domingo, maio 26, 2013

Unanimidade - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 26/05

O desconforto se alastra na base aliada. As escaramuças nas votações da MP dos Portos e da reforma do ICMS são apenas sintomas. Os líderes governistas reclamam da falta de diálogo com a presidente Dilma. As queixas de dirigentes do PMDB não são isoladas. Marginalizados, nem os líderes petistas no Congresso estão satisfeitos. Nenhum dos petistas tem linha direta com a presidente.

Usos e costumes
Entra e sai governo e a história se repete. O PMDB é tratado como parceiro de segunda categoria. Todos os dias porta-vozes do Planalto praticam a desqualificação de seu principal aliado. Foi assim também no governo Lula, que esnobou o partido até estourar o mensalão. Assim como o PT agora, o PSDB também menosprezava seus aliados no governo FH. Os tucanos, como os petistas, também queriam desbancar os aliados nos Estados. O ex-líder do governo FH Benito Gama, atual presidente do PTB, então no PFL, na época arrematou: "O PSDB tem que escolher. Dar um cargo para o B. Sá (deputado tucano) no Piauí ou aprovar a emenda da reeleição. Os dois não dá".


"Não caio mais nessa de duplo palanque. Em 2010, o Lula ficaria de fora e depois pediu voto para o (governador) Jaques Wagner. Foi uma lição"
Geddel Vieira Lima
Vice-presidente da Caixa Econômica Federal 

Dois critérios
Os aliados de todos os partidos relatam que de seus ministros, antes de serem nomeados, é cobrada representatividade. Mas que petistas, como Miriam Belchior e Tereza Campello, não precisam ter lastro partidário algum.

PT na cabeça
Os senadores do PT se reúnem amanhã à noite, em Brasília,com o presidente do partido, Rui Falcão. Na agenda, o apoio a candidatos petistas para os governos estaduais. O partido quer se beneficiar dos governos Lula-Dilma para crescer. Os petistas, como ocorreu no jantar do PMDB, vão reclamar da desarticulação política do governo Dilma.

Raio-X
Um cauteloso e contido negociador governista, falando da penosa relação do Planalto com o Congresso, avalia que "parcela significativa da confusão pode vir do fato de a presidente Dilma não participar diretamente das negociações".

Uns são mais iguais que outros?
Os petistas se consideram superiores aos demais políticos. Nem o escândalo do mensalão os fez cair na realidade. Os tucanos também se veem num patamar acima dos demais. Os outros partidos são suportados em nome da governabilidade. Sobre isso, anos atrás, o ex-ministro de FH Eliseu Padilha ironizou: "Não se iluda, ninguém faz política diferente no Brasil".

Ela tem a força
A atuação da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) divide opiniões. Mas, como atenuante, líderes aliados justificam que nem sempre as negociações passam por ela. Muitas vezes, elas são atravessadas por fora de sua pasta.

Ministros candidatos
Aliados acham imprudência a presidente Dilma delegar a interlocução no Congresso para pré-candidatos aos governos estaduais. São eles: Gleisi Hoffmann (PR), Fernando Pimentel (MG), Aloizio Mercadante (SP) e Ideli Salvatti (SC).

OS SENADORES petistas Delcídio Amaral (MS) e Walter Pinheiro (BA) lutam para que a Fazenda não desista da proposta que unifica o ICMS.

O dragão acordou - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 26/05

Pesquisas fechadas em abril que chegaram ao governo federal mostram crescente preocupação da população com a inflação dos alimentos. Os números alarmaram o Planalto porque, embora a popularidade de Dilma Rousseff permaneça alta, pela primeira vez em levantamentos recentes o tema aparece entre os mais lembrados. O QG dilmista acha que Aécio Neves viu números similares e, por isso, bateu na tecla da inflação em suas primeiras falas como presidente do PSDB.

Na rede 1 O PSDB de São Paulo representou contra o ministro Alexandre Padilha (Saúde) no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) por campanha antecipada graças a uma página no Facebook batizada de "Padilhando 2014".

Na rede 2 Padilha notificou o Facebook pedindo para tirar do ar a página, que defende sua candidatura ao governo de São Paulo em 2014. Ele nega ter qualquer vínculo com a iniciativa questionada.

Muita calma... Peemedebistas reagiram à declaração de Dilma de que a aliança entre PT e PMDB está garantida: "Além do governo, ela quer mandar no PMDB?'', ironiza um deputado.

... nessa hora Embora Michel Temer atue para garantir a aliança, deputados dizem que ela só será selada na convenção e que o caso do Rio de Janeiro será central. O partido exige que o PT vete a candidatura de Lindbergh Farias e apoie o vice-governador Luiz Fernando Pezão.

No lápis Hoje, segundo as contas do PMDB, Rio, Ceará, Bahia, Pernambuco e Mato Grosso do Sul estão contra a aliança. O diretório de Minas Gerais estaria dividido.

Mapa astral Ao encontrar Lindbergh no cafezinho do Senado, na semana passada, a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) brincou com o nome de seu provável concorrente na eleição fluminense: "Você vai ganhar essa eleição com o Pezão nas costas".

Bolão... No meio jurídico, a expectativa é que Luís Roberto Barroso faça parte do time dos chamados "garantistas'' no julgamento dos recursos do mensalão.

... dos agravos Advogados dos condenados, no entanto, evitam apostas: "Já erramos demais na primeira etapa'', reconhece um deles.

Nem aí Barroso também é conhecido por não transitar no meio político e, na visão dos criminalistas, tem pouca simpatia pelos principais personagens do mensalão.

Passado Os petistas José Dirceu e José Genoino, condenados no julgamento do mensalão, confirmaram participação no congresso que a União Estadual dos Estudantes promove em Ibiúna em junho e que vai conceder anistia aos estudantes presos no Congresso da UNE em 1968.

Road-show Após a pausa que fez para a apresentação dos recursos do mensalão, Dirceu pretende retomar as viagens que vem fazendo pelo Brasil com críticas ao julgamento. Os próximos destinos são Cuiabá, Manaus e Rio Branco. As datas ainda não estão fechadas.

Modelo O novo Código da Mineração, previsto para ser enviado em junho ao Congresso, deverá ser um projeto de lei com urgência constitucional, e não medida provisória, como se pretendia antes.

Onde pega 1 O projeto dobra de 2% para 4% os royalties na mineração e afeta a vida de grandes empresas doadoras de campanha, como Vale, Grupo X e Alcoa.

Onde pega 2 O governo quer evitar novos desgastes com o Congresso após a tensa votação da medida provisória que aprovou novas regras para o setor portuário.

com ANDRÉIA SADI e LUIZA BANDEIRA

tiroteio
"Gurgel quer que a punição aos réus do PT seja rápida, mas não tem a mesma pressa para cobrar que se julgue o mensalão do PSDB."
DO DEPUTADO CARLOS ZARATTINI (PT-SP), sobre a crítica do procurador-geral da República à demora para que condenados no mensalão cumpram as penas.

contraponto


Quem paga o pato
O ministro da Previdência, Garibaldi Alves, avaliava as mudanças propostas pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR) para a regulamentação da lei que ampliou os direitos trabalhistas dos empregados domésticos.

Pelo relatório de Jucá, o recolhimento do INSS por parte do empregador cairia de 12% para 8%, e a diferença seria custeada pela Previdência.

--Essa conta pode ser suportada pelo governo --, disse o relator.

Diante da tabela de alíquotas proposta e do argumento de Jucá, Garibaldi Alves desabafou:

--Fácil é fazer conta. O difícil é pagar a conta!

A unificação - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 26/05

SÃO PAULO - Saiu a quinta versão do "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)". Embora essa seja uma publicação da Associação Psiquiátrica Americana, a obra funciona como uma bíblia das doenças mentais no mundo todo. Não é coincidência que laboratórios acompanhem de perto a elaboração do DSM, que, quase a partir do nada, cria e extingue moléstias que movimentam bilhões de dólares.

Não é, porém, a questão econômica que me interessa aqui, mas a filosófica. Se há um ponto em que defensores e críticos do DSM-5 concordam, é que o novo manual, na hora de descrever os transtornos, segue recorrendo mais a sintomas subjetivos do que a marcadores biológicos, no que representa um revés para aqueles que advogam pela unificação da psiquiatria com a neurologia.

Para esse grupo, não há distinção entre mente e cérebro. A toda patologia correspondem alterações anatômicas ou eletroquímicas no encéfalo. O que temos de fazer é identificá-las e encontrar um meio de atuar sobre elas, providenciando assim a cura.

Nem todos concordam. Há correntes que enfatizam os aspectos não orgânicos das doenças, em especial fatores sociais e culturais. É certo que a esquizofrenia tem bases genéticas, mas o ambiente familiar em que vive o paciente define o impacto que a moléstia terá em sua vida. Garante-se aí espaço para a psiquiatria e a psicologia clínica, com seus subjetivismos e discurso por vezes metafísico.

Ao menos no atual estágio da medicina, em que o conhecimento do cérebro só engatinha, é difícil descartar as objeções de psiquiatras e psicólogos à unificação. Mas essa é uma consideração prática que não afeta a questão de princípio: a mente humana é idêntica ao cérebro ou encerra algo mais? Até prova em contrário, fico com a primeira hipótese. Descartá-la significaria jogar fora o paradigma materialista que está na base de todas as conquistas científicas dos últimos 200 anos.

Leal ou desleal - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 26/05

Queixas sobre concorrência desleal sempre permearam relações comerciais entre países. Até recentemente, estiveram mais relacionadas a subsídios, favores tributários concedidos pelos Tesouros nacionais a indústrias ou setores, cujo resultado final é jogar o concorrente (de outros países) para fora do mercado.

O Brasil, por exemplo, há anos vem acusando Estados Unidos e União Europeia de despejar centenas de bilhões de dólares do contribuinte na agricultura, providência que barateia de tal forma a produção de grãos, açúcar, carnes ou laticínios, que impede ou atrapalha o desenvolvimento desses setores nos países mais pobres, que não se podem dar a esses luxos.

Protestos sobre outros tipos de jogo desleal têm-se avolumado. Um exemplo é a produção sem cuidados ambientais, como ocorre na China. É, ainda, a produção sob regimes cambiais excessivamente desvalorizados, que anula proteções proporcionadas pelas taxas alfandegárias erguidas em outros países.

Essa é uma reclamação cada vez mais frequente do governo brasileiro contra as políticas monetárias expansionistas dos grandes bancos centrais, que despejam moeda estrangeira nos mercados e valorizam moedas nacionais dos outros países, o que resulta no encarecimento das mercadorias exportáveis.

Mais curiosamente, têm crescido no mercado internacional as queixas contra políticas destinadas a reduzir salários, tomadas para derrubar os custos de produção e, nessas condições, prejudicar as exportações de outros países.

Há alguns anos, era a reclamação que se fazia ao jogo da China. O principal assessor da Presidência da República do Brasil, o gaúcho Marco Aurélio Garcia, por exemplo, desde os tempos do governo Lula vinha condenando os baixos salários praticados na Ásia, principalmente na China, como um disfarce do trabalho escravo, o que tirava do mercado produtos de outros países industrializados.

Hoje esse tipo de queixa vai permeando as relações na área do euro. Nos últimos 15 anos, a Alemanha praticou uma política de relativa redução dos salários, destinada a fomentar a competitividade da indústria. Os sindicatos alemães entenderam a importância da ação no longo prazo para ampliar o emprego no país, na medida em que a diminuição dos preços provocaria o aumento das exportações dentro do bloco.

Agora, crescem as pressões para que a Alemanha faça o movimento contrário: provocar a elevação dos salários para que o produto fique mais caro e abra espaço para exportações dos vizinhos hoje em piores condições. Ou seja, salários relativamente mais baixos, que sempre foram considerados vantagem comparativa e, nessas condições, parte do jogo leal, começam a ser denunciados pela concorrência como assimetria inaceitável.

Como 57% das exportações da Alemanha destinam-se a países da União Europeia, a própria incapacidade de importar a que a vizinhança está sendo submetida também é apontada como causa do baixo crescimento da produção alemã. Nessas condições, uma elevação dos salários na Alemanha como contribuição para recuperação de toda a área do euro não pode ser descartada.

O alerta do dólar forte - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 26/05

Muitos analistas anunciam o fim da era do dólar fraco em relação a uma cesta abrangente de moedas.

No Brasil, quando o real se deprecia, muitos falam em aumento do dólar. Sim, é um aumento do dólar ante o real, mas não necessariamente ante as demais moedas.

O que se discute agora é o fortalecimento do dólar diante da maioria das moedas, independentemente do real.

O dólar passou por um processo histórico de depreciação em função dos deficit comerciais crescentes dos EUA, gerados pelo aumento das importações de bens de consumo e energia durante décadas.

A crise reverteu essa tendência. A aversão ao risco gerou grande demanda pelo dólar como moeda de reserva de valor. Mas ele voltou a se depreciar com o programa de aumento agressivo de liquidez do Fed (o BC dos EUA).

Agora, com a aproximação do momento de normalização da política monetária americana, espera-se a continuidade do fortalecimento do dólar. Há razões para isso.

A economia americana se ajustou antes da Europa e do Japão, restaurando com relativa rapidez a capacidade dos bancos de emprestar. Já as empresas do país investiram muito em produtividade e reestruturações, elevando a margem de lucro mesmo com a lenta retomada econômica.

Paralelamente, a exploração do gás de xisto evoluiu com rapidez. Os EUA estão não só recuperando autossuficiência energética, mas estão em processo de reindustrialização liderado por setores intensivos em energia, já que o preço do gás no país ficou menor do que o praticado em outros países.

Finalizando esse quadro, o ajuste fiscal americano, que levaria ao temido abismo fiscal, está tendo efeito ne- gativo menor do que o esperado no curto prazo e efei- to positivo nas expectativas de longo prazo.

Tudo isso fortalece o dólar e traz como consequência uma mudança nos fluxos de capital, que, conjugada com a perspectiva futura de aumento de juros nos EUA, deve ser objeto de atenção das autoridades econômicas dos países que têm baixa taxa de poupança e que necessitam de recursos externos para crescer, como é o caso do Brasil.

Não há dúvida de que não há crise à vista, já que os US$ 380 bilhões de reservas internacionais do Banco Central do Brasil fornecem um amortecedor adequado para qualquer ajuste futuro.

Temos, no entanto, que pensar cuidadosamente no nosso modelo de crescimento, visando evitar problemas no futuro, quando se confi-gurar uma mudança dos fluxos de capital globais em função de uma economia americana que atraia parte dos capitais hoje destinados a outros países.

Confusão faz parte - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 26/05

O governo aprova um orçamento inflado, parte de premissas de crescimento econômico que não se realizam. O Congresso eleva essas previsões de arrecadação para incluir as emendas dos parlamentares. Há
um momento no ano em que os ministros do Planejamento e da Fazenda juntos anunciam os cortes — ou contingenciamentos. O que tudo isso significa? Pouca coisa.

As emendas são incluídas pelos parlamentares para mostrar para as suas bases que estão trabalhando, embora não pareça, e o governo as corta para dar a impressão de austeridade. Em momento de necessidade, o governo pode usar isso como parte da negociação política da liberação. Semana passada, foi encenado esse teatro mais uma vez. Ele é velho, mas o que era antes um fato excepcional, uma exceção, virou o hábito. A imprensa registrou este ano que o governo “contingenciou” metade do que no ano passado. Está, portanto, mais gastador.

O economista Mansueto de Almeida diz que o mecanismo de contingenciamento não permite dizer se o governo está sendo mais ou menos econômico:
— Tanto é que o gasto público do Brasil aumenta desde sempre, apesar da prática corrente do contingenciamento anual. O que arriscaria a dizer é que desta vez há mais uma prova de que o governo está mesmo abrindo as torneiras.
Sobre a antiguidade do instrumento de nome esquisito que, na prática, significa deixar em reserva parte do que o governo está autorizado a gastar, a leitura indicada é a das páginas 145-147 do livro “As Leis Secretas da Economia”, de Gustavo Franco. Ele lembra que, em um diálogo público entre o poeta Carlos Drummond de Andrade e o economista Eugênio Gudin, a estranha palavra foi o tema central. “Com o intuito de exaltar a prosa de
boa qualidade de Gudin, o poeta debruçou-se sobre um texto de uma portaria interministerial em que havia a expressão ‘operacionalização do contingenciamento’ e exclamou: que bicho é esse, evadido de que reserva léxica?”
Assim é o economês com o qual os brasileiros já se acostumaram. Gudin respondeu ao poeta: “Nem tudo pode
ser claro, um pouco de confusão talvez seja bom no caso.” Esse velho diálogo serve perfeitamente para o momento atual. Porque ninguém está interessado em ser claro, do contrário o governo não garantiria que vai cumprir o superávit de R$ 155 bilhões ou 3,1% do PIB. Ele sabe que não vai cumprir. Vai descontar os investimentos que forem feitos no PAC, não vai compensar com recursos federais a frustração da meta fiscal dos estados, e ainda vai descontar as desonerações. Essa última decisão é realmente notável.

O governo desonerou, ou seja, autorizou empresários a não pagarem alguns impostos. Logo, o dinheiro não vai entrar nos cofres públicos. Mas essa não receita será considerada receita. Na hora de fazer a conta das despesas e receitas ele não vai descontar esse dinheiro que receberia e não recebeu. Ou seja, é preferível mesmo que bichos evadidos de reservas léxicas exógenas ocupem o diálogo econômico, porque a confusão é providencial.

Por que o governo não faz simplesmente um orçamento mais realista, já negociando as emendas de parlamentares que são de bons projetos e assim aprova o que de fato será executado? Mansueto explica que isso tiraria do governo poder de barganha e aumentaria a transparência da formação da base aliada, a quem ele atende e a quem não atende. A confusão, portanto, é deliberada.

— Quando o governo faz contingenciamento do Orçamento e libera recursos apenas nos últimos dois meses, não há mais tempo hábil para ser executada a despesa e tudo se transforma nos “restos a pagar” — diz o economista.
Assim, quando o ano começa, o governo já tem “restos a pagar”. Se ele for executar tudo e mais o que estiver orçando para aquele período, não haverá dinheiro que chegue:
— Neste ano, o investimento aprovado do Orçamento Geral da União foi por volta de R$ 82 bilhões, mas já havia inscrito como restos a pagar algo próximo de R$ 67 bilhões. Como o contingenciamento foi de apenas R$ 28 bilhões, o governo apenas cortou uma parte do que ele não terá capacidade de executar.

Todos os governos contingenciam e deixam restos a pagar. Mas este ainda faz malabarismos para que os números não pareçam com o que realmente são. O ideal mesmo é que nada nesse léxico seja claro..

Boas notícias da economia dos EUA - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 26/05

Com deficit público menor, o país passa por um ajuste fiscal; além disso, o PIB cresce, mesmo que devagar


No dia 13 de maio, há duas semanas, o departamento do Congresso americano responsável pela projeção das receitas e das despesas do governo federal, o Congressional Budget Office (CBO), apresentou a sua revisão do cenário fiscal para o período entre 2013 e 2023. O último cenário do CBO havia sido feito em fevereiro.

Este ano de 2013 é crítico para o cenário fiscal. Em janeiro, expiraram uma série de isenções tributárias criadas na última década, várias delas em função da resposta à crise de 2008.

Pouco depois, em março, ocorreu a redução do gasto público decidida em 2011. Ela está agendada para o início de janeiro de 2013, mas foi posteriormente adiada para o mês de março.

A boa notícia é que há sinais de que o ajuste fiscal americano neste ano será maior do que o inicialmente projetado.

De fato, os dados do primeiro trimestre, já divulgados pelo IBGE americano (o Bureau of Economic Analysis), indicaram uma redução de deficit nominal consolidado para o setor público de dois pontos percentuais do PIB, saindo de 8,7% do PIB no primeiro trimestre de 2012 para 6,7% do PIB no primeiro trimestre de 2013.

A melhora fiscal do primeiro trimestre ocorreu tanto na receita quanto na queda do gasto: 40% da melhora deveram-se à elevação da receita, 53% à queda do gasto corrente e 7% à queda dos investimentos.

Os novos números do CBO apontam que o deficit público no ano fiscal de 2013 (que começa em outubro de 2012 e termina em setembro de 2013) do governo federal americano será de 4% do PIB, bem menos do que os 7% observados em 2012.

A redução do deficit projetado para 2013 fui consequência, em larga medida, da elevação na receita, para um dado cenário de atividade, e de uma elevação nos pagamentos esperados ao Tesouro pelas Fannie Mae e Freddie Mac. Elas são empresas privadas de crédito imobiliário com retaguarda pública e um dos epicentros da crise de 2008.

O que torna a boa notícia ainda melhor é que o forte ajustamento fiscal ocorre conjuntamente com um cenário em que o crescimento é baixo, mas é positivo.

A estimativa conservadora aponta um crescimento na casa de 1,5% em 2013 e uma recuperação para 2,5% em 2014.

Somente para efeito de comparação, as economias europeias, para produzir o mesmo ajustamento nas contas públicas em pontos percentuais do PIB, têm experimentado um crescimento fortemente negativo.

Se esse cenário se materializar, como os dados parciais que temos para 2013 sugerem, teremos em 2015 uma economia muito arrumada e crescendo na casa de 3,5%.

Esse desempenho é suficiente para reduzir o desemprego ao ritmo de 0,5 ponto percentual por ano --e com uma situação fiscal mais folgada do que se imaginava.

No entanto, nem todos os problemas estão sanados. As estimativas do CBO para a evolução da divida do governo federal sugere que até 2023 ela rodará na casa de 75% do PIB. A dificuldade de redução da dívida federal é consequência do impasse político que há na economia americana.

Diferentemente do presidencialismo brasileiro, que tem no presidente da República a sua figura mais forte, o presidencialismo americano tem presidente fraco e Congresso forte. Isso se deve ao sistema eleitoral americano, que tem como características o voto distrital e o bipartidarismo.

A configuração vigente, com Câmara republicana e Senado democrata, é a pior possível. O poder forte do sistema político americano está dividido, dificultando muito a tomada de decisão. Além disso, a casa mais forte, a Câmara, está com o partido de oposição. A situação inversa seria um pouco melhor do ponto de vista da governabilidade.

Os republicanos desejam reduzir a dívida por meio de redução do gasto público; os democratas, por meio de elevação de receita. O impasse aparece nas previsões do CBO, que não enxerga no cenário de projeção expressiva redução do endividamento.

Conclusão: a nova revisão do CBO aponta para um cenário fiscal melhor no curto prazo e ligeiramente melhor no longo prazo. A revisão indica, portanto, que as condições objetivas para solução construtiva do impasse político melhoraram.

A campanha tomou conta - JOÃO BOSCO RABELLO

O Estado de S.Paulo - 26/05

Não há novidade na natureza da crise entre a base aliada, notadamente o PMDB, e o governo: os ingredientes são os mesmos de sempre, agravados pela antecipação da campanha eleitoral que impõe aos atores políticos urgência na consolidação de posições e poder de fogo regional. Nas duas circunstâncias, dependem do governo e, sob pressão do tempo e dos compromissos, ensaiam situações-limite, em que o discurso de ruptura é banalizado para servir de chantagem explícita.

Um dado que impede restringir a crise à não liberação de emendas é que o contingenciamento foi significativamente menor este ano do que nos dois últimos - reflexo já da preocupação eleitoral do governo. Em 2011 e 2012, o contingenciamento foi de R$ 55 bilhões e R$ 50 bilhões, respectivamente, contra R$ 27 bilhões em 2013.

O que acirra os ânimos nesse contexto é que o PMDB acusa o governo de preservar mais seu rival na aliança, o PT, debitando a maior parte do sacrifício aos ministérios sob seu comando. É um aspecto apenas da disputa por espaço entre os dois gigantes da base governista, cuja síntese melhor fez o veterano deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), para quem o PMDB deixou de ser agente passivo para assumir um papel hegemônico na aliança, empurrando a presidente Dilma Rousseff para um papel de resistência necessário, que a faz mais vítima por virtudes, nesse momento, do que por defeitos.

Quando classifica, como ontem, na Etiópia, de "pontuais" os problemas com o PMDB, a presidente Dilma Rousseff localiza o foco da crise nas disputas regionais afetadas pela aliança em torno de sua reeleição e exibe domínio sobre a crise.

E indiretamente sugere que é cedo para se diagnosticar uma perda de comando do vice-presidente Michel Temer, para o líder da bancada na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), que apenas soube capitalizar as insatisfações em seu favor pessoal. A CPI da Petrobrás não deve ser vista como ameaça concreta: afinal, para uma base que já montou uma CPI - a do Cachoeira - para não dar em nada, é simples anunciar outra para não ser instalada, Seu provável óbito deverá servir à reabilitação de Temer e do Presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).

Certo, daqui em diante, é que matérias de caráter suprapartidário, assim entendidas aquelas que afetam interesses estaduais de formas diversas, deverão ser adiadas para 2015, para evitar estresses maiores do governo com a base, como se deu na MP dos Portos - o que reduzirá o ritmo do Congresso a partir do segundo semestre.

Guerra
A presidente Dilma Rousseff volta a Pernambuco em junho, pela terceira vez em seis meses. Vai sobrevoar as obras de transposição do Rio São Francisco. A meta é dividir o eleitorado de Campos.

Vice
O vice na chapa da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, para concorrer ao governo do Paraná, deverá ser o deputado Eduardo Sciarra, líder do PSD.

Consolo
Como prêmio de consolação pela renúncia à candidatura de prefeito em Belo Horizonte, o deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) pode ser vice na chapa do ministro Fernando Pimentel ao governo de Minas em 2014. Quintão queria mesmo era um ministério.

Devagar, devagarinho - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR

GAZETA DO POVO - PR - 26/05

Devagar, devagarinho a economia brasileira está escorregando para zonas muito perigosas de onde parecia ter se livrado nos últimos vinte anos: a inflação, a dívida pública enlouquecida, a crise cambial e a falta de competitividade internacional.

Depois de décadas de frustração e outra década de esforço hercúleo, livramo-nos da hiperinflação e começamos a ter uma vida financeira mais ou menos normal sem ter de conviver com preços que subiam 10, 20, 40 e até 80% ao mês e sem viver a permanente angústia de ver o dinheiro derreter sob seus olhos. Devagar, devagarinho o Banco Central agora se dá por satisfeito se conseguir, mal e mal, ficar dentro da expectativa máxima para a inflação do ano e não mais no centro das metas estabelecidas. Pior: só consegue fazer essa ginástica à custa de mágicas tributárias, desonerando esse ou aquele setor temporariamente para evitar que o aumento de seus preços empurre a inflação ainda mais para cima.

A dívida pública, enlouquecida e fora de controle antes do Plano Real, e que cresceu exponencialmente depois dele por causa da política cambial equivocada, continua a aumentar apesar dos juros estarem no patamar mais baixo de todos os tempos. Por quê? Por várias razões, especialmente a necessidade de o governo federal ampliar seus empréstimos no mercado financeiro para compensar a perda de receitas tributárias que suas benesses fiscais temporárias em setores de maior apelo popular estão criando. É claro que o governo poderia reduzir os gastos públicos que crescem desordenadamente (que governança é possível com 40 ministérios e dezenas de milhares de funcionários, aspones e asmenes recrutados para povoá-los?), mas isso ele não quer.

O câmbio é outra tempestade em formação. Depois de muitos anos de brilhantes superávits na balança comercial, em 2013, o comércio externo brasileiro já acumula perdas de mais de 6 bilhões de dólares até abril. O Balanço de Transações Correntes (que soma aos resultados comerciais os gastos com serviços, o turismo no exterior e as remessas de juros), que se manteve positivo entre 2003 e 2008 virou e os déficits voltaram com toda força desde então. Em 2013, já é o dobro do ano passado e a previsão para o ano todo é de quase 80 bilhões de dólares. Ou seja, voltamos a ficar reféns do mercado financeiro internacional; a única diferença é que agora temos reservas cambiais “confortáveis” mas se nosso desempenho comercial e nos serviços internacionais continuar a se deteriorar, esse saldo se evaporará em alguns meses.

Enquanto isso, os estudos setoriais demonstram que nossa indústria está perdendo aceleradamente competitividade nos mercados mundiais. O custo Brasil está se agravando com o chamado apagão logístico que não para de piorar, enquanto no resto do mundo os ganhos de produtividade são enormes.

Cada vez mais o ministro Mantega – com sua incrível capacidade de ler a realidade com óculos do Doutor Pangloss – se assemelha ao sujeito que se jogou do alto de um prédio e, ao passar pelo 5º andar em queda livre, gritou para os expectadores apavorados: “Até aqui, tudo bem!”.

Barbosa e as 'taras antropológicas' - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 26/05

No primeiro dia do julgamento do mensalão, vendo-se em minoria numa votação preliminar, o ministro Joaquim Barbosa disse lamentar que "nós brasileiros tenhamos que carregar certas taras antropológicas, como essa do bacharelismo". Seja lá o que for uma "tara antropológica", o bacharelismo nacional é certamente uma praga. Barbosa é hoje uma esperança nacional, pelo simples fato de dizer coisas que estão entaladas na garganta dos brasileiros.

Na semana passada ele expôs mais uma verdade: "Nós temos partidos de mentirinha". Bingo. Mas onde estava o ministro no dia 7 de dezembro de 2006, quando o Supremo Tribunal Federal derrubou a cláusula de barreira para partidos que não tem votos? De licença.

Estando de licença, por conhecidos motivos de saúde, Barbosa fez 19 viagens para o Rio, São Paulo, Salvador e Fortaleza, com passagens aéreas pagas pela Viúva. Os ministros do STF ganham R$ 28 mil mensais, mais carro, motorista e bolsa viagem. Seus similares da Corte Suprema americana ganham o equivalente a R$ 35,6 mil, sem mais nada. Passagens? Nem de ônibus. A Viúva paga até mesmo as viagens ao exterior (na primeira classe) das mulheres de ministros. Ricardo Lewandowski é homem de boa fortuna familiar. Gilmar Mendes é casado com uma advogada que trabalha num poderoso escritório de advocacia, onde ganha bem. Nada de ilegal. Tudo de acordo com as leis dos bacharéis que dão até R$ 15 mil mensais a sete garçons do Senado.

Quando a repórter Luciana Verdolin perguntou a Barbosa, como presidente da Casa, sobre o que ele achava da questão, ouviu: "Eu não quero falar sobre esse assunto. Eu não li a matéria. Essa matéria é do seu conhecimento. Não é do meu".

A reportagem podia não ser do seu conhecimento, mas a despesa era. O desempenho de Barbosa tratando dos temas que escolhe é um refrigério. Já sua atitude diante de perguntas estranhas à sua agenda é antropologicamente bacharelesca.

O BACANA

A escolha do advogado Luís Roberto Barroso para uma vaga no Supremo Tribunal Federal foi amplamente saudada. Nas novas funções, o doutor podia tirar da seção musical do seu blog a canção "Um Só Coração", composta por um advogado amigo que "alegrou-me o coração".

Ela diz o seguinte:

"Carioca da gema
Habitué de Ipanema
Barroso é genial.
(...)
Na Uerj ele manda
No Supremo é o bacana
Dispensa credencial."

COSTURA

Enquanto os tucanos brigam, Fernando Henrique Cardoso costura pacientemente alianças em torno de Aécio Neves.

Sinal disso é a mudança de tom do governador Sérgio Cabral em relação à campanha da doutora Dilma. Ele jantou com FHC há duas semanas.

ÁFRICA, NÃO

Para ir a Roma em março, a doutora Dilma levou três ministros, além do rotineiro titular do Itamaraty. Ocupou 52 quartos de hotel.

Para ir à Etiópia, além do embaixador Patriota, foi só o ministro Aloizio Mercadante.

Faz tempo, quando uma comissão da ONU se reunia anualmente em Nova York para discutir a independência da Namíbia, um de seus membros informava: "Reunindo-nos aqui, a Namíbia jamais será independente. Se nos chamarem para uma reunião em Windhoek, no verão, sua independência sairá no mesmo dia."

DAN BROWN

Uma alma implicante sustenta que Dan Brown disse bobagem no seu "Inferno" quando chamou de "horrível" a estátua de um anão montado numa tartaruga que fica no Jardim de Boboli, em Florença.
Faltou-lhe senso de humor.

A PORTA GIRATÓRIA DA ANS E DAS OPERADORAS

Durante o tucanato o comissariado petista deitou e rolou denunciando a promiscuidade da banca com o Banco Central, tanto pela nomeação de banqueiros para sua diretoria como pela porta giratória. Eles iam da banca para o BC e do BC para a banca. Jogo jogado. Seria o caso de se começar a discutir a promiscuidade que o petismo patrocina na Agência Nacional de Saúde Suplementar, que fiscaliza e fixa normas para o funcionamento dos planos privados. Trata-se de um mercado que move R$ 93 bilhões, afeta a saúde física de 48 milhões de pessoas e está infestado por tamboretes e maus serviços. No ano passado, as operadoras reconquistaram o primeiro lugar no ranking de reclamações da clientela. Oito em dez fregueses queixavam-se delas. De cada dois processos abertos na ANS, um tramita há mais de cinco anos.

Mauricio Ceschin, que presidiu a ANS de 2009 a 2012, vinha do grupo Qualicorp, que doou R$ 1 milhão para a campanha da doutora Dilma. Leandro Tavares, cuja recondução para uma diretoria está sendo discutida no Senado, veio da operadora Amil.
Um diretor que veio dos quadros da Amil a ela retornou. Outra, saiu da Amil, passou pela agência e hoje está na Unimed. Um quadro da Hapvida que litigava contra a ANS se tornou seu diretor-adjunto.

Semelhante situação poderia refletir um clima de harmonia entre o poder público e a iniciativa privada. Contudo, até hoje a ANS e o Ministério da Saúde não conseguiram criar mecanismos eficazes para cobrar dos planos privados as multas impostas às operadoras nem pelos serviços prestados pelo SUS aos seus clientes.

Esse é um problema antigo, mas a repórter Cassia Almeida expôs novos números. Entre 2005 e 2010, aumentou em 60% o número de internações de clientes de operadoras privadas em hospitais do SUS. (Entre 2006 e 2012, as doações políticas das operadoras cresceram 37,2%, para R$ 8,6 milhões.) Em 2012, as internações foram 276.850, a um custo de R$ 537 milhões. Se essas pessoas não tivessem planos privados também seriam internadas, porque esse é seu direito. O problema é que elas pagaram aos planos e os planos nada pagaram à Viúva. O doutor Ceschin chegou a dizer que, "se o ressarcimento chegar a R$ 100 milhões, não tem relevância na solução dos problemas da saúde pública." Quando o governador Geraldo Alckmin queria sublocar leitos públicos para os planos de saúde, prometia arrecadar, só em São Paulo, R$ 468 milhões.

O comissariado não executa as cobranças nem discute a mudança das leis que inibem o ressarcimento. Patrocina a pior das privatarias. Fiscaliza mal planos financeiramente inviáveis que se estabelecem na esperança de mandar seus clientes para o SUS sempre que o tratamento for caro. Assim, quanto mais a Viúva investe para melhorar a saúde pública, mais os espertalhões que vendem planos a R$ 160 mensais fazem o melhor negócio do mundo: embolsam por um serviço que não prestam e jamais pensaram em prestar.

O passado desnecessário - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 26/05

Médicos e policiais desejam modelar o futuro com pedaços do passado de má memória até para eles


Os médicos brasileiros contrários à vinda de médicos estrangeiros para atuar no interior desassistido, assim como os policiais que se opõem à participação de procuradores e promotores em investigações, ainda não perceberam que desejam modelar o futuro com pedaços do passado de má memória até para eles.

Quando a crise social e econômica bateu aqui de verdade, muitos médicos se foram em busca de alguma oportunidade nos Estados Unidos. Os dentistas brasileiros descobriram Portugal. A propagação do conceito de serem mais atualizados tecnicamente, à época, lotou seus consultórios com a clientela portuguesa. E levou mais dentistas daqui.

Dos anos 1980 para os 1990, a batalha foi intensa e incessante, com envolvimento diplomático, dos governos, médicos e dentistas, meios de comunicação, entidades científicas de um lado e do outro. As relações entre os dois países ficaram difíceis.

Os portugueses cobravam que os dentistas brasileiros se submetessem, para validação dos seus diplomas, a exame baseado no currículo local. Os brasileiros respondiam que o currículo português incluía, em detrimento do maior domínio técnico, matérias médicas não adotadas no Brasil. Atritos e impasse por mais de dez anos.

A recusa à vinda de médicos reproduz exatamente a posição dos portugueses, à qual nenhum núcleo médico, odontológico, intelectual ou outro deu apoio no Brasil. A diferença entre os fatos de lá e os de cá está só nos motivos. Já foi dito que os médicos brasileiros defendem o seu mercado, a tal reserva de mercado. Só os portugueses fizeram isso.

Os médicos daqui não querem saber do interior atrasado, não importa que mercado haja aí e que condições sejam oferecidas. Mesmo as periferias das cidades são incapazes de atraí-los no número necessário, como prova a procura para os hospitais e postos públicos. A mera recusa à contratação de espanhóis, cubanos e portugueses despreza ainda outra realidade inegável: a dos milhões deixados a sofrimentos que até conhecimentos médicos elementares podem evitar ou atenuar.

Responder à proposta do governo com grosserias, como tem feito o Conselho Federal de Medicina, não disfarça outra realidade. Médicos de alta reputação e entidades científicas e de classe têm insistido na adoção, para os recém-diplomados, de exame à maneira do que faz a OAB para dar status de advogado aos bacharéis em direito. O pedido do exame é o reconhecimento de que a proliferação de faculdades tem diplomado levas de médicos com despreparo alarmante.

Já em defesa da exclusividade do poder investigativo pelas polícias, negando ao Ministério Público o direito de compartilhá-lo (é o que propõe a emenda constitucional 37), o delegado Roberto Troncon Filho, da Polícia Federal, expõe assim um dos principais argumentos dos policiais: "Meu medo é de concentração de poder no Ministério Público. Tenho medo de que esse avanço do Ministério Público nos leve a uma instituição, no futuro, assemelhada a uma polícia do passado, muito poderosa (...), que cometeu muitos abusos".

Por isso quer a concentração do poder na polícia? A propósito dessa concentração, nem precisamos voltar muito no passado. Vimos os espetáculos de arbitrariedade e autoritarismo que a Polícia Federal cometeu há poucos anos, para isso bastando que lhe fosse recomendado investigar não só pés-de-chinelo, mas também notáveis do empresariado.

Em palestra no Superior Tribunal Militar, na quarta-feira, a propósito da PEC 37, o senador Pedro Taques observou que as Comissões Parlamentares de Inquérito e, de acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, também o Judiciário têm poder de investigar. O mesmo se dá com a Receita Federal e com as secretárias de Fazenda. Logo, a Constituição não deu à polícia exclusividade do poder investigatório e a emenda 37 não poderia dá-la.

Além do mais, por que e para que deseja a PF tal exclusividade? A realidade sugere o oposto: a corrupção e a criminalidade em geral estão em nível de calamidade, e a ação conjunta polícia/Ministério Público é uma necessidade nacional.

Noivo nervoso - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 26/05

Tensão sempre houve no convívio entre o governo e seu principal parceiro, o PMDB. Mas nunca o clima de divergência foi tão explícito como agora, quando se acumulam manifestações exteriores de insatisfação.

Da maratona dos três dias que quase levou o Planalto a uma derrota na MP dos Portos e pôs em xeque a utilidade de base parlamentar tão ampla quanto heterogênea, ao aval de mais da metade da bancada do partido na Câmara à CPI da Petrobras, passando por um jantar em que governadores e parlamentares expuseram suas queixas de maneira contundente, o passivo de descontentamentos só tem feito crescer.

Aonde vai parar isso? O que quer o PMDB? Qual a origem da discórdia? Como se resolve o problema? São algumas entre as várias indagações para as quais há diferentes explicações que partem da mesma premissa: a presidente Dilma Rousseff não dá ao partido o peso esperado quando do acerto que levou Michel Temer à Vice-Presidência.

No início, o PMDB imaginou que teria interlocução permanente, poder de fato, influência nas decisões por intermédio dos ministérios e tratamento igualitário em se tratando de questões eleitorais. Passados mais de dois anos e vendo se aproximar a eleição de 2014, o partido teme pela sobrevivência e já se questiona se a vice foi de fato um bom negócio.

Na eleição de 2012, o PMDB viu cair de forma expressiva o número de prefeitos e receia que o mesmo se repita nas próximas eleições para governadores, deputados e senadores. São numerosas as reclamações: Dilma privilegia o PT quando visita os estados, recusa-se a dar autonomia aos ministros que, além de não terem o controle efetivo de suas pastas, não são pessoas com influência nas bancadas da Câmara e do Senado. A presidente exige lealdade sem contrapartida em termos de compartilhamento de poder e, com isso, deixa o PMDB desprovido de instrumentos para atender às demandas da base no Congresso e para se mostrar poderoso junto ao eleitorado e a possíveis aliados regionais.

Nesse aspecto, o governo parece não compreender que o líder na Câmara, Eduardo Cunha, não confronta sozinho. Só o faz porque tem respaldo e, na verdade, vocaliza as insatisfações gerais. Para piorar, o clima interno no partido é o pior possível. Quebrou-se a unidade conseguida a partir do segundo governo de Luiz Inácio da Silva. Michel Temer perde força porque não se comporta como o PMDB gostaria: fazendo valer suas posições diante da presidente. Promete levar a ela os problemas, mas nunca apresenta ao partido soluções concretas.

O resultado é a hostilidade crescente na direção do Planalto, a deterioração das relações internas e a falta de rumo que já se expressa na recusa de várias seções regionais em se aliar ao PT na próxima eleição.

Solução? Haveria, se a presidente estivesse disposta a reconstruir as pontes, no mínimo substituindo as ameaças e as demonstrações de irritabilidade pelo diálogo. Caso contrário, aonde isso vai parar? Difícil dizer. Mas o cenário aponta provavelmente para uma daquelas convenções fratricidas de antigamente em que o PMDB não consegue chegar a um consenso e prefere não apoiar ninguém, ficando livre para diversificar o embarque nas canoas que bem entender.

Hora de calar

A pressão do governador Sérgio Cabral Filho para que o PT não tenha candidato ao governo do Rio de Janeiro não mudou em nada a disposição da direção nacional do partido de sustentar o nome do senador Lindberg Farias. Nos últimos dias ele recebeu garantia de que a candidatura será mantida, mas ouviu um apelo para não responder, não provocar e, sobretudo, não alimentar polêmica com Cabral. A palavra de ordem é não dar pretexto e deixar o PMDB do Rio brigar sozinho.

Pecado original - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 26/05

Muito se tem falado das dificuldades da presidente Dilma Rousseff no Congresso, e do que passou a ser chamado de inabilidade presidencial para exercitar o dia a dia da política. Também muito se tem dito a respeito do desequilíbrio entre Legislativo e Judiciário. As palavras do novo ministro Luís Roberto Barroso, sobre "decisão política deve tomar quem tem voto", representam um alento nessa selva institucional. Experientes observadores do funcionamento da Câmara, que vivem o Congresso há 30 anos, caso do ex-deputado Genebaldo Correia, consideram que a Casa perdeu a eficácia. Hoje, salvo raríssimas exceções, como a MP dos Portos, os assuntos passam sem que a maioria saiba o que se está votando.
Genebaldo deixou a Câmara nos tempos da CPI do Orçamento, nos anos 1990. Foi líder peemedebista em uma época em que a maioria era composta pelo seu partido (sempre ele!!!), o PFL e algumas outras poucas legendas. Os partidos com poder de decidir as coisas no Parlamento não chegavam a uma dúzia. Na Legislatura passada, 21 deles eram representados. Antes, 19. Na eleição de 2002, eram 18.
Hoje, são 24 partidos com representação na Casa, com uma gama deles bem mediana. Uma reunião de líderes virou praticamente uma assembleia geral, onde os comandantes levam vice-líderes e assessores. A grande mesa de reuniões e a ampla sala da presidência, destinadas a esses encontros, não comportam mais tanta gente. Ali, as discussões se sucedem e nem sempre chegam a uma conclusão, porque são tantos partidos com diferentes visões sobre os temas que as conclusões são raras. E a selva partidária cada dia aumenta mais. Ou seja, as pessoas que têm voto não estão conseguindo resolver tudo o que o país deseja e as reformas urgentes emperram. Ou caminham pelas madrugadas adentro. E, quando perdem, correm ao STF em busca de virar o jogo.
Para resolver isso, o país precisaria empreender uma reforma política que desse uma enxugada no quadro partidário. O problema é que, da forma como o projeto foi colocado no mês passado, soou como uma arma para dinamitar a pré-candidatura presidencial de Marina Silva por um novo partido, a Rede Solidariedade. Ou seja, o governo e os congressistas jogaram um projeto acertado, mas erraram no tempo. Agora, a sensação que se tem é a de que a janela para reforma política desta Legislatura se fechou. O portal só reabre em 2015, quando esse assunto certamente voltará à pauta.
Enquanto isso, nas redes sociais.
Diante desse quadro, crescem na internet movimentos no sentido de pressionar a realização da reforma política, nos mesmos moldes daquele que resultou no Ficha Limpa. Para quem não se lembra, os parlamentares inicialmente eram contra a Lei da Ficha Limpa e só promoveram essa votação depois da pressão popular. Se esse movimento pela reforma política vier da sociedade, depois de décadas de propostas de reformas naufragarem no Congresso, será mais um atestado da incapacidade do próprio Parlamento de resolver suas mazelas.
Ao que tudo indica, os parlamentares estão mais ávidos pelo Orçamento impositivo para as emendas deles mesmos do que propriamente para uma reforma que torne seus partidos mais visíveis aos olhos da população, como, por exemplo, seria o caso se não houvesse as tais coligações proporcionais. Assim, as igrejinhas não poderiam juntar-se para ampliar seu poder de fogo junto ao eleitor. Seria cada um por si, com suas qualidades e defeitos. Não haveria sequer o risco do eleitor votar no PT ou no PSDB e acabar elegendo um "agregado".
Do jeito que está, não há um só presidente capaz de manter um relacionamento republicano e altivo com o Congresso. Nem mesmo Lula, considerado um talento para encantar populações e agremiações partidárias, conseguiu esse feito o tempo todo. Quem dirá Dilma, que, realmente, tem dificuldades em lidar com o tema. Sendo assim, está coberto de razão o ministro Barroso, quando diz que decisão política deve ser tomada por quem tem voto. Mas, quando eles não conseguem decidir, alguém tem que fazer esse serviço.
E no Alvorada.
Dilma Rousseff está sendo informada, passo a passo, das descobertas da Polícia Federal sobre a origem dos boatos que provocaram o caos, no último fim de semana, em relação ao Bolsa Família. O envolvimento de uma empresa de telemarketing do Rio de Janeiro e informações recebidas por intermédio de celulares reacenderam as hipóteses de conotação eleitoral. Já se sabe com segurança que não foi assim uma "molecagem" de jovens com espírito de porco.

De volta para o futuro - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 26/05

BRASÍLIA - A história rocambolesca do fim do Bolsa Família, a sofreguidão do Planalto em asfixiar a candidatura dissidente de Eduardo Campos, a oposição tirando vantagem da ameaça de CPI da Petrobras.

Se o jogo sujo já está assim, imagine-se em 2014, com Dilma disputando a reeleição, um dissidente vindo do Nordeste, os votos de Minas se desgarrando para a oposição e Marina como Cristo na Santa Ceia.

O cenário tem semelhanças perturbadoras com o relato formidável, viciante, de "Getúlio - Dos Anos de Formação à Conquista do Poder", do jornalista e escritor Lira Neto.

Minucioso, muito bem documentado, o autor nos induz "de volta para o futuro". Afora as guerras, literais degolas, a retórica barroca e a precariedade dos transportes e da comunicação, estão lá os ingredientes políticos de ontem e de hoje.

O peso do palácio (antes Catete, agora Planalto), a lei do mais forte, dinheiro jorrando, traições, compra de votos, chantagem, cooptação de governadores (ou presidentes estaduais) e mentira, espionagem e contrapropaganda, dos jingles de então à sofisticação da internet.

Encaixam-se bem aí a boataria, o corre-corre e os saques desesperados do Bolsa Família, com os eleitores à mercê de insinuações. Para Dilma, "desumano". Para Lula, "gente do mal". Para Rui Falcão, "terrorismo eleitoral". O que vale é a versão, danem-se os fatos. E o pior é que há versões e há fatos de todos os lados.

Em 2006, malas de dinheiro dos "aloprados" sacudiram a reeleição de Lula dias antes do primeiro turno, a versão de que os tucanos privatizariam a Petrobras nocauteou Alckmin no segundo. E o vale-tudo, desta vez, começou muito antes.

As semelhanças com "Getúlio", ainda bem, terminam por aí. O Brasil não vive mais de um produto só (o café), não há previsão de novo crash na Bolsa de NY e, afinal, estamos mais civilizados. Nenhuma guerra à vista. Só a guerra eleitoral, que já é suficientemente sangrenta.

Não pode dar certo - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 26/05
Porque se sustenta apenas sobre o terreno cediço das conveniências do varejo político, a mastodôntica base de apoio governista no Congresso Nacional vive criando problemas para o Palácio do Planalto, com demonstrações reiteradas de que o "presidencialismo de coalizão" de que o lulo petismo tanto se orgulha acabou criando um aparentemente admirável, mas, na verdade, frágil gigante com pés de barro.Como resultado, a governabilidade, em nome da qual há 10 anos se fazem todos os tipos de concessão ao que a política tem de pior, esvaise pelo ladrão.
Ilustra essa deplorável realidade a decisão do principal aliado do governo, o PMDB, de colocar mais um cravo na coroa de espinhos de Dilma Rousseff, ainda mal refeita dos sobressaltos que o mesmo aliado lhe impôs, dias atrás, na votação da Medida Provisória dos Portos. Desta vez, o PMDB comandou, na Câmara dos Deputados, a apresentação do requerimento de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar irregularidades na Petrobrás.

Dois terços da bancada de 82 peemedebistas assinaram o pedido. E, com requintes de malícia, o líder do PMDB na Casa, Eduardo Cunha (RJ), absteve-se de subscrever o documento, enquanto o presidente nacional da legenda, senador Valdir Raupp (RO), declarava-se "surpreso" com a adesão em massa de seus correligionários à iniciativa.

Não é que a Petrobrás não esteja realmente merecendo uma atenta investigação sobre seu funcionamento desde que o presidente Lula a transformou em poderoso instrumento do projeto petista de perpetuação no poder.

A crônica da economia brasileira na última década está repleta de exemplos de como a maior estatal do País se tornou uma arma da propaganda lulopetista, frequentemente ao arrepio de seus próprios interesses empresariais. Toda a Nação se recorda do espalhafatoso anúncio da conquista da "autossuficiência" em petróleo - e das sucessivas quedas da produção, que fizeram da empresa grande importadora de derivados.

A CPI agora proposta se destina a apurar a venda de ativos da Petrobrás no exterior. Mas ninguém deve se iludir com a possibilidade de que eventuais irregularidades nessa ou em qualquer outra área de atuação da estatal venham a ser investigadas. O pedido de criação dessa CPI não é para valer. Há pelo menos mais 10 requerimentos relativos a outras CPIs na frente deste, o que significa que a votação do pedido pode ser tranquila e indefinidamente postergada, ao sabor das conveniências políticas do comando da Câmara, que está nas mãos do PMDB. E é claro que Dilma Rousseff já entendeu claramente o recado.

O partido de Michel Temer, José Sarney, Renan Calheiros, Henrique Alves e Sérgio Cabral, depois de ter abrigado, em suas origens, um amplo arco de democratas empenhados no combate ao regime autoritário que se instalou no País por mais de 20 anos, acabou se transformando, depois da redemocratização, em legenda a serviço dos governantes de turno, e hoje tem ojeriza aos ônus da oposição. Assim, a ameaça de criação da CPI da Petrobrás é, nas palavras de um parlamentar do partido, "mais uma demonstração de insatisfação da base". E explicou: "Como é que vamos segurar a base, se você não a atende?".

A existência de uma base parlamentar de apoio ao governo tão sólida quanto possível é, mais do que compatível com regimes democráticos, indispensável à sua estabilidade. Mas alianças políticas, mesmo não dispensando um inevitável quinhão de fisiologismo, devem ser construídas sobre bases mais consistentes do que o mero toma lá dá cá. Alianças políticas duradouras se fazem em torno de propostas, de programas de governo resultantes de um consenso mínimo entre os aliados. Assim, mesmo sabendo que para conquistar e se manter no poder Lula e o PT "flexibilizaram" sem nenhum constrangimento suas mais arraigadas convicções políticas, é realmente muito difícil de imaginar algum traço de espírito público nas relações entre este governo e os partidos que o apoiam. Não pode dar certo.

Sístoles de diástoles - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 26/05

Enquanto o BC se prepara para elevar a taxa de juros, Fazenda se permite pisar fundo no acelerador das despesas governamentais


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, optou por uma redução de R$ 28 bilhões no gasto programado para 2013 pela Lei Orçamentária Anual (LOA). As despesas previstas passaram de R$ 965,9 bilhões para R$ 937,9 bilhões.

O corte compensa apenas em parte a revisão na arrecadação projetada, que perdeu R$ 67,8 bilhões. Entre janeiro e abril a coleta de tributos manteve o patamar desse período em 2012, o que tornou impossível cumprir a otimista previsão anterior. Apesar do revés, a Fazenda decidiu levar a despesa a novo recorde, 19,2% do PIB.

O ajuste inviabiliza também o pleno cumprimento da meta de resultado primário (saldo de receitas e despesas governamentais antes de computado o pagamento de juros da dívida pública), cada vez mais em descrédito.

A meta original de superavit era R$ 155,9 bilhões (3,1% do PIB). Agora, graças à contabilidade criativa do Planalto, o objetivo é poupar só 2,3% do PIB --e até mesmo isso não deve ser alcançado, pois depende de um esforço fiscal dos Estados e municípios que não se tem verificado nos últimos anos.

O governo Dilma Rousseff já havia previsto um abatimento de R$ 45 bilhões na meta, sob o pretexto de retirar da conta o valor de investimentos e desonerações. Depois, desobrigou-se de compensar rombos estaduais e municipais. O fato é que já não parece mais possível estimar com clareza qual é a meta de superavit primário perseguida.

Qualquer coisa entre zero e 2,3% do PIB parece possível. As projeções de analistas do setor privado se avizinham de 1% do PIB, resultado que inauguraria uma tendência de aumento da dívida --pela primeira vez desde o início dos governos petistas (salvo breve período na crise de 2008).

Por fim, evidencia-se o desalinhamento da política governamental com as ações do Banco Central. O BC decidirá nesta semana quanto subirá a taxa de juros básica --se 0,25 ou 0,5 ponto percentual.

Em seu último relatório, o banco ainda contava com um saldo primário de 3,1% do PIB. Torna-se inevitável um ajuste de sua conduta à nova meta, o que sugere um aumento mais forte da taxa.

No atual ambiente de disseminação do impulso inflacionário, a política fiscal expansionista é motivo de apreensão. Só o afã do governo de reativar a economia explica a patente leviandade com as contas públicas no longo prazo.

A hora seria, antes, de forte engajamento no controle de despesas, o que permitiria uma gradual, mas significativa, desoneração tributária para todos os setores. E, melhor, sem forçar o Banco Central a elevar os juros --o único no mundo a fazê-lo, no presente.

Inquieta aumento dos casos de intolerância - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 26/05

O país tem de reagir com rigor contra perseguições a segmentos religiosos, agressões homofóbicas e outras demonstrações de intransigência na sociedade


Casos de intolerância — religiosa, sexual, racial etc. — têm sido registrados no Brasil com perigosa constância. Eles conformam um inquietante alerta ao país: o fenômeno contém claros indícios de que se pode estar chocando um ovo da serpente sob a curva ascendente em que se contabilizam esses deploráveis episódios. Por conta da intransigência, um número cada vez maior de agressões verbais — por si, deploráveis — a dessemelhantes dá lugar a ataques físicos, inclusive com mortes.

Não se alcançaram por aqui, ainda, níveis de perseguição comparáveis aos de países em que determinados grupos sociais, movidos por xenofobia, ódio racial ou homofobia, chegam ao ponto de se organizarem para promover violentas demonstrações de repúdio a imigrantes, homossexuais, adeptos de credos religiosos e outros segmentos. Mas os casos registrados em todo o território brasileiro já chegam a um ponto em que se impõem ações de punição exemplar, para evitar um descontrole de consequências trágicas.

No Rio, adeptos de religiões de matriz africana (umbanda, candomblé) têm sido vítimas constantes dessas manifestações de incivilidade. Relatório do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir) concluiu que, desde janeiro, o candomblé foi o segmento religioso mais vulnerável à perseguição, em boa parte movida por seguidores de outros credos. O fenômeno é corroborado no Mapeamento das Casas de Religiões de Matriz Africana do Estado do Rio, feito pelo Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente, da PUC-Rio: segundo o documento, uma pesquisa com 847 centros de umbanda e candomblé concluiu que metade deles relatou episódios de intolerância religiosa. São agressões que chegam a pôr em risco a integridade dos fiéis — como em 2009, quando um homem quebrou com uma marreta o altar e peças de adoração de um centro em Caxias, ou em 2008, quando jovens invadiram e depredaram um templo no Catete.

São manifestações de irracionalidade tanto mais condenáveis numa cidade em que a visita do Papa Francisco a transformará, por alguns dias, em capital mundial da fé e da tolerância. E, de maneira geral, porque atentam contra direitos individuais, como a liberdade de escolha consagrada na Constituição. No mesmo caso, se incluem as perseguições homofóbicas, com censuráveis aumentos de registros. Em São Paulo, chocaram o país imagens de jovens agredindo um grupo de homossexuais na rua; em São Gonçalo, a homofobia estava na raiz do atropelamento intencional (com morte) de um rapaz.

Os exemplos se sucedem. Causam apreensão, mas esse tipo de resposta não basta. O país tem o dever de reagir, moralmente e com o emprego de leis rigorosas, contra a intolerância de qualquer tipo. A cria do ovo não pode vingar.

Teoria da hospitalidade - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 26/05

“Receber bem” e “viver junto” precisam deixar de ser expressões da etiqueta, convertendo-se em item essencial de toda e qualquer política pública



A palavra hospitalidade está associada a receber bem, com rapapés e simpatia. É a arte do bem-estar com as visitas. Pode ser também uma virtude nacionalista. Brasileiros, mexicanos, marroquinos, entre outros, são apontados como povos hospitaleiros por excelência. Um e outro sentido indicam que a hospitalidade é ora uma questão da vida privada, ora um traço cultural.

Foi-se o tempo em que era simples definir hospitalidade e ensiná-la aos filhos, fazendo-os polidos à sala de jantar. O “viver junto” e o “respeito ao outro” se impõem cada vez mais como chaves para o êxito das políticas públicas. É assunto para rodada de negociações – nas altas esferas, inclusive. E essa mudança é desconfortável. O palavreado corporativo parece não ficar muito à vontade ao ter de lidar conceitos tão comuns. Não lhe parecem palpáveis. Não podem ser mensurados. Nem capitalizados. Escapam aos interesses imediatos do Banco Mundial. Mas já se sabe que não há dinheiro nem projeto que chegue a bom termo sem estender os significados da palavra hospitalidade.

Não se trata de uma conversa iniciada ontem. A nova hospitalidade tem um dos seus marcos na xenofobia europeia, manifesta sem pudores na década de 1990 e sedimentada nos anos 2000, na forma de partidos políticos, inclusive. Foi um período tenso o bastante para que intelectuais dos quatro costados se apressassem a estudar o fenômeno. Chamaram-no de declínio de civilização. De nova invasão bárbara. Trabalharam pesado, em busca das raízes da intolerância, um assunto que parecia resolvido em escritos como A condição humana, de Hannah Arendt, ou nos minutos iniciais do documentário Arquitetura da destruição, de Peter Cohen.

O esforço rendeu frutos. Nomes como Jacques Derrida e Anne Dufourmantelle – para citar dois – revisaram as origens filosóficas do medo do outro, ou, na mesma medida, a negação de sua existência. Os intelectuais chegaram a conclusões tão elementares quanto reveladoras. O problema de “receber bem” está ligado ao estrangeiro – “aquele de quem costumamos desconfiar”. Ele porta a diferença. Deve ser tratado com reserva. Pode perturbar a ordem coletiva, a duras penas estabelecida, em séculos de pactos sociais e econômicos.

Mas existem níveis de maior ou menor aceitação entre os forasteiros. Uns são mais estranhos à ordem do que os outros, como bem poderia ter dito George Orwell. E assim caminha a humanidade – fazendo a seleção de quem pode, ou não, pisar em território alheio. Os debates sobre o medo do estrangeiro, e a reincidência dos europeus nas velhas práticas de xenofobia, estavam e estão longe de ser um rodapé do noticiário internacional. Assim como o termo “hospitalidade” ganha novas acepções – saindo da esfera privada para a pública – a palavra “estrangeiro” também tem seu sentido esgarçado. Somos milhões de estrangeiros nascidos nos mesmos países. Não somos nações. Somos guetos.

Vale repetir – não se trata de uma conversa fácil, ainda que pareça. Pensar o mundo do prisma da hospitalidade exige recorrer à geografia humana, na busca de entender o DNA do ódio que perpassa as relações mais chãs. Ali se escondem as “causas secretas”. Elas emergem em comentários inocentes e graciosos, que eclodem em linchamento. O desprezo miúdo pelo outro pode fazer de uma cidade, ou de um país, um lugar impossível. Esse dinamismo é tão forte que se confunde com a humanidade. Em tempos sombrios, lembre-se, pode ameaçá-la. A hospitalidade é o remédio – nem sempre amargo. Nisso precisamos acreditar, e praticar, da porta para fora. É boa educação. É boa política.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O PMDB está com medo de perder”
Ministro Marcelo Crivella (Pesca), sobre ameaça de Cabral de romper com Dilma


INFRAERO PREVÊ ROMBO DE R$51,7 MILHÕES EM 2013

Documento da Infraero em poder da coluna revela que a estatal que administra os aeroportos do País estima em R$ 51,7 milhões o prejuízo até o final deste ano, às vésperas da Copa do Mundo. O “rombo” alcança R$ 524,3 milhões com receitas e despesas e o pagamento do Programa de Incentivo à Transferência e Aposentadoria. Sobrará no caixa cerca de um quarto do mínimo operacional de R$ 300 milhões.

FARTURA

Apesar do vexame, a Infraero mantém 800 cargos em comissão na sede em Brasília e outros dois mil em 63 aeroportos e nove sedes regionais.

TANTO FAZ

Petistas garantem que Dilma está pouco se lixando para a eleição do comando nacional do PT. Estão no páreo Rui Falcão e Paulo Teixeira.

MATERIAL ZERO

O Programa Nacional do Livro Didático deixou sem material mais de 20 mil alunos de escolas da Bahia. De 435 escolas, metade usa o programa.

ELEIÇÕES 2014

Para Alessandro Molón (PT-RJ), a “chantagem” do governador Sérgio Cabral para impedir Lindberg Farias de disputar em 2014 é “deplorável”.

NOVO “BOATO” ENVOLVE BOLSA FAMÍLIA E ELEIÇÃO

Após o “boato” do “fim do Bolsa Família”, nova onda de suspeitas assolou as redes sociais ontem: beneficiários do programa seriam também doadores de campanhas eleitorais. Confrontado pela coluna com dois nomes e CPFs idênticos nos sites do Tribunal Superior Eleitoral e no cadastro do Bolsa Família, o Ministério do Desenvolvimento Social pediu “tempo” para apurar.

BOLSA-VOTO

Uma suposta beneficiária em Goiás doou R$ 320 a uma candidata a vereadora do PMN. Outra teria doado R$ 1 mil a candidato do PPS.

AQUELE ABRAÇO

Hoje é o “Dia Nacional de Respeito ao Contribuinte”. Só para comprar o bolo e a vela que merece, você pagou uns 35% do preço em impostos.

SEM ATUALIZAÇÃO

O Twitter do ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) está às moscas. Ainda aparece como deputado, e não divulga suas ideias desde 2011.

BIG BROTHER PLANALTO

A Presidência da República pretende gastar até R$ 13,6 milhões num sofisticado sistema de vigilância do Palácio do Planalto e residências oficiais, com circuito interno de TV e identificação biométrica.

CORDA BAMBA

Inicialmente entusiasta da candidatura de Eduardo Campos (PSB-PE) à Presidência, o governador do Piauí, Wilson Martins, agora não esconde o temor de que o projeto inviabilize sua eleição ao Senado.

FEZ-SE A LUZ

A Dimensão, vencedora da licitação de R$ 5,3 milhões em capas de chuva da PM-DF, vendeu 181 lanternas Police por R$ 35,4 mil ao Ministério da Defesa. Custam R$ 60 na feira do Paraguai, em Brasília.

MENSALEIROS NA TORCIDA

Após conseguir assistir à Copa das Confederações fora das grades, os réus do mensalão sonham em atrasar julgamento até a Copa do Mundo, na esperança de caírem no esquecimento caso o Brasil seja campeão.

CORTE DA POESIA

O Supremo Tribunal Federal perdeu um poeta, Carlos Ayres Britto, mas ganhou um amante da poesia: o blog do futuro ministro Luís Roberto Barroso é cheio de versos de Drummond, Mia Couto, Cecília Meireles...

ÚLTIMOS TESTES

Segundo o ministro Aldo Rebelo (Esporte), o jogo Santos x Flamengo, neste domingo, servirá para testar nove áreas de serviço do Estádio Nacional Mané Garrincha, inaugurado no dia 18, em Brasília.

RECEITA SIMPLES

O deputado Duarte Nogueira (PSDB-SP) acha fácil ajustar a receita da União para atender o desafio fiscal do governo. “O caminho para equilibrar as contas é simples: elevar os 18% do PIB em investimentos e fazer o Brasil voltar a ter índices elevados de crescimento”. Então, tá.

DENÚNCIA NO RN

O ministério público eleitoral quer cassar o mandato do deputado João Maia (PR-RN) por “caixa 2” em 2010. Está na torcida a suplente, ex-secretária de Educação de Natal Rosário Cabral (PMDB).

PERGUNTA À MESA

Se o governo e o PT garantem que dezenas de milhões de brasileiros saíram da pobreza, por que ainda existe o Bolsa Família?


PODER SEM PUDOR

MARIA DO CORREIO ENTENDIA DE CARTAS

No começo dos anos 1960, o então desconhecido deputado José Sarney foi a uma cartomante em Araxá (MG) em companhia do escritor Fernando Sabino. A cartomante, Maria do Correio, jogou as cartas:

- Você vai ser presidente da República.

Quem ouviu, riu... Maria do Correio acertou outra vez. Nos anos 1970, um jovem jornalista queria saber se ia se casar com a namorada. Ela respondeu que ele não se casaria com a jovem, mas um dia seria presidente da República. O nome do moço era Fernando Collor, agora no Senado, perto de Sarney.

sábado, maio 25, 2013

Sobre verdades e silêncios - ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA

O GLOBO - 25/05

A verdade que enfim emerge é condição de uma verdadeira reconciliação e fala por si: a tortura desonra quem a pratica


As carantonhas de torturadores e estupradores voltaram a assombrar os telejornais no último mês. Tudo os aproxima, parecem feitos de um mesmo barro. Inspiram igual indignação e repulsa. É melhor retirar as crianças da sala, é cedo para que conheçam o lado tenebroso do ser humano.

Estupro e tortura são crimes que exprimem uma radical negação da humanidade do outro. É martirizando o corpo que o torturador obriga alguém a falar. A força bruta parte ao meio a vítima, anula sua vontade, obrigando-a a fazer o que mais lhe repugna. O corpo, pela dor, cumpre o que o espírito recusa. A vítima se esfacela e carrega, desde então, um injustificado, mas recorrente, sentimento de culpa.

O estupro não é somente um crime covarde contra as mulheres. Desfigura suas relações mais íntimas com os homens, é um crime contra o amor. Ancestral, tem suas raízes na lei da selva e fermenta nas múltiplas agressões ao sexo feminino com que a sociedade contemporânea — o que é estarrecedor — ainda convive. O apartheid supostamente necessário nos trens da SuperVia é o exemplo da sobrevivência desse comportamento primata.

Desde que uma turista canadense foi violada dentro de uma van no Rio de Janeiro, o que provocou intensa comoção, veio à tona o que a opinião publica não sabia: não se trata de um caso esporádico. Existem no país dezenas de iniciativas solidárias que acolhem e socorrem mulheres violadas e nesses círculos é sabido que o estupro é uma ameaça que paira sobre qualquer mulher e independe da aparência ou personalidade da vítima.

Os dados oficiais, registrados nas Delegacias de Atendimento à Mulher, revelam a média de 17 casos de estupro por dia no Estado do Rio de Janeiro, o que caracteriza uma epidemia, aberração que clama por uma ação pública exemplar. Quantas outras calam por vergonha ou medo? A vergonha, o sentimento de imundície, de desonra, tudo corrobora na destruição psíquica da vítima que se refugia, solitária, no silêncio sem que por isso se cale sua memória dolorida.

No estupro como na tortura um paradoxo perverso se instala: as vítimas se autoflagelam enquanto os algozes se autoabsolvem. “Ela é uma sedutora, que me provocou”, diz o sádico travestido em pobre coitado. “É assim que se lida com terroristas”, proclamam os arautos da necessidade e da eficácia da tortura. Dar crédito a esse tipo de justificativa é uma forma de cumplicidade.

Tortura e estupro são crimes cujo alcance transcende as vítimas. Atentam contra a essência mesma de nossa humanidade, levam à falência todo um processo civilizatório que aboliu a lei do mais forte. Pela ferida que abrem no psiquismo individual e coletivo requerem uma tomada de posição radical da sociedade a favor da vítima, jamais do agressor. Sob pena de abrir uma fenda em si mesma, por onde passam os argumentos que vão corroer a democracia e acobertar barbáries.

A Comissão da Verdade acaba de apresentar seu primeiro relatório. Seu trabalho é, ao mesmo tempo, reconstrução da História do Brasil e da história das vítimas, já que só a verdade pode libertá-las, iluminando as zonas de sombra da memória. E, mesmo assim, há cicatrizes indeléveis. O escritor italiano Primo Levi, prisioneiro em um campo de concentração nazista e que quarenta anos depois se suicidou, em uma frase lapidar resumiu a tragédia do século XX: “Eu saí de Auschwitz, mas Auschwitz nunca saiu de mim.”

Os torturadores que queriam tanto que os torturados, subjugados, falassem agora querem que eles, homens e mulheres, hoje senhores de sua vontade, se calem.

Os sete membros da Comissão da Verdade, nomeados pela presidente da República, foram acusados por um coronel do Exército de “revanchismo de esquerda”, de “estar do lado dos que perderam na revolução”. Dos que ele chama, com desdém, “os derrotados”.

Ledo engano. A democracia que tanto nos custou restabelecer é a derrota da ditadura. A democracia brasileira elegeu para a Presidência da Republica uma mulher que foi torturada e que, recentemente, chamada de terrorista pelo ex-comandante de um dos principais centros de repressão da ditadura militar, ignorou a provocação, como convém a uma chefe de Estado. Nossa democracia é bem mais sólida do que imaginam aqueles que menosprezam os seus fundamentos.

A verdade que enfim emerge é condição de uma verdadeira reconciliação e fala por si: a tortura desonra quem a pratica. Essa é a lição do passado e um compromisso de nunca mais. Para os que, incapazes de arrependimento, persistem em justificar o injustificável, a sentença já lavrada é o desprezo.

Boato! Neymar vai pro Vostok! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 25/05

Neymar deixa aquele topete crescer de novo e vai pra Disney fazer o papel do Mamute na "Era do Gelo 6"!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Qual o boato de hoje? Que o Palmeiras comprou o Messi! Ou, como diz o chargista Renato: "O boato hoje é que o Neymar vai pro Corinthians!".

Mas o Piauí Herald revela que o Neymar recebeu uma oferta do Circo Vostok! Como malabarista, equilibrista e foca! Rarará!

Melhor, vai treinar com os golfinhos de Miami! Melhor ainda, ele deixa aquele topete crescer de novo e vai pra Disney fazer o papel do Mamute na "Era do Gelo 6"!

Mas eu sei pra onde ele vai hoje com certeza: pro salão! Pro secador! Rarará!

E o verdadeiro boato de hoje é que o pastor Feliciano saiu do armário!

E a novela da bicha má? Essa novela não tem "Amor aos Ouvidos": Daniel e Paula Fernandes! Isso não é uma trilha, é um atentado terrorista, uma ameaça nuclear!

O Daniel grita mais que arara no cio: "Vida! Vida! Vida". Aliás: "Grita! Grita! Grita!". Parece um porco sangrando. Rarará!

E em homenagem à bicha má, ele deveria cantar: "Biiba! Biiiba! Biiiba".

E o tuiteiro Edudhow postou que "a Paula Fernandes parece locutora de rodoviária, tudo igual no mesmo tom: ônibus para o Rio, plataforma 45, ônibus para Natal, plataforma 28".

E por que a Bárbara Paz tá sempre com a maquiagem borrada?!

E atenção! O site Kibeloco mostra as manchetes de 2030! Como será o Brasil em 2030? Esportes: 1) "Conheça Caxirola, a menina de 16 anos que foi gerada durante a Copa de 2014." Parece o "Globo Repórter": "Conheça Caxirola, o que come, o que veste, o que pensa!"

2) "Neymar fecha com o Barcelona e promete beber até ficar em pé." Rarará!

Essa eu adorei: o Neymar vai beber até ficar em pé!

Política: "Criadas Comissões de Meias Verdades, Mentiras e Não Conto Nem F*DENDO". Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E o Aécio foi ao "Programa do Ratinho" e disse que o PSDB é o pai da Bolsa Família.

Ué, mas o Bolsa Família não foi inventado pelo Lula pra sustentar vagabundo, como dizem por aí?! Vá entender! Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Nem é bom lembrar. Ou é - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 25/05
No momento em que a Comissão da Verdade confirma que a tortura já era amplamente utilizada pelos militares em 1964, e não a partir de 1968, como resposta à luta armada, não se pode deixar de lembrar um episódio de muita repercussão na época e que se tornou emblemático por ter ocorrido em praça pública e com direito a plateia, como se fosse um daqueles espetáculos bárbaros de antigamente. Nos primeiros dias do golpe, o líder comunista Gregório Bezerra, depois de selvagemente espancado dentro de um quartel do Exército em Recife, foi puxado para a rua, onde aconteceu o que ele contou ao "Pasquim" em 1978, numa entrevista nunca desmentida. "O coronel Vilocq (Darcy Viana) gritava para a massa: "Lincha esse bandido, matem, joguem garrafas, pedaços de ferro, pedras nesse monstro que queria incendiar o bairro para queimar crianças"." Horrorizadas, as pessoas viravam o rosto. "Saíram me arrastando até o jardim da Casa Forte, onde Vilocq fez outro comício concitando a me linchar. Mais uma vez ninguém atendeu, o que me encorajava, me dava uma vontade louca de resistir."

A cena, presenciada pela então jovem advogada Mércia Albuquerque, foi assim descrita por ela: "Gregório, vestindo apenas calção preto, com a cabeça fraturada sangrando, banhado de suor, com os pés que haviam sido mergulhados em soda cáustica e os pulsos feridos pelas algemas, tinha uma corda de três pontas amarrada no pescoço e era arrastado por um grupo de soldados, seguido por um carro de combate." Segundo ainda seu relato, "o tenente-coronel Darcy Vilocq ensandecido agitava uma vareta de ferro e gritava, apoplético, injúrias contra o velho militante comunista, seu prisioneiro. Como se dirigisse um ato de fé da Inquisição, conclamava os espectadores tomados de pânico: "Venham ver o enforcamento do comunista Gregório Bezerra!""

Enquanto o cortejo sádico circundava a Praça da Casa Forte, com transmissão ao vivo por uma rádio e um canal de televisão, religiosos liderados por uma freira acionaram Dom Lamartine, bispo auxiliar, que telefonou para o general Justino Alves Bastos solicitando sua interferência. O então comandante do 4º Exército interveio, impedindo que a barbárie fosse coroada com o anunciado enforcamento.

Enfim, nem é bom lembrar essas coisas. Ou é - para que não se repitam. A História, já se disse, não deve servir de exemplo, mas pode servir de lição. É o que a Comissão da Verdade está tentando fazer.

Por falar em passado, vou parodiar os adversários de Richard Nixon: você compraria um carro usado do atual presidente do Brasil?

A vida dos outros - ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR

FOLHA DE SP - 25/05

Nos blogs dos estrangeiros que moram no Brasil, o sofrimento de quem tenta entender o país


D. se mandou da Califórnia por amor. Despencou em "Caipirópolis", depois viveu numa cidade feia de praia, hoje mora em algum ponto próspero do interior paulista, onde encontra até comida coreana.

G., irlandês, vive no Recife. Adepto do realismo fantástico, escreve minicontos em que expressa seu desgosto diante da realidade local. "Como o ponto decimal arruinou o Brasil" é sua obra mais recente.

C. também mora numa capital, Florianópolis. Algumas vezes, ele reclama do Brasil. Em outras, também. Californiano, surfista, ele se expressa com ambiguidade. Seus textos são amargurados; suas fotos, só alegria: um mundo de camisas abertas no peito e índices muito baixos de gordura corporal.

M. está no interior de Minas. Faz parte de uma onda muito recente, muito específica e muito interessante de imigrantes: a das americanas que se casaram com mineiros na região de Boston, e agora acompanham seus maridos que decidiram voltar ao Brasil.

Sigo as vidas de D., G., C. e M. Os quatro têm blogs. Seus diários on-line, claro, são públicos. Mas, talvez por escreverem em inglês, percebe-se que os autores não imaginam ser lidos no Brasil. Eles se dirigem aos amigos e parentes "back home", desabafo e desilusão são os sentimentos mais comuns.

De todos, D. é quem mais pratica a tolerância e, por que não dizer, o relativismo cultural. Formada em linguística pela excelente Universidade da Califórnia em Berkeley, ela vem do ambiente onde o politicamente correto foi inventado. Ainda bem. Só assim para sobreviver ao choque.

D. ensinava inglês em San Francisco quando conheceu um aluno brasileiro, estudante de medicina no interior de São Paulo. O curso de inglês era curto, o namorado logo voltou ao Brasil. Pouco depois, ela veio atrás. Só que a cidade onde o rapaz fazia faculdade era um pouco menos que nada. D. apelidou o lugar, carinhosamente, de "Caipirópolis".

Depois de formado, o garotão arrumou emprego no litoral. D. postou algumas fotos do novo apartamento, que dava vista para uma parede. Os vizinhos tinham o curioso hábito de atirar lixo pela janela.

Agora, ele faz residência médica em uma cidade do interior mais rica e menos morta, que D. chama de Springfieldee (brincadeira com a fictícia Springfield, dos Simpsons). A californiana tolerante, finalmente, se sente mais em casa.

O mesmo não se pode dizer de G., o irlandês do Recife. Seus posts semificcionais, de humor ácido, mostram que ele se sente em um pesadelo sem fim.

Na apresentação do blog, de 2012, G. cospe fogo: "Vivo no Recife há quase dois anos, e essa cidade me enlouquece. É suja. Sinto que, pelo fato de nada funcionar, me tornei uma pessoa mais rude (...) Tento descrever como é morar numa cidade em que nada faz muito sentido".

Também não faz muito sentido o blog de C., o surfista californiano de Floripa. Ele é, digamos, o menos intelectual da turma. Empresário, veio ao país para abrir restaurantes. "Viver no Brasil pode levar qualquer homem normal à insanidade", decreta.

Diatribes contra a burocracia e a corrupção brasileiras são os temas dominantes. O tom em geral é tão amargo que eu nem prestava atenção nas fotos. Imaginava serem imagens genéricas do Google.

Até que notei um sujeito atlético e sempre sorridente em todas elas. Era C.! Surfando, curtindo em um iate, em festas maravilhosas, depois em festas mais maravilhosas ainda, com mulheres espetaculares, depois com mulheres mais espetaculares ainda, na praia com uma namorada de interromper o tráfego aéreo... E ele ainda reclama.

Bem menos glamourosa é a vida de M., a americana que acompanhou o marido brasileiro na volta ao interior de Minas. Com a ética protestante de trabalho em nível máximo, ela se atribuiu como missão consertar o sítio abandonado da família.

O fato de os próprios sogros costumarem jogar garrafas, latas e sapatos velhos nos jardins que ela havia acabado de arrumar não ajudava muito, mas M. se manteve firme. Até passou a vender os produtos do sítio na feira livre, depois de negociar o ponto com um tal de Miro.

Desculpe não entregar os endereços dos blogs. Como disse, sinto que os autores escrevem só para os mais chegados. Mas, com as dicas deste texto, é possível achá-los na web. Os mais interessados chegarão lá. Confio nessa seleção natural.

Saída negociada - VERA MAGALHÃES - PAINEL

O GLOBO - 25/05

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), deve sugerir como alternativa à CPI da Petrobras que a presidente da empresa, Graça Foster, vá ao Congresso dar explicações sobre suspeitas de irregularidades e falhas de gestão. Alves, que recebeu pedido do governo para engavetar a CPI, evita tomar partido sobre o requerimento e diz que não conhece sua fundamentação''. "Mas sei da disposição de Graça Foster para qualquer diálogo que se imponha esclarecedor."

Às falas 
Ministros indicados pelas bancadas da Câmara, notadamente Moreira Franco e Toninho Andrade, do PMDB, e Aguinaldo Ribeiro, do PP, serão chamados a explicar o motivo de tanto apoio de seus partidos à CPI.

Delay... 
Apesar de formalizada por Dilma Rousseff, a indicação de Luís Roberto Barroso para ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) não foi enviada na quinta-feira ao Congresso Nacional.

... burocrático 
Barroso, que soube da nomeação quando se preparava para viajar, não havia enviado seu currículo para a Casa Civil. Com os documentos finalmente entregues, a indicação foi enviada ontem ao Senado.

Turma 
Um dos melhores amigos do futuro ministro é o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que atua em casos de repercussão no Supremo. "Ele não deve nada a ninguém, foi escolhido pelos próprios méritos", elogia Kakay.

Sinais 1 
Considerado uma das grandes incógnitas da fase de embargos de declaração do mensalão, o ministro Teori Zavascki tem concedido audiência a advogados que lhe pedem para entregar memoriais sobre os recursos.

Sinais 2 
Nessas conversas, Zavascki pouco fala. Limita-se a perguntas secas e pontuais sobre o processo. "Não me ofereceu nem um copo d'água'', lamenta um defensor, que saiu do gabinete como entrou, ou seja, sem saber como ele votará.

Exceção 
Celso de Mello e Marco Aurélio Mello têm defendido que, dada a complexidade do mensalão, Ricardo Lewandowski deveria manter o papel de revisor nos embargos de declaração, algo não previsto pelo regimento.

Ensaiada 
A plateia do "Programa do Ratinho" foi orientada a não se manifestar durante a participação de Aécio Neves (PSDB-MG), quinta-feira. "Se você tem algo contra ou a favor, guarde para você'', instruíam funcionários do SBT, que indicavam os momentos de aplaudir.

Aí não 1 
Aliados de Sérgio Cabral afirmam que o governador do Rio ficou irritado com o vazamento de sua fala durante jantar no Palácio do Jaburu, quando disse ver "alternativa" ao apoio do PMDB a Dilma e que seu filho também tem o sobrenome Neves, referindo-se a Aécio.

Aí não 2 
Para Cabral, o vazamento cacifou o vice-presidente, Michel Temer, a posar de "bombeiro'' da crise. Antes da viagem à África, Dilma debateu com Lula as críticas do peemedebista, mas os dois evitaram decisão sobre palanque duplo no Rio.

Linha cortada 
Irritada, Dilma não comunicou Cabral sobre a escolha de Barroso para o STF. O futuro ministro, que assinou ações do governo do Rio contra os novos critérios de distribuição dos royalties do pré-sal, tinha a torcida do governador.

Bonde 
Descartada a candidatura de Celso Russomanno ao governo do Estado, o PRB espera que ele tenha entre 500 mil e 1 milhão de votos para deputado federal. A sigla calcula eleger quatro parlamentares em SP e dobrar a bancada na Câmara.

com ANDRÉIA SADI e LUIZA BANDEIRA

tiroteio
"No pior espírito antidemocrático, Sérgio Cabral tenta impedir o eleitor do Rio de Janeiro de escolher o próximo governador."
DO DEPUTADO ALESSANDRO MOLON (PT-RJ), sobre a tentativa do governador de evitar que o senador Lindbergh Farias (PT) concorra ao governo do Estado

contraponto


São tantas emoções
Ao dar início à última palestra de evento sobre as relações Brasil-África nesta semana, pouco antes de o ex-presidente Lula assumir o microfone, o embaixador do Gabão, Jérome Angouo, se disse emocionado por estar ao lado do petista, grande estrela do seminário.

-- Há grandes momentos na vida de um homem: quando a gente casa, quando o filho nasce e o terceiro, para mim, é estar na presença do ex-presidente Lula!

A fala do embaixador foi seguida de risos e palmas calorosas da plateia, que era formada por empresários e diplomatas brasileiros e africanos.