sábado, julho 14, 2012
O ajuste do diesel - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 14/07
O segundo reajuste dos preços do óleo diesel em apenas 21 dias pela Petrobrás indica que o governo Dilma entendeu que o crescimento econômico não pode depender tanto do consumo, como vinha acontecendo, e que tem de ser deslocado para o investimento. Em outras palavras, o estrangulamento da atividade econômica do Brasil não está no lado da demanda, que segue crescendo entre 5% e 6% ao ano, mas da oferta, que está estancada.
São inúmeras as manifestações de que a Petrobrás não está dando conta do seu enorme programa de produção e de investimentos, de nada menos que US$ 236,5 bilhões em quatro anos.
E uma das causas desse atraso vinha sendo a decisão da administração do PT de fazer política de preços à custa do caixa da Petrobrás. Os preços ao consumidor, tanto de diesel quanto de gasolina, não vinham sendo ajustados aos preços de mercado desde 2008. As principais consequências disso foram: (1) o estímulo descabido ao consumo, que obrigou a Petrobrás a importar tanto diesel como gasolina, para revendê-los no mercado interno a preços mais baixos do que os pagos ao fornecedor externo; e (2) a redução da capacidade de investimento da Petrobrás. É uma situação que, agora sob a administração da presidente Graça Foster (foto), começa a ser revertida.
O reajuste anunciado na quinta-feira parece inaugurar uma política mais realista de preços. Falta explicar por que não veio antes. Não é verdade, conforme está na nota oficial, que a política de preços colocada em prática até agora fosse a do alinhamento aos níveis internacionais - embora "em uma perspectiva de médio e de longo prazos". Seja qual for o critério pelo qual se analise, não se pode considerar esse achatamento de cinco anos alinhamento nem a médio nem a longo prazos.
Esse reajuste do óleo diesel ao consumidor sugere que, pelo menos logo após as eleições, o governo Dilma autorize também a correção dos preços da gasolina. O governo zerou a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico(Cide) e, assim, tirou a capacidade de redução do impacto dos novos reajustes aos preços no varejo. De todo modo, esse passo ainda está longe de restabelecer a paridade às cotações internacionais. Os preços internos se mantêm fortemente defasados - em 20% no diesel e em 16% na gasolina, conforme cálculos do Credit Suisse.
A nova política terá algum impacto sobre os preços ao varejo. Nas próximas semanas, será inevitável que a alta do óleo diesel comece a ser repassada para os fretes e daí para os preços dos alimentos, para os transportes urbanos e para a condução escolar. Provavelmente, já na próxima Ata do Copom, a ser editada dia 19, o Banco Central já não estará mais registrando que entre seus pressupostos na formação da inflação está que os preços dos combustíveis não serão reajustados.
O redesenho da política de preços da Petrobrás tem importante implicação prática. Se a regra é realinhar cotações internas e externas, será inevitável também que a Petrobrás tenha de reajustá-las para baixo, caso se confirme um mergulho dos preços do petróleo no mercado internacional, como alguns analistas vêm preconizando diante do agravamento da crise internacional.
Caso isso se confirme, os recursos para cobrir seu enorme programa de investimentos não poderão vir dos preços ao consumidor. Terão de provir do enxugamento da empresa e de uma mais eficiente administração de custos.
Metamorfoses da infâmia - ROBERTO ROMANO
O Estado de S.Paulo - 14/07
Tempos atrás, na política internacional surgiu o apelido virulento de rogue State para indicar os países que apoiam ou alimentam o terrorismo, o narcotráfico, a corrupção sistêmica. A fórmula foi ampliada por Jacques Derrida, que a traduziu como État voyou". O termo francês voyou significa "pessoa de péssimo costume, bandido", ou "crápula". Derrida, para explicar o conceito, usa o seu oposto, a noção de respeito aplicada ao trato pessoal ou coletivo, nacional ou cosmopolita. Com semelhante divisão, ele estuda as noções e práticas de soberania legítima que prenunciam o advento de uma democracia universal.
Estados ditatoriais baseiam-se, em grande maioria, no reinado da crápula. Não apenas os líderes agem contra a lei naquelas quadrilhas erigidas em governos (cito Santo Agostinho, prudente conhecedor do gênero humano). As massas, em tais regimes, são convocadas para destruir os últimos signos de direito individual ou público. A legislação totalitária brota das sarjetas e a elas retorna, inunda tudo e todos com lama, sangue, lágrimas dos vencidos. Assim foi o período ditatorial que dominou o século 20, na esquerda ou na direita. O mesmo ocorreu nas formas civis e militares do autoritarismo que desgraçou países inteiros por longos anos, inclusive na América do Sul.
Marca da ideologia totalitária, o antissemitismo surgiu na Alemanha nazista, na Itália fascista, na URSS de Stalin e em países que o seguiam. Sobre o banditismo nazista acaba de ser publicado no Brasil o ensaio de Saul Friedländer A Alemanha nazista e os Judeus - os Anos da Perseguição, 1933-1939 (Ed. Perspectiva). Ali é mostrado o equívoco dos bem-intencionados e a má-fé dos que aderiram aos métodos hitleristas. Quanto ao antissemitismo de esquerda, a literatura é enorme, sobretudo após o fim da URSS, com a abertura de arquivos antes lacrados. Dentre os escritos que trazem documentos e análises rigorosas, menciono o de Arkadi Vaksberg, Stalin e os Judeus, o Antissemitismo Russo: uma Continuidade do Czarismo ao Comunismo (Paris, Laffont, 2003). Já a repulsa dos comunistas à palavra cosmopolitismo vem de duas origens: a redução dos alvos internacionalistas dos soviéticos ao "socialismo em um só país" e a calúnia segundo a qual os judeus não se prendem a nenhuma pátria porque desejam (segundo os forjados, para a polícia secreta de Nicolau II, Protocolos dos Sábios de Sião) dominar o mundo inteiro pelas finanças, pelas armas e pelo comércio. O antissemitismo soviético é metamorfose do seu congênere czarista.
Stalin apoiou a criação do Estado de Israel, chegou a autorizar que milhares de militares judeus soviéticos ajudassem nas lutas contra os países árabes, em maio de 1948. A URSS queria controlar e dispor do Oriente Médio contra ingleses e norte-americanos (cf. Rucker, Laurent, Stalin, Israel e os Judeus, PUF, 2001). Ao perceber que Israel não serviria aos seus alvos, o Kremlin abandonou o apoio. No mesmo tempo foi cunhada a palavra de ordem sobre o "antissionismo". Em 1949 começou na URSS a campanha contra os judeus, na qual se notabilizaram os insultos dirigidos aos cidadãos israelenses ("nacionalistas sionistas"). Unidos aos seus parentes que ainda moravam na Rússia (os "cosmopolitas apátridas"), os judeus planejariam a queda do socialismo no mundo. Naquele instante foi dissolvido na URSS, por ordem de Stalin, o Comitê Judeu Antifascista. A campanha antijudaica espraiou-se na base da sociedade russa e no Kremlin. Vem daí o chamado "complô das blusas brancas". Os próprios médicos de Stalin, de origem judaica, planejariam sua morte. Em 1952 diz o próprio Stalin: "Todo sionista é agente do serviço de inteligência americano. Os nacionalistas judeus pensam que sua nação foi salva pelos Estados Unidos, onde eles podem tornar-se ricos, burgueses. Eles pensam ter uma dívida para com os americanos. Entre meus médicos muitos são sionistas". Sionismo, em sentido pejorativo e ideológico, tem sua origem nos porões do Agitprop e nos embates da polícia política de um regime bandido. Mas assistimos hoje a outra metamorfose da propaganda antissemita, sob a máscara do antissionismo.
Não é novo o discurso pronunciado na ONU pelo vice-presidente do Irã, Reza Rahimi, no qual se adianta com irresponsabilidade fanática: "A proliferação das drogas no mundo emana do Talmude". O mesmo Talmude, assim fala a calúnia delirante, "ensina que é lícito enriquecer por meios legais ou ilegais, o que dá direito aos judeus de destruir a humanidade". A fala do líder iraniano foi nutrida pelas ideologias assassinas, o império da sarjeta na Europa.
Recordemos que também o Brasil ditatorial se alimentou de antissemitismo (basta recordar os livros de Maria Luiza Tucci Carneiro sobre a era Vargas). Lembremos que setores católicos foram antissemitas: "Já se havia dito que o êxodo dos judeus em massa, da Alemanha, obedecia a um plano político organizado contra o Partido de Hitler. (...) Malogrados, porém, esses propósitos, graças ao patriotismo do povo alemão, os judeus vão desistindo da sua conjura, e retornam às antigas atividades que exerciam, submissos às leis do país" (A Ordem, 47, 1934, cf. Cândido Moreira Rodrigues, A Ordem - uma revista de intelectuais católicos, 2005). A Igreja hoje se afasta do antissemitismo na maior parte de seus fiéis ou hierarcas.
O mesmo não ocorreu em agremiações de esquerda, que ainda seguem palavras de ordem stalinistas em terras brasileiras. Não surpreende que ideólogos comunistas apoiem o extermínio dos judeus e do Estado de Israel. Espanta que políticos e líderes, judeus e brasileiros, supostos democratas, convivam fraternalmente numa "base aliada" de governo que tolera discursos e práticas nefandos, como a do vice-presidente do Irã. De fato, não podemos aquilatar até onde vai a metamorfose da infâmia.
Ranking da verba - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 14/07
Levantamento feito pela liderança do PSDB na Câmara sobre as emendas individuais (destinadas a projetos específicos pelos parlamentares) ao Orçamento mostra que o PMDB empenhou R$ 105,4 milhões até esta semana, mais que o PT, que teve R$ 89,8 milhões empenhados, e quase quatro vezes mais que o PSB, com R$ 29,39 milhões. O partido do governador Eduardo Campos conseguiu menos recursos que o PSD de Gilberto Kassab, que teve prometidos R$ 45,7 milhões.
Meio cheio... O PHS, com apenas um deputado, obteve empenhos de R$ 4,2 milhões. O PV, que se declara independente, conseguiu assegurar R$ 9,762 milhões, mais que PSDB e DEM.
...meio vazio Já o PPS, com oito representantes no Congresso, e o PSOL, com cinco, não conseguiram um centavo do governo.
Eu não Do líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), sobre o fracasso no acordo com a oposição que levou à obstrução de matérias de interesse do governo: "Me responsabilizar por não ter havido o acordo é injusto, tanto que a própria ministra Ideli Salvatti foi à Câmara e não resolveu".
Rumo a 2013 No Planalto, a aproximação de Chinaglia com a oposição é vista como uma tentativa de se dissociar do PT, que firmou acordo com PMDB, para se lançar candidato à presidência da Câmara no ano que vem.
Força-tarefa O ministro da Fazenda, Guido Mantega, telefonou ontem para empresários e federações pedindo mobilização para pressionar os deputados pela votação das medidas provisórias do Brasil Maior, que correm risco de vencer caso o Congresso não entre em recesso.
Pause O relator da CPI, Odair Cunha (PT-MG), já avisou que a videoteca completa apreendida na casa do acusado de contravenção Carlinhos Cachoeira, com filmagens de vários personagens da política, só chegará aos parlamentares em agosto.
Limonada Com aval do Planalto, a CPI tentará criar, após o recesso parlamentar, uma subcomissão para mudar a lei de licitações, flexibilizando as regras de contratação de obras públicas.
O passado... Fiador da candidatura de Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, Aécio Neves se queixou a parlamentares nesta semana sobre a intervenção de Gilberto Kassab no PSD local em favor de Patrus Ananias (PT).
... te condena O senador lembrou a interlocutores que ajudou Kassab a fazer filiações quando o prefeito paulistano buscava dar musculatura à nova sigla em Minas.
Ser ou não ser? Dilema inquieta marqueteiros de BH: o PT enfrentará restrições para atacar a administração de agora rival Lacerda. E o prefeito tende a poupar os petistas, que mantinham 900 cargos no governo, além do vice.
Pedal Enquanto Gabriel Chalita (PMDB) e Fernando Haddad (PT) fazem passeios ciclísticos entre hoje e amanhã, José Serra decidiu criar seção de "bicicletas e mobilidade humana" em seu plano de governo. Hoje, o tucano planeja pedalar em Itaquera.
Dublê A campanha de Serra prepara agenda paralela de eventos a ser cumprida pelo vice, Alexandre Schneider. Ele irá a reuniões e atos públicos sempre que o candidato não puder comparecer.
Ampulheta O governo paulista teme que a guerra judicial envolvendo o contorno viário do Itaquerão atrase o cronograma da obra. A licitação, vencida pelo consórcio Vizol, foi barrada por liminar. Se a obstrução permanecer por mais de 45 dias, há risco aos prazos de entrega.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Está explicado por que o Haddad confunde Itaim Paulista com Itaim Bibi: está usando mapa astral para se orientar em São Paulo."
DO DEPUTADO ESTADUAL ORLANDO MORANDO (PSDB), sobre o candidato do PT ter exibido no site vídeo em que astróloga prevê sua vitória para prefeito.
contraponto
Teste do bafômetro
Ao som de "Ai, se eu te pego", o ministro Garibaldi Alves (Previdência) discutia com o deputado Paulinho da Força (PDT-SP) a proposta de mudanças no fator previdenciário, no Arraiá do Trabalhador, em Brasília. Em campanha para acabar com o mecanismo que regula as aposentadorias no setor privado, Paulinho disse:
-Vou dar umas cachaças para o ministro, pra ver se amoleço seu coração pelo fim do fator.
De chapéu de palha e com um copo de cachaça em mãos, Garibaldi suspirou:
-Vou ter que beber com moderação, se não já viu...
Dilma e O Pequeno Príncipe - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 14/07
Faria sucesso num concurso de miss o discurso da presidente Dilma Rousseff na 9.ª Conferência dos Direitos da Criança e do Adolescente, em Brasília. Sua declaração mais notável, destacada pelos jornais e reapresentada exaustivamente nas tevês e rádios, foi digna de uma devota leitora d'O Pequeno Príncipe: "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e para seus adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto (PIB). É a capacidade do país, do governo e da sociedade, de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e seus adolescentes". Na interpretação mais benevolente, essa peroração é apenas uma banalidade. Na menos caridosa, é uma grande tolice apresentada na embalagem rosa da mais pobre filosofice.
Não há como discutir seriamente o bem-estar e o futuro das novas gerações sem levar em conta os meios necessários para educá-las, capacitá-las para viver com independência e dignidade e proporcionar-lhes oportunidades de ocupação produtiva e decente. Mas, também no sentido inverso, a relação é verdadeira: só se pode criar uma economia dinâmica, moderna e capaz de competir globalmente por meio da formação de pessoas qualificadas para tarefas cada vez mais complexas. Examinado de qualquer dos dois ângulos, o desempenho do governo brasileiro tem sido miseravelmente falho e nenhuma retórica pode obscurecer esse dado.
