segunda-feira, janeiro 28, 2013

Os bandidos, livres, agradecem - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 28/01


No Brasil, onde a elite intelectual adotou como ideal "o mundo sem armas", confunde-se propositalmente regulamentação com banimento



Tornou-se quase uma compulsão nacional o Brasil procurar dar exemplos pelo mundo do que está fazendo, como se os demais países devessem seguir o seu caminho, pois aqui tudo dá certo. O caso do desarmamento é particularmente exemplar, pois, a propósito do massacre na escola de Sandy Hook, em Newton, os ideólogos do desarmamento logo se apressaram a dizer que os EUA deveriam seguir a política brasileira. Tudo tão simples assim?

Pitadas de antiamericanismo são, assim, destiladas, tendo como pano de fundo um suposto sucesso da política nacional de combate à violência. No Brasil, país onde a elite intelectual adotou como ideal "o mundo sem armas", confunde-se propositalmente regulamentação, que é o que se discute nos Estados Unidos, com banimento, que é justamente a bandeira desse setor da intelligentsia verde-amarela. Entre regulamentação e banimento existe um hiato político e filosófico gigantesco.

Aqui, os ideólogos do desarmamento, vorazes adversários da liberdade de escolha e da autodefesa, procuram banir o comércio de armas, deixando os cidadãos literalmente a mercê dos assaltantes e criminosos. Os bandidos, livres, agradecem penhoradamente, pois não precisam do comércio legal para se abastecerem. Aliás, pessoas que exercem a autodefesa, quando assaltadas, por possuírem armas não registradas em casa, tornam-se objeto de processos judiciais por terem transgredido a lei. Só falta a indenização de assaltantes e criminosos!

Nos EUA, a legislação que está sendo discutida, sob a coordenação do Vice-Presidente Joe Biden, não propugna o banimento das armas de fogo, pois sabe que a liberdade de escolha e o direito à autodefesa são assegurados constitucionalmente. O que está em questão é uma regulamentação. Assim, dentre algumas ideias defendidas, consta um cadastro nacional de proprietários de armas de fogo e a ausência de antecedentes criminais para a compra de armas. Medidas sensatas de fiscalização e controle. Se os desarmentistas nacionais fossem coerentes, defenderiam a política de Obama no Brasil, ou seja, haveria uma liberalização do comércio de armas, seguindo esses critérios de fiscalização e controle.

Sempre que uma tragédia com a de Sandy Hook acontece nos Estados Unidos, imediatamente a sociedade americana é descrita como violenta – com formadores de opinião defendendo essa ideia. Nessa narrativa entram considerações sobre a indústria cultural americana (cinema e TV), o tal culto às armas e as estatísticas cuidadosamente pinçadas para dar ares de ciência ao preconceito.

Os americanos são descritos como militaristas, violentos e armados “até dos dentes”. Supor-se-ia, então, que a criminalidade por armas de fogo seria, lá, muito maior do que a brasileira. Teríamos a conclusão lógica dessas premissas. Não é isto, contudo, o que ocorre.

Vejamos os dados. As informações sobre crimes foram extraídas do Escritório das Nações

Unidas sobre Drogas e Crime (The United Nations Office on Drugs and Crime - UNODC), que implementa medidas que refletem as três convenções internacionais de controle de drogas e as convenções contra o crime organizado transnacional e contra a corrupção. Os dados sobre armas foram extraídos do “Small Arms Survey”. Trata-se de um projeto independente de pesquisas, sediado no Instituto de Pós-Graduação de Estudos Internacionais e Desenvolvimento em Genebra, Suíça, fundado em 1999. É uma referência no debate sobre armas, tanto para desarmamentistas quanto para defensores de porte e posse de armas.

Existem aproximadamente 270 milhões de armas de fogo em mão civis nos Estados Unidos. A relação é de 83 a 96 armas para cada 100 habitantes. Isto é, quase uma arma para cada cidadão. Esses números astronômicos colocam o país na primeira posição em posse de armas de fogo em todo o mundo. O Brasil, por sua vez, possui 14 milhões de armas de fogo em mãos civis. Em cada 100 habitantes, apenas 8 possuem armas de fogo.

Os homicídios por armas de fogo no Brasil permanecem razoavelmente estáveis desde 2003. Em 2008 foram 34.678, isto é, 18,1 por 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, o número de homicídios também permanece estável. Porém, contrariando a argumentação desarmamentista, a média dos últimos anos naquele país não ultrapassa 10 mil homicídios por armas de fogo, ou seja, aproximadamente 2,9 para cada 100 mil habitantes. É significativamente inferior ao Brasil.

A Suíça é o terceiro país em posse de armas de fogo no mundo. Mesmo assim, em 2011, apenas 58 pessoas foram mortas por essas armas naquele país. Um país fortemente armado com insignificante número de vítimas de armas de fogo. Algo que contraria frontalmente a tese dos ideólogos brasileiros do desarmamento. Ademais, a Alemanha, embora seja o décimo quinto, registrou menos mortes do que a Itália, que ocupa a posição de número cinquenta e cinco. Foram 158 mortes por arma de fogo na Alemanha, 417 na Itália.

Desde 1997, o Brasil impõe restrições à posse e ao porte de armas, mas elas foram inócuas quando, em 1999, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira invadiu um cinema e matou a tiros quatro pessoas. Em 2003, as leis brasileiras ficaram ainda mais restritivas, mesmo assim, foram novamente inócuas quando, em 2011, o estudante Wellington Menezes de Oliveira matou doze pessoas na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro. A reação ao Massacre do Realengo, como ficou conhecida a tragédia, demonstra o pensamento mágico envolvido na defesa do desarmamento.

Como se não bastasse, alguns políticos estão propondo alterações no Estatuto do Desarmamento para incluir o artigo que foi rejeitado pela população em 2005. Além do desconhecimento da realidade, tais propostas mostram um profundo desprezo pela democracia e pela soberania do povo. Não é uma minoria parlamentar ideologizada que deveria se substituir a um referendo. O respeito às regras republicanas é essencial. Por que não um referendo sobre a liberdade de escolha e o direito à autodefesa?

Ausência de limites - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 28/01


A redemocratização brasileira nos deixou um importante legado: a certeza de que a democracia é mais que um voto depositado nas urnas. Ela se baseia na garantia das liberdades e num rigoroso respeito às leis. Assim, não é possível fechar os olhos para o viés autoritário que ganha substância no governo petista.

A governança por medidas provisórias, a profunda subordinação do Congresso, a forma como foram promovidas as mudança de marcos regulatórios, a ausência de diálogo e as diversas tentativas de "regulamentar" a mídia são algumas das expressões dessa perigosa tendência.

Mas a fala da presidente da República e a lamentável utilização da rede nacional de rádio e TV para, entre outras coisas, desqualificar os brasileiros críticos ao seu governo é, certamente, a mais evidente delas. Não se sabe se incomodada pela pressão das articulações que gostariam de ver o ex-presidente Lula candidato ou com a simples motivação de tirar o foco dos fracassos acumulados, constatados pelo pífio resultado da economia, a presidente resolveu antecipar o debate eleitoral.

É nesta posição que ela se permitiu propagar aos brasileiros a visão maniqueísta de uma nação dividida ao meio, na qual os que amam o Brasil são otimistas e estão com o governo enquanto que os que não querem o bem do país, os "do contra", os pessimistas, estão na oposição.

Essa é uma postura que agride a diferentes gerações de democratas. É impossível não revisitar, com ironia, a gênese petista do "quanto pior melhor". Ou voltar no tempo para lembrar o nacionalismo canhestro dos governos militares que buscava confundir governo com nação, transformando a crítica em ato impatriótico e que agora ganha estranha atualidade.

O conteúdo do pronunciamento foi atípico e agressivo.

Na parte dedicada à energia, de forma desleal, o texto transformou os que apenas defenderam um outro caminho para a diminuição da conta de luz -no caso a redução de tributos federais- em adversários da ideia. Para a construção do falso raciocínio, sonegou ao país até mesmo a informação de que empresas estaduais criticadas aderiram à proposta do governo nas áreas de transmissão e distribuição.

E, por ironia, são justamente os Estados governados pelo PSDB que, sem alarde, oferecem há muitos anos as maiores isenções de ICMS na conta de luz... O pronunciamento da presidente tem vários significados. Nenhum deles é bom para a democracia, patrimônio de todos brasileiros.


PS - É impossível encerrar a coluna sem expressar o meu mais profundo sentimento pela dor das famílias de Santa Maria, dor que é de todos nós brasileiros.

Típico das autocracias - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 28/01


Barack Obama tomou posse no segundo mandato no domingo 20, pois assim estabelecia as regras constitucionais americanas. No primeiro governo, por ter errado algumas palavras no juramento de praxe, teve de repetir o protocolo depois, dentro da Casa Branca.

Não foi simples formalidade, como entenderia um chavista. Para os bolivarianos no poder em Caracas, e aliados, tudo é secundário, contanto que o caudilho Chávez e seguidores se mantenham no controle do país.

O zelo americano com as regras legais não acontece por acaso — deriva de uma cultura política centenária, amadurecida na longa vivência de uma das mais sólidas democracias representativas do planeta.

Também não é sem motivo que transcorrem no eixo Caracas-Havana cenas já consideradas exemplares do realismo fantástico latino-americano, em que um presidente reeleito não comparece à posse — não importa se está com problemas de saúde, em outro país, o que seja —, tem o mandato prorrogado pela Corte Suprema do país, sem qualquer respaldo constitucional, tudo em nome da defesa do regime. Importa é ganhar tempo para que as facções chavistas se entendam sobre o futuro sem Chávez ou o caudilho se restabeleça. Às favas com a Constituição.

O esquema que controla a Venezuela, decidiu, sob a douta consultoria dos irmãos Castro — sem dúvida, especialistas em preservar poder —, prorrogar o mandato de Chávez. Assim, mantém-se formalmente à frente do governo Nicolás Maduro, vice-presidente, cargo, na Venezuela, preenchido por nomeação. Mas como Chávez não tomou posse, Maduro está tão solto no espaço quanto o chefe.

Achou-se melhor, nas reuniões que transcorrem em Cuba para decidir o destino da Venezuela, manter o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, em seu posto, e não empossá-lo na presidência, como determina a Carta. Talvez porque, se Cabello assumir, terá de convocar novas eleições em 30 dias, embora possa ficar na presidência por até seis meses.

Se bem que, prorrogado o mandato de Chávez por via judicial, tudo é possível. Como já vinha sendo, pois a própria legitimidade do Tribunal Supremo de Justiça é bastante relativa, porque a Justiça foi um dos braços do Estado que Chávez tratou logo de aparelhar. Além de perseguir magistrados, aumentou o número de assentos na alta Corte, para nomear seguidores, com os quais assegurou maioria no Pleno. O tribunal, na verdade, apenas referenda decisões tomadas pela cúpula chavista, no Palácio Miraflores — ou em Havana.

Nada a estranhar, é assim mesmo num regime autocrata que mantém por — aí, sim — mera formalidade, os Poderes Legislativo e Judiciário. A prorrogação “legal” do governo Chávez é uma farsa, da qual a diplomacia brasileira é coadjuvante envergonhado, por ter tratado o Paraguai com outro peso e medida.

Crédito próprio - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 28/01


Empréstimos direcionados para o consumo estão estagnados, mas expansão do financiamento imobiliário pode impulsionar a economia


Estão estagnados há quase dois anos no Brasil, a despeito dos esforços do governo, os empréstimos a pessoas físicas direcionados para o consumo. Responsável por boa parte do crescimento da economia durante o segundo mandato de Lula, a modalidade dá sinais de esgotamento.

De um lado, o comprometimento da renda com o pagamento de juros e amortizações atingiu níveis elevados. De outro, o volume dos empréstimos se aproxima de 15% do PIB, não muito distante da média internacional. São dois sinais de que não há mais espaço para manter a expansão do crédito no país sobre essas bases.

Existe, contudo, um segmento pouco explorado: o financiamento imobiliário. Apesar do deficit habitacional no país, o endividamento nessa modalidade está em 6,2% do PIB, mesmo após anos de crescimento acelerado -tendência que deve se manter, em razão da diminuição das taxas de juros.

Na maior parte dos países desenvolvidos e em alguns emergentes, são comuns níveis superiores a 30% do Produto Interno Bruto. Em certos casos, como nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália, a cifra supera 80% do PIB.

No Brasil, o patamar baixo se explica pelo passado de instabilidade inflacionária -ninguém sabia quão longe poderiam chegar os juros de um empréstimo com prazo de 30 anos, por exemplo- e pela dificuldade jurídica que os bancos enfrentavam para retomar o imóvel em caso de inadimplência.

Ambos os fatores inibiam a disposição para conceder crédito e tornavam as taxas elevadas. O cenário começou a mudar na década de 1990, com a estabilização da moeda e as novas regras que deram maiores garantias aos credores.

Além disso, a burocracia para conseguir o empréstimo vem se reduzindo -o número de documentos exigidos caiu de 45 para dez-, mas o processo ainda é lento.

Em 2012, foram R$ 82,8 bilhões em novos desembolsos, uma alta de 3,6% frente ao ano anterior. Com R$ 269,6 bilhões no final do ano passado, o crédito imobiliário já superou o montante direcionado a veículos (R$ 201,3 bilhões).

Se persistirem os juros baixos e a estabilidade da economia, o país poderá contar com forte crescimento no setor habitacional nos próximos anos. Em 2013, já se espera um aumento de 15%.

O desafio será evitar bolhas de preço e afrouxamentos excessivos nos critérios de concessão de empréstimos. Mesmo que o novo cenário não leve a um crescimento acelerado do PIB, terá impactos positivos na economia. Um maior esforço de poupança das famílias não seria má notícia, num país ainda carente de investimentos.

O vale-tudo dos partidos - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 28/01


Em 1988, ano da promulgação da Constituição pelo Congresso Constituinte, 61% dos brasileiros ouvidos em pesquisa de opinião pública do Ibope declararam ter preferência por um partido político. E apenas 38% se disseram apartidários, ou seja, sem simpatia por nenhuma das siglas partidárias que disputavam à época seu voto. No fim de 2012, 24 anos depois, isso se inverteu: em levantamento feito por encomenda do Estado, apenas 44% disseram preferir alguma sigla partidária, enquanto 56% não destacaram nenhuma. Nessa perda de empatia, nenhum partido se salvou: hoje há menos petistas, tucanos, peemedebistas, democratas do que em 2007.

A primeira explicação para esse declínio pode ser encontrada na frustração da cidadania quanto ao desempenho das agremiações partidárias. "Fiquei muito decepcionada. Desde 2005, só voto nulo. Não acredito em nenhum partido, apesar de existirem pessoas que respeito na política", disse a escritora e socióloga Ivana Arruda Leite.

Esta manifestação de descrença não é isolada. Quem duvidar poderá compulsar o total de eleitores que decidiram não sufragar nenhum candidato ou partido nas eleições de 2012. Com uma abstenção de 16,41% dos eleitores em todo o País e altos índices de votos nulos e brancos, considerados inválidos, eles somaram mais de 35 milhões de votos não contabilizados no cômputo final. Este total representa 25%, ou seja, um quarto dos eleitores. Somente em São Paulo, mais de 2,4 milhões de votos, entre brancos, nulos e abstenções, deixaram de ser computados no resultado final pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O desencanto da cidadania pela atividade partidária chegou ao auge no ano passado, a maior parte do qual esteve sob o impacto da transmissão do julgamento do escândalo do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Durante o julgamento, foram expostas as vísceras da corrupção na política, tendo como principal alvo as relações espúrias entre partidos e o Estado. Os podres revelados no julgamento levaram à condenação figurões das bancadas da base governista: dos Partidos dos Trabalhadores (PT), Progressista (PP), da República (PR), do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e Trabalhista Brasileiro (PTB).

Este fator, contudo, não basta para explicar o esvaziamento da simpatia partidária. Afinal, os condenados mais importantes no processo foram dirigentes do PT, mas este se mantém no topo da preferência do eleitorado nacional com 24%. Obteve muito menos citações do que no último ano dos dois governos Lula (2010), quando o partido bateu o recorde de 41%, o que justifica a eleição de sua candidata, Dilma Rousseff. Mas, mesmo tendo caído quase pela metade, o prestígio mantido pelo PT, em pleno ano do mensalão, ainda representa quatro vezes o do segundo colocado, o PMDB (6%), seu principal aliado no governo, e do terceiro, o PSDB, maior partido da oposição, com 5%. O desprestígio dos tucanos é ainda mais impressionante ao se analisarem apenas os índices registrados no Sudeste, onde o partido sempre teve mais força, o que se comprova pela ocupação dos governos de dois Estados importantes, São Paulo e Minas: em 1995, 14% dos eleitores o citaram como preferido. Em outubro de 2012, este número caiu pela metade: 7%. O declínio vertiginoso revela, de um lado, um certo cansaço do eleitorado com a sucessão de gestões do PSDB e também constata a ausência de uma política clara e coerente que possa servir de alternativa à do PT e seus aliados, vencedores das três últimas eleições federais.

Deixando de lado as características de cada sigla, há uma explicação genérica para a queda geral da preferência do eleitor por cada uma delas. "Partidos não promovem mais grandes debates. Só se apresentam para a sociedade em período de eleição. Deixaram de ser referência. Não existe mais mobilização, a não ser a defesa do interesse do próprio partido", disse Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Outra justificativa a ser levada em conta para entender o desencanto com os partidos foi definida pelo publicitário Daniel Palma ao criticar o "tudo pelo poder". O cerne da política é a luta pelo poder, mas o cidadão não aceita o vale-tudo hoje adotado como regra geral.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


Despesa com servidores sobe a R$ 226 bilhões

Despesas com pessoal e encargos sociais da administração pública federal vão totalizar R$ 226 bilhões, em 2013, incluindo civis e militares, ativos e inativos, servidores do Distrito Federal e pessoal remanescente dos extintos territórios. É o que prevê o projeto de Lei Orçamentária, a ser votado nas próximas semanas. Somente no Poder Executivo, despesas de pessoal este ano chegarão a R$ 162,9 bilhões.


A conta é nossa

O Poder Judiciário vai gastar R$ 23,9 bilhões com pessoal, o Legislativo R$ 7,9 bilhões e o Ministério Público da União 3,2 bilhões.


Média elevada

Os servidores federais já recebem um salário médio R$ 9,6 mil mensais, três vezes superior à media salarial do setor privado.


Números da farra

A Presidência da República tinha 1,1 mil cargos de livre provimento no governo FHC. No governo Lula, foram a 3,2 mil e a 4 mil na era Dilma.


De volta ao batente

O poeta Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF, voltará a advogar: ganhou a carteira número 7130 da OAB de Sergipe.


Correios: festa custou R$ 15,5 mi sem licitação

Instituição respeitada no passado, os Correios chegam aos 350 anos com corpinho de 350, com direito a “plástica”: a festa comemorada há dias em cinco capitais, custou R$15,5 milhões sem licitação. A “Parada Musical” com Paralamas do Sucesso, Plebe Rude e outras bandas, teve como estrela principal no Rio a inevitável Preta Gil, cuja profissão de filha de Gilberto Gil lhe rende uma alegada “popularidade”.


No popular

Com o objetivo de “popularizar a cultura”, a ECT confiou o evento à Trade Network Participação, escolhida por “notória especialização”.


Celebridade

A ECT não divulgou o cachê dos artistas, nas festas do Dia do Carteiro. E o País só tem a celebrar os atrasos na entrega da correspondência.


Correio ‘jovem’

A Trade Network incorporou a Geo Eventos, ligada à Rede Globo. Os Correios patrocinam o festival de rock Lollapalooza, da Geo.


Follies Bergère

Fortalecido pela previsão da entidade esotérica Cacique Cobra Coral de tempo bom no Carnaval e com Lula apavorado com multidões, o governador Sérgio Cabral (PMDB) embarcou para sua querida Paris.


Tartaruga cega

Na pindaíba para pagar despesas de pessoal e manter investimentos até o final do ano, a Infraero empacou na promessa de reduzir 50% dos cargos comissionados e engavetou projetos de duas ricas consultorias.


Até tu?

O CD da Liga das Escolas de Samba do Amapá, com foto do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) na capa, é financiado pelo governo do Estado. Ele pode ser processado pelo uso de recursos públicos para promoção pessoal.


Minha mansão, minha vida

O brasileiro André Barbosa, 23, se deu bem na Flórida: ocupa uma mansão de US$2,5 milhões apreendida pelo Bank of America com a crise imobiliária nos EUA. Aproveitou brecha na lei, diz a Fox News.


Vegetarianos

O Conselho Sueco de Agricultura propôs à União Europeia uma taxa para reduzir o consumo “poluente” e “pouco saudável” de carne. A América Latina tem 43% do rebanho mundial de 1,3 bilhão de cabeças.


Marola

O deputado Alfredo Kaefer (PR) minimiza aparição de José Serra (SP) como estrela de evento do PSDB em São Paulo: “Se ele não brilha lá, vai brilhar onde? Isso não significa demonstração de força para 2014”.


Filão

De olho na imensa população católica do Brasil, o escritor português Luiz Miguel Rocha lança em março “A Filha do Papa”, sobre suposta herdeira do polonês João Paulo II, segundo a mídia italiana. Esperto.


Ojeriza a cheques

Nem a Policia Federal acredita mais em cheques. Além de preencher uma vasta lista de documentos para retirar passaporte, o interessado precisa pagar uma taxa em um banco, não sem antes imprimir o boleto pelo site PF. Neles, o aviso: cheques não serão aceitos.


Prioridade

Saraiva Felipe (MG) avisou a Michel Temer que retirou a candidatura a líder do PMDB na Câmara. O que quer mesmo é um cargo no governo.


Deus sem votos

Roger Levy disputou em São Paulo uma vaga na Câmara dos Deputados, nos anos 80, quando o general João Figueiredo acabava de assumir a presidência da República. Levy teve um desempenho pífio, três mil votos.
- Mas me sinto Deus – disse a um jornalista.
- Por que?
- Ora, Figueiredo foi eleito com 300 votos, o papa com 100 votos. Com três mil, eu me sinto Deus.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Descaso mata 231 jovens no Sul
Folha: Pior incêndio do país em 50 anos mata 231 em casa noturna no RS
Estadão: Fogo em boate mata 233 no RS; série de erros causou tragédia
Correio: Quem vai pagar por este horror?
Valor: Aplicação no exterior ganha força entre os investidores
Estado de Minas: Tragédia no Rio Grande do Sul – Erros em série e mais de 200 jovens mortos
Jornal do Commercio: Eram tão jovens…
Zero Hora: Santa Maria – 27/01/2013

domingo, janeiro 27, 2013

Destruir é fácil - MAÍLSON DA NÓBREGA


REVISTA VEJA

"O PT sempre se insurgiu contra a evolução institucional duramente construída nos anos 1980. Caíram muito a transparência e a credibilidade das estatísticas fiscais. Fica provado que destruir é mais fácil do que construir"

Os governos do PT têm promovido o desmonte sistemático das instituições fiscais duramente construídas nos anos 1980, e também com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 2000. O processo se acentuou recentemente com o falseamento de resultados orçamentários e o uso de contabilidade criativa para fazer crer que foram cumpridas as metas de superávit primário. Caíram muito a transparência e a credibilidade das estatísticas fiscais.
A construção dessas instituições começou na crise da dívida externa da década de 80.0 Brasil, como quase todos os países latino-americanos, firmou acordos com o FMI visando a assegurar um fluxo mínimo de financiamento externo e a restaurar a confiança na sua economia. Esses acordos previam metas fiscais e a prestação de informações, tal como agora ocorre no apoio do Fundo a países europeus. Foi então que se percebeu o atraso institucional das finanças públicas brasileiras, que dificultava a geração de estatísticas e estimativas. O governo nem conhecia a si mesmo nem era controlado pela sociedade.
Entre 1983 e 1984, mais de 100 técnicos da Fazenda, do Planejamento, do Banco Central e do Banco do Brasil realizaram amplo diagnóstico da situação e propuseram medidas modernizadoras. O leitor pode não acreditar, mas quem executava o Orçamento da União era um departamento do BB e quem geria a dívida pública federal era um departamento do BC. O Tesouro não passava de uma entidade virtual. E o BC supria o BB de recursos por meio da famigerada "conta movimento", de forma ilimitada. Nada disso transitava pelo Congresso. O BC atuava como banco de fomento e possuía equipes de análise de investimentos privados.
Todo esse quadro mudou entre 1986 e 1988. Foram extintas a "conta movimento" e as atividades de fomento do BC. Criou-se a Secretaria do Tesouro Nacional, com funções que antes cabiam ao BB e ao BC. A expansão da dívida pública passou a ser autorizada pelo Congresso. Na sequência veio a LRF, cuja qualidade foi reconhecida por organizações internacionais e que teve papel relevante na execução e na credibilidade da gestão macroeconômica.
O PT sempre se insurgiu contra essa evolução institucional. Alguns de seus líderes, hoje preeminentes, fizeram campanha contra as mudanças dos anos 1980.0 partido tentou derrubar no Judiciário a LRF. Talvez por causa disso membros do governo acham hoje natural propor uma injustificável mudança na lei, permitindo, assim, a concessão indiscriminada de desonerações tributárias. Ou, na mesma linha, deduzir certos itens da despesa para fazer de conta que as metas foram cumpridas.
A ideia dessa dedução nasceu no FMI, motivada pelas dificuldades políticas para efetuar a diminuição de gastos em programas apoiados pelo Fundo. Os cortes penalizavam excessivamente os investimentos, menos sujeitos a resistências. Isso reduzia o potencial de crescimento econômico e dificultava adicionalmente os ajustes. O FMI decidiu, então, fazer uma experiência. Certos investimentos seriam escolhidos de comum acordo com o país, os quais eram monitorados pelo Banco Mundial. Se fossem realizados, poderiam ser descontados do cálculo do superávit primário.
Tratava-se, pois, de outro contexto. A escolha dos investimentos era criteriosa. Agora não. Agora, a ideia foi desmoralizada. Em vez de um 44 projeto piloto de investimentos", de caráter experimental, o governo inclui itens a seu talante. Além disso, o PT recorreu a expedientes que na prática restabelecem a "conta movimento", nesse instante com o BNDES. Manobras de setembro de 2010 permitiram contabilizar, como receita instantânea, parte da venda de 5 bilhões de barris de petróleo à Petrobras, no valor de 31,9 bilhões de reais, que não se sabe onde estão nem quando e se serão extraídos.
Salvo no caso dos subsídios concedidos via BNDES a empresas escolhidas, cujo valor permanece oculto, as demais manobras têm cobertura legal, reconheça-se. O Executivo vem conseguindo inscrever, na legislação, as deduções, apoiado por um Congresso que renuncia às suas prerrogativas, tornando-se, lamentavelmente, cúmplice dessa destruição das instituições fiscais. Mais uma vez, fica provado o óbvio: destruir é mais fácil do que construir.

Em campanha - EDITORIAL REVISTA ÉPOCA

REVISTA ÉPOCA

O governo acerta ao baixar as tarifas de energia, mas erra ao fazer uso político do tema

A campanha presidencial de 2014 já começou. Há dez dias, a presidente Dilma Rousseff apareceu com um gibão de couro num palanque no Piauí. Na semana passada, ela ocupou uma cadeia nacional de rádio e TV para anunciar uma redução na tarifa de luz de 18% para os consumidores residenciais e de até 32% para a indústria. O tom propagandístico da fala foi dado pelos ataques aos que duvidaram de sua promessa de reduzir a conta de luz e aos que "são sempre do contra" - uma referência aos especialistas independentes que, na imprensa, alertaram para os riscos de racionamento de energia, além dos opositores do PSDB. Tom um pouco acima do apropriado, pois espera-se de uma presidente que fale a todos os brasileiros, em vez de dividi-los entre "nós" e "eles".

A redução na tarifa de energia, que é uma das mais caras do mundo, pode ajudar a atenuar sérios problemas de competitividade da economia brasileira - e, por isso, ela é muito bem-vinda. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que aplaudiu a medida, estimou uma economia de R$ 31,5 bilhões ao ano com energia elétrica, sendo R$ 9,98 bilhões da indústria.

Há sérios questionamentos, no entanto, ao modo como o governo está implementando a medida. Primeiramente, há dúvidas sobre as conseqüências da redução da tarifa num momento em que o risco de uma crise de abastecimento de energia, segundo a opinião dos especialistas independentes, ainda não está afastado. Uma das lições da crise energética de 2001 é que os incentivos financeiros afetam o consumo de energia. Naquela ocasião, a crise foi contornada com descontos para quem reduzia o consumo e punições para quem consumia além da cota. É provável que a redução na tarifa, implementada na semana passada, leve a um maior consumo. Será que o atual momento, de escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas, é o mais adequado e prudente j para implementá-la?

Há questionamentos ainda mais sérios ao financiamento dos custos da medida. O caminho mais saudável seria a redução pura e simples da carga de impostos. Mas o governo optou por outro caminho, cheio de desvios. Parte do desconto será bancada por gastos a mais do Tesouro Nacional (ou seja, todos os contribuintes) - estimados pelo governo em R$ 8,46 bilhões. Esses gastos cobrirão indenizações às empresas concessionárias geradoras de energia pelo desconto na tarifa.

Por último, revelou-se na quinta-feira que parte dos gastos adicionais do Tesouro será coberta com a antecipação da receita da dívida a receber do Paraguai pela construção da usina de Itai- pu - mais um truque contábil dos alquimistas do Ministério da Fazenda. Tal fato mostra que há certo artificialismo na redução da tarifa de luz, o que faz suspeitar que seus efeitos benéficos poderão ser menores do que se espera.

Rendam-se, terráqueo$ - EUGÊNIO BUCCI


REVISTA ÉPOCA
E se ficar provado que existem aliens? Tudo bem se não passarem de uns micróbios esquisitos ou de besouros gosmentos, mas e se forem inteligentes, telepatas e dotados de poderes sobrenaturais? E se forem numerosos, se existirem aos trilhões, em multidões incontáveis? E se baixarem por aqui? E se for noticiado que já perambulam pelo planeta a que chamamos nosso há milênios? E se os deuses forem mesmo astronautas? O que você vai fazer? O que os governantes poderão fazer?

Indagações assim, que até o ano passado animavam apenas as revistas dedicadas à ufologia e os filmes de ficção científica com plateias lotadas de adolescentes de todas as idades, agora figuram no rol dos assuntos oficiais. Aterrissaram de vez na agenda do pessoal que os milionários, os políticos, os cientistas e os economistas do planeta costumam levar super a sério: os organizadores do Fórum Econômico Mundial.

Não que os diretores do Fórum tenham passado a acreditar em discos voadores, assim sem mais, como outros acreditam em duendes. Não é bem isso. É pior. Eles não profetizam a vinda de discos voadores tripulados por conquistadores indestrutíveis, mas declararam que, mais cedo ou mais tarde, quer dizer, provavelmente mais cedo que mais tarde, confirmaremos cientificamente a existência de organismos extraterrestres - e que isso gerará uma confusão não necessariamente dos diabos, mas no mínimo uma confusão do outro mundo. Ou dos outros mundos. As religiões atuais entrarão em parafuso.

Dias antes da realização de seu 43- encontro do Fórum Econômico Mundial, que aconteceu na semana passada, em Davos, na Suíça, a entidade que anualmente reúne os poderosos da Terra divulgou em seu site oficial um documento sobre o que chama de "Fatores X". A expressão "Fatores X" lembra outra, "Arquivo X". Como você bem sabe,"Arquivo X"era o título de um seriado sobre alienígenas do mal, que há poucos anos fez um sucesso interestelar nos televisores de todos os continentes. Mas, além da letra X e dos ETs, os "Fatores X" não têm quase nada em comum com "Arquivo X". O Fórum não faz ficção científica: está falando de ciência ortodoxa, convencional, careta. Para a elaboração do relatório sobre os "Fatores X", contou com o apoio mais que rigoroso da revista Nature, uma das catedrais do pensamento cético-científico deste mundo. Os "Fatores X" são fatores críticos, desafios globais de grande porte que trazem riscos para a humanidade. Além da provável confirmação da existência de vida em outros planetas, constam da lista outros quatro "Fatores X": a potencialização do cérebro por meio de estimulantes químicos ou eletrônicos (numa revolução que traz o risco da fabricação de super-humanos, capazes de dominar os demais), as mudanças climáticas que ninguém sabe direito aonde vão parar, o emprego desordenado de tecnologias para conter essas mudanças climáticas (com conseqüências ainda mais nocivas) e os custos elevados gerados pelo prolongamento da expectativa de vida dos atuais habitantes do globo terrestre.

Dos cinco, o mais desconfortável, que foge ao controle das instituições terrestres, é mesmo esse que trata dos aliens. Uma inteligência vinda de outra galáxia pode representar a sentença de morte do Homo sapiens - ou a inauguração de uma nova e suprema ordem mística que porá de joelhos toda a espécie, o que dá no mesmo. A razão humana tem notória dificuldade de se medir com ETs. Só o que conseguimos, por enquanto, intuir é que, se representantes de uma civilização extraterrestre avançadíssima ocupassem um pequeno pedaço da Terra, por menor que fosse, podia ser o arquipélago de Fernando de Noronha ou o município de Nuporanga, poriam um fim imediato na ordem mundial. As autoridades sucumbiriam à superioridade dos invasores. Cairiam como caiu Moctezuma sob Cortez, como indígenas amazônicos sob o vírus da gripe, como uma saúva no asfalto sob o pneu de um caminhão.

O cenário é integralmente nonsense, mas, na opinião do Fórum Econômico Mundial, precisamos começar a nos preparar.

No ano longínquo de 1978, alguns muros da cidade de São Paulo amanheciam carimbados por uma curiosa pichação. Ao lado da figura de um homem de perfil, com uma cartola de burguês atravessada de cima a baixo por um raio fulminante, lia-se a inscrição: "Rendam-se, terráqueo$!". Os quatro estudantes de jornalismo que inventaram aquela travessura - Paulo Zocchi, Celso Pucci, Alex Antunes e Renato Cosentino - queriam dar um susto nos capitalistas. Não conseguiram. Agora, em 2013, o Fórum de Davos tentou pregar o mesmo susto. Vamos ver o que acontece.

A nova onda conservadora - WALCYR CARRASCO


REVISTA ÉPOCA
 Muita gente, diante dos discursos e posturas da deputada Myrian Rios (PSD-RJ), acha que ela é simplesmente obtusa. Discordo. A trajetória da deputada prova que burra não é. De atriz sem talento, que posou nua, tornou-se paladina da moral e dos bons costumes. Não é uma trajetória incomum. Mulheres que exibem a sensualidade muitas vezes vivem o que chamo de síndrome de Maria Madalena. Arrependem-se do passado, tornam-se defensoras dos mais rançosos princípios morais e de uma pretensa espiritualidade. É um duplo efeito da lei da gravidade: enquanto o peito cai, o espírito se eleva. Exemplo disso foi Elvira Pagã, vedete do teatro rebolado, primeira a usar biquíni na praia: na maturidade dedicou-se a pintar quadros esotéricos. Já vi acontecer muitas vezes com diabinhas menos famosas. De tão universal, botei a personagem na novela Gabriela, exibida no ano passado pela Globo. "Dorotéia", interpretada pela atriz Laura Cardoso, não existia no romance original de Jorge Amado. Mas tinha a ver com seu universo. Era a vigilante da moral e dos bons costumes na Ilhéus dos anos 1920. Fiscalizava o comportamento das sinhás e suas filhas e denunciava qualquer transgressão. No final, descobriu-se que na juventude fora prostituta e dançava nua nos cabarés. Magnificamente interpretada por Laura, "Dorotéia" tornou-se ícone na internet, com seus comentários moralizantes.

Conheci Myrian Rios rapidamente quando era casada com o cantor Roberto Carlos. Usava uma microssaia espantosamente curta. Mais tarde se tornou missionária e elegeu-se deputada com o apoio evangélico. Faz pouco, teve sancionada pelo governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, a lei que estabelece o "programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais". Ninguém sabe exatamente do que se trata esse programa. Mesmo porque a espiritualidade não é regida pelo Estado. Como Sérgio Cabral não se elegeu papa, nem é bispo evangélico ou babalorixá, nem sequer imagino o que pretenda fazer quanto à lei que sancionou. Myrian Rios foi criticada nas redes sociais. Nem é a primeira vez: no passado, insinuou que os homossexuais seriam pedófilos, provocando revolta generalizada. Mas sinto que não está sozinha nessa cruzada moralista. Uma onda conservadora assola o país. Com freqüência, o discurso moral ocupa o lugar do político. Na eleição para a prefeitura em São Paulo, o então candidato e atual prefeito, Fernando Haddad (PT), foi acusado pelo candidato José Serra (PSDB) de tentar distribuir um "kit gay" quando Ministro da Educação. Aliás, em 2010, o "kit gay"deixou de ser distribuído após pressão da bancada evangélica.

O que leva uma pessoa a achar que tem o direito de dizer como outra deve pensar e viver?

Há outras evidências: agressões e assassinatos de homossexuais são freqüentes; surgiu um movimento contra a legalização da prostituição, proposta pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). Como se estar a favor da legalização equivalesse a defender a prostituição em si. E não somente desejar que as prostitutas tenham direitos como outros trabalhadores.

Pessoalmente, sempre fui muito próximo dos evangélicos. Meu falecido tio Domingos, irmão de minha mãe, foi pastor presbiteriano. Tive um primo missionário na África. Como cristão, aprendi a conviver com quem tem idéias diferentes das minhas. Só não acredito em impor o que a gente pensa ou agredir quem vive de forma diversa. Ultimamente surgiu o evangélico radical. Fundamentalista, que branda princípios supostamente retirados da Bíblia. Embora a doutrina cristã possa ser resumida em "Amai ao próximo como a ti mesmo". Historicamente, o cristianismo implica abandono do "olho por olho, dente por dente" do Antigo Testamento e propõe uma sociedade mais tolerante. Mas os novos fundamentalistas querem punir, proibir. Políticos não evangélicos - incluindo os que estão em cargos de poder - obedecem, para manter coalizões. O filme Os deuses malditos, de Luchino Visconti (1969), mostra a ascensão do nazismo por meio da manipulação de uma família. Mostra os pequenos e grandes fatos que conduziram a Alemanha naquela direção. Agora, sinto um cheiro ruim de autoritarismo no ar. Há um recuo com relação a conquistas que implicavam na convivência entre os diferentes - a base da democracia, afinal. Quando uma lei pela moral e pelos bons costumes é sancionada, a agressão foi à sociedade. A deputada Myrian Rios é a ponta de um iceberg. Eu me pergunto: o que leva uma pessoa a achar que tem o direito de dizer como outra deve pensar e viver?

O que Obama deve fazer - FERNANDO ABRUCIO


REVISTA ÉPOCA
A história geralmente não é escrita por linhas retas. Por isso, sempre é muito difícil prever com exatidão o futuro, além de nos surpreendermos com a análise que se fez no passado recente dos rumos da política ou da economia. Seguindo esse raciocínio, pode-se dizer que o discurso que inaugurou o novo mandato do presidente Barack Obama não garante que ele cumprirá integralmente as promessas tão ousadas que propôs. Mas se aquelas idéias tão firmemente defendidas diante do Capitólio tornarem-se efetivamente bandeiras do governo e dos Democratas, e se ainda elas conquistarem cada vez mais apoio - o que parece hoje factível -, a agenda política dos Estados Unidos terá se modificado profundamente. E fazer uma mudança como essa, mesmo que não se consiga implementar todas as medidas, é o que faz uma Presidência entrar para a história.

É um grande paradoxo o fato de que o segundo mandato tenha a chance de levar a um período de mudança de agenda, uma vez que foi a primeira vitória eleitoral que trouxe mais esperanças transformadoras, sintetizadas pela frase "Yes, we can", ao passo que a vitória de 2012 esteve mais relacionada, pelo menos no plano do discurso, a uma estratégia mais realista.

Três fatores, a meu ver, explicam esse paradoxo. O primeiro relaciona-se ao peso do legado deixado por George W. Bush. A enorme crise financeira e a situação nas frentes de guerra absorveram muito tempo e energia do primeiro mandato de Obama. Ademais, os efeitos desses dois fardos foram maiores do que calculava o presidente: o crescimento econômico não voltava na medida necessária para reduzir o desemprego, e as batalhas do Iraque e do Afeganistão sorviam recursos sem que trouxessem ganhos importantes para a política externa americana.

As dificuldades do primeiro mandato também podem ser explicadas pela estratégia de curto prazo adotada pelo presidente Obama. Ele preferiu negociar exaustivamente com seus oponentes e com o mercado, buscando construir o maior consenso possível e evitando um confronto mais aberto. Essa estratégia foi mais bem-sucedida no caso da Reforma da Saúde, pois embora esta tenha tido menor

abrangência do que o proposto, ela ainda sim permitirá o acesso a serviços médicos para milhões de pessoas que não tinham esse direito. No restante da agenda, pouco foi obtido, pelo menos se compararmos com o discurso eleitoral.

Mas é interessante notar que a estratégia mais incrementalista começou a dar resultados no final do primeiro mandato, quase ao apagar das luzes. Agora, há uma perspectiva maior de crescimento da economia americana e, certamente, do término das guerras iniciadas por Bush, com o provável desembarque da luta no Afeganistão. Daí se pode concluir que a estratégia moderada do primeiro mandato foi muito perigosa, dado que colocou a reeleição em risco e levou muitos analistas a dizer, entre 2011 e 2012, que o projeto de mudança de Obama era um fracasso. Seus resultados no médio prazo permitiram, no entanto, um novo fôlego para uma proposta reformadora.

A possibilidade de um segundo mandato mais mudancista, por fim, vem de fatores, em princípio, externos à ação do presidente Obama. Penso aqui na junção de mudanças demográficas e de valores da sociedade americana, de um lado, com a forma como os republicanos construíram seu discurso nos últimos anos, de outro. No primeiro caso, cabe destacar os seguintes elementos que podem levar a um novo perfil eleitoral: o aumento da importância eleitoral dos imigrantes; a adoção de uma visão mais liberal - no sentido americano do termo, mais associado a costumes do que ao modelo de intervenção do Estado - por um contingente um pouco maior do que a maioria da sociedade, principalmente por parte das mulheres, mas não só; e o crescimento da consciência ambiental, fruto tanto do impacto das tragédias naturais recentes como da possibilidade de casar a busca por sustentabilidade com inovações tecnológicas, como ilustram bem as chamadas energias limpas.

Os republicanos não perceberam essas mudanças no perfil social americano. Pior: nos últimos anos, radicalizaram o discurso, na linha do Tea Party, e isolaram os moderados do partido, que sempre foram importantes para conquistar os eleitores de centro. O maior exemplo disso foi a campanha de Mitt Romney, que foi muito mais à direita do que deveria. A disjunção entre as mudanças sociais que estão acontecendo nos EUA e o discurso anacrônico dos republicanos foi muito bem percebida por Obama na campanha eleitoral.

A agenda proposta pelo presidente reeleito é bastante progressista perante o ideário predominante nos últimos 30 anos. Ela abre portas para uma visão mais multilateralista e menos intervencionista no plano internacional, incorpora temas novos e uma visão mais compatível com o cenário do século XXI e, sobretudo, tem como principal lema a idéia de uma sociedade mais igualitária, numa versão ainda mais ousada do que a construída pelo modelo de Roosevelt.

A questão principal não é esperar o cumprimento integral de seu discurso de posse, mas quanto Obama conseguirá mudar a agenda para a próxima eleição, tornando sua visão mais liberal no plano dos costumes e mais igualitarista no plano das políticas públicas os dois marcos para a política americana nos próximos anos. Se conseguir isso, ficará para a história como o criador de uma nova hegemonia.

Fofo, querido, um amor - IVAN MARTINS

REVISTA ÉPOCA

O que as mulheres pretendem com essas palavras?


Palavras são cruciais nas relações amorosas, assim como em tudo na vida. O que seria dos homens inteligentes se bastasse erguer as sobrancelhas e retesar os músculos do peito para seduzir as mulheres? Ainda bem que não funciona assim. Para atrair parceiras os homens ainda são obrigados a falar, escrever e mandar mensagens, até mesmo dançar - uma forma poderosa e afrodisíaca de linguagem corporal, me dizem. Como se empenham de todo coração, esperam alguma forma de recompensa, mas ela nem sempre vem.

Dias atrás, um amigo mandou um torpedo cheio de suingue para uma moça que conhecera numa festa. Em pouco mais de 120 toques ele conseguiu transmitir humor, elogios e interesse carnal pela moça. A resposta, porém, foi devastadora. “Você é um fofo...”, ela escreveu. Poderia ter dito “engraçado”, poderia ter dito “cara de pau”, poderia ter dito “safado”, mas escolheu dizer “fofo”. Perceberam o tamanho do desastre? Foi o mesmo que chamá-lo de “bonitinho”, ou, ainda pior, “um querido”. Meu amigo percebeu que não vai sair com a moça.

Fofo é o adjetivo que as garotas usam para o sobrinho delas de dois anos. Fofo elas dizem do gatinho da vizinha que mia para elas no corredor do prédio. Fofo é o amigo gay, aquele que liga à meia-noite e um minuto no dia do aniversário delas. Fofo é o cara gentil que a levou para jantar na semana em que ela havia brigado com o namorado. Ela nem lembra direito o nome daquele superfofo. Era Pablo, Diego ou Ramiro? Um nome espanhol, com certeza.

Para resumir, fofo é uma palavra que parece não ter relação no cérebro feminino com sexo e paixão, e nenhuma proximidade com aventura. É um termo assexuado. Se ela acha você fofo, é certo que vai aceitá-lo como amigo no Facebook, mas tirar por cima aquele vestidinho de verão, desmanchando os cabelos dela no processo, isso você não vai conseguir. Muito menos um romance trepidante.

Estou exagerando? Claro, mas apenas me esforço para deixar claro o meu ponto: fofo não é uma palavra que as mulheres usam para os homens que elas desejam.

Ao chamar o sujeito de fofo, você não está apenas sugerindo que ele não faz amolecer os seus joelhos e nem acelera os seus batimentos cardíacos. Você está informando que o vê no diminutivo, café com leite, mirim. Para você ele é um gatinho, não um tigre. Do ponto de vista masculino é uma informação das mais broxantes. Como as relações humanas não são uma ciência exata, há notáveis exceções a essa regra. Uma moça que eu conheço vive reclamando que o namorado dela demorou a se aproximar, embora ela tivesse emitido vários sinais de interesse. A explicação dele é muito simples. “Ela me chamava de fofo e de querido. Entendi que não queria nada comigo”, diz ele. Mulher que tenha urgência em levar um sujeito para o quarto talvez devesse usar com ele outro tipo de linguagem. Deixe fofo para o irmão adolescente da sua amiga, aquele que cora quando fala com você.

Não se trata, entendam bem, de um mero problema de comunicação, aquele clássico em que a mulher diz uma coisa e o homem entende outra. Fofo é fofo para todo mundo: meigo, atencioso, delicado, um amor. A questão essencial é o efeito da palavra na autoestima masculina. Fofo tem uma conotação doce demais, inofensiva. Os homens não gostam de ser vistos assim. Mesmo os mais dóceis gostam de pensar em si mesmos como predadores perigosos e pegadores implacáveis, capazes de aturdir e dominar as mulheres - ainda que frequentemente aconteça o contrário.

Quem quiser ter uma ideia cinematográfica do que eu estou dizendo, veja - ou reveja - aquele trecho do filme Quase famosos em que a linda Penny Lane diz ao apaixonado William que ele é “doce demais” para o mundo dela. A resposta dele vale um curso intensivo sobre orgulho ferido masculino. “Doce, de onde você tirou isso?”, ele pergunta, aos gritos. “Eu sou sombrio e misterioso. Eu posso ser muito perigoso. Você deveria ter percebido isso a meu respeito: eu sou o inimigo!” É claro que o William do filme tem apenas 15 anos, mas emocionalmente representa os homens de todas as idades. Nenhum deles gosta de ser o bonzinho que não come ninguém.

Isso não quer dizer, evidentemente, que não haja espaço para a doçura masculina nas relações entre homens e mulheres. Ela é absolutamente essencial, na verdade. As mulheres precisam recebê-la e os homens necessitam expressá-la, e vice-versa. Carinho físico e verbal são ingredientes essenciais do nosso metabolismo afetivo. Sem eles definharíamos emocionalmente, como macaquinhos tristes.

A parte difícil está em fazer com que essa óbvia necessidade de afeto conviva com as nossas fantasias sexuais, nas quais o carinho parece não deter a primazia.

Os homens têm prazer em sentirem-se másculos e dominantes na hora da sedução. E boa parte das mulheres parece encontrar satisfação em ser conduzida por um parceiro seguro. Esse teatro, por velho que seja, ainda é muito apreciado. O homem mais suave do mundo vestirá uma alma de Lobo para devorar a mulher que deseja. Ela, por mais altiva que seja, envergará o manto vermelho de Chapeuzinho para deixar-se levar, ansiosa e trêmula, para o abatedouro. Isso faz parte de um roteiro tão velho quanto os contos de fada, e funciona.

Fazer diferente exige personalidade.

A moça teria que abrir mão das fantasias de princesa e anunciar, com toda clareza, que o sujeito é um fofo, e POR ISSO, ela é louca por ele. Sexualmente louca por ele, capiche? O rapaz agraciado com essa deferência poderia abrir mão das veleidades de príncipe e aceitar, sem complexos, o papel de macho doce que lhe cabe nesse arranjo. Ser chamado de fofo não é o sonho erótico dos homens, mas talvez a palavra possa ser subvertida. Quem diz que não pode haver fofo cafajeste, fofo descarado, fofo safado e feliz? Aliás, parece uma ideia fofa...


Pra lá de Marrakech - RUTH DE AQUINO


REVISTA ÉPOCA



Não tenho a menor noção do que aconteceu no Brasil na semana passada. Nem em qualquer outro país. Não sei quantos morreram na Argélia. Estou sem conexão de internet numa casa no campo, a 30 quilômetros de Marrakech. Um paraíso com pomar, horta, galinhas, coelhos, patos e alta gastronomia que pertence a uma amiga francesa.

Ouvi dizer que nevou muito na Europa. Um amigo diplomata em Rabat me disse no celular que o Instituto Lula em São Paulo tinha sido invadido por famílias sem terra. E que a Ivete Sangalo ganharia um cachê de R$ 650 mil para inaugurar um hospital no Ceará...! Mas a ligação caiu e meu aparelho marroquino pré-pago estava quase sem crédito. Pensei: quero ou não saber mais?

Eu não queria saber mais.

Isso já deve ter acontecido com você.

Para os viciados em interconexão – e o Brasil é o segundo do mundo no Facebook –, esse isolamento pode parecer uma tortura. O plano original não era retiro cibernético, espiritual ou mental. A semana em Marrakech, “La ville rouge”, ou a cidade vermelha – referência às cores de terra batida das construções –, seria uma fuga temporária do frio e da escuridão de Paris. Uma volta rápida a essa monarquia que cruzei de carro por um mês em 1980, de Tanger a Agadir. Uma monarquia constitucional com 98% de islâmicos.

Eu saíra da França em busca de um intervalo de luz, chá de menta e temperos exóticos. E de tempo para ler romances. Mantendo os sentidos aguçados, sempre encontraremos mais do que buscamos.

Uma doença colateral do mundo digital é a dispersão. A ansiedade de se informar e se comunicar toma o lugar de prazeres arquivados. Tenho a sensação de que nos colocamos na quarentena e nos esquecemos ali, no porão de nossos computadores. Até o hábito de conversar olhando no olho tornou-se secundário. Com o olho viciado na tela, tudo passa rápido demais e é esquecido no minuto seguinte.

Antes de partir, comprei num sebo inglês na Rive Gauche dois livros de Paul Bowles, The sheltering sky (O céu que nos protege, adaptado para o cinema sob a direção de Bertolucci e filmado no deserto) e The spider’s house (A casa da aranha), ambientado na cidade imperial de Fez. Não conheço melhor companhia de viagem do que livros escritos por quem viveu ali. É a imersão dentro da imersão. Bowles nasceu em Nova York, mas viveu 50 anos em Tanger, esse porto marroquino que olha para a Espanha. Ele descreve o deserto como um lugar em que somos obrigados a olhar para cima, na ausência de uma vegetação generosa.

“Este é o lugar que queria te mostrar!

Aqui o céu é tão estranho, é quase sólido, como se nos protegesse do que há lá em cima.

E o que há lá em cima?

Nada, não há nada, somente a noite…”

As temperaturas de janeiro no Marrocos confundem nosso corpo: no mesmo dia, de 4 graus a 22 graus. Eu dirigia um carro alugado e infelizmente sem buzina. Tinha driblado na estrada os pastores de ovelhas, as mulheres com roupas brilhantes bérberes – os povos das montanhas do Norte da África – e o enxame de motos, bicicletas e carroças dirigidas por homens com capuzes e túnicas até os pés, as djellabas.

Cheguei a um riad no campo alaranjado pelo pôr do sol. Riad é o nome das casas tradicionais marroquinas dotadas de jardins e pátios interiores com fontes, plantas, mesas e cerâmicas decorativas. Ao longe, as montanhas nevadas do Alto Atlas. Um empregado da casa cantava sua prece, agachado junto à entrada.

Na noite fria e estrelada, tomei na sala, em sofá rente ao chão, um chá de menta temperado com absinto e sálvia. O melhor da minha vida. Como o álcool é interditado aos muçulmanos, o chá de menta é apelidado no país de “uísque marroquino”.

Descobri que não havia internet. Meu iPhone não tinha sinal. Não senti pânico. Ao contrário. Preferi nem ver televisão. Não entrei em cibercafé na cidade.

Marrakech foi fundada em 1070. É loucamente colorida e borbulhante. Continuamos a nos perder nas medinas muradas e nos souks, os mercados. A praça mais central é a Djemaa el Fna, com os encantadores de serpentes cansadas e as insistentes tatuadoras de hena. Prefiro a pequena Place des Épices (Praça das Especiarias), mais autêntica e acolhedora. Um banho árabe de vapor num hamman com massagem de argila, sabão mineral e óleo de argan nos impregna com aromas de outra civilização.

Mas há coisas irritantes. O assédio exagerado de vendedores e guias. A mania de pedir duas ou três vezes o preço de tudo – seja um tomate ou um tapete. Cansa negociar. Turistas se sentem traídos pela gentileza aparente de marroquinos que cobram dirhams por simples informações. O absurdo atual em Marrakech é a profusão de motos nas ruelas, quase atropelando todo mundo e deixando um rastro de poluição irrespirável. Tinha de ser proibido.

Hora de voltar para o riad no campo e não saber de nada
.

Decifra-me ou te devoro - ALDO CORDEIRO SAUDA E MARCIA CAMARGOS

O ESTADÃO - 27/01

Dois anos após as celebrações na Praça Tahrir pela queda de Mubarak, a revolução egípcia permanece um enigma



Assim como Saturno, elas devoram os próprios filhos." A frase cunhada por Pierre Verginaud, (1753-1793), célebre orador girondino, às vésperas de seu encontro com a guilhotina, se tornaria um dos motes mais repetidos para sinalizar o trágico desfecho de boa parte das revoluções.

O sentimento de decepção ante as descontroladas explosões políticas das massas parece não se restringir à França do século 18. Dois anos após a euforia inicial do Egito pós-Mubarak, uma depressão generalizada paira sobre os narradores da revolução árabe.

Foram-se embora os charmosos ativistas digitais do Twitter e do Facebook, tão fluentes no inglês, para ceder lugar a camponeses semianalfabetos da Irmandade Muçulmana. A dita primavera, se é que algum dia existiu, transformou-se em tenebroso inverno digno de um drama shakespeariano. No rastro da atmosfera de descontentamento, a revista New York Review of Books, capturando o espírito do momento, estampou uma manchete afirmando taxativamente: "Isso não é uma revolução".

Mas se é verdade que a situação no Egito tem evoluído ao avesso de um jantar à luz de velas, a perplexidade de proporções faraônicas da intelectualidade ocidental talvez fale mais sobre nós mesmos do que dos levantes populares em curso no Oriente Médio e Norte da África.

Não teria sido, por exemplo, nosso fascínio com o papel das redes sociais na revolução, tão celebrado pela imprensa mundo afora, apenas uma expressão da insaciável paixão por bugigangas digitais da era virtual? Ao mesmo tempo, a antipatia gratuita à Irmandade Muçulmana e as constantes referências a um suposto "islamo-facismo" não teriam mais a ver com preconceitos arraigados do que com uma leitura objetiva da realidade?

É descabido comparar os islamistas aos fascistas, mas tampouco é possível negar que parte relativamente importante do projeto político dos radicais islâmicos chega a dar calafrios. Obcecados com o policiamento para manter a moral e os bons costumes, o setor ultrarreligioso composto pelos salafistas dá a ideia de que a revolução entrou em um beco sem saída.

Desde os menores gestos, incluindo a recusa em cumprimentar as mulheres dando a mão, passando pelas tentativas de proibir o consumo de álcool, pela censura a qualquer música não religiosa, até o uso compulsório do véu e a defesa da violência doméstica como um hábito saudável e profilático, os salafistas conseguem, não raro, tornar um pesadelo o cotidiano de quem mora no Egito. Contudo, caracterizar os que hoje dirigem o país como uma espécie de liderança termidoriana, nome dado aos golpistas associados à alta burguesia financeira que selaram o fim da participação popular na Revolução Francesa de 1789, é uma analogia equivocada.

Pois, ao contrário do partido de Mubarak, formado por empresários influentes e poderosos, a Irmandade tem em sua linha de frente figuras típicas da classe média, como professores, médicos e engenheiros de carreira pouco exitosa. Seu discurso é quase sempre voltado para um público empobrecido de origem camponesa, desiludido ante a incapacidade dos governos seculares de promover melhorias em sua qualidade de vida. E também para setores da sociedade incomodados com as constantes intervenções dos Estados ocidentais na política árabe.

Ou seja, nem só no âmbito das restrições e das medidas moralizantes transita a retórica islamista. Nela sobra ainda espaço para criticar as imensas desigualdades sociais, propor a superação da miséria milenar e investir na solidariedade regional contra as aventuras militares norte-americanas e israelenses. Portanto, ao inverso dos partidários do antigo regime, os "irmãos" professam algum senso de justiça social.

O rápido andar da carruagem e a conturbada dinâmica dos eventos no Cairo têm levado muitos a se esquecerem das condições que alçaram os islamistas ao poder. Situados em um bloco de oposição "light" ao antigo regime, os islamistas fizeram de tudo para suavizar a transição política até a eleição do presidente Mursi. A todo custo evitaram choques com os sucessores de Mubarak logo após sua derrubada.

Durante um longo período antes das primeiras eleições presidenciais tidas como livres na história do país, a Irmandade repetidamente saiu em público afirmando que defendia uma candidatura de "unidade nacional", em conjunto com a junta militar então dirigindo o Egito.

Após a insistência dos generais em lançar candidatura própria, que acabou derrotada, Mursi manteve o general Mohamad Tantawi, ex-ministro da Defesa de Mubarak e chefe da transição, no ministério dado a ele pelo ditador deposto. Ou seja, em lugar de uma movimentação autônoma da Irmandade, foram antes a sede de poder dos militares e sua resistência em compor politicamente com os irmãos que os empurraram para fora do palco. O temor dos dirigentes islâmicos em assumir um Egito descontrolado e falido, o mesmo que eles hoje governam, nunca foi novidade. Na fase em que tentavam acertar o passo com os militares, a ausência de organizações políticas que expressassem as aspirações dos ativistas laicos talvez tenha sido a principal razão por trás da fácil e rápida escalada da Irmandade ao comando da nação. Além disso, ao contrário de seus jovens rivais, os irmãos estão há 80 anos no jogo político, detendo um projeto estruturado e uma base social organizada - algo inexistente entre as lideranças revolucionárias seculares. Como se não bastasse, a Irmandade também conta com um capital financeiro respeitável. Seus apoiadores nacionais e, sobretudo os internacionais, dão a ela um ponto de apoio em forma de verbas e bens materiais que nenhuma outra força política da região possui.

Em parte devido à bancarrota do Estado egípcio, o governo da Irmandade está longe de representar um exercício vitorioso de poder. A queda livre dos recursos provenientes da indústria do turismo, a crise de divisas externas e o cenário pouco entusiástico da economia mundial somam-se ao caos político e à instabilidade crônica do país. Não por acaso, gigantescas manifestações de oposição e desafio ao governo, expressos nas constantes passeatas e ações de rua organizadas pela juventude, têm azedado o dia a dia de Mursi.

Paralelamente à estagnação econômica interna, o desejo de se adaptar ao luxuoso estilo de vida intrínseco ao status dos governantes parece ter minguado o modesto programa social historicamente defendido pela Irmandade. O único ponto no qual talvez tenha avançado se encontra na decisão de enfrentar o problema quase insolúvel da imundície do Cairo. Diante da cidade coberta por montanhas de dejetos que fazem dela um imenso lixão a céu aberto, Mursi pôs no topo de suas prioridades limpar as ruas da capital. Porém, o caráter quase anedótico do foco na higiene urbana mostra quão distante a Irmandade está das necessidades elementares de seus apoiadores e do povo em geral.

Não é de se estranhar que, logo ao assumirem, os irmãos tenham se esforçado para deixar clara sua decisão de manter as diretrizes econômicas do ancient régime. Segundo Khairat al-Shatar, empresário em franco ascenso na organização, a única diferença entre a política econômica de Mubarak e a da Irmandade é que a última seria livre de qualquer tipo de corrupção mundana.

Igualmente relegadas ao esquecimento ficaram as denúncias aos acordos de paz entre Israel e Egito. A solidariedade à causa palestina, uma das supostas marcas da Irmandade, não resistiu ao teste do pragmatismo político. Sempre que possível, Mursi afirma aos observadores internacionais que pretende manter todos os tratados firmados com o Estado sionista. De resto, apenas seu conhecido antissemitismo se mantém intacto. Quando necessário, os irmãos responsabilizam ora os judeus, ora a maçonaria por complôs imaginários que impedem o pleno funcionamento do governo.

Enquanto os irmãos têm visto sua popularidade minguar nas praças e nas urnas, a imaturidade política da oposição secular pró-revolução tem impedido outros atores políticos de capitalizar a crise da Irmandade. A organização de Hamdeen Sabahy, o carismático dirigente nasserista de esquerda que mesmo com pouquíssimos recursos terminou em terceiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, atolou em uma zona de sombra. Ele não conseguiu aproveitar a brecha de vulnerabilidade e aparente fraqueza do concorrente para deitar raízes e consolidar-se entre os insatisfeitos.

Somando as dificuldades materiais à falta de uma militância calejada como a dos islamistas, Hamdeen tem feito movimentações um tanto confusas. Sua tentativa de alargar a base o tem levado a alianças com setores ligados ao regime deposto que, pelo seu perfil secular, vêm se aproximando dele. Com algum fundo de verdade, os irmãos muçulmanos acusam a oposição laica de ligações indigestas com remanescentes da cúpula de Mubarak.

Já o governo da Irmandade e a política por ela defendida continuam patinando nas próprias contradições. A busca dos islamistas por inverter o sentido da roda da história, defendendo um suposto retorno aos tempos utópicos do califado, é reacionária por natureza. Não obstante, a chegada ao poder desses setores apenas revela a fraqueza organizacional dos que na primeira hora assumiram a linha de frente da Praça Tahrir. Não aponta, necessariamente, no sentido de uma derrota final e definitiva da revolução.

Passados dois anos das vibrantes celebrações na Tahrir após a queda do ditador, a realidade se provou muito mais complexa do que imaginávamos. Porém, ainda que as poderosas palavras de Vergniaud e seus intérpretes produzam eco, o mito de Saturno é essencialmente um mito. Serão os desdobramentos da história moderna, e não as lendas romanas ou a glória dos califas, que determinarão os verdadeiros vitoriosos desse processo.


Belo é o Recife - CAETANO VELOSO

O GLOBO - 27/01

‘O som ao redor’, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, “é um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo”


Nesta Bahia maltratada, vi, sozinho, o filme de Kleber Mendonça Filho e fiquei estarrecido. Raramente um diretor encontra com tanta precisão o tom do filme que deve e quer fazer. “O som ao redor” é um desses raros momentos em que tudo acontece de modo adequado sem que a obra seja apenas suficiente: o filme transcende, inspira, ensina e exalta. Ensina aprendendo. Esperando o jeito de dizer surgir dos atores e dos não atores como confirmação da sabedoria na construção dos diálogos. Não há pontes nem Marco Zero, não há sobrados nem maracatu. Mas os prédios feios, as decorações tolas, a fantasmagórica percepção do dia a dia dos recifenses de agora deixa entrever todas as nuances da sociedade pernambucana, de toda a sociedade brasileira mirada daquele ângulo. Todo o horror mas também toda a beleza se revela a cada lance de montagem, a cada som de máquina ou de voz, a cada escolha de ponto de vista.

A“Festa” de Gonzaguinha — imperdoavelmente ausente do bom “Gonzaga de pai para filho” — está presente aqui, mesmo sem ser ouvida. A começar pela própria existência do filme. Que um filme assim tenha sido feito em Pernambuco, com gente de lá e por gente de lá, é prova da beleza intrínseca que se possibilita nessa quina nordestina do Brasil.

Ouvir a canção (ou paródia de canção) carnavalesca baiana irritando alguns moradores e trabalhadores desses prédios das redondezas da Boa Viagem (“Perigo de tubarões”, diz uma placa), isso dentro do cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves, é experimentar uma espécie peculiar de iluminação. A mãe de família interpretada pela extraordinariamente sexy Maeve Jinkings é de tirar o fôlego e de apertar o coração. A sobriedade e a profunda verdade de cada milimétrico gesto de Irandhir Santos preparam a cabeça do espectador para estudar tudo o que o filme tem a dizer. E o sotaque pernambucano!... As nuances das diferenças da língua entre gerações e extrações sociais. Os mais jovens e mais urbanos palatalizam mais os tês e os dês. O nome do primo encrenqueiro de João é tudo entre Dinho e Dginho na escala que vai do avô coronel ao primo cosmopolita.

Em “Gonzaga de pai para filho” há pernambuco e há cinema. Ainda não vi “A febre do rato”. “Gonzaga” não é um filme pernambucano. Em “Gonzaga” falta Ivan Lins e o MAU, falta Som Livre Exportação, sobretudo falta “Festa”, o elo perdido entre o filho e o pai. Canção que é também uma obra-prima. Em “O som ao redor” ela ecoa forte, à roda dos sons divinamente editados, dos pátios dos edifícios, da trilha magnífica de DJ Dolores, do mar barrento. Um tal filme ter sido feito no Recife diz da beleza que ele é. Não senti falta, em “Gonzaga”, da menção ao papel secundário e pequeno que o movimento tropicalista desempenhou na redescoberta de Gonzagão pelo público jovem da época. Eu teria posto algo a respeito apenas do “Luiz Gonzaga volta pra curtir”, show que, acho, Waly Salomão dirigiu no Terezão (por que, aliás, mudar o nome do Tereza Rachel para Net Rio? A Net poderia manter o nome consagrado — ou assumir logo Terezão — e colocar-se como patrocinadora: um dia essas empresas vão ver que não é gostoso ter teatros e casas de espetáculos com nomes tipo Credicard Hall, ATL Hall, American Airlines Arena…), mas a ausência de “Festa” é sintoma de falha do roteiro. Ouço-a ao ver “O som ao redor”. Onde, aliás, o tropicalismo recebe uma homenagem que só não considero imerecida porque, sendo a escolha tão profundamente pensada e a inserção do trecho da gravação tão incrivelmente bem feita, minha reação é de gratidão infinita por ter minha voz, minha pobre voz, fazendo parte desse filme. Mais do que a minha, a voz transcendental de Jorge Ben. Mais do que ela, seu violão. Mais do que o violão, a canção e o que ela sugere.

Não posso deixar de pensar em Eduardo Campos e na seriedade da política em Pernambuco. Eu aqui nessa Bahia maltratada. Sou o cara que canta a peça de axé hilária que soa no filme. Sou o cara que a compõe. Fico, do meu canto, esperando qual será a consequência dos planos de Carlinhos Brown de abrir espaço especial para os blocos afro no carnaval de Salvador. Ele sempre enriquece a cultura popular da cidade. Não vai ser para este ano, como eu esperava. Clarindo não será, como imaginávamos e queríamos seus admiradores, o subprefeito do Pelourinho. Mas Neto deve saber o que está fazendo. E Clarindo há de ver dias (e noites) melhores na Cantina da Lua.

“O som ao redor” é um dos melhores filmes brasileiros de sempre. É um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo. Gonzaga, Brown, Clarindo, axé, Glauber, Ivan Lins, todos se engrandecem com isso. Deve-se isso ao tom encontrado por Kleber.

Matéria-prima de biografias - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 27/01


Uma amiga possui um casamento duradouro, filhos ótimos, uma penca de parentes ao redor, um trabalho satisfatório, o melhor dos mundos. Reconhece que tem uma vida bacana, mas volta e meia diz, brincando: Se eu escrevesse minha biografia, não daria mais do que três páginas. Ela sente falta de imprevistos, novidades, abalos. Se duvidar, sente falta até de sofrimentos.

Analisando sob esse prisma, a recém lançada biografia de Diane Keaton não deverá se tornar um best seller, já que não há fartura de romances clandestinos, envolvimento com drogas, traumas e psicopatias. Ao contrário: o que prevalece é sua declaração de amor à família. É isso que torna o livro tão especial, humano e diferente de outras histórias de celebridades.

Diane Keaton certamente não é uma mulher como as outras. Namorou Woody Allen, Warren Beatty e Al Pacino e ganhou um Oscar por sua atuação em Annie Hall. Essas experiências seriam suficientes para deixar qualquer leitor salivando diante da oportunidade de ouvir os detalhes a respeito. Ela até comenta sobre isso tudo, e sobre o início da carreira, seus ídolos, seu jeito peculiar de se vestir, mas são pinceladas sem profundidade, que ficam em terceiro plano diante do que realmente importa e comove no livro: sua relação com a mãe.

Diane transforma a desconhecida Dorothy Keaton Hall em coautora de sua biografia. Publica trechos dos seus diários, narra os anos em que esta enfrentou o mal de Alzheimer, as particularidades do casamento dela com seu pai e como foi a criação dos quatro filhos do casal – Diane e seus três irmãos. Talvez o leitor se pergunte: mas o que me interessa essa tal de Dorothy?

Sem Dorothy, não haveria o que veio depois.

Claro que é um privilégio ter acesso aos bilhetes escritos por Woody Allen e aos bastidores da filmagem de O Poderoso Chefão, pra citar outro filme da extensa carreira da atriz, mas não é um livro de fofocas, e sim o retrato de uma vida que, apesar do entorno glamouroso, nunca deixou de ser prosaica. Não exalta os tapetes vermelhos, os namorados famosos ou ter o nome piscando na fachada de um cinema, e sim os laços afetivos. É de uma singeleza inesperada.

Diane Keaton, apostando no que lhe é íntimo, inverteu o que se espera de uma biografia. Através de um relato nada modorrento, e sim ágil, divertido e tocante, colocou sob os holofotes aquilo que passou de comum a incomum: a valorização da nossa formação dentro de casa, a influência do afeto na construção de um futuro, a beleza dos pequenos episódios que acontecem diante dos olhos da família, nossa primeira plateia.

Numa época em que todos andam viciados em existir publicamente, transformando suas vidinhas triviais num reality show, uma estrela de Hollywood vem recolocar as coisas em seus devidos lugares: o superficial pra lá, o essencial pra cá.

Claro que uma hipotética biografia daquela minha amiga do início do texto nunca atrairia a atenção de ninguém, ao contrário da de Diane Keaton, mas o que ela teria para contar – e o que todos teriam para contar, se o mundo estivesse a fim de ouvir - é que ter uma vida interessante depende apenas do olhar amoroso que lançamos sobre nossa própria história.

Hora de mudar - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 27/01


Começo a pensar que a viagem certa é ficar numa cidade pequena, passear a pé e observar as pessoas


Eu amo Paris, mas adoro Lisboa; é a cidade mais amável e gentil de toda a Europa.

Nos poucos dias que passei lá, vindo de Paris, num primeiro momento houve uma inevitável comparação com a cidade que havia deixado -com vantagem para Paris. Já no segundo dia tudo estava diferente. Era como se tivesse chegado a um Rio de 1800, pois algumas coisas em Lisboa não mudam, e é delas que mais gosto: um comércio antigo, chapelarias, pequenas lojas que apregoam "cintas e soutiens", e os alfacinhas, como são chamados os lisboetas, encostados nos prédios, conversando e fumando. Fuma-se muito em Lisboa, e um dia, num restaurante, o garçom perguntou se eu preferia ficar na sala dos fumadores ou na outra, onde não se fuma. Acho que é o único restaurante que conheço em que existe uma sala onde se pode fumar durante a refeição.

Os cinco dias que passei em Lisboa viraram minha cabeça; começo a pensar que a viagem certa seria escolher uma cidade -pequena - e lá ficar por 10, 15 dias, prestando atenção às pessoas, aos costumes, vivendo uma vida normal, passeando a pé, sem obrigação de ver nada. Eleger um café para passar duas vezes por dia, onde acabaria sendo reconhecida e tivesse alguém que me dissesse bom dia, um restaurante onde o garçom talvez me chamasse pelo nome, e me sugerisse o que comer. Uma cidade onde não houvesse nada para comprar, a não ser um queijo da terra, um doce da terra; uma cidade que, sobretudo, não estivesse na moda.

Penso em uma cidade pequena, talvez o Porto, e vou contar por quê. Como haveria um jogo de futebol importante, entre um clube do Porto e outro de Lisboa, a televisão fez uma grande matéria sobre as duas cidades. E as pessoas que foram entrevistadas disseram que Lisboa é uma cidade desumana, onde ninguém recebe as pessoas em casa, só nos cafés e restaurantes, mas que eles, do Porto, não: têm o hábito de abrir suas casas para os amigos a qualquer hora do dia, e prazer em fazer um almoço para mostrar como lá se come bem -e aí mostraram o mercado de peixes, as frutas, os vinhos, e falaram sobre o que cozinhariam para bem receber um forasteiro. Coisas incríveis, como salada de orelha, bochechas de porco, do porco do qual se faz o melhor presunto do mundo, o pata negra, nem gosto de pensar. Estou louca para conhecer o Porto ou uma cidade parecida, onde não aconteça nada; que delícia, 15 dias em um lugar onde nada acontece.

E afinal, o que se quer de uma viagem? Preocupações zero, compromissos zero, comer bem e, se tiver exagerado no vinho durante o almoço, poder ir dormir um pouco sem o menor remorso de não ter visto um museu incrível, ou mais um castelo. Quando estava em Paris inventei de ir a Versailles, e foi lamentável. Montes de ônibus de turistas, todos tirando fotos -enfim, tudo que já se sabe. Mil vezes tivesse comprado um belo DVD para ver em casa.

Mas nada é perfeito, e em Lisboa tive momentos de angústia: não houve um só dia em que não tenha sido abordada por duas, três pessoas, pessoas de 25 a 50 anos; elas se apresentavam, diziam o nome, idade, origem, e pediam uma ajuda em dinheiro. Não eram mendigos nem pareciam pobres; todas/todos vestidos corretamente, educados, mas precisando de uma ajuda financeira, o que foi muito triste.

Mesmo assim, Portugal é o país ideal para passar dias encantadores de muita paz -e, aproveitando, dar uma ajuda para o país sair da crise.


P.S. 1 - Chegando ao Brasil e lendo os jornais, tive uma saudade enorme da figura de Marina Silva, da correção de Marina Silva, da integridade de Marina Silva. Precisamos de Marina em 2014.

P.S. 2 - Estou de férias, oba, e volto em 24 de fevereiro, bom Carnaval.


Desgarrados do guarda-sol - DIANA LICHTENSTEIN CORSO

ZERO HORA - 27/01

Os Meninos Perdidos da história de Peter Pan são originalmente crianças que as babás deixaram cair do carrinho sem dar-se conta. Se após sete dias ninguém os reivindica, as fadas os recolhem para a Terra do Nunca. Não há meninas lá, pois, conforme Peter, elas seriam muito espertas e não cairiam do carrinho, no que devo concordar que ele tem razão.
Outro tipo comum de meninos perdidos são os desgarrados do guarda-sol. Os pequenos por vezes aproveitam que a vigilância familiar relaxa para explorar o mundo sem bússola nem mapa. Quando percebem a ausência dos seus adultos, apesar de que foram eles mesmos que se afastaram, sentem-se abandonados e abrem o berreiro. Neste veraneio, até inventaram umas pulseirinhas eletrônicas, que permitem a localização da família quando a sirene do mini aventureiro começa a tocar.
Paradoxalmente, é mais fácil ser curioso e correr o risco de perder-se quando nos sentimos cuidados. Geralmente acontece com pequenos que desenvolveram a "capacidade de estar só". Ela pressupõe o seguinte: uma criança vive em conexão direta com uma figura materna, fonte máxima de segurança, apesar de que ninguém pode estar presente o tempo todo. A duras penas ela acaba descobrindo que a mãe não some, nem ele, e que é bom que isso aconteça. Mas também há formas menos dramáticas de aprender, que é distrair-se, tornar-se capaz de ficar só. Acontece quando o bebê fica absorto em seus assuntos, cantarolando e brincando, esquecido de chamar a atenção da mãe ou de controlar seus movimentos. Eis uma pequena pessoa crescida, que tem em si mesma uma boa companhia. O fugitivo das areias é alguém que sai consigo mesmo a passear. Carrega dentro de si, por um tempo, seus adultos.
Os pais, nem que seja por momentos, também se permitem desligar na presença do pequeno. Distraem-se porque precisam tirar um pouco do pensamento essa obsessão de fraldas. Mas há os pesadelos, como os bebês que morrem esquecidos em carros, afogados ou são sequestrados. São ameaças que dificultam esse jogo benéfico de mútua desatenção, já que um vacilo pode ser fatal. Somos todos ousados sobreviventes dessas incursões perigosas nos momentos de desatenção que em algum momento vivemos. Não foi necessário o resgate mágico, mas alguma fada madrinha olhou por nós. Tristemente, isso não ocorreu com os pais e filhos que a fatalidade castigou. É bom lembrar que eles não são monstros. Pais e filhos precisam desligar-se mutuamente, nestes casos extremos algo falhou.
Até hoje me emociono nas praias em que há o hábito de colocar a criança perdida nos ombros e sair batendo palmas, com o coro dos banhistas, até encontrar a família da criança apavorada. A cena me leva às lágrimas, porque sinto que fora do guarda-sol familiar, há um mundo de gente disposta a zelar por nós. Quando dá certo, é bom perder-se do território conhecido para descobrir que há incursões seguras por terras estranhas. Faz parte da aventura interminável de crescer e, com sorte, baterão palmas por nós quando o medo chegar.


Irritando o espectador - MAURICIO STYCER

FOLHA DE SP - 27/01


Gloria Perez, como se sabe, tem um estilo calcado no desdém ao realismo, e orgulha-se dele


Pegue uma novela que não anda muito bem de audiência e introduza algumas cenas bem absurdas, daquelas que afrontam a inteligência do espectador. A técnica é arriscada porque pode produzir efeito contrário ao esperado, mas, às vezes, funciona.

