terça-feira, julho 10, 2012
O valor da confiança - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 10/07
A grande crise econômica em curso tem, como se sabe, uma variante econômica e outra financeira. Elas se combinam de modo simbiótico, de tal forma que o nível de atividades - melhor dizendo, suas perspectivas - influencia o comportamento das finanças. E este, de seu lado, produz impactos decisivos no desempenho dos negócios. Não poderia ser diferente numa economia global financeirizada, como a que foi construída nas últimas quatro décadas.
Ter essa realidade em mente permite entender que, enquanto o sistema bancário financeiro não recuperar a credibilidade perdida em diversos episódios de manipulação de mercado, que vieram à tona na esteira do desmoronamento dos esquemas de investimento em ativos subprime, não haverá hipótese de recuperação econômica sustentável.
É nesse sentido que o caso da manipulação da taxa interbancária de Londres, revelado em fins de junho, engrossa o caldo indigesto das fraudes que ajudaram a tornar esta crise um episódio moral peculiar na alentada história das crises econômicas.
Os observadores mais agudos já se deram conta de que a manipulação da Libor (London inter-bank offered rate), ocorrida pelo menos entre 2005 e 2009, cujo impacto negativo ainda se restringe ao mercado inglês e ao banco inglês Barclays, tem potencial para se espalhar e contaminar outros centros, claro que não na proporção e na intensidade da quebra do Lehman Brothers, mas com efeitos nada desprezíveis.
Não seria por falta de outros assuntos que a famosa The Economist dedicou seis páginas da edição desta semana - um editorial, uma coluna opinativa e a reportagem de abertura da revista - ao Libor scandal.
Taxa de referência mais usada em todo o mundo, a Libor é a base dos juros aplicados aos mais variados contratos financeiros - da mais complexa operação de derivativos às simples taxas cobradas nos cartões de crédito.
Ela estaria presente em instrumentos financeiros que, ao redor do mundo, envolveriam quantias estimadas no mínimo em US$ 500 trilhões. A Libor, em resumo, afeta todo mundo.
Com seus três séculos de existência, o vetusto Barclays é apenas o primeiro entre os bancos sob investigação, mas o número total deles pode chegar a duas dezenas entre os maiores do mundo, não só no Reino Unido, mas também nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Suíça e Japão. Gigantes como Citigroup, JP Morgan Chase, UBS, Deutsche Bank e HSBC estão na roda.
O escândalo, que já resultou na renúncia dos três principais dirigentes do Barclays, consistia em manipular a Libor para baixo, com o objetivo de dar a falsa impressão de que o mercado de financiamento interbancário não apresentava problemas de liquidez ou solvência, pouco antes e no período mais agudo da crise financeira. A prática era possível pelo método de cálculo da Libor, mas, como as investigações começam a apontar, não teria êxito sem a participação de outros bancos e a conivência do Banco da Inglaterra e de órgãos reguladores.
Com crescente importância para as finanças internacionais a partir de fins dos anos 60, a Libor é formada, diariamente, com base numa amostra de taxas declaradas que serão pagas em operações relevantes, no dia, por uma dúzia e meia de grandes bancos. Do conjunto enviado a um painel, são eliminadas as 25% taxas mais altas e as 25% mais baixas, calculando-se então a média das 50% restantes.
O problema é que o sistema de cálculo prevê a utilização da taxa declarada pela instituição - não a que efetivamente será paga. A presunção era a de que os bancos diziam a verdade e que, enfim, um fiscalizava o outro. Na fórmula atual, está claro, a Libor é um morto-vivo.
Uma das consequências esperadas para as fraudes com a Libor, além da mudança na fórmula de cálculo, é uma enxurrada de ações de perdas e danos da parte de investidores que se sintam lesados. Já há quem esteja prevendo, como ressalta a Economist, um grave "momento tabaco" para os bancos, referência às milhares de ações de fumantes contra a indústria de tabaco americana, em fins da década de 90. Para os bancos, pode ser muito pior.
Mais importantes do que os custos pecuniários da fraude serão as consequências institucionais. Afetados pelas ações judiciais em sua parte mais sensível - os ganhos do negócio -, os bancos e seus dirigentes talvez possam entender com mais facilidade que sem a confiança de seus clientes eles valem muito pouco.
Penduricalhos inúteis - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 10/07
SÃO PAULO - Acho que estava em férias ou algo assim, mas comi mosca. Foi só no finalzinho da semana passada que descobri que o Brasil passara os últimos 12 meses como um país onde se censuram obras de ficção. Minha decepção só não foi maior porque tomei conhecimento do caso ao ler que um juiz federal reverteu a liminar que ele próprio concedera um ano atrás e finalmente liberou a exibição de "A Serbian Film" em todas as salas do país.
O pedido de proibição veio do Ministério Público Federal em Minas (o mesmo que tentou censurar o dicionário "Houaiss"), devido a tomadas "que simulam a participação de recém-nascido em cena de sexo explícito ou pornográfica, além das que mostram sexo explícito, crueldade, elogio/banalização da violência, necrofilia, tortura, suicídio, mutilação, agressão no ambiente familiar".
Como não vi o filme, não posso julgar sua qualidade artística, mas sei que nada disso é muito original. Em "As 11 Mil Varas", o escritor Guillaume Apollinaire perpetra isso tudo e mais um pouco e o texto é hoje considerado um clássico da literatura.
Quem não gosta de ver esse gênero de coisa tem toda liberdade de não ir ao cinema, mas o Estado brasileiro, nos termos dos artigos 5º e 220 da Carta, abriu mão do poder de censurar todo tipo de expressão artística.
Sei que não existem direitos absolutos, mas a liberdade de expressão só faz sentido se for afirmada numa forma robusta. Ninguém, afinal, precisa de licença ou autorização para dizer ou mostrar o que todos querem ouvir e ver. Ou bem o instituto existe para abarcar casos como o de "A Serbian Film", ou ele se torna um penduricalho inútil na legislação.
E a liberdade de expressão, nunca é demais insistir, é importante porque, ao assegurar que todos os temas possam ser discutidos e sob todas as perspectivas, ajuda a sociedade a encontrar o balanço entre mudança e estabilidade, entre a saudável contestação e o necessário consenso.
Colonos suíços - XICO GRAZIANO
O ESTADÃO - 10/07
Em junho de 1855, uma leva de imigrantes suíços aportou em Santos, vinda no navio Kronprinz Ernest August. A bordo estava o mestre-escola Thomas Davatz. Eles traziam na bagagem a esperança de se tornar, muito antes dos italianos, colonos do café. Fascinante história.
A incrível jornada da primeira imigração europeia destinada ao trabalho nas lavouras cafeeiras começou, formalmente, em 1847. Essa é a data de fundação da Colônia Senador Vergueiro, um empreendimento promovido na Fazenda Ibicaba, situada no município paulista de Limeira. A inovadora ideia criaria, por um século, um regime agrário único: o colonato paulista.
No contrato, escrito, de parceria oferecido aos imigrantes residia a grande novidade do sistema Vergueiro. O pioneiro termo estabelecia certo número de pés de café para cada família zelar, desde o plantio até a colheita. Esta se repartiria entre o colono e o fazendeiro. Facultava-se ainda o plantio de gêneros alimentícios no entremeio da lavoura principal, quando ainda nova, ou em áreas marginais da propriedade. Todas as transações se registrariam em cadernetas. Nomeavam-se árbitros que, em reuniões públicas, resolviam as dúvidas porventura surgidas entre as partes contratantes.
Fazendeiros tradicionais, acostumados com as regras rígidas da escravatura, e culturalmente formados no modelo latifundiário nordestino, achavam liberal demais a proposta Vergueiro. Mas a busca de braços livres agradou no Velho Mundo. Ela oferecia uma espécie de eldorado aos camponeses europeus, começando por aqueles que viviam miseravelmente nos Alpes suíços.
Naquela época, tendo entrado pelo Vale do Paraíba, do Rio de Janeiro rumo a São Paulo, os cafezais começavam a se estabelecer nas terras roxas da região de Campinas. Por ali se estabeleceram também as primeiras famílias de imigrantes, retratadas genuinamente nas Memórias de um Colono no Brasil, livro escrito em 1858 por quem vivenciou aquela jornada: o suíço Thomas Davatz.
Ele relatou a labuta diária, os sonhos e os pesadelos da sua gente, que trocou a pátria-mãe buscando o progresso no além-mar. Seu livro representa um extraordinário depoimento, único na historiografia nacional, sobre as condições de vida dos primeiros imigrantes que chegaram para trabalhar na formação da economia cafeeira de São Paulo. Emociona o leitor moderno.
Davatz começa por descrever os aspectos singulares da nova terra para onde vieram seus patrícios trabalhar. Impressionam-no as enxurradas no verão, a força vegetativa da terra, as doenças que os ameaçam, pernilongos e abelhas que os picam, cobras, formigas saúvas. Destaca o "perigo" do desconhecido bicho-de-pé, larvas que lhes provocam ferimentos doloridos embaixo das unhas. Vida de Jeca Tatu.
É realmente fantástico. Imaginem, há 157 anos, desembarcarem por aqui alvos povos acostumados ao gelo das montanhas, destinados a enfrentar as vicissitudes da Mata Atlântica, carpindo e colhendo café junto com escravos, morando em taperas corroídas pelo quente e úmido clima tropical. Um agravante: boa parte deles nem sequer tinha experiência na lida da terra.
Atesta o historiador Sérgio Buarque de Holanda, tradutor do livro de Davatz. No rico prefácio da obra ele esclarece que, em certo sentido, havia uma política de verdadeira depuração nacional nos países de origem, que empurravam para a fila dos navios não apenas camponeses de fato, mas gente de todo tipo, incluindo bandidos e idosos, deficientes e desocupados. Não seria fácil seu destino.
O martírio começava no desembarque do navio. Tudo precaríssimo. Nem a Hospedaria dos Imigrantes, construção famosa décadas mais tarde, fora ainda erguida. Recepcionados no pátio, ali receberiam as instruções sobre a fazenda onde se fixariam. Dura viagem. O grupo suíço de Davatz levou 17 dias, desde a subida da Serra do Mar até a Fazenda Ibicaba, marchando a pé, somente as crianças nas cestas das mulas, em carros de boi a caravana. Uma epopeia.
Alguns navios os trouxeram. Ao todo, seguindo a receita da parceria de Vergueiro para o café, 26 colônias se instalaram em fazendas situadas nos municípios de Limeira, Rio Claro, Campinas, Amparo, Jundiaí, Pirassununga e Piracicaba. Nelas residiam, segundo levantamento da época, 251 famílias de suíços, com ascendência alemã ou francesa, um contingente de 1.180 pessoas. Maior que o de alemães, belgas ou portugueses, companheiros de ilusão.
Afora as angústias da mente, saudosa do berço original, e os sofrimentos da carne, advindos do árduo trabalho na roça, surgiram desconfianças financeiras entre os colonos e o patrão. Que cresceram com frustrações na colheita. Uma sequência de ameaças e mal-entendidos criou um caldo efervescente que resultou num dos fatos históricos mais surpreendentes, e desconhecidos, da época do café: a Revolta de Ibicaba.
Na véspera do Natal de 1856, um grupo de 85 colonos suíços, liderados por Davatz, pegou em armas para protestar. Sua narrativa descreve em detalhes "o levante dos colonos contra seus opressores". Mas há controvérsias sobre o ocorrido. Outros personagens depõem contra o comportamento intolerante de Davatz. Encrenqueiro era sua fama.
Não houve tiros, nem violência. Mas acabara ali, naquela grita de Ibicaba, a experiência de parceria no café que trouxera ao Brasil, pioneiramente, os suíços. Assustaram-se os europeus com o episódio, suspendendo os embarques. Parecia propaganda enganosa.
Quem veio permaneceu. E, duramente, venceu. Essa é a origem, entre nós, dos Heitzmann, Schmidt, Altmann, Lutz, Rupert, colonos suíços que ajudaram a construir a riqueza do Brasil. Vinte anos depois, chegaram os italianos.
Cronistas e colunistas - CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 10/07
RIO DE JANEIRO - Leitores perguntam por que me considero "cronista" -e não "colunista"- dos jornais e revistas que me aturam há alguns anos de atividade profissional.
Os manuais de Redação adotados em quase todos os veículos impressos consideram como "colunas" qualquer texto assinado, opinativo e periódico, apesar de aceitarem a distinção entre "colunista" e "articulista". Este é um convidado ou colaborador que oferece seu trabalho para publicação.
Independente da qualidade dos textos, a crônica é um gênero literário, seu espaço natural é o jornal, o livro, o rádio e até a televisão. João Saldanha, que era multimídia, sempre fazia crônica, mesmo quando escrevia para jornais. No mesmo caso estão Nelson Rodrigues, Janio de Freitas, Ruy Castro, José Simão e muitos outros.
Colunistas foram, no passado, Ibrahim Sued, Zózimo, Tavares de Miranda e outros que assinavam colunas fixas sobre pautas determinadas pelo editorial de cada veículo.
Há colunistas que cobrem política, polícia, sociedade, esportes, culinária, economia, teatro,cinema, música, artes plásticas etc. São opinativos e/ou informativos. Noticiam ou comentam fatos ou quase fatos, inclusive fofocas. Trabalham com equipes buscando as necessárias fontes. Editam o material recolhido pela equipe ou recebido diretamente de interessados.
O colunista de televisão não emitirá opinião ou informação sobre a crise do euro ou a demarcação de terras indígenas.
O colunista internacional não comentará nem noticiará a ida da Fátima Bernardes para outro programa ou a demissão de um delegado da Polícia Federal. Sem compromisso com qualquer assunto, um cronista, como mal me considero, poderá falar de tudo, inclusive da falta de assunto.
Infraestrutura ruim e cara - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 10/07
Insuficientes, e em boa parte mal aplicados, os investimentos públicos em infraestrutura de transportes não estão conseguindo evitar o agravamento dos problemas enfrentados pelo setor produtivo para escoar suas mercadorias, o que impõe perdas cada vez maiores à economia brasileira e reduz ainda mais sua competitividade.
Recente estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estimou que as más condições das estradas, a pequena capacidade das ferrovias, a burocracia e o sucateamento dos portos e o custo de armazenagem impõem à indústria paulista gastos adicionais de R$ 17 bilhões por ano. Estudo mais amplo da Fundação Dom Cabral, abrangendo todo o País e todos os setores econômicos, concluiu que a falta de investimentos públicos em logística (transporte e armazenagem) provoca perdas anuais de US$ 80 bilhões para as empresas brasileiras.
