sexta-feira, junho 29, 2012

Retrocessos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 29/06



A "judicialização" da política produziu ontem duas decisões que terão influência importante na nossa vida partidária, e não necessariamente para o seu aperfeiçoamento. Por quatro votos a três, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) liberou o registro de candidaturas para os políticos com as contas sujas, num recuo provocado pela pressão dos partidos.

Em março último, o TSE decidira que não poderiam ser candidatos políticos que tivessem contas de campanhas reprovadas .

Por sua vez, decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal (STF), que na prática concedeu ao PSD o tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV proporcional à sua bancada na Câmara, tem um efeito perverso que vai além do fortalecimento imediato da nova sigla criada pelo prefeito paulistano, Gilberto Kassab.

O novo PSD ganhará um reforço nas negociações políticas para alianças ainda nesta eleição municipal, sem dúvida, e o partido mais diretamente afetado será o DEM, de onde veio a grande maioria de seus fundadores e atuais membros.

O tempo de propaganda migrará do DEM para o PSD, enfraquecendo um e fortalecendo o outro. Mas, além do resultado imediato, a interpretação do STF traz com ela um efeito deletério para a já desgastada organização partidária do país.

Não foi à toa que o ministro Joaquim Barbosa propôs que a ação não fosse nem julgada, já que o tema deveria ser tratado "em abstrato", mas na realidade o centro da discussão era o PSD, mesmo que a sigla não fosse citada diretamente, o que, para ele, gerará uma consequência que "não será boa" para o quadro partidário.

Já os ministros Cezar Peluso e Marco Aurélio Mello, antevendo os perigos para a democracia que a decisão pode gerar, foram além e votaram pelo fim da regra de divisão do tempo de rádio e televisão com base no número de deputados federais filiados.

Como a Constituição garante aos partidos o direito de igualdade na disputa eleitoral, o tempo da propaganda deveria ser dividido igualmente entre todos os partidos com candidatos.

Os votos do ministro Marco Aurélio Mello são exemplares da confusão que está sendo instalada no quadro partidário.

Ele votou no Tribunal Superior Eleitoral contra a formação do PSD, pois considerou que a legislação não foi observada integralmente, mas, diante da aprovação da sigla, viu-se na obrigação de votar a favor do direito do novo partido de receber sua parcela proporcional do Fundo Partidário.

Para não se comprometer com o erro, o ministro Marco Aurélio Mello votou ontem no Supremo pelo fim da distribuição do tempo de acordo com as bancadas da Câmara, pois considera que esse sistema de divisão provoca a formação de partidos de aluguel que vivem de seus tempos de propaganda eleitoral.

A questão incomodava tanto aos partidos que a ação no TSE foi feita pelo DEM e por mais 20 outros partidos políticos, que foram todos derrotados pela maioria do Supremo, para onde a ação acabou sendo encaminhada antes do final do julgamento no TSE, para que a questão fosse decidida "em abstrato", a fim de valer para qualquer partido que tenha sido ou venha a ser criado depois da eleição de 2010, até que a próxima eleição, em 2014, possa definir a bancada partidária das novas legendas.

Os ministros que concordaram com a tese de que os partidos formados dentro da legislação da fidelidade partidária, que permite a mudança de legenda para a formação de um novo partido, têm o direito ao tempo de seus membros basearam-se na realidade criada pela legislação.

Mesmo que jamais tenha disputado uma eleição, esse partido teria que ter meios de subsistir até a próxima eleição e tempo de propaganda eleitoral correspondente à bancada que formou - no caso do PSD, uma das maiores da Câmara, com 52 deputados.

Na verdade, a decisão do Supremo, além de estar em contradição com uma decisão anterior do Tribunal Superior Eleitoral que definiu que a votação recebida por um parlamentar pertence ao partido, e não ao candidato, pode significar a institucionalização da venda do tempo de televisão.

A mais recente realização nesse campo foi a aliança entre Lula e Maluf para dar mais um minuto e 30 segundos para a campanha eleitoral do candidato petista Fernando Haddad em São Paulo.

Esse mercado eleitoral, que já é fartamente conhecido de todos, ganhará agora novas variantes de chantagem. Se de repente um grupo de deputados está em dificuldades políticas em um partido, pode ameaçar sair para criar outro, levando consigo o tempo de televisão.

Ou um grupo pode derrubar o tempo de um candidato às vésperas da eleição. Alguns políticos consideraram que o Supremo está mudando a regra das eleições depois de os partidos já terem escolhido seus candidatos, provocando uma insegurança jurídica brutal às vésperas da eleição.

É improvável, no entanto, que a decisão de ontem mude radicalmente as alianças políticas já firmadas, mas, do ponto de vista dos partidos, é um fato gravíssimo, que pode ameaçar a oposição em pleitos futuros.

Pontualmente, terá influência em algumas alianças. O DEM, por exemplo, perdeu o único argumento político forte que tinha contra o PSD, e, embora o presidente do partido, senador Agripino Maia, tenha garantido ontem que todas as alianças feitas pelo partido estão mantidas, é evidente que pode haver repercussões nos próximos dias, até a formalização oficial dos acordos e da escolha dos candidatos, prazo que termina no início de julho.

O duro golpe que o PSD recebera quando o procurador-geral eleitoral, Roberto Gurgel, votara contra suas pretensões em relação ao tempo de televisão, agora foi sentido pelo DEM, que contava com o revés do adversário para se fortalecer e até mesmo receber de volta muitos dos que haviam abandonado a legenda para criar o PSD. Agora, é possível que novas defecções aconteçam.

Mais energia para o PIB - PAULO PEDROSA


O Estado de S.Paulo - 29/06


Os números do Produto Interno Bruto (PIB) apresentados recentemente mostraram mais uma vez de forma irrefutável o peso do setor industrial no andamento da economia. Um recuo da atividade da indústria nos últimos meses do ano freou fortemente o crescimento geral do País e acendeu a luz amarela nos gabinetes de governo. Mais do que uma redução do PIB em si, os dados do IBGE mostram uma perda de qualidade e aumento da vulnerabilidade da economia brasileira, cada vez mais voltada para serviços e consumo.

As abordagens tradicionais de incentivo, que recaem sobre desonerações ou subsídios específicos para determinados setores e redução de juros, são medidas que podem trazer algum resultado. Mas não passam de paliativos e mascaram a necessidade de uma política industrial que recupere a competitividade da indústria nacional no longo prazo. Essa política precisa, necessariamente, contemplar a redução das distorções que oneram a produção nacional, como o alto custo da energia, seja a elétrica ou o gás natural. Estudos recentes da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) comprovam a importância de atacar esses temas: cada R$ 1 a menos pago pela energia se refletiria em R$ 8,6 a mais no PIB brasileiro.

A Agência Internacional de Energia diz que estamos no início da idade de ouro do gás natural, que trará consigo uma mudança no mapa da economia e da geopolítica global. Isso significa que as reservas brasileiras do insumo, associado ou não ao petróleo, podem potencializar uma nova fase do desenvolvimento nacional. Se demorarmos a perceber essa realidade, corre-se o risco de perder a oportunidade de fortalecer a economia e gerar empregos.

Os EUA já vivem uma nova ordem econômica em razão da abundância do gás não convencional (principalmente o gás de xisto, ou shale gas), que fez os preços caírem drasticamente e está incentivando a produção local. Os americanos pagam hoje pouco mais de US$ 3 por milhão de BTU (unidade que mede o gás). No Brasil esse valor chega a ultrapassar US$ 16. Os efeitos começam a ser percebidos: enquanto a indústria química americana se recupera e a de alumínio é ressuscitada, as empresas brasileiras desses segmentos interromperam investimentos em expansão e algumas penam para não fechar as portas, levando consigo cadeias produtivas inteiras.

Obviamente, a situação dos EUA é um extremo neste momento, pois o gás de xisto já está sendo explorado. Mas, mesmo se comparado aos demais Brics, o Brasil é hoje quem paga mais para consumir gás. Além disso, há grande incerteza em relação aos desembolsos nos próximos anos, pois a maioria dos consumidores ainda não tem informações sobre a renovação dos contratos firmados entre as distribuidoras e a Petrobrás, que se encerram até o fim de 2012.

Também não existem expectativas reais quanto ao funcionamento do mercado livre de gás, já antecipado pela legislação setorial. Com relação a esse ponto, aliás, vale observar que, mesmo em energia elétrica, que é um setor mais maduro, não atingimos o patamar de eficiência e sustentabilidade necessário.

Há de se reconhecer que diversas esferas do governo federal começam a perceber que a energia é muito mais do que uma cadeia que se fecha em si, em torno de geração ou exploração, transmissão ou transporte e distribuição. O Ministério de Minas e Energia, por exemplo, estuda, com os Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, alternativas para restabelecer a competitividade da indústria de alumínio.

No cenário global de crise, o Brasil tem condições únicas para continuar galgando postos entre os maiores PIBs do mundo. O compromisso com a melhoria da governança da administração pública, apoiado por grandes lideranças empresariais, certamente coloca o País no rumo certo para o salto no desenvolvimento com qualidade. Mas é importante que a energia seja incorporada nessa agenda como alternativa capaz de produzir resultados num prazo curto. A simples redução de distorções posicionaria melhor o País no parâmetro global de competitividade.

Aventuras fiscais - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 29/06

Congresso ameaça contribuir para desequilíbrio das contas públicas num momento em que a crise recomenda cautela e responsabilidade


Mais uma vez populismo, demagogia e chantagem política dão os braços no Legislativo para maquinar propostas que, sob a aparência de soluções generosas para os males do país, constituem gritante irresponsabilidade financeira.

Trata-se agora de uma série de projetos em discussão no Congresso cuja aprovação terá impacto danoso nas contas públicas. E isso justamente no momento em que a crise econômica internacional recomenda redobrada cautela.

Como disse a presidente Dilma Rousseff, não é hora nem de promover "aventuras fiscais" nem de "brincar à beira do precipício".

O alerta, aliás, vale para o próprio Executivo, com seus seguidos pacotes emergenciais de isenção fiscal, que já põem em risco a meta de superavit primário (a economia de gastos para ajudar a pagar juros da dívida pública federal).

Entre as ameaças em cena estão a extinção do fator previdenciário, o piso salarial para agentes de saúde, a redução da jornada de enfermeiros, a autonomia para Judiciário e Legislativo aumentarem seus salários e a reserva compulsória de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) para a educação.

