terça-feira, outubro 09, 2012

Carnificina - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE S. PAULO - 09/10


BRASÍLIA - Espero que não, mas a previsão do segundo turno em São Paulo é de uma verdadeira carnificina política, o PSDB atacando com o mensalão, e o PT, com o mensalão mineiro e a CPI do Cachoeira.

Ninguém ganha com isso, nem mesmo o futuro prefeito, mas quem mais perde são a política e os políticos, que já andam mal das pernas -basta ver a alta indefinição dos eleitores até a última hora e os números recordes de votos brancos e nulos.

O eleitor, cada vez mais desconfiado, quer saber quem está mais preparado e mais bem assessorado e o que vai acontecer com a saúde, a educação, os bilhetes de metrô e de ônibus -e a segurança. Mas os partidos insistem em partir para o desgaste ético, moral, dos adversários.

José Dirceu, que deve ser condenado nesta semana pelo STF, estará no centro da cena mais uma vez. O PT tentará amenizar o impacto martelando que a origem do esquema está no PSDB de Minas e anunciando -bem no meio do segundo turno- o relatório final da CPI do Cachoeira, que pega de jeito o governador tucano de Goiás, Marconi Perillo.

O PT discute como fazer desse limão uma limonada eleitoral: quem é de partido (ligado a Lula) insiste em manter a CPI acesa para queimar o PSDB; quem é governo (alinhado com Dilma) prefere acabar logo com isso, para evitar que a Delta se aproxime demais do Planalto.

José Serra e Fernando Haddad fecharam o primeiro turno pau a pau, e o petista sai na frente com um verdadeiro arrastão do PMDB e do PRB, puxado por Dilma. Já o tucano joga o anzol para os mirrados PPS e PTB.

Mais do que as cúpulas, porém, Serra e Haddad terão de conquistar os eleitores de Chalita, de Russomanno e de Soninha, além de convencer os descrentes. Tudo sem perder os seus eleitores do primeiro turno.

Se a rejeição do tucano é alta, a do PT não é pequena. Não é com carnificina política que um e outro irão se recuperar e cicatrizar as feridas.

Ueba! O Capitão Botox dançou! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 09/10


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Quero o terceiro turno! Com Levy Fidelix e Eymael! Eles merecem! Aerotrem X Aerocristão!

E o Russomanno? O Capitão Botox dançou! O Russomanno é o candidato flanelinha: ficou guardando a vaga do segundo turno pros outros! E um cara no Twitter: "Os eleitores do Russomanno foram pra igreja e esqueceram de ir votar".

E o humorista Marcio Ribeiro: "Se está bom para ambas as partes, Russomanno nem Aqui nem Agora". Rarará! E se ele não tivesse dado os 10% pro Edir Macedo, estaria com 31%!

E esses que tiveram zero voto? Que falta de autoestima! Kiko, do KLB, zero voto. Nem o K, nem o L e nem o B votaram nele. Antonio Rolla, de Niterói, nenhum voto. Nem a mulher quis ver o Rolla entrar!

E os bafos da eleição. "Mesário é detido por deixar sala da votação pra fumar maconha". Esse apertou e acendeu . Mesário Doidão! Confundiu boca de urna com boca de fumo! Rarará!

"Em Águas de São Pedro, dois candidatos se encontram na mesma escola pra votar e trocam socos e pontapés". A festa da democracia! "Em Curitiba, o primeiro a votar chegou duas horas antes". O Chato! Pensou que era caixa eletrônica? Foi direto da balada? Rarará!

E adorei esta: "Aperto em Ponta Grossa". E o Serra votando fez o "V" de Vampiro. E o Haddad conseguiu votar sem teleprompter! E a Soninha perdeu porque furou o pneu da bicicleta.

E a grande quantidade de ausentes? Agora começa a caça aos ausentes! "Tem algum ausente?" "Presente!" E na minha seção só tinha ausente. Votei em um minuto e meio!

E o Rio? Capa do "Meia Hora": "Tudo em Paes! É o bonde do Dudu sem Freixo". Rarará! E o Aécio tá revivendo a Inconfidência Mineira: "Minas jamais se curva". Mas Minas só tem curva!!!!! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E o PGN, o meu Partido da Genitália Nacional? Baixa na bancada: o Rolla não entrou. Mas em compensação, Nova Alvorada (RS) tem novo prefeito: Pika! O Rolla não entrou, mas o Pika é a nova alvorada!

E direto de São Gonçalo (RJ): Caceteiro do Forró, 203 votos. Viva o Partido da Genitália Nacional Chega de hipocrisia, sexo de noite e sexo de dia. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Demografia, emprego e desemprego - JOSÉ PASTORE


O ESTADÃO - 09/10

Os analistas do mercado de trabalho passaram um bom tempo sem prestar a devida atenção à demografia, até se depararem com a intrigante pergunta: Como pode o Brasil ter só 5% de desempregados, se o Produto Interno Bruto (PIB) cresce apenas 1,5% ao ano? O estudo minucioso da dinâmica da população está jogando luzes no túnel até então dominado pelas trevas. Em artigo recente, Armando Castelar explica que, de 2003 a 2011, a proporção dos jovens que procuravam emprego caiu de 61,4% para 59,9%. No mesmo período, a proporção de idosos que estavam trabalhando caiu de 30,4% para 25,7% (A Pnad e a competitividade, Valor, 5/10).

Ou seja, nas duas pontas da estrutura etária está havendo uma redução da oferta de trabalho e, consequentemente, dos que procuram emprego. Entre os jovens, a redução deve-se às fortes quedas da taxa de fecundidade, que passou de 6,2 filhos por mulher, na década de 1950, para 2,8, em 1990, e 1,9, nos dias atuais (Jorge Arbache, Transformação demográfica e competitividade internacional, 2011). Há, ainda, uma redução que é devida ao prolongamento dos anos em que os jovens ficam nos bancos escolares. Entre os idosos, a melhoria dos programas sociais voltados para a transferência de renda vem induzindo saídas crescentes do mercado de trabalho. Em suma, há uma redução da proporção dos que procuram emprego. Isso,evidentemente,contribui para a queda da taxa de desemprego, que, como se sabe, resultado número de pessoas efetivamente desocupadas dividido pelo número dos que procuram emprego.

A taxa de desemprego poderia ter baixado por força de uma expansão da oferta de empregos. Isso ocorreu nos anos recentes, mas a sua magnitude não deve ser superestimada. Os dados analisados por Castelar mostram que a taxa de ocupação (que reflete a oferta de empregos) foi de 55,9% em 2011, ficando surpreendentemente no mesmo patamar de 2003, que foi de 55,4%. Isso prova que a baixa na taxa de desemprego se deveu em grande parte à redução drástica dos que procuraram emprego no período considerado.

A redução da oferta de trabalhadores não é nada desprezível, pois em praticamente todos os setores da economia há falta de mão de obra.Essa falta gera forte pressão nos custos de contratação.

Salários e benefícios têm subido bem acima da inflação, pressionados também por aumentos substanciais no salário mínimo e nos pisos estaduais. ara atrair os profissionais de que necessitam, as empresas são levadas a ofertar condições de trabalho cada vez mais custosas, especialmente quando precisam de profissionais qualificados. É bom lembrar que as despesas com encargos sociais crescem com a elevação dos salários e benefícios.

Veja o leitor como é interessante essa cadeia em que um fenômeno demográfico provoca escassez de trabalhoe elevação dos custos de contratação.

Para agravar, ocorre que a explosão do custo do trabalho não está sendo acompanhada de uma elevação da produtividade, o que faz disparar o custo unitário do trabalho. As consequências desse descasamento estão estampadas nos jornais diários: a inflação está além da meta e os investimentos, aquém do necessário, pois as empresas que não podem repassar a elevação do custo do trabalho para preços reduzem as margens e adiam os projetos de expansão.

Esse quadro preocupa. Nenhuma economia consegue gerar empregos e manter o custo unitário do trabalho equilibrado se não investir e aumentara produtividade. Os dados referentes a 2012 justificam a preocupação. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, a abertura de vagas vem desacelerando, mantendo-se em bom nível só no setor da construção pesada, que responde pelos grandes projetos de infraestrutura. Oxalá as recentes medidas do governo contribuam para mudar esse cenário. O pior dos mundos seria passar da situação de falta de trabalhadores para a de falta de empregos.

Economia e política - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 09/10


O Brasil está no segundo ano de baixo crescimento, o PIB está murchando, mas isso não influenciou o resultado das eleições municipais porque o voto foi decidido por questões locais. Na Venezuela, os problemas econômicos se acumulam, e isso deu força à oposição, apesar de Hugo Chávez ter aumentado em 25% o gasto público em programas sociais para manter suas bases.

A economia sempre terá influência numa eleição, mas em algumas a participação não é determinante. No milagre econômico, o governo foi derrotado nas eleições limitadas de 1974. Em 1986, o Plano Cruzado favoreceu o governo, e o PMDB foi vitorioso país afora. Até hoje é o partido com mais capilaridade.

Os sistemas políticos atuais do Brasil e da Venezuela são bem diferentes, felizmente para nós. Aqui, instituições sólidas e democracia cada vez mas forte. Lá, esta foi a eleição em que houve o maior equilíbrio desde 1998, mesmo assim, as milícias institucionalizadas por Hugo Chávez intimidaram eleitores, a imprensa foi ameaçada, o governo usou o Estado e a maior empresa do país para se manter no poder.

O Brasil está este ano com a segunda pior taxa de crescimento dos países da região, depois do Paraguai, que está em recessão. Mesmo assim não se pensou em voto de protesto. Isso porque há um crescimento fraco, mas com desemprego baixo e crédito farto. A inflação está ascendente, na área que mais pega, a de alimentos, mas não está sendo vista como descontrolada. Tudo isso neutralizou o efeito que o crescimento declinante poderia fazer.