O valor, como lembrou o coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, em entrevista ao jornal Brasil Econômico (5/7), corresponde a 4% do PIB e, coincidentemente, ao volume de recursos que o Brasil precisa investir para eliminar os gargalos logísticos. Mas, como lembrou Resende, nos últimos 30 anos a média de investimentos ficou em apenas 1,5% do PIB.
Outros países investem muito mais. Há algum tempo, o Estado mostrou - com base em estudo do economista Claudio Frischtak, de uma empresa privada de consultoria - que, entre 2003 e 2010, a China ampliou os investimentos em infraestrutura do equivalente a 7,3% do PIB para 13,4%. A Índia investe 6% do PIB, a Tailândia aplica cerca de 15% do PIB em logística há oito anos e o Vietnã investe 11%.
Os investimentos no Brasil não são apenas inferiores às necessidades do País. São também mal aplicados. Uma de suas características é a forte concentração no setor rodoviário, que absorve mais da metade do total destinado pelo governo a transportes, e, assim mesmo, as estradas federais continuam muito ruins. Os outros modais, como ferrovias, metrô, aeroportos, portos e hidrovias, ficam com o que sobra. Mercadorias que poderiam ser transportadas a custos bem inferiores por ferrovias ou hidrovias circulam pelo País sobre caminhões.
Além disso, a utilização dos recursos, sobretudo na esfera federal, tem sido marcada por frequentes denúncias de desvios, irregularidades ou corrupção. E, quando as normas da correta administração financeira são observadas com rigor, verifica-se, como lembrou Resende, que faltam projetos, o planejamento é ruim e as obras demoram para começar e, sobretudo, para terminar. O resultado é o atraso sistemático na execução dos projetos de infraestrutura.
Uma simples comparação dá ideia de como os projetos são executados no Brasil e na China, que em pouquíssimo tempo ampliou sua infraestrutura logística para atender ao vertiginoso crescimento da sua economia nos últimos anos. Em três anos, o gigante asiático construiu uma ferrovia de 2 mil quilômetros em região montanhosa; no Brasil, a Ferrovia Norte-Sul, de 2,3 mil quilômetros (com a inclusão da Transnordestina e da Ferronorte), iniciada em 1987 e prometida pelo governo Lula para 2010, não tem data para conclusão.
A Fundação Dom Cabral estima que, no Brasil, os gastos das empresas com transporte de cargas alcançam 12% do PIB, mais do que se gasta na China (8%) e na África do Sul (9%). Com os investimentos que estão sendo feitos nesses países, o custo deve cair para cerca de 7% do PIB. No Brasil, por causa da escassez de investimentos, há o risco de o custo chegar a 20% do PIB nos próximos anos.
Por causa da falta de investimentos, a infraestrutura de transportes não evoluiu na mesma velocidade que a economia. Em termos relativos, é como se ela estivesse submetida a um processo ininterrupto de deterioração. Nessa área, o Brasil caminha para trás.
Se a esses custos logísticos crescentes se somarem outros - como o da burocracia, dos impostos, de insumos como energia elétrica e os financeiros -, será possível entender melhor por que o Brasil vem perdendo competitividade e por que é cada vez mais difícil produzir no País.
Um bom susto - LUIZ GARCIA
O GLOBO - 10/07
0 Brasil tem um índice de criminalidade alto ou baixo? Não é uma pergunta com fácil resposta.
A comparação com outros países não vale: entram em questão dados como extensão do território, população, prosperidade e pobreza e mais um caminhão de variáveis. Pode-se comparar o país de hoje com o de ontem e ainda assim cabe discutir qual é o “ontem” que serve como referência.
Seja como for, é óbvio que qualquer iniciativa que aumente a eficiência dos mocinhos na guerra permanente contra os bandidos merece aplauso. Parece ser o caso com algumas investigações conduzidas pelo Ministério Público, sem participação de policiais. Mas há quem sustente que não cabe aos promotores investigar por conta própria.
É o caso de uma proposta de emenda constitucional que está na pauta da Câmara dos Deputados. É uma iniciativa do deputado petista e, claro, delegado da Polícia Civil Lourival Mendes. Existem também duas ações no Supremo Tribunal Federal propondo que o Ministério Público seja proibido de investigar crimes. Ambas foram iniciativas de cidadãos processados por iniciativas de promotores, sem participação de policiais.
Um leigo não deve se atrever a palpitar sobre a legitimidade constitucional dessas ações do Ministério Público. Mas não pode deixar de levar em conta que um levantamento do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais revela um considerável número de casos em que suas iniciativas foram decisivas em uma quantidade de processos contra políticos e ocupantes de cargos públicos. Por exemplo, nos casos em que políticos como os ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda foram forçados a renunciar a seus mandatos. Sem falar no escândalo envolvendo Carlinhos Cachoeira, que está preso, e o senador Demóstenes Torres, cujo mandato está para ser cassado.
A decisão do STF sobre o assunto deve — ou, pelo menos, deveria—influir na votação pelo Congresso. Nos dois casos, o cidadão comum com certeza acha que, se tratando do comportamento de autoridades diversas e políticos em geral, quanto mais se investigar — sem demagogia nem caçadas de bruxas — melhor será. Pelo visto e ouvido nos últimos dias, há muita gente em Brasília que precisa, pelo menos, levar um bom susto.
Depois das primaveras - GILLES LAPOUGE
O ESTADÃO - 10/07
No ano passado, três países da África do Norte - Tunísia, Egito e Líbia - viveram a chamada Primavera Árabe: nos três casos, a população nas ruas derrubou velhas tiranias podres. Mas, uma vez derrubadas as casas, seria preciso reconstruí-las. E a reconstrução seguiu caminhos bastante diferentes, dependendo dos países.
A Tunísia está aparentemente calma. Ela é dirigida por islâmicos, parte dos quais de tendência moderada, e outros salafistas, que gostariam de instaurar no país, tão agradável e tão aberto para a felicidade, a justiça implacável da sharia.
Na Líbia, que votou domingo, ao contrário, o mundo teve uma extraordinária surpresa. Esta pequena nação, próspera graças ao petróleo, sofreu durante 40 anos sob o punho de ferro de um indivíduo alucinado, Muamar Kadafi. Com a ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o país conseguiu derrubar e matar Kadafi.
Agora, está dilacerado entre violentas facções (islâmicos radicais, liberais, federalistas e diversas tribos mais ou menos autônomas). Por isso, temia-se o pior. Mas eis que aconteceu o milagre! Nas urnas, os líbios escolheram a sabedoria.
Eles votaram em massa nos liberais do ex-primeiro-ministro Mahmud Jibril. Reagrupados na Aliança das Forças Nacionais, eles estão na frente, às vezes com folga, incluindo as duas maiores cidades, Trípoli e Benghazi. Jibril e seus liberais receberam a recompensa da luta que travaram pela independência. Jibril não só foi onipresente durante os oito meses da revolução, como também foi o elemento determinante da intervenção da Otan. Em contraposição, sua rival, a Irmandade Muçulmana, que vivia no exílio há dezenas de anos, só voltou à Líbia com a eclosão dos tumultos, em fevereiro de 2011. Os "irmãos" eram portanto totalmente desconhecidos dos eleitores, que os menosprezavam, considerando-os "gente de fora".
Mas a política, as guerras e as revoluções adoram os paradoxos e as acrobacias. Assim, o mesmo Jibril, que hoje está à frente dos liberais e dos que derrubaram Kadafi, foi um estreito colaborador, nos anos 2000, de Saif al-Islam, nada menos que o filho de Kadafi, que hoje está na cadeia em Trípoli. É por isso que não está tão certo que, no futuro próximo, Jibril venha a ocupar novamente o cargo de premiê, por ele abandonado em novembro.
O Egito apresenta um quadro diferente. Lá, o combate opõe os militares que estavam ligados a Mubarak, velho tirano condenado à prisão perpétua, próximo da morte, à Irmandade Muçulmana, que venceu com ampla margem as eleições recentes (lembremos que o movimento nasceu no Egito antes da última guerra mundial). Portanto, pela norma, a Irmandade deveria constituir o governo. Ocorre que os militares, encarregados do governo provisório depois da queda de Mubarak, tomaram a precaução, um pouco antes das eleições, no dia 16 de junho, de dissolver o Parlamento. Estava criado assim um monumental imbróglio: um Parlamento regularmente eleito deveria entregar o poder à Irmandade Muçulmana. Entretanto, na verdade, esse Parlamento não podia entregar nenhum poder a quem quer que fosse por ter sido dissolvido pelos militares antes das eleições.
Desse modo, o novo chefe de Estado, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi ao mesmo tempo vencedor e vencido. Consagrado chefe de Estado pelas eleições, porém privado de todo poder porque os militares haviam dissolvido o Parlamento que constituía o fundamento do poder, Morsi se aborreceu. E como não tem reputação de homem dotado de grande coragem, a vitória parecia garantida para os militares.
Entretanto, esbarraram num "grão de areia". Morsi, o homem considerado medroso, reagiu como um leão. Anulou a dissolução do Parlamento decretada pelos militares e optou por desafiar o terrível Exército egípcio, que agora deu o troco por meio do tribunal. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
CLAUDIO HUMBERTO
“O MPF quer desmentir Einstein para ser mais veloz que a luz”
Senador Demóstenes Torres, acusando o Ministério Público Federal de perseguição
MERCOSUL: AÇÃO PRETENDE ANULAR ‘MICO’ DE DILMA
O PSDB decidiu representar contra a presidente Dilma no Supremo Tribunal Federal, responsabilizando-a pela desastrosa condução do caso Paraguai, após a destituição do ex-presidente Fernando Lugo, e por sua participação na trama para o ingresso da Venezuela no Mercosul, considerada uma “burla” às normas para vigência de tratados internacionais previstas na Convenção de Viena, da qual o Brasil é signatário. O objetivo é o STF anular as decisões de Dilma no episódio.
TRATADO RASGADO
O Tratado de Assunção determina que um país somente será admitido no Mercosul após a aprovação, no Congresso, dos atuais membros.
MANOBRA
A pedido de Lula e do semi-ditador Hugo Chávez, Dilma manobrou para impor a Venezuela ao Mercosul, à revelia do Congresso paraguaio.
ERRO FATAL
Dilma “confundiu” suspensão com expulsão e dispensou o referendo do Congresso do Paraguai para o ingresso da Venezuela do Mercosul.
DECISÃO PARTIDÁRIA
O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) discutiu com o deputado Sergio Guerra (PE), presidente do partido, a representação contra Dilma.
OPOSIÇÃO MIRA JUQUINHA DA VALEC PARA ATINGIR PT
Após o PT ter convocado Paulo Preto, ex-tesoureiro do PSDB, na CPI mista do Cachoeira, os tucanos vão mirar no ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o “Juquinha”, preso quinta-feira (5) na Operação Trem Pagador, da PF. O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), já apresentou requerimento pela convocação de Juquinha, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro, ocultação e dissimulação de bens.
VESTÍGIOS FORTES
O líder da oposição, Mendes Thame (SP), defende a convocação de Juquinha: “Prisões só são feitas em cima de vestígios comprobatórios”.
JUQUINHA CACHOEIRA
Para Rubens Bueno, a prisão de Juquinha da Valec lança luz sobre “o que pode ser um braço a mais do esquema Cachoeira”.
CPI DAS EMPREITEIRAS
Demitido na faxina de Dilma, o ex-diretor da Valec é acusado de beneficiar empreiteiras. Acumulou patrimônio de R$ 60 milhões.
BATATA QUENTE
Assim que chegou à CPI o vídeo do prefeito de Palmas Raul Filho (PT) negociando com Cachoeira, petistas planejaram jogar a bomba para o relator, Odair Cunha, impedir a divulgação. O vídeo veio à tona antes.
FAZENDO AS PAZES
Para o presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), “o gesto do partido de abrir mão da candidatura em Belo Horizonte para apoiar o PT aumentou o grau de confiança do governo federal”. Leia-se da presidente Dilma.
SARNEY FOR EXPORT
A programação ao vivo da TV Senado terá tradução com “legendas ocultas” (closed caption) para estrangeiros, que nem sequer sintonizam o canal – mas a conta é nossa, dos contribuintes otários: R$ 2,4 milhões.
AQUI ME TENS DE REGRESSO
Em decisão unânime, o conselho federal da OAB manteve no cargo e extinguiu a sindicância criada para investigar o presidente da Caixa de Assistência dos Advogados, Everardo Gueiros, contra a OAB-DF.
PARTIDO PANTEÍSTA
Na esperança de filiar a ex-senadora Marina Silva, o Partido Ecológico Nacional não “será de esquerda, nem de direita” e seu programa tenta agradar a evangélicos, ecologistas, espiritualistas e até muçulmanos.
SEM PRESTÍGIO
Insatisfeitas com o presidente da Transpetro, Sérgio Machado, indicado pelo PMDB, a presidente Dilma e a presidente da Petrobras, Graça Foster, não colocaram os pés, ontem, na entrega do navio Sérgio Buarque de Holanda à Transpetro, no Estaleiro Mauá, no Rio.
PAÍS RICO
A Caixa concluiu que seus funcionários na região Norte merecem acomodar melhor os respectivos traseiros e decidiu gastar R$ 1,8 milhão na compra de cadeiras e poltronas novas para todos.
SEM CRÉDITO NO BB
O Banco do Brasil suspendeu o crédito consignado para servidores comissionados no Congresso, mas a direção da Câmara subiu nas tamancas e tudo voltou ao normal. No Senado, problema continua.
PERGUNTA NO PLENÁRIO
Os discursos de Demóstenes Torres calam fundo ou seus colegas fazem ouvidos moucos às alegações do senador de Goiás?
PODER SEM PUDOR
TRICOLOR E SOFREDOR
O então deputado João Carlos De Carli foi a uma audiência com o presidente João Figueiredo. Na antessala, o ajudante de ordens, major Dias Dourado, transmite uma inusitada advertência ao deputado:
- Entre, mas não ria.
No gabinete presidencial, De Carli se depara com Figueiredo vestindo a camisa do Flamengo. Diante do seu espanto, o general ameaça:
- Se rir, eu te quebro a cara!
Fluminense doente, Figueiredo estava pagando uma aposta que perdera para Dourado: na véspera, o Fla havia encaçapado o Flu no Maracanã.
Senador Demóstenes Torres, acusando o Ministério Público Federal de perseguição
MERCOSUL: AÇÃO PRETENDE ANULAR ‘MICO’ DE DILMA
O PSDB decidiu representar contra a presidente Dilma no Supremo Tribunal Federal, responsabilizando-a pela desastrosa condução do caso Paraguai, após a destituição do ex-presidente Fernando Lugo, e por sua participação na trama para o ingresso da Venezuela no Mercosul, considerada uma “burla” às normas para vigência de tratados internacionais previstas na Convenção de Viena, da qual o Brasil é signatário. O objetivo é o STF anular as decisões de Dilma no episódio.