Ao contrário, no entanto, das graciosas candidatas a um título de miss, a presidente Dilma Rousseff recitou sua mensagem num tom furioso, como se reagisse a uma ofensa ou, talvez, a um imerecido golpe da Fortuna. Há uma explicação óbvia tanto para sua visível irritação quanto para a desqualificação do econômico. Horas antes o Banco Central (BC) havia divulgado seu indicador de nível de atividade, considerado uma prévia mensal do PIB. Esse indicador havia recuado 0,02% de abril para maio, confirmando vários outros sinais de estagnação da economia e reforçando as previsões de um crescimento, em 2012, menor que o de 2011.
Há um vínculo evidente entre os resultados pífios da política educacional e o emperramento da produção. No último exame do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil ficou em 53.º lugar em leitura e em 57.º em matemática, numa lista de 65 países. O teste é realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Quase todas as crianças estão na escola, graças a um esforço de universalização do ensino iniciado há longo tempo, mas a formação continua péssima. Cerca de 20% dos brasileiros com idade igual ou superior a 15 anos são analfabetos funcionais, incapazes de ler e entender instruções simples. Empresas têm dificuldade para contratar, por falta de mão de obra em condições até de ser treinada no trabalho. Há um evidente funil no ensino médio, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu facilitar o ingresso nas faculdades, numa escolha errada e demagógica.
O erro na escolha das prioridades tem permeado toda a política econômica. O consumo, apesar da queda observada recentemente, continua, segundo o IBGE, maior que o observado há um ano, mas a indústria brasileira tem tido dificuldade para suprir o mercado interno, por falta de competitividade. Fabricantes estrangeiros têm ocupado uma fatia crescente desse mercado, como já mostrou a Confederação Nacional da Indústria.
Incapaz de reconhecer os erros e de impor novos rumos à política econômica, a presidente Dilma Rousseff, como seu antecessor, prefere insistir na retórica e nas bravatas. "Vamos enfrentar os desafios para garantir à população emprego de qualidade", disse a presidente no batismo de uma plataforma da Petrobrás, na sexta-feira. A plataforma foi construída, recordou, pela "teimosia de um brasileiro chamado Lula".
Seria mais justo e mais realista lembrar a enorme e custosa lista de erros cometidos na Petrobrás a partir de 2003 e apontados pela nova presidente da empresa, Graça Foster, no dia de sua posse. Foram erros de uma gestão guiada por objetivos político-eleitorais e centralizada no Palácio do Planalto - erros essencialmente idênticos àqueles cometidos na política educacional.
Primeiros solavancos - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 14/07
Hoje é feriado nacional na França, o aniversário da jornada de 14 de julho de 1789, na qual a população parisiense tomou a prisão da Bastilha, o símbolo do absolutismo, e deu início ao "baile magnífico e sangrento" da Revolução Francesa, que só se encerraria dez anos mais tarde, graças a Napoleão Bonaparte.
Neste dia, tradicionalmente os presidentes concediam uma grande entrevista à TV. Nicolas Sarkozy, o presidente anterior, suprimiu o costume e com razão: ele, que falava o tempo todo, sobre tudo, finalmente nos deixou um pouco em paz nesta data. Seu sucessor, François Hollande, que não é dado a discursos, restabeleceu a tradição.
Hoje, por volta do meio-dia, ele falará à televisão.
Esta será uma entrevista importante. Hollande ainda não é muito conhecido. Está na presidência há apenas algumas semanas, mas negras tempestades já se aproximam. Aliás, a França já enfrenta uma grande tempestade.
Ontem, ouvimos o estrondo do primeiro trovão, a notícia repentina de que a montadora Peugeot fechará as portas de algumas de suas fábricas e cortará 8 mil postos de trabalho (com os empregos dos setores a elas relacionados, o total chegará a cerca de 20 mil). Mais "planos sociais" drásticos, foram anunciados em toda a indústria francesa.
É certo que o novo poder socialista nada tem a ver com essas demissões catastróficas. Trata-se de uma herança do período anterior. Nem sequer podemos dizer que a culpa é de Sarkozy. Infelizmente, a doença é mais antiga, mais grave: a França (assim como uma parte da Europa, com exceção da Alemanha), outrora uma grande nação industrial, não suporta mais a concorrência feroz do restante do mundo.
E, diante do desastre, os socialistas são obrigados a admitir sua impotência. Embora falassem incessantemente de sua "política voluntarista", de sua recusa a ceder às frias leis do mercado, agora nada podem. Estão de mãos atadas, impotentes. Não dispõem do menor instrumento, da menor alavanca para dobrar a Peugeot e conjurar a eliminação desses 8 mil empregos.
A França é um sistema liberal. Felizmente, ela não se tornará de repente, como por um passe de mágica, uma economia marxista, ou simplesmente intervencionista, a fim de fazer com que os "cruéis" capitalistas da Peugeot voltem atrás em sua decisão.
O poder socialista se limitará, portanto, a assistir ao desmantelamento do seu parque industrial (já bem massacrado), a deplorar e doará alguma ajuda às populações e às regiões maltratadas.
É a primeira dura prova para François Hollande. Até agora, ele vinha se saindo bem: nas negociações a respeito da zona do euro agiu com agudeza e clareza, e obteve de madame Merkel propostas inteligentes sobre vários pontos. Sua calma, seus silêncios e sua simplicidade agradaram muito aos franceses que estavam cansados da excitação ininterrupta de Sarkozy.
A única desafinação de Hollande foi obra de sua companheira, Valérie Trierweiler, a nova primeira-dama da França, que atacou com um tuíte inacreditável a mulher que a precedeu no coração de Hollande, a ex-dele, Ségolène Royal, grande personagem do Partido Socialista, que foi candidata à presidência em 2007.
A grotesca "guerra de damas" colocou Hollande numa posição desagradável. Ele não reagiu, consciente de que encontrar o ponto de equilíbrio seria um exercício acrobático de enorme perigo.
Mas não poderá se esconder eternamente no silêncio. Daqui a pouco, na entrevista que dará por ocasião do 14 de julho, ele será obrigado a "descer do muro". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA É CORRESPONDENTE EM PARIS
Qualidade do ensino: alternativas - WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 14/07
A capacitação deve ser aberta a todos, mas não facilitada até o ponto de sacrificar a qualidade
DUAS LINHAS do pensamento do brasileiro sobre o ensino universitário separam posições distintas. De um lado estão os que desejam a abertura de acesso para acolhimento de todos os segmentos sociais, e de outro os que privilegiam o predomínio da qualidade cultural, intelectual, técnica e pessoal do alunado, distinguido pela competência, cultura e dignidade para quem chegar ao fim do curso. É evidente que o acesso há de ser aberto a todos, mas sem que a capacitação seja facilitada até o ponto de sacrificar a qualidade, com efeito danoso para toda a cidadania.
A questão das cotas escolares é um bom passo intermediário que tem aprovado bons alunos, com capacidade cultural e interesse no estudo. Tem, contudo, dois defeitos a serem corrigidos: cria uma forma suplementar de privilégio, ainda quando atribuída à parcela substancial do povo brasileiro. De outro modo, pelo menos no nível federal, tem permitido distorções, mesmo entre os beneficiados, depois do ingresso no alunado do nível superior.
Elementos estranhos aos próprios alunos contribuíram para a maior dificuldade. O Brasil percorreu, nos últimos decênios, intenso processo de quantificação de caminhos universitários, em transformação radical de numerosas instituições particulares. Em algumas delas a insuficiência é marcante, por exemplo, quanto ao idioma e sua literatura. É comum saber-se de alunos cujo nível de leitura se resolve em resumos plastificados de obras, que não são lidas.
Para tudo, em matéria de quantidade, serve de exemplo mais um exame da Ordem dos Advogados do Brasil. A grande quantidade de candidatos e de reprovados -contados às dezenas de milhares- faz desse certame o mais criticado. Mas é certo que o índice das reprovações é filho do mau ensino recebido.
O obstáculo da chegada à universidade tem mais dois aspectos desapontadores. O primeiro deles é o da fraude, no conhecimento prévio das questões a serem propostas. O segundo exemplo está nas cotas para ingresso na universidade, com reserva privilegiada pela cor. As cotas também se ligam à política adotada nos últimos cinquenta anos, quando se passou a defender a ideia de que quanto mais ampla for a base quantitativa da pirâmide do ensino, mais se garantirá a qualidade dos que chegarem ao topo da mesma pirâmide. A prática não parece ter confirmado a garantia de qualidade proporcional expandida.
Efetivamente, a se julgar pela educação superior no Brasil, o número de doutores em todas as carreiras cresceu em proporção, mas a simples quantificação não resolve, até mesmo no sistema de cotas - compreensível por período breve, mas não a título permanente.
Com olhos para a Constituição e para os números, o nível de participação nas camadas em preparo para qualquer ramo da atividade profissional dos formandos ainda não foi avaliado de modo merecedor da confiança de todos. É objetivo a ser perseguido, para o "pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Constituição, art. 205). Deve ser o centro da preocupação maior de todos nós, para que a súmula clara da Carta Magna não seja sacrificada, com grave prejuízo para o futuro da educação neste país.
A capacitação deve ser aberta a todos, mas não facilitada até o ponto de sacrificar a qualidade
DUAS LINHAS do pensamento do brasileiro sobre o ensino universitário separam posições distintas. De um lado estão os que desejam a abertura de acesso para acolhimento de todos os segmentos sociais, e de outro os que privilegiam o predomínio da qualidade cultural, intelectual, técnica e pessoal do alunado, distinguido pela competência, cultura e dignidade para quem chegar ao fim do curso. É evidente que o acesso há de ser aberto a todos, mas sem que a capacitação seja facilitada até o ponto de sacrificar a qualidade, com efeito danoso para toda a cidadania.
A questão das cotas escolares é um bom passo intermediário que tem aprovado bons alunos, com capacidade cultural e interesse no estudo. Tem, contudo, dois defeitos a serem corrigidos: cria uma forma suplementar de privilégio, ainda quando atribuída à parcela substancial do povo brasileiro. De outro modo, pelo menos no nível federal, tem permitido distorções, mesmo entre os beneficiados, depois do ingresso no alunado do nível superior.
Elementos estranhos aos próprios alunos contribuíram para a maior dificuldade. O Brasil percorreu, nos últimos decênios, intenso processo de quantificação de caminhos universitários, em transformação radical de numerosas instituições particulares. Em algumas delas a insuficiência é marcante, por exemplo, quanto ao idioma e sua literatura. É comum saber-se de alunos cujo nível de leitura se resolve em resumos plastificados de obras, que não são lidas.
Para tudo, em matéria de quantidade, serve de exemplo mais um exame da Ordem dos Advogados do Brasil. A grande quantidade de candidatos e de reprovados -contados às dezenas de milhares- faz desse certame o mais criticado. Mas é certo que o índice das reprovações é filho do mau ensino recebido.
O obstáculo da chegada à universidade tem mais dois aspectos desapontadores. O primeiro deles é o da fraude, no conhecimento prévio das questões a serem propostas. O segundo exemplo está nas cotas para ingresso na universidade, com reserva privilegiada pela cor. As cotas também se ligam à política adotada nos últimos cinquenta anos, quando se passou a defender a ideia de que quanto mais ampla for a base quantitativa da pirâmide do ensino, mais se garantirá a qualidade dos que chegarem ao topo da mesma pirâmide. A prática não parece ter confirmado a garantia de qualidade proporcional expandida.
Efetivamente, a se julgar pela educação superior no Brasil, o número de doutores em todas as carreiras cresceu em proporção, mas a simples quantificação não resolve, até mesmo no sistema de cotas - compreensível por período breve, mas não a título permanente.
Com olhos para a Constituição e para os números, o nível de participação nas camadas em preparo para qualquer ramo da atividade profissional dos formandos ainda não foi avaliado de modo merecedor da confiança de todos. É objetivo a ser perseguido, para o "pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Constituição, art. 205). Deve ser o centro da preocupação maior de todos nós, para que a súmula clara da Carta Magna não seja sacrificada, com grave prejuízo para o futuro da educação neste país.
É pouco e é muito - CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO - 14/07
O Brasil, sexta economia do mundo, tem renda anual de R$ 4,3 trilhões. De acordo com o Banco Central, o valor das dívidas corresponde a 43,3% da renda das famílias no ano. O governo abre mão de aproximadamente R$ 116 bilhões, quase 3% do PIB, sob a forma de incentivos fiscais todo ano. Desse montante no ano passado, R$ 20 bilhões só na indústria automobilística. Somente os Poderes Legislativo e Judiciário necessitam de quase R$ 30 bilhões por ano. Estima-se que os investimentos da Copa, Olimpíadas, Trem-Bala e Belo Monte vão exigir R$ 167 bilhões, ao longo de alguns anos. O gasto com o INSS é da ordem de 7,2% do PIB, e os serviços da dívida pública consomem 5,1% do PIB.
Há recursos para gastar 10% do PIB com educação (4,9% além dos atuais 5,12%), bastaria mudar as prioridades. A questão central é se há prioridade maior para a educação, em comparação com os demais setores. Mas o menosprezo brasileiro com a educação é cultural.
Por alguma razão na formação do espírito nacional, não consideramos educação como indicador de riqueza de uma pessoa, nem do conjunto dos brasileiros. Ser culto não é visto como um indicador de status social. Os educadores e os filósofos são pouco valorizados. Mesmo quem paga a escola privada do filho, em geral, não busca a educação em si, investe no salário adicional que ele terá no futuro graças ao estudo.
Politicamente, no Brasil, tudo que é para a maioria pobre fica abandonado, depois que os relativamente ricos resolvem seus problemas. E os filhos dos ricos podem pagar a escola privada, recebendo do governo cerca de R$ 4 bilhões de dedução do Imposto de Renda por ano. É assim com a saúde, o transporte, a segurança e também com a educação, que caracterizam a nossa maneira de ser. O desprezo para com a educação é também uma questão de imprevidência e de preferência pelo imediatismo. Educação é uma poupança fundamental para o futuro do país e de cada família, mas que não permite a satisfação do consumo no presente. Orgulha-nos termos a 6 maior renda nacional do mundo, e não nos envergonha sermos o 88 país em educação; nem percebemos a ameaça que esta classificação provoca para o futuro.