Esta última medida, exemplar em seus contornos temerários, já foi aprovada pela comissão da Câmara que analisa o Plano Nacional de Educação 2011-2020 (PNE). O texto, que fixa diretrizes para o setor, foi encaminhado à Câmara pelo Executivo com a proposta de uma progressiva elevação das despesas até atingir 7% do PIB.

A escalada rumo aos 10% começou com o relator Angelo Vanhoni (PT-PR), que acenou com um aumento para 8%. A seguir, pressões da oposição e de entidades ligadas ao ensino acrescentaram dois pontos percentuais à meta.

Em quase dez anos de governo petista os gastos públicos com educação passaram de cerca de 4% do PIB para os atuais 5,1% -um percentual compatível com os padrões internacionais.

Em números absolutos, o cumprimento da proposta representaria um desembolso suplementar de R$ 230 bilhões ao ano. A cifra equivale a dez vezes as despesas com o Bolsa Família.

De onde sairiam os recursos? A comissão não se deu ao trabalho de identificar nenhuma fonte sustentável. Limitou-se a lançar o número, como se a verba brotasse espontaneamente, na mesma vazão da falta de seriedade com que tantas vezes se encaram as despesas públicas no Legislativo.

A consequência óbvia seria aumentar tributos -o que representaria mais um despautério.

O Brasil viveu, nos últimos anos, um ciclo virtuoso de crescimento do PIB e elevação da renda das famílias. Enfrenta, agora, as dificuldades impostas pela crise mundial e pelas restrições do modelo de expansão do crédito e do consumo. Um Congresso mais sério daria sua contribuição para melhorar, e não deteriorar, o quadro econômico.

Será que os ilhéus querem mesmo 'autonomia'? - GILLES LAPOUGE


O ESTADÃO - 29/06


A Ilha de Jersey revoltou-se. Ela ameaça a Grã-Bretanha. Se David Cameron e seus ministros continuarem a aborrecê-la, Jersey proclamará sua independência. Ela soltará as amarras que a prendem à Grã-Bretanha desde 1204.

A Ilha de Jersey não é grande coisa. Com uma superfície de 119,49 quilômetros quadrados e 97.857 habitantes, é um país microscópico mesmo se lhe adicionarmos os dois recifes - de Ecrébon e Minquiers - que controla. No entanto, sua cólera impressiona Londres ainda que a rainha Elizabeth II, que continua sendo a soberana de Jersey (com um título bizarro e cheirando a Idade Média, de "duquesa da Normandia"), ainda não tenha ameaçado enviar até ela a Marinha Real, como fez com as Malvinas.

Qual a razão de todo esse estardalhaço? O peso histórico, primeiro.

Todos os cônjuges sabem: não se interrompe uma relação de um milênio sem um aperto no coração. E isso não é tudo. Jersey é magnífica. Os turistas a adoram. As pessoas veem-se cercadas pela violência do mar. E o clima permite instalar ali aqueles jardins extraordinários que os britânicos tanto apreciam.

De mais a mais, Jersey tem bancos. Muitos bancos. Bancos sutis, já que Jersey, de longa data um paraíso fiscal, também emprega seus talentos para facilitar a vida daqueles pobres milionários que o fisco britânico gosta de depenar.

O que deixou David Cameron com a pulga atrás da orelha é o caso de um astro britânico da comédia, Jimmy Carr. Esse Jimmy, que ganha somas monumentais, havia montado um lindo circuitozinho: ele colocava seu dinheiro em Jersey num "trust", uma estrutura jurídica opaca, e o recuperava sob a forma de empréstimos. Desse jeito, ele só pagava 1% de impostos sobre sua fortuna. Foi isso que levou Cameron a se debruçar sobre os meandros fiscais e financeiros de Jersey.

O ministro-chefe e senador de Jersey, Philip Bailhache, esperneou.

Os habitantes de Jersey, que são chamados ora de jersianos, ora de (não se sabe bem por que) "sapos", vingam-se lembrando que o pai de David Cameron fez fortuna precisamente nos paraísos fiscais e era o presidente de um fundo de investimentos (o Close International Asset Management) com base em... Jersey.

Eis por que Jersey ameaça declarar sua independência. "A ilha precisa se preparar para se defender", martelou Phlip Bailhache. Mas a batalha de Jersey é mais uma batalha "pela honra", pois a ofensiva contra Jersey é conduzida, de fato, não por Londres, mas por Bruxelas, pela União Europeia. É por isso, aliás, que a Ilha de Jersey, cuja diplomacia é assegurada pela Secretaria de Relações Exteriores (Foreign Office) de Londres, abriu no ano passado uma embaixada em Bruxelas e, neste ano, vai abrir uma segunda embaixada... em Londres.

Os habitantes da ilha estão furiosos, mas não muito. Eles estão inquietos, mas não muito. Sabem que sua ilha continuará sendo um pedaço do Império Britânico, como é desde 1204. Eles se unem pela ironia. Lembram-se que Jersey, em 1066, pertencia a um Ducado da Normandia na França, cujas tropas transpuseram o Canal da Mancha e tomaram o poder na Inglaterra.

Ora, entre os soldados do duque francês da Normandia, naquele tempo, havia alguns soldados de Jersey. Daí que os "sapos" também têm o hábito de dizer, à noite, contemplando seu belo litoral, a impetuosidade do mar e, ao longe, a direção de Londres: "Afinal, fomos nós que conquistamos a Inglaterra, em 1066, com o duque da Normandia. Portanto, a Inglaterra pertence a Jersey, e não o inverso." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

O exagero do crédito pessoal - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA DE SP - 29/06


O maior endividamento de muitos brasileiros levou a inadimplência mais grave do que previam os analistas


Tenho chamado a atenção do leitor da Folha sobre as mudanças estruturais que vêm ocorrendo no Brasil nos últimos seis anos. São alterações importantes no metabolismo de nossa economia de mercado, criadas por um longo período de estabilidade e de crescimento.

Reportei também os efeitos positivos que ocorrem em países emergentes quando a gestão macroeconômica correta por vários anos acaba afetando as expectativas dos consumidores e de empresas produtoras de bens e de serviços.

Em outras palavras, quando o futuro passa a ser previsível e confiável, o chamado "espírito animal" do homem é liberado e entra-se em um período econômico virtuoso. Vivemos no Brasil esse cenário, principalmente no segundo mandato de Lula.

Mas, como o grande Keynes nos ensinou há muito tempo, o "espírito animal" leva também a exageros e a desequilíbrios negativos que passam a ocorrer devido aos riscos excessivos assumidos pelos agentes econômicos. Vivemos nestes dois primeiros anos do mandato da presidenta Dilma Rousseff, no caso do consumidor, um exemplo clássico dessa situação.

O crescimento vertiginoso do crédito ao consumo fez com que, em curto período de tempo, o endividamento do brasileiro com o sistema bancário passasse de 6% do PIB para mais de 16%. Esse aumento do endividamento de parcela importante dos brasileiros, tanto na chamada nova classe média como nos segmentos de renda mais baixa, criou uma situação de inadimplência mais grave do que previram os analistas mais atentos às questões microeconômicas.

Os pagamentos de dívidas chegaram a superar 40% da renda de muitos brasileiros, levando a uma parada súbita no ritmo do consumo, principalmente de bens de consumo.

O impacto sobre o crescimento foi imediato. Neste primeiro semestre, o PIB praticamente não cresceu, o que provocou revisão generalizada das previsões para o ano. Antes dessa freada do consumidor -agravada pelo recuo dos bancos na oferta de crédito-, as previsões apontavam para crescimento entre 3% e 3,5%. Hoje, os números mais realistas estão no intervalo entre 1,5% e 2% para o ano inteiro.

Mas é preciso olhar para a frente com cuidado. A massa total de salários está crescendo no Brasil há alguns meses a taxas reais próximas de 12% ao ano, o que vai facilitar os ajustes dos devedores mais ousados.

No segundo semestre, a inadimplência do consumidor vai se reduzir e, na virada para 2013, os gastos vão voltar a crescer. Apenas uma situação de colapso na Europa -cenário no qual não acredito- pode mudar esse curso das coisas. Os economistas da Quest projetam crescimento do PIB da ordem de 4,5% a 5% entre o quarto trimestre deste ano e o primeiro de 2013, o que deve acalmar os mercados e fazer com que os empresários normalizem seus planos de investimento.

Na volta do consumidor às compras, a queda dos juros, que vem ocorrendo há alguns meses, vai servir como estímulo adicional, reforçando esse cenário de recuperação. Por outro lado, os juros reais, da ordem de 3% ao ano nas aplicações financeiras, devem alterar o equilíbrio entre poupança e consumo nas classes de renda mais elevada. Mas só o tempo pode nos levar a essa situação mais favorável.

Nessas condições, aconselho a equipe econômica a ter paciência e a evitar sinais de desespero que aparecem com os chamados "pacotes de estímulos" em cascata. A economia brasileira é hoje muito maior do que o valor desses estímulos, e apenas setores específicos podem reagir a eles. Mas, no agregado e com capacidade de mudar o crescimento do PIB, apenas mudanças estruturais no gasto e no investimento podem ter alguma influência.

Redução do risco sistêmico com a Europa, normalização do crescimento chinês depois de um longo período de ajustes e estabilização da vida financeira dos consumidores são eventos que não dependem do ativismo do governo brasileiro. E sem eles as ações do governo serão sempre de pouco efeito sobre a economia.

O Mercosul sob influência chavista - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 29/06
A reunião de cúpula do Mercosul, em Mendoza, teria, em condições normais, ampla agenda para discutir, pois ocorre no momento em que o eixo do bloco comercial, Brasil-Argentina, enfrenta graves problemas, devido ao protecionismo crescente dos argentinos. Mas terminou dominada pela questão político-diplomática do destino do Paraguai no acordo comercial, pauta imposta pelos interesses chavistas representados no grupo.
Não é por acaso que, segundo consta, Dilma Rousseff foi alertada pela presidente argentina, Cristina Kichner, na Rio+20, sobre o processo de impeachment em curso contra o paraguaio Fernando Lugo. Cristina K. há tempos assume ares bolivarianos, e se mostra bem mais próxima do caudilho venezuelano, do qual o ex-bispo Lugo também é aliado.

