essa opção, ela pode se filiar a outro partido – convites não faltam – ou abrir mão de concorrer e trabalhar na consolidação da nova legenda. Os quase 20 milhões de votos que Marina teve no primeiro turno da eleição presidencial de 2010 são um capital político impressionante, e que pode ser novamente decisivo em 2014 – as pesquisas de opinião a colocam em segundo lugar, atrás da presidente Dilma Rousseff.

Independentemente da opinião que cada um tenha sobre Marina Silva e suas ideias, é indiscutível que a Rede tem mais cara de partido, cheiro de partido e gosto de partido que o Solidariedade e o Partido Republicano da Ordem Social (Pros), as duas mais novas legendas clientelistas cuja criação foi aprovada pelo TSE. É uma situação que exige reflexão sobre a política partidária brasileira, um jogo em que só há dificuldades para quem quer entrar nele, mas, uma vez dentro de campo, só existem as facilidades e, sobretudo, as verbas. O mais lógico, no entanto, seria o inverso: respeitar a liberdade de associação e relaxar as restrições para a fundação de partidos, mas criar mecanismos que fortalecessem as legendas consagradas com o voto popular.

Uma dessas alternativas seria a cláusula de barreira, que existe em várias democracias. Um exemplo recente de seu funcionamento foi a eleição parlamentar alemã de setembro. Um dos partidos mais tradicionais do país, o Democrático Liberal (FDP), não conseguiu 5% do total de votos, e por isso ficou fora do Bundestag, a câmara baixa do Parlamento, situação que também afetou outros partidos. No Brasil, a Lei dos Partidos Políticos, de 1995, chegou a prever a cláusula de barreira em uma versão mitigada – as legendas que não atingissem 5% dos votos para deputado federal não ficariam excluídas do Congresso: elas poderiam manter seus parlamentares, mas teriam menos tempo de televisão, menos recursos do Fundo Partidário e funcionariam sem estrutura de liderança no Congresso. Em 2006, quando a regra entraria em vigor, apenas sete dos então 29 partidos existentes no Brasil tiveram mais de 5% dos votos; algumas legendas prejudicadas pela lei foram ao Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou a cláusula de barreira inconstitucional por limitar a representação política das minorias. Dias atrás, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, e os pré-candidatos à Presidência Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) defenderam a volta da cláusula de barreira.

Outra possibilidade vem sendo estudada no Congresso: um projeto que proibiria o parlamentar que migra para uma nova legenda no meio da legislatura de “carregar” consigo tempo de televisão e verba do Fundo Partidário. A distribuição desses “bens” seguiria obedecendo à proporção estabelecida pelo resultado da eleição anterior – se um novo partido quiser ampliar sua fatia do bolo, que consiga bom desempenho no pleito seguinte. A tramitação desse projeto foi paralisada pelo Supremo. Esta é uma ótima proposta, que inibe as migrações partidárias clientelistas. O problema na maneira como nasceu era seu timing: seus defensores queriam que ela valesse já para 2014, em uma clara tentativa de prejudicar Marina Silva, quando a criação da Rede era tida como inevitável. Esse casuísmo que muda no meio as regras do jogo era inaceitável; por isso, foi bem vinda a suspensão da tramitação. Agora, que o cenário partidário de 2014 se resolveu, esse projeto pode voltar a ser analisado pensando em 2018.

Um fortalecimento da democracia passa pelo fortalecimento dos partidos. Mas também é necessário que os partidos sejam vistos como representantes efetivos da população, e não como instrumentos de clientelismo e barganha política, ou como feudos pessoais de aspirantes a caciques que, por um ou outro motivo, não encontram espaço suficiente nas legendas atuais – mas são justamente esses os partidos que mais proliferam no cenário político brasileiro atual, enquanto legendas com plataformas ideológicas mais definidas encontram dificuldades para entrar no jogo. São distorções que precisam de correções urgentes.

Constituição em vigor - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/10

Carta de 1988 consolidou democratização brasileira e, apesar dos defeitos, firmou-se como referência para os principais debates públicos


Os 25 anos da Constituição brasileira, que se comemoram hoje, talvez contenham em si mesmos --pela mera menção de sua durabilidade-- o maior elogio ao texto atualmente em vigor.

Quando foi promulgada, em 5 de outubro de 1988, não faltaram advertências quanto aos riscos de inviabilidade que a nova Carta projetava sobre os governos do futuro, dado seu detalhismo e sua prodigalidade ao acomodar demandas das mais distintas corporações.

Para os padrões brasileiros, entretanto, a Constituição se prova duradoura. O período anterior de plena democracia constitucional, iniciado em 1946, vigorou por 18 anos --marcados, como se sabe, por ameaças de instabilidade civil e de intervenção militar, até produzir-se a crise final de 1964.

Não está na qualidade abstrata de um texto legal a vacina para impasses de tal tipo. Ainda assim, o maior mérito da Carta de 1988 foi o de expressar, depois de um extenso período de debates, um consenso básico da sociedade brasileira, no sentido de superar suas imensas desigualdades dentro de uma moldura democrática.

Refutava-se concepção que, paradoxalmente, havia sido compartilhada por adeptos da direita e da esquerda ao longo do século 20.

A criação de um "Brasil potência" e a construção de uma "pátria socialista" haviam tomado os princípios da liberdade individual e da alternância de poder como nada mais que empecilhos ao exercício da razão de Estado.

A democratização brasileira, coincidindo com o declínio dos totalitarismos de esquerda, inscreveu na Constituição algo que não se resumiria a uma mera enunciação formal de princípios. Mais do que restaurar a democracia, tratou-se de ampliá-la, incluindo novos direitos sociais e mecanismos para cobrar sua execução.

O papel renovado do Ministério Público assinala-se como exemplo eloquente desse intuito. Uma ampla liberdade partidária, um constante fortalecimento dos órgãos judiciários, o rumo aberto para os direitos do consumidor, da criança, do idoso, nada disso ficou no plano da teoria --embora não faltem aspectos em que a prática continua aquém do aceitável.

Ironicamente, se a nova Carta veio a ser elaborada em consonância com um clima internacional marcado pelo descrédito do autoritarismo político, a crise dos sistemas socialistas surpreendeu o legislador brasileiro numa espécie de contrapé ideológico.

A Constituição de 1988 resistiu, na letra e na realidade, a preparar o país para o ambiente da globalização econômica e da redução do papel do Estado. Ficou entregue a reformas posteriores, ainda incompletas ou negligenciadas, a tarefa de abrir a um modelo concorrencial vastas áreas da economia, como as comunicações, os transportes, os serviços essenciais.

Mais do que isso, faltam ainda as modificações incontornáveis da desburocratização, da plena liberdade sindical, da simplificação tributária, da adaptação do sistema previdenciário à reviravolta demográfica já em curso no país.

Aspectos que, ao exprimir insatisfações represadas pela ditadura, a Constituição Federal terminou engessando em dispositivos de difícil modificação.

Além desses dois eixos básicos --os direitos dos cidadãos e a organização econômico-social--, a Carta de 1988 tratou de encontrar solução em outras vertentes, que incidem sobre a arquitetura institucional republicana.

Correspondem aos temas clássicos da divisão dos Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), da representação popular, das relações entre União, Estados e municípios. O saldo não é inequívoco.

Vê-se o enfraquecimento do Legislativo perante a atuação do governo central. O processo, porém, é comum às democracias ao longo dos últimos cem anos, pelo menos. Dificilmente, sob as precaríssimas determinantes da cultura política brasileira, um texto constitucional poderia estancá-lo.