É possível encontrar recursos para investir até 10% do PIB na educação, se eliminarmos privilégios e desperdícios e mudarmos as atuais prioridades. Ainda se não quisermos mudar as prioridades, poderemos pensar em outros instrumentos fiscais ou mesmo em empréstimo provisório para investir em educação.
O problema, portanto, não é a falta de recursos, mas o risco de termos excesso de recursos para a educação. Se investirmos 10% no atual sistema de educação, correremos o risco de desperdiçar dinheiro. Se todo este recurso for aplicado nas atuais unidades de ensino, o sistema não seria capaz de absorvê-lo com eficiência. Serão comprados equipamentos que ficarão engavetados e haverá aumento dos salários sem a correspondente elevação na qualificação e na dedicação dos professores.
O problema principal não é onde conseguir os 4,9% do PIB que faltam para chegar aos 10% previstos na meta 20 do segundo PNE - Plano Nacional de Educação. O problema central é como aplicar esses recursos, depois de identificar as fontes.
Uma maneira eficiente de investir na educação seria implantar um novo sistema de educação, com paulatina federalização da educação de base; criação de uma carreira nacional do professor, com salário de R$ 9 mil por mês para os docentes desta nova carreira, que ficariam sujeitos à avaliação que poderá ocasionar demissão; e adoção da educação em horário integral, em escolas confortáveis, bonitas e bem equipadas. A implantação deste novo sistema, ao longo de 20 anos, requererá, no final, 6,4% do PIB.
O segundo PNE aprovado pela Câmara de Deputados é um conjunto de intenções sem projetos, propostas e operacionalidade. A prova é que, em vez de estimar seu custo, definiu-se arbitrariamente 10% do PIB para a educação, por coincidência o mesmo percentual que a PEC 169/1993 destinou para a saúde. O valor proposto pelo PNE II é pouco diante da riqueza da economia brasileira, mas é muito se for para aplicar no atual sistema, sem definições, sem mudanças e sem clareza.
O Brasil, sexta economia do mundo, tem renda anual de R$ 4,3 trilhões. De acordo com o Banco Central, o valor das dívidas corresponde a 43,3% da renda das famílias no ano. O governo abre mão de aproximadamente R$ 116 bilhões, quase 3% do PIB, sob a forma de incentivos fiscais todo ano. Desse montante no ano passado, R$ 20 bilhões só na indústria automobilística. Somente os Poderes Legislativo e Judiciário necessitam de quase R$ 30 bilhões por ano. Estima-se que os investimentos da Copa, Olimpíadas, Trem-Bala e Belo Monte vão exigir R$ 167 bilhões, ao longo de alguns anos. O gasto com o INSS é da ordem de 7,2% do PIB, e os serviços da dívida pública consomem 5,1% do PIB.
Há recursos para gastar 10% do PIB com educação (4,9% além dos atuais 5,12%), bastaria mudar as prioridades. A questão central é se há prioridade maior para a educação, em comparação com os demais setores. Mas o menosprezo brasileiro com a educação é cultural.
Por alguma razão na formação do espírito nacional, não consideramos educação como indicador de riqueza de uma pessoa, nem do conjunto dos brasileiros. Ser culto não é visto como um indicador de status social. Os educadores e os filósofos são pouco valorizados. Mesmo quem paga a escola privada do filho, em geral, não busca a educação em si, investe no salário adicional que ele terá no futuro graças ao estudo.
Politicamente, no Brasil, tudo que é para a maioria pobre fica abandonado, depois que os relativamente ricos resolvem seus problemas. E os filhos dos ricos podem pagar a escola privada, recebendo do governo cerca de R$ 4 bilhões de dedução do Imposto de Renda por ano. É assim com a saúde, o transporte, a segurança e também com a educação, que caracterizam a nossa maneira de ser. O desprezo para com a educação é também uma questão de imprevidência e de preferência pelo imediatismo. Educação é uma poupança fundamental para o futuro do país e de cada família, mas que não permite a satisfação do consumo no presente. Orgulha-nos termos a 6 maior renda nacional do mundo, e não nos envergonha sermos o 88 país em educação; nem percebemos a ameaça que esta classificação provoca para o futuro.
É possível encontrar recursos para investir até 10% do PIB na educação, se eliminarmos privilégios e desperdícios e mudarmos as atuais prioridades. Ainda se não quisermos mudar as prioridades, poderemos pensar em outros instrumentos fiscais ou mesmo em empréstimo provisório para investir em educação.
O problema, portanto, não é a falta de recursos, mas o risco de termos excesso de recursos para a educação. Se investirmos 10% no atual sistema de educação, correremos o risco de desperdiçar dinheiro. Se todo este recurso for aplicado nas atuais unidades de ensino, o sistema não seria capaz de absorvê-lo com eficiência. Serão comprados equipamentos que ficarão engavetados e haverá aumento dos salários sem a correspondente elevação na qualificação e na dedicação dos professores.
O problema principal não é onde conseguir os 4,9% do PIB que faltam para chegar aos 10% previstos na meta 20 do segundo PNE - Plano Nacional de Educação. O problema central é como aplicar esses recursos, depois de identificar as fontes.
Uma maneira eficiente de investir na educação seria implantar um novo sistema de educação, com paulatina federalização da educação de base; criação de uma carreira nacional do professor, com salário de R$ 9 mil por mês para os docentes desta nova carreira, que ficariam sujeitos à avaliação que poderá ocasionar demissão; e adoção da educação em horário integral, em escolas confortáveis, bonitas e bem equipadas. A implantação deste novo sistema, ao longo de 20 anos, requererá, no final, 6,4% do PIB.
O segundo PNE aprovado pela Câmara de Deputados é um conjunto de intenções sem projetos, propostas e operacionalidade. A prova é que, em vez de estimar seu custo, definiu-se arbitrariamente 10% do PIB para a educação, por coincidência o mesmo percentual que a PEC 169/1993 destinou para a saúde. O valor proposto pelo PNE II é pouco diante da riqueza da economia brasileira, mas é muito se for para aplicar no atual sistema, sem definições, sem mudanças e sem clareza.
CLAUDIO HUMBERTO
“O nosso caminho não é igual ao deles [europeus]”
Presidente Dilma, cuja política econômica proporciona um ‘Pibinho’ de padrão europeu
BRONCA DE BRAGA EM IDELI ACABA IRRITANDO DILMA
A cena não sai da cabeça das poucas testemunhas: habituado a dar broncas humilhantes em seus assessores, o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), líder do governo no Senado, adotou a mesma atitude com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), recentemente, numa conversa momentos antes de reunião com a presidente Dilma Rousseff, e se deu mal. Dilma ouviu tudo e tomou as dores da ministra.
ENQUADROU
Além de repreender o senador, Dilma foi solidária a Ideli: “Quem cuida da articulação política do governo é a ministra”. Braga ficou calado.
PLATEIA QUALIFICADA
A bronca de Eduardo Braga em Ideli e o troco da presidente Dilma foram testemunhados por funcionários graduados do governo.
UM CAVALHEIRO
Fontes do Planalto confessaram sua perplexidade à coluna, porque a imagem que tinham de Eduardo Braga era a de um gentleman.
BARRA PESADA
Há relatos de humilhações de Eduardo Braga contra assessores que tornam exemplo de delicadeza o jeito Dilma de tratar subordinados.
GREVE AFASTA GOVERNADOR DE CAMPANHA NA BAHIA
Desgastado com a greve dos professores, que já dura 95 dias na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) está recluso da campanha do petista Nelson Pellegrino à Prefeitura de Salvador. Ele quer evitar que o clima prejudique a campanha petista pela prefeitura da capital baiana. Pellegrino ficou aliviado. Em pé de guerra, educadores têm vaiado Wagner em todos os eventos dos quais ele ainda ousa participar.
SEM CONTROLE
O presidente do Sindicado dos Trabalhadores em Educação da Bahia, Rui Oliveira, é do PCdoB, sigla aliada de Jaques Wagner e Pellegrino.
PRÓPRIO VENENO
O inferno astral de Jaques Wagner faz a delícia de empresários que foram atormentados pelo seu radicalismo quando foi sindicalista.
CAFÉ COM LEITE
Dez candidatos à Prefeitura de Fortaleza deram largada na disputa pela capital cearense. Três são café com leite: do PRTB, PSTU e PPL.
SESSÃO HOT
No Senado, um escândalo é bem mais comentado que a cassação de Demóstenes Torres: circula na internet um vídeo com cenas tórridas, explícitas mesmo, de uma estonteante funcionária do gabinete do senador Ciro Nogueira (PP-PI) com o namorado dela.
MAIS DO MESMO
O senador Blairo Maggi (PR-MT) vai se licenciar em 17 de agosto. Assumirá o suplente José Aparecido dos Santos, Cidinho, ex-prefeito de Marilândia que teve as contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas.
CONJUNTO COMPLETO
Agora não falta mais nada: a lona do Circo Tihany passou a fazer parte da paisagem da Esplanada dos Ministérios, conjunto arquitetônico composto pelas sedes dos poderes e a Catedral de Brasília. Estreia hoje.
PAÍS RICO
A Funarte não mostra serviço, mas prorroga contratos milionários que é uma beleza. Dois deles, somando
R$ 22,5 milhões, fizeram a festa de uma empresa de terceirização de mão de obra, a Personal Service.
O DEMOLIDOR
Membros do PSDB estão em pé de guerra com o governador Beto Richa, que não articulou candidatura própria em nenhuma das quinze principais cidades do Paraná: “Ele está destruindo o PSDB”, criticam.
SEGURANÇA ALIMENTAR
O vice Michel Temer e o ministro Antonio Patriota (Itamaraty) viajam a Maputo, Moçambique, terça (17), para a reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa sobre segurança alimentar e nutricional.
CONFUSÕES ELEITORAIS
Após imbróglio em Juazeiro, na Bahia, onde o PT havia se registrado em duas chapas adversárias, o partido decidiu vetar a candidatura de Joseph Bandeira (PT) e se manter na vice de Isaac Carvalho (PCdoB).
CANAL ABERTO
A TV Senado chegará, finalmente, ao Pará em sinal aberto. Enquanto governou o Estado, o PT impedia, porque os três senadores eram de oposição: Flexa Ribeiro e Mário Couto, tucanos, e José Nery, do PSOL.
PERGUNTA NO SEGURO-DESEMPREGO
Se o PIB não mede uma nação, como preconiza Dilma, o “Pibinho” serve para atestar a falência de sua política econômica?
PODER SEM PUDOR
A NAMORADA DE PIMENTA
Cansado, o então ministro Pedro Parente tirou uns dias de folga. Ficou longe de tudo e de todos, principalmente dos jornais e da TV, mas atendeu ao telefonema da mulher, jornalista, naquela noite de 20 de agosto de 2000:
- Pedro, o Pimenta matou a namorada!
O ministro-chefe da Casa Civil de FHC quase teve um enfarte:
- Meus Deus, que desgraça!... E eu nem sabia que ele tinha namorada!
Por um instante, ele achou que ela se referia ao ministro Pimenta da Veiga (Comunicações) - cuja namorada, aliás, é a própria mulher, Ana Paola.
Presidente Dilma, cuja política econômica proporciona um ‘Pibinho’ de padrão europeu
BRONCA DE BRAGA EM IDELI ACABA IRRITANDO DILMA
A cena não sai da cabeça das poucas testemunhas: habituado a dar broncas humilhantes em seus assessores, o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), líder do governo no Senado, adotou a mesma atitude com a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), recentemente, numa conversa momentos antes de reunião com a presidente Dilma Rousseff, e se deu mal. Dilma ouviu tudo e tomou as dores da ministra.
ENQUADROU
Além de repreender o senador, Dilma foi solidária a Ideli: “Quem cuida da articulação política do governo é a ministra”. Braga ficou calado.
PLATEIA QUALIFICADA
A bronca de Eduardo Braga em Ideli e o troco da presidente Dilma foram testemunhados por funcionários graduados do governo.
UM CAVALHEIRO
Fontes do Planalto confessaram sua perplexidade à coluna, porque a imagem que tinham de Eduardo Braga era a de um gentleman.
BARRA PESADA
Há relatos de humilhações de Eduardo Braga contra assessores que tornam exemplo de delicadeza o jeito Dilma de tratar subordinados.
GREVE AFASTA GOVERNADOR DE CAMPANHA NA BAHIA
Desgastado com a greve dos professores, que já dura 95 dias na Bahia, o governador Jaques Wagner (PT) está recluso da campanha do petista Nelson Pellegrino à Prefeitura de Salvador. Ele quer evitar que o clima prejudique a campanha petista pela prefeitura da capital baiana. Pellegrino ficou aliviado. Em pé de guerra, educadores têm vaiado Wagner em todos os eventos dos quais ele ainda ousa participar.
SEM CONTROLE
O presidente do Sindicado dos Trabalhadores em Educação da Bahia, Rui Oliveira, é do PCdoB, sigla aliada de Jaques Wagner e Pellegrino.
PRÓPRIO VENENO
O inferno astral de Jaques Wagner faz a delícia de empresários que foram atormentados pelo seu radicalismo quando foi sindicalista.
CAFÉ COM LEITE
Dez candidatos à Prefeitura de Fortaleza deram largada na disputa pela capital cearense. Três são café com leite: do PRTB, PSTU e PPL.
SESSÃO HOT
No Senado, um escândalo é bem mais comentado que a cassação de Demóstenes Torres: circula na internet um vídeo com cenas tórridas, explícitas mesmo, de uma estonteante funcionária do gabinete do senador Ciro Nogueira (PP-PI) com o namorado dela.
MAIS DO MESMO
O senador Blairo Maggi (PR-MT) vai se licenciar em 17 de agosto. Assumirá o suplente José Aparecido dos Santos, Cidinho, ex-prefeito de Marilândia que teve as contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas.
CONJUNTO COMPLETO
Agora não falta mais nada: a lona do Circo Tihany passou a fazer parte da paisagem da Esplanada dos Ministérios, conjunto arquitetônico composto pelas sedes dos poderes e a Catedral de Brasília. Estreia hoje.
PAÍS RICO
A Funarte não mostra serviço, mas prorroga contratos milionários que é uma beleza. Dois deles, somando
R$ 22,5 milhões, fizeram a festa de uma empresa de terceirização de mão de obra, a Personal Service.
O DEMOLIDOR
Membros do PSDB estão em pé de guerra com o governador Beto Richa, que não articulou candidatura própria em nenhuma das quinze principais cidades do Paraná: “Ele está destruindo o PSDB”, criticam.
SEGURANÇA ALIMENTAR
O vice Michel Temer e o ministro Antonio Patriota (Itamaraty) viajam a Maputo, Moçambique, terça (17), para a reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa sobre segurança alimentar e nutricional.
