sexta-feira, novembro 02, 2012
Na democracia, bom é mandar - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 02\11
A condenação de seus principais dirigentes - o chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, o presidente nacional José Genoino, o presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha e o tesoureiro Delúbio Soares, entre outros -, por corrupção ativa e formação de quadrilha, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), não foi digerida pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
O atual presidente nacional petista, Rui Falcão, já descartou publicamente a expulsão dos afiliados condenados pelo Supremo dos quadros partidários, embora a punição seja prevista no estatuto do partido para quem cometer "crimes infamantes" ou "práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado". Na festa do lançamento da edição n.º 5 mil do jornal do partido, Falcão decretou: "Nenhum deles está incluído. Não houve desvio administrativo. Quem aplica o estatuto somos nós. Nós interpretamos o estatuto". E mais: o PT faz questão de que Genoino assuma uma cadeira na Câmara dos Deputados em 2013. Ele não foi eleito, mas ocupa a primeira suplência e um dos membros da bancada petista de São Paulo na Câmara, Carlinhos Almeida, foi eleito e será empossado prefeito de São José dos Campos, abrindo a vaga. "Ele tem o direito de assumir o mandato", pontificou o dirigente.
Genoino já foi condenado, mas o julgamento do mensalão no STF ainda não foi concluído. O Supremo ainda não decidiu se os parlamentares condenados perderão seus mandatos automaticamente ou se deverão ser julgados pelos pares. Além de contrariar a iniciativa do réu de demitir-se do cargo de assessor especial do Ministério da Defesa para evitar constrangimentos para si próprio, colegas e chefes, a decisão de tornar a posse de Genoino fato consumado antes da decisão do Judiciário desafiaria o Estado Democrático de Direito, que o partido garante defender e jura proteger.
Mas, felizmente, o PT está dividido. A Folha de S.Paulo (pág. A4, 1/11/2012) noticiou que uma divisão interna do partido da presidente Dilma Rousseff forçou o adiamento da divulgação de um manifesto do PT contra a atuação do STF no julgamento do mensalão. A divulgação do texto, que, de acordo com a notícia, atacaria a condenação dos petistas, foi postergada para depois da fixação das penas porque o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff, não querem que em 2013 PT e governo travem uma batalha campal contra o Supremo. Nem que o partido assuma o ônus de uma eventual mobilização do gênero.
Em 20 de setembro passado, por iniciativa do presidente nacional do PT e com adesão constrangida de dirigentes de bancadas da base aliada, foi divulgado um manifesto em que o julgamento foi descrito como resultado da ação de inimigos do partido: "As forças conservadores não hesitam em recorrer a práticas golpistas, (...) à denúncia sem provas". A chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, contudo, se opôs à atitude hostil dos petistas ao Supremo e defendeu o respeito à sua decisão. "Nós podemos gostar ou não de como as coisas se dão, mas nós temos de respeitar resultados e instituições", disse. O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, publicou artigo na rede mundial de computadores qualificando o julgamento de "devido e legal" e seu resultado como "legítimo", de vez que os acusados tiveram amplo direito de defesa.
Se, de fato, mesmo se solidarizando com os condenados e atacando a "politização" do julgamento, o PT não fizer campanha permanente por eles para não dar impressão de revanchismo, fica patente que o partido de Lula, Dirceu e Dilma ainda não se definiu sobre seu papel na chamada "democracia burguesa". Não há clima para mobilizar a militância contra o Judiciário e Genro tem razão ao afirmar que isso seria inócuo, na prática. De qualquer maneira, o partido só se une para usufruir benefícios, pompas e glórias do governo no Estado Democrático de Direito, mas ainda abriga revolucionários recalcitrantes que se dispõem a chegar às últimas consequências de uma crise indesejável sob todos os aspectos entre os Poderes da República para satisfazer ambições de mando unívoco e total acima das regras democráticas da impessoalidade da gestão pública e da alternância no poder político.
Desvios no Egito - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 02\11
Não caminha muito bem o processo de redigir uma nova Constituição para o Egito.
O maior problema é a composição da comissão encarregada de escrever o documento. Mesmo tendo sido reformulada por ordem judicial, para comportar maior diversidade, ela ainda é dominada por religiosos -alguns mais extremados, como os salafistas- e dá pouca voz para os secularistas.
Como não poderia deixar de ser, o texto apresentado no início de outubro está repleto de concessões aos clérigos que, se não inviabilizam a democracia, a enfraquecem bastante.
O caso mais gritante é o estatuto da lei islâmica. Aparentemente, os salafistas concordaram em abrir mão de um dispositivo que tornaria a "sharia" a única fonte da legislação. Contentaram-se com uma fórmula mais leve, pela qual as normas civis não podem contradizer a lei religiosa.
Mas, como o Diabo mora nos detalhes, os ultrarreligiosos podem obter resultado similar com uma cláusula que concede à Universidade Islâmica de Al-Ajar o monopólio de interpretar o que está ou não de acordo com a "sharia".
Algo semelhante ocorre com as liberdades civis. Há um artigo que assegura a igualdade entre homens e mulheres, mas apenas desde que isso não entre em conflito com as determinações da "sharia".
A liberdade de culto também está garantida, mas só para muçulmanos, cristãos e judeus. As religiões não abraâmicas ficariam sem proteção legal e sem o direito de construir seus templos.
É bem verdade que o texto proposto traz avanços significativos ao retirar dos tribunais militares a autoridade para julgar civis, assegurar em termos razoavelmente fortes a liberdade de expressão (embora os salafistas tenham conseguido criminalizar a blasfêmia) e legalizar as greves e as manifestações políticas.
Para acrescentar incerteza ao que já é complicado, os trabalhos da comissão ainda estão num limbo jurídico. O questionamento de sua composição foi remetido à Suprema Corte, dominada pelos militares, e não há prazo para julgá-lo.
A ideia é que a Carta vá a referendo popular. Pretendia-se que isso ocorresse ainda neste ano, algo que a esta altura parece muito improvável.
Não caminha muito bem o processo de redigir uma nova Constituição para o Egito.
O maior problema é a composição da comissão encarregada de escrever o documento. Mesmo tendo sido reformulada por ordem judicial, para comportar maior diversidade, ela ainda é dominada por religiosos -alguns mais extremados, como os salafistas- e dá pouca voz para os secularistas.
Como não poderia deixar de ser, o texto apresentado no início de outubro está repleto de concessões aos clérigos que, se não inviabilizam a democracia, a enfraquecem bastante.
O caso mais gritante é o estatuto da lei islâmica. Aparentemente, os salafistas concordaram em abrir mão de um dispositivo que tornaria a "sharia" a única fonte da legislação. Contentaram-se com uma fórmula mais leve, pela qual as normas civis não podem contradizer a lei religiosa.
Mas, como o Diabo mora nos detalhes, os ultrarreligiosos podem obter resultado similar com uma cláusula que concede à Universidade Islâmica de Al-Ajar o monopólio de interpretar o que está ou não de acordo com a "sharia".
Algo semelhante ocorre com as liberdades civis. Há um artigo que assegura a igualdade entre homens e mulheres, mas apenas desde que isso não entre em conflito com as determinações da "sharia".
A liberdade de culto também está garantida, mas só para muçulmanos, cristãos e judeus. As religiões não abraâmicas ficariam sem proteção legal e sem o direito de construir seus templos.
É bem verdade que o texto proposto traz avanços significativos ao retirar dos tribunais militares a autoridade para julgar civis, assegurar em termos razoavelmente fortes a liberdade de expressão (embora os salafistas tenham conseguido criminalizar a blasfêmia) e legalizar as greves e as manifestações políticas.
Para acrescentar incerteza ao que já é complicado, os trabalhos da comissão ainda estão num limbo jurídico. O questionamento de sua composição foi remetido à Suprema Corte, dominada pelos militares, e não há prazo para julgá-lo.
A ideia é que a Carta vá a referendo popular. Pretendia-se que isso ocorresse ainda neste ano, algo que a esta altura parece muito improvável.
A força do cabo eleitoral Sandy - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 02\11
Obama ganhou mais presença na mídia para relatar a ajuda federal a estados atingidos. Mas o real impacto do furacão sobre os eleitores permanece incerto
Em campanha morna, cujo grande momento tinha sido o desempenho de Mitt Romney no primeiro debate com o presidente Obama, a passagem do furacão Sandy a uma semana das eleições embaralhou as fichas, embora não as pesquisas: por enquanto, elas continuam a indicar empate técnico entre o democrata e o republicano. Um feito para o vulnerável Romney, que muda frequentemente de posição e diz, por exemplo, que vai cortar impostos e reduzir o déficit, sem revelar a mágica.
O empate mostra a perda de estatura política de Obama em relação a 2008, quando foi eleito com ampla maioria — quase 200 votos a mais que McCain no Colégio Eleitoral e 52,9% do voto popular, só superado por três outros democratas na história americana. Após dois sofríveis governos Bush, ele era a melhor expressão da esperança. Mas quatro anos no poder mostraram o que se pode esperar de Obama.
A princípio, a catástrofe beneficia o presidente, que pôde se valer do cargo para mostrar dinamismo e competência na ajuda aos estados atingidos. Para todos os efeitos, ele estava fazendo seu trabalho. Mas Sandy é um cabo eleitoral de efeito incerto. Aos olhos de alguns eleitores, pode parecer um diferencial injusto para o presidente. Que também é favorecido na comparação com o último republicano que passou por situação semelhante: Bush, acusado de ter reagido lenta e de forma ineficiente ao furacão Katrina, em 2005, desastre tão grande quanto o do Sandy.
A situação ficou mais difícil para Romney, que, apenas candidato, tem área de ação menor diante da megatormenta. Ainda assim ele comandou eventos que reuniram donativos para os atingidos. Mas alguns fatos pesaram contra o ex-governador. Ele declarou, em 2011, que a verba da Fema, agência federal para emergências, deveria ser cortada para reduzir o déficit público. Sugeriu, também, que suas tarefas fossem passadas aos estados, sabidamente deficitários. Respondeu-lhe, em editorial, “The New York Times”, que apóia a reeleição de Obama: “Uma grande tormenta requer governo forte.”
Por outro lado, caíram como uma bomba de fragmentação na campanha de Romney os elogios públicos de um republicano, o governador de Nova Jersey, Chris Christie, ao desempenho do presidente na ajuda a seu estado, um dos mais atingidos por Sandy. Ao ser perguntado se gostaria que, como Obama, Romney visitasse Nova Jersey, o governador respondeu que isso não tinha importância. Ruim para o desafiante.
Após três dias dedicados a Sandy, a campanha foi retomada, com os marqueteiros um tanto desorientados. Mantido o empate, a torcida é para que não seja preciso recorrer aos complicados mecanismos eleitorais dos Estados Unidos, em que é possível ganhar, mas não levar. Restando pouco tempo para as eleições de terça, o impacto da tormenta só deverá ser apurado, sem margem de erro, nas urnas, junto com os votos.
Obama ganhou mais presença na mídia para relatar a ajuda federal a estados atingidos. Mas o real impacto do furacão sobre os eleitores permanece incerto
Em campanha morna, cujo grande momento tinha sido o desempenho de Mitt Romney no primeiro debate com o presidente Obama, a passagem do furacão Sandy a uma semana das eleições embaralhou as fichas, embora não as pesquisas: por enquanto, elas continuam a indicar empate técnico entre o democrata e o republicano. Um feito para o vulnerável Romney, que muda frequentemente de posição e diz, por exemplo, que vai cortar impostos e reduzir o déficit, sem revelar a mágica.
O empate mostra a perda de estatura política de Obama em relação a 2008, quando foi eleito com ampla maioria — quase 200 votos a mais que McCain no Colégio Eleitoral e 52,9% do voto popular, só superado por três outros democratas na história americana. Após dois sofríveis governos Bush, ele era a melhor expressão da esperança. Mas quatro anos no poder mostraram o que se pode esperar de Obama.
A princípio, a catástrofe beneficia o presidente, que pôde se valer do cargo para mostrar dinamismo e competência na ajuda aos estados atingidos. Para todos os efeitos, ele estava fazendo seu trabalho. Mas Sandy é um cabo eleitoral de efeito incerto. Aos olhos de alguns eleitores, pode parecer um diferencial injusto para o presidente. Que também é favorecido na comparação com o último republicano que passou por situação semelhante: Bush, acusado de ter reagido lenta e de forma ineficiente ao furacão Katrina, em 2005, desastre tão grande quanto o do Sandy.
A situação ficou mais difícil para Romney, que, apenas candidato, tem área de ação menor diante da megatormenta. Ainda assim ele comandou eventos que reuniram donativos para os atingidos. Mas alguns fatos pesaram contra o ex-governador. Ele declarou, em 2011, que a verba da Fema, agência federal para emergências, deveria ser cortada para reduzir o déficit público. Sugeriu, também, que suas tarefas fossem passadas aos estados, sabidamente deficitários. Respondeu-lhe, em editorial, “The New York Times”, que apóia a reeleição de Obama: “Uma grande tormenta requer governo forte.”
Por outro lado, caíram como uma bomba de fragmentação na campanha de Romney os elogios públicos de um republicano, o governador de Nova Jersey, Chris Christie, ao desempenho do presidente na ajuda a seu estado, um dos mais atingidos por Sandy. Ao ser perguntado se gostaria que, como Obama, Romney visitasse Nova Jersey, o governador respondeu que isso não tinha importância. Ruim para o desafiante.
Após três dias dedicados a Sandy, a campanha foi retomada, com os marqueteiros um tanto desorientados. Mantido o empate, a torcida é para que não seja preciso recorrer aos complicados mecanismos eleitorais dos Estados Unidos, em que é possível ganhar, mas não levar. Restando pouco tempo para as eleições de terça, o impacto da tormenta só deverá ser apurado, sem margem de erro, nas urnas, junto com os votos.
Rota 2014 - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 02\11
A despeito do discurso oficial de parceria com o governo federal, o núcleo político de Geraldo Alckmin vê a ofensiva para ajudar o Estado no combate ao crime organizado como tentativa velada de fragilizar a gestão do PSDB em São Paulo, próxima meta eleitoral do PT. Cientes do dano imposto pelos ataques do PCC à candidatura presidencial de Alckmin em 2006, tucanos vão rechaçar comparações entre São Paulo e Rio, onde a crise na segurança levou à intervenção militar.
UPP
Para evitar aparência de intervenção federal, Dilma Rousseff e Alckmin só chegaram a um acordo para estancar a polêmica após combinarem discurso acentuando a "parceria'' entre Estado e União. "Ninguém queria sair como vencedor ou vencido", afirma um interlocutor.
