FOLHA DE SP - 19/06
Resultado da eleição grega dá tempo para a Espanha respirar, mas crise bancária já está nas rodadas finais
UMA VITÓRIA da esquerda na eleição grega teria provocado um infarto na Espanha e ataques de pânico pelo resto do mundo. Graças a parte mínima do eleitorado grego, pois, os líderes políticos e outros poderosos da Europa ganharam algum tempo para evitar o pior.
Quanto tempo?
Sabe-se lá, mas, a julgar pelo custo de financiamento da dívida espanhola ontem no mercado, o tempo deve ser curto. O mercado já não está ligando muito para a promessa europeia de arrumar uns 100 bilhões de euros para tapar rombos nos bancos espanhóis.
Para piorar, ainda não se sabe que bicho vai dar na Grécia. Observe-se, em primeiro lugar, que o resultado da eleição foi apertadíssimo, tanto na contagem dos votos como na distribuição de cadeiras no Parlamento.
A Nova Democracia, de centro-direita, responsável pelos capítulos finais do descalabro grego, teve menos de 30% dos votos. No Parlamento, precisa do Pasok, "socialistas", centro-esquerda, para fazer uma maioria de 12 votos. Não dá para o gasto: basta três tipos do Pasok debandarem que o caldo entorna.
A Nova Democracia terá então de apelar aos liberais (Independentes), que porém são antiacordo de arrocho, à Esquerda Democrática (antiarrocho, mas conversável) ou aos nazistas da Aurora Dourada, que são loucos.
Ou seja, a Grécia está a passos de nova crise política, pois o país está em depressão, metade dos jovens não tem emprego, a economia não voltará a crescer até pelo menos 2014 e não voltará ao nível de 2007 antes de 2025, se tanto. Além do mais, mais de metade do eleitorado votou nos partidos antiarrocho (antieuro, enfim).
Por que tanta minúcia sobre a eleição grega? Se por mais não fosse (por interesse pela história do mundo, enfim), porque o colapso grego tiraria mais azeitonas (kalamatas?) da nossa empada econômica, a do Brasil.
Embora o colapso grego viesse a jogar lenha na fogueira espanhola, o mercado garroteia a Espanha por conta de outros fatores. Ninguém mais acredita nos relatos oficiais sobre o tamanho dos rombos bancários. Ainda que sejam tapados tais rombos, o governo ficaria ainda mais endividado (a não ser que a Europa dê dinheiro diretamente à banca, o que a Alemanha não quer).
Enfim, alguns rapazes do mercado (lá da Europa) dizem que a Espanha vai precisar de dinheiro ou decisão firme da Europa antes do final do mês. Antes da nova reunião de cúpula dos líderes europeus. No Brasil não vamos crescer muito mais que 2% neste ano. Com desastres na Europa, vamos ter recessão.
O COLUNISTA MUDOU
Se não foi para melhor, pelo menos para outra cidade. Este colunista passa a escrever de Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos, onde vai passar uns tempos em estudos e pesquisas universitários.
Causa estranhamentos e dissonâncias escrever sobre crise, a americana em particular, num lugar em que a renda per capita é o quíntuplo da brasileira e em que na periferia a nossa "classe C" parece miserável. Num lugar em que o desemprego é igual ao do Brasil, em que a TV a cabo custa menos, o celular também, a comida é mais barata (afora o bife) e o vinho chileno custa a metade do que a gente paga aí.
terça-feira, junho 19, 2012
O risco do vazio - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 19/06
O Brasil jogou a toalha. O documento da Rio+20 será mais fraco do que o imaginado no cenário pessimista. A crise econômica bloqueou as soluções para salvar o futuro. Por outro lado, a China - com a ajuda do Brasil - tenta manter o passado. Há 20 anos, a China era 4,3% do PIB global, e os Estados Unidos, 22,7%. Hoje, os chineses são 15%, e os americanos, 18,8%. Países que já cresceram querem privilégio de quando eram pequenos.
Em 1992, estabeleceu-se o princípio das "responsabilidades comuns porém diferenciadas". Isso dava aos países pobres e aos países em desenvolvimento um tratamento diferenciado e jogava mais peso, com justiça, nos mais ricos. Quem tinha emitido mais no passado pagava a conta, depositava recursos nos fundos, assumia o papel de "tradicional" doador. Os outros receberiam e teriam responsabilidades menores.
Perfeito para a época. Vinte anos depois, tudo mudou. Veja o gráfico abaixo das emissões de gases de efeito estufa da China e dos Estados Unidos. Em 1990, uma enorme distância separava os dois países; em 2005, a China passou os Estados Unidos. Obviamente que a hora é, de fato, de flexibilizar esse princípio, para que os países emergentes, especialmente os Brics, participem mais do financiamento aos países pobres na transição para uma economia sustentável.