CONFUSÕES ELEITORAIS
Após imbróglio em Juazeiro, na Bahia, onde o PT havia se registrado em duas chapas adversárias, o partido decidiu vetar a candidatura de Joseph Bandeira (PT) e se manter na vice de Isaac Carvalho (PCdoB).
CANAL ABERTO
A TV Senado chegará, finalmente, ao Pará em sinal aberto. Enquanto governou o Estado, o PT impedia, porque os três senadores eram de oposição: Flexa Ribeiro e Mário Couto, tucanos, e José Nery, do PSOL.
PERGUNTA NO SEGURO-DESEMPREGO
Se o PIB não mede uma nação, como preconiza Dilma, o “Pibinho” serve para atestar a falência de sua política econômica?
PODER SEM PUDOR
A NAMORADA DE PIMENTA
Cansado, o então ministro Pedro Parente tirou uns dias de folga. Ficou longe de tudo e de todos, principalmente dos jornais e da TV, mas atendeu ao telefonema da mulher, jornalista, naquela noite de 20 de agosto de 2000:
- Pedro, o Pimenta matou a namorada!
O ministro-chefe da Casa Civil de FHC quase teve um enfarte:
- Meus Deus, que desgraça!... E eu nem sabia que ele tinha namorada!
Por um instante, ele achou que ela se referia ao ministro Pimenta da Veiga (Comunicações) - cuja namorada, aliás, é a própria mulher, Ana Paola.
SÁBADO NOS JORNAIS
- Globo: Governo cede e aumenta professores em até 48%
- Folha: Em quatro horas, PMs matam oito suspeitos em SP
- Estadão: Mercado reage bem à alta do diesel e caixa da Petrobrás terá reforço
- Correio: Governo só garante reajuste a professor
- Estado de Minas: Diesel aquece a inflação
- Zero Hora: Técnicos do Ministério da Saúde vêm ao Estado avalir casos de gripe A
sexta-feira, julho 13, 2012
Notório cartório - DORA KRAMER
O Estado de S. Paulo - 13/07
Muito admira a decisão da senadora Kátia Abreu de abrir dissidência assim como causa espanto o gesto do ex-deputado Roberto Brant de deixar o PSD em reação ao modo como o prefeito Gilberto Kassab conduz o partido.
Ambos consideraram "truculenta" a intervenção na seção mineira para propiciar o rompimento do compromisso firmado com a campanha à reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, e adesão à candidatura do petista Patrus Ananias.
Compararam o ato a ações de velhos coronéis, denunciaram desrespeito a políticos locais, reclamaram da ausência de diálogo, falaram em abuso de poder e, em carta enviada ao prefeito de São Paulo, qualificada pela autora como "desaforada", a senadora apontou "dano grave ao espírito do nosso partido".
Melífluo, Kassab preferiu o elogio ao confronto, reiterando voto de "respeito e admiração" à correligionária. Mas, se quisesse acirrar poderia perguntar a qual espírito partidário mesmo se referiu a senadora.
Tanto ela quanto Brant ou quem mais esteja insatisfeito com a condução que Kassab dá ao PSD sabiam muito bem onde estavam pisando quando se associaram a um projeto desprovido de sentido doutrinário, arquitetado com o explícito propósito de se inserir com rapidez no quadro partidário sob a égide do pragmatismo em sua feição mais extremada.
Aqui a cigana não enganou ninguém. Kassab nunca escondeu que criava uma legenda para dar continuidade à sua carreira política pós-prefeitura, já que via seu então partido, o DEM, como uma confederação de náufragos condenados ao abraço dos afogados.
A natureza do negócio sempre esteve muito clara: uma agremiação para servir de pau para toda obra, a depender dos interesses da ocasião. Um notório cartório no comando do qual Gilberto Kassab carimba alianças sob o único critério da obtenção da vantagem imediata.
Aderiu quem quis e não viu nada demais em migrar do dia para a noite da mais ferrenha oposição à profunda afeição ao governo federal.
Assinou embaixo quem não viu nada de esquisito no fato de o PSD ter se transformado em sublegenda de todos os governados de estado, à exceção de São Paulo e Rio Grande do Sul onde, no entanto, se abrigou em alianças para a eleição municipal de lógicas completamente díspares tanto em relação à afinidade com o PT no plano federal – ao ficar com o PSDB na capital paulista – quanto no tocante à origem da maioria centro-direitista dos sócios fundadores – ao se unir ao PCdoB gaúcho.
Não por outro motivo a não ser a ausência de balizas, o novo partido conseguiu rapidamente formar uma bancada tão robusta na Câmara que levou a Justiça a ignorar a legislação vigente e adotar uma "interpretação realista" para a concessão ao PSD de tempo de propaganda gratuita e acesso ao dinheiro do fundo partidário.
Embarcaram todos na norma pragmática de Kassab, celebrado como o mais novo gênio da raça da política nacional.
Uma vez atropelados os princípios e a prática sendo aceita como expressão de competência, reclamar agora do quê?
Queixaram-se os revoltosos de que em um ano e meio a executiva nacional não se reuniu uma única vez, que as decisões são tomadas de forma autocrática por Kassab, que não há democracia interna nem vida partidária.
Ora, uma legenda fundada nas bases em que se criou o PSD, sem a menor preocupação com o aperfeiçoamento dos costumes da nossa desgastada política, ao contrário, aprofundando todas as deformações existentes, não obedeceria mesmo aos preceitos de "lealdade e respeito" que foram infringidas no dizer da senadora Kátia Abreu.
Gilberto Kassab não cometeu infração alguma no tocante ao que se propôs. Não incorreu em desvio de rumo nem deveria surpreender ninguém. Muito menos os que viram no projeto dele uma janela de oportunidade.
Ademais, com todo respeito que merece a combatividade da senadora, considerar Gilberto Kassab "um rapaz moderno de São Paulo", francamente, não faz jus à perspicácia que sempre exibiu no exercício do mandato.
Um ovo e uma fritada - CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 13/07
A lenda explicaria não apenas a complicada vida sexual do ditador, mas seus complexos de inferioridade
Um dos temas que mais me impressionaram quando na distante mocidade que passei num seminário foi o estudo da lei de causalidade nas aulas de lógica, tendo como base a tradicional doutrina aristotélica-tomista: posta a causa, posto o efeito; variada a causa, variado o efeito; "sublata causa, tollitur effectus", ou seja, suprimida a causa, acaba o efeito.
Alguns filósofos posteriores tiraram conclusões meio capciosas, incluindo a inexorabilidade do destino e do acaso, misturando as duas coisas de tal forma que nunca se sabe onde a causa é o destino, e o efeito, o acaso.
Moisés decidiu empreender o êxodo porque, ainda no Egito, viu um soldado do faraó açoitar um judeu? Newton descobriu a lei da gravidade porque, descansando à sombra de uma árvore, a maçã caiu em sua cara? Lord Sandwich estava com fome e botou uma fatia de carne dentro de um pão, criando sem querer o sanduíche?
Para explicar o DNA das coisas, dos muitos inventos e descobertas da humanidade ao longo dos séculos, os entendidos sentem-se obrigados a buscar as causas que determinaram os efeitos.
Causa: um estudante sérvio matou o arquiduque da Áustria em Sarajevo. Efeito: Guerra Mundial de 1914-1918. Causa: Nero incendiou Roma e botou a culpa nos cristãos. Efeito: os romanos tiveram de construir o Coliseu para que os leões da Númia comessem os cristãos.
Baseados nesta lei da causalidade, os historiadores procuram explicar fatos e versões obedecendo às regras da "posita, variata, sublata", causa que determina este ou aquele efeito da crônica humana.
Até hoje, por exemplo, psicólogos, historiadores e patologistas procuram explicar a causa que determinou o antissemitismo radical de Hitler. Falam em alguns teóricos, como Gobineau e Chamberlain.
Falam em Nietzsche e Wagner, falam principalmente no apócrifo "Protocolo dos Sábios de Sião", como fontes ou causas irracionais do ódio que provocou o holocausto dos judeus durante o regime nazista.
Os mais recentes biógrafos do ditador, depois de fuçarem documentos em posse dos russos e dos americanos, abriram duas hipóteses fantásticas. Um delas pode ter sido possível. Em seus anos de Viena, o jovem Adolf teve relações com uma prostituta judia e contraiu uma sífilis que nunca foi devidamente curada. Daí a sua teoria de que o povo judeu "infectava" o mundo.
Outra hipótese, levantada por alguns amigos de sua juventude, criou a teoria do "um ovo só". Que foi levada a sério até mesmo pelos patologistas soviéticos que, depois da guerra, examinaram os restos carbonizados do Führer.
Em seus tempos de jovem, ainda em Linz, Hitler teria apostado com os colegas que seria capaz de urinar na boca de um bode que vivia nos arredores do colégio. Desafiado, com uma das mãos abriu a boca do bode, com a outra, direcionou o jato, mas o animal reagiu, comendo um de seus testículos.
Por mais que pareça ridículo ou improvável, a lenda marcaria e explicaria não apenas a complicada vida sexual do ditador, mas seus complexos de inferioridade e sua insanidade social e política: o bode em questão pertencia a um judeu.
Os leitores poderão pensar que estou inventando coisas, mas estes dois fatos que lembrei estão narrados em biografias altamente respeitáveis, como a de John Toland e Ron Rosenbaum e alguns autores russos que confirmam a história do "ovo só", deixando para numerosos psicólogos e psiquiatras a explicação do desvio de personalidade de alguém que teve um testículo comido por um bode, que não era um bode judeu, mas pertencia a um judeu.
Bem, acredito que nesta crônica me superei em matéria de citações. Lembrei Moisés, Aristóteles, Tomás de Aquino, Isaac Newton, Lord Sandwich, Wagner, Nietzsche, Gobineau, Chamberlain, Nero, os leões da Númia, um estudante sérvio e dois autores contemporâneos.
Um prato cheio para leitores interessados no rigor histórico reclamarem inclusive da teoria do ovo só, que além de ter prejudicado a vida sexual do maior tirano da história, provou mais uma vez que pequenas causas podem produzir grandes efeitos.
A lenda explicaria não apenas a complicada vida sexual do ditador, mas seus complexos de inferioridade
Um dos temas que mais me impressionaram quando na distante mocidade que passei num seminário foi o estudo da lei de causalidade nas aulas de lógica, tendo como base a tradicional doutrina aristotélica-tomista: posta a causa, posto o efeito; variada a causa, variado o efeito; "sublata causa, tollitur effectus", ou seja, suprimida a causa, acaba o efeito.
Alguns filósofos posteriores tiraram conclusões meio capciosas, incluindo a inexorabilidade do destino e do acaso, misturando as duas coisas de tal forma que nunca se sabe onde a causa é o destino, e o efeito, o acaso.
Moisés decidiu empreender o êxodo porque, ainda no Egito, viu um soldado do faraó açoitar um judeu? Newton descobriu a lei da gravidade porque, descansando à sombra de uma árvore, a maçã caiu em sua cara? Lord Sandwich estava com fome e botou uma fatia de carne dentro de um pão, criando sem querer o sanduíche?
Para explicar o DNA das coisas, dos muitos inventos e descobertas da humanidade ao longo dos séculos, os entendidos sentem-se obrigados a buscar as causas que determinaram os efeitos.
Causa: um estudante sérvio matou o arquiduque da Áustria em Sarajevo. Efeito: Guerra Mundial de 1914-1918. Causa: Nero incendiou Roma e botou a culpa nos cristãos. Efeito: os romanos tiveram de construir o Coliseu para que os leões da Númia comessem os cristãos.
Baseados nesta lei da causalidade, os historiadores procuram explicar fatos e versões obedecendo às regras da "posita, variata, sublata", causa que determina este ou aquele efeito da crônica humana.
Até hoje, por exemplo, psicólogos, historiadores e patologistas procuram explicar a causa que determinou o antissemitismo radical de Hitler. Falam em alguns teóricos, como Gobineau e Chamberlain.
Falam em Nietzsche e Wagner, falam principalmente no apócrifo "Protocolo dos Sábios de Sião", como fontes ou causas irracionais do ódio que provocou o holocausto dos judeus durante o regime nazista.
Os mais recentes biógrafos do ditador, depois de fuçarem documentos em posse dos russos e dos americanos, abriram duas hipóteses fantásticas. Um delas pode ter sido possível. Em seus anos de Viena, o jovem Adolf teve relações com uma prostituta judia e contraiu uma sífilis que nunca foi devidamente curada. Daí a sua teoria de que o povo judeu "infectava" o mundo.
Outra hipótese, levantada por alguns amigos de sua juventude, criou a teoria do "um ovo só". Que foi levada a sério até mesmo pelos patologistas soviéticos que, depois da guerra, examinaram os restos carbonizados do Führer.
Em seus tempos de jovem, ainda em Linz, Hitler teria apostado com os colegas que seria capaz de urinar na boca de um bode que vivia nos arredores do colégio. Desafiado, com uma das mãos abriu a boca do bode, com a outra, direcionou o jato, mas o animal reagiu, comendo um de seus testículos.
Por mais que pareça ridículo ou improvável, a lenda marcaria e explicaria não apenas a complicada vida sexual do ditador, mas seus complexos de inferioridade e sua insanidade social e política: o bode em questão pertencia a um judeu.
Os leitores poderão pensar que estou inventando coisas, mas estes dois fatos que lembrei estão narrados em biografias altamente respeitáveis, como a de John Toland e Ron Rosenbaum e alguns autores russos que confirmam a história do "ovo só", deixando para numerosos psicólogos e psiquiatras a explicação do desvio de personalidade de alguém que teve um testículo comido por um bode, que não era um bode judeu, mas pertencia a um judeu.
Bem, acredito que nesta crônica me superei em matéria de citações. Lembrei Moisés, Aristóteles, Tomás de Aquino, Isaac Newton, Lord Sandwich, Wagner, Nietzsche, Gobineau, Chamberlain, Nero, os leões da Númia, um estudante sérvio e dois autores contemporâneos.
Um prato cheio para leitores interessados no rigor histórico reclamarem inclusive da teoria do ovo só, que além de ter prejudicado a vida sexual do maior tirano da história, provou mais uma vez que pequenas causas podem produzir grandes efeitos.
A era das periguetes - NELSON MOTTA
O Estado de S.Paulo - 13/07
Antes elas eram as abomináveis piranhas, cachorras e ratazanas, que devoravam os maridos e namorados alheios. Hoje são as adoráveis periguetes, queridas até entre as crianças, as famílias e o público mais conservador. Antes eram groupies de bandas de rock, ripongas calça-frouxa e marias-chuteira, que ganharam alforria com a pílula anticoncepcional, viraram grupo de risco depois da Aids e fizeram dos testes de paternidade por DNA um meio de vida.