O governo brasileiro reagiu num impulso - erro primário em política e diplomacia -, ao entrar no coro de denúncia do "golpe parlamentar" supostamente desfechado contra Fernando Lugo. Horas depois, Brasília reduziu os decibéis das declarações e, em alguma medida, atenuou o tom. Mas, na essência, manteve o sentido punitivo contra um dos fundadores do Mercosul, um país com o qual tem laços estreitos de interdependência, mais que a Argentina.

O chavismo não perdoa o Congresso paraguaio por ele ter sido o único obstáculo a que a Venezuela chavista entre no Mercosul, um passo temerário, diante do conhecido poder desagregador do caudilho e do seu isolamento crescente no mundo.

Afastar o aliado Lugo, num processo de impeachment muito rápido, contra um dos requisitos da democracia que é o amplo direito de defesa - mas sem ferir qualquer dispositivo da Constituição do país -, colocou o Congresso de vez na linha de tiro dos interesses de Chávez no continente.

Alertada Dilma por Cristina K., o Brasil aceitou ser terceirizado no contra-ataque ao Paraguai. Sério equívoco diplomático. Espera-se que haja em Brasília alguém preocupado com alternativas para reduzir danos futuros decorrentes desta terceirização deplorável.

O maior dos danos é o óbvio: problemas no fornecimento de energia de Itaipu, pouco mais de 15% do consumo nacional, incluindo a parte não utilizada pelos paraguaios e comprada pelo Brasil. É uma parcela significativa. São risíveis as tentativas de autoridades brasilienses de minimizar esta dependência, com o argumento do atual desaquecimento econômico. Ora, teria de haver uma depressão para o Brasil poder abrir mão de Itaipu.

Segundo o ministro de Relações Exteriores brasileiro, Antonio Patriota, há o consenso de não se impor sanções ao Paraguai, por suposta afronta à "cláusula democrática" do Mercosul. Mas o país continuaria suspenso do bloco, até as eleições do ano que vem. Pode não atender aos espíritos mais radicais existentes em Buenos Aires, Brasília e Montevidéu, mas abre uma janela para Chávez, enfim, entrar no acordo comercial, com todo seu poder de desagregação. E quando o Paraguai voltar ao grupo?

Um erro, como se vê, costuma produzir outros erros, em sucessão. O Mercosul sai menor de todo este episódio.

Custo Lula _ CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 28/06



Há menos de três anos, em 17 de setembro de 2009, o então presidente Lula apresentou-se triunfante em uma entrevista ao jornal Valor Econômico. Entre outras coisas, contou, sem meias palavras, que a Petrobrás não queria construir refinarias e ainda apresentara um plano pífio de investimentos em 2008. “Convoquei o conselho” da empresa, contou Lula. Resultado: não uma, mas quatro refinarias no plano de investimentos, além de previsões fantásticas para a produção de óleo.
Em 25 de junho último, a Petrobrás informa oficialmente aos investidores que, das quatro, apenas uma refinaria, Abreu e Lima, de Pernambuco, continua no plano com data para terminar. E ainda assim, com atraso, aumento de custo e sem o dinheiro e óleo da PDVSA de Chávez. Todas as metas de produção foram reduzidas. As anteriores eras “irrealistas”, disse a presidente da companhia, Graça Foster, acrescentando que faria uma revisão de processos e métodos. Entre outros equívocos, revelou que equipamentos eram comprados antes dos projetos estarem prontos e aprovados.
Nada se disse ainda sobre os custos disso tudo para a Petrobrás. Graça Foster informou que a refinaria de Pernambuco começará a funcionar em novembro de 2014, com 14 meses de atraso em relação à meta anterior, e custará US$ 17 bilhões, três bi a mais. Na verdade, as metas agora revistas já haviam sido alteradas. O equívoco é muito maior.
Quando anunciada por Lula, a refinaria custaria US$ 4 bilhões e ficaria pronta antes de 2010. Como uma empresa como a Petrobrás pode cometer um erro de planejamento desse tamanho? A resposta é simples: a estatal não tinha projeto algum para isso, Lula decidiu, mandou fazer e a diretoria da estatal improvisou umas plantas. Anunciaram e os presidentes fizeram várias inaugurações.
O nome disso é populismo. E custo Lula. Sim, porque o resultado é um prejuízo para os acionistas da Petrobrás, do governo e do setor privado, de responsabilidade do ex-presidente e da diretoria que topou a montagem.
Tem mais na conta. Na mesma entrevista, Lula disse que mandou o Banco do Brasil comprar o Votorantim, porque este tinha uma boa carteira de financiamento de carros usados e era preciso incentivar esse setor. O BB comprou, salvou o Votorantim e engoliu prejuízo de mais de bilhão de reais, pois a inadimplência ultrapassou todos os padrões. Ou seja, um péssimo negócio, conforme muita gente alertava. Mas como o próprio Lula explicou: “Quando fui comprar 50% do Votorantim, tive que me lixar para a especulação”.
Quem escapou de prejuízo maior foi a Vale. Na mesma entrevista, Lula confirmou que estava, digamos, convencendo a Vale a investir em siderúrgicas e fábricas de latas de alumínio. Quando os jornalistas comentam que a empresa talvez não topasse esses investimentos por causa do custo, Lula argumentou que a empresa privada tem seu primeiro compromisso com o nacionalismo.
A Vale topou muita coisa vinda de Lula, inclusive a troca do presidente da companhia, mas se tivesse feito as siderúrgicas estaria quebrada ou perto disso. Idem para o alumínio, cuja produção exige muita energia elétrica, que continua a mais cara do mundo.
Ou seja, não era momento, nem havia condições de fazer refinarias e siderúrgicas. Os técnicos estavam certos. Lula estava errado. As empresas privadas foram se virando, mas as estatais se curvaram.
Ressalva: o BNDES, apesar das pressões de Brasília, não emprestou dinheiro para a PDVSA colocar na refinaria de Pernambuco. Ponto para seu corpo técnico.
Quantos outros projetos e metas do governo Lula são equivocados? As obras de transposição do rio São Francisco estão igualmente atrasadas e muito mais caras. O projeto do trem bala começou custando R$ 10 bilhões e já passa dos 35 bi.
Assim como se fez a revisão dos planos da Petrobrás, é urgente uma análise de todas as demais grandes obras.
Mas há um outro ponto, político. A presidente Dilma estava no governo Lula, em posições de mando na área da Petrobrás. Graça Foster era diretoria da estatal. Não é possível imaginar que Graça Foster tenha feito essa incrível autocrítica sem autorização de Dilma.
Ora, será que as duas só tomaram consciência dos problemas agora? Ou sabiam perfeitamente dos erros então cometidos, mas tiveram que calar diante da força e do autoritarismo de Lula?
De todo modo, o custo Lula está aparecendo mais cedo do que se imaginava. Inclusive na política.

PIB minguante - CELSO MING


O ESTADÃO - 29/06

Nesta quinta-feira, o Banco Central anunciou no seu Relatório de Inflação que refez suas projeções de crescimento do PIB para este ano. Não será mais de 3,5%, como avaliara no início do ano, mas de 2,5%.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve estar aborrecido com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, porque esses números há meses não se afinam com os do Ministério da Fazenda.

Quando, em março, o Banco Central avisou que esperava um avanço do PIB neste ano de somente 3,5%, Mantega apostava todas as suas fichas em alguma coisa entre 4,5% e 5,0%. A título de explicação para essas diferenças, afirmou que sabia projetar esses números bem melhor do que o Banco Central.

Na semana passada, o Credit Suisse avisou seus clientes que seus cálculos não apontavam um crescimento em 2012 superior a 1,5%. Mantega declarou que esse número não passava de "uma piada".

Há dez dias, o mercado indicava pela Pesquisa Focus, do Banco Central, que já trabalhava com um crescimento do PIB de 2,30%. Provavelmente, a edição desse boletim na próxima segunda-feira acusará projeção ainda mais baixa. Nesta quinta-feira, a Fiesp divulgou suas novas projeções, entre as quais a de um aumento do PIB de apenas 1,8%. Ou seja, estão todos bem mais próximos da piada do Credit Suisse do que dos números mágicos do ministro.

Mas a questão mais importante não são as eventuais diferenças nas projeções. É examinar por que o setor produtivo avança devagar-quase-parando enquanto o consumo cresce entre 5,0% e 6,0%.

Como esta Coluna já apontou na edição de quarta-feira, o governo agora tende a descarregar o resultado insatisfatório do PIB sobre a crise externa: o empresário está com medo e vai desacelerando, argumenta o governo. Não dá para negar esse efeito. A perda de confiança é trava a levar em conta. Outro fator, também já apontado aqui, é a política excessivamente intervencionista do governo: o empresário não aciona seu espírito animal porque fica esperando mais favores do governo.

Mas há um terceiro fator, mais profundo e de ação mais duradoura. Esta crise mostrou ao industrial que, por mais brilhante que seja, a empresa dele não é competitiva. Se pisar no acelerador e aumentar os investimentos, corre sério risco de perder dinheiro.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, vem explicando que até mesmo a indústria mais moderna do mundo instalada no Brasil não tem mais como competir com o setor produtivo de outras partes do mundo, porque enfrenta custos insuportáveis do portão da fábrica para fora.

Nesta quinta-feira, em palestra no Congresso Brasileiro do Aço, realizado em São Paulo, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca argumentava que o investimento siderúrgico no Brasil não sai por menos de US$ 1,8 mil por tonelada de capacidade. Enquanto isso, na Índia sai por US$ 1 mil e na China, por US$ 550. Nessas condições, quem é o maluco que vai pôr dinheiro na produção de aço no Brasil?

O governo Dilma entendia que bastaria derrubar os juros, puxar as cotações do dólar e espremer os bancos para que baixassem os juros para que o PIB disparasse. Não é o que está acontecendo. A maior parte dos estímulos foi concedida ao consumo: os salários foram esticados e o crédito foi encorajado. No entanto, o setor produtivo vai afundando nos custos - no custo Brasil. O pessoal da Fiesp chama a isso de desindustrialização.

Água e óleo - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 29/06
Agora é oficial, o crescimento do PIB este ano está por volta de 2,5%, o que é menos do que no ano passado e encerra biênio de PIB muito fraco. Para sair do marasmo, o governo precisaria fazer o que não tem feito. Os sucessivos pacotes repetem a mesma fórmula de distribuir vantagens a alguns, mas não melhoram a eficiência de todos. A lógica do governo está expressa na decisão de tirar imposto da gasolina e aumentar o imposto da água mineral.
A água mineral está, como dissemos aqui ontem, entre os produtos que terão mais impostos nos próximos anos. A indústria de bebidas - água, refrigerantes e cervejas - é que pagará parte da conta dos benefícios concedidos a outros setores, como automóveis, em pacotes recentes.