A grande briga, no entanto, foi para reafirmar o princípio das "responsabilidades comuns porém diferenciadas". E lá está ele escrito, explicitamente, e mais de uma vez, como inegociável, nas várias versões do texto. Países de renda média, como bem disse o economista Jeffrey Sachs neste jornal, podem e devem assumir mais responsabilidades.
No texto negociado, falta quase tudo. Mas, principalmente, faz falta uma proposta concreta sobre o fundo que se pensava criar no Rio. Os governantes vão apenas "reconhecer a necessidade" de que existam formas de financiamento, que ele envolva fontes variadas, como os órgãos multilaterais - leia-se FMI e Banco Mundial -, e criam um comitê intergovernamental de trinta especialistas que vão desenvolver estratégias de financiamento até 2014.
Isso parece pouco. E é. A explicação dada pelos negociadores do texto tão aguado é que, diante da situação de crise econômica em que o mundo vive, seria irreal falar de recursos adicionais aos que os "tradicionais doadores" já se comprometeram a aportar em outros fundos.
A Rio+20 estabeleceria os objetivos de desenvolvimento sustentável. Agora se sabe que os governantes vão se comprometer a ter objetivos no futuro mas não estará claro quais serão. Extraoficialmente se sabe que seriam metas sobre áreas como água, energia, transportes, cidades e oceanos. O fundo seria criado aqui. Agora se sabe que ele terá uma arquitetura financeira a ser proposta pelo painel intergovernamental. Outra intenção era criar no Rio um órgão para comandar as negociações de sustentabilidade. Agora, já se sabe que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) será fortalecido e que haverá no texto a possibilidade de elevar seus poderes em algum momento. Também no futuro.
No começo da negociação, estava quase certo que os países se comprometeriam a negociar uma legislação complementar do Direito do Mar, cobrindo áreas internacionais. Ontem, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo admitiu, na conversa com os jornalistas, que também este ponto está encrencado. Claro que ele não fala a palavra encrencado. Na linguagem dos diplomatas, é assim: "O tema oceanos continua sendo negociado, mas exigirá um esforço mais intenso."
Figueiredo também disse que a negociação seria concluída ontem mesmo. Ela já está na prorrogação, porque oficialmente acabou na sexta-feira. Na delegação brasileira falava-se que poderia encerrar à meia-noite, "mas o conceito de meia-noite é bem elástico".
Negociam-se palavras em uma sucessão de consultas bilaterais, ou com grupos de países, para tornar mais sólido um texto que foi emagrecido pelo Brasil. Inicialmente, a lipo tinha razão de ser: era para tirar as redundâncias. Em seguida, o Brasil passou a tirar tudo o que era controverso, pela razão explicada pelo ministro Patriota ao GLOBO de ontem. Ele disse que "se deixar muitos pontos em abertos, não se conclui nada". Se todos os pontos em aberto forem retirados acabam as polêmicas, mas fecha-se um acordo sobre nada.
BENDITO ENTRE AS MULHERES - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 19/06
MAPA DA MINA
As operadoras de planos de saúde terão que disponibilizar na internet, a partir da próxima semana, os endereços, com imagens e mapas, de médicos e hospitais de sua rede credenciada de serviços. Qualquer alteração deverá ser informada em tempo real aos clientes.
MAPA 2
A determinação é da ANS (Agência Nacional de Saúde) e vale para empresas que atendem a mais de cem mil beneficiários. As menores vão ser obrigadas a fornecer ao menos os endereços dos prestadores de serviços. A norma entra em vigor no sábado, 23.
MEMÓRIA CURTA
O PT tem esperança de que o "efeito Maluf" na campanha de Fernando Haddad se dilua até agosto, quando começa a propaganda eleitoral. Acha que o PSDB não atacará a aliança "lulo-malufista" já que o PP, partido do ex-prefeito, mantém aliança com o tucano Geraldo Alckmin para a campanha ao governo em 2014.
COM SAL
De acordo com dirigente da campanha de Haddad, Paulo Maluf fez "um escarcéu" para garantir a presença de Lula ontem em sua casa, com direito a foto e tudo. O ex-presidente não queria se expor em público ao lado do ex-prefeito. Mas Maluf venceu a parada.
"A vida é dura", diz assessor direto de Lula.
NETO QUERIDO
O vereador Netinho, pré-candidato a prefeito pelo PC do B, mantém canal direto com Lula. O ex-presidente o ajuda inclusive a pensar em estratégias profissionais que garantam a ele espaço no comando de um programa de TV. Tudo para que ele desista da candidatura e apoie Haddad. Nos cálculos do PT, só a desistência de Netinho, que tem 7% na pesquisa Datafolha, já renderia 2% de intenções de voto a Haddad.