TRATADO RASGADO
O Tratado de Assunção determina que um país somente será admitido no Mercosul após a aprovação, no Congresso, dos atuais membros.
MANOBRA
A pedido de Lula e do semi-ditador Hugo Chávez, Dilma manobrou para impor a Venezuela ao Mercosul, à revelia do Congresso paraguaio.
ERRO FATAL
Dilma “confundiu” suspensão com expulsão e dispensou o referendo do Congresso do Paraguai para o ingresso da Venezuela do Mercosul.
DECISÃO PARTIDÁRIA
O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) discutiu com o deputado Sergio Guerra (PE), presidente do partido, a representação contra Dilma.
OPOSIÇÃO MIRA JUQUINHA DA VALEC PARA ATINGIR PT
Após o PT ter convocado Paulo Preto, ex-tesoureiro do PSDB, na CPI mista do Cachoeira, os tucanos vão mirar no ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o “Juquinha”, preso quinta-feira (5) na Operação Trem Pagador, da PF. O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), já apresentou requerimento pela convocação de Juquinha, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro, ocultação e dissimulação de bens.
VESTÍGIOS FORTES
O líder da oposição, Mendes Thame (SP), defende a convocação de Juquinha: “Prisões só são feitas em cima de vestígios comprobatórios”.
JUQUINHA CACHOEIRA
Para Rubens Bueno, a prisão de Juquinha da Valec lança luz sobre “o que pode ser um braço a mais do esquema Cachoeira”.
CPI DAS EMPREITEIRAS
Demitido na faxina de Dilma, o ex-diretor da Valec é acusado de beneficiar empreiteiras. Acumulou patrimônio de R$ 60 milhões.
BATATA QUENTE
Assim que chegou à CPI o vídeo do prefeito de Palmas Raul Filho (PT) negociando com Cachoeira, petistas planejaram jogar a bomba para o relator, Odair Cunha, impedir a divulgação. O vídeo veio à tona antes.
FAZENDO AS PAZES
Para o presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), “o gesto do partido de abrir mão da candidatura em Belo Horizonte para apoiar o PT aumentou o grau de confiança do governo federal”. Leia-se da presidente Dilma.
SARNEY FOR EXPORT
A programação ao vivo da TV Senado terá tradução com “legendas ocultas” (closed caption) para estrangeiros, que nem sequer sintonizam o canal – mas a conta é nossa, dos contribuintes otários: R$ 2,4 milhões.
AQUI ME TENS DE REGRESSO
Em decisão unânime, o conselho federal da OAB manteve no cargo e extinguiu a sindicância criada para investigar o presidente da Caixa de Assistência dos Advogados, Everardo Gueiros, contra a OAB-DF.
PARTIDO PANTEÍSTA
Na esperança de filiar a ex-senadora Marina Silva, o Partido Ecológico Nacional não “será de esquerda, nem de direita” e seu programa tenta agradar a evangélicos, ecologistas, espiritualistas e até muçulmanos.
SEM PRESTÍGIO
Insatisfeitas com o presidente da Transpetro, Sérgio Machado, indicado pelo PMDB, a presidente Dilma e a presidente da Petrobras, Graça Foster, não colocaram os pés, ontem, na entrega do navio Sérgio Buarque de Holanda à Transpetro, no Estaleiro Mauá, no Rio.
PAÍS RICO
A Caixa concluiu que seus funcionários na região Norte merecem acomodar melhor os respectivos traseiros e decidiu gastar R$ 1,8 milhão na compra de cadeiras e poltronas novas para todos.
SEM CRÉDITO NO BB
O Banco do Brasil suspendeu o crédito consignado para servidores comissionados no Congresso, mas a direção da Câmara subiu nas tamancas e tudo voltou ao normal. No Senado, problema continua.
PERGUNTA NO PLENÁRIO
Os discursos de Demóstenes Torres calam fundo ou seus colegas fazem ouvidos moucos às alegações do senador de Goiás?
PODER SEM PUDOR
TRICOLOR E SOFREDOR
O então deputado João Carlos De Carli foi a uma audiência com o presidente João Figueiredo. Na antessala, o ajudante de ordens, major Dias Dourado, transmite uma inusitada advertência ao deputado:
- Entre, mas não ria.
No gabinete presidencial, De Carli se depara com Figueiredo vestindo a camisa do Flamengo. Diante do seu espanto, o general ameaça:
- Se rir, eu te quebro a cara!
Fluminense doente, Figueiredo estava pagando uma aposta que perdera para Dourado: na véspera, o Fla havia encaçapado o Flu no Maracanã.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Alimento e transporte deixam Rio com maior inflação do país
- Folha: Contra crise, Dilma libera restituição recorde do IR
- Estadão: Mercado pressiona Espanha e Europa acena com alívio
- Correio: Preso advogado do golpe das adoções
- Valor: Elétricas pressionam por definição sobre concessões
- Estado de Minas: O retrovisor sumiu
- Zero Hora: Retrato do descontrole
segunda-feira, julho 09, 2012
O Mercosul e a Taça Libertadores - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
Se alguma dúvida paira ainda, depois dos últimos acontecimentos, sobre o caráter e a natureza do Mercosul, a Copa Libertadores da América está aí para ajudar a dissipá-la. Mercosul e Copa Libertadores são duas instituições da América Latina. Atuam em ambientes diversos, cada qual com os próprios personagens e os próprios instrumentos, mas se unem na essência. Uma espelha e explica a outra. Na disputa da Libertadores, raro é o jogo em que um jogador não acabe triturando a canela do outro. Se um dos contendores não sai do campo para o hospital, é porque a partida se caracterizou por incomum cavalheirismo. Só teve puxões de camisa, cotoveladas e cusparadas, o que, pelos padrões do continente, é atestado de bom comportamento. No Mercosul, as cusparadas e cotoveladas dão lugar a sorrisos e apertos de mão. Mas, como se evidenciou nas últimas semanas, para quem ainda precisava de evidências, prevalece a mesma característica latino-americana de horror às regras e de opção preferencial pela malandragem e pela trapaça.
Os locutores chamam de "espírito da Libertadores" o conjunto de eventos que caracterizam o torneio. Eles dividem os times entre os que têm e os que não têm "espírito da Libertadores". Classificam as partidas mais tomadas pelo afã sanguinário dos contendores como "típicas da Libertadores". E se animam com isso. Os jogadores se estraçalham em campo, a plateia ulula, e os locutores entoam: “É o es-pí-ri-to da Li-ber-ta-dores!!!". O Mercosul é uma instituição de livre-comércio que permite a seus membros impedir o livre-comércio entre si por meio de medidas protecionistas. Quando as medidas protecionistas não bastam, inventam-se papéis necessários à circulação das mercadorias e bloqueia-se a passagem dos caminhões nas fronteiras. "É o es-pí-ri-to do Mer-co-sul!!!", comemoraria o locutor, se locutor houvesse como há no futebol.
O espírito do Mercosul ainda não tinha se revelado de modo tão eloquente quanto nos acontecimentos precipitados pela destituição do presidente paraguaio Fernando Lugo. Ao esquisito processo de impeachment sacramentado em menos de 48 horas sucedeu-se uma esquisita revoada de chanceleres dos países vizinhos para tentar reverter o quadro. Invadia-se o campo para tentar alterar o resultado do jogo. No ato seguinte, denunciou-se uma mais esquisita ainda visita do chanceler da Venezuela aos comandantes militares paraguaios, para supostamente incitá-los a intervir. Era um artifício extracampo, mais pesado do que a saraivada de objetos que nos jogos da Libertadores costuma ser lançada sobre o goleiro do time adversário, sobre o juiz, ou sobre o pobre coitado que, nos estádios mais acanhados, se prepara para bater o escanteio.
Tanto no caso da Libertadores quanto no do Mercosul, inesgotáveis são as artimanhas nos respectivos repertórios. No jogo entre Corinthians e Boca Juniors, na semana passada, o atacante corintiano Emerson foi flagrado no ato de morder os dedos do zagueiro adversário. A cena foi mostrada em toda a sua crueza graças ao novo recurso do zoom em câmera lenta nas transmissões do futebol. O corintiano, meio caído, aproveitou a mão providencialmente próxima do jogador do Boca Juniors para aplicar-lhe uma dentada. Um ensaio de canibalismo tinha lugar no velho estádio do Pacaembu, que já viu tudo, mas isso ainda não tinha visto. No Mercosul, pouco antes, aproveitara-se a suspensão imposta ao Paraguai, em razão da destituição de Lugo, para aprovar o ingresso da Venezuela no bloco. Era mais do que marcar gol em impedimento. Para aceitar novos integrantes, é necessária a aprovacão dos Congressos dos quatro países-membros, e o Congresso do Paraguai recusava-se a aceitar a Venezuela. Aproveitar a ausência de um dos sócios para passar-lhe a perna equivale a virar a mesa para melar o campeonato, coisa que nem na Libertadores ainda se ousou fazer.
Emerson marcou os dois gols da vitória corintiana, mas não só por isso, como também pelas inúmeras provocações aos argentinos, foi considerado o herói da partida. O espírito da Libertadores assim o determina, e vamos em frente. No Mercosul, os dois últimos lances foram o rompimento de relações entre Paraguai e Venezuela, por causa da ação do chanceler venezuelano junto aos generais paraguaios, e um racha no governo uruguaio, por causa da tramóia que possibilitou a adesão da Venezuela ao bloco. Tudo no espírito do Mercosul, mas talvez com peso demasiado para seguir em frente, como se nada tivesse acontecido.
Se alguma dúvida paira ainda, depois dos últimos acontecimentos, sobre o caráter e a natureza do Mercosul, a Copa Libertadores da América está aí para ajudar a dissipá-la. Mercosul e Copa Libertadores são duas instituições da América Latina. Atuam em ambientes diversos, cada qual com os próprios personagens e os próprios instrumentos, mas se unem na essência. Uma espelha e explica a outra. Na disputa da Libertadores, raro é o jogo em que um jogador não acabe triturando a canela do outro. Se um dos contendores não sai do campo para o hospital, é porque a partida se caracterizou por incomum cavalheirismo. Só teve puxões de camisa, cotoveladas e cusparadas, o que, pelos padrões do continente, é atestado de bom comportamento. No Mercosul, as cusparadas e cotoveladas dão lugar a sorrisos e apertos de mão. Mas, como se evidenciou nas últimas semanas, para quem ainda precisava de evidências, prevalece a mesma característica latino-americana de horror às regras e de opção preferencial pela malandragem e pela trapaça.
Os locutores chamam de "espírito da Libertadores" o conjunto de eventos que caracterizam o torneio. Eles dividem os times entre os que têm e os que não têm "espírito da Libertadores". Classificam as partidas mais tomadas pelo afã sanguinário dos contendores como "típicas da Libertadores". E se animam com isso. Os jogadores se estraçalham em campo, a plateia ulula, e os locutores entoam: “É o es-pí-ri-to da Li-ber-ta-dores!!!". O Mercosul é uma instituição de livre-comércio que permite a seus membros impedir o livre-comércio entre si por meio de medidas protecionistas. Quando as medidas protecionistas não bastam, inventam-se papéis necessários à circulação das mercadorias e bloqueia-se a passagem dos caminhões nas fronteiras. "É o es-pí-ri-to do Mer-co-sul!!!", comemoraria o locutor, se locutor houvesse como há no futebol.
O espírito do Mercosul ainda não tinha se revelado de modo tão eloquente quanto nos acontecimentos precipitados pela destituição do presidente paraguaio Fernando Lugo. Ao esquisito processo de impeachment sacramentado em menos de 48 horas sucedeu-se uma esquisita revoada de chanceleres dos países vizinhos para tentar reverter o quadro. Invadia-se o campo para tentar alterar o resultado do jogo. No ato seguinte, denunciou-se uma mais esquisita ainda visita do chanceler da Venezuela aos comandantes militares paraguaios, para supostamente incitá-los a intervir. Era um artifício extracampo, mais pesado do que a saraivada de objetos que nos jogos da Libertadores costuma ser lançada sobre o goleiro do time adversário, sobre o juiz, ou sobre o pobre coitado que, nos estádios mais acanhados, se prepara para bater o escanteio.
Tanto no caso da Libertadores quanto no do Mercosul, inesgotáveis são as artimanhas nos respectivos repertórios. No jogo entre Corinthians e Boca Juniors, na semana passada, o atacante corintiano Emerson foi flagrado no ato de morder os dedos do zagueiro adversário. A cena foi mostrada em toda a sua crueza graças ao novo recurso do zoom em câmera lenta nas transmissões do futebol. O corintiano, meio caído, aproveitou a mão providencialmente próxima do jogador do Boca Juniors para aplicar-lhe uma dentada. Um ensaio de canibalismo tinha lugar no velho estádio do Pacaembu, que já viu tudo, mas isso ainda não tinha visto. No Mercosul, pouco antes, aproveitara-se a suspensão imposta ao Paraguai, em razão da destituição de Lugo, para aprovar o ingresso da Venezuela no bloco. Era mais do que marcar gol em impedimento. Para aceitar novos integrantes, é necessária a aprovacão dos Congressos dos quatro países-membros, e o Congresso do Paraguai recusava-se a aceitar a Venezuela. Aproveitar a ausência de um dos sócios para passar-lhe a perna equivale a virar a mesa para melar o campeonato, coisa que nem na Libertadores ainda se ousou fazer.
Emerson marcou os dois gols da vitória corintiana, mas não só por isso, como também pelas inúmeras provocações aos argentinos, foi considerado o herói da partida. O espírito da Libertadores assim o determina, e vamos em frente. No Mercosul, os dois últimos lances foram o rompimento de relações entre Paraguai e Venezuela, por causa da ação do chanceler venezuelano junto aos generais paraguaios, e um racha no governo uruguaio, por causa da tramóia que possibilitou a adesão da Venezuela ao bloco. Tudo no espírito do Mercosul, mas talvez com peso demasiado para seguir em frente, como se nada tivesse acontecido.
Custo Brasil, custo Lula - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O ESTADÃO - 09/07
Todo mundo concorda que é preciso turbinar os investimentos no Brasil, públicos e privados. Ambos estão travados. Os primeiros, por incapacidade e falta de recursos; os segundos, porque é difícil e caro investir no País.