Desde segunda-feira, gasolina e diesel deixaram de recolher a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que até a semana passada recolhia R$ 420 milhões por mês, e que em 2002 chegou a arrecadar R$ 1 bilhão por mês.

Esta é uma das curiosidades da política econômica atual: não se sabe nada sobre qual a sua direção. A presidente Dilma Rousseff disse que não daria novas vantagens tributárias porque não é hora de "brincar à beira do abismo". Isso dias depois de abrir mão de quase R$ 6 bilhões por ano, só para não aborrecer os donos de carros na hora de abastecer seus tanques. E fez esse incentivo ao uso do combustível fóssil apesar do custo que isso tem para a indústria do etanol.

Na quarta-feira ficou decidido também aumentar o subsídio aos empréstimos do BNDES. Eles agora pagarão TJLP de 5,5%, retroativo a quem já contratou empréstimo. Quase todas as grandes empresas brasileiras têm empréstimos no BNDES e receberam esse bônus.

Ao mesmo tempo, o governo coleciona frustração de receita. Tem recolhido menos impostos do que tinha previsto. A entrada menor de recursos é uma prova de que a atividade econômica está ficando cada vez mais fraca. Somando tudo: o governo abre mão de receita de uma forma equivocada num momento de frustração de receita.

No Relatório de Inflação, divulgado ontem, o Banco Central fez uma lista das mazelas externas que nos atingem: na Europa a crise está maior, mais longa e mais funda do que o previsto; a retomada do crescimento americano está mais incerta do que o imaginado; a China está reduzindo o ritmo de crescimento em percentual surpreendente.

Tudo isso é verdade. O problema não é apenas o mundo. É a qualidade da nossa resposta. Ela tem sido fraca e sem nexo. O governo tem reagido aos pedidos dos lobbies por redução de tributos ou custos de financiamento do BNDES, mas não fez ainda uma lista de ações para avançar de fato na modernização do país, que sustentem o crescimento.

As vantagens concedidas não têm contrapartida. Nenhuma empresa ou setor que recebe o mimo de um imposto mais baixo e um empréstimo mais barato se compromete com qualquer coisa, seja aumento da eficiência energética, vigilância sobre práticas das suas cadeias produtivas, redução do impacto ambiental, investimento em inovação. O governo, no pacote desta semana, avisou que vai comprar antecipadamente e pagar até 25% mais caro de empresa que produzir no Brasil. É um incentivo à acomodação e à elevação de preços através das compras governamentais.

Na apresentação feita ontem do Relatório de Inflação, o Banco Central disse que a inflação está convergindo para a meta de 4,5% este ano e terá pequena alta no ano que vem. Nada que assuste. Isso porque está importando "desinflação" do mundo. O crescimento menor dos países está provocando uma redução do preço de matérias-primas, o que diminui o ritmo inflacionário no Brasil. Mas é claro também que os preços estão em queda pela elevação dos juros no começo de 2011, que ajudou a reverter um quadro de forte aquecimento da atividade.

Segundo a avaliação do Banco Central está havendo um "crescimento moderado do crédito, em torno de 15%". Primeiro, esse ritmo não é moderado para um crescimento anual; segundo, o crédito vem crescendo a taxas acima dessa há vários anos, como mostramos em gráfico esta semana; terceiro, a inadimplência está aumentando muito. Incentivar o endividamento desordenado das famílias é sim brincar à beira do abismo. São muitos os países que tiveram problemas recentes por excesso de dívida privada.

O Banco Central também avalia que "a atividade econômica está em aceleração". Isso não está amparado nos fatos. O ritmo de atividade pode aumentar ao longo dos próximos meses, mas ainda não há sinais de que isso já esteja acontecendo.

O BC foi surpreendido pela queda maior do nível de atividade. A redução do ritmo foi mais forte do que o imaginado. Para reverter o quadro, aceitou até fazer uma apressada liberação de compulsório apenas para os bancos aumentarem a oferta de empréstimos para a compra de carro.

O Relatório de Inflação sempre traz um amplo diagnóstico da economia brasileira. Os pacotes sucessivos revelam a forma como o governo está pensando em reverter os problemas na conjuntura econômica. Os pacotes e o relatório juntos contam o quanto o governo tem errado na avaliação desta crise.

CLAUDIO HUMBERTO

“Não acho apropriado para um ser humano”
FHC, ironizando a promessa que Lula fez de “morder a canela” dos adversários

PMDB RECORRE A JEFFERSON PARA ATRAIR O PTB EM SP

Na corrida contra petistas e tucanos, pelo apoio do PTB ao candidato a prefeito Gabriel Chalita, em São Paulo, o vice-presidente da República Michel Temer e o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RR), conversaram, na terça-feira, com o presidente do PTB, Roberto Jefferson. Eles sabem que Jefferson é brigado com o tucano José Serra desde 2010 e também tem desavenças sérias com o PT – sequelas do mensalão.

MAIS TEMPO DE TV

O PMDB oferece vaga de vice a Luiz D’Urso (PTB). Em troca, ganha 49 segundos em cada um dos dois blocos da propaganda eleitoral de televisão.

ALIANÇA TRADICIONAL

Temer e Raupp tentarão convencer o presidente do PTB de São Paulo, Campos Machado, que parece preferir aliança com o PSDB.

OUTRA VIA

O PMDB também considera a alternativa de Paulinho da Força (PDT) para vice de Gabriel Chalita, que conta hoje só com PSC, PTC e PSL.

GUERRILHA

O PT prepara uma brigada de “militantes virtuais” nas redes sociais da internet para defender os “seus”, durante o julgamento do mensalão.

PF PRENDE E SOLTA HUMORISTA MUÇÃO EM FORTALEZA

O conhecido humorista e radialista Rodrigo Vieira, o “Mução”, muito querido sobretudo no Nordeste, foi preso pela Policia Federal em Fortaleza (CE) na Operação DirtyNet, contra suspeitos de pedofilia e pornografia na internet. Mas, ops!, foi solto logo em seguida por “falta de provas”, segundo parentes. Ele é filho da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, demitida após “trombar” com a presidente Dilma.

PEDALA, RECEITA

Lina Vieira revelou encontro com a então ministra Dilma, que lhe teria ordenado “pressa” nas investigações contra um filho de José Sarney.

OPERAÇÃO “ABAFA”

Dilma negou o encontro, confirmado no Senado por Lina, que entendeu ter sido “pressão” para abafar o caso, hoje em segredo de Justiça.

SENADOR POTTER

O senador Magno Malta (PR-ES) adora provocar o atuante senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), chamando-o de “Harry Potter”.

ATÉ MAIS TARDE

Lula reiterou, ontem, ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que o compromisso deles é para a eleição de 2014. Mas em 2012, no Recife, o candidato dele, do PT e de Dilma é Humberto Costa.

PASSA A VEZ

O ministro Garibaldi Alves (Previdência) confidenciou a amigos que gostaria de disputar a presidência do Senado, mas sua prioridade, hoje, é o primo Henrique Alves (PMDB-RN), próximo presidente da Câmara.

MARCO PARA MAIA

Para o senador Paulo Paim (PT-RS), a votação do fator previdenciário será “um marco” para o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), também um ex-sindicalista: “O governo não gosta, mas engole a ideia”.

SEM CLIMA

O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) está em “afastamento branco” da CPI do Cachoeira até o julgamento do seu caso no Conselho de Ética, dia 4: “Não tem clima para continuar lá”.

SIMPATIA É QUASE AMOR

Do deputado Silvio Costa (PTB-PE), elogiando a postura do vice-presidente da CPI do Cachoeira, Paulo Teixeira (PT-SP): “Vossa excelência tem a cara do genro que todo sogro gostaria de ter”.

BARATAS CINÉFILAS

O filme Sombras da Noite, na sala 8 do Cinemark Pier 21, de Brasília, foi interrompido quarta-feira à noite por muitas baratas. Clientes reclamaram nas redes sociais da empresa, mas as mensagens foram deletadas.

REVERÊNCIA RELIGIOSA

O deputado Cláudio Abrantes (PPS), que interpretou Jesus na Paixão de Cristo de Planaltina (DF), pediu a palavra na Câmara Legislativa, ontem, e o presidente cedeu: “Como negaria alguma coisa a Cristo?”.

CONFEA-TUR

O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) pagará mais de R$ 4 milhões a uma empresa de turismo. A agência Money prestará serviços a conselheiros e presidente que atuam de forma “voluntária”.

PENSANDO BEM...

...o PIB diminuiu tanto, mas tanto, que qualquer dia o ministro Guido Mantega estará sentado em cima dele.


PODER SEM PUDOR

DEFINIÇÃO DE GOVERNO

Dias antes do suicídio que o fez entrar para a História, Getúlio Vargas teve uma conversa com seu ministro da Viação, José Américo de Almeida:

– Impossível governar este País. Os homens de verdadeiro espírito público vão escasseando cada vez mais – desabafou Getúlio.

– E o que é que o senhor acha dos homens de seu governo? – perguntou José Américo.

O ex-ditador observou, desolado:

– A metade não é capaz de nada e a outra metade é capaz de tudo.

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Rumo às urnas – TSE recua e libera contas sujas já nestas eleições
Folha: Supremo assegura tempo de TV a partido de Kassab
Estadão: Servidores ligados à CUT ameaçam greve geral
Correio: Acesso a salários leva CUT à Justiça
Valor: Cai investimento das empresas do Brasil no exterior
Estado de Minas: Vai doer também no seu bolso
Jornal do Commercio: PF ataca rede de pedofilia
Zero Hora: Porto Alegre – Parque da Redenção terá cerca virtual para aumentar a segurança

quinta-feira, junho 28, 2012

O mito e os fatos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 28/06

A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que 62% dos eleitores paulistanos e 64% dos simpatizantes do PT acham que o partido agiu mal procurando acordo com Maluf para a prefeitura de São Paulo.

O candidato do bolso do colete de Lula, o ex-Ministro Fernando Haddad, continua sendo apenas isso, mais uma invenção do ex-presidente.

Caiu dois pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, o que não tem significado estatístico, pois está na margem de erro, mas tem peso político porque a pesquisa foi feita logo depois da famosa foto em que Lula aparece nos jardins da mansão de Maluf comemorando o acordo político.