A representatividade do Parlamento --e dos políticos em seu conjunto-- sofre ademais com o voto obrigatório, a desproporção entre bancadas estaduais na Câmara dos Deputados, o sistema proporcional puro --que leva o eleitor a escolher entre centenas, ou milhares, de candidatos numa verdadeira barafunda partidária.

As reformas ainda a promover, bem como as incontáveis disposições que carecem de regulamentação, testemunham, entretanto, a vitalidade de uma Carta já longeva, mas ainda nova.

Sobretudo, é sempre à Constituição que se recorre quando estão em disputa os interesses mais diversos, das células-tronco aos territórios indígenas, da realidade carcerária à liberdade de imprensa.

É por estar viva que a Constituição se faz objeto de polêmica e de contradição. É porque regula, dentro da ordem, tantos conflitos, que seu caráter democrático sobressai, acima dos grupos, das pressões e das circunstâncias do momento.

A exclusão da Rede - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 05/10

A rejeição do registro da Rede Sustentabilidade pelo Tribunal Superior Eleitoral é mais do que um evento episódico envolvendo as pretensões políticas da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva. O desfecho do caso é a prova do esgotamento do atual sistema legal para criação de partidos. O modelo é questionável sob os mais variados aspectos. Primeiro, porque a exigência de um número mínimo de assinaturas, para que assim seja feito o pedido de registro, é controversa. A formalidade pode ser cumprida como uma campanha de abaixo-assinado e não é garantia de que todos os signatários do pedido estão bem informados sobre o programa e as reais intenções da agremiação. E as listas podem ser fraudadas, conforme denúncia que o próprio TSE examina, no caso da criações de duas instituições cujo registro foi aceito recentemente, o Solidariedade e o Partido Republicano da Ordem Social (PROS).
Além disso, o processo para comprovação de apoio popular esbarra em obstáculos apontados pela Rede de Marina Silva e os outros partidos criados há pouco tempo. A ex-ministra se queixa da burocracia e da falta de estrutura dos cartórios para a conferência das assinaturas e alega ter sido derrotada pelos formalismos. Mesmo que os líderes da Rede tenham cometido o equívoco de subestimar as dificuldades que enfrentariam para cumprir a exigência, é certo que um determinado número de assinaturas não basta para legitimar uma proposta partidária ou garantir que esta tem de fato o respaldo consciente de seus pretensos apoiadores.
Frustra-se, com a rejeição do registro, um projeto reconhecido, em meio a tantas aventuras partidárias, por sua representatividade. Marina Silva ocupou cargos legislativos e executivos, ganhou projeção internacional e obteve mais de 20 milhões de votos no último pleito à Presidência. É desconfortável a constatação de que partidos sem a menor expressão, com representação minguada no Congresso, tenham sobrevivido às exigências e estejam aí, em meio a 32 siglas, negociando apoios a governos, disputando vagas em escalões subalternos do poder, cedendo espaços na propaganda eleitoral em troca de favores e consumindo recursos milionários do Fundo Partidário, sustentado com dinheiro público.
Por uma diferença de 50 mil assinaturas, a Rede não poderá submeter a julgamento a promessa de que contribuiria para a renovação da política. Mesmo que a ex-ministra opte por se filiar a outra agremiação, decisão que só anunciará neste sábado, o episódio do veto fica mal resolvido. O Congresso tem a missão de reexaminar os critérios para criação de partidos, ou o país continuará convivendo com normas que podem viabilizar o surgimento e a manutenção de representações esdrúxulas e impedir a criação de siglas com alguma clareza programática.

Os meios, os fins e Marina - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 05/10
Atrelar o próprio futuro político ao do Rede Sustentabilidade, partido pelo qual pretendia disputar a Presidência da República em 2014, é decisão difícil para Marina Silva. A negativa do Tribunal Superior Eleitoral ao pedido de registro da agremiação, por não ter sido atingido o número mínimo de assinaturas (492 mil) necessárias, deixou numa encruzilhada a filha de seringueiro que foi empregada doméstica antes de começar meteórica carreira política.
Com o legado de 20 milhões de votos alcançados na sucessão presidencial de 2010 e o segundo lugar nas pesquisas de opinião pública sobre as atuais preferências do eleitor, ela corre o risco de jogar sua trajetória num vácuo se sair de cena agora. Por seu lado, depois de condenar o sistema partidário brasileiro, terá de dar muitas explicações ao eleitor caso decida candidatar-se por outra legenda.

Não foi à toa, portanto, que Marina anunciou uma decisão para o início da tarde de ontem e a adiou duas vezes na sequência, para, já no começo da noite, avisar que somente bateria o martelo hoje. Antes, ela afirmava só ter plano A: a candidatura pela Rede. Mas cuidou de manter abertas as portas a um plano B: filiar-se e disputar a Presidência da República por outro partido. "Se não temos o registro legal, temos registro moral", tratou de sinalizar.

Caso ela faça de hoje o seu "dia do fico" (na disputa presidencial), terá de convencer os eleitores de que os fins justificam os meios e o sistema partidário que condena continua útil. Além disso, terá dificuldades para reagrupar os seguidores, que, sem a Rede, certamente serão pulverizados na sopa de letrinhas da política nacional.

Ou seja: o fico de Marina é uma questão de sobrevivência, mas, ao mesmo tempo, de outras dificuldades para ela. Um problema que a ambientalista não tem é de partido para filiar-se e entrar na disputa presidencial. Até sobram convites. Um deles veio do Partido Ecológico Nacional (PEN). Outro, do PPS, que primeiro tentou, sem sucesso, o tucano José Serra. Houve aceno também do PTB, cujo secretário-geral, Campos Machado, a descreveu como "Getúlio de saia".

Sem Marina na disputa, perde o país. Além de potencial para qualificar o debate, essa ecologista forjada no seio da floresta amazônica, no Acre, representa a terceira via, fora da polarização entre o PT da presidente Dilma Rousseff e o PSDB de Aécio Neves. A própria tentativa de renovar o sistema partidário, com a criação do Rede Sustentabilidade, partido de características inovadoras na política brasileira, já vale tema de campanha para análise do eleitorado.

Marina tem patrimônio a preservar. Alfabetizada apenas aos 16 anos, logo se formaria em história, faria especialização em teoria psicanalítica e em psicopedagogia. Na política, foi de vereadora em Rio Branco a deputada estadual do Acre e senadora da República, aos 36 anos, garantindo, na sequência, um segundo mandato. Primeiro petista, depois do Partido Verde, ela alçou voo mais alto após renunciar ao cargo de ministra do Meio Ambiente no governo Lula, função que desempenhou por mais de cinco anos, entre 2003 e 2008. Desapeou do poder insatisfeita com a sobreposição de interesses econômicos aos da preservação ambiental. Mas segue obstinada a voltar. Seja hoje, como candidata a presidente da República, seja logo adiante, na retomada da Rede.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“A Marina não demonstrou liderança. Frustrou”
Renan Calheiros, presidente do Senado, ironizando o ex-Rede Sustentabilidade


MICHEL NÃO CONSEGUE QUE ÍRIS CEDA PARA FRIBOI

Dono de grande patrimônio eleitoral em Goiás, o ex-governador Íris Rezende nem aceita conversar sobre hipótese de desistir de disputar o governo do seu estado para ceder lugar ao bilionário Júnior Friboi, cristão novo no PMDB. O vice-presidente Michel Temer provocou almoço com o velho amigo, esta semana, mas Íris não permitiu que o assunto virasse tema do encontro. E tudo continuou na estaca zero.

DIFICULDADES

Michel Temer abonou a filiação de Júnior Friboi ao PMDB e prometeu ajudar a viabilizar sua candidatura, mas enfrenta dificuldades.