Deborah Secco é a rainha das periguetes na televisão, temperando seu sex-appeal com um lado doce e vulnerável, como as putinhas românticas de Fellini, e ganhando sempre das moças de família na preferência do público. A Deborah discreta e tímida da vida real, com sua voz rouquinha e seu talento de atriz, vira um vulcão sexual sempre prestes a explodir, incendiando desejo e medo nos espectadores. Assim como Regina Duarte era a namoradinha, Deborah é a periguete do Brasil.
Mas não se iludam com a eventual doçura e os bons sentimentos da periguete. Como o próprio nome indica e o clássico das Frenéticas adverte, ela é bonita e gostosa, mas perigosa, no seu pacote está incluída a perspectiva de virar uma chave de cadeia. Mas, como tudo na vida, há periguetes do bem e do mal, as que têm amor à sua escolha e a exercem com alegria e sem culpa, e as sanguessugas vocacionais, as alpinistas sociais e as golpistas profissionais, que usam o corpo como arma. Como Mariana Ximenes em Passione.
Um dos maiores sucessos do megassucesso Avenida Brasil é Isis Valverde como a periguete boliviana Suélen, boa de cama e de mesa, que faz gato e sapato dos corações masculinos do Divino com seu mix de malícia e ingenuidade, espontaneidade e malandragem, e sua capacidade infinita de seduzir e de enganar. As novelas não vivem mais sem elas, que inspiraram Chico Buarque no Hino das Periguetes:
"Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim, por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema um botequim (...) mas na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada, descartada do meu folhetim."
A humilhante catraca - MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
FOLHA DE SP - 13/07
SÃO PAULO - Em "Um Homem Sem Profissão", o escritor, poeta e jornalista Oswald de Andrade (1890-1954) narra suas lembranças da chegada do bonde elétrico a São Paulo.
Era o ano de 1900. Uma multidão foi ao centro ver a "maravilha mecânica", que já circulava em Salvador, Manaus e no Rio de Janeiro. Partiria do largo de São Bento em direção à Barra Funda.
Para não perder o espetáculo, Oswald, um molecote de dez anos de idade, posicionou-se na então ladeira de São João com a Libero Badaró.
E lá veio o bicho, ao som de "uma campainha forte que tilintava abrindo as alas convergentes do povo". Passou apinhado e uma mulher exclamou: "Ota gente corajosa! Andá nessa geringonça!".
Hoje, os bondes desapareceram de São Paulo e de outras cidades brasileiras. Na Europa, eles ainda continuam a prestar bons serviços, em versão modernizada. Mas nós preferimos o ônibus, que em matéria de transporte público é um suplício.
Gente corajosa essa que passa no famoso "busão" da Pauliceia. Arranca, freia, chacoalha, faz curvas improváveis, é barulhento, poluidor e apertado. O horário é uma loteria. Natural que as novas linhas de metrô e trem, algumas realmente boas, logo tenham ficado superlotadas. Ônibus, só se não tiver jeito.
Seria, aliás, uma experiência instrutiva -além de divertida- se o senhor prefeito da cidade se dispusesse a entrar num ônibus, atravessar o corredor e tentar, com sua figura graúda, passar pela humilhante catraca -aquilo que no Rio se chama de borboleta. Estreita e opressiva, parece concebida como um brete para marcar gado. Um dispositivo que atualiza traços do Brasil escravocrata em plena cena urbana do século 21.
O ritual das meninas da padaria - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo - 13/07
Esperas em aeroportos são entediantes, principalmente para quem chega cedo como eu, para desespero de minha mulher que se irrita com aquele nada a fazer a não ser olhar lojas-pega-turistas, que se acham espertos ao comprar uma mercadoria que sairá "muitos mais barato" do que no Brasil. E carregam aqueles sacolões, tipo viajante de rodoviária no final de ano. Pois estava eu em Charles De Gaulle, Paris, e a brasileirada ruidosa ainda não tinha chegado. De repente, aquela senhora, com o rosto lacerado e uns bandaids enormes surgiu à minha frente. Não reconheci. Ela foi educada, ao contrário daqueles que insistem em que você identifique:
- Sou Heloisa. Uma das meninas.
Pronto, tudo se iluminou. O problema é quando retiramos alguém do contexto. Leva um tempo para identificar. Outro dia, o Nildo, chapeiro da CPL, passou por mim, se despediu. Quem é esse, tão cordial? Estava sem o uniforme da padaria, sem aquele bonezinho protetor, estava longe do balcão. O chapeiro que faz um chapado perfeito, no ponto, dourado. Estive frente a frente com conhecido jogador de futebol e não tinha a mínima ideia de quem era. Também, ele estava sem uniforme, fora do campo, não suado, nem ofegante, como eu ia saber?
Heloisa faz parte de um grupo que apelidei "as meninas" da CPL, a padaria da esquina, point do bairro, centro de convivência. Todos os domingos, pontualmente às oito, elas chegam. Passo em busca do pão e do meu "chapado" e indago:
- Já fizeram a chamada?
- Todas "bateram" o ponto, confirmam.
Anna Maria, Heloisa, Malu, Sonia, Rosely e Stella sentam-se sempre à mesma mesa, mais próxima ao autoelétrico do Pereira, que marca o limite do território da CPL. Porque uma delas fuma e não deseja incomodar. Se bem que a essa hora da manhã, as mesas estão quase todas vazias. Aos poucos chegarão casais com bebês; solitários com seus cães; os pintores Paulo Calazans e Genilsson (em momentos diferentes); o jornalista Maurício Kus, que teve uma das maiores assessorias de imprensa da cidade, e hoje curte um tempo sabático; Pedro e Gilvana, com quem todos fazemos molduras e encomendamos nossos vidros. Antes do almoço os motoqueiros, qual Marlon Brandos, ocuparão a esquina. Porém, as meninas são das primeiras. Gostam do sossego, precisam colocar os assuntos em dia.
Todas deram suas aulas, em faculdades, defenderam teses, mas a vida acadêmica ficou para trás. Uma, a Malu, foi radical, dedica-se hoje à gastronomia. O torpe aperto de mão entre Lula e Maluf, que virou o estômago do País, a novela Avenida Brasil, a volta da Gabriela, o tempo, os filhos, netos, as empregadas. Nunca ouvi ali uma palavra sobre futebol. Também não fico parado muito tempo, é a hora delas. Heloisa, a que me encontrou no aeroporto, explica que o rosto lacerado foi resultado de uma queda na rua, em Berlim. Um corte na testa, sangue, em minutos chegou o resgate, quando viu ela estava no hospital, cuidada.
De vez em quando, o assunto dos carros repletos de lixo e tralhas entra na pauta. O professor acumulador que tem seis ou oito automóveis lotados de tranqueiras muda o local de estacionamento. O mistério foi revelado entre uns poucos, o público continua se admirando, se indagando o que significa aquilo. As meninas são bem-humoradas (não é que não tenham seus problemas), insistem em manter a tradição que vem de anos. Aquele encontro dominical, longe do doméstico, da família, das obrigações cotidianas, do prosaico dia a dia.
É um instante todo delas, de liberdade, descontração, curtição, abobrinhas, troca de informações, novidades do bairro. Já ouvi sobre política. Elas esperam que a ministra, que é do bairro, apareça um dia, como já apareceu antes. Foram elas que me alertaram sobre a demolição noturna (covarde) da casa branca senhorial da esquina da Teodoro Sampaio. Até o escritor Milton Hatoum, que morou no bairro anos atrás, sofreu com a queda da mansão.
Assim, a cada domingo verifico que a paz permanece, o bairro continua o mesmo, os pequenos rituais estão mantidos, precisamos deles, para nos livrar da ansiedade. Os diálogos são invariáveis entre nós a cada domingo.
- Bateram ponto?
- O relógio quebrou, José mandou consertar.
José é o dono, torcedor fanático da Portuguesa
- Vieram todas?
- Duas faltaram, mas justificaram.
- Portanto não terão o dia descontado nem perderão um dia das férias.
- Uma viajou.
-Uma está de licença médica. Nada grave.
- E a pauta deste domingo?
- É livre, generalidades.
O café da manhã se inicia, chegam sucos, chapados. Vou com meus pães, meu pão de ló, e quase até chegar ao meu prédio, ouço os risos das meninas. É domingo, o mundo está em paz. Ao menos, nosso mundinho aqui.
A encomenda - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 13/07
Governadores, juros e Mantega
Os governadores do Nordeste estão falando cobras e lagartos do Ministério da Fazenda. Ocorre que a Fazenda autorizou o BNDES a baixar seus juros para 4% no financiamento de empreendimentos e da produção. Enquanto isso, o ministério mantém os juros do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste, liberado pela Sudene, e operado pelo Banco do Nordeste em 6,5%. Hoje, em Fortaleza (CE), na reunião da Sudene, os governadores vão reivindicar mudança desta política para o ministro Fernando Bezerra Coelho, da Integração Nacional. A região Nordeste é a que mais tem sentido os efeitos da crise econômica internacional.
“A CPI precisa desvendar todos os laços políticos da organização criminosa de Carlos Cachoeira. Não era só o Demóstenes (Torres)” — Paulo Teixeira, deputado federal (PT-SP)
REPÚDIO. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Domingos Dutra (PT-MA), critica o uso de "cânticos de estímulo à violência e à brutalidade em treinamentos de soldados das Forças Armadas". A Comissão pede explicações ao Ministério da Defesa e que sejam abolidos "tais "costumes" de apologia à barbárie". Ontem, a coluna relatou que soldados do 1º Batalhão da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, correm cantando: "Bate, espanca, quebra os ossos. Bate até morrer."
Faniquito
O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), na sessão de quarta-feira, no plenário, acusou aos berros um de seus assessores de estar lhe dando "bola nas costas". O constrangimento entre os senadores foi geral.
De molho
A presidente Dilma não pretende ir à França tão cedo. O fará somente depois que a Dassault mandar nova proposta para a licitação dos caças da FAB. O governo brasileiro quer uma oferta como a que os franceses fizeram para a Índia.
O revisionismo e a História
Na Comissão de Relações Exteriores do Senado, quarta-feira, os senadores debatiam com o ministro Antônio Patriota o impeachment de Fernando Lugo no Paraguai. Fernando Collor (PTB-AL) presidia a sessão e Cristovam Buarque (PDT-DF) resolveu festejar o ex-presidente. No microfone, afirmou que no Brasil, as relações entre Executivo e Congresso são "espúrias" e que o impeachment de Collor só não foi evitado porque ele não cedera às pressões dos parlamentares.
Viva!
Cassado Demóstenes Torres, um grupo de senadores comemorou no restaurante Antiquarius de Brasília. No brinde com vinho: os peemedebistas Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Romero Jucá e Eduardo Braga, e o petebista Gim Argello.
Ah! Eu sou maluco
O site Os Amigos do Presidente Lula tomou as dores de Roberto Brant, que deixou o PSD por causa da intervenção do prefeito Gilberto Kassab em Belo Horizonte. Virou piada. Kassab entrou em cena para apoiar o petista Patrus Ananias.
PETISTAS e aliados terminam o semestre dizendo que a desarticulação da bancada do governo na Câmara é ampla, geral e irrestrita.
CITAM como exemplo do desmazelo, a aprovação pela oposição da convocação, para depor, dos ministros Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento).
O QUE MAIS irritou a presidente Dilma foi a aprovação do projeto que destina 10% para a Educação. Sua reação: "Isso é pauta da oposição!"
PT desde criancinha - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 13/07
BRASÍLIA - Desde que a ministra Ideli Salvatti declarou que Dilma Rousseff não se meteria nas eleições municipais, a presidente não faz outra coisa. Com PT, PSB e PMDB disputando chapas e espaço a cotoveladas, ela entrou firmemente para preservar o equilíbrio do principal tripé de sustentação do governo.
Quando Dilma se reuniu com PT e PSB, dois de cada lado -os petistas Ideli e Paulo Bernardo e os socialistas Eduardo Campos e Cid Gomes-, as orelhas do PMDB arderam.
Mas, quando ela chamou em seguida PT e PMDB -Rui Falcão, presidente petista, e Michel Temer, o vice-presidente-, foram as orelhas do PSB que arderam. E muito.
Note-se que Dilma convocou o PT para as duas, mas não colocou juntos, lado a lado, olho no olho, o PSB e o PMDB. Isso sugere que: 1) Dilma tomou partido, literalmente, do PT; 2) o embate direto era entre PT e PSB, por conta de Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, mas Eduardo Campos desviou o alvo para o PMDB.
Campos só recuou por perceber que foi longe demais ao peitar o PT. Ao lançar candidato do PSB contra o petista Humberto Campos em Recife, irritou Lula. Ao fechar com o PSDB e empurrar o PT para a candidatura própria de Patrus Ananias em Belo Horizonte, pisou nos calos de Dilma.
Tão acusada de "não ser do ramo", ela foi rápida e eficaz. Chamou Temer numa segunda-feira para pedir ajuda em Belo Horizonte e, na terça, tudo estava resolvido: o PMDB retirou seu candidato, apoiou o petista Patrus e tornou a campanha mais equilibrada no Estado que, afinal, é o Estado natal da presidente.
O principal resultado dos movimentos e da ambição precoce de Eduardo Campos é que o PSB desceu e o PMDB subiu na avaliação de Dilma. Campos se afastou e Temer se aproximou mais dela.
Mas o mais importante de tudo isso é registrar que Dilma nunca foi tão petista quanto agora, apesar de não se meter, aí sim, no PT de São Paulo.
BRASÍLIA - Desde que a ministra Ideli Salvatti declarou que Dilma Rousseff não se meteria nas eleições municipais, a presidente não faz outra coisa. Com PT, PSB e PMDB disputando chapas e espaço a cotoveladas, ela entrou firmemente para preservar o equilíbrio do principal tripé de sustentação do governo.
Quando Dilma se reuniu com PT e PSB, dois de cada lado -os petistas Ideli e Paulo Bernardo e os socialistas Eduardo Campos e Cid Gomes-, as orelhas do PMDB arderam.
Mas, quando ela chamou em seguida PT e PMDB -Rui Falcão, presidente petista, e Michel Temer, o vice-presidente-, foram as orelhas do PSB que arderam. E muito.
Note-se que Dilma convocou o PT para as duas, mas não colocou juntos, lado a lado, olho no olho, o PSB e o PMDB. Isso sugere que: 1) Dilma tomou partido, literalmente, do PT; 2) o embate direto era entre PT e PSB, por conta de Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, mas Eduardo Campos desviou o alvo para o PMDB.