PAPEL E LÁPIS
E o ex-presidente, que tenta se comunicar por escrito com seus principais assessores, não deve discursar na Rio+20 nesta semana, para preservar a voz.
FORÇA CRIATIVA
O Ministério da Cultura orçou em R$ 3 bilhões o projeto Brasil Criativo, que prevê estímulos para setores como arquitetura, artesanato, design e artes cênicas. A pasta discute com Casa Civil e outros dez ministérios se o plano, que liberaria R$ 675 milhões já em 2012, é viável.
OLHAI POR NÓS
A moda está entre os 19 segmentos que podem ser contemplados pelo programa federal. "A fatia desse bolo", diz o estilista Ronaldo Fraga, seria insuficiente para incentivar "o setor que mais emprega". Membro do colegiado de moda do ministério, ele endossa manifestação liderada por Paulo Borges, da SPFW, no sábado, pedindo mais atenção à categoria.
RECICLADO
A exposição "Através do Vidro", de Debora Muszkat, abre hoje na própria casa da artista, no bairro do Butantã, em São Paulo. Ela criou obras com mais de dez mil vidros reciclados. Só para fazer a ponte que cruza a piscina, Debora utilizou 4.000 frascos de esmalte.
LEGALIZE JÁ
O bilionário britânico sir Richard Branson, dono do grupo Virgin, visitará a UPP do Morro dos Prazeres hoje, no Rio, com escolta da PM. Quer entender o impacto da unidade de pacificação sobre o tráfico. Em maio, ele recebeu o Prêmio Cultura Cannabis em Barcelona, em nome da Comissão Global de Política Sobre Drogas. A iniciativa, que defende a descriminalização, é liderada por FHC.
VOU DE IATE
O Iate Clube de Santos fez festa de gala para comemorar seus 65 anos. A empresária Carin Mofarrej, o casal de médicos Rosana e Marcelo Cunha e a socialite Renata Scarpa estiveram na sede do clube na av. Higienópolis, no fim da semana.
OUTROS JARDINS
A apresentadora Gianne Albertoni, o empresário João Paulo Diniz com o filho Abílio, a atriz Claudia Alencar e a artista Bia Doria circularam pelo Rua Verde no domingo. O evento, idealizado por João Doria Jr. e realizado na rua Amauri, distribuiu árvores para os convidados.
CURTO-CIRCUITO
O documentário "Eames: o Arquiteto e a Pintora" será exibido hoje na Atec Cultural, às 19h30. 10 anos.
O cantor Thiaguinho faz show hoje no Café de La Musique, às 23h. 18 anos.
Marcos Proença inaugura hoje a Barber Shop, na Noir,Le Lis, nos Jardins.
O filme "Febre do Rato" tem pré-estreia hoje no Reserva Cultural, às 21h. 18.
O Comitê Nacional de Cultura e Direitos Autorais promove amanhã seminário sobre o Marco Civil da Internet, no hotel Renaissance, nos Jardins.
com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA
Europa atenta à Grécia - GILLES LAPOUGE
O ESTADÃO - 19/06
A França foi às urnas, e deu a maioria absoluta ao Partido Socialista. Logo, a Câmara dos Deputados aprovará todas as decisões do Eliseu.
Consequentemente, François Hollande dispõe de "plenos poderes". E precisará mesmo desses poderes porque a situação da França, numa Europa à deriva, parece precária.
Por isso, o acontecimento essencial do domingo não foi o pleito francês, mas o da Grécia. A noite toda, enquanto se confirmava a vitória dos socialistas na França, ouvidos mais finos ficaram atentos ao que acontecia em Atenas. Das eleições gregas poderia resultar uma catástrofe: o fim do euro na Grécia. A noite toda, a Europa temeu esse desastre. E então veio a divina surpresa: não. A Grécia não sairá do euro. Pelo menos, não no futuro imediato! Resumindo: a Grécia vem se debatendo há dois anos. Seu endividamento é gigantesco e ela não tem condições de funcionar. A Europa correu em sua ajuda: a troica (FMI, BCE e UE) concedeu-lhe montanhas de dinheiro, mas desde que a Grécia implementasse uma política de austeridade extremamente cruel.
O povo grego, reduzido a alimentar-se de azeitonas, recusou submeter-se aos planos rigorosos da troica. Vários governos caíram em Atenas, e as eleições de domingo giraram em torno da seguinte interrogação: os gregos escolherão um governo que aceite as ordens da troica, ou, ao contrário, rejeitarão essas ordens, o que teria como efeito imediato a saída do euro? O partido conservador Nova Democracia, o que aceita as medidas de austeridade e consequentemente a ajuda maciça da troica, venceu com 29,7% dos votos. Ele teria de formar um novo governo de coalizão associando-se aos socialistas do Pasok que também aceitam o caminho íngreme da austeridade. Nessa hipótese, todos estariam salvos. O euro estaria salvo. A Grécia salva. A Europa salva. Entretanto, a espada de Dâmocles continua oscilando sobre a Grécia e a Europa.