ALVES ESCAPOU

Temer convidou o presidente da Câmara, Henrique Alves, para ajudar a fazer Íris Rezende ceder para Júnior Friboi. Mas Alves não apareceu.

EXERCÍCIO DE PACIÊNCIA

O novato Júnior Friboi faz curso intensivo prático, no embate com Íris Rezende, aprendendo a Lição nº 1 de Política: ter paciência.

CONFIANÇA

Para Íris Rezende, o governador Marconi Perillo (PSDB), ferido de morte no caso do bicheiro Cachoeira, não é páreo para ele em 2014.

‘CHEFE’ DE DOLEIRO JÁ TEVE OS SIGILOS QUEBRADOS

O deputado Waldir Maranhão (PP-MA) teve os sigilos fiscal e bancário quebrados pelo Tribunal Regional Eleitoral dias antes de a Polícia Federal gravá-lo ao telefone chamando o doleiro Fayed Traboulsi de “chefe”, na Operação Miquéias. Maranhão não comprovou R$ 600 mil gastos em campanha, por isso o TSE já o investigava. Todos os indícios contra ele já foram remetidos ao Supremo Tribunal Federal.

OPOSIÇÃO A SARNEY

O inferno astral do deputado “chefe” do doleiro levou alegria a certo clã, em São Luís: Waldir Maranhão se opõe ao senador José Sarney.

ÁS NOS NEGÓCIOS

Waldir Maranhão começou a “dar na vista” em 2010: seu patrimônio declarado ao TSE subiu de R$ 140 mil para R$ 776 mil, em 4 anos.

LINHA OCUPADA

O deputado Waldir Maranhão, discreto membro do baixíssimo clero da Câmara, torrou R$ 112 mil do contribuinte nos recessos em 2013.

TORCIDA PALACIANA

Assim como celebrou ontem a derrota de Marina Silva, e do seu partido Rede Sustentabilidade, o Palácio do Planalto fará festa somente se ela não for disputar as eleições presidenciais de 2014. Sem Marina no páreo, o PT avalia que Dilma pode ser reeleita no primeiro turno.

PORCARIAS

Dava para desconfiar com tantos escândalos em série: estamos na Semana Nacional do Porco, criada pelo ministério da Agricultura para estimular o consumo de suínos no País. Mas não precisava exagerar...

BOICOTE

Em pé de guerra com o governo, médicos que participam de conselhos e comissões no Ministério da Saúde – indicados por entidades da classe – pediram demissão após a criação do programa Mais Médicos.

CONTAMINA ALCKMIN

A Defensoria Social, ONG que luta pela descontaminação da Lagoa de Carapicuíba, na Grande São Paulo, vai entregar o prêmio Contamina SP ao governador Geraldo Alckmin, neste domingo, por não impedir o depósito de material contaminado na lagoa.

DITO E FEITO

Em pé de guerra com o PT, o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR) articulou com o prefeito de Guarapuava (PR), Cesar Silvestri, para cassar o título de cidadão honorário dado a Zeca Dirceu, filho de José Dirceu.

EM CAMPANHA

A cúpula do PCdoB realizou encontro ontem na ilha de São Luís para reforçar a candidatura do presidente da Embratur, Flávio Dino, favorito nas pesquisas de intenção de voto ao governo maranhense em 2014.

COM DILMA

Para o deputado Roberto Teixeira (PE), a eleição de Eduardo da Fonte a líder do PP é mais uma prova de que o partido está governista como nunca: “Nas votações, nossa bancada é mais coesa do que o PT”.

SÓ PENSA NISSO

O deputado Ricardo Tripoli acertou diretamente com o governador Geraldo Alckmin sua permanência no PSDB em São Paulo, onde acredita que terá mais chance de se reeleger em 2014.

PENSANDO BEM...

...Dilma já pode “bater”, agora que os EUA “fecharam as portas”, com o impasse da votação do Orçamento no Congresso.


PODER SEM PUDOR

DIPLOMACIA COMPETENTE

Os diplomatas brasileiros são mesmo uns craques. No primeiro governo FHC, o Brasil recebeu a visita do primeiro-ministro do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, que, após os encontros de governo, foi conduzido para uma coletiva no Itamaraty. Ao final, Keita estava encantado:

- Estou impressionado. Os jornalistas brasileiros conhecem tudo sobre Mali.

Na verdade, os nossos diplomatas é que mereciam o elogio. Fingiram que eram repórteres para disfarçar o fiasco: os jornalistas de verdade ignoraram a coletiva.

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: Crime e castigo: PMs acusados da morte de Amarildo são presos
Folha: Aliados divergem, e Marina adia decisão sobre candidatura
Estadão: Com base dividida, Marina deixa decisão para prazo final
Correio: Plano de saúde lesa 195 mil conveniados
Estado de Minas: FGTS esquenta busca pela casa própria
Zero Hora: Galeão e Confins: Governo espera R$ 27 bilhões por aeroportos
Jornal do Commercio: A falta que o metrô faz

sexta-feira, outubro 04, 2013

Os progressistas do atraso - NELSON MOTTA

O GLOBO - 04/10

O Estado-babá obriga o cidadão a participar com seu voto inconsciente, irresponsável e aleatório, que tem como consequência um Congresso cada vez pior. Se não quiser votar, é um direito, é menos um voto em branco, nulo ou num picareta



A história confirma: voto obrigatório é coisa de ditaduras, de esquerda ou de direita, como forma de legitimar o ilegítimo e dar uma aparência de democracia ao regime. Em democracias de verdade, os cidadãos interessados em participar do processo eleitoral se inscrevem, fazem campanha, doam dinheiro para seus candidatos e votam. Quem não vota não pode reclamar dos resultados das eleições e de suas consequências.

Enquanto isso, no Senado, num arremedo de reforma política, a proposta de tornar o voto facultativo foi derrotada por 16 x 6 na Comissão de Constituição e Justiça. Petistas e tucanos se uniram na defesa do atraso: “O voto obrigatório tem sido um instrumento importante para incorporar as massas ao processo democrático. A supressão do voto popular contribuirá para a elitização da política brasileira”, disse um deles.

Obrigar as massas a votar não é incorporá-las, é usá-las como massa de manobra no processo eleitoral. Que elitização é essa de abrir o processo eleitoral a qualquer um que queira participar ? É óbvio que alguém que não quer votar em ninguém, mas é obrigado, vai votar nos piores candidatos. Se ele tiver algum escolhido, não é preciso obrigá-lo. Até na Venezuela o voto é facultativo.

Mas o Estado-babá obriga o cidadão a participar com seu voto inconsciente, irresponsável e aleatório, que tem como consequência um Congresso cada vez pior. Hoje cem milhões de brasileiros têm internet, temos mais celulares do que habitantes, todo mundo pode se informar sobre o que quiser, quando quiser, onde quiser. Mas, se não quiser votar, é um direito, é menos um voto em branco, nulo ou num picareta.

Dos políticos e suas propostas é que vem a motivação para os cidadãos se inscreverem e votarem. É disso que eles têm medo. Uns, que a classe média tenha preguiça de sair de casa para votar, outros, que os grotões não votem sem algum estímulo, ou ameaça. É como eles veem o povo brasileiro, e ninguém quer pagar para ver o que ele quer.

Quarenta anos depois, parafraseando Pelé, nossos progressistas e conservadores dizem em coro: “O brasileiro ainda não está preparado para não votar.”