Campos só recuou por perceber que foi longe demais ao peitar o PT. Ao lançar candidato do PSB contra o petista Humberto Campos em Recife, irritou Lula. Ao fechar com o PSDB e empurrar o PT para a candidatura própria de Patrus Ananias em Belo Horizonte, pisou nos calos de Dilma.
Tão acusada de "não ser do ramo", ela foi rápida e eficaz. Chamou Temer numa segunda-feira para pedir ajuda em Belo Horizonte e, na terça, tudo estava resolvido: o PMDB retirou seu candidato, apoiou o petista Patrus e tornou a campanha mais equilibrada no Estado que, afinal, é o Estado natal da presidente.
O principal resultado dos movimentos e da ambição precoce de Eduardo Campos é que o PSB desceu e o PMDB subiu na avaliação de Dilma. Campos se afastou e Temer se aproximou mais dela.
Mas o mais importante de tudo isso é registrar que Dilma nunca foi tão petista quanto agora, apesar de não se meter, aí sim, no PT de São Paulo.
A cidade ideal - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 13/07
RIO DE JANEIRO - Em ótima entrevista a Vaguinaldo Marinheiro e Regiane Teixeira ("Cotidiano", 24/6), o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, relacionou alguns problemas comuns às grandes cidades e suas soluções. Com 7,2 milhões de habitantes, a capital colombiana equivale mais ou menos ao Rio. Não seria mal adotar suas ideias por aqui. Eis algumas:
"Os carros são maravilhosos para passear, para sair à noite. Mas, se todos resolverem ir de carro ao trabalho, a cidade entra em colapso. Quando falamos de cidades sem carros, ou com poucos carros [...], estamos falando de cidades que já existem e que são as mais bem-sucedidas do mundo, como Nova York, Londres, Zurique. [...] Não defendo que as pessoas não tenham carro. Defendo que repensem como usá-lo.
"Não devemos proibir o carro, mas dificultar sua utilização. [...] A [maneira] mais fácil [de fazer isso] é a elevação do preço da gasolina. Outra é eliminar vagas nas ruas e cobrar mais nos estacionamentos. Há ainda pedágios urbanos [...]. O poder público deve cobrar bastante e usar esse dinheiro para subsidiar um sistema de transporte eficiente, rápido, confortável, com ar-condicionado. [...] A cidade avançada não é aquela em que os pobres andam de carro, mas aquela em que os ricos usam transporte público.
"Se o prefeito resolver acabar com áreas de estacionamento para ampliar calçadas e ciclovias, pode haver muita reclamação. Vão dizer: onde vamos estacionar? O prefeito, então, pode responder: Isso não é responsabilidade minha. É um problema privado. Eu também não digo onde você guarda sua roupa. O estacionamento não é um direito adquirido.
"Devemos pensar em cidades para os mais vulneráveis. Para as crianças, os idosos, os que se movimentam em cadeiras de rodas, os mais pobres. Se a cidade for boa para eles, será também para os demais".
Para que serve um ex-presidente? - MOISÉS NAÍM
FOLHA DE SP - 13/07
Não seria má ideia que Lula aprendesse com FHC, que não permite que os afetos lhe enevoem o juízo
A velha piada é que os ex-presidentes são como os vasos chineses: sabemos que são valiosos, mas ninguém sabe o que fazer com eles.
Alguns, como Bill Clinton, mantêm uma atividade frenética; outros, como Vladimir Putin, dão um jeito de nunca deixar o poder, e ainda outros, como Álvaro Uribe, brigam com seu sucessor. Alguns ganham prêmios mundiais e outros intervêm de modo inoportuno nas eleições de outros países.
Nos últimos dias, os dois mais famosos ex-presidentes brasileiros estiveram na arena pública mundial. O contraste entre suas atuações não poderia ter sido mais extremo.
Fernando Henrique Cardoso recebeu o prêmio mais importante do mundo como cientista social: o Prêmio Kluge, outorgado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
O prêmio tem um processo de indicação e seleção tão ou mais rigoroso que o Nobel, e seu valor -US$ 1 milhão- é superior. Quase ao mesmo tempo, Lula aparecia por videoconferência na reunião do Foro de São Paulo em Caracas.
Ele disse: "Apenas com a liderança de Chávez é que o povo realmente vem tendo conquistas extraordinárias. As classes populares nunca foram tratadas com tanto respeito, carinho e dignidade. Essas conquistas devem ser preservadas e consolidadas. Chávez, conte comigo, conte com o PT, conte com a solidariedade e o apoio de cada militante de esquerda, de cada democrata e de cada latino-americano. Tua vitória será nossa vitória".
É perfeitamente legítimo que Lula expresse seu afeto e admiração por Hugo Chávez. Os afetos -como o amor- são cegos e merecem respeito. Mas não é legítimo que Lula intervenha na campanha de outro país. Isso os democratas não fazem.
E Lula sabe disso. E já o tinha feito antes, quando, na véspera de um referendo importantíssimo na Venezuela, irrompeu no processo, afirmando que Chávez era o melhor presidente que o país tinha tido nos últimos cem anos.
Tampouco é legítimo distorcer a realidade venezuelana, como Lula fez -especialmente a realidade dos pobres. Chávez vem tendo um efeito devastador sobre a Venezuela, e os pobres são suas principais vítimas.
São eles que pagam as consequências de viver em um dos países mais inflacionários do mundo, são eles que são obrigados a virar-se com um salário real que caiu para o nível que tinha em 1966.
São eles que não conseguem trabalho a menos que seja no setor público e sob a condição de demonstrarem constantemente sua adoração e fidelidade ao "comandante".
São eles que veem seus filhos e filhas assassinados (o índice é dos mais altos do mundo. Não é de estranhar, portanto, que nas últimas eleições legislativas mais de metade dos votos tenha sido contra Chávez.
Na Venezuela, é impossível alcançar essa porcentagem sem milhões de votos dos mais pobres -que, segundo Lula, estão melhor que nunca.
Nesse sentido, não seria má ideia que Lula aprendesse um pouco com o FHC cientista social, que não permite que os afetos lhe enevoem o juízo. E com o FHC político, que não intervém de maneira abusiva nas eleições de outros países.Tradução de CLARA ALLAIN
PIB: nova rodada de revisões - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SP - 13/07
Os empresários pisaram no freio de seus gastos em máquinas, equipamentos e instalações físicas
As instituições financeiras que acompanham de perto o pulsar da economia brasileira vêm revendo para baixo suas previsões para o crescimento do PIB em 2012.
Uma série de dados decepcionantes, divulgados nos últimos dias, provocou esse movimento. Até mesmo as vendas no varejo -embora ainda cresçam a uma taxa real de 6% ao ano- foram atingidas.
O consumo das famílias -que corresponde a dois terços do PIB- se junta assim à queda importante dos gastos das empresas com itens ligados ao investimento. Por isso essa nova onda de pessimismo com o crescimento econômico neste ano.
A média das previsões já está abaixo dos 2%, com os mais pessimistas apontando uma taxa de 1,5% como o número mais provável. As atenções dos analistas estão se voltando agora para 2013.
Se a fraqueza da economia permanecer por mais tempo, não será possível manter as previsões de crescimento econômico acima de 4% para o próximo ano. Mas essa ainda é a aposta majoritária entre as instituições financeiras e consultores independentes.
Esta primeira metade do ano tem sido um período de grande perplexidade na comunidade de economistas. Afinal, quais as causas de uma desaceleração tão rápida em um ambiente de queda vigorosa dos juros e crescimento real, acima de 10%, da massa de salários no Brasil? Como o saldo do comércio externo brasileiro
-que está sofrendo com a crise internacional- tem pequena influência direta no nível de atividade econômica, temos que buscar no mercado interno as causas dessas mudanças de humor.
O primeiro e mais importante vilão está sendo certamente o investimento privado, que vem apresentando uma queda de mais de 8% nesta primeira metade de 2012.
Os empresários pisaram no freio de seus gastos em máquinas, equipamentos e instalações físicas. E não parecem dispostos a voltar às suas compras muito cedo.
Dois fatos chamam a atenção dos analistas nessa questão. De um lado o pessimismo internacional com o estado da economia mundial e a possibilidade de uma depressão econômica nos próximos meses. Do outro, as condições favoráveis para investir no Brasil, com os juros de mercado a níveis muito baixos e a existência de linhas de crédito abundantes e baratas nos bancos oficiais, principalmente no BNDES.
Mas, como ensinou Keynes, em momentos de pânico e de sumiço do chamado espírito animal das mentes dos empresários não existem estímulos que os faça mudar de atitude. E -infelizmente- essa crise de desconfiança em relação ao futuro chegou às empresas no Brasil.
Aliás, essa insegurança em relação ao futuro é a marca mais grave do momento em que vivemos.
Confesso a meu leitor que demorei mais do que devia para entender essa questão. Este meu erro de avaliação está certamente associado ao fato de que tenho uma posição otimista sobre as economias do mundo emergente e cínica em relação à crise na Europa.
Como já escrevi várias vezes, estou velho demais para acreditar no colapso do capitalismo, mesmo considerando os erros cometidos e que nos levaram à crise atual. Mas essa avaliação não é a opinião dominante hoje nos chamados mercados. Pelo contrário, a dinâmica dos preços dos principais ativos financeiros hoje é de que o colapso está iminente e dificilmente será evitado.
Dou um exemplo: os títulos de dez anos do Tesouro americano estão sendo negociados hoje a uma taxa de juros de 1,5% ao ano. Isso para um país que tem uma taxa de inflação histórica de 2% ao ano. Ou seja, quem está comprando esse papel está contratando uma perda de pelo menos 5% no período de seu investimento.
Por outro lado, se tomarmos uma média das previsões de lucro em 2013 para as ações do índice S&P da Bolsa de Nova York e os preços de hoje, o retorno esperado será de mais de 8% ao ano. Só a descrença em relação ao futuro, ou melhor, a certeza de que os resultados das empresas serão muito piores do que as previsões é que pode explicar essa situação esdrúxula de hoje.
Enquanto essa convicção prevalecer, os investimentos no Brasil vão continuar a deprimir nosso crescimento, não importando os estímulos que o governo colocar à disposição das empresas.
Os empresários pisaram no freio de seus gastos em máquinas, equipamentos e instalações físicas
As instituições financeiras que acompanham de perto o pulsar da economia brasileira vêm revendo para baixo suas previsões para o crescimento do PIB em 2012.
Uma série de dados decepcionantes, divulgados nos últimos dias, provocou esse movimento. Até mesmo as vendas no varejo -embora ainda cresçam a uma taxa real de 6% ao ano- foram atingidas.
O consumo das famílias -que corresponde a dois terços do PIB- se junta assim à queda importante dos gastos das empresas com itens ligados ao investimento. Por isso essa nova onda de pessimismo com o crescimento econômico neste ano.
A média das previsões já está abaixo dos 2%, com os mais pessimistas apontando uma taxa de 1,5% como o número mais provável. As atenções dos analistas estão se voltando agora para 2013.
Se a fraqueza da economia permanecer por mais tempo, não será possível manter as previsões de crescimento econômico acima de 4% para o próximo ano. Mas essa ainda é a aposta majoritária entre as instituições financeiras e consultores independentes.
Esta primeira metade do ano tem sido um período de grande perplexidade na comunidade de economistas. Afinal, quais as causas de uma desaceleração tão rápida em um ambiente de queda vigorosa dos juros e crescimento real, acima de 10%, da massa de salários no Brasil? Como o saldo do comércio externo brasileiro
-que está sofrendo com a crise internacional- tem pequena influência direta no nível de atividade econômica, temos que buscar no mercado interno as causas dessas mudanças de humor.
O primeiro e mais importante vilão está sendo certamente o investimento privado, que vem apresentando uma queda de mais de 8% nesta primeira metade de 2012.
Os empresários pisaram no freio de seus gastos em máquinas, equipamentos e instalações físicas. E não parecem dispostos a voltar às suas compras muito cedo.
Dois fatos chamam a atenção dos analistas nessa questão. De um lado o pessimismo internacional com o estado da economia mundial e a possibilidade de uma depressão econômica nos próximos meses. Do outro, as condições favoráveis para investir no Brasil, com os juros de mercado a níveis muito baixos e a existência de linhas de crédito abundantes e baratas nos bancos oficiais, principalmente no BNDES.
Mas, como ensinou Keynes, em momentos de pânico e de sumiço do chamado espírito animal das mentes dos empresários não existem estímulos que os faça mudar de atitude. E -infelizmente- essa crise de desconfiança em relação ao futuro chegou às empresas no Brasil.
Aliás, essa insegurança em relação ao futuro é a marca mais grave do momento em que vivemos.
Confesso a meu leitor que demorei mais do que devia para entender essa questão. Este meu erro de avaliação está certamente associado ao fato de que tenho uma posição otimista sobre as economias do mundo emergente e cínica em relação à crise na Europa.
Como já escrevi várias vezes, estou velho demais para acreditar no colapso do capitalismo, mesmo considerando os erros cometidos e que nos levaram à crise atual. Mas essa avaliação não é a opinião dominante hoje nos chamados mercados. Pelo contrário, a dinâmica dos preços dos principais ativos financeiros hoje é de que o colapso está iminente e dificilmente será evitado.
Dou um exemplo: os títulos de dez anos do Tesouro americano estão sendo negociados hoje a uma taxa de juros de 1,5% ao ano. Isso para um país que tem uma taxa de inflação histórica de 2% ao ano. Ou seja, quem está comprando esse papel está contratando uma perda de pelo menos 5% no período de seu investimento.
Por outro lado, se tomarmos uma média das previsões de lucro em 2013 para as ações do índice S&P da Bolsa de Nova York e os preços de hoje, o retorno esperado será de mais de 8% ao ano. Só a descrença em relação ao futuro, ou melhor, a certeza de que os resultados das empresas serão muito piores do que as previsões é que pode explicar essa situação esdrúxula de hoje.
Enquanto essa convicção prevalecer, os investimentos no Brasil vão continuar a deprimir nosso crescimento, não importando os estímulos que o governo colocar à disposição das empresas.
Ataque duplo à liberdade na América Latina - EDITORIAL O GLOBO
O Globo - 13/07
A liberdade de imprensa foi brutalmente cerceada nas décadas de 60 e 70 na América Latina, no ciclo das ditaduras militares. Com a redemocratização, o direito à informação passou a se consolidar. Nos últimos anos, porém, novos obstáculos têm se colocado no caminho dos que se propõem a praticar o jornalismo com o máximo de isenção e responsabilidade na região. São eles o surgimento de governos de cunho nacional-populista e o crescimento do crime organizado. Ambos têm em comum o objetivo de desmontar o estado de direito democrático e coibir o livre trânsito da informação, das opiniões.
O "pioneiro" na atual onda de repressão foi Hugo Chávez, caudilho que criou a vertente política denominada "bolivariana". Ele foi o primeiro a usar os meios democráticos para cercear a democracia via controle do Judiciário, do Legislativo e da oposição, numa grande sacada maquiavélica. Uma da características da "democracia" chavista é a reeleição ilimitada do presidente. Ou seja, algo muito mais próximo de uma ditadura populista, em que pese a risível afirmação em contrário do chanceler Antonio Patriota, no Congresso, repetindo a opinião de setores governamentais.
Em seus 13 anos no poder, Chávez persegue os meios de comunicação. Retirou do ar a rede RCTV em 2007 e, em 2010, o canal a cabo a que ela se resumira. Outra rede de TV aberta, a Globovisión, foi multada no equivalente a R$ 4 milhões por mostrar uma fuga de uma penitenciária superlotada. Enquanto os meios privados são perseguidos, a mídia estatal, que só veicula o que é de interesse do Palácio Miraflores, não para de crescer. A ONG Espacio Publico registrou 203 ataques a jornalistas no país em 2011.
São chavistas Rafael Correa, no Equador, e Evo Morales, na Bolívia, entre outros. No Equador, o Congresso debate uma nova Lei de Comunicação que reduz a participação privada na área de rádio e TV de 85% para 33%, abrindo espaço para a mídia estatal e "comunitária". Enquanto o projeto tramita, Correa , nas últimas duas semanas, tirou do ar cerca de 20 emissoras de rádio no país. Seu governo também proibiu ministros e autoridades de dar entrevistas a jornalistas de veículos considerados "não confiáveis".A imprensa independente passa, também, por maus momentos na Argentina, pois a dinastia K - alérgica a críticas -, influenciada por Chávez, declarou guerra aos dois principais grupos de comunicação independentes, "Clarín" e "La Nación". O Congresso, sob controle kirchnerista, aprovou a Lei de Meios com, entre outros, o objetivo de obrigar as empresas a se desfazer de veículos em nome da desconcentração do setor. Na verdade, uma ferramenta para enfraquecê-las.
Outro jogo bruto, com armas de fato, é jogado no México, onde os cartéis atacam empresas de comunicação, sequestram e matam jornalistas, numa situação que lembra a Colômbia da década de 90. Nos últimos dias, dois jornais mexicanos foram alvo de atentados dos cartéis. Desde 2000, 81 jornalistas foram mortos e 16, sequestrados no México.Tanto quanto o chavismo, em todas suas versões, o crime organizado ameaça a democracia na América Latina. Por caminhos diversos, visam ao mesmo alvo. Não é por acaso que as Farc colombianas se associaram aos carteis de traficantes.
Um convite a Contardo Calligaris - BARBARA GANCIA
FOLHA DE SP - 13/07
Alguém consegue explicar a má vontade dos médicos tapuias em relação aos Alcoólicos Anônimos?
A COLUNA do Contardo Calligaris de ontem, que menciona seu amigo alcoólatra estimulado a voltar a beber pela mulher foi um clássico. Um clássico equívoco a ser evitado.
Costumo ler o Contardo de joelhos. Mas não ontem. Ali ele trivializou um assunto que não só conheço bem, como sou testemunha diária dos efeitos devastadores que produz, inclusive pela negligência com que é tratado. Não dá para entender a má vontade dos profissionais do país com os Alcoólicos Anônimos, uma irmandade reconhecida no mundo todo pelos excelentes serviços que presta.
O texto de Calligaris me remeteu ao hepatologista de Tarso de Castro, que chegou ao cúmulo de liberar o jornalista, dependente, para tomar uma taça de vinho ao dia.
Não sou especialista, apenas alguém que padece de uma doença que a Organização Mundial da Saúde define como "incurável, progressiva e mortal". E posso atestar que o texto serviu de luva para reafirmar o propósito de que problemas relativos ao álcool devem ser tratados dentro da sala dos Alcoólicos Anônimos, bem longe do divã do psicanalista.
Veja. Quem conhece minimamente os 12 Passos dos AA sabe que o programa não oferece garantias. Mas, a dada altura, por negligência ou mero infortúnio, Contardo diz o seguinte: "O homem frequentou os AA e deu certo". Ora, para nós, membros dos AA, ao contrário, o programa funciona, se muito, "só por hoje", nunca "dá certo", inexiste esse conceito. Eu posso voltar à ativa daqui a 20 minutos, corro esse risco, é da natureza da doença.
Um dos maiores predicados dos AA, inclusive, é esse. O de me colocar o tempo todo no presente para que eu consiga reduzir a angústia que a lembrança do passado me traz e diminuir a ansiedade que o peso do futuro pode vir a me causar.
Mas de que importa a filosofia dos AA? Bom mesmo é teorizar, não é para isso que serve psiquiatra? Calligaris menciona ainda que, aconselhado pelo seu grupo, o sujeito passou por uma "internação de um ano". De onde tirou um absurdo desses, só Deus sabe. Internação longa nos AA? Em 20 anos de Alcoólicos Anônimos nunca vi essa picaretagem. Aliás, é cada vez mais comum no país a prática criminosa da internação longa que isola o dependente da família e coloca o médico como intermediário todo-poderoso, sem que ninguém fiscalize.
Adoro ler o Contardo, ele me explica muitas coisas. Mas não me explica tudo. A psicanálise é aleijada da dimensão espiritual, um caminho muito indicado, senão imprescindível, para alguém como eu, que produz pouca endorfina, dopamina e outros opiatos naturais por conta dos anos que passei mamando destilados. Jung já advertia sobre isso a Bill e Bob, os dois sujeitos que fundaram os Alcoólicos Anônimos. Está documentado.
Fico me perguntando a quem Calligaris refere os casos mais graves de dependência. Não gosto nem de pensar na resposta. Em todo caso, uma atividade não interfere na outra, não é mesmo? O colunista é um, o médico é outro. Vamos deixar assim.
E deixar também um convite para que o amigo Contardo venha assistir a qualquer próxima edição que eu for dar da palestra "Do Fundo da Garrafa ao Domínio da Minha Vida", em que conto um pouco sobre meu trágico envolvimento com o álcool e como consegui sair desse inferno. Quem sabe ele não se anima a vir conhecer uma sala dos AA por dentro? Só por hoje. Funciona.
Costumo ler o Contardo de joelhos. Mas não ontem. Ali ele trivializou um assunto que não só conheço bem, como sou testemunha diária dos efeitos devastadores que produz, inclusive pela negligência com que é tratado. Não dá para entender a má vontade dos profissionais do país com os Alcoólicos Anônimos, uma irmandade reconhecida no mundo todo pelos excelentes serviços que presta.
O texto de Calligaris me remeteu ao hepatologista de Tarso de Castro, que chegou ao cúmulo de liberar o jornalista, dependente, para tomar uma taça de vinho ao dia.
Não sou especialista, apenas alguém que padece de uma doença que a Organização Mundial da Saúde define como "incurável, progressiva e mortal". E posso atestar que o texto serviu de luva para reafirmar o propósito de que problemas relativos ao álcool devem ser tratados dentro da sala dos Alcoólicos Anônimos, bem longe do divã do psicanalista.
Veja. Quem conhece minimamente os 12 Passos dos AA sabe que o programa não oferece garantias. Mas, a dada altura, por negligência ou mero infortúnio, Contardo diz o seguinte: "O homem frequentou os AA e deu certo". Ora, para nós, membros dos AA, ao contrário, o programa funciona, se muito, "só por hoje", nunca "dá certo", inexiste esse conceito. Eu posso voltar à ativa daqui a 20 minutos, corro esse risco, é da natureza da doença.
Um dos maiores predicados dos AA, inclusive, é esse. O de me colocar o tempo todo no presente para que eu consiga reduzir a angústia que a lembrança do passado me traz e diminuir a ansiedade que o peso do futuro pode vir a me causar.
Mas de que importa a filosofia dos AA? Bom mesmo é teorizar, não é para isso que serve psiquiatra? Calligaris menciona ainda que, aconselhado pelo seu grupo, o sujeito passou por uma "internação de um ano". De onde tirou um absurdo desses, só Deus sabe. Internação longa nos AA? Em 20 anos de Alcoólicos Anônimos nunca vi essa picaretagem. Aliás, é cada vez mais comum no país a prática criminosa da internação longa que isola o dependente da família e coloca o médico como intermediário todo-poderoso, sem que ninguém fiscalize.
Adoro ler o Contardo, ele me explica muitas coisas. Mas não me explica tudo. A psicanálise é aleijada da dimensão espiritual, um caminho muito indicado, senão imprescindível, para alguém como eu, que produz pouca endorfina, dopamina e outros opiatos naturais por conta dos anos que passei mamando destilados. Jung já advertia sobre isso a Bill e Bob, os dois sujeitos que fundaram os Alcoólicos Anônimos. Está documentado.
Fico me perguntando a quem Calligaris refere os casos mais graves de dependência. Não gosto nem de pensar na resposta. Em todo caso, uma atividade não interfere na outra, não é mesmo? O colunista é um, o médico é outro. Vamos deixar assim.
E deixar também um convite para que o amigo Contardo venha assistir a qualquer próxima edição que eu for dar da palestra "Do Fundo da Garrafa ao Domínio da Minha Vida", em que conto um pouco sobre meu trágico envolvimento com o álcool e como consegui sair desse inferno. Quem sabe ele não se anima a vir conhecer uma sala dos AA por dentro? Só por hoje. Funciona.
A hora de julgar - LUIZ GARCIA
O GLOBO - 13/07
Começa em agosto o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. É uma boa notícia, embora cidadãos comuns possam perguntar por que demorou tanto. E muita gente distraída possa acrescentar: o que é mesmo esse tal mensalão?
Talvez seja um caso de memória curta; mas com certeza também estamos diante de mais um exemplo de que a Justiça no Brasil pode ter nível aceitável de eficiência, mas às vezes move-se com uma lentidão, digamos, desagradável. Ela tarda, mas não falha, dizem seus defensores, e costumam ter razão. Mas não haverá uma poção que transforme a tartaruga em lebre? Quando isso obviamente servir ao interesse público?
Seja como for, vale a pena lembrar esse curioso episódio, de sete anos atrás. Começou com uma denúncia de corrupção, feita pelo então presidente do PTB, Roberto Jefferson, para se vingar de um processo, também por corrupção, que atingia petebistas ocupando cargos importantes nos Correios. Ou seja: em vez de defender seus colegas de partido, ele preferiu—talvez porque eles fossem indefensáveis? — mostrar que a ladroagem era generalizada em Brasília.
E Jefferson mostrou mesmo. O país ficou sabendo que deputados federais recebiam uma mesada, proveniente de fundos nunca identificados, paravota-rem a favor de projetos de interesse do governo Lula. Nasceu daí o termo “mensalão”, que agora voltou às manchetes.
Sete anos parecem ser tempo suficiente — ou tempo demais, na opinião de cidadãos dotados de alguma preocupação com a lentidão da Justiça no Brasil — para que o destino dos mensaleiros seja decidido pelo Supremo Tribunal Federal. Mesmo assim, líderes do PT, como o presidente do partido, Rui Falcão, e o presidente da Câmara, Marco Maia, têm sustentado que o julgamento deveria ser adiado para depois das próximas eleições.
Alguns observadores ingênuos podem argumentar que, muito pelo contrário, a decisão da Justiça pode ser bastante esclarecedora, no que se refere à decisão de voto do eleitorado este ano. Também parece válido o argumento de que deixar a decisão do STF para depois das eleições seria dar aos réus que são candidatos uma vantagem que não merecem, caso sejam culpados.
E o julgamento da Justiça certamente pode servir para dar ao eleitor elementos para uma decisão de voto com, digamos assim, suficiente conhecimento de causa. No fim das contas, se os réus são inocentes, como alega o PT, a absolvição seria, com certeza, favorável àqueles que são candidatos.
E uma condenação, com mais certeza ainda, ajudaria os cidadãos a não desperdiçarem seus votos.
Começa em agosto o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal. É uma boa notícia, embora cidadãos comuns possam perguntar por que demorou tanto. E muita gente distraída possa acrescentar: o que é mesmo esse tal mensalão?
Talvez seja um caso de memória curta; mas com certeza também estamos diante de mais um exemplo de que a Justiça no Brasil pode ter nível aceitável de eficiência, mas às vezes move-se com uma lentidão, digamos, desagradável. Ela tarda, mas não falha, dizem seus defensores, e costumam ter razão. Mas não haverá uma poção que transforme a tartaruga em lebre? Quando isso obviamente servir ao interesse público?
Seja como for, vale a pena lembrar esse curioso episódio, de sete anos atrás. Começou com uma denúncia de corrupção, feita pelo então presidente do PTB, Roberto Jefferson, para se vingar de um processo, também por corrupção, que atingia petebistas ocupando cargos importantes nos Correios. Ou seja: em vez de defender seus colegas de partido, ele preferiu—talvez porque eles fossem indefensáveis? — mostrar que a ladroagem era generalizada em Brasília.
E Jefferson mostrou mesmo. O país ficou sabendo que deputados federais recebiam uma mesada, proveniente de fundos nunca identificados, paravota-rem a favor de projetos de interesse do governo Lula. Nasceu daí o termo “mensalão”, que agora voltou às manchetes.
Sete anos parecem ser tempo suficiente — ou tempo demais, na opinião de cidadãos dotados de alguma preocupação com a lentidão da Justiça no Brasil — para que o destino dos mensaleiros seja decidido pelo Supremo Tribunal Federal. Mesmo assim, líderes do PT, como o presidente do partido, Rui Falcão, e o presidente da Câmara, Marco Maia, têm sustentado que o julgamento deveria ser adiado para depois das próximas eleições.
Alguns observadores ingênuos podem argumentar que, muito pelo contrário, a decisão da Justiça pode ser bastante esclarecedora, no que se refere à decisão de voto do eleitorado este ano. Também parece válido o argumento de que deixar a decisão do STF para depois das eleições seria dar aos réus que são candidatos uma vantagem que não merecem, caso sejam culpados.
E o julgamento da Justiça certamente pode servir para dar ao eleitor elementos para uma decisão de voto com, digamos assim, suficiente conhecimento de causa. No fim das contas, se os réus são inocentes, como alega o PT, a absolvição seria, com certeza, favorável àqueles que são candidatos.
E uma condenação, com mais certeza ainda, ajudaria os cidadãos a não desperdiçarem seus votos.