Climão
Na segunda-feira, o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), que há uma semana trocam farpas pela imprensa, acertarão detalhes da força-tarefa.
PSD...
Alexandre Schneider, vice na chapa de José Serra, reassume na semana que vem a Secretaria de Educação paulistana, da qual se afastou em março.
... em transe
A despeito da troca de farpas com o PT na campanha, ele recebeu de Gilberto Kassab orientação de promover uma transição "mais amigável possível". Com a incumbência, adiou projetos no setor privado.
Tango Serra viajou na noite de quarta-feira para Buenos Aires, onde deve passar cerca de uma semana.
Rodízio
Senadores petistas foram pegos de surpresa quando, em reunião da bancada, Rui Falcão confirmou a Eduardo Suplicy que o PT poderá ceder sua vaga na disputa pelo Senado em 2014 a um partido aliado. O presidente da legenda alegou que Suplicy também postula a candidatura ao governo paulista.
Futurama
Dilma reuniu ontem os ministros das áreas econômica e social e encomendou um planejamento de longo prazo. Quer que coloquem no papel metas que o país deveria alcançar até 2015, 2020 e 2025.
Para dentro
A nota divulgada ontem pelo PSB negando que pretenda aumentar participação no governo federal tem dois objetivos. O primeiro é um recado ao PT e a Dilma: que o partido não hesitaria em deixar os cargos para partir para um voo solo.
Para fora
O segundo é reforçar na sociedade a imagem de que o PSB é "diferente" de siglas associadas ao fisiologismo, como o PMDB, importante para uma possível candidatura presidencial de Eduardo Campos em 2014.
Mudança...
Roberto Cláudio (PSB), prefeito eleito de Fortaleza, acusa Luizianne Lins de tentar empastelar a transição ao alegar que houve compra de votos na eleição. A petista viajou para o Rio ontem sem organizar a transmissão de informações.
... turbulenta
"Caso a prefeitura não cumpra sua obrigação, causará mais prejuízo à população", diz Cláudio, para quem a acusação de compra de votos é "uma ofensa ao povo de Fortaleza".
Visitas à Folha João Grandino Rodas, reitor da Universidade de São Paulo, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de Hélio Nogueira da Cruz, vice-reitor, Alberto Carlos Amadio, chefe de gabinete, e Adriana Cruz, assessora de imprensa.
Marcos Cintra, secretário do Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo, visitou ontem a Folha.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"A parte amarga de ganhar uma eleição é que as doces promessas feitas em campanha devem virar realidade. Nós vamos cobrar."
DO LÍDER DO PSDB NA CÂMARA DE SP, FLORIANO PESARO, sobre emendas ao Orçamento-2013 prevendo o fim da taxa de inspeção e o bilhete único mensal.
contraponto
Instinto selvagem
Depois de mergulhar nas campanhas eleitorais no Rio, Lindbergh Farias (PT-RJ) reapareceu no Senado com o olho lesionado. Rapidamente, tratou de justificar que não se tratava de conjuntivite, mas de uma lesão na córnea provocada por um arranhão durante evento eleitoral. A "unhada" virou motivo de galhofa na Comissão de Assuntos Econômicos. Eduardo Braga (PMDB-AM) disse:
-O senador Lindbergh ainda está se recuperando das unhadas das eleitoras cariocas!
Constrangido com as piadas, o petista desabafou:
-Acho que errei ao comentar esse episódio aqui.
Evolução - e não apenas exaustão - WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo - 02\11
Por mais que se queira não se consegue fugir ao tema que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chamou durante a conferência Rio+20, em junho, de "exaustão do sistema econômico e social planetário" - 868 milhões de pessoas que passam fome todos os dias, 1,3 bilhão vivendo abaixo da linha da pobreza, população total de 7 bilhões avançado para 9 bilhões até meados do século, recursos naturais usados em ritmo superior à reposição, "crise de finitude de recursos", impasse na produção de alimentos. Como produzir para mais 2 bilhões de pessoas no atual quadro?
Segundo a Rádio ONU, estudos do Banco Mundial dizem que, embora a pobreza venha diminuindo, 22% da população do mundo "em desenvolvimento" ainda vive com menos de US$ 1,25 por dia (era 1,94 bilhão em 1981, baixou para 1,29 bilhão no fim da década passada; em 2015 ainda haverá 1 bilhão). Na África Subsaariana, uma em quatro pessoas na população de 856 milhões é subnutrida. Mesmo nos Estados Unidos 18,2% da população tem, segundo o Gallup, dificuldade para comprar alimentos (TV-Novosti, 28/9) - embora a própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) venha advertindo sobre o desperdício de 1,3 bilhão de toneladas anuais de alimentos no mundo, principalmente nos países mais ricos.
Um dos documentos mais contundentes, divulgado na semana passada em Nairóbi (Quênia) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), diz que "os sustentáculos da segurança alimentar e da biodiversidade no mundo estão sendo minados". É urgente, por isso, incluir na agricultura e no seu planejamento os serviços prestados pela natureza para avaliar a situação em cada lugar - da mesma forma que, na Rio+20, a Universidade da ONU propôs um novo indicador, em lugar do produto interno bruto (PIB); esse Índice de Riqueza Inclusiva, avaliando o crescimento da China entre 1990 e 2008, e incluindo a perda de recursos naturais, baixou a taxa de 422% para menos de 20%; no Brasil, o índice caiu de mais de 40% no mesmo período para 13%.
O documento do Pnuma avalia a situação nas áreas da sobrepesca, do uso insustentável da água, das práticas agrícolas que degradam o ambiente e propõe novos caminhos - como na estocagem de alimentos de pequenos produtores (para eliminar desperdícios), uso restrito de fertilizantes e pesticidas, redução da mecanização. Tudo é fundamental, diz o Pnuma, já que a agricultura provê 90% do consumo mundial de calorias e a pesca, os outros 10%. Mas, na primeira a competição pelo uso da água na irrigação, a perda da biodiversidade (com consequências na erosão e desertificação) e os desastres climáticos estão levando a situações insustentáveis. Na pesca, 55% dos estoques de espécies estão "plenamente explorados", 32% "explorados em excesso", 3% esgotados e 15% "moderadamente explorados". Os hábitats costeiros de espécies, recifes de corais e mangues já se reduziram quase à metade. E o aquecimento e acidificação da água são causas importantes. Também nas culturas em áreas continentais os problemas são graves.
As recomendações incluem ainda a eliminação dos subsídios à pesca (US$ 25 bilhões a US$ 30 bilhões anuais) e a criação de impostos pesados para a pesca irregular; na agricultura, várias práticas para a conservação do solo, da diversidade biológica, da microfauna associada à fertilidade nas culturas, a redução de fertilizantes que provocam a eutrofização, a proibição do desmatamento.
No Brasil, estudo do Ministério do Desenvolvimento Social e da Universidade Rural Federal do Rio de Janeiro (26/10) tenta identificar as causas da alta dos preços dos alimentos para as camadas mais pobres da população, superior ao aumento inflacionário. E já aponta "o pico do preço do petróleo", os baixos estoques, fatores climáticos e os sistemas de financiamento e de especulação financeira (já se mencionou neste espaço que há commodities agrícolas brasileiras que ao final de sua trajetória no "mercado futuro", ao serem entregues concretamente ao consumo, já passaram por até 40 intermediários, cada um deles aumentando o preço). Diz ainda o estudo que, após a alta de preços, estes não retornam ao estágio anterior. Apesar de todos esses fatores, com o crescimento do salário mínimo e a ampliação dos programas de assistência às famílias de mais baixa renda no Brasil a situação nessa faixa melhorou. O Instituto Data Popular confirma (Estado, 22/1) que a classe E representava em 2001 cerca de 10% da população (17,3 milhões de pessoas) e em 2011 caíra para 3,6% (7 milhões).
De qualquer forma, é tudo tão preocupante que economistas da Unicamp lançaram (Carta Maior, 22/10) um Manifesto em Defesa da Civilização, no qual afirmam que vivemos um período de "profunda regressão social" nos "países ditos desenvolvidos", com taxas muito altas de desemprego na Espanha e na Grécia. Por isso, pergunta: "Estamos vivendo crise que nega os princípios fundamentais da vida civilizada e democrática? E se isso for verdade, quanto tempo mais a humanidade suportará tamanha regressão?" Termina o texto dizendo que para não haver "uma reação inevitável, violenta e incontrolável" dos estratos mais prejudicados "é preciso colocar novamente em movimento as engrenagens da civilização".
Talvez possa ajudar nos lembrarmos de Teilhard de Chardin (O Fenômeno Humano, Editions Du Seuil, 1955), quando diz que "avançamos, como que em meio às dores de um grande parto, que traz à memória a história de crises da humanidade" - a Guerra de Troia, a queda do Império Romano, a invasão dos bárbaros, a aventura das cruzadas, as grandes navegações, as grandes descobertas e invenções, a Revolução Russa, o existencialismo, o movimento hippie, a Teologia da Libertação. Estaríamos evoluindo "para um mais-ser, um ser mais pleno e definitivo; porque o Universo, o nosso Universo, não apenas está em evolução, mas é uma evolução".
PSDB mais forte, vitória da democracia - ALBERTO GOLDMAN
FOLHA DE SP - 02\11
Fomos muito bem nas eleições, contrapondo o projeto petista de hegemonia. Saímos fortes como alternativa ao desafio arrogante do PT ao STF, ao aparelhamento
As instituições estão funcionando. O Judiciário, independente, processa e condena figurões da República transgressores da lei. O povo vai às urnas. Tudo dentro da normalidade. A democracia se consolida.
Nas eleições municipais deste ano, o PT, venceu em 635 municípios, enquanto o PSDB elegeu 701 prefeitos. Os dois foram ultrapassados pelo PMDB, com 1026 prefeituras.
Quanto ao número de vereadores, o PSDB só ficou abaixo do PMDB. Porém, no chamado G85, as 26 capitais e 59 cidades com mais de 200 mil eleitores, o PT elegeu 16 prefeitos (seis a menos que em 2008). O PSDB, 15 (seis a mais que em 2008).
No segundo turno, o PSDB elegeu prefeitos em 9 das 17 disputas. Interessante ressaltar que no Nordeste, onde Lula e Dilma tiveram votações altíssimas, o PSDB, junto ao DEM, venceu em 7 das 15 maiores cidades. No Norte, o PSDB venceu nas duas maiores capitais, Manaus e Belém.
A presença física nas campanhas, quase desesperada, de Lula e Dilma, não trouxe qualquer resultado.
A conclusão é que o PSDB, há dez anos longe do poder federal, obteve um excelente resultado. Avançou muito nas capitais e nas grandes cidades, retomou seu ímpeto no Norte e Nordeste e acumula forças para se contrapor ao projeto de hegemonia do PT. Renova, assim, o seu mandato de oposição e de alternativa de poder, essencial para a democracia.
O crescimento modesto do PT, mesmo contando São Paulo, onde usaram durante a campanha antigos costumes da política brasileira, como o loteamento de cargos federais (Maluf e Marta Suplicy), tornou mais distante o sonho lulopetista.
A campanha também serviu para comprovar o viés antidemocrático desse projeto. O desafio arrogante ao STF, como a reação aos votos dos magistrados e as declarações que chegavam a falar em golpe das "elites" e da mídia às instituições, mostram a recusa em admitir os erros do passado e a disposição de repeti-los.
A presença da presidente Dilma nas manifestações eleitorais, procurando transmitir a ideia de que, eleitos os seus preferidos, os eleitores teriam um melhor atendimento, agrediu os princípios constitucionais da igualdade dos cidadãos e de liberdade de expressão de suas vontades. Mostrou a verdadeira face da presidente, que sucumbiu às pressões políticas de seu criador e de seus companheiros de partido.
Além disso, há a percepção, ainda que tênue, de que a economia tem um desempenho medíocre.
A máquina estatal, dominada e aparelhada pelo PT e seus aliados de ocasião, não presta os serviços demandados pela população nem consegue realizar os investimentos necessários ao desenvolvimento.
No drama do ser ou não ser, Dilma não consegue definir um modelo de desenvolvimento que supere o fisiologismo e os velhos preconceitos ideológicos do seu partido contra a participação de capitais privados no desenvolvimento da nossa infraestrutura. Os apagões de energia elétrica, nas rodovias, nas ferrovias, nos portos e nos aeroportos estão aí para comprovar.
A confiança renovada no PSDB de parte expressiva do eleitorado aumenta a sua responsabilidade de oferecer uma alternativa progressista e democrática de desenvolvimento do país. Temos valores que julgamos essenciais para uma vida em sociedade e uma visão do mundo e do país que julgamos mais democrática, articulada e contemporânea do que a dos nossos adversários.
O PSDB precisa reforçar a sua estrutura partidária, trabalhar junto à sociedade, captar os seus anseios e suas demandas, construir propostas que possam se traduzir em melhoria das condições de vida do nosso povo, daqueles que verdadeiramente necessitam do poder público para enfrentar as dificuldades.
Fomos muito bem nas eleições, contrapondo o projeto petista de hegemonia. Saímos fortes como alternativa ao desafio arrogante do PT ao STF, ao aparelhamento
As instituições estão funcionando. O Judiciário, independente, processa e condena figurões da República transgressores da lei. O povo vai às urnas. Tudo dentro da normalidade. A democracia se consolida.
Nas eleições municipais deste ano, o PT, venceu em 635 municípios, enquanto o PSDB elegeu 701 prefeitos. Os dois foram ultrapassados pelo PMDB, com 1026 prefeituras.
Quanto ao número de vereadores, o PSDB só ficou abaixo do PMDB. Porém, no chamado G85, as 26 capitais e 59 cidades com mais de 200 mil eleitores, o PT elegeu 16 prefeitos (seis a menos que em 2008). O PSDB, 15 (seis a mais que em 2008).
No segundo turno, o PSDB elegeu prefeitos em 9 das 17 disputas. Interessante ressaltar que no Nordeste, onde Lula e Dilma tiveram votações altíssimas, o PSDB, junto ao DEM, venceu em 7 das 15 maiores cidades. No Norte, o PSDB venceu nas duas maiores capitais, Manaus e Belém.
A presença física nas campanhas, quase desesperada, de Lula e Dilma, não trouxe qualquer resultado.
A conclusão é que o PSDB, há dez anos longe do poder federal, obteve um excelente resultado. Avançou muito nas capitais e nas grandes cidades, retomou seu ímpeto no Norte e Nordeste e acumula forças para se contrapor ao projeto de hegemonia do PT. Renova, assim, o seu mandato de oposição e de alternativa de poder, essencial para a democracia.
