terça-feira, fevereiro 05, 2013

O Congresso saiu do armário - ARNALDO JABOR

O Estado de S.Paulo - 05/02


O congressista bateu no peito e me disse, em alto e bom som:

"Vocês não sabem o que é a mente de um deputado ou senador. Durante muito tempo, fomos criticados como os mais corruptos soldados do atraso nacional, porque os brasileiros vivem angustiados, com sensação de urgência. Problema deles: apressadinhos comem cru. Nosso conceito de tempo é outro. É doce morar lentamente dentro dessas cúpulas redondas, não apenas para 'maracutaias' tão "coisas nossas", mas porque temos o direito de viver nosso mandato com mansidão, pastoreando nossos eleitores, sentindo o 'frisson' dos ternos novos, dos bigodes pintados, das amantes nos contracheques, das imunidades para humilhar garçons e policiais. Detestamos que nos obriguem a 'governar'.

Inventaram as tais 'fichas limpas', nos xingavam de tudo, a ponto de nossa credibilidade ficar realmente abalada. Pensamos muito no que fazer para limpar o nome do Congresso. Mas a pecha de traidores colou em nós. Não podíamos ficar expostos à chacota da opinião pública, nem ser admoestados pelo Supremo Tribunal Federal, que resolveu se meter em política, principalmente depois que aquele negão pernóstico (bons tempos em que chamávamos mulatos cultos de 'pernósticos'), resolveu pegar em nosso pé.

Tivemos então a grande ideia, graças a nosso eterno líder Sarney, de fazer algo impensável! Ele já tentara votar 3.000 MPs em um só dia, lembram? Aquilo nos inspirou e resolvemos então: vamos sair do armário!

Resolvemos assumir o que dizem de nós. Vocês não imaginam o alívio que isso despertou em todos nós. A gente andava cabisbaixo nos corredores, humilhados nas ruas, vaiados em restaurantes, até que veio a ideia genial. A vitória de Renan e Henrique Alves será uma bofetada na cara dos moralistas de direita, essa UDN difusa como bem denunciou nosso companheiro Dirceu. Como foi simples a ideia! Foi oriunda do próprio Renan, e apoiada pelos companheiros peronistas do PT. É isso mesmo, qual é? Não somos santos coisa nenhuma. Somos cobras criadas. Nós somos escolhidos entre os mais espertos dentre os mais rombudos. A estupidez nos fornece uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacos puxados. Nós somos fabricados entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões. Nós somos a covardia, a mentira, a ignorância. Nós somos a torta escultura feita de gorjetas, de sobras de campanha, de canjica de aniversários e água benta de batismos. Somos mesmo, e daí?

Para nós, "interesse nacional" não existe. Estamos aqui para lucrar - se não, qual a vantagem da política?

Vocês não imaginam a delícia de sermos chamados de "canalhas", o prazer de se sentir acima da ridícula moralidade de classe média.

O PMDB está de parabéns - assumiu que nossa bandeira eterna é a visão de mundo do Sarney, nosso guia. Vocês viram como ele chorou no dia em que passou a presidência para o Renan? Ele chorou por sua vida de lutas para manter nossa doce paralisia, a cordial tradição de patrimonialistas e oligarcas. Ele não chorou pelo Maranhão, que domina há 60 anos - chorou por si mesmo.

Que alívio! Não lutaremos mais para demonstrar boa conduta. Ao contrário, queremos o descrédito popular para sempre. Assim, esses jornalistas metidos a vestais terão o que merecem, pois o povo vai desistir de nós. Não julgarão mais nossos atos, pois saberão que é inútil. Queremos que o público perca qualquer esperança de mudanças. Queremos a desesperança do povo, queremos uma opinião pública angustiada e enojada de nós. Assim, teremos o sossego da irresponsabilidade total!

E o inesperado poder que isso nos deu? É maravilhoso. Estamos unidos por nossa verdade, como um movimento de minorias, como gays, sei lá. Podemos apoiar e bloquear o Executivo sem hesitar, principalmente porque contamos com o apoio incondicional de nossos companheiros peronistas do PT. Como não pensamos nisso antes?

Por exemplo, outro dia, o companheiro Gilberto Carvalho, da Casa Civil de d. Dilma Rousseff disse:

"Em 2013, o bicho vai pegar!" Que será que ele quis dizer? Vai pegar em quem? E que bicho? A cobra urutu-cruzeiro, o bicho de sete cabeças ou o chupa-cabras? Eu acho que ele deu uma dica de que o bicho vai pegar na liberdade de expressão... Por quê? Porque nos últimos dias, houve indícios de um desejo antigo dos companheiros do PT: o controle da mídia. Isso. Para eles é uma questão 'ideológica', mas, para nós, um feriado luminoso. Imaginem o descanso de Jucá, Lobão Pai e Filho, Renan - que brilhantemente glosou a máxima de que 'fins justificam meios' com a frase imortal: "Ética é um meio, não um fim" ou a bela bravata do Lobinho: "O último que quis ser vestal aqui foi desossado!" (assim como os bois imaginários do Renan e Jucá). Eles querem a imprensa? Nós topamos tudo. Podem levar.

Aliás, houve várias mensagens cifradas do PT.

Em Cuba, o nosso Lula, que foi lá para ver se o Chávez ainda está vivo, declarou na ilha que a imprensa é inimiga do povo, que ele é atacado pelos capitalistas do mal, etc... O Rui Goethe Falcão repetiu a lengalenga. No outro dia, o Dirceu fez um discurso conclamando a 'militância' a lutar contra a direita da imprensa e o heroico ex-jornalista Franklin Martins está se encontrando com a presidente. Se for esse o bicho que vai "pegar", contem conosco. Seria maravilhoso não só para os comunas esse muro de Berlim, mas para nossos malandros da "mão grande", melhor ainda.

A Dilma andou dizendo que nunca permitirá a censura à imprensa... Vamos ver. Ela é brava, mas não vai resistir ao cerco político de seus stalinistas e de nossos puxa-sacos bem treinados, num país onde a oposição se suicidou por burrice e preguiça, o bicho pode mesmo pegar. Estamos às ordens.

Parabéns Renan e Henriquinho, vocês são nossos vingadores.

O filtro da ficha-limpa - LETÍCIA SARDAS

O GLOBO - 05/02

É preciso barrar no nascedouro evidentes afrontas ao espírito democrático das eleições



A Constituição de 88 passou o Brasil a limpo, dotando o país de mecanismos legais que, neste quase quarto de século, asseguraram a transição sem grandes traumas de um regime de exceção para a democracia plena. E não só: a Carta que hoje insere a nação entre aquelas que garantem a seus cidadãos a normalidade de um estado democrático, também tem dado o anteparo legal para corrigir injustiças sociais e superar crônicas demandas institucionais.

Seu corpo consolida uma ordem política em consonância com as mais avançadas democracias do mundo. Mas, infelizmente, esse arcabouço, por si só, não alcança desafios advindos de décadas e décadas de desvios institucionais, culturais, comportamentais e políticos enraizados na sociedade. Ainda há muito o que fazer para aprimorar o desenvolvimento social e moral do país, principalmente no que tange ao comportamento do homem público.

É por esse viés que se deve receber a contribuição de dois dispositivos recentemente incorporados à legislação eleitoral — a Lei Complementar 135/10, conhecida como Lei da Ficha Limpa, e a Resolução 23.376, do Tribunal Superior Eleitoral, que visa a impedir a participação em pleitos eleitorais de candidatos cujas contas de campanha tenham sido rejeitadas. São instrumentos — que alcançam especificidades que não caberia contemplar na Carta — cruciais para a Justiça eleitoral obstar a unção, pelo juízo maior da vontade popular, de pessoas que notoriamente buscam a inviolabilidade de mandatos eletivos para exercê-los em atendimento a interesses pessoais, portanto contra o espírito da democracia representativa.

A Lei da Ficha Limpa é mais abrangente — e inquestionável, por decorrer da vontade popular graças a inédita mobilização da sociedade que resultou na aprovação desse diploma pelo Congresso. A crônica dos processos eleitorais em todo o país sempre registrou indesejáveis episódios de vícios e distorções, não por defeito do princípio do sufrágio universal, cláusula pétrea da democracia, mas por maus usos de mandatos e de abusos eleitorais que maculam a desejada transparência com a qual os candidatos devem se apresentar ao eleitorado. Tais episódios, sempre repudiados, mas operados em desvãos da legislação, não terão passado despercebidos pelos tribunais. Mas, obrigados a dar provimento a candidaturas que afrontavam o respeito ao eleitorado, juízes pouco podiam fazer.

É em resguardo dessa nova realidade, em que se pode barrar no nascedouro evidentes afrontas ao espírito democrático das eleições, que se deve saudar esse filtro agora incorporado ao conjunto de normas que regem os processos eleitorais. Já a resolução que atinge os chamados contas-sujas ainda é objeto de discussões. E é correto que o seja, para depurá-la de eventuais excessos (se os tiver) e introduzi-la em definitivo no conjunto de regras eleitorais, como mais uma contribuição aos nossos magistrados para que julguem, com o rigor da lei, a prestação de contas de candidatos que, por princípio do sistema de representação, têm o dever de zelar pela moralidade pública.

A ética como meio - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 05/02


SÃO PAULO - Em seu discurso ao plenário do Senado, na sexta, Renan Calheiros levantou uma questão interessante. Disse que a ética é um meio, e não um fim em si mesmo. Vale explorar mais a afirmação.

Num sentido muito trivial, o novo presidente do Senado tem razão. Exceto por alguns kantianos patológicos, ninguém sustenta que a ética é a meta final da humanidade. As pessoas costumam escolher outros objetivos para dar significado às suas existências, como a salvação, no caso de religiosos, ou apenas viver uma boa vida, como preferimos os incréus.

É preciso, porém, cautela ao reduzir a ética a um instrumento. Mesmo filósofos consequencialistas, que utilizam resultados práticos, e não princípios abstratos, como critério para julgar escolhas, vêm se tornando cada vez mais cuidadosos. Em

suas formulações mais modernas, éticas consequencialistas já não sustentam que o indivíduo deve decidir cada um de seus atos avaliando os resultados esperados. Além de jamais termos acesso a todas as informações relevantes para fazer as contas, somos preguiçosos demais para nos engajar em reflexões complexas diante de escolhas às vezes banais.

É por isso que ganhou espaço o chamado consequencialismo das regras. Em vez de calcular o resultado de cada ação, nós o fazemos em relação a regras. Em vez de elucubrar se, assassinando um notório criminoso, produzirei bem-estar para o mundo, devo me perguntar se a adesão à norma "não matarás" resulta em maior ou menor felicidade geral, devendo assim ser acatada ou rejeitada.

O bacana no consequencialismo de regras é que ele reduz um pouco o vale-tudo das formas mais clássicas, conservando o pé na terra que éticas principistas muitas vezes ignoram.

A ética pode ser meio, mas é um muito especial, que precisa ser tratado com cuidado para não conspurcar os próprios fins aos quais serviria de instrumento. É esse cuidado que nossos legisladores não estão tendo.

Rumo ao interior - XICO GRAZIANO


O ESTADO DE S. PAULO - 05/02

O Brasil está interiorizando seu desenvolvimento. Basta averiguar um traço espacial da economia brasileira em 2012: o PIB da Região Centro-Oeste apresentou crescimento de 3,3%. Apesar de modesto, esse valor foi sete vezes maior do que o verificado na Região Sudeste, que subiu apenas 0,5%. Rumo ao interior.

É muito interessante perceber tal fenômeno, apontado pela consultoria Tendências. Onde impera o setor industrial - em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, parte também no Espírito Santo - anda capengando o País. Já onde domina a agropecuária - nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e até no Distrito Federal - instala-se um círculo virtuoso de prosperidade. Embora sofrendo as deficiências da infraestrutura logística e, de certa forma, amargando o descaso do governo, os agronegócios têm animado a economia brasileira.

Esse dinamismo observado nas regiões mais longínquas, distantes da orla atlântica, pode configurar, com o passar do tempo, uma nova fase do desenvolvimento nacional. Com a expansão da fronteira agrícola instalam-se as agroindústrias e distribuidoras de insumos, trilham-se estradas e ferrovias para transportar a safra, cresce a população atrás do emprego. Novas oportunidades de negócios surgem, chega o comércio, geram-se renda e riqueza onde somente havia poeira, ou mata virgem. Cidades florescem.

Já ocorreram antes, em outras condições históricas, tais deslocamentos espaciais da economia. Nas origens, a produção do açúcar nordestino progressivamente ocupou parte da Zona da Mata, uma faixa de terra litorânea, estreita, desde o Rio Grande do Norte até o sul da Bahia. Solos férteis e firmes, conhecidos como "massapê", cobertos com Mata Atlântica, suportaram os dois primeiros séculos da Colônia.

Grande movimento se deu também por causa da descoberta do ouro nas Minas Gerais. Começou assim a ocupação devasta área, então quase desabitada, que viria a acolher um quinto da população brasileira. Fruto dessa alteração espacial no dinamismo da economia e da sociedade, a capital do País se deslocaria, em 1763, de Salvador para o Rio de Janeiro. Rodava o mundo da fortuna.

Com a descoberta da riqueza do café, a bebida que revolucionou a economia brasileira, a próspera viagem da economia adentrou o Vale do Paraíba, atingiu São Paulo e mirou as terras roxas de Campinas, para depois alcançar Ribeirão Preto. Os cafezais tomaram um descanso com a crise de 1930, mas depois ganharam fôlego e voltaram, soberbos, para desbravar o norte do Paraná. Linda saga do "ouro verde".

Andanças secundárias deixaram sua marca na ocupação histórica do vasto território. Pode- se relatar a colonização do Vale Amazônico na busca da coleta florestal, do cacau, da pesca e, um século depois, da borracha natural; o estabelecimento da atividade pecuária nos friorentos pampas gaúchos; ou, ainda, a ousadia portuguesa dos arrozais no Maranhão colonial. Momentos de expansão do sonho da prosperidade.

E curioso perceber que a extensa área do Centro-Oeste permaneceu relativamente afastada desses ciclos da economia nacional. Sua localização, muito distante da costa, criava dificuldades de acesso. Goiás, que experimentou certo dinamismo com a mineração, somente viria a ser, em termos, redescoberto com a fundação de Goiânia (1933). a nova capital do Estado que substituiria a histórica Vila Boa (atual Cidade de Goiás). Em 1988 dele se desmembraria o Estado do Tocantins.

Mato Grosso contou com a ajuda da navegação fluvial para ser inicialmente desbravado. Subindo ao longo do Rio Paraguai, ou descendo pelo Rio Tietê, os colonizadores e bandeirantes atingiram o povoado de Albuquerque. A capital da extensa província se deslocaria para Cuiabá (1835), mas nenhuma força econômica verdadeiramente a impulsionava. A valorização da pecuária motivou a separação, em 1977, do jovem Estado de Mato Grosso do Sul.

Fora as longas distâncias, outra característica básica domina a Região Centro-Oeste: nela se situa grande parte do Cerrado brasileiro, bioma assentado em 23,9% do território nacional. Com vegetação típica, árvores pequenas, cascorentas e retorcidas, decorrentes da estação extremamente seca que impera entre maio e setembro, os solos do Cerrado apresentam baixa fertilidade e acidez elevada. Até os anos 1950 nenhum agrônomo imaginava que poderiam tornar-se produtivos.

Aconteceu, porém, uma espécie de milagre da tecnologia agrícola. Utilizando calcário e fertilizantes, aquelas chapadas do Cerrado, consideradas imprestáveis, foram se transformando em exemplos mundiais de agricultura, ostentando produtividades maiores do que as antigas regiões da terra roxa. Mais ainda: o temor da erosão, maldito na agricultura tradicional, acabou vencido pelo plantio direto, sistema que não exige aração nem gradeação do terreno todo para se efetuar a semeadura. Uma revolução tecnológica.

Resultado: em menos de 30 anos uma verdadeira corrida para o oeste desbravou o Cerrado. Protagonizado por lavradores gaúchos, paranaenses e paulistas, esse "eldorado" tupiniquim abriu as portas do progresso na região - e sem devastação, pois a área cultivável do Cerrado ocupa apenas metade do total. Hoje o Centro-Oeste já responde por 41% da safra nacional de grãos, liderado por Mato Grosso, que sozinho produz 25%. Fora o rebanho bovino, de elevada qualidade genética. Incrível.

Daqui a, talvez, duas décadas, estará consolidada uma nova geografia econômica no Brasil. A facilidade na comunicação, se for complementada por fortes investimentos na logística, terá vencido, definitivamente, a distância que manteve amordaçado o potencial produtivo do Centro-Oeste. Longe do litoral, perto do futuro.

Malditos preços, benditos preços - ILAN GOLDFAJN

O GLOBO - 05/02

Reduzir os encargos da folha de pagamentos pode aliviar empresas, mas não altera a falta de oferta e a necessidade de maior produtividade da mão de obra


Os preços atraem muita emoção quando se mexem. É natural, alguns ganham e outros perdem. Mas os preços fazem parte do funcionamento das economias. A tentação dos governos é a de mantê-los sob mira curta, certamente para combater a inflação e evitar excessos derivados de monopólios, mas, em alguns casos, para tentar influenciar os rumos da economia.

Os preços têm um papel público. Sinalizam quando sobra ou falta. Um preço subindo pode não ser apenas sinal de injustiça ou inflação, mas de escassez ou ineficiência que mereça atenção. A liberdade dos preços traz a transparência necessária para ajudar na correção de rumos, muitas vezes de forma natural, quando os preços sobem para reduzir o consumo e aumentar a oferta (ou vice- versa).

Um exemplo clássico é o preço da gasolina. Muitos países têm regras para determiná-lo. Mas, se o preço da gasolina se afasta da cotação internacional por muito tempo, acaba gerando distorções. O consumo não se adapta ao preço internacional mais alto (relacionado ao que pode ser importado ou exportado). E quem vai ofertar não tem o sinal do preço correto para decidir quanto investe na produção. No limite, as estatais podem ser obrigadas a importar mais caro do que vendem no mercado doméstico, o que pode levar a prejuízos importantes.

Prejuízos alteram outro preço significativo da economia: as ações de empresas. Quedas sistemáticas e relevantes das ações refletem mudança do valor das empresas, um sinal de alerta importante. É necessário avaliar o que está gerando a destruição de valor e, caso necessário, realizar mudanças fundamentais.

Os juros básicos da economia determinados pelo Banco Central são também um preço importante da economia. Quando os juros sobem, normalmente é sinal de pressões inflacionárias e ciclo de atividade em alta. Quando caem, o inverso, inflação recuando e/ou atividade fraca. O Banco Central faz bem em insistir que os ciclos ainda não foram abolidos no Brasil, sinalizando que os juros podem eventualmente subir ou descer, apesar da mensagem básica de que devem ficar no atual patamar por um tempo prolongado.

Outro preço importante é a taxa de câmbio, que reflete o valor dos nossos bens relativos aos preços internacionais (ou comercializáveis, aqueles determinados no mercado internacional). No curto prazo, o câmbio pode ser determinado pelo governo, tanto mais quanto mais reservas tiver e mais controles de capitais introduzir. No longo prazo, o câmbio vai ser aquele que equilibrar as necessidades da economia. Uma taxa de câmbio mais depreciada do que o equilíbrio de longo prazo vai acabar gerando uma inflação corretiva, devolvendo o valor do câmbio real ao seu equilíbrio.

O salário é o preço do trabalho na economia. Reflete o excesso ou escassez de mão de obra na economia. Nos últimos anos, tem subido acima da inflação, refletindo crescimento maior da demanda que da oferta. A demanda tem aumentado devido ao crescimento mais forte dos setores intensivos em mão de obra, enquanto a oferta tem sido afetada por um crescimento mais lento da força de trabalho. Reduzir os encargos da folha de pagamentos pode aliviar empresas individuais, mas não altera a falta de oferta e a necessidade de maior produtividade da mão de obra. A competitividade da economia depende de a produtividade crescer acima (ou na proporção) do aumento dos salários.

Finalmente, os preços da energia também variam. Quando há sobra (falta) de energia, esta é vendida no mercado livre a preços menores (maiores). Com os reservatórios mais baixos no final do ano, os preços no mercado livre subiram, sinalizando oferta menor. Da mesma forma, quando as termoelétricas mais caras são ligadas, geralmente em momentos de escassez, preços maiores acabam sendo repassados ao consumidor. Esse aumento é necessário para o consumidor agir e economizar o necessário.

Os preços nos ajudam a identificar escassez e ineficiências e desenhar políticas para correção de rumos. Muitas vezes há exageros. A regulação dos mercados é fundamental. Mas não podemos dispensar o sistema de preços como um guia importante do que acontece na economia. É necessário observar os preços da economia para sinalizar escassez, excessos ou ineficiências e tomar medidas fundamentais para corrigir os problemas. Sem isso, o risco é de gerar distorções na economia maiores do que qualquer flutuação excessiva de preços pudesse ter ocasionado.

A chave do enigma - JOSÉ PAULO KUPER

O ESTADO DE S. PAULO - 05/02
A combinação, na economia brasileira, de taxa de desemprego em níveis historicamente baixos com crescimento mais do que modesto ganhou aparência de enigma já faz algum tempo. As perspectivas de que o futuro próximo continue a apontar desemprego reduzido sem expansão acelerada da atividade econômica reforçam os desafios de encontrar as chaves explicativas da charada.

Já é possível encontrar uma explicação genérica para o fenômeno. A taxa de desemprego refletiria o crescimento da ocupação no setor de serviços, complementada pela retenção de trabalhadores já empregados pela indústria. Os dois movimentos seriam complementados por uma redução no ritmo de evolução da população econômica ativa (PEA).

Como explica o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro (FGV-RJ), está ocorrendo uma mudança estrutural na economia brasileira, com o avanço do setor de serviços. Uma das características dos serviços - mais especificamente das categorias no setor de serviços que, nos últimos anos, mais vêm absorvendo mão de obra na economia brasileira - é a da menor exigência de capital por unidade de emprego gerada. "Estamos falando de segmentos intensivos de mão de obra, que não geram alto valor agregado e demandam trabalhadores menos qualificados", detalha Barbosa Filho.

No caso da indústria, apesar do recuo na produção industrial, as empresas, diante dos custos de demissão e contratação - no qual se deve incluir o custo de treinamento de novos admitidos -, retêm pessoal empregado ainda na expectativa de retomada da economia. À espera da recuperação, optam por cortar turnos de produção e recorrer a férias coletivas em lugar de já promover ajustes no quadro de funcionários.

Outra mudança que influencia diretamente a taxa de desemprego é a evolução da PEA E esta vem avançando em ritmo cada vez mais lento. A evolução da PEA depende não só do volume de pessoas em idade ativa, mas também do número daqueles dispostos no momento a procurar uma ocupação. Com o envelhecimento da população e a forte redução da taxa de fecundidade, nas últimas décadas, a população em idade ativa (PIA), base da PEA, vem crescendo a um ritmo mais lento.

Além disso, como lembra Barbosa Filho, comportamentos sociais, com ênfase nos estímulos para maior qualificação de mão de obra, referendados por incrementos na taxa de escolaridade, têm postergado o ingresso de jovens no mercado de trabalho, contribuindo para a redução do ritmo de expansão da PEA. Em resumo, se a PEA, nos anos 70, crescia 4% ao ano, agora não avança mais de 1,5% anuais, colaborando para reduzir a taxa de desemprego.

O professor Cláudio Salvadori Dedecca, da Universidade de Campinas (Unicamp), mesmo não classificando o atual momento do mercado de trabalho como de pleno emprego, considera que a situação de baixo desemprego histórico não pode ser comemorada sem que os investimentos reajam, promovendo uma recuperação da economia. "Não só o fato de que são enormes os desequilíbrios regionais e setoriais no mercado de trabalho, com o convívio de áreas de folgas e apertos na oferta de mão de obra, mas principalmente a constatação de que um terço da força de trabalho ainda é informal e não dispõe de proteção social, mostra que não há esse pleno emprego", avalia ele. "Isso, contudo, não quer dizer que a situação seja sustentável".

Cláudio Dedecca lembra que, nos últimos anos, cada ponto porcentual de expansão do PIB promovia a abertura de 400 mil novas vagas de trabalho formal. Em 2010, por exemplo, quando a economia cresceu 7,5%, foram criados mais de 2,5 milhões de postos de trabalho formais, confirmando a relação histórica. Agora, em 2012, com crescimento econômico de 1%, foram criadas 1,3 milhão de novas vagas, volume três vezes acima da relação. "Sem uma reversão, com aumento dos investimentos, a continuidade da situação atual, em que o desemprego baixo convive com produtividade baixa, pode levar a dois caminhos, ambos indesejáveis", diz o economista. "Ou chancela uma economia de baixa remuneração salarial, convergindo para o salário mínimo, ou chancela uma economia de baixa produtividade."

A chave da resolução do enigma do desemprego, como se pode perceber, é, em resumo, o mesmo aumento do investimento que poderá tirar a economia brasileira da armadilha do crescimento insuficiente em que se meteu.

Super - NIZAN GUANAES

FOLHA DE SP - 05/02


A TV segue dominante no mundo pós-digital e a grande TV aliada à web é uma combinação matadora


Domingo foi dia de Super Bowl. A final do campeonato americano de futebol americano é um dos grandes momentos do calendário anual da publicidade.

Uma posição medida pelo valor do segundo de comercial durante sua transmissão: US$ 133 mil.

Ou US$ 4 milhões por "spot" de 30 segundos.

Essa montanha de dinheiro por segundo conquista a atenção de mais de um terço da população dos Estados Unidos, ou mais de 100 milhões de espectadores, e mostra como esporte, televisão e publicidade juntos podem criar riqueza e oportunidades para marcas, produtos e ideias.

O Superbowl é superlativo em tudo, inclusive como fonte de ensinamentos ao país da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e da Olimpíada.

Antes de seu sucesso, veio a visão compartilhada da liga de futebol americano, das empresas de comunicação e dos publicitários/anunciantes de que poderiam tornar a final um evento especial dada a popularidade do esporte no país e a dramaticidade do momento: ao contrário dos outros dois esportes populares nos Estados Unidos, o basquete e o beisebol, o futebol americano termina numa única e decisiva partida, como a Copa do Mundo.

Graças à força da visão e ao talento de atletas, dirigentes esportivos, executivos de mídia, publicitários e anunciantes, a superfinal transformou-se num grandioso momento de união nacional, patriotismo e cultura que atrai todo ano milhares de pessoas à cidade-sede da partida: no final de semana passado, o circo foi montado em Nova Orleans, teve show de Beyoncé no intervalo (no ano passado foi Madonna), Alicia Keys cantando o Hino Nacional e até um apagão que paralisou o jogo por minutos.

A força da publicidade americana é parte essencial desse enorme sucesso.

Foram os anunciantes, no final das contas, que sustentaram a grande visão e permitiram às redes de TV pagar cifras cada vez maiores pelo direito de transmissão, alavancando investimentos milionários das equipes e o desenvolvimento de uma próspera indústria esportiva.

O Super Bowl, do ponto de vista publicitário, transformou-se na grande plataforma de lançamento das campanhas mais sofisticadas, principalmente a partir de 1984, quando o gênio de Steve Jobs entrou em campo.

Os comerciais do intervalo do Super Bowl tornaram-se referência cultural depois do anúncio da Apple de 1984. Dirigido pelo cineasta Ridley Scott, a obra reproduzia o cenário sombrio do livro "1984", de George Orwell, até uma atlética loira em shorts curtos aparecer correndo entre zumbis e, com o lançamento de um martelo, destruir a tela do Big Brother.

No que subiam letreiro e voz dizendo: "Em 24 de janeiro de 1984 a Apple Computer lançará o Macintosh. E você verá por que 1984 não será como '1984'".

É verdade que a web deixou 2013 muito mais parecido com "1984" do que 1984. Mas, para quem quer se comunicar, a internet só pode ser vista como aliada. Para uma audiência nacional de mais de 100 milhões de um domingo de Super Bowl, alguns comerciais feitos para o evento são hoje vistos até 400 milhões de vezes on-line.

O Super Bowl, assim, prova duas coisas: a grande TV ainda segue dominante no mundo pós-digital e a grande TV aliada à web é uma combinação matadora.

O barulho envolvendo o Super Bowl agora começa semanas antes, com grandes esforços de relações públicas e mídias sociais lançando campanhas que atingirão o clímax nos filmes de 30 segundos exibidos no momento da partida e seguirão reverberando.

O campeão pré-jogo deste ano foi a Toyota, que teve 11 milhões de exibições na web de versão de seu filme de Super Bowl.

No Brasil, o que mais se assemelha ao Super Bowl são os jogos da seleção brasileira em Copa do Mundo: ocasiões que transcendem o esporte para também se tornar celebração familiar, cultural e, por que não, patriótica.

A Copa do Mundo agora será em nossa casa. Serão vários Super Bowls em sequência. Cada jogo, uma oportunidade espetacular para nossas marcas, nossos produtos e o talento de nossos publicitários. Afinal, teremos o mundo como plateia.

Um mau começo no comércio - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 05/02


Contrariando o otimismo do governo, o ano começou muito mal no comércio exterior brasileiro, com um déficit de US$ 4,03 bilhões no primeiro mês. Esse valor resultou de exportações de US$ 15,96 bilhões e importações de US$ 20 bilhões. Preocupa, em primeiro lugar, a dimensão do rombo. Resultados negativos podem ocorrer sem grande surpresa no começo do ano. Nos dez janeiros contados a partir de 2004, houve seis superávits e quatro déficits, mas nenhum saldo tão ruim quanto o do mês passado. O pior havia sido o de janeiro de 2012 (US$ 1,31 bilhão), 67,49% menor que o deste ano. Em segundo lugar, o número assusta porque parece confirmar a tendência de piora das transações comerciais do País e, portanto, das contas externas. Já em 2012 o saldo comercial, de US$ 19,43 bilhões, foi 34,78% menor que o de um ano antes. O Brasil, ninguém deveria esquecer, precisa de grandes saldos positivos no comércio de mercadorias, por causa do déficit estrutural na conta de serviços e de rendas. Não é um luxo, mas uma questão de segurança.

O mau resultado de janeiro reflete, em parte, a forma especial de registro das importações da Petrobrás. Desde o segundo semestre do ano passado, a Receita Federal tem permitido o registro das compras de combustíveis até 50 dias depois do desembaraço dos produtos. Por isso, as importações contabilizadas em janeiro incluem cerca de US$ 1,6 bilhão de compras realizadas no ano passado. Em condições normais, portanto, o déficit de janeiro teria ficado em cerca de US$ 2,43 bilhões, ainda muito maior que o do ano anterior, mas bem inferior ao registrado oficialmente no mês passado. Em contrapartida, o superávit comercial de 2012 teria caído para uns US$ 17,83 bilhões e a queda de um ano para outro teria chegado a 40,1%. Conclusão: quanto a um ponto, pelo menos, é irrelevante contabilizar aquelas importações em janeiro ou nos meses anteriores, porque a tendência de piora da balança comercial se mantém.

Sem aquele valor dos combustíveis, o valor importado em janeiro ainda ficaria em US$ 18,4 bilhões, um gasto 5,47% maior que o do mês correspondente de 2012. A tendência de aumento das importações seria mantida, enquanto o valor exportado, US$ 15,96 bilhões, continuaria 1,07% inferior ao de um ano antes. É este o detalhe mais relevante. A receita do comércio exterior permanece estagnada ou mesmo diminuiu, enquanto a despesa com as compras de produtos estrangeiros cresce.

O aumento das importações poderia ocorrer, sem causar maior preocupação, numa fase de rápido crescimento econômico. A elevação das compras só se tornaria inquietante se o descompasso entre as vendas e as compras indicasse uma rápida erosão do saldo comercial. Mas o quadro brasileiro é diferente desse. O crescimento econômico foi muito pequeno nos últimos dois anos.

Nesse período, as importações acompanharam principalmente a evolução do consumo, enquanto a produção industrial declinou e os investimentos encolheram. Em outra circunstância, o apetite por bens importados seria sinal de uma economia saudável e com muita vitalidade. Neste caso, a história é outra.

Embora o governo insista em negá-lo, sua política tem estimulado muito mais o consumo do que a produção industrial e os produtores brasileiros continuam perdendo espaço até no mercado interno.

Como as autoridades têm-se empenhado muito mais em falar do que em mudar as condições de eficiência e de inovação da economia nacional, nada justifica, neste momento, previsões de melhora no comércio exterior. Economistas do setor financeiro e de consultorias privadas projetam para este ano um superávit comercial de US$ 15,5 bilhões. Para o próximo ano o resultado previsto é pouco melhor, US$ 16 bilhões. Seja como for, o resultado continuará muito dependente da China e de seu apetite por matérias-primas exportadas pelo Brasil.

Se a economia americana crescer, os industriais brasileiros, apesar de todas as dificuldades, poderão elevar as vendas de manufaturados. Mas há dez anos o governo brasileiro decidiu tratar o mercado americano como secundário em sua estratégia internacional.

Ultimato à Argentina - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/02


A moção de censura do Fundo Monetário Internacional (FMI) à Argentina, por não corrigir a "inexatidão" nas suas estatísticas econômicas oficiais, é resultado direto dos métodos dúbios consagrados pela presidente Cristina Kirchner.

Na prática, o FMI confirma o que há muito se sabe: os dados do PIB e, principalmente, da inflação no país vizinho são inconfiáveis.

A reprimenda do Fundo surpreende por ser rara. Até a China, onde não faltam dados econômicos questionáveis, jamais recebeu esse tipo de admoestação.

Desde a criação do FMI, após a Segunda Guerra, só a então Tchecoslováquia foi expulsa do órgão, em 1954, "por não fornecer os dados necessários". O mesmo poderá acontecer com a Argentina, se continuar resistindo às mudanças no Indec (o IBGE local).

O instituto está sob intervenção do governo desde 2007, ainda na gestão de Néstor Kirchner, que tinha obsessão pela inflação de um dígito. Estima-se que a taxa anual de 2012 tenha rondado 25%, diante dos 10,8% anunciados pelo Indec.

A Casa Rosada proibiu a divulgação de cálculos por órgãos privados, que podem sofrer multas. Com o Fundo, o governo apelou para uma surrada retórica anti-imperialista, tão ao gosto de seus aliados na América Latina, e que ganhou força na Argentina após o calote na dívida externa, em 2001.

O ministro Hernán Lorenzino, da Fazenda, ressalva que o governo já trabalha em um novo índice de preços, previsto para o fim do ano, e que o FMI sabia da iniciativa metodológica. Portanto, não haveria motivo para a moção de censura.

É verdade que o FMI tem ciência do novo cálculo. Tanto é que, em 2010, enviou técnicos à Argentina para colaborar na mudança. O ministro, porém, não informa que, em fevereiro de 2012, o Fundo deu prazo de 180 dias para a Argentina resolver a questão -e que nada houve de concreto desde então.

Dados econômicos não manipulados e de acordo com padrões internacionais são imprescindíveis, não só para emitir os sinais corretos a investidores internacionais, mas principalmente para a população. Em qualquer país é um direito fundamental seu ser informado sem disfarce sobre a corrosão do poder de compra da moeda.

Retração industrial manda recado ao Planalto - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 05/02


Uma parcela do “pibinho” de 2012 foi conhecida com a informação, liberada pelo IBGE, de que a produção industrial caiu 2,7% no ano. Apenas em dezembro, a queda, em relação ao mesmo mês de 2011, foi, inclusive, maior (3,6%).

Além de, nos últimos tempos, só não ter superado a recessão industrial de 2009 — resultado do tranco causado na economia mundial pela eclosão da crise financeira a partir de Wall Street —, 2012 fez a produção da indústria retroceder a patamares pré-crise: ficou 4,5% abaixo da produção de setembro de 2008, quando a falência do Lehman funcionou como faísca de ignição do tumulto global.

O mau resultado industrial do ano passado é forte recado ao governo, com a mesma mensagem que vem sendo transmitida com insistência há meses: o crescimento econômico por meio do consumo se esgotou, assim como pela via da política monetária (juros) — aliás, já registrado em ata pelo próprio Copom. Vale, ainda, recordar que, durante muito tempo, emanou do Ministério da Fazenda a tese de que tudo estaria resolvido caso o câmbio voltasse para acima do patamar do R$ 2 (por dólar). O real valorizado estaria “desindustrializando” o país — tese polêmica, pois a indústria perde participação no PIB em todo o mundo — e corroendo o que restava de competitividade das exportações.

O governo, então, “sujou” ainda mais a flutuação cambial, e colocou o dólar na faixa supostamente salvadora, acima dos R$ 2. Mas não deu certo. O “pibinho” industrial comprovou que a economia brasileira não é mais aquela da ditadura militar, em que minidesvalorizações diárias compensavam parte das deficiências do país.

Hoje, com um parque produtivo mais conectado ao exterior, abastecido por linhas de suprimento transnacionais, as desvalorizações cambiais parecem ter um efeito inflacionário maior. Desanimador para quem esperava contornar as precariedades nacionais com a velha ferramenta cambial. Já o esgotamento do modelo lastreado no consumo é ainda mais visível, basta acompanhar o endividamento das famílias e as taxas de inadimplência — em alta. No câmbio, o Planalto parece ter entendido o recado, pois o dólar perdeu algum ímpeto, a ponto de se especular que chegou a hora de usá-lo no combate à inflação. A ver.

Fica cada vez mais translúcido que um grande obstáculo é o custo Brasil, em sentido amplo. Ao fazer uma redução horizontal de custos trabalhistas, o governo também parece ter se convencido do tamanho do problema da carga tributária.

Faltam os investimentos em infraestrutura, vítimas da má qualidade gerencial do poder público e de uma velada interdição ideológica ao setor privado. Tudo isso, mais a tendência intervencionista do governo, resulta em uma preocupante falta de confiança do empresariado para investir. E a hora é de crescer sustentado em investimentos. Entende-se por que a produção de máquinas e equipamentos desabou 11,8% no ano passado.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não estou falando com jornalistas”
Deputado José Genoino (PT-SP), mensaleiro condenado, agora “de mal” com a mídia


PT CULPA RACHA NO PMDB POR TRAIÇÕES A HENRIQUE

Na tentativa de se safar de retaliações, lideranças do PT afinaram o discurso e garantem que as traições a Henrique Alves (PMDB-RN) – que quase levaram ao segundo turno as eleições ao comando da Casa – vieram dos próprios peemedebistas. Os petistas admitem algumas falhas, mas culpam o racha na bancada do PMDB, após a disputa pela liderança, como principal motivo do resultado final da votação.

DESCONFIANÇA

O PMDB suspeita de dedo do governo – que teria todos os motivos para enfraquecê-lo – nos 165 votos de Júlio Delgado (PSB).

JOGO DO EMPURRA

Aliados acusam, nos bastidores, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) de operar contra Henrique Alves.

TRAIR E COÇAR...

Henrique Alves foi vítima de célebre advertência de Tancredo Neves: “O problema do voto secreto é que dá uma vontade danada de trair...”.

JÁ VAI TARDE

O deputado Marco Maia (PT-RS) apequenou a presidência da Câmara. Sai do cargo como um Severino Cavalcante dos pampas.

NOVO PRESIDENTE DESABAFA CONTRA MANOBRAS

O deputado Henrique Alves (PMDB-RN) fez um significativo desabafo, interpretado como um recado a setores da mídia e do Ministério Público Federal, que tentaram influir nas eleições do Congresso Nacional: “O parlamento é o verdadeiro representante da sociedade, queriam ou não”. Mas ele lavou e enxaguou a alma mesmo foi com a mensagem de Dilma reclamando que a classe política tem sido “vilipendiada”.

MÁ FAMA

Demorou: sai o nome da banda gaúcha da tragédia em Santa Maria, entra o “Gurizada Mensaleira” no Twitter: Genoino, Lula, Dirceu e Cia.

E O SALÁRIO, Ó...

Primeira aviadora e orgulho da FAB, Fabrícia Oliveira jogou a toalha: deu baixa em Recife para atuar na Controladoria-Geral da União.

MINISTRO FOLIÃO

Garibaldi Alves Filho (Previdência), que ontem fez 66 anos, entrou de férias. Com o jeitão descontraído, avisou: “Quero curtir o carnaval”.

ESPERTEZA

O Planalto articulou o encontro nacional de prefeitos nas férias parlamentares para evitar pressão pela derrubada do veto ao projeto dos royalties do petróleo. E ainda dizem que Dilma não é do ramo...

BRAÇOS CRUZADOS

Os 167 votos de Julio Delgado (PSB-MG), na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, mostrou que sua competitividade foi minada pela falta de apoio de aliados como o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do seu partido.

SUSPEITA

Coordenador da campanha de Rose de Freitas (PMDB-ES) à Câmara, o deputado Izalci Lucas (PSDB-DF) é apontado como suposto responsável pela distribuição de um dossiê contra Henrique Alves.

RUIM DE MIRA

Ao perceber que seria apeado da liderança do PSDB, o senador Alvaro Dias (PR) tentou garantir a “liderança da minoria”, mas a perdeu ao apoiar Pedro Taques (PDT-MT) contra Renan Calheiros. O líder será Mário Couto (PA), único tucano que se recusou a votar em Taques.

O LÍDER ESTAVA CERTO

Vilson Covatti (PP-RS) soltou os cachorros contra a exigência do líder do partido, Arthur Lira (AL), para retirar sua candidatura a segundo-secretário da Câmara em favor de Simão Sessim (RJ), que foi eleito.

EFEITO BORBOLETA

A governadora potiguar Rosalba Ciarlini reedita o “efeito Micarla”, a ex-prefeita de Natal que bateu o recorde de rejeição. E cresce o cacife do vice-governador Robinson Faria, que rompeu com ela há anos.

VEXAME NACIONAL

Após o Brasil adiar semana passada, em cima da hora, conferência da ONU para tratar de combate à desertificação e à seca, o evento foi marcado para acontecer em abril, em Bonn, na Alemanha.

MÂÂÂÂNTEGA!

Existem vários tipos de ordens: ordem unida, muitos pedem a palavra “pela ordem”, outros prestam o “exame da Ordem” e há ainda a ordem verbal. Mas no Planalto surgiu um novo tipo: a ordem grital.

CANSEI

O deputado Tiririca (PR-SP) afirmou a esta coluna que, decepcionado, vai deixar a política. A recíproca com os eleitores parece verdadeira.


PODER SEM PUDOR

INCORRIGÍVEL ABSTÊMIO

Corria célere a sucessão em Minas para escolher o substituto do governador Olegário Maciel, que morrera afogado numa banheira do Palácio da Liberdade. Eram candidatos Virgílio de Melo Franco, Gustavo Capanema e Antônio Carlos, mas certo dia Getúlio chamou um modesto dentista do interior de Minas, Benedito Valladares, e o convidou para o cargo, recomendando-lhe completo sigilo sobre o convite. Mas ao chegar em casa, ele segredou à sua mulher:

- Getúlio convidou-me hoje para ser o governador de Minas.

E d. Odete, cética:

- Mas, Benedito, você não havia me prometido nunca mais beber?

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: O tombo da Gigante- Petrobras tem menor lucro em oito anos
Folha: Nova direção da Câmara ameaça desobedecer STF
Estadão: Alves defende mandato de condenados no mensalão
Correio: Distritais vão pagar impostos sobre 14° e 15°
Valor: Duelo por reajuste faz linha branca encolher no varejo
Estado de Minas: Autoescola atropela lei e facilita carteira de ônibus
Zero Hora: Bombeiro que deu o alvará não lembra de plano de prevenção

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Relojoeiro cego - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 04/02


Vejo mesmo o comercial: "Dê a seu filho o que você tem de melhor, Bradesco Biotecnologia"


Você vai ao médico, ele pede um exame de sangue e você descobre que seu filho terá síndrome de Down. O que você faria?

Pensará nos custos? Você não é uma pessoa excepcionalmente egoísta, mas, em meio a sua agenda, como conseguirá lidar com uma criança assim? A agenda já é pesada com trabalho, sexo top (lembre-se: gostosa sempre!), estudos na pós-graduação (afinal, hoje em dia é imperativo agregar valor à vida profissional e pessoal), férias...

Quem tomará conta da criança? Você tem alguém com quem possa contar? Irmãs, mãe, marido? Escola especial? Psicoterapeuta, psicopedagoga?

Claro que essa questão não diz respeito a quem tem já filhos com esse quadro clínico, mas sim aqueles que um dia passarão por isso. Tampouco cabe aqui o argumento de que aqueles que já tem um filho assim o amam e aprenderam a conviver bem com essa situação. Enfim, não se trata de amar ou não os filhos que já se tem, mas sim de escolher os filhos que teremos.

No Brasil, sendo o aborto ilegal numa situação como está, a tendência, com a chegada até nós desse tipo de exame, é o aumento do aborto ilegal.

A ciência vive pressionando a ética: trata-se aqui da ampliação do poder de escolha informada. Aumentando os recursos técnicos da medicina pré-natal, aumenta-se proporcionalmente a possibilidade de se evitar determinados tipos de gravidez. O nome disso, segundo o filósofo americano Francis Fukuyama, é "design babies" (bebês de prancheta, na tradução brasileira): bebês ao portador, com grau máximo de saúde.

Católicos dirão que a vida pertence a Deus. Quem não crê nisso, tem diante de si a seguinte questão: por que devo me submeter ao mero acaso? Afinal, a criança não foi fruto de um orgasmo (masculino, no mínimo)? Se o acaso decidiu qual óvulo e espermatozoide que estariam a postos, por que devo eu me submeter a tamanho capricho cego?

Não seria essa criança apenas uma carta triste no baralho, baralho este criado por um relojoeiro cego? Explico: a teoria do design inteligente (Deus criou o universo) afirma que sendo o universo organizado, não seria possível imaginar que ele teria surgido sem um criador inteligente (o relojoeiro criador).

Ateus em geral, ironizando, até aceitam que exista uma ordem, mas esta ordem seria fruto do acaso cego, daí o "relojeiro cego" que fala o darwinista Richard Dawkins em seu livro "Blind Watchmaker" (relojoeiro cego).

Se não devemos nada a ninguém, por que não tomarmos nosso destino nas mãos e ter o "melhor filho" possível? Tomar o destino em nossas mãos é optarmos pelos ganhos técnicos à mão, ou seja, a artificialização da vida.

Quanto aos crentes, em tempo abraçarão a causa, dirão que Deus nos fez inteligentes para tomarmos decisões inteligentes. A Igreja Católica, mais lenta, 500 anos depois também aceitará, como aceitou Galileu.

O processo de ampliação de escolha informada implica, num prazo de tempo não muito preciso, a crescente artificialização da atividade reprodutiva humana. Isso é tão inevitável como a ampliação dos direitos civis, tais como voto das mulheres, casamentos gays, direitos da mulher sobre seu corpo, e afins.

Se você vê um dia um homem aparentando 60 anos, mas com corpo e disposição de 40, correndo no Ibirapuera ao lado de uma gostosa de 25, você talvez não imagine quantos remédios ele tomou quando acordou, entre eles, um Viagra.

Isto é a artificialização da vida. Dito assim, parece um absurdo do cinema de ficção científica, mas na prática, é banal como tomar vitaminas e vacinas.

Num futuro próximo, ter filhos pelo método do acaso será como negar vacinas aos filhos. Um ato de irresponsabilidade reprodutiva. Empresas de seguro cobrarão mais caro por apólices de crianças geradas pelo relojoeiro cego. Ou simplesmente recusarão estas apólices.

ONGs farão campanhas para criminalização da reprodução não assistida pela medicina pré-natal genética em nome da sustentabilidade social das crianças geradas e dos custos de saúde pública.

Vejo mesmo o comercial: "Dê a seu filho o que você tem de melhor, Bradesco Biotecnologia".

Bumbuns não beijados - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 04/02


RIO DE JANEIRO - "Em bunda que mamãe beijou vagabundo nenhum põe tarja", disse certa vez Paulo Francis, na Redação do "Correio da Manhã". Significava que ele nunca sairia por aí apregoando o logotipo do fabricante de suas roupas. E olhava com ar de reprovação para a etiqueta de couro no bolso traseiro do meu jeans, onde se lia, em quase meio palmo, a palavra "Lee" -obrigatória no bumbum dos garotos de 1968, mesmo os de alguns repórteres do "Correio da Manhã".

Francis tinha razão: nada mais cafona do que uma pessoa se vestir pendurada de marcas, como um piloto de Fórmula 1. Mas isso se tornou quase impossível de evitar, porque os logos vêm conspicuamente impressos nas camisas, calças e até cuecas. Pagamos por um produto e ainda temos de alardeá-lo pelas ruas.

Humilhação equivalente é a que estão se submetendo as escolas de samba cariocas em 2013. Com o declínio dos bicheiros, que sempre as sustentaram como extensões naturais de seus domínios, elas tiveram de se virar para levantar dinheiro. E foram buscá-lo em empresas privadas, governos estaduais e países estrangeiros. É assim que, entre outros, a revista "Caras", os criadores de cavalos manga-larga, a Alemanha e a Coreia do Sul botaram o seu neste ano.

Nada demais nisto -as escolas, por mais tradicionais, nunca foram o reduto da pureza, e não haveria problema em que, em seus ensaios, barracões e quadras, os logos dos patrocinadores fossem exibidos com destaque. Mas o samba perde em dignidade quando esses exigem ver seus prosaicos produtos cantados na avenida como, no passado, se cantavam Zumbi e a princesa Isabel.

No futebol, a mesma coisa. Ontem, ouvi o Campeonato Paulista ser chamado de "Paulistão Chevrolet". Estranhei. Depois entendi: ninguém na Federação se preocupou em defender o bumbum que a mãe deles beijou.

A nova juventude - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O ESTADÃO - 04/02

A Europa continua sob o fogo cerrado de uma crise econômico-financeira sem precedentes. Os números do desemprego na Espanha, por exemplo, são assustadores. Dados divulgados recentemente apontam que 26% da população está sem trabalho, totalizando quase 6 milhões de pessoas. Mais da metade dos jovens está sem emprego. Assiste-se ao comprometimento de toda uma geração. O país vive uma fuga crescente de jovens talentos. Em um ano, a população de 20 a 24 anos diminuiu em 100 mil pessoas; de 25 a 29 anos a queda foi de 150 mil. O impacto da crise entre os jovens preocupa as autoridades e suscita análises sociológicas.

A juventude europeia não foi preparada para a adversidade. A frustração apresenta uma pesada fatura: violência, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, aids e drogas. A ausência de cenários promissores compõe a trágica equação que ameaça destruir o sonho juvenil e escancarar as portas para uma explosão de contestação.

O quadro brasileiro é bem diferente. Felizmente. Temos, é certo, muitos problemas - violência, drogas, corrupção, desigualdade, baixa qualidade da educação -, todavia somos um país de gente alegre, com capacidade de sonhar. Expectativa de futuro define a vida das pessoas e o rumo das sociedades. "O Brasil", dizia-me um conhecido jornalista espanhol, "tem muitas coisas que não funcionam." Mas acrescentou: "Vocês têm problemas, porém têm alegria, fé, futuro. Nós, europeus, perdemos a esperança".

O Brasil de hoje, independentemente das sombras que pairam no quadro financeiro mundial e que, queiramos ou não, toldarão o horizonte da economia real, é um emergente respeitável. O nosso grande capital, o nosso diferencial, apesar do notável emagrecimento do perfil demográfico brasileiro, é o vigor da juventude. Uma moçada batalhadora, com vontade de acontecer e, ao contrário do que imaginam os pessimistas crônicos, sedenta de valores éticos, familiares e profissionais.

O novo mapa da juventude não é novidade para quem mantém contato permanente com o universo estudantil. A juventude real está identificando valores como respeito, fidelidade, família, ética. Há uma demanda de âncoras morais e de normalidade afetiva.

O desinteresse pela política - evidente e medido em inúmeras pesquisas - é, na verdade, uma rejeição ao comportamento imoral de grande parte dos políticos. E isso é bom. Trata-se, no fundo, de um sinal afirmativo. Os jovens estão em rota de colisão com a politicagem tradicional. Os políticos não se dão conta, mas o modelo está esgotado. Os partidos, se quiserem ter alguma interlocução com a juventude, vão ter de se reinventar. A renovação ética do Brasil não virá do blá-blá-blá vazio dos caciques partidários, mas da base da pirâmide etária. A política das coligações, marcadas pelo pragmatismo aético, vai ruir como um castelo de areia. É somente uma questão de tempo.

Mas há também em andamento profundas mudanças comportamentais. Os filhos e os netos da permissividade moral sentem uma profunda nostalgia de valores. Os anos da revolução sexual produziram muito sexo e pouco amor. O relacionamento descartável deixou o travo do vazio. Agora o auê vai sendo substituído pelo sentido do compromisso.

A juventude atual, não a desenhada por certa indústria cultural que vive isolada numa bolha ideológica e de costas para a realidade, manifesta uma procura de firmeza moral, de valores familiares e religiosos. Deus, família, fidelidade, trabalho, realidades tidas como anacrônicas nas últimas décadas, são valores claramente em alta. A Jornada Mundial da Juventude, encontro do papa com os jovens, em julho no Rio de Janeiro, vai surpreender muita gente. Espera-se mais de 2 milhões de jovens de todos os continentes. É muito mais do que a Copa do Mundo e a Olimpíada juntas.

A família, não obstante sua crise evidente, é uma forte aspiração dos jovens. Ao contrário do que se pensa em certos ambientes politicamente corretos, os adolescentes atribuem importância decisiva ao ambiente familiar. Mesmo os jovens que convivem com a violência doméstica consideram importante a base familiar. A relação no lar é fundamental, ainda que haja conflito. Parece paradoxal, mas é assim. Eles acham melhor ter uma família danificada do que não ter ninguém. Em casa deixaram de rotular os pais de "caretas" para buscarem neles a figura do companheiro. Os jovens, em numerosas pesquisas, apontam a família tradicional como a instituição de maior ascendência em suas decisões.

No campo da afetividade, antes marcado pelo relacionamento descartável e pela falta de vínculos, vai-se impondo a cultura da fidelidade. O tema da sexualidade, puritanamente evitado pela geração que se formou na caricata moral dos tabus e das proibições, acabou explodindo, sem limites, na síndrome do relacionamento promíscuo e transitório. Agora o rio está voltando ao seu leito. O frequente uso de alianças na mão direita, manifestação visível de compromisso afetivo, revela algo mais profundo. Os jovens estão apostando em relações duradouras.

Assiste-se, na universidade e no ambiente de trabalho, ao ocaso das ideologias e ao surgimento de um forte profissionalismo. Ao contrário das utopias do passado, os jovens acreditam "na excelência e no mérito como forma de se fazer revolução". Defendem o pluralismo e o debate das ideias. O pensamento divergente é saudável. As pessoas querem um discurso diverso, não um local onde se pregue apenas uma corrente de pensamento.

Quem não perceber, na mídia e fora dela, essa virada comportamental perderá conexão com um importante segmento do mercado de consumo editorial.

Tragédia pastelão - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 04/02


Um bunker subterrâneo abriga, no começo do fim de semana, enquanto escrevo, um menino de 5 anos que chora pelos pais. O bunker foi construído por Jimmy Lee Dykes, de 65 anos, conhecido num município rural do Alabama por se trancar lá dentro por vários dias. Tem eletricidade, comida e TV. Por um tubo de ventilação, a policia passou remédios para o menino refém, que sofre de autismo. O garoto foi arrancado por Dykes do ônibus escolar, depois que seu captor executou o motorista do ônibus que se havia se recusado a entregar dois outros meninos.

O captor armado é possivelmente doente mental. Mas, na narrativa fronteiriça americana, pode se passar por um excêntrico com temperamento violento, exercitando seus direitos fantasiosos sob a segunda emenda da Constituição. Ele estava intimado a comparecer a um tribunal depois de ter feito disparos contra uma vizinha, o filho e o neto da mulher, aborrecido com uma disputa por um quebra-molas na estrada de terra batida onde vive.

Um repórter nova-iorquino gravou uma assembleia no Norte do Estado, em que um xerife de fato tentava explicar a proprietários de armas como cumprir a lei recém-passada pelo governador Andrew Cuomo, como reação ao massacre de Newtown. Caçadores de cervos, convencidos de que precisam de suas armas automáticas e centenas de rodadas de munição para capturar o jantar, prometem uma insurreição e desafiaram o xerife a vir prendê-los. O xerife estava assustado e tentava apaziguar os candidatos a delinquentes que se enrolam na bandeira para justificar seu radicalismo.

Como um vespeiro perturbado, não por um passante desavisado, mas pelo resultado da eleição de novembro, figuras como Jimmy Lee Dykes e os caçadores de Nova York estão zunindo em vários Estados, brandindo suas armas, sejam as de fogo ou as retóricas, as que servem de munição para o delírio paranoico que é parte da sustentação do lobby das armas, a NRA. Ao assinar ordens executivas para regular o porte de armas e reduzir o arsenal militar em mãos de cidadãos privados, Obama deu um presente aos mercadores da paranoia.

O porta-voz da NRA, Wayne LaPierre, foi depor numa comissão do Senado sobre armas de fogo, motivada pelo massacre da escola de Newtown, Connecticut, em dezembro. Chegou cercado por capangas que não se contentaram em empurrar repórteres. Revistaram alguns deles, em flagrante violação das regras da casa dos representantes do povo. A paranoia de LaPierre é justificada. A julgar por seu depoimento, ele teme ser atingido por um projétil de raciocínio coerente. E como não temer? Trata-se de um sujeito que formula cenário em que os cidadãos, abandonados pelo governo, "quando um furacão ou tornado chega", só podem "se proteger no frio e na escuridão" com suas armas. Logo, logo, a moça do tempo vai recomendar o calibre ideal, em caso de ventania.

Não é difícil fazer de LaPierre objeto de chacota, como provaram os comediantes de fim de noite durante a semana. Mas o que fazer do infinitamente mais articulado e brilhante David Mamet? Não precisa ajustar seus óculos, você leu o nome correto. O dramaturgo que eletrizou plateias em tantos países, inovando o diálogo teatral com jóias como "Glengarry Glenn Ross", uma condenação da cultura do comércio amoral, se orgulha, recentemente, de pertencer ao coro que ele chama de conservador.

Mas não posso insultar os conservadores que conquistaram o epíteto por métodos mais nobres. O direitismo expressado por Mamet é como um tique nervoso. Não é neoconservador, é neolunático. Vejamos: numa longa diatribe contra a iniciativa de Obama, publicada com destaque lamentável pela Newsweek, Mamet começa por explicar ao seu rebanho que a máxima de Karl Mark "De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades" nada mais é do que linguagem em código para a função do Estado, de tomar e distribuir como melhor lhe parecer. Levaria nota baixa em marxismo, porque o espantalho invocado por Mamet estava pensando numa utopia do proletariado, não do Estado. O dramaturgo segue com o argumento canastrão, que não haveria de tolerar, partindo de seus melhores personagens: Obama quer proteger sua família com o Serviço Secreto, mas não quer deixar o xerife Mamet se armar para proteger seus rebentos. Aqui, detectamos o odor inconfundível de outro código de linguagem: qualquer obstáculo ao hiperindividualismo de John Wayne é elitista.

Há elitismo maior do que se conceder o privilégio de mentir?

''A marcha da insensatez'' - parte I - EVERARDO MACIEL

O ESTADÃO - 04/02

Barbara Tuchman (1912-1989), renomada escritora e historiadora norte-americana, fez muito sucesso, nos anos 1980, com o livro A Marcha da Insensatez. Nele, a autora aponta a insensatez ou a obstinação como uma opção política recorrente no curso da História, acarretando a ruína ou o infortúnio dos governos. Em favor de sua tese, oferece inúmeros exemplos, desde o cavalo de Troia até a aventura norte-americana no Vietnã.

A política tributária presta-se com singular utilidade para a prática da insensatez. Assim ocorre quando há exação imoderada, linguagem complexa ou obscura, sobrecarga de burocracia, etc. No Brasil, temos inúmeros exemplos de insensatez tributária. Neste artigo, destaco um deles.

Elisão fiscal ou planejamento tributário é tema ainda sujeito a muitas controvérsias doutrinárias. Corresponde à possibilidade de o contribuinte, pretendendo à economia tributária inerente à própria gestão dos negócios, fazer uso de brechas legais.

A legislação de inúmeros países considera abusivo o planejamento que busca exclusivamente a economia tributária. Neste caso, a administração, sem desfazer os atos ou negócios jurídicos efetivados, desconsidera seus efeitos tributários.

A Lei Complementar n.º 104, de 2001, introduziu o parágrafo único do artigo 116 no Código Tributário Nacional (CTN), admitindo a possibilidade de desconsideração administrativa dos atos ou negócios jurídicos praticados, na hipótese de dissimulação. Conferiu eficácia limitada à norma, porque condicionou sua concretude à aprovação de procedimentos específicos em lei ordinária.

O foco dessa norma geral antielisiva é a dissimulação, entendida como um meio real de encobrir algo também real, nos limites da lei. Em contraste, a simulação, qualificável como crime, é a pretensão de enganar em relação a algo que não é verdadeiro.

Os artigos 13 a 19 da Medida Provisória n.º 66/2002 cuidaram de estabelecer os procedimentos que dariam eficácia plena à norma antielisiva. O Congresso Nacional, no entanto, os rejeitou no projeto de lei de conversão. Em consequência, a norma não pode ser aplicada, até que sobrevenha a aprovação de um regramento específico.

Não é assim que tem feito o Fisco. Fazendo uso de subterfúgios de linguagem, como deslocamento ou reclassificação de rendimentos, com frequência autos vêm sendo lavrados envolvendo, na prática, a desconsideração administrativa do que se presume ser dissimulação, desconhecendo a exigência dos procedimentos específicos.

Na esteira dessa prática, foram lavrados, no ano passado, autos bilionários. Em tese, nada demais, desde que sejam procedentes.

Pude constatar, contudo, autos que têm por base uma pretensa dissimulação, mesmo sem uma vinculação ostensiva ao parágrafo único do artigo 116 do CTN. Quais as consequências disso? Repercussões sobre a imagem das empresas, que se obrigam a noticiar como fato relevante danos patrimoniais expressos imediatamente na queda do valor das ações, inibição de negócios com possíveis investidores, inclusive estrangeiros.

Não são bem autos de infração. São autos de fé, seja porque reproduzem a tortura falsamente moralista da Inquisição, seja porque decorrem mais da fé que da convicção da autoridade lançadora.

Admitindo-se que não prosperem esses autos, quem irá reparar os danos morais e financeiros desses contribuintes? Não temos uma legislação que efetivamente cuide da responsabilidade objetiva do Estado. Não há sucumbência administrativa.

Não seria mais razoável editar uma legislação que, de uma vez por todas, estabeleça os procedimentos para proceder à desconsideração administrativa? Essa omissão legislativa é extremamente danosa para os investimentos no Brasil.

Em menor escala - nem por isso menos importante - estão sendo julgados lançamentos feitos contra jornalistas e desportistas, a pretexto de prestarem serviços por meio de pessoa jurídica da qual são sócios.

O que, de fato, aconteceu? As inscrições das pessoas jurídicas foram aceitas, mesmo porque não infringiam a legislação. Os impostos foram recolhidos. As obrigações acessórias foram atendidas. Nenhuma restrição por parte do Fisco. Nem sequer um ato declaratório interpretativo foi editado. De repente, as autuações. Não parece deslealdade do Estado?

O artigo 129 da Lei n.º 11.196/05 esclareceu a matéria definitivamente, quando, em caráter interpretativo, disse que a prestação de serviços intelectuais por pessoas jurídicas, em qualquer hipótese, se sujeita tão somente à legislação a ela aplicável. Trata-se de um truísmo necessário, para prevenir situações esdrúxulas.

Desde a edição daquela lei não ocorreram mais autuações. De mais a mais, em 2011, o Código Civil foi alterado para admitir a empresa individual de responsabilidade limitada.

Restou o julgamento de alguns desportistas e jornalistas, escolhidos sabe-se lá por qual critério, quando, em verdade, se tratava de uma prática generalizada, aberta e admitida, além de obviamente lícita. É de esperar que o julgamento desses processos restaure a justiça.

Cachorro louco - JOSÉ DE SOUZA MARTINS

O Estado de S.Paulo - 04/02


Devo a vida ao Instituto Pasteur de São Paulo. Minha tia Sebastiana me dizia: "Ocê nasceu porque vossa mãe foi mordida por um cachorro louco". Minha mãe, ainda solteira, morava na roça, no bairro do Arriá, no Pinhalzinho, quando foi mordida por um cão hidrófobo, aí por 1936. Morto o animal a tiros, teve a cabeça cortada e colocada num saco de estopa. Meu tio Pedro desceu a Serra das Araras a cavalo, levando o embrulho e, em outro cavalo, minha mãe e sua irmã mais velha para que tomassem o trem em Bragança e viajassem para São Paulo. Da Estação da Luz foram para o Instituto Pasteur, na Avenida Paulista. Entregaram a cabeça do cachorro, para confirmar a hidrofobia.

Repetiam o que se tornara comum desde a manhã de 7 de novembro de 1903, quando o Dr. Ivo Bandi, médico italiano, primeiro diretor do Instituto Pasteur, vacinou as duas primeiras vítimas de cães hidrófobos que, finalmente, podiam ser vacinadas aqui mesmo em São Paulo. Até então, eram enviadas de trem para tratamento no Rio de Janeiro. Quem não pudesse fazer a viagem acabava morrendo depois de atroz agonia. As vacinas foram aplicadas numa clínica na Rua Direita nº 22. A primeira pessoa a recebê-la foi uma menina de 9 anos de idade, Dina Preti, moradora na Rua Sólon, no Bom Retiro. A segunda foi o italiano Saverio Micalli, de 45 anos, procedente de Santa Eudóxia, em São Carlos do Pinhal.

O Instituto nascera numa reunião, no Clube Internacional, no dia 6 de agosto, presidida pelo engenheiro Inácio Wallace da Gama Cochrane, com a presença de vários médicos. Seria uma instituição privada e sua fundação dependeria de donativos. Em três semanas foram angariados mais de 23 contos de réis, uma pequena fortuna. O dinheiro era para comprar o local de sua instalação e importar o material de que necessitaria. O dinheiro continuou chegando de paróquias católicas e de câmaras municipais do interior. Fazendeiros, banqueiros, comerciantes, industriais enviaram contribuições. Trabalhadores e pessoas de condições modestas subscreveram listas e enviaram doações. A Associação das Classes Laboriosas, que ainda existe, enviou uma quantia de dinheiro e prometeu fazer uma contribuição anual para manter o Instituto. No dia 8 de novembro o Instituto Pasteur já estava instalado na Avenida Paulista, no prédio em que, com várias alterações na fachada, funciona até hoje. Em 1918, passaria para o Estado.

Como tivesse que permanecer lá até o término do tratamento, minha mãe conheceu outras pacientes. Dentre elas, minha futura tia Amábile, casada com um primo de meu pai, já quarentão. Foi quem arquitetou um almoço na casa de minha futura tia-avó, em São Caetano, para que meu pai e minha mãe se conhecessem. Em 1937, estavam casados e no ano seguinte eu nasceria. Era a bela trama da vida no Instituto Pasteur.

A Ucrânia e o Paquistão são aqui - RENATO JANINE RIBEIRO

Valor Econômico - 04/02


Em 2012 as paixões se exaltaram no Brasil, com o julgamento de um caso que até no nome mostrou uma divisão política acentuada: mensalão, diziam uns, Ação Penal 470, diziam outros. O Judiciário condenou o líder petista que foi o principal ministro do primeiro governo Lula. A discussão do assunto tem-se confinado ao Brasil. Mas a experiência do maior país da América Latina encontra paralelos numa potência regional da Ásia, o Paquistão, e num dos principais Estados que saíram da ex-União Soviética, a Ucrânia.

Yulia Tymoshenko ficou famosa pela imagem e pela ação. Ela é a loura de cabelos trançados que em 2004 liderou a Revolução Laranja, contra o governo da Ucrânia, que teria fraudado as eleições. Depois de intensas manifestações, com a simpatia da mídia internacional e o apoio dos governos ocidentais, ela chegou ao poder. Com idas e vindas foi primeira-ministra da Ucrânia até 2010, quando perdeu as eleições - e logo foi condenada à prisão. Responde a outros processos.

No Paquistão, a Corte Suprema mandou prender o primeiro-ministro Raja Pervaiz Ashraf, acusado de corrupção, às vésperas da campanha eleitoral ora em curso. Dezenas de milhares têm protestado contra a corrupção; o problema, a meu ver, é que parte deles disse ver o nome de Alá nas nuvens sobre Islamabad - o que suscita minha desconfiança. Isso não absolve o governante, que continua livre. A sonegação fiscal é frequente no país, bem como o uso de fundos públicos em campanhas eleitorais.

Justiça ganha poder graças à corrupção política

São três casos diferentes. Cada um dos acusados pode ser inocente - ou culpado. Quem se alegra com a condenação de José Dirceu se revolta com a prisão de Tymoshenko, e vice-versa - ele, querido da esquerda, ela, dos liberais. Mas os dois são acusados do mesmo: abuso do poder.

Há uma lógica parecida nos vários episódios. Ashraf teve a prisão decretada, estando no poder. Dirceu foi condenado, com seu partido no poder - onde continua. Tymoshenko foi julgada após a derrota, mas mesmo assim teve, nas eleições que perdeu, 45% dos votos.

Em todos esses casos vemos uma atuação forte do Judiciário, que enfrenta quem está no governo. É isso bom, é mau? A Justiça é, dos três poderes clássicos, o único não-eleito. Sua composição é aristocrática. Juízes entram na carreira por concurso, o que elege os melhores, os "aristoi" - ou por cooptação, quando os tribunais escolhem quem vai ser juiz ou quem será promovido. Tudo isso contrasta com a escolha, pelo voto popular, dos líderes dos poderes Executivo e Legislativo. Daí, um certo conservadorismo da profissão judicial, que teve seu pior exemplo na Corte Suprema americana na década de 1930, barrando as leis sociais de Franklin Roosevelt.

Duas das três pátrias da democracia moderna, Grã-Bretanha e França (a terceira sendo os Estados Unidos), sempre resistiram à tentação de dar poder demais aos juízes. De Lolme dizia, em 1771, que o Parlamento britânico "pode fazer qualquer coisa, menos transformar um homem em mulher ou uma mulher em homem". Queria dizer que o único limite ao poder do Parlamento era o da impossibilidade natural. Daí o choque para os britânicos, quando a corte (europeia) de Estrasburgo declara inconstitucionais leis votadas em Westminster, porque violariam direitos humanos.

Na França, a convicção da soberania popular é um fio condutor da política desde a Revolução Francesa, vencendo dois imperadores, três reis e um marechal (Pétain), que a tentaram controlar ou negar. Por isso, até recentemente, era difícil arguir a inconstitucionalidade de leis. Só em 1974 a oposição foi autorizada a levantar essa questão ante o Conselho Constitucional; só em 2008 surgiu a possibilidade de questionar uma lei já vigente, ainda assim, em casos excepcionais.

Mas a tendência é a mudar isso, aumentando o poder ou dos tribunais da União Europeia ou do Conselho Constitucional. Assim, aquilo que de Gaulle detestava (o "governo dos juízes") pode vir a acontecer.

Estamos vendo, no Brasil, no Paquistão, na Ucrânia e talvez em mais países, um governo pelos juízes?

Eu não iria tão longe. O que tem legitimado a judicialização - e mesmo a criminalização - da política é, penso eu, apenas o descontentamento com a corrupção na vida pública. Como as cortes têm entre suas missões a de zelar pela honestidade, cresce a expectativa de que elas limpem a política. É esse o espírito da Lei da Ficha Limpa. É o espírito de muitos que vibraram com as condenações do mensalão.

Mas esta é uma situação explosiva. Se dermos aos tribunais o papel de zelar pela política limpa, renunciaremos à cidadania. Porque, em países democráticos, quem escolhe o governo somos nós, cidadãos. Se elegemos gente ruim, a culpa é nossa; o que significa pedir socorro aos juízes? Pedimos para ser tutelados? Dizemos que não conseguimos a democracia, o autogoverno, porque não conseguimos eleger gente honesta?

Há uma alternativa. Ela é os próprios políticos perceberem que dançam à beira do vulcão, posto que se desmoralizam com seu descaso pelas cada vez mais numerosas denúncias de corrupção. Será eles mesmos limparem seus estábulos ou, pelo menos, apurarem o que está errado até o fim e mais além, como sugeri em coluna anterior: não apenas até tirar alguém do cargo, mas até julgá-lo e, se culpado, condená-lo. Mas mesmo essa alternativa é triste. Depende de uma iniciativa dos políticos, não dos cidadãos. É como se nossa sorte democrática estivesse delegada quer aos tribunais suprindo as falhas dos políticos, quer a eles criando vergonha na cara. A melhor opção seria os cidadãos, a sociedade, tomarem a questão em mãos. Mas de que modo?

Em uma canoa só - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 04/01

O procurador-geral do Estado, Elival Silva Ramos, antecipou a integrantes do primeiro escalão de Geraldo Alckmin que deverá opinar contra a hipótese legal de Guilherme Afif acumular o futuro Ministério da Micro Empresa e o cargo de vice-governador de São Paulo. Silva Ramos só vai se manifestar no "momento oportuno" e "mediante fato consumado", mas já examinou a questão. "Não é um caso expresso na lei. Portanto, suscita interpretações, e eu já tenho a minha", afirma.

Muita calma O PSD insiste em formalizar o apoio à reeleição de Dilma Rousseff, em março, antes de se instalar na Esplanada. Por isso, aliados de Gilberto Kassab consideraram prematuras as declarações de Afif sobre sua postulação. "O timing não foi adequado", reconhece interlocutor do ex-prefeito.

Bode Aliados de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) dizem que o candidato à presidência da Câmara esteve ao menos quatro vezes com Inocêncio Oliveira (PR-PE) no fim de semana para tentar dissuadi-lo de disputar o comando da Casa.

Flutuante Estimativa que chegou a Dilma ontem à tarde dava conta de 250 votos a favor de Alves, o que tornaria real a chance de segundo turno. Já cabos eleitorais do potiguar garantiam que ele teria apoio de 350 deputados.

Na mosca A primeira reação do Planalto à escolha de Eduardo Cunha (RJ) para líder do PMDB foi dar o crédito a Sérgio Cabral: em jantar com a presidente na quinta, ele previu que o conterrâneo seria eleito com 46 votos.

Pânico... Não bastasse a tensão política da eleição do novo líder peemedebista, ontem, o vice-presidente da Caixa, Geddel Vieira Lima, viveu um filme de terror particular: ficou 30 minutos preso num dos elevadores da Câmara.

... em Brasília Depois de mandar pedidos de socorro pelo celular, Geddel foi resgatado, suando e sem camisa, ainda a tempo de acompanhar a votação da bancada.

Day after Mais de 200 empresários se reúnem na CNI, em Brasília, amanhã e quarta para definir as 130 propostas que vão integrar a Agenda Legislativa da Indústria, que será lançada em abril.

Mea culpa 1 Consumada a vitória de Renan Calheiros (PMDB-AL) no Senado com evidente apoio de tucanos, Aécio Neves (PSDB-MG) avaliou que errou ao não discursar para marcar a posição do partido no dia da votação.

Mea culpa 2 Diante da debandada tucana, que fragiliza seu discurso de presidenciável, Aécio diz que os senadores que não seguiram a orientação de votar em Pedro Taques (PDT-MT) "não entenderam que o PSDB tem de se comportar de maneira diferente, mostrar que tem outro projeto para o país".

Verão passado Em agosto, quando ensaiou a candidatura de Edson Lobão à presidência do Senado, o Planalto já sabia do plano do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, de apresentar denúncia contra Renan ao Supremo Tribunal Federal.

Fica fria Segundo interlocutores, avisado sobre a preocupação, o recém-eleito presidente do Senado respondeu a emissários do Planalto que não se preocupassem, porque a denúncia não tinha chance de prosperar.

Frevo eleitoral Eduardo Campos convidou os cinco governadores do PSB para o desfile do Galo da Madrugada, sábado, em Recife. Na sexta passada, o socialista foi a Vitória (ES), onde participou da abertura do Carnaval local. Além de Renato Casagrande, chamou Luciano Rezende, prefeito do PPS, para a folia em Pernambuco.

Tiroteio
Dilma vai recorrer ao Procon. Todas as latas de refrigerante do Alvorada vieram com a mesma frase: 'Quanto mais PMDB melhor'.

DO VEREADOR ANDREA MATARAZZO (PSDB-SP) sobre a hegemonia do partido do vice-presidente, Michel Temer, nos cargos de comando do Congresso.

Contraponto


Contra o relógio


Geraldo Alckmin recebia no Palácio dos Bandeirantes pela primeira vez um prefeito do interior que havia tomado posse em janeiro. O político chegou ao gabinete do governador com 11 ofícios debaixo do braço, cada um com uma série de pedidos de recursos para sua cidade.

Assustado, o tucano comentou:

- Calma, prefeito. Ainda estamos no primeiro mês do seu mandato. Temos tempo para tentar resolver isso...

O recém-empossado rapidamente respondeu:

- Não, governador. Eu reconheço: prometi demais. Exagerei! Agora não posso perder tempo.


Falta confiança - PAULO GUEDES

O Globo - 04/02


O nosso potencial de crescimento econômico sustentável é baixo. Há uma crescente percepção do fenômeno. "O PIB patina e revela modelo esgotado. Analistas criticam modelo baseado no consumo e falta de clareza para investir em infraestrutura", alerta O GLOBO em matéria de capa deste domingo. "O desastre da indústria: a produção de todo o setor industrial caiu em média 2,7% em 2012, informou na sexta-feira o IBGE. Mas a fabricação de bens de capital recuou 11,8%, o que é um péssimo prenúncio, pois o potencial de expansão da economia depende do investimento em máquinas, equipamentos, instalações industriais e infraestrutura", registra em editorial o jornal "O Estado de S. Paulo" deste domingo.

O governo reage à dupla tragédia da desaceleração econômica e da desindustrialização com juros baixos, crédito fácil e redução de impostos e encargos trabalhistas. A ameaça do desemprego industrial foi estampada também em manchete de primeira página do "Estadão": "Emprego naufraga no ABC paulista. Indústrias fecharam 52 mil postos de trabalho em 2012, no berço do sindicalismo brasileiro." Mas a redução de impostos e encargos certamente amenizou os impactos sobre o mercado de trabalho. A taxa de desocupação registrada pelo IBGE em dezembro de 2012 foi de 4,6%, a mais baixa dos últimos 10 anos, e "as contratações no setor de serviços tiveram em 2012 o melhor desempenho dos últimos 3 anos", registra o jornal.

Caímos na armadilha social-democrata do baixo crescimento. "Programas sociais de transferência de renda consomem metade das despesas do governo federal, atingindo peso inédito nos gastos públicos e na economia", adverte a "Folha de S.Paulo" em matéria de capa deste fim de semana. O aumento dos gastos públicos e a expansão do crédito são políticas tradicionais de estímulo à demanda na economia. Aumentam a utilização da capacidade produtiva instalada e reduzem a taxa de desemprego a curto prazo, mas não garantem o crescimento econômico a longo prazo. O fenômeno do crescimento sustentável é bastante mais complexo. Até mesmo a ampliação das transferências de renda exige aumentos de produtividade resultantes dos investimentos. E, sem as reformas de modernização, faltam a confiança e o otimismo para que se disparem esses investimentos.

Presidente negro no país de Lincoln - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 04/02

Se o quadriênio passado foi inçado de perigos, o novo continuará assim não se sabe por quanto tempo



A eleição de Barack Hussein Obama para presidente dos Estados Unidos representou sucesso sem precedente na história americana. Basta lembrar que num país em que até ontem existiam setores numerosos de separação radical e belicosa de descendentes de africanos com outros americanos de origem europeia, um homem jovem e sem ligação com o escol econômico e social daquele país, com ascendentes asiáticos e africanos, de tez escura, chefe de família igualmente negra, foi eleito presidente dos Estados Unidos, posto ocupado por Washington, Jefferson, Lincoln, Madison, Roosevelt, Kennedy, e nessa investidura se houve com equilíbrio e moderação, autoridade sem arrogância, temperança e lucidez, a ponto de ser reconduzido à posição presidencial para exercer novo mandato. A mudança, que também era a continuidade, mostrou um homem à vontade, o discurso então proferido porejava firmeza, confiança e coragem. O novo presidente refinou sua oração sem perder a simplicidade, a transparência e a naturalidade. Mas nem tudo é igual ao quadro de 2008, quando eleito pela primeira vez; o mundo mudou e mudou o país dentro de seus limites. A imensa crise que tem a Europa como epicentro adquiriu expressão intercontinental e bateu em cheio nos Estados Unidos. Tudo isto evidencia que o governo que se reinicia não será e não poderá ser a mera continuação do anterior. Não estranha, por isso mesmo, que o discurso de 2013 não se limitasse a reiterar o de 2009, outras dimensões pretensiosas e corajosas, visíveis a olho nu.
Outra vez se repete o fato de o presidente ser do Partido Democrático e a maioria da Casa dos Representantes pertencer ao Partido Republicano. Esta anomalia institucional tem sido apontada por estadistas, políticos, juristas, publicistas, historiadores e tantas vezes registrada pelo incansável doutrinador do parlamentarismo Raul Pilla, em sua longa atividade política, parlamentar, partidária e jornalística.
Enfim, se o quadriênio passado foi inçado de perigos, o novo continuará assim não se sabe por quanto tempo. Contudo, o chefe do governo parece revigorado, músculos retesados, com apetite de enfrentar gigantes. Se isto acontecer, será benfazejo ao seu país e ao resto do mundo.
Já que me aventurei a esgueirar-me por meandros internacionais, ocorre-me recordar o cinquentenário de magno acontecimento na história universal, a criação da União Europeia. O sonho era antigo e antes dele, em 1951, fora criada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, a primeira realização real no plano dos fatos nascido da inspiração de Schuman e da ação visionária de Jean Bonnet. Em 1957 foi o tratado de Roma que veio a acrescentar novo elo na cadeia que pretendia a federalização da Europa. Mas ainda estava por acontecer um ato necessário nesse processo; teve como partes duas nações que fazia um século vinham se guerreando, a Alsácia passando de francesa a alemã e vice-versa, em 1870, 1914-1918, 1939-1945, com rios de sangue, destruição de vidas, igrejas, bibliotecas, museus, bens materiais de todo o gênero e, por inacreditável que pudesse parecer, no Palácio do Elyseu o presidente da França, que fora o chefe da Resistência, da França Livre, da Cruz de Lorena, Charles de Gaulle, e Konrad Adenauer, chanceler da Alemanha depois do terremoto nazista, assinavam o tratado que sepultaria uma inimizade centenária e sangrenta, cheia de túmulos e ruínas, luto e lágrimas. Pois do tratado do Elyseu decorreu meio século.
Dir-se-á que queixas recíprocas continuam e ainda agora o Reino Unido divulgou a resolução de um plebiscito sobre o que pensa a população acerca da permanência ou saída da comunidade. Contudo, o acontecimento de 1963, passados 50 anos, merecia ser lembrado, e por muitas razões.

Bala de prata - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 04/02


SÃO PAULO - Desconfie, leitor, quando ouvir alguém dizer que certo procedimento "não resolve" um problema da sociedade. Duvide, também, quando topar com a assertiva oposta: se adotássemos a medida tal, solucionaríamos o impasse.

A preguiça, a inépcia e a inoperância costumam esconder-se por trás dessas argumentações finalistas, definitivas. Diz-se, por exemplo, da internação compulsória de viciados em drogas que ela não resolve o problema da dependência.

Que não seja solução geral, parece um fato inconteste. Mas será que a medida melhora algumas situações individuais? Será que esse tempo ganho, ao evitar a morte e retardar a deterioração da saúde de uma pessoa incapaz de tomar decisões, pode tornar-se uma etapa para tratamento mais efetivo à frente?

O mito da bala de prata aparece bastante no debate econômico. Para certo time de "desenvolvimentistas", basta manter desvalorizado o real para que tudo o mais se ajuste. Do outro lado estão os fanáticos pela liberdade total dos mercados.

São mais vantajosas as abordagens incrementais, que levam em conta mais de um aspecto do problema e visam à sua melhoria no tempo -nem sempre à "solução". Mas isso requer disposição para o trabalho, o aprendizado e a organização.

O Brasil desempenha-se precariamente nesse quesito. Veja a disfuncionalidade dos mecanismos de prevenção de acidentes com multidões país afora, revelada após o incêndio em Santa Maria (RS).

O objetivo -garantir dispositivos de segurança em locais que recebem aglomerações- perde-se no labirinto de corpos burocráticos estanques, mal treinados e mal controlados. O Brasil, no setor privado e no público, é sobretudo mal gerenciado.

O outro lado da moeda de tanta ineficiência muitas vezes é a especulação em torno da solução definitiva, do lance genial, da norma purificadora, que nunca virão.

Michel sob os holofotes - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE 04/02

A partir de hoje, Dilma Rousseff que se cuide. Tudo bem que o novo líder do PMDB, Eduardo Cunha, é seu aliado e torce pelo sucesso do governo. Mas o coração dele bate pelo partido e pelo grupo que lhe concedeu a vitória. Portanto, ao surgir uma situação em que for obrigado a escolher entre o partido e o governo, o líder dificilmente deixará de atender o primeiro.

Os alicerces da campanha tanto de Eduardo Cunha quanto de Sandro Mabel foram a defesa do partido acima de todas as coisas. Nessa batida, no momento em que uma proposta de Dilma for contra os desejos do PMDB, a presidente terá problemas.

Para equilibrar esse jogo ela poderá contar com o PSD de Gilberto Kassab, que estreia nessa sessão Legislativa sob nova direção e com Kassab mais disponível para fazer politica. E, é claro, o PSB continuará a balançar a árvore palaciana, para ver os peemedebistas despencam. Nesse ritmo, mantido o cenário favorável ao antigo líder Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), no momento em que ele vencer hoje a Presidência da Câmara, as baterias do PSB se voltam para o vice-presidente Michel Temer.

Daqui para frente, tudo o que der errado no PMDB em relação ao governo terá alguém de prontidão entre os partidos para colocar a culpa em Michel. Primeiro, dentro do PMDB há uma (ainda) acanhada torcida no sentido de trocar a aliança com Dilma por uma confraternização ao lado do senador Aécio Neves, do PSDB.

O outro grupo é capitaneado pelo PSB de Eduardo Campos, que invariavelmente atribui as vicissitudes do governo ao PMDB — leia-se o novo presidente do Senado, Renan Calheiros, o deputado Henrique e… Michel. Nessa batida, Dilma e seu companheiro de chapa na campanha presidencial passada estarão sob os holofotes, ela na gestão e condução da economia, e ele na organização política de seu próprio partido e reflexos nos projetos de interesse do governo. Haja equilíbrio para andar nessa corda.

Enquanto isso, no PT…

O PT hoje está como aquele sujeito que até gostaria de comprar um carro novo, mas o dinheiro e as dívidas não permitem. Ou que até trocaria de mulher se pudesse largar a atual sem causar um grande rebuliço na vida, tirando-lhe da zona de conforto, ainda que esse conforto seja apenas aparente. Se Dilma e seu partido tivessem uma bola de cristal que lhes garantisse a vitória em 2014, talvez até se dessem ao luxo de prescindir do PMDB.

Sem essa certeza, o PT não largará o PMDB no meio da rua. Para completar, há uma desconfiança generalizada do PT em relação aos socialistas e o partido de Lula resiste em fazer acordos que joguem 2018 sobre a mesa. Nem Eduardo Campos confiaria hoje nisso. Não é à toa que Lula vai buscar o governador para pedir que permaneça ao lado de Dilma na eleição do ano que vem.

E na Câmara…

Nada está totalmente seguro para Henrique Eduardo Alves se eleger hoje presidente da Câmara. Apesar dos movimentos de última hora em favor de Eduardo Cunha, a matemática da política nas eleições anteriores da Casa recomenda cautela. Marco Maia obteve 375 votos e o apoio de 21 dos 22 partidos em 2011, quando tudo era alegria na estreia de Dilma. Michel, presidente anterior a Maia, conquistou 309 votos no meio do segundo mandato de Lula. Arlindo Chinaglia (PT-SP) foi eleito para o biênio 2007/2008 em segundo turno, com 270 votos.

No colégio eleitoral dos congressistas, há pelo menos 100 dos 513 que são sempre “do contra”. Adicione-se a esse grupo o climão geral da Casa. Há um descontentamento muito grande entre os parlamentares e isso pode desaguar em Henrique. Em terceiro lugar, nem Arlindo nem Michel tiveram que se preocupar em perder votos no chamado baixo-clero quando disputaram contra Aldo Rebelo, hoje ministro do Esporte.

Desta vez, os dois maiores adversários de Henrique — Rose de Freitas, do PMDB capixaba, e Júlio Delgado (PSB-MG) — têm votos na “geral”, ou seja, entre os deputados que ainda não tiveram tanto destaque no parlamento. Especialmente Júlio, companheiro de futebol de muitos deles. E, nesta eleição, a relação pessoal conta. Para completar, nem Michel nem Arlindo passaram pelo corredor polonês de reportagens como aconteceu com Henrique nos últimos dias. Por tudo isso, todo cuidado que ele tiver hoje será pouco, embora aqueles que entendem do traçado do plenário confiem na vitória do peemedebista. Daqui a pouco, vamos saber.