Cair dois pontos percentuais quando se tem 30% de intenções de voto, como tem o candidato tucano José Serra, seria irrelevante - e ele cresceu -, mas os mesmos 2 pontos num total de 8% significam uma queda de 25%, o que por si só explicita a difícil situação em que se encontra o candidato de Lula.

Haddad, que parecia ter iniciado a ascensão após aparecer com Lula no programa do Ratinho e ter quase triplicado as intenções de voto, fato muito comemorado entre os simpatizantes do PT, não conseguiu manter a curva ascendente.

Esperavam os petistas que, depois do episódio Maluf, o candidato de Lula atingisse os dois dígitos nas pesquisas, evidenciando a correção da manobra política de seu mentor.

Lula reagiu aos críticos ao afirmar que não tinha arrependimento nenhum pela foto. E Maluf fez sua análise particular: Erundina deixara a chapa por ciúmes de seu protagonismo, e, diante de Lula no governo, ele, Maluf, considera-se "de esquerda".

O que parece divertir Maluf, e não é para menos, configura-se um problema político de envergadura para o PT paulistano.

A pesquisa Datafolha mostra que os eleitores estão ao lado de Erundina, pelo menos nesse primeiro momento. Nada menos que 67% dos eleitores consideram que Erundina fez muito bem em deixar a chapa de Haddad depois da divulgação da famosa foto.

Havia até em circulação uma curiosa interpretação na base do "falem mal, mas falem de mim". Lula seria tão genial articulador que colocara a imagem de Haddad nas primeiras páginas e nas televisões do país, fazendo com que viesse a ser conhecido pelo eleitorado.

O que para o comum dos mortais parecia erro estratégico, para o infalível líder tinha o dom de alcançar o objetivo de difundir a figura de seu escolhido.Vem a nova pesquisa Datafolha e joga por água abaixo a teoria montada a posteriori, que tentava transformar um erro político em grande lance estratégico.

O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, considera que a rejeição ao apoio de Maluf ao PT pode ser determinante na eleição, o que indicaria que não se trata de um efeito passageiro.

Nesse caso, Erundina estaria certa quando comentou que 1min e 30s de propaganda eleitoral não justificam fazer uma aliança que renega uma vida inteira. Aparentemente, esse tempo extra que o PT obteve aderindo a Maluf não será suficiente para reduzir o desgaste provocado pelo acordo, considerado espúrio pela larga maioria do eleitorado paulistano e petista.

O tucano José Serra continua liderando a pesquisa, mas está parado desde o início com 31% das intenções, o que representa o eleitorado cativo do PSDB na capital. Na análise dos petistas, mostra que ele não tem condições de ampliá-lo.

O outro terço deve ficar, como tradicionalmente ocorre, com o candidato do PT, mas, se Haddad não demonstra ser competitivo para buscar no partido o apoio que seria automático, como ir além do eleitorado petista para buscar votos que podem lhe dar vitória?

A estratégia petista tinha um objetivo pragmático, traçado por Lula. Abriu-se mão de uma candidata forte como é a ex-prefeita Marta Suplicy na suposição de que ela não trazia novidade para a campanha que ampliasse seu eleitorado.

O "novo", que Haddad representaria, teria mais facilidade para avançar no eleitorado que, não sendo petista, pode votar no candidato do partido.

Mas, ao mesmo tempo, a candidatura ficou limitada no viés ideológico quando se juntou a Haddad, um comunista saudosista, a ex-prefeita Erundina, que assumiu anunciando que continuava defendendo o socialismo. Para ela, estar no Partido Socialista Brasileiro (PSB) não é retórica, é uma profissão de fé. Com sua saída, o PT foi buscar no PCdoB a companheira de chapa de Haddad, fechando novamente o foco ideológico da candidatura.

Os petistas alardeiam que o candidato tucano José Serra tem mais rejeição do que apoio (35% contra 31%), o que é uma situação realmente incômoda para o candidato. Mas, por essa conta, o candidato petista tem o dobro de rejeição do que de apoio (12% contra 6%).

Lula promete "morder o calcanhar" dos adversários, mas precisará fazer com que Haddad aprenda a morder também, sob o risco de seu candidato ficar exposto ao público como figurante sem expressão.

Além do mais, as pesquisas do Datafolha vêm registrando a queda da influência de Lula como cabo eleitoral na disputa paulistana, embora ele continue sendo o mais influente deles, mais ainda que a própria presidente Dilma, que tem 28% de influência na escolha do candidato, ou que o governador Geraldo Alckmin, que influencia 29% dos eleitores.

O índice de influência de Lula no eleitorado é de 38%, mas o problema para o PT é que em janeiro eram 49% os que diziam que o apoio de Lula os faria votar em determinado candidato.

Se juntarmos a redução da influência de Lula no eleitorado com a incapacidade demonstrada até agora por Fernando Haddad de ser um candidato minimamente competitivo, teremos uma eleição que sugere ser muito mais difícil para o PT do que parecia meses atrás.

Serra já disse que os fatos mostram que Lula não é infalível, pelo menos nas eleições paulistas. Mas Lula é Lula, advertem sempre os petistas, agarrando-se ao mito na esperança da vitória. Lula faz bem em querer trazer para si a disputa contra Serra, nacionalizando a eleição paulistana. Caberá a Serra escapar dessa armadilha, convencendo o eleitorado que está pensando apenas em São Paulo, e não no Brasil.

Moribunda, mas viva - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/06


BRASÍLIA - Carlinhos Cachoeira está preso desde fevereiro, a construtora Delta desmoronou, Demóstenes Torres deverá ser cassado no próximo dia 11 e o recesso parlamentar vem aí. Passado julho, começam para valer a eleição municipal e o julgamento do mensalão no STF. Quem é que vai querer saber de CPI?
A pergunta me foi feita anteontem por importante líder político que previa a morte da CPI sem choro nem vela. E foi respondida ontem na moribunda, mas não morta, CPI: o jornalista Luiz Carlos Bordoni fugiu da estratégia do silêncio autorizado pela Justiça e botou a língua nos dentes.
Contou como recebia pelo caixa dois durante a campanha em Goiás, acusou o tucano Marconi Perillo de mentiroso, disse que o governador sabia que sua assessora tinha contatos nada convencionais com o esquema do Cachoeira e jogou na fogueira a própria filha, em cuja conta parte do pagamento foi depositada.
Teatralmente, autorizou a quebra do seu sigilo fiscal, bancário e telefônico, assim como o da filha.
Suas Excelências, que estão cansadas de CPI e doidas para correr para a campanha nos seus municípios, perderam as estribeiras. O Fla-Flu, digo, o PT-PSDB país afora reproduziu-se mais uma vez no campo da CPI, gerando cenas ao vivo daquelas que justificam retirar as criancinhas da sala. Mas quem ganhou a partida ontem foram os petistas.
O tucano Carlos Sampaio trocou desaforos com o petista Paulo Teixeira, o também tucano Mário Couto ficou fora de si quando o jornalista acusou a CPI de não querer apurar nada e saiu berrando que tudo era uma "avacalhação". Bem, nisso nós não discordamos dele. Mas, afora os chiliques, o fato é que não havia como defender Perillo.
A CPI começou tortuosa, continuou tortuosa e tende a chegar a lugar nenhum, só servindo para que PT e PSDB troquem acusações mútuas. Pena que nenhum dos dois lados tenha realmente como se defender.

O governo vai às compras - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 28/06


O governo decidiu, afinal, dar um passo além das medidas de estímulo ao consumo para desemperrar a economia, mas as novas ações são de alcance muito limitado, como as anteriores. Com dotação prevista de R$ 8,4 bilhões, o PAC Equipamentos - Programa de Compras Governamentais deve beneficiar diretamente indústrias de máquinas agrícolas, veículos, equipamentos médicos, roupas, calçados e material para escolas. Os fabricantes brasileiros terão margem de preferência de até 25% nas concorrências promovidas pela União. O objetivo mais importante continua sendo a aceleração imediata do crescimento. A ação do governo é uma resposta aos sinais de estagnação, evidenciados nos pobres resultados da indústria, no indicador de atividade produzido pelo Banco Central (BC), e também às previsões cada vez mais pessimistas do mercado financeiro. Na pesquisa Focus do dia 15, a mediana das projeções, em queda durante sete semanas consecutivas, ficou em 2,3%. Esse levantamento é conduzido semanalmente pelo BC com cerca de 100 instituições financeiras e escritórios de consultoria. Embora o foco, desta vez, seja o investimento público, o alvo do governo continua sendo o resultado de curto prazo, como se os problemas da indústria fossem essencialmente conjunturais.

Os problemas, no entanto, são bem mais graves e será preciso criar muito mais que estímulos de ocasião para fortalecer o setor manufatureiro.

Para a indústria, a política de compras governamentais poderá, na melhor hipótese, produzir resultados temporários, sem contribuir, no entanto, para eliminar as desvantagens comparativas da produção nacional. Mas até para propiciar esses ganhos limitados o governo precisará atender a algumas condições práticas. Será necessário, por exemplo, elaborar projetos de investimento. É bem conhecida a incompetência da administração federal nessa área - um detalhe acentuado no último relatório do Tribunal de Contas da União sobre as contas do governo.

Se o governo conseguir atuar com eficiência maior que a costumeira, poderá produzir alguns benefícios duradouros em termos de infraestrutura - por exemplo, na construção de estradas, no reforço e na modernização do equipamento de hospitais e na melhora das condições de funcionamento de escolas. Todos esses resultados são bem mais importantes, a médio e a longo prazos, que os efeitos obtidos, até agora, com o estímulo ao consumo e com medidas de curto alcance para alguns setores.

Mas é preciso lembrar, mais uma vez, a ineficiência na execução de projetos da maior parte dos Ministérios. No ano passado, como foi acentuado no relatório do TCU, só houve execução satisfatória de 54% das ações classificadas como prioritárias no Orçamento-Geral da União. Para melhorar seu desempenho na realização de investimentos o governo tem defendido a adoção de um regime especial de licitações para as obras do PAC, o mesmo adotado para os projetos da Copa do Mundo. Mas essa é uma solução ilusória. Não contorna a Lei das Licitações, porque os maiores problemas são políticos e gerenciais.

Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a maior parte das ações deve ser realizada no segundo semestre deste ano. A pretensão é garantir um crescimento médio superior ao do ano passado - 2,7% - e criar impulso para um avanço bem maior em 2013. Representantes da indústria disseram ter condições de atender à demanda do PAC Equipamentos. Mas os maiores problemas estão do lado do governo.