FUSO HORÁRIO - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 13/07
A reforma no Consulado da China, na rua Estados Unidos, nos Jardins, está tirando o sono dos vizinhos. A associação do bairro, a AME Jardins, enviou reclamação à Subprefeitura de Pinheiros alegando que o barulho ultrapassa o horário de 22h e que os pedreiros trabalham inclusive aos domingos. "Tentamos contato com o consulado. Não nos atenderam. É uma falta de respeito", diz o presidente da AME, Julio Serson.
MADE IN CHINA
Um funcionário do consulado que pede para não ser identificado informa que o barulho à noite ocorre porque os materiais de construção são importados da China. Como os caminhões saem do porto de Santos, só podem circular na marginal à noite, pós-rodízio. "Conseguimos licença especial da CET para os caminhões circularem à tarde. O barulho vai parar", diz. As obras acabam em janeiro. Até o fechamento da edição, a CET não confirmou a autorização.
BALANÇA
No post "Mamãe, Saí na Folha", o colaborador da Wikipédia Chico Venâncio explicava ontem os critérios de edição do perfil do ministro do STF Gilmar Mendes. Ele tirou da enciclopédia artigo de Carlos Velloso elogiando o ex-colega. Deixou declaração de Dalmo Dallari sobre Mendes no Supremo: "Não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil e o combate à corrução". Mendes questiona os "critérios" junto à Wikipédia.
FALA, PIB
A Casa do Saber vai editar o livro "Grandes Empresários - Estilos de Gestão" a partir de entrevistas realizadas durante curso na instituição. Terá depoimentos de Abílio Diniz, Marcelo Odebrecht e Roger Agnelli, entre outros.
COM AMOR
A TV Senado exibiu anteontem troca de gentilezas entre Marta e Eduardo Suplicy. Ele pediu a fala à ex-mulher, que comandava a sessão. Elogiou o texto que ela fez sobre "Para Roma com Amor", de Woody Allen, na Folha de sábado. Discordou do leitor que acusa Marta de "falar do que não entende".
'PAITROCÍNIO'
Luiza Almeida, 20, da seleção brasileira de hipismo, está em uma das duas capas da revista "Alfa" nas bancas hoje; "não tenho patrocínio, tenho 'paitrocínio'", diz a filha de Manuel Tavares de Almeida Filho, da Velho Barreiro e do Banco Luso-Brasileiro; ela afirma que vai competir com a marca do haras do pai
MUNDO CÃO
Chegou à Câmara projeto de lei que retoma a polêmica sobre a castração e a esterilização obrigatórias de pit bulls. "É provado que é uma raça estranha, não é de confiança. Dentro de alguns anos, vamos extingui-la", diz o autor do texto, o deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP). O governo bancaria as intervenções.
COM QUEM SERÁ
A festinha de três anos de Rafaella Justus, em 5 de agosto, vai ser no Hopi Hari. O parque será fechado para a comemoração da filha caçula do publicitário Roberto Justus. Rafa se esbaldou no aniversário da mãe, Ticiane Pinheiro, festejado no parque de diversões em junho.
Vai ser montado um esquema para transportar os VIPs de SP para Vinhedo.
DÓ-RÉ-MI
O ator Marcelo Serrado teve ontem a primeira aula de piano com o maestro João Carlos Martins. Ele começa a se preparar para encarnar o protagonista do filme de Bruno Barreto sobre a vida do pianista. "Ele sabe tocar piano, mas quer aprender o meu jeito", diz Martins. As filmagens têm início em fevereiro do ano que vem. O longa deve ser lançado em Nova York em setembro de 2013.
Brinde à música
João Bosco foi homenageado no Prêmio da Música Brasileira, que ganhou versão paulistana anteontem, no Teatro Abril. Ele cantou no evento com Mariana Aydar, entre outros. O ator Murilo Rosa foi o mestre de cerimônias da noite. Entre os convidados, a atriz Marisa Orth, a cantora italiana Mafalda Minnozzi e a ceramista Sonia Matarazzo.
CURTO-CIRCUITO
O fotógrafo Hênio de Souza faz vernissage hoje da exposição "Janelas Portuguesas" na galeria de artes da Casa de Portugal, no centro, às 20h.
A festa Talco Bells, com os DJs Guilherme e Filipe Luna, Elohim Barros e Bruno Torturra, acontece hoje no Estúdio Emme, às 23h. Classificação: 18 anos.
Fabio Diniz faz happy hour em homenagem ao Dia Mundial do Rock no Rock'n Cycles Bar & Burger, no Itaim, às 18h.
André Abujamra faz show hoje com o baixista Du Moreira. Na Casa do Núcleo, em Pinheiros, às 21h. Livre.
A festa Glória Brasil estreia no domingo, no clube Glória, na Bela Vista, às 15h. Classificação: 18 anos.
A TV Brasil estreia neste mês série sobre meio ambiente batizada de "Rio+20: Ponto de Partida" pelo ministro Aloizio Mercadante, do conselho curador da EBC. Os programas vão ao ar nos intervalos.
com LÍGIA MESQUITA (interina), ELIANE TRINDADE (colaboração), ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER e OLÍVIA FLORÊNCIA
Dissertação - você tem de fazer uma! E agora? - ALEXANDRE BARROS
O ESTADÃO - 13/07
Escrever uma tese ou dissertação para um curso de pós-graduação é um dos processos mais desgastantes da vida de uma pessoa. Primeiro, orientadores costumam ser vaidosos e autoritários: fazem demandas desnecessárias, trabalhosas e desgastantes para gente que só quer cumprir seus requisitos e seguir com a vida. Segundo, a preocupação com a dissertação permeia todo o curso e todos os orientadores dizem ao candidato que tem de fazer uma dissertação, raramente explicam como chegar lá.
Alguns dizem: "Vá à biblioteca, olhe algumas teses e você verá como é". Orientação tão útil quanto dizer a qualquer um de nós que pergunte a alguém como fazer um computador e receber esta resposta: "Tire a tampa, olhe lá dentro e você saberá como fazer um computador". É claro que tais respostas não levam a nada. Ver um produto pronto não nos diz como aquele monte de metal ou de plástico virou um automóvel ou como uns pozinhos químicos misturados e comprimidos viram remédios que curam desde uma dor de cabeça até uma complexa hepatite C.
Depois de ver o sofrimento de inúmeros estudantes com esses processos e tentar ensinar-lhes o pulo do gato, descobri que o alcance que eu podia ter era muito limitado. Durante a vida posso ter influenciado algumas centenas de estudantes, mas não acredito ter chegado ao primeiro milhar.
Conversei com alunos de várias universidades do mundo e lhes perguntei: "Alguém ensinou a vocês como fazer uma dissertação?" Resposta unânime: "Não, disseram-nos que nós tínhamos de fazer uma, mas nunca ninguém nos explicou como chegar lá".
Há algum tempo eu só conhecia o YouTube (que tem só 7 anos de idade) de referências, ou de receber links para gatos que tocavam piano ou violino, ou bebês fazendo acrobacias que rivalizam com Carlitos. Um dia me perguntei: por que não? Se escrever um livro gastarei muito tempo e, com muito sucesso, venderei 5 mil exemplares, mas só com muita sorte. O impacto que o livro poderá ter será minúsculo. Que tal testar o YouTube? Gravei um vídeo simples, há pouco mais de dois anos. Será que isso compete com gatos que tocam piano? Claro que não. Agora completou 20 mil exibições. Nada comparado a bebês acrobatas, mas, certamente, muito mais do que um livro. Benefícios adicionais: é grátis, todos podem ver, é infinitamente repetível. Não gasta papel nem tinta.
Recebi muitas mensagens, a maioria de estudantes agradecidos porque o vídeo lhes tirou um grande peso das costas. Nem todos gostaram. Uma moça me disse que punha o vídeo para adormecer seu bebê, de tão chato que era. Serendipity: feito para facilitar a vida de quem tinha de escrever uma dissertação, servia também para adormecer bebês! Como tudo o que se diz, escreve ou publica, cada um lê, ouve ou usa como bem lhe parece.
Após um ano, resolvi fazer um segundo. O primeiro era sobre como se relacionar com o orientador. O segundo, sobre como organizar ideias e material, enfatizando principalmente que quem ia escrever a dissertação tinha ideias e elas eram boas, o que raros orientadores dizem a seus estudantes. O propósito era duplo: ensinava e dava uma injeção de otimismo e segurança psicológica.
Também dei aulas sobre o método. Durante uma aula, um estudante me disse: "Professor, do jeito que o senhor ensina fica tão fácil que parece até conto do vigário". Respondi: "É fácil mesmo. Os orientadores complicam para resolver problemas psicológicos deles, pouco importando o dano que isso possa causar aos alunos".
Testei outra ideia: muitas cabeças pensam melhor e mais criativamente que poucas. O método era baseado em livre associação de ideias. Um aluno questionou: "Professor, o senhor acha que funcionaria se cada um de nós, perante a turma, dissesse sobre o que pretende fazer a sua dissertação e ouvisse as ideias dos colegas?" Ponderei que nunca tinha tentado, mas não custaria experimentar. Foi um sucesso. Cada um chegava lá, dizia seu tema e os colegas eram convidados a escrever em diversos papéis soltos os vários aspectos que abordariam se tivessem de fazer uma dissertação sobre aquele tema. Cada aluno saiu com uma pilha de ideias fornecidas pelos colegas e o trabalho dali para a frente era pôr todas aquelas ideias em ordem, usar as importantes e descartar as supérfluas.
Todos os estudantes fizeram isso e a produtividade aumentou muito. Princípio básico do capitalismo: se cada um contribuir um pouco, o produto final pode ser melhor e maior.
Tecnologias modernas podem ser um complemento para tecnologias antigas. Testar inovação, sobretudo se o preço for barato ou tender a zero, como é o custo de fazer e colocar um vídeo no YouTube, vale. Esta é a beleza do mercado: milhares de pessoas tomarão decisões independentemente de procurar, achar, decidir se vão ou não ver um vídeo, gostar ou não gostar, aproveitar ou não. Cada uma verá com os seus olhos, através de suas lentes, e fará o uso que bem entender.
Guttenberg não estava fazendo uma revolução quando inventou a imprensa, apenas produzindo um modo diferente de disseminar ideias. Outros usaram como bem entenderam e a imprensa trouxe progresso. James Watt também não estava fazendo uma revolução quando descobriu que o vapor podia ser usado para tocar máquinas. O mercado adaptou, para melhor. Depois chamou aquilo de Revolução Industrial, um nome mais elegante para um conjunto de técnicas que tornaram a vida das pessoas melhor.
Não tenho essa ambição, apenas fico feliz por saber que alguns estudantes estarão sofrendo menos porque decidi testar uma tecnologia nova para um propósito que me pareceu razoável. Se deu certo, tanto melhor, reforça o meu sentimento de ser um otimista a respeito do futuro da humanidade.
Rodízio! O Porco é campeão! - JOSÉ SIMÃO
Rodízio! O Porco é campeão! - José Simão
FOLHA DE SP - 13/07
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Corinthians Libertadores e Palmeiras Campeão. Onde é que aperta o botão do fim do mundo? Uma onda vai invadir tudo. Rarará! Parmera Campeão. Depois de dois séculos! Fogos com cheiro de mofo. São Paulo tá com cheiro de mofo até agora! Haja Porcoração! O Coritiba é Coxa e o Palmeiras é porco! Coxa, porco. É rodízio de carne ou futebol? Chupa, Coxa! Chupa, Porco! Chupacabra! E Chupa Demóstenes! Como disse um cara no meu Twitter: "Coxa hoje só da Gabriela mesmo". Rarará! E sabe o que uma palmeirense me disse? "Não estamos soltando muitos fogos aqui no Morumbi. Respeitamos o sono dos bambis." Rarará! E o Debóchenes! Diz que vai voltar em 2027. E vai dar de cara com o Sarney. Sentado na mesma cadeira. Firme e fortão! O Sarney é cenário do Senado!
E essa bomba: "Ex-marido da mulher do Cachoeira deve assumir vaga no Senado". Isso que se chama EFEITO CASCATA! Vai dar merda! Tudo que é ex dá problema: ex-mulher, ex-amante! E o cara é secretário de Infraestrutura de Goiás e dono de uma construtora. Pode, Arnaldo? Pode! Ele se contrata. Ele passa e-mail pra ele mesmo! Rarará! E adorei o torpedo que a afilhada mandou pelo celular pro careca Demóstenes: "Força na Peruca! A família unida com o senhor. Bjos". O quê? Força na peruca? Até a afilhada debochou? Que gente é essa? Além de ser cassado, levou uma zoada da afilhada! Não foi um bom dia mesmo. Então por isso que cassaram ele, foi sem peruca. Esqueceu a peruca em casa! Rarará! E a votação secreta: 59 senadores votaram "sim". Mas todos os senadores resolveram divulgar o voto no Twitter. Aí um amigo meu contou os votos divulgados e deu 70 votos "sim". Rarará! O cara votou não no Congresso e sim no Twitter! Rarará! Sobrou pro São Paulo! Sobrou pros Bambis! Corinthians Libertadores. Palmeiras campeão brasileiro. Santos campeão paulista! E o São Paulo? Terra da Garoa. Rarará! E o São Paulo? A maior cidade da América Latina. E o São Paulo? Vai ter show da Lady Gaga no Morumbi em novembro! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E essa bomba: "Ex-marido da mulher do Cachoeira deve assumir vaga no Senado". Isso que se chama EFEITO CASCATA! Vai dar merda! Tudo que é ex dá problema: ex-mulher, ex-amante! E o cara é secretário de Infraestrutura de Goiás e dono de uma construtora. Pode, Arnaldo? Pode! Ele se contrata. Ele passa e-mail pra ele mesmo! Rarará! E adorei o torpedo que a afilhada mandou pelo celular pro careca Demóstenes: "Força na Peruca! A família unida com o senhor. Bjos". O quê? Força na peruca? Até a afilhada debochou? Que gente é essa? Além de ser cassado, levou uma zoada da afilhada! Não foi um bom dia mesmo. Então por isso que cassaram ele, foi sem peruca. Esqueceu a peruca em casa! Rarará! E a votação secreta: 59 senadores votaram "sim". Mas todos os senadores resolveram divulgar o voto no Twitter. Aí um amigo meu contou os votos divulgados e deu 70 votos "sim". Rarará! O cara votou não no Congresso e sim no Twitter! Rarará! Sobrou pro São Paulo! Sobrou pros Bambis! Corinthians Libertadores. Palmeiras campeão brasileiro. Santos campeão paulista! E o São Paulo? Terra da Garoa. Rarará! E o São Paulo? A maior cidade da América Latina. E o São Paulo? Vai ter show da Lady Gaga no Morumbi em novembro! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
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