O crescimento modesto do PT, mesmo contando São Paulo, onde usaram durante a campanha antigos costumes da política brasileira, como o loteamento de cargos federais (Maluf e Marta Suplicy), tornou mais distante o sonho lulopetista.
A campanha também serviu para comprovar o viés antidemocrático desse projeto. O desafio arrogante ao STF, como a reação aos votos dos magistrados e as declarações que chegavam a falar em golpe das "elites" e da mídia às instituições, mostram a recusa em admitir os erros do passado e a disposição de repeti-los.
A presença da presidente Dilma nas manifestações eleitorais, procurando transmitir a ideia de que, eleitos os seus preferidos, os eleitores teriam um melhor atendimento, agrediu os princípios constitucionais da igualdade dos cidadãos e de liberdade de expressão de suas vontades. Mostrou a verdadeira face da presidente, que sucumbiu às pressões políticas de seu criador e de seus companheiros de partido.
Além disso, há a percepção, ainda que tênue, de que a economia tem um desempenho medíocre.
A máquina estatal, dominada e aparelhada pelo PT e seus aliados de ocasião, não presta os serviços demandados pela população nem consegue realizar os investimentos necessários ao desenvolvimento.
No drama do ser ou não ser, Dilma não consegue definir um modelo de desenvolvimento que supere o fisiologismo e os velhos preconceitos ideológicos do seu partido contra a participação de capitais privados no desenvolvimento da nossa infraestrutura. Os apagões de energia elétrica, nas rodovias, nas ferrovias, nos portos e nos aeroportos estão aí para comprovar.
A confiança renovada no PSDB de parte expressiva do eleitorado aumenta a sua responsabilidade de oferecer uma alternativa progressista e democrática de desenvolvimento do país. Temos valores que julgamos essenciais para uma vida em sociedade e uma visão do mundo e do país que julgamos mais democrática, articulada e contemporânea do que a dos nossos adversários.
O PSDB precisa reforçar a sua estrutura partidária, trabalhar junto à sociedade, captar os seus anseios e suas demandas, construir propostas que possam se traduzir em melhoria das condições de vida do nosso povo, daqueles que verdadeiramente necessitam do poder público para enfrentar as dificuldades.
Lula no seu labirinto - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 02\11
O julgamento do mensalão, que se encaminha para seu fim com a definição das penas dos condenados após o STF ter decidido que houve, sim, desvio de verba pública para compra de apoios políticos, clareou o cenário para a discussão sobre se o ex-presidente Lula sabia ou não do que ocorria “entre quatro paredes” no Palácio do Planalto, o aspecto mais delicado politicamente desse processo.
Desde que estourou o escândalo do mensalão, em 2005, muitas vezes surgiu a insinuação de que o então presidente Lula sabia de toda a trama, como quando se atribuiu ao próprio José Dirceu a afirmação, jamais desmentida, de que não fazia nada sem que Lula não autorizasse. Nos últimos dias, entrevistas, declarações diretas ou atribuídas a participantes do esquema revelam novos detalhes, todos convergindo no sentido de afirmar que o ex-presidente foi parte ativa do esquema do mensalão.
O publicitário Marcos Valério, em depoimento ao Ministério Público, acusou Lula de ser o responsável pelo esquema do mensalão e acrescentou no rol dos envolvidos não julgados neste processo do STF o ex-ministro Antonio Palocci. Valério pede os benefícios da delação premiada, diz-se ameaçado de morte e está pedindo sua inclusão no serviço de proteção às testemunhas.
Ex-mulher de Dirceu, Clara Becker disse à repórter do “Estadão” Débora Bergamasco que tanto ele quanto José Genoino “estão pagando pelo Lula”. E lançou a pergunta que está no ar há sete anos: “Ou você acha que o Lula não sabia das coisas, se é que houve alguma coisa errada? Eles assumiram os compromissos e estão se sacrificando.” Difícil crer que a mulher que viveu com Carlos Henrique, a persona vivida por Dirceu no interior do Paraná, sua amiga até hoje, mãe do deputado federal Zeca Dirceu, declare isso sem conhecimento de causa e, sobretudo, sem a autorização do próprio.
A revista “Veja” tem em seu poder entrevista gravada em que Marcos Valério diz que Lula é o verdadeiro chefe por trás do esquema do mensalão. Nessa entrevista, cujos detalhes mais importantes a revista publicou atribuindo a comentários de Valério com seus amigos, o publicitário fala da morte do prefeito Celso Daniel, episódio que também teria abordado no seu depoimento ao Ministério Público Federal (MPF). Essa parte, a revista ainda não revelou, pois considerou que se tratava de assunto de que Valério não participou diretamente, sendo suas denúncias fruto do que ouviu dizer.
No próprio julgamento, o advogado Luiz Francisco Barbosa, que defende Roberto Jefferson, acusou o ex-presidente Lula de ser o verdadeiro mandante dos crimes. Ele se baseou na tese do “domínio do fato”, que levou o procuradorgeral a acusar o ex-ministro José Dirceu como o “chefe da quadrilha”, e garantiu que os ministros envolvidos “eram apenas agentes de Lula”. A repercussão dessa denúncia só foi neutralizada devido à posição dúbia de Roberto Jefferson, que acusou e defendeu Lula ao longo destes sete anos.
Da mesma forma, o advogado Marcelo Leonardo, que defende Valério, apresentou um memorial afirmando que seu cliente foi o bode expiatório de um esquema que tinha outros líderes, insinuando que entre eles estava o ex-presidente Lula.
Com o depoimento de Valério ao MPF, abre-se a perspectiva de uma investigação sobre a participação de Lula nos episódios. Os partidos de oposição anunciaram uma representação na Procuradoria pedindo essa investigação, pois Lula, tendo sido o principal beneficiário do esquema criminoso, pode estar envolvido, e “todos os brasileiros querem saber se ele teria sido o seu mandante também. Essa pergunta precisa de resposta”, na afirmação do presidente do PPS, Roberto Freire.
O tema saiu da redoma que o protegia há sete anos e está colocado publicamente. Seria bom se Lula viesse a público dar a sua versão dos fatos, em vez de querer negá-los. Mas teria que ser uma versão definitiva, com começo, meio e fim, e não as versões desencontradas que vem dando ao longo desse tempo, quando já vestiu a roupa de traído, já pediu desculpas “pelos graves erros cometidos”, já disse que se tratava de caixa dois e, por fim, prometeu provar que tudo não passara de uma “farsa” cujo objetivo final seria a sua deposição.
Renovar é relativo - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 02\11
Não é só no PSDB que há resistência à conjugação do verbo renovar. José Serra reagiu ao alerta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a necessidade de o partido apostar em nomes novos dizendo que essa agenda "é do PT".
Mas entre petistas também há oposição à ideia sob o argumento de que ela serviu para o caso de São Paulo, mas não necessariamente deve ser uma regra aplicada ao partido como um todo.
O deputado Cândido Vaccarezza, por exemplo, andou dizendo que a "renovação" foi mal entendida. O que era uma estratégia eleitoral acabou sendo vista como um princípio a ser observado.
O presidente da Câmara, Marco Maia, numa frase desvenda as razões da resistência: "Se for conferir nas bases, há manutenção de poder das antigas lideranças".
Quer dizer, não é assim de estalo que se removem raízes há muito tempo plantadas. Inclusive porque novo não significa necessariamente bom, muito menos é prudente menosprezar o valor da experiência e o poder do apego de quem tem seus espaços consolidados.
A respeito disso o DEM tem muito a contar sobre sua radical e malsucedida manobra de mudança, quando achou que abandonaria a sigla PFL, afastaria a velha direção e estaria tudo resolvido.
O experimento revelou-se no geral desastroso, não obstante venha da nova geração um êxito significativo do partido nessa eleição, com ACM Neto em Salvador aos 33 anos, caçula dos novos prefeitos.
Comprovando a relatividade dos fatos, porém, o outro eleito pelo DEM foi o veteraníssimo João Alves, novo prefeito de Aracaju aos 71 anos, o mais velho dos 26 vitoriosos nas capitais.
Em favor dos "renovadores" note-se que o eleitorado corroborou a tese. A taxa de reeleição foi a mais baixa desde o advento da renovação de mandatos: das 85 maiores cidades do País, os atuais prefeitos perderam em 50, sendo que nas capitais apenas seis foram reeleitos.
Se o critério for de idade - que objetivamente não serve para nada, mas compõe o quadro -, 56% dos 26 eleitos nas cidades-sede dos Estados têm menos de 50 anos.
Dado mais consistente diz respeito à influência dos governadores: apenas nove obtiveram sucesso.
Significa que ao menos nas grandes cidades o peso da máquina não é páreo para a vontade autônoma do dono do voto.
Tom maior. O senador Álvaro Dias não está entre os tucanos que usam o bom desempenho do PSDB em algumas localidades, notadamente do Norte e Nordeste, para evitar publicamente a autocrítica.
Celebra os êxitos, mas também pondera que o partido deve tirar lições de resultados adversos, com destaque para São Paulo e Paraná.
Ele não acha que o caminho seja a renovação pura e simples. "Nossa ação é que precisa ser mais contundente", diagnostica e conclui: "Com esse discurso morno não vamos a lugar algum".
Risca de giz. Confirmada a vitória de Fernando Haddad, o prefeito Gilberto Kassab telefonou para a cúpula do PT a fim de deixar patente que a alegada lealdade a José Serra é página virada.
Não só por isso, mas principalmente pelo conjunto da obra, muita gente no PSDB defende que o partido declare oficialmente Kassab como adversário.
O problema é quando, como e se os tucanos farão mesmo essa demarcação de terreno. Vai depender da construção de um difícil entendimento interno.
Troca de guarda. A direção nacional do PSDB olha o pífio e há tempos decrescente desempenho do partido no Rio de Janeiro e conclui que não pode enfrentar mais uma eleição sem uma reformulação completa na seção regional do terceiro maior colégio eleitoral do País.
A pilota sumiu - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 02\11
BRASÍLIA - Já que hoje é feriado, às vésperas das férias, do Natal e do Ano-Novo (mais Copa e Olimpíada), é bom lembrar que o momento é muito propício para novos caos aéreos à la governo Lula.
A data-base dos aeronautas (tripulantes) e dos aeroviários (pessoal que trabalha em terra) é justamente dezembro. Significa que todo santo ano, nesta época, há pressões, ameaças de greve ou mesmo greves. Obviamente, um estresse num setor muitíssimo sensível.
Famílias inteiras de malas prontas, pagando as passagens em nada suaves prestações mensais, com expectativas enormes de férias, e lá vem o banho de água fria com a possibilidade de o voo atrasar, ou simplesmente não decolar, e de ficar horas em aeroportos ultrapassados e desconfortáveis. Um inferno.
As companhias pressionam para mudar a data-base salarial para abril, como forma de distensionar um momento que já é naturalmente tenso na operação da aviação civil. Mas os sindicatos e as associações nem querem ouvir falar nisso, para não perderem poder de pressão. Negociar com ameaça de avião em solo em novembro e dezembro é uma coisa, já em março e abril, outra completamente diferente. E as companhias pintam e bordam.
Quem deveria mediar a questão, que envolve não apenas patrões e empregados, mas milhões de passageiros que cada vez mais voam por aí, deveriam ser os órgãos responsáveis. Mas a gente nunca sabe exatamente quais são, onde estão, o que fazem. Falta comando.
Ao mesmo tempo em que faliram Varig, Transbrasil e Vasp, aumentou fantasticamente o número de usuários. Ou seja, diminuiu o número de companhias e aumentou a demanda. Logo, os problemas.
O duopólio, na prática, e o rígido limite da presença estrangeira no setor talvez não sejam a melhor solução. É preciso mapear o setor, identificar gargalos, abusos, acertos e erros. Para poder planejar.
BRASÍLIA - Já que hoje é feriado, às vésperas das férias, do Natal e do Ano-Novo (mais Copa e Olimpíada), é bom lembrar que o momento é muito propício para novos caos aéreos à la governo Lula.
A data-base dos aeronautas (tripulantes) e dos aeroviários (pessoal que trabalha em terra) é justamente dezembro. Significa que todo santo ano, nesta época, há pressões, ameaças de greve ou mesmo greves. Obviamente, um estresse num setor muitíssimo sensível.
Famílias inteiras de malas prontas, pagando as passagens em nada suaves prestações mensais, com expectativas enormes de férias, e lá vem o banho de água fria com a possibilidade de o voo atrasar, ou simplesmente não decolar, e de ficar horas em aeroportos ultrapassados e desconfortáveis. Um inferno.
As companhias pressionam para mudar a data-base salarial para abril, como forma de distensionar um momento que já é naturalmente tenso na operação da aviação civil. Mas os sindicatos e as associações nem querem ouvir falar nisso, para não perderem poder de pressão. Negociar com ameaça de avião em solo em novembro e dezembro é uma coisa, já em março e abril, outra completamente diferente. E as companhias pintam e bordam.
Quem deveria mediar a questão, que envolve não apenas patrões e empregados, mas milhões de passageiros que cada vez mais voam por aí, deveriam ser os órgãos responsáveis. Mas a gente nunca sabe exatamente quais são, onde estão, o que fazem. Falta comando.
Ao mesmo tempo em que faliram Varig, Transbrasil e Vasp, aumentou fantasticamente o número de usuários. Ou seja, diminuiu o número de companhias e aumentou a demanda. Logo, os problemas.
O duopólio, na prática, e o rígido limite da presença estrangeira no setor talvez não sejam a melhor solução. É preciso mapear o setor, identificar gargalos, abusos, acertos e erros. Para poder planejar.
Dívida de SP não pode ser tratada como exceção - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 02\11
Estados e grandes municípios brasileiros estavam tecnicamente quebrados no fim dos anos 90, em função de elevado endividamento. Dois difíceis processos de renegociação (o segundo já na Era do real) evitaram o pior.
O Tesouro absorveu dívidas estaduais e municipais, em troca da emissão de títulos federais, de fácil aceitação nos mercados financeiros. Em troca, os entes federativos que renegociaram o envidamento se comprometeram a quitá-lo em trinta e cinco anos, atrelando as prestações a um percentual (13%) de suas receitas líquidas disponíveis. Estados e municípios que pagaram inicialmente o correspondente a 20% do valor da dívida foram beneficiados por taxas de juros mais baixas. Foi a maneira que o governo federal encontrou na época para obrigar governadores e prefeitos a se desfazerem de bens pouco produtivos, de empresas estatais e bancos que haviam se tornado fontes de déficit e prejuízos, além de os estimularem a promover programas de concessão de serviços públicos, nos quais perpetuavam uma gestão ineficiente.
A renegociação dessas dívidas foi importante passo para reorganização das finanças públicas, fundamental para o êxito no programa de estabilização monetária que estava em curso. Mas ainda hoje governadores e prefeitos de grandes municípios se queixam das condições de pagamento.
Vários entes federativos recuperaram alguma capacidade de investimento ou obtiveram folga para realizar operações financeiras capazes de reduzir a dívida com o Tesouro (como aconteceu com a prefeitura do Rio de Janeiro).
O estado de São Paulo ainda acumula a maior dívida nominal com a União, mas em um patamar que já lhe possibilita contratar novos créditos e executar investimentos.
No caso do município de São Paulo, isso não ocorreu. Sem patrimônio para quitar originalmente 20% do valor do débito, a cidade de São Paulo teve de aceitar taxas de juros elevadas na renegociação.
O PT reconquistou a prefeitura paulistana e teme-se agora que o governo da companheira Dilma abra uma outra renegociação para a dívida do município, de modo a assegurar folga financeira à futura administração de Fernando Haddad. Duas questões:
1) o Tesouro não se encontra em situação fiscal favorável no momento, pois o superávit primário vem encolhendo mês a mês, e tudo que o país precisa evitar agora é um desequilíbrio semelhante ao que empurrou os Estados Unidos e parte da Europa para a grave crise em que mergulharam; 2) atualizações e aperfeiçoamentos da renegociação que atendam a peculiaridades dos entes federativos são válidos, mas não como exceções, porque qualquer benefício teria que ser estendido aos demais entes, especialmente aqueles que fizeram enorme esforço para se ajustar.
PT na encruzilhada - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 02\11
Atitudes distintas sobre o julgamento do mensalão se confrontam na cúpula do partido, que adia manifesto em defesa dos condenados
Têm sido muito desencontradas as reações das lideranças petistas ao que já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no caso do mensalão.
Condenados os principais personagens do esquema, depois de exaustivo debate entre os magistrados -muitos dos quais nomeados pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva-, convivem dentro do PT duas formas distintas de lidar com a notícia.
De um lado, investindo talvez na imagem de um "novo PT", alguns nomes do partido se resignam aos acontecimentos. A ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, destacou-se entre os que defendem tal atitude.
"Podemos gostar ou não de como as coisas se dão", declarou, "mas nós temos de respeitar resultados e instituições."
Em direção oposta, surge com particular estridência a voz de Rui Falcão, presidente nacional do PT. Defendeu que José Genoino, mesmo condenado pelo STF, tome posse como deputado na Câmara. Acusa a imprensa de influenciar indevidamente as decisões do Supremo. Já reivindicou a abertura de uma CPI para investigar "os autores da farsa do mensalão".
Continuaria nesse teor, não tivesse o momento eleitoral recomendado maior prudência, durante a campanha, e algum alívio, agora, quando o resultado das urnas relativiza o impacto do julgamento sobre o desempenho eleitoral do partido.
A vitória de Fernando Haddad em São Paulo soma-se a alguns episódios eleitorais não destituídos de ironia. No Paraná de Gleisi Hoffmann, o ex-tucano Gustavo Fruet, presença notável na CPI que tratou do mensalão, elege-se prefeito de Curitiba pela legenda do PDT -com apoio do Planalto.
Os interesses da acomodação tendem a predominar sobre o espírito que parecia orientar o prometido manifesto do PT contra o julgamento. Sua divulgação, anunciada para ontem, sofreu adiamento.
É verdade que a direção partidária, mais do que se recusar a qualquer autocrítica, sempre insistiu em prestigiar os envolvidos no escândalo, em atitudes que vão desde o respeito reverencial a José Dirceu até o fraternal carinho com Delúbio Soares, a quem se escolheu, como se sabe, para arcar com uma pesada cota de sacrifício.
Só se quiser prolongar ainda mais o desgaste, todavia, a direção petista decidirá apostar em medidas extremas, como denunciar o STF como "tribunal de exceção" em organismos internacionais.
Entre contentar setores mais inconformados da militância e seguir a linha prudente que tem sido a tônica do atual governo, o PT terá de fazer a sua opção.
Nesse partido, o cinismo, o ridículo, a cegueira sectária convivem, como é notório, com a visão pragmática das coisas -mais fácil de ser mantida, naturalmente, quando há novas prefeituras, novas alianças e novos nomes para continuar as políticas de sempre
Atitudes distintas sobre o julgamento do mensalão se confrontam na cúpula do partido, que adia manifesto em defesa dos condenados
Têm sido muito desencontradas as reações das lideranças petistas ao que já foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no caso do mensalão.
Condenados os principais personagens do esquema, depois de exaustivo debate entre os magistrados -muitos dos quais nomeados pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva-, convivem dentro do PT duas formas distintas de lidar com a notícia.
De um lado, investindo talvez na imagem de um "novo PT", alguns nomes do partido se resignam aos acontecimentos. A ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, destacou-se entre os que defendem tal atitude.
"Podemos gostar ou não de como as coisas se dão", declarou, "mas nós temos de respeitar resultados e instituições."
Em direção oposta, surge com particular estridência a voz de Rui Falcão, presidente nacional do PT. Defendeu que José Genoino, mesmo condenado pelo STF, tome posse como deputado na Câmara. Acusa a imprensa de influenciar indevidamente as decisões do Supremo. Já reivindicou a abertura de uma CPI para investigar "os autores da farsa do mensalão".
Continuaria nesse teor, não tivesse o momento eleitoral recomendado maior prudência, durante a campanha, e algum alívio, agora, quando o resultado das urnas relativiza o impacto do julgamento sobre o desempenho eleitoral do partido.
A vitória de Fernando Haddad em São Paulo soma-se a alguns episódios eleitorais não destituídos de ironia. No Paraná de Gleisi Hoffmann, o ex-tucano Gustavo Fruet, presença notável na CPI que tratou do mensalão, elege-se prefeito de Curitiba pela legenda do PDT -com apoio do Planalto.
Os interesses da acomodação tendem a predominar sobre o espírito que parecia orientar o prometido manifesto do PT contra o julgamento. Sua divulgação, anunciada para ontem, sofreu adiamento.
É verdade que a direção partidária, mais do que se recusar a qualquer autocrítica, sempre insistiu em prestigiar os envolvidos no escândalo, em atitudes que vão desde o respeito reverencial a José Dirceu até o fraternal carinho com Delúbio Soares, a quem se escolheu, como se sabe, para arcar com uma pesada cota de sacrifício.
Só se quiser prolongar ainda mais o desgaste, todavia, a direção petista decidirá apostar em medidas extremas, como denunciar o STF como "tribunal de exceção" em organismos internacionais.
Entre contentar setores mais inconformados da militância e seguir a linha prudente que tem sido a tônica do atual governo, o PT terá de fazer a sua opção.
Nesse partido, o cinismo, o ridículo, a cegueira sectária convivem, como é notório, com a visão pragmática das coisas -mais fácil de ser mantida, naturalmente, quando há novas prefeituras, novas alianças e novos nomes para continuar as políticas de sempre
Proposta indecente - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 02\11
O governo federal pretende propor ao governo de São Paulo a ocupação militar da Favela de Paraisópolis, onde atuam chefes do PCC, principal organização criminosa do Estado. Conforme afirmou a titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Regina Miki, a ação seria semelhante à que resultou na "pacificação" do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Trata-se de uma ideia de quem não conhece São Paulo.
O modelo adotado no Rio é o de recuperação de território perdido para o narcotráfico. Para isso, as favelas (chamadas ali de "comunidades") estão sendo ocupadas pela tropa de elite da polícia fluminense, com o apoio das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança Pública, obrigando os bandidos a abandonar o local. Em seguida, instalam-se as já famosas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Não é uma ação que vise prioritariamente a prender traficantes, mas sim restabelecer a presença do Estado em áreas nas quais sua atuação era inviabilizada pelo crime organizado.
Em São Paulo o Estado está presente nas favelas, que não são territórios controlados pelas organizações criminosas. Os chefes do narcotráfico utilizam as favelas como esconderijo e base para sua atuação, mas não se impõem como substitutos do Estado, como acontece nos morros do Rio. Uma vez denunciados pelos moradores, o que ocorre com frequência, esses criminosos são presos.
Nada disso impede a secretária Regina de fazer a "oferta" a São Paulo. "É uma crise. A gente estanca a crise e sai de lá (da favela), porque entende a autonomia e a competência do Estado", afirmou ela ao Estado. "A gente fez isso no Rio. Você faz a dosimetria das forças, analisando cada caso." Regina reconheceu a "expertise em segurança" de São Paulo, mas disse que os policiais estão com "medo por eles e pela família deles", referindo-se aos ataques contra Policiais militares (PMs) na região metropolitana.
A reação do governo paulista foi imediata e dura. Para o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, somente quem não conhece Paraisópolis ou mesmo São Paulo poderia ter feito semelhante proposta. "É uma comunidade de 70 mil habitantes. Temos base da PM funcionando lá dentro, guardas-civis metropolitanos, escolas, postos de saúde e diversos equipamentos", disse Ferreira Pinto. O secretário acusou o governo federal de querer "desconstruir a segurança pública" em São Paulo.
Há um evidente odor político na "oferta" do governo federal a São Paulo. As UPPs, convém lembrar, são uma patente do governador Sérgio Cabral (PMDB), grande aliado do governo petista, e sua suposta eficiência foi festejada a tal ponto que se tornou a principal promessa da campanha presidencial de Dilma Rousseff para a área de segurança. Logo no início do mandato, a presidente incluiu o projeto na segunda fase do PAC, mas, 15 meses depois, a instalação nacional de UPPs foi abandonada, por sua óbvia inviabilidade. Mais do que isso: os cortes no Orçamento federal atingiram o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), e os Estados que decidiram abraçar a ideia das UPPs tiveram de fazê-las com recursos próprios. Na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) precisou passar o chapéu entre empresários para construir as unidades.
Como se nota, a atual situação de confronto com o crime organizado em São Paulo, com o acentuado aumento do número de homicídios, animou o governo Dilma a oferecer a "ajuda" que o próprio Planalto sabe não ser viável. Logo, trata-se de "oportunismo barato", como salientou, corretamente, o secretário Ferreira Pinto.
A crise enfrentada pelos paulistas na segurança pública não pode ser transformada em peça de jogo político, ainda mais quando agentes do Estado são executados sistematicamente por bandidos. Na quinta-feira, mais dois policiais militares à paisana foram mortos em São Paulo, na Favela de Heliópolis, elevando para 88 o número de PMs assassinados apenas neste ano. A exploração dessa onda de terrorismo contra policiais, com inconfessável objetivo político, é simplesmente indecente.
O governo federal pretende propor ao governo de São Paulo a ocupação militar da Favela de Paraisópolis, onde atuam chefes do PCC, principal organização criminosa do Estado. Conforme afirmou a titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Regina Miki, a ação seria semelhante à que resultou na "pacificação" do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em novembro de 2010. Trata-se de uma ideia de quem não conhece São Paulo.
O modelo adotado no Rio é o de recuperação de território perdido para o narcotráfico. Para isso, as favelas (chamadas ali de "comunidades") estão sendo ocupadas pela tropa de elite da polícia fluminense, com o apoio das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança Pública, obrigando os bandidos a abandonar o local. Em seguida, instalam-se as já famosas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Não é uma ação que vise prioritariamente a prender traficantes, mas sim restabelecer a presença do Estado em áreas nas quais sua atuação era inviabilizada pelo crime organizado.
Em São Paulo o Estado está presente nas favelas, que não são territórios controlados pelas organizações criminosas. Os chefes do narcotráfico utilizam as favelas como esconderijo e base para sua atuação, mas não se impõem como substitutos do Estado, como acontece nos morros do Rio. Uma vez denunciados pelos moradores, o que ocorre com frequência, esses criminosos são presos.
Nada disso impede a secretária Regina de fazer a "oferta" a São Paulo. "É uma crise. A gente estanca a crise e sai de lá (da favela), porque entende a autonomia e a competência do Estado", afirmou ela ao Estado. "A gente fez isso no Rio. Você faz a dosimetria das forças, analisando cada caso." Regina reconheceu a "expertise em segurança" de São Paulo, mas disse que os policiais estão com "medo por eles e pela família deles", referindo-se aos ataques contra Policiais militares (PMs) na região metropolitana.
A reação do governo paulista foi imediata e dura. Para o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, somente quem não conhece Paraisópolis ou mesmo São Paulo poderia ter feito semelhante proposta. "É uma comunidade de 70 mil habitantes. Temos base da PM funcionando lá dentro, guardas-civis metropolitanos, escolas, postos de saúde e diversos equipamentos", disse Ferreira Pinto. O secretário acusou o governo federal de querer "desconstruir a segurança pública" em São Paulo.
Há um evidente odor político na "oferta" do governo federal a São Paulo. As UPPs, convém lembrar, são uma patente do governador Sérgio Cabral (PMDB), grande aliado do governo petista, e sua suposta eficiência foi festejada a tal ponto que se tornou a principal promessa da campanha presidencial de Dilma Rousseff para a área de segurança. Logo no início do mandato, a presidente incluiu o projeto na segunda fase do PAC, mas, 15 meses depois, a instalação nacional de UPPs foi abandonada, por sua óbvia inviabilidade. Mais do que isso: os cortes no Orçamento federal atingiram o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), e os Estados que decidiram abraçar a ideia das UPPs tiveram de fazê-las com recursos próprios. Na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) precisou passar o chapéu entre empresários para construir as unidades.
Como se nota, a atual situação de confronto com o crime organizado em São Paulo, com o acentuado aumento do número de homicídios, animou o governo Dilma a oferecer a "ajuda" que o próprio Planalto sabe não ser viável. Logo, trata-se de "oportunismo barato", como salientou, corretamente, o secretário Ferreira Pinto.
A crise enfrentada pelos paulistas na segurança pública não pode ser transformada em peça de jogo político, ainda mais quando agentes do Estado são executados sistematicamente por bandidos. Na quinta-feira, mais dois policiais militares à paisana foram mortos em São Paulo, na Favela de Heliópolis, elevando para 88 o número de PMs assassinados apenas neste ano. A exploração dessa onda de terrorismo contra policiais, com inconfessável objetivo político, é simplesmente indecente.
Enem 2012 - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE S. PAULO - 02\11
SÃO PAULO - Espero que tudo dê certo com o Enem 2012, que acontece amanhã e depois. Não será surpresa, porém, se se registrarem problemas, como ocorreu nas três versões anteriores do exame. Não digo isso por crer em destino ou numa incompetência intrínseca do Inep. Ao contrário, o órgão é tecnicamente muito bom. O que motiva a apreensão é a escala ciclópica do teste.