Além dos limites impostos pela baixa capacidade gerencial do setor público, as autoridades terão de levar em conta - e contornar, se isso for possível - as restrições eleitorais. Suas iniciativas poderão ser contestadas, se forem vistas como interferências nas disputas municipais.

O ministro anunciou também a redução da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), usada nos financiamentos do BNDES, de 6% para 5,5%. Resta conferir se isso bastará para incentivar os investimentos privados. Também esse estímulo poderá ter efeito limitado, se as demais desvantagens comparativas, como os impostos e vários outros custos, forem mantidas.

A longa história da cárie - FERNANDO REINACH


O ESTADÃO - 28/06


Muita coisa melhorou na vida do Homo sapiens nos últimos 20 mil anos, mas uma piorou: a quantidade de cáries. É o que concluiu um grupo de dentistas, antropólogos e arqueólogos.

Saber se diabete ou hipertensão eram frequentes na Idade da Pedra Lascada é praticamente impossível. Esqueletos, ruínas e artefatos são tudo de que dispomos para entender como era a vida de nossos ancestrais.

Algumas vezes encontramos ossos quebrados e marcas de pancadas nos crânios, o que permite avaliar o nível de violência ou os acidentes do no dia a dia. Mas talvez nunca venhamos a saber a incidência de doenças metabólicas ou a prevalência da obesidade.

Mas, se essa ignorância incomoda os médicos, os dentistas têm mais sorte. A quantidade de fósseis de crânios humanos é enorme. Muitos se dedicam a verificar o estado dos dentes de nossos antepassados, correlacionando seus achados com a época em que viveram, seus hábitos alimentares e a idade de cada um.

Nossos parentes distantes, os macacos, dificilmente apresentam cáries durante a maior parte de sua vida. Elas e outras doenças dentárias só aparecem no final da vida e são sinal de envelhecimento.

O que sabemos dos dentes de nossos ancestrais mais antigos vem do exame de crânios de humanos que viveram antes do desenvolvimento da agricultura. Examinando mais de mil crânios dessa época, foi constatada pelo menos uma cárie em só 2% dos indivíduos. Eram coletores e caçadores, comiam raízes, frutos, sementes duras e um pouco de carne.

O estado dental começou a piorar há 13 mil anos, no Neolítico, quando surgiu a agricultura. Nessa amostra de crânios, 9% deles possuíam uma cárie. Nessa época o consumo de grãos moídos, ricos em carboidratos, começou a fazer parte da dieta humana. Muito depois, tanto no Egito (há 3,3 mil anos) quanto nos crânios de aborígenes australianos (há uns 70 anos), a quantidade de cáries era próxima a 2%, mas esses povos não haviam adotado completamente a dieta rica em grãos típica das civilizações que adotaram a agricultura.

Açúcar. Nas populações europeias, há até 4 mil anos, a quantidade de crânios com cáries era de 10%. Há cerca de 2,3 mil anos, Alexandre, o Grande, trouxe o açúcar à Grécia. A quantidade de cáries aumentou lá, em Roma e depois em toda a Europa durante a Idade Média. O mesmo ocorreu na Inglaterra, quando, após a conquista das Índias, os navios trouxeram grandes quantidades de açúcar. O imposto sobre o açúcar foi reduzido em 1874 e o consumo explodiu. A partir desse momento, mais de 90% dos crânios ingleses possuem múltiplas cáries em quase todos os dentes.

Nessa época a alta incidência de problemas dentários fez com que as pessoas passassem a limpar os dentes: surgiram escovas, pastas, dentistas. Essa nova tecnologia estancou a incidência de cáries, que estabilizou em nível alto (50% a 90% das pessoas com cáries) na a Europa até meados do século 20. Em 1970, foi introduzido o flúor na água, o que melhorou um pouco a situação. Agora, no início do século 21, pela primeira vez a incidência está aumentando novamente.

A introdução de carboidratos purificados (amido) e solúveis (açúcar) em nossa dieta é provavelmente o grande culpado pelas cáries. Esse estudo é um bom exemplo de como a evolução tecnológica da humanidade é muito mais rápida que a biológica.

Nossa espécie viveu por milhões de anos comendo raízes, frutas, grãos e carne. Sobreviveram os indivíduos com dentes que resistiam nesse ambiente, mesmo sem higiene bucal. Mas o homem descobriu a agricultura e, com ela, carboidratos fáceis e baratos. E começou a consumi-los, apesar de seus dentes não estarem adaptados. Os dentes passaram a apodrecer rapidamente, o que deveria ter pressionado a população a comer menos destes alimentos. Mas novas tecnologias, como a escova e a dentadura, livraram-nos da pressão seletiva, a força maior da evolução.

A lição é simples: qual a melhor dieta para o ser humano? Aquela para a qual fomos selecionados durante milhões de anos, a dos que viveram antes da descoberta da agricultura.

Sorria! - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 28/06

Pesquisas mostram que valorizar a felicidade produz insatisfação e mesmo depressão


Na frente da câmara fotográfica, ninguém precisa nos dizer "Sorria!"; espontaneamente, simulamos grandes alegrias, sorrindo de boca aberta. Em regra, hoje, os retratos são propaganda de pasta de dentes -se você não acredita, passeie pelo Facebook, onde muitos compartilham seus álbuns, rivalizando para ver quem parece melhor aproveitar a vida.

O hábito de sorrir nos retratos é muito recente. Angus Trumble, autor de "A Brief History of the Smile" (uma breve história do sorriso, Basic Books), assinala que esse costume não poderia ter se formado antes que os dentistas tornassem nossos dentes apresentáveis.

Além disso, os retratos pintados pediam poses longas e repetidas, para as quais era mais fácil adotar uma expressão "natural". O mesmo vale para os daguerreótipos e as primeiras fotos: os tempos de exposição eram longos demais. Já pensou manter um sorriso por minutos?

Outra explicação é que o retrato, até a terceira década do século 20, era uma ocasião rara e, por isso, um pouco solene.

Mas resta que nossos antepassados recentes, na hora de serem imortalizados, queriam deixar à posteridade uma imagem de seriedade e compostura; enquanto nós, na mesma hora, sentimos a necessidade de sorrir -e nada do sorriso enigmático do Buda ou de Mona Lisa: sorrimos escancaradamente.

Certo, o hábito de sorrir na foto se estabeleceu quando as câmaras fotográficas portáteis banalizaram o retrato. Mas é duvidoso que nossos sorrisos tenham sido inventados para essas câmaras. É mais provável que as câmaras tenham surgido para satisfazer a dupla necessidade de registrar (e mostrar aos outros) nossa suposta "felicidade" em duas circunstâncias que eram novas ou quase: a vida da família nuclear e o tempo de férias.

De fato, o álbum de fotos das crianças e o das férias são os grandes repertórios do sorriso. No primeiro, ao risco de parecerem idiotas de tanto sorrir, as crianças devem mostrar a nós e ao mundo que elas preenchem sua missão: a de realizar (ou parecer realizar) nossos sonhos frustrados de felicidade. Nas fotos das férias, trata-se de provar que nós também (além das crianças) sabemos ser "felizes".

Em suma, estampado na cara das crianças ou na nossa, o sorriso é, hoje, o grande sinal exterior da capacidade de aproveitar a vida. É ele que deveria nos valer a admiração (e a inveja) dos outros.

De uma longa época em que nossa maneira e talvez nossa capacidade de enfrentar a vida eram resumidas por uma espécie de seriedade intensa, passamos a uma época em que saber viver coincidiria com saber sorrir e rir. Nessa passagem, não há só uma mudança de expressão: o passado parece valorizar uma atenção focada e reflexiva, enquanto nós parecemos valorizar a diversão. Ou seja, no passado, saber viver era focar na vida; hoje, saber viver é se distrair dela.

Ao longo do século 19, antes que o sorriso deturpasse os retratos, a "felicidade" e a alegria excessivas eram, aliás, sinais de que o retratado estava dilapidando seu tempo, incapaz de encarar a complexidade e a finitude da vida.

Alguém dirá que tudo isso seria uma nostalgia sem relevância, se, valorizando o sorriso e o riso, conseguíssemos tornar a dita felicidade prioritária em nossas vidas. Se o bom humor da diversão afastasse as dores do dia a dia, quem se queixaria disso?

Pois é, acabo de ler uma pesquisa de Iris Mauss e outros, "Can Seeking Happiness Make People Happy? Paradoxical Effects of Valuing Happiness", em Emotion on-line, em abril de 2011 (http://migre.me/9CT8e).

Em tese, a valorização ajuda a alcançar o que é valorizado -por exemplo, se valorizo as boas notas, estudo mais etc. Mas eis que duas experiências complementares mostram que, no caso da felicidade (mesmo que ninguém saiba o que ela é exatamente -ou talvez por isso), acontece o contrário: valorizar a felicidade produz insatisfação e mesmo depressão. De que se trata? Decepção? Sentimento de inadequação?
Um pouco disso tudo e, mais radicalmente, trata-se da sensação de que a gente não tem competência para viver -apenas para se divertir ou, pior ainda, para fazer de conta. Como chegamos a isso?

Pouco tempo atrás, na minha frente, uma mãe conversava pelo telefone com o filho (que a preocupa um pouco pelo excesso de atividade e pela dispersão). O menino estava passando um dia agitado, brincando com amigos; a mãe quis saber se estava tudo bem e perguntou: "Filho, está se divertindo bem?".

Panos quentes - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 28/06

Com o agravamento da tensão entre PT e PSB, sobretudo em Recife, dirigentes socialistas irão amanhã a Lula manifestar repúdio ao vídeo em que Rui Falcão, presidente petista, conclama militantes contra o governador Eduardo Campos (PE). O PSB quer tranquilizar o ex-presidente quanto aos rumos da sigla em 2014. "A política segue a lógica local. Apoiamos Lula desde 88, estamos apoiando Dilma, vamos apoiá-la se for candidata à reeleição", diz Roberto Amaral, vice socialista.

Esfinge Em conversas nos últimos dias com aliados, Lula não usou o mesmo tom beligerante para se referir a Campos, mas disse que ainda precisa entender qual é o jogo político do aliado.

Puxador Um dos nomes apresentados pelo PSDB para vice de José Serra caso haja chapa "puro-sangue", Andrea Matarazzo aparece na lista de pré-candidatos a vereador da sigla, com reivindicação de número na urna.