Por duas razões. A primeira é que, ainda que a direita da Nova Democracia tenha vencido, foi seguida muito de perto por um partido de esquerda totalmente novo, o Syriza, que recebeu 26,9% dos votos, recusa os planos da troica e rejeita a política do rigor, com o risco de fazer com que a Grécia saia do euro. Se o vencedor de domingo, o partido Nova Democracia, não entrar num acordo com o Pasok, será talvez preciso que o Syriza assuma o controle dos negócios da Grécia e, nesse caso, haverá um perigo extremo para o euro.
E há outro risco também. O líder do Nova Democracia (ND) que venceu ontem, Antonis Samaras, é um personagem imprevisível. Ao longo de sua carreira, ele caminhou em zigue-zague, mudando bruscamente de contexto e de programa. Já foi ministro de Negócios Exteriores de um nacionalismo tão frenético que foi obrigado a romper com seu partido, a ND, e criou outro, Primavera Democrática. No entanto, depois de dez anos de insatisfação, voltou a trabalhar para a ND até assumir sua direção.
Naquela época, há três anos, ele era violentamente hostil à ideia de aceitar, ao mesmo tempo, a ajuda da Europa e uma política de austeridade. Hoje, quando tem a possibilidade de se tornar o chefe de governo da Grécia, volta a mudar sua posição e, ao contrário, é o principal defensor do plano de austeridade imposto pela Europa. Mas, vez por outra, toca outra música e jura que pedirá aos seus parceiros europeus um abrandamento do rigor do plano.
Esse é o homem que hoje recebe em suas mãos a Grécia. Além do que, ele pertence a uma família muito conceituada. Sua bisavó foi uma famosa poetisa nacionalista, Penélope Delta, que se suicidou no dia em que os alemães entraram em Atenas, em 1940. /TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
Europa cansa de apanhar no G20 - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 19/06
Durão Barroso diz que os europeus não vieram para receber lições, mas elas continuam
LOS CABOS, MÉXICO - A explosão de José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, durante entrevista coletiva, foi eloquente: "Não viemos aqui para receber lições de ninguém", disparou o usualmente suave político português.
Era uma resposta a um jornalista canadense que transmitira a Barroso a opinião de Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá, para quem a Europa não deveria pedir dinheiro a ninguém, como está fazendo, porque é uma área rica (de fato, é a mais rica do mundo, se tomada em conjunto) e, portanto, em condições de resolver sozinha seus problemas.
Barroso ainda teve a paciência de lembrar que a Europa é a maior contribuinte para o FMI, ao qual se destinam os recursos que estão sendo coletados para criar um "firewall" anticrise. Lembrou ainda que nem todos os países do G20 são democráticos, ao contrário dos 27 europeus, e que democracia é sempre um mecanismo complexo para chegar a consensos.
Ao terminar, explodiu, em uma evidência de que a Europa está se cansando de ser o saco de pancadas do planeta.
Vai continuar sendo. Horas depois da explosão, o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, bateu: "Os mercados e a população perderam a confiança nas soluções para a zona do euro".
Não deixa de ser verdade: que os mercados não acreditam nos programas de austeridade, está evidente pelo que estão cobrando para rolar, por exemplo, a dívida da Espanha. Trata-se do país que faz o maior esforço fiscal da zona do euro, na imponente altura de 7% de seu Produto Interno Bruto. Nem assim, escapa da maldição dos juros.
Que a sociedade também não confia, fica claro pelo resultado grego. A maioria dos votos foi para partidos que são contra o programa de austeridade imposto pela União Europeia. A Nova Democracia, que apoia o programa, assim mesmo com reservas e pedindo uma renegociação, só ficou com a maioria das cadeiras pelo truquinho de o partido com maior porcentagem de votos receber um bônus de 50 cadeiras.
É como diz Mantega: "O resultado da Grécia ajuda, mas não resolve o problema, tanto que os mercados continuaram nervosos".
O problema dos diagnósticos sobre a Europa é que, corretos ou não, não vêm acompanhados de uma receita acabada sobre o que fazer, além da retórica que manda acoplar crescimento à austeridade. Mas entre falar e fazer vai uma distância ainda não vencida.
A lacuna não impede que os europeus continuem a receber as lições que irritaram Barroso. Mantega conta que, no encontro que a presidente Dilma Rousseff teve ontem com o presidente do Conselho de Ministros da Itália, Mario Monti, foi-lhe dito que é preciso "mudar a estratégia econômica" adotada até agora.
O comando europeu reage com uma fleuma que não combina com a gravidade da crise. Tanta fleuma que Herman van Rompuy, o presidente do Conselho, avisa que a cúpula do dia 28, da qual se esperava um "big bang", parirá apenas "trabalhos preparatórios, não decisões definitivas".