O eleitor deu vários recados aos partidos em geral. Quer um sistema partidário pulverizado, apesar de isso incomodar quem preferiria um país com menos partidos. Sete legendas tiveram vitórias no primeiro turno, das nove capitais onde a eleição já acabou. Isso informa que não há um ganhador das eleições, mas vários.

O presidente Lula mostrou seu poder ao levar ao segundo turno da maior cidade um estreante em eleições, mas não comprovou todo o poder que ele imaginava ter. No Recife, onde o PT governa há 12 anos e Lula sempre teve boa votação, o partido sofreu uma acachapante derrotada. O PSB de Eduardo Campos é mais dono da vitória do Recife do que de Belo Horizonte. As sutilezas da política brasileira mostram que realmente este não é um país para amadores. Márcio Lacerda é do PSB, mas sua vitória é creditada a Aécio e foi a maior derrota da presidente Dilma. Ela esteve na cidade, e num estilo nada mineiro defendeu seu candidato, mas não o levou ao segundo turno.

É a política que governa a política. A economia influencia às vezes. A economia tem seus poderes políticos mas não é forte nas escolhas locais. O Rio de Janeiro reelegeu um prefeito que é bem avaliado, mas também porque está de olho na permanência administrativa necessária para o sucesso das Olimpíadas. Será um erro grosseiro se Eduardo Paes abandonar o barco dois anos antes das competições por outras ambições. O eleitor mandou um eloquente recado ao prefeito que quer o sucesso dos projetos que levarão a 2016.

Mesmo as eleições municipais sendo governadas por questões locais, o segundo turno vai exibir clivagens nacionais. A mais óbvia delas ocorrerá em São Paulo. A eleição paulistana não será uma prévia da presidencial, mas é um tabuleiro no qual os jogadores vão querer mover suas pedras. O ex-presidente Lula está não apenas querendo mostrar seu poder sobre o eleitorado, mas quer renovar as lideranças de um partido que teve vários dos seus quadros dirigentes abatidos por escândalos políticos. O PSDB em São Paulo terá que ser capaz de superar divisões nas quais tem se enfraquecido.

Sem solução para a crise - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 09/10


As novas projeções sobre o desempenho da economia global que acabam de ser divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) são bem mais pessimistas (veja tabela). Em vez de ceder, a crise tende a se aprofundar, sem sinais de reversão.

Não se vê disposição política entre os dirigentes do mundo para resolver o principal problema: o excessivo endividamento dos países avançados - principalmente dos Estados Unidos e de praticamente toda a área do euro.

As únicas instituições que mantêm a iniciativa na busca de uma saída são os grandes bancos centrais: Federal Reserve (Fed, dos Estados Unidos), Banco Central Europeu (BCE, da área do euro) e Banco do Japão (BoJ).

No entanto, eles vêm agindo no que se vê hoje como a fronteira da irresponsabilidade. Estão determinados a emitir moeda ilimitadamente para recomprar títulos de dívida com o objetivo de assegurar tomador para eles. E isso acontece numa conjuntura em que os investidores vêm rejeitando um número progressivo de ativos soberanos, até recentemente considerados de alta qualidade, mas, agora, carregados de suspeitas.

O argumento sobre o qual se apoiam os grandes bancos centrais para essa ação fora de padrão é o mesmo que guiava as autoridades da Roma antiga quando, no seu esforço para defender a cidade, eram acusadas de atropelar certas leis da República. "A salvação do povo (da moeda) é a suprema lei", poderiam declarar os atuais presidentes desses bancos centrais.

O FMI está entre as instituições globais que cobrem de elogios essa atitude até agora inusitada dos bancos centrais, como esforço consistente capaz de estancar o colapso econômico mundial.

Por motivos diferentes, as ortodoxas autoridades do Banco Central da Alemanha (Bundesbank) e as bem menos ortodoxas do governo brasileiro são as únicas que condenam sistematicamente essas políticas. Os alemães denunciam a disposição do BCE de agir como emprestador de última instância aos tesouros dos países da área do euro como fonte de problemas presentes (encorajamento a mais despesas irresponsáveis por parte dos governos) e futuros (sobretudo mais inflação).

Enquanto isso, a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, denunciam essa política monetária expansionista como causadora de distúrbios cambiais. Tanto para a presidente como para o ministro, além de não tirar a economia mundial da encalacrada, esse jogo dos bancos centrais gera efeitos colaterais perversos. Certo volume dessas enormes emissões desembarca no câmbio dos países emergentes e os inunda de moeda estrangeira. É o que a presidente Dilma chama de tsunami monetário e o ministro Mantega, de guerra cambial. Ou seja, ambos reclamam de que parte desse despejo de moeda estrangeira nos mercados acaba desembarcando por aqui e que esse afluxo valoriza a moeda nacional (derruba a cotação do dólar) e, ao mesmo tempo, tira competitividade do produto brasileiro, porque barateia em reais o importado.

Outro jeito de analisar o mesmo fenômeno é ponderar que, embora não tenha removido o impasse central, a atuação dos grandes bancos centrais impediu um mergulho no imponderável. Também pode-se dizer que, em compensação, vem amortecendo o ajuste, agora sem prazo visível para se completar. Esse é o tipo do sempre adiado desfecho que o Fausto de Goethe condena quando adverte: "Melhor um fim com terror do que um terror sem fim".

Com base nesse princípio, alguém ainda perguntará se um fim mais rápido da crise, ainda que mais doloroso, não seria melhor do que esse arrastar sem fim, mesmo que aparentemente menos dolorido. Nesse caso, a política dos grandes bancos centrais terá contribuído para o adiamento de uma solução.

Mais para o chão brasileiro, a notável piora exposta agora pelo FMI do desempenho da economia mundial pode ser o empurrão final de que o Banco Central do Brasil carecia para justificar uma nova redução dos juros básicos (Selic), a ser decidida amanhã. A conferir.

Protecionismo e competitividade - RUBENS BARBOSA


O ESTADÃO - 09/10


Nas últimas semanas o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, e o representante comercial dos Estados Unidos, Ron Kirk, expressaram preocupação e criticaram o Brasil pelo aumento de tarifas de importação de alguns produtos industriais, consideradas como protecionistas e contrárias a compromissos contraídos no âmbito do G-20 e da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Por outro lado, Estados Unidos, União Europeia (UE), Japão e Austrália também questionaram o Brasil na OMC por ter transformado medidas temporárias, como o conteúdo nacional na licitação da telefonia móvel (G4), a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e a nova política automotiva, em políticas industriais permanentes.

O governo brasileiro, a começar pela presidente Dilma Rousseff, respondeu que o Brasil não modificou sua política comercial e que as medidas adotadas visam à legítima defesa dos setores industriais afetados por todas as formas espúrias de manipulação do comércio, inclusive a cambial, que, na prática, anulam as tarifas negociadas pelo Brasil no âmbito da OMC.

O aumento de 200 tarifas, proposto pela Argentina e aceito pelo Brasil, terá duração limitada e está de acordo com as regras da OMC. Apresentadas como ações de defesa comercial, as restrições podem ser vistas no mesmo contexto de outras medidas compensatórias concedidas ao setor produtivo e exportador pela ineficiência do governo em avançar na agenda para recuperar a competitividade da economia. A redução da taxa de juros, a desvalorização cambial, a redução do preço da energia, a desoneração da folha de salários e os acenos sobre a flexibilização da legislação trabalhista, além da nova regulamentação do ICMS, são as principais medidas aplicadas ou em estudo pelo governo. Trata-se de ações que apontam para o caminho correto, mas são insuficientes para reduzir significativamente a perda da competitividade do setor produtivo. É necessário definir uma política industrial que crie as condições para o renascimento da indústria de transformação brasileira. As medidas restritivas podem resolver temporariamente problemas de alguns setores, mas não são as respostas que o setor privado espera do governo. O protecionismo não é solução para os problemas internos de competitividade.

A crise econômica, que dura mais de cinco anos, e a falência da OMC com o fracasso da Rodada Doha, que pretendia liberalizar o comércio global, podem explicar a desaceleração do comércio internacional, que não deverá crescer mais de 2,5% em 2012 e cerca de 3,5% no próximo ano. Nesse contexto de baixo crescimento, de aumento do desemprego e de pouca perspectiva de rápida recuperação das principais economias desenvolvidas, as acusações de protecionismo contra o Brasil servem mais ao público interno norte-americano e britânico, às vésperas de eleições presidenciais ou em meio a dificuldades políticas.

Relatório recente sobre protecionismo no âmbito dos países do G-20 elaborado pelo Global Trade Alert (GTA), da Universidade de St. Gallen, na Suíça, mostra que a tendência restritiva é bem mais ampla. Nele são analisadas medidas aplicadas desde 2008 pelos governos com base em dois critérios: medidas discriminatórias e quase certamente discriminatórias.

Quando os países do G-20 são comparados em relação ao número de medidas discriminatórias aplicadas, Japão, Argentina, Turquia, Índia e Arábia Saudita encabeçam a lista, seguidos pelos 27 países da União Europeia, com destaque para França e Reino Unido, e pelos EUA.

Considerando o número de medidas discriminatórias e sua porcentagem em relação às práticas liberalizantes, os países que menos utilizaram medidas protecionistas foram o México, a África do Sul e o Brasil.

Por outro lado, o levantamento da GTA apresenta grandes surpresas quando identifica os países que mais aplicaram medidas quase certamente discriminatórias, quantas linhas tarifárias, quantos setores e parceiros comerciais ficaram afetados por essas medidas.