3 em 1 A reação de partidos aliados, em especial PR e PV, contra a escolha de um vice tucano, teve anuência de Gilberto Kassab. Em privado, o prefeito evoca acordo anterior às coligações que reservaria o posto ao seu PSD.

Marco zero Enquanto não decide seu companheiro de chapa, Serra já agendou seu primeiro evento oficial após deflagrada a campanha eleitoral: será uma caminhada, dia 6, partindo da Sé.

Em todas Não foi só o "Patrulha do Consumidor", exibido de manhã pela TV Record, que ajudou Celso Russomanno a saltar de 17% para 24% no Datafolha. O pré-candidato do PRB bate ponto nos principais programas da emissora no horário nobre desde maio como "consultor" para o tema.

Tira-teima Sem acordo, o PMDB escolhe no sábado seu candidato em Belo Horizonte: Sávio Souza Cruz, com apoio de Newton Cardoso e Hélio Costa, deve enfrentar Leonardo Quintão, presidente municipal, com mais inserção na base partidária.

Junto e misturado No mesmo dia, o PSB homologará Márcio Lacerda à reeleição, respaldado por PT e PSDB. Eros Biondini (PTB) e Délio Malheiros (PV) também lançaram suas candidaturas.

Acesso... Na esteira da CPI do Cachoeira, procuradores relatam o travamento de diversas investigações de corrupção, como lavagem e desvio de dinheiro, por conta da demora das instituições bancárias em prestar dados de quebra de sigilo autorizadas por ordem judicial.

... negado Procuradores dizem que os bancos levam até um ano para repassar as informações ao Sistema de Investigação de Movimentação Bancária, o Simba. O Ministério Público vai cobrar do Judiciário medidas para obrigar as instituições a cumprirem prazos para responder.

Devagar Na CPI, criada em abril, só estão disponíveis 21% das movimentações bancárias da construtora Delta. Dados da quebra de sigilo de várias contas da empresa ainda não foram mandados.

Respiro Réu no mensalão, o ex-ministro José Dirceu vai tirar 20 dias de férias no exterior antes do julgamento, marcado para 2 de agosto.

Carrinho cheio Integrantes do governo presentes ao evento no Planalto que lançou o PAC das compras de equipamentos e bens produzidos no país brincavam que o nome do programa deveria ser "Dilma vai às compras''.

Chão de fábrica Brizola Neto percorre amanhã, em São Paulo, as sedes das centrais sindicais e do Dieese. Será a primeira visita do ministro do Trabalho às entidades desde sua posse na pasta.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Essa proposta arrebenta as contas públicas. Já fui governador e não teria dinheiro para investir se tivesse que pagar além do teto."

DO LÍDER DO GOVERNO NO SENADO, EDUARDO BRAGA (PMDB-AM), sobre o fim do limite de remuneração salarial para servidores, em discussão no Congresso.

contraponto

Bando de loucos

Na reunião do colégio de líderes da Câmara, anteontem, o presidente Marco Maia (PT-RS) ponderou pela necessidade de se promover um esforço concentrado para votações, pois a Casa está vazia nesta semana:

-É a tradição. Últimas convenções partidárias, festejos juninos... E também tem o jogo do Corinthians!

Chico Alencar (PSOL-RJ) retrucou:

-Mas Corinthians na final da Libertadores não é uma tradição, é um fato inédito!

Os deputados corintianos, em peso na sala, reagiram:

-Não é uma tradição ainda, deputado, mas vai virar!

Na gangorra - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 28/06


Qualquer que seja a posição adotada por Dilma sobre o Paraguai, haverá ônus para a política externa brasileira


A SITUAÇÃO mais delicada em relação ao golpe parlamentar no Paraguai é a do Brasil. Qualquer que seja a posição a ser adotada pelo governo Dilma Rousseff, haverá ônus para a política externa brasileira e risco de problemas maiores com o vizinho ou na crescente projeção internacional do Brasil.
A chamada cláusula democrática, exigência de que os integrantes do Mercosul e da Unasul (União dos Países da América do Sul) sejam leais ao Estado de Direito Democrático ou sejam afastados, consta da política externa brasileira como princípio fundamental. É um legado, quanto à primeira entidade, ainda do governo Sarney e, quanto à segunda, do governo Lula, cofundador da Unasul.
Se a exigência prevalecer, seja por decisão conjunta de uma ou de ambas as entidades, ou por decisão unilateral do Brasil de esfriar as relações com o Paraguai, o problema dos brasiguaios ganha nova dimensão. Desde que Lula e Fernando Lugo conseguiram apaziguar o confronto violento que se iniciava entre os sem-terra paraguaios e os grandes fazendeiros brasileiros em terra paraguaia, os riscos arrefeceram. Na aparência e temporariamente, porém.
A grande ocupação brasileira, tanto legal quanto duvidosa, da imensa parte do território paraguaio dedicada à agricultura extensiva, é suscetível de explosão. Lá e cá admite-se que em alguma altura a área, ou boa parte dela, entrará em combustão, com o enfrentamento dos jagunços armados pelos fazendeiros e dos sem-terra que se armam cada vez mais.
É importante não esquecer, a propósito, que no Paraguai existe um núcleo de guerrilha em atividade e, provavelmente, beneficiário da indignação de jovens com a derrubada de Lugo. Ou, mais indignante para eles, com os que voltam a ser o poder nacional.
A maior distância entre os governos do Brasil e do Paraguai, mesmo sem corte de todos os canais, será um obstáculo para a prevenção de ataques aos brasiguaios e a diluição de novos confrontos abertos, como feito por Lula e Lugo. Deixar brasiguaios em dificuldades pode ser até uma forma de represália paraguaia à possível reprovação prática do Brasil ao golpe parlamentar.
Na ocorrência oposta, em que se preservariam as relações entre os dois países como se nada houvesse transfigurado o Paraguai, os brasiguaios e os sem-terra de lá estarão com as mesmas disposições. Mas o Brasil poderá tentar que os militantes paraguaios concedam ao seu novo governo a consideração que tiveram com Lugo e Lula. O êxito, no entanto, é muito improvável.
E, caso se dê, a política externa brasileira precisará descobrir onde colocar o seu princípio básico de cláusula democrática na América do Sul. Ele é o que é, e nenhuma fantasia lhe daria aparências de ser o que não for mais. Todo o prestígio conquistado pela política externa, nos últimos anos, se perderia depressa. E sem reserva de crédito moral para preservar alguma confiança sequer por parte dos seus demais vizinhos.

Lula e Sombra - LUIZ FERNANDO VERISSIMO


O Estado de S.Paulo - 28/06


Todo o mundo sabe que o Paulo Maluf é procurado pela Interpol. O que pouca gente sabe é que o codinome dele na Interpol é "Sombra", devido à dificuldade da organização em sequer localizá-lo. O escritório da Interpol no Brasil tem agentes dedicados exclusivamente a procurar o Maluf, cujos atos de corrupção internacional são notórios e comprovados. Ainda não conseguiram achá-lo, mas, recentemente, chegaram perto. Esta coluna teve acesso a memorandos internos na Interpol que descrevem o episódio.

Um relatório de um dos agentes encarregados de procurar o "Sombra" revela a existência de rumores nos meios políticos segundo os quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai se encontrar com o Maluf, em lugar não especificado, para tratar de assuntos também desconhecidos. Em resposta ao relatório o chefe da Interpol pede cautela, em memorando que publicamos na íntegra, só omitindo o nome do agente e do seu chefe para proteger nossas fontes.

"De XXX para X. Confidencial. Assunto: 'Encontro com Sombra.' Recomendo extrema cautela. Os rumores de um encontro de Lula com 'Sombra' são obviamente destinados a desmoralizar o ex-presidente e seu partido, o PT. Como já lembrei em outras ocasiões, não devemos nos envolver na política do País. Desconsidere os rumores."

O agente responde em outro memorando:

"De X para XXX. Confidencial. Assunto: Lula e Sombra. Os rumores parecem estar confirmados. Haverá sim um encontro do Sombra com o ex-presidente, que, sabe-se agora, vai pedir seu apoio para o candidato do PT nas próximas eleições municipais. Peço autorização para iniciar uma Operação."

A resposta do chefe:

"De XXX para X. Confidencial. Assunto: sua insistência. A possibilidade de um encontro de Lula e Sombra é tão inverossímil, levando-se em conta o histórico do PT e as opiniões do Lula sobre o Sombras, que não merece consideração, quanto mais uma operação. Desista, X."

Volta o agente:

"De X para XXX. Confidencial. Assunto: chance única. Chefe, desculpe a insistência. Mas descobrimos que o encontro Lula/Sombra será na casa do Sombra. Se seguirmos o Lula até o local, não só encontraremos o Sombra como descobriremos onde ele mora. Posso colocar agentes disfarçados de arbustos para flagrar o encontro. É uma chance que não se repetirá!"

Como resposta, XXX ordena que o agente X abandone seu plano, informe-se melhor sobre a história política do Brasil e da próxima vez use o bom senso, em vez de acreditar em boatos delirantes. E a Interpol continua procurando o Maluf.