Um convite a que os sermões dos parceiros continuem.
Durão Barroso diz que os europeus não vieram para receber lições, mas elas continuam
LOS CABOS, MÉXICO - A explosão de José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, durante entrevista coletiva, foi eloquente: "Não viemos aqui para receber lições de ninguém", disparou o usualmente suave político português.
Era uma resposta a um jornalista canadense que transmitira a Barroso a opinião de Stephen Harper, primeiro-ministro do Canadá, para quem a Europa não deveria pedir dinheiro a ninguém, como está fazendo, porque é uma área rica (de fato, é a mais rica do mundo, se tomada em conjunto) e, portanto, em condições de resolver sozinha seus problemas.
Barroso ainda teve a paciência de lembrar que a Europa é a maior contribuinte para o FMI, ao qual se destinam os recursos que estão sendo coletados para criar um "firewall" anticrise. Lembrou ainda que nem todos os países do G20 são democráticos, ao contrário dos 27 europeus, e que democracia é sempre um mecanismo complexo para chegar a consensos.
Ao terminar, explodiu, em uma evidência de que a Europa está se cansando de ser o saco de pancadas do planeta.
Vai continuar sendo. Horas depois da explosão, o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, bateu: "Os mercados e a população perderam a confiança nas soluções para a zona do euro".
Não deixa de ser verdade: que os mercados não acreditam nos programas de austeridade, está evidente pelo que estão cobrando para rolar, por exemplo, a dívida da Espanha. Trata-se do país que faz o maior esforço fiscal da zona do euro, na imponente altura de 7% de seu Produto Interno Bruto. Nem assim, escapa da maldição dos juros.
Que a sociedade também não confia, fica claro pelo resultado grego. A maioria dos votos foi para partidos que são contra o programa de austeridade imposto pela União Europeia. A Nova Democracia, que apoia o programa, assim mesmo com reservas e pedindo uma renegociação, só ficou com a maioria das cadeiras pelo truquinho de o partido com maior porcentagem de votos receber um bônus de 50 cadeiras.
É como diz Mantega: "O resultado da Grécia ajuda, mas não resolve o problema, tanto que os mercados continuaram nervosos".
O problema dos diagnósticos sobre a Europa é que, corretos ou não, não vêm acompanhados de uma receita acabada sobre o que fazer, além da retórica que manda acoplar crescimento à austeridade. Mas entre falar e fazer vai uma distância ainda não vencida.
A lacuna não impede que os europeus continuem a receber as lições que irritaram Barroso. Mantega conta que, no encontro que a presidente Dilma Rousseff teve ontem com o presidente do Conselho de Ministros da Itália, Mario Monti, foi-lhe dito que é preciso "mudar a estratégia econômica" adotada até agora.
O comando europeu reage com uma fleuma que não combina com a gravidade da crise. Tanta fleuma que Herman van Rompuy, o presidente do Conselho, avisa que a cúpula do dia 28, da qual se esperava um "big bang", parirá apenas "trabalhos preparatórios, não decisões definitivas".
Um convite a que os sermões dos parceiros continuem.
Nova chance para o euro - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 19/06
O risco de uma implosão da zona do euro foi afastado com a vitória conservadora na eleição grega, mas ainda há fortes motivos de preocupação. A maioria dos eleitores gregos expressou o desejo de manter seu país na união monetária - 27% votaram na esquerda radical. Caberá aos líderes das maiores potências europeias, agora, comprovar o interesse em conservar a Grécia como sócia da moeda comum. O governo alemão continua sendo o maior entrave a uma resposta generosa - e ao mesmo tempo realista - ao eleitorado grego e a todos os defensores de uma combinação mais eficiente de ajuste orçamentário, reformas estruturais e medidas para desatolar as economias em recessão. A vitória socialista na eleição parlamentar francesa, neste domingo, deve garantir ao presidente François Hollande mais poderes para rever os rumos da política econômica de seu país, mas qualquer mudança mais ampla dependerá de um entendimento com as autoridades alemãs. A chanceler Angela Merkel deve ter chegado à reunião do Grupo dos 20 (G-20), no México, pronta para sofrer pressões de governantes tanto da Europa quanto de outras regiões e já indicou a disposição de continuar resistindo. Mas o jogo continuará no encontro de líderes europeus previsto para o fim do mês.
Não só Hollande e outros governantes - incluído o presidente americano, Barack Obama - defendem a reformulação das políticas europeias de ajuste. O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de recomendar uma revisão do programa espanhol de estabilização: os objetivos de médio prazo são adequados, mas um esforço mais suave no curto prazo é desejável, por causa da extrema fraqueza da economia. Diplomaticamente, os técnicos e autoridades do Fundo vinculam essa mudança a um acordo entre o governo espanhol e os parceiros europeus.