Pelo interesse e pelo ineditismo da pesquisa, vale a pena reproduzir parcialmente o resultado desse trabalho, com a indicação, quanto a medidas quase certamente discriminatórias, dos dez países que:

Mais as aplicaram - União Europeia (302), Rússia (169), Argentina (141), Índia (74), Reino Unido (67), Alemanha (64), França (61), China (60), Itália (56) e Brasil (54);

Afetaram o maior número de linhas tarifárias (categorias de produtos): Vietnã (931), Venezuela (786), Casaquistão (732), China (732), UE27 (656), Nigéria (599), Argélia (476), Argentina (467), Rússia (446) e Índia (401);

Afetaram o maior número de setores: Argentina (63); Argélia (62); UE27 (57); China (52); Nigéria (45); Rússia (45); Alemanha (44); Casaquistão (44); Estados Unidos (42); e Gana (41);

Afetaram o maior número de países: China (193), UE27 (187), Holanda (163), Alemanha (155), Polônia (155), Índia (153), Indonésia (153), Bélgica (152), Finlândia (152) e Argentina (151).

Em termos de medidas discriminatórias, assim, a União Europeia é a campeã do protecionismo. Em termos de linhas tarifárias afetadas, o Vietnã é o número 1 - em razão das repetidas desvalorizações competitivas da sua moeda. Em termos de setores afetados, a Argentina é a primeira da lista; e em termos de parceiros afetados, a China encabeça a relação - em parte por causa da extensa lista de políticas administradas por meio de descontos seletivos de Imposto sobre Valor Agregado (VAT) para os exportadores.

China e Argentina são os únicos países presentes em todas as listas das quatro categorias dos maiores responsáveis por políticas protecionistas. Alemanha, Índia e Rússia estão em três das quatro listas dos mais restritivos. O Brasil aparece em apenas uma das listas e, mesmo assim, em décimo lugar.

Não há quem fique bem na foto do protecionismo.

Os vencedores - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 09/10


O PSB e o PSD foram os grandes vencedores do pleito. O PSD, do prefeito Gilberto Kassab, elegeu 493 prefeitos e fez 5,8 milhões de votos. E provocou a derrocada do DEM, que reduziu em 4,8 milhões a sua votação. O PSB foi para 433 prefeituras e fez 2,9 milhões de votos a mais do que em 2008. E colocou seu líder, o governador Eduardo Campos (PE), como alternativa na sucessão de 2014.

O peso da máquina no processo
Numa eleição em 5.564 municípios, todos os partidos têm o que comemorar. Mas os números frios das urnas indicam um recuo da oposição. O DEM, com apenas um governador (RN), perdeu 220 prefeituras e 4,8 milhões de votos. O PSDB, que tem nas mãos as máquinas de oito governos estaduais, entre os quais os de São Paulo e Minas Gerais, sofreu menos, perdendo 112 prefeituras e 630 mil votos. Os tucanos mantiveram viva a candidatura presidencial de Aécio Neves. O PMDB manteve sua suave curva declinante, mas elegeu o maior número de prefeitos (1.016). O PT manteve sua suave curva ascendente, retomando a condição de o mais votado (17,2 milhões).

"Patrus, agora Minas Gerais tem oposição"
Dilma Rousseff
Presidente, sobre a atuação do senador Aécio Neves nas eleições

Dilma não quer perder
A presidente Dilma vai a São Paulo e Salvador, nos dias 20 e 21, apoiar Fernando Haddad e Nelson Pelegrino. Ela avalia ir a João Pessoa e, em relação a Manaus, só vai caso Vanessa Grazziotin (PCdoB) demonstre que tem condições de virar.

Fortalecidos
O casal de ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil) é festejado no Planalto devido ao desempenho do PT no Paraná. O PT foi para o segundo turno em Maringá, Cascavel e Ponta Grossa. Em Curitiba, apoiaram
Gustavo Fruet (PDT), que tirou o candidato do governador Beto Richa (PSDB) do segundo turno.

Excesso de zelo
O Ministério Público, com aval da presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, queria, na semana passada, que as empresas de telefonia assinassem um terno de ajuste de conduta. Elas se negaram. O setor nunca falhou na transmissão de dados.

Casagrande de olho em 2014
O governador Renato Casagrande (PSB) diz que não apoia ninguém em Vitória. Mas foi ele quem costurou o apoio do PR e do PP para Luciano Rezende (PPS), garantindo tempo de TV. Afirma que não vai entrar na guerra do segundo turno, embora a derrota de Veloso Lucas (PSDB) enfraqueça a candidatura de seu adversário em 2014, o ex-governador Paulo Hartung (PSDB).

Quem tem a força
No G-85 (capitais e cidades com dois turnos), o PT ganhou oito e disputa em 22.O PSDB levou seis e concorre em 16.O PMDB venceu em quatro e briga em 17.O PDT fez três e luta em oito. O PSB conquistou cinco e está no jogo em seis.

Confronto com oposição e aliados
Os petistas terão mais embates com os partidos da base aliada do que com os tucanos no dia 28. O PT vai enfrentar o PSDB em seis municípios. E os partidos aliados em 11: seis contra o PMDB, três contra o PSB e dois contra o PDT.

O GOVERNADOR TIÃO VIANA (AC) e o senador Jorge Viana estão preocupados. O PT ganhou três prefeituras e está na briga em Rio Branco. Tinha 12 prefeitos.

Arena de leões - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 09/10


Terá, por exemplo, o apoio formal do PMDB. Terá uma declaração de voto de Russomanno? Se tiver, qual o poder real de transferência?

Levando em conta consideração a velocidade com que o candidato "derreteu" nos últimos dias nota-se a inconsistência da liderança. Em alguns setores pode significar até um apoio contraproducente. Para os dois candidatos finalistas.

Quanto ao peso da presença da dupla Lula e Dilma, há dois aspectos. De um lado, a inequívoca simpatia da classe média paulistana, aquele eleitorado que rejeita Lula, em relação à presidente.

De outro, é de se ver se esse dado positivo não será neutralizado pela repercussão das condenações no Supremo Tribunal Federal e pelo antipetismo fortemente plantando em São Paulo.

São vantagens que o PSDB espera agregar ao peso das máquinas do Estado e da Prefeitura.

Já o PT pretende jogar com a expectativa de um monumental despejo de recursos federais na cidade.

Algo semelhante ao que ocorreu no Rio e resultou na reeleição de Eduardo Paes com 65% dos votos no primeiro turno.

Um forte argumento. Mas, dá margem ao oponente indagar da presidente da República se ela deixará de atender à cidade caso o eleitor não ceda aos seus apelos eleitorais.

O balanço de vantagens e desvantagens relativas repete-se em Salvador, embora em dimensão simbólica mais reduzida.

O petista Nelson Pelegrino tem Lula, tem Dilma, tem o governo Jaques Wagner.

Mas no primeiro turno o petista teve tudo isso, mais o apoio de 15 partidos, 600 candidatos a vereadores e 15 minutos de tempo de televisão.

Sem nada disso e com cinco minutos no horário eleitoral, o neto de Antônio Carlos Magalhães fez campanha na liderança e sobreviveu.

São Paulo resolveu não arriscar e foi no tradicional, levando ao segundo turno PT e PSDB praticamente empatados.

Resultado que demonstra como a pressa não é boa conselheira: nem Lula pode ser subestimado nem o peso da polarização entre essas forças de governo e oposição deve ser posto na conta do passado.

O eleitor estava cansado da dicotomia? É verdade, conforme se extrai dos porcentuais de abstenção, votos brancos e nulos: somados, os números mostram que algo em torno de 30% do eleitorado paulistano não quis se manifestar.

Procurou, virou, mexeu, não encontrou e preferiu evitar aventuras. Até porque Celso Russomanno era o tipo da peripécia sem muito mistério, de risco óbvio.

No segundo turno fica tudo zero e zero, reza o dogma. Na metodologia é realmente outra eleição. Tempo igual de televisão, atenção concentrada em dois oponentes, a escolha pautada por um forte componente de exclusão, luta direta, no mano a mano.

Ocorre que os personagens são os mesmos, sendo raros os casos de virada do primeiro para o segundo turnos quando há distância razoável entre os dois finalistas.

Por causa da pequena diferença e pela influência de alguns outros fatores, em São Paulo e Salvador governo e oposição vão medir forças sem que nenhum dos lados entre em campo em situação nítida de vantagem ou desvantagem.

Serão batalhas em atmosfera de arena de leões. No caso de São Paulo especialmente, onde PT e PSDB precisam desesperadamente da vitória.

Os petistas para mostrarem que não sucumbiram ao mensalão e os tucanos para não sucumbirem ao prejuízo que uma derrota acarretaria à oposição no plano nacional.

Nesse embate nada é absoluto, tudo é relativo.

O PT tem a favor dele a rejeição a José Serra, embora ela não o tenha impedido de chegar na frente.

Fernando Haddad pode ser favorecido pelo clima de "todos contra Serra". Em termos de apoios partidários os ativos do PT são bem mais preciosos.

Resta conferir, nas duas cidades, se Lula e Dilma ainda dispõem de margem para ampliar a votação de seus correligionários ou se o que tinham para conseguir já foi incorporado ao capital conquistado no primeiro turno.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 09/10


Descanso de caminhoneiro será fiscalizado neste mês
Mesmo sem poder multar, a Polícia Rodoviária Federal começará a fiscalizar e punir, no final deste mês, os caminhoneiros que não respeitarem a lei do descanso.

A lei obriga os motoristas de caminhão a pararem por 30 minutos a cada quatro horas de rodagem. Também exige intervalo de repouso diário de 11 horas.

Em caso de descumprimento, procuradores serão comunicados e uma ação será ajuizada.

Multas não serão emitidas porque o Contran (Conselho Nacional de Trânsito) baixou uma resolução estabelecendo um prazo de 180 dias para o governo elaborar uma lista das rodovias que têm áreas adequadas para descanso.

"Algumas estradas não têm onde parar e aí não há como cumprir a lei", diz Francisco Pelucio, presidente do Setcesp (sindicato das empresas de transporte de São Paulo).

"Os ministérios precisam mapear as rodovias e informar quais terão fiscalização. Estamos no meio da confusão", diz Flávio Benatti, presidente da ABTC (Associação Brasileira de Transporte Logística e Carga).

O procurador Paulo Douglas de Moraes afirma que os pontos de parada "não são os melhores, mas é inverídico dizer que não existem".

A polícia e o Ministério Público do Trabalho firmaram ontem o convênio que promoverá a fiscalização conjunta.

Em uma reunião no dia 18 de outubro, eles definirão como o trabalho será feito. A data exata de início da operação não será divulgada.

Pequenas e médias crescem em geração de vagas no país
A participação das pequenas e médias empresas na geração de emprego no país atingiu 97% em agosto deste ano, segundo análise do Sebrae com dados do Ministério do Trabalho.

É o maior percentual para os meses de agosto desde 2003, quando o setor registrou 91% das novas vagas.

"Esse segmento tem contribuído fortemente porque é mais voltado ao mercado interno. Não sofre tanto com a crise", diz o presidente do Sebrae, Luiz Barretto.

A maior concentração está nas microempresas com até quatro trabalhadores.

Um cenário diferente é encontrado entre as micro e pequenas indústrias, segundo o Simpi-SP. O sindicato do setor afirma que a concorrência de produtos estrangeiros, especialmente chineses, levou a demissões no último ano.

RETORNO ÀS ORIGENS
O banco BR Partners está em negociações para comprar a gestora de recursos do Goldman Sachs no país. A instituição americana anunciou a decisão de encerrar a unidade no início deste mês.

A operação pode marcar um retorno às origens para Ricardo Lacerda, que fundou o BR Partners em 2009.

No Goldman, o executivo ocupou os cargos de diretor-presidente no Brasil entre 2001 e 2005.

Lacerda havia sido também vice-presidente do banco de investimento em Nova York, de 1996 a 2001.

O BR Partners fechou a aquisição do banco Porto Seguro no final do ano passado, abriu sua própria corretora e também seu banco de investimento.

Goldman Sachs e BR Partners negaram que exista qualquer tipo de negociação.

Idiomas... 
Após receber aporte de R$ 135 milhões do fundo de investimento britânico Actis, a rede de escolas de idiomas CNA faz um novo projeto de expansão. A empresa pretende chegar a R$ 1 bilhão de faturamento até 2014, uma alta de 44% em relação a 2011.

...em rede 
Atualmente, são 501 unidades em operação e 200 em fase de implantação ou inauguração. A empresa pretende dobrar a operação em cinco anos, com foco na região Nordeste e nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Ainda não caiu a ficha - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 09/10


Cresceram, às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que amanhã decide o novo nível da taxa básica nominal de juros, as apostas em uma última redução de 0,25 ponto, mesmo com os índices de inflação pressionados. Mas não há divergências de que, em 7,5% ao ano, como já está, ou em 7,25%, a que pode chegar amanhã, a trajetória da taxa Selic encerrará por aqui um longo movimento de baixa, que durou 14 meses.

Importa mais agora, portanto, avaliar se esse recuo a níveis nominais historicamente baixos é consistente e quais as possibilidades de que tenha vindo para ficar. O passo seguinte, caso essa avaliação se confirme, é apurar as eventuais mudanças na estrutura de funcionamento da economia que, fatalmente, viriam com a queda dos juros.

Para muita gente, a ficha ainda não caiu. Não é difícil entender que esteja demorando para que os impactos de juros reais entre 2% e 3%, em lugar das costumeiras taxas acima de 10%, sejam incorporados às análises sobre as perspectivas da economia brasileira. O hábito do uso de juros altos entortou nosso modo de pensar a economia. Mas é crescente o número dos que já conseguem pensar fora da velha caixa.

"As pessoas não se dão conta da relevância dessa mudança estrutural do nível da taxa de juros", destacou José Olympio Pereira, presidente do banco de investimentos Credit Suisse, um dos mais ativos do mercado na intermediação de fusões, aquisições e lançamento de ações, em entrevista recente ao Estado. Segundo Pereira, experiente profissional do mercado financeiro, ainda que seja preciso elevar os juros, a taxa real não deve ultrapassar 4% e "isso faz muita diferença".

As hipóteses com as quais trabalham os principais analistas de conjuntura corroboram a expectativa de Pereira. Nos modelos de previsão desses analistas, os juros básicos nominais serão elevados, a partir de meados de 2013, porém de forma moderada. As apostas, no momento, nunca passam de 8,5% nominais - o que expressa uma taxa real, considerando as previsões para a inflação futura, no entorno de 3%.

Para muitos analistas, no entanto, ainda não parece claro que juros mais baixos são, eles mesmos, elementos que contribuem para uma evolução mais benigna do cenário macroeconômico. Um exemplo interessante é o da relação dívida pública/PIB e de seus efeitos sobre as contas públicas.

Nos próximos anos, em razão da queda dos juros, a relação continuará cadente, apontando para menos de 30%, em quatro anos. Isso apesar do não cumprimento da atual meta de superávit primário. As projeções para o resultado fiscal primário em 2012, de fato, subiram no telhado, reforçando a crença de que os 3,1% do PIB não serão alcançados - nem mesmo com o desconto dos gastos com o PAC. As estimativas atuais apontam para um superávit primário inferior a 2,5% do PIB, em 2012, e de menos ainda, nas vizinhanças de 2%, em 2013.

A "folga fiscal" com a queda dos juros, propiciada no resultado nominal, que inclui, além de receitas e despesas correntes, computadas na ótica primária, os gastos com juros da dívida pública, explica parte da mágica. É ela que permite reduzir a relação dívida/PIB, mesmo com menor "economia para pagar os juros da dívida", que é como se convencionou traduzir "superávit primário" para leigos.

Diante desse quadro, há quem considere que a nova realidade de juros básicos mais "normais" abre espaços para reduzir o esforço fiscal sem comprometer a solvência das contas públicas. Com base nessa nova realidade, um afrouxamento fiscal, mais do que isso, não necessariamente resultaria em pressões inflacionárias. O "x" da questão é o uso que venha a ser feito dessa folga fiscal.

Se, por exemplo, o governo ampliar e horizontalizar desonerações tributárias redutoras de custos, o efeito líquido da política fiscal pode até ser desinflacionário. Já hoje, na verdade, o afrouxamento fiscal, em parte por causa da redução da arrecadação com origem na desaceleração da economia, mostra mudanças na composição dos gastos, com foco agora mais em redução de custos na economia e aumento dos investimentos.

Isso pode significar que, em certas circunstâncias, não basta que a política fiscal seja expansionista para sobrecarregar a política monetária - e exigir mais doses de seu principal componente, a taxa de juros. Como sempre em economia, tudo depende da natureza das coisas e das circunstâncias que as cercam.

Quem são nossos juízes? - RAFAEL CUSTÓDIO, FLÁVIA ANNENBERG, ESTER RIZZI e RODNEI JERICÓ

FOLHA DE SP - 09/10


Entrevistas pessoais e secretas em concursos para juiz servem para privilegiar alguns poucos e manter práticas que atingem o Estado democrático de Direito


Dois fatos importantes relacionados à escolha de membros do Judiciário foram noticiados nos últimos dias: a decisão do Conselho Nacional de Justiça rechaçando as "entrevistas secretas" realizadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo como etapa do concurso para ingresso na Magistratura e a sabatina do ministro Teori Zavascki, indicado pela Presidenta da República para o STF.

Se esses acontecimentos parecem distantes, algo os une: a ausência de transparência nos processos de escolha de nossos magistrados.

Sobre o primeiro caso, importante destacar que concurso público é uma exigência constitucional para ingresso na magistratura. Isso significa que a seleção dos magistrados deve se dar por meio de uma avaliação objetiva da capacidade dos candidatos, ainda que seja evidente que somente saber jurídico não faz um bom juiz.

Mas, ao contrário do defendido nesta seção no dia 2 ("Nem só de técnica se faz um juiz", de Rodrigo Capez), esse argumento nada tem a ver com a formulação de questões que dizem respeito à vida pessoal ou à "estrutura familiar" dos participantes do processo seletivo.

Até porque, nesses casos, surgem fissuras insanáveis: como são avaliadas as respostas dos candidatos? A banca examinadora do concurso tem um entendimento prévio a respeito de qual seria o perfil mais adequado para um magistrado? Seria melhor, para exercer a função de juiz, um candidato casado ou solteiro? Com filhos ou sem filhos? Homo ou heterossexual? Ateu ou católico? Pior, o que é "perfil adequado"?

Há tempos sabe-se que o Poder Judiciário paulista realiza uma seleção que privilegia um determinado perfil de seus integrantes. Esse argumento é tão verdadeiro que foi necessária a aprovação de uma lei estadual para garantir que, nas duas primeiras fases do concurso de ingresso na magistratura, os candidatos não fossem identificados ( Lei n.º 9.351/96). Apenas com essa lei a proporção de mulheres selecionadas para a última fase tornou-se compatível com a quantidade de inscritas.

Nesse sentido, resta claro que as entrevistas pessoais e secretas abrem as portas para a perpetuação de antigas práticas que não combinam com o Estado de Direito.

Em outro âmbito, a questão da opacidade do processo de escolha dos ministros do STF também merece atenção. O chefe do Executivo federal indica um nome, escolhido entre cidadãos de "notório saber jurídico" e "reputação ilibada". Em seguida, o Senado deve votar a indicação, após um processo de sabatina realizado pela Comissão de Constituição e Justiça.

Nesses dois momentos bem delineados do sistema de escolha do novo ministro, há questões que não são levadas a público. A sociedade tem direito de saber o que levou a presidência priorizar determinada pessoa. Quais foram os fatores levados em consideração? Quem apoia aquele indicado? Quais outros nomes foram considerados, mas preteridos?

Do outro lado, no momento da sabatina realizada pelos senadores, seria salutar a existência de mecanismos formais para sociedade civil e demais interessados participarem do processo, como ocorre na Argentina, por exemplo.

Existe na sociedade uma mobilização por uma política de justiça mais transparente, aberta e democrática. A independência do Poder Judiciário não pode ser usada como justificativa para que este poder se esquive do necessário e constitucional controle social.

Quer-se provocar, assim, uma discussão pública mais ampla sobre quais devem ser os critérios para que uma pessoa seja investida dos poderes de magistrado, seja no início ou no topo da carreira. Certamente o caminho indicado pela Constituição não se constrói a portas fechadas ou com critérios obscuros.

RAFAEL CUSTÓDIO, 30, e FLÁVIA ANNENBERG, 24, são advogados da ONG Conectas Direitos Humanos
ESTER RIZZI, 29, é advogada da ONG Ação Educativa
RODNEI JERICÓ, 35, é advogado do Geledés - Instituto da Mulher Negra

CLAUDIO HUMBERTO

“Não foi aquela festa cívica exuberante”
Senador Álvaro Dias (PR), líder do PSDB, sobre as eleições municipais de 2012


APOSENTADORIA DE MENSALEIRO PODE SER CASSADA
Pode ser cassada a aposentadoria de Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do extinto PL, atual PR, concedida pelo presidente da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS). Réu do mensalão, ele já está condenado pelo Supremo Tribunal Federal por corrupção ativa, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. A cassação da aposentadoria de funcionário é prevista no art. 134 do Estatuto dos Servidores Públicos (Lei 8112/90). 

LEI RIGOROSA
O art. 134 prevê a cassação de aposentadoria do servidor inativo “que houver praticado, na atividade, fato punível com a demissão”.

FICHA SUJA
Entre os crimes que provocam demissão de servidor estão improbidade e crime contra a administração, pelos quais Lamas foi condenado.

MUITO BONZINHO
Marco Maia aposentou Lama com salários integrais de R$ 43 mil por mês, reduzidos a R$ 25,4 mil após o desconto do teto constitucional.

À ESPREITA
Câmara e Ministério Público Federal acham que a aposentadoria de Lamas pode ser cassada, mas aguardam o fim do julgamento no STF.

MPF APURA SE POLÍCIA DO SENADO SABE USAR ARMA
O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar denúncia de que seguranças membros da Polícia Legislativa do Senado, aprovados em recente curso da Fundação Getúlio Vargas (FGV), usam armas sem capacidade técnica e psicológica. Os policiais legislativos do Senado, ao contrário dos integrantes das polícias Federal, militares e civis, não são submetidos a longos treinamentos e qualificação em academias.

DESPREPARO
Em novembro de 2011, um policial do Senado alvejou com um tiro de pistola de choque um estudante da UnB, de mãos para o alto.

BOCA NO PARAÍSO
Lula vai dar palestra em novembro num fórum em Bali, Indonésia, cujo governo condenou dois brasileiros à morte por tráfico de drogas. 

PERGUNTA NA DELEGACIA
Conhecido pela defesa do consumidor, Celso Russomanno vai reclamar no Procon do balão furado de sua candidatura?

ERA TUDO LOROTA
PMDB já conversava com o PTB para apoiar Celso Russomano (PRB) no segundo turno, quando todo mundo descobriu a gigantesca cascata criada pelos institutos de pesquisa na campanha eleitoral paulistana.

REJEIÇÃO É O LIMITADOR
Com elevados índices de rejeição, o tucano José Serra terá dificuldade de crescer no segundo turno em São Paulo, ao contrário do petista Fernando Haddad. Serra vai destacar sua experiência como prefeito.

ESCAPOU
O governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), tinha prometido “cortar o saco” caso o ex-governador Zeca do PT, seu rival histórico, tivesse 30 mil votos como vereador em Campo Grande. O petista foi eleito, mas, para alívio do Puccinelli, teve só 13 mil votos. 

‘SACRIFÍCIO’
Quis o destino que o “combate” que José Dirceu promete travar pela defesa no STF coincida com o aniversário da prisão e morte de “Che” Guevara, em 8 de outubro de 1967. O cadáver ficou exposto. 

NUMA ‘FRIA’
Paparicado por Lula em vídeo, o desconhecido Claudinho da Geladeira (PT) está no “freezer” do 3º lugar: Gabriel Maranhão, em coligação com o PSDB, foi eleito prefeito da pequena Rio Grande da Serra (SP). 

DE NADA MESMO
No rastro do mensalão, sobrou para o irmão do deputado José Mentor (PT-SP), citado na CPI dos Correios: Antonio Mentor foi lanterninha. Diego De Nada! é o novo prefeito de Americana (SP).

DEU BANDEIRA
Apesar do governo “de esqueda”, bandeiras vermelhas sumiram de Porto Alegre e só apareceram em carreata final no sábado (7), com carrões de luxo. Resultado: Fortunatti (PDT) ganhou de lavada. 

ESCRITO NAS ESTRELAS
Com a Europa em crise, os parceiros do Observatório Europeu do Sul, no Chile, reclamam que, por “questões orçamentárias”, o Brasil não pingou um centavo do acordo de € 300 milhões, assinado em 2010. 

PENSANDO BEM...
...o segundo turno em São Paulo tá russo, mano. 


PODER SEM PUDOR

DESAFIÁ-LO ERA UM PERIGO

Itamar Franco disputou o Senado pelo MDB, em 1974, contra José Augusto de Castro, da Arena. O horário gratuito era ao vivo e Castro vivia desafiando Itamar para debater, mostrando uma cadeira vazia. "Não fuja, Itamar", provocava. Um dia, quando o locutor da Arena repetia o desafio, Itamar invadiu o estúdio e se sentou na cadeira:

- Vim para o debate.

Pânico geral. Castro viu tudo pela TV e foi correndo para o debate, que, é claro, virou bate-boca. O TRE tirou o programa do ar, enquanto - reza a lenda - Castro corria atrás de Itamar, cabo de vassoura em punho.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Eleições 2012 – Fortalecido, PSB vira o mais cobiçado para 2014
Folha: Petistas e tucanos dominam eleição em grandes cidades
Estadão: STF define futuro de Dirceu e Planalto tenta se blindar
Valor: Maior operadora dos EUA compra Amil por R$ 9,8 bi
Estado de Minas: Eleições 2012 – Lacerda demite petistas para ter paz na PBH
Jornal do Commercio: “Oposição ficou do tamanho que o povo desejou”

segunda-feira, outubro 08, 2012

SOBRE O BLOG

Peço desculpas aos amigos leitores pela falta de postagens!

Estou desde a última sexta feira acompanhando minha esposa em um procedimento cirúrgico e sem condições de manter o ritmo do blog. Voltarei amanhá se tudo correr bem.

Abraços 

Murilo

domingo, outubro 07, 2012

Narrar-se - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 07/10


Quem escreve está sempre se delatando, seja de forma direta ou camuflada

Sou fã de psicanálise, de livros de psicanálise, de filmes sobre psicanálise e não pretendo desgrudar o olho da nova série do GNT, Sessão de Terapia, dirigida por Selton Mello. Algum voyeurismo nisso? Total. Quem não gostaria de ter acesso ao raio-x emocional dos outros? Somos todos bem resolvidos na hora de falar sobre nós mesmos num bar, num almoço em família, até escrevendo crônicas. Mas, em colóquio secreto e confidencial com um terapeuta, nossas fraquezas é que protagonizam a conversa.

Por 50 minutos, despejamos nossas dúvidas, traumas, desejos, sem temer passar por egocêntricos. É a hora de abrir-se profundamente para uma pessoa que não está ali para condenar ou absolver, e sim para estimular que você escute atentamente a si mesmo e assim consiga exorcizar seus fantasmas e viver de forma mais desestressada. Alguns pacientes desaparecem do consultório logo após o início das sessões não estão preparados para esse enfrentamento.

Outros levam anos até receber alta. E há os que nem quando recebem vão embora, tal é o prazer de se autoconhecer, um processo que não termina nunca. Desconfio que será o meu caso. Minha psicanalista um dia terá que correr comigo e colocar um rottweiler na recepção para impedir que eu volte. Já estou bolando umas neuroses bem cabeludas para o caso de ela tentar me dispensar.

Analisar-se é aprender a narrar a si mesmo. Parece fácil, mas muitas pessoas não conseguem falar de si, não sabem dizer o que sentem. Para mim não é tão difícil, já que escrever ajuda muito no exercício de expor-se. Quem escreve está sempre se delatando, seja de forma direta ou camuflada. E como temos inquietações parecidas, os leitores se identificam: “Parece que você lê meus pensamentos”. Não raro, eles levam textos de seus autores preferidos para as consultas com o analista, a fim de que aqueles escritos ajudem a elaborar sua própria narrativa.

Meus pensamentos também são provocados por diversos outros escritores, e ainda por músicos, jornalistas, cineastas. Esse intercâmbio de palavras e sentimentos ajuda de maneira significativa na nossa própria narração interna. Escutando o outro, lendo o outro, se emocionando com o outro, vamos escrevendo vários capítulos da nossa própria história e tornando-nos cada vez mais íntimos do personagem principal – você sabe quem.

Selton Mello, em entrevista, disse que para algumas pessoas o programa pode parecer chato, pois é todo baseado no diálogo entre terapeuta e paciente, e isso é algo incomum na televisão, que vive de muita ação e gritaria. De minha parte, terá audiência cativa até o último episódio, pois, mesmo não vivenciando os problemas específicos que a série apresenta, todos nós aprendemos com os dramas que acontecem na porta ao lado, é um bem-vindo convite a valorizar o humano que há em cada um. A introspecção não costuma atingir muitos pontos no ibope, mas é a partir dela que se constrói uma vida que merece ser contada.

O triunfo da justiça - REPORTAGEM DE CAPA DA REVISTA VEJA

REVISTA VEJA


Os ministros do Supremo Tribunal Federal condenam os mensaleiros, denunciam a corrupção e caem nas graças dos brasileiros, carentes de referências éticas

HUGO MARQUES E LAURA DINIZ


O menino Joaquim Barbosa nunca se acomodou àquilo que o destino parecia lhe reservar. Filho de um pedreiro, cresceu ouvindo dos adultos que nas festas de aniversário de famílias mais abastadas deveria ficar sempre no fundo do salão. Só comia doces se alguém lhe oferecesse. Na última quarta-feira, o ministro Joaquim Barbosa, 58 anos, apresentou seu voto sobre um dos mais marcantes capítulos do julgamento do mensalão — o “last act (bri-bery)”, “último ato (suborno)”, como ele anotou em inglês no envelope pardo que guardava o texto de sua decisão. Além do português, Barbosa domina quatro idiomas — inglês, alemão, italiano e francês. Pouco antes da sessão, o ministro fez uma última revisão no texto. Cortou algumas citações, acrescentou outras e destacou trechos. Não alterou em nada a essência da sua convicção, cristalizada depois de sete anos como relator do processo. Durante mais de três horas, Barbosa demoliu a defesa e as esperanças dos petistas José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, mostrando como eles usaram dinheiro desviado dos cofres públicos para subornar parlamentares e comprar o apoio de partidos políticos ao governo Lula. Exaurido pela dor nas costas que o martiriza há anos, o ministro anunciou seu “last act” no mesmo tom monocórdio com que discorreu sobre as provas: condenou por crime de corrupção ativa Dirceu, Genoino e Delúbio, que formavam ^ a cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT). Dois ministros acompanharam o relator e um aceitou em parte as teses da defesa. A votação continua nesta semana, quando os seis ministros restantes vão revelar suas decisões, mas o I Supremo Tribunal Federal, o STF, I já consolidou perante os brasilei-I ros o conceito — sem o qual uma nação não se sustenta — de que a Justiça funciona também para os 'l 1 ricos e poderosos.

Ao apontarem o caminho da prisão para corruptos e corruptores, os ministros do STF deram ao Brasil o alento de que a Justiça está aí para punir quem não cumpre a lei, independentemente da cor da camisa ou do colarinho.

Essa percepção otimista tem levado muita gente a exprimir uma inusitada admiração pelo Supremo Tribunal — uma corte até então distante, aparentemente inacessível à grande maioria, mas imprescindível para a democracia. Desde que foram anunciadas as primeiras condenações dos mensaleiros, os ministros, com raras exceções, passaram a ser assediados nas ruas e a receber centenas de mensagens de apoio e solidariedade. Joaquim Barbosa, que quando criança preferia não ir às festas a ter de se submeter à humilhação de ficar separado dos colegas, é o personagem mais visível desse embate que está impondo à corrupção uma estrondosa derrota.

O ministro Joaquim é relator do processo do mensalão. Por ter coordenado toda a fase de instrução do processo, é, em tese, quem conhece os mínimos detalhes das mais de 50000 páginas de depoimentos, laudos, memoriais e perícias. Seu voto, por isso, é diferenciado. Serve como bússola para os demais ministros. Dos 38 réus acusados de integrar a quadrilha, 26 já foram julgados e, destes, 22 acabaram condenados. Joaquim foi seguido pela maioria dos ministros em 53 de um total de 58 votações. Oito políticos, três banqueiros e vários empresários vão cumprir pena de prisão. Em Paracatu, no interior de Minas Gerais, “Fritz” já era uma celebridade. Desde criança, Joaquim trabalhou com o pai, ora ajudando a fazer tijolo, ora entregando lenha num caminhão velho que a família adquiriu em um período de maior prosperidade. O apelido germânico era uma troça dos colegas. O menino tinha alguns hábitos considerados estranhos: lia tudo o que encontrava, escrevia no ar, cantava em outros idiomas e gostava de andar com o peito estufado, imitando gente importante. “Todos viam que o Joaquim seria alguém quando crescesse”, diz o tio José Barbosa, de 78 anos. “Choro muito de emoção quando ouço a voz dele no rádio, no julgamento desse povo aí”, ressalta. Que povo? O tio não sabe direito. “São esses políticos aí...”.

Dos tempos em que morou em Paracatu, o ministro guarda apenas memórias. Imagem? Nenhuma. A família não podia gastar dinheiro com tal luxo. O único registro que existe do menino Joaquim é uma foto 3x4 anexada a sua ficha de matrícula no Colégio Estadual Antônio Carlos. Irascível, o ministro Joaquim Barbosa também ganhou notoriedade por ter protagonizado debates para lá de acalorados durante o julgamento. A postura muitas vezes agressiva do ministro, vista com certa reserva até pelos próprios colegas da corte, ajudou a fixar a imagem do cavaleiro disposto a enfrentar as resistências em busca de justiça — um ato de bravura. Diz o professor Jorge Forbes, do Instituto da Psicanálise Lacaniana: “As pessoas que vêm das camadas de exclusão social podem dar menos atenção a satisfazer os pares, pois não têm muita esperança do reconhecimento desses pares. Essas pessoas podem parecer imperiais, mas muitas vezes não o são”. Já existem milhares de citações na internet ressaltando as virtudes heróicas do ministro Joaquim. Há duas semanas, o ministro atendeu, no intervalo do julgamento, uma senhora que dizia ter viajado do Rio de Janeiro a Brasília apenas para conhecê-lo. Chorando, ela elogiou o trabalho do relator. “O ministro incorpora uma espécie de herói do século XXI. Precisávamos de uma pessoa com o perfil dele para romper com os rapapés aristocráticos, pois chegamos ao limite da tolerância com a calhordice no poder”, diz o antropólogo Roberto DaMatta.

O hoje empresário Joaquim Rath, amigo de infância do ministro, lembra que na casa de adobe onde Joaquim Barbosa morava com os pais e mais sete irmãos não havia sofá, geladeira nem televisão. Só uma mesa com cadeiras. “Mas com o Joaquim não tinha essa história de negro humilde e pobre, e ele não se subordinava aos ricos e brancos”, conta. Em 2003, Joaquim Barbosa estava em Los Angeles, nos Estados Unidos, quando recebeu uma ligação de Márcio Thomaz Bastos — então ministro da Justiça e hoje advogado de um dos réus do mensalão — informando-o de que seu nome estava sendo cotado para uma vaga no Supremo Tribunal. O presidente Lula queria indicar um juiz negro para o cargo — celebrado como o primeiro na história da corte. Joaquim era o nome certo. Não tinha inimigos no PT e tinha currículo. Quando o velho caminhão do pai quebrou, em 1971, a família resolveu tentar a vida em Brasília, que fica a 250 quilômetros de Paracatu. Na capital, Joaquim se formou em direito, foi aprovado no concurso para oficial de chancelaria e depois em outro para procurador da República. Fez doutorado na Sorbonne, em Paris, foi professor visitante na Universidade Colúmbia, em Nova York, e na Universidade da Califórnia. Dois meses depois da primeira sondagem, saiu a indicação de Joaquim Barbosa para o STF. O ato foi assinado pelo então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

O ministro Joaquim intercala um estilo de vida simples com hábitos sofisticados. Seu carro é um Honda Civic fabricado em 2004. É amante de música clássica, adora Zeca Pagodinho e prefere os ternos importados. Ele mora em um apartamento funcional e, controlado, consegue economizar metade do que ganha (26700 reais). Atribui muito do seu perfil à influência da mãe, Benedita, uma evangélica que há 45 anos frequenta os cultos da Assembleia de Deus. O pai morreu há dois anos. O ex-jogador Dario Alegria, primo distante de Joaquim, lembra que os garotos negros da cidade eram vítimas de um verdadeiro apartheid. “Mas o Joaquim quebrou toda essa lógica, ele era diferente, nunca levava desaforo para casa e não aceitava humilhação”, diz. Das vinte conferências e seminários de que participou nas últimas duas décadas, no Brasil e no exterior, em quase todas abordou a questão racial e o direito das minorias. Logo que Joaquim tomou posse, um amigo perguntou sua opinião sobre a polêmica política de cotas. Respondeu o ministro: “Sem as ações afirmativas os Estados Unidos não teriam um Barack Obama”.

Joaquim Barbosa, pela posição que ocupa, é quem mais se destaca no julgamento, mas coube ao decano do STF, ministro Celso de Mello, deixar clara a disposição do tribunal de punir os mensaleiros e mandar um recado de intransigência com as aves de rapina que dão rasantes sobre os cofres públicos. “A corrupção compromete a inte-gralidade dos valores que dão significado à própria ideia de República, frustra a consolidação das instituições, compromete a execução de políticas públicas em áreas sensíveis, como as da saúde e da educação, além de afetar o próprio princípio democrático.” Celso de Mello foi duro e bem didático nas palavras. Ele disse que os réus do mensalâo formaram uma “quadrilha de verdadeiros assaltantes dos cofres públicos” e comprometeram a República ao agir com “espírito de facção” para obter privilégios. Um voto histórico num julgamento histórico: “Este processo’criminal revela a face sombria daqueles que, no controle do aparelho de estado, transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária e désonesta de poder, como se o exercício das instituições da República pudesse ser degradado a uma função de mêra satisfação instrumental de interesses governamentais e de desígnios pessoais”, disse o decano. Essa manifestação contundente, feita ao vivo na TV, diante de milhares de telespectadores, serve de alerta aos poderosos acostumados com um quadro secular de impunidade.

Na última década, o Ministério Público e a polícia até avançaram em investigações de crimes de colarinho-branco, mas os resultados produzidos ainda são risíveis. Em 2008, havia 409 corruptos e corruptores presos no Brasil, num universo de quase 500000 detentos. No ano passado, o número subiu para módicos 632. Milhares de servidores, prefeitos e deputados são réus em ações criminais por corrupção e em processos civis por improbidade administrativa. Mas são casos paroquiais, com pouca divulgação e pequena repercussão. O bom exemplo, como se sabe, deve vir de cima — no caso, do STF com seus réus de foro privilegiado. “Ao condenar os mensa-leiros, o Judiciário não está rompendo um padrão de impunidade absoluta, mas está rompendo o padrão da impunidade de quem tem sangue azul”, diz o sociólogo Demétrio Magnoli. O julgamento estendeu a notoriedade aos demais ministros do STF. Antes, o assédio a eles era tímido, protagonizado basicamente por estudantes de direito e advogados. Agora, os ministros são reconhecidos em restaurantes, aviões e até na praia. O decano Celso de Mello até já posou para fotos com uma criança no colo a pedido dos pais. “As pessoas comentam que o Supremo está projetando uma imagem que dá muito orgulho aos cidadãos, na medida em que demonstra intolerância ao fenômeno criminoso da corrupção. Este é um processo impregnado de alto valor pedagógico”, disse o decano.

O ministro Marco Aurélio tem recebido uma média de trinta e-mails sobre o mensalâo por dia no gabinete. É o dobro do que recebia antes do início do julgamento. “Percebo que há um acompanhamento da matéria, o que revela um avanço cultural da sociedade.” Luiz Fux, Cármen Lúcia e o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, até mudaram alguns hábitos e estão mais reclusos, para evitar acusações de que se tornaram vedetes. Fux não tem ido à praia e só anda em carros com película nos vidros, Cármen viaja menos de avião, e Britto sai menos para jantar fora. O ministro Lewandowski também está mais recluso, mas por outra razão. Devido a seus frequentes votos pela absolvição de réus, Lewandowski foi vaiado em um aeroporto e pediu reforço de segurança, por se sentir ameaçado. “Parece que somos pop stars e heróis, mas somos apenas servidores. Não estamos fazendo um justiçamen-to, mas julgando a partir da prova e com respeito a todas as garantias constitucionais”, diz Marco Aurélio.

Joaquim Barbosa vai assumir a presidência do STF em novembro. Quem acompanha o julgamento pela televisão percebe que existe algo que incomoda o ministro tanto quanto tentar cooptá-lo. A todo instante, ele troca de posição, troca de cadeira, sai do plenário, transpira. Parece irritado. São as fortíssimas e constantes dores causadas pela sacroileíte, uma inflamação na base da coluna. Na quarta-feira, enquanto proclamava a condenação da cúpula do PT, o ministro experimentou uma almofada elétrica importada que aquece e relaxa os músculos. Não adiantou. O problema de saúde fez Joaquim abrir mão de uma de suas maiores paixões: jogar futebol. Antes disso, ele passou a ser muito requisitado para atuar em jogos disputados em campos desconhecidos, e isso o deixava constrangido. Foi convidado diversas vezes pelo então presidente Lula para participar de uma pelada com os convivas do Palácio da Alvorada, alguns deles agora sob julgamento. Joaquim Barbosa nunca aceitou.

Vamos votar? - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 07/10


Hoje é dia de festa, e não desperdice o privilégio de escolher os que você acha que vão ser os melhores


Política é coisa complicada, todo mundo sabe, e essa eleição está ainda mais complicada que as outras. A cada vez, segundo os resultados, se tem uma ideia: se os eleitores aprenderam a votar melhor, se já percebem quais candidatos pensam sinceramente em fazer alguma coisa decente pelo país, ou se continuam a votar nos mesmos de sempre, que acabam envolvidos nos escândalos de sempre -aliás, cada vez maiores.

É interessante avaliar até que ponto a propaganda eleitoral funciona. Mais tempo na televisão significa mais votos? Mais cartazes nas ruas quer dizer que a eleição está ganha? A realidade diz que não. Às vezes parece que o eleitor está mandando um recado aos que achavam que a transferência de votos seria automática, mas se houvesse a receita do sucesso tudo seria bem fácil. E o tempo dos marqueteiros parece estar em seus estertores, ufa.

Só quando forem abertas as urnas vamos saber, e muitos eleitores -segundo as pesquisas- parecem estar dizendo "voto em quem quero". Convenhamos, é um progresso. E quando você não tem certeza de em quem deve votar? Alguns preferem os que estão na frente das pesquisas, para estar do lado dos vitoriosos; já outros escolhem seu candidato por eliminação e votam contra um candidato ou contra um partido (ou vários).

Eleição é sempre um dia de grandes emoções. O resultado vai mostrar -mais ou menos- para onde estamos indo, e participar dessa escolha é uma chance que não pode ser desprezada.

Existem os que não têm mais obrigação de votar por terem atingido os 70 anos. Mas como assim? Abrir mão desse direito é desistir de muita coisa, sobretudo de ajudar a melhorar o país -fora a sensação de estar vivo e atuante, o que é muito bom. Eu sempre vou votar, mesmo que o voto venha a ser facultativo.

Vote com sua cabeça, mas também com seu coração, e não importa se seu candidato -segundo as pesquisas- não tem chance de ganhar. O que interessa é a certeza de estar votando bem, naquele que parece ser o melhor, de acordo com a sua consciência.

Complicada é a escolha do vereador; são tantos os candidatos, a maioria deles tão insignificante, com seus slogans bizarros (e sempre com um sambinha ao fundo), que é um problema ter que escolher um deles para nos representar. Algum -ou alguns- deve merecer o voto, mas esses eu não conheço, e votar em branco é uma questão de princípios: eu me recuso.

Então, se esse for também seu caso, escolha uma legenda na qual acredita, vote nela e saia da cabine com o coração leve, com a consciência de ter feito o melhor que podia, e não invente nenhuma desculpa para não votar; votar é bom.

Hoje é dia de festa, e não desperdice o privilégio que é poder escolher os que você acha que vão ser os melhores; vote bem.

PS - Recebi e-mail de um leitor informando que, segundo denúncia do Ministério Público Federal, a Justiça Federal de Paranaguá mandou a júri popular, por tentativa de homicídio qualificado, os cinco tripulantes acusados de torturar e jogar ao mar o clandestino camaronês.

O júri deverá acontecer ainda neste mês de outubro, e o camaronês terá de volta seu passaporte, para poder retornar a seu país.

A Justiça não falhou e foi rápida, viva ela.

Um dia a casa cai - DORA KRAMER


O Estado de S.Paulo - 07/10


Incorreu em grave equívoco quem considerou para efeito de ceticismo supostamente engajado que o processo do mensalão acabaria "dando em nada".

As condenações em massa que no Supremo Tribunal Federal alcançam os generais da banda do núcleo político fecham um ciclo. Se, quando e como outro vai se abrir, veremos. Mas a descrença e a apatia até aqui sofreram um duro revés.

Já no recebimento da denúncia, há cinco anos, havia ficado patente que o STF não estava disposto a contemporizar.

Note-se que a composição não era a mesma de hoje. Ainda assim, lá os juízes de maneira quase sempre unânime deram o aviso geral aos navegantes que agora se confirma: chega. Ou os políticos entendem que precisam andar nos trilhos como qualquer cidadão ou terão de arcar com as consequências legais.

Não vai nisso o peso da responsabilidade exclusiva do PT. O partido não inventou a delinquência governamental nem a venalidade legislativa - para usar palavras do ministro Celso de Mello -, não obstante tenha se valido delas à exorbitância.

Agravou um quadro grave quando emprestou à ilicitude sua marca construída na defesa da ética.

Conferiu indulgência social à cultura de transgressão, além de associar sua ideologia aos piores instrumentos, e de se aliar aos mais nefastos operadores para pôr o aparelho de Estado a serviço de um projeto partidário tão longevo quanto hegemônico.

Quando decidiu abrir o processo, o STF também surpreendeu. Pela veemência dos termos usados pelos ministros e pela implacável objetividade do retrato traçado na denúncia do então procurador-geral Antônio Fernando de Souza sobre o esquema montado pelo PT para dar suporte financeiro ao seu projeto.

Na ocasião, o uso de métodos espúrios para o exercício do que se chama de política, mas não passa de pura bandidagem, já tinha chegado ao limite do insuportável. No entanto, mandantes e executores acharam por bem prosseguir.

E pelo visto agora com as apreensões de dinheiro para abastecer campanhas do PT no Amazonas e no Pará, insistem.

Quando se vê um assessor do partido em Manaus ser flagrado com notas na cueca anos depois de vexame semelhante, é de se perguntar o que ainda mais será preciso além de punição pesada para que o recado seja devidamente compreendido.

Não são suficientemente duras as lições de um julgamento em que gente acostumada ao tratamento de "excelência" é chamada de "quadrilha" e referida pela autoria de tramas sórdidas reveladas para todo o País no relato dos autos?



Seja qual for o rumo dos acontecimentos logo após o desfecho desse caso, algo de útil já ficou patente: não dá para fazer tudo do jeito mais errado e esperar que dê certo no final.

Por lamentável que seja o cenário, por mais lentas que sejam as mudanças, nada disso terá sido em vão. E o PT, se tiver cabeça, ainda poderá se redimir e algum dia dizer que deu - por vias transversas e adversas - uma grande contribuição ao Brasil.

Gato por lebre. A presença do vereador e suplente de Marta Suplicy no Senado, Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP), na campanha do tucano José Serra, traduz a grave distorção que o atual modelo de suplência provoca na vontade do eleitor.

A pessoa vota em Marta, do PT, mas acaba representada por um político que milita no campo adversário, do PSDB. E isso sem ter dado um único voto ao substituto, incluído na chapa por obra dos acertos entre partidos.

Banca do distinto. É o tal negócio: quanto mais alto o coqueiro maior é o tombo.

Vai ficando claro que o foro especial para autoridades nem sempre é um privilégio. Depende muito da disposição da Corte de não deixar que a justiça tarde e muito menos falhe.

Reforma política - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O Estado de S.Paulo - 07/10


O pessoal mais antigo da ilha tem muita saudade das eleições nos velhos tempos. Uns se queixam da avacalhação, porque outrora era uma coisa solene e séria, os homens de bem envergavam paletó e gravata, faziam a barba, botavam água de cheiro atrás das orelhas, no sovaco e no lenço, metiam no bolso a caneta Parker usada somente nas grandes assinaturas e se apresentavam decentemente para o cumprimento do sagrado dever. Outros reclamam da falta de graça de não ter mais de ficar escondido por trás de uma cortina, escolhendo cédulas e enchendo envelopes, ou marcando cruzinhas na chapa. E, além disso, eram tempos fartos, o eleitor se dava melhor. Há quem se recorde saudoso da ocasião em que um certo coronel, além dos benefícios que fazia a todos os correligionários, deu um queijo de cuia a cada eleitor - isto mesmo, um queijo de cuia inteiro, ainda dentro da cuia - era acabar de votar e retirar o queijo. Hoje não há mais disso, já se perdeu essa grandeza, eles só querem continuar mamando e não dão nada a ninguém.

Ainda outros argumentam que a maior falta de graça nas eleições atuais é que acaba tudo na hora e se conhece o resultado imediatamente, não tem mais torcida nem espera pela virada da noite, para não falar em recontagem, anulação de urna, fiscal de apuração e aula de como desenhar o nome. A isso se acresça o argumento, ventilado por Ary de Maninha, em meio a uma concorrida palestra no bar de Espanha, segundo o qual está provado por A mais B, nos mais altos círculos da altíssima espionagem, que as urnas eletrônicas são controladas pela CIA, através de satélites especializados. "Pode votar quem quiser, em quem quiser", disse Ary. "Mas a eleição de Itaparica já está na mão da CIA e do FBI, americano não facilita com ninguém. A gente vota num candidato, eles dão um camone boy nas urnas e o resultado sai o contrário."

A ilha fechou com Dilma na última eleição presidencial, de maneira que somente uns dois ou três gatos-pingados mantinham a esperança de que ela aparecesse na semana passada, para um discursinho ou para pegar uma moquequinha no Negão e tomar um copo da milagrosa água da Fonte da Bica. Sabe como é, a ilha já são favas contadas e ela dispõe de ampla maioria, de forma que pôde dar preferência a outras praças, como São Paulo, onde o perigo é maior e nesse ponto são mais atrasados, não adotaram nem o queijo de cuia ainda. Lula, que era esperadíssimo por Pitu Petê, também não apareceu. Diz Pitu que ele mandou um telegrama, mas ninguém viu esse tal telegrama, Pitu de vez em quando inventa umas coisas.

No mais, sabe-se que Jacob Branco já pediu a Manolo do bar para guardar as petições de um habeas corpus preventivo e de um mandado de segurança que ele providenciou com um grande advogado amigo seu, no caso de, no seu dizer, "vierem os poderes públicos a mais uma vez impor restrições despóticas aos direitos etílicos do cidadão, quando deveriam reconhecer que, para votar hodiernamente, necessita o indivíduo normal não só de vedar as narículas como, já sentencia o vulgo, de botar umas duas no juízo". Pitu Petê, apesar de marcadas e inconciliáveis divergências políticas com Jacob, concordou nesse ponto e selaram o acordo com um aperto de mão e diversos brindes.

E a grande surpresa este ano foi a posição de Zecamunista, que, pela primeira vez na história política da ilha, não apoiou nenhum candidato e muito menos fez campanha. Quando alguém puxava papo de eleição, ele tentava mudar de assunto, bocejava espalhafatosamente e às vezes se retirava, para ir passear na beira do cais da contracosta ou voltar para casa. Numa dessas vezes, me telefonou. Não queria conversar sobre política local. Aquilo tudo era passado, eu não imaginava quão passado. Claro, ele era um visionário e, como todo visionário, tinha um sonho. E agora, depois de meditação e estudo, chegara à solução para os problemas políticos do Brasil, à nossa verdadeira reforma política. Não, não era a criação da carreira de corrupto, ia muito além disso, era a forma democrática e universalizada de todo mundo se fazer, como é o ideal do político brasileiro.

- É tudo baseado em conceitos democráticos - disse ele. - Na democracia não são todos iguais? Se são todos iguais, não há necessidade de eleição, basta um sorteio benfeito, todo mundo com chances também iguais. Sorteava Senado, sorteava Câmara, sorteava assembleias, sorteava tudo. Entrariam no páreo todos os acima de 21 anos, 35 para o Senado, de qualquer sexo e classe social. Não ia ter essa de poder econômico, popularidade de televisão, apadrinhamento, cara bonita, nada disso, chances democraticamente iguais para todos, ninguém ia poder alegar favoritismo. Quem fosse sorteado tinha que servir, como no Exército. Sentiu a revolução? Sentiu como está resolvido o problema da corrupção?

- Você acha que a corrupção será eliminada desse jeito?

- Claro que não, é exatamente o contrário. Você esquece que meu projeto não é eliminar a corrupção, é democratizar a corrupção, é um processo de inclusão dos marginalizados. Você já imaginou, dentro desse esquema, as oportunidades de negociatas e altas jogadas de todo tipo? Só ia ficar de fora quem quisesse, até porque a primeira coisa que eles iam aprovar seria a possibilidade de se vender a vaga de vereador, deputado ou senador. Ia ser um mercado mais movimentado que a bolsa de valores de Nova York.

- Mas você acha que ia dar certo?

- Claro que dá, tenho plena certeza. Eu sei porque é o mesmo que eles já fazem hoje, é a mesma ladroeira de sempre, só que desta vez vai ser às claras, nosso mal tem sido querer negar nossa vocação histórica.

Todos contra um? - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 07/10

Preocupados como clima conflagrado entre Fernando Haddad, Celso Russomanno e Gabriel Chalita na reta final da campanha paulistana, emissários de Dilma Rousseff e Lula procuraram dirigentes de PT, PRB e PMDB para costurar a união no possível segundo turno contra José Serra, seja quem for o finalista. Para permitir o "acordão" e não melindrar os aliados, Dilma fez questão de não atacar adversários de Haddad na sua rápida participação na campanha, na última semana.

Procon 
Caso avance, Russomanno vai mesmo mudar a equipe de marketing. O publicitário Ricardo Bérgamo terá companhia de Agnelo Pacheco, indicado por Campos Machado (PTB). O "reforço" será anunciado amanhã.

Sonho meu 
O cenário de embate com Russomanno no segundo turno é o trabalhado pelo marqueteiro do PSDB, Luiz González, há 20 dias, desde que Serra estancou sua curva de queda nas pesquisas. O QG guardou munição contra o candidato do PRB para a nova fase.

DR 
O Planalto começa a debater procedimentos para o segundo turno com partidos da base em reuniões a partir de terça, capitaneadas por Ideli Salvatti (Relações Institucionais). A ministra receberá os líderes governistas Arlindo Chinaglia (PT-SP), Eduardo Braga (PMDB-AM) e José Pimentel (PT-CE). Também é esperada a participação dos representantes de PT e PMDB no Congresso.

Pastel de vento 
Desde quinta-feira, petistas são bombardeados com números conflitantes sobre quem vai para a segunda fase da disputa em São Paulo. "Parece pastelaria: tem para todo gosto".

Ponte aérea 
Dividido entre São Paulo, Belo Horizonte e a campanha de Hugo Chávez na Venezuela, também hoje, João Santana começa o dia em Caracas, embarca à tarde para São Paulo e pode ir ainda hoje à capital mineira. Amanhã, volta à Venezuela.

Sem pausa 
Dilma manifestou a Lula medo de que, encerrada a disputa municipal, comece outra, pela vaga de candidato do PT ao governo de São Paulo. Ela vai chamar Aloizio Mercadante (Educação), Alexandre Padilha (Saúde) e Marta Suplicy (Cultura) e dizer que não quer que 2014 comece em 2012.

Rojão 
Com a expectativa de vencer ou disputar o segundo turno em sete capitais e em Campinas (SP), que tem "status" equivalente na contabilidade interna, o PSB deve só esperar a apuração para bater bumbo do saldo eleitoral, com o presidenciável Eduardo Campos à frente.

Em casa 
O PSB considera vital liquidar a fatura no Recife hoje. Embora os institutos apontem tendência de segundo turno com o tucano Daniel Coelho, o argentino Diego Brandy -que é chamado de "mago" das pesquisas no QG de Geraldo Júlio- tem prometido vitória antecipada ao amigo Eduardo Campos.

Mudando... 
Presidente do TSE, Cármen Lúcia deve se pronunciar pelo menos duas vezes hoje. Fará balanços sobre os problemas em urnas eletrônicas e dará um panorama geral quando a votação terminar. Já os resultados serão proclamados pelos TREs.

... de assunto 
Também integrante do STF, a ministra quer se manifestar publicamente para responder às críticas de que teria deixado a condução do processo eleitoral em segundo plano por causa do mensalão.

Trote 
Tasso Jereissati (PSDB) recebeu ligação de telemarketing em que Lula pedia votos para Elmano Freitas (PT). Em 2010, gravação similar instava os cearenses a não votarem em Tasso, alvo do petista graças à derrota na prorrogação da CPMF.

Tiroteio

O eleitorado paulistano pregou uma peça em todos. Parece sinalizar que deseja um segundo turno diferente: com três candidatos.

DO HISTORIADOR MARCO ANTONIO VILLA, analisando a embolada disputa pela Prefeitura de São Paulo, com cenário indefinido até a eleição.

Contraponto


Urna indevassável

Candidato a prefeito de Salvador pelo PRTB, Rogério da Luz roubou a cena no debate da Rede Bahia, afiliada da Rede Globo no Estado, que pertence aos herdeiros do senador Antonio Carlos Magalhães, cujo neto, ACM Neto (DEM), disputa uma vaga no segundo turno na capital.

Com tiradas e brincadeiras, o candidato foi o franco-atirador do debate. Já na saída do evento, ao concluir a entrevista com os jornalistas, tripudiou:

-Espero o voto de todos, inclusive do pessoal que trabalha aqui na Rede Bahia, porque, afinal, o voto é secreto. Não precisa votar em Neto, não!