quinta-feira, fevereiro 28, 2013

No grito - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/02

BRASÍLIA - Os articuladores e manifestantes do movimento "Fora, Renan!", com milhares de assinaturas na internet, miraram no que viram e acertam no que não viram.

A intenção era, primeiro, impedir a posse de Renan Calheiros na presidência do Senado, criando constrangimento para a de Henrique Alves na da Câmara. Depois, minar as "condições de governabilidade" sobretudo de Renan, mais conhecido da plateia e mais emblemático.

Não deu certo, mas obriga os presidentes do Senado e da Câmara a se esfalfarem para dar respostas à pressão e mostrar que são melhores do que parecem. Há nisso, obviamente, um forte lado marqueteiro. Mas há também efeitos práticos.

Renan promete reduzir cargos comissionados e transformar o serviço médico do Senado em posto de emergência, despachando os médicos para o SUS. Se vai ter força para fazer, não se sabe. Mas a promessa é boa.

E Henrique reuniu os líderes, num dia, e colocou para votar, no outro, o fim do 14º e do 15º salários de Suas Excelências. Em vez de dois salários a mais em todos os quatro (ou oito anos) de mandato, vão passar a ter direito a um a mais só em dois anos, o de chegada e o de saída (mesmo os que, reeleitos, saem sem sair).

A excrescência significava cerca de R$ 54 mil a mais para cada parlamentar e de R$ 30 milhões a menos para os cofres públicos por ano. Como foi criada em 1946 -há quase 70 anos, portanto-, não era nada simples acabar com ela. Só mesmo por forte pressão da sociedade.

Como, aliás, ocorreu com o descalabro do Tribunal de Contas do DF, que tenta aumentar de 43,53% a 65% os salários de seus funcionários. A medida, vetada pelo governo do DF e aprovada pela Câmara Distrital, acaba de ser suspensa por liminar do Tribunal de Justiça. Depois, claro, de parar na imprensa.

Moral da história: resistir, pressionar e gritar é preciso, sempre e cada vez mais. A luta continua!

Vivendo e aprendendo a jogar - PEDRO FLORIANO RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO -28/02
A conquista das presidências da Câmara e do Senado pelo PMDB, somadas à Vice-Presidência da República, resultou em um acúmulo de poder institucional que não se via na democracia brasileira desde 1987-88, quando o próprio partido detinha o controle do Congresso e a Presidência do país, com José Sarney. Desde então, muitos se perguntam como um partido ideologicamente amorfo e heterogêneo, desprovido de lideranças nacionais de destaque e de um projeto eleitoral unificado, consegue tamanho êxito, a ponto de situar-se como parceiro indispensável de quaisquer dos governos liderados por PSDB e PT, que polarizam a dinâmica nacional desde 1994. Como explicar esse aparente paradoxo?

Em primeiro lugar, a força do PMDB possui óbvias conexões com aspectos institucionais do sistema político. Em nosso arranjo federativo, as eleições para o Congresso não ocorrem no país como um todo, mas nos Estados: assim, partido forte no plano nacional é partido capaz de eleger muitos deputados e senadores na maioria dos Estados. Com isso, mesmo sem envolver-se diretamente na disputa presidencial, um partido com grandes bancadas pode se posicionar como ator relevante nas coalizões de governo, inevitáveis frente à fragmentação do atual sistema partidário.

Por outro lado, o PMDB possui uma malha organizacional amplamente difundida pelo Brasil. Em relação às seções municipais, o partido, presente em cerca de 90% das cidades, é superado apenas pelo PT, que se encontra organizado em aproximadamente 97% das localidades (dados do TSE). No entanto, considerando-se também os dados eleitorais, pode-se afirmar que o PMDB ainda possui a maior máquina partidária do país. Embora não ostente os mesmos números de duas décadas atrás, o partido ainda elege a maior quantidade de membros nos municípios: foram 1.020 prefeitos e quase 8 mil vereadores eleitos em 2012, muito à frente de seus concorrentes, como PSDB (709 e 5.250, respectivamente) e PT (633 e 5.173). Em um país extenso e com mais de 5,5 mil cidades, essa capilaridade constitui um capital nada desprezível, que pode ser mobilizado nas eleições para os cargos nacionais e estaduais.

Essa máquina foi construída malgrado um traço que é uma constante na história do PMDB: a falta de coesão interna. Com a imposição do bipartidarismo pela ditadura militar em 1966, extinguindo-se o sistema partidário anterior, deputados e senadores tiveram que se arranjar entre Arena e MDB. Com isso, o partido que teria um papel importante na oposição ao regime militar já nascia altamente heterogêneo, aglutinando tanto parlamentares progressistas que sobreviveram às cassações, quanto representantes de claro matiz conservador, como os provenientes da UDN. Desde então o partido sofre com a falta de um programa unificador, de um amálgama ideológico que articule suas distintas correntes; ao mesmo tempo, já nascendo grande em muitos Estados, sempre enfrentou dificuldades análogas em articular os interesses muitas vezes conflitantes de suas elites regionais.

Nesse panorama, os órgãos nacionais do PMDB funcionaram constantemente como arenas de resolução de conflitos entre os caciques regionais, com a direção nacional atuando ora como mediadora, ora como instrumento de afirmação de um grupo estadual sobre os demais. Ao longo da história, não foram poucas as vezes em que a imobilidade no plano nacional foi a única resultante possível desse precário equilíbrio em um ambiente conflitivo. A partir do fim dos anos 80, com o desaparecimento de fatores que possuíam algum potencial de aglutinação interna (principalmente a luta pela redemocratização), tal heterogeneidade se tornou ainda mais aguda, fazendo do PMDB uma federação de máquinas estaduais, com diferentes perfis programáticos, de ação política etc.

É aqui que se situa a chave do enigma pemedebista. Aprendendo, como poucos, a jogar sob as atuais regras institucionais, os líderes do partido transformaram a heterogeneidade atávica e o amorfismo ideológico em vantagens competitivas. Entre os grandes partidos, o PMDB é o que concede maior autonomia decisória às seções partidárias locais e, principalmente, estaduais, seguindo uma receita de descentralização federalista que marca a história partidária brasileira. Liberada das amarras e compromissos nacionais, cada seção pode adotar as estratégias mais adequadas (e pragmáticas) à realidade estadual, maximizando seu desempenho. Disso resultam grandes (e heterogêneas) bancadas na Câmara e no Senado, garantindo o poder de barganha da sigla. Em um sistema partidário no qual plataformas definidas e diferenciáveis cedem o pouco espaço que tinham a uma espécie de pragmatismo radical das estratégias político-eleitorais, que caminha no limiar entre a negociação e o tráfico de apoios, alianças e legendas, tal tática floresce sem grandes obstáculos - o que não escapa à percepção de outras forças do tabuleiro político, incluindo o PSD de Gilberto Kassab e o novo partido de Marina Silva (a conferir), ambos comodamente autodeclarados "além" da direita e da esquerda, e "nem governo, nem oposição".

Portanto, a falta de um plano político-eleitoral nacionalmente unificado (como possuem PSDB e PT) não é sinônimo da ausência de uma estratégia política. Para o PMDB, a falta de planos nacionais constitui-se, por si só, em uma estratégia política, eficaz em termos da ocupação de espaços de poder em Brasília e, ao mesmo tempo, a única viável para evitar a implosão da sigla. É esse paradoxo, que carrega tanto a força como a fraqueza do partido, que sustenta o protagonismo do PMDB na democracia brasileira.

Confusões inexplicáveis - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 28/02

É muita trapalhada, em muitas frentes, ao mesmo tempo. A Petrobras comprou uma refinaria por um preço muito acima do razoável e teve que lançar parte do dinheiro a prejuízo; o BNDES toma decisões inexplicáveis de alocação de recursos públicos e tem prejuízo; balanços dos bancos públicos saem com meias verdades. Quando tudo dá errado, o Tesouro usa o seu, o meu, o nosso dinheiro.

O resultado de toda essa confusão será mais confusão, porque o governo escolheu o caminho dos ajustes que encomendam mais desajustes. Um encontro de contas honesto, que admitisse todas as perdas com as decisões controvertidas - por equívoco ou coisa pior - revelaria o tamanho real do rombo que o governo nos últimos anos foi criando para o país. Quem crê que as contas sempre têm que ser pagas sente uma compreensível preocupação com as notícias que diariamente aparecem nos jornais sobre as operações perigosas dos vários tentáculos do governo.

É o caso de Pasadena, o estranho episódio da refinaria que foi comprada de uma trading belga, em 2005, e um ano depois vendida para a Petrobras por um preço várias vezes maior e que já fez a estatal lançar à prejuízo meio bilhão de reais no último balanço. Ou os belgas são muito astutos, ou as decisões na Petrobras foram tomadas por pessoas sem qualquer noção de valor, ou são todos os envolvidos bem espertos.

O "Estado de S.Paulo" revelou ontem que o Ministério Público apresentou ao Tribunal de Contas da União representação contra a Petrobras. Os números são eloquentes: em 2005, a trading belga Astra/Transcor comprou a refinaria de petróleo Pasadena por US$ 42,5 milhões. Um ano depois, vendeu 50% da refinaria para Petrobras por US$ 360 milhões. Depois disso, as sócias se desentenderam e para encerrar a briga a estatal brasileira pagou mais US$ 820,5 milhões à empresa belga. E agora, no balanço do quarto trimestre, a Petrobras lançou a prejuízo R$ 464 milhões. Ou seja, esse valor é o prejuízo até o momento do impressionante negócio feito pela empresa.

No balanço do BNDES, foram registrados R$ 3,32 bilhões de perdas com empréstimos ou capitalizações que fracassaram. Uma dessas perdas foi a tentativa frustrada do BNDES de fazer uma gigante de leite, a LBR-Lácteos, no qual entrou com 30% do capital e que está em processo de recuperação judicial. Só nesse erro o banco perdeu R$ 865 milhões. Há casos discutíveis em várias áreas, em que o banco tem entrado de forma atrapalhada e sem prestar contas à sociedade, com estratégias discutíveis e prejuízos indiscutíveis. O lucro do banco só não caiu muito porque o Conselho Monetário Nacional permitiu que ele não registrasse a perda de valor das ações transferidas pelo Tesouro.

Nunca é demais lembrar que houve ainda o caso da Caixa, que comprou 49% das ações do Panamericano por R$ 800 milhões, para logo depois descobrir que ele tinha um rombo de R$ 4,3 bilhões. Depois disso, a Caixa teve que pôr mais dinheiro no Panamericano.