A falha do governo federal é flagrante. O dinheiro reservado para investimentos no Orçamento de 2012 é de R$ 90 bilhões, equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) esperado para o ano. É mais do que se gastou nos últimos anos, porém pouco diante das necessidades do Brasil e diante do atraso do País em infraestrutura.
Já houve tempo em que o governo federal investia até 5% do PIB – isso antes de aumentarem fortemente os gastos com Previdência, pessoal, custeio e com programas sociais e assistenciais. Mas, além de ser um dinheiro insuficiente, até a meta de deste ano a administração só conseguiu gastar 20% do que estava orçado.
Exemplo das dificuldades: o diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), general Jorge Fraxe, nomeado há um ano pela presidente Dilma Rousseff para botar ordem na casa, contou a este Estadão que encontrou contratos de obras no valor de R$ 15 bilhões – ou “15 bilhões de problemas”. O general está mudando o sistema de contratação, mas o Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou irregularidades nos novos projetos. Dessa forma, vai tudo muito arrastado no órgão responsável pela maior parte dos investimentos em infraestrutura do País.
Repararam que nem falamos em corrupção? Ela existe, é claro, como prova a recente Operação Trem Pagador, da Polícia Federal, que apanhou ex-dirigentes da estatal Valec, dedicada ao importante serviço de construir ferrovias. É grave a roubalheira. Mas os problemas de gestão são ainda maiores, porque estão espalhados por praticamente toda a administração. Todos os dias saem notícias dando conta de atrasos e aumentos de preços em obras federais e nas suas estatais. Outro dia mesmo, a nova presidente da Petrobrás, Graça Foster, reviu para baixo as metas de produção, para cima os custos e para mais à frente os prazos.
Isso é resultado do modo de operação do governo Lula. Seu estilo “vamo-que-vamo”, forçando obras e multiplicando metas – tudo a cargo de uma administração loteada entre os partidos políticos –, reduziu drasticamente a qualidade técnica da gestão e abriu espaço para os malfeitos. Esse é o custo Lula.
Marketing. O que funcionou mesmo foi o marketing. Lembram-se da campanha para celebrar a autossuficiência em petróleo? Pois então, a Petrobrás hoje é importadora de óleo, gasolina e diesel.
Em resumo, o setor público no Brasil nunca foi lá essas coisas. Loteado e politizado, ficou ainda mais incapaz.
Já o setor privado tem dinheiro e competência para investir. Mas não o faz porque os custos são elevados e por falta de condições institucionais, muitas das quais dependem do governo.
Considerem o caso dos aeroportos, por exemplo. Com a privatização de Guarulhos, Viracopos e Brasília, os investimentos anunciados nesses três lugares superam em várias vezes o que a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) podia fazer. Logo...
Burocracia. Informações recentes dizem que, de fato, a presidente Dilma está examinando a ampliação das concessões para aeroportos, portos e rodovias. É disso mesmo que se precisa: de um enorme programa de privatização, um salto expressivo nos investimentos. Outras informações, no entanto, dizem que isso ficará para o próximo ano, por causa da necessidade de rever os modelos de privatização, montar os processos e tal. Sabe como é...
Como conseguem demorar tanto tempo? Concessões não são uma coisa nova. Há décadas que se faz isso, aqui e no mundo todo. A concessão dos aeroportos, por exemplo, foi discutida desde o primeiro governo Lula. Havia um obstáculo político – a rejeição petista às privatizações, à qual se juntou a fisiologia dos partidos aliados que precisam de estatais e governo para tirar de lá seu sustento político e pessoal.
Mas, superada a rejeição do PT, a força dominante por que não avança? O problema não está apenas nos grandes aeroportos. Há outros polos incrivelmente dinâmicos pelo Brasil afora – desde o turismo em Foz do Iguaçu (PR) até a moderna agropecuária em Luís Eduardo Magalhães (BA), passando pelos centros de alta tecnologia em São José dos Campos (SP).
Os três lugares sofrem com aeroportos ridículos para suas necessidades. E eis por que o exemplo é bom: nesses três lugares, conforme pude verificar em visitas recentes, empresas privadas e associações civis já têm tudo pronto: terreno, dinheiro, projeto, expertise e vontade de fazer. As prefeituras locais também estão envolvidas na história. Basta o governo federal dizer “podem fazer!”, e vão brotar aeroportos modernos e, sobretudo, rentáveis por toda aparte. Parece até mais fácil fazer essa privatização regionalizada ou municipalizada.
Mas não anda. Fontes diversas contam-me que batalham há anos em busca de autorização para fazer até mesmo obras paralelas, como a ampliação de estacionamentos, mas topam com burocracias e má vontade.
Acrescente a isso o custo Brasil e o ambiente de negócios hostil, que dificultam e encarecem os investimentos privados em geral, e fica evidente por que o País não deslancha.
Sim, há uma crise internacional, mas os outros países emergentes estão se saindo melhor, com mais crescimento econômico e menos inflação.
Todo mundo concorda que é preciso turbinar os investimentos no Brasil, públicos e privados. Ambos estão travados. Os primeiros, por incapacidade e falta de recursos; os segundos, porque é difícil e caro investir no País.
A falha do governo federal é flagrante. O dinheiro reservado para investimentos no Orçamento de 2012 é de R$ 90 bilhões, equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) esperado para o ano. É mais do que se gastou nos últimos anos, porém pouco diante das necessidades do Brasil e diante do atraso do País em infraestrutura.
Já houve tempo em que o governo federal investia até 5% do PIB – isso antes de aumentarem fortemente os gastos com Previdência, pessoal, custeio e com programas sociais e assistenciais. Mas, além de ser um dinheiro insuficiente, até a meta de deste ano a administração só conseguiu gastar 20% do que estava orçado.
Exemplo das dificuldades: o diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), general Jorge Fraxe, nomeado há um ano pela presidente Dilma Rousseff para botar ordem na casa, contou a este Estadão que encontrou contratos de obras no valor de R$ 15 bilhões – ou “15 bilhões de problemas”. O general está mudando o sistema de contratação, mas o Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou irregularidades nos novos projetos. Dessa forma, vai tudo muito arrastado no órgão responsável pela maior parte dos investimentos em infraestrutura do País.
Repararam que nem falamos em corrupção? Ela existe, é claro, como prova a recente Operação Trem Pagador, da Polícia Federal, que apanhou ex-dirigentes da estatal Valec, dedicada ao importante serviço de construir ferrovias. É grave a roubalheira. Mas os problemas de gestão são ainda maiores, porque estão espalhados por praticamente toda a administração. Todos os dias saem notícias dando conta de atrasos e aumentos de preços em obras federais e nas suas estatais. Outro dia mesmo, a nova presidente da Petrobrás, Graça Foster, reviu para baixo as metas de produção, para cima os custos e para mais à frente os prazos.
Isso é resultado do modo de operação do governo Lula. Seu estilo “vamo-que-vamo”, forçando obras e multiplicando metas – tudo a cargo de uma administração loteada entre os partidos políticos –, reduziu drasticamente a qualidade técnica da gestão e abriu espaço para os malfeitos. Esse é o custo Lula.
Marketing. O que funcionou mesmo foi o marketing. Lembram-se da campanha para celebrar a autossuficiência em petróleo? Pois então, a Petrobrás hoje é importadora de óleo, gasolina e diesel.
Em resumo, o setor público no Brasil nunca foi lá essas coisas. Loteado e politizado, ficou ainda mais incapaz.
Já o setor privado tem dinheiro e competência para investir. Mas não o faz porque os custos são elevados e por falta de condições institucionais, muitas das quais dependem do governo.
Considerem o caso dos aeroportos, por exemplo. Com a privatização de Guarulhos, Viracopos e Brasília, os investimentos anunciados nesses três lugares superam em várias vezes o que a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) podia fazer. Logo...
Burocracia. Informações recentes dizem que, de fato, a presidente Dilma está examinando a ampliação das concessões para aeroportos, portos e rodovias. É disso mesmo que se precisa: de um enorme programa de privatização, um salto expressivo nos investimentos. Outras informações, no entanto, dizem que isso ficará para o próximo ano, por causa da necessidade de rever os modelos de privatização, montar os processos e tal. Sabe como é...
Como conseguem demorar tanto tempo? Concessões não são uma coisa nova. Há décadas que se faz isso, aqui e no mundo todo. A concessão dos aeroportos, por exemplo, foi discutida desde o primeiro governo Lula. Havia um obstáculo político – a rejeição petista às privatizações, à qual se juntou a fisiologia dos partidos aliados que precisam de estatais e governo para tirar de lá seu sustento político e pessoal.
Mas, superada a rejeição do PT, a força dominante por que não avança? O problema não está apenas nos grandes aeroportos. Há outros polos incrivelmente dinâmicos pelo Brasil afora – desde o turismo em Foz do Iguaçu (PR) até a moderna agropecuária em Luís Eduardo Magalhães (BA), passando pelos centros de alta tecnologia em São José dos Campos (SP).
Os três lugares sofrem com aeroportos ridículos para suas necessidades. E eis por que o exemplo é bom: nesses três lugares, conforme pude verificar em visitas recentes, empresas privadas e associações civis já têm tudo pronto: terreno, dinheiro, projeto, expertise e vontade de fazer. As prefeituras locais também estão envolvidas na história. Basta o governo federal dizer “podem fazer!”, e vão brotar aeroportos modernos e, sobretudo, rentáveis por toda aparte. Parece até mais fácil fazer essa privatização regionalizada ou municipalizada.
Mas não anda. Fontes diversas contam-me que batalham há anos em busca de autorização para fazer até mesmo obras paralelas, como a ampliação de estacionamentos, mas topam com burocracias e má vontade.
Acrescente a isso o custo Brasil e o ambiente de negócios hostil, que dificultam e encarecem os investimentos privados em geral, e fica evidente por que o País não deslancha.
Sim, há uma crise internacional, mas os outros países emergentes estão se saindo melhor, com mais crescimento econômico e menos inflação.
Beleza ou caricatura? - WALCYR CARRASCO
REVISTA ÉPOCA
A primeira vez em que fui ao museu do Louvre, em Paris, estava ansioso por contemplar a Vênus de Milo, símbolo máximo de beleza da Antiguidade. Quando me aproximei do torso de mármore, descobri se tratar de uma gordinha. Surpreso, confirmei várias vezes a identificação. Era ela mesma. Símbolo de beleza? Quá-quá-quá! Se fosse viva, hoje em dia a Vênus estaria atormentada por regimes. Tenho a mesma sensação quando assisto a filmes antigos. As estrelas do passado, admiradas por seu esplendor, dificilmente resistem aos padrões atuais. Leslie Caron: olhos lindos, mas cadê o queixo? Audrey Hepburn: chique, só que reta como uma tábua. Lana Turner: seios avolumados, mas rosto comum e nariz de batata. Mudaram os padrões de beleza, é certo. E as operações plásticas tiveram grande influência nisso. Atualmente, muitas garotas fazem suas primeiras plásticas já no final da adolescência. Os pais não só pagam, como apoiam. Eu me pergunto: uma adolescente precisa ser peituda? Se dá tanta importância a isso, deveria buscar um terapeuta, e não um cirurgião. Tenta-se corrigir todo o corpo, o que torna algumas pessoas parecidas com ETs. Uma vez, eu assistia a um desfile acompanhado por uma expert em moda. Comentei sobre a modelo na passarela. Minha amiga respondeu:- Não vai ter carreira. Ela fez plástica de nariz. O rosto perdeu a proporção.
Era verdade. O narizinho parecia incrustado numa cara ossuda, sem nada a ver com ele. Confesso: já fiz plástica. Sempre tive trauma da minha barriga. Anos atrás, resolvi eliminá-la a golpes de bisturi. Não me contentei com uma lipo. Também fiz uma abdominoplastia. É uma técnica cirúrgica que remodela o abdome. Como sempre, veio o "já que".
- Aproveite e tire minha papada - disse ao médico.
Deitado na cama da clínica, pensei:
- Mas o que estou fazendo aqui? Por que vou me submeter a uma anestesia geral, da qual posso voltar com sequelas?
Quase levantei para ir embora. Naquele momento me espetaram. Acordei horas depois com um capacete de gaze no rosto. Impossível respirar direito. E sem umbigo.
- São só 24 horas de capacete - disse o médico diante de minhas pupilas lá no fundo, aterrorizadas.
- Ixiiiii....
- Quanto ao umbigo, você vai usar isto aqui, esta prótese de acrílico, para formar um novo buraco. Use sempre, senão fica liso.
- Aiiiiiiiii... - balbuciei através do capacete. Foram dois meses usando colete para formatar a barriga. No maior calor. A pele borbulhava. E o artefato de acrílico preso no abdome, para formar o buraquinho do umbigo. Admito: o resultado foi ótimo. Por sete meses. Já no oitavo, uma nova barriga começou a se formar. Está instalada até hoje, vitoriosa. Uma amiga fez pior. Queria botar prótese nos seios. Apavorou-se já na maca, a caminho da mesa de operação. Pulou e saiu correndo. Nua. Através do hospital. Certas celebridades agem como se fazer plástica fosse semelhante a ir ao cabeleireiro. Algumas fizeram tantas que relacionam os acontecimentos da vida com as operações: - Casei antes da primeira plástica. Agora estou na 20a plástica e no 200 marido. Essa coincidência será um sinal cabalístico? A plástica se tornou uma mania mundial para homens e mulheres. Pessoas fazem poupança para aumentar os seios ou botar bíceps de silicone. Hoje em dia, formar um elenco, principalmente em novela de época, é uma dificuldade. Cadê aquela senhora com cara de voyozinha? A atriz Laura Cardoso, atualmente em Gabriela, é uma das mais requisitadas. Além de ser uma grande intérprete, nunca mexeu no rosto. Demonstra a idade que tem. Sai de uma novela e entra em outra porque, como ela, há raríssimas.
A febre de plásticas tem motivo. A juventude é valorizada, a velhice não. Ninguém quer ser tratado como vovô. É bom se sentir charmoso. É chato estar distante do padrão estético: barriga zero, gordura zero, rugas zero, juízo abaixo de zero. As pessoas esticam o rosto para rejuvenescer. Que engano! A esticada de 50 não parece uma garota de 20. E sim o que é: uma esticada madura. Quanto mais vezes alguém se estica, mais esquisito se torna. Todas as plastificadas e todos os plastificados parecem clones, de boca puxada, olhos esbugalhados. E os incômodos? Eu digo, eu digo! Desde que puxei o queixo, faço barba atrás da orelha! Quanto mais plásticas, menor a identidade. Cadê a pessoa que estava ali? É o pior da plástica repetida: a pessoa se torna uma caricatura de si mesma.
Era verdade. O narizinho parecia incrustado numa cara ossuda, sem nada a ver com ele. Confesso: já fiz plástica. Sempre tive trauma da minha barriga. Anos atrás, resolvi eliminá-la a golpes de bisturi. Não me contentei com uma lipo. Também fiz uma abdominoplastia. É uma técnica cirúrgica que remodela o abdome. Como sempre, veio o "já que".
- Aproveite e tire minha papada - disse ao médico.
Deitado na cama da clínica, pensei:
- Mas o que estou fazendo aqui? Por que vou me submeter a uma anestesia geral, da qual posso voltar com sequelas?
Quase levantei para ir embora. Naquele momento me espetaram. Acordei horas depois com um capacete de gaze no rosto. Impossível respirar direito. E sem umbigo.
- São só 24 horas de capacete - disse o médico diante de minhas pupilas lá no fundo, aterrorizadas.
- Ixiiiii....
- Quanto ao umbigo, você vai usar isto aqui, esta prótese de acrílico, para formar um novo buraco. Use sempre, senão fica liso.
- Aiiiiiiiii... - balbuciei através do capacete. Foram dois meses usando colete para formatar a barriga. No maior calor. A pele borbulhava. E o artefato de acrílico preso no abdome, para formar o buraquinho do umbigo. Admito: o resultado foi ótimo. Por sete meses. Já no oitavo, uma nova barriga começou a se formar. Está instalada até hoje, vitoriosa. Uma amiga fez pior. Queria botar prótese nos seios. Apavorou-se já na maca, a caminho da mesa de operação. Pulou e saiu correndo. Nua. Através do hospital. Certas celebridades agem como se fazer plástica fosse semelhante a ir ao cabeleireiro. Algumas fizeram tantas que relacionam os acontecimentos da vida com as operações: - Casei antes da primeira plástica. Agora estou na 20a plástica e no 200 marido. Essa coincidência será um sinal cabalístico? A plástica se tornou uma mania mundial para homens e mulheres. Pessoas fazem poupança para aumentar os seios ou botar bíceps de silicone. Hoje em dia, formar um elenco, principalmente em novela de época, é uma dificuldade. Cadê aquela senhora com cara de voyozinha? A atriz Laura Cardoso, atualmente em Gabriela, é uma das mais requisitadas. Além de ser uma grande intérprete, nunca mexeu no rosto. Demonstra a idade que tem. Sai de uma novela e entra em outra porque, como ela, há raríssimas.
A febre de plásticas tem motivo. A juventude é valorizada, a velhice não. Ninguém quer ser tratado como vovô. É bom se sentir charmoso. É chato estar distante do padrão estético: barriga zero, gordura zero, rugas zero, juízo abaixo de zero. As pessoas esticam o rosto para rejuvenescer. Que engano! A esticada de 50 não parece uma garota de 20. E sim o que é: uma esticada madura. Quanto mais vezes alguém se estica, mais esquisito se torna. Todas as plastificadas e todos os plastificados parecem clones, de boca puxada, olhos esbugalhados. E os incômodos? Eu digo, eu digo! Desde que puxei o queixo, faço barba atrás da orelha! Quanto mais plásticas, menor a identidade. Cadê a pessoa que estava ali? É o pior da plástica repetida: a pessoa se torna uma caricatura de si mesma.
Eleição "diferenciada" - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 09/07
Os petistas consideram que o julgamento do mensalão vai comprometer o resultado de seus candidatos cuidadosamente selecionados para preparar o PT pós-Lula/Dilma. E essa é a raiz de todo estresse da largada
A expressão “gente diferenciada” ficou famosa quando uma moradora do bairro de Higienópolis em São Paulo se referiu àqueles que iriam baixar no seu pedaço chique da cidade quando houvesse ali uma estação de metrô. Ocupou o topo dos tópicos mais comentados do Twitter na época, tudo por causa da carga de preconceito que carregava contra usuários de transporte coletivo. O “diferenciado” correu o mundo ganhando outras conotações. Agora, tem gente jurando que esta eleição municipal em curso sofrerá uma série de problemas por causa da agenda de Brasília.
O normal nesta semana, cassado o mandato de Demóstenes Torres e aprovada a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2013, seria o Congresso entrar no recesso parlamentar e só voltar a funcionar a pleno vapor em outubro. Mas a agenda deste ano está digamos “diferenciada” pelo mensalão e pela CPI do Cachoeira. Brasília estará “na ativa” durante todo o processo de escolha dos prefeitos. E os petistas olham para esse quadro da mesma forma que a tal moradora de Higienópolis olhava para os visitantes não convidados que chegavam ao seu bairro usando o transporte coletivo.
O PT não se conforma em ter que passar esta temporada eleitoral dando explicações sobre o velho episódio do mensalão. Esse inconformismo é inclusive parte do estresse produzido na última semana com o PSB e a aproximação com o PMDB. Os petistas perceberam que PSDB e PSB têm opções para o futuro, e o PMDB não produziu ninguém. Portanto, será o grande aliado.
Por falar em inconformismo...Na raiz de todos os problemas, tratada apenas nas reuniões mais reservadas do partido, está o fato de os petistas acharem que o julgamento vai comprometer o resultado de seus candidatos nos centros urbanos. Em especial, daqueles chamados a preparar o PT para o pós-Lula/Dilma, cuidadosamente selecionados em 62 das 85 cidades do país com mais de 200 mil eleitores.
Não se pode esquecer que todos os partidos trabalham com a perspectiva de se manter no poder por tempo indeterminado. Os petistas, depois de Dilma e Lula, não veem em suas fileiras ninguém com aquela “pegada” para encantar os eleitores. A própria Dilma só conseguiu porque Lula se dedicou a essa construção por dois longos anos antes da largada da campanha presidencial de 2010. Portanto, essa formação de líderes era a prioridade de 2012.
Agora, diante do julgamento, esses candidatos, se depender de parte do PT focada no mensalão, terão a tarefa de ampliar a defesa do partido no processo e responder aos ataques da oposição na campanha, inclusive no horário eleitoral de rádio e tevê e nas redes sociais. Os candidatos resistem, uma vez que falar do mensalão pode acabar chamando a atenção daqueles que desconhecem o julgamento.
Por falar em prioridade...Como se não bastasse o julgamento do mensalão, a CPI do Cachoeira ganha contornos cada vez mais imprevisíveis. Os petistas tentarão turbiná-la em agosto como contraponto ao julgamento do mensalão. Mas a manobra é arriscada. Até agora, os petistas conseguiram manter o cordão de isolamento, deixando as obras do PAC desfocadas, mas não sabem se conseguirão manter esse sistema de defesa acionado a partir de agosto, com o depoimento de Luiz Antonio Pagot, ex-comandante do Dnit. Dentro do próprio PT, há quem considere essa saída cada vez mais difícil. Cassado Demóstenes esta semana no plenário do Senado, a tendência é o governo entrar no foco da CPI depois das férias dos deputados e senadores.
Por falar em férias...Chegou a hora de aproveitar os próximos 20 dias para recarregar as baterias. Volto em 30 de julho. Até lá, Paulo Silva Pinto e Leonardo Cavalcanti manterão você informado nas entrelinhas da notícia.
Os petistas consideram que o julgamento do mensalão vai comprometer o resultado de seus candidatos cuidadosamente selecionados para preparar o PT pós-Lula/Dilma. E essa é a raiz de todo estresse da largada
A expressão “gente diferenciada” ficou famosa quando uma moradora do bairro de Higienópolis em São Paulo se referiu àqueles que iriam baixar no seu pedaço chique da cidade quando houvesse ali uma estação de metrô. Ocupou o topo dos tópicos mais comentados do Twitter na época, tudo por causa da carga de preconceito que carregava contra usuários de transporte coletivo. O “diferenciado” correu o mundo ganhando outras conotações. Agora, tem gente jurando que esta eleição municipal em curso sofrerá uma série de problemas por causa da agenda de Brasília.
O normal nesta semana, cassado o mandato de Demóstenes Torres e aprovada a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2013, seria o Congresso entrar no recesso parlamentar e só voltar a funcionar a pleno vapor em outubro. Mas a agenda deste ano está digamos “diferenciada” pelo mensalão e pela CPI do Cachoeira. Brasília estará “na ativa” durante todo o processo de escolha dos prefeitos. E os petistas olham para esse quadro da mesma forma que a tal moradora de Higienópolis olhava para os visitantes não convidados que chegavam ao seu bairro usando o transporte coletivo.
O PT não se conforma em ter que passar esta temporada eleitoral dando explicações sobre o velho episódio do mensalão. Esse inconformismo é inclusive parte do estresse produzido na última semana com o PSB e a aproximação com o PMDB. Os petistas perceberam que PSDB e PSB têm opções para o futuro, e o PMDB não produziu ninguém. Portanto, será o grande aliado.
Por falar em inconformismo...Na raiz de todos os problemas, tratada apenas nas reuniões mais reservadas do partido, está o fato de os petistas acharem que o julgamento vai comprometer o resultado de seus candidatos nos centros urbanos. Em especial, daqueles chamados a preparar o PT para o pós-Lula/Dilma, cuidadosamente selecionados em 62 das 85 cidades do país com mais de 200 mil eleitores.
Não se pode esquecer que todos os partidos trabalham com a perspectiva de se manter no poder por tempo indeterminado. Os petistas, depois de Dilma e Lula, não veem em suas fileiras ninguém com aquela “pegada” para encantar os eleitores. A própria Dilma só conseguiu porque Lula se dedicou a essa construção por dois longos anos antes da largada da campanha presidencial de 2010. Portanto, essa formação de líderes era a prioridade de 2012.
Agora, diante do julgamento, esses candidatos, se depender de parte do PT focada no mensalão, terão a tarefa de ampliar a defesa do partido no processo e responder aos ataques da oposição na campanha, inclusive no horário eleitoral de rádio e tevê e nas redes sociais. Os candidatos resistem, uma vez que falar do mensalão pode acabar chamando a atenção daqueles que desconhecem o julgamento.
Por falar em prioridade...Como se não bastasse o julgamento do mensalão, a CPI do Cachoeira ganha contornos cada vez mais imprevisíveis. Os petistas tentarão turbiná-la em agosto como contraponto ao julgamento do mensalão. Mas a manobra é arriscada. Até agora, os petistas conseguiram manter o cordão de isolamento, deixando as obras do PAC desfocadas, mas não sabem se conseguirão manter esse sistema de defesa acionado a partir de agosto, com o depoimento de Luiz Antonio Pagot, ex-comandante do Dnit. Dentro do próprio PT, há quem considere essa saída cada vez mais difícil. Cassado Demóstenes esta semana no plenário do Senado, a tendência é o governo entrar no foco da CPI depois das férias dos deputados e senadores.
Por falar em férias...Chegou a hora de aproveitar os próximos 20 dias para recarregar as baterias. Volto em 30 de julho. Até lá, Paulo Silva Pinto e Leonardo Cavalcanti manterão você informado nas entrelinhas da notícia.
Da gabolice à realidade - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 09/07
No fim de maio, faz pouco mais de mês, a senhora presidente da República declarou que o Brasil estava preparadíssimo para enfrentar os efeitos da crise que se repetia na Europa; assoalhou que, se em 2008 o Brasil fora o último país a nela entrar, o primeiro a dela sair, agora estava em situação muito mais cômoda, 100%, 200%, 300% melhor; indo à Feira de Hannover, com uma parada no Porto para nutrir-se com memorável bacalhoada, que atrasou sua chegada à Alemanha, distribuiu conselhos aos governantes europeus. No entanto, a desindustrialização de importante setor da indústria soou como severa advertência acerca da nossa situação. É claro que o inusitado dessa declaração, partindo de uma chefe do Estado e do governo, não poderia causar-me boa impressão, a começar de sua gratuidade e da óbvia inconsequência. De mais a mais, jactar-se de uma superioridade sobre dados estranhos a seu domínio, soa como mera jactância. Outrossim, a assertiva segundo a qual os efeitos da crise estancavam nas fronteiras brasileiras não passava de vã pretensão. Basta lembrar, v.g., que o fato da China suspender a importação do minério de ferro foi o suficiente para a queda do seu preço e uma queda vertical nas exportações brasileiras.Mais ou menos coincidente com o fenômeno lúgubre da desindustrialização foi o crescimento do PIB no segundo trimestre, em apenas 0,2%, comparado com o do último trimestre do ano passado.
Evidentemente, a proclamada inviolabilidade das nossas fronteiras lembrava a da Linha Maginot... e os fatos se encarregaram de demonstrar. O Banco Central, nada menos que o Banco Central, contestou frontalmente a versão presidencial. Em audiência pública, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do Banco Central declarou que os sinais de desaceleração econômica "vêm de todos os lados", isto porque "longe de uma solução, a crise externa fará com que os mercados financeiros operem voláteis e a economia global tenha ritmo fraco em um período de até dois anos" e, para quem ainda duvidasse, aditou que a economia global deveria seguir em ritmo aquém do previsto.
Suponho que ninguém atribuirá malquerença a essa alta autoridade que, em lugar público e perante uma comissão do Senado, fez as declarações ora reproduzidas, bem como ninguém pode deixar de dar-lhes natural importância.
Não ficou nisso. Além da advertência do presidente do Banco Central, o próprio Banco Central, em exposição trimestral em que avalia as variações da economia nacional, corrigiu de 3,5% para 2,5% sua projeção para o crescimento do PIB em 2012. É de lembrar-se que quando se tornou conhecido o aumento do PIB no segundo trimestre de 2012, em apenas 0,2%, o ministro da Fazenda entrou a delirar, afiançando que seria tão grande o crescimento no terceiro trimestre que já estava a assegurar um crescimento esplêndido de todo o ano em curso!
Desde o fim do ano passado, o governo fez sete anúncios de pacotes na expectativa de reverter a desaceleração da economia interna. O último, no final de junho, foi recebido com ceticismo, diante de redução da produtividade da economia brasileira. O Instituto Brasileiro de Economia da FGV prevê queda de 4,3% da produção industrial, a maior em 32 meses, e a previsão de redução do PIB para 2%, analistas já admitem chegar a 1,7%.
Não me considero habilitado a opinar em matéria dessa delicadeza, mas me parece claro que a situação não se apresenta como tranquila.
Apelo aos candidatos - ROSANE DE OLIVEIRA
ZERO HORA - 09/07
Dos temas que afligem os eleitores e que merecerão atenção dos candidatos nesta eleição, nenhum será mais falado do que a saúde, pelas dificuldades que atingem pequenos, médios e grandes municípios. Desde já se pode ter certeza de que a saúde será alvo das críticas de quem está na oposição e de explicações por quem é governo.Mas essa não pode ser uma campanha de uma nota só. Há outros temas igualmente importantes que correm o risco de ser ofuscados pela falta de leitos, pela demora nas consultas especializadas, pelas carências dos postos de saúde, pela demora na instalação de Unidades de Pronto Atendimento, também conhecidas como UPAs. Um desses temas é a educação infantil.