Os cubanos treinaram no McDonald's? - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 04/10

O terrorista Cesare Battisti tem à disposição uma legião de médicos cubanos com quem se tratar


Minha intenção hoje era falar dos índios. Mudei de ideia lembrando da transamazônica de nãos que recebi de todos a quem perguntei: "E aí, gostou de Xingu'?" (o filme, não o parque nacional que estão esquartejando). Trata-se de um esforço que ninguém apreciou. A história dos irmãos Villas-Boas não interessa. Brasileiro não gosta de índio.

Como desejo ser lida, disponho-me a agradar. Mas há limites. Se pensa que vou descambar para a apelação, meu nobre leitor, e sair malhando Obama Rousseff e suas ancas duras para a articulação política, errou feio. Vá lá. Já que estamos aqui, só uma lasquinha: negão ruim de cintura como esse nem se morasse no Alvorada, usasse tailleur de manga três quatros e tivesse dificuldade em se locomover de salto --como bem notou Thammy, filha de Gretchen.

Por falar na Angela Merkel tapuia (eu sei, só daria para comparar se a Angela Merkel estivesse em coma), há muito sinto como se um bisturi me retalhasse as vísceras, tamanha a vontade de dizer a minha opinião sobre essa história de médico que veio de jangada lá de Cuba (ah, não veio? Foi de avião da FAB? Quem pagou?). Entendi: pergunte ao Fidel. Quer saber? A mim pouco importa. Eu preciso é desabafar, senão tenho um treco.

Para começar, se, neste momento, eu me encontrasse em situação de vítima da seca, no interior do interior da Paraíba, sol fritando a moleira e moscas zunindo ao redor dos meuzôio (nesse contexto seria meuzôio mesmo), baita dor de barriga e, ainda por cima, desidratada, nem que eu fosse acolhida por um ser falando em papiamento que me auscultasse com um estetoscópio trincado e me desse um copo de lavagem de porco para beber, creio que acharia melhor do que não ter assistência.

Dito isto, passemos para o outro lado do balcão: já notou que os médicos cubanos têm um discurso ensaiado? Pessoal parece ter sido treinado para atendente do McDonald's. Todos estão "felices por estar acá ayudando a Brasssil".

Ocorre que eu vou ficar devendo, mas não posso acreditar em uma palavra do que dizem.

Tudo bem. Há quem prefira a ditadura cubana, torça pela volta do Ahmadinejad e esteja morrendo de saudades as traquinagens de Kadafi. Sem problema. Os EUA estão longe da beatificação. Repressão e liberdade de expressão seletiva é com eles.

Diplomacia é teatro, o mundo todo é um palco e todos os homens e mulheres, meros atores. Mas há de se medir o tom da dramaticidade. Sair de cena abruptamente por conta de ato de espionagem para medir força é perder oportunidade de negócio e de romper com maniqueísmo --resquício da Guerra Fria.

E se a potência que nasce resolvesse forçar convivência? O Brasil faz negócio com Angola, Venezuela, EUA... Por que não? Por que não podemos vender nossas latas velhas para os EUA e também para o Afeganistão? É verdade. Hoje, só a Argentina se dispõe a comprar automóveis "made in Brazil", já ia esquecendo. Seja como for, não está aí a espionagem a serviço do controle da transferência de tecnologia, ora bolas?

No fim das contas, quem se sacode são os médicos cubanos, forçados a viver onde nenhum tapuia quis ir. Alguém perguntou se queriam vir passar três anos no sertão? E ainda correm o risco de ter o mesmo destino de seus conterrâneos, que tiveram asilo político negado durante o Pan do Rio.

Mente aberta, Dilma não liga de deixar ainda mais arredios os já paranoicos EUA. Lembrando que, da nossa porta para dentro, gente como o terrorista Cesare Battisti sempre pode contar com nossa hospitalidade. Política externa de primeira é isso.

Todos chegarão lá - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 04/10

RIO DE JANEIRO - O Brasil está envelhecendo. Segundo projeções oficiais, 20% da população terá mais de 60 anos em 2030. É o óbvio: vive-se mais, morre-se menos e as taxas de fecundidade estão caindo --e olhe que nunca se viu tantos gêmeos em carrinhos duplos no calçadão de Ipanema.

Em números absolutos, esperam-se perto de 50 milhões de idosos em 2030 --imagine o volume de Lexotan, Viagra e fraldas geriátricas que isso vai exigir. Não quer dizer que a maioria desses macróbios seguirá o padrão dos velhos de antigamente, que, mal passados dos 60, equipados com boina, cachecol, suéter, cobertor nas pernas, e mastigando uma dentadura imaginária, eram levados para tomar sol no parquinho.

Quero crer que os velhos de 2030 se parecerão cada vez mais com meus vizinhos do Baixo Vovô, aqui no Leblon --uma rede de vôlei frequentada diariamente por sexa ou septuagenários torrados de sol, com músculos invejáveis e capazes de saques e cortadas mortíferas. A vida para eles nunca parou.

Por sorte, a aceitação do velho é agora maior do que nunca. Bem diferente de 1968 --apogeu de algo que me parecia fabricado, chamado "Poder Jovem"--, em que ser velho era quase uma ofensa. À idade da razão, que deveria ser a aspiração de todos, sobrepunha-se o que Nelson Rodrigues denunciava como "a razão da idade" --a juventude justificando todos as injustiças e ignomínias (como as da Revolução Cultural, na China, em que velhos eram humilhados publicamente por ser velhos).

Naquela mesma época, o rock era praticado por jovens esbeltos, bonitos e de longas cabeleiras louras, para uma plateia de rapazes e moças idem. Hoje, como se viu no Rock in Rio, ele é praticado por velhos carecas, gordos e tatuados, para garotos que podiam ser seus netos. Já se pode confiar em maiores de 60 anos e, um dia, todos chegarão lá.

Feira de Frankfurt, avassaladora - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo - 04/10

Embarco hoje para Frankfurt, fazendo parte do grupo de 70 escritores (nunca vi comitiva maior, viva!) que vão participar das comemorações em que o Brasil é homenageado. Às cinco da tarde de domingo, 11 da manhã em Frankfurt, estarei na Zentralbibliothek ao lado de Marçal Aquino para um café literário com leitura. Ainda que a Feira de Livros (Buchmesse), não tenha começado oficialmente, uma série de atividades vem sendo desenvolvida paralelamente como preparação ao encontro que se dará a partir do dia 9. Esse café literário é coisa bem alemã. Você se senta, come, bebe, lê trechos de seus livros, os outros comensais, digamos assim, fazem perguntas e um diálogo se estabelece.

Minha primeira experiência com estas leituras se deu nos anos 80, quando vim para a Alemanha com um convite do DAAD, instituição de intercâmbio cultural que trazia anualmente para Berlim dezenas de escritores, pintores, diretores teatrais, músicos. Sem saber como era, ou funcionava, fui para a tal "leitura" e, perplexo, me vi diante de uma livraria lotada, cada um tendo pago na época cinco marcos, então dois dólares e meio. Pagos o vinho e o café, o que sobrava da arrecadação geral era dado ao autor. Profissionais. Berthold Zilly foi meu interlocutor e intérprete. Este mesmo Zilly que traduziu Os Sertões, de Euclides da Cunha, para o alemão, e atualmente dá aulas em Florianópolis como professor residente.

Marçal Aquino é autor consagrado hoje, excelente roteirista de cinema e televisão. Eu o conheci quando, jovenzinho, ganhou um prêmio em uma Bienal Nestlé de Literatura. Duas gerações conversando. Na terça-feira, após a abertura da Buchmesse que será feita por Luiz Ruffato, viajarei (claro que de trem) para Bad Berleburg, a 150 quilômetros daqui, onde acontece um festival literário. É uma vila de 20 mil habitantes, no norte da Westfalia, e que data de sete séculos antes de Cristo. Lindo lugar. Regressando a Frankfurt, estarei com a romancista Beatriz Bracher, às 10h30 do dia 12, durante uma das dezenas de mesas literárias da Feira. Nas ultimas semanas, recebi convites de amigos e editores para encontros e jantares. Com a Moderna, com a DBA, com o Instituto Goethe. A agitação toma conta.