O caso da refinaria Abreu e Lima construída pela Petrobras é outro que precisa de boas e bem contadas explicações porque os custos de construção deram saltos ornamentais. No início, seria de US$ 2,5 bilhões e está caminhando para US$ 20 bilhões. E o único ganhador com isso será o petróleo venezuelano, já que ela foi desenhada para refinar apenas o petróleo do país vizinho.

O Tesouro se prepara para fazer mais uma capitalização no BNDES que pode chegar a R$ 8 bilhões. Isso depois de ter transferido a títulos de empréstimos R$ 350 bilhões desde 2008 para o banco. A fonte tradicional de financiamento do banco é o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), que só conseguiu fechar suas contas no positivo porque o Tesouro injetou R$ 5 bilhões.

Esses são alguns dos casos estranhos. Não são os únicos.

Esvaziamento da industria - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 28/02
Amanhã saem as Contas Nacionais (evolução do PIB) do quarto trimestre de 2012. Uma das coisas que se verificarão é que a participação da indústria de transformação na renda nacional terá caído de 14,6%, em 2011, para alguma coisa em tomo dos 13% em 2012. Segue-se que, se o governo persegue forte crescimento do PIB, cada vez menos poderá contai- com a indústria de transformação para isso.

Em outras palavras, no ponto em que estamos, o avanço mais significativo do PIB não se obtém com empurrão ao consumo de bens industriais - seja pelo estímulo ao crédito, seja pela redução de impostos sobre produtos de consumo durável. Será obtido, sim, se o governo puxar pelo avanço dos serviços, o que, evidentemente, não pretende. E, se for verdade que o setor de serviços começa a perder dinamismo, como sugere o ministro da Fazenda, Gui- do Mantega, ficará inevitável um desempenho também mais limitado do PIB.

Caso se confirme o crescimento da produção (e da renda) da indústria de transformação na ordem de 3% em 2013, como ainda ontem reafirmou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, a contribuição desse avanço para o do PIB do ano deve ser inferior a 0,4 ponto porcentual.

Isso não quer dizer que a indústria nacional não deve ser estimulada com agressiva redução de custos e com aumento de escala de produção. É necessário que uma economia como a brasileira tenha um setor industrial forte.

O problema é que as políticas do governo nesse sentido são tímidas e contraditórias. Não conseguem caminhar, por exemplo, na desoneração dos encargos trabalhistas. Primeiro, puxa o câmbio para dar mais competitividade à indústria, mas, no meio do caminho, se arrepende e volta atrás. Além disso, até agora, o governo não se empenhou em abrir o mercado externo. As políticas protecionistas e de defesa comercial, quando eficazes, limitam-se apenas a criar mais reserva de mercado interno. As negociações destinadas à obtenção de acordos de livre comércio praticamente pararam. E a política de boa vizinhança e de tolerância com a Argentina derrubaram o mercado do Mercosul para a indústria. Em relação a 2011, as exportações para o Mercosul em 2012 caíram 18% e, para a Argentina, 20%.

As causas do esvaziamento da indústria vém sendo objeto de intensas discussões. O livro O futuro da indústria no Brasil, com textos organizados por Edmar Bacha e Monica Baumgaiten de Bolle, é valiosa contribuição para isso.

De todo modo, fica demonstrado que decisões estratégicas de política econômica tiveram por resultado a intensificação do esvaziamento da indústria. Esse esvaziamento não deve ser entendido como "desindustrialização" - conforme vai sendo repetido por aí. Não é o caso, na medida em que não há transferência física de fábricas e de linhas de produção para outros países, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa.

O investimento em infraestrutura que começa a ser atacado com mais determinação pelo governo Dilma ajudará a reduzir os custos da indústria - e, portanto, a fortalecê-la. Mas seu impacto somente será observado a longo prazo.

Dois pontos

Duas afirmações se sobressaem entre as que a presidente Dilma Rousseff fez ontem no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. A primeira, de que o governo pretende um investimento de 25% do PIB. Faltou explicar como. A segunda, de que não pode haver divórcio entre público e privado. Se for um jeito de enfrentar a repulsa histórica do PT à privatização, é um grande avanço.

Ônibus gratuito - MARCELO MITERHOF

FOLHA DE SP - 28/02

O Brasil precisa adotar a prática de subsidiar pesadamente a operação dos transportes coletivos


A coluna passada tratou dos lentos avanços no transporte coletivo, o que é em certa medida surpreendente, pois, dado seu impacto sobre o bem-estar cotidiano da população, boas iniciativas no setor são recompensadas eleitoralmente.

Nesse sentido, lembrei que a alta popularidade da ex-prefeita Marta Suplicy nas periferias de São Paulo se deve em boa parte à criação do Bilhete Único. Porém, a necessidade de elevar as receitas para subsidiar essa e outras políticas públicas se refletiu em sua rejeição nas regiões mais ricas da cidade.

Por isso, defendi que -além de fortalecer o planejamento, o que permite melhor avaliar as opções existentes e seus custos- as decisões sobre o transporte público deveriam ser submetidas mais diretamente à população, por exemplo em orçamentos participativos.

Assim, seria mais fácil avaliar a adoção de subsídios públicos operacionais, que são cruciais para a eficiência dos transportes coletivos.

Em 2011, participei de um seminário sobre tecnologias de motorização de ônibus no qual o representante de uma montadora disse que no Brasil, ao contrário do resto do mundo, a empresa não aposta em motores elétricos ou híbridos. A razão é que aqui em geral não há subsídios para a operação dos ônibus.

Essa era uma preocupação com a política industrial. Mas o caso aponta para os problemas que a rara presença de subsídios traz para o transporte coletivo no país. Por exemplo, o tipo de veículo mais comum no Brasil é feito de chassis de caminhão com carroceria de ônibus. Isso faz, por exemplo, com que pessoas com dificuldade de locomoção tenham que subir altos degraus para entrar nos ônibus.

Alguns grupos têm na comercialização de ônibus novos e usados um negócio mais importante do que a atividade de transportar pessoas.

Isso significa que usar um modelo de alta qualidade, durável e mais caro tende a ser pior negócio do que usar outros mais simples, baratos e que podem ser depreciados em poucos anos -e revendidos em seguida-, sob uma tarifa suportável pela população mais pobre.

Como entendem técnicos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), uma ONG que trabalha com mobilidade urbana à qual me referi na semana passada, sem subsídios é difícil otimizar o transporte público, pois o impacto na tarifa o faz perder competitividade. Por exemplo, ter uma motocicleta pode sair mais barato do que andar de ônibus ou metrô.

Os malefícios são diversos: mais acidentes, engarrafamentos e poluição. Com problemas tão generalizados, o subsídio vai além de uma política social de favorecimento dos usuários dos transportes coletivos.

Nesse sentido, gostaria de ver em prática uma opção radical: tarifa zero para o transporte coletivo, que seria financiado totalmente por impostos. Entre eles pode haver uma taxa municipal que incida juntamente com o IPTU, um adicional sobre o IPVA de veículos de regiões metropolitanas para financiar metrô e trens e ainda um tributo que capture o que as empresas já gastam com o vale-transporte. As transportadoras seriam remuneradas pelos quilômetros rodados.

Num transporte público eficiente não há desperdício. As pessoas se deslocam porque precisam. É diferente, por exemplo, de manter tarifas de eletricidade muito baixas, o que tende a prejudicar a conservação de energia. No transporte de passageiros, se alguém quer somente passear num ônibus pela cidade -algo bem incomum em comparação a esquecer lâmpadas acesas-, esse é um uso justificável.

O planejamento, a alocação da oferta de transporte, a definição dos tipos de veículo, a fiscalização e outras questões operacionais poderiam ser feitos por uma agência reguladora, que atuaria em conjunto com prefeituras e governo estadual, que seriam os responsáveis pelos investimentos em infraestrutura.

Uma iniciativa assim seria mais fácil de começar numa cidade média, sem transporte de passageiros sobre trilhos, mas nada impede de ser adotada em regiões metropolitanas, integrando ônibus, metrô, trens e meios alimentadores.

Essa é apenas uma ideia. O importante é que o Brasil precisa adotar a prática internacional de subsidiar pesadamente a operação dos transportes coletivos para ter um sistema eficiente. Espero que um prefeito perceba que essa é uma iniciativa à espera de um líder, que mostre o quanto isso faz diferença para a população.

A caça aos investidores - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 28/02
Com um programa de investimentos de US$ 235 bilhões em infraestrutura, o governo brasileiro decidiu buscar no exterior empresários interessados em participar de grandes projetos nas áreas de transporte e energia. A ideia de investir num país com o tamanho e o potencial do Brasil pode ser muito sedutora, mas é preciso muito mais que um belo cardápio de oportunidades para atrair interessados e criar parcerias. Não se aplicam somas enormes em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, sistemas de geração e transmissão de eletricidade e esquemas de exploração de petróleo e gás sem muita confiança no país hospedeiro e sem perspectivas bem definidas de retorno. Essas condições deveriam ser evidentes para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e seus companheiros na primeira rodada de exposições para possíveis investidores, em Nova York. De toda forma, teriam ficado claras pelas perguntas apresentadas durante os contatos. Participaram dos encontros, na terça e na quarta-feira, cerca de 350 representantes de bancos, fundos e empresas operadoras de serviços de utilidade pública. Novas exposições e conversas estão previstas para esta sexta-feira, em Londres.

O ministro da Fazenda apresentou o Brasil como um país de "segurança e rentabilidade". Precisou tocar nesses pontos por dois motivos. Houve perguntas sobre possíveis quebras de contratos na recente renovação de concessões no setor elétrico.

Além disso, o governo tem tratado com inabilidade a questão do retorno sobre o investimento em infraestrutura. Tentando eliminar desconfianças, o ministro mencionou, vagamente, uma taxa real em torno de 10% ao ano.

Pode-se discutir se esse número é razoável ou mesmo se tem sentido fixar um número. De toda forma, palavras e atos de autoridades têm justificado uma dúvida: o governo está interessado, afinal, em garantir serviços de padrão internacional com um custo razoável ou em limitar o lucro das operadoras? Bons serviços a preços compatíveis com os de outros países são essenciais para a produção brasileira, em todos os setores, se tornar mais competitiva. Tem sentido cobrar a transferência de uma parte dos ganhos de produtividade aos consumidores. Mas a mera restrição ao ganho dos investidores em infraestrutura é só uma tolice ideológica. E tolices desse tipo têm sido frequentes e notórias.

O ministro teve de enfrentar várias questões a respeito da qualidade do governo, de suas prioridades e das perspectivas de estabilidade da economia brasileira. Perguntas detalhadas sobre os programas setoriais seriam, naturalmente, dirigidas a outros membros da missão, especialistas nas áreas de transportes, eletricidade e petróleo e gás. Mas a conversa do ministro Mantega com os investidores poderia ter sido mais simples, com certeza, se houvesse menos dúvidas sobre a gestão macroeconômica e sobre a própria concepção oficial do desenvolvimento.

Dúvidas sobre a política educacional, por exemplo, envolvem um ponto de enorme importância para quem se disponha a investir no Brasil. O ministro mencionou, como resposta, o tamanho da verba destinada ao Ministério da Educação. Mas quem formula esse tipo de pergunta deve ter, muito provavelmente, alguma informação sobre a qualidade do ensino e sobre as dificuldades de recrutamento de mão de obra treinada ou treinável.

Também houve perguntas sobre inflação. O ministro da Fazenda procurou tranquilizar o auditório, atribuindo a aceleração dos aumentos de preços, em meses recentes, às condições do mercado internacional de commodities. Essa resposta pode ter convencido os menos informados, mas a própria tolerância do governo a taxas de inflação bem acima de 4,5% tende a reacender todas dúvidas sobre o assunto.

Perguntas sobre esse e outros aspectos da gestão pública indicam muito mais que a preocupação com detalhes da vida econômica. Grandes investimentos envolvem parcerias de prazo muito longo, especialmente quando se trata de explorar serviços de infraestrutura. Atrair capitais, em casos como esses, envolve um delicado teste de imagem do governo e do País. A presidente Dilma Rousseff e seus ministros deveriam pensar mais seriamente sobre isso.

Supersafra represada - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 28/02

Infraestrutura põe em risco distribuição e exportação de 185 milhões de toneladas de grãos; portos são só a ponta de um iceberg de ineficiência


A ninguém terá surpreendido a revelação, nesta Folha, da penca de irregularidades detectadas pela Presidência da República nas companhias Docas, estatais encarregadas de administrar 17 dos principais portos do país. Não é de hoje que se conhece a ineficiência dessas instalações, gargalo responsável por boa parte do custo Brasil.

Só no governo Dilma Rousseff foram necessários aportes de R$ 1,2 bilhão do Tesouro para sustentar essas companhias. Elas afirmam que os recursos são usados para ampliar e melhorar os portos, mas não se vislumbram resultados práticos dos supostos investimentos.

A incúria gerencial parece imperar. É o que sugerem os muitos casos de contratos firmados sem licitação e o desperdício de recursos públicos em obras -para dar dois exemplos das falhas encontradas pela Secretaria de Controle Interno da Presidência.

Para completar a equação do atraso, a contratação de portuários é controlada por guildas encasteladas nos Ogmos (órgãos gestores de mão de obra). Resultado: entre 142 países listados pelo Fórum Econômico Mundial, os portos do Brasil amargam um 130º lugar no ranking de eficiência.

Com uma supersafra de 185 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas à vista, crescimento de 11% sobre o ano anterior, esse estrangulamento é mais que preocupante. E ele não está só nos portos: armazenamento e transporte também oneram o produto nacional.

Segundo o especialista em economia agrícola Marcos Sawaya Jank, o Brasil conta com silos para apenas 72% da safra de soja e milho, em contraste com 133% nos EUA (folga necessária para dar conta dos transbordos de cargas). Para que os grãos cheguem da lavoura ao porto, pagam-se aqui US$ 85 por tonelada, de acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais -enorme desvantagem diante dos US$ 23 nos EUA e dos US$ 20 na Argentina.

Mesmo assim, o país se tornou o primeiro produtor e exportador mundial de soja e o maior exportador de milho, o que dá uma boa medida da produtividade do agronegócio nacional. O setor contribui com um superavit de U$ 80 bilhões para a balança comercial.

No que respeita a armazenagem e transportes -rodovias em frangalhos, ferrovias insuficientes e hidrovias impraticáveis-, o governo federal mal se mexe. Parece ter despertado para a questão dos portos, com a liberalização prevista na medida provisória 595, mas enfrenta forte oposição na própria base de apoio parlamentar e sindical.

Neste caso, não há dúvida sobre onde está o interesse nacional. A dúvida é se a presidente Dilma terá firmeza para ficar do seu lado.


O custo de erros sobre o BNDES - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 28/02

A conjuntura internacional é sempre desculpa conveniente para governantes às voltas com turbulências na esfera econômica. O truque é antigo, mas nem sempre funciona. Não funcionaria no caso da queda do lucro do BNDES, em 2012, em que o resultado de R$ 8,2 bilhões significou uma perda de 9,55% em relação ao ano anterior.

Nada que abale a maior instituição de fomento do país, dentro dos conformes em relação ao parâmetros usuais de medição da saúde financeira bancária: índice de Brasileia, taxa de inadimplência etc. O resultado ruim do BNDES tem importância para realçar erros de estratégia cometidos pelo próprio banco e equívocos praticados pelo Planalto, ao permitir o aparelhamento político-sindical da Petrobras e intervir com mão pesada no setor elétrico, provocando grande desvalorização patrimonial na Eletrobras, fatos com reflexos negativos diretos no banco, grande acionista histórico das duas estatais. O valor da carteira de ações do banco, administrada pelo BNDESPar, subsidiária de participações da instituição, caiu de R$ 89,6 bilhões para R$ 78,2 bilhões, e também foi menor o recolhimento de dividendos.

O banco também fez más apostas na sua política de induzir o surgimento de “campeões nacionais” — oligopólios empresariais, ao estilo do que foi tentado, também sem êxito, no governo militar de Ernesto Geisel, e, à época, já por meio do BNDES. O banco tem esta memória nos arquivos. O BNDESPar, por exemplo, foi obrigado a fazer uma baixa contábil de R$ 3,3 bilhões para se precaver diante de possíveis prejuízos. Deste total, R$ 865 milhões devem-se a investimentos na LBR-Lácteo, mais uma tentativa de gerar um grande grupo “campeão nacional”, este no mercado de leite. O projeto terminou em concordata. O grupo, formado por fusões de empresas financiadas pelo banco, está em recuperação judicial. Pode sobreviver ou não.

Há outros casos semelhantes. Enquanto isso, dezenas de bilhões em dinheiro público, oriundos de endividamento feito em nome do contribuinte, têm sido injetados no banco. Entre 2009 e o ano passado, foram R$ 285 bilhões, contabilizados como empréstimos do Tesouro ao BNDES, e que, por isso, não aparecem na dívida líquida pública — indicador de solvência fiscal mais usado no Brasil.

Diante do mau desempenho em 2012, noticiou o jornal “O Estado de S.Paulo” que já se pensa em Brasília na injeção de algo entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões no banco, não como empréstimo, mas diretamente no seu patrimônio líquido.

É cada vez mais necessário haver transparência nessas operações Tesouro-BNDES. Bem como discutir-se a estratégia de atuação do banco, que poderia abrir o leque de clientes, para apoiar mais o empreendedorismo no âmbito dos pequenos e médios negócios.

O fato de o BNDES ser a única grande fonte de financiamentos de longo prazo no país não serve de desculpa para uma atuação tão seletiva e concentrada — e mesmo assim de elevado risco.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“A máscara do PT caiu, e a realidade ficou estampada”
Deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), sobre supressão do mensalão em outdoor do PT


DF: EMPRESÁRIO AMEAÇA MATAR GOVERNADOR E VICE

O dono do Grupo Amaral, Dalmo Amaral, 78, cujas empresas estão sob intervenção do governo do Distrito Federal, ameaçou assassinar o governador Agnelo Queiroz (PT) e seu vice Tadeu Filippelli (PMDB), quando equipes do governo assumiram o controle de suas três empresas de ônibus, segunda-feira (25). Exaltado, o empresário se referiu a “contas a ajustar” com Fillippelli, que comandou a operação.

LEVANDO A SÉRIO

O governo do DF minimizou a ameaça de Dalmo Amaral, considerando sua idade, mas mudou de ideia: ao menor movimento, ele será preso.

REFORÇO

Agora, por via das dúvidas, tanto o governador do DF quanto seu vice tiveram reforçadas suas equipes de segurança.

SOB PROTEÇÃO

Também estão sob proteção o secretario de Transportes, José Walter Vasques, e Carlos Alberto Koch, presidente da estatal de ônibus TCB.

DECADÊNCIA

Amaral começou a construir no fim dos anos 1950 um império que chegou a mais de 1.400 ônibus. Hoje, tem pouco mais de duzentos.

DENUNCIANTE NO TCU É LIGADO À ‘MÁFIA DA MOOCA’

O Tribunal de Contas da União busca informações sobre Paulo Rui de Godoy Filho, de uma consultoria “GF”, cuja representação fez o TCU travar a licitação da estatal Valec para comprar 2 mil km de trilhos para as ferrovias Norte-Sul e Leste-Oste. Godoy seria ligado a Julio Manfredini, da Capricórnio, empresa da “Máfia da Mooca”, denunciado pelo Gaeco (Grupo de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público paulista, por formação de quadrilha, fraude, lavagem etc.

É A CONCORRÊNCIA

A “Máfia da Mooca”, adversária da PNG (vencedora do leilão da Valec), fornece com exclusividade uniformes ao governo tucano de São Paulo.

FONTE ESTRANHA

Com base em queixa de Godoy, o ministro Walton Azevedo (TCU), de boa-fé, concedeu cautelar contra a Valec suspendendo a licitação.

INDIGNAÇÃO

A suspensão da licitação da Valec deixou indignada a presidente Dilma, segundo fonte do governo. É mais um obstáculo à obra do PAC.

OUVIDORIAS CONTRA ABUSOS

Entidades policiais devem dar o troco no Ministério Público Federal, que pressiona o governo a criar ouvidoria para receber denúncias de abusos da polícia. Querem também ouvidoria contra abusos do MP.

MENÇÃO DESONROSA

O aeroporto internacional de Guarulhos (SP), administrado pela estatal Infraero, só perdeu de Dacar (Senegal) e Havana (Cuba) na pesquisa com clientes do portal de viagens eDreams sobre os piores do mundo.

ALÍVIO

Investigado no Itamaraty por assédio moral no Consulado-geral em Sidney (Austrália), o embaixador Américo Fontenelle só aparece de manhã. O adjunto Cezar Cidade, também investigado, sumiu.

SE A MODA PEGA...

Oruro, terra natal do cocaleiro Evo Morales, está em greve contra a proposta do governador de batizar o aeroporto local com o nome dele. Os sindicalistas dizem que vai “manchar a história da cidade”.

DESCULPA ESFARRAPADA

O Sindicato dos Condomínios do DF anunciou aumento médio de 28%, em 2013, seis vezes a inflação do ano. O pretexto é a alta da água e do “pessoal de limpeza”. Já redução na conta de luz não entra no cálculo.

QUINZE METROS

A imobiliária do ricaço Eike Batista jura que terá 15m de altura, portanto mais baixa que o imóvel existente no local, a edificação prevista na reforma da Marina da Glória, segundo o projeto “aprovado pelo Iphan”.

MEU SALÁRIO, MINHA VIDA

Embora não admitam em voz alta, para evitar desgaste, há deputados indignados com a iniciativa histórica do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), extinguindo 14º e 15º salários.

O LEITOR

O súbito gosto pela leitura não fez bem ao ex-presidente Lula: do que disse ter lido sobre o ex-presidente americano Abraham Lincoln, só destacou a “imprensa que batia nele, igualzinho bate em mim” (sic).

PENSANDO BEM...

...Barack Obama não disse “Lula é o cara”, mas, sim, “ele é o Lincoln”.


PODER SEM PUDOR

PERDA SENTIDA

O veterano deputado Wilson Braga (PFL-PB) estava desolado com sua derrota na disputa para o Senado, em 2002. Até chorou, em uma entrevista no rádio. Seu colega Damião Feliciano (PMDB-PB) puxou conversa:
- Como está se sentindo, Wilson, indo embora para casa?
Tocou no ponto fraco de Braga, que comparou as dores de perda:
- Perder eleição é pior do que perder parente próximo!...

QUINTA NOS JORNAIS


Globo: A guerra do Petróleo – STF libera Congresso para decidir já sobre royalties
Folha: No adeus, papa lamenta os momentos difíceis
Estadão: A Igreja atravessou ‘águas turbulentas’ diz papa ao sair
Correio: Fim. Pressão acaba com 67 anos de privilégio
Estado de Minas: Até fazendeiro e político ganham o bolsa-pesca
Zero Hora: Santa Maria em busca de respostas – Bombeiro assinou alvará sem plano contra incêndio
Valor Econômico: Governo tenta reverter o pessimismo com inflação

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

PT - VAGABUNDOS E MENSALEIROS!



UM PARTIDO DE CORRUPTOS E MENTIROSOS


Assassinato em Oruro - JOSÉ NEUMANNE

O ESTADÃO - 27/02

O que ocorreu em Oruro, na Bolívia, há uma semana não foi um acidente, mas um assassinato. E o único inocente nessa história é a vítima, o boliviano Kevin Douglas Beltrán Espada, de 14 anos, torcedor do San José, que recebia o Corinthians Paulista na primeira rodada de seu grupo da Taça Libertadores da América. O assassino, seja quem for - seja um dos presos pela polícia local ou não, seja o menor apresentado aos meios de comunicação antes de ser levado às autoridades (um sinal de nossos tempos midiáticos) ou não -, terá de ser identificado e processado na forma da lei.

Ninguém, a bem da verdade, espera que a polícia boliviana seja mais eficiente do que seria a brasileira se o incidente (e não uma tragédia acidental) houvesse ocorrido em território nacional. A manutenção de 12 corintianos presos, sendo atribuída a autoria a dois e impingida à dezena restante a pecha da cumplicidade, sem que seja apresentado o autor do disparo, aumenta essa dúvida. Afinal, o assassino poderia ser identificado, até com relativa facilidade, nas imagens geradas pela emissora local de televisão, com o uso de tecnologia simples. Mas a demora em identificar o assassino na cena gravada do crime não deve servir de desculpa para a reação sem propósito dos brasileiros envolvidos no episódio e da cúpula da Confederação de Futebol da América do Sul (Conmebol) na punição adotada.

A rápida localização do bode expiatório perfeito - de família pobre e menor de idade - em nada isenta ninguém. A julgar que realmente H. A. M., de 17 anos, tenha disparado o artefato, como é alegado, resta perguntar: quem era o maior responsável que o acompanhou na viagem para fora do País, onde ele teria comprado o sinalizador naval que serviu como arma do crime e, caso este pertencesse a outrem, quem era o dono? É bom alertar, de saída, que a inabilidade alegada pelo autor, em oportuna entrevista à televisão, não deveria servir de atenuante, mas de agravante, similar à de um menor acusado de atropelar alguém sem habilitação para conduzir automóvel.

Ainda que se esclareça isso e se encontre uma explicação para o fato de o menor ter deixado o território boliviano para confessar o crime a confortável distância do local onde ele ocorreu e ao qual não será tão fácil como se pensa ele voltar, o episódio não pode ser resolvido assim, num piscar de olhos. Além da necessária identificação de quem disparou e do indispensável processo penal para puni-lo, urge pôr fim à violência em estádios sul-americanos e à facilidade com que esta é perdoada a pretexto da paixão clubística.

No século 20, a filósofa alemã judia Hannah Arendt cunhou a expressão "banalidade do mal" para explicar o genocídio praticado em ditaduras. Este é um caso de banalização da morte. Por isso mesmo não pode ser tratado no velho padrão da diluição da responsabilidade, uma das raízes da impunidade que assola e envergonha a sociedade brasileira em vários campos de atividade, entre as quais o esporte, o futebol em particular.

Assim como um ex-jogador do Corinthians, Vampeta, definiu sua relação profissional com o time de maior torcida do Brasil, o Flamengo, numa sentença-síntese - "eles fingem que pagam, nós fingimos que jogamos" -, a argumentação do clube que vem de ganhar o Campeonato Mundial pela segunda vez se baseia na presunção da inocência coletiva pelo crime individual. Pretextos do tipo "a torcida inteira não pode pagar pelo delito de um torcedor" ou "quem comprou ingresso para os próximos jogos do time não pode ser prejudicado" desrespeitam a memória da vítima. Faixas, chororô e minutos de silêncio são de uma desfaçatez de fazer corar frade de pedra.

O policial Mário Gobbi, presidente do clube, deslustra seu currículo ao reivindicar para sua grei o direito de delinquir sem punição. O Corinthians é uma "nação" quando convém e na adversidade deixa de sê-lo? O truísmo é tolo: todo time perde mando de jogo em represália a torcidas mal comportadas.

Se urge deter as mãos que disparam projéteis em arquibancadas, para isso deveriam ser aplicadas punições mais duras do que as anunciadas pela Conmebol. Um exemplo histórico mostra que é possível acabar com a violência em estádios de futebol. Em 29 de maio de 1985, 39 torcedores morreram e 600 ficaram feridos no Estádio de Heysel, em Bruxelas, na Bélgica, durante a final da Liga dos Campeões da Europa, entre a Juventus, de Turim, Itália, e o Liverpool, da cidade portuária britânica dos Beatles, num tumulto provocado por hooligans. Por causa da tragédia, todos os times britânicos foram suspensos por cinco anos dos torneios da Uefa, entidade que gere o futebol europeu, como a Conmebol o da América do Sul. O Liverpool, time de tradição na Grã-Bretanha comparável à do Corinthians aqui, ficou seis anos fora das disputas. E 14 torcedores identificados pela polícia belga como criadores do distúrbio passaram três anos na cadeia. Desde então se adota no Reino Unido a prática de impedir que encrenqueiros frequentem estádios nos jogos de seus times: enquanto a bola rola, executam trabalhos sociais. Hoje, alambrados e até fossos são dispensáveis em estádios ingleses.

Será sonho de uma noite de verão esperar que um dia isso ocorra nesta "pátria em chuteiras" e nos domínios da Conmebol? Pelo visto, brasileiros e bolivianos ainda terão de conviver mais com a banalização da morte pela violência de quadrilheiros travestidos de membros de torcidas organizadas. O Tigre, da Argentina, desrespeitou impunemente a torcida que compareceu ao Morumbi na final da Copa Sul-Americana, em 12 de dezembro último, deixando de jogar o segundo tempo, pois não recebeu dos organizadores a devida punição. O péssimo comportamento do anfitrião, o São Paulo, foi punido com a perda de um mando de campo, o que significa anistia, na prática.

Não suspender o Corinthians por pelo menos esta edição da Libertadores e não proibir sinalizadores navais nas arquibancadas é manter a impunidade e estimular a violência.

Infiltrações - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 27/02

“Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.

Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano Veloso.

Não é o caso de tratar desse assunto isoladamente (por mais absurdo que seja o fato de um investimento tão alto numa obra de drenagem resistir apenas quatro anos), mas de analisarmos o contexto todo: vivemos num país maquiado, em que se as coisas “parecerem” benfeitas, já está ótimo.

A Arena também serviria como exemplo de uma obra entregue às pressas para cumprir calendário, mesmo sem condições básicas de uso. Mas também não pode ser visto como um caso isolado. Há outras tantas em andamento, todas com prazo máximo de 15 meses para serem concluídas (até o início da Copa), e me pergunto: o corre-corre não comprometerá o bom acabamento de viadutos, pontes, prédios e estradas?

Com a intenção de viabilizar orçamentos, não se estará sacrificando a qualidade do material empregado? Os funcionários em atividade estão bem preparados ou fazem um serviço matado, a toque de caixa? Dá pra confiar na espinha dorsal do Brasil?

Há que se ter cuidado com infiltrações. De todos os tipos, aliás. Com a infiltração de inconsequentes em meio a uma torcida, capazes de disparar um artefato com poder destrutivo em direção a outras pessoas, sem levar em conta que o gesto poderá ferir gravemente alguém ou até mesmo matar – como matou o garoto boliviano de 14 anos.

Com a infiltração de médicos e enfermeiros sem ética dentro de hospitais, que desligam aparelhos que mantêm vivos os pacientes, a fim de “desentulhar a UTI”. Com a infiltração de políticos desonestos nas entranhas do poder, que mesmo acusados por crimes diversos assumem cargos de presidência de instituições.

Por fora, bela viola. O Brasil hoje é visto como um país moderno e estável. É uma aposta mundial considerada certeira, um candidato VIP a juntar-se às superpotências. Mas como andará o esqueleto desse país que se declara tão sólido? Na verdade, o Brasil é um jovem com osteoporose precoce, um país descalcificado, que fica em pé à custa de aparências, comprometido com sua imagem pública, mas que segue com uma infraestrutura em frangalhos.

Aqui pouco se investe seriamente em educação, em treinamento de pessoal, em qualificação de mão de obra, em fiscalização, em responsabilidade social, tudo o que alicerça de fato uma nação. Nossa mentalidade “espertinha” faz com que não gastemos muito dinheiro com o que fica oculto, com o que não dá para exibir. O resultado? Por dentro, pão bolorento.

Justiça de saias - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 27/02

Ontem, com a posse da advogada Luciana Lóssio como ministra titular, o TSE passa a ser, por um curto período, o primeiro tribunal superior brasileiro formado por maioria de mulheres. Ele é presidido, como se sabe, pela ministra Cármen Lúcia.

Depois da Bolívia
Do cientista político Wanderley Guilherme sobre a ideia do clube de construir o cemitério Corinthians para Sempre:
— Não seria melhor, construir uma creche-escola para o “Corinthians do futuro”?
Faz sentido.

Voz da América
Depois que Michelle Obama apareceu de franjinha, no Oscar, domingo, dobrou a venda de apliques de franjas na Fiszpan.

Quem te viu
A ex-ministra Zelia Cardoso de Mello era presença discreta ontem no hotel Westin, em Nova York, durante palestra de Guido Mantega. Nem de longe lembrava os tempos em que ela, no governo Collor, mandava e desmandava.

Nara sempre
A Universal lança, em março, a caixa “Nara Leão – Samba, festivais e tropicália”. São 12 álbuns dos anos 60, incluindo “Nara pede passagem” e a trilha do espetáculo “Opinião”.

As mucamas
Ontem, a promotora Gláucia Santana ouviu representantes dos quatro clubes do Rio (Paissandu, Jockey, Piraquê e Caiçaras)que obrigam as babás de filhos dos sócios a usarem uniforme. Trata-se daquela representação da ONG Educafro que acusa os clubes de “discriminação racial e social”.

MINIFAVELA NA GÁVEA
A prefeitura retira hoje essa minifavela que se instalou, acredite, embaixo do viaduto da Estrada da Gávea, na altura do número 200. São 12 pessoas — uma delas com tuberculose — morando em condições precárias, sem água ou esgoto, e vivendo da criação de porcos. Os miseráveis, segundo o subprefeito Bruno Ramos, serão encaminhados para abrigos ou, caso queiram, voltarão para suas cidades de origem. Que sejam felizes! 

Presente de grego
Não foi só para a filha recém-nascida do tricolor Chico Buarque, como lembramos aqui ontem, que o compositor Ciro Monteiro mandou uma camisa do seu Flamengo. Em 1963, quando o atual governador Sérgio Cabral nasceu, Ciro mandou o mesmo presente de grego para seu amigo Cabral, pai, vascaíno roxo.

Só que...
Sérgio Cabral, o pai, que não é bobo, guardou a camisa bem guardada.
— Só mostrei a ele quando tive absoluta convicção de que Serginho era irremediavelmente vascaíno.

Reforço no SporTV
O time do“Redação SporTV” vai ganhar um grande reforço. Ruy Castro, autor da biografia de Garrincha, estará na bancada ao lado de André Rizek a partir de sexta.

Macalé no MoMA
O documentário “Jards”, sobre Jards Macalé, foi selecionado para o festival New Director, New Films, em março, no MoMA, em Nova York. O filme é dirigido por Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha.

Cílios postiços
A estilista Kiki Bastos provocou um burburinho ontem nas ruas da Zona Sul, no Rio. Veja só o acessório que ela pôs em seu carro, cílios postiços. Kiki viu a novidade nas ruas de Londres e comprou os adesivos no Amazon.com.
Não são fofos?

Malhação
A Body Tech comprou a Academia da Praia, uma das mais tradicionais da Barra. É a quinta unidade do grupo no bairro.

Boletim médico
Morreu ontem de meningite, no Hospital Miguel Couto, no Rio, Fábio Batista Ribeiro, 30 anos. Segundo a mulher, Simone, o marido procurou o hospital há quatro dias, mas não foi atendido. Deixa dois filhos.

Mão grande
A BV Financeira terá que pagar R$ 3 mil para Lúcia Vieira, que fez um contrato de empréstimo com a empresa, mas, mesmo após quitá-lo, continuou sendo descontada em folha. A decisão é do desembargador Antonio Bastos, do TJ do Rio.

Ponto Final
Ciro foi outro a dar razão ao Barão de Itararé quando disse: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada.” Com todo o respeito.

Fantasmas - ROBERTO DaMATTA

O Estado de S.Paulo - 27/02

Neste final de mês, lembrei-me de uma instituição bem conhecida e pouco estudada - a amizade -, que tanto nos ajuda nas agruras (e no saboreio) desta vida, ao passar virtualmente uma semana na Carolina do Sul, Estados Unidos, entre Atlanta, Charleston e Seabrooke Island.

Ao longo desses poucos dias frios e chuvosos, desfrutei de uma grata e ensolarada hospitalidade do casal Bete e Conrado Kottak, que nos recebeu e proporcionou raros e ilustradíssimos passeios pelos locais históricos dessas cidades sulistas tão densas de história e memória da guerra civil de 1861-65. Esse conflito, que fez o sul dos Estados Unidos, uma região tão parecida em concepção de vida e trabalho com o Brasil, perder parte de sua identidade, quando foi incorporada por meio da força das armas à "União", então presidida por Abraham Lincoln.

Vale a pena viajar fora do eixo Miami/New York; ou Chicago/Los Angeles para conhecer o lado mais tradicional da América. Essa região marcada pela escravidão, pelas grandes fazendas de algodão e fumo, por uma economia de exportação primária tocada a escravidão e - tal como o Brasil de hoje - resistente à igualdade e ao liberalismo como estilos de vida. A ênfase na comida em conjunto, e na arte de conversar, foi parte do meu deleite quando em companhia de Conrado Kottak, professor emérito da Universidade de Michigan (Ann Arbor), autor de estudos de Arembepe, de Madagáscar, da televisão brasileira e do melhor livro de introdução à Antropologia que li até hoje, com quem discuti minha velha antropologia, pois é o velho que nos renova.

Toda essa jubilância culminou com uma visita à velha casa grande Edmondston-Alston. Para os americanos, assustava a cozinha separada da casa e as passagens secundárias destinadas aos escravos que viviam em suas senzalas e serviam seus donos em tudo e a toda hora, tal como até hoje ocorre no Brasil. Era uma casa em tudo brasileira. Excedia nesse brasileirismo, como diria Gilberto Freyre, as varandas com vista para o rio que, calmo e misterioso, passava sem parar. Não foi por acaso que George Gershwin escreveu Porgy and Bess exatamente em Charleston, em 1935, para ser o que chamava de uma "ópera americana popular". Música, comida e o gosto pela sociabilidade familística, eis alguns traços fortes deste Sul tão bem dramatizado por, entre outros, Mark Twain, William Faulkner e Tennessee Williams.

E excedia também, conforme descobrimos no finalzinho da visita, pela presença do fantasma de uma de suas donas. Ela, diz o guia, abre portas fechadas e fecha portas abertas. E quando reina o silêncio escuro dos mortos que tanto nos perturba, faz barulho. Mas, diferentemente dos fantasmas nacionais brasileiros, não pede por missa nem padre-nossos porque o país não é católico e porque na América são os vivos que controlam os mortos, tal como este mundo controla o outro, como manda a mística luterano-calvinista. A ideia de um "paraíso agora" e não no futuro é o que fez esse sul virar o Sul desta América ainda voltada pera o futuro, apesar desses tempos de fanático direitismo.

Fui dormir pensando mais nos fantasmas do que no Sul do livro ...E o Vento Levou, escrito em 1936, cuja autora, Margaret Mitchell, morreu atropelada numa das ruas de Atlanta. Quando estava deitado, ouvi um barulho na varanda, mas era apenas um gato que me olhava como se eu fosse o famoso gato preto dos dois livros clássicos de Erico Verissimo sobre os Estados Unidos os quais, pensei na hora em que fitei o bichano, me impulsionaram, ao lado de Fred Astaire, Doris Day, O. Henry, Ava Gardner, Frank Sinatra e aquelas camisas com botões nos colarinhos, a conhecer os Estados Unidos.

Lembrei então de uma experiência estranha que vivi em 1990, na Universidade Brown, quando ao tomar parte de uma conferência sobre a América Latina, fui hospedado numa casa igualmente ilustre e sombria. Ninguém falou em fantasma, mas senti aquela sensação de estar sendo seguido todo o tempo. Onze anos depois, numa outra conferência, desta vez na cidade de Ascona, Suíça, um colega de Brown, o famoso professor Bill Bilman, antropólogo e cantor de ópera, confirmou surpreso minha intuição me contando o seguinte:

Num outro evento em Brown, a convidada mais bonita foi assombrada noite adentro pelo fantasma de um rapaz que aparecia sentado ao lado de sua cama. Apavorada ela perguntou naquele estilo americano direto: "What do you want? (o que você quer?)" - a assombração sumiu.

Bill elogiou meu sexto sentido parte, na sua teoria, de todo bom antropólogo. Melhor observador do que teórico, retruquei que o quente do caso não era a minha sensação, que também senti na Capela Sistina, em pleno Vaticano, mas o fato de a moça se dirigir ao fantasma de modo direto, usando o igualitário "você" e exigindo que ele dissesse o que queria. No caso do Brasil, fantasmas são sempre endereçados com o velho e apropriado "vós" e "senhor" e são eles que demandam.

Afinal, entre nós, como fica provado pela política, são os velhos e os mortos que controlam a vida. Ou, pelo menos até hoje, tentam fazê-lo. Até que alguém descubra que fantasmas são ficção e só viram realidade quando queremos.

Em defesa do homossexualismo - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 27/02

SÃO PAULO - Alguns membros de comunidades homoafetivas e simpatizantes me recriminaram porque, no sábado passado, numa coluna em que critiquei as declarações do pastor Silas Malafaia sobre gays, eu utilizei o termo "homossexualismo", e não "homossexualidade", como teriam desejado.

Estou ciente dessa preferência, mas receio que ela não tenha o fundamento alegado. Ao contrário do que dizem alguns militantes, simplesmente não é verdade que "-ismo" seja um sufixo que denota patologia. Quem estudou um pouquinho de grego sabe que o elemento "-ismós" (que deu origem ao nosso "-ismo") pode ser usado para compor palavras abstratas de qualquer categoria: magnetismo, batismo, ciclismo, realismo, dadaísmo, otimismo, relativismo, galicismo, teísmo, cristianismo, anarquismo, aforismo e jornalismo. Pensando bem, esta última talvez encerre algo de mórbido, mas não recomendo que, para purificar a atividade, se adote "jornalidade".

De qualquer forma e por qualquer conta, as moléstias são uma minoria. Das 1.663 palavras terminadas em "-ismo" que meu Houaiss eletrônico relaciona, apenas 115 (um pouco menos que 7%) designam doenças ou estados patológicos. E olhem que fui liberal em meus critérios, contabilizando mais de uma dezena de termos que descrevem intoxicações exóticas, como abrinismo e zincalismo.

Compreendo que os gays procurem levantar bandeiras, inclusive linguísticas, para mobilizar as pessoas. Em nome da cortesia pública, eu me disporia a adotar a forma "homossexualidade", desde que ela fosse defendida como uma simples predileção. Mas, enquanto tentarem justificar essa opção com base em delírios etimológicos, sinto-me no dever de continuar usando a variante em "-ismo". Alguém, afinal, precisa zelar para que preconceitos não invadam e conspurquem o universo de sufixos, prefixos e infixos. A batalha pode ser inglória, mas a causa é justa.

Homem do mundo - SONIA RACY


O ESTADÃO - 27/02

Tradicionalmente discreto, Christopher Getty aceitou conversar com a coluna sobre economia mundial. No Brasil desde o começo do ano, acompanhado da namorada brasileira, Adriana Bittencourt (com ele na foto), o neto de Jean Paul Getty, fundador da Getty Oil Company, acredita que o “takeover” da China se dará muito mais rápido do que se prevê. “Os chineses não precisarão de mais 20 anos para ultrapassar os norte-americanos, mas, sim, de 4”, analisa o gestor de gigante fundo de private equity fechado.

Para ele, o mundo passará rapidamente de unipolar (leia-se EUA) para multipolar: tanto econômica quanto política e militarmente. Em 2050, bem… a China pode fazer com que o mundo volte a ser unipolar.

E onde foi que os Estados Unidos erraram a mão? “O principal equívoco na história econômica do país se deu em 1971. Nixon não podia ter rompido o acordo de Bretton Woods”, destaca o economista. Assinado em 1944, o acordo foi responsável pela implantação de uma ordem monetária negociada entre Estados – baseado no dólar e no ouro. O então presidente norte-americano quebrou esta relação.

Para o herdeiro – que ainda não recebeu a herança, mas já acumulou o suficiente para viver muito bem, tendo trabalhado na Getty Investment Company por anos – o futuro está na Ásia. “Eles serão os novos consumidores do mundo”. E o Brasil? “Será beneficiado por essa mudança, não tenho dúvida.”

À beira da piscina do Hotel Fasano, no Rio, Getty não revela seus segredos de gestor, mas dá o parâmetro de sua ambição. “A Getty Oil Company registrou 19% de retorno, em dólar, para seus investidores durante 75 anos. Por que não sonhar com o mesmo resultado?”, brinca.

Getty não tem residência fixa; vive pelo mundo, trabalhando de onde estiver. Quem sabe não escolhe o Brasil para se estabelecer…

Sob alerta
Rodrigo Mauro, da ONG Viva Pacaembu, está, desde a semana passada, falando com órgãos públicos – como Prefeitura, CET e PM – para garantir a segurança dos moradores do bairro, hoje, no jogo do Corinthians pela Libertadores.

Muitos torcedores já afirmaram que, proibidos de entrar no estádio pela Conmebol, ficarão no entorno da arena e na Praça Charles Muller.

Sob alerta 2
“Não somos contra a torcida. A praça é pública. Nossa preocupação se estende à segurança dos torcedores e também de imóveis tombados da região”, afirma o presidente da associação de moradores.

Sob alerta 3
Apesar de os jogos no Pacaembu não serem um problema para os moradores, não é a primeira vez que eles se mobilizam com queixas desse tipo.

A situação, esclarece Mauro, melhorou bastante. “Mas ainda temos uma preocupação com ambulantes e ônibus fretados que estacionam em ruas residenciais”, explica.

Xadrez petista
Em recente conversa com Alexandre Padilha, Lula disse ao ministro da Saúde que, caso Mercadante queira mesmo ser candidato ao governo de São Paulo em 2014, ele não terá como impedir.

Para justificar, o ex-presidente adota discurso de gratidão ao atual ministro da Educação, que, em 1994, abriu mão de provável reeleição à Câmara dos Deputados para ser vice de Lula na disputa pela Presidência da República.

Nesse contexto, a única pessoa capaz de pedir a Mercadante para que desista da eleição é… Dilma.

Ficha limpa
Cauê Macris quer criar a… “Ficha Suja do Trânsito”. O deputado tucano apresentou projeto de lei na Assembleia paulista que obriga o Estado a divulgar os nomes de motoristas flagrados sob efeito de bebida ou outras substâncias – como maconha ou cocaína.

Arranha-céu?
E mais um esqueleto de Hussain Aref Saab saiu do armário. Graças a um alvará expedido por ele à época em que dirigia o Aprov, em São Paulo, um prédio na rua Peixoto Gomide, que deveria ter somente 5 andares, está sendo construído com… 22.

Abaixo-assinado já corre a região dos Jardins na tentativa de impedir a obra.

Suspense
O mercado financeiro estranha a demora do Banco Central em definir o destino do BVA – a entrega de propostas terminou dia 18. Procurado, o BC esclarece: o prazo era para que o interventor enviasse relatório. A intervenção pode ir até 19 de março e ser prorrogada.

Os bastidores, pelo que se apurou, consta que está em análise o interesse de comprador.

A quem interessar
O Conselho de Administração do Casino na França tem pelo menos dois integrantes também conselheiros da L’Oréal, companhia fornecedora do Grupo: Marc de Lacharriere faz parte do board e Sylvia Jay é chairman da empresa no Reino Unido e Irlanda desde 2011.

A L’Oréal fornece produtos a toda a cadeia de supermercados Casino na França.

Chama…
Dilma indicou o economista Ivo Bucaresky para vaga na diretoria da Anvisa. O apoio de Padilha pesou na escolha – os dois se conheceram no PT.

…o síndico
Deve assumir a diretoria de gestão – responsável, entre outros, por negociar com sindicatos. “Vai organizar a casa, como um síndico”, comentou fonte à coluna.

O fim - ANTONIO PRATA

FOLHA DE SP - 27/02

Enquanto chafurda a escova pelo interior da carcaça, pensa no aumento que não pediu, na demissão que não pedirá


Você aperta bem no meio do tubo, e nada: eis o primeiro sinal do fim, mas quem atenta para os primeiros sinais? Além do que, a bisnaga está quase cheia, só ali pelo meio é que murchou: basta pressioná-la em cima, perto do bico, ou embaixo, próximo à base, e a pasta sairá, roliça e lustrosa, nas cerdas de sua escova. A ideia de passar numa farmácia pisca em seu córtex como um distante vaga-lume, para logo desaparecer no cipoal de neurônios.

Cinco ou seis dias depois, contudo, você aperta o tubo na parte de cima, outrora bojuda, e nada acontece. Não é grave, um pequeno remanejamento dá conta do recado: com os polegares e indicadores, vai espremendo da base pro bico. A visão da bisnaga de peito estufado traz algum alívio no curto prazo, mas a informação "preciso comprar pasta de dente" agora está colada, como um Post-it, na tela de sua consciência.

E daí? Há assuntos mais importantes, sempre há: a infiltração no teto do banheiro, o aumento que pretende pedir -a demissão, se tivesse coragem-, uma DR definitiva da qual foge como o diabo da cruz. É lá do fim dessa fila que acena, pequenina, a possível escassez dentifrícia.

A Terra, porém, completa mais algumas voltas em torno de seu eixo: folhas caem das árvores, flores brotam nos jardins, pormenores atingem a maioridade -eis o que você percebe, diante do tubo vazio, hirto como uma fronha secando no varal.

O problema não é mais "preciso comprar pasta" e sim "por que

cazzo não comprei antes?!", mas a indagação traz outras questões de fundo que talvez seja melhor ignorar. Importante agora é escovar os dentes: você apoia o tubo na bancada do banheiro e, com a haste de um pente, o aplaina da base ao bico.

Ao cuspir a espuma na pia, jura que de hoje não passa, mas a convicção se esvai na mesma velocidade que o sabor de hortelã: não há vaga em frente à farmácia, a lojinha do posto está fechada, depois já passam das dez, a reunião é às 11h, o torvelinho do cotidiano te suga e só te devolve ao incômodo na hora de ir para a cama.

O pente é inútil: a bisnaga parece uma fronha passada a ferro. Um rolo compressor seria inútil: não há ranhura ou desvão que não tenha sido achatado. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai até Maomé, você resmunga, então mete as cerdas no bico do tubo, meticulosamente. Elas não saem sequer melecadas, apenas opacas, como se tivessem sido mergulhadas no leite.

Você dorme mal. Acorda desgostoso, antes do despertador. Sabe o que te espera. Não se orgulha do que está prestes a fazer, mas o fará, assim mesmo: abre a gaveta, pega a tesourinha de unha, respira fundo e corta o tubo, de cima abaixo. Enquanto chafurda a escova pelo interior da carcaça, pensa no aumento que não pediu, na demissão que não pedirá, no namoro que se esgarça diante de seus olhos; percebe como a infiltração no teto e a bisnaga estripada são metáforas chinfrins do estado das coisas. O que mais dói, contudo, é saber que ainda não chegou ao fundo do poço: adiante, te esperam a escovação sem pasta, reavivando os resíduos de espuma seca nas cerdas e, para coroar o desmantelo, a escovação com sabonete: aí sim, aí sim é o fim.

Um arranjo primário - PAULO SANT’ANA

ZERO HORA - 27/02

O caso da morte de um menino de 14 anos no jogo do Corinthians na Bolívia continua dando pano para manga.

Estão presos na Bolívia 12 torcedores do Corinthians, as autoridades bolivianas supõem que entre eles esteja quem disparou o sinalizador que causou a morte do garoto.

Nunca pensei que um sinalizador luminoso desses pudesse ter tal ação mortífera. Mas teve.

A questão é que agora um menor brasileiro, com 17 anos, se apresenta como autor do disparo.

E se apresenta aqui no Brasil, confessando que foi ele quem atirou o sinalizador assassino.

As autoridades bolivianas, penso, não vão cair nessa balela.

Mesmo que esse menor confesso esteja falando a verdade, todas as tintas dessa confissão parecem ter cores falsas.

A começar pelo fato de que o menor confesso é inimputável, isto é, não pode ser atingido pela lei penal, que aqui no Brasil só pune quem for maior de 18 anos.

Ora, seria muito fácil para qualquer advogado arranjar uma pessoa que se autoacusasse, ainda mais uma pessoa inimputável.

Muito fácil, visando inocentar os 12 presos corintianos que mofam por enquanto nos xadrezes bolivianos.

Tudo tem a aparência de uma esparrela.

Talvez quem arranjou esse novo culpado não tenha calculado que na Bolívia a maioridade penal começa aos 16 anos, o que viria a atingir o autor confesso arranjado.

Ainda assim, é de todo impensável que o Brasil extraditasse o menor para responder a processo na Bolívia.

O Corinthians já foi punido pelo fato, jogará todas as partidas pela Libertadores, no Brasil, com os portões fechados, isso no campo esportivo.

Mas quem pagará pela morte lamentável da criança boliviana?

Como sempre, é muito difícil elaborar a Justiça.

Os métodos de Justiça empregados pelos humanos muitas vezes são precários.

Nesse caso, tudo se encaminha para a não solução.

Ou para a injustiça.

Tudo porque engendraram uma maneira de libertar os corintianos que estão presos lá, mas não dão nada, nada, em troca.

IR! Declaro Renan culpado! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 27/02

O Renan agora é o grande vilão. O Brasil foca num só! Antes era o Maluf, depois o Sarney e agora o Renan!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! O papa diz que cardeais envolvidos em escândalos sexuais não participarão do conclave. É a "Lei do Pinto Limpo". No Brasil, tem a "Lei da Ficha Limpa". Na Itália, a Lei das "Mãos Limpas". E no Vaticano, a "Lei do Pinto Limpo". Sendo que nenhuma das três funciona!

E a manchete do Piauí Herald: "Prefeito do Rio contrata Ang Lee para filmar 'As Aventuras de Paes'". Eduardo Paes num bote numa enchente na praça da Bandeira com uma capivara. Se fosse anta, seria o Cabral! Rarará!

E esta: "Cirurgia plástica pode deduzir do imposto de renda". Marta, Ana Maria Braga, Amaury Jr. e Silvio Santos vão ter isenção vitalícia! E a Ângela Bismarchi, isenção para oito encarnações! Então eu também vou fazer plástica: desentortar o pingolim e juntar as sobrancelhas. Quero uma monocelha igual à do Galvão Bueno!

E tenho uma amiga que fez tanta plástica que, quando ela breca, a boca abre! Breca e dá risada! Aí os motoristas perguntam: "Do que essa mulher tá tanto rindo?". E ela: "Não tô rindo, tô brecando!".

Rarará!

E o que eu vou declarar? Ah, eu vou declarar que a Dilma tá gorda, que o Aécio é baladeiro e que a minha vizinha tá dando pro porteiro!

Vou declarar que o Renan é culpado. Declaro o Renan culpado! Pronto! Tô isento! O Renan agora é o grande vilão brasileiro. O Brasil foca num só! Antes era o Maluf, depois o Sarney e agora o Renan!

E atenção! Corre na internet a última da blogueira cubana. A foto da Yoani mostrando o passaporte: "Oi, eu venho de uma ilha lá de cima que é governada pela mesma família há mais de 50 anos". "SÃO LUÍS??", gritou o Sarney. Rarará!

E o advogado do "de menor" da Gaviões: "Eu vou provar que o meu cliente é culpado". Isso é inédito na história da advocacia interplanetária: é o único advogado que declara abertamente que seu cliente é culpado! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

O Brasil é Lúdico! Olha esta igreja gaúcha: "Igreja Bagual Coice no Capeta". E esta outra aqui perdida na buraqueira: "Assebreia Deus Miniterio Cemente da Fé".

O engraçado é que a única palavra que eles acertaram foi "Fé"! Hoje só amanhã! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

O Sol por testemunha! - TUTTY VASQUES

O Estado de S.Paulo - 27/02

O verão, definitivamente, saiu de moda! Houve um tempo em que, a esta altura da tempestade solar, já dava para antever a retrospectiva que a imprensa faria logo adiante para anunciar o fim da estação.

A musa, a gíria, o tamanho da saia, o drinque de frutas, o point, o hit musical, o escândalo, o melhor sorvete, a tatuagem, a malhação da vez nas academias, a praia dos descolados, o 'in' e o 'out', o chique e o cafona, o que deu certo e o que deu errado, antigamente todo verão tinha marcas registradas.

O Rio, como se sabe, sempre foi a grande vitrine deste estado de espírito de tanga. Sediou, entre outros, o verão do fio dental, do topless, da lata, das Dunas da Gal, da Brigitte Bardot, do barrigão da Leila Diniz, do Gabeira com a calcinha do biquíni da prima, da pulseira quântica, do apito...

Em outras épocas, enfim, outras coisas além do calor davam o que falar sob o Sol de Ipanema.

Este ano, em particular, nem a passagem de Yoani Sánchez pelo calçadão mobilizou o balneário.

Sem chuvas há quase três semanas, e sem água da bica desde domingo, o carioca não está achando a menor graça na estação.

Não dá nem vontade de sair da 
praia!

Giratória

Ciro Gomes saiu da toca atirando para todos os lados! Não à toa, todo presidenciável o quer junto!

Desembaraço

A queda na taxa de desemprego e os sinais de recuperação da produção industrial brasileira em janeiro deram, de imediato, uma acalmada no cabelo de Miriam Leitão na bancada do telejornal Bom Dia Brasil, da Rede Globo. O penteado da jornalista é, como se sabe, o indicador econômico mais confiável da atualidade.

Primo rico

Nos quatro meses de licença da atividade parlamentar que vai tirar a partir de março, José Sarney deixará de receber R$ 106 mil de salário. Dá quase um ano e meio da aposentadoria do papa Bento XVI, estimada em R$ 6.500,00 por mês.

Esclarecimento

Hugo Chávez não está "empacotando", como chegaram a dizer por aí! A confusão deu-se por causa da informação de que ele estaria cuidando pessoalmente de um pacote de medidas econômicas na Venezuela. Ah, bom!

Impasse humorístico

A Itália segue ingovernável, liderada por um comediante falastrão (Beppe Grillo), uma piada pronta (Silvio Berlusconi) e outros dois políticos sem graça nenhuma (Pier Luigi Bersani e Mario Monti).

Portões fechados

Fechar os portões do estádio aos torcedores do Corinthians talvez não baste para garantir a tranquilidade na região do Pacaembu! O ideal, talvez, seria trancá-los em casa durante o jogo.

Bons modos

Se é mesmo verdade, como denuncia FHC, que Dilma Rousseff "cuspiu no prato em que comeu", francamente, a presidente devia dar bom exemplo ao pessoal do Fome Zero. Já pensou se a moda pega?

O significado dos números do acordo automotivo - RICARDO GALUPPO

BRASIL ECONÔMICO - 27/02

Mais do que pelos números que o comércio bilateral de carros entre o Brasil e o México movimenta, o acordo automotivo assinado entre os dois países tem uma importância política fundamental.

Trata-se do único dessa natureza que o Brasil celebrou fora da tutela do natimorto Mercosul - e um exemplo de como os problemas estruturais da economia impedem que o país leve vantagem mesmo numa competição mediada por um documento desse tipo.

O acordo, como se sabe, foi assinado em 2002 e, nos anos iniciais, era superavitário para o Brasil. O país despachava para o México grandes quantidades de carros e de autopeças e em troca recebia uma quantidade modesta de produtos.

A questão é que o cenário começou a mudar - e as montadoras a se dar conta que as condições tributárias e a proximidade com o mercado dos Estados Unidos faziam do México um cenário muito mais interessante para novos investimentos do que o Brasil.

Some-se a isso a valorização excessiva do real que, nos últimos anos, fez a balança mudar completamente de lado: qualquer economista recém-formado com uma calculadora HP na mão sabia que, diante das cotações do real e do peso em relação ao dólar, as relações de troca entre os dois países eram muito mais favoráveis ao México.

Ao contrário do México, que não se queixou quando o cenário pendia para o lado brasileiro, o Brasil começou a reclamar e, no ano passado, forçou a revisão do documento. Pois bem.

Passado quase um ano da revisão do acordo, conforme mostra esta edição do Brasil Econômico, houve, de fato, uma redução no valor das importações. Entre abril de 2012 e janeiro de 2013 (período de vigência dos novos termos do acordo), elas alcançaram US$ 1,8 bilhão.

Tomando-se o mesmo período para efeito de comparação, entre abril de 2011 e janeiro de 2012, elas foram de US$ 2 bilhões. A questão está na quantidade de veículos importados, que, em lugar de diminuir, aumentou quase 4%. Passou de 134 mil unidades para 139 mil.

Quem compara um carro mexicano médio com um carro brasileiro da mesma faixa percebe pouca diferença - e as que existem poderiam ser introduzidas sem maiores sacrifícios em qualquer linha de montagem brasileira.

Ou seja, esses quase 140 mil carros que foram importados poderiam perfeitamente ter sido fabricados no Brasil, por metalúrgicos brasileiros, com peças brasileiras, aço brasileiro e eletricidade brasileira. Ou seja, poderiam ter ajudado a consolidar empregos numa das atividades mais nobres da indústria e contribuir com impostos (desde que gravados com uma alíquota civilizada, como acontece nos países com os quais o Brasil compete) para os cofres públicos.

Enquanto o cenário for o atual, não serão as revisões de acordos que salvarão a economia brasileira. Isso está mais claro do que nunca.

O jogo inventado - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 27/02

O futebol mudou. Como há muito equilíbrio individual hoje em dia, predomina o jogo coletivo


Hoje, o Corinthians, sem a torcida, terá de imaginar e de tentar jogar como se o estádio estivesse cheio. O mais provável é que jogue como se fosse um treino coletivo, o que é ruim. Não dá para antecipar as reações humanas.

Quando Ganso foi contratado, escrevi que não entendia gastar tanto com um jogador da mesma posição de Jadson. Foi preciso trazer Ganso para todos perceberem que Jadson é um excelente meia. Ele joga bem, desde que chegou ao clube.

A escalação dos reservas do Grêmio contra o Inter, sem nenhum motivo técnico e físico, já que o time não joga neste meio de semana, foi um desrespeito aos torcedores e ao Gre-Nal. A única razão para Luxemburgo fazer isso foi o medo de o time ser derrotado e perder o prestígio conseguido após a belíssima vitória sobre o Fluminense.

Na coluna anterior, disse que os técnicos europeus são melhores que os brasileiros para organizar uma equipe, e que os brasileiros são superiores na escalação dos jogadores nos lugares certos. Quando comecei a me empolgar e a entender de futebol, ainda menino -vi Pelé, Garrincha e Didi jogarem, antes da Copa de 1958-, os europeus já se destacavam pela ocupação dos espaços, e os brasileiros, pela intimidade com a bola.

Como as grandes equipes brasileiras do passado tinham muitos craques, criou-se a lenda de que elas não precisavam, para vencer, de futebol coletivo.

O futebol mudou. Com a globalização e o desenvolvimento da ciência desportiva, o jogo se tornou mais tático, veloz e físico. Houve também uma diminuição da superioridade individual do Brasil -há hoje outras seleções com mais craques. As partidas passaram a ser decididas mais pela organização tática.

Nos últimos tempos, os europeus perceberam que, para o futebol se tornar um espetáculo e dar lucro, era necessário melhorar os gramados, diminuir a violência, dentro do campo, na arquibancada e fora do estádio, e jogar de uma maneira mais agradável, com mais troca de passes. O Brasil, influenciado pela violência social, pela incompetência dos dirigentes, foi para um outro caminho, o do futebol tumultuado, faltoso e de muitas jogadas aéreas. Isso começou a mudar. Ufa!

A importação dos melhores jogadores foi essencial para melhorar o futebol europeu. Os principais times são superiores às seleções. Na América do Sul, geralmente, ocorre o contrário. Muitas seleções melhoraram, e os times pioraram. Os atletas que atuam hoje no Brasil, pelo crescimento financeiro dos clubes, formam uma seleção do mesmo nível dos que jogam fora do país.

Parafraseando o guerrilheiro e visionário Che Guevara, um homem contraditório, como todo ser humano, o futebol brasileiro precisa ser mais organizado, planejado, sem jamais perder a fantasia e o jogo e o gol inventados.

No mundo de Jack Bauer - MARCELO COELHO

FOLHA DE SP - 27/02

Numa ditadura, prender e censurar nunca é suficiente: a tortura é a verdadeira punição


Contardo Calligaris apresentou aqui, na quinta-feira passada, alguns argumentos interessantes a favor da tortura. Acho que sua intenção foi mais colocar o assunto em debate e menos defender sua adoção no Brasil.

Mesmo porque ela já existe, com resultados discutíveis do ponto de vista da segurança pública.

"O saco plástico do capitão Nascimento funciona", escreve Contardo. Os interrogatórios de Jack Bauer, na série "24 Horas", também funcionam, repete o psicanalista.

Pode ser. Não me considero um "bonzinho", desses que querem um mundo perfeito, utópico, ideal. Querer eu quero, mas sei que a realidade não corresponde a todos os sonhos que temos.

O problema, eu acho, é quando se quer ser "realista" demais. Um mundo sem tortura? Com Bin Laden e terroristas variados à solta? Loucura, dizem os pragmáticos.

O estranho é que uma perspectiva realista e pragmática, como a explorada pelo meu colega da "Ilustrada", muitas vezes me parece puramente imaginária e ficcional.

O capitão Nascimento e o agente Jack Bauer são, antes de tudo, personagens de filmes. Por razões não apenas ideológicas, mas também de dramaturgia, suas torturas e sacos plásticos funcionam muito bem.

Contardo Calligaris já manifestou discordância quanto à tese de que a TV influencia as pessoas. Mas se eu começar a assistir a muitos filmes em que o herói é um torturador eficiente e simpático, também vou acreditar que a tortura funciona.

Se os americanos fizessem mais filmes em que a tortura não funciona (mas aí penso num mundo ideal, não o da Fox Filmes), provavelmente pensaríamos de outra maneira.

Só para ser um pouquinho realista, penso no seguinte. Um policial realmente acostumado a torturar suspeitos não passa pela experiência incólume. É de imaginar que a prática da tortura o torne insensível a uma série de outros limites morais, do tipo "não roubarás", "não matarás", "não sequestrarás criancinhas".

Torturarás, ademais, pessoas sobre as quais pesam suspeitas não tão fortes assim. Não sei se os cidadãos terminariam mais seguros com 300 Jack Bauers agindo por perto.

É que a tortura tem outra função, além das apontadas por Contardo Calligaris em seu artigo. Ele fala em dar prazer ao torturador, em obter confissões, em conseguir informações. Uma quarta função me parece importantíssima.

Trata-se de estabelecer um regime de terror de Estado. Não é apenas o terrorista quem está exposto à tortura. O vago simpatizante da causa, o oposicionista pacífico, o irmão, o parente, o filho, o vizinho, estão sob ameaça também. Numa ditadura, prender e censurar nunca é suficiente: a tortura é a verdadeira punição.

Para finalizar, Contardo levanta o célebre argumento da "bomba-relógio". Copio a sua versão.

"Uma criança foi sequestrada e está encarcerada em um lugar onde ela tem ar para respirar por um tempo limitado. Você prendeu o sequestrador, o qual não diz onde está a criança sequestrada. [...] A tortura poderia levá-lo a falar. Você faz o quê?"

Não sei. Este é mais um caso em que a ficção fala mais alto do que a realidade.

Sou contra a tortura, como sou contra o matricídio e o canibalismo. Agora, suposições extremas não faltam. Suponha que sua mãe enlouqueceu, entrou numa creche com uma escopeta e está matando bebês aos punhados. Você é policial e ela está na mira do seu revólver. Você faz o quê?

Suponha que você está viajando com seus colegas de escritório, o avião cai nos Andes e você só sobrevive se matar um deles e comê-lo. Ele fará provavelmente o mesmo com você, se você deixar. Você faz o quê?

Ora essa. Eu mudo o canal da televisão.

De resto, o argumento da "bomba-relógio" tem outros problemas. O tempo também corre a favor do torturado. Ele tem apenas uma hora de tormentos para se manter em silêncio; pode mentir, ademais.

Outra pergunta. Que tal pagar o resgate? Também funciona, em geral.

Não é impossível pegar o sequestrador depois. Já o torturador vai continuar a estrela do filme.

Ali Soufan, agente do FBI especializado em interrogar membros da Al Qaeda, escreveu um artigo no "New York Times" contestando toda a versão de Hollywood quanto à descoberta de Bin Laden.

Diz que autoridades do governo Bush mentiram abertamente sobre o sucesso de técnicas de tortura, apenas para justificar sua adoção. Será que Ali Soufan está mentindo? Quem sabe seja o caso de torturá-lo também.

Efeitos da canícula - ARTUR XEXÉO

O GLOBO - 27/02

José Dirceu aceita o combate à corrupção. Mas só se for a corrupção posterior a 4 de junho de 2010, quando o presidente da República sancionou a Lei da Ficha Limpa



Correm rumores de que uma frente fria está se aproximando. Dizem que haverá um aumento de nuvens. Que há até a possibilidade de pancadas de chuva a partir do fim da tarde desta quarta-feira. Que essa sensação de que o dia está muito abafado vai acabar. Quem não derreter até lá verá.

Temo os efeitos colaterais da chuva. Deslizamentos de terra, bueiros entupidos, enchentes... Mas essa calidez, essa quentura, esse queimarço, enfim, esse calor não pode continuar. E ele tem suas consequências também. Outro dia mesmo, li uma entrevista do novo presidente do Tribunal Superior do Trabalho, Carlos Alberto Reis de Paula. Não sei quantos graus fazia por ocasião da entrevista. Tanta coisa para dizer, e eis o que ele declarou: "Eu ganho pouco mais de R$ 15 mil líquidos. Se falarem que é muito, eu digo: pode ser para vocês que ganham salário mínimo, mas, para o que eu faço e pela minha importância, acho pouco.”

Agora, me explica, qual é a importância do juiz De Paula? Ele é mais importante que um professor? É mais importante que um médico? Não nego que juízes, professores e médicos deveriam ter um salário bem maior que os que o Brasil oferece. Jornalistas também. Mas, sei lá, com as condições da educação e da saúde no país, faz algum sentido um profissional que recebe mais de R$ 15 mil líquidos reclamar da vida? Só há uma explicação para a desastrada declaração do magistrado: o calor. Chuvas provocam enchentes. É ruim. Mas o calor, pelo visto, resulta em declarações impensadas. É ruim também. Muito ruim. O sujeito é acometido de uma tontura, de um suor incontrolável, de uma sensação de mal-estar, fica com o pensamento turvo e, no fim das contas, fala besteira.

Olha só o Zé Dirceu, por exemplo. Dia desses, para uma plateia de militantes petistas em Cha-pecó, em Santa Catarina, ele reclamou de um dos mais nítidos avanços da legislação política brasileira. Eu sei que, quase sempre, Zé Dirceu não diz coisa com coisa. Mas desta vez foi demais. Olha só: "Criaram a Lei da Ficha Limpa, que é uma lei completamente absurda. Porque ela retroagiu.”

Em outras palavras, o ex-ministro aceita o combate à corrupção. Mas só se for a corrupção posterior a 4 de junho de 2010, quando o presidente da República sancionou a Lei da Ficha Limpa. Corrupção cometida há mais de três anos tá liberada. Tem alguma explicação para tal estapafurdismo? Tem, sim. O calor! E olha que a frente fria que supostamente está chegando aqui hoje vem do Sul e já passou por Santa Catarina.

Só o calor também justifica o que anda dizendo o advogado da Gaviões da Fiel, Ricardo Cabral. No começo desta semana, logo após o depoimento na polícia do jovem que se responsabilizou por ter acionado o sinalizador náutico que matou um adolescente em um jogo do Corinthians na Bolívia, ele tentou explicar como a torcida organizada é justa e que o suposto crime do garoto não ficará impune: "O menor vai receber uma punição da Gaviões da Fiel porque ele levou os artefatos sem o consentimento da direção da torcida.”


Vem cá, o rapaz confessa um homicídio culposo, fica em dívida com a Justiça boliviana, e seu advogado o tranquiliza garantindo que ele será punido pela Gaviões da Fiel? Tô dizendo: é o calor!

Na transmissão da entrega do Oscar pelo TNT, o crítico Rubens Ewald, ao comentar o prêmio de melhor atriz coadjuvante recebido por Anne Hathaway, disse que ela deveria agradecer a Susan Boyle por ter popularizado a canção ("I dreamed a dream") que interpreta no filme. Muita gente diz que Anne ganhou o Oscar só pela cena em que canta a tal música. Pode ser. Mas daí a dever alguma coisa a Susan Boyle já é exagero. Conheço gente que mudou de canal ou desligou a tecla SAP quando Rubens fez esse comentário. Não precisava tanto. O crítico está desculpado: foi o calor. No caso, um calor de desmanchar maquiagem.

Mais um exemplo? Como todo mundo sabe, Morena fugiu da máfia que trafica mulheres e está escondida numa caverna na Capadócia. Até aí, tudo verossímil. A coisa só se complica quando Morena sai da tal caverna. O cabelo, lisinho como se tivesse acabado de passar pelo salão da Monalisa de "Avenida Brasil’,’ fica todo encaracolado quando a personagem aproveita a liberdade pelos campos da Capadócia. Como é que Gloria Perez deixa isso acontecer? Não precisa responder: é o calor.

Enquanto escrevo, os termômetros registram 38 graus. Nem imagino qual seja a sensação térmica. Também não quero imaginar. Prefiro a ignorância climática. Aguardo com ansiedade a chegada da frente fria prometida para logo mais. Que ela seja leve, mas refrescante. E, se algum leitor reclamar da coluna de hoje, já tenho a explicação na ponta da língua: foi o calor!