Maluf tira foto com Madonna! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 28/06


Maluf com a Madonna. Aí, ele fazia um convênio com a Panini e lançava um álbum de figurinhas!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Direto do País da Piada Pronta! Direto de Salvador: "Diego Maradona é preso com cem pedras de crack na Rótula do Abacaxi". Trafica chamado Maradona é muita predestinação! O Maladona! O Nelson Ned da Argentina!
E esta: "Brasileiro condenado a fuzilamento na Indonésia". Como é o nome do presidente da Indonésia? BAMBANG! Susilo Bambang! Sem chance!
E como escreveu uma menina no meu Twitter: "Agora falta a Globo dar um programa só pro Louro José, já deram um até pro Bial". Rarará!
Isso! Já deram um programa pra Fátima Bernardes, um pro Bial e agora um pro Louro José! "Encontro com Louro José"! Rarará!
E o álbum de fotos do Maluf? A Mônica Bergamo revelou o álbum de fotos do Maluf! Sensacional.
Tem foto do Maluf com Covas, Maluf com Fernando Henrique, Maluf com Collor, Maluf com Alckmin, Maluf com a Hebe, Maluf com o Papa. E agora Maluf com o Lula.
Só falta ele tirar uma foto com o Neymar. Maluf com o Neymar. E com a Jennifer Lopez. Maluf com a J.Lo! E com a Madonna. Aí, fazia um convênio com a Panini e lançava um álbum de figurinhas!
"Maluf com a Hebe não quero, é repetida". "Maluf com o Lula?". "OBA! Essa é nova. Quero!". O Lulaluf! Paf! Cola no álbum.
E todo mundo fala "mas o Lula não precisava ter tirado a foto". Precisava! Era uma exigência do Maluf. Pra completar o álbum! Pra completar As Quibesteiras do Maluf! O Lula fez uma quibesteira! Rarará!
E esta: "Assessora de imprensa do Romário é a Garota Furacão". Agora sim ele começou o mandato. Como disse um amigo no meu Twitter: ASSESEXY DE IMPRENSA! Rarará!
É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
E essa placa num bar na Bahia: "É Proibido Falar Porra Nessa Porra". Que porra, hein! Pra tudo baiano grita "porra". Quando o baiano acorda de mau humor ou endiabrado, logo grita: "Acordei virado na porra!" Adoro!
E um dia encontrei com uma baiana em Arembepe e ela gritou: "O Zé Simão por aqui? Que porra é essa?".
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

UM SÓ - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 28/06

Carolina Ferraz fez um editorial de fotos e uma crônica para a revista 'O Amarello'; a atriz escreve: 'Foi um só amor, um único amor que veio, cruzou minha vida, tocou minha alma e ficou marcado em minha pele'

CACIQUE JURUNA
O ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), está gravando as conversas com advogados do mensalão. Ele os recebe com testemunhas e pede licença para registrar o encontro.

MEMÓRIA
A assessoria de Fux diz que o magistrado grava os encontros porque o processo é longo. E que já fez isso quando estava no STJ (Superior Tribunal de Justiça).

PILHA
Concentrado no mensalão, o ministro Joaquim Barbosa, relator do caso, viu se acumularem em seu gabinete no STF mais de 500 habeas corpus. São casos prioritários que, no entanto, não puderam ser ainda julgados.

FECHADURA
E Barbosa revelou a interlocutores que ficou "intrigado" com a afirmação do ministro Ricardo Lewandowski, revisor do mensalão, de que faria um "contraponto" a seu voto. É que ele não revelou a peça a ninguém.

OS OUTROS
Pegou mal no PV a possibilidade de José Serra escolher um vice tucano. Os verdes, que oferecem o nome de Eduardo Jorge, rebatem o argumento de que o PSDB já se sacrificou ao aceitar a coligação proporcional, já que a sigla aliada vai lançar lista própria de candidatos. Seria "inconveniente" ignorar "forças importantes", diz o presidente do PV, o deputado José Luiz Penna.

PRIMEIRAS NOTAS
O ator Marcelo Serrado se encontrou com o maestro João Carlos Martins nesta semana em almoço na casa do produtor Luiz Carlos Barreto, no Rio. O ator interpretará o pianista no cinema, em filme que será dirigido por Bruno Barreto.

MODA RIO
A estilista Andrea Marques, da grife carioca que leva seu nome, assinará uma coleção de roupas para a rede de lojas da C&A.

EM GUERRA
A presidente da Petrobras, Graça Foster, entrou em choque com os governos do Ceará e do Maranhão -leia-se José Sarney. Ela anunciou que as refinarias planejadas para os Estados estão adiadas indefinidamente.

PALAVRA
"Fazer isso sem conversar é intolerável", diz o ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE), irmão do governador do Ceará, Cid Gomes. "A refinaria não é promessa eleitoreira de politiqueiro de quinta categoria. Ela está no plano de negócios da Petrobras." Ele lembra que tanto Lula quanto Dilma Rousseff se comprometeram com a obra.

PALAVRA 2
Ciro diz que o adiamento é "explosivo" e não pode ser "nem remotamente" considerado. "O Ceará investiu num centro de treinamento para 12 mil pessoas, o currículo da universidade foi readaptado." Cid Gomes conversou ontem com Sarney e com o ministro Edison Lobão, das Minas e Energia. Ele disse que a Petrobras procurará parceiros internacionais para tocar as obras. "Confiamos na palavra de Lula e Dilma", diz o governador.

GANDHI NA ZL
Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi, conversará no sábado com jovens e professores de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. O tema: "Educar para a não violência e sustentabilidade: é possível?". A organização é do Instituto Democracia e Sustentabilidade, do Cenpec e da Fundação Tide Setubal.

MEMÓRIAS
Saïd Farhat, ex-ministro do governo Figueiredo, autografou o livro "Tempo de Gangorra - Visão Panorâmica do Processo Político-Militar no Brasil de 1978 a 1980", anteontem, na Livraria da Vila dos Jardins. O ex-ministro Maílson da Nóbrega, o publicitário Roberto Duailibi e a psicanalista Lilia Cintra Leite estavam na fila de autógrafos.

À MESA
Os artistas Anna Maria Maiolino e Paulo Nazareth receberam o Prêmio Masp Mercedes-Benz de Artes Visuais em jantar, anteontem, no museu.

CURTO-CIRCUITO

Gaudêncio Torquato lança hoje "Era uma Vez... Mil Vezes" (Topbooks), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. 19h.

Michel Temer recebe hoje o prêmio da Associação Brasileira da Industria Gráfica (Abigraf) pelos serviços prestados ao setor.

A Assembleia de SP realiza hoje seminário sobre proteção animal, às 19h.

Luiz Andreoli lança "As Histórias do Bonitão na TV", no Na Mata Café. 20h.

Ciclo de baixa - MÍRIAM LEITÃO


O GLOBO - 28/06


A Ambev teme a tsunami tributária que se abaterá sobre a indústria de bebidas nos próximos anos. A Cielo acha que o país está vivendo seu segundo ano de crescimento em torno de 2%, apesar de acreditar em melhora no fim do ano. A alta do dólar ajuda alguns setores, mas a volatilidade provoca postergação de investimento. A desaceleração afeta as empresas de forma diferente.

O ciclo de desaceleração continua. Nos últimos meses, a previsão de crescimento dos bancos consultados pelo Boletim Focus do Banco Central caiu de 3,3% em média para 2,18% e não se sabe se a descida chegou ao fim. Cada setor sente de forma diferente o aperto da economia.

Na Ambev, o que preocupa é o cronograma de aumento de impostos previsto para o setor nos próximos anos. Serão altas sucessivas, até 2015, com a primeira carga em outubro deste ano, quando a incidência de IPI e PIS/Cofins ficará 19% maior sobre cervejas e 10% maior sobre refrigerantes. O vice-presidente de Relações Corporativas da empresa, Milton Seligman, acredita que o setor é punido pela sua eficiência, enquanto outros estão ganhando facilidades porque estavam com problemas.

- Temos uma tsunami tributária programada para o setor de bebidas nos próximos anos. Isso vai anular todo o ganho de produtividade dos últimos sete anos e travar investimentos. Nosso problema não é o câmbio nem a crise na Europa, mas o aumento de impostos. Em nome de bons resultados em outros setores, penaliza-se aqueles que estavam bem - disse.

Seligman acha que o governo deveria usar os benefícios que concede a alguns setores para exigir contrapartidas das empresas, sejam elas econômicas, sociais ou ambientais. E é preciso perícia para que o empresário não fique acomodado com as medidas e as restrições à competição:

- Os incentivos setoriais são importantes e devem acontecer para quem está com mais dificuldade. Mas o governo deve exigir alguma contrapartida, em termos de inovação, por exemplo. O benefício não pode levar à acomodação do empresário.

José Paulo Aleixo Coli, vice-presidente e diretor financeiro da Latina, fabricante de linha branca, contou que mensalmente participa de uma reunião com empresários de oito setores da economia:

- Na última, apenas um setor, o farmacêutico, estava otimista, todos os outros tinham visões negativas.

Para combater esse ambiente é que o governo faz tanto pacote. Em cada um deles, os empresários são chamados ao Planalto, há discursos e algumas medidas. Todas elas juntas mostram que o governo não tem visão estratégica. É uma política econômica hiperativa e sem resultados. O pacote de ontem é estranho, para dizer o mínimo. O governo anunciou com fanfarras que vai comprar carteiras escolares, blindados, ambulâncias e coisas assim.

A crise na Europa ficou mais intensa; as famílias brasileiras tomaram muito crédito nos últimos ano, e está aumentando a inadimplência. O crescimento do PIB vem perdendo ritmo. As empresas têm investido menos.

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que os empresários estão insatisfeitos com o momento presente, mas que apostam num futuro melhor. O índice das condições atuais mede 47 pontos e o das expectativas está mais alto, em 62 pontos. A conversa com os executivos revela que eles estão preocupados, mas acreditam em um quadro melhor no fim do ano.

O presidente da Cielo, Rômulo Dias, diz que a desaceleração só não foi pior até agora porque o Banco Central começou a cortar juros em agosto do ano passado. Ele explica que as máquinas da Cielo, ao registrar as compras e vendas do cotidiano, servem também como termômetro do nível de atividade. As transações desaceleraram por duas vias: entrada menor de novos consumidores usando cartão e vigor menor no consumo.

- Temos um pulso do que acontece com o nível de atividade, e há uma desaceleração. Mas ainda prevemos crescimento de dois dígitos este ano para o nosso setor. O PIB deve aumentar o ritmo no final do ano, mas fechará 2012 no mesmo patamar de 2011. Teremos dois anos mornos, com o PIB na casa de 2% - disse. O vice-presidente da Relações com Investidores e Sustentabilidade da Whirlpool, Armando Valle, explicou que a redução de IPI para a linha branca manteve as vendas e isso garantiu um primeiro trimestre muito forte. Mas em abril houve uma queda brusca, que causou apreensão. Em maio, os números melhoraram:

- Nosso segmento teve um primeiro trimestre muito bom, com alta entre 10% e 15%; uma queda muito forte em abril; e recuperação em maio. Em abril teve início a discussão sobre os spreads e isso criou uma confusão na cabeça das pessoas. Houve parada para ver o que iria acontecer. Mas estamos entre os empresários otimistas.

José Paulo Aleixo Coli acha que a alta do dólar não ajudou por enquanto porque a volatilidade no mercado de câmbio está provocando postergação dos investimentos. - Até o momento, o ano está muito pior do que o esperado. A capacidade do governo de investir é pequena, o consumidor está endividado, o discurso oficial é confuso, a Europa está em crise. O que percebemos é que há uma piora muito grande no clima.

A política econômica hiperativa, mas sem rumo, não está conseguindo reverter o quadro.