O número de inscritos se aproxima dos 6,5 milhões. Se 5 milhões de fato fizerem as provas, basta que haja falhas em 0,2% delas para criar uma legião de 10 mil examinandos justificadamente furiosos que encontrarão uma imprensa ávida para relatar seus dissabores. E 0,2% não seria uma marca absurda. A título de comparação, no primeiro turno das eleições, sempre vistas como um caso bem-sucedido de logística, 0,55% das urnas eletrônicas apresentaram problemas e tiveram de ser substituídas. A diferença é que dificuldades na votação são resolvidas na hora com a troca da urna ou o sufrágio manual, mas as no teste, não.
O que me incomoda nessa história é que, independentemente de problemas, o MEC vem desperdiçando chances de aprimorar de forma significativa o Enem. Esse tipo de exame se baseia numa metodologia, a TRI, que permite comparar alunos que se submeteram a provas diferentes. Assim, seria possível promover várias edições do exame por ano. É o que ocorre com o SAT, o equivalente norte-americano do Enem.
Além de facilitar a logística e reduzir o impacto de falhas, o recurso a múltiplas sessões aliviaria a pressão psicológica que pesa sobre os alunos, que, no modelo atual, concentram em dois dias a definição sobre o próximo ano de suas vidas. Se houvesse mais de uma edição, quem não se saiu bem teria a oportunidade de tentar de novo alguns meses depois. Com isso, o próprio processo de seleção se tornaria mais preciso e justo. É pena que o MEC até hoje não tenha dado esse passo óbvio.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Quem diz que a CPI não trabalhou é porque não quer trabalhar”
Deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira, cujo trabalho está pronto
MJ JÁ NÃO MONITORA TORCIDAS ORGANIZADAS EM SP
Travando guerra particular com os tucanos da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em razão dos ataques a policiais militares, os petistas do Ministério da Justiça não parecem interessados nas ações marginais que atormentam os paulistas. O MJ extinguiu o grupo de trabalho que fora designado para monitorar as torcidas organizadas, que se transformaram em abrigo para delinquentes e gente dessa laia.
TE VIRA, MALANDRO
A extinção do grupo de monitoramento de torcidas organizadas foi só mais um lance da operação “te vira, tucano”, no Ministério da Justiça.
É A ELEIÇÃO, CIDADÃO
O bate-boca do secretário de Segurança paulista com o ministro da Justiça faz parte da briga PSDB x PT pelo governo paulista, em 2014.
ELE MENTIU
O secretário de segurança de São Paulo foi pego na mentira, quando jurou não haver recebido oferecimento de ajuda do governo federal.
ELE TAMBÉM
Enquanto o Ministério da Justiça e o governo de São Paulo trocam farpas, 88 famílias choram seus mortos, todos policiais militares.
EX-DEPUTADO NEGA NEGÓCIO COM NAVIOS ITALIANOS
O ex-deputado Mauro Campos, presidente do estaleiro Rio Nave, negou ontem que tenham prosperado as negociações de parceria com a estatal italiana Finmeccania para participar da licitação do governo brasileiro que pretendia comprar fragatas ou navios patrulha. Ele de fato foi procurado com esse objetivo, mas declinou da parceria porque seu estaleiro não teria condições de produzir embarcações militares.
DELAÇÃO
Investigado pelo Ministério Público italiano, o ex-diretor da estatal Finmeccania Giuseppe Bono implicou brasileiros nas irregularidades.
COMISSÃO
Giuseppe Bono disse ter ouvido de mediadores brasileiros a insinuação de comissão de 3% sobre o negócio de 2,5 milhões de euros.
NÃO DEU CERTO
Mauro Campos admite que depois os italianos manifestaram interesse em adquirir participação em seu estaleiro, o que também não evoluiu.
DEBANDADA
Petistas de São Paulo atraídos pelos cargos na prefeitura de BH, de Márcio Lacerda, e no governo de Agnelo Queiroz, no DF, arrumam as malas para a caça de cargos na prefeitura de Fernando Haddad.
EXAGEROU
O deputado Francisco Praciano (PT-AM) explica a derrota, de lavada, da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) na disputa contra Artur Neto (PSDB) à prefeitura de Manaus: “Ela ficou governista demais”.
OLHO EM 2014
Com o enfraquecimento do governador Ricardo Coutinho, que não conseguiu eleger prefeito em João Pessoa, o PSDB já prepara a candidatura do senador Cássio Cunha Lima ao governo da Paraíba.
DURA LEX, SED LEX
O Superior Tribunal Militar condenou um capitão de corveta a mais de 5 anos de prisão, pelos crimes de peculato e estelionato. Pagou R$ 2.300 em contas de luz, água e telefone com dinheiro público, em Belém.
QUESTÃO DE JUSTIÇA
A deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AM) se empenha pela medida provisória equiparando salários dos chamados “soldados da borracha” na 2 Guerra aos de subtenentes do Exército. O pai, com 90 anos, foi soldado da borracha: “A Justiça tarda, mas não falha”, comemorou.
CAFÉ ‘PEQUENO’
O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) apresentará texto paralelo ao relatório da CPI do Cachoeira indiciando o esquema da Delta: “O Cachoeira é café pequeno”, diz o ex-delegado.
SANGUE NOS OLHOS
Apesar dos fortes efeitos da quimioterapia contra câncer no estômago, o governador Marcelo Déda tem procurado empresários e políticos para pedir a aprovação dos R$ 727 milhões do Proinvest para Sergipe.
JURISTA ALEMÃO
Um dos mais importantes juristas do direito penal alemão, Claus Roxin, professor emérito da Universidade de Munique, está em visita ao Brasil e ficará no Rio de Janeiro até esta sexta. Ele é doutor honoris causa em 17 universidades no mundo. Nesta quinta, ele visitou a OAB-RJ.
MUITO VIVOS
Fiel às raízes pré-hispânicas, Cuba celebra hoje o “Dia dos Mortos” à moda da célebre festa mexicana. Mas é proibido se fantasiar de Fidel.
PODER SEM PUDOR
FAGULHA NO OLHO
Coronel Toniquinho Pereira era chefe político em Itapetininga (SP), quando se viu obrigado a receber o governador - seu adversário - na estação ferroviária de Iperó. Cheio de má vontade, assim que o trem chegou à estação, Toniquinho foi logo reclamando do chefe da estação:
- Entrou uma fagulha no meu olho...
- O trem é elétrico, coronel. Não solta fagulha.
- Então foi um quilowatt.
Deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI do Cachoeira, cujo trabalho está pronto
MJ JÁ NÃO MONITORA TORCIDAS ORGANIZADAS EM SP
Travando guerra particular com os tucanos da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em razão dos ataques a policiais militares, os petistas do Ministério da Justiça não parecem interessados nas ações marginais que atormentam os paulistas. O MJ extinguiu o grupo de trabalho que fora designado para monitorar as torcidas organizadas, que se transformaram em abrigo para delinquentes e gente dessa laia.
TE VIRA, MALANDRO
A extinção do grupo de monitoramento de torcidas organizadas foi só mais um lance da operação “te vira, tucano”, no Ministério da Justiça.
É A ELEIÇÃO, CIDADÃO
O bate-boca do secretário de Segurança paulista com o ministro da Justiça faz parte da briga PSDB x PT pelo governo paulista, em 2014.
ELE MENTIU
O secretário de segurança de São Paulo foi pego na mentira, quando jurou não haver recebido oferecimento de ajuda do governo federal.
ELE TAMBÉM
Enquanto o Ministério da Justiça e o governo de São Paulo trocam farpas, 88 famílias choram seus mortos, todos policiais militares.
EX-DEPUTADO NEGA NEGÓCIO COM NAVIOS ITALIANOS
O ex-deputado Mauro Campos, presidente do estaleiro Rio Nave, negou ontem que tenham prosperado as negociações de parceria com a estatal italiana Finmeccania para participar da licitação do governo brasileiro que pretendia comprar fragatas ou navios patrulha. Ele de fato foi procurado com esse objetivo, mas declinou da parceria porque seu estaleiro não teria condições de produzir embarcações militares.
DELAÇÃO
Investigado pelo Ministério Público italiano, o ex-diretor da estatal Finmeccania Giuseppe Bono implicou brasileiros nas irregularidades.
COMISSÃO
Giuseppe Bono disse ter ouvido de mediadores brasileiros a insinuação de comissão de 3% sobre o negócio de 2,5 milhões de euros.
NÃO DEU CERTO
Mauro Campos admite que depois os italianos manifestaram interesse em adquirir participação em seu estaleiro, o que também não evoluiu.
DEBANDADA
Petistas de São Paulo atraídos pelos cargos na prefeitura de BH, de Márcio Lacerda, e no governo de Agnelo Queiroz, no DF, arrumam as malas para a caça de cargos na prefeitura de Fernando Haddad.
EXAGEROU
O deputado Francisco Praciano (PT-AM) explica a derrota, de lavada, da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) na disputa contra Artur Neto (PSDB) à prefeitura de Manaus: “Ela ficou governista demais”.
OLHO EM 2014
Com o enfraquecimento do governador Ricardo Coutinho, que não conseguiu eleger prefeito em João Pessoa, o PSDB já prepara a candidatura do senador Cássio Cunha Lima ao governo da Paraíba.
DURA LEX, SED LEX
O Superior Tribunal Militar condenou um capitão de corveta a mais de 5 anos de prisão, pelos crimes de peculato e estelionato. Pagou R$ 2.300 em contas de luz, água e telefone com dinheiro público, em Belém.
QUESTÃO DE JUSTIÇA
A deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AM) se empenha pela medida provisória equiparando salários dos chamados “soldados da borracha” na 2 Guerra aos de subtenentes do Exército. O pai, com 90 anos, foi soldado da borracha: “A Justiça tarda, mas não falha”, comemorou.
CAFÉ ‘PEQUENO’
O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) apresentará texto paralelo ao relatório da CPI do Cachoeira indiciando o esquema da Delta: “O Cachoeira é café pequeno”, diz o ex-delegado.
SANGUE NOS OLHOS
Apesar dos fortes efeitos da quimioterapia contra câncer no estômago, o governador Marcelo Déda tem procurado empresários e políticos para pedir a aprovação dos R$ 727 milhões do Proinvest para Sergipe.
JURISTA ALEMÃO
Um dos mais importantes juristas do direito penal alemão, Claus Roxin, professor emérito da Universidade de Munique, está em visita ao Brasil e ficará no Rio de Janeiro até esta sexta. Ele é doutor honoris causa em 17 universidades no mundo. Nesta quinta, ele visitou a OAB-RJ.
MUITO VIVOS
Fiel às raízes pré-hispânicas, Cuba celebra hoje o “Dia dos Mortos” à moda da célebre festa mexicana. Mas é proibido se fantasiar de Fidel.
PODER SEM PUDOR
FAGULHA NO OLHO
Coronel Toniquinho Pereira era chefe político em Itapetininga (SP), quando se viu obrigado a receber o governador - seu adversário - na estação ferroviária de Iperó. Cheio de má vontade, assim que o trem chegou à estação, Toniquinho foi logo reclamando do chefe da estação:
- Entrou uma fagulha no meu olho...
- O trem é elétrico, coronel. Não solta fagulha.
- Então foi um quilowatt.
SEXTA NOS JORNAIS
- Globo: Prefeitura quer mudar lei ambiental para 2016
- Folha: Dilma e Alckmin acertam acordo contra violência
- Estadão: Dilma e Alckmin farão plano contra violência
- Estado de Minas: Um guia para enfrentar o Enem
- Zero Hora: Cinco motivos para levar o Enem a sério
- Correio Braziliense: PF investiga concurso da Receita
quinta-feira, novembro 01, 2012
Crime e castigo - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 01/11
A CBF estuda uma forma de obrigar os clubes a não atrasarem os salários dos jogadores.
O modelo, em vigor em países da Europa e, embrionariamente, no Campeonato Paulista, prevê que o clube perderá ponto se não honrar seus compromissos trabalhistas.
Em tempo...
Roberto Dinamite, presidente do Vasco, foi infeliz ao tentar justificar os atrasos de salário, dizendo: “Fui atleta 20 anos e nunca recebi em dia.”
Todo trabalhador tem direito a receber em dia — notadamente, numa área que movimenta tantos milhões. Francamente.
Coleguinhas
A CBF estima em 800 o número de jornalistas que vão estar em Goiânia durante a preparação da seleção de Mano Menezes para a Copa das Confederações.
PIB da favela
Em dez anos, a classe média brasileira passou de 38% para 53% da população.
Já nas principais favelas do país, o
salto foi bem maior: de 29% para 56%.
Poder de compra...
Esses favelados dispõem de R$ 38 bilhões por ano para gastar.
As contas, do Data Popular, serão apresentadas pela Cufa dia 12 no I Fórum Novo Brasil: Vozes da Classe Média Brasileira.
Os dois ‘tês’
O TRF do Rio garantiu à rede Mega Matte o direito de usar seus dois “tês”.
É que sua concorrente Matte Leão pleiteava exclusividade sobre a expressão “matte”. Segundo o escritório Dannemann Siemsen, a expressão é genérica, pois identifica a erva-mate, grafada, até o início do século passado, com dois “tês”.
Milhões para Elton
Vem aí um espetáculo de dança com músicas de Elton John, o astro britânico. Vai se chamar “Elton: adeus à estrada de tijolos amarelos” e será apresentado em cinco capitais.
A KBMK Empreendimentos foi autorizada a captar R$ 2.370.621 pela Lei Rouanet, dinheiro meu, seu, nosso.
Chapéu do Chico
O livro “Chapeuzinho amarelo”, de Chico Buarque, vai ganhar nova versão para o teatro.
A peça será dirigida por Zeca Ligiéro e produzida pela Palco 33, autorizada pelo MinC a captar R$ 2.020.160.
Dilma no cinema
Dia 8, Dilma vai assistir, no Alvorada, ao filme “O palhaço”, de Selton Melo, nosso candidato ao Oscar.
Publicidade e cultura
A Petrobras explica: a exigência de que entre 15% e 20% de suas verbas de patrocínio cultural sejam aplicadas pelos contemplados em publicidade e divulgação, conforme nota aqui ontem, deve-se ao fato de a empresa considerar... “a comunicação um item fundamental”.
Ah, bom!
ONDE MORA O PERIGO
Abandonado há mais de 15 anos, este prédio, do antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Trabalhadores em Transportes e Cargas (Iapetec), na Av. Venezuela, no Centro, tornou-se arapuca para centenas de pessoas que passam todo dia por ali. Com oito andares, suas janelasestãoemfrangalhos—easesquadrias,meuDeus,podemvirararmasperigosas.Há vidros quebrados com pontas que lembram adagas. Em janeiro, a Defesa Civil do município removeu uma marquise que ameaçava cair e interditou o edifício. A calçada, porém, não foi isolada. Há pontos finais de ônibus, sempre com muita gente, veja na foto. Alô, Carlos Osório, novo secretário de Transportes! Não seria prudente transferir os pontos para outro lugar?
Investigação reaberta
O MP do Rio vai retomar a investigação da chacina de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, que deixou 13 mortos em 1995.O inquérito tinha sido arquivado em 2009.
O pedido de desarquivamento, feito pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, foi aprovado esta semana pelo procurador-geral de Justiça do Rio, Cláudio Lopes.
Sem piedade
José Beltrame, o xerife do Rio, assinou ontem solicitação ao TJ para que se retirem o posto e a patente do capitão PM Adjaldo Luiz Piedade Júnior.
É aquele, lembra?, que comandava a UPP do Morro de São Carlos até ser afastado e preso, acusado de receber um mensalão de R$15 mil do traficante Peixe.
Automóvel Clube
Deu no DO do Rio. A prefeitura, em caráter emergencial, contratou sem licitação, por R$ 3,2 milhões, a cimenteira Concrejato para obras de manutenção no antigo prédio do Automóvel Clube do Brasil, no Centro.
Adquirido pelo município em 2007, o edifício está até hoje desocupado.
Rouba-se tudo
Comerciantes de Copacabana amanheceram ontem sem telefone.
Segundo a Oi, um cabo que abastece o bairro foi... surrupiado.
Neves com Dilma
Rodrigo Neves, o petista eleito para a prefeitura de Niterói, será recebido hoje por Dilma.
Da safra de prefeitos eleitos no segundo turno, a presidente só recebeu, até agora, Haddad, de São Paulo.
Voando nu
Sexta passada, um piloto de asa delta levou um turista peladão para voar.
A Associação de Voo Livre do Rio deu dez dias de suspensão ao safadinho.
BELEZA COR DE JAMBO
Lucy Ramos, 30 anos, desfila sua formosura num intervalo das gravações de “Salve Jorge”, a novela de Glória Perez. A bela interpreta Sheila, amiga da protagonista Morena (Nanda Costa). Na trama, as duas irão para o exterior e ficarão nas mãos de traficantes de gente
INVASÃO NA PRAIA DO CASSETA
Hélio de la Peña e Maria Melilo vão aparecer assim no “Casseta & Planeta Vai fundo” de amanhã. Nosso humorista será uma formiga que vende biscoito na praia. A toda-toda, um mulherão que busca um marido rico
Ponto Final
Parodiando Drummond, que ontem teria feito 110 anos:
E agora, Dilma? O povo votou,
a luz apagou,
Haddad ganhou, o STF julgou...
E agora, Dilma?
A CBF estuda uma forma de obrigar os clubes a não atrasarem os salários dos jogadores.
O modelo, em vigor em países da Europa e, embrionariamente, no Campeonato Paulista, prevê que o clube perderá ponto se não honrar seus compromissos trabalhistas.
Em tempo...
Roberto Dinamite, presidente do Vasco, foi infeliz ao tentar justificar os atrasos de salário, dizendo: “Fui atleta 20 anos e nunca recebi em dia.”
Todo trabalhador tem direito a receber em dia — notadamente, numa área que movimenta tantos milhões. Francamente.
Coleguinhas
A CBF estima em 800 o número de jornalistas que vão estar em Goiânia durante a preparação da seleção de Mano Menezes para a Copa das Confederações.
PIB da favela
Em dez anos, a classe média brasileira passou de 38% para 53% da população.
Já nas principais favelas do país, o
salto foi bem maior: de 29% para 56%.
Poder de compra...
Esses favelados dispõem de R$ 38 bilhões por ano para gastar.
As contas, do Data Popular, serão apresentadas pela Cufa dia 12 no I Fórum Novo Brasil: Vozes da Classe Média Brasileira.
Os dois ‘tês’
O TRF do Rio garantiu à rede Mega Matte o direito de usar seus dois “tês”.
É que sua concorrente Matte Leão pleiteava exclusividade sobre a expressão “matte”. Segundo o escritório Dannemann Siemsen, a expressão é genérica, pois identifica a erva-mate, grafada, até o início do século passado, com dois “tês”.
Milhões para Elton
Vem aí um espetáculo de dança com músicas de Elton John, o astro britânico. Vai se chamar “Elton: adeus à estrada de tijolos amarelos” e será apresentado em cinco capitais.
A KBMK Empreendimentos foi autorizada a captar R$ 2.370.621 pela Lei Rouanet, dinheiro meu, seu, nosso.
Chapéu do Chico
O livro “Chapeuzinho amarelo”, de Chico Buarque, vai ganhar nova versão para o teatro.
A peça será dirigida por Zeca Ligiéro e produzida pela Palco 33, autorizada pelo MinC a captar R$ 2.020.160.
Dilma no cinema
Dia 8, Dilma vai assistir, no Alvorada, ao filme “O palhaço”, de Selton Melo, nosso candidato ao Oscar.
Publicidade e cultura
A Petrobras explica: a exigência de que entre 15% e 20% de suas verbas de patrocínio cultural sejam aplicadas pelos contemplados em publicidade e divulgação, conforme nota aqui ontem, deve-se ao fato de a empresa considerar... “a comunicação um item fundamental”.
Ah, bom!
ONDE MORA O PERIGO
Abandonado há mais de 15 anos, este prédio, do antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Trabalhadores em Transportes e Cargas (Iapetec), na Av. Venezuela, no Centro, tornou-se arapuca para centenas de pessoas que passam todo dia por ali. Com oito andares, suas janelasestãoemfrangalhos—easesquadrias,meuDeus,podemvirararmasperigosas.Há vidros quebrados com pontas que lembram adagas. Em janeiro, a Defesa Civil do município removeu uma marquise que ameaçava cair e interditou o edifício. A calçada, porém, não foi isolada. Há pontos finais de ônibus, sempre com muita gente, veja na foto. Alô, Carlos Osório, novo secretário de Transportes! Não seria prudente transferir os pontos para outro lugar?
Investigação reaberta
O MP do Rio vai retomar a investigação da chacina de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, que deixou 13 mortos em 1995.O inquérito tinha sido arquivado em 2009.
O pedido de desarquivamento, feito pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, foi aprovado esta semana pelo procurador-geral de Justiça do Rio, Cláudio Lopes.
Sem piedade
José Beltrame, o xerife do Rio, assinou ontem solicitação ao TJ para que se retirem o posto e a patente do capitão PM Adjaldo Luiz Piedade Júnior.
É aquele, lembra?, que comandava a UPP do Morro de São Carlos até ser afastado e preso, acusado de receber um mensalão de R$15 mil do traficante Peixe.
Automóvel Clube
Deu no DO do Rio. A prefeitura, em caráter emergencial, contratou sem licitação, por R$ 3,2 milhões, a cimenteira Concrejato para obras de manutenção no antigo prédio do Automóvel Clube do Brasil, no Centro.
Adquirido pelo município em 2007, o edifício está até hoje desocupado.
Rouba-se tudo
Comerciantes de Copacabana amanheceram ontem sem telefone.
Segundo a Oi, um cabo que abastece o bairro foi... surrupiado.
Neves com Dilma
Rodrigo Neves, o petista eleito para a prefeitura de Niterói, será recebido hoje por Dilma.
Da safra de prefeitos eleitos no segundo turno, a presidente só recebeu, até agora, Haddad, de São Paulo.
Voando nu
Sexta passada, um piloto de asa delta levou um turista peladão para voar.
A Associação de Voo Livre do Rio deu dez dias de suspensão ao safadinho.
BELEZA COR DE JAMBO
Lucy Ramos, 30 anos, desfila sua formosura num intervalo das gravações de “Salve Jorge”, a novela de Glória Perez. A bela interpreta Sheila, amiga da protagonista Morena (Nanda Costa). Na trama, as duas irão para o exterior e ficarão nas mãos de traficantes de gente
INVASÃO NA PRAIA DO CASSETA
Hélio de la Peña e Maria Melilo vão aparecer assim no “Casseta & Planeta Vai fundo” de amanhã. Nosso humorista será uma formiga que vende biscoito na praia. A toda-toda, um mulherão que busca um marido rico
Ponto Final
Parodiando Drummond, que ontem teria feito 110 anos:
E agora, Dilma? O povo votou,
a luz apagou,
Haddad ganhou, o STF julgou...
E agora, Dilma?
A pressão salarial - SÉRGIO AMAD COSTA
O Estado de S.Paulo - 01/11
É de ficar surpreso quando se vê o resultado do balanço das negociações salariais ocorridas no Brasil neste ano. São reajustes, na maioria dos casos, não compatíveis com a realidade econômica, apresentando ganhos num momento em que o País, economicamente, não está crescendo praticamente nada. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), quase a totalidade dos acordos salariais realizados no primeiro semestre de 2012 resultou em aumentos reais para os trabalhadores.
Essa pesquisa mostrou que 96,5% dos 370 reajustes analisados ficaram acima da inflação registrada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do IBGE. Como 3% dos acordos tiveram reajustes iguais aos da inflação no período, apenas 0,5% do total ficou abaixo do índice. Os aumentos foram, em média, 2,23% acima do INPC, superando todos os resultados apresentados desde o início desses estudos, em 1996, não só na média dos ganhos reais, mas também na porcentagem de acordos acima da inflação.
Vale assinalar que até mesmo os resultados apresentados em 2010 foram superados pelos de agora. Naquele ano, quando foi registrado um Produto Interno Bruto (PIB) de 7,5%, o maior desde 1996, o total de acordos que obtiveram reajustes salariais superiores ao INPC foi de 88,2% e os reajustes salariais ficaram, em média, 1,68% acima do índice da inflação.
Na verdade, o que está acontecendo é uma espécie de populismo salarial, decorrente de uma economia fundada agora num paradoxo de quadro de quase pleno emprego com crescimento pífio do PIB, de cerca de 1,5%. Isto é, boa parte das empresas, para reter seus profissionais, concede aumentos salariais que não são justificados nem pelo desempenho nem pela produtividade.
Tal quadro de reajustes, como está sendo realizado, é um risco para a nossa economia. O resultado dessa pressão salarial encarece ainda mais o custo do emprego, gerando a redução da capacidade competitiva das empresas, o desestímulo a novos investimentos e a possibilidade de o número de postos de trabalho diminuir no País.
Os aumentos salariais, da forma como têm sido concedidos, em muitos casos desvinculados do aumento de produtividade e desconectados do contexto do mercado interno e externo, contribuem, também, para o aumento da inflação. Alguém tem de pagar esse desequilíbrio em que os salários se elevam e a produtividade não acompanha tal elevação. E esse alguém somos todos nós, consumidores. Inclusive os próprios trabalhadores que receberam o aumento salarial.
Os dirigentes sindicais deveriam ver, de maneira bem clara, esses riscos acima mencionados. São eles que negociam os reajustes salariais. E, embora muitos deles afirmem que as pautas das negociações são originadas das assembleias de trabalhadores, o fato é que em boa parte dos casos a maioria dos representados não tem a mínima ideia do que acontece no momento da chamada data-base, ou seja, na época do reajuste salarial.
Pelo fato de existir essa distância muito grande entre dirigentes sindicais e seus representados é que vários sindicalistas deveriam pensar seriamente nas consequências que os exageros incluídos na pauta de reivindicações podem ocasionar. Não raro, estão apresentando, até mesmo de forma bem-intencionada, um resultado para os seus representados que no curtíssimo prazo parece ser o melhor, mas que no médio prazo é o pior.
Celso Ming, nesta página (26/10), ao analisar a falta de mão de obra no País, de forma muita oportuna encerrou sua coluna com uma pergunta-chave: "Que acontecerá com o nível de emprego no Brasil se a atividade econômica (PIB), em vez do atual 1,5% ao ano, crescer os 3% a 4%, como conta o governo Dilma?". E eu deixo também uma indagação: Se neste ano, com um crescimento econômico quase nulo, assistimos a essa pressão salarial, como será o nível da pressão em 2013, caso o País volte a ter um avanço respeitável no PIB?
Um sistema interligado hidroeólico para o Brasil - JOAQUIM F. DE CARVALHO e ILDO L. SAUER
Valor Econômico - 01/11
O Brasil dispõe de potenciais hidrelétrico e eólico que lhe abrem a possibilidade de produzir, de forma renovável e sustentável, toda a energia elétrica que consome - e consumirá, quando a população estiver estabilizada em 215 milhões de habitantes, o que, segundo o IBGE, deverá acontecer por volta de 2050.
A interligação dos parques eólicos com a rede hidrelétrica, visando a estruturar um sistema hidroeólico, contribuirá para suavizar a intermitência dos ventos, pois isso permite que se firme a energia eólica mediante a sua "acumulação", por assim dizer, nos reservatórios hidrelétricos, nas épocas de ventos abundantes, para ser usada nas temporadas secas. A interligação dos parques eólicos entre si também contribui para contornar o problema da intermitência dos ventos, por meio do chamado "efeito portfólio", pelo qual, à semelhança de uma carteira de ações na bolsa de valores, a produção conjunta de todos os parques varia menos do que as produções individuais de cada um.
Graças ao seu imenso potencial hidrelétrico - e à possibilidade, ainda existente, de se implantarem grandes reservatórios de acumulação - o Brasil tem uma extraordinária vantagem comparativa em relação à maioria dos países europeus e asiáticos, que são obrigados a apelar para as onerosas e poluentes usinas termelétricas convencionais ou para as antieconômicas centrais nucleares que, ademais, expõem as populações a inaceitáveis riscos de acidentes catastróficos.
Modelo seria sustentável e teria capacidade para cobrir demanda por energia elétrica até 2050
Naturalmente - além de se orientar por critérios técnico-econômicos e ambientais - a implantação de parques eólicos e, principalmente, de novos reservatórios hidrelétricos deve respeitar o direito das populações regionais, particularmente as ribeirinhas, mediante a execução de programas de reassentamento, planejados em cooperação com as lideranças locais.
Entretanto, determinados segmentos da sociedade têm a percepção de que a geração hidrelétrica é invariavelmente deletéria, por causar a "artificialização das bacias hidrográficas". Devido a essa percepção equivocada, o Brasil corre o risco de ser obrigado a imitar países que, não dispondo de vantagens como as brasileiras, têm que apelar para usinas termelétricas convencionais ou nucleares.
Na verdade, os reservatórios hidrelétricos podem ser aproveitados para múltiplas finalidades, tais como regularização de vazões, transporte fluvial, irrigação de grandes áreas visando à produção agrícola, pesca interior, turismo ecológico, etc.
Todos esses usos requerem a preservação das matas ciliares e são ambientalmente benéficos, ao contrário do que supõem os adversários emocionais dos reservatórios hidrelétricos.
Um notável exemplo de uso múltiplo de bacia hidrográfica é o da usina hidrelétrica de Três Marias, originalmente projetada apenas como reservatório de regularização, para irrigar 100 mil hectares do Projeto Jaíba, em Minas Gerais. Esse reservatório (que cobre uma área maior do que o dobro da Baia da Guanabara) é responsável pelo desenvolvimento da outrora paupérrima região nordeste de Minas. A geração hidrelétrica foi apenas uma decorrência de sua construção.
Outro exemplo é o da hidrelétrica de Sobradinho, que permitiu o desenvolvimento do maior polo de fruticultura irrigada do Brasil.
Ainda outros exemplos são algumas hidrelétricas da Light e da Cesp, cujos reservatórios regularizam a vazão da bacia do rio Paraíba do Sul e permitem a captação de água para a região metropolitana do Rio de Janeiro e algumas cidades do trecho paulista daquela bacia.
Um sistema hidroeólico estruturado nas condições brasileiras seria inteiramente sustentável e teria capacidade para cobrir indefinidamente a demanda brasileira por energia elétrica. As usinas térmicas a gás natural já existentes, com suprimento flexível de combustível, seriam acionadas apenas em períodos críticos, servindo como seguro para otimizar a operação do sistema.
Quanto à verdadeira magnitude do potencial eólico brasileiro, cabe assinalar que, em 2001, o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) realizou um inventário, estimando-o em 143 GW.
Estudos mais recentes, promovidos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apontam para um potencial superior a 280 GW. As perspectivas de se inventariar um potencial ainda maior são muito auspiciosas, com a realização de uma rigorosa campanha de medições em todas as regiões promissoras do país - e com os ganhos de escala e aprendizado, resultantes do desenvolvimento tecnológico e da nacionalização da cadeia produtiva eólica.
Por fim, no tocante aos custos da energia elétrica, lembremos que estes se compõem de uma parte fixa, correspondente à amortização do capital investido - e de uma parte administrável, composta pelas despesas necessárias ao funcionamento da usina geradora.
A parte fixa abrange as despesas incorridas na implantação da usina (projetos, equipamentos, construção, montagem e testes), e a parte administrável compreende as despesas de operação e manutenção, seguros, encargos trabalhistas, etc. No caso de usinas nucleares, há também os custos do combustível, do descomissionamento ao fim da vida útil e da administração dos rejeitos radiativos.
Os custos finais devem ser calculados e estabelecidos por meio de negociações entre o poder concedente e o investidor, nas quais entram critérios subjetivos tais como "atratividade" para o investidor e "razoabilidade" para os consumidores; daí o imperativo ético de que o processo seja absolutamente transparente.
Assim, no Brasil, o custo da energia hidrelétrica fica em cerca de R$ 80/MWh, o da eólica em R$ 100/MWh e o da nuclear em R$ 200/MWh.
A interligação dos parques eólicos com a rede hidrelétrica, visando a estruturar um sistema hidroeólico, contribuirá para suavizar a intermitência dos ventos, pois isso permite que se firme a energia eólica mediante a sua "acumulação", por assim dizer, nos reservatórios hidrelétricos, nas épocas de ventos abundantes, para ser usada nas temporadas secas. A interligação dos parques eólicos entre si também contribui para contornar o problema da intermitência dos ventos, por meio do chamado "efeito portfólio", pelo qual, à semelhança de uma carteira de ações na bolsa de valores, a produção conjunta de todos os parques varia menos do que as produções individuais de cada um.
Graças ao seu imenso potencial hidrelétrico - e à possibilidade, ainda existente, de se implantarem grandes reservatórios de acumulação - o Brasil tem uma extraordinária vantagem comparativa em relação à maioria dos países europeus e asiáticos, que são obrigados a apelar para as onerosas e poluentes usinas termelétricas convencionais ou para as antieconômicas centrais nucleares que, ademais, expõem as populações a inaceitáveis riscos de acidentes catastróficos.
Modelo seria sustentável e teria capacidade para cobrir demanda por energia elétrica até 2050
Naturalmente - além de se orientar por critérios técnico-econômicos e ambientais - a implantação de parques eólicos e, principalmente, de novos reservatórios hidrelétricos deve respeitar o direito das populações regionais, particularmente as ribeirinhas, mediante a execução de programas de reassentamento, planejados em cooperação com as lideranças locais.
Entretanto, determinados segmentos da sociedade têm a percepção de que a geração hidrelétrica é invariavelmente deletéria, por causar a "artificialização das bacias hidrográficas". Devido a essa percepção equivocada, o Brasil corre o risco de ser obrigado a imitar países que, não dispondo de vantagens como as brasileiras, têm que apelar para usinas termelétricas convencionais ou nucleares.
Na verdade, os reservatórios hidrelétricos podem ser aproveitados para múltiplas finalidades, tais como regularização de vazões, transporte fluvial, irrigação de grandes áreas visando à produção agrícola, pesca interior, turismo ecológico, etc.
Todos esses usos requerem a preservação das matas ciliares e são ambientalmente benéficos, ao contrário do que supõem os adversários emocionais dos reservatórios hidrelétricos.
Um notável exemplo de uso múltiplo de bacia hidrográfica é o da usina hidrelétrica de Três Marias, originalmente projetada apenas como reservatório de regularização, para irrigar 100 mil hectares do Projeto Jaíba, em Minas Gerais. Esse reservatório (que cobre uma área maior do que o dobro da Baia da Guanabara) é responsável pelo desenvolvimento da outrora paupérrima região nordeste de Minas. A geração hidrelétrica foi apenas uma decorrência de sua construção.
Outro exemplo é o da hidrelétrica de Sobradinho, que permitiu o desenvolvimento do maior polo de fruticultura irrigada do Brasil.
Ainda outros exemplos são algumas hidrelétricas da Light e da Cesp, cujos reservatórios regularizam a vazão da bacia do rio Paraíba do Sul e permitem a captação de água para a região metropolitana do Rio de Janeiro e algumas cidades do trecho paulista daquela bacia.
Um sistema hidroeólico estruturado nas condições brasileiras seria inteiramente sustentável e teria capacidade para cobrir indefinidamente a demanda brasileira por energia elétrica. As usinas térmicas a gás natural já existentes, com suprimento flexível de combustível, seriam acionadas apenas em períodos críticos, servindo como seguro para otimizar a operação do sistema.
Quanto à verdadeira magnitude do potencial eólico brasileiro, cabe assinalar que, em 2001, o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) realizou um inventário, estimando-o em 143 GW.
Estudos mais recentes, promovidos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apontam para um potencial superior a 280 GW. As perspectivas de se inventariar um potencial ainda maior são muito auspiciosas, com a realização de uma rigorosa campanha de medições em todas as regiões promissoras do país - e com os ganhos de escala e aprendizado, resultantes do desenvolvimento tecnológico e da nacionalização da cadeia produtiva eólica.
Por fim, no tocante aos custos da energia elétrica, lembremos que estes se compõem de uma parte fixa, correspondente à amortização do capital investido - e de uma parte administrável, composta pelas despesas necessárias ao funcionamento da usina geradora.
A parte fixa abrange as despesas incorridas na implantação da usina (projetos, equipamentos, construção, montagem e testes), e a parte administrável compreende as despesas de operação e manutenção, seguros, encargos trabalhistas, etc. No caso de usinas nucleares, há também os custos do combustível, do descomissionamento ao fim da vida útil e da administração dos rejeitos radiativos.
Os custos finais devem ser calculados e estabelecidos por meio de negociações entre o poder concedente e o investidor, nas quais entram critérios subjetivos tais como "atratividade" para o investidor e "razoabilidade" para os consumidores; daí o imperativo ético de que o processo seja absolutamente transparente.
Assim, no Brasil, o custo da energia hidrelétrica fica em cerca de R$ 80/MWh, o da eólica em R$ 100/MWh e o da nuclear em R$ 200/MWh.
A volta do perfeito fracassado brasileiro - EDUARDO DE CARVALHO ANDRADE
Folha de S. Paulo - 01/11
Brincar com a inflação no Brasil é um crime, o BC dá cervejinha a um ex-alcoólatra. E favorecer setores da indústria só atende a lobbies, não ao desenvolvimento
Os desenvolvimentistas ficaram longe do comando da política econômica no país da volta das eleições livre até o fim do governo Lula, com exceção do relâmpago governo Itamar e suas políticas pró-fusquinhas.
Nesse período, talvez justamente por causa disso, o país conseguiu realizar dois importantes avanços: econômico, com a estabilidade macroeconômica, e social, com uma melhora na distribuição de renda e no padrão de vida do brasileiro médio.
Mas, no governo Dilma, infelizmente eles voltaram. Não é difícil entender como conseguiram, mas é fácil ver que é algo a se lamentar.
De fato, com a crise mundial, vários governos passaram a adotar políticas impensáveis há pouco tempo.
O governo suíço estabeleceu um piso para a sua moeda. O Fed (banco central americano) escolhe setores a serem beneficiados através da compra de papéis diretamente no mercado. O governo americano assumiu a gestão de empresas para evitar a falência. O governo argentino persegue consultorias com previsões de inflação diferentes das oficiais, expropria empresas e impõe controles comerciais e cambiais.
Parece que, de repente, todos os experimentos econômicos, por mais esdrúxulos, são permitidos para substituir o fracasso do mercado. No Brasil, os desenvolvimentistas voltaram com o seu receituário para resolver os problemas do país.
Eis: basta desvalorizar a moeda, reduzir a taxa de juros para padrões internacionais e com isso obter maiores taxas de crescimento, mesmo com a inflação mais alta. Basta escolher os setores da indústria a serem beneficiados com crédito subsidiado, aumento das alíquotas de importação, redução selecionada de impostos, estabelecimento de um mínimo de conteúdo nacional na compra governamental.
Voltar com essa mesma combinação de políticas fracassadas no passado é esquecer as lições da história.
Em primeiro lugar, o Banco Central do Brasil deveria continuar com um único mandato: baixa inflação.
Num país com tradição de taxas de inflação elevadas, brincar com a inflação é um crime. É oferecer uma cervejinha para um ex-alcoólatra. É arriscar com a volta da indexação da economia, com consequências nefastas para os ganhos sociais dos últimos anos. Política monetária simplesmente não é capaz de gerar crescimento econômico sustentado.
O argumento de que até o país mais desenvolvido do mundo, os EUA, tem um duplo mandato para a política monetária (e que portando deveríamos imitá-lo) é um equívoco.
Os EUA estão em guerra contra a depressão econômica. Numa guerra vale muita coisa. Mas essa certamente não é a situação brasileira.
Desenvolvimentistas se inspiram nas experiências asiáticas para justificar a escolha de setores prioritários da indústria. Mas mesmo os burocratas considerados mais competentes do mundo, os japoneses, escolheram, em geral, empresas "losers" em vez de "winners" na implantação da sua política industrial. Na Coreia, os setores beneficiados não registraram taxas de crescimento da produtividade maiores do que os demais, e várias empresas beneficiadas simplesmente faliram. Uma leitura mais apropriada é que os países foram bem sucedidos apesar da intervenção dos seus burocratas.
Mesmo que burocratas asiáticos soubessem escolher os setores de forma apropriada, os nossos não sabem. A nossa experiência atesta que quem se beneficia das benesses governamentais, em geral, são empresas grandes, com poder de pressão e lobby, e em setores com déficit comercial, sem relação com eficiência.
Quem paga a conta são os consumidores e os produtores (que se tornam ineficientes), obrigados a comprar, respectivamente, produtos e insumos caros e de baixa qualidade.
Os desenvolvimentistas ficaram longe do comando da política econômica no país da volta das eleições livre até o fim do governo Lula, com exceção do relâmpago governo Itamar e suas políticas pró-fusquinhas.
Nesse período, talvez justamente por causa disso, o país conseguiu realizar dois importantes avanços: econômico, com a estabilidade macroeconômica, e social, com uma melhora na distribuição de renda e no padrão de vida do brasileiro médio.
Mas, no governo Dilma, infelizmente eles voltaram. Não é difícil entender como conseguiram, mas é fácil ver que é algo a se lamentar.
De fato, com a crise mundial, vários governos passaram a adotar políticas impensáveis há pouco tempo.
O governo suíço estabeleceu um piso para a sua moeda. O Fed (banco central americano) escolhe setores a serem beneficiados através da compra de papéis diretamente no mercado. O governo americano assumiu a gestão de empresas para evitar a falência. O governo argentino persegue consultorias com previsões de inflação diferentes das oficiais, expropria empresas e impõe controles comerciais e cambiais.
Parece que, de repente, todos os experimentos econômicos, por mais esdrúxulos, são permitidos para substituir o fracasso do mercado. No Brasil, os desenvolvimentistas voltaram com o seu receituário para resolver os problemas do país.
Eis: basta desvalorizar a moeda, reduzir a taxa de juros para padrões internacionais e com isso obter maiores taxas de crescimento, mesmo com a inflação mais alta. Basta escolher os setores da indústria a serem beneficiados com crédito subsidiado, aumento das alíquotas de importação, redução selecionada de impostos, estabelecimento de um mínimo de conteúdo nacional na compra governamental.
Voltar com essa mesma combinação de políticas fracassadas no passado é esquecer as lições da história.
Em primeiro lugar, o Banco Central do Brasil deveria continuar com um único mandato: baixa inflação.
Num país com tradição de taxas de inflação elevadas, brincar com a inflação é um crime. É oferecer uma cervejinha para um ex-alcoólatra. É arriscar com a volta da indexação da economia, com consequências nefastas para os ganhos sociais dos últimos anos. Política monetária simplesmente não é capaz de gerar crescimento econômico sustentado.
O argumento de que até o país mais desenvolvido do mundo, os EUA, tem um duplo mandato para a política monetária (e que portando deveríamos imitá-lo) é um equívoco.
Os EUA estão em guerra contra a depressão econômica. Numa guerra vale muita coisa. Mas essa certamente não é a situação brasileira.
Desenvolvimentistas se inspiram nas experiências asiáticas para justificar a escolha de setores prioritários da indústria. Mas mesmo os burocratas considerados mais competentes do mundo, os japoneses, escolheram, em geral, empresas "losers" em vez de "winners" na implantação da sua política industrial. Na Coreia, os setores beneficiados não registraram taxas de crescimento da produtividade maiores do que os demais, e várias empresas beneficiadas simplesmente faliram. Uma leitura mais apropriada é que os países foram bem sucedidos apesar da intervenção dos seus burocratas.
Mesmo que burocratas asiáticos soubessem escolher os setores de forma apropriada, os nossos não sabem. A nossa experiência atesta que quem se beneficia das benesses governamentais, em geral, são empresas grandes, com poder de pressão e lobby, e em setores com déficit comercial, sem relação com eficiência.
Quem paga a conta são os consumidores e os produtores (que se tornam ineficientes), obrigados a comprar, respectivamente, produtos e insumos caros e de baixa qualidade.
O furacão resgata o Estado - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 01/11
O poder público é único, quando funciona, para defender a sociedade na hora das tragédias
Os "Estadofóbicos" e os céticos a respeito da mudança climática deveriam ter segundos pensamentos a partir da passagem do furacão Sandy.
Comecemos pelo papel do Estado. Foi relevante para evitar uma tragédia ainda maior, como lembra Edward Alden, em seu blog encravado no sítio do Council on Foreign Relations.
Alden lista meia dúzia de iniciativas tomadas pelo poder público que reduziram os estragos e a perda de vidas.
Começa pelo fato de que "a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, do Departamento de Comércio, que é responsável por seguir a rota de furacões e outras tempestades, previu com dias de antecedência -e com absoluta acuidade- tanto a rota como a força do Sandy. Isso deu aos governos em toda a região tempo para planejar uma resposta".
Eis algo que só os recursos públicos podem custear devidamente, por mais que todos reclamemos dos impostos pagos para que o governo possa funcionar.
No Brasil, a reclamação torna-se pertinente, na medida em que a capacidade de prever tragédias climáticas parece diminuta, de que dão prova os desastres anuais provocados por fenômenos atmosféricos menos imponentes do que o Sandy.
Não é a única comparação possível. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, ordenou a retirada de quase 400 mil pessoas das zonas mais baixas da cidade, além de ter criado abrigos de emergência. "Provavelmente salvou incontáveis vidas, dado o pesado alagamento na Baixa Manhattan", escreve Alden.
O governador Andrew Cuomo paralisou metrô, trens e ônibus. Com isso, apesar de o furacão ter provocado os piores problemas em cem anos de história do metrô, "ninguém ficou ferido nas estações vazias".
No Brasil, ou porque não há previsões de tanta acuidade ou porque as autoridades são historicamente lerdas ao reagir, só há providências depois das tragédias.
O problema não está, portanto, no Estado em si, mas na maneira como ele funciona. Claro que o poder público não pode ser um cabide de empregos nem atuar como empresário, fabricando aço, gerindo hotéis ou controlando companhias aéreas. Essa parte o setor privado faz melhor.
Mas ações como as citadas "representam um sucesso nascido de planejamento e ação coordenada para melhorar o resultado para grande número de pessoas -exatamente o que governos podem e deveriam estar fazendo".
Vale para os Estados Unidos, vale para o Brasil, em especial para os prefeitos recém-eleitos.
Passemos à questão da mudança climática. Admito, como diz editorial de ontem desta Folha, que "há muita controvérsia, ainda, sobre a influência do aquecimento global na propagação desses eventos extremos -inconclusiva, até o momento".
Ok. Mas o simples fato de que os danos ao metrô de Nova York e a obrigatoriedade de fechar a Bolsa por dois dias foram fenômenos que não ocorriam havia pelo menos um século recomenda "encarar [o clima] sob o signo da precaução", sempre de acordo com o editorial.
Ou, para ser bem original, controvérsias à parte, é sempre melhor prevenir do que remediar.
O poder público é único, quando funciona, para defender a sociedade na hora das tragédias
Os "Estadofóbicos" e os céticos a respeito da mudança climática deveriam ter segundos pensamentos a partir da passagem do furacão Sandy.
Comecemos pelo papel do Estado. Foi relevante para evitar uma tragédia ainda maior, como lembra Edward Alden, em seu blog encravado no sítio do Council on Foreign Relations.
Alden lista meia dúzia de iniciativas tomadas pelo poder público que reduziram os estragos e a perda de vidas.
Começa pelo fato de que "a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, do Departamento de Comércio, que é responsável por seguir a rota de furacões e outras tempestades, previu com dias de antecedência -e com absoluta acuidade- tanto a rota como a força do Sandy. Isso deu aos governos em toda a região tempo para planejar uma resposta".
Eis algo que só os recursos públicos podem custear devidamente, por mais que todos reclamemos dos impostos pagos para que o governo possa funcionar.
No Brasil, a reclamação torna-se pertinente, na medida em que a capacidade de prever tragédias climáticas parece diminuta, de que dão prova os desastres anuais provocados por fenômenos atmosféricos menos imponentes do que o Sandy.
Não é a única comparação possível. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, ordenou a retirada de quase 400 mil pessoas das zonas mais baixas da cidade, além de ter criado abrigos de emergência. "Provavelmente salvou incontáveis vidas, dado o pesado alagamento na Baixa Manhattan", escreve Alden.
O governador Andrew Cuomo paralisou metrô, trens e ônibus. Com isso, apesar de o furacão ter provocado os piores problemas em cem anos de história do metrô, "ninguém ficou ferido nas estações vazias".
No Brasil, ou porque não há previsões de tanta acuidade ou porque as autoridades são historicamente lerdas ao reagir, só há providências depois das tragédias.
O problema não está, portanto, no Estado em si, mas na maneira como ele funciona. Claro que o poder público não pode ser um cabide de empregos nem atuar como empresário, fabricando aço, gerindo hotéis ou controlando companhias aéreas. Essa parte o setor privado faz melhor.
Mas ações como as citadas "representam um sucesso nascido de planejamento e ação coordenada para melhorar o resultado para grande número de pessoas -exatamente o que governos podem e deveriam estar fazendo".
Vale para os Estados Unidos, vale para o Brasil, em especial para os prefeitos recém-eleitos.
Passemos à questão da mudança climática. Admito, como diz editorial de ontem desta Folha, que "há muita controvérsia, ainda, sobre a influência do aquecimento global na propagação desses eventos extremos -inconclusiva, até o momento".
Ok. Mas o simples fato de que os danos ao metrô de Nova York e a obrigatoriedade de fechar a Bolsa por dois dias foram fenômenos que não ocorriam havia pelo menos um século recomenda "encarar [o clima] sob o signo da precaução", sempre de acordo com o editorial.
Ou, para ser bem original, controvérsias à parte, é sempre melhor prevenir do que remediar.
Corrupção? - MARCELO MITERHOF
Folha de S. Paulo - 01/11
O perigo de um discurso anticorrupção sem maiores mediações é que ele tende a ser regressivo e paralisante
O combate à corrupção é evidentemente desejável. Por certo, exageros e injustiças acontecem, o que é característico de períodos de amadurecimento, como o que ocorre com a jovem democracia brasileira. Isso não é motivo para querer que esse processo se interrompa, mas uma dose de parcimônia é saudável ao lidar com o tema.
Por exemplo, ao contrário do que costumam indicar diversos estudos sobre a corrupção, não vejo motivos para acreditar que por conta dela o crescimento econômico seja estruturalmente menor.
A corrupção tira recursos de algumas pessoas e finalidades, transferindo-os para outros. É verdade que grandes esquemas são concentradores de renda, tirando recursos dos mais pobres para enriquecer poucos, prejudicando o efeito multiplicador da renda na formação do PIB. Entretanto, a corrupção miúda -como de policiais, flanelinhas ou pirateadores de produtos- tem efeitos desconcentradores. Difícil dizer qual é o resultado final.
Além disso, crescer é essencialmente uma questão de demanda. Se há muitas pessoas procurando novos produtos e serviços, existem perspectivas de lucro e, assim, de investimento e crescimento, que pode ocorrer a despeito de diversas mazelas, como carência de mão de obra qualificada, produtividade baixa e corrupção. O crescimento cria as condições para ir solucionando esses problemas.
Ainda assim, é inegável que a corrupção significa perda de eficiência. Licitações viciadas em compras da saúde pública fazem ser pior o atendimento à população. Independentemente das implicações sobre o PIB, isso deve ser combatido.
Por isso, sou um chato ao lidar com serviços públicos. Mesmo sem bons resultados, costumo ligar para a Prefeitura do Rio para reclamar dos motoristas de ônibus que não param no ponto. No curso que faço na UFRJ, protesto porque, em grande parte das disciplinas, os professores não cumprem a carga horária mínima.
Tento lutar contra a corrupção no varejo e na prática, mas sem fazer generalizações indevidas. Afinal, ela está bem mais próxima de nós do que sugerem os esquemas ilícitos dos políticos. Por isso, é melhor combater a corrupção em nós mesmos -por exemplo, preferindo ser multado a pagar propina- e naquilo que está mais ao nosso alcance.
O perigo de um discurso anticorrupção demasiadamente geral e sem maiores mediações é que ele tende a ser regressivo e paralisante, estabelecendo dicotomias e pré-julgamentos que dificultam o enfrentamento dos problemas.
Por exemplo, a Lei das Licitações tenta previamente fechar tanto a porta para possíveis fraudes nas compras públicas, que torna tais procedimentos ineficientes ou leva os gestores a buscarem formas de não aplicá-la. Em outros países, as regras são menos rígidas, mas há punição severa quando irregularidades são encontradas.
Vale ainda lembrar frases que ouvimos cotidianamente, que denotam a dificuldade que o discurso anticorrupção indiferenciado impõe ao lidar com os assuntos públicos. "Congressistas só trabalham de terça a quinta-feira", como se suas obrigações se resumissem a estar no plenário. "Policiais são corruptos e bombeiros heróis", embora geralmente ambos sejam da mesma corporação, a PM.
É claro que há profissões em que é mais fácil não cumprir as jornadas de trabalho, como as que têm estabilidade no emprego. Outras atividades são mais favoráveis à propina, como são os casos óbvios dos operadores da lei e de políticos. Mas há muita gente honesta nessas atividades, além de outras que, face a regras críveis e estímulos de punição e recompensa, se adaptam a um sistema mais racional.
Todas são atividades imprescindíveis para melhorar a qualidade de vida na sociedade. Para funcionarem melhor precisam de planejamento, regulação e cobrança racional por parte dos poderes constituídos e da população.
A agenda tem vários temas: criar novos parâmetros para a estabilidade de servidores públicos, elevar os salários de policiais, professores e médicos, regras de financiamento das campanhas eleitorais etc. Melhor enfrentá-los do que simplesmente gritar contra políticos.
O combate à corrupção é evidentemente desejável. Por certo, exageros e injustiças acontecem, o que é característico de períodos de amadurecimento, como o que ocorre com a jovem democracia brasileira. Isso não é motivo para querer que esse processo se interrompa, mas uma dose de parcimônia é saudável ao lidar com o tema.
Por exemplo, ao contrário do que costumam indicar diversos estudos sobre a corrupção, não vejo motivos para acreditar que por conta dela o crescimento econômico seja estruturalmente menor.
A corrupção tira recursos de algumas pessoas e finalidades, transferindo-os para outros. É verdade que grandes esquemas são concentradores de renda, tirando recursos dos mais pobres para enriquecer poucos, prejudicando o efeito multiplicador da renda na formação do PIB. Entretanto, a corrupção miúda -como de policiais, flanelinhas ou pirateadores de produtos- tem efeitos desconcentradores. Difícil dizer qual é o resultado final.
Além disso, crescer é essencialmente uma questão de demanda. Se há muitas pessoas procurando novos produtos e serviços, existem perspectivas de lucro e, assim, de investimento e crescimento, que pode ocorrer a despeito de diversas mazelas, como carência de mão de obra qualificada, produtividade baixa e corrupção. O crescimento cria as condições para ir solucionando esses problemas.
Ainda assim, é inegável que a corrupção significa perda de eficiência. Licitações viciadas em compras da saúde pública fazem ser pior o atendimento à população. Independentemente das implicações sobre o PIB, isso deve ser combatido.
Por isso, sou um chato ao lidar com serviços públicos. Mesmo sem bons resultados, costumo ligar para a Prefeitura do Rio para reclamar dos motoristas de ônibus que não param no ponto. No curso que faço na UFRJ, protesto porque, em grande parte das disciplinas, os professores não cumprem a carga horária mínima.
Tento lutar contra a corrupção no varejo e na prática, mas sem fazer generalizações indevidas. Afinal, ela está bem mais próxima de nós do que sugerem os esquemas ilícitos dos políticos. Por isso, é melhor combater a corrupção em nós mesmos -por exemplo, preferindo ser multado a pagar propina- e naquilo que está mais ao nosso alcance.
O perigo de um discurso anticorrupção demasiadamente geral e sem maiores mediações é que ele tende a ser regressivo e paralisante, estabelecendo dicotomias e pré-julgamentos que dificultam o enfrentamento dos problemas.
Por exemplo, a Lei das Licitações tenta previamente fechar tanto a porta para possíveis fraudes nas compras públicas, que torna tais procedimentos ineficientes ou leva os gestores a buscarem formas de não aplicá-la. Em outros países, as regras são menos rígidas, mas há punição severa quando irregularidades são encontradas.
Vale ainda lembrar frases que ouvimos cotidianamente, que denotam a dificuldade que o discurso anticorrupção indiferenciado impõe ao lidar com os assuntos públicos. "Congressistas só trabalham de terça a quinta-feira", como se suas obrigações se resumissem a estar no plenário. "Policiais são corruptos e bombeiros heróis", embora geralmente ambos sejam da mesma corporação, a PM.
É claro que há profissões em que é mais fácil não cumprir as jornadas de trabalho, como as que têm estabilidade no emprego. Outras atividades são mais favoráveis à propina, como são os casos óbvios dos operadores da lei e de políticos. Mas há muita gente honesta nessas atividades, além de outras que, face a regras críveis e estímulos de punição e recompensa, se adaptam a um sistema mais racional.
Todas são atividades imprescindíveis para melhorar a qualidade de vida na sociedade. Para funcionarem melhor precisam de planejamento, regulação e cobrança racional por parte dos poderes constituídos e da população.
A agenda tem vários temas: criar novos parâmetros para a estabilidade de servidores públicos, elevar os salários de policiais, professores e médicos, regras de financiamento das campanhas eleitorais etc. Melhor enfrentá-los do que simplesmente gritar contra políticos.
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