segunda-feira, setembro 17, 2012

Inovação poderá embalar Brasil futuro - SERGIO LEO


VALOR ECONÔMICO - 17/09

O governo, aflito com a perda de competitividade da indústria nacional, não tem se limitado às benemerências abençoadas no Palácio do Planalto, envolvendo redução de impostos e, mais recentemente, cortes no preço da energia elétrica. Um trabalho bem menos visível, está em curso, e, por enquanto, se esconde sob o batido e pouco entendido rótulo de "inovação", sob a exótica categoria da "nanotecnologia". O Brasil, gigante produtor de alimentos, poderá se beneficiar da novidade.

"O certo não seria falar em nanotecnologia, mas nanotecnologias", diz o diretor do Departamento de Tecnologias Inovadoras do Ministério do Desenvolvimento, João Batista Lanari Bó. Há diversas tecnologias agrupadas sob o nome de nanotecnologia, unidas apenas por sua escala microscópica: são engenhos humanos, criados com milionésimos de milímetro, aplicáveis às mais variadas áreas da indústria, da química ou da medicina, capazes de alterar a propriedade dos materiais. O ministério começa a sair do terreno das especulações sobre o tema, para incentivar as empresas a abraçarem essas novas tecnologias - nada microscópicas, quando se trata de medir seus possíveis ganhos.

Após reuniões entre potenciais interessados e a contratação de uma empresa de consultoria especializada, o governo está perto de provar que é possível escolher uma rota tecnológica inovadora e montar um modelo de negócios factível. O setor escolhido foi o da indústria de embalagens, essencial para a competitividade das exportações do país, onde a nanotecnologia pode permitir a criação de produtos mais resistentes, esterilizados ou inteligentes - capazes de avaliar e indicar ao consumidor o estado da mercadoria embalada, por exemplo.

Projeto oferecido pelo governo deve inspirar empresas

A indústria de plásticos, recentemente beneficiada por aumento de barreiras contra a concorrência importada, foi o alvo escolhido pelos técnicos do governo para a primeira iniciativa. É um setor onde há pouquíssimas empresas no início da cadeia produtiva, na produção de resinas plásticas (setor quase totalmente dominado por uma grande firma, a Braskem), e, na ponta final, cerca de 12 mil fabricantes de produtos de plástico. Em uma ponta, os negócios têm de ter uma escala monumental para atrair a atenção e interesse dos executivos; na outra, o reduzido tamanho das empresas as deixa muito pouco dispostas a riscos e investimentos em novas tecnologias.

O governo assumiu, então, um papel geralmente desempenhado pelos próprios empresários, e, após reuniões de trabalho com o setor privado, financiou a primeira fase de um estudo de viabilidade para a instalação de uma indústria de produtos plásticos com nanotecnologia destinados a embalagens. "Começamos falando em nanotubos de carbono, para embalagens da indústria eletroeletrônica, mas o Brasil é grande exportador de alimentos, onde temos de inovar na cadeia produtiva", comenta o coordenador do estudo, encomendado à consultoria Nanobusiness, Ronaldo Pedro da Silva.

"No país, 40% do que se consome em embalagens é para alimentos; está aí um baita mercado", resume o especialista. O "baita" mercado da indústria de embalagens reúne cerca de 230 empregos e tem faturamento estimado, neste ano, de R$ 46 bilhões, cerca de 5% acima da receita gerada em 2011. O setor de plásticos ocupa mais da metade do pessoal nessa indústria e participa com 40% do total de suas exportações.

O resultado do estudo encomendado pelo ministério já interessou uma holding do setor a bancar os passos seguintes do que pode se transformar numa fábrica de insumos nanométricos para a indústria de embalagens plásticas. Ou, em português corriqueiro: uma fábrica que produzirá uma espécie de pasta com componentes de argila em escala microscópica, a serem misturados às resinas plásticas, para criar embalagens mais resistentes, mais duráveis, mais impermeáveis, ou com capacidades antimicrobianas e antioxidantes. Um material capaz de enfrentar as crescentes exigências técnicas que os países desenvolvidos vêm impondo às importações, especialmente de alimentos.

O estudo, que necessita, obviamente, de aprofundamento para orientar, de fato, a criação de uma fábrica, evitou delírios desenvolvimentistas e adotou hipóteses conservadoras. A nanoargila foi escolhida por ser um material com facilidade de domínio da tecnologia e um mercado sem concorrentes dominantes, aberto a empreendedores.

Os estudos preliminares, que agora são discutidos seriamente pelo ministério com os empresários interessados, indicam a possibilidade de criação de uma fábrica de custo relativamente baixo e retorno alto, para produzir esse material a ser usado pela indústria plástica na melhoria das embalagens.

O mercado estimado é de até R$ 40 milhões anuais até 2016, os custos de instalação e operação (Capex e Opex, na terminologia dos planos de negócio) ficam em até R$ 29 milhões, pelas hipóteses mais conservadoras, nos primeiros cinco anos. Com financiamento do BNDES, pelo PSI, o carinhoso programa de apoio a investimento do banco, o investidor terá uma taxa de retorno entre 40% a 63% e recuperaria o capital em cinco anos e meio. É um negócio modesto, que pode trazer melhorias a uma cadeia produtiva de dezenas de bilhões de reais;

O exercício microeconômico serve para mostrar que nem tudo que se pode fazer pela competitividade da economia nacional ganha cerimônia e fanfarra nos palácios oficiais. O grupo de inovação do ministério explora também as possibilidades da nanotecnologia na exploração de petróleo, que será um dos temas de um seminário em outubro.

A escala microscópica desse tipo de tecnologia pode, quem sabe, inspirar o setor privado a se armar de lupas e investigar novas oportunidades, além das ações do governo, que surgem contra a armadilha da falta de competitividade.

De volta à Petrobras - AÉCIO NEVES


FOLHA DE SP - 17/09

O Senado ouviu da presidente da Petrobras esclarecimentos sobre os abalos que a companhia vem sofrendo, por uma progressiva desconfiança em relação à sua governança corporativa.

Graça Foster teve que se haver com a herança recebida -o uso político/partidário da empresa, a realização de operações ruinosas e o intervencionismo da política econômica em desfavor da rentabilidade da produção, compra e venda de combustíveis.

A companhia perdeu cerca de 50% de seu valor em Bolsas, desde 2008; a estagnação da produção está em torno de 2 milhões de barris/dia desde 2009, com mais perspectiva de queda no ano. No segundo trimestre, registrou-se um prejuízo de R$ 1,34 bilhão, o terceiro de toda a sua história.

Isso sem falar no malogro do programa de refinarias. A Abreu e Lima, em Pernambuco, por exemplo, acumula atrasos monumentais e um salto de dez vezes no seu orçamento original, de R$ 2,3 bilhões para R$ 20,1 bilhões.

Nas explicações da presidente, chamou a atenção o fato de que se a PDVSA, a companhia venezuelana de petróleo, não confirmar a tão prometida participação em 40% do negócio, o fiasco será ainda maior, já que parte de sua planta foi desenvolvida para refinar o tipo de petróleo pesado produzido na Venezuela, e não no Brasil. Pelo menos ela reconheceu que é uma lição a ser aprendida, para que não se repita.

Tão ou mais importante do que os prejuízos da Petrobras é o regime de ineficiência na companhia. Entre 2002 e 2011, o número de empregados cresceu 75%, e o de terceirizados, 171%, enquanto a produção de petróleo e gás avançou só 45%. Entre as cinco maiores do mundo, a Petrobras é a que possui a menor relação produção/número de funcionários -32 barris equivalentes de petróleo por dia (bep/d) por funcionário. Tal relação vem piorando ao longo do tempo -era de 39 bep/d por funcionário em 2002.

Tudo isso ocorre enquanto se sinaliza para o risco de paralisia no setor de exploração no Brasil. As áreas de prospecção estão minguando. Desde 2009 está suspensa a 11ª rodada de licitação, afetando os blocos fora da área do Pré-sal.

Hoje, duvida-se que a Petrobrás possa arcar com as necessidades futuras de investimentos, inclusive no Pré-sal, onde responde por 30% de cada contrato. O governo culpa o Congresso pela paralisia, em função da questão da distribuição dos royalties, como se ele não tivesse ali base que tudo aprova e referenda.

Qualquer definição terá custos políticos e o governo só trabalha em função do calendário eleitoral. O estilo estatizante, intervencionista e populista de governar traz em sua raiz o conflito entre a necessidade e a conveniência, com sistemática prevalência do último sobre os interesses do país.

Para que servem as universidades - JOSÉ GOLDEMBERG


O ESTADÃO - 17/09


A universidade está sob ataque e os atacantes são internos e externos. Entre os "inimigos" externos, um dos mais atuantes no momento é Peter Thiel, um importante executivo americano da área de informática que oferece bolsas para que estudantes abandonem as universidades e criem empresas nos Estados Unidos e na Europa, onde já existe, segundo ele, suficiente tecnologia disponível.

Em países industrializados já existe, de fato, muita tecnologia disponível, o que não significa, contudo, que novos avanços não estejam ocorrendo todos os dias. O mesmo se aplicaria aos países em desenvolvimento na Ásia, na África e na América Latina, que poderiam simplesmente copiar o que deu certo nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

Essa visão imediatista e colonialista de Peter Thiel encontra aliados nos "inimigos" internos das universidades públicas em nosso país, com greves infindáveis baseadas, em geral, em reivindicações corporativas, que prejudicam não só estudantes, como também as pesquisas em andamento. Se vivesse no Brasil, o executivo americano provavelmente apoiaria a greve e a consideraria uma demonstração viva de que as universidades não são necessárias.

As ideias de Peter Thiel são incorretas em número, gênero e grau. Se fossem levadas a sério, matariam a "galinha dos ovos de ouro" que é a pesquisa científica, na qual se origina a inovação tecnológica.

Cientistas, de modo geral, são movidos por uma profunda curiosidade intelectual de entender como as coisas funcionam. A glória, para eles, é conseguir estabelecer claramente a relação entre causas e efeitos. Essas descobertas podem ter imensas consequências práticas e resultar em ganhos financeiros. Raramente, no entanto, isso é feito pelos próprios cientistas, e sim por empreendedores que põem em prática os seus ensinamentos.

Pode parecer divertido e lucrativo fazer jogos eletrônicos, iPads, Facebook, com as inúmeras variantes dos computadores de hoje, e se tornar bilionário. Sucede que esses desenvolvimentos só se tornaram possíveis com a invenção dos transistores na década de 50 do século passado, a qual não teria sido possível sem a evolução da física moderna nos anos 1930.

Além disso, nos países em desenvolvimento o problema não é só copiar o que os países industrializados fizeram antes, mas escolher o que copiar. Para fazê-lo é preciso haver cientistas capazes de entender a ciência e a tecnologia moderna, que é o que universidades normalmente fazem. Em muitos casos, copiar não basta porque são necessárias adaptações ao uso de materiais disponíveis nessas nações e às condições locais.

Países como a China estão se beneficiando extraordinariamente desse modo de fazer as coisas, combinando boas escolhas com mão de obra barata. A prioridade para a China não tem sido o mercado interno, mas o imenso mercado mundial, onde os padrões de qualidade dos produtos consumidos são elevados e existe competição. Daí a necessidade de usar tecnologias modernas e também o papel da inovação, cuja função é descobrir a melhor maneira - e a mais econômica - de fabricar os produtos.

Não é o que está ocorrendo no Brasil, onde o protecionismo alfandegário dificulta a entrada de produtos do exterior e a indústria se concentra em atender o mercado interno, que é pequeno, apenas cerca de 2% do mercado mundial, abrindo mão de competir nos 98% restantes, como faz a China. Na ausência de competição, a indústria nacional utiliza frequentemente tecnologias obsoletas, por não ter motivos fortes para inovar. Quando as barreiras alfandegárias caem, a indústria pode simplesmente ser levada à falência, como se deu em 1990 com a indústria têxtil, que não tinha acesso à tecnologia moderna.

Qual o papel das universidades neste panorama?

Historicamente, o sistema produtivo, tanto nos países industrializados como nas nações em desenvolvimento, gera demandas do setor universitário. As principais das quais são as seguintes:

A necessidade de garantir acesso a novas matérias-primas à medida que as tradicionais se tornam difíceis de obter.

A procura de novas soluções, forçada pelas restrições ambientais.

Automatização crescente dos processos industriais, que resolve problemas de aumento de produção, mas pode criar gargalos técnicos cuja solução exija inovações.

Mudanças de padrões de consumo e os desenvolvimentos tecnológicos que eles possam exigir.

A competição é o grande motor da busca de inovações. Quando ela não existe, o sistema produtivo definha e morre. Exemplo disso é o que ocorreu na extinta União Soviética, onde os setores científicos e universitários que trabalhavam em áreas em que o governo tinha grande interesse - armas nucleares e foguetes para lançamento de ogivas nucleares - foram privilegiados e tiveram enorme sucesso. Já o desenvolvimento de produtos de consumo que melhorariam as condições de vida da população tinham baixa prioridade e baixo envolvimento dos cientistas e das universidades, e essa foi uma das causas do desmoronamento do sistema soviético.

Daí a necessidade de manter universidades de alto nível, isto é, centros de estudos, pesquisas e inovação, como é feito na Europa há quase mil anos. São as grandes universidades de hoje, algumas delas no Brasil, que produzem as novas ideias e novas tecnologias que vão dar, amanhã, origem a empreendimentos comerciais, e não o contrário. É uma ilusão esperar que elas, por si sós, modernizem o sistema produtivo, mas precisam estar preparadas para responder às demandas da sociedade.

É por essa razão que qualquer medida que leve à redução da qualidade e do potencial das universidades brasileiras, como a criação de cotas raciais, por exemplo, é equivocada.

Linha dura - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 17/09


Finda a leitura de Joaquim Barbosa no item lavagem de dinheiro, o site do STF publicou na íntegra o voto do relator, mas foi além: revelou a dosimetria de penas para réus acusados do crime, discussão que só ocorrerá após o julgamento do mensalão. Para Marcos Valério, tido como operador do esquema, Barbosa sugere 12 anos e sete meses de reclusão. Para os ex-diretores do Banco Rural Kátia Rabello e José Roberto Salgado, ele prevê dez anos, mais 250 dias-multa neste tópico.

Na lama A revelação frustrou a defesa dos réus, para quem o relator do processo estipulará penas "acima de qualquer expectativa".

Falha nossa Ontem à noite, o Supremo republicou o voto apenas até a conclusão do relator, sem o anexo de 28 páginas com as dosimetrias.

Tiro... Em conversas privadas neste final de semana, advogados de personagens do mensalão creditaram as declarações atribuídas a Marcos Valério e publicadas pela revista "Veja" a uma possível pressão sobre os ministros na fase em que serão julgados os grão-petistas.

... ao alvo Os mesmos defensores admitem que Lula entrará na mira do Ministério Público, que poderá pedir inquérito para apurar o suposto envolvimento do ex-presidente. "Se nenhum procurador se mexer é prevaricação", afirma um dos criminalistas.

Vip Chamou a atenção dos convidados a deferência com que Lula tratou Marta Suplicy ontem no almoço com governadores em São Paulo. O ex-presidente, informado da chegada da agora ministra ao Centro de Tradições Nordestinas, correu para recepcioná-la. Depois, a instalou na mesa a seu lado.

Protocolo Petistas foram cautelosos no cerimonial e demarcaram os assentos. Luizianne Lins, prefeita de Fortaleza, sentou-se entre o governador Eduardo Campos (PSB) e Humberto Costa (PT), que rivalizam em Recife. "Parecia um evento do Itamaraty", ironizou um ministro, incomodado com o rigor.

Claque Gilberto Kassab prometeu ao QG de José Serra levar 10 mil militantes do seu PSD ao comício que o tucano planeja realizar, dia 27, no Vale do Anhangabaú.

Ato... Após a controvérsia com a Igreja Católica, Celso Russomanno vive dilema: se for ao debate com padres, quinta-feira, deve ser duramente questionado. Se faltar, corre o risco de alimentar o estigma de representante oficial da Igreja Universal.

... de contrição A exemplo de Russomanno, o vice na chapa, Luiz Flávio Borges D'Urso (PTB), foi orientado pela campanha a repetir em eventos públicos que é católico, frequenta missas e estudou em colégio de padres.

Gogó O PT liberou 3.500 arquivos de áudio com mensagens de ministros apoiando governistas no país. Só José Eduardo Cardozo (Justiça) gravou para aliados de Dilma Rousseff em 360 cidades.

Caravana Geraldo Alckmin reservou os dias 22 e 29 para incursões por municípios do interior em que candidatos do PSDB têm chances de vitória. Estão previstas visitas a Santos, Sorocaba, Osasco, São Carlos e Sumaré.

Recomeço A primeira pesquisa Ibope em Osasco após a renúncia de João Paulo Cunha acendeu a luz amarela no PT. O tucano Celso Giglio lidera, com 39% das indicações. Jorge Lapas, substituto do réu do mensalão, está em terceiro lugar, com 12%.

Timing O QG petista considera que o levantamento ainda não captou o impacto da impugnação de Giglio em razão da rejeição das contas de seu mandato anterior. O PSDB já recorreu ao TSE.

Tiroteio

A fala de Valério não interfere no julgamento em curso. Mas vem aí: 'Mensalão 2, a Missão', com o Ministério Público investigando Lula.

DO DEPUTADO ROBERTO FREIRE, PRESIDENTE DO PPS, sobre a reportagem
da revista "Veja", em que Marco Valério liga o ex-presidente ao escândalo.

Contraponto

Show de calouros

Após evento no Teatro Municipal, anteontem, José Serra parou para almoçar num bar tradicional do centro paulistano. Ao notarem a presença do tucano, dois músicos da casa se aproximaram da mesa e anunciaram, mencionando o bairro onde o candidato nasceu:

-Queremos fazer uma homenagem à Mooca!

Serra gostou da ideia e, em seguida, cantarolou trecho de "Piston de Gafieira", hit de Sílvio Caldas.

A dupla de cantores elogiou a performance do tucano.

Em seguida, um frequentador do bar brincou:

-Ganhou meu voto! Assim, a MPB não corre riscos...

Nó federativo - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 17/09

Congresso desperdiça o prazo estipulado pelo STF, até dezembro, para enfrentar e dirimir os conflitos quanto à partilha de tributos federais

O país corre o risco de desperdiçar oportunidade rara de aprimorar a partilha de recursos tributários entre os entes da Federação -União e Estados, no caso- e abrir caminho para uma reforma do caótico sistema nacional de impostos.

A oportunidade foi criada pelo Supremo Tribunal Federal quando, em fevereiro de 2010, considerou inconstitucional a regra para rateio do Fundo de Participação dos Estados (formado por 21,5% das receitas do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados, dois tributos federais).

Na ocasião, o STF deu prazo até dezembro deste ano para a definição de novos critérios. A despeito do prazo generoso e da importância da decisão para as finanças estaduais, o tema permanece quase ignorado na agenda nacional.

Deputados e senadores apresentaram projetos, mas o Congresso está longe de um consenso. A análise foi postergada para depois das eleições municipais, quando restarão meros dois meses para votações na Câmara e no Senado.

Prepara-se o terreno para mais um debate apressado no Congresso, que resultará em legislação medíocre ou deficiente. O Parlamento se esquiva a enfrentar, de vez, os principais focos de conflito no federalismo brasileiro, como a repartição dos royalties do petróleo e da arrecadação do ICMS, principal tributo estadual.

Desde 1989, o rateio do fundo de participação é feito por meio de cotas fixas, à revelia da evolução desigual da população e da renda entre os 26 Estados e o Distrito Federal. Os insatisfeitos com a distorção recorreram ao Judiciário.

O impasse em torno da divisão dos royalties do petróleo foi agravado com a descoberta de novas riquezas na camada do Pré-sal, que acirrou a disputa entre regiões produtoras e consumidoras.

Já o ICMS sobre a venda de mercadorias e serviços se tornou o mais complexo dos tributos nacionais, com 27 legislações diferentes, mais de 40 alíquotas e uma miríade de regimes especiais para atrair empresas e investimentos -a famigerada guerra fiscal.

Conforme noticiou esta Folha, um grupo de especialistas reunido pelo Senado sugeriu uma reformulação do imposto que transferisse a maior parte da receita dos Estados de origem dos bens, em geral mais ricos, para os de destino, compensando os perdedores com um redesenho da partilha do fundo de participação e dos royalties.

Infelizmente não haverá tempo para que a proposta -ambiciosa como deve ser- receba a merecida atenção dos parlamentares. Sob o pretexto das eleições, fica em segundo plano o interesse nacional.

Não será a primeira vez. Nem, decerto, a última.

Petrolíferas - GEORGE VIDOR


O GLOBO - 17/09

Brasil está desperdiçando receitas bilionárias para o Tesouro Nacional e oportunidades de mais investimentos

Como as companhias de petróleo já presentes no Brasil estão secas por novas áreas para exploração, especialistas acreditam que só em bônus de assinatura o Tesouro Nacional poderia angariar o equivalente a US$ 1 bilhão se o país voltasse a licitar áreas, mesmo sob regime de concessão, fora da região onde se supõe existirem grandes reservatórios de óleo e gás, na camada do Pré-sal. Esse valor é estimado com base nas negociações de participações ocorridas em áreas já licitadas, e que se encontram nas fases de exploração ou produção.

Shell e Chevron venderam em 2011 e este ano participações em alguns blocos, sendo que num deles (exatamente no Pré-sal da Bacia de Santos), a companhia anglo-holandesa obteve a maior receita já registrada em uma transação envolvendo um bloco ainda na fase de exploração, antes de terem sido asseguradas grandes descobertas. Naquele momento pareceu um ótimo negócio, mas é possível que a Shell venha a se arrepender diante dos resultados da perfuração de um poço no prospecto conhecido como Carcará. À medida que a sonda foi perfurando a rocha a extensão do reservatório descoberto começou a se ampliar, com um óleo de excelente qualidade (32 graus API) e com a vantagem adicional de praticamente não haver CO2. Enquanto a média de CO2 nos reservatórios em blocos marítimos oscila de 40% a 50% - em Júpiter, bloco vizinho ao de Lula, esse índice vai a 90% - em Carcará não passou de 0,01%, o que facilitará muito o desenvolvimento do campo.

O volume de óleo recuperável nesse prospecto talvez ultrapasse os três bilhões de barris, o que o transformará em um dos maiores reservatórios de petróleo do Brasil. Um poço continua sendo perfurado para se avaliar a extensão vertical do reservatório (a coluna contendo óleo já passou de 500 metros), mas o entusiasmo da Petrobras com o bloco fica evidente pelo fato de Carcará já figurar nos planos de produção da empresa para 2016, mesmo antes de o campo ter sido declarado comercial.

A Shell vendeu seus 20% de participação para a Queiroz Galvão e a Barra Energia, cada qual agora com 10%. O bloco fica a 200 quilômetros da costa, na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro.

E não são apenas as companhias estrangeiras que têm negociado suas participações em blocos licitados em rodadas passadas. A própria Petrobras vem auscultando o mercado com o objetivo de vender participações em blocos, nos quais não é a operadora, com petróleo pesado, aproveitando o momento favorável para esse tipo de óleo (como várias refinarias mudaram seu perfil nos últimos anos, a demanda por óleo bem pesado aumentou e o produto até anda meio em falta). Com a venda de algumas participações a Petrobras levantaria recursos para acelerar a produção em reservatórios descobertos no Pré-sal.

Sem fazer marola

Como iniciou a produção este ano, no campo de Tubarão Azul (em águas rasas, na Bacia de Campos), a OGX, do grupo Eike Batista, deveria ser uma das estrelas da feira Rio Oil&Gas que começa hoje, no Riocentro, mas diante da repercussão negativa na Bolsa de Valores dos seus primeiros resultados, a companhia optou por uma presença mais discreta. A produção de Tubarão Azul tem superado cinco mil barris diários em cada um dos dois poços poços perfurados, o que é bem acima da média histórica das outras áreas com essa mesma lâmina d"água (cem metros de profundidade) na Bacia de Campos, da ordem de três mil barris/dia por poço. No entanto, a OGX previu que sua média poderia chegar a 10 mil barris por poço, e assim, agora na fase de produção, o que seria um ótimo resultado passou a ser visto como algo negativo pelos analistas financeiros. O mercado reviu por conta própria as projeções de produção da companhia (cortou pela metade, para 70 mil barris diários a previsão, para 2013) e isso se refletiu nos preços das ações da empresa, cujo valor total permanece na casa de US$ 9 bilhões. Nesse ambiente, a empresa não quer mais fazer marola.

Conteúdo nacional

A questão do conteúdo nacional de bens e serviços que as empresas petrolíferas precisam atingir em seus investimentos no Brasil, conforme compromissos assumidos nos contratos de concessão, continua a causar muita polêmica no setor porque os próprios fornecedores esbarram em dificuldades para adquirir componentes a um custo que seja competitivo. Um carretel para armazenar tubos flexíveis (usados para a ligação dos poços com as plataformas) custa no Brasil três vezes mais. Mesmo pagando os impostos de importação, as empresas conseguem trazer do exterior por um terço a menos. E não se trata de um item de sofisticada tecnologia.

Maravilhas relativas - LÚCIA GUIMARÃES


O Estado de S.Paulo - 17/09



O Brasil é o Estados Unidos onde eu vivo.

Millôr Fernandes


Os Estados Unidos são uma maravilha. Mas são uma merda. O Brasil é uma merda. Mas é uma maravilha.

Tom Jobim

Como já disse aqui, em mais de uma ocasião, sou daquelas que preferem estar enganadas, se a escolha é entre, A - estar correta, B - ser feliz. Para uma carioca e torcedora ignorante do Fluminense (escrevo antes do jogo com o Atlético de Goiás), a última semana ofereceu boas chances de marcar a segunda opção.

O Rio hospedou dezenas de milhões de dólares em obras de arte de qualidade variada, recebeu milhares de visitantes e uma dose evidente de otimismo, entre a ArtRio e a OiR, para quem não sabe, Outras ideias para o Rio. Pelas minhas conversas com americanos em Nova York, há um outro evento em curso o ano inteiro, conhecido informalmente como Se-for-no-Rio-eu-vou.

Ao contrário do saudoso Millôr, os Estados Unidos têm sido o Brasil onde eu vivo. Nova York é um lugar de impermanência, onde cavo pequenas trincheiras de resistência culinária, musical, emocional. Depois de 27 anos fora, cada breve volta ao Rio é marcada pelos sobressaltos de quem vai ao encontro do namorado da juventude. Será que exagerei na maquiagem ou fiz o comentário errado? Hão de me querer mal por ter mudado? No Rio que deixei, a gente não achava natural uma pintura de Tarsila do Amaral trocar de mãos por R$ 15 milhões, nosso imaginário não chegava a tantos zeros. Luminares estrangeiros do cinema, música e das artes não tropeçavam uns nos outros por uma fatia da atenção de um recém-enriquecido público, disposto a pagar preços extorsivos por ingressos. No meu Brasil nova-iorquino, pude me fartar ouvindo o arcanjo chamado João Gilberto durante mais de duas horas no Carnegie Hall, e o ingresso me aliviou, no máximo, de uns US$ 80. No Estados Unidos brasileiro, como justificar o ingresso de R$ 1.400 pela turnê cancelada em 2011?

Acho que o nosso capitalismo hipercafeinado carece de parâmetros de mercado. Até em Manhattan os brasileiros cobram fortunas pelo que fariam por uma fração perto de casa. Um mineiro, depois de segundos de reflexão, me cobrou US$ 1 mil para descascar e pintar um quarto de 10 m², desde que eu comprasse o material.

Na ArtRio, fiquei impressionada com o estoicismo de quem pagava R$ 25 por um sanduíche semicongelado, que incluía o direito de mastigar com vista para a Ilha Fiscal. Mas a economia do nosso mercado cultural tem outra característica que testaria a ideia marxista do fetiche da mercadoria. O cobiçado, aqui, é de graça. A elite espera ser convidada para tudo e presenteada com objetos culturais, roupas, bugigangas.

Quando o Brasil não era a sexta economia do mundo, quando devíamos as calças aos bancos americanos, era mais fácil para esta carioca cruzar os percalços da rotina de trabalho. Agora, é um pouco estranho negociar cortesia e profissionalismo a poucos metros de uma escultura sublime de Richard Serra, cujo desembarque por estas praias há de sinalizar pujança econômica. Mas os zeros no cheque do felizardo que levar o Serra para casa não compram educação, bom senso ou civilidade. Esses não chegam de navio. Depois de uma semana de trabalho aqui, me pareceu que o Rio de Janeiro dos eventos globais precisa, urgente, de um banho de boas maneiras municipais. Lembro que sou carioca primeiro e prefiro estar enganada.

Um novo comportamento - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 17/09

Grandes empreendimentos de infraestrutura costumavam deixar saldos negativos depois de finalizados. Tais obras mobilizavam trabalhadores de diferentes regiões do país e, como muitas vezes eram interrompidas ou diminuíam de ritmo, operários e prestadores de serviços ficavam à espera de recontratação. Alojados em canteiros temporários, esses trabalhadores, ao serem desmobilizados, iam engrossar pequenas favelas locais ou se tornavam invasores de áreas públicas e particulares, se convertendo em fonte de problema para os municípios que os acolhiam.

Essa experiência gerou um certo trauma em relação a novas grandes obras e, para que os erros do passado não se repitam, o licenciamento de empreendimentos de infraestrutura ou de qualquer outro de forte impacto econômico é agora sempre acompanhado de medidas compensadoras rigorosas. As próprias empresas reviram suas políticas de contratação, privilegiando a mão de obra local, mesmo que haja necessidade de qualificá-la no decorrer da obra. Nas regiões onde a oferta de pessoal é reduzida, o percentual de "forasteiros" nesses empreendimentos tem se situado entre 20% e 40% .

No caso da construção da grande hidrelétrica de Belo Monte, na chamada Volta do Xingu, os programas sociais e ambientais na região exigirão dos investidores um desembolso de R$ 3 bilhões. E pela primeira vez em um empreendimento dessa envergadura os programas prosseguirão após a conclusão da usina, com previsão de gastos, a valores atuais, da ordem de R$ 500 milhões.

Com Belo Monte, a região terá a oportunidade de reassentar famílias que hoje vivem em áreas inabitáveis durante o período de cheia dos rios. Várias localidades terão escolas e postos de saúde reformados, além de vias de escoamento pavimentadas ou melhoradas. Ocorrerá também um necessário reassentamento fundiário.

A obra em si será forte geradora de renda para a população, seja pelas oportunidades de emprego (para homens e mulheres, com qualquer nível de escolaridade, ou até mesmo analfabetos), seja pela demanda de bens e serviços. Agricultores que não tinham para quem vender seus produtos passaram a contar com um mercado consumidor quase à sua porta.

Obviamente, existem também os impactos negativos. A oferta limitada de certos produtos ou de habitações em número suficiente para os que vêm de fora acaba elevando preços e aluguéis. Serviços de transporte podem ficar sobrecarregados, e o movimento que surge de repente causa transtornos a vilas antes pacatas.

Porém, para reduzir tais impactos negativos, esse processo tende a ser aprimorado, por exigência legal, iniciativa dos empreendedores ou vigilância da opinião pública local, nacional ou internacional, como acontece hoje com Belo Monte, para a qual estão voltados os olhares de todos aqueles que abominam, por razões ideológicas, qualquer obra de infraestrutura ou empreendimento que se faça necessário.

Ausência de estratégia - FABIO GIAMBIAGI


O ESTADÃO - 17/09

A política econômica se ressente da ausência deumavisão estratégica. Se no terreno político a dupla Lula-Dilma tem dado um show de competência, pensando à frente dos seus adversários e deixando a oposição em frangalhos, o mesmo não pode serdito das ações oficiais noterreno da economia, quase sempre meramente reativas ou baseadas em objetivos táticos e de curto prazo.

Considerem-se três exemplos - e haveria vários outros a dar.

Primeiro caso: política industrial e emprego. Há tempos que as propostas de política industrial se baseiam no que se poderia denominar de "modelo dos estaleiros", em razão do que foi feito com a Petrobrás, que tem procurado estimular a fabricação de navios nacionais, em detrimento da contratação de navios estrangeiros - melhores e mais baratos.O mote é o de sempre: "gerar empregos no País".

Ocorre que essa poderia ser a meta prioritária dez anos atrás, quando a taxa de desemprego era de 12%. Hoje, com o desemprego no mínimo e com o País dando sinais crescentes de que o grande desafio que tem pela frente é o aumento da produtividade, estimular a produção nacional a qualquer custo é a melhor receita para termos uma economia não competitiva, exatamente o padrão que nos levou à crise dos anos 80 e à necessidade de revisão do modelo de desenvolvimento nos anos 90.

Isso não significa que o emprego não seja importante, mas o contrário: que, estimulando a ineficiência hoje,poderemos estar gerando os desempregados da década de 2020,quando o resto do mundo se perguntar" o que o Brasil fez enquanto o mundo inteiro estava se ajustando?".Os problemas que a política de conteúdo local está causando para a Petrobrás são eloquentes acerca das deficiências desse modelo.

Segundo caso: taxa de juros. Vinha sendo noticiado há tempos que o governo pretendia ter uma taxa de juros real de 2%, que, aliás, já foi alcançada.Ocorre que de nada adianta postular essa metas e o preço a pagar tiver de ser depois uma nova alta dos juros que leve a taxa novamente a patamares maiores. A melhor forma de alcançar o objetivo de ter taxas permanentemente baixas é criar as condições para que no longo prazo os investidores tenham uma boa dose de confiança de que o Brasil será um país estável - e "estabilidade", neste caso, chama-se "inflação baixa".

Se a Selic diminui durante alguns meses, mas o mercado entende que há riscos relevantes de a inflação ser maior no longo prazo, a redução da taxa curta não será acompanhada por movimentos da mesma magnitude das taxas longas.Vale ressaltar,a propósito,que a taxa de juros observada nos leilões de NTN-F (prefixados) de 2023, ainda que inferior à registrada no começo do ano, continua sendo da ordemde 10%, bastante superior à taxa Selic. A pergunta-chave, a rigor, se desdobra em duas: 1) o Brasil terá inflação em torno de 4,5% daqui a dez anos ou ela será maior? Até 2010, a resposta era mais clara do que hoje; e 2) será que,quando os juros internacionais voltarem ao nível de 4% a 5%,continuaremos a ter uma Selic baixa? Há dúvidas pertinentes sobre isso.

Terceiro caso: salário mínimo (SM). Em 2011, o governo aprovou uma regra segundo a qual o SM seria reajustado em função do crescimento do PIB defasado de dois anos e que naquele ano implicava não conceder reajuste real ao SM. Ocorre que amesma regra "engessou" o Orçamento com um aumento expressivo da variável, em 2012, emenor, mas ainda assim importante, em 2013,pressionando as demais variáveis fiscais exatamente quando o investimento público deveria ser priorizado, entre outras coisas em razão das obras para a Copa de 2014.Qual a racionalidade econômica daquela regra? O governo criou um problema para si mesmo, jogando fora a chance, em plena "lua de mel" póseleição, de aprovar uma regra que fizesse mais sentido no longo prazo.

Enfim, a lista poderia ser mais extensa e incluir, entre outros pontos,o incompreensível zigue zague acerca do modelo de gestão dos aeroportos. Em economia, édesejável terum"plano de voo"que contempleações de curto, de médio e de longo prazos. Agir taticamente em função de alvos de curto prazo pode fazer sentido durante algum tempo, mas os improvisos sequenciais levam ao padrão do que um velho amigo costuma chamar de "governo do piiim" ("quando há um problema, o governo vai lá e piiim, resolve, mas cria um problema maior na frente; então vai lá e piiim, resolve de novo, mas à custa de ter um novo problema mais grave tempos depois; e assim sucessivamente").

É preciso entender que a economia precisa mudar o "software". O governo agiu durante anospara estimular o emprego e a demanda, numa economia com elevado desemprego e capacidade ociosa disponível. Esse tempo se esgotou. Agora, com desemprego em menos de 6% e sem capacidade ociosa, o desafio é outro: aumentar a produtividade. A política econômica precisa tomar ciência desses novos tempos. Os novos passos que o governo vem tentando dar são, nesse sentido, tardios, insuficientes e confusos.

Presidente pé-frio - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 17/09


Quem são os principais padrinhos nesta eleição municipal? O que conta mais: boas avaliações de prefeitos ou o apoio de um presidente ou ex-presidente da República? O Estadão Dados fez um levantamento, com ajuda do Ibope, para responder a essas questões.

Nunca é demais lembrar que governante mal avaliado não faz sucessor. Continuidade ou mudança é o "drive" principal de qualquer eleição. Quando o prefeito, o governador ou o presidente é bem avaliado, a chance de ele se reeleger ou de eleger seu candidato é diretamente proporcional ao seu grau de aprovação. Aprovação popular do incumbente é condição necessária, mas nem sempre suficiente.

Vejamos então quem tem popularidade para usar e quem está devendo. No ranking das capitais feito pelo Ibope, metade dos atuais prefeitos está no vermelho: tem mais ruim ou péssimo do que bom ou ótimo entre os eleitores. Dos 13 com saldo negativo, só dois concorrem à reeleição: Roberto Goes (PDT) em Macapá e João Castelo (PSDB) em São Luís. Ambos estão na margem de erro e podem usar a campanha para virar a avaliação para o positivo.

Entre os que estão mais para baixo na classificação não há candidatos à reeleição. Seja porque já estão no segundo mandato, seja porque não teriam a mínima chance se concorressem, como é o caso de Micarla de Sousa (PV), prefeita de Natal, e dona da pior avaliação já registrada pelo Ibope: saldo de -91%.

Na parte de cima do ranking há seis candidatos à reeleição. Todos são líderes das pesquisas de intenção de voto: José Fortunati (PDT) em Porto Alegre, Marcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, Eduardo Paes (PMDB) no Rio de Janeiro, Paulo Garcia (PT) em Goiânia, Elmano Férrer (PTB) em Teresina e Luciano Ducci (PSB) em Curitiba. Os quatro primeiros são líderes isolados.

Não é só isso. Os candidatos apoiados pelos prefeitos mais bem avaliados também estão entre os líderes nas pesquisas. É o que acontece em Campo Grande e em Rio Branco, cujos prefeitos - Nelsinho Trad (PMDB) e Raimundo Angelim (PT), respectivamente - ostentam o maior saldo de aprovação nas capitais: ambos com 61% positivo. E tem sido assim historicamente.

Em São Paulo, desde a eleição de 1996, só conseguiram se reeleger ou fazer seu sucessor os prefeitos com saldo positivo superior a 25%. Paulo Maluf fez Celso Pitta porque tinha 35% de saldo em setembro e melhorou com a campanha eleitoral. O mesmo ocorreu com Gilberto Kassab em 2008. Marta Suplicy (PT) ganhou em 2000 porque disputava contra um governo com déficit de popularidade de 74%, e perdeu depois porque o saldo de sua própria avaliação nunca passou de 24% em 2004.

Se existe transferência de votos, ela só ocorre na horizontal. Ou seja, de prefeito para candidato a prefeito, de presidente para candidato a presidente. A transferência cruzada é bem mais rara. O candidato a prefeito apoiado por um presidente popular não se elege por causa disso, especialmente em cidades com autonomia orçamentária, pouco dependentes de repasses federais.

Vejamos o caso de São Paulo. Em 1985 o presidente era José Sarney (PMDB), mas o candidato do seu partido, Fernando Henrique Cardoso, perdeu a eleição para Jânio Quadros. Na eleição seguinte, Sarney continuava presidente, e quem se elegeu foi Luiza Erundina, a candidata do PT, partido que mais lhe fazia oposição à época. Sarney era impopular. Fernando Collor também.

Pulemos para Fernando Henrique. Na eleição de 1996, o então presidente recuperava sua popularidade após o massacre de Eldorado dos Carajás. Tinha cacife para influir positivamente na eleição paulistana, mas o candidato do seu partido, José Serra (PSDB), não chegou nem ao segundo turno. Deu Celso Pitta (PPB).

Ainda sob FHC, em 2000, o candidato tucano, dessa vez Geraldo Alckmin, ficou novamente fora do segundo turno. Elegeu-se Marta Suplicy, do PT, que fazia oposição ao presidente.

Lula chegou ao poder em 2002, e dois anos depois Marta tentou a reeleição em São Paulo. O petista tinha saldo positivo de avaliação, mas a incumbente foi derrotada por Serra, que havia perdido a eleição presidencial para Lula dois anos antes. Em 2008, o presidente estava nos píncaros de sua popularidade, mas viu sua candidata, Marta, perder novamente, para Kassab.

Resumo da ópera: desde a redemocratização, nenhum presidente, popular ou não, petista ou tucano, elegeu seu candidato a prefeito de São Paulo. Foram sete eleições e sete derrotas. Mesmo que Fernando Haddad (PT) surpreenda e se eleja, não será por causa das aparições de Dilma Rousseff na TV ou em comícios - mesmo ela tendo saldo positivo de 50% na capital paulista.

A quarta cópia - RICARDO NOBLAT


O GLOBO - 17/09


"O PT me fez de escudo, me usou como um boy de luxo. Mas agora vai todo mundo para o ralo"
Marcos Valério



Dá-se a prudência como característica marcante dos mineiros. Teria a ver, segundo os estudiosos, com a paisagem das cidadezinhas de horizonte limitado, os depósitos de ouro e de pedras preciosas explorados no passado até se esgotarem, e a cultura do segredo e da desconfiança daí decorrente. Não foi a imprudência que afundou a vida de Marcos Valério. Foi Roberto Jefferson mesmo ao detonar o mensalão.

Uma vez convencido de que o futuro escapara definitivamente ao seu controle, Valério cuidou de evitar que ele se tornasse trágico. Pensou no risco de ser morto. Não foi morto outro arrecadador de recursos para o PT, o ex-prefeito Celso Daniel, de Santo André? Pensou na situação de desamparo em que ficariam a mulher e dois filhos caso fosse obrigado a passar uma larga temporada na cadeia. E teve uma ideia.

Ainda no segundo semestre de 2005, quando Lula ainda insistia com a lorota de que mensalão era Caixa 2, Valério contratou um experiente profissional de televisão para gravar um vídeo. Poderia, ele mesmo, ter produzido um vídeo caseiro. De princípio, o que importava era o conteúdo. Mas não quis nada amador. Os publicitários de primeira linha detestam improvisar. Valério pagou caro pelo vídeo do qual fez quatro cópias, e apenas quatro.

Guardou três em cofres de bancos. A quarta mandou para uma das estrelas do esquema do mensalão, réu do processo agora julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Renilda, a mulher dele, sabe o que fazer com as três cópias. Se Valério for encontrado morto em circunstâncias suspeitas ou se ele desaparecer sem dar notícias durante 24 horas, Renilda sacará dos bancos as três cópias do vídeo e as remeterá aos jornais "O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo" e "O Globo" (Sorry, "Veja"!)

O que Valério conta no vídeo seria capaz de derrubar o governo Lula se ele ainda existisse, atesta uma pessoa íntima da estrela do mensalão dona da quarta cópia. Na ausência de governo a ser deposto, o vídeo destruiria reputações aclamadas e jogaria uma tonelada de lama na imagem da Era Lula. Lama que petrifica rapidinho.

A fina astúcia de Valério está no fato de ele ter encaminhado uma cópia do vídeo para quem mais se interessaria por seu conteúdo. Assim ficou provado que não blefava. Daí para frente, sempre que precisou de ajuda ou consolo, foi socorrido por um emissário do PT. Na edição mais recente da "Veja" Valério identifica o emissário: Paulo Okamotto.

Uma espécie de tesoureiro informal da família Lula da Silva, Okamotto é ligado ao ex-presidente há mais de 30 anos. No fim de 2005, um senador do PT foi recebido por Lula em seu gabinete no Palácio do Planalto. Estivera com Valério antes. E Valério, endividado, queria dinheiro. Ameaçava espalhar o que sabia.

Lula observou em silêncio a paisagem recortada por uma das paredes envidraçadas do seu gabinete. Depois perguntou: "Você falou sobre isso com Okamoto?" O senador respondeu que não. E Lula mais não disse e nem lhe foi perguntado. Acionado, Okamotto cumpriu com o seu dever. Pulou-se outra fogueira. Foram muitas.

Valério acreditou que o prestígio de Lula seria suficiente para postergar ao máximo o julgamento do processo do mensalão, garantindo com isso a prescrição de alguns crimes denunciados pela Procuradoria Geral da República. Uma eventual condenação dele seria mais do que plausível. Mas cadeia? Por muito tempo? Impensável! O impensável está se materializando. Valério começa a espernear.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Nova etapa do mensalão – STF começa a julgar núcleo político
Folha: ‘Eu não vou fugir do Brasil, afirma Dirceu
Estadão: Relator vai votar pela condenação de Dirceu
Correio: CPI quer bloquear bens dos laranjas de Cachoeira
Valor: Projeto bilionário prevê extração de ouro no Xingu
Estado de Minas: Até coxinha e empada na receita do abuso
Jornal do Commercio: Timbu vence o vice-líder
Zero Hora: STF começa a julgar hoje Dirceu, Delúbio e Roberto Jefferson

domingo, setembro 16, 2012

Os segredos do mensalão - REVISTA VEJA



O empresário Marcos Valério, apontado como o operador do esquema, diz que, em troca do seu silêncio, recebeu garantias do PT de uma punição branda. Condenado pelo STF por vários crimes, cujas penas podem chegar a 100 anos de prisão, ele revela que o ex-presidente Lula sabia de tudo e que o caixa para subornar políticos foi muito maior: 350 milhões de reais

Rodrigo Rangel


Faltavam catorze minutos para as 7 da manhã da últi­ma quarta-feira quando o empresário Marcos Valé­rio, o pivô financeiro do mensalâo, parou seu carro em frente a uma escola, em Belo Hori­zonte. Alvo das mais pesadas condena­ções no julgamento que está em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), ele tem cumprido religiosamente a tarefa de levar o filho todos os dias ao colégio. Desce do carro, acompanha o. menino até o portão e se despede com um beijo no rosto. Chega mais cedo para evitar ser visto pelos outros pais e alunos e vai embora depressa, cabisbaixo. “O PT me transformou em bandido”, desabafa. Va­lério sabe que essa rotina em-breve será interrompida. Ele é o único dos 37 réus do mensalão que não tem um átimo de dúvida sobre seu futuro. Na semana pas­sada, o publicitário foi condenado por lavagem de dinheiro, crime que acarreta pena mínima de três anos de prisão. Computadas as punições pelos crimes de corrupção ativa e peculato, já decidi­das, mais evasão de divisas e formação de quadrilha, ainda por julgar, a senten­ça de Marcos Valério pode passar de 100 anos de reclusão. Mesmo com todas as atenuantes da lei penal brasileira, não é improvável que ele termine seus dias na cadeia. Valério tem culpa no cartório, mas fica evidente que ele está carre­gando sobre os ombros uma carga penal que, por justiça, deveria estar mais bem distribuída entre patentes bem mais al­tas na hierarquia do mensalão. É isso que mais martiriza a alma de Valério neste momento, uma dor que ele tènta amenizar lembrando, sempre que pode, que seu silêncio sobre os responsáveis maiores acima dele está lhe custando muito caro.

Apontado como o responsável pela engenharia financeira que possibilitou ao PT montar o maior esquema de cor­rupção da história, Valério enfrenta um dilema. Nos últimos dias, ele confiden­ciou a pessoas próximas detalhes do pacto que havia firmado com o partido. Para proteger os figurões, conta que as­sumiu a responsabilidade por crimes que não praticou sozinho e manteve em segredo histórias comprometedoras que testemunhou quando era o “predi­leto” do poder. Em troca do silêncio, recebeu garantias. Primeiro, de impunidade. Depois, quando o esquema te­ve suas entranhas expostas pela Procuradoria-Geral da República, de penas mais brandas. Valério guarda segredos tão estarrecedores sobre o mensalão que não consegue mais reter só para si — mesmo que agora, desiludido com a falsa promessa de ajuda dos poderosos ) que ele ajudou, tenha um crescente te­mor de que eles possam se vingar dele de forma ainda mais cruel. Os segre­dos de Valério, se revelados, põem o ex-presidente Lula no epicentro do escândalo do mensalão. Sim, no comando das operações. Sim, Lula, que, fiel a seu estilo, fez de tudo para não se contagiar com a podridão à sua volta, mesmo que isso significasse a morte moral e política de companheiros dile­tos. Valério teme, e fala a pessoas próximas, que se contar tudo o que sabe estará assinando a pior de todas as sen­tenças — a de sua morte: “Vão me matar. Tenho de agradecer por estar vivo até hoje”.

Sua mulher, Renilda Santiago, já tentou o suicídio três vezes. Há duas ' semanas, ela telefonou a uma amiga para dizer que iria a um reduto do trá­fico encravado na região central de Be­lo Horizonte comprar uma arma. Avi­sou que havia decidido dar um tiro na cabeça. Renilda está mergulhada em crise aguda de depressão. Os dois fi­lhos do casal vivem dramas à parte. Meses atrás, o menino, de 11 anos, tentou fazer um teste de admissão em uma escola mais perto de casa, mas a diretora nem deixou o garoto começar a prova. A direção da escola não queria entre seus alunos o filho de Marcos Va­lério. A filha mais velha, de 21 anos, passou por constrangimentos cruéis. Em um debate na faculdade de psico­logia, o assunto escolhido pelos cole­gas foi justamente o comportamento do pai dela. Humilhada, ela saiu da sa­la. Chega a ser assustador, mesmo que previsível, que as pessoas esqueçam a mais consagrada prática cristã, civili­zada e jurídica — a de que os filhos não devem pagar pelos erros dos pais. Marcos Valério sofre de síndrome do pânico e praticamente não prega os olhos à noite. Sobre o PT e seus anti­gos parceiros ele vem dizendo: “Eu detesto esse pessoal. Esse povo acabou com a minha vida, me fez de um tama­nho que eu não sou. O PT me fez de escudo, me usou como um boy de lu­xo. Mas eles se ferraram porque agora vai todo mundo para o ralo”. O medo ainda constrange Marcos Valério a li­mitar suas revelações a pessoas próxi­mas. Até quando?

MENSALAO

“O caixa do PT foi de 350 milhões de reais”

A acusação do Ministério Públi­co Federal sustenta que o men­salão foi abastecido com 55 milhões de reais tomados por empréstimo por Marcos Valério junto aos bancos Rural e BMG, que se soma­ram a 74 milhões desviados da Visanet, fundo abastecido com dinheiro público e controlado pelo Banco do Brasil. Se­gundo Marcos Valério, esse valor é su­bestimado. Ele conta que o caixa real do mensalão era o triplo do descoberto pela polícia e denunciado pelo MP. Valério diz que pelas arcas do esquema passaram pelo menos 350 milhões de reais. “Da SMP&B vão achar só os 55 milhões, mas o caixa era muito maior. O caixa do PT foi de 350 milhões de reais, com dinheiro de outras empresas que nada tinham a ver com a SMP&B nem com a DNA”, afirma o empresário. Esse caixa paralelo, conta ele, era abastecido com dinheiro oriundo de operações tão heterodoxas quanto os empréstimos fic­tícios tomados por suas empresas para pagar políticos aliados do PT. Havia doações diretas diante da perspectiva de obter facilidades no governo. “Muitas empresas davam via empréstimos, ou­tras não.” O fiador dessas operações, ga­rante Valério, era o próprio presidente da República.

Lula teria se empenhado pessoal­mente na coleta de dinheiro para a en­grenagem clandestina, cujos contri­buintes tinham algum interesse no go­verno federal. Tudo corria por fora, sem registros formais, sem deixar ne­nhum rastro. Muitos empresários, rela­ta Marcos Valério, se reuniam com o presidente, combinavam a contribuição e em seguida despejavam dinheiro no cofre secreto petista. O controle dessa contabilidade cabia ao então tesoureiro do partido, Delúbio Soares, que é réu no processo do mensalão e começa a ser julgado nos próximos dias pelos crimes de formação de quadrilha e cor­rupção ativa. O papel de Delúbio era, além de ajudar na administração da captação, definir o nome dos políticos que deveriam receber os pagamentos determinados pela cúpula do PT, com o aval do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, acusado no processo como o chefe da quadrilha do mensalão: “Dir­ceu era o braço direito do Lula, um bra­ço que comandava”. Valério diz que, graças a sua proximidade com a cúpula petista no auge do esquema, em 2003 e 2004, teve acesso à contabilidade real. Ele conta que a entrada e a saída de re­cursos foram registradas minuciosa­mente em um livro guardado a sete chaves por Delúbio. Pelo seu relato, o restante do dinheiro desse fundão teve destino semelhante ao dos 55 milhões de reais obtidos por meio dos emprésti­mos fraudulentos tomados pela DNA e pela SMP&B. Foram usados para re­munerar correligionários e aliados. Os valores calculados por Valério deli­neiam um caixa clandestino sem para­lelo na política. Ele fala em valores dez vezes maiores que a arrecadação decla­rada da campanha de Lula nas eleições presidenciais de 2002.

O PRESIDENTE

“Lula era o chefe”

A ira de Marcos Valério desafia a defesa clássica do ex-presidente Lula de que não sabia do mensalao e nada teve a ver com o esquema arquitetado em seu pri­meiro mandato. Com a segurança de quem transitava com desenvoltura pelos .gabinetes oficiais, inclusive os palacia­nos, e era considerado um parceiro pre­ferencial pela cúpula petista, Valério afirma que Lula “comandava tudo”. Em sua própria defesa, diz que como ope­rador dos pagamentos não passava de um “boy de luxo” de uma estrutura que tinha o então presidente no topo da ca­deia de comando. “Lula era o chefe”, repete Valério às pessoas mais próxi­mas. A afirmação se choca com todas as versões apresentadas por Lula desde que o esquema foi descoberto, em 2005. Primeiro, escudou-se no argumento de que tudo não passou do uso de dinheiro “não contabilizado” que havia sobrado das campanhas políticas, prática supra­partidária e recorrente na política brasi­leira — não por acaso tem: sido essa a estratégia de defesa dos mensaleiros no STF. Num segundo momento, Lula se disse traído e pediu desculpas à nação em rede de televisão.

A rota de fuga de Lula evoluiu mais tarde para a negação completa, com a tese nefelibata de que o mensalâo nunca existiu, tendo sido apenas uma armação das elites para abreviar seu mandato. A narrativa de Valério coloca Lula não apenas como sabedor do que se passava, mas no comando da operação. Valério não esconde que se encontrou com Lula diversas vezes no Palácio do Planalto. Ele faz outra revelação: “Do Zé ao Lula era só descer a escada. Isso se faz sem marcar. Ele dizia vamos lá embaixo, vamos”. O Zé é o ex-ministro José Dirceu, cujo gabinete ficava no 4o andar do Pa­lácio do Planalto, um andar acima do gabinete presidencial. A frase famosa e enigmática de José Dirceu no auge do escândalo — “Tudo que eu faço é do conhecimento de Lula” — ganha con­tornos materiais depois das revelações de Valério sobre os encontros em palá­cio. Marcos Valério reafirma que Dirceu não pode nem deve ser absolvido pelo Supremo Tribunal, mas faz uma som­bria ressalva. “Não podem condenar apenas os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio e o Zé não falamos”, disse na semana passada, em Belo Horizonte. Indagado, o ex- presidente não respondeu.

PACTO

“Meu contato era o Okamotto"

Há menos de dois meses, VEJA revelou a existência de encon­tros secretos entre Marcos Va­lério e Paulo Okamotto, petista estrelado que desempenha a tarefa de assessor financeiro, ou tesoureiro, de Lula. Procurado para explicar por que se reunia com o principal operador do mensalão, Okamotto disse que os en­contros serviam apenas para discutir política. Não, não era bem assim. Mar­cos Valério tinha um pacto com o PT, e Paulo Okamotto era o fiador desse pac­to. “Eu não falo com todo mundo no PT. O meu contato com o PT era o Paulo Okamotto”, disse Valério em uma conversa re­servada dias atrás. É o próprio Valério quem explica a mis­são de Okamotto: “O papel dele era tentar me acalmar”.

O empresário conta que co­nheceu o Japonês, como o petista é chamado, no ápice do escândalo. Valério diz que, na véspera de seu primeiro de­poimento à CPI que investi­gava o mensalão, Okamotto o procurou. “A conversa foi na casa de uma funcionária minha. Era para dizer o que eu não devia falar na CPI”, re­lembra. O pedido era óbvio.

Okamotto queria evitar que Valério implicasse Lula no escândalo. Deu certo durante muito tempo. Em troca do silêncio de Valério, o PT, por intermédio de Okamotto, prometia di­nheiro e proteção. A relação se tomaria duradoura, mas nunca foi pacífica. Em momentos de dificuldade, Okamotto era sempre procurado. Quando Valério foi preso pela primeira vez, sua mulher viajou a São Paulo com a filha para fa­lar com Okamotto. Renilda Santiago queria que o assessor de Lula desse um jeito de tirar seu marido da cadeia. Disse que ele estava preso injustamente e que o PT precisava resolver a situação. A reação de Okamotto causa revolta em Valério até hoje. “Ele deu um safanão na minha esposa. Ela foi correndo para o banheiro, chorando.” O empresário jura que nunca recebeu nada do PT. Já a promessa de proteção, segundo Valério, girava em tomo de um esforço que o partido faria para retardar o julgamento do mensalão no Supremo e, em último caso, tentar amenizar a sua pena. “Pro­meteram não exatamente absolver, mas diziam: ‘Vamos segurar, vamos isso, vamos aquilo’... Amenizar”, conta. Por muito tempo, Marcos Valério acreditou que daria certo. Procurado, Okamotto não se pronunciou.

PODER

“O Delúbio dormia no Alvorada”

Dos tempos em que gozava da intimidade do poder em Brasí­lia, Marcos Valério diz guardar muitas lembranças. Algumas revelam a desenvoltura com que perso­nagens centrais do mensalão transita­vam no coração do govemo Lula antes da eclosão do maior escândalo de cor­rupção da história política do país. Va­lério lembra das vezes em que Delúbio Soares, seu interlocutor frequente até a descoberta do esquema, participava de animados encontros à noite no Palácio da Alvorada, que não raro servia de pernoite para o ex-tesoureiro petista. “O Delúbio dormia no Alvorada. Ele e a mulher dele iam jogar baralho com Lula à noite. Alguma vez isso ficou re­gistrado lá dentro? Quando você quer encontrar (alguém), você encontra, e sem registro.” O operador do mensalão deixa transparecer que ele próprio foi a uma dessas reuniões noturnas no Alvo­rada. Sobre sua aproximação com o PT, Valério conta que, diferentemente do que os petistas dizem há sete anos, ele conheceu Delúbio durante a campanha de 2002. Quem apresentou a ele o petista foi Cristiano Paz, seu ex-sócio, que intermediava uma doação à campanha de Lula. A primeira conversa foi em Belo Horizonte, dentro de um car­ro, a caminho do Aeroporto da Pampu- lha. Nessa ocasião, conta, Delúbio lhe pediu ajuda. “Ele precisava de uma em­presa para servir de espelho para pegar um dinheiro.” A parceria deu certo e desaguou no mensalão. Hoje, os dois estão no banco dos réus. Valério se sen­te injustiçado. Especialmente na parte da acusação que diz respeito ao desvio de recursos públicos do Banco do Bra­sil. Ele jura que esse dinheiro não caiu no caixa da corrupção. “No processo tem todas as notas fiscais que compro­vam que esse dinheiro foi gasto com publicidade. Não estou falando que não mereço um tapa na orelha. Não é isso. Concordo em ser condenado por aquilo que eu fiz.”

EMPRÉSTIMO

“O banco ia emprestar dinheiro para uma agência quebrada?”

Os ministros do STF já conside­raram fraudulentos os empréstimos concedidos pelo Banco Rural às agências de publici­dade que abasteceram o mensalão. Para Valério, a decisão do Rural de liberar o dinheiro — com garantias fajutas e José Genoino e Delúbio Soares como fiado­res — não foi um favor a ele, mas ao governo Lula, “Você acha que chegou lá o Marcos Valério com duas agências quebradas e pediu: ‘Me empresta aí 30 milhões de reais pra eu dar pro PT’? O que um dono de banco ia responder?” Valério se lembra sempre de José Augusto Dumont, então presidente do Ru­ral. “O Zé Augusto, que não era bobo, falou assim: ‘Pra você eu não empres­to’ . Eu respondi: ‘Vai lá e conversa com o Delúbio’. ” A partir daí a solução foi encaminhada. Os empréstimos, diz Va­lério, não existiriam sem o aval de Lula e Dirceu. “Se você é um banqueiro, vo­cê nega um pedido do presidente da República?” Foram essas mesmas creden­ciais palacianas, segundo ele, que lhe abriram as portas no Banco Central pa­ra interceder pela suspensão da liquida­ção extrajudicial do Banco Mercantil de Pernambuco, que interessava ao Rural. Valério foi destacado para cuidar do as­sunto em Brasília. Uma tarefa executa­da com todas as facilidades e privilé­gios. “Valério chegou lá no Banco Central e foi atendido. Você acha que o Banco Central receberia um imbecil qualquer, dono de uma agência de publicidade quebrada?”

“NOJENTO E VEXATÓRIO"

Ex-superintendente do Banco Rural em Brasília, Lucas da Silva Roque foi um dos principais colaboradores nas investigações da Polícia Federal destinadas a desbaratar a quadrilha do mensalão. Foi ele quem revelou onde estavam os recibos que mostraram quais políticos receberam dinheiro para votar com o governo Lula no Congresso. Nesta entrevista, Roque conta que pagou um preço al­to por agir de forma correta e relata um plano ambicioso urdido pela cúpula da instituição financeira em parceria com José Dirceu. Eles queriam montar um banco popular, do qual Rural e BMG seriam sócios, para conceder empréstimos consignados aos aposentados. Um negócio companheiro e bilionário.

Por que o senhor decidiu ajudar a polícia? Não tinha nada a temer. Não entrei no jogo deles, não sou bandido. Fui mandado para a agência do Rural em Brasília para moralizá-la, porque ali estava uma bagunça. O que estava acontecendo no banco era acintoso, no­jento e vexatório. O delegado disse que queria todos os documentos. Apontei onde estavam as caixas. Àquela altura, já estava tudo encaminhado para fazer sumir as provas, mandando-as de Brasí­lia para Minas Gerais. Mostrei onde es­tavam os documentos e falei para o de­legado que procurasse papéis também numa construtora, que servia de almo- xarifado do banco.

Como a diretoria reagiu à sua cola­boração com a PF? Fui atacado de tudo quanto é jeito. Me colocaram em um porão que não era uma agência bancária, depois em uma loja de shop­ping que foi fechada por ser irregular. Pior, mandaram me avisar que eu esta­va proibido de aparecer na diretoria do banco. Isso foi em outubro de 2005. Virei a Geni. Fui demitido em agosto de 2010. Eu, minha esposa e meus filhos fomos achincalhados na rua como mensaleiros.Tive sérios problemas de saúde, perdi meu casamento.

O senhor tinha relação de proximi­dade com Marcos Valério. Ele disse a algumas pessoas que teve um en­contro com Lula na Granja do Torto. Vários encontros. É verdade? Sim, ele deixava para viajar para Belo Hori­zonte no sábado à noite para passar lá.
Levado por quem? Delúbio Soares, Silvinho Pereira e José Dirceu.

Quais eram os planos da cúpula do Banco Rural e dos petistas? Eles ti­nham um projeto de montar um banco popular com a CUT. Juntariam o Banco Rural, o BMG, a CUT. Era um projeto com capital de 1 bilhão de reais.
Quem capitaneava esse projeto?

Eram os bandidos do mensalão. Como o PT não tinha cultura bancária, o Rural e o BMG seriam sócios. Um banco pri­vado com a participação da CUT, que direcionaria todos os beneficiários do INSS para tomar dinheiro em emprésti­mos consignados nessa instituição po­pular. Quando o mensalão estourou, o projeto foi abortado.

"Lula era o chefe" - CARTA AO LEITOR

REVISTA VEJA 

Seis semanas depois de iniciado o julgamen­to pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o escândalo do mensalão, que Lula e o PT tentaram dissimular como sendo uma “farsa da oposição” ou “invenção da imprensa golpista”, mostrou-se de uma realidade absoluta e incontes­tável. As primeiras condenações à prisão já foram lavradas pelos ministros do tribunal e outras ainda virão até o veredicto final, o que deve ocorrer em meados de novembro. O Brasil e os brasileiros, portanto, já ganharam o ano com a demonstração de maturidade e independência da Justiça e com a certeza de que a nação conta com uma imprensa livre, corajosa e obcecada pela busca da verdade, cujo trabalho desencavou o escândalo e o mante­ve vivo com constantes revelações até que os cul­pados fossem confrontados com seu destino pe­rante o tribunal.

VEJA se orgulha de ter desempenhado um pa­pel fundamental em mais esse processo de depura­ção da vida política nacional. Foram os repórteres da revista que captaram os primeiros sinais da doença que tomava conta de Brasília ao publica­rem o vídeo em que um diretor dos Correios em­bolsava uma propina em dinheiro vivo. A partir daí, VEJA foi puxando o fio da meada até constatar que, ao que tudo indicava, a podridão havia su­bido a rampa do Palácio do Planalto e se instalado nas imediações e até no próprio gabinete presiden­cial. Em sua edição de 13 de julho de 2005, VEJA colocou na capa os resultados de uma pesquisa nacional de opinião pública dando cònta de que para 45% dos entrevistados o então presidente Lula na­da sabia do mensalão, enquanto para 39% ele sa­bia mas não se tenvolvera diretamente na operação e para 16% Lula sabia e tivera participação direta nas malfeitorias. Depois, a revista revelou que em pelo menos cinco situações Lula fora alertado so­bre o que se passava a sua volta. Em outra reporta­gem de capa, VEJA trouxe a primeira forte evi­dência de que os 16% ouvidos na pesquisa esta­vam certos: Lula sabia e se envolvera. Os repórte­res da revista informavam que o pivô financeiro do escândalo, o publicitário mineiro Marcos Valério, estava a ponto de procurar a Justiça e contar tudo sobre o envolvimento de Lula em troca do alívio da pena pelo mecanismo da delação premiada. “Vocês vão se ferrar. Avisa ao barbudo que tenho bala contra ele”, disse Valério a João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados e hoje réu já condenado no processo do mensalão pelo STF. VEJA relatou a bem-sucedida operação do PT pa­ra acalmar Valério, oferecendo-lhe proteção.

Uma reportagem exclusiva desta edição do editor Rodrigo Rangel, da sucursal de Brasília, feita com base em revelações de Marcos Valério a parentes, amigos e associados, reabre de forma incontornável a questão da participação do ex-presidente no mensalão. “Lula era o chefe”, vem repetindo Valério com mais frequência e amargura agora que já foi condenado pelo STF, podendo, no fim do julgamento, ver sua pena che­gar a mais de 100 anos de reclusão. Valério não quis dar entrevista sobre as acusações diretas do envolvimento de Lula que ele vem fazendo. Mas não desmentiu nada.

A pátria de toga - EUGÊNIO BUCCI

REVISTA ÉPOCA 


Desde que os ministros do Supremo Tribunal Federal caí­ram nas graças dos holofotes, este país anda diferente. Tem um ânimo diferente. Mais que famosos, os jurisconsultos do STF ganharam ares de celebridades, de pop stars. A plateia já os conhece bem: um é poeta e budista, o outro tem dores na coluna e pavio curto, há aquele que, premido pelos prazos processuais, não corta mais o cabelo, e há também o tal que inventa neologismos jurídicos (“gestão tenebrosa”). Hoje, um brasileiro médio, que não tem a menor ideia do nome do vice-prefeito de sua cidade, é capaz de reconhecer na rua um ministro do Supremo. Nunca um julgamento da nossa mais alta corte foi seguido com tanto apetite, de forma tão eletrizante. Estamos mergulhados num frisson judicante, em clima de reality show. O país anda de fato diferente.

Há quem não goste, claro. O deputado federal Arlindo Chinaglia (PT-SP) declarou há poucos dias, sem citar nomes, que “um ou outro” ministro do STF vem adotando um comportamento por demais “midiático”. Em tese, o parlamentar petista até que teria razão. Juiz de direito não é para ficar por aí se exibindo em colunas sociais. No caso específico, porém, devemos abrir uma exceção às normas rígidas da etiqueta dos tribunais e admitir que, embora não seja ortodoxo, é bom, ou melhor, é ótimo que os ministros do Supremo estejam o tempo todo ao alcance dos olhos da nação. Apesar do efei­to colateral - esse estrelismo um tanto fora de termos -, a visibilidade lhes cai bem: a sociedade entende melhor o julgamento do mensalão à medida que conhece a personalidade dos juizes.

É bem verdade que o clima de badalação às vezes incomo­da. Suas excelências, de tão festejadas, começaram a angariar admiradores, aos milhões. Mais um pouco, os ministros mais populares correm o risco de ver inaugurar fãs clubes em seus nomes. O Supremo é visto com mais simpatia, com mais leveza, o que vem reabilitando a imagem do Poder Judiciário, que andava combalida.

Você mesmo, se prestar atenção, vai verificar por sua própria conta. O país é outro. Antes, existiam apenas duas torcidas organizadas: a que quer mandar todos os réus do mensalão para a cadeia e aquela que diz que foi “só” caixa dois e, portanto, ninguém precisa ser condenado. Agora, surge uma nova força. Ganha corpo uma terceira legião de torce­dores, que aposta que os ministros, absolvendo uns e conde­nando outros, convencerão o Brasil de que foi feita justiça.

Essa crença nos ministros do Supremo, embora tenha uma cara de tietagem, está rejuvenescendo a face do país. O Judiciário é visto como um pronto-socorro da democracia ferida. Nasce aí essa torcida difusa que aposta na sabedoria dos ministros. Se, nos campeonatos de futebol, o Brasil assume as feições de uma pátria de chuteiras, agora, à medida que avança o julgamento do mensalão, vamos assumindo o aspecto de uma pátria togada.

Já que estamos nesse meio campo entre as celebridades meritíssimas e suas torcidas, vamos levar um pouco mais longe a comparação entre o STF e o mundo insondável do futebol. É uma analogia perigosa, traiçoeira, mas não há de ser nociva. Ao contrário, ela pode nos ajudar a entender melhor o ânimo que vai se disseminando pelo país.

Imagine que a corrupção no futebol não fosse praticada apenas pelos cartolas, como tem sido. Imagine que os jo­gadores em campo também se dedicas­sem a “gestões tenebrosas”, e no meio da partida. Imagine que, dentro dos 90 minutos regulamentares, o capitão de um time subornasse o goleiro adversá­rio, tirando da sunga um maço de di­nheiro que surrupiou da bilheteria, com o apoio dos dois times. Selado o acordo espúrio, os futebolistas, em vez de jogar bola, passariam a encenar gois fajutos para fraudar o resul­tado e levar um “por fora”.

O que aconteceria? Os torcedores provavelmente senti­riam nojo, mas, antes de desistir de seu amor pelo esporte, talvez depositassem suas esperanças (últimas) no árbitro, cobrando dele uma dignidade superior à dos atletas, uma altivez que desse conta de salvar não o jogo, mas as regras que permitem que exista o jogo.

Claro: num estádio, essa situação seria apenas absurda - ou um teatro do absurdo. No país real, é exatamente isso o que se passa. A torcida a favor das meritíssimas celebridades espera que elas tenham a coragem de punir os culpados e restaurar nossa confiança nas regras do jogo. Os ministros do Supremo, agora promovidos ao estrelato, têm a chan­ce de fazer deste país diferente um país melhor. Não por vaidade, mas por dever.

Fator Carminha - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 16/09

Uma família levou uma senhorinha, daquelas que ficam grudadas na TV, ao mestre Paulo Niemeyer. Havia dúvidas sobre se ela estava enfrentando problemas de memória. O médico resolveu então adotar um método moderno para conferir e perguntou: 

— A senhora sabe quem é Carminha de “Avenida Brasil”? 

Segue...
Como ela não se recordava de quem se tratava, o querido médico achou prudente receitar exames. 

Importando engenheiros 
Uma multinacional do setor de energia, com sede no Rio, vai preencher cerca de 30 vagas de engenheiros com profissionais... portugueses. 

Já foram entrevistados 50 candidatos via Skype. 

Tudo em casa 
Ronaldo adiou por um tempo os planos de vender sua cobertura milionária na Avenida Delfim Moreira, no Leblon. 

O Fenômeno a alugou para a Fifa durante as copas das Confederações, em 2013, e do Mundo, em 2014. 

Questão de gosto 
Jô Soares abomina doces de coco. Ayres Britto detesta jiló, e Eduardo Paes não gosta de... pedras portuguesas na cidade do Rio. 

Não custa lembrar 
Esta Simone Vasconcelos, condenada dias atrás no STF por crime de lavagem de dinheiro no mensalão, envolveu-se numa outra operação esquisita. 

Em 2010, recebeu da Federação das Indústrias de Minas, na época presidida por Robson Andrade, hoje na CNI, quase meio milhão de reais através de uma locadora do marido. 

O DOMINGO É DE... 
...Marjorie Estiano, a talentosa curitibana de 30 anos que voltou à telinha em “Lado a lado”, novela de João Ximenes Braga e Cláudia Lage, na TV Globo. Na trama, a bela interpreta Laura, uma mulher à frente de seu tempo, moderna, que luta pela liberdade feminina e quer muito mais do que casar e ter filhos 

Errou de calor 
O jogador Hulk, terça, dia seguinte à goleada do Brasil contra a China, em Recife, era um dos mais mimados na primeira classe do voo para Lisboa. 

Alguém lembrou que Pernambuco sempre recebe a seleção de maneira “calorosa”. E o fortão respondeu: 

— Eu sei. Nasci ali pertinho de Recife, em Campina Grande. Lá também é muito quente. 

É. Pode ser. 

Salve, Isabelita 
O ator “carioca-argentino” Jorge Omar Iglesias foi convidado por Glória Perez para participar de “Salve, Jorge”, a próxima novela das 21h da TV Globo. 

Ele é a querida Isabelita dos Patins. 

E por falar... 
Caetano Veloso convidou Pretinho da Serrinha para produzir a faixa “Tiranizar”, sua composição com Cezar Mendes. 

A canção já está escalada para “Salve, Jorge”. 

‘Admirável mundo novo’ 
Sabe como os flanelinhas estão cobrando gorjetas na Avenida Jorge Amado, no bairro do Imbuí, Bahia? Com... máquina de cartão de crédito. 

Divórcio eleitoral - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 16/09


Ninguém em sã consciência acredita hoje que o Supremo Tribunal Federal condenou grande parte do núcleo financeiro para aliviar agora na hora de julgar os políticos. E isso vai deixar o eleitor ainda mais distante dos políticos tradicionais na hora de votar


Obrigados a correr atrás do prejuízo em São Paulo, onde José Serra saiu do alto da preferência do paulistano há alguns meses para suar a camisa em busca da vaga num segundo turno, os tucanos paulistas talvez tenham sido os primeiros a perceber a separação entre a classe política e o cidadão comum nesses tempos de julgamento do mensalão, CPI do Cachoeira e por aí vai. Invariavelmente, alguns deles têm feito o seguinte teste quando reúne grupos de eleitores: “Quem acredita em política levanta a mão”. Menos de 10% dos presentes erguem o braço no mesmo instante.

Diante dessa constatação, muitos chegam ao ponto de remeter a situação de São Paulo ao que ocorreu no fim do governo Sarney, quando todos os conhecidos e experientes candidatos a presidente da República foram derrotados pelo jovem governador de Alagoas, Fernando Collor, e pelo “sapo barbudo”, Lula, que só viria a conquistar a presidência 13 anos depois daquela eleição.

Guardadas as devidas proporções, estão aí o “novos”, Celso Russomanno, em São Paulo; e Ratinho Júnior, em Curitiba. Todos vistos como “gente diferente”, “da tevê”, nomes que o eleitor não associa muito à política, logo, não vincula aos sucessivos escândalos que tomam conta do noticiário. E, pelo andar da carruagem, os escândalos estarão cada vez mais na ordem dia, com os políticos entrando na roda do julgamento a partir desta segunda-feira. Afinal, ninguém em sã consciência acredita hoje que o Supremo Tribunal Federal condenou grande parte do núcleo financeiro para aliviar agora na hora de julgar os políticos. E isso vai deixar o eleitor ainda mais distante dos políticos tradicionais na hora de votar.

Para tentar fugir dessa sina, José Serra, por exemplo, decidiu ir para a rua, sair dos eventos fechados. A intenção é olhar nos olhos de cada um dos eleitores a fim de convencê-los de que está mesmo disposto a terminar a sua carreira política como prefeito de São Paulo. Fernando Haddad, por exemplo, vai tentar mostrar que está tão longe dessas confusões quanto a presidente Dilma Rousseff, que, aliás, deverá participar do último comício da campanha paulistana. Eventos que fazem barulho, mas não resgatam o eleitor para a crença no campo da política, poucos foram craques nessa tarefa até hoje.

Memória

Nas últimas eleições, foram poucos os candidatos que levaram a discussão para o campo da política, como fez Mário Covas contra Paulo Maluf, em 1998, na disputa pelo governo de São Paulo. Num debate — que não era tão engessado quanto os de hoje —, Covas fugiu à regra de deitar promessas “na educação…”, “na saúde…” e entrou direto naquilo que nesses tempos de hoje cala fundo ao eleitor: “Maluf, com você quero discutir caráter”. Covas, então, começou a dizer que isso era importante, que seu adversário não estava na campanha das diretas, lembrou aos telespectadores que Maluf apoiara a ditadura militar e que, para escolher um candidato, o eleitor deveria conhecer a história de cada um, de que lado estavam, o que já haviam feito pela vida das pessoas. Covas saiu dali com novo fôlego para conquistar um segundo mandato de governador. Infelizmente, não conseguiu terminar o mandato por causa do câncer descoberto no ano seguinte.

Até aqui, ninguém nesta eleição tem se preocupado em levar o debate para o campo da política e do caráter como fez Covas naquele dia. E quem está em Brasília, distante do calor das campanhas e dedicado a se preocupar com a rodadas seguintes a outubro de 2012, está cada vez mais convencido de que, nessa época em que o eleitor lutou tanto para aprovar a Lei da Ficha Limpa, talvez logo ali na frente seja a hora da discussão do caráter voltar à cena política.

Enquanto isso, na Petrobras…

A empresa adiou pela segunda vez a nomeação de José Carlos Amigo para diretor internacional da Petrobras, deixando a bancada peemedebista de Minas Gerais mais estressada. Para completar, o gerente de Marketing e Comercialização, José Raimundo Pereira, entrou na lista de nomes cotados para a função. Ou seja, se brincar, Amigo ficará a ver navios e a bancada do PMDB de Minas também. Mas essa é outra história.