No caso da Grécia, os mais novos defensores de um ajuste menos rigoroso a curto prazo e de um alongamento das ações corretivas são os banqueiros, isto é, os credores privados.
Em carta ao presidente mexicano, Felipe Calderón, anfitrião do G-20, o diretor executivo do Instituto de Finanças Internacionais, Charles Dallara, apresentou duas recomendações em relação à Grécia: 1) o novo governo grego deveria reafirmar o compromisso com os principais itens do programa negociado com os credores; 2) os credores oficiais (os governos) deveriam examinar um possível afrouxamento do ajuste orçamentário de curto prazo, dado o cenário de severa contração econômica. Ao mesmo tempo, deveriam considerar a hipótese de um "modesto" aumento da ajuda financeira.
Segundo Dallara, a ideia de um ajuste mais suave a curto prazo "pode ser aplicável bem além da Grécia", de acordo com a situação de cada país.
Em Los Cabos, no México, onde se reúnem desde ontem os chefes de governo do G-20, a chanceler Angela Merkel reafirmou sua oposição a qualquer mudança no acordo dos credores oficiais com os gregos.
"O novo governo da Grécia deve cumprir seus compromissos rapidamente", disse Merkel. Na semana passada, ela havia rejeitado mais uma vez a proposta de criação de título de responsabilidade comum para a zona do euro, o eurobônus. Dirigentes de grandes economias europeias, como a França, a Itália e a Espanha, continuam defendendo essa ideia. François Hollande propõe, além disso, um programa conjunto de 120 bilhões para combate à recessão e deverá discuti-lo na reunião de cúpula europeia na próxima semana.
O resultado da eleição grega apenas diminui a tensão em um dos focos de instabilidade. Confirmada a vitória conservadora na Grécia, as especulações do mercado financeiro concentraram-se na Espanha, nessa segunda-feira. Em abril, 8,7% dos empréstimos bancários estavam com mais de três meses de atraso. Foi o maior nível de inadimplência verificado em 18 anos.
Enquanto a crise se estende e a recessão corrói a arrecadação tributária, dificultando o ajuste orçamentário em quase toda a zona do euro, os mercados mantêm os governos em xeque. O foco das tensões pode mudar e qualquer alívio é sempre efêmero. A resistência alemã a qualquer mudança apenas prolonga e torna mais terrível esse drama.
Crescer - BENJAMIN STEINBRUCH
FOLHA DE SP - 19/06
A ideia de que é possível prosperar sem crescer vale para nações desenvolvidas, mas não para o Brasil
AINDA ESTUDANTE, fiz uma viagem a Manaus no início dos anos 1970. Lembro-me de que nas ruas da capital do Amazonas, que já era Zona Franca, predominavam pequenos carros japoneses, importados com benefício fiscal. Eram tão ruins e quebravam tão constantemente que o sonho dos manauaras era comprar um carro nacional, um Fusca, de preferência.
Não é o caso de citar a marca daquele frágil carrinho japonês, que, nas décadas seguintes, se tornou confiável e virou sonho de consumo da classe média em todo o mundo.
O Japão deu um salto extraordinário no pós-Guerra, tanto na qualidade como na quantidade de sua produção. Do início dos anos 1950 até 1990, seu PIB multiplicou-se por cem e o país chegou à segunda maior economia mundial -só em 2007 perdeu o posto para a China.
Os benefícios desse crescimento se estenderam para toda a população japonesa, que hoje ostenta uma renda per capita de US$ 47 mil por ano. Desde o início dos anos 1990, porém, o PIB japonês alterna baixíssimas taxas de expansão com algumas recessões, por causa de crises econômicas, desastres naturais e concorrência de países emergentes, principalmente da China.
Depois de 20 anos em ritmo lento, ganha espaço no Japão de hoje a teoria do pós-crescimento, segundo a qual os países avançados não devem e não precisam continuar buscando a expansão do PIB a qualquer custo. Ou seja, podem abandonar o objetivo do crescimento econômico e se fixar mais na tarefa de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, sem forçar a ampliação do consumo.
A teoria do pós-crescimento é um tema que permeia os debates da Rio+20, pela preocupação dos ambientalistas com o impacto do crescimento constante para o futuro do planeta. Um dos teóricos é o professor de políticas ambientais James Gustave Speth, da Universidade Yale, nos EUA. Outro é Tim Jackson, professor de sustentabilidade da Universidade de Surrey (Reino Unido), que participa da Rio+20.
É compreensível que esse debate se dê em sociedades já desenvolvidas, como Japão, Reino Unido, Alemanha e países nórdicos. Que fique, porém, longe do Brasil. Aqui, a sociedade do pós-crescimento está seguramente muito distante.