Responsabilidade dos municípios, a educação infantil é uma das vergonhas do Rio Grande do Sul pela baixíssima oferta de vagas. Um estudo coordenado pelo atual presidente do Tribunal de Contas do Estado, Cezar Miola, mostrou que o Estado está na ponta de baixo no ranking de investimentos na área.
No primeiro debate entre os candidatos a prefeito de Porto Alegre, esse assunto foi apenas tangenciado. Não deveria. Quem se dispõe a governar uma cidade precisa ter em mente que creche e pré-escola têm de ser prioridade de fato. Além de facilitar a vida das mães que precisam trabalhar, creches e escolas de educação infantil são fundamentais no desenvolvimento das crianças.
Quantos candidatos se dedicaram a conhecer a fundo o programa Brasil Carinhoso, lançado recentemente pela presidente Dilma Rousseff? Quantos sabem quais são as possibilidades de seu município fazer convênios com o governo federal para aumentar a oferta de vagas à população? Quantos incluíram a educação infantil nos planos de governo que estão em fase de elaboração?
MILITÂNCIA FORTE
Frio e chuva fina não afugentaram os petistas no ato inaugural da campanha de Adão Villaverde (PT) à prefeitura de Porto Alegre. Alheios ao tempo ruim, centenas de militantes e de lideranças tomaram a escadaria Santa Maria, no bairro Partenon, no sábado, demonstrando a força do partido.
O local não foi escolhido por acaso: a escadaria foi construída no primeiro mandato de Tarso como prefeito.
- Foi uma obra simbólica da Frente Popular. Escolhemos aquele lugar porque a nossa campanha vai estar muito enraizada nas áreas populares da cidade - diz Gerson Almeida, coordenador da campanha de Villaverde, que contou com o apoio de Tarso na largada da disputa eleitoral.
A próxima movimentação intensa da militância do PT ocorrerá na sexta-feira, quando será inaugurado o comitê de campanha, na esquina da Farrapos com a Barros Cassal.
LIMPEZA NA ORLA
Em vez dos tradicionais bandeiraços, caminhadas, panfletagens e carreatas, o prefeito José Fortunati (PDT) optou por mobilizar a militância de uma forma diferente ontem: ele reuniu candidatos a vereador, lideranças partidárias e militantes e levou todos para a orla do Guaíba, nas proximidades do Anfiteatro Pôr-do-Sol, onde recolheram lixo.
- Também vamos realizar as atividades mais comuns de campanha, mas nesse começo resolvemos inovar e promover atos que demonstrem nosso compromisso com a cidade - afirmou o deputado federal Vieira da Cunha (PDT), coordenador da campanha de Fortunati.
Na próxima quinta-feira, será instalado o conselho político do pedetista, em reunião-almoço na churrascaria Na Brasa. Integrado por nomes como Alceu Collares, Jair Soares e Pedro Simon, o grupo deverá discutir estratégias de campanha.
ACERTO NACIONAL
Apostando na simpatia de Manuela D"Ávila, o PC do B prioriza o corpo a corpo da sua candidata à prefeitura. Ontem, ela visitou uma feira na Vila Cruzeiro, passou pela Redenção e também pelo Morro Santa Tereza.
Hoje, Manuela almoça no Chalé da Praça XV para instalar a coordenação de campanha, encabeçada por Beto Albuquerque (PSB). Uma surpresa é preparada para os próximos dias: será inaugurado um comitê suprapartidário de apoio a Manuela com a presença da Senadora Ana Amélia Lemos (PP).
Nos bastidores, os comunistas comemoram silenciosamente um acordo nacional entre os presidentes do PT, Rui Falcão, e do PC do B, Renato Rabelo. Como o PC do B aderiu à coligação de Fernando Haddad (PT) em São Paulo, ficou acertado que o PT apoiará formalmente Manuela no segundo turno em caso de Adão Villaverde (PT) não avançar para esta etapa.
ALIÁS
O atendimento à primeira infância deveria ser item obrigatório na pauta de prioridades dos candidatos, independentemente do tamanho do município.
237 mil é o tamanho do déficit de vagas em creches e pré-escolas no Rio Grande do Sul, conforme estudo do TCE.
Artigo de autoria de Vinicíus Wu, chefe de Gabinete do governador Tarso Genro, afirma que a imprensa procura "punir" os políticos e agentes públicos ao cobrar a plena aplicação da Lei de Acesso à Informação, inclusive com a publicação de listas que incluam nomes e remunerações brutas de servidores, conforme regulamentação da Presidência da República e orientação do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça. Wu defende a máquina estatal dizendo que, se é para radicalizar, os executivos e empresários do setor privado que recebem incentivos fiscais também devem publicizar os seus ganhos na internet.
Nas mãos do Senado
A última etapa do processo de liberação de empréstimo no Banco Mundial (Bird) será vencida amanhã pelo Piratini.
Primeiro, a Comissão de Finanças do Senado dará o parecer favorável à aquisição do financiamento de US$ 480 milhões. Ainda amanhã, a operação de crédito será votada no plenário do Senado. Com a aprovação, restará esperar que o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, comunique ao Bird a autorização de liberação dos recursos. A primeira parcela, de US$ 40 milhões, deverá chegar ainda em julho. Parte do valor será aplicado na reforma de escolas.
Previdência sobre a mesa
Três propostas são analisadas pelo grupo do Conselhão responsável por organizar um projeto que regulamente no Estado a Emenda 41, do governo federal, que irá desvincular os servidores inativos dos ativos na negociação de reajustes salariais.
O ponto de partida é o projeto de lei complementar 90, de 2004, do governo Rigotto, arquivado em 2006. Dois substitutivos foram apresentados por entidades de servidores.
- Correção - Diferentemente do que foi publicado na edição de ontem, a coligação de José Fortunati (PDT) trabalha com o conceito "Fazer mais, fazer melhor , fazer com todos".
- Correção - Roberto Robaina é do PSOL, e não do PSTU como publicado na edição de ontem.
Apelo por eleição limpa
Para contrapor o antigo e desleixado hábito de candidatos que emporcalham ruas e espaços públicos ao jogar milhares de panfletos e santinhos no chão, nasceu no Twitter e no Facebook o movimento "Quem suja agora, vai sujar depois". A ideia é mostar que, além de poluir as cidades, a disseminação de materiais impressos, que invariavelmente causa sujeira e entope bueiros, se faz cada vez menos necessária devido à evolução das campanhas eleitorais nas redes sociais. Em tempos de sustentabilidade, os candidatos precisam se conscientizar e dar o exemplo à população.
A mãe de todas as eleições - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 09/07
Se você não conhece um candidato a vereador pessoalmente, melhor repensar sua inserção na vida política da sua cidade. Nas próximas eleições, mais de 400 mil pessoas devem se candidatar a um assento numa câmara municipal. É 1 candidato a vereador para cada 320 eleitores, na média brasileira. Ou seja, há uma boa chance de qualquer um ter um primo, um vizinho, um colega de trabalho ou escola que seja candidato.
As probabilidades, é claro, variam de lugar para lugar. Quanto maior a cidade, menor a chance. Em São Paulo, o risco de trombar com um postulante (1 em 7 mil) é uma pequena fração do que é em Araguainha (MT), com seus 21 candidatos para 925 eleitores. Isso não serve de desculpa, todavia. É improvável que a Câmara da pequena cidade mato-grossense empregue um garagista com salário de R$ 23 mil - até por falta de garagem. A de São Paulo sim.
Na média, o candidato a vereador é cinco anos mais novo do que o candidato a prefeito, além de ter passado menos tempo na escola. Tem 45 anos, é homem e não chegou a completar o ensino médio. A maioria é de casados, embora 1 em cada 3 ainda seja solteiro. Tem uma boa chance de ser servidor público municipal. Se não, é provável que seja agricultor ou comerciante. Se for mulher, dona de casa ou professora.
A Câmara Municipal não é a única porta de entrada para a política partidária. Nenhum dos últimos presidentes brasileiros foi vereador. Nem Dilma Rousseff, nem Lula, nem FHC, nem Itamar Franco (tentou mas não conseguiu), nem José Sarney nem Fernando Collor - muito menos os militares. O último - e talvez o único - presidente que havia sido vereador foi Jânio Quadros. OK, não é o melhor exemplo. Mas que não sirva de desencorajamento.
Se ninguém está olhando, vereadores podem se sentir à vontade para fazer de conta que compareceram a sessões nas quais nunca estiveram, terceirizar seu voto para funcionários da Câmara e sabe-se lá mais o que. A prudência recomenda procurar conhecer pessoalmente um candidato a vereador e acompanhar o que ele vier a fazer, se for eleito. Nem que seja para ter um pistolão e se candidatar àquela vaga de garagista.
Tudo bem, seu negócio não é política e você não é muito bom em manobrar carros. Mesmo assim, as eleições municipais são mais importantes do que parecem. É muito mais do que o início de uma carreira política promissora. É a base onde todos os partidos, sem exceção, assentam suas pretensões políticas. Não há partido grande sem base municipal. Sem vereadores é difícil eleger prefeitos, e, sem prefeitos, não se elegem deputados federais.
Há uma correlação estatística quase perfeita entre a quantidade de votos para prefeito que um partido recebe e o número de representantes que a mesma sigla elege dois anos depois para a Câmara dos Deputados. O coeficiente é de 0,96 num máximo de 1. Nenhum dos maiores partidos brasileiros recebeu, em 2008, menos do que 150 mil votos a prefeito por deputado federal eleito em 2010. A proporção parece esdrúxula, mas não é.
Os prefeitos são os principais cabos eleitorais dos deputados. Sem algumas centenas de prefeitos um partido não elege uma dezena de deputados. O tamanho dos eleitorados governados pelos prefeitos faz diferença, mas, na média, um partido médio ou grande precisa eleger 12 prefeitos para levar um deputado à Câmara no pleito seguinte. Alguns precisam mais, outros menos.
O PT precisou de seis prefeitos por deputado; o PTB, de 20. Mas os deputados petistas foram empurrados também pela campanha de Dilma e a popularidade de Lula. O PT, portanto, é a exceção. A regra é o PMDB e o PSDB, que precisaram eleger 15 prefeitos em 2008 para cada deputado federal eleito dois anos depois. Ou o PP, que precisou de 13; ou ainda DEM e PDT, de 12; PSB e PR, de 9. Por isso, os voos partidários em 2014 decolam este ano.
Na política brasileira, há dois astros (PT e PSDB) em torno de qual orbitam quase todas as outras siglas. O número de satélites varia em função de qual dos dois está no poder. A grande exceção, por ora, é o PMDB, que tenta ser o fiel da balança sem o qual é impossível governar. Mas há duas novidades em cena, disputando o papel dos protagonistas.
O PSB de Eduardo Campos pretende em 2014 (mais difícil) ou em 2018 (mais provável) se tornar um astro com candidato a presidente viável. E o PSD de Gilberto Kassab quer ser o novo PMDB. O sucesso ou fracasso desses planos depende, principalmente, do desempenho de PSB e PSD nas próximas eleições. Para chegarem ao estrelado, precisão eleger mais prefeitos do que têm hoje. Por isso 2012 é a mãe de todas as eleições.
Estados e municípios - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 09/07
À luz do dia, constata-se a paralisia de matérias essenciais, como a renegociação das dívidas dos Estados, a desoneração das empresas estaduais de saneamento (que pagam em impostos quase o mesmo o que investem), a revisão do vencido marco regulatório sobre a exploração mineral ou o injustificável atraso do novo plano decenal da educação.
Ao mesmo tempo em que concentra recursos e retarda decisões, o governo federal transfere responsabilidades.
Casos como a regulamentação da Emenda 29, em que o governismo obrigou os entes federados a adotarem patamar mínimo de investimentos na saúde, eximindo a União do mesmo dever, ou a adoção, sem a devida contrapartida financeira, de piso salarial para carreiras extensas do funcionalismo, remuneradas de forma preponderante por estados e municípios, são exemplos irrefutáveis.
Mas não é só isso.
Dados da Secretaria do Tesouro Nacional indicam que, em 2010, os gastos do governo central em educação representavam só 22,7% do gasto total no setor. Para transporte e segurança pública, a participação federal foi de apenas 35% e 18,3%, respectivamente.
No prazo de dez anos (2000-2010), a participação da União em saúde caiu de 44% para 32,6%. Em habitação e urbanismo, caiu de 15,2% para 10,3%. Ou seja, a maior parte das despesas com as funções essenciais à sociedade tem sido responsabilidade dos Estados e dos municípios.
Além de aumentar as atribuições dos governos regionais, o poder central toma, por reiteradas vezes, medidas que lhes retiram ainda mais recursos.
Os Estados têm pago os seus compromissos da dívida com a União sem conseguir amortizá-la -pelo contrário, os saldos devedores se multiplicaram exponencialmente.
As transferências de recursos na área de segurança têm sido contingenciadas. A redução da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) e as isenções tributárias com base em receitas partilhadas são exemplos de ações danosas a Estados e municípios. São recursos que constavam de seus orçamentos e que foram cancelados sem qualquer compensação.
As decisões que, pensava-se, serem econômicas, começam a ganhar contornos de lógica política. Enfraquecer a federação, aumentando a dependência do país ao governo central, prejudica a população e não é um caminho que honre as nossas melhores tradições.
Insisto nesse tema: o país reclama solidariedade política e mais compartilhamento de responsabilidades.
Sonho ou pesadelo do carro próprio? - MARIA INÊS DOLCI
FOLHA DE SP - 09/07
Carro é paixão brasileira, mesmo. Talvez tenha a ver com a sensação de liberdade, o direito de ir e vir, transformando a pessoa ao volante em um caubói moderno, que, em lugar das pradarias, cruze avenidas e estradas.
Mas nem tudo é glamour no carro próprio. Primeiramente, os preços são dos mais altos do mundo. Antes que alguém alegue que isso se deva à pesada carga tributária, já foram feitas comparações com retirada de todos os tributos. Ainda assim, os brasileiros pagam muito mais do que seus vizinhos e do que consumidores de outros países.
O desembolso de dinheiro, porém, não para por aí. Os governos não se contentam com a derrama tributária que representa mais ou menos um terço do preço do carro.
Pagamos, também, Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), licenciamento, estacionamentos caríssimos, combustíveis, revisões, os custos das vias esburacadas e mal sinalizadas, um festival de contas.
Em São Paulo, as tarifas de pedágio foram reajustadas neste mês. A mais cara é a do sistema Anchieta-Imigrantes, R$ 21,20. Bacana, não?
Então, fazer os cálculos somente da prestação mensal, com temporária redução do IPI, é um caminho inevitável para o endividamento.
Há, ainda, a inspeção veicular. Em São Paulo, cada proprietário pagará R$ 44,36 em 2012. Boa fonte de arrecadação para os cofres públicos, já repletos de dinheiro originado do mercado automotivo.
Não tratamos ainda do seguro, indispensável, pois o crime está livre, leve e solto nas maiores cidades brasileiras. Esta colunista, por exemplo, foi assaltada em plena luz do dia, em São Paulo, por três motociclistas, ao sair de uma agência bancária. As coisas não ficaram piores porque um taxista teve a coragem de sair do carro, o que fez com que os criminosos fugissem.
De janeiro a maio, no Rio de Janeiro, os roubos de carros aumentaram 28,4% em relação a igual período de 2011. Ou seja, já pagamos impostos, taxas e contribuições de país escandinavo, com serviços risíveis e insegurança pública. O preço médio de um seguro para um carro 1.0 -aqui no Brasil chamado "popular", apesar do preço-, era superior a R$ 1.500,00, em junho, em São Paulo.
Então, calcule: prestação, combustível, manutenção, estacionamento. Some os valores de IPVA, de inspeção veicular, de seguro e divida por 12. Você terá o custo aproximado para manter um automóvel, mensalmente. Sem considerar sinistros, como acidentes, dificilmente será inferior a R$ 300.
Logo, quem se deslumbra com uma mensalidade desse valor, deveria multiplicá-la por dois. Um exemplo: uma pessoa que receba R$ 3.000 por mês terá um salário líquido em torno de R$ 2.500. O automóvel consumirá, portanto, cerca de um quarto de sua renda.
Os outros três quartos vão bancar alimentação, moradia, escola dos filhos, vestuário, medicamentos e as contas inevitáveis -luz, água, telefone etc.
Este artigo não é um libelo contra o direito dos brasileiros de almejar a posse de um veículo. Até porque o transporte público é muito ruim, sujeitando seus usuários a ser esmagados, a sofrer assédio e outros tipos de desrespeito, além de ficar horas em trânsito.
A questão é: por que as autoridades não conseguem oferecer ônibus, trens e metrôs no nível e na quantidade necessários à população? Situação que, consequentemente, empurra as pessoas para dívidas e custos fixos que ativam as vendas de veículos, sim, mas destroem os orçamentos familiares.
A classe C, nova integrante do mercado de consumo, deve principalmente para manter o carro novo. A corda do financiamento rebenta, então, do lado mais fraco da relação, o comprador.
Você, consumidor, não precisa arquivar o sonho do carro zero na garagem. É legítimo e realizável. Mas não dê um passo maior do que a perna, porque corre o risco de perder o veículo, as prestações já pagas e ainda dever para o banco.
Nessa hora, ninguém virá em seu auxílio, nem o aplaudirá por ser o motor da economia brasileira.
Mas nem tudo é glamour no carro próprio. Primeiramente, os preços são dos mais altos do mundo. Antes que alguém alegue que isso se deva à pesada carga tributária, já foram feitas comparações com retirada de todos os tributos. Ainda assim, os brasileiros pagam muito mais do que seus vizinhos e do que consumidores de outros países.
O desembolso de dinheiro, porém, não para por aí. Os governos não se contentam com a derrama tributária que representa mais ou menos um terço do preço do carro.
Pagamos, também, Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), licenciamento, estacionamentos caríssimos, combustíveis, revisões, os custos das vias esburacadas e mal sinalizadas, um festival de contas.
Em São Paulo, as tarifas de pedágio foram reajustadas neste mês. A mais cara é a do sistema Anchieta-Imigrantes, R$ 21,20. Bacana, não?
Então, fazer os cálculos somente da prestação mensal, com temporária redução do IPI, é um caminho inevitável para o endividamento.
Há, ainda, a inspeção veicular. Em São Paulo, cada proprietário pagará R$ 44,36 em 2012. Boa fonte de arrecadação para os cofres públicos, já repletos de dinheiro originado do mercado automotivo.
Não tratamos ainda do seguro, indispensável, pois o crime está livre, leve e solto nas maiores cidades brasileiras. Esta colunista, por exemplo, foi assaltada em plena luz do dia, em São Paulo, por três motociclistas, ao sair de uma agência bancária. As coisas não ficaram piores porque um taxista teve a coragem de sair do carro, o que fez com que os criminosos fugissem.
De janeiro a maio, no Rio de Janeiro, os roubos de carros aumentaram 28,4% em relação a igual período de 2011. Ou seja, já pagamos impostos, taxas e contribuições de país escandinavo, com serviços risíveis e insegurança pública. O preço médio de um seguro para um carro 1.0 -aqui no Brasil chamado "popular", apesar do preço-, era superior a R$ 1.500,00, em junho, em São Paulo.
Então, calcule: prestação, combustível, manutenção, estacionamento. Some os valores de IPVA, de inspeção veicular, de seguro e divida por 12. Você terá o custo aproximado para manter um automóvel, mensalmente. Sem considerar sinistros, como acidentes, dificilmente será inferior a R$ 300.
Logo, quem se deslumbra com uma mensalidade desse valor, deveria multiplicá-la por dois. Um exemplo: uma pessoa que receba R$ 3.000 por mês terá um salário líquido em torno de R$ 2.500. O automóvel consumirá, portanto, cerca de um quarto de sua renda.
Os outros três quartos vão bancar alimentação, moradia, escola dos filhos, vestuário, medicamentos e as contas inevitáveis -luz, água, telefone etc.
Este artigo não é um libelo contra o direito dos brasileiros de almejar a posse de um veículo. Até porque o transporte público é muito ruim, sujeitando seus usuários a ser esmagados, a sofrer assédio e outros tipos de desrespeito, além de ficar horas em trânsito.
A questão é: por que as autoridades não conseguem oferecer ônibus, trens e metrôs no nível e na quantidade necessários à população? Situação que, consequentemente, empurra as pessoas para dívidas e custos fixos que ativam as vendas de veículos, sim, mas destroem os orçamentos familiares.
A classe C, nova integrante do mercado de consumo, deve principalmente para manter o carro novo. A corda do financiamento rebenta, então, do lado mais fraco da relação, o comprador.
Você, consumidor, não precisa arquivar o sonho do carro zero na garagem. É legítimo e realizável. Mas não dê um passo maior do que a perna, porque corre o risco de perder o veículo, as prestações já pagas e ainda dever para o banco.
Nessa hora, ninguém virá em seu auxílio, nem o aplaudirá por ser o motor da economia brasileira.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 09/07
Setor farmacêutico pede redução tributária
A indústria farmacêutica vai levar ao Conselho Nacional de Saúde, nesta semana, um estudo em que reuniu argumentos que apontam que a queda da carga tributária no setor pode elevar o consumo e a arrecadação.
O trabalho, finalizado em junho, afirma que após a redução do ICMS de medicamentos de 18% para 12% no Paraná, o preço para o consumidor caiu e a arrecadação cresceu 132%. Em 2008, com alíquota de 18%, o Paraná arrecadou R$ 76,8 milhões com o ICMS dos medicamentos. Em 2010, após a queda, a receita foi para R$ 178,6 milhões, segundo a entidade.
A ideia é pressionar por reduções nas alíquotas que hoje estão em 19% no Rio, 18% na maioria dos Estados e 17% no Nordeste, todos para 12%, segundo Nelson Mussolini, do Sindusfarma.
"Geralmente, fazemos pedidos semelhantes diretamente às autoridades. Essa é a primeira vez que vamos levar o caso ao conselho, um órgão vinculado ao ministério que tem a participação de trabalhadores e usuários do SUS. Agora solicitaremos participação da sociedade civil."
Ambição Nacional
O presidente do BNDES quer olhar para o futuro quando se trata de prioridades na política industrial.
Luciano Coutinho diz que o governo rediscute a metodologia de apuração do conteúdo local -que estabelece limites mínimos de valor agregado decorrente de produção nacional.
"Quero fidedignidade, clareza e transparência para poder enxergar qual é o efetivo de conteúdo local. Não nos move uma intenção punitiva. Queremos entender e calibrar nossa política para apoiar o processo de melhoria da indústria."
O economista diz que o ambiente global e integrado requer "horizontes diferentes". Em certos casos, avalia ele, é impossível chegar a um conteúdo local muito alto: "As economias de especialização e escala internacionais não permitem chegar lá e ser competitivo".
Para o pesquisador e especialista em setores de alta complexidade, como biotecnologia, química fina, mecânica de precisão e novos materiais, a prioridade de alguns setores deve ser agregar mais valor nos componentes mais sofisticados, de mais engenharia. Segundo Coutinho, o Brasil pode estar na contramão em relação a isso. "Precisamos ambicionar ter competitividade nos sistemas mais intensivos de capacidade de manufatura, engenharia; esse é o grande desafio."
"O Brasil já ultrapassou a fase em que trabalho barato era fonte de competitividade. Precisamos tê-la agora nos sistemas mais intensivos de capacidade de manufatura, engenharia; esse é o grande desafio"
Boleto no celular
Os latino-americanos são os mais dispostos a utilizar celulares para o pagamento de contas, segundo a Nielsen.
Europeus e norte-americanos, por outro lado, são os menos propensos a adotar o mecanismo.
A pesquisa fez mais de 28 mil entrevistas em 56 países.
Saúde Integrada
A Intersystems investirá US$ 20 milhões até o final de 2013 no Brasil para disputar licitações de informatização e compartilhamento de dados clínicos dos pacientes.
A companhia já realiza projetos similares no Distrito Federal, em Passo Fundo (RS) e no Chile (onde serão investidos outros US$ 20 milhões). Com esse tipo de iniciativa, as informações de cada paciente ficam disponíveis em todos os hospitais e postos de saúde da localidade contratante.
"No Brasil, existe uma dificuldade maior para realizar essa integração, pois há hospitais municipais, estaduais e federais", diz Carlos Eduardo Nogueira, principal executivo da companhia na América Latina.
Em 2011, o faturamento da empresa foi de US$ 500 milhões, sendo 6% no Brasil. "Queremos crescer 50% em dois anos."
Treinado A Ambev vai investir mais de R$ 30 milhões em treinamento e qualificação neste ano. Parte do valor será destinado ao programa de trainee da companhia. O valor investido no ano passado foi de R$ 26,7 milhões.
Líquido... A Alcoa informa que iniciou fornecimento de metal líquido no Maranhão. A tecnologia já era utilizada pela empresa na unidade de Poços de Caldas (MG).
...metálico O embarque de alumínio líquido começa a ser realizado a partir da unidade da Alumar, em São Luís (MA), segundo a empresa.
Política externa bisonha - MARCELO DE PAIVA ABREU
O Estado de S. Paulo - 09/07
Em meu último artigo, escrito horas antes de eclodir a crise paraguaia, usei metáfora futebolística para caracterizar a ação do Itamaraty nos últimos tempos: defesa mais que razoável; ataque bisonho. A defesa se referia à postura defensiva do Ministério das Relações Exteriores no campo político. O ataque, às propostas brasileiras no terreno econômico.
Com base no primeiro ano e meio do lado político da diplomacia do governo Rousseff, sublinhei as virtudes do afastamento em relação a Teerã e Caracas. O Itamaraty parecia ter sido capaz de se distanciar dos excessos a que se havia exposto na época da tríade Amorim-Guimarães-Garcia. Com otimismo, Rio Branco ameaçava voltar a se sobrepor à diplomacia de grêmio estudantil que tanto agradava a Lula.
Em contraste, no terreno propositivo, especialmente na esfera econômica, eu havia mencionado a pobreza das propostas brasileiras no quadro multilateral. Primeiro, na Organização Mundial do Comércio (OMC), enfatizando a necessidade de que negociações comerciais levassem em conta flutuações cambiais, assunto em relação ao qual até o Fundo Monetário Internacional, como agência multilateral especializada em finanças, se revela relativamente impotente. E também no G-20, ao propor nova rodada de negociações comerciais multilaterais na OMC, a despeito de o Brasil ter-se tornado um dos grandes delinquentes em matéria de escalada do protecionismo no passado recente.
Havia ventilado como bastante provável a hipótese de que o Itamaraty estivesse sendo posto à margem do processo decisório de política comercial. De fato, é difícil crer que possam ter bom trânsito no Palácio dos Arcos iniciativas que desgastam o bom nome brasileiro acumulado desde a Rodada Uruguai até os vitoriosos contenciosos do algodão e do açúcar. As impressões digitais do eixo Fazenda-Planalto são visíveis.
Na verdade, devo agora reconhecer que minha avaliação sobre a vertente política da diplomacia brasileira estava equivocada. Não havia bola de cristal disponível para prever as trapalhadas da diplomacia do Brasil no quadro da crise política paraguaia. Em especial, a propensão a repetir erros do passado. O que se conclui agora é que, na política exterior brasileira, não é só o ataque que é bisonho, a defesa também o é.
O Paraguai foi censurado por seus companheiros do Mercosul por açodamento na aplicação de rito de impeachment previsto na Constituição, embora não seja claro qual teria sido o timing aceitável pelos críticos da deposição de Fernando Lugo. No passado, o preciosismo do governo brasileiro na avaliação dos ritos processuais foi bem menos marcado na apreciação das peripécias eleitoreiras de Hugo Chávez na Venezuela. Certamente, um caso de dois pesos e duas medidas.
É sabido que o Itamaraty tentou mitigar a impetuosidade presidencial e houve sucesso em impedir tresloucadas sanções econômicas ao Paraguai, que contavam com a simpatia do eixo Buenos Aires-Caracas. Mas a presidente Dilma, a julgar por revelações de dirigentes uruguaios, teve papel ativo e decisivo quando foram consideradas as consequências da suspensão do Paraguai como membro do Mercosul, com possível remoção do obstáculo à admissão da Venezuela, cujo ingresso dependia de voto favorável do Senado paraguaio. Suspenso o Paraguai, admita-se a Venezuela. A pressa em resolver o assunto, em benefício da postulação venezuelana, contrasta com a censura à pressa paraguaia em aprovar o impeachment de Lugo. A melhor justificativa encontrada pelo Itamaraty - "é a Venezuela que está sendo admitida no Mercosul, e não Chávez" - é ridícula, para dizer o mínimo.
