sábado, fevereiro 23, 2013

O Brasil visto pelo G-20 - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 23/02

A economia brasileira crescerá 3,5% neste ano e 4% no próximo, acertando o passo com a economia mundial depois de dois anos desastrosos, mas o País continuará bem atrás de outros emergentes, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses números foram apresentados em reunião ministerial do Grupo dos 20 (G-20) no último fim de semana, em Moscou. Nem autoridades de Brasília, apesar de inclinadas a bravatas, têm formulado publicamente previsões muito mais otimistas. Mesmo a expansão estimada para 2013 e 2014, embora modesta, dependerá de condições ainda incertas. Uma das mais importantes será uma rápida elevação do investimento em máquinas, equipamentos, instalações produtivas, estradas, portos e outros componentes da infraestrutura. Segundo o material preparado pelo Fundo para a reunião, o investimento realizado pelos emergentes - e isto inclui a América Latina - aumentou mais rapidamente que o Produto Interno Bruto (PIB) desde o começo da crise, em 2008, e assim deverá continuar pelo menos até 2016.

O ingresso de capitais estrangeiros tem ajudado os países da região a investir mais. Mas os grandes números escondem diferenças importantes. Se as cifras do Brasil fossem discriminadas, o País certamente apareceria mal na foto dos investimentos, apesar do ingresso ainda volumoso de recursos externos.

O FMI apresentou ao G-20 um documento sobre perspectivas econômicas e desafios e outro sobre investimentos e os recursos para financiá-los. No mundo rico, os mercados financeiros têm reagido, os maiores riscos de curto prazo foram superados e as políticas de ajuste avançam, mas os desafios de médio prazo permanecem, com algumas diferenças, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos e no Japão. Um dos grandes desafios comuns continua sendo a adoção de planos claros e confiáveis de consolidação fiscal.

As condições dos emergentes são variadas, mas pelo menos um desafio se impõe a todos ou quase todos: reconstruir o espaço fiscal. As finanças públicas foram afrouxadas em muitos países, no esforço para atenuar o impacto da crise internacional. A estratégia deu certo na maior parte dos casos. Mas é preciso recompor as contas públicas. Diante de novas emergências, os governos terão muito menos espaço para agir.

Os economistas do Fundo repetem essa recomendação há algum tempo e destacaram algumas indicações no documento. O governo russo continuará dispondo de recursos do petróleo, mas deveria cuidar de outras fontes. A índia precisa de uma "substancial reforma" para a consolidação fiscal a médio prazo. No caso do Brasil, a sugestão é continuar baseando a política nos esquemas atuais. Trata-se de uma óbvia referência ao sistema de metas desde 1999. Essa estratégia deu bons resultados, segundo a avaliação do Fundo, a tendência em Brasília, sabem os brasileiros, tem sido o afrouxamento dos critérios de superávit primário, de meta de inflação e de câmbio flutuante.

Mas os economistas do Fundo vão um pouco mais longe nas recomendações: com a recuperação da economia, as autoridades brasileiras deveriam começar a desfazer os estímulos monetários, para manter "as expectativas de inflação bem ancoradas".

Embora o documento sobre perspectivas globais tenha apenas dez páginas, há suficiente espaço para recomendações a todos os grupos de países. Nem as economias aparentemente bem comportadas, como a alemã, escapam de observações críticas - nesse caso, sobre a administração de sua demanda interna.

Para os economistas do Fundo e para sua diretora-gerente, Christine Lagarde, tem havido exagero na discussão sobre a chamada guerra cambial, assunto reavivado depois da recente desvalorização do iene. Mas o tema ganhou destaque na declaração final dos ministros do G-20: todos prometeram evitar o recurso a desvalorizações cambiais para tornar suas economias mais competitivas. Mas a promessa é vaga e nenhum grande banco central sujeitará sua política monetária a esse compromisso. Cuidar dos outros temas continua sendo muito mais produtivo.

Oportunidade a passar - MARCOS CARAMURU DE PAIVA

FOLHA DE SP - 23/02

O comércio chinês exibe crescentemente produtos importados, com marcas europeias se acotovelando


Poucos duvidam de que o mercado mais promissor dos próximos anos será a China. Por duas razões óbvias: o número de consumidores e as características do projeto econômico chinês.

O país crescerá pelo menos cinco a seis por cento ao ano, apenas pela via da redução da pobreza. Mas certamente crescerá mais que isso e será um motor da economia mundial por algumas décadas.

É sempre possível adotar uma atitude derrotista diante das possibilidades de entrar na China.

Mas o comércio chinês exibe crescentemente produtos importados. Marcas europeias de todo tamanho têm-se acotovelado na disputa por pontos de venda.

O dilema é que não se pode pensar na China de maneira casual: como um país que absorverá o excedente de produção ou um local para onde vamos canalizar vendas quando a economia brasileira estiver desaquecida. O gigantismo do mercado não permite tratá-lo como um coadjuvante.

Explorar todo o potencial que ele exibe requer estratégia, investimento pesado e audácia.

As gôndolas dos supermercados chineses são exemplo de desafio para um país com a força agrícola do Brasil. Estão cheias de leite francês e alemão, de produtos europeus, japoneses, norte-americanos, australianos e neozelandeses que vão da água às mais variadas iguarias. Exceção feita ao frango, não se veem produtos brasileiros.

Muitas razões dificultam um bom desempenho exportador brasileiro. O custo Brasil apequena o nosso potencial de vendas. O custo China, por sua vez, mesmo mais elevado, ainda é baixo.

Mas há pontos que não podem passar despercebidos. No setor de alimentos, por exemplo, os chineses têm baixa confiança nos produtos de origem local.

Quando aumentam um pouco a sua renda, compram importados. O mesmo se passa com remédios e produtos de higiene pessoal.

O chinês é ávido por conhecer novas marcas de bens de consumo. Há pesquisas que tentam medir quantas marcas o cidadão de classe média identifica, quantas procura quando viaja. As pessoas com um nível razoável de renda vão três vezes por ano ao exterior e gastam US$ 800 por compra que fazem.

Talvez estejamos fadados a deixar passar a oportunidade na China ou a entrar modestamente num mercado que nada tem de modesto.

O problema é que outros (chineses e estrangeiros) preencherão os espaços vazios. E os que tiverem escala no mercado chinês precisarão utilizar só uma fração de sua musculatura para conquistar o nosso mercado.

A onda de grifes de luxo que chegam com força ao Brasil depois de anos de receitas gordas na China é uma boa mostra disso.

Vai mudar, em casa, o cenário para as grifes brasileiras. Expulsá-las para andares menos nobres dos shoppings, tomar uma parte de suas vendas.

Para contrarrestar essa tendência, temos, é verdade, a possibilidade das medidas protecionistas. Mas elas estarão longe de resolver definitivamente o problema, se as empresas não se dispuserem a avançar no processo de internacionalização.

É o consumo, idiota - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 23/02


Uma inflação alta demais e a rápida deterioração das contas externas são manifestações do mesmo fenômeno: consumo elevado demais, não acompanhado por aumento proporcional da produção interna.

A inflação tem tudo para se manter acima de 6% ao ano nos próximos meses. O governo Dilma assegura que, no segundo semestre, esse número ruim será revertido. No entanto, não está claro como e se isso acontecerá de fato. Por enquanto, o governo espera uma virada mais ou menos espontânea. Há razões para acreditar em que, também nesse caso, somente boas intenções não bastarão, como ficará mais bem exposto na próxima Coluna.

A piora das contas externas ficou demonstrada pelo aumento recorde do rombo nas Contas Correntes.

(Apenas para refrescar a memória, Contas Correntes ou Transações Correntes é o fluxo de pagamentos e recebimentos com o exterior em mercadorias, serviços e transferências, que é aquele dinheiro que as famílias mandam ou recebem de quem trabalha ou estuda lá fora. Excluem os fluxos de capital em empréstimos e investimentos.)

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, apressou-se em explicar que as contas externas de janeiro vieram inchadas demais porque parte das importações de dezembro, especialmente de combustíveis, foi descarregada no mês seguinte, por decisões burocráticas que tiveram cheiro de embelezamento dos números de 2012. Esse efeito estatístico tem menos importância. O fato relevante é que as importações medidas em 12 meses (até janeiro) dispararam 14,6%, enquanto as exportações caíram 1,1%.

Refletem elevação do consumo interno (de mais de 8% em 12 meses) que a oferta interna não tem sido capaz de acompanhar. Daí esse forte aumento do suprimento externo.

A surrada tese de que o mau desempenho do comércio com o resto do mundo é consequência "do câmbio fora de lugar" não consegue convencer. Entre março e dezembro de 2012, o câmbio proporcionou desvalorização do real (alta do dólar) de 20%, sem que o ajuste tenha se refletido no resultado.

Esse diagnóstico não é da oposição ao governo, é do Banco Central. Na última Ata do Copom, a autoridade monetária advertiu que o baixo crescimento econômico do País não é desdobramento da falta de demanda (ao contrário, está aquecida demais), mas da insuficiência da oferta. Essa, por sua vez, é o resultado da falta de investimentos e do elevado custo de produção, que vem tirando competitividade da indústria.

Por enquanto, o rombo nas Contas Correntes continua sendo generosamente compensado com a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). Mas, mesmo sobre esse item, começam a piscar luzes amarelas. Os números de janeiro (entrada líquida de US$ 3,7 bilhões) ficou aquém do esperado. Ainda é cedo para dizer que a deterioração da percepção que os analistas internacionais têm sobre o Brasil prejudica os IEDs. Mas é bom ficar de olho.

No divã externo - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 23/02
O Brasil precisa relaxar num bom divã e fazer a seguinte análise: por que temos tanto medo de comércio exterior? Por que o país é tão defensivo quando o assunto é comércio internacional? Vinte e dois anos depois da abertura comercial, o país ainda aposta em defesa, joga na retranca, mais do que em aumentar a competitividade estrutural da economia.

Essa é a conclusão da conversa com o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, e com o presidente da Winner Desenvolvimento Empresarial, Joseph Tutundjian, no programa da GloboNews.

José Augusto, a exemplo de Tutundjian, acha que o Brasil está ficando isolado e dá um exemplo:

- O Mercosul é união aduaneira e por isso não podemos fazer acordos com nenhum país sem eles. O Nafta é uma área de livre comércio e eles podem fazer acordos e têm feito. Nós só pensamos em defesa comercial, o governo acabou de contratar mais 60 técnicos para a área.

Castro acha que o Brasil deveria aproveitar a exigência descabida da Argentina do uno por uno - a cada dólar importado pela Argentina o Brasil tem que importar um deles também - para garantir sua liberdade de fazer acordos:

- Estamos exportando menos manufaturados para a Argentina e perdendo espaço para os produtos chineses porque eles estão aumentando a importação da China.

É cada vez mais comum ouvir que o Mercosul foi uma boa ideia, que elevou o comércio regional do Brasil, mas acabou virando uma trava que nos impede de avançar.

- O Brasil joga na retranca desde sempre. Em comércio exterior, já entra em campo com medo de perder. Quem joga na retranca tem campo de ação limitado. E essa atitude protecionista é a ponta do iceberg das nossas ineficiências. Por que o empresário quer se defender? Porque sabe que tem o custo tributário, o da infraestrutura - diz Tutundjian.

Ele acha que o governo está com a atitude errada diante do anúncio de acordo de comércio transatlântico unindo Estados Unidos e Europa.

- O governo disse que não podemos ficar afobados com esse acordo. Temos que ficar afobados, sim, e saber o que vamos fazer. É uma revolução, um deslocamento para o hemisfério Norte de um terço do comércio mundial, os dois grandes blocos fazendo um acordo entre si - disse Tutundjian.

José Augusto lembra que Brasil e Estados Unidos são competidores. Em vários casos vendem as mesmas commodities, como soja, carne, milho.

- O mercado que eles querem é o mesmo que nós queremos, por isso temos que nos preocupar. O café que exportamos para a Europa é tributado, o colombiano não é tributado e isso porque eles têm acordo e nós não temos. Portanto, acordo faz diferença.

Tutundjian acha que esse é um velho problema do Brasil:

- Historicamente, temos uma relação complicada com o comércio exterior. Quem se fecha, aceita ser fornecedor de segunda classe, porque sabe que não tem competitividade. Quando o Brasil era fechado, e tinha o mercado interno para a sua indústria, os produtos brasileiros eram ruins e caros.

Uma informação dada por José Augusto de Castro nem divã resolve. Ele acha que faltam US$ 5 bilhões de compras feitas pela Petrobras e que não foram ainda contabilizadas no comércio. Fez o cálculo a partir da comparação entre as próprias declarações da empresa de aumento de compras e das estatísticas oficiais. Ontem, o Banco Central anunciou que em janeiro o déficit em transações correntes atingiu o recorde para o mês ao superar US$ 11 bi. Em grande parte foi o déficit comercial de janeiro que pesou nas contas externas.

Se balançar muito, o tripé desmonta... - JOSEF BARAT

O ESTADO DE S. PAULO - 23/02

Por décadas, a inflação foi o flagelo que assolou a sociedade brasileira. Um tributo forçado e injusto, que penalizou os mais pobres e favoreceu a concentração da renda. Não era sustada porque governo e empresas ganhavam com ela. O governo gerava recursos para investimentos nas infraestruturas, com base na emissão de moeda. A inflação bancava boa parte do crescimento, que se dava, porém, em mercados restritos, com salários reais erodidos e apropriação desigual da riqueza.

Crescer a qualquer custo fez a alegria dos que acreditavam que importava mais crescer do que ter uma moeda estável, mercados mais amplos e atenuar a pobreza endêmica. O Estado era "for- te",grande investidor e resguardou a indústria da competição externa com reservas de mercado, proteções tarifárias e intervenções no câmbio. O País cresceu até que, nos anos 80, as crises fiscal e da dívida, o drástico declínio dos investimentos públicos e a perda de credibilidade internacional impusessem duas décadas de estagnação e inflação alta.

É nesse contexto que se deve entender o alcance do Plano Real, após várias tentativas frustradas de estabilização. Foi possível consolidá-lo graças à conjugação de moderna instrumentação macroeconômica com um arcabouço legal e institucional de apoio. Três foram os instrumentos: adoção de metas de inflação, geração de superávit primário e regime de câmbio flutuante. Com o objetivo de controlar a inflação no longo prazo, o anúncio prévio de uma meta sinalizava que o Banco Central se comprometia a viabilizar o seu cumprimento, valendo-se de juros, câmbio e controle da base monetária. As metas tiveram duas importantes funções: oferecer transparência para a condução da política monetária, reduzindo incertezas.e coordenar expectativas dos agentes econômicos e do mercado financeiro.

No resultado das contas públicas, o superávit primário propiciou recursos pai a o pagamento dos juros e quitação de parte do montante da dívida. O trauma do passado era o do total descontrole, pois o resultado entre receitas e despesas nunca era positivo. O governo cobria a diferença via emissão de moeda e ampliava o endividamento por meio da "rolagem" da dívida. Assim, para estancar a pressão inflacionária era preciso conter as despesas visando a resultados positivos, ou seja,gerar um superávit para cobrir o custo dos juros da dívida do governo. Com o câmbio flutuante, as operações de compra e venda de divisas funcionaram sem intervenções sistemáticas. O valor das moedas estrangeiras flutuou tão simplesmente de acordo com a oferta e a demanda no mercado de câmbio. Em suma, foi esse o tripé que deu sustentação de longo prazo à estabilidade monetária.

Três importantes mudanças institucionais serviram ainda de apoio: a Lei n.° 8.987/95, que dispôs sobre o regime de concessão e permissão na prestação de serviços públicos; a Lei Complementar n.° 101, que estabeleceu a responsabilidade fiscal impondo a transparência e o controle dos gastos públicos relativamente à capacidade de arrecadação de tributos; e a criação das agências reguladoras para controle e fiscalização dos contratos de concessões. Foram avanços consideráveis para modernizar a administração pública, ampliai" a capacidade de investimento nas infraestruturas com participação privada e gerar um ambiente de segurança jurídica. Ainda no governo FHC, ao tripé foi acrescentado o apoio de programas sociais visando à redistribuição de renda. O governo Lula, apesar de algumas balançadas, o manteve em Linhas gerais. Ampliaram- se as reservas cambiais, o crédito e os mecanismos de redução da pobreza.

No momento, manifestos desejos de volta ao passado se contrapõem à necessidade de abrir novas perspectivas para o futuro. Cabe refletir sobre os imensos riscos de menosprezar a inflação, sobre- valorizar a capacidade intervencionista do governo e proteger a falta de competitividade com reservas de mercado, câmbio e medidas pontuais e descoordenadas de desoneração de custos. Se balançar muito agora, o tripé desmonta...

A volta do mensalão - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 23/02

Joaquim Barbosa conclui sua parte do acórdão e mantém pressão no STF para que julgamento chegue ao final e sentenças sejam cumpridas


O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, dá indícios de que pretende manter neste ano o mesmo empenho com que conduziu, em 2012, o julgamento do mensalão.

O ministro não se limitou a terminar com 40 dias de antecedência a parte que lhe cabia na redação do acórdão do processo (ato que reúne os votos e informa oficialmente a decisão da corte). Também enviou ofício para comunicar o fato aos demais colegas.

Por si só, e ainda mais por ter partido de quem partiu, o gesto já se caracterizava como pressão discreta para acelerar o trabalho de todos os ministros. Mesmo assim, Barbosa foi explícito: "Minha parte está feita, e espero que os outros preparem sua parte".

Seria difícil crer que algum membro do STF pudesse desconhecer a importância de que o acórdão seja finalizado o mais cedo possível. Antes disso, os réus não podem apresentar seus recursos; portanto, o julgamento fica, em certo sentido, paralisado.

Mesmo após a conclusão dessa etapa, que depende da diligência de cada um dos ministros, haverá ainda um longo caminho pela frente antes que as decisões possam alcançar alguma "efetividade", para usar expressão do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele próprio aposta que levará um ano para que as sentenças venham a ser cumpridas.

Uma vez concluído o acórdão -que possivelmente se estenderá por mais de 10 mil páginas-, os advogados terão prazo de cinco dias para recorrer. Em seguida, deverão ser marcadas novas sessões para que todos os embargos (recursos) sejam julgados.

Só quando não houver mais possibilidade de recorrer é que as sanções poderão ser aplicadas. Entre os 37 réus, 25 foram condenados; 11 devem cumprir a pena inicialmente na prisão. Também é só após o trânsito em julgado que os deputados José Genoino (PT-SP), João Paulo Cunha (PT-SP), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP) perderão seus mandatos.

É de prever, nesse contexto, que os advogados envidem todos os esforços para tentar melhorar a sorte de seus clientes. Caberá aos defensores mostrar, se for o caso, que os ministros exageraram na aplicação da punição, por exemplo, ou que foram contraditórios em determinados trechos da sentença.

Não se descarta, porém, que vários dos advogados façam uso ilegítimo das hipóteses de recurso previstas na lei, explorando-as apenas para retardar a execução da pena.

Os ministros decerto estarão atentos a esses ardis. Rejeitar manobras meramente protelatórias é tão importante para a Justiça quanto garantir o direito de defesa.

Quebrar o cartório portuário - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 23/02

As greves de trabalhadores portuários e avulsos em alguns portos brasileiros dão bem uma ideia dos obstáculos que se terá pela frente na tentativa de promover uma nova etapa de modernização do setor. A primeira, resultante da lei promulgada em 1993, após longo debate, permitiu que as antigas e defasadas companhias docas estatais se retirassem das atividades operacionais, com o arrendamento de diversos terminais por agentes privados. Por força de contratos ou pela necessidade de atender à demanda reprimida, os operadores investiram em equipamentos, ampliaram áreas de armazenamento de mercadorias e atracação de navios, e acabaram deixando à mostra outras deficiências estruturais do sistema portuário.

A questão da mão de obra, um dos pontos mais delicados porque até então prevaleciam regras herdadas do século XIX, foi resolvida apenas em parte, com a eliminação da obrigatoriedade de trabalhadores avulsos que já não tinham mais função. Ainda assim, para se evitar um clima de conturbação, partiu-se para um meio termo, atribuindo-se a um novo órgão (Ogmo) a definição de regras para escolha dos avulsos.

Em alguns portos públicos mais movimentados, os terminais foram arrendados por diferentes operadores, o que assegurou inicialmente mais concorrência e aumento de eficiência na movimentação da carga. Se comparado à situação jurássica do passado, houve considerável avanço. No entanto, nesse mesmo período, o resto do mundo também pôs em prática mudanças que agilizaram seus sistemas portuários. Dessa forma, se comparados a portos asiáticos, europeus e mesmo a de países da América Latina, os brasileiros são caros. Tal custo é um dos fatores que retiram competitividade do comércio exterior e impedem que o transporte marítimo e fluvial seja mais usado na movimentação de mercadorias entre as regiões do país.

Por meio da Medida Provisória 595, em discussão no Congresso, o governo dá um choque de competitividade no setor portuário, atraindo mais investidores para assegurar mais concorrência entre os terminais. Limitações para quem quiser investir em novos terminais desaparecem com essa legislação. A reação dos que já estão estabelecidos, incluindo as representações sindicais dos trabalhadores, é deixar tudo como estava antes. Ou impor aos novos investimentos as amarras dos portos públicos.

Ora, o objetivo da mudança é exatamente quebrar os cartórios, estabelecer mais concorrência para tornar o setor mais eficiente, e, por tabela, propiciar ganhos de competitividade nas cargas brasileiras. Nivelar por baixo seria caminhar no sentido inverso. O que se deve buscar é a retirada de amarras também nos portos públicos. Trata-se de uma questão crucial para a economia brasileira.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Ela é uma heroína moderna, pela liberdade de expressão”
Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, sobre a blogueira Yoani Sánchez


CANDIDATURA DE EDUARDO CAMPOS CHATEIA DILMA

A presidente Dilma está chateada com os movimentos do governador Eduardo Campos (PSB-PE) para viabilizar a própria candidatura a presidente, em 2014. Ela acha “legítima” a pretensão, mas avalia que sua reeleição é a melhor opção para Eduardo, que poderia tentar obter o apoio do PT, em 2018. Curiosamente, Dilma acha que a candidatura de Eduardo seria uma manobra para forçar a volta de Lula em 2014.

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Para os “dilmistas”, Eduardo Campos estaria a serviço dos “lulistas”, aliados dele no PT, para forçar a candidatura de Lula em 2014.

PROJETO ADIADO

Para a presidente, “o pior dos mundos” para Eduardo Campos seria a volta de Lula, que tentaria reeleição, adiando os planos dele para 2022.

DÍVIDA ETERNA

Eduardo Campos afirmou que somente abriria mão da candidatura à Presidência caso Lula pretendesse retomar o cargo, em 2014.

RECADO DURO

No ato do PT, Lula desafiou a oposição a “se juntar com quem quiser”, mas Dilma vencerá em 2014. O recado seria para Eduardo Campos.

CADE IGNORA QUEIXA DE ‘TUBAÍNAS’ CONTRA GIGANTES

Apesar de admitir “indícios de práticas anticoncorrenciais”, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), do Ministério da Justiça, não se comoveu com a denúncia da Afebras, associação de fabricantes de refrigerantes, atribuindo o fechamento de pequenos produtores de “tubaínas” à concentração de mercado pelas grandes marcas. O Cade não descarta retomar o assunto, mas o arquivou. Nem abriu inquérito.

NOME É DESTINO

Foi a Marquise a construtora do hospital em Sobral cuja marquise caiu, após a inauguração onde Cid Gomes torrou R$ 650 mil em um show.

CAÇA FANTASMAS

O cocaleiro Evo Morales correu para a Venezuela, mas não pôde ver o ídolo Hugo Chávez no hospital, em estado crítico. Lula se conteve.

MERCI, THANKS!

Europeus e americanos agradecem aos brasileiros os R$ 2,2 bilhões gastos em viagens baratas e compras idem. Foi recorde em 56 anos.

IDEIA FIXA

O deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) continua excitado com o sonho de assumir o Ministério dos Transportes. Procurou o presidente da Câmara, Henrique Alves, para falar mal do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento Industrial) e cobrar apoio do partido.

DAMA DE BRANCO

Yoani Sánchez deu tapa de luva nos militóides, um deles com faca em punho, na livraria Cultura, em São Paulo: “As ditaduras não devem ser avaliadas por serem de direita ou esquerda, mas por serem ditaduras”.

NEXO EXPLÍCITO

Na festa petista de São Paulo, em torno de Lula e Dilma, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) foi o mais aplaudido. Aloizio Mercadante (Educação) deixou tão explícito seu desagrado que ficou meio ridículo.

PRÊMIO

Envolvida nas agressões à blogueira cubana Yoani Sánchez, a União da Juventude Socialista sorteia tablets capitalistas e viagens à Cuba comunista, após os congressos políticos de sua gurizada baderneira.

O MENSAGEIRO

Com 7 milhões de seguidores no Twitter, o escritor Paulo Coelho apoiou em inglês e português a blogueiraYoani Sánchez: “Chega de palhaçadas e de teorias conspiratórias de idiotas sobre agente da CIA”.

BOI NA LINHA

O Grupo JBS-Friboi nega ação na Justiça Federal contra o Banco JBS, mas não diz que o hoje Banco Original é fusão do antigo JBS com o Matone. O primeiro presidente do Banco JBS, incluído na ação, é José Geraldo Dantal, ex-diretor do Banco Rural e corréu no mensalão.

PORTAL DO JERICO

Deve ser em nome da “liberdade de expressão” que o Blog da Dilma chamou Yaoni Sánchez de “rola bosta”, abaixo de foto da presidente. Quem assina o vitupério mais realista que Dilma é Jussara Seixas.

LIXO DO MUNDO

Os irmãos brasileiros Júlio e Juliano da Costa se declararam culpados num tribunal em Londres e vão pagar multa milionária pelo envio de 15 mil toneladas de lixo contaminado e apreendido no Brasil, em 2009.

PERGUNTA BAIXINHO

Depois dos ataques da tropa de choque da “juventude esquerdista” virá a noite de quebrar os “cristais burgueses”?


PODER SEM PUDOR

DUDA E SEU JOÃO-BOBO

Lula ainda cambaleava, após a segunda derrota para FHC, quando Duda Mendonça encontrou o jornalista Ricardo Kotsho na cantina "Il SognodiAnarello", em São Paulo. Ali, o marqueteiro fez uma proposta surpreendente: vindo de campanhas malufistas, ele queria o apoio de Kotsho, amigo de Lula, para "vender ao PT" a ideia de ele fazer a próxima campanha petista, e de graça. Antecipou até a primeira "peça" de campanha: um Lulinha de bolso, pequenininho, que funcionaria como joão-bobo, aquele que toma piparote e fica sempre de pé. "Getúlio usava um bonequinho desses", lembrou Duda. Kotsho não se entusiasmou, mas prometeu levar a ideia ao PT. Duda não precisou usar o Lulinha. Muito menos trabalhar de graça.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Sem competitividade – Após greve ilegal, governo adia privatização de portos
Folha: Comércio corta vagas, e emprego perde força
Estadão: Lula garante Temer como vice de Dilma, diz Alves
Correio: Denúncias de homofobia crescem 400% em Brasília
Estado de Minas: Martírio Mineiro – Governo suspende duplicação da 381
Zero Hora: Carro cedido à BM some em depósito

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Parabéns pra você - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 22/02

Para celebrar os 70 anos do economista carioca Pedro Malan, completados terça, dia 19, a Casa das Garças, no Rio, reúne hoje em um seminário algumas das maiores estrelas do pensamento econômico mundial. Da prata da casa estarão, entre outros, Fernando Henrique Cardoso, André Lara Resende, Edmar Bacha, Ilan Goldfajn, Regis Bonelli, além do próprio Malan.

De fora...
Entre os supereconomistas estrangeiros estarão presentes Albert Fishlow, orientador da tese de doutorado de Malan na Universidade de Berkeley, John Williamson, o economista inglês que cunhou o termo “consenso de Washington”, Larry Summers, ex-secretário de Tesouro dos EUA, e Stanley Fischer, presidente do Banco Central de Israel. Malan merece.

Procura-se
Em decisão unânime, a Quinta Turma do STJ negou mais um habeas corpus ao médico Roger Abdelmassih, de 69 anos, que está foragido. Ele, como se sabe, foi condenado a mais de 200 anos de prisão, acusado der ter estuprado dezenas de pacientes em sua clínica de fertilização, em São Paulo.

No mais
Gosto não se discute. Mas a blogueira Yoani Sánchez bem que podia aproveitar sua passagem pelo Brasil para dar um trato nesta vasta cabeleira. Com todo o respeito.

O MARACA VISTO DE CIMA
Foram tiradas ontem fotos da nova cobertura do Maracanã. Repare só como avança a instalação da lona de fibra de vidro. A colocação, apesar de contar com alta tecnologia, também é feita artesanalmente por operários e alpinistas industriais, que chegam a ficar a 120 metros de altura.

Caso Sean
A Suprema Corte de Nova Jersey julgou procedente o pedido de Silvana Bianchi, avó do menino Sean Goldman, de visitar o neto nos EUA. Em setembro do ano passado, o pai de Sean, David Goldman, interrompeu bruscamente o encontro da avó com o neto porque a tradutora convocada, condição imposta pelo pai, era funcionária do consulado brasileiro.

Money, money...
A Justiça americana também reviu as determinações de David Goldman para a visitação de Silvana Bianchi ao menino. Entre elas, encontros guiados pelo terapeuta de Sean, a não divulgação na imprensa do processo e dos encontros com o menino, além de interromper o processo no Brasil referente ao retorno de Sean.

— A Justiça entendeu que isso acarretaria um prejuízo à convivência familiar de Sean com a avó — afirma o advogado Carlos Nicodemos.

E mais...
David ainda havia imposto que Silvana o indenizasse em US$ 200 mil para que ele pagasse custos advocatícios. Mas a Justiça americana entendeu que a solicitação não procedia como condição de visita. 

Vale coxinha
O show “Tributo a Tim Maia”, que seria realizado amanhã, no Bar do Tom, na Plataforma, no Leblon, foi cancelado ontem por falta de autorização da família do homenageado. Carmelo, filho de Tim, diz que os produtores tentaram dar um jeitinho: ofereceram uma mesa para a família com “coxinhas e cerveja à vontade”.

O crime do frango
A juíza Marta de Oliveira Marins, da 23ª Vara Criminal do Rio, vai interrogar, terça, Cláudio Charles Pereira, Diogo Cardoso de Jesus e Marcos Paulo Barbosa. Eles, lembra?, trabalhavam no restaurante do Centro de Pesquisas da Petrobras, no Fundão, e, em junho, foram presos, acusados de roubar frango congelado, barras de cereal e iogurte.

Mas...
O trio alega que pegou apenas a comida que seria jogada no lixo.

Miliciano no xadrez
O desembargador José Muifios Pifieiro Filho negou pedido de liberdade feito pelo ex-vereador Jerominho, acusado de um homicídio em 2005 e de chefiar, junto com seu irmão, o ex-deputado Natalino, milícias na Zona Oeste. Estão no presídio federal de Rondônia.

O outro lado
Em relação à polêmica sobre a propriedade da área na Barra onde se pretende construir o campo de golfe, o advogado Sérgio Antunes Lima Júnior diz que o STJ não tomou nenhuma decisão “que tenha anulada a aquisição da área pela Elmway”.

Só faltou o esperanto!
O comandante do voo 5351 da Trip impressionou, ontem pela manhã, os passageiros. Depois de falar em português e em inglês, repetiu os dados em espanhol e em francês. Era apenas um voo entre Vitória e Rio.

BELEZA COBIÇADA NA FRANÇA 
Adenízia, 26 anos, a linda campeã olímpica de vôlei em Londres 2012 que joga no Sollys/Osasco, de São Paulo, assinou contrato com a agência de modelos francesa L’Equipe. Sua beleza brasileira chamou atenção dos gringos.

Ponto Final
Uma comissão mista de psiquiatras franceses e brasileiros deveriam analisar porque o francês Jean-Charles Naouri e o brasileiro Abilio Diniz não param de brigar, mesmo depois que ficou claro que o Casino é dono do Pão de Açúcar. Em Frei Paulo, esta questão seria resolvida na porrinha. Com todo o respeito.

Comida e poder - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 22/02

RIO DE JANEIRO - Nos anos 70, ao ouvir que o McDonald's acabara de inaugurar sua primeira loja em Tóquio, o linguista nipo-americano S. I. Hayakawa comentou: "Que terrível vingança por Pearl Harbor!". Queria dizer que a delicada dieta japonesa sofreria muito mais com a penetração da "junk food" do que a base americana no Havaí com o ataque dos aviões e navios do Japão em 1941. Afinal, o bombardeio de Pearl Harbor só durou uma manhã. O do McDonald's seria para sempre.

O uso de comida ou bebida para fins de dominação é conhecido. Vide a visita do presidente Richard Nixon à China de Mao Tse-tung, em 1972. Os EUA passaram a vender Pepsi-Cola aos chineses, e o que aconteceu? Assim que começaram a tomar a gororoba pelo canudinho, os jovens chineses nunca mais quiseram saber da Revolução Cultural.

A comida pode ser também uma arma secreta, e não é de hoje. No século 16, os soldados espanhóis no México foram amistosamente recebidos pelos astecas e comeram do bom e do melhor. Em troca, mataram o imperador Montezuma e tomaram conta do pedaço. Mas pagaram caro. A comida dos astecas provocou-lhes uma tal diarreia que, até hoje, qualquer infecção intestinal em viagem, não importa onde, tornou-se "a vingança de Montezuma".

Pois, durante séculos, o Brasil viveu de vender açúcar e café no mercado externo, leia-se EUA. O fato de a economia nacional depender de produtos tão singelos, feitos para o café da manhã ou para a sobremesa, era até simbólico. Significava que o Brasil não participava do grande banquete internacional.

Bem, as coisas mudaram. Hoje, esse banquete consiste justamente na "junk food": hambúrguer, batata frita, mostarda, ketchup, cerveja. Bilhões de pessoas passam a isso todos os dias. E são empresários brasileiros que estão abocanhando, engolindo e tomando esse mercado.

Sou uma mistura de antigo e novo - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo - 22/02

Não creio que Ruy Castro se irrite ao ver que entro de carona no seu barco. Esta semana, em sua crônica na Folha, ele se referiu à invasão tecnológica do mundo, concluindo: me incluam fora. Não tem medo de ser chamado de jurássico, assim como não tenho medo de ser considerado anacrônico, por compartilhar ideias. A verdade é que todo esse aparato não me tem feito mais feliz. Assim como não tem acrescentado tanto à vida dos que têm mil aplicativos no celular, os que possuem Instagram, os que acessam internet no meio da rua, no metrô, no táxi, no estádio. Falando em estádio, dia desses, estava no Pacaembu e vi um sujeito com um smartphone (ou o que seja) assistindo a um jogo. Quando percebi, ele estava vendo pela televisão o jogo que se desenrolava ao vivo à sua frente. Fiquei perplexo!

Aliás, este é um tempo de perplexidades. Até o papa deixou o mundo perplexo e os católicos assustados. Ruy disse que o fax foi uma das invenções que mais o encantaram quando surgiu. Depois, veio a decepção, o fax era capaz de tudo, menos de enviar uma pizza. E naquela época os deliverys não faziam parte de nossos hábitos como hoje. Para mim, o encanto veio com o teletipo, ou telex, aparelho que toda redação tinha. Por ele chegavam notícias internacionais, muitas em inglês, porque estavam sendo redigidas no exterior, naquele momento. Um espanto. Nunca me esqueço da tarde de 22 de novembro de 1963, quando o teletipo anunciou que John Kennedy tinha acabado de ser fuzilado em Dallas, Texas. Acho que eram 2 da tarde aqui. Em torno do aparelho juntou um grupo de jornalistas ansiosos, emocionados, assustados. Vivíamos a história enquanto ela acontecia. Aquilo foi espantoso para nós, jovens. Fomos seguindo passo a passo o trabalho da polícia e a tentativa de recuperação de Kennedy no hospital. Finalmente, o anúncio: o presidente foi declarado morto. Aquele momento foi o nosso encontro com a modernidade na imprensa.

Minha filha diz que sou bobo ao me orgulhar de não ter celular. "Pensa que é bonito?" Não, penso que não preciso atender telemarketings, não preciso atender quem não quero. Encontro quem eu desejo, preciso. O celular nos torna prisioneiros. Há empresas que proíbem funcionários de desligarem o celular nos finais de semana. Você é empregado 24 horas por dia, sete dias por semana, 30 dias por mês. Computador? Tenho. E dos bons. Um Mac que chamei de Big Mac (ainda que eu odeie o sanduíche), porque me serve à perfeição. Tenho laptop. Uso o CD, ainda que tenha descoberto que muitas vezes a mesma música que tenho em vinil tem melhor reprodução e intensidade do que no CD. Mais, descubro que algumas músicas no CD são "editadas", cortadas, faltam trechos. Agora MP-3, iPod, Instagram não tenho. Observo a vida em torno. Ninguém mais vive contente de estar onde está, seja bar, restaurante, cinema. Todos postam fotos e mensagens do que comem, bebem, que filme vão ver, querendo saber do outro onde está, o que come, bebe e se está melhor lá. Há uma imensa solidão nessa rede social. E quanta inveja, quanto ressentimento. Dia desses, ouvi de um garoto: "Filho da p..., ele se saiu melhor indo lá. E nós aqui neste mico!" Dali em diante pareceu infeliz. Outro não se conformava por não ter ido à praia.

Não sei, pode ser que eu seja anacrônico tentando diminuir a velocidade do ritmo em que vivemos. Não preciso de tantas notícias, tantas informações, tantas frases tolas dos Twitters. O tempo que as pessoas passam tuitando. Usamos a palavra inglesa para o aparelho, porém, o verbo aportuguesou. Como entender a língua? Um amigo comeu um belo prato, bebeu um bom vinho, viu um belo filé como essa obra-prima Amor? Me ligue, me mande um e-mail. Bem, quanto a e-mails, despacho vários por dia, ainda que adore escrever cartas, colocar no envelope e pôr no correio. Exige paciência, exercício (uma caminhada até a agência). Nas filas, converso com as pessoas, encontro temas para crônicas.

Assim como vou à estante buscar um livro, gosto de ir à prateleira (no interior, dizem parteleira) e escolher um disco (CD ou vinil), colocar no aparelho, escolher a música. Levanto, ando, penso, decido. Porque tudo hoje se faz sentado e com toques em teclas e mouses. Sou uma mistura do antigo e novo. O bom do novo, aceito, incorporo. As neuras, obsessões, desvios, não. Tento ser feliz assim, ainda que felicidade seja algo indefinível, intermitente, ocasional.

Jane Eyre - FERNANDA TORRES

FOLHA DE SP - 22/02

A igualdade nas relações entre senhor e escravo, entre homem e mulher, sustenta o duelo verbal


Trabalho em um roteiro de terror. A conselho materno, aluguei uma adaptação de 2001 do romance de Charlotte Brönte, "Jane Eyre", que poderia vir a servir de referência.

O filme tem direção segura de Cary Fukunaga, uma baita fotografia do brasileiro Adriano Goldman e traz Michael Fassbender e Judi Dench no elenco. Não li o livro, mas percebe-se, na dubiedade, na crueza e no desamparo dos personagens, a boa literatura.

Seduzida pelo ameaçador patrão e aprisionada à posição de serva, Eyre diz se dirigir não à pessoa do poderoso Rochester, mas ao seu espírito. "É o meu espírito que fala ao seu", diz ela, eliminando, entre os dois, as barreiras sociais, os impedimentos formais e a cerimônia entre gêneros.

A igualdade nas relações entre senhor e escravo, entre homem e mulher, sustenta o ferino duelo verbal. Para alcançá-lo, é preciso falar ao espírito.

Michael Fassbender é um ator vertical. Seu Rochester é vil e apavorante, e não menos violento quando apaixonado. Ataca baixo e pausadamente a longa fala em que confessa sentir-se atado a Eyre por um fio ligado ao plexo, e teme que a distância arrebente o fio, deixando aberta uma ferida incurável.

Ninguém diz isso a passeio. É preciso estar imbuído de alguma grandeza, ser capaz de delinear a vastidão da dependência amorosa sem cair em choros fúteis. Cabe ao intérprete investir no caráter trágico, viril do romantismo.

Orson Welles, em 1943, foi o Rochester de Joan Fontaine. William Hurt o encarnou em 1996, sob a direção de Franco Zeffirelli, ao lado de Charlotte Gainsbourg. Fui atrás de Welles, mas só encontrei trechos na internet -na falta, me contentei com Hurt.

Vale o exercício. Assista Fassbender, Welles e, depois, Hurt.

Welles é louco, tem a coragem do canastrão, a voz de um cantor de ópera e a esperteza do gênio. É dele o melhor beijo final, um primor de voracidade, que Fassbender, contrário a todas as expectativas, executa reservado e cortês.

Hurt age como se estranhasse o próprio castelo. Nota-se que não é nobre e muito menos inglês. Faz de Rochester um homem amuado, ranzinza e abatido.

De cócoras, abraçado aos joelhos em posição fetal, dá as costas para Eyre, enquanto declama indefeso a jura de amor sobre o fio que o liga à jovem preceptora.

Gainsbourg tem mais pena do que desejo por Hurt. Falta ao ator a vilania do aristocrata e sobra autopiedade burguesa.

Minha mãe costuma dizer que, com raras exceções, os americanos tendem a ser cronísticos. Não há transcendência, diz ela, se chamar um psicanalista acaba o problema dramático. A melancolia do Rochester de Hurt seria aliviada com um antidepressivo. A fúria de Welles, exceção à regra, e Fassbender, não.

Essa divisão entre o que é crônica, trama, e o que é pathos, drama, norteia o julgamento crítico de dona Fernanda. E com ela fui assistir "A Hora mais Escura", de Kathryn Bigelow.

O filme busca a neutralidade dos fatos. É jornalístico. Faz a retrospectiva dos dez anos que levaram até a captura de Osama bin Laden, encena torturas e atentados realistas, além de uma impressionante reconstituição da emboscada ao esconderijo do terrorista. Mas os cabelos anelados da protagonista, alisados na chapinha na passagem de tempo, denunciam a frieza da obra.

Existe um quê de "24 Horas", de "Supremacia Bourne", de 007 em "A Hora Mais Escura". Sua eficiência narrativa satisfaz, e muito, o meu apreço por filmes de ação, mas carece de uma visão humana da Guerra Santa.

Falta o Romantismo.

O que Rochester diz a Eyre bem caberia na boca do torturador. "Você não é naturalmente austera, não mais do que eu naturalmente vil." Ou do torturado. "Você é capaz de se dirigir a mim como a um igual?"

Talvez por isso, a cena em que a agente olha o cadáver do homem que procura há uma década, que ordenou a morte de milhares de pessoas e acabou com a vida de muitos de seus amigos, surge protocolar. Ela está certa no lugar em que está, é bem enquadrada, sóbria, econômica, mas não há catarse.

Falta a doença do Romantismo.

Não se governa de um palanque - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 22/02
Uma das críticas recorrentes e mais contundentes que até notórios simpatizantes como Frei Betto fazem ao Partido dos Trabalhadores é a de que, após chegar ao Palácio do Planalto, em 2003, o partido passou a priorizar seu ambicioso projeto de perpetuação no poder, a ele condicionando o projeto de governo. Na última quarta-feira, na festa promovida para comemorar "o decênio que mudou o Brasil", Luiz Inácio Lula da Silva - o que é natural - e Dilma Rousseff - o que é lamentável - demonstraram acima de qualquer dúvida que estão mais preocupados com as urnas do que com a solução dos crescentes problemas do País. A festa, minuciosamente planejada pelo marqueteiro oficial dos petistas, João Santana, serviu de palanque para o lançamento, por Lula, da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição, daqui a um ano e oito meses. E a presidente da República cumpriu disciplinadamente o papel que o roteiro da festa lhe reservava. Com um discurso populista e sectário, inadequado para quem não deixa de ser chefe de governo e de Estado nem mesmo num evento partidário, Dilma Rousseff sinalizou que daqui para a frente, até outubro de 2014, será sempre mais candidata do que presidente.

Ao antecipar o calendário eleitoral e comunicar ao País que sua pupila vai disputar a reeleição, Lula demonstrou que, ao contrário do que seu tom triunfal sugere, sabe que a vitória em 2014 não são favas contadas, principalmente por conta das incertezas de uma conjuntura econômica que, se até recentemente era favorável, agora é uma grande incógnita no médio prazo. Por essa razão tentará o Partido dos Trabalhadores, o mais cedo possível, "tomar conta" da cena eleitoral e consolidar a imagem da presidente Dilma Rousseff com, mais uma vez, a irrecusável indicação do Grande Chefe. Em circunstâncias normais, esse seria um problema do Partido dos Trabalhadores, que os eleitores resolveriam nas urnas.

Ocorre que quem está genuinamente preocupado com o futuro do País não pode deixar de constatar que o partido hegemônico no âmbito federal opta claramente por se aproveitar das dificuldades nacionais - que se acumularam nos últimos dois anos -, em vez de superá-las em benefício de todos os brasileiros.

Pois é isso que ocorre quando os programas governamentais passam a ser subordinados aos interesses eleitorais, sempre imediatos. Não se governa de cima do palanque. Buscar soluções para questões fundamentais no âmbito da educação, saúde, infraestrutura, segurança, etc., implica frequentemente a prescrição e a aplicação de remédios amargos que só rendem dividendos políticos a longo prazo, provavelmente muito depois da próxima eleição. A presidente Dilma faria muito melhor, portanto, se, em vez de vestir vermelho e recitar num palanque as frases de efeito que lhe são ditadas por seu marqueteiro, se dedicasse a governar bem, que é o que dela se espera.

Mas na festança petista, realizada nas instalações de um hotel de São Paulo, os militantes em geral tinham mesmo muito o que comemorar, depois de 10 anos no poder, numa máquina estatal aparelhada como nunca antes na história deste país. Um aparelhamento, justiça seja feita, compartilhado com um enorme arco heterogêneo de alianças, devidamente representado no palanque por caciques partidários que iam desde os "faxinados" ex-ministros Carlos Lupi (PDT) e Alfredo Nascimento (PR) até o neodilmista Gilberto Kassab (PSD), saudado pela plateia com sonora vaia. Companhias, até para alguns petistas, um tanto indigestas. Mas, como explicou Lula, "ora, não é para casar!".

A cereja do bolo servido na festa petista foi a participação de mensaleiros condenados pelos mais variados crimes: José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha. Foi-lhes estritamente recomendada uma participação discreta, o que os manteve fora do palanque, mas não os privou de efusivas manifestações de apreço e consideração.

Enquanto isso, a oposição continua em obsequioso silêncio, quebrado pelo solitário discurso de críticas ao governo feito pelo senador Aécio Neves na tarde de quarta-feira. Foi pouco, muito pouco.

Uma ferramenta de política econômica - RICARDO GALUPPO

BRASIL ECONÔMICO - 22/02

Um dos hábitos que impedem a compreensão do que acontece com a economia brasileira é a mania de olhar o mercado assim como se compra carne de boi no açougue.

Quem quer o contrafilé nem olha para a picanha - e ponto final. Com a economia, os fenômenos são observados mais ou menos da mesma forma, sem que se perceba a relação que existe entre um e outro.

Anteontem, por exemplo, o Banco Central divulgou sua previsão para os números finais do PIB de 2012. Segundo o BC, a economia cresceu cerca de 1,64% no ano passado.

Por diferença metodológica, o número será um pouco maior do que os dados oficiais do PIB, que o IBGE divulgará nas próximas semanas e que deverão ficar entre 0,9% e 1,1%. Onde está o esquartejamento?

Bem, a questão é que pouca gente se lembrou do PIB ao comentar, ontem, o lucro recorde do Banco do Brasil no ano passado. O BB, como se sabe, foi o principal agente do esforço governamental de estimular a economia por meio da redução das taxas de juros. Seu lucro, em 2012, foi de R$ 12,2 bilhões, um número ligeiramente maior do que o de 2011. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo.

Em primeiro lugar, o lucro do BB teve uma alta discreta em relação ao ano anterior num exercício em que todos os outros grandes bancos brasileiros tiveram ganhos menores do que os de 2011. E a principal explicação para esse aumento foi a expansão do crédito, de acordo com a orientação do governo.

Em outras palavras, se o Banco do Brasil tivesse feito exatamente o que os outros fizeram, teria lucrado menos e seus acionistas (não apenas o governo, mas também os acionistas minoritários) poderiam ter saído perdendo.

Além disso, o PIB medido pelo BC (que só cresceu 1,64% porque o consumo expandiu) teria sido menor. Isso se não andasse para trás, como aconteceu pelo mundo afora em 2012. Em outras palavras, o lucro do BB tem uma ligação umbilical com o PIB medido pelo BC. E vice-versa.

O movimento do governo foi correto, sob o ponto de vista político, e perfeitamente dentro do que estabelecem os manuais de economia. A prova disso foi que o BB não perdeu dinheiro. Ao contrário, ganhou.

O ministro Guido Mantega utilizou a posição de liderança de um banco sob seu controle com instrumento de política econômica. Errado seria se visse a economia andar para trás sem tomar uma providência para evitar o pior.

Na medida em que, no ano passado, emprestou mais dinheiro do que em 2012, o banco oficial deu uma orientação clara ao mercado. O remédio foi eficaz. O problema é que essa ferramenta não é capaz de produzir um efeito duradouro.

Quem compra um carro este ano dificilmente comprará outro no ano que vem. O mesmo vale para TV, fogão e geladeira. A solução para um crescimento mais robusto e continuado do PIB é estrutural. Mas para isso, infelizmente, o governo não tem demonstrado a mesmo eficiência que mostra diante das questões pontuais.

Notícias de 2014! - TUTTY VASQUES

O ESTADÃO - 22/02

Fatos irrelevantes que marcaram o início da campanha presidencial:

1) A volta de Aécio Neves à tribuna do Senado dividiu opiniões no PSDB! Tem tucano achando que, em vez de cirurgia plástica facial, o partido deveria ter investido no implante de cabelo em seu candidato.
2) Lula relacionou os opositores aos "timbres do atraso"! Com aquela voz, francamente, o ex-presidente não é a melhor pessoa no momento para criticar o timbre alheio. 
3) A ausência de Geraldo Alckmin no debate foi muito elogiada!
4) O ex-prefeito Gilberto Kassab vai aos poucos pegando o jeito de agradecer às vaias nos eventos promovidos por seus aliados do PT!
5) O fato de José de Abreu ter assumido recentemente sua bissexualidade no Twitter não tem nada a ver com o apoio que ele voltou a dar em público ao ex-ministro José Dirceu. "Amigo é amigo, ele é o meu guru!" - explicou o ator.
6) Ronaldo Caiado se entregou de corpo e alma à luta em defesa da liberdade de expressão!
7) "E as mancadas de Dilma Rousseff, hein?" O pé imobilizado da presidente deu panos pra manga na festa do PT!
8) Se a corrida eleitoral já começou desse jeito, imagina na Copa!

Puro preconceitoEstá explicado por que Eike Batista tem feito o que pode para sair da lista de bilionários da revista Forbes: Silvio Santos entrou para o clube!

Peralá!Tá certo que a edição latina da revista Time exagerou ao botar Neymar na capa com o título O próximo Pelé. Mas o Rei também não precisava ficar na bronca daquele jeito com o jovem craque do Santos! A culpa não é dele!

De bom tamanhoO brasileiro precisa, de uma vez por todas, se acostumar com o PIB pequeno! Não pode se deprimir desse jeito toda vez que alguém mede seu Produto Interno Bruto!

Fama recuperadaA torcida organizada do Corinthians estava com todos aqueles elogios que recebeu por seu bom comportamento no Japão entalados na garganta desde a conquista do Mundial. Deu no que deu na Bolívia!

Teoria conspiratóriaO papa Bento XVI quer mudar as leis da Santa Sé para antecipar o conclave que elegerá seu sucessor, mas a possibilidade de golpe de estado está totalmente afastada no Vaticano! Relaxa aí, vai

Será o Benedito?Corre nas redes sociais o boato de que Hugo Chávez teria sido visto dia desses no SPA Kurotel, em Gramado, o mesmo em que Renan Calheiros tomou banho de lodo no carnaval!

Aquilo grandeO prestígio de Silvio Berlusconi voltou a crescer na Itália! Só se fala disso nos bunga-bungas da Sardenha!

Sotaque inconfundívelEntreouvido noite dessas em queixa a um garçom de bistrô em Paris: "Que bife filho de uma égua é esse, meu rei?!" 

Socuerro! A Dilma tá de Crocs! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 22/02

Uma petista levantou e gritou: "Se a Dilma continuar a usar Crocs, eu mudo de partido"


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Festival de Piadas Prontas! Direto de Curitiba: "Ladrão de picanha tem carne até no nome". Um cara roubou cinco peças de picanha e duas de filé-mignon num supermercado, como é o nome dele? Augusto Malacarne Siqueira!

E esta: "Harrison Ford se perde em trilha na Floresta da Tijuca". Chama o MacGyver! Indiana Jones em busca da trilha perdida!

E mais esta: "Cientistas concluem que soltar gases durante viagem de avião faz bem". Então não é turbulência, é flatulência. Já imaginou a comissária: "Senhores passageiros, favor apertar os narizes que estamos atravessando uma zona de flatulência". "Senhores passageiros, em caso de flatulência, máscaras cairão automaticamente."

E outra ainda: "Parlamentar brasileiro é o segundo mais caro do mundo". Claro, já vem todo equipado: ficha-suja e uns cem parentes empregados! E a festa de dez anos do PT no poder? Faltou um convidado importantísssimo: a cueca! Rarará!

E adorei a charge do Pelicano com o Lula perguntando pro organizador da festa: "Já reservou lugar pro pessoal do mensalão?". "Já, todos debaixo da mesa." Rarará!

E a Dilma de Crocs? Diz que uma petista levantou e gritou: "Se a Dilma continuar a usar Crocs, eu mudo de partido". Eu vou levantar um cartaz de protesto: "Cuba sí. Crocs no!". E como disse uma amiga no Twitter: "Deixa a Dilma arejar o pé, eu já comprei um igual pra minha formatura". Rarará!

E a oposição não tinha que levar a blogueira cubana pro Congresso. Tinha que levar pro shopping. Pra tirar aquela saiona maria mijona! E ela no Congresso parecia um fantasma. Vagando pelo Congresso. De mão em mão!

E a charge do Lailson com novos protestos dos esquerdistas cavernistas: "Abaixo o fogo!". "A roda é uma invenção imperialista." Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

A blogueira foi recebida pelo Bolsonaro. O Bolsonaro defendeu a liberdade de expressão da blogueira cubana e elogiou a ditadura militar no Brasil. Na mesma fala! Na mesma frase! Tenho o maior respeito por quem condena uma ditadura defendendo outra ditadura. Rarará!

E manchete do Sensacionalista: "À procura de adversário para Dilma, PSDB exuma restos de dom Pedro 1º". Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Atacar Yoani Sánchez é golpear a liberdade - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 22/02

A vinda ao Brasil da blogueira e ativista cubana Yoani Sánchez, lutadora pela abertura política em seu país, tinha tudo para se transformar em uma grande festa da democracia.

Depois de ter o visto de saída de Cuba negado 20 vezes nos últimos seis anos, Yoani finalmente conseguiu ultrapassar as fronteiras cubanas, mas desde o desembarque em território brasileiro vem sendo alvo de covardes manifestações que ultrapassaram o direito legítimo ao protesto e apelaram à violência.

Um fato insólito: quando Cuba, mesmo que timidamente, avança na abertura, o Brasil regride na intolerância. Tanto no Recife quanto em Salvador, por onde passou inicialmente, a blogueira foi hostilizada e teve notas falsas de dólar esfregadas em seu rosto por agressores que atuam como em verdadeiras hordas fascistas.

Em Feira de Santana, na Bahia, manifestantes ocuparam o auditório onde ocorreria a exibição de um documentário que contou com a participação de Yoani e não permitiram que a cubana falasse por mais de 15 minutos. O grupo obrigou os organizadores a cancelarem a exibição do filme, atentando contra a democracia e a liberdade de expressão.

Para quem, como eu, ingressou no Partido Comunista Brasileiro acreditando na construção de uma sociedade mais justa e inspirado pelos ideais da Revolução Cubana, que embalaram os sonhos de toda uma geração, é doloroso constatar que a esperança tenha sido derrotada pelo obscurantismo que tenta calar a liberdade.

Naquele momento, lutávamos por um mundo igualitário. Hoje, infelizmente, alguns jovens se unem para impedir a livre manifestação de uma blogueira.

Para agravar a situação, a ação intolerante desses grupos contou com a conivência do governo brasileiro, na medida em que um de seus funcionários, Ricardo Augusto Poppi Martins, assessor direto do ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, participou de reunião com o embaixador de Cuba no Brasil, conforme revelou a revista "Veja".

No encontro, o embaixador informou que Yoani seria vigiada por agentes cubanos durante sua passagem pelo país e entregou ao subordinado do ministro um dossiê secreto com informações sobre a blogueira.

O pior é que se trata de um comportamento recorrente do governo Dilma, que já havia ignorado solenemente a participação indevida do embaixador da Venezuela em um ato organizado pelo PT em defesa do ex-ministro José Dirceu, condenado pelo STF no mensalão.

Ambos os episódios ferem os princípios da não interferência em assuntos internos de outras nações e da autodeterminação dos povos, historicamente respeitados pelo Brasil em fóruns internacionais.

Ao contrário daqueles que intimidaram a blogueira, a verdadeira esquerda democrática brasileira tem um compromisso histórico com a pluralidade, a tolerância e o respeito à divergência e aos direitos fundamentais.

Os ataques não se limitam à cubana e dizem muito sobre o período histórico em que vivemos, sob o comando de forças políticas que representam o atraso, vilipendiam as instituições e afrontam a liberdade. Atacar Yoani é golpear a democracia que construímos com tanto sacrifício.

Escolha sua Yoani - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 22/02

Fala-se demais na blogueira por motivos dos mais variados. Qual o subtexto que mais lhe convém?


Impossível não se deixar cativar pela figura da blogueira Yoa­ni Sánchez. Não me lembro de latino-americana tão multiface­tada desde que minha tresloucada amiga Buci, digo, Cleide apresen­tou-me à Mercedes Sosa e ela can­tou choramingando na minha ore­lha: "Ai, la libertaaaaaad!". Isso foi, se bem me recordo, em um almoço na casa da Ruth Escobar, lá pelos idos de 1807, com a Independência do Brasil batendo à porta.

Já que estamos nisso, como podem tratar o que restou do imperador como arqueologia? Queria ver se fosse o avô da museóloga. O homem nem bem esfriou no túmulo e já vai sendo exposto como se fosse um velociraptor. País jovem é isso: qualquer palmeira imperial de 20 anos de idade ganha status de árvore secular.

Mas eu dizia sobre Yoani, que tanto para alegria dela quanto dos irmãos Castro, dos anticastristas em Cuba e de todo mundo que lucra enquanto o regime cubano não mudar e o embargo norte-americano não for retirado, que festas como a desta semana no Brasil continuarão a ser plenamente exitosas. Especialmente levando em conta que Yoani não é nenhum Élian Gonzáles, o garotinho náufrago, mas praticamente desconhecida em seu próprio país. Se até o Eduardo Suplicy conseguiu chamar atenção, é porque o evento foi sacudido.

Não sei se é verdade, mas dizem que Suplicy já estava pre­sente no riacho do Ipiranga tentan­do empurrar seu livro sobre renda mínima a d. Pedro 1º, para ver se cavava uma foto nos jornais do dia seguinte.

O que sabemos ao certo é que, nes­ta semana, o petista não desgrudou da blogueira cubana e aproveitou cada momento sob os holofotes pa­ra exercitar seu dom, o marketing de si mesmo.

Pois eu vou imitar o Suplicy e colar na Yoani. A motivação será um pouco diversa, mas vejo nela muita legitimidade. Em apenas uma semana, a que passou, eu fui de comentarista de "t-shirt", rodeada de chapinhas em um canal de espor­tes, para uma perua assumidíssi­ma, de batom e seda pura, em um canal bacanérrimo de enfoque fe­minino. Iluminada como que por um clarão, eu pude entender por­ que existem no mundo tantos chi­cos langs e só uma Marília Gabriela. E porque é tão difícil, afinal, fazer o que ela faz. Alô, Gabi! Retiro todas as críticas a você e peço desculpas encarecidas.

Yoani está na minha barca, a dois palitos de se deixar seduzir pelo brilho do objeto de consumo. Em 2009, para a mais alta patente nor­te-americana a visitar Cuba em dé­cadas, sabe qual foi o pedido feito pela dissidente de prestígio inter­nacional sem que ninguém as ou­visse? Que a subsecretária Bisa Williams ajudasse a liberar com­pras via internet.

Escrevo poucas horas antes de ir ter com Yoani -vou mediar um debate seu na Livraria Cultura- e já es­tou pensando em convidá-la para bater perna comigo na Oscar Freire. Olha só: ninguém aqui está dizendo que ela não sofreu nas mãos do regime ou que Cuba não seja um estado totalitarista, ultrapassado e infame. Torrar dinheiro também não é crime e receber salário do "El País" é tão legítimo quanto respirar ou ter seu próprio tour de popstar patrocinado pela Liga das Senhoras Católicas ou os Anticastristas de Miami, por mais sebosos que eles sejam.

Mas sempre convém entender que yoanis vêm com subtextos. Fala-se tanto na blogueira porque ela critica Cuba e isso serve aos "im­perialistas". OK. Mas serve tam­bém para desviar atenção de fatos como: 1) estamos esquecendo da li­ção de que o Brasil nunca mais ia ser leviano com a ameaça da inflação; 2) já não encaramos mais a independência do Banco Central como uma grande conquista; e 3) maquiar contabilidade é gravíssimo.

Mudou a candidata, é outra a campanha - MARIA CRISTINA FERNANDES

Valor Econômico - 22/02

É outra a candidata que se apresentou à reeleição nesta quarta-feira. Sai a ministra aplicada e tecnocrática e entra a presidente de vermelho, do-povo-pelo-povo-para-o- povo.

Ao disputar pela primeira vez a Presidência da República em 2010, Dilma foi talhada para se mostrar uma herdeira do lulismo com raia própria.

Precisava manter o eleitorado do seu antecessor e agregar setores da classe média com pitadas de meritocracia, apego à gestão e tolerância com a crítica.

Quando o ex-presidente subiu o tom contra adversários e imprensa no final da campanha, manteve seu discurso em outro termostato.

Ao assumir o governo fez acenos à oposição, elogiou o legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cativou a classe média com desoneração de IPI de automóveis e ampliou a popularidade para além de sua votação.

A despeito de ter conquistado uma base maior, fez, nesses dois primeiros anos de governo, uma gestão mais petista que a de Lula. Empurrada pela crise econômica, baixou os juros e a tarifa de energia e, com idas e voltas com a presença do Estado na economia, aumentou a regulação.

O que se viu na quarta-feira foi uma presidente ciosa da necessidade de prestigiar seu antecessor, mas dedicada a lustrar o potencial eleitoral de seus próprios feitos.

Mudou a candidata porque é outra campanha. Por mais que continue na boca do povo e seja o principal articulador da reeleição da sucessora, o ex-presidente deixou de ser o principal avalista da disputa. Dilma agora é a candidata do que fez, fizer e deixar de fazer.

E é como candidata dela mesma, que tem que ser menos Dilma. É porque está menos dependente de Lula que precisa trocar a ênfase. Apela menos à tecnocracia e cede mais ao discurso nacional-popular da tradição petista.

Nada garante que chegue em primeiro, mas já não corre o risco de, nesta raia, ficar à sombra de Lula.

A presidente foi ao evento vestida de petista, do figurino ao discurso. O antecessor se vestiu de Brasil. Da gravata listrada de azul e amarelo a um discurso em que resgatou sua posse.

Dilma cuida de arrumar carisma porque a oferta desta mercadoria tende a aumentar em 2014.

Ainda não se sabe se vai vingar, mas, se a rede de Marina vier embalada como pretende, seu potencial de redentora tende a crescer.

Mesmo que faça muitas concessões para entrar no jogo, Marina tem verbo suficiente para vender um passaporte eleitoral como utopia.

Dilma agora é a candidata do que fez, fizer e deixar de fazer

No Roda Viva da última segunda-feira, esmerou-se na eloquência que tanto serve a púlpitos quanto a redes sociais: "Sábio é quem aprende com os erros dos outros e estúpido quem não aprende com os próprios erros", "o movimento tem ideias cujo tempo chegou", "a justiça que não se faz com amor é vingança", "não somos resultado do passado, mas daquilo que fizemos do passado".

É com esse discurso que quer ampliar a cesta dos 20 milhões dos eleitores religiosos, ambientalistas, cansados da polaridade e sonháticos em geral.

Marina pouco bate em Dilma. Parece mais à vontade ao falar da cláusula de autodissolução do partido do que do investimento em inovação como motor do crescimento econômico.

Com o verniz mais popular, a presidente parece querer reconquistar o eleitor lulista que, em 2010, viu em Marina a reencarnação da liderança popular representada pelo presidente que partia.

A movimentação de Dilma para evitar sangria de votos em direção à candidata da utopia se mostra mais clara do que a estratégia com a qual pretende enfrentar os postulantes do choque de gestão.

Nesse campo há dois, um mais candidato do que o outro, Aécio Neves e Eduardo Campos. Juntos ou separados têm mais carisma que José Serra mas, a exemplo deste, são bons candidatos em busca de um discurso.

O pronunciamento com que Aécio se contrapôs, no Senado, às celebrações petistas, pode ser um diagnóstico pertinente da conjuntura mas ainda está longe de se transformar num discurso político.

Quantos votos Aécio vai ganhar com o sucateamento da indústria, a crise da federação e a constatação de que o PT faz as privatizações que um dia criticou no PSDB?

Sim, os indicadores sociais e econômicos que bombaram na última década petista podem não se repetir nos próximos dez anos se o país não voltar a crescer.

Aécio tenta denunciar o que estaria por vir mas esbarra na economia de pleno emprego. O governador de Pernambuco tem encontrado o mesmo freio para não dar sua candidatura por consumada.

Ambos investem suas fichas nas bases partidárias e empresariais da candidatura Dilma. A inflação de emendas às medidas provisórias do setor elétrico e dos portos são a demonstração de como a base aliada busca ser sócia da tentativa da presidente em reaver o investimento.

É dos excluídos desse consórcio que podem surgir os parceiros do PSB e do PSDB em 2014. Por enquanto, não há sobras. Dirigentes de oito partidos, entre os quais o de Eduardo Campos, estavam na pajelança petista.

No meio empresarial, o PT já identificou claros acenos à oposição. O presidente do PT, Rui Falcão, inconformado com a infidelidade de setores empresariais que avalia serem amplamente beneficiados pelo governo, foi claro sobre os propósitos do partido na relação com o empresariado: "Temos que identificar quem está do nosso lado e quem não está" (Valor, 13/02/2013).

A cartilha preparada pelo PT para os 10 anos no poder mostra que é nos ganhos do presente que Dilma embala sua promessa de futuro. Contra adversários que planejam se contrapor com um discurso de economia sob ameaça, a dona da bola adota um figurino menos tecnocrata e se prepara para sua primeira campanha solo.

Novela cubana - NELSON MOTTA

O Estado de S.Paulo - 22/02

Se os eficientíssimos serviços de repressão cubanos, que há anos espionam Yoani Sanchez dia e noite, tivessem descoberto a menor prova de suborno, a "agente milionária da CIA" já estaria presa. É sintomático que, para eles, alguém só discorde do governo se levar dinheiro. Freud diria que estão falando deles mesmos.

Antigamente eles queriam ser mais realistas que o rei, hoje tentam ser mais tirânicos que os tiranos, como mostraram os protestos contra Yoani em Recife, Salvador e Feira de Santana, não só com gritos e faixas, mas esfregando dólares falsos no seu rosto e puxando os seus cabelos.

Mas Yoani até gostou dos protestos, como um sopro de democracia para quem vive numa ditadura sufocante, e se divertiu ouvindo velhas palavras de ordem "que nem em Cuba se ouvem mais". O resultado foi uma repercussão muito maior - maciçamente a favor da blogueira - do que teria a sua viagem ao Brasil.

No sertão baiano, uma milícia de talibãs tropicais impediu a exibição do filme Conexão Cuba-Honduras, porque não queriam discutir nada, mas calar o opositor no grito. Quando conseguiu falar, Yoani disse que vive numa sociedade "onde opinião é traição" e eles vaiaram. Mas deveriam aplaudir, porque no Brasil que eles sonham também será assim. A maior fragilidade da democracia é poder ser usada livremente pelos que querem destruí-la, a começar pela liberdade de expressão.

Yoani escreve, descreve e analisa muito bem o cotidiano de Cuba, mas suas criticas não são violentas, debochadas ou incendiárias. Muitas vezes são crônicas sobre as dificuldades para comprar um ovo, o elevador quebrado há oito anos, a escassez de quase tudo, os roubos e malandragens sistêmicos, a internet lenta e censurada, os privilégios da elite.

Como quase todos num país ainda na idade do byte lascado, Yoani não tem conexão em casa. É obrigada a postar em hotéis a preços absurdos porque as poucas lan houses são só para estrangeiros e seu blog não pode ser acessado na ilha.

Agora Yoani quer usar o dinheiro dos seus prêmios culturais ganhos no exterior para fundar um jornal independente. Ley de Medios em Cuba já!

Fim do gigantismo - RENAN CALHEIROS

O GLOBO - 22/02

Durante o processo eleitoral para Presidência do Congresso Nacional, apresentamos uma proposta de trabalho com quatro vetores: austeridade, transparência, uma agenda micrcoeconômica e a defesa intransigente da liberdade de expressão.

Na primeira semana de trabalho, a direção do Senado anunciou medidas administrativas que representam uma economia de R$ 262 milhões. Medidas que vão ao encontro dos desejos da sociedade: um parlamento mais enxuto, eficiente e absolutamente transparente.

Foi aprovado um conjunto de medidas visando à racionalização administrativa, à eficiência, à austeridade e ao fim de redundâncias e desperdícios. Um aprofundamento das reformas que já vinham sendo implementadas pelo presidente José Sarney.

O Senado extinguiu mais de 500 funções de chefia e assessoramento em todas as suas unidades. Isso representa 25% do total e implicará em economia de 26 milhões de reais.

Nas terceirizações não serão renovados contratos que vencem no meio do ano e outros serão reduzidos drasticamente. A economia é de 66 milhões de reais. Não haverá prejuízo da prestação do serviço, uma vez que serão feitos ajustes no horário de trabalho dos servidores. Os contratos com vigilância serão reduzidos em 20%.

Também foi extinto o atendimento ambulatorial gratuito para servidores do Senado no Serviço Médico. A economia será de 6 milhões de reais. O Senado oferece um plano de saúde compatível com o mercado privado de assistência médica e também proporcionava uma estrutura médica custeada pelos cofres públicos. Isso acabou.

Três grandes institutos com competências afins foram fundidos em uma estrutura mais racional: O ILB, o Interlegis e o Unilegis. Na mesma linha secretarias e serviços foram extintas e incorporadas por outras unidades de serviço do Senado Federal. Neste item, envolvendo as fusões e incorporações serão economizados mais 3 milhões de reais.

A jornada de trabalho, na modalidade corrida, foi ampliada para sete horas. Isso representa 14 horas de funcionamento ininterrupto e um aumento de 50 mil horas úteis de trabalho por mês. A economia anual evitando-se nomeações e contratações é de cerca de R$ 160 milhões.

Estão vedadas as nomeações para as carreiras de polícia legislativa e também foi instituído, sem custo algum, o Conselho de Transparência e Controle Social, diretamente vinculado à Presidência do Senado. Ele contará com a sociedade civil, e terá por obrigação fiscalizar o atendimento das demandas por acesso à informação.

Ainda na linha de busca da excelência em transparência foi determinada a publicação no Portal de Transparência dos dados referentes a proventos e pensões de ex-parlamentares, servidores inativos e pensionistas.

Estas primeiras providências se inserem dentro de um planejamento estratégico com metas de curto, médio e longo prazos. Como frisei no Senado: "Não se trata de fazer menos com menos, tampouco de fazer menos com mais. Trata-se, sim, de fazermos mais com menos."

Guerra retórica - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 22/02

No pronunciamento do senador petista Lindbergh Farias para rebater o discurso do senador Aécio Neves na quarta-feira, encontra-se uma pista muito nítida do que será a disputa retórica nas próximas campanhas eleitorais, nas estaduais e, sobretudo, na de presidente da República. O petista chegou ao plenário em meio ao discurso do tucano, mas tinha assessores designados para contar quantas vezes Aécio pronunciara palavras-símbolo como "povo", "gente", "miséria".

Não encontrando menção alguma, Lindbergh sentiu-se em condições de determinar, com um sorriso irônico, que o provável candidato oposicionista não estava montando "um discurso competitivo" contra o PT. Ontem, o rescaldo do debate por parte da ampla rede social que os petistas montaram tentou restringir a repercussão à suposta vitória de Lindbergh sobre Aécio.

Lembram-se do servidor da Secretaria Geral da Presidência Ricardo Augusto Poppi Martins, coordenador de Novas Mídias e Outras Linguagens de Participação, que participou da reunião na embaixada de Cuba onde foram armadas as manifestações contra a blogueira cubana Yoani Sánchez e depois foi para Havana participar de um seminário sobre "ciberguerra"? Pois deve ser essa a sua função, coordenar as reações nas novas mídias, para tentar comandar o noticiário. Reclamar que a palavra "povo" não foi pronunciada no discurso oposicionista é tentar ressaltar uma característica supostamente elitista dos tucanos, o adversário que o PT identifica como aquele a ser batido desde já. Nesse episódio, a resposta foi relativamente fácil e não foi possível aos petistas alardear uma vitória política, a não ser nos blogs a serviço do governo.

Mesmo assim, trata-se de uma "vitória" inócua, pois esses blogs só alcançam mesmo os já convertidos, pela própria característica de serem chapas-brancas. Afinal, no plenário do Senado, ainda é possível tratar de temas importantes sem fazer proselitismo ou demagogia, e aquele plenário deveria ser usado para um amplo debate sobre os temas nacionais. Falar sobre o perigo da inflação, que corrói mais depressa a renda dos menos favorecidos, é falar de "povo", de "gente".

Mas a oposição, se quiser ter chance nos embates públicos na campanha presidencial, terá de usar uma linguagem mais popular para levar sua mensagem ao cidadão que decide a eleição. A democracia de massas exige do político comunicação mais direta, e nisso Lula sempre foi um craque, mesmo quando derrotado por Collor ou por Fernando Henrique.

Em 1989, ele foi vencido com suas próprias armas por um político populista, que usou e abusou da mistificação e de golpes baixos para superar aquele líder operário que começava a surgir na cena nacional. Mesmo assim, Lula ainda foi para o segundo turno e quase ganhou a eleição. Contra o PSDB, tanto em 1994 como em 1998, o PT foi amplamente derrotado no primeiro turno por FH, que trazia, para contrabalançar a demagogia lulista, uma realidade que fez bem ao país e, sobretudo, ao bolso dos mais necessitados: o Plano Real, que acabou com a hiperinflação.

Na eleição de 2002, Lula venceu porque a economia ia mal no segundo governo tucano, e o candidato petista vendeu ilusões ao eleitor que não teve condições de entregar. Eleito, manteve pelos primeiros anos não apenas a política econômica tucana, mas uma equipe toda comandada por economistas e burocratas ligados ao PSDB. Ironicamente, boa parte, portanto, destes dez anos petistas no poder teria por justiça que ser dividida com o PSDB e seus "neoliberais".

Cabe à oposição encontrar a melhor linguagem para se contrapor a um governo que tem uma ampla máquina de poder montada e uma tradição de luta política que não tem escrúpulos, nem políticos e muito menos retóricos, para manter o poder conquistado. A campanha contra as privatizações é apenas um exemplo óbvio de manipulação de sentimentos nacionalistas do cidadão comum, mesmo quando os benefícios são evidentes e o próprio PT privatiza quando precisa. A presidente Dilma Rousseff não tem o dom da palavra fácil, mas terá Lula em seu palanque. Os tucanos precisarão encontrar sua linguagem de aproximação com o dia a dia do eleitor.

SILÊNCIO OFICIAL - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 22/02

Uma entrevista concedida pela blogueira cubana Yoani Sánchez ontem à TV Senado por pouco não foi censurada. Avisado de que a matéria, da qual participou, não iria ao ar, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) contou ao senador Wellington Dias (PT-PI). Os dois avisaram o presidente da Casa, Renan Calheiros. E a exibição foi liberada.

QUEM SERÁ?
Ainda não está claro de quem foi a determinação para o veto, que não vingou.

É VOCÊ
E o presidente do PT, Rui Falcão, disse a Suplicy que, caso ele queira ser candidato à reeleição uma vez mais, o partido aceitará seu nome, sem prévias. A informação é do próprio senador.

RETALHO
Há alguns meses, Falcão disse numa entrevista que o cargo poderia ser negociado com outros partidos. É o que Lula gostaria que ocorresse.

RETALHO 2
Com a certeza de que o governador Eduardo Campos (PSB-PE) quer ser mesmo candidato à Presidência, a vaga de Suplicy não seria mais necessária para o "acordão" imaginado por Lula em SP, em que três partidos seriam abrigados na chapa para disputar governo e Senado: PSB, PSD e PMDB.

TUDO IGUAL
O movimento Viva Rio protocolou no STF (Supremo Tribunal Federal) ontem manifestação em que defende a descriminalização das drogas, em discussão na corte. Assinada pelo advogado Pierpaolo Bottini, ela diz que em países como Argentina, Portugal, Espanha, Colômbia, Itália e Alemanha, em que a droga é proibida mas o usuário não é considerado criminoso, o consumo e o tráfico não aumentaram.

CUIDADO ESPECIAL
A manifestação cita também declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), que defende a descriminalização da maconha: "Pessoas que usam drogas mas não causam dano a outros não são criminosos a encarcerar, mas pacientes a tratar".

NEGRA DIVA
O fotógrafo J.R. Duran se uniu a Negra Li para criar a identidade visual do novo álbum da cantora, "Tudo de Novo"; o repertório poderá ser ouvido hoje em show no auditório Ibirapuera, às 21h. "Busquei inspiração em divas de todos os tempos, como Diana Ross", diz ela

À MESA
O ator Harrison Ford foi ao jantar que a ONG Conservação Internacional promoveu anteontem no hotel Grand Hyatt para arrecadar dinheiro e lançar o Centro de Sustentabilidade das Américas. André Esteves, do BTG Pactual, foi um dos anfitriões. Os empresários Meyer Nigri e Alfredo de Goeye e o cantor Gilberto Gil compareceram.

SARAU NA PRAIA
O Bourbon Festival Paraty anuncia as datas de sua quinta edição: 24 e 26 de maio. Já estão confirmadas as apresentações do jazzista americano Stanley Clarke, da banda Big Sam's Funky Nation, de Hermeto Pascoal e da cantora Céu.

XADREZ
Roberto Klabin deixa a presidência da SOS Mata Atlântica em maio, após 22 anos no cargo. Ele vai continuar na entidade, como vice.

Em seu lugar assume Pedro Passos -o atual vice.

CHÃO DE FÁBRICA
A Unilever comprou terreno em Aguaí (SP), a 193 km da capital, para construir sua décima fábrica no Brasil.

A unidade é uma das 30 que a companhia planeja implantar no mundo nos próximos três anos.

MALAFAIA EXPLICA
O pastor Silas Malafaia, que pode ter seu registro de psicólogo cassado pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio, foi o orador de sua turma na universidade carioca Gama Filho, em 2006. Dizia em aula que Freud, ao falar sobre "impulso de morte", deveria ser "preso por plagiar a Bíblia, que fala da lei do pecado da morte".

PESO PESADO
O piso do musical "Rei Leão" pesa mais de 10 toneladas. O espetáculo, orçado em R$ 50 milhões, terá 53 atores, mais de 40 cenários e 200 esculturas animadas de bichos. O palco inclina meio metro.

CURTO-CIRCUITO
O Studio SP recebe show de Lucas Santtana, Cascadura e Curumin, às 22h. 18.

O DJ Gui Boratto toca hoje na Disco. 18 anos.

O Hospital Adventista Silvestre, no Rio, e a Unifesp assinaram convênio para enviar médicos para treinamento em centros mundiais especializados em transplantes pediátricos.

Alexandre Hohagen, vice-presidente do Facebook na América Latina, dará a aula inaugural do curso de mídias sociais, amanhã, na Etec Parque da Juventude.

A peça "Adultérios" estreia no Tuca hoje. 12 anos.

Geraldo Rocha Azevedo lança o livro "A História da Passarinha", na Livraria da Vila do Cidade Jardim.