domingo, julho 07, 2013

Dança das cadeiras - LUIZ CARLOS AZEDO

CORREIO BRAZILIENSE - 07/07

Há fortes rumores de que a presidente Dilma Rousseff deve antecipar a reforma ministerial que pretendia fazer só no começo do próximo ano. Mudanças poderão ocorrer antes mesmo de agosto, mês considerado aziago pelos políticos, por causa do suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954. A reforma ministerial teria dois objetivos: melhorar o desempenho administrativo e recompor a base governista.

O trabalho de articulação política do governo no Congresso, que já vinha mal das pernas, após as propostas de constituinte exclusiva e de plebiscito, entrou em colapso. Os petistas são os primeiros a reclamar da atuação das ministras da Casa Civil, Gleisi Hofmann, e de Relações Institucionais, Ideli Salvatti. O problema é que o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, cotado para o cargo, também não é visto como um bom interlocutor perante os líderes da base. Os três são petistas.

Outro fator que pode influenciar a decisão de mexer na equipe é a posição do PMDB, cujas bancadas andam rebeladas e defendem a redução de ministérios, inclusive cortando na própria carne, ou seja, reduzindo sua participação no governo. Essa posição não é unânime, mas tem muita força na Câmara, onde os peemedebistas se consideram sem representação na Esplanada. Os rumores são tão fortes que, na tarde de ontem, Dilma se apressou em divulgar nota negando troca na equipe ministerial.

Missão impossível
A pedido da presidente Dilma Rousseff, o PT resolveu fazer o que pode para tentar viabilizar o plebiscito sobre a reforma política antes de outubro, apesar de a bancada petista na Câmara saber que será muito difícil isso acontecer. O líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia (foto), de SP, está com o abacaxi nas mãos: “Vamos trabalhar para ver se dá tempo”.

Não rasga
A presidente Dilma Rousseff apoia as manifestações de protesto, mas não rasga dinheiro. O Tesouro calcula o custo anual do passe livre para estudantes que está para ser aprovado pelo Senado em R$ 40 bilhões

Vazamentos
Desde 2012, o líder do PPS na Câmara, Rubem Bueno (PR), pede informações sobre passageiros, gastos e trajetos de viagens com aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para atender autoridades. A Mesa da Câmara sempre engaveta. Bastou o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), contrariar o Palácio do Planalto e os dados de sua viagem para assistir à final da Copa das Confederações, com sete convidados, vazaram. Depois, foi a vez do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que usou os serviços da FAB para ir a um casamento em Trancoso (BA).

Suburbano
Não está fácil a vida do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (foto), do PMDB. Vizinhos do Leblon, na Zona Sul do Rio, organizaram um abaixo-assinado pedindo para que ele se mude do bairro. Não gostam de protestos na rua onde moram, nem de suburbanos vivendo no bairro. Cabral nasceu no Engenho Novo, foi criado em Cavalcanti e só na juventude virou um morador de Copacabana. O Leblon é reduto da elite carioca.

Gaveta
O presidente da Câmara Federal, deputado Henrique Alves (PMDB-RN),engavetou o Projeto de Lei 7372/2002, que garante o plano de saúde dos ferroviários. O presidente da Associação Mútua e Auxiliadora dos Empregados da E. F. Leopoldina, Raimundo Neves de Araujo, protesta: não quer resolver uma crise que se arrasta há anos. Fundada em 1917, a entidade é a mais antiga organização de trabalhadores do país.

Reforma
A OAB/DF promove amanhã à noite um seminário sobre a reforma política. Participam do debate o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) e o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral Torquato Jardim.

Punição
O senador Blairo Maggi (PR-MT) concluiu seu parecer sobre a PEC que trata da punição de membros do Ministério Público e magistrados. Será votado na próxima quarta-feira pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Leão
A Receita Federal deve liberar amanhã a consulta ao segundo lote de restituição do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) 2013. O órgão também disponibilizará informações sobre lotes residuais de 2008 a 2012. O dinheiro para 1,113 milhão de contribuintes será depositado no dia 15. 

Marighella
O líder comunista Carlos Marighella, fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN) e considerado “inimigo público número um” pelo regime militar, será homenageado amanhã no Senado. Foi morto numa emboscada montada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, em 1969.

Sondando o terreno - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 07/07

José Serra se reuniu na quinta-feira com o presidente do PPS, Roberto Freire, e mostrou disposição concreta de disputar a Presidência em 2014. Hoje no PSDB, Serra deu sinais de que pode se candidatar pelo MD, partido que seria formado a partir da fusão entre PPS e PMN. O ex-governador se mostrou entusiasmado com uma pesquisa divulgada no Paraná em que aparece empatado com Marina Silva (Rede) em segundo lugar, com desempenho melhor que o de Aécio Neves (PSDB).

Escape Na conversa com Freire, Serra repisou a tese de que a oposição se beneficiará de um número maior de candidatos, e demonstrou consciência de que não teria espaço para disputar a Presidência pelo PSDB.

Palanque "Os números das pesquisas mostraram que ele ainda é um grande representante da oposição", afirma o presidente do PPS. Nas últimas semanas, segundo aliados, Freire passou a considerar mais remotas as chances da candidatura de Eduardo Campos (PSB), com quem vinha negociando aliança.

Timing Apesar dos sinais, o ex-governador não deve dar nenhum passo definitivo antes de setembro, às vésperas do prazo legal para mudanças de partido.

No telhado? Congressistas de vários partidos já não levam muita fé na criação do MD. A expectativa inicial de atrair até 25 deputados para a sigla foi revista e, hoje, dirigentes acreditam que podem se filiar, no máximo, quatro.

Vaivém 1 O PSD de Gilberto Kassab deve perder mais dois deputados federais nos próximos dias. Ontem, Guilherme Mussi (SP) teve sua ficha de filiação ao PP abonada por Paulo Maluf.

Vaivém 2 Para compensar as defecções, Kassab negocia atrair parlamentares de outras siglas. Uma das investidas se dará em Minas Gerais, onde o PSD perderá filiados que preferem apoiar Aécio Neves a Dilma Rousseff.

Orquestra O estafe da presidente ficou surpreso com o fato de que o prefeito ACM Neto (DEM) foi o responsável por levar a claque favorável à petista em evento semana passada. "Tinha até maestro regendo o coro'', conta um membro da comitiva.

Déjà vu? Um cacique do PMDB no Senado listou na semana passada a correligionários todos os presidentes da República que caíram por romper com o Legislativo.

História A relação começava com o marechal Deodoro da Fonseca e terminava com Fernando Collor. Por fim, o peemedebista observou que Dilma tem tornado a relação com os partidos da base insustentável''.

Caravana... Alheia à insistência do Planalto na tese do plebiscito para a reforma política, a Câmara vai votar na terça-feira projeto que altera pontos da legislação eleitoral, proposto por Cândido Vaccarezza (PT-SP).

... passa A proposta impede que candidatos que renunciarem na véspera do pleito por problemas com a Justiça Eleitoral sejam substituídos na última hora.

Pauta própria Outra alteração é que sejam convocadas novas eleições quando o prefeito for cassado. Hoje, quem assume é o segundo colocado. O petista Vaccarezza afirma que o projeto será votado em regime de urgência.

Penetra 1 A Força Sindical acusa o PT de tentar se aproveitar da paralisação marcada para quinta-feira, no Dia Nacional de Luta, para promover a pauta do partido para a reforma política.

Penetra 2 Em São Paulo, os trabalhadores se reunirão ao meio-dia em frente ao vão livre do Masp. O PT convocou encontro no mesmo local, às 14h.

Figuração Dirigentes da Força dizem que a CUT, que é ligada ao PT, pediu que os trabalhadores vinculados a outras centrais permaneçam na avenida Paulista até o início do evento do partido.

tiroteio

"O pior tipo de vandalismo é o político, de partidos que não querem mudar nada, mas vendem a ideia de que ouvem a voz das ruas."
DO DEPUTADO ZEZÉU RIBEIRO (PT-BA), sobre o impasse formado no Congresso em torno da votação da reforma política a partir de uma consulta popular.

contraponto


Para todos os santos

Satisfeita depois de ser ovacionada em Salvador, Dilma Rousseff fez questão de demonstrar conhecimento sobre os orixás na última quinta-feira.

--É um bom sinal o Plano Safra ser lançado no salão Iemanjá, a mãe das águas e da fertilidade. Não é Fatinha?

--É isso! Iemanjá não vai deixar faltar bons fluidos para as mudanças --, respondeu Fátima Mendonça, mulher do governador Jaques Wagner, numa alusão à reforma política.

As questões de julho - TEREZA CRUVINEL

CORREIO BRAZILIENSE - 07/07

Os protestos de junho levantaram a poeira, que ainda está no ar, politizaram a sociedade e desarrumaram o jogo armado para 2014. Cobraram coisas concretas, como soluções em transporte, mais saúde, educação e segurança, e rechaçaram claramente os partidos, os eleitos e as instituições. Julho começa com duas indagações relacionadas à passagem do cometa. Primeiro, que respostas darão os governantes às questões concretas? Especialmente, a presidente Dilma Rousseff, que não foi a única atingida, mas foi quem ficou mais exposta e tem mais a perder, como candidata que é à reeleição. Fará mudanças no governo e nas políticas públicas. A outra questão é a da reforma política, que é tarefa do Congresso, e precisa ser logo desatada.

Não faltam, no barco governista, inclusive no PT, os defensores de uma reforma ministerial ampla e ousada, até mesmo com supressão de pastas, como sugeriu logo o guloso PMDB. Sobram críticas ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, e cobranças por sua substituição, que vêm até de publicações estrangeiras. No pior de seus momentos, com Lula no exterior e alguns dos que pareciam tão próximos se distanciando, a presidente já tão reservada tem procurado mais ouvir do que falar. Entretanto, aos deputados petistas que recebeu na quinta-feira, não deu o menor sinal de que pretenda mexer na equipe ministerial agora. Foi enfática ao defender Mantega, assegurando que a economia está sólida nos fundamentos gerais e que o ano terminará com a inflação dentro da meta.

A relação dívida/PIB, destacou Dilma, era de 60% quando Lula assumiu, caindo para 46% no final do governo dele, e para 35% em sua gestão. O nível de emprego, dos mais altos do mundo, não será afetado. Referiu-se aos protestos como cobrança justa, que não suprime o reconhecimento pelo que foi feito. Agora, ela pretende acelerar a implementação de políticas públicas que atendam às reivindicações. Amanhã mesmo, lançará novas medidas na área de saúde, que não detalhou.

É isso mesmo que ela ou qualquer governante precisa fazer, não para recuperar a popularidade, mas para não frustrar a crença dos jovens na força da cidadania. E é isso que vem cobrando seu provável adversário em 2014, o senador tucano Aécio Neves: medidas que respondam a problemas cotidianos, os mesmos que levaram milhares às ruas.

Mas fiquemos atentos à possibilidade de mudanças no governo, que Dilma não revelaria aos interlocutores que teve durante a semana, todos interessados em preservar seus feudos, como os caciques do PMDB, os deputados petistas e outros aliados.

Política, ideias e dinheiro

Diante das marolas em torno da reforma política, alguns dizem e outros repetem que ela não foi pedida nos protestos. Que o governo, ou melhor, a presidente é que a lançou para sair da linha de tiro, jogando a bomba no colo do Congresso. Ainda que essa intenção é que tenha produzido o gesto, sejamos honestos: os manifestantes exibiram um ou outro cartaz com a expressão "reforma política", mas foi claro o rechaço aos partidos e aos políticos, sem distinção. Nada mais eloquente do que a tomada das cúpulas do Congresso. Este divórcio, que vem de longe e explodiu agora, configurando a chamada crise de representação, não será superado dentro do sistema que temos. A política que hoje impera enquadra os indivíduos: quem não aceita as regras do jogo, está fora. Não sobrevive. Com as exceções de sempre.

O deputado Henrique Fontana (PT-SP), que angariou o respeito de aliados e adversários com seu empenho para costurar a proposta que naufragou em abril, resume a situação: "Cada vez mais, a política é dominada pelo dinheiro e não pelas ideias. A sociedade enxerga isso e não aceita mais".

A reforma política não vai humanizar o atendimento nos hospitais, reduzir a criminalidade ou melhorar a qualidade do ensino. As soluções para esses problemas, entretanto, são afetadas pelo sistema de governabilidade que temos. Ele impõe aos governantes concessões que levam aos males que estão aí, da corrupção à qualidade da gestão. É verdade que Dilma cometeu erros ao propô-la, como amplamente registrado, inclusive aqui. Por exemplo, ao sugerir a constituinte específica, e depois o plebiscito, sem consultas prévias ao Congresso, produziu o atrito que está visível. Vale porém reconhecer que nenhum presidente, antes dela, nem mesmo Fernando Henrique e Lula, que sempre defenderam mudanças no sistema, apresentaram qualquer proposta ao Congresso. Dilma sugeriu um plebiscito e cinco pontos para a consulta ao povo: sobre financiamento de campanha, sistema eleitoral (proporcional ou distrital, misto ou puro), suplencia de senador e voto secreto no Congresso.

O tempo é mesmo curto para um plebiscito que produzisse mudanças para 2014, mas peso maior tem a resistência dos conservadores no Congresso. Ali, é apoiado basicamente pela esquerda governista: PT, PSB, PDT e PC. E pelo PSol, de oposição. Vem ganhando adeptos nas redes sociais, mas tem opositores poderosos na mídia e nas elites. O presidente do Senado já cantou a pedra: a Câmara dará a primeira palavra e de ser contra. Mas tendo enterrado em abril o substitutivo do relator da matéria, o deputado Henrique Fontana, a Câmara está na obrigação de colocar algo no lugar da proposta de Dilma.

Na terça-feira, o senador Aécio Neves reunirá a executiva do PSDB para fecharem uma proposta de reforma política do partido. Ele defende voto distrital misto, fim das coligações proporcionais, cláusula de desempenho para os partidos e mandato de cinco anos, sem reeleição. Não há consenso em torno desses temas, mas, depois do rechaço de junho, os congressistas estarão sob o olhar mais vigilante dos eleitores. Fala-se que aprovarão, agora, apenas o "voto distritão", proposta antiga do vice-presidente Michel Temer: cada estado compõe um distrito e são eleitos os deputados mais votados. Nada de coligação ou de eleição de deputados pelas "sobras" de votos em um partido. O que vier agora é lucro, como diz Fontana: "Se conseguirmos fazer o plebiscito e aprovar uma reforma ampla para 2014, será excelente. Se conseguirmos aprovar apenas alguns pontos, acertando a vigência de outros para 2018, será muito bom. Afinal, o assunto está empacado há 20 anos. O que não podemos é fingir que não entendemos o recado das ruas".

Nossas Excelências continuam surdas - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 07/07
Desde sua primeira eleição para a Câmara dos Representantes em 1991, o deputado americano John Boehner sempre usou voos comerciais para ir e voltar de seu distrito eleitoral de Cincinnati, no estado de Ohio. Três anos atrás, ao assumir o posto de presidente da Câmara, Boehner, um republicano, não mudou o hábito - apesar do uso de aviões militares para os primeiros da linha sucessória presidencial ter sido aprovado depois dos ataques às Torres Gêmeas de 2001. Ao longo dos últimos 20 anos tenho voado em rotas comerciais. Agora que ocupo a presidência da Casa, consultei o pessoal da segurança e vimos que posso continuar a fazê-lo, sem problemas. Melhor assim , comunicou à época. Sua antecessora no cargo, a democrata Nancy Pilosi, havia abusado da regalia e chamara para si forte indignação do eleitorado.

Joe Biden é vice-presidente dos Estados Unidos há quatro anos. Costuma cometer gafes verbais aos rodos, mas tem pé no chão e goza de grande simpatia nacional. Desde que o governo Barack Obama foi obrigado, por lei, a adotar um enxugamento brutal nos gastos federais em março último, Biden pensa duas vezes antes de requisitar o Air Force Two que vem junto com o cargo. Três meses atrás desembarcou em Selma, no Alabama, de um reles avião de carreira. Fora representar o chefe da nação no aniversário da histórica Marcha pelo Direitos Civis liderada por Martin Luther King em 1965.

Por que abrir mão de um mimo tão legal quanto legítimo quando não há, como no Brasil, hordas nas ruas a exigir mais honestidade e vergonha na cara por parte da elite do país? Por mero bom senso político e hombridade pessoal. Ademais, viajar em voos comerciais não causa urticária. Tampouco diminui a estatura da autoridade em missão oficial verdadeira.

Já para autoridades destituídas de estatura, sobretudo de estatura moral, a coisa muda. Quanto mais atrofiada a imagem do servidor público, maior parece ser o seu apego a tudo o que a liturgia do cargo lhe oferece. Até aí nada de novo.

No caso recente de dois representantes do povo no Congresso Nacional brasileiro, onde os eleitos acham normal serem chamados de Excelência , o caldo entornou esta semana pelo escracho do timing : a desvergonha demonstrada pelos presidentes da Câmara e do Senado ocorreu enquanto o urro nas ruas por uma faxina geral percorria o país.

Vale a pena reprisar os dois episódios.

O veteraníssimo Henrique Alves (PMDB-RN) está em seu 11º mandato consecutivo na Câmara e pretende disputar mais um, em 2014. Também está noivo. E, como outros 190 milhões de brasileiros, desejou assistir à final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha, no Maracanã, domingo passado. Tinha ingressos e um jato C-99 da FAB para levá-lo de Natal ao Rio de Janeiro. Noiva e parentela, um filho e um amigo publicitário o acompanharam, como revelaria Leandro Colon, da Folha de S.Paulo . Não ocorreu a nenhum dos sete caronas, nem a ninguém da recheada assessoria parlamentar do deputado, adverti-lo de que o país estava de pernas pro ar. Nem de que nestes tempos de revolta tropical contra a arrogância em Brasília seria melhor ficar longe do perímetro regido pela Fifa. É de se perguntar se ninguém, naquele ar rarefeito do poder, lê jornal, assiste a noticiário, está antenado às redes sociais. Surdos, parecem continuar a estar.

O ressarcimento tacanho aos cofres públicos e o álibi de um almoço formal com o prefeito carioca Eduardo Paes, para discutir o cenário político e assim justificar o uso de um avião militar, só pioraram as coisas.

O caso de Renan Calheiros (PMDB-AL), revelado pela repórter Vera Magalhães, do mesmo jornal, é de levantar outras cem barricadas. Não apenas pelo fato em si: o presidente do Senado também mobilizou um C-99 da FAB para ser levado de Maceió a Porto Seguro, na Bahia, e comparecer ao casamento da filha de um colega senador, Eduardo Braga (PMDB-AM). Em Trancoso.

Considerando-se que Calheiros já foi alvo de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal por improbidade e tráfico de influência, além de motivar um abaixo-assinado por 1,5 milhão de brasileiros pedindo sua saída do cargo, a notícia soou insultuosa. E se, antes do episódio, o seu nome já frequentava os cartazes das passeatas como o cara a ser defenestrado, imagine-se daqui para a frente. Resultado: após se escudar na frouxa interpretação do direito ao transporte de representação para os chefes dos três poderes, constante do decreto 4.244 de 2002, e descartar a intenção de ressarcir a União, Calheiros capitulou na tarde de sexta-feira. Vai reembolsar o país no valor de R$ 32 mil.

Uma nota assinada pela Secretaria de Imprensa da Presidência do Senado comunicou a nobre rendição. O texto começa assim: O Senado Federal, sensível à nova agenda e aos novos tempos...

A rua já entendeu o resto.

Parafraseando o que dizia o ex-presidente americano Dwight Eisenhower , Aquele que valoriza seus privilégios acima de seus princípios, acaba por perder as duas coisas . E quem já tem déficit de princípios? Resposta na ponta da língua das passeatas: perde os privilégios.

A mola do poço - DORA KRAMER

FOLHA DE SP - 07/07

No meio do bate-cabeça geral do governo, o marqueteiro João Santana deu um aviso aos navegantes do Planalto e adjacências: fiquem tranquilos; a crise é passageira, daqui a pouco a presidente Dilma Rousseff recupera a popularidade e tem tudo para ganhar a eleição de 2014 no primeiro turno. Hoje soa como aquela piada do otimista que cai do prédio de 20 andares e, ao passar pelo 10.º, comunica: “Até aqui tudo bem”. Mas pode ser que dentro de alguns meses (ele aposta em quatro) fique demonstrado que Santana tinha razão.

A esperança do governo tem como referência a recuperação do então presidente Luiz Inácio da Silva, que foi às cordas com o caso do mensalão e não só foi reeleito como ficou ainda mais forte saindo do governo com 83% de aprovação depois de ter caído ao patamar de 30% no auge do escândalo.

É possível repetir o feito? Na política dizem que o fundo do poço tem mola. Portanto, possibilidade existe. A questão são as probabilidades e o resultado do embate entre os prós e os contras. As situações são inteiramente diferentes, a começar pelo estilo de cada um (ele ardiloso, ela imperativa) e das habilidades das equipes que os cercam. Para se recuperar o pré-requisito essencial é Dilma melhorar o desempenho do time dela, até agora sofrível conforme se atesta pela profusão de trapalhadas.

Mas isso, em tese, se corrige. No início da campanha de 2010 a então candidata cometeu uma série de desatinos e depois se acertou. Tempo, instrumentos de poder e disposição de “fazer o diabo” para ganhar a eleição o governo tem.

Deu sorte de a crise eclodir 15 meses antes da eleição, mas tudo depende do que acontecerá daqui até lá. Lula foi bem porque a desculpa esfarrapada do caixa dois para tentar eliminar o caráter criminoso da compra de partidos encontrou ambiente fértil: oposição amedrontada, economia em céu de brigadeiro e Congresso apaziguado, para não dizer agachado. Ademais, na época a população não havia entrado na conversa.

Hoje o que se tem? Acabou a apatia, a aceitação do prato feito. A economia sem horizonte de melhora com o governo refém da falta de margem de manobra e a população assombrada pela volta do fantasma da inflação. O PT tentando conter internamente o clamor do “volta Lula” para não passar recibo do fracasso, o Congresso conflagrado pelo acúmulo de insatisfações que chegaram ao clímax por causa da tentativa de Dilma de transferir a ele a responsabilidade de debelar a crise com a história do plebiscito.

O mensalão já recebeu o atestado de crime e as execuções das penas dos condenados fazem parte das exigências dos manifestantes. Resta em prol do governo a ausência de alternativas eleitorais consistentes. Ninguém até agora capitalizou o prejuízo de Dilma nas pesquisas, mas o jogo antes artificialmente antecipado ainda está para começar.

Sinuca
Além da força do hábito, da sensação de que os cargos lhes conferem a condição de cidadãos “diferenciados” diante do legal e do legítimo, autoridades usam aviões da FAB para fins recreativos também pela impossibilidade de entrarem num avião de carreira sem correr o risco de ouvir uns bons desaforos dos passageiros.

Correção
Na reunião ministerial de segunda-feira passada a presidente Dilma Rousseff não chamou o ministro da Aviação Civil de “burro” – como publicado aqui – quando ele fez reparos à política econômica. Disse apenas que Moreira Franco não havia “entendido” as explicações do presidente do Banco Central, que havia detalhado a posição do ministro da Fazenda – que, aliás, nem traçara um cenário tão cor-de-rosa, conforme pediu para informar por intermédio da assessoria.

Falso brilhante - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR

GAZETA DO POVO - PR - 07/07

As redes sociais se divertem fazendo piadas a respeito da ascensão e queda de Eike Batista, o dono de uma fortuna de mais de R$ 70 bilhões que derreteu rapidamente quando o castelo de cartas que havia montado – composto de uma empresa para extrair petróleo, outra para fabricar as plataformas marítimas para a primeira, uma grande mineradora para explorar minas no interior e um superporto para embarcar o minério extraído, uma geradora de energia elétrica para fornecer eletricidade aos seus outros empreendimentos, além de adereços icônicos como o histórico Hotel Glória, a administração do Estádio do Maracanã e outros badulaques – começou a desabar.

A crueldade popular nesses casos é infinita, ainda mais quando o alvo é alguém com traços de magalomania e exibicionismo, como a obsessão de ser a pessoa mais rica do mundo e (segundo a imprensa) manter seu carro ultraluxuoso estacionado dentro de sua sala de estar para contemplação dos basbaques. Segundo as versões mais recentes dos sites criados apenas para atazanar o empresário (Eike Gente como a Gente e outros), ele já foi visto tomando café em copo de geleia, esquentando a ponta da caneta Montblanc com isqueiro para fazer a tinta durar mais, fazendo um crediário com entrada só para depois do Natal para comprar um terno novo, pedindo pizza em um site de compras coletivas com 56% de desconto, usando vale-refeição em um restaurante por quilo e usando camiseta de campanha política como paletó de pijama. Um dos sarristas se gaba de ter recusado uma proposta de amizade do ex-magnata no “Feice”, pois já tem amigos pobres o suficiente...

Analisar agora as razões que levaram as empresas Xis à crise é ocioso e fácil, pois se trata de chutar um leão morto, mas já há muito tempo Eike gerava desconfianças entre especialistas quanto à viabilidade de seus negócios. Ao mesmo tempo, teve poder de convencimento e influência política de sobra para atrair bilhões de dólares em suas aberturas de capital. Um analista financeiro internacional fez um comentário irônico: Eike foi quem mais ganhou dinheiro com o Power Point, depois de Bill Gates, dono da Microsoft. Para quem não sabe ou não se lembra, Power Point é o nome do programa de computador usado para preparar apresentações, referindo-se ao fato de que o empresário brasileiro não tinha mais que uma coleção de slides e promessas róseas para atrair investidores e empresários internacionais supostamente calejados para seus empreendimentos.

Que irá acontecer daqui para a frente? Se estivéssemos em um país realmente capitalista, os eventuais problemas financeiros das empresas de Eike seriam um assunto privado a ser tratado e resolvido entre ele e seus credores, com uma salutar divisão de perdas entre alguém que prometeu mais do que pôde ou soube entregar e os que acreditaram nele, apesar de todo o seu corpo de especialistas e analistas prontos para negar crédito aos pobres mortais, mas também ávidos em cair em contos de fadas e lendas contadas por pessoas bem vestidas e bem falantes.

Mas estamos em um país em que, vira e mexe, os cofres públicos são chamados a socorrer megaempresários para “evitar riscos sistêmicos” ou para apoiar “o fortalecimento do empresariado nacional”. A essa altura, segundo um grande banco norte-americano, a dívida das empresas de Eike com o setor financeiro soma mais de R$ 13 bilhões, dos quais R$ 8 bilhões vencíveis no curto prazo. Grandes bancos privados brasileiros estão atolados em montanhas de créditos que agora estão em risco. Pior ainda, participam desse clube o BNDES e a Caixa Econômica, bancos públicos que sempre são os primeiros que vêm à memória de credores com dificuldades para receber o dinheiro que imprudente ou incompetentemente emprestaram e que agora querem de volta.

Minhas manifestações - ALDIR BLANC

O GLOBO - 07/07

Vetar Mané Garrincha? Não permitir bumbos e tamborins e avacalhar nosso hino? Vão se fifar!


O Galo da Madrugada coloca 2 milhões de pessoas nas ruas de Recife. O Bola Preta, quase isso na Rio Branco. Somos, na Brasunda, uns 200 milhões de vândalos. As manifestações ejetaram 2 milhões de cidadãos nas avenidas e espelhos d’água. Portanto, é exagero clamar que o Gigante acordou. 1% da população botando a boca no trombone não chega a ser um gigante dando ataque. O comatoso bocejou, bateu pestanas e remexeu os dedos dos pés. Talvez tenha soltado um pum, já que ocorreram olorosas emanações de gás. Rolou o propalado carná em junho.

Quero ver o bicho que vai dar quando o Gigante desferir socos e pontapés, cataflaus na Granja do Torto e à direita, exigindo o cumprimento das promessas de reforma agrária, melhor distribuição de renda, prisão dos mamalufs e horrorizes. É claro que a “base de sustentação” corrupta, os mesmos que trabalharam 20 anos em uma tarde, metendo o dedinho no buraco do... do... dique, minou a autoridade do governo. Ninguém compraria um velho Simca Chambord na mão do presidente do Senado, um adúltero hipócrita que considera amantes bonitas “calvários”.

Evidente que a educação pífia, a saúde com desgraçados morrendo nos corredores de hospitais em ruínas, transportes que são um atentado ao pudor e à vida, vale cultura de 50 paus por zé-mané, ministérios nas mãos de incompetentes devido a conchavos e aparelhamentos contribuíram para a crise. Protestem — mas aproveitem para ler um pouquinho de História. Caminhoneiros bloqueando estradas por ordem de patrões cheira a Salvador Allende. As mesmas redes sociais que agendam reuniões dos protestantes apoiam a intervenção criminosa das 7.812 (milhar do burro) agências de segurança norte-americanas, lideradas pelo Bananobama, o Bush Negro. Já não se faz Mandela como antigamente.

Peçam nas ruas o julgamento de torturadores, crime que não prescreve. Eles estão nas bocas, esperando a hora do bote, babando para retomar as rédeas, esporas, chibatas... Ainda sobre gugols e feices: singela Marina, você tem todo o direito de formar um partido novo, mas não use a sigla REDE, com o óbvio apelo demagógico junto aos jovens, uma tacada oportunista não condizente com seu passado. Se preferir escancarar, vá logo de WEB (We Enforce Bullshitt).

Se eu tivesse que usar meu velho pincel para escrever um cartaz, tascaria: VÃO SE FIFAR! Por que essa entidade apodrecida acha que pode proibir nomes de nossos estádios (arena era partido pró-ditadura)? Vetar Mané Garrincha? Não permitir bumbos e tamborins e ainda avacalhar nosso hino, que o povo continua cantando? Vão se fifar! Não vejo a hora de invadir o consultório do melhor pediatra do mundo, Dr. Roberto Aires, e pedir que ele cante “Urso fofinho”, enquanto passa vick vaporub no que já foi meu peito, hoje um tanto seios... Eike está quebrado, mas sempre terá o Maracanã. Deve passar as próximas férias bolando novas atochadas, em Rabat. O avião da FAB já está de prontidão.

Francisco lavará a alma do Brasil - ELIO GASPARI

O GLOBO - 07/07

Faltam duas semanas para a chegada do papa Francisco ao Rio. Ele mostrará ao mundo um Brasil de fé, solidariedade, alegria e paz. Será a primeira viagem de um pontífice que, em quatro meses de reinado, deu as seguintes lições:

1) Pagou a conta da casa de hóspedes que o abrigou em Roma durante o conclave. (Alô doutores Henrique Alves, Garibaldi Alves e Renan Calheiros com seus jatinhos da Viúva.)

2) Dispensou o apartamento pontifício de dez aposentos e continuou na Casa Santa Marta, onde ficam os bispos que passam por Roma. (Alô Eduardo Paes, que em 2010 queria comprar para a prefeitura o palacete dos Guinle na rua São Clemente. Os donos pediam R$ 10 milhões.)

3) Livrou-se dos paramentos do regalismo medieval de Bento 16 e dos medonhos sapatos vermelhos de seus antecessores.

4) Nomeou uma comissão de cardeais para limpar a estrutura da Cúria e faxinou o Banco do Vaticano.

5) Confessou-se um pecador. (Alô Lula.)

O papa Francisco chega ao Brasil com uma igreja livre de grandes divisões. Não vem hostilizar prelados esquerdistas e, se há na hierarquia brasileira discretos muxoxos (sobretudo por causa da faxina no Banco do Vaticano), eles serão dissimulados. Se governantes estão com medo do que significará sua visita, ainda têm tempo para ler a inutilidade do mal-estar dos comissários poloneses quando João Paulo 2º anunciou sua visita a Varsóvia.

Centenas de milhares de peregrinos hospedados em casas alheias celebrando a fé serão uma santa lição num país onde o andar de baixo sabe dividir o que tem, enquanto no de cima não querem nem pagar passagem de avião.

Durante alguns dias acreditou-se que as multidões que foram às ruas nas últimas semanas prenunciavam apenas badernas. Viu-se, contudo, que o povo como perigo é apenas uma velha fantasia. Francisco mostrará o tamanho da fraternidade nacional, sem caviar no camarote das autoridades.

Nos últimos dias autoridades federais, estaduais e municipais que torraram bilhões de reais na construção de estádios informaram que não têm dinheiro para cobrir um buraco de R$ 90 milhões para custear despesas da Jornada Mundial da Juventude. Gastaram R$ 1,2 bilhão no Coliseu do Rio. A viagem da doutora Dilma a Roma para a coroação de Francisco custou perto de meio milhão. Pode-se estimar que o governo federal torre perto de R$ 1 milhão por mês só na JetFAB. De Brasília, saiu o temor de que Francisco seja hostilizado por manifestações de evangélicos. É difícil, pois não há entre os evangélicos o sectarismo dos comissários.

Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, é um homem de boa paz. Se tivesse na alma a lâmina sertaneja de dom Eugenio Sales, mandaria um recado a Brasília, ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes: "Coletarei a ajuda do povo na esquina da avenida Rio Branco com rua do Ouvidor." (Bastou uma palavra de dom Eugenio a Fernando Henrique Cardoso para que fossem retirados soldados armados das calçadas por onde passava João Paulo 2º.)

Os dias do papa no Brasil serão jornadas de distensão, beleza e fraternidade, sem comércio ou patrocínios. Acima de tudo, serão grátis. Cobrarão apenas fé para aqueles que a têm.

PLEBISCITO

Para os sábios que pretendem fazer uma reforma política plebiscitária, o repórter Mauricio Puls fez a seguinte conta:

Em 1993 realizou-se um plebiscito para que o eleitorado escolhesse entre Monarquia e República, com a alternativa parlamentarista. Só isso, coisa simples.

Votaram na República 43,9 milhões de eleitores. Deles, 36,7 milhões preferiram o regime presidencialista.

Sobraram 7,2 milhões de votos. Pela lógica, esses votos teriam ido para o parlamentarismo.

Não fecha. O parlamentarismo teve 16,4 milhões de votos. Admita-se que uma parte deles sufragava a sua modalidade monárquica. Não fecha, de novo, porque a Monarquia teve 6,8 milhões de votos.

Sobraram 2,4 milhões de votos que não fazem sentido. Talvez fossem pessoas que quisessem um parlamentarismo sem República nem Monarquia, ou Monarquia sem parlamentarismo.

A doutora Dilma sugere um plebiscito bem mais complexo. Talvez ela saiba como fazê-lo.

POR TRÁS

Atribui-se a Lula a seguinte frase durante as manifestações de junho:

"Vamos esperar para ver o que está por trás disso."

Em abril de 1978, quando surgiu um estranho presidente no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, uma análise de sábios do Serviço Nacional de Informações dizia que a "estratégia sindical" buscava "forjar líderes regionais, alguns de influência nacional, através da propaganda maciça, como é o caso de Luiz Inácio da Silva (Lula), que foi projetado do obscurantismo para o 'vedetismo' jornalístico, tantas foram as publicações e entrevistas envolvendo o seu nome".

A MARQUETAGEM DOS MÉDICOS ESTRANGEIROS

Há na proposta de importação de médicos estrangeiros um exemplo da opção preferencial do governo pela empulhação, propondo coisas novas enquanto não cuida das bobagens velhas da máquina burocrática.

A doutora Dilma anunciou que pretende trazer "de imediato milhares de médicos estrangeiros" para trabalhar em regiões carentes do país.

Isso seria feito facilitando os exames dos candidatos e alocando-os por prazos fixos em determinados municípios. Vá lá.

Veja-se a legislação imposta ao médico formado no exterior que pretende trabalhar no Brasil. Num exemplo hipotético, Alexandre Mercadante formou-se em medicina na Universidade Harvard (a melhor dos Estados Unidos), trabalha no serviço de cardiologia da Cleveland Clinic (um dos melhores do mundo). A certa altura decidiu voltar para Pindorama. Não quer favor algum, quer apenas trabalhar na sua terra.

Todas as universidades exigem que apresentem seus diplomas e créditos. Nada mais natural, porém diversas universidades federais somam outra exigência: a prova de residência no Brasil. Se outro médico quiser vir pelo programa Revalida, concebido pelo governo federal, essa exigência é geral.

Entre a hora em que o doutor Alexandre Mercadante deixou seu emprego em Cleveland e aquela em que obterá a revalidação do seu diploma podem passar seis meses ou até mesmo um ano. Pergunta: nesse período ele viverá de quê? (Se o médico for estrangeiro, a situação piora. Terá que ralar a concessão do domicílio permanente.)

Não é nem o caso de dizer que o governo da doutora Dilma dificulta a vinda de médicos estrangeiros. As máquinas das universidades e do governo federal dificultam até mesmo a vinda de brasileiros. Fazem isso por pura onipotência burocrática. Ganha uma residência hospitalar em Havana quem souber explicar por que o médico precisa provar que mora no Brasil para dar entrada nos seus papéis.

Tempos difíceis - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

O GLOBO - 07/07

Já se disse tudo, ou quase tudo, sobre os atos públicos em curso. Para quem acompanha as transformações das sociedades contemporâneas não surpreende a forma repentina e espontânea das manifestações.
Em artigo publicado nesta coluna, há dois meses, resumi estudos de Manuel Castells e de Moisés Naím sobre as demonstrações na Islândia, na Tunísia, no Egito, na Espanha, na Itália e nos Estados Unidos. As causas e os estopins que provocaram os protestos variaram: em uns, a crise econômico-social deu ânimo à reação das massas; em outros, o desemprego elevado e a opressão política foram os motivos subjacentes aos protestos.
Tampouco as consequências foram idênticas. Em algumas sociedades onde havia o propósito específico de derrubar governos autoritários, o movimento conseguiu contagiar a sociedade inteira, obtendo sucesso. Resolver uma crise econômico-social profunda, como nos países europeus, torna-se mais difícil. Em certas circunstâncias, consegue-se até mesmo alterar instituições políticas, como na Islândia. Em todos os casos mencionados, os protestos afetaram a conjuntura política e, quando não vitoriosos em seus propósitos imediatos, acentuaram afalta de legitimidade do sistema de poder.
Os fatos que desencadeiam esses protestos são variáveis e não necessariamente se prendem à tradicional motivação da luta de classes. Mesmo em movimentos anteriores, como a "revolução de maio" em Paris (1968), que se originou do protesto estudantil "por um mundo melhor", tratava-se mais de uma reação de jovens que alcançou setores médios da sociedade, sobretudo os ligados às áreas da cultura, do entretenimento, da comunicação social e do ensino, embora tivesse apoiado depois as reivindicações sindicais. Algo do mesmo tipo se deu na luta pelas Diretas-Já. Embora antecedida pelas greves operárias, ela também se desenvolveu a partir de setores médios e mesmo altos da sociedade, aparecendo como um movimento "de todos". Não há, portanto, por que estranhar ou desqualificar as mobilizações atuais por serem movidas por jovens, sobretudo das classes médias e médias altas, nem, muito menos, de só por isso considerá-las como vindas "da direita".
O mais plausível é que haja uma mistura de motivos, desde os ligados à má qualidade de vida nas cidades (transportes deficientes, insegurança, criminalidade), que afetam a maioria, até os processos que atingem especialmente os mais pobres, como dificuldade de acesso à educação e à saúde e, sobretudo, baixa qualidade de serviços públicos nos bairros onde moram e dos transportes urbanos. Na linguagem atual das mas, é "padrão Fifa"para uns e padrão burocrático-governamental para a maioria. Portanto, desigualdade social. E, no contexto, um grito parado no ar contra a corrupção - as preferências dos manifestantes por Joaquim Barbosa (ministro presidente do Supremo Tribunal Federal) não significam outra coisa. O estopim foi o custo e a deficiência dos transportes públicos, com o complemento sempre presente da reação policial acima do razoável. Mas se a fagulha provocou fogo foi porque havia muita palha no paiol.
A novidade, em comparação com o que ocorreu no passado brasileiro (nisso nosso movimento se assemelha aos europeus e norte-africanos), é que a mobilização se deu pela internet, pelos twitters e pelos celulares, sem intermediação de partidos ou organizações e, consequentemente, sem líderes ostensivos, sem manifestos, panfletos, tribunas ou tribunos. Correlatamente, os alvos dos protestos são difusos e não põem em causa de imediato o poder constituído nem visam questões macroeconômicas, o que não quer dizer que esses aspectos não permeiem a irritação popular.
Complicador de natureza imediatamente política foi o modo como as autoridades federais reagiram. Um movimento que era "local" - mexendo mais com os prefeitos e governadores - se tornou nacional a partir do momento em que a presidenta chamou a si a questão e a qualificou primordialmente, no dizer de Joaquim Barbosa, como uma questão de falta de legitimidade. A tal ponto que o Planalto pensou em convocar uma Constituinte e agora, diante da impossibilidade constitucional disso, pensa resolver o impasse por meio de plebiscito. Impasse, portanto, que não veio das ruas.
A partir daí o enredo virou outro: o da relação entre Congresso Nacional, Poder Executivo e Judiciário e a disputa para ver quem encaminha a solução do impasse institucional, ou seja, quem e como se faz uma "reforma eleitoral e partidária". Assunto importante c complexo, que, se apenas desviasse a atenção das ruas para os palácios do Planalto Central e não desnudasse a fragilidade destes, talvez fosse bom golpe de marketing. Mas, não. Os titubeios do Executivo e as manobras no Congresso não resolvem a carestia, a baixa qualidade dos empregos criados, o encolhimento das indústrias, os gargalos na infraestrutura, as barbeiragens na energia, e assim por diante.
O foco nos aspectos políticos da crise - sem que se negue a importância deles - antes agrava do que soluciona o "mal-estar", criado pelos "malfeitos" na política econômica e na gestão do governo. O afunilamento de tudo numa crise institucional (que, embora em germe, não amadurecera na consciência das pessoas) pode aumentar a crise, em lugar de superá-la.
A ver. Tudo dependerá da condução política do processo em curso e da paciência das pessoas diante de suas carências práticas, às quais o governo federal preferiu não dirigir preferencialmente a atenção. E dependerá também da evolução da conjuntura econômica. Esta revela a cada passo as insuficiências advindas do mau manejo da gestão pública e da falta de uma estratégia econômica condizente com os desafios de um mundo globalizado.

As ruas e os sinais - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 07/07

O que deslumbra nas passeatas da juventude atual não lhes tira certo compromisso com a tradição


Quem era jovem ou moço na altura em que se processou a redemocratização desde então viveu sua cidadania em um tempo sem apelos à militância das ruas, do cara a cara com a polícia. Até aqui foram 30 anos, mais ou menos, em que uns poucos embates eleitorais, escândalos de corrupção e desatinos da economia bastaram para impedir a percepção de que o país viveu, na verdade, uma calma de mais de um quarto de século.

Daí vem uma diferença essencial de vivências entre aquelas gerações e os sobreviventes das anteriores, vividas sob uma democracia tumultuosa até 1964 e depois sob a ditadura. Diferença que é a provável explicação para o contraste observável, nitidamente, entre as maneiras de ver as recentes manifestações de massa, pelos que estão até a meia idade e pelos mais velhos. Ainda que sem diferença no apoio às manifestações.

As passeatas têm recebido designações como fenômeno social, ou político; marco de uma nova maneira de militância política, sem partidos e sem lideranças próprias; e introdução da democracia direta, entre outras inovações. São dadas também como conquistas irreversíveis, a partir das quais o Brasil nunca mais será o mesmo. Pois, como escreveu uma ilustre articulista carioca, "tomamos posse da nossa política".

Assim se expressa nos jornais e na internet o consenso dos que experimentam o contato inicial com um movimento de insubordinação caudalosa. A origem de tudo? Nesse ponto o consenso apenas seguiu a regra, já bem consolidada entre nós, de superestimação da juventude como valor em si mesma. Todo o fenômeno foi revelado e prosseguirá como obra da juventude.

Nesse consenso podem estar verdades absolutas ou premonições admiráveis. A confirmação, ou não, compete ao tempo.

A recepção das gerações mais velhas às manifestações, sem ser comedida e muito menos reticente no apoio, mostrou-se como uma espécie de naturalidade diante de outra naturalidade. Já porque, embora não pareça, foram jovens e, quando jovens, viveram tempos de todos os tipos de manifestações em um Brasil permanentemente revolto, dividido, desorientado. E, ainda mais do que por sua juventude íntima da agitação sonhadora e indignada, pela persistente resistência deste país a mudanças. Vinte e um anos de ditadura dizem muito a respeito. Vinte e oito anos de democracia que não sai dos primórdios dizem o mesmo ou mais.

O Brasil já deu motivo a todo tipo de manifestação pública. Até com um aspecto curioso: nenhum deu mais motivo a agitações fortes do que os preços de passagens. Nem as fases de desabastecimento, a falta sistemática de água ou de luz, a miséria inqualificável das favelas de então --nada, no século passado, causou mais manifestações urbanas, quase sempre com quebra-quebras formidáveis, do que os aumentos de passagens.

No Rio, além dos trens, ônibus e bondes comuns a outras cidades, as barcas Rio-Niterói foram causa de manifestações e de tumultos violentíssimos. Nem a ferocidade da ditadura venceu a idiossincrasia vinda ainda do Império. Os trens da Paulista também conquistaram a honra histórica de encher as ruas de manifestantes e de policiais.

O que deslumbra nas passeatas da juventude atual não lhes tira, portanto, certo compromisso com a tradição. Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, como legítimos representantes do Brasil que não muda, emitiram um sinal também de tradição. Esperemos que as ruas não parem nos sinais.

Marina, a equilibrista - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/07
A ex-senadora Marina Silva, que vem despontando como a grande beneficiada das manifestações contra tudo o que está aí , principalmente os políticos, tem nas ruas dois dos três segmentos detectados por seus analistas como sendo a base de sua votação de cerca de 20% dos votos em 2010: a classe média iluminista e a garotada das redes sociais.

São esses que a colocam em segundo lugar na disputa presidencial em todas as pesquisas feitas durante as manifestações, mesmo sendo Marina formalmente uma política tradicional: fundadora do PT, foi senadora por 16 anos (dois mandatos) e ministra do Meio Ambiente durante praticamente todos os oito anos do governo Lula.

Mesmo assim, consegue manter uma postura que a afasta da imagem do político tradicional, além de se identificar com um terceiro grupo eleitoral, os evangélicos, de fundamental importância para sua votação, como vimos domingo passado na pesquisa sobre religiões realizada pela equipe do professor Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio.

Segundo o deputado federal Alfredo Sirkis, do PV, o voto evangélico de Marina não era nada óbvio em 2010: nas pesquisas, aparecia relativamente modesto até agosto. Sua performance entre eles era bastante pior que entre os católicos, os espíritas e os sem religião . Em setembro cresceu um pouco, mas ficou ainda longe dos escores reais que ela teria em áreas pesadamente evangélicas, como a Baixada Fluminense, por exemplo.

Na época, desenvolvi uma tese sobre o voto oculto evangélico, que carece ainda de comprovação cientifica, embora seja empiricamente bastante plausível , diz Sirkis. A grande maioria dos pastores optara pelas candidaturas de Dilma e Serra, relativamente poucos apoiavam Marina. Ela conseguiu o feito extraordinário de estabelecer uma interlocução direta com a base evangélica por cima dos pastores - o que lhe traz uma grande hostilidade dos ditos cujos, sobretudo dos mais reacionários , avalia o deputado federal.

Essa hostilidade se refletia nas pesquisas, pois boa parte dos evangélicos, sobretudo mulheres, por recato ou temor de contrariar o pastor de sua igreja, ao ser pesquisada pelos institutos, não revelava a preferência por Marina . Essa teria sido uma das razões, acredita Sirkis, de o seu resultado final ter surpreendido, ficando uns 4% acima da nossa melhor pesquisa .

Hoje, Marina, considerada por muitos a principal liderança política evangélica do país, embora seja uma convicta e aguerrida defensora do estado laico, é também praticamente a única grande liderança política evangélica progressista, capaz de dialogar - embora não necessariamente se alinhar completamente - com os movimentos que defendem causas comportamentais que as lideranças reacionárias evangélicas hostilizam com tanto fervor.

Alfredo Sirkis vê esse como o grande papel transformador que lhe é garantido: trazer para um campo mais democrático e tolerante multidões que, na sua ausência, seriam trabalhadas exclusivamente pelas lideranças conservadoras ou reacionárias. Essa situação a obriga a um sutil equilibrismo na gestão dos seus três eleitorados, admite Sirkis, e a se expor a eventuais patrulhamentos e distorções.

Uma das decisões é, na sua relação direta com os evangélicos em foros religiosos, mesmo em época de campanha eleitoral, se recusar a fazer qualquer proselitismo eleitoral, ao contrario da prática habitual dos políticos evangélicos.

Sirkis cita um culto no estádio do Olaria para alguns milhares de fieis, duas semanas antes da eleição de 2010, onde Marina era a convidada de honra. Fez uma análise bíblica do papel da mulher e da necessidade de convivermos com a pluralidade e a diferença. Uma pregação em torno de uma mensagem claramente progressista embutida na análise de textos bíblicos .

Por enquanto, Marina tem se saído bem desse equilibrismo entre tipos tão distintos de eleitores e conseguiu superar a ameaça dos políticos estabelecidos contra a formação de sua Rede de Sustentabilidade, um partido político que não quer se identificar com os tradicionais, e se conecta com as ações das ruas. Resta saber se tem capacidade de ampliar seu eleitorado para se transformar em uma candidata competitiva à presidência da República em 2014.

'Regeneração' da vida pública - FERNANDO LIMONGI

O ESTADÃO - 07/07


A temporada de caça às bruxas está aberta.A classe política foi condenada porque inoperante,incapaz e desconectada do povo. Como a classe política é uma criatura das leis eleitorais, segue que essas devem ser reformadas. Duro entender que Renan Calheiros - um exemplo dos cartazes empunhados, mas cada um pode escolher o seu preferido, de Tiririca a Dilma, passando por Sarney etutti quanti tenha mandato eleitoral.Fosse a escolha ditada por outras regras, cidadãos em desacordo tão flagrante com os interesses do povo não nos governariam.
É preciso ter claro o que se pode e o que não se pode obter com reformas eleitorais.
Se aprovadas,algumas das propostas ventiladas acarretarão mudanças.A estrutura de incentivos dos políticos vai mudar e os partidos terão que revisar suas estratégias.
Mas isso está longe de assegurar a pretendida regeneração da vida política, o que quer que isso seja. A experiência comparada, isto é, as lições que podem ser derivadas de reformas eleitorais feitas no Brasil e no mundo, não autorizam conclusões seguras. Ninguém sabe ao certo os resultados de pequenas mudanças, quanto mais de grandes. Pode-se apostar. O número de variáveis em interação é grande e é muito difícil prever como todas as peças se acomodarão. Intenções e expectativas originais raramente se materializam. Não poucas vezes, os resultados foram verdadeiramente desastrosos. Sejamos francos, os sucessivos projetos de reforma não foram derrotados por uma conspiração comandada pelos políticos e seus interesses mesquinhos. A razão é mais simples e trivial: não há acordo sobre as relações causais envolvidas.
Não existe país no mundo que esteja plenamente satisfeito com as leis eleitorais que adota.Uma parte considerável olha para seus vizinhos com inveja. O cenário é paradoxal. O país A acredita que resolverá todos os seus problemas se adotar as leis praticadas por BeB quer copiar A para assegurar sua entrada para o paraíso. Por muito tempo, especialistas de todos os matizes condenaram as leis eleitorais adotadas pelo Brasil. Representação proporcional com lista aberta era o patinho feio da história.
Os ventos mudaram de direção e, hoje, é um dos modelos mais recomendados, contando até com aval do Banco Mundial para diminuir a corrupção e aumentar o controle dos políticos pelos cidadãos.
Talvez, pode se objetar, o problema esteja na opção pela reforma. O momento pede ousadia, não é hora de reformar, mas de revolucionar as práticas. A proposta mais radical foi feita pelo presidente do STF.Joaquim Barbosa propôs candidaturas avulsas como uma forma de dar espaço ao novo.
Partidos perderiam seu monopólio. Barbosa está em uma situação privilegiada para defender essa opção: já é conhecido nacionalmente em virtude da exposição mediática que recebeu ao longo do julgamento do mensalão... Nem todos contariam com a mesma facilidade.Candidaturas avulsas favorecem aqueles que contam com recursos para fazer campanhas.
Financiamento público de campanha tampouco vai alterar as coisas radicalmente. A proposta de plebiscito encaminhada pela presidente Dilma oferece três alternativas: privada, mista e pública. Pois é, talvez não se tenha consciência disto, mas o fato é que o Brasil hoje pratica o financiamento misto e um misto que está muito mais próximo do público que do privado. A propaganda eleitoral gratuita é financiada com dinheiro público. O que os partidos brasileiros recebem de graça é o sonho de consumo de muitos políticos mundo afora. Perguntem ao Obama se não é assim.
Acreditava-se que horário eleitoral gratuito equilibraria a competição política, neutralizando o peso do poder econômico e eliminando a corrupção. Não o fez por duas razões que se reforçam. Primeiro porque é distribuído de acordo com o desempenho nas eleições anteriores e, segundo, porque os recursos que cada partido arrecada para produzir campanhas afeta a qualidade de seus programas e, consequentemente, suas chances de vitória. O modelo atual, paradoxalmente, contribui para fechar a competição, favorecendo os partidos grandes. A discussão consequente, portanto, não é entre financiamento privado ou público, mas sim como os recursos públicos serão distribuídos entre os diferentes partidos de forma a equalizar a competição.
O debate é alimentado por altas doses de irrealismo. Cada um projeta sobre as reformas suas esperanças e, implicitamente, se arvora a intérprete autorizado dos verdadeiros anseios do povo. O que une todos parece ser a expectativa de que as"verdadeiras reformas"impedirão a eleição dos políticos que nomearam nos cartazes que levaram às ruas.A boa lei eleitoral deveria garantir que fôssemos governados apenas por políticos íntegros e qualificados. Simples, não? Mas não há reforma que possa garantir isto. Nem pode haver. Não há acordo sobre quem seriam os políticos virtuosos que deveriam receber a confiança do popular. Este dissenso fundamental não será alterado por nenhuma reforma. O eleitorado é o juiz em última instância. Ainda bem.

Cidadão Face - SÉRGIO DÁVILA

FOLHA DE SP - 07/07

SÃO PAULO - Há mais de uma contradição entre meio e mensagem nas manifestações que tomaram o país. Uma delas foi revelada por reportagem da Folha na última quinta.

Nela, levantamento mostra que 80% dos links compartilhados no Twitter com "hashtags" ligadas aos protestos durante o auge do movimento tinham origem na mídia dita tradicional --quer dizer, era conteúdo produzido pela imprensa profissional, levando em conta os preceitos do bom jornalismo.

Ainda de acordo com a pesquisa, páginas ligadas à imprensa no Facebook tiveram o compartilhamento de seu conteúdo pelo menos triplicado.

Ou seja, antes e depois de sair para as ruas para criticar, entre outras centenas de bandeiras, a grande mídia, os manifestantes se informavam por ela, utilizando o trabalho produzido pelo jornalismo profissional para validar ou rejeitar os vários rumores que surgem nas redes sociais.

Outra contradição foi o uso principalmente do Facebook para ajudar na formação e na divulgação dos eventos, o que muita gente boa chamou de "mídia direta", fruto da "liderança horizontal". Nós --jornalistas incluídos-- gostamos de pensar em Apple, Facebook, Google e Twitter como organizações etéreas sem fins lucrativos, em vez de empresas bilionárias que visam o lucro, que é o que são. É preciso desvestir a fantasia.

Para ficar apenas no Facebook, o "terceiro país do mundo", com seu 1,1 bilhão de usuários, não fica nada a dever a seu "vizinho" China na falta de transparência de suas práticas (vide caso NSA), no controle da vida de seus "cidadãos" (por algoritmos e política de privacidade obscuros) e na remuneração aviltante de sua mão de obra (nós e nossos posts, pelos quais ganhamos zero e em cima dos quais faturam bilhões).

Se a geração MPL quer fazer a revolução anticapitalista, fazê-la no Facebook é como se rebelar contra o imperialismo ianque morando na Disneylândia.

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Pontes e verdades - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 07/07

Há duas semanas, a presidente Dilma Rousseff não faz outra coisa que não seja tentar criar pontes. Reuniu governadores, prefeitos, líderes partidários, representantes de movimentos sociais, sindicalistas e até ministros que, se brincar, alguns ela só havia encontrado no dia em que deu posse aos sujeitos.

Em todos os eventos, sem exceção, um problema: a apresentação de um pacote pronto e pouco tempo para que ela pudesse ouvir. Em política, todo mundo gosta de se sentir partícipe. E Dilma não deu muito essa oportunidade às dezenas de interlocutores que recebeu esses dias. Quanto a governadores e prefeitos, o que interessava ali era a foto de apoio a uma constituinte exclusiva que não durou 24 horas. Depois, veio o tal do plebiscito, foco das reuniões seguintes, com os presidentes de partidos, sindicados e até ministros. Mas, em todos os encontros, pelo que se pode perceber em conversas reservadas, conta-se nos dedos aqueles que saíram se sentindo valorizados ou ouvidos, embora os encontros com presidentes da República sejam tradicionalmente para passar essa ideia.

Sem essa interatividade, o que fica são conversas sem um prosseguimento. Não por acaso, o plebiscito foi, aos poucos, perdendo fôlego a ponto de chegar moribundo na quinta-feira e ser quase que engavetado pelo vice-presidente da República, Michel Temer, para desgosto de Dilma. Embora seja lindo o povo opinar sobre vários temas e dizer que tipo de política deseja, há a questão dos prazos. Desrespeitar o prazo de um ano para valer nas eleições de 2014 pode ser um precedente grave. Afinal, não dá para esquecer que, como diz o ditado, onde passa boi, passa boiada. Portanto, tem que se começar respeitando as regras do jogo. Se não dá para valer para 2014, que se discuta para o futuro. Já será um avanço.

O problema é que essas respostas apenas para o futuro não interessam ao governo. Nos bastidores, Dilma e seus mais fiéis escudeiros sabem que no momento em que os deputados e senadores deixarem de discutir o plebiscito virá uma pauta bem amarga para o Poder Executivo, por exemplo, a penca de vetos pronta para sair da gaveta. E, se tomarmos por base tudo o que está para aparecer no Legislativo, a pauta do plebiscito serve hoje de tábua de salvação para escapar da agenda negativa que corre o risco de ser colocada na roda.

Enquanto isso, no Congresso…
A se tomar pelo que disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na reunião ministerial semana passada, não há mais espaço para novas desonerações de taxas e impostos do setor produtivo. Na reunião com coordenadores da bancada do PT na sexta-feira, a presidente fez apelos no sentido de ficarem atentos a fim de evitar a aprovação de projetos que ampliem gastos e derrubada de vetos presidenciais feitos para evitar novas despesas. Esses cuidados, para muitos do próprio PT, pode ser um sinal de que o governo está nos estertores em termos de ferramentas para conter os dissabores na economia. Ou seja, agora é mesmo torcer para que as medidas adotadas até aqui tenham efeito antes de chegada a hora de o povo votar para presidente mais uma vez.

Os apelos de Dilma dificilmente vão funcionar para outros partidos que não o PT. Afinal, como mencionado no início deste artigo, nenhum deles se sente parte integrante do governo, ou parceiro de um projeto a longo ou médio prazos. A partir desta semana, não será difícil, por exemplo, sair a CPI do BNDES, do Petróleo ou CPI do Eike, para apurar as nebulosas relações do Poder Público com o ex-megaempresário. O deputado Luiz Pitman é um dos que começa a reunir assinaturas para a CPI do BNDES. Ele está de saída do PMDB e agora integra a oposição.

E no PMDB…
Dilma não terá ainda todo o respaldo dos peemedebistas nesta luta para barrar novas despesas. Entre cumprir a pauta das ruas e atender a presidente, o partido de Temer e de Renan Calheiros segue firme no propósito de se mostrar antenado, apesar dos voos da FAB. Agora, os deputados brincam que se alguém na galeria levantar as mãos, são R$ 2 milhões a mais de gastos na conta do governo. Se cantar o Hino Nacional, o aumento da despesa governamental será ainda maior. Ou seja, a ampulheta se inverteu: se antes eles estavam ao lado de Dilma, agora, eles buscam é a sobrevivência.

E no Ginásio Nilson Nelson…
Por essa, nem ele esperava. O deputado Romário (PSB-RJ) estava lá, bem sentado e distraído acompanhando o jogo da Seleção de vôlei ontem em Brasília, quando, de repente, sua imagem aparece nos telões. Na hora, o público do ginásio inteiro aplaude e muitos ainda gritam “Romáriôo! Romáriôoo!”. Bem, não era um estádio, mas talvez sirva para deixar dúvidas a respeito da máxima de Nelson Rodrigues de que nos estádios se vaia até minuto de silêncio.

Dilma busca a tudo e a todos para tentar salvar o plebiscito porque, no momento em que os parlamentares deixarem de discutir esse tema, virá uma pauta bem amarga para o Poder Executivo dentro do Congress

Assombração - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 07/07

BRASÍLIA - Lula já se reuniu com jovens líderes ligados ao PT e desenhou uma assombração: é a "direita" que está borrando a imagem do Brasil no exterior e esborrachando a de Dilma internamente.

Não que Lula não enxergue e não critique os erros na economia, a inabilidade política da pupila e a competência do governo, mas ele precisa construir um culpado, já que ela não pode ser a culpada. Comprometeria a eternização no poder.

Ok. Os críticos são sempre "adversários", adversários são "da elite" e a elite que incomoda é "de direita". A isso a gente já está acostumado. Mas o que é, quem é e que cara tem essa tal nova "direita"?

Democracias comportam tendências de esquerda, centro e direita. Os conservadores estão ganhando ousadia, até impondo uma pauta-retrocesso no Congresso, da "cura gay" ao "Estatuto do Nascituro" e ao cheiro de CPI do aborto no ar. Nada disso, porém, está dando certo, especialmente depois dos protestos de rua. Aliás, a marcha dos evangélicos encolheu 40% em relação a 2012.

E os partidos aliados reclamam de barriga cheia, as empreiteiras estão felizes da vida com Copa e Olimpíada (e jogando um bolão com Lula), os bancos sentiram a marretada nos juros, mas vêm de anos de lucros recordes e esfregam as mãos com o recrudescimento da Selic. Mais: se há alguém feliz com Dilma, é a cúpula do agronegócio.

Que outra "direita" teria organização e discurso capazes de pôr um milhão e meio de pessoas nas ruas contra tudo e contra todos?

Só restaria a Lula carimbar de "direita" a garotada, a classe média, os idosos e os internautas que exigem transporte, educação, saúde, segurança e, sobretudo, respeito. Uma péssima ideia dele, logo quando a cúpula do PT planeja fazer o inverso: infiltrar seus militantes nos movimentos independentes.

A assombração, portanto, não mete medo em ninguém.

O raro silêncio de Lula - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 07/07
Habitualmente muito loquaz e atento a todas as oportunidades para exercitar a vangloria e malhar os adversários, Luiz Inácio Lula da Silva está mudo desde o início das manifestações de rua que há semanas tomaram conta do País, Nos últimos dias, uma oportuna viagem à África tirou-o de circulação.

Enquanto isso, multiplicam-se as evidências de que, pelo menos para parte significativa dos quadros do PT, inclusive alguns solidamente instalados no Palácio do-Planalto, todos de olho em 2014, o "volta Lula", mais do que um apelo nostálgico, é a última esperança de sobrevivência; do tão acalentado projeto de perpetuação no poder.

Lula tem reafirmado que Dilma é sua candidata, portanto, a candidata do PT nas eleições presidenciais do ano que vem. De fato, pelo menos até um mês atrás tudo levava a crer que o encaminhamento natural dos acontecimentos levaria à reeleição de Dilma.

Seria muito difícil explicar politicamente a não candidatura da presidente, mesmo que para ceder o lugar" ao seu mentor. A não ser, é claro, que surgisse um inquestionável motivo de força maior. E essa força maior seria a ameaça iminente à hegemonia político-eleitoral do PT.

Pois a "força maior" está nas ruas. Apesar de o marqueteiro oficial João Santana garantir que em quatro meses Dilma terá recuperado o prestígio que despencou nas últimas semanas, os petistas já colocaram as barbas de molho.

Não os tranquiliza nem o argumento de que Lula conseguiu dar a volta por cima e se reeleger, após o escândalo do mensalão, em 2005, que lhe havia custado uma forte queda nos índices de aprovação popular.

Ocorre que Dilma, ao contrário de seu criador, não tem o menor carisma. E em 2006 o País surfava na onda da estabilidade monetária, crescimento econômico e avanços sociais. Um panorama muito diferente daquele em que está hoje mergulhado em razão, entre muitas outras, da crônica incompetência do governo lulopetista.

Antes mesmo do início das manifestações populares, o "volta Lula" já estava nas ruas. Ainda em abril, antes da aprovação pelo Congresso da MP dos Portos, que Dilma Rousseff sancionou em 5 de maio, um grupo de aproximadamente 200 militantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o braço sindicai do PT, marcava sua posição em ato público na Avenida Paulista, ao coro vibrante de "Volta Lula!". Era a expressão de um sentimento que já então se percebia, embora tímido e discreto, nos círculos lulopetistas Brasil afora.

Na quarta-feira passada, em dois ambientes diferentes e em contextos distintos, duas personagens próximas de Lula vocalizaram o mesmo desejo. O cientista político André Singer, antigo porta-voz de Lula na Presidência, respondeu a uma indagação, durante debate na USP, com a afirmação de que, em consequência da queda da popularidade de Dilma, o nome de Lula, como candidato em 2014, está colocado". Singer fez a ressalva de que não estava em condições de afirmar se Lula está ou não disposto ou decidido a ser candidato. E, dizemos nós, muito provavelmente não está.

Por sua vez, o deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), cuja devoção a Lula se consubstanciou na tentativa de propor um terceiro mandato consecutivo para o então presidente, que cumpria o segundo, foi bem mais explicito. Depois de criticar abertamente a presidente, afirmando que "o que falta no governo Dilma é gestão, Ribeiro foi categórico: "Já está na hora de o Lula voltar".

É claro que, mesmo a conveniente distância, Lula está perfeitamente a par das manifestações desse queremismo. Que, aliás, é muito compreensível, uma vez que, diante dos últimos acontecimentos, a companheirada vislumbra uma luz no fim do túnel e a identifica como a de uma locomotiva sem freio que ameaça atropelá-los.

Mas Lula dificilmente mete a mão em cumbuca. E não foi por outra razão que, diante do clamor da massa que perdeu a paciência com o governo, ele enfiou a viola no saco e foi cuidar de sua vida em outras paragens. Afinal, a coisa está feia. E ninguém mais do que ele é o culpado pelo que está aí.

Sinais negativos para os potenciais investidores - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 07/07
Mesmo com o baixo crescimento dos últimos anos, a economia brasileira ainda tem enorme demanda reprimida em alguns segmentos, especialmente os de infraestrutura. Mobilizar investimentos para atender a essa demanda já seria, por si só, uma alavanca capaz de impulsionar a economia como um todo, sem necessidade de malabarismos para manter o consumo artificialmente aquecido, o que já se mostrou, na prática, uma política insustentável.

O setor público tem não só sérias limitações financeiras como gerenciais, para conduzir os investimentos que lhe caberiam. E esse quadro é agravado porque o Estado também se mete onde sua presença não se faz mais necessária, pois há capitais disponíveis ou atraídos pelos mercados privados, em condições de cumprir esse papel, por meio de concessões ou alienação de companhias estatais.

Serviços públicos sob regime de concessão geralmente são regulados por significarem quase sempre monopólios naturais ou decorrentes de antigas estruturas estatais. É o caso de segmentos de transporte, do saneamento básico, da energia elétrica, telecomunicações, gás natural, petróleo, etc. O PT rejeitou, por motivos ideológicos, a alternativa das concessões, ao assumir o poder, porque fez da luta contra as privatizações uma das suas principais bandeiras políticas. Mas teve que se render ao óbvio e retomou, à sua maneira, e ainda que timidamente, os processos licitatórios. Mas, diante da constatação que é preciso estimular vigorosamente investimentos para a economia brasileira voltar a crescer, o governo Dilma agora pôs o pé no acelerador, o que é louvável, nas concessões. E espera chegar ao fim do mandato com uma série de novos contratos que repassarão ao setor privado a administração de aeroportos, rodovias, ferrovias, áreas onde possam existir reservas de petróleo e gás, e condicionando-os a exigências de investimentos. Estão em jogo centenas de bilhões de reais.

Muitas das premissas que balizam essas exigências são discutíveis, mas o investidor tem condições de avaliar se, diante delas, vale a pena correr o risco ou não. Riscos econômicos e financeiros fazem parte do jogo, mas o terrível é quando são amplificados pela insegurança regulatória.

Como resposta aos manifestantes, autoridades de todos os níveis de governo vêm pondo em xeque regras de contratos em vigor, suspendendo reajustes, já autorizados, de tarifas de transporte, energia elétrica, água e esgotos, e postergando outros mais. A conta acabará no bolso do contribuinte, e da pior forma possível, que é a do subsídio, nem sempre perceptível para a sociedade. O sinal transmitido aos potenciais candidatos às concessões é negativo. Com tantos riscos envolvidos, e acrescidos de mais esses, o número de interessados pode se reduzir, e quem deixará de ser beneficiada de uma salutar competição nas licitações é a população - pretensamente favorecida por medidas demagógicas tomadas por governantes.

Retomada - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 07/07

Ainda que, até agora, pouco tenha sido feito de proveitoso, protestos levaram políticos a procurar respostas para demandas das ruas


Pior seria se não tivesse havido resposta nenhuma. De forma confusa, precipitada ou insuficiente, mas ainda assim real, os governantes e o sistema político brasileiro procuraram reagir à maré de descontentamento que se revelou nas manifestações do último mês.

Seria cedo para entrar num espírito triunfalista, entretanto. Nem o desejo dos manifestantes nem a ação administrativa são capazes de tudo. O tempo das reivindicações não é o tempo das medidas de governo, e o tempo das medidas de governo não é o dos processos sociais de horizonte distante.

Ainda assim, o curto prazo contabilizou vários êxitos, surpresas e mudanças desde que as manifestações, inicialmente minoritárias e em torno de bandeiras irrealistas, foram ganhando adeptos e causas em grande monta.

A primeira surpresa --e o primeiro êxito-- deu-se quando o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) concordaram no que dias antes parecia impensável: a revogação no aumento das tarifas de ônibus e metrô em São Paulo.

Vitória incontestável do movimento, ainda que de consequências no mínimo ambíguas para a sociedade --que deverá arcar com algum atraso nos investimentos pela guinada decisória imposta pelas ruas.

Apesar de súbita, a reversão do aumento das tarifas veio tarde. Superada a bandeira inicial, as manifestações ainda ganhavam ímpeto.

A luta contra a PEC 37 teve o condão de resumir, numa sigla até há pouco tempo acessível apenas aos iniciados do meio jurídico e legislativo, a aspiração geral de dar fim à corrupção e à impunidade no país.

Pretendendo restringir a atuação do Ministério Público na investigação criminal, a proposta de emenda constitucional caiu num sopro. Foram 430 votos contra 9, numa sessão parlamentar marcada por comemorações e pelo cinismo de quem antes apoiava a iniciativa.

Com igual velocidade fez-se o funeral da pretensa "cura gay". A retrógrada medida legislativa --que autorizaria o tratamento para a homossexualidade, consagrando o preconceito e abrindo espaço para charlatães-- foi arquivada, não sem antes dar notoriedade ao folclórico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Os parlamentares, é claro, não trataram apenas de derrubar propostas impróprias. Puseram em curso uma hiperatividade legislativa talvez nunca antes vista.

Ainda que deputados e senadores estivessem acostumados ao ritmo acelerado de trabalho, a sociedade não estaria livre de ver transformadas em lei ideias que, com a devida reflexão, terminariam abandonadas ou ao menos modificadas.

Um projeto que transforma a corrupção em crime hediondo, por exemplo, não vai além do populismo barato na esfera punitiva, mas contribui para tornar ainda menos coerente o sistema penal.

Há ainda projetos que embutem riscos nada desprezíveis para as finanças públicas. Inscrevem-se nesse rol a mudança do indexador das dívidas de Estados e municípios com a União e a proposta de destinar, de maneira obrigatória, 10% do PIB para a educação.

Se o país amanheceu menos atrasado, menos empulhado, mais criativo e livre depois desses dias --quando surgiam, com humor e improviso, cartazes e lemas novos a cada manifestação-, é verdade que os motivos mais profundos da insatisfação popular não poderiam ter resposta tão pronta quanto as que se acertaram para esses temas pontuais.

A crise do sistema de representação política está ainda por ser resolvida -e tudo indica que não o será de pronto. Mas o senso de pressa, que veio das ruas e ocasionou uma sucessão de deslizes da Presidência da República, impõe-se sobre o Congresso Nacional. Ainda que não já em 2014, a revisão das regras eleitorais ganhou força no debate público.

Muito pouco se fez no que seria mais simbólico e menos polêmico no momento: a diminuição dos ministérios, dos cargos de confiança, dos privilégios que os acompanham. Não só no Executivo federal, mas em todos os níveis da administração, esse passo se impõe.

Mobilidade urbana, educação, saúde: também aqui o Planalto costurou o que tinha, a fim de apresentar alguma coisa em vez de nada. No nível estadual e municipal, viu-se menos do que isso.

O país quer mais. O país quer tudo, é verdade -e não é realista achar que tudo esteja ao alcance da mão, agora, sem custo nenhum.

Inegável, entretanto, é ter conquistado algo mais importante: retoma, de pleno e de fato, o seu vigor político -que a ação conjunta de mistificadores, oportunistas e parasitas de todos os partidos entorpecia havia duas décadas.

Concordo, mas não é comigo - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 07/07

Deve-se prestar atenção na expressiva parcela de jovens empobrecidos nos protestos


As pesquisas sobre o perfil dos participantes das manifestações de rua têm deixado os brasileiros boquiabertos. Com razão. Os dados revelam concordância maciça com os protestos, pondo a nocaute a imagem de país apático, deitado em seu berço esplêndido de problemas. Os índices confirmam também que boa parcela dos manifestantes vem das classes médias, contrariando a máxima de que esse grupo não sabe o que é pegar ônibus nem dar valor a R$ 0,20. Essa leitura ligeira, contudo, corre o risco de reduzir o movimento a algo juvenil e conservador, impedindo de ver o que os fatos podem nos revelar para além dos rótulos.

Há outros dados que precisam ser colocados com urgência na planilha. Tomando como base pesquisas do DataFolha, Ibope, Data Popular e Paraná Pesquisas, pode-se afirmar com alguma segurança que quase metade dos manifestantes estrearam agora na passeata, inaugurando uma prática social em suas vidas. Outro dado de ponta é que a convocação se deu pelas redes sociais, o que põe de orelha em pé as instituições, como a família, as igrejas, as escolas e, claro, a imprensa. O grito de alerta vem de outro lugar, sem forma e sem tradição.

Por fim, há um filtro de renda e escolaridade alta em parte expressiva dos manifestantes. É o bastante para saber que a classe média anda nos cascos e que, com índices para cima de 89% (Ibope), não se sente representada por ninguém: 2014 promete.

Dois sintomas revelados nas pesquisas feitas até agora merecem atenção. Está nas entrelinhas dos que apoiam as manifestações, mas que não saíram às ruas, uma suspeita já expressa em aferições de outra natureza. É como se essas pessoas dissessem algo como “entendo, reconheço, mas esse problema não é meu”. Um exemplo de escapismo semelhante aparece na pesquisa de índices de felicidade feita pelo DataFolha em 2006. As pessoas se diziam felizes, mas afirmavam que os outros não eram.

Os especialistas viram nessa contradição um filtro social. Apesar do anonimato da pesquisa, muita gente se nega a creditar a si mesmo algo de negativo, ou a se nivelar com grupos que considera inferiores. Parece haver sintoma semelhante em meio às manifestações – os insatisfeitos devem ir para as ruas, dizem os números, “mas não sou um deles”, afirma a maioria. Ora, a dedução é de que os descontentes são os outros. Resta tornar público quem são esses outros, sob perigo de a conversa cair no vazio. E por que a classe média está lá (são os 81% de liberais e conservadores indicados pelo DataFolha)? Por solidariedade à classe operária? Estamos diante de uma histeria coletiva de fogo de palha?

Apesar do layout marcante dos jovens ativistas – garotos descolados que parecem recém-chegados de Amsterdã –, as pesquisas mostram que o levante é sobretudo dos jovens da classe emergente. Passou o tempo em que vestiam chinelas de dedo e camisetas de postos de gasolina, daí parecerem ausentes. Esse foi um grupo parcialmente atendido pelos governos nas últimas décadas. De qualquer modo, o descaso se tornou criminoso. Sabe-se, e não é de hoje, do bônus demográfico. Ou o país investia na adolescência e juventude ou não veria desenvolvimento nenhum. Sim, aumentaram as vagas nas faculdades classe C, como se diz, fazendo a população universitária saltar para 13%. Mas não se verificaram melhoras na qualidade do ensino médio e, muito menos, um projeto social para que a sociedade se engajasse de fato na promoção da juventude mais à margem.

O resultado desse tropeço tende a ser nefasto. De acordo com dados do Instituto Data Popular, 30% da classe C é formada por jovens; chegam a 41% das classes D e E. Sem escola de qualidade, limitado pelo sistema de ônibus – portanto, longe dos equipamentos culturais –, parte desse grupo perdeu o bonde da história. Enquanto isso, preferiu-se carros novos na rua, dando impressão de que pode haver reviravolta econômica sem reviravolta cultural.

Estamos tentando entender o que os jovens bem nascidos faziam nas ruas – uma nova revolução burguesa, como a da década de 1960? O tempo dirá. Quanto aos mais de 40% empobrecidos ali presentes, é fácil entender do que reclamam. Resta saber agora se um projeto de verdade em prol da juventude consegue nascer nos bastidores de Brasília. E com que cara quem deixou a caravana passar vai se explicar para 42 milhões de eleitores que tinham tudo pela frente.