Fica claro que a política externa brasileira hoje tem sido formulada e implementada em grande medida ao arrepio do Itamaraty. A perspectiva de curto prazo tem prevalecido sobre qualquer visão estratégica sobre o papel político e econômico que o País possa desempenhar em escala global. É uma versão um tanto inusitada de diplomacia presidencial, com o presidente tornando-se o principal formulador da política externa.
Não se discute que a política externa brasileira tenha como pilar a manutenção de relações cordiais com seus vizinhos. De fato, a secular convivência pacífica com os vizinhos é um dos aspectos mais positivos da tradição diplomática do Brasil, configurando um contraste positivo com diversos outros emergentes. Essa prioridade explicaria as acomodações que têm marcado a postura do País diante de Caracas e Buenos Aires. Mas o preço da manutenção de tal postura tem aumentado desmesuradamente à medida que "se va la mano de los hermanos", especialmente no caso da Argentina, onde prospera o primitivismo peronista. Certamente haverá limites para a capacidade brasileira de fazer vista grossa às decisões argentinas prejudiciais ao Brasil e, também, aos destemperos chavistas.
Que credibilidade global pode ter um Brasil a reboque de Argentina e Venezuela? Não só o Mercosul fica ainda mais estigmatizado como parceiro comercial preferencial das economias desenvolvidas, mas também a postulação brasileira ao Conselho de Segurança da ONU, emblemática do anseio por um papel global, torna-se despropositada.
Transparência para quê? - EDUARDO GRAEFF
FOLHA DE SP - 09/07
Os servidores pedem isonomia com carreiras mais bem pagas sempre. Resultado: os salários nunca se alinham. A lei limita aumentos? Tentam mudar a lei
A Lei de Acesso à Informação pode pegar, graças às cobranças da imprensa, da sociedade e da melhor parte dos agentes públicos. A publicação da folha de pagamentos de órgãos públicos é um bom começo, mas é só um começo. A grande pergunta é: o que fazer com toda essa informação?
Identificar aberrações individuais é importante. Mas é fundamental usar a informação obtida para começar a botar ordem na balbúrdia da remuneração de funcionários e autoridades públicas em geral.
Na falta de políticas remuneratórias consistentes, a regra do setor público brasileiro é: quem grita mais alto, leva. A altura da gritaria é razão direta da proximidade dos centros do poder e razão inversa do número de bocas.
Isso dá margem a todo tipo de aberração. Destaco três: o descolamento do teto, a gangorra ascendente e o esmagamento da base da pirâmide salarial.
Descolamento do teto é a brecha entre os salários mais altos e mais baixos do setor público. Ministros dos nossos tribunais superiores ganham tanto ou mais que juízes da Suprema Corte americana. Mas um professor primário nos Estados Unidos ganha um quarto de um juiz da Suprema Corte. No Brasil, deve ganhar um décimo ou menos.
A mesma desproporção se verifica nos salários de policiais, médicos, enfermeiros etc. O que faz com que eles sempre achem que ganham mal, mesmo quando não ganham tão mal assim.
Gangorra ascendente é o efeito da busca de isonomias e equiparações entre funcionários de diferentes carreiras, órgãos, poderes e níveis de governo.
Delegados de polícia querem ganhar como juízes e promotores; militares de alta patente querem ganhar como delegados; funcionários do Executivo querem ganhar como os do Legislativo e Judiciário; policiais e professores dos Estados querem ganhar como os federais. Como as escalas salariais nunca se alinham, a gangorra nunca para e vai sempre para cima.
Esmagamento da base é o impacto final dessa engrenagem sobre a carga tributária. A Lei de Responsabilidade Fiscal limitou a parcela da receita dos Estados e municípios destinada ao pagamento de salários. As demandas dos funcionários, justas ou injustas, se chocam com esses limites.
Virou moda tentar derruba-los via emendas constitucionais garantindo aumentos para funcionários estaduais e municipais. Assim não há carga tributária que chegue -nem dinheiro que sobre para investir em infraestrutura e melhora da qualidade dos serviços.
Acesso à informação, somente, não vai mudar esse quadro. Mas pode ajudar a sociedade e autoridades responsáveis a dimensionar o problema, discutir soluções e alinhar iniciativas na direção de uma política remuneratória consistente.
Para isso, a informação deve ser abrangente e comparável. O ideal é que todos os órgãos públicos, de todos os poderes e níveis de governo, publiquem e atualizem regularmente sua folha de pagamentos.
Agregar, tabular e comparar essa massa de dados não será nenhum bicho de sete cabeças, se eles forem publicados em formato aberto, como prevê a lei. Um órgão como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) pode fazer isso. Outros entes públicos e privados, como o Contas Abertas, também.
Só assim saberemos quem está gritando de barriga cheia e quem está ganhando pouco ou na justa medida -que, para ser justa, tem que ser proporcional à capacidade de pagamento do país.
Quem se dá bem na sombra achará pretextos para resistir à abertura da informação. O que é motivo suficiente para os amigos da transparência insistirem.
Os servidores pedem isonomia com carreiras mais bem pagas sempre. Resultado: os salários nunca se alinham. A lei limita aumentos? Tentam mudar a lei
A Lei de Acesso à Informação pode pegar, graças às cobranças da imprensa, da sociedade e da melhor parte dos agentes públicos. A publicação da folha de pagamentos de órgãos públicos é um bom começo, mas é só um começo. A grande pergunta é: o que fazer com toda essa informação?
Identificar aberrações individuais é importante. Mas é fundamental usar a informação obtida para começar a botar ordem na balbúrdia da remuneração de funcionários e autoridades públicas em geral.
Na falta de políticas remuneratórias consistentes, a regra do setor público brasileiro é: quem grita mais alto, leva. A altura da gritaria é razão direta da proximidade dos centros do poder e razão inversa do número de bocas.
Isso dá margem a todo tipo de aberração. Destaco três: o descolamento do teto, a gangorra ascendente e o esmagamento da base da pirâmide salarial.
Descolamento do teto é a brecha entre os salários mais altos e mais baixos do setor público. Ministros dos nossos tribunais superiores ganham tanto ou mais que juízes da Suprema Corte americana. Mas um professor primário nos Estados Unidos ganha um quarto de um juiz da Suprema Corte. No Brasil, deve ganhar um décimo ou menos.
A mesma desproporção se verifica nos salários de policiais, médicos, enfermeiros etc. O que faz com que eles sempre achem que ganham mal, mesmo quando não ganham tão mal assim.
Gangorra ascendente é o efeito da busca de isonomias e equiparações entre funcionários de diferentes carreiras, órgãos, poderes e níveis de governo.
Delegados de polícia querem ganhar como juízes e promotores; militares de alta patente querem ganhar como delegados; funcionários do Executivo querem ganhar como os do Legislativo e Judiciário; policiais e professores dos Estados querem ganhar como os federais. Como as escalas salariais nunca se alinham, a gangorra nunca para e vai sempre para cima.
Esmagamento da base é o impacto final dessa engrenagem sobre a carga tributária. A Lei de Responsabilidade Fiscal limitou a parcela da receita dos Estados e municípios destinada ao pagamento de salários. As demandas dos funcionários, justas ou injustas, se chocam com esses limites.
Virou moda tentar derruba-los via emendas constitucionais garantindo aumentos para funcionários estaduais e municipais. Assim não há carga tributária que chegue -nem dinheiro que sobre para investir em infraestrutura e melhora da qualidade dos serviços.
Acesso à informação, somente, não vai mudar esse quadro. Mas pode ajudar a sociedade e autoridades responsáveis a dimensionar o problema, discutir soluções e alinhar iniciativas na direção de uma política remuneratória consistente.
Para isso, a informação deve ser abrangente e comparável. O ideal é que todos os órgãos públicos, de todos os poderes e níveis de governo, publiquem e atualizem regularmente sua folha de pagamentos.
Agregar, tabular e comparar essa massa de dados não será nenhum bicho de sete cabeças, se eles forem publicados em formato aberto, como prevê a lei. Um órgão como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) pode fazer isso. Outros entes públicos e privados, como o Contas Abertas, também.
Só assim saberemos quem está gritando de barriga cheia e quem está ganhando pouco ou na justa medida -que, para ser justa, tem que ser proporcional à capacidade de pagamento do país.
Quem se dá bem na sombra achará pretextos para resistir à abertura da informação. O que é motivo suficiente para os amigos da transparência insistirem.
Novo Oriente Médio? - RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SP - 09/07
A derrota de Assad, como desejam os EUA, mudaria o equilíbrio da região mais explosiva do globo
Se o conflito sírio terminar com a derrota completa do regime de Assad, como desejado e exigido por Hillary Clinton, o equilíbrio do mapa político da mais explosiva região do globo sofrerá mudanças de enorme alcance.
O Irã amanheceria isolado e ameaçado a ter de escolher entre ceder ou se tornar a próxima vítima. O Hizbollah e o Hamas perderiam o contato direto com sua fonte de armas e financiamento no Irã através da Síria. O núcleo duro da oposição à estratégia ocidental, muito reduzido após a supressão de Arafat, Saddam Hussein e Gaddafi, praticamente se resumiria a Teerã, uma vez removido Assad.
A Rússia perderia seu último aliado (e base naval) na região e, junto com a China, sairia derrotada do intento de evitar o domínio da área por EUA, Israel e aliados. Num balanço geral, as transformações trazidas pela Primavera Árabe têm mais favorecido do que prejudicado a posição relativa dos americanos.
Imaginava-se que, em caso de sublevação popular, os primeiros regimes a cair seriam as monarquias quase absolutas do golfo, aliadas e dependentes dos EUA.
Não foi o que sucedeu. Dosando concessões moderadas com transferência de renda à população, as monarquias lograram neutralizar as pressões populares. A exceção foi o Bahrein, de maioria xiita dominada por dinastia sunita. Esta não hesitou em esmagar a rebelião com apoio militar direto dos sauditas, sem que as potências ocidentais demonstrassem indignação remotamente comparável à reservada à Síria.
Fora o retardatário Iêmen, a insurreição varreu governos que tinham começado como nacionalistas e reformistas, acomodando-se depois (Egito, Tunísia, Líbia). Pareciam em todo caso pertencer a uma etapa mais avançada de desenvolvimento histórico do que os feudais. A situação que vem emergindo nesses países lembra em alguns aspectos a do Iraque: governos pouco efetivos, divididos por dissensões tribais ou de partidos islamistas, duvidosa capacidade de promover o desenvolvimento de sociedades de expectativas longamente reprimidas.
Para os EUA, o regime de Assad constitui o inimigo ideal: brutal, sanguinário e incompetente. Facilita a montagem de uma união sagrada, capaz de fornecer até aos turcos uma oportunidade de realinhamento com o Ocidente após a quase ruptura com Israel.
Vista em retrospectiva, a invasão do Iraque atirou no que viu e matou o que não viu. Não havia bomba atômica iraquiana nem aliança com o terrorismo. A guerra continua tão imperdoável como sempre foi pelas atrocidades e crimes cometidos.
Involuntariamente, porém, acabou fornecendo o choque exterior que faltava aos fatores internos para desestabilizar o Oriente Médio e romper a longa estagnação e o imobilismo político.
A história se põe novamente em marcha e o quadro está longe de completo. Falta, sobretudo, saber o que vai acontecer ao Irã.
Até agora, a ação se tem concentrado no interior dos países. Cedo ou tarde, a questão que determina a dinâmica regional voltará ao centro do palco: como negociar uma paz satisfatória e durável com Israel. Só aí se vai saber se as mudanças em curso ajudarão a região a finalmente exorcizar seus fantasmas.
A derrota de Assad, como desejam os EUA, mudaria o equilíbrio da região mais explosiva do globo
Se o conflito sírio terminar com a derrota completa do regime de Assad, como desejado e exigido por Hillary Clinton, o equilíbrio do mapa político da mais explosiva região do globo sofrerá mudanças de enorme alcance.
O Irã amanheceria isolado e ameaçado a ter de escolher entre ceder ou se tornar a próxima vítima. O Hizbollah e o Hamas perderiam o contato direto com sua fonte de armas e financiamento no Irã através da Síria. O núcleo duro da oposição à estratégia ocidental, muito reduzido após a supressão de Arafat, Saddam Hussein e Gaddafi, praticamente se resumiria a Teerã, uma vez removido Assad.
A Rússia perderia seu último aliado (e base naval) na região e, junto com a China, sairia derrotada do intento de evitar o domínio da área por EUA, Israel e aliados. Num balanço geral, as transformações trazidas pela Primavera Árabe têm mais favorecido do que prejudicado a posição relativa dos americanos.
Imaginava-se que, em caso de sublevação popular, os primeiros regimes a cair seriam as monarquias quase absolutas do golfo, aliadas e dependentes dos EUA.
Não foi o que sucedeu. Dosando concessões moderadas com transferência de renda à população, as monarquias lograram neutralizar as pressões populares. A exceção foi o Bahrein, de maioria xiita dominada por dinastia sunita. Esta não hesitou em esmagar a rebelião com apoio militar direto dos sauditas, sem que as potências ocidentais demonstrassem indignação remotamente comparável à reservada à Síria.
Fora o retardatário Iêmen, a insurreição varreu governos que tinham começado como nacionalistas e reformistas, acomodando-se depois (Egito, Tunísia, Líbia). Pareciam em todo caso pertencer a uma etapa mais avançada de desenvolvimento histórico do que os feudais. A situação que vem emergindo nesses países lembra em alguns aspectos a do Iraque: governos pouco efetivos, divididos por dissensões tribais ou de partidos islamistas, duvidosa capacidade de promover o desenvolvimento de sociedades de expectativas longamente reprimidas.
Para os EUA, o regime de Assad constitui o inimigo ideal: brutal, sanguinário e incompetente. Facilita a montagem de uma união sagrada, capaz de fornecer até aos turcos uma oportunidade de realinhamento com o Ocidente após a quase ruptura com Israel.
Vista em retrospectiva, a invasão do Iraque atirou no que viu e matou o que não viu. Não havia bomba atômica iraquiana nem aliança com o terrorismo. A guerra continua tão imperdoável como sempre foi pelas atrocidades e crimes cometidos.
Involuntariamente, porém, acabou fornecendo o choque exterior que faltava aos fatores internos para desestabilizar o Oriente Médio e romper a longa estagnação e o imobilismo político.
A história se põe novamente em marcha e o quadro está longe de completo. Falta, sobretudo, saber o que vai acontecer ao Irã.
Até agora, a ação se tem concentrado no interior dos países. Cedo ou tarde, a questão que determina a dinâmica regional voltará ao centro do palco: como negociar uma paz satisfatória e durável com Israel. Só aí se vai saber se as mudanças em curso ajudarão a região a finalmente exorcizar seus fantasmas.
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