É o que ocorreu com "Salve Jorge", atração principal da Globo, cuja audiência segue abaixo da meta. Ambientada entre Istambul, a Capadócia e o Rio, a novela de Gloria Perez vinha, desde o início, exigindo um exercício abnegado de "suspensão da descrença", mas nesta semana superou todos os limites -e o Ibope subiu.

A autora, como se sabe, tem um estilo calcado no desdém ao realismo, e orgulha-se dele. Lembre-se de "O Clone" ou "Caminho das Índias", por exemplo. O português é sempre uma língua universal, compreendida tanto numa delegacia de Istambul quanto no mercado de Fez (Marrocos) ou nas ruas de Jaipur (Índia).

Os personagens viajam do Rio para essas cidades e voltam sempre num piscar de olhos, sem se cansar ou sentir o fuso. As visitas aos recantos exóticos servem, simultaneamente, para aulas de caráter turístico-cultural e como cenário para tramas de conteúdo "jornalístico", inspiradas em dramas reais.

Em "Salve Jorge" há dois bons temas em exposição -o tráfico de mulheres e o comércio de bebês. O primeiro, narrado numa tentativa de thriller policial, envolve a heroína e acabou tornando-se a peça de resistência da novela.

Criada no Complexo do Alemão, mãe solteira, independente e batalhadora, Morena largou o namorado, Theo, capitão da cavalaria, para trabalhar em Istambul. Chegando lá, descobriu que fora enganada e se viu obrigada a se prostituir.

A quadrilha mantém a moça quieta à base de ameaças contra seu filho e sua mãe, faxineira na casa de uma delegada de polícia gente finíssima, Helô. De volta ao Rio, junto com uma colega de trabalho, Jéssica, Morena teve inúmeras oportunidades de revelar o seu infortúnio à mãe, à delegada e ao namorado, mas não falou com nenhum deles.

No capítulo de segunda-feira (21), finalmente, Morena resolveu contar tudo para uma mulher que ela mal conhece, justamente a vilã-mor da história, a empresária Lívia Marini.

Em consequência, sua amiga Jéssica é morta por Lívia com um golpe de seringa, subitamente retirada da bolsa. Uma seringa? "E eu saio sem ela para algum lugar? No nosso ramo, a gente não sabe quando vai precisar", explicou a bandidona para uma colega de gangue.

Desolada com a morte, Morena tem uma visão de Jéssica envolta por uma luz dourada e promete à amiga vingá-la de qualquer maneira. Ainda tem cem capítulos para cumprir a promessa.

O público reagiu a essa loucura toda com satisfação. No dia 21, a audiência atingiu seu patamar mais alto, 37 pontos, mas ainda muito inferior ao que se espera de uma trama nesse horário.

Gloria Perez, como se sabe, é discípula de Janete Clair, rainha do melodrama na TV. Certa vez, conta Artur Xexéo no livro "A Usineira de Sonhos", a autora de "Pecado Capital" recomendou ao marido, Dias Gomes, e a Ferreira Gullar, que escreviam uma novela juntos: "Mandem o realismo à merda. O público vai adorar". Gloria Perez captou a mensagem, e segue mandando brasa.

Carta anônima - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 27/01


RIO DE JANEIRO - Um amigo que muito preza V. Sa., que vela por sua reputação, não podendo calar sua voz nesse momento em que a desonra se abate sobre seu lar, vem, por meio desta, chamar a atenção de V. Sa. para determinados fatos que não podem permanecer na ignorância do principal interessado. É dever de um amigo consciencioso e fiel (que não assina a presente a fim de que sua ação fique oculta e sem glorificação) avisá-lo do que se passa.

Trata-se do procedimento abominável de sua mulher. Como seu amigo, eu devia considerá-la como as grandes matronas da história e da lenda, como a casta Suzana, como a mulher de Ulisses, como a mulher forte das Escrituras.

Tal consideração só redobra a responsabilidade desse aviso leal. Pois sua complacência tem-lhe fechado os olhos sobre fatos que todos comentam. Sua mulher vai, dia sim, dia não, a misterioso dentista que nunca termina o tratamento. E, além do dentista, há outros compromissos sempre nos mesmos horários e no mesmo local: a cidade -nome vago que denomina pecado e traição.

Tais circunstâncias têm passado despercebidas aos benevolentes olhos de V. Sa., mas os olhos da turba não são benevolentes, justificando o que se rosna com frequência acerca de seu lar. Chegam a insinuar que a abastança de que goza V. Sa., em vez do seu modesto emprego municipal, provém da bolsa de sua mulher, sempre provida -pasme!- por um dentista certamente imaginário!

Acreditamos que este aviso bastará, despertando sua complacência um tanto exagerada. Não queremos nem devemos adiantar nomes, locais, horários e datas. Mas, se a tanto formos obrigados pela obstinação de uma Bovary desgarrada no Catumbi, voltaremos ao assunto, pois a honra de V. Sa. estará sempre sob a fiel e zelosa proteção de "um amigo desinteressado".


Aposentado trabalha - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 27/01


No Brasil, como as pessoas se aposentam muito cedo, especialmente por tempo de contribuição, os homens passam, em média, 7,3 anos trabalhando, e as mulheres, 5,4 anos, depois de aposentados. A conta é da pesquisadora Ana Amélia Camarano, do Ipea. “Em todo o mundo”, diz ela, “os regimes previdenciários têm por objetivo repor a renda daqueles que perderam a capacidade laborativa, seja por idade avançada ou por invalidez”. 
O Brasil é diferente.

De braços dados
Sexta, num hotel em São Paulo, ficou acertado que Lula será o coordenador-geral da campanha de Dilma à reeleição.

Bye, bye, Brasil
Envolvido numa série de escândalos, Gilberto Miranda disse a um amigo que pretende se mudar para Londres. Segundo o ex-senador, está muito difícil fazer “negócios” no Brasil. Ah, bom!

Rádio Corredor
O Banco do Brasil estaria negociando a compra de 49% do Brasil Plural, o banco de investimento. A conferir.

‘Annie’ no Brasil
Miguel Falabella vai a Nova York assistir ao musical “Annie”,um dos maiores sucessos da atual temporada da Broadway. É que ele será responsável pela tradução e direção da versão brasileira do espetáculo, que estreia este ano.

Privatização da TAP
O governo português prepara um novo edital de privatização da TAP. O empresário Germán Efromovich deve participar novamente. Fala-se ainda de um fundo do Catar. 

O DOMINGO É DE...
... Glória Menezes, a querida e talentosa atriz, 78 anos, prova viva de que beleza não tem idade. Na foto acima, ela posa na pele de Violeta, do seriado “Louco por elas”, da TV Globo. É que a personagem vai se vestir de governanta para sustentar a invenção de que sua família é rica. O capítulo vai ao ar dia 5 agora. Aliás, somos loucos por Glória Menezes, um capítulo à parte da história da nossa TV

Carnaval do mensalão
A Banda da Barra, no Rio, traz, este ano, um samba de Castilho e Fabinho. Um trecho: “Dirceu que levou o meu dinheiro/pro estrangeiro!/Valeu, Joaquim, acabou com essa farra!/Tá na hora de mudar/quem mama na teta da Pátria Mãe Gentil/vai pra longe do Brasil.”

Monarco em livro
Monarco, o querido baluarte da Portela, já passou alguns dias na cadeia. A história está no “Livro da Família Diniz”, escrito pelo produtor musical e jornalista Marcos Salles.

Reage, Mangueira!
A Mangueira, apesar das dificuldades para produzir seu carnaval, ainda é a campeã de popularidade. A escola lidera as vendas de camisas da grife D’Samba, que viu esgotar o estoque dos itens da verde e rosa. Foram vendidas 1.600 camisas em apenas uma semana. Eu apoio.

Vem pra cá, Jesus!
O carnaval deixou, viva!, de ser uma festa profana. O bloco Folia com Cristo, que sai hoje, no Rio, homenageia a Jornada Mundial da Juventude.

Antes da Lei Rouanet
Num momento em que muitas empresas só fazem mecenato cultural com o meu, seu, nosso dinheiro, através da Lei Rouanet, é oportuno lembrar Arnaldo Guinle, de uma família símbolo da aristocracia da época, que morreu há exatamente 50 anos. Foi talvez o primeiro embaixador do samba na Europa, ao patrocinar, em 1922, uma excursão a Paris de Pixinguinha e outros músicos. Também ajudou Villa-Lobos, a ponto de o grande compositor dedicar a ele o Choros nº 5 (“Alma brasileira”).

Em tempo...
Guinle presidiu a antiga CBD e foi responsável por sua filiação à Fifa. Mas isso é uma outra história.

Pão e circo
Cid Gomes, que pagou R$ 650 mil para Ivete Sangalo inaugurar um hospital, não é um caso isolado. Mesmo em cidades com problemas em saúde ou educação, é raro encontrar um prefeito que não gaste com shows o meu... você sabe.

Veja só...
A prefeitura de Maricá, RJ, deve gastar R$ 343 mil para animar o carnaval da cidade. Contratou os shows dos queridos Diogo Nogueira, Martinho da Vila e Neguinho da Beija-Flor. Enquanto isso, tem médico terceirizado do município reclamando de atraso nos pagamentos.

Aliás...
Com o colapso da indústria de discos, grande parte dos artistas brasileiros vive hoje do dinheiro público, direta ou indiretamente, através de leis de renúncia fiscal.

LIVRO FUTEBOL CLUBE
A Copa do Mundo no Brasil tem despertado o interesse do mercado de livros. Ainda assim, diz Ruy Castro, “pelo visto, não há no Brasil nenhum grande romance sobre futebol. Nem em parte alguma”. O utor de “Estrela solitária”, magnífica biografia de Garrincha, insiste: “Mas, em qualquer país, haverá algum sobre vôlei, basquete, futebol americano, pelota basca, curling, marcha atlética ou cuspe à distância? Talvez os esportes não se prestem à grande literatura, qual é o problema?.”

Veja aqui mais alguns livros sobre futebol em gestação:

A Globo Livros vai colocar nas prateleiras, em abril, a autobiografia de Walter Casagrande Júnior, o ex-atacante e comentarista da TV Globo. “Casagrande e seus demônios” conta a história, incluindo os dramas, do ex-goleador do nosso futebol, que, como se sabe, se envolveu com drogas. A obra é do jornalista Gilvan Ribeiro e tem prefácio de Marcelo Rubens Paiva.

Em maio, a Zahar publica um livro sobre as partidas informais de futebol pelo mundo. Vai se chamar “Pelada – Uma volta ao mundo pelo prazer de jogar futebol”. A autora é a ex-j ogadora americana Gwedolyn Oxenham, que chegou a jogar no Santos. Aliás, nessa obra, o Brasil é o único país que será lembrado em mais de um capítulo.

A editora Mauad aposta em história da seleção brasileira e lança, nos próximos dias, o “Almanaque 1914-2014 —100 anos da seleção canarinho”, de Luís Pimentel, com ilustrações de Amorim.

Com previsão de chegar ao Brasil às vésperas da Copa de 14, o livro “Ganhar, e então morrer” (título provisório), de Pierre-Louis Basse, relembra a mítica partida, em 9 de agosto de 1942, entre a equipe ucraniana do FC Start (na foto acima) e a seleção da Alemanha nazista. O jogo foi na antiga União Soviética, e a obra conta o drama dos ucranianos: entregar o jogo para os alemães e sobreviver... ou não.