Mais do que isso, está na hora de colocar o crescimento entre as metas explícitas do governo. Por que existe meta para inflação e não para crescimento? Essa omissão faz algum sentido em países já desenvolvidos, mas não no Brasil.
Preocupa a velocidade com se espalha a tese de que o estímulo ao consumo e a maior oferta de crédito terão efeito zero, neste momento, para reativar a economia. Não há discussão sobre a opinião geral de que o governo deve agir para destravar os investimentos públicos. Essa ação é indispensável, até para estimular o investimento privado.
Há quase consenso sobre a ideia de que o novo padrão de crescimento deve ser mais sustentado pelos investimentos. Mas as medidas que vêm sendo adotadas para incentivar o consumo das famílias devem ser mantidas. Elas têm o poder de acender o estopim da retomada.
O crescimento da demanda, não custa lembrar, é fator importantíssimo para impulsionar o empreendedorismo e aumentar a produção. Foi assim na crise de 2008, com efeitos muito positivos para a economia em geral. Pode ser que agora, dada a continuidade e o agravamento da crise europeia, o impacto seja menor. Ainda assim, indica a lógica, será importante.
Felizmente, a presidente Dilma Rousseff já deu mostras de que manterá a orientação econômica nessa direção. A taxa de juros já foi bastante reduzida, a apreciação do dólar foi parcialmente corrigida, e a expansão do crédito vem sendo estimulada pelos bancos públicos. Faltam intervenções mais robustas para aliviar a carga tributária que, com juros e câmbio, minam a competitividade da empresa brasileira.
Os indicadores mostram que a economia desaqueceu no primeiro quadrimestre e apresentou índices muito baixos de crescimento. Os primeiros sinais de recuperação já apareceram em maio, e a luta para manter e acelerar essa tendência precisa continuar, sem tréguas. Não há espaço no Brasil para a ideia de que é possível prosperar sem crescer.
A ideia de que é possível prosperar sem crescer vale para nações desenvolvidas, mas não para o Brasil
AINDA ESTUDANTE, fiz uma viagem a Manaus no início dos anos 1970. Lembro-me de que nas ruas da capital do Amazonas, que já era Zona Franca, predominavam pequenos carros japoneses, importados com benefício fiscal. Eram tão ruins e quebravam tão constantemente que o sonho dos manauaras era comprar um carro nacional, um Fusca, de preferência.
Não é o caso de citar a marca daquele frágil carrinho japonês, que, nas décadas seguintes, se tornou confiável e virou sonho de consumo da classe média em todo o mundo.
O Japão deu um salto extraordinário no pós-Guerra, tanto na qualidade como na quantidade de sua produção. Do início dos anos 1950 até 1990, seu PIB multiplicou-se por cem e o país chegou à segunda maior economia mundial -só em 2007 perdeu o posto para a China.
Os benefícios desse crescimento se estenderam para toda a população japonesa, que hoje ostenta uma renda per capita de US$ 47 mil por ano. Desde o início dos anos 1990, porém, o PIB japonês alterna baixíssimas taxas de expansão com algumas recessões, por causa de crises econômicas, desastres naturais e concorrência de países emergentes, principalmente da China.
Depois de 20 anos em ritmo lento, ganha espaço no Japão de hoje a teoria do pós-crescimento, segundo a qual os países avançados não devem e não precisam continuar buscando a expansão do PIB a qualquer custo. Ou seja, podem abandonar o objetivo do crescimento econômico e se fixar mais na tarefa de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, sem forçar a ampliação do consumo.
A teoria do pós-crescimento é um tema que permeia os debates da Rio+20, pela preocupação dos ambientalistas com o impacto do crescimento constante para o futuro do planeta. Um dos teóricos é o professor de políticas ambientais James Gustave Speth, da Universidade Yale, nos EUA. Outro é Tim Jackson, professor de sustentabilidade da Universidade de Surrey (Reino Unido), que participa da Rio+20.
É compreensível que esse debate se dê em sociedades já desenvolvidas, como Japão, Reino Unido, Alemanha e países nórdicos. Que fique, porém, longe do Brasil. Aqui, a sociedade do pós-crescimento está seguramente muito distante.
Mais do que isso, está na hora de colocar o crescimento entre as metas explícitas do governo. Por que existe meta para inflação e não para crescimento? Essa omissão faz algum sentido em países já desenvolvidos, mas não no Brasil.
Preocupa a velocidade com se espalha a tese de que o estímulo ao consumo e a maior oferta de crédito terão efeito zero, neste momento, para reativar a economia. Não há discussão sobre a opinião geral de que o governo deve agir para destravar os investimentos públicos. Essa ação é indispensável, até para estimular o investimento privado.
