segunda-feira, agosto 06, 2012

A cultura nas Olimpíadas - RENATO JANINE RIBEIRO


Valor Econômico - 06/08


Eu, como milhões ou bilhões, gostei muito da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres. Mas concordo com a ideia de que o Brasil pode - e deve - fazer melhor. Por duas razões. A primeira e mais difícil é um desafio a qualquer festa para multidões hoje em dia: é que no show, embora belíssimo, faltou cultura. Ele foi espetacular, em todos os sentidos da palavra; gerou prazer para o público; mostrou o melhor do esporte; apresentou uma Grã-Bretanha multiétnica e multicultural - e, ainda, apostou no que considera ser o foco da juventude atual, dos celulares às baladas de sábado à noite. Mas podia ter feito mais.

O espetáculo começou com Shakespeare, o maior autor da cultura inglesa. O ator Kenneth Branagh declamou uma passagem de "A tempestade", após quatro corais infantis representarem, cada um, uma das nações que formam o Reino Unido - Irlanda do Norte, Gales, Escócia e Inglaterra. Aliás, não só os corais mostravam a união do Reino, como todos contavam com negros e minorias étnicas, nem britânicas nem mesmo europeias. Mas, depois disso, a cultura sumiu. Ou melhor, a cultura que prevaleceu, de longe, foi a de massas. Não houve cultura genuinamente popular, erudita ou folclore. A Grã-Bretanha que nos foi mostrada foi, na hipótese mais generosa, a que começa com Mary Quant - para quem não sabe, a criadora da minissaia, a mulher que colocou Londres no centro do mundo jovem, na década de 1960 - e os Beatles.

Por que acho isso uma falha? Porque a abertura dos Jogos Olímpicos é uma enorme oportunidade para um país apresentar o melhor de sua cultura e mostrar que perspectivas ela abre para o mundo. Ele pode dizer como contribui para a paz e o enriquecimento da sociedade global. Sabendo disso, os britânicos apostaram em tudo o que aponta para uma humanidade solidária nas suas diferenças. Mas deixaram de lado um grande trunfo, que são vários séculos de excelente cultura. Na verdade, a falha que aponto é recorrente em nossos dias. O triunfo da indústria cultural é tão avassalador que até quem vive da palavra, como vários jornalistas e professores, sente vergonha dela, procurando substituí-la por cenas não-verbais da vida contemporânea. Daí que um dos episódios centrais do espetáculo tenha sido o dos jovens de hoje, que mostra todos os signos de consumo vinculados à Internet e à vida veloz.

Brasil pode fazer uma Olimpíada com sua cultura

Mas por que teríamos de escolher entre a cultura, digamos, "culta" e a cultura de massas? Não daria para ter ambas? Uma das grandes ênfases dos últimos anos esteve na comunicação multimídia. Mas multimídia inclui não só os novos meios de comunicação, como também os que têm milhares de anos, como o livro, as artes plásticas, a música. Todos eles se modificam ao longo dos tempos, e mudaram bastante graças à informática, porém permanecem ricos.

O Brasil poderá fazer melhor? Depende do empenho que coloque nisso. A lição de casa é, essencialmente: o que um país pode mostrar, de sua cultura, que seja uma contribuição importante para o mundo dos próximos anos? Um ponto é evidente, no caso de nosso País: a capacidade de integrar grupos distintos, sobretudo de nacionalidades, etnias e culturas diferentes. Não devemos vender a ninguém a duvidosa "democracia racial" e é preciso confessar nossas falhas neste campo. Mas lembremos que aqui os filhos de imigrantes, já na primeira geração, conversam entre si em português e não na língua dos pais. Isso é raro no mundo. Além disso, no Brasil é impossível distinguir pelo telefone a cor de uma pessoa, ao contrário do que sucede nos Estados Unidos. Não apenas somos um país de imigrantes, como temos uma identidade brasileira mais frágil (ou flexível) do que pretendem algumas outras - e hoje essa flexibilidade (ou fragilidade) é um trunfo para as relações humanas.

A segunda razão é o carnaval. Difícil, uma festa popular melhor que ele. Vi em 1989, na praça da Concorde, a celebração dos 200 anos da Revolução Francesa. Feia não foi. Mas a festa de Jean-Paul Goude foi um carnaval fracassado. Unir as melhores escolas de samba do país num megadesfile é algo que só o Brasil pode fazer. Mas o importante é que não seja apenas um pot-pourri. Será bom, caso se fale de Guimarães Rosa, João Cabral, Niemeyer e Glauber, que não tenhamos apenas bonecos deles em carros alegóricos e citações deles no samba-enredo. Será ótimo se a maior festa, que é uma imagem "for export" (mas também real) do país, permitir uma fecundação recíproca da cultura popular e erudita. Será fantástico se a criação da festa mobilizar nos próximos anos criadores e estudiosos da cultura, mas, sobretudo, as camadas populares. Não que vivamos em festa. Não que sejamos todos alegres. Mas, como ideal, a alegria é a prova dos nove, como dizia Oswald de Andrade. Quem sabe, para citá-lo de novo, fazer da festa a ocasião da massa comer o biscoito fino da cultura.

Temos as belezas naturais. Mas um dia Machado de Assis recebeu um visitante estrangeiro. Depois de lhe mostrar o Rio de Janeiro, ouviu-o dizer: o melhor mesmo é a beleza natural. Machado se entristeceu: o que nós fizemos não vale nada, se comparado com a natureza, que já recebemos pronta? Pois é aí que entra a cultura. Mostrar o que os brasileiros fizeram, e não apenas o que o Brasil é, pode ser bom. Discutir isso pode ser muito bom, nos anos que nos faltam. Devemos, também, ir além do país do carnaval. Por exemplo, Clarice Lispector é uma referência óbvia para a questão feminina. Os jogos podem ser a ocasião de nos perguntarmos o que temos para repassar ao mundo. Essa pergunta é uma das mais importantes que podemos nos colocar a respeito de nós mesmos.

Marcha lenta - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 06/08

A produtividade da indústria brasileira teve queda de 3,7% de janeiro a maio de 2012 em relação ao mesmo período do ano passado. A constatação é de levantamento inédito feito pela CNI (Confederação Nacional da Indústria).

LADEIRA

Segundo a entidade, "ao mesmo tempo em que a produção do trabalhador está se deteriorando, a massa salarial da indústria aumentou 9,6% no período". A CNI afirma que o aumento do custo gera pressão sobre o preço final dos produtos e causa perda de competitividade.

LADEIRA 2

No estudo, a confederação afirma ainda que a perda de competitividade já é sentida com o aumento da capacidade ociosa nos parques industriais e o aumento de estoques nas fábricas. O último índice de utilização da capacidade instalada medido pela CNI, de 80,9%, em maio, é o menor desde fevereiro de 2010.

TUFÃO

Embora diga que prefere ver novela e Olimpíada em vez do mensalão na TV, o ex-presidente Lula está ligado no julgamento. Dispara telefonemas para advogados que estão em Brasília para saber detalhes e a previsão do resultado.

VISITA

Lula espera a visita da presidente Dilma Rousseff hoje, em São Paulo.

BOLÃO OFICIAL

Pelo menos um ministro do STF concorda com o resultado do "bolão" feito por advogados dos principais réus, a pedido da coluna, sobre a possibilidade de José Dirceu ser condenado. Boa parte está segura de que três votos podem ser favoráveis, e quatro votariam pela condenação. Outros quatro seriam "incógnitas", pela discrição.

CERTEZA

O mais curioso, diz jurista que conhece os meandros do STF, é que cada um já tem razoável certeza de como votará. Ou seja, já existe um veredicto sobre Dirceu, mas ele só será conhecido em um ou dois meses, quando os magistrados puderem enfim revelar seus votos.

DEIXA PRA LÁ

A equipe do "CQC" apresentou a José Serra (PSDB), no debate da Band com candidatos a prefeito de São Paulo, uma "carta compromisso" em que ele se comprometeria a ficar "os quatro anos no comando da prefeitura". Serra não assinou.

MALA E CUIA

Luiz Fernando Emediato, publisher da Geração Editorial, abandonou a ideia de se aposentar em setembro. Entregou a editora à filha Fernanda para ser assessor especial do ministro Brizola Neto, do Trabalho.

CASA NO LAGO

E Brizola Neto alugou uma casa no Lago Norte de Brasília. Mudaram do Rio para lá a filha de três anos e a mulher, Juliana -que tentará a carreira de atriz na capital.

REPETECO DE LELECO

O ator Marcos Caruso, o Leleco de "Avenida Brasil", também estará no elenco de "O Canto da Sereia". Foi convidado pelo diretor da novela, Ricardo Waddington.

As gravações da microssérie baseada no livro homônimo de Nelson Motta começam em outubro, após o fim da trama das nove.

VÉU NO BOQUEIRÃO

Cem noivas trajadas a caráter, com véu e grinalda, circularão pela orla de Santos e outros pontos turísticos de 5 a 15 de setembro. A passeata de branco é uma intervenção do Enlace Coletivo de Artes para celebrar o centenário de nascimento de Nelson Rodrigues. A performance faz parte do Mirada (Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos), realizado pelo Sesc.

A MINHA VOZ É A MESMA. JÁ OS MEUS CABELOS...
Marcelo Justo/Folhapress

A atriz Laura Neiva, 18, cortou os cabelos para viver Cíntia no longa "O Menino no Espelho", de Guilherme Fiúza Zenha. "Até os 14 anos tive cabelo megacurto. Então não foi um choque. Mas tô com saudades dele comprido", diz. O autor da mudança foi seu cabeleireiro há cinco anos, Armando Pereira.

"O Armando vai cuidar do meu cabelo até o fim da vida. Ele é 'low profile', pensa no que é bom pra você, pondera", afirma. No Brasil, a atriz continua sendo a única representante da grife Chanel. "Não ganho dinheiro por isso. É uma amizade. Recebo roupas, cosméticos e vou aos eventos da marca."

NOS TRINQUES

O ator Edson Celulari, o empresário Carlos Jereissati Filho e o gerente-geral do JK Iguatemi, Fernando Bonamico, participaram do coquetel de abertura da loja masculina da Gucci no shopping. Roberto Paz, presidente da grife na América Latina, e o estilista Oskar Metsavaht também estavam lá.

DA SPFW PARA O MUSEU

O estilista Mario Queiroz decidiu dar um tempo da semana de moda São Paulo Fashion Week. Ele, que não desfilou no evento em junho, apresenta hoje sua coleção de verão em passarela montada na Pinacoteca. "Decidi fazer o desfile junto com o lançamento das minhas joias, experimentando novas fórmulas além da SPFW", afirma. A inspiração são as cores e o trabalho do artista venezuelano Carlos Cruz-Diez.

Queiroz, que sempre se dedicou à moda masculina, conta que as roupas femininas estão ganhando mais espaço em seu trabalho. "E estão fazendo com que eu experimente novas matérias", afirma.

Curto-circuito

A exposição "Nova Pintura", com obras de Rodrigo Bivar, entre outros, será aberta ao público hoje, na torre do Santander.

O filme "Corações Sujos", de Vicente Amorim, que estreia no dia 17, foi lançado no Japão com sessões lotadas e críticas positivas.

Alex Atala, Helena Rizzo, Laurent Suaudeau e Alberto Landgraf fazem jantar de lançamento da Associação dos Profissionais de Cozinha, no Manioca.

Gal Oppido inaugura hoje a exposição "Los Angeles e Las Vegas, as Cidades Ilusionistas", na Lume Photos, no Itaim, às 19h30.

O site FC Lifestyle entra no ar hoje.

com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA

Leros, boleros - JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS


O GLOBO - 06/08

A sensação, por qualquer caminho que você vá, é de que alguém abriu os canos de gás e, em desespero amoroso, desistiu. Leia na minha camisa, leia num muro sujo numa esquina abandonada da Jardim Botânico: "O amor está foda".

Leros, boleros, eis as tantas notícias que me têm chegado quando abro os ouvidos, os olhos, o coração, e percebo. Dalva de Oliveira estava certa ao cantar que o amor é bagaceiro, o amor é bandoleiro, é o ridículo da vida.

Essas divas sabem tudo, elas comeram o pão que o diabo amassou, e é assim que também têm me passado os dias, assim que me passam os anos, e ninguém aparece para cantar o bolero contrário. Para dizer fique calmo, essa dor passa. Para garantir que tu te acostumaste a todas aquelas coisas e a mulher da tua vida um dia te voltará aos braços. Vestida de noiva ou só de véu ou grinalda, ela voltará. Aos prantos, com o perfume de gardênia que tinha a boca dela, ela aos prantos retornará como voltam sempre esses boleros cachorros que agora aparecem por todos os lados, eternos gritos de perfídia que não me deixam mentir. O amor está fogo na roupa.

Não tenho visto ninguém ateando fogo às vestes, ainda, mas ouvi "Contigo aprendi", o melhor CD de música brasileira da semana passada, com o MPB-4 apresentando em voz e violão novas versões para boleros clássicos. Eles também concordam. São só enganos, desenganos, gente fingindo, negando, enganando, até quando, até quando? Caetano Veloso mostra no disco sua versão para um clássico do gênero, e mais uma vez, aos 70 anos, põe o dedo nessa ferida que não para de sangrar, que não para de botar corações fora do peito. O amor não é uma criança esperança. Depois dos versos "Sabe Deus se tu me amas ou me enganas", Caetano expõe o que me ia n"alma faz tempo, mas só o bolero dá ao macho a coragem de chegar em público e abrir o jogo: "O homem não sabe nunca nada".

Experimente ir ao cinema, mergulhar a dor no colesterol de um saco de pipoca salgada, e lá estará ele, o desgraçado, o amor que bateu a porta na tua cara, o amor que disse passe bem e até nunca mais. O amor é vício do corno manso. É ele, suas lágrimas, seus chifres, quem está no filme "Vou rifar meu coração", o melhor documentário brasileiro da semana passada. Uma multidão de abandonados pela sorte amorosa. Alguns, se deixando chamar pelo brasileiríssimo nome próprio de Corno da Silva, botam a alma na mesa e escancaram a dor. Vacilaram. Traíram-se. Apaixonaram-se pelo homem errado, casaram com a mulher sequelada, e agora só lhes cabe chafurdar na lama torpe da humilhação pública. Eles revelam que as letras do Waldick Soriano, do Odair José, do Amado Batista, deuses da canção romântica nacional, falam da luz do abajur lilás que ilumina esses dramas, histórias comuns a todos nós, capachos onde o amor limpa as botas e depois, orgulhoso, todo pimpão, vai em frente.

Ninguém sabe de onde surgiu essa vocação nacional para o sofrimento, em que casa grande ensolarada, em que senzala da sociologia a dor se transformou em nobreza romântica, a ponto de precisar ser purgada pelas canções da mesma sina. Quem desfere tantos tiros no peito dos desiludidos do amor? O diretor Breno Silveira levou um pé na bunda aos 17 anos e, como a dor tamanha não passa, aos 48 anos ele conta a partir de sexta, nos cinemas, uma tragédia parecida com a sua. Breno aliviou a infelicidade com canções de Roberto Carlos - e resolveu exibir a fórmula. Uma das músicas do filme é a do cara que volta para casa, decidido a tentar tudo novamente, e é recebido no portão pelo cachorro que lhe sorri latindo. Quem não chorará? Chutamos, somos chutados. Quem não batererá no peito os tambores do erro e do arrependimento?

Na contramão desse infortúnio, mas jogando com as mesmas desditas, Arrigo Barnabé está lançando DVD com o repertório de Lupicínio Rodrigues. São as histórias de sempre, mas sem santinhas de pau oco. Aqui, as que abandonam são vagabundas sem sangue nas veias e sem coração, almas daninhas que praticam o verbo judiar sem se importar com o politicamente incorreto dele. Tripudiam, sacaneiam, baixam o nível. Ao contrário dos maravilhosos infelizes da canção brasileira, Lupicínio não põe o galho dentro. Sofreu a covardia e a ingratidão de todas, e exibe as armas da vingança. Sem essa de remorso. Gargalha quando os amigos dizem que encontraram uma das vadias chorando na mesa de um bar. O amor é fogo, é foda, é fuleiro, é fera ferida, inferno, todas essas palavras em efe, feias, que se puder juntar.

Ninguém presta quando o amor acaba, e ele acaba mal em todas essas músicas que vocês acabaram de ouvir nesta rádio-crônica. Sofre-se muito na agenda cultural desta semana, e o resultado é uma coleção de bons discos e filmes. Só que no caso de Lupicínio e Arrigo, eles são do sul do país. Numa noite fria, provaram o chimarrão amargo do pé na bunda, e guardaram rancor. Querem vingança. O título do DVD é "Caixa de ódio".

A falta de vontade política - EVERARDO MACIEL


O Estado de S.Paulo - 06/08


O Brasil assiste, hoje, a dois acontecimentos singularmente importantes: o julgamento do mensalão e a greve no serviço público. O mensalão, independentemente do desfecho do julgamento, é uma prova de vitalidade das instituições. Já a greve é um sinal de imaturidade nas relações dos servidores com a administração pública.

A grande repercussão midiática do mensalão contrasta com a do movimento paredista, somente percebido pelos que são diretamente por ele atingidos. Em nenhum dos casos, entretanto, há uma reflexão sobre as causas que explicam acontecimentos tão indesejáveis, o que é prenúncio de que eles possam voltar a ocorrer.

No campo político, é necessário perquirir as razões pelas quais pessoas pouco virtuosas almejam mandatos políticos. Não me impressiona o argumento de que o financiamento público das campanhas eleitorais seria fator capaz de desencorajar a corrupção eleitoral. Ele, simplesmente, iria universalizar o caixa 2.

O que mais provavelmente anima a postulação eleitoral das pessoas pouco virtuosas é o direito ao foro privilegiado nos processos judiciais e, sobretudo, a possibilidade de operar verbas orçamentárias, por meio das chamadas emendas.

O foro privilegiado é uma aberração que segrega as pessoas, em função dos cargos que ocupam. E ao fazê-lo, paradoxalmente, suprime dos privilegiados o direito ao julgamento em dupla instância.

Ainda que não tenham grande expressão nos gastos públicos totais, sendo, por esse motivo, negligenciadas pelos analistas de finanças públicas, as verbas orçamentárias, qualificadas como transferências voluntárias, propiciam perigosos conluios que envolvem políticos, empreiteiras e outras empresas contratadas pela administração pública. Essas verbas estiveram na origem de tenebrosos escândalos, rotulados como "anões do Orçamento", "sanguessugas" e outros esquisitos nomes.

Servem também como instrumento de barganha para cooptar os parlamentares, como uma espécie de mensalão que não requer saques em misteriosas agências bancárias, sacolas de dinheiro ou complexas operações de lavagem de dinheiro. A extinção do foro privilegiado é matéria de solução simples, ao passo que o disciplinamento das transferências voluntárias se inscreve numa reestruturação do processo orçamentário, com base no artigo 163, inciso I, da Constituição.

Vivemos, todavia, um longo período de apatia legislativa, em boa medida causada pela tirania das medidas provisórias, da qual resulta mora legislativa levada ao extremo. Na outra vertente das singularidades da agenda política contemporânea, temos a greve no serviço público, que parece ser grande, mas não se sabe ao certo sua dimensão, e se anuncia como legal, ainda que não seja reconhecida como tal pela Justiça.

Algo, entretanto, é certo: existem vítimas. São jovens que frequentam a escola pública - de má qualidade, quase sempre -, cujas perspectivas de inclusão profissional são adiadas. São empresas que não conseguem realizar negócios para reanimar nosso combalido produto interno bruto (PIB). São doentes que não conseguem acesso aos serviços de saúde pública.

A vítima, em síntese, é o povo, não bastasse a insólita colaboração das greves para aviltar ainda mais os precários serviços públicos. Não seria justo negar aos trabalhadores da função pública o direito à reivindicação salarial. De mais a mais, a Constituição admite, no artigo 37, inciso VII, o direito à greve, nos termos e limites fixados por lei específica. Essa lei, contudo, inexiste, o que obrigou o Supremo Tribunal Federal, incidentalmente, a suprir a preguiça legislativa. Menos mal, mas insuficiente.

Esse quadro sem contornos bem definidos encerra uma montanha de dúvidas. Os dias parados devem ser pagos? A morosidade, mal disfarçada como operação-padrão, deve ser punida? Greve de policiais deve ser tida como motim? Quais são os serviços essenciais que não podem ser paralisados? Qual o rito das assembleias para a aprovação de uma greve? Deveria haver um canal institucionalizado de negociações ou um tribunal especial de conciliação e julgamento para evitar a deflagração do movimento grevista?

A greve, especialmente no serviço público, deve ser um recurso extremo, porque o interesse individual ou corporativo não pode suplantar o interesse público. As demandas quase sempre incluem um "novo plano de cargos e salários", o que, em verdade, é uma forma oblíqua de postulação salarial. Constituem, além disso, uma evidência de que inexiste uma lei geral de remuneração do serviço público, que previna a assimetria de remuneração entre os funcionários dos diferentes Poderes, institucionalize a ascensão profissional fundada no mérito, discipline as vantagens dos servidores, etc.

Sempre que uma demanda política não desfrutava viabilidade ou consistência, dizia-se que faltava "vontade política" para atendê-la, numa manifestação primária de voluntarismo. Falta vontade política, agora sim, para remover as causas da corrupção eleitoral e da degradação dos serviços públicos.

Melhor dizendo, falta coragem política.

Lixo eletrônico - MARIA INÊS DOLCI


FOLHA DE S.PAULO - 06/08


Os bandidos reais que usam a internet só serão expulsos da web se forem relegados à pasta de lixo eletrônico


Basta consultar os e-mails para perceber uma enxurrada de ofertas de serviços nitidamente irregulares. E de benesses mais do que suspeitas. Mas, se eles existem, certamente é porque têm público.
"Foi multado? Não pague!", propõe uma das mensagens. Ela se propõe a enviar, para o internauta incauto, um kit em CD com "tira-multas" atualizado.
Há até a proposta de um dinheirinho para quem indicar o site aos amigos.
Ora, nem seria preciso dizer que se pode, no máximo, recorrer de multas. Isso é legal, um direito dos motoristas. No site do Detran de São Paulo, por exemplo, é possível recorrer das penalidades em aberto (inclusive multas), por meio de formulário eletrônico.
Outro e-mail vende "diploma rápido", supostamente registrado em instituição pública ou particular, com a promessa de retroagir à data de interesse do comprador, sem a necessidade de ingressar na faculdade, sem acompanhar aulas, sem estudar nem fazer provas e trabalhos. Outra infração à lei, sem dúvida, porque ser diplomado sem estudar é crime. Imagine, caro leitor, ser examinado por um falso médico?
Ainda na caixa de correspondências digitais, nova sugestão de caminho alternativo para solucionar problemas: a promessa de limpeza imediata do nome da pessoa de listas de devedores, devolvendo-lhe o crédito perdido. Há, contudo, uma forma correta de fazer isso: procurar a empresa de cobrança, conversar, ouvir uma proposta de pagamento parcelado. Ou seja: renegociar e pagar o que for combinado, em dia.
Outro viés de picaretagem ocorre nas áreas da saúde e da estética. Celulite é uma modificação da pele por depósitos de gordura. Uma de suas aparências é a de uma casca de laranja. Para ser combatida, é necessário consultar um dermatologista, médico especializado no diagnóstico e tratamento clínico-cirúrgico da pele.
Quantos e-mails você já recebeu, cara leitora, propondo a cura rápida e fácil para esse problema de saúde? Certamente, muitos. Tantos quantos os que propõem emagrecimento sem dieta nem exercícios, cápsulas que secam a barriga ou tratamento contra disfunção erétil -tudo adquirido pela internet.
São golpes toscos, como aquelas mensagens de supostas dívidas com um arquivo anexo, que contêm um programa executável com vírus digital ou que rouba dados do proprietário do endereço eletrônico.
O que há em comum em todas essas tentativas de enganar e roubar os consumidores é a falta de vigilância dos cidadãos, provocada pelo desejo de levar vantagem. E certo desleixo com a própria segurança e a dos familiares.
Caso contrário, internautas não receberiam um e-mail em inglês de alguém que afirma ter milhões de dólares prontinhos para enviar ao destinatário. Desde que, antes, este deposite certa quantia para os trâmites legais.
Como acreditar em uma patranha dessas?
O Código de Defesa do Consumidor, as entidades que defendem seus direitos e autoridades dos três Poderes têm trabalhado para que as relações de consumo sejam mais equilibradas. E para que os consumidores sejam respeitados.
No mundo digital, contudo, por mais que se desenvolvam leis e mecanismos de controle dos crimes virtuais, é fundamental a colaboração dos cidadãos. É possível reduzir substancialmente esses golpes se as pessoas prestarem atenção e não acreditarem em absurdos, que desafiem o bom senso e a realidade.
Curas mágicas, solução de problemas financeiros e legais não ocorrem com um piscar de olhos ou um estalar de dedos. As conquistas da vida dão trabalho, mesmo, e exigem investimento de tempo e de dinheiro, ou seja, dedicação pessoal.
Os bandidos reais que utilizam a maravilhosa comunicação instantânea e abrangente da internet só serão expulsos da web se forem relegados à pasta de lixo eletrônico. Essa é a nossa parte, algo que podemos e devemos fazer.
Bucaneiros digitais só conseguem rapinar aqueles que abrem as portas para seus estratagemas grosseiros.

Besteirol autoritário no Enem - ALEXANDRE BARROS


O Estado de S.Paulo - 06/08


Estou atônito com o preciosismo das regras que regerão a correção das redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Os burocratas que as elaboraram violaram duas regras básicas: primeira, ninguém é obrigado a seguir a política dos direitos humanos do governo, salvo no que for regulado por lei; segunda, a ciência de hoje é a mentira de amanhã.

Se o governo gosta de algumas proposições, como direitos humanos, que as defenda nos lugares apropriados. Mas obrigar que todos marchem na mesma cadência é totalitarismo. Aprendemos isso estudando História.

Entendo que os direitos humanos sejam defendidos com toda a ênfase, mas de maneira nenhuma que a sua defesa contamine a suposta mensuração do conhecimento da língua portuguesa pelos alunos. Se o governo quer avaliar os direitos humanos por meio do Enem, que crie uma prova para isso, não contrabandeie suas preferências ideológicas para uma prova de linguagem. Faça como fizeram os governos militares, que criaram uma disciplina específica para difundir a sua ideologia, Educação Moral e Cívica.

Todos os estudantes têm o direto essencial de pensar como quiserem, da maneira que bem entenderem e por suas próprias razões. Boicotar voluntariamente pessoas, produtos e empresas por não concordarem com o que gostamos é uma coisa. Reprovar alunos é outra.

Vou entrar agora em terrenos movediços. Mas não tomarei partido de nenhum deles, por enquanto.

Devemos ou não ter cotas raciais para escolas, empregos, etc.? As pessoas devem ou não ter o direito de adotar o comportamento sexual que bem lhes aprouver? Os mórmons devem ou não ter o direito legal de constituir famílias poligâmicas? Os judeus devem ou não ter o direto de "mutilar" seus filhos pela circuncisão religiosa (um tribunal alemão decidiu recentemente que não o podem fazer)?

A resposta para todas essas perguntas é sim, desde que ninguém seja obrigado a participar. E mais: o que são direitos e o que não são mudam no tempo e no espaço. O terreno fica ainda mais pantanoso porque entramos no direito de livre-pensar e de livre-agir das pessoas em função de suas crenças.

Quaisquer direitos, quando entraram na agenda política, foram considerados subversivos em muitos lugares. O voto feminino, por exemplo, é uma conquista muito recente das democracias modernas.

Esquecemo-nos de que vivemos com invenções que tornaram nossa vida melhor porque houve muitos excêntricos que se recusaram a pensar conforme as crenças dominantes em sua época. Por causa disso muitos foram processados, queimados em fogueiras, torturados, asfixiados em câmaras de gás, forçados a mudar-se de sua terra natal ou, pura e simplesmente, exterminados.

Os excêntricos violam regras existentes. Uma coisa tão simples como os germes só foi descoberta em 1847, quando o dr. Ignaz Semmelweis, médico do Hospital Geral de Viena, percebeu que havia um número muito maior de mortes resultantes de infecção pós-parto entre parturientes que haviam sido atendidas por médicos e estudantes de medicina do que entre as atendidas por parteiras. Ora, isso ia contra o senso comum. A crença era de que médicos e acadêmicos eram mais competentes que parteiras curiosas.

Semmelweis desafiou o senso comum, foi investigar por que isso ocorria e fez uma revolução na medicina e na ciência. Os acadêmicos saíam das mesas de autópsia para as salas de parto e, sem lavar as mãos, contaminavam as parturientes com os germes, até então desconhecidos. O que seria da nossa vida se alguém não tivesse contrariado o pensamento dominante?

Se levarmos isso para a política, veremos que muitas conquistas se devem a pensamentos que contrariaram as noções dominantes. Se assim não fosse, não teríamos República, democracia, ausência de escravidão, fim de ditaduras e muitas outras coisas valiosas.

Precisamos tomar cuidado com o a febre do "testismo" que está contaminando a educação brasileira, em que um bando de supostos sábios estabelece regras ridículas para corrigir algo tão simples como uma redação. Isso gera empregos para testadores e professores desempregados, mas, na realidade, mede muito pouco, ou nada, da criatividade das pessoas. Afinal, criatividade parece ser a grande qualidade de que a economia brasileira precisa: inovadores que se atrevam a pensar diferente.

Quem sabe, surgirão ideias novas nessas redações. Todavia a preocupação de ser condenado pelo resto da vida com uma nota baixa no Enem inibe imensamente o potencial criativo dos estudantes. E não há de ser um bando de burocratas que medirá isso. Porque a única coisa que burocratas medem, e com muita eficácia, é o tamanho de seus salários.

Insisto em lembrar que a ciência de hoje é a mentira de amanhã. Não fosse isso, não teríamos ido à Lua. Creia o leitor ou não, na minha juventude (e fui parcamente educado numa escola religiosa) circulava uma revista que tentava passar ideologia religiosa por intermédio de histórias em quadrinhos. Numa delas, um viajante espacial, parecido com o herói dos quadrinhos convencionais Flash Gordon, ia em sua nave em direção a outro planeta. Subitamente, era cegado por uma luz muito forte e "entendia" que alguma força superior lhe estava dizendo que era a hora de voltar para a Terra e desistir de viagens interplanetárias... Isso foi em meados dos anos 1950.

Como estaríamos hoje sem os visionários e sem todos aquele que tiveram a coragem de desafiar leis e determinações de governos?

Em tempo: sou totalmente a favor dos direitos humanos, mas totalmente contrário a que o Estado use a sua mão de ferro para, disfarçadamente, medir ideologia numa prova que deveria apenas julgar a capacidade de um candidato de dominar a língua portuguesa.

O que Lula teme - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 06/08


"Creio que o Supremo fará justiça. E na visão do Ministério Público, justiça é condenar todos "

Roberto Gurgel, procurador-geral da República


Em 2001, faltando um ano para a eleição do sucessor do presidente Fernando Henrique, Lula se reuniu com José Dirceu e disse mais ou menos assim: "Só serei candidato outra vez se for para ganhar". A semente do mensalão foi plantada durante aquela conversa. Lula não estava mais disposto a competir por competir. Ou a sonhar com o dia em que a maioria dos brasileiros, espontaneamente, chegaria à conclusão de que ele era, sim, o melhor nome para governá-los.

Traduzindo o que Lula disse para Dirceu: "Olha, Zé, vamos jogar com as armas dos nossos adversários. Precisamos de muito dinheiro, alianças com partidos e um marketing político de primeira linha." Os escrúpulos foram jogados no lixo. Cumpriu-se a vontade do poderoso chefão.

O marqueteiro de Lula foi o baiano Duda Mendonça. Antonio Palocci tomou de empresários montanhas de dinheiro em troca da promessa de que seria mantida a política econômica de Fernando Henrique. Entre outras coisas, o dinheiro serviu para comprar o apoio de partidos.

O PT que subiu a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2003 pouco tinha a ver com aquele que se dizia diferente dos outros partidos. O PT da ética, que infernizava a vida dos que roubavam ou que deixavam roubar, esse havia perdido a guerra interna. E, por tabela, a eleição presidencial.

Ora, quem se valeu de meios limpos e sujos para vencer não renunciaria depois a tais meios para governar. O que o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, batizou de mensalão foi o resultado natural do caminho escolhido pelo PT para alcançar a Presidência da República.

O mensalão não foi uma invenção do PT. Foi invenção de governos anteriores. Da mesma forma, o loteamento da máquina pública. Teve até um presidente - Fernando Collor - que, por arrogância, desprezou o franciscano modelo do "é dando que se recebe". Acabou deposto.

Pago por outros governos, o mensalão passou em branco porque faltou um suicida como Jefferson para denunciá-lo. De santo, ele nada tem. Discordou do método de se pagar mesadas a deputados. Preferia que o dinheiro fosse entregue às direções dos partidos para que elas o administrassem.

Jefferson recebeu malas de dinheiro. Seu PTB, cargos. As pessoas empregadas por ele foram obrigadas a desviar dinheiro público e a cobrar comissões de fornecedores. Uma delas teve o azar de ser filmada embolsando a titica de R$ 3 mil. O governo jogou a culpa em Jefferson e nos seus companheiros. O bicho pegou.

O Supremo Tribunal Federal dirá se são culpadas ou inocentes as 36 pessoas apontadas pela Procuradoria Geral da República como integrantes da "sofisticada organização criminosa" que pretendeu se apoderar de parte do aparelho do Estado. O objetivo da organização era o de assegurar vida longa para o PT no poder.

Lula nunca chamou o mensalão de mensalão. Chamava de caixa dois. Que também é crime. Mas é um crime que se alimenta de dinheiro particular. Mensalão se alimenta de dinheiro público. Não basta para Lula ter deixado o governo como o presidente mais popular da História.

Se a Justiça reconhecer que o mensalão existiu, ele entrará também para a História como o líder supostamente inocente de uma gangue. Seus desafetos poderão dizer, sem que ninguém os conteste: nunca antes neste país nada de parecido aconteceu.

Lá vêm os bolivarianos - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 06/08


Aberta a porteira do Mercosul aos bolivarianos, com o ingresso da Venezuela, agora é a vez de Equador e Bolívia negociarem sua entrada plena no bloco que é cada vez mais ideológico e menos econômico. O timing do processo é perfeito: primeiro, como se sabe, Brasil e Argentina urdiram o isolamento do Paraguai, último obstáculo à adesão da Venezuela, e atropelaram as normas do Mercosul para receber Hugo Chávez de braços abertos, com direito a uma lépida subida do autocrata venezuelano na rampa do Planalto; ato contínuo, os outros dois mais importantes governos chavistas da América Latina iniciam tratativas para engrossar o Mercosul.

Como diz o diplomata José Botafogo Gonçalves em artigo no Estado (2/8), trata-se de um "novo Mercosul", isto é, não se pode mais falar de uma zona de livre comércio e de união aduaneira, que está no espírito da fundação do bloco, mas, sim, de "um novo clube com objetivos políticos e econômicos que não valoriza o mercado, a livre circulação de mercadorias e serviços, a internacionalização das economias e a competitividade".

Como a comprovar essa tendência, a Bolívia, seguindo a cartilha chavista de estatizar até o ar que se respira, nacionalizou nos últimos dois meses duas minas de prata e estanho exploradas por empresas estrangeiras, depois que grupos indígenas pressionaram o presidente Evo Morales. Segundo o governo, os investidores afetados serão indenizados de acordo com uma avaliação "independente", eufemismo para empurrar-lhes o prejuízo. O padrão de Morales não é novidade - basta lembrar a estrepitosa invasão de refinarias da Petrobrás em 2006 e a consequente indenização por valor inferior ao investido pela empresa brasileira. Essa constante ameaça ao investimento externo e aos contratos desautoriza mesmo os mais ingênuos entusiastas do "novo Mercosul" a supor que a Bolívia irá submeter-se alegremente aos princípios de livre mercado.

O mesmo acontece com o Equador, embora este país seja diferente de Venezuela e Bolívia por um importante aspecto: o país vai bem. Os venezuelanos enfrentam a maior inflação da América Latina, que ronda os 25% anuais, apesar do contínuo controle de preços exercido pelo governo - cuja política brucutu tem desidratado sistematicamente a produção interna. O PIB venezuelano depende cada vez mais, portanto, da vontade de Chávez de investir o dinheiro estatal. A Bolívia, por sua vez, segue sendo um dos países mais pobres do continente, e o desestímulo de Morales ao investimento externo, por conta das seguidas intervenções estatais, não prenuncia futuro melhor.

Já o Equador cresceu 8% em 2011 e tem uma das menores taxas de desemprego da região, por volta de 5%. Pode-se dizer que, ao menos por ora, o "capitalismo de Estado" está funcionando por lá, e o país tem reservas de gás e petróleo que interessam ao Mercosul. No entanto, seguindo o figurino chavista, o presidente Rafael Correa não gosta de jornalistas e de opositores, contrariando frontalmente as cláusulas democráticas do Mercosul - aquelas que foram invocadas para suspender o Paraguai.

Na última manifestação da truculência de Correa, autoridades do Estado apreenderam os computadores da revista Vanguardia, que é crítica ao presidente e noticiou vários casos de corrupção no governo. O motivo da ação oficial é de um cinismo exemplar: o Ministério do Trabalho local alega que a revista foi punida porque não cumpre a cota de funcionários com deficiência. O diretor da publicação, Juan Carlos Calderón, já havia sido condenado em fevereiro a pagar US$ 1 milhão de indenização a Correa por ter publicado um livro em que denunciava um caso de corrupção envolvendo um irmão do presidente. Mais tarde, o magnânimo Correa "perdoou" a dívida do jornalista.

No entanto, nada disso importa mais, porque os valores da democracia e do livre mercado já não fazem mais parte do Mercosul. Com seu novo DNA, e em nome da expansão de oportunidades para as indústrias brasileiras e argentinas, o bloco mandou às favas os escrúpulos, instrumentalizando-se cada vez mais como contraponto bolivariano ao "império" americano.

Recuo da tropa - VERA MAGALHÂES - PAINEL


FOLHA DE SP - 06/08

Os advogados de defesa dos réus do mensalão voltam a Brasília para a segunda semana com a estratégia revista: se a ideia antes era pegar pesado com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a decisão após os primeiros dias de julgamento é dar ênfase a argumentos técnicos para tentar derrubar a acusação. A fala serena de Gurgel e o desabafo de que foi vítima de campanha de difamação tornaram arriscada a tática de confronto direto com o chefe do Ministério Público.

Mensalinho 1 A Procuradoria-Geral da República está na mira dos advogados ligados ao PT por conta da página especial voltada a explicar o mensalão para crianças, no ar desde o dia 2. Com infográficos e textos, o site detalha o esquema para professores usarem em sala de aula.

Mensalinho 2 Os advogados do partido alegam que o "Turminha do MPF" faz campanha contra o PT e promove "lavagem cerebral" nas crianças. Eles vão questionar o MP e estudam pedir à Justiça que tire a página do ar.

Moderação Membros do STF defendem que, para que haja tempo de Cezar Peluso votar antes de se aposentar, as falas dos ministros -com exceção de relator e revisor- se limitem a uma hora e meia.

Mecenas Dilma Rousseff manifestou interesse em visitar a exposição "Impressionismo: Paris e a Modernidade", que estreou no último fim de semana no CCBB, em São Paulo. O pintor preferido da presidente, Toulouse-Lautrec, faz parte da mostra, com 85 obras do Museu D'Orsay.

Instalação A segurança do Planalto avaliou que seria necessário fechar o prédio só para a presidente por uma hora. Dilma, que fez isso no Taj Mahal, na Índia, desistiu do programa para evitar antipatia do público, que forma filas no centro cultural.

Hits Além de "Índia", na versão de Tiririca, a trilha sonora das greves na Esplanada conta com a pegajosa "Tchê Tchê Rerê", com refrão: "Tchê Tchê Rerê/Ô Dilma vem nos receber".

Berlinda Com as greves se prolongando, a ministra Miriam Belchior (Planejamento), encarregada das negociações, é alvo de críticas contundentes da presidente.

Bandeira... Celso Russomanno pretende procurar dirigentes de PT, PSDB e PMDB para apresentar documentos relativos às denúncias contra o candidato do PRB e negociar pacto de não agressão mais amplo.

... branca O presidente nacional do PRB, Marcos Pereira, deve ficar incumbido das tratativas com os aliados de Fernando Haddad, e Campos Machado (PTB), coordenador político da campanha, falaria com emissários de José Serra e Gabriel Chalita.

Bandejão 1 José Serra programou visitas a programas e obras tidos como "vitrines" de suas gestões a partir de hoje, quando começa a cobertura diária da campanha pela TV. A primeira incursão será a unidade da rede Lucy Montoro, voltada para portadores de deficiência.

Bandejão 2 Para driblar eventuais questionamentos legais, o tucano fará essas visitas no horário do almoço, fora do expediente dos agentes públicos envolvidos.

Are baba A piada que corre no PT é que a propaganda de Fernando Haddad exagerou tanto no bronzeado do candidato no material de campanha que ele está parecendo "um ator de Bollywood'' nos cartazes.

Oioioi Os ministros escalados para gravar mensagens para candidatos aliados estão com agenda de atores globais. José Eduardo Cardozo (Justiça) fará 197 vídeos.

Tiroteio

Não há hierarquia entre prova testemunhal, pericial e documental. Detonar o acusador é a tática de quem não confia na própria defesa.

DA PROCURADORA DA REPÚBLICA JANICE ASCARI, sobre as críticas de advogados do mensalão ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Contraponto

Patrulha da praia

O ministro Luiz Fux, do STF, caminhava pelo calçadão de Ipanema há três domingos quando encontrou uma amiga que o aconselhou a não ir em direção ao Leblon, onde era realizada uma panfletagem pela condenação dos réus do mensalão.

Preferiu seguir no sentido oposto, até o Arpoador. Ainda assim, foi abordado por um casal de idosos:

-Olha lá o mensalão, hein, ministro!

-Ainda bem que vocês falaram. Agora vou prestar atenção -, replicou o ministro, entre bem-humorado e irritado com o assédio em seu raro momento de folga.

Efeitos especiais - CARLOS ALBERTO DI FRANCO


O GLOBO - 06/08

Prefeitos e vereadores estão, teoricamente, próximos da vida dos cidadãos. Seus acertos e erros repercutem intensamente no cotidiano da cidadania. O eleitor, portanto, deve ficar esperto. Campanhas milionárias, promessas irrealizáveis e imagens produzidas farão parte, mais uma vez, do marketing dos candidatos. Assistiremos, diariamente, a um show de efeitos especiais produzido para seduzir o grande público, mas, no fundo, vazio de conteúdo e carente de seriedade. O marketing, ferramenta importante para a transmissão da verdade, pode, infelizmente, ser transformado em instrumento de mistificação. Estamos assistindo à morte da política e ao advento da era da inconsistência.

Os programas eleitorais gratuitos vendem uma bela embalagem, mas, de fato, são paupérrimos na discussão das ideias. Jornalistas são (ou deveriam ser) o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar os candidatos. Só nós, estou certo, podemos minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida.

O nosso papel é ouvir as pessoas, conhecer suas queixas, identificar suas carências e cobrar soluções dos candidatos. Não se pode permitir que as assessorias de comunicação dos políticos definam o que deve ou não ser coberto. O centro do debate tem de ser o cidadão, as políticas públicas, não mais o político, tampouco a própria imprensa. Precisamos fugir do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.

Não basta um painel dos candidatos, mas é preciso cobrir a fundo as questões que influenciam o dia a dia das pessoas. É importante fixar a atenção não nos marqueteiros e em suas estratégias de imagem, mas na consistência dos programas de governo. É necessário resgatar o inventário das promessas e cobrar coerência. O drama das cidades (segurança, educação, saúde, saneamento básico, iluminação, qualidade da pavimentação das ruas, transporte público de qualidade, responsabilidade fiscal, entre outros) não pode ficar refém de slogans populistas e de receitas irrealizáveis. Os candidatos deverão mostrar capacidade de gestão, experiência, ousadia e criatividade.

Os políticos, pródigos em soluções de palanque, não costumam perder o sono com o rotineiro descumprimento da palavra empenhada. Afinal, para muitos, infelizmente, a política é a arte do engodo. Além disso, contam com a amnésia coletiva. O jornalismo de qualidade deve assumir o papel de memória da cidadania. Precisamos falar dos planos e do futuro. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambiguidades.

Transparência nos negócios públicos, ética, qualificação e competência são as principais demandas da sociedade. E são também as pautas de uma boa cobertura eleitoral. Deixemos de lado a pirotecnia do marketing e não nos deixemos aprisionar pelas necessárias pesquisas eleitorais. Nosso papel, único e intransferível, é ir mais fundo. A pergunta inteligente faz a diferença. E é o que o leitor espera.

Inclusão digital - AÉCIO NEVES


FOLHA DE SP - 06/08


A partir da estratégia de municipalização traçada pela Constituição de 1988, o Brasil pôde avançar muito em duas áreas fundamentais: a saúde e a educação. Com ajuda das prefeituras, tivemos a implantação paulatina do Sistema Único de Saúde e a grande jornada pela universalização do ensino fundamental e da pré-escola.

Por que não adotar caminho semelhante para acelerar o combate à exclusão digital?

Um estudo da fundação Getúlio Vargas (FGV), conduzido pelo economista Marcelo Neri, mostra a enorme desigualdade entre os municípios brasileiros quando se trata do uso de computadores, telefones fixos e celulares e banda larga, pela população. É uma realidade agora acentuada com a febre de smartphones e tablets.

Há uma grande pertinência na abordagem desse tema no atual momento brasileiro, com a eleição municipal e o debate de planos de governo entre milhares de candidatos e milhões de eleitores.

São conhecidas boas histórias de sucesso de prefeituras que trabalham para ampliar efetivamente a inclusão digital  em seu território, em parceria com os governos estaduais ou federal.

A pesquisa da FGV traz projeções feitas para 2012, mostrando que a maioria dos brasileiros usa a internet com a finalidade de comunicação (33,3%), lazer (27,5%), educação (26,4%) e informação de jornais ou revistas (23,3%), transações financeiras (5,3%), compras de bens e serviços (6,16%) e interação com autoridades públicas ou órgãos de governo (6,1%).

Essa última categoria alcança um percentual ainda muito pequeno, o que "indica a falta de comunicação e interação entre o setor público e a sociedade civil", um problema crônico no Brasil. A situação é mais grave nas classes de renda e escolaridade mais baixas.

Desde 2000, temos um programa de governo eletrônico para melhorar as relações da administração com os cidadãos, empresas e órgãos do próprio setor público, em busca do aprimoramento da qualidade dos serviços prestados.

A iniciativa ganhou mais relevância agora, articulada com outros avanços, como a obrigatoriedade da prestação de contas governamentais em várias esferas e a crescente transparência exigida pela sociedade, que permitem um controle social mais efetivo, além da indispensável participação dos cidadãos nas políticas públicas.

O país que ultrapassou a casa dos 250 milhões de celulares e "bomba" nas redes sociais deve priorizar o desafio da inclusão digital por meio de uma grande pacto que reúna diferentes instâncias de governos, entidades e iniciativa privada.

Oferecer condições para um maior acesso à informação e ao novo mercado de trabalho pode ser um caminho eficaz para começarmos a resgatar a grande dívida que temos com a nossa juventude.

Defesa aberta - MELCHIADES FILHO

FOLHA DE SP - 06/08


BRASÍLIA - A alegação petista de que tudo não passou de uma farsa, de invenção dos adversários, ficou de fora do julgamento do mensalão. Vale para atiçar a militância, não para os ministros do STF.

Quem conferir as peças de defesa dos réus notará um "cada um por si" no varejo, mas uma linha comum no atacado. Os advogados não contestam diretamente a existência do esquema paralelo de financiamento político. Sua estratégia é admitir ilegalidades, mas tentar restringi-las ao campo eleitoral.

Os objetivos são claros. A prática do caixa dois não está descrita no Código Penal. Leva a punições apenas de ordem eleitoral: cassação de mandato, perda de direitos políticos, corte do fundo partidário. Em suma, não põe ninguém na cadeia. Além disso, devido ao tempo transcorrido até o julgamento, as ilegalidades eleitorais já prescreveram.

Na versão dos acusados, coletar dinheiro à margem da lei para saldar despesas de campanha seria algo aceitável, porque disseminado. Esse "todo mundo faz" tem propósito também. Procura desresponsabilizar o indivíduo (o réu) para culpar "o sistema" (eu, tu, ele, nós...).

Quando o escândalo veio à tona, em 2005, o então presidente do TSE, Carlos Velloso, percebeu o artifício: "Confessam com a maior cara de pau um crime eleitoral porque estão certos da impunidade".

Cabe imaginar, porém, o que acontecerá se o STF considerar consistentes as provas de que houve desvio de dinheiro público, compra de apoio no Congresso, remessas clandestinas para o exterior e golpes contra o sistema financeiro.

De atenuante, a admissão do caixa dois eleitoral passará a agravante. Restará claro que a quadrilha fraudava eleições para capturar o Estado e, drenando-o, sustentar um projeto de poder de longo prazo.

A essa confissão de atentado à democracia o Supremo terá como não reagir com severidade?

Política é o fim - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 06/08


As eleições municipais demoram mais e mais para fisgar o eleitor. A dois meses de irem às urnas, só 27% dos paulistanos têm o nome de um candidato a prefeito de São Paulo na ponta da língua, segundo o Ibope. Os últimos três meses de campanha não somaram nem 10 pontos a esse mínimo grau de interesse. Ficou tudo para os 45 dias da propaganda de TV. Salvem os santos marqueteiros. Fim à mobilização política e partidária.

O repórter Daniel Bramatti publicou uma descoberta assombrosa no Estado de ontem: os candidatos a prefeito de capital com mais de 100 inserções semanais de 30 segundos na TV em 2008 tiveram 69 vezes mais sucesso - se elegeram de cara ou chegaram ao segundo turno - do que um adversário com menos de 50 inserções por semana. Repare: 69 vezes. Vivam os deuses marqueteiros. Morte à mobilização política.

A eleição não se resume a uma simples correlação estatística, mas o palanque eletrônico é uma variável cada vez mais importante. A despolitização se espalha a cada pleito, e nada é capaz de promover tanta desigualdade entre candidatos quanto a propaganda eleitoral compulsória no rádio e na TV. Nem a militância partidária, nem a internet (por ora), muito menos recursos paleozoicos como comícios e corpo a corpo com o eleitor.

É um processo que, além de não ter volta, tende a se agravar. Que fazer? Criar ainda mais regras, juízos e arbítrios? Ressuscitar a Lei Falcão e seus enfadonhos currículos lidos pela voz monocórdia de um narrador oficial? Vade retro Censurabrás.

Os EUA esticaram o tempo de campanha e liberaram quase tudo, até tiro ao candidato. O ciclo eleitoral da gringolândia dura quase dois anos. Desde as prévias, os candidatos debatem dezenas de vezes, por meses. E vão caindo pelo caminho, porque a maioria dos bonecos de ventríloquo não resiste ao excesso de uso. Só perduram os mais resistentes e caros.

O sistema norte-americano - com suas máquinas mecânicas de votar e regras diferentes em cada um dos 50 Estados - está longe da perfeição. Criou a indústria eleitoral mais perdulária do mundo. Um presidenciável precisa de dólares aos bilhões para ter chances. É o preço superfaturado de a eleição e o debate político fazerem parte do noticiário cotidiano, dos programas de variedades, da vida.

Lá como cá, sempre haverá eleitor confundindo Russomanno com Muçulmano. A diferença é que, no Brasil, ele é obrigado a votar.

A despolitização favorece celebridades eleitorais. Quem tem mais presença na memória do eleitor tende a dominar as pesquisas de intenção de voto antes de a propaganda começar na TV. É o caso do apresentador Celso Russomanno (PRB) em São Paulo. Ele está superando todos os limites previstos, porém. Parou de apresentar seu programa em junho, mas segue em alta. Empatou com José Serra (PSDB) na cidade e lidera em redutos petistas.

Russomanno tem sido uma tampa para o candidato do PT, Fernando Haddad, dificultando o seu crescimento e, nas últimas semanas, passou a tirar eleitores de Serra também. O eleitorado (não o eleitor) de Russomanno, hoje, é ambidestro: 42% vive em áreas petistas e 49% em regiões antipetistas da cidade. Não deve permanecer assim por muito tempo. Na melhor das hipóteses para o PRB, ele deve ficar com uma dessas metades e perder a outra. Na pior, perde ambas.

O problema de Russomanno é estatístico. Serra e Haddad terão quatro vezes mais exposição na TV do que ele a partir de 21 de agosto. Em 2008, só 1 de 93 candidatos a prefeito de capitais com menos de 50 inserções semanais passou do primeiro turno: Camilo Capiberibe, filho de governador e deputada, que, mesmo assim, perdeu o turno final em Macapá. Para virar exceção à regra, Russomanno tem que bater os adversários, o retrospecto e a politização da eleição. No fim, é a política.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Julgamento do mensalão – Defesa vai negar a compra de votos
Folha: Cidade grande sofre mais com gargalo nos celulares
Estadão: Gasto dos Estados com funcionários cresce R$ 55 bi
Correio: Mais uma tragédia no Lago Paranoá
Valor: Empresas médias fogem de bancos para aliviar dívida
Estado de Minas: De olho nas joias da coroa
Jornal do Commercio: Náutico bate Santos por 3 X 0 nos Aflitos
Zero Hora: Por que o Brasil é um dos líderes mundiais em mortes por gripe A

domingo, agosto 05, 2012

O mensalão em VEJA .com - CARTA AO LEITOR - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA 

O julgamento dos réus do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que começou na quinta-feira passada, em Brasília, está tendo cobertura especial do site de VEJA, com transmissão ao vivo direto do plenário do tribunal. As falas dos ministros são acompanhadas de comentários dos jornalistas da revista e de especialistas com o uso do Storify, ferramenta de internet que permite contextualizar eventos em tempo real sem interferir na transmissão de imagens e sons. Quatro jornalistas de VEJA e VEJA.com presenciarão todo o julgamento no plenário e na sala de imprensa do Supremo Tribunal. Suas contribuições ajudarão o leitor ligado em VEJA.com a entender a essência das discussões entre os ministros e os advogados, muitas vezes travadas em impenetrável jargão jurídico.

Ao fim das sessões mais significativas do julgamento, o site de VEJA colocará no
ar uma mesa-redonda comandada pelo jornalista Augusto Nunes e com a participação do advogado Roberto Podval, do historiador Marco Antonio Villa e do colunista Reinaldo Azevedo. A eles caberá fazer paralelos históricos, avaliar o impacto político e a qualidade jurídica dos pareceres e pôr em perspectiva as decisões emanadas dos votos dos ministros do STF. As primeiras mesas-redondas foram ao ar na quinta e na sexta-feira passadas. Elas voltam a ser montadas nos próximos dias 8 e 14 de agosto, quando, segundo o cronograma do Supremo, o julgamento terá fases decisivas concluídas. A partir de 20 de agosto, os programas de debate serão toda segunda, quarta e quinta em VEJA.com.

A intensa cobertura de internet complementa as reportagens semanais de VEJA e suas versões digitais para tablet. O esforço para acompanhar o julgamento do mensalão é mais do que justificado. Da lucidez, isenção e sabedoria jurídica dos onze ministros do STF poderá emergir um padrão mais elevado para a prática política no Brasil. Contra suas decisões não cabem recursos. Elas são definitivas. Ficam também para a história como uma jurisprudência que não poderá mais ser desafiada pelos políticos sem a certeza da punição.

No rastro do dinheiro - REVISTA ÉPOCA

REVISTA ÉPOCA

A saga da polícia federal em busca das provas do mensalão – e o momento em que marcos valério foi obrigado a colaborar com a Justiça

Diego Escosteguy e Marcelo Rocha


No começo da manhã de 13 de julho de 2005, uma quarta-feira que mudaria a história política do Brasil, uma equipe da Polícia Federal invadiu o prédio de número 380 na Avenida João Azeredo, em Belo Horizonte. Funcionava ali o arquivo do Banco Rural; começava naquele momento o dia mais difícil da carreira daqueles sete delegados e agentes. Pesava sobre eles a responsabilidade de encontrar e apreender os documentos que comprovariam o recém-descoberto esquema do mensalão. Com papéis, havia mensalão. Sem papéis, havia somente as palavras iracundas de Roberto Jefferson – o deputado do PTB que confessara como o governo do PT comprara os partidos da base aliada no Congresso.

Uma semana antes, enquanto a reputação de deputados e ministros estilhaçava- se a cada ária de Jefferson, delegados da PF haviam encontrado em Brasília a testemunha mais importante – e desconhecida – do caso: José Francisco de Almeida Rego, ex-tesoureiro da notória agência do Banco Rural na Capital Federal. Segundo Jefferson, era nessa agência que deputados e assessores buscavam o dinheiro do mensalão – algo que todos os envolvidos, àquela altura, negavam. Pressionado, Rego contou que a agência funcionava como uma espécie de sucursal financeira em Brasília do publicitário Marcos Valério, onde se distribuía dinheiro vivo à larga por ordens dele. Ordens que chegavam por fax ou e-mail, enviados da sede do Banco Rural em Belo Horizonte,onde se controlavam as contas de Valério.Como tudo era feito na camaradagem, e o dinheiro entregue não deixava vestígios, a prova do mensalão estava no arquivo central do Banco Rural. Lá, acreditava-se, constariam os pedidos de saque com os nomes dos beneficiários. Eram esses papéis que os policiais buscavam naquele dia.

“Só saímos daqui com esses documentos”, disseram os delegados assim que chegaram ao arquivo do Rural e entregaram a ordem judicial de busca e apreensão aos funcionários do banco. Prosseguiu-se entre eles o corre-corre que só o desespero provoca. Enquanto os delegados aguardavam a papelada, outras equipes da PF faziam batidas na agência do Rural em Brasília e na sede do banco, em Belo Horizonte (o arquivo do Rural fica noutro endereço). Os policiais tinham esperança de encontrar provas semelhantes nos dois locais.As más notícias, porém, viajavam rapidamente entre os rádios da PF.Câmbio: nada na agência do Rural em Brasília – apenas dez recibos de pagamento,mas sem nomes.Câmbio: nada na sede do Rural em Belo Horizonte.

Os documentos, ao que tudo indicava, haviam sido destruídos. No arquivo do Rural, as horas transcorriam lentamente. Dez da manhã.Meio-dia.Duas da tarde.

Quatro da tarde – e nada.Os sete policiais acossaram os funcionários e repetiram o ultimato: todo mundo só deixaria o prédio quando os papéis aparecessem. Súbito, apareceram.

Os advogados do Rural permitiram que os policiais fossem à sala onde estavam separadas caixas com os documentos. A equipe da PF constatou, num exame rápido, que se tratava dos papéis procurados. Havia faxes, e-mails, cheques e notas comas ordens de pagamento enviadas por gerentes de Marcos Valério à agência do Rural em Brasília. Eles exibiam os nomes dos deputados e de assessores pilhados no mensalão – entre eles, o petista João Paulo Cunha (ex-presidente da Câmara), José Janene (líder do PP) e Valdemar Costa Neto (presidente do PL). Não havia mais como negar – até aquele dia, Marcos Valério jurava que não repassara dinheiro a Delúbio Soares, e Delúbio Soares jurava que não recebera nada. A prova material confirmava o que Jefferson contara. O mensalão estava provado.

Os policiais informaram o achado a seus superiores em Brasília, lacraram os documentos e partiram rumo ao aeroporto da Pampulha. Entraram no Cessna Citation, prefixo PT-LVF, avião usado pela PF em suas principais operações – e deram ordem para que o piloto decolasse rumo a Brasília. Enquanto o Citation taxiava na pista, tocou o celular de um delegado. Era o juiz federal Jorge Gustavo Costa, da Quarta Vara de Minas Gerais, o mesmo que autorizara a busca no arquivo do Banco Rural. “Não é para decolar”, disse ele.“Voltem, lacrem tudo e devolvam o material.O processo vai subir.”Subir, no jargão jurídico, significava enviar os documentos do caso ao Supremo Tribunal Federal, onde o inquérito passaria a tramitar. Até então, o processo transcorria na Justiça Federal de Minas, onde estão sediadas as empresas de Marcos Valério.A razão da mudança estava implícita: o esquema envolvia parlamentares e ministros,que têm o direito de ser julgados apenas no STF.

Nada mais natural, portanto, que remeter o processo ao Supremo. O que causou estranheza entre os investigadores foi a espantosa velocidade da decisão: as provas haviam sido descobertas havia poucas horas. Nunca antes na história deste país a Justiça fora tão ágil. Os delegados foram informados pelo juiz Costa de que o advogado Marcelo Leonardo, que defendia Valério, lhe dissera havia pouco que seu cliente resolvera colaborar coma Justiça – e entregaria acusados com foro no STF. Ou seja: Valério entregaria o que provavelmente sabia que a PF já obtivera. Em seguida, o juiz Costa checou os documentos apreendidos, percebeu a gravidade do caso e ligou para o então presidente do Supremo, Nelson Jobim. “Traga o processo para cá pessoalmente”, disse Jobim. (Na semana seguinte, o juiz levou os documentos a Brasília.)

Até essa decisão do juiz Costa, os delegados esperavam ter alguns dias para analisar o material apreendido, escrever um relatório comas informações nele descobertas – e, só então, enviá-lo com o exame inicial das provas ao Supremo. Esse é o procedimento normal nesses casos. Mas o mensalão, ao que parece, era diferente. Às 20h40, os delegados já se encontravam na sede do Banco Rural em Belo Horizonte, cercados de advogados, lá deixando os documentos lacrados. A petição de Marcelo Leonardo pedindo que o inquérito fosse remetido ao STF só foi anexada ao processo dois dias depois. Alguém tinha pressa.

Na mesma noite do dia 13 de julho, ante o risco da queda da cúpula da República, Delúbio voou a Belo Horizonte. Foi jantar com Marcos Valério. Iniciava-se aí a montagem da versão da defesa. Os fatos viriam a público e eram inegáveis. Era preciso, portanto, enxergá- los sob outra luz, a luz do caixa dois – e não da compra de apoio político. Na mesma noite, o advogado Marcelo Leonardo pediu uma audiência de seu cliente como então procurador-geral da República,Antonio Fernando de Souza. No dia seguinte, Valério e seu advogado foram a Brasília. Às 15 horas, já estavam com Antonio Fernando. Entregaram a lista de beneficiários do valerioduto – e afirmaram que tudo não passava de caixa dois.Um dia depois, Delúbio foi à Procuradoria-Geral confirmar a versão de Valério. A República sobrevivera.

Mala de rodinhas

Se, hoje, a versão do caixa dois se transformou quase num cacoete dos réus, de tanto ser repetida nos últimos anos, naquele momento era uma novidade. Na noite seguinte à busca da PF no arquivo do Rural, quando o país soube que Marcos Valério entregara a lista com os nomes dos beneficiários do mensalão, pensava-se apenas na espantosa confirmação de que houvera pagamentos sujos a deputados. Parecia uma confissão. Era uma manobra – a manobra jurídica dos “recursos não contabilizados”.A versão é conhecida: Valério afirmou ter recebido uma proposta de Delúbio para tomar empréstimos, por meio de suas empresas, e repassar os recursos obtidos ao PT. De acordo com Valério, a proposta surgiu a partir de seu relacionamento com Delúbio e da “perspectiva de que, mantendo um bom relacionamento com o Partido do Governo, obtivesse serviços para suas empresas, inclusive em futuras campanhas eleitorais”.Delúbio, segundo Valério, dissera que os valores emprestados ao PT seriam restituídos com juros. Além disso, de acordo com a versão de Valério, Delúbio garantira que José Dirceu honraria o pagamento da dívida com as empresas de Valério diante de qualquer dificuldade.O dinheiro serviria para pagar dívidas de campanha da base aliada, que não teriam sido declaradas.

Por essa engenhosa versão, os R$ 55 milhões distribuídos por Marcos Valério a líderes do PT, do PP, do PR, do PMDB e do PTB tinham uma origem legal (empréstimos bancários no Rural e no banco BMG) e destino certo (pagar fornecedores de campanha). No decorrer do processo do mensalão, as investigações derrubaram as duas teses. A origem de boa parte do dinheiro era ilegal, desviada em grande parte dos cofres públicos, por meio de contratos das agências de Marcos Valério com o governo (isso está demonstrado em perícias da PF e do MP). Os empréstimos eram apenas um capital inicial para, nas palavras do procurador-geral Antonio Fernando, a “quadrilha” começar suas “atividades criminosas”. Laudos do Banco Central revelaram que os empréstimos foram concedidos sem lastro financeiro, não eram pagos – e nem eram cobrados pelos bancos. E o destino do dinheiro? Todos os réus embarcaram na versão do caixa dois. Disseram que quitaram despesas de campanha. Crime eleitoral tem penas menores e prescreve antes de corrupção. Quase nenhum beneficiário apresentou notas ou declinou nomes de fornecedores. O dinheiro sumira.

De caixa dois, portanto, faltaram provas. Mas sobraram evidências de corrupção, de favores indevidos – de que, em suma, as sucessivas provas de malfeitorias constituíam, no conjunto, o esquema de compra de apoio político mantido pelo governo do PT no Congresso. Em junho, pouco antes das descobertas da PF, deputados e assessores do PP confirmaram a ÉPOCA que parlamentares do partido recebiam mesada de José Janene, líder do partido, conforme denunciado por Jefferson. Quem entregava a propina era o assessor João Cláudio Genu. Meses depois, os extratos bancários de Valério e a lista entregue por ele ao MP confirmaram Genu como sacador e o PP como beneficiário do esquema. Janene se referiu ao esquema, em depoimento à PF, como um “acordo de cooperação financeira” entre PT e PP.

Naqueles meses iniciais do caso, o mecanismo de investigação era simples. Funcionava assim: a PF e a CPI dos Correios, que também investigava o caso no Congresso, recebiam provas e mais provas, como sigilos bancários, fiscais e telefônicos. As provas envolviam os nomes dos beneficiários do mensalão. Os acusados, que sempre negavam udo, admitiam o que era impossível desmentir – mas davam nova interpretação às evidências. Era o que Valério fizera quando resolveu entregar o caixa dois. O que era impossível desmentir, no entanto, já era grave demais, por mais benevolente que fosse a interpretação. Em 15 de agosto, também em reportagem publicada por ÉPOCA, o presidente do PR, Valdemar Costa Neto, admitiu que fizera um “acordo financeiro” com o PT. No caso dele, ainda mais grave. Valdemar contou, e confirmou depois à PF, que o acordo fora fechado numa reunião na qual se encontravam o então candidato à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, o líder petista José Dirceu e Delúbio Soares. Valdemar contou que vendera o apoio do PR (então PL) ao PT por R$ 10 milhões. Por que Valdemar disse isso? Porque havia provas bancárias de que ele recebera os R$ 10 milhões de Marcos Valério. Melhor chamar de “acordo” o que era uma negociação financeira paga com dinheiro sujo.

Escândalos de desvio de dinheiro são, infelizmente, comuns na política brasileira.Compra de apoio de deputados no varejo também aparece frequentemente no noticiário. O mensalão, no entanto, foi a primeira vez em que líderes de legendas admitiram vender apoio em troca de dinheiro vivo – entregue em malas de rodinhas, como afirmou Valdemar a ÉPOCA. No decorrer das investigações, PP e PTB admitiriam a mesma prática (leia no quadro abaixo as provas testemunhais). Era o caso, pela primeira vez comprovado na história brasileira, em que altos integrantes de um Poder – o Executivo – oferecem dinheiro em troca de apoio a altos integrantes de outro Poder – o Legislativo. Por si só,uma tentado contra a independência dos Poderes e as instituições democráticas.Quando o procurador-geral da República,Roberto Gurgel, definiu em sua acusação na última sexta-feira o mensalão como“o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio de dinheiro público flagrado no Brasil”, ele não cometeu um exagero retórico. Foi apenas preciso.

Falta de sintonia

As investigações eram intensas – mas dispersas, erráticas. Havia as CPIs no Congresso, que irradiavam depoimentos bombásticos. O marqueteiro Duda Mendonça, que trabalhou na campanha de Lula, confessou ter recebido o pagamento pelos serviços em contas secretas em paraísos fiscais – tudo quitado por Marcos Valério.As CPIs recebiam muitas provas, mas não tinham técnicos suficientes para analisar os documentos. Havia também as investigações da PF e do Ministério Público.Ambas deveriam ser feitas em colaboração.Não foi o que aconteceu. Antonio Fernando, o chefe do MP, reunira uma equipe de confiança, composta de outros três procuradores. Mas não confiava na equipe do delegado Luís Flávio Zampronha, que comandava as investigações da PF. As desconfianças eram mútuas, e em pouco tempo as relações se deterioraram a tal ponto que não havia mais diálogo.

A falta de sintonia produziu trapalhadas, boa parte delas mantida em sigilo até hoje. Os procuradores determinaram, sem compartilhar detalhes com os delegados, que a PF interceptasse o telefone de um“suspeito”que aparecera na lista de entrada dos prédios onde funcionavam o Banco Rural em Brasília e a sede dos Correios, foco de corrupção no governo. A PF mobilizou pessoal e recursos para manter a vigilância. Logo descobriu a identidade do suspeito: um mero funcionário de uma empresa de segurança – informação que poderia ter sido checada com facilidade pelos policiais.“ Perdemos tempo em muitas bobagens desse tipo”, diz um dos policiais que participaram da investigação.

Percalços como esse, é claro, não impediram os avanços. Dois acusados resolveram colaborar com o Ministério Público: o doleiro Lúcio Funaro e o ex secretário- geral do PT Silvio Pereira, o Silvinho, amigo de Dirceu. Funaro intermediara pagamentos do valerioduto a Valdemar. Em três depoimentos sigilosos ao MP, Funaro entregou os comprovantes dos pagamentos a Valdemar – e, por tabela, contou como, pouco antes do escândalo vir a público, Valdemar e Delúbio estavam prestes a ajudá-lo a fazer negociatas com fundos de pensão de estatais. Silvinho confirmou reuniões do deputado João Paulo Cunha, presidente da Câmara na época do mensalão, com Valério, a quem a Câmara contratara como publicitário e de quem João Paulo recebera dinheiro.

À medida que os depoimentos eram tomados pela PF e pelo MP (foram mais de 600), surgiam mais vínculos de Dirceu com o restante da quadrilha. Jefferson o acusara de chefiar o mensalão. Líderes partidários como Valdemar e Janene confirmaram que Dirceu participava do que chamavam de “acordos”. Em depoimentos, Valério e sua mulher, Renilda, disseram que Dirceu sabia dos acertos. As informações eram verossímeis. Dirceu era o líder do Campo Majoritário, corrente mais forte do PT, da qual também participavam Lula, José Genoino, Silvinhoe Delúbio – enfim, a cúpula do governo se misturava à cúpula do PT. Como explicou Jefferson e todos sabiam em Brasília, nenhum“acordo” era fechado sem o aval de Dirceu.

O acordo do mensalão – definido como compra de apoio político, como diz o Ministério Público – é um fato. Assim como a execução financeira desse acordo. Mas não foi o único. Nos depoimentos, constam outros acordos não republicanos de Dirceu com aliados, acordos negociados ou fechados no decorrer do mensalão. O mais grave envolve uma negociação entre Portugal Telecom e o Banco Espírito Santo para comprar a antiga Telemig.Valério era o intermediário dessa operação. Jefferson contou à Justiça que Dirceu prometeu que, se o negócio fosse fechado, Valério repassaria e 8 milhões ao PTB, como pagamento pelo apoio do partido de Jefferson ao governo.

Lendo os depoimentos do caso, surgem evidências de que se tentou fazer negócio. Em 11 de janeiro, Dirceu recebeu na Casa Civil Valério e Ricardo Espírito Santo, acionista do Banco Espírito Santo.Duas semanas depois,Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, sob orientação de Jefferson, viajou para Portugal ao lado de Valério e deRogério Tolentino, um dos sócios de Valério. Os três estiveram como presidente da Portugal Telecom. Tudo isso está admitido nos autos.Não se sabe por que o negócio não prosperou. Dirceu já prestou serviços de consultor à Portugal Telecom.

Há um elemento ainda mais constrangedor para Dirceu no processo. Envolve Maria Ângela Saragoça, ex-mulher dele. Ela recebeu favores dos bancos Rural e BMG,em episódios contado sem diferentes versões por todos os envolvidos. Em novembro de 2003,no auge do mensalão, Maria Ângela vendeu por R$ 115 mil um apartamento para Tolentino, o sócio de Valério.A operação foi intermediada por Ivan Guimarães, tesoureiro do PT ao lado de Delúbio e diretor do Banco do Brasil – e, dependendo de quem conta a história, também por Silvio Pereira. Tudo coincidência, segundo todos.Depois de vender o apartamento, Valério, segundo Maria Ângela admitiu, ajudou-a a conseguir um empréstimo de R$ 42 mil no Banco Rural. Como dinheiro, ela comprou um apartamento maior. Dois meses depois, Valério conseguiu um emprego para Maria Ângela no BMG. Como Maria Ângela é funcionária pública, ela disse à Justiça que trabalhava no BMG “três horas por dia”, após o expediente.

Na sexta-feira, quando foi ao plenário do Supremo Tribunal Federal apresentar sua peça de acusação, o procurador- geral Gurgel iniciou sua fala dizendo que haveria provas suficientes para condenar Dirceu.Antes de listá-las, invocou uma teoria jurídica conhecida como “domínio do fato”. Sistematizada pelo jurista alemão Hans Welzel, tal teoria visa complementar outra teoria, conhecida como “restritiva”. Simplificando bastante, a “teoria restritiva”considera como autor do crime só quem realiza diretamente a ação criminosa. Para Welzel, também é autor do crime quem tem o “domínio do fato”, aquele que está no controle da ação criminosa. Em casos ligados a formação de quadrilha ou vínculos mafiosos, segundo Welzel, é extremamente difícil encontrar provas materiais definitivas de envolvimento dos líderes, pois em geral eles costumam não deixar rastros – eles não “sujam as mãos”. Mas seu envolvimento pode ser comprovado por meio das testemunhas que contribuem com o inquérito.

Segundo Gurgel, os depoimentos coletados pelo Ministério Público provam que José Dirceu tinha o “domínio do fato”.Vários dos testemunhos mostram que ele esteve presente a algumas das negociações em que se ofereceu dinheiro em troca de apoio – e, quando não esteve presente, homologou os acordos por telefone.A peça acusatória de Gurgel apresentou abundância de provas contra os réus do mensalão. Faz parte da estratégia da defesa desqualificar essas provas, invocando a “teoria restritiva”. Cabe aos juízes do Supremo Tribunal Federal decidir entre as alegações dos advogados que assessoramos réus do mensalão – entre eles, grandes nomes do Direito brasileiro como Arnaldo Malheiros Filho ou Márcio Thomaz Bastos (leia sua entrevista na página 80) – e a acusação consistente elaborada pela Procuradoria-Geral da República com base no trabalho até hoje pouco conhecido da Polícia Federal. 

O mensalão e a “pressão da mídia” - EUGÊNIO BUCCI

REVISTA ÉPOCA 


Com o início do julgamento do processo do mensalão, no Supremo Tribunal Federal (STF), muita gente voltou a falar em“pressão da mídia”.Muita gente mesmo. políticos, magistrados, jornalistas, advogados e cidadãos a granel apontam o dedo contra a tal “pressão da mídia”, quase sempre em tom de reprovação.A“mídia”, afirmam eles, estaria prejulgando os acusados e afrontandoosministros do stf comuma cobrança indevida e monstruosa. Já houve até quem comparasse essa “pressão” com uma “faca no pescoço”, como se os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão assumissemaforma de uma guilhotina colossal ameaçando nucas desprotegidas.

Por favor, se pode haver exageros e ataques pessoais inaceitáveis em algumas reportagens, há muitomais despropósito nesse discurso sobre a “pressão da mídia”. pense bem, você, leitor: o que eles querem dizer com isso? Estará em curso uma campanha dos meios de comunicação para condenar à execração pública todos os réus, sejam eles culpados ou inocentes?

Para responder a essas perguntas, comecemos comumesclarecimento de ordem semântica: “mídia” não é sinônimo de imprensa.oembaralhamento entre as noções de“mídia” e imprensa é traiçoeiro, perigoso. Estabelece umsinal de igual entre jornalismo, programas de auditório, novelas e publicidade, além de sugerir que tudo o que o jornalismo faz é propaganda ideológica. Nada mais falso.

“Mídia” é uma palavra esquisita. veio para nosso idioma pela transcrição da pronúncia inglesa do termo latino media, que é o plural de medium (meio). Media significa meios ou, em nosso caso, meios de comunicação: rádio, televisão, internet, veículos impressos e muito mais. dentro de cada um desses meios, os gêneros de programas são incontáveis. Há os humorísticos, as novelas, as missas, os cultos animados por telepregadores, aos borbotões bíblicos, além de transmissão de jogos de futebol. Há de tudoemais um pouco. Nada disso, porém, é jornalismo. Aliás, quando o jornalismo se deixa confundir com o entretenimento ou comapublicidade, ele se barateia, perde substância e deixa de informar com precisão.

Ora, quem se ocupa da cobertura do julgamento domensalão não é a“mídia”, mas os jornalistas, que trabalham para os mais diversos veículos, com as mais diversas orientações editoriais. quem vê nessa cobertura uma campanha da “mídia” acusa as empresas de “mídia” de articular uma conspiração “midiática”, dentro da qual os repórteres não passariam de serviçais dos interesses dos patrões, que são contra o governo. logo, imprensa é igual a propaganda e, em vez de informar, promove uma lavagem cerebral na nação, ela também inocente e desprotegida, como uma criança, como o pescoço em flor dos ministros do supremo.

Agora pense bem, você, leitor. você é criança? você não tem discernimento próprio? você é um cordeirinho nas mãos da máquina da“mídia”?Emais: será que você não tem direito de conhecer a fundo o processo do mensalão, que, por todos os motivos, já é um processo judicial histórico? Eu e você sabemos quemuitas vezes jornalistas se prestam a papéis indignos, mas não podemos qualificar de indigna a cobertura geral domensalão. Ao contrário: apesar de seus excessos, essa cobertura contribui para que conheçamos melhor os fatos e os argumentos de cada um. todos sabemos também que à imprensa não cabe julgar. o que ela deve fazer é contar o que se passa. se ela não cumprir esse dever, de forma crítica, independente e plural, a sociedade não terá como acompanhar a evolução do processo e não terá como fiscalizar e avaliar a decisão de cada um dos magistrados.

Não, não há “pressão da mídia”. Existe, sim, a exaltação de ânimos diferentes na opinião pública, e essa exaltação se reflete na imprensa. Existe a mobilização de setores da sociedade civil, para um lado e para outro, é bom lembrar, ora a favor dos réus, ora contra eles, em manifestações legítimas. quanto à imprensa, ela vem informando e debatendo, sob enfoques diferentes, dependendo de cada órgão jornalístico, numa diversidade que está aumentando no Brasil.

Quanto mais informação houver, mais chance teremos de que esse julgamento seja justo. A imprensa erra, é verdade, mas os erros que ela comete vão sendo contestados por outras vozes, numambiente plural, como deve ser,em que a opinião pública polemiza livremente. A liberdade de imprensa vai equilibrando a liberdade de imprensa. Naturalmente.

Os jornalistas, bem ou mal, estão cumprindo seu dever. que os ministros do supremo façamomesmo – e isso aqui não é pressão contra ninguém.os jornalistas estão cumprindo seu dever ao informar os fatos. Que os ministros do stf façamomesmo