Lembrei-me da Feira de 1994, em que o Brasil foi o tema, quando Moacyr Scliar apareceu com um laptop que nos deixou babando. Ele enviou crônicas para a Zero Hora, de Porto Alegre e para a Folha de S.Paulo direto da Buchmesse.

Por anos, frequentei Frankfurt pela ligação que tive com uma mulher excepcional, Ray-Güde Mertin, tradutora, intérprete e agente literária. Estudou na Unicamp (falava português perfeito, sem um pingo de sotaque), viveu nos Estados Unidos, não saía do Brasil. Pessoa amada, batalhadora. Morava numa cidade vizinha, Bad Homburg, que a nossa Lygia Fagundes Telles costumava chamar de "bad hambúrguer", para mexer com Ray. Em uma casa imensa e acolhedora na Friedrichstrasse, Ray nos recebia e alojava, cozinhava para nós, escritores brasileiros ou portugueses, ou nos levava a restaurantes campesinos que só quem vivia por ali conhecia. Não houve autor que, estando na Alemanha, não tenha feito dezenas de leituras ao lado de Ray, sempre bem-humorada, informada, culta. Foi agente de José Saramago. Tinha comprado um sitio no Ceará, onde pretendia passar largas temporadas. No entanto, um câncer contra o qual lutou muito levou Ray em 2007, aos 64 anos. Os que a conheceram farão uma mesa especial sobre ela, já que foi professora de literatura brasileira na Universidade de Frankfurt. Meu mais recente livro, O Mel de Ocara, lançado há dois dias, está dedicado a ela e a Curt Meyer-Clason, decano dos tradutores, que se foi também, aos 101 anos.

Outro ligadíssimo ao Brasil é o livreiro Théo Ferrer de Mesquita que aqui mantém há 40 anos uma livraria com autores brasileiros e portugueses. Pioneiro que lutou muito, Theo mantém ligações estreitas com a Livraria Cultura e com a Editora Global.

Neste ano, aqui estão autores de diferentes idades e lugares, gêneros, prosa e poesia, ensaio, tudo. Este evento gigantesco reúne editores, livreiros, editores do mundo todo. Aqui se ditam as tendências e se negociam os grandes best-sellers ou livros importantes da próxima temperada. Pavilhões a mais pavilhões (ligados por vários trenzinhos), milhões de livros da Índia, Irã, Argentina, Inglaterra, Rússia, Afeganistão, Israel, o que se pense de país existente. A melhor frase sobre a Buchmesse ainda é do falecido Antonio Callado que, ao ali entrarmos pela primeira vez, agarrou meu braço, assustado: "Isto é avassalador!"

Andarilhos - FERNANDA TORRES

FOLHA DE SP - 04/10

Gabeira sempre se manteve à margem, no acostamento, cruzando a pista vez por outra, mas no contrafluxo


Em 1976, 1975, não me lembro mais, assisti a um "Globo Repórter", dirigido por Walter Lima Júnior, sobre contatos imediatos de terceiro grau no Brasil.

O que prometia ser um programa sobre a visita de seres de outros planetas ao Planalto Central revelou tratar-se de algo bem mais perturbador. Embrenhado nas veredas de Minas e Goiás, Lima Júnior colheu o depoimento de capiaus que viviam isolados em casas de pau a pique e afirmavam ter sido abduzidos por extraterrestres.

O caso mais impressionante narrava a história do amor entre um matuto e uma ET.

Levado por um facho de luz, o caipira jurava ter despertado em uma nave espacial, onde fora examinado, não sabia por quanto tempo, por uma junta de médicos alienígenas. Ao cruzar os olhos com um deles, uma ela, enamorou-se. E foi correspondido.

Encontrado em um campo ermo, uma semana após a suposta abdução, foi trazido de volta para casa. Agora, lamentava a falta da amada e passava as noites a olhar as estrelas.

Surpreendia o caráter experimental da reportagem. Lima Júnior fazia parte de um grupo de cineastas convidado para produzir especiais para o horário nobre do telejornalismo. Ao receber a encomenda de um "Eram os Deuses Astronautas?", levou ao ar um tratado sobre a loucura.

O programa de estreia de Fernando Gabeira na Globo News me lembrou imenso o "Globo Repórter" de Lima Júnior. Gabeira optou pelo tema dos andarilhos da via Dutra. Gente que largou a família, ou jamais teve uma, e perambula pela rodovia.

Com aquela voz inconfundível, lerda, pausada, o verde Gabeira mata a sede em uma fonte de água limpa, fala da abundância do recurso natural na principal ligação entre o Rio e São Paulo e da sua importância na sustentabilidade da vida dos "easy riders".

E aborda o medo, a violência e a solidão que assombra os errantes. Um rapaz mostra a carteira de documentos escondida no fundo da mochila, diz tratar-se de seu bem mais precioso. É de uma melancolia ímpar.

Gabeira poderia ter se debruçado sobre a Síria, os "black blocs" ou a alta espionagem, mas preferiu ser existencialista. Por quê?

Havia uma clara identificação entre o repórter e o caminhante. O homem e sua circunstância. Há muito, desde que se livrou dos dogmas de esquerda, o ex-guerrilheiro, escritor e deputado federal examina o limite entre a liberdade do indivíduo e o interesse comum.

Gabeira sempre se manteve à margem, no acostamento, cruzando a pista vez por outra, mas no contrafluxo, na contracorrente. Vendo-o na TV, interessado por uma escolha tão radical de vida, me veio a sensação de que a obra era um elogio ao livre-arbítrio. Uma quase autobiografia.

A retrospectiva dos últimos 40 anos da "Veja" traz uma foto, mais que foto, o "portrait" de Gabeira em Trancoso, deitado sobre um tronco de árvore à beira-mar, coberto apenas com a mítica tanga herdada da prima, Leda Nagle.

A imagem é bonita, provocante, aborígine, homem-fêmea, e explica o choque dos que esperavam a volta do revolucionário. O microquadrado de crochê lilás com debrum amarelo é pequeno demais para acomodar os pelos da virilha, o elástico é frouxo, e Gabeira está com as pernas abertas, de lado, mas abertas. Ele ri feliz, bronzeado, na Bahia, depois do tortuoso inverno e da convivência com a moral avançada dos países nórdicos. É o retrato de um homem livre.

Nos quase três meses em que passei acampada no Xingu, durante as filmagens de "Kuarup", nenhum índio superou em graça um Yawalapiti de nome Palavra. Palavra era capaz de acertar uma mosca com uma flecha a cem metros de distância. Era gentil, humorado e sensível. Foi o mais próximo do ideal de índio que eu já cheguei.

Palavra era místico e viajante, gostava de cruzar longos trechos de floresta a sós. Uma noite, no meio do caminho que levava até a exuberante aldeia dos Camaiurá, sentiu uma letargia súbita e se amparou para não cair. Foi quando um disco voador surgiu flutuando sobre uma árvore à sua frente. A aparição girou as luzes, dançou, rodou, até desaparecer.

O delírio do Palavra dava a dimensão da profundidade dele.

É por isso que na semana em que a "Economist" estampa a capa do Cristo Redentor colapsando sobre a Guanabara, "I go looking for flying saucers in the sky".

Ueba! A Oi vai se chamar Pois! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 04/10

O Partido Socialista Brasileiro está aceitando qualquer um, contanto que não seja socialista! Rarará


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Piada Pronta direto do G1: "Jovem cria método para emagrecer com controle da mente e perde 40 quilos". Como é o nome dele? Edson BURGER! Rarará!

E o vexame? E o meu São Paulo? Perdeu pro Santos! E a frase da torcida: "Os são-paulinos não fizeram gol no Santos porque o goleiro se chama Aranha". O famoso espanta-Bambi! Rarará!

E o Santos faz gol, mas não tem torcida pra aplaudir. A comemoração é na fila do INSS! É como o Botafogo: perde, mas não tem torcida pra vaiar! E um são-paulino me disse: "O nosso tricolor virou TRICOLIXO!".

E tô adorando essa fusão: Portugal Telecom com Oi. A Pois! Ou então podia se chamar: "Está lá? Não, estou cá!". E uma vez uma amiga ligou pra casa duma portuguesa: "Quem está falando?". "VOCÊ!", respondeu a portuguesa. Rarará.

E sabe por que Portugal lançou celular no Brasil? Pro povo parar de usar o telefone da padaria. Uma reivindicação da colônia. E a Portugal Telecom/Oi vai instalar orelhão na horizontal. Pro povo falar deitado. Sempre pensando em você!

E o que eu adoro em Portugal é a língua. Casamento é "nó". Esparadrapo é "penso". Então Band-Aid é "penso rápido". E supositório é "penso pra trás". Rarará.

E gol de bicicleta é gol sobre duas rodas. E carrinho é penalidade sobre quatro rodas. Rarará!

E uma vez fui pra Portugal, mostrei o passaporte e o cara da migração ficou uns dez minutos olhando pro passaporte. Aí eu pensei: "Ai, meu Deus, eu vou ser barrado em Portugal". Aí ele entregou o passaporte e disse: "Faz tempo que não vem, não gostou?". Rarará!

E os novelhos partidos? E o PSB do Eduardo Campos filiou dois socialistas convictos: Heráclito Fortes, do DEM, e Paulo Bornhausen, do DEM. Deu Em Merda. O PSB Deu em Merda!

O Heráclito Fortes é aquela almôndega suada. Que fala como velha comendo bolacha sem dentadura. E o Paulo Bornhausen é filho do velho Bornhausen, que tem cara de quem faz experiência em cérebro de macaco.

Os socialistas! O Partido Socialista Brasileiro está aceitando qualquer um, contanto que não seja socialista! Rarará.

É mole? É mole, mas sobe!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Depois do silêncio - RASHEED ABOU-ALSAMH

O GLOBO - 04/10

Com certeza o Irã e os EUA não vão ser melhores amigos neste momento, mas podem assumir o papel de conhecidos que se respeitam e se falam



A conversa telefônica de 15 minutos entre o novo presidente iraniano Hassan Rouhani e o presidente americano Barack Obama, no dia 27 de setembro de 2013, quebrou 34 anos de silêncio entre os líderes dos EUA e do Irã. Esse feito foi comemorado por americanos e iranianos querendo uma quebra na guerra fria que reina entre os dois países desde que a embaixada americana foi tomada em Teerã, em novembro de 1979, por estudantes radicais, apoiadores da revolução islâmica que derrubou o Xá Mohammed Reza Pahlavi e botou no lugar dele o Aiatolá Khomeini e um estado islâmico.

Para os mais cínicos, as matérias efusivas na imprensa americana sobre a conversa telefônica foram nada menos do que escandalosas, por botar a fé americana em umas meras palavras doces e sorrisos de um líder iraniano. Na mente deles, Obama estava entregando a chave da respeitabilidade da comunidade internacional para um regime iraniano no qual não se pode confiar, e que com certeza vai enganar o Ocidente e daqui a uns anos — depois de as sanções contra o Irã serem levantadas — explodir uma bomba atômica e apresentar ao mundo um fato consumado, bem como a Coreia do Norte fez em 2005 depois que o Ocidente levantou sanções contra aquela ditadura.

Com certeza somente alguns meses atrás ninguém achava que Rouhani ia ganhar as eleições iranianas em junho 2013, e ainda por cima no primeiro turno com 55,88% do voto popular. Mas ele é uma figura importante no governo iraniano faz mais de duas décadas, liderando as negociações nucleares do Irã com o Ocidente de 2003 até 2005. Ele foi eleito para o Parlamento cinco vezes de 1980 até 2000, foi secretario do Conselho Supremo de Segurança Nacional por 16 anos, vice-presidente da Assembleia Nacional, e membro da Assembleia de Especialistas. Apesar disso, e de ser um confidente do supremo líder espiritual Ali Khamenei, Rouhani tem tentado se passar por um forasteiro.

E, na verdade, ele não é conhecido por ser um reformista, mas por ser mais da ala pragmática dos conservadores. Críticos do regime iraniano foram rápidos ao apontar o passado conservador e rígido do Rouhani, mencionando a sua liderança ao esmagar protestos estudantis em julho de 1999, e o discurso que ele fez em 2005 para o Supremo Conselho da Revolução Cultural, em que disse: “Enquanto nós falávamos com os europeus em Teerã, estávamos montando equipamentos em parte da instalação nuclear em Isfahan. Com a criação de um ambiente calmo, nós fomos capazes de completar o trabalho lá.”

Esse passado infeliz de Rouhani não quer dizer que não podemos, ou não devemos, falar com ele e o resto dos dirigentes iranianos. Somente devemos ficar de olhos bem abertos e não conceder demais antes de ter certeza que o Irã irá deixar um acesso mais amplo aos inspetores da Agência Internacional de Energia Nuclear, que não irá enriquecer urânio a mais de 20%, e que renuncia a qualquer desejo de construir uma bomba atômica.

E temos que não ser tão ingênuos em acreditar que agora temos um regime bonzinho em Teerã, somente porque Rouhani sorria muito e fala coisas legais na conta dele do Twitter. Com certeza ele é o oposto do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, que gostava de zoar do Grande Satã dos EUA nos seus discursos na ONU, enquanto negava a existência do Holocausto. E o Rouhani também tem que enfrentar seus críticos ultraconservadores em casa, que não gostaram nem um pouco de ele ter falado com Obama por telefone. Mas foram as severas sanções econômicas contra o Irã, que já viu a venda do seu petróleo cair em 50% — sendo que esse item representa 80% da receita do governo —, que trouxeram essa mudança tão radical em liderança e tom do governo iraniano.

Dois grupos de aliados dos americanos no Oriente Médio estão muito infelizes com essa possível aproximação americana-iraniana: Israel e os países do Golfo. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, fez um discurso na ONU esta semana em que pintou o regime iraniano como se fosse um bicho de sete cabeças, causando muitos comentários de que ele parecia um paranoico. Por outro lado, a Arábia Saudita se negou este ano a fazer um discurso na ONU porque a ONU não tem enfrentado a guerra civil sangrenta na Síria. Os israelenses e os sauditas se sentem excluídos e vulneráveis cada vez que surge uma oportunidade de diálogo construtivo entre os EUA e o Irã. Isso é uma pena, porque esses países deveriam ver os pontos positivos de uma cooperação entre o Irã e o Ocidente. Se os EUA reatarem relações diplomáticas com o Irã, isso poderia acabar com a insegurança de Israel, e talvez diminuir o apoio firme que o Irã dá ao regime de Bashar al-Assad.

Os iranianos vão se encontrar com os países do P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, Rússia, China, França e Alemanha) em Genebra nos dias 15 e 16 de outubro, para falar sobre o programa nuclear iraniano. Os iranianos já estão pedindo que as sanções sejam levantadas, mas os países do P5+1 querem mais garantias de que o Irã não está enriquecendo urânio para armas nucleares. Mas, mesmo assim, uma abertura diplomática como esta é muito rara e o Ocidente deveria agarrar e ver até onde ela pode chegar. Devemos falar com nossos inimigos. Com certeza o Irã e os EUA não vão ser melhores amigos neste momento, mas podem muito bem assumir o papel de conhecidos que se respeitam e se falam.

Os jihadistas na Síria - GILLES LAPOUGE

O Estado de S.Paulo - 04/10

Vladimir Putin afastou, com brio e sem hipocrisia, a sombria ameaça que pairava sobre a Síria: o tirano Bashar Assad não poderá mais utilizar os gases tóxicos contra a rebelião. No futuro, Assad matará seus inimigos com bombas e metralhadoras.

Mas quem são os inimigos de Assad? Há dois anos e meio, quando as multidões pegaram em armas para rechaçar o ditador sírio, as coisas eram claras: um líder cruel reinava em Damasco. Contra ele, revoltaram-se estudantes e trabalhadores. O "bem" e o "mal" eram distintos.

Abaixo o tirano! Infelizmente, ao longo dos meses, esse límpido esquema foi se toldando. A guerra mudou, mudaram os atores, os chefes, os pilotos e as cores. Com a chegada incessante de jihadistas procedentes de todos os países muçulmanos e do cerco à cidade de Homs, os protagonistas já não são os mesmos.

Em alguns meses, será preciso inclusive mudar o discurso. Não se falará mais do confronto entre o tirano Assad e os rebeldes democráticos do Exército Sírio Livre (ESL), mas da guerra entre o regime de Bashar Assad e os islâmicos radicais. O Ocidente terá, então, de escolher não mais entre o "bem" (a democracia) e o "mal" (a tirania), mas entre a peste e a cólera, ou seja, entre um tirano detestável e terroristas assassinos.

Há uma semana, o jornal Al Hayat anunciou que os líderes dos grupos armados no norte da Síria pretendem unir suas forças e fundar o Exército de Maomé, com um efetivo de 50 mil homens, reagrupando apenas os "filhos da religião sunita". Outro sinal: no início de agosto, jihadistas pertencentes ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (a Al-Qaeda no Iraque) e a Frente Al-Nusra (ligada à Al-Qaeda) apoderaram-se de cerca de dez cidades controladas pelo regime sírio.

Nos dias seguintes, os soldados de Assad contra-atacaram e reconquistaram cidades perdidas. No entanto, o que surpreendeu foi que as brigadas do ESL recusaram-se, na ocasião, a apoiar os jihadistas. Esses incidentes estão se multiplicando. É como se agora as armas da guerra contra Assad não estivessem mais nas mãos do ESL, mas nas dos islamistas mais ou menos afiliados à Al-Qaeda. Por outro lado, o ESL tornou-se uma "farsa", afirmam em Damasco.

Evidentemente, Londres, Paris e Washington não ignoram nenhum detalhe dessas mudanças. Seus governos sabem que a "revolução síria" foi sequestrada pelos jihadistas, o que explica, certamente, os titubeios da diplomacia ocidental.

A temível questão que se coloca é: devemos amar os "rebeldes"? Não se tratará da ideia tresloucada de fornecer armas aos rebeldes com o risco de que elas caiam nas mãos da Al-Qaeda? Os americanos não esquecerão jamais que Bin Laden recebeu a ajuda dos EUA durante a guerra da Rússia no Afeganistão.

São verdades duras. Elas circulam, mas ninguém ousa expressá-las em voz alta, só algumas raras pessoas. Como, por exemplo, um repórter do jornal Le Figaro, Renaud Girard, que levanta, em seu último artigo, a questão à qual ele mesmo responde, sem rodeios: "Nosso principal inimigo na Síria é o jihadismo"./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Demolição da Perimetral - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 04/10

Aperte os cintos. Começou a contagem regressiva para a derrubada da Perimetral.
O prefeito Eduardo Paes inaugura dia 19, agora, a primeira etapa do novo complexo de vias e túneis da Avenida Oscar Niemeyer, o novo nome da chamada Via Binário do Porto Maravilha.

Segue...
Paralela à Avenida Rodrigues Alves, esta nova via servirá, como se sabe, de alternativa ao Elevado da Perimetral, que será demolido duas semanas depois, no início de novembro.
O trecho que vai abaixo é longo: da Rodoviária Novo Rio até o Moinho Fluminense.

Óculos inteligentes...
Aliás, Eduardo Paes, que esteve mês passado no evento mundial do Google, no Arizona, comprou um Google Glass.
Trata-se daquela engenhoca futurista em forma de óculos, conectada à internet, que está sendo testada por um punhado de felizardos no planeta, incluindo o prefeito.

Ele voltou
Exemplo do clima de turbulência que se abate sobre as empresas de Eike Batista: Duas semanas depois de ser demitido como diretor financeiro da OGX, Roberto Monteiro foi escolhido para ser o negociador da holding EBX junto a credores estrangeiros em Nova York.

Só dá China
Veja por que, em todas as bolsas de apostas, os chineses são favoritos para arrematar o campo de Libra.
Pelas contas do consultor Adriano Pires, de 2005 a 2012, os chineses investiram 18 bilhões de dólares no setor de energia no Brasil, ou 70% do total.

João Gilberto
A Procuradoria do Estado do Rio citou ontem o empresário Maurício Pessoa para pagar uma dívida de R$ 570 mil com o Teatro Municipal.
A dívida, segundo o teatro, se refere aos adiantamentos e custos do show de João Gilberto, que Maurício produziu. Marcado para dezembro de 2011 em comemoração aos 80 anos do grande cantor, o espetáculo acabou cancelado.

Calma, gente
Embora o historiador Celso Castro, diretor do Cpdoc da FGV, tenha suspendido a demissão de alguns pesquisadores, o clima lá não é bom.
O pessoal que faz oposição ao diretor criou na internet uma espécie de relógio (aposentacelso.blogspot.com.br/), que marca o número de dias, horas, minutos e segundos que faltam para Celso se aposentar.

Direitos das mulheres
A ministra Eleonora Oliveira entregou a Marcelo Deda, governador licenciado por problemas de saúde de Sergipe, uma placa por sua luta pelos direitos das mulheres.

Fica, Cabral
Lula esteve ontem com Cabral. Defendeu com unhas e dentes que ele cumpra seu mandato até o último dia.
É que surgiu a ideia de o governador sair do cargo no início do ano que vem para, entre outras coisas, dar visibilidade ao vice Pezão, candidato a governador.

Mudança de calendário
José Maria Marin, presidente da CBF, recebe segunda, na sede da entidade no Rio, o grupo de jogadores que pede mudanças no calendário nacional.

Diário de Justiça
Em 2011, um administrador, de 48 anos, deu entrada na Clínica Santa Maria Madalena, na Ilha do Governador, no Rio, com dor no peito e náuseas. Um médico receitou remédio contra gases e o liberou. Horas depois, o homem morreu de infarto.
A juíza da 3ª Vara Cível do Rio, Françoise Picot Cully, condenou a clínica a pagar R$ 200 mil à família, defendida pelo advogado Miguel Dehon.

Meu Deus!
Dois meninos do oitavo ano de um colégio classe média da Barra, no Rio, postaram um vídeo na internet no qual atacavam sexualmente uma menina da mesma idade.
O caso está na 16ª DP.

Day after - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 04/10

O Planalto não trabalha ainda com a hipótese de Marina Silva não ser candidata a presidente. Sem a Rede, a ideia é fazer pesquisas qualitativas já na semana que vem para medir o efeito caso a ex-senadora vá para um partido como PPS. A intenção é checar se há "dano moral" para a candidata. Assessores de Dilma Rousseff acreditam que não haverá mudanças no potencial eleitoral de Marina em outra legenda. "As pessoas votam no candidato, não no partido", diz um governista.

Afago Aécio Neves (PSDB) vai telefonar hoje para Marina. Dirá que ela terá papel fundamental em 2014, qualquer que seja sua decisão sobre concorrer ou não.

Alistamento... Eduardo Campos elegeu como prioridade nos últimos dias filiar nomes fortes para concorrer a deputado federal pelo PSB. O pessebista traçou a meta de eleger 50 deputados federais (tinha 35 e perdeu 6) e, assim, incrementar tempo de TV e fundo partidário para 2018.

... eleitoral Para isso, quer ter "puxadores" em todos os Estados, notadamente no Nordeste, região que é sua base política e onde espera superar a votação de Dilma e dos demais concorrentes.

Seleção O pernambucano também montou chapa de atletas no Sudeste. Devem disputar vagas na Câmara o nadador Fernando Scherer (SP) e os jogadores de futebol Léo Moura e Edmundo (RJ), além de Romário.

Novos... A direção nacional do PT indicou que pode liberar o rompimento da sigla com o PSB em Estados onde a relação entre os dois partidos se deteriorou. Petistas de Pernambuco decidirão na semana que vem se desembarcam do governo de Campos.

... ventos Os pessebistas passaram a assediar os quadros do PT no Estado. Ontem, o petista Isaltino Nascimento, secretário estadual de Transportes, confirmou a filiação ao PSB do governador.

País do... Dilma contou a Ratinho ontem, depois da entrevista no Palácio da Alvorada, que o primeiro assunto da reunião dos Brics paralela ao G20, na Rússia, não foi a crise internacional e nem a espionagem dos EUA no Brasil.

... futebol Mal ela entrou na sala, os presidentes de Rússia, África do Sul e China e o primeiro-ministro da Índia só quiseram saber uma coisa: se ela os convidará para assistir à Copa no Brasil. "Claro que sim", respondeu.

Réplica Joaquim Barbosa nega ter pedido, em telefonema, que Ricardo Lewandowski, demitisse servidora de seu gabinete casada com jornalista que cobre o STF. Segundo o presidente da corte, ele pediu que o colega avaliasse se a situação da funcionária não era antiética.

Sem monopólio 1 O governo resolveu se antecipar à esperada determinação do Cade e estuda desenhos para fatiar as operações da TIM, companhia controlada pela Telecom Italia --que, por sua vez, selou acordo com a Telefonica, que controla a Vivo.

Sem monopólio 2 Um cenário estudado pelo governo é que a frequência e os clientes da Tim em São Paulo e no Sul fiquem com a Oi; em Minas, no Rio de Janeiro e no Nordeste, com a Claro, e no resto do país com a Telefonica. O processo no Cade deve levar ao menos um ano.

Sei não Michel Temer avisou a caciques do PMDB que, na conversa de anteontem, Dilma avisou que não decidiu se o senador Vital do Rêgo (PB) assumirá o Ministério da Integração Nacional.

Pavio Mais: a presidente não garantiu nem que a pasta vai para o PMDB. O vice a alertou de que a notícia seria uma "bomba" na legenda.

com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN

tiroteio
"Eduardo Campos tentou maquiar o fracasso do ensino público de Pernambuco, mas não vai conseguir enganar a população do Brasil."

DO DEPUTADO ESTADUAL DANIEL COELHO (PSDB-PE), sobre a propaganda do PSB que exibe uma faculdade privada como se fosse uma escola pública.

contraponto


Questão de tempo

Geraldo Alckmin (PSDB) narrou episódios de sua infância durante um evento do governo no fim de setembro, na região de Pindamonhangaba (SP), sua cidade natal. O tucano contou que o pai "era muito religioso" e que a família precisava assistir a missas todos os domingos.

--Eu, adolescente, jovem contestador, dizia ao meu pai que só gostava das missas do padre José Maria, que só duravam 35 minutos!

Brincando, Alckmin contou que levava bronca do pai:

--Ele dizia: "Meu filho, não é a missa que é longa. É a fé que está curta!"

A expectativa - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 04/10


Os partidos ainda não sabem o que Marina Silva fará. A oposição espera que ela adote um plano B. O governo, que ela reafirme sua posição, e não seja candidata à Presidência. Diante de eventual ausência de Marina e da recuperação da presidente Dilma, ministros se perguntavam se poderiam voltar a sonhar com uma eleição decidida no primeiro turno.

Paulinho: "Eu não estou à venda"
O criador do Solidariedade e presidente da Força Sindical, o deputado Paulo Pereira da Silva (SP), está arrependido de ter se reunido com a ministra Ideli Salvatti. As versões do encontro, envolvendo cargos e emendas ao Orçamento, na avaliação de Paulinho cumpriram um papel: "Hoje me arrependo de ter ido. Entendi o jogo. O governo quis nos manchar com essas histórias de cargos e emendas" Admitindo ter sido inocente, conta que foi até a ministra em respeito aos parlamentares que têm relação com o governo. E, irritado, proclama: "Não trabalho com emendas. Nós não temos cargos, e eu não quero cargo. Não é por aí que o governo resolve seus problemas comigo".


"O STF definiu que quem sai leva o tempo de TV e o fundo. É um balcão de negócios: "Tu me dás aqui", "Eu te dou ali", "Tenho dois minutos e tenho tantos mil", e não sei mais o quê"
Pedro Simon
Senador (PMDB-RS), sobre a criação de partidos

O povo quer saber
O PSOL ocupou rede regional de TV ontem no Rio. O partido, entre outras coisas, deitou falação sobre o combate à corrupção e o financiamento público das campanhas. Mas ficou em silêncio sobre o que fará com a deputada estadual Janira.

Mantendo a pose
Contrariado, o ministro Leônidas Cristino (Portos) pediu demissão ontem à presidente Dilma. Ele não queria sair. A presidente queria que ele ficasse. Mas ele optou por deixar a pasta devido à manifestação pública do governador Cid Gomes (CE), que trocou o PSB pelo PROS. Cid não quer dar margem a nenhuma insinuação de fisiologismo.

Puxadinho
O presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), terá de arranjar cargos e salas para os líderes dos novos PROS e Solidariedade. E está sendo aconselhado a reduzir os latifúndios dos novos nanicos: DEM, PTB e PDT.

Quem dá mais?
O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), recebeu a missão de coordenar a criação do PROS no Amazonas. Foi às pressas a Manaus para formar uma comissão provisória. Ao retornar a Brasília, recebeu ligação do presidente do PROS, Eurípides Jr. O acerto foi cancelado. O novo partido entregou o controle da legenda para o governador Ornar Aziz, que é do PSD.

Fazendo a corte
Interessados no passe de Marina Silva, pelo menos quatro partidos estavam, ontem à noite, assistindo ao julgamento sobre a criação da Rede. Estavam no plenário do TSE dirigentes do PSD e os presidentes do PPS, do PEN e do PMN.

Declaração de independência
O deputado Hugo Leal (PROS-RJ) reage à versão de que esteja sob o jugo do ex-governador do Rio Anthony Garotinho (PR). "Não aceito cabresto. O partido do Garotinho é o PR; o meu é o PROS, ele tem a ordem e tem o social", desabafa.

NA HOMENAGEM aos 25 anos da Constituição, na OAB, o ex-presidente Lula pediu para assinar o projeto de reforma política do Movimento Mãos Limpas.