Há quase consenso sobre a ideia de que o novo padrão de crescimento deve ser mais sustentado pelos investimentos. Mas as medidas que vêm sendo adotadas para incentivar o consumo das famílias devem ser mantidas. Elas têm o poder de acender o estopim da retomada.
O crescimento da demanda, não custa lembrar, é fator importantíssimo para impulsionar o empreendedorismo e aumentar a produção. Foi assim na crise de 2008, com efeitos muito positivos para a economia em geral. Pode ser que agora, dada a continuidade e o agravamento da crise europeia, o impacto seja menor. Ainda assim, indica a lógica, será importante.
Felizmente, a presidente Dilma Rousseff já deu mostras de que manterá a orientação econômica nessa direção. A taxa de juros já foi bastante reduzida, a apreciação do dólar foi parcialmente corrigida, e a expansão do crédito vem sendo estimulada pelos bancos públicos. Faltam intervenções mais robustas para aliviar a carga tributária que, com juros e câmbio, minam a competitividade da empresa brasileira.
Os indicadores mostram que a economia desaqueceu no primeiro quadrimestre e apresentou índices muito baixos de crescimento. Os primeiros sinais de recuperação já apareceram em maio, e a luta para manter e acelerar essa tendência precisa continuar, sem tréguas. Não há espaço no Brasil para a ideia de que é possível prosperar sem crescer.
CLAUDIO HUMBERTO
“As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”
Presidente Dilma, sobre as torturas que sofreu nos porões do regime militar
DILMA VETOU 21 COMERCIAIS DA RIO+20
O estilo centralizador da presidente Dilma está afetando sua política de comunicação. Ela nada entende de propaganda, mas comerciais do seu governo, para qualquer tipo de veículo, só podem ser publicados ou divulgados após sua aprovação pessoal. Ela dá palpites, refaz textos, títulos, altera imagens, muda atores e atrizes. Por isso vetou 21 campanhas criadas pelas agências oficiais sobre a Rio+20, atrasando a difusão da conferência da ONU.
NO LIXO
Com agenda apertada, própria do cargo, Dilma não tem tempo de examinar comerciais. Por isso, campanhas importantes são canceladas.
CANSEI
O estilo centralizador e áspero de Dilma está na origem do pedido de demissão de Yole Mendonça da Secom, na presidência da República.
DE QUALQUER JEITO
Ex-diretor do DNIT, Luiz Antonio Pagot, garantiu a integrantes da CPI de Cachoeira que passa a semana em Brasília disposto a contar tudo.
AVISO PRÉVIO
Até parece que o PSB é o dono da caneta: negou que o filiado Luiz Otávio Neves, secretário de Turismo do DF, vá ser demitido. Mas será.
GOVERNO PRIORIZA ALMOÇO COM HOLLANDE, NO RIO
Dilma mudou a programação da abertura da cúpula de chefes de Estado na Rio+20, que aconteceria na manhã desta quarta-feira. Após participar de reunião do G-20 no México, a presidente irá direto para o hotel, na Barra, onde almoçará com o novo presidente da França, o socialista François Hollande. Só então Dilma seguirá para a cerimônia no Riocentro, por volta das 14h.
DIPLOMACIA
Em maio, Dilma telefonou ao presidente François Hollande para parabenizar por sua vitória e convidá-lo a participar da Rio+20.
JÁ GANHOU
A PM do Rio terá 2 mil espingardas .12, Benelli, modelo M3TS90, da representante no Brasil. O resultado da licitação sai em novembro.
MANCHA VERDE
Amanhã tem protesto de um bando de ignorantes, na Embaixada do Brasil em Berlim, contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
AS ‘QUENTINHAS’ DE MALUF
Preso em 2005 por suposto crime financeiro, Paulo Maluf reclamou na Band das “quentinhas” da PF, “que não daria nem a um cachorro”. Em 2003, retirou processo no STF contra o candidato Lula, para quem “Maluf deveria ser condenado à prisão perpétua”.
ALMA PENADA
É arriscado levar Paulo Maluf a tiracolo. Sairá em breve a decisão da Justiça de Jersey (Grã Bretanha) sobre a acusação de lavagem de dinheiro que pesa contra ele.
ALTO ESCALÃO
O Congresso lançará hoje a Frente Parlamentar para o Fortalecimento da Gestão Pública. Presidida por Luiz Pitiman (PMDB-DF), a frente terá como vice Aécio Neves (PSDB-MG), Ricardo Berzoini (PT-SP), Kátia Abreu (PSD-TO), Valdir Raupp (PMDB-RO) e Hugo Leal (PSD-RJ).
MAIS UM
Passeata em Paris, sábado, cobrou da polícia o esclarecimento da tortura e assassinato do francês Fernand Mathieu, 69, e dos cachorros dele, perto de casa, em Salvador, há dois meses. A imprensa francesa suspeita de vingança da mulher brasileira.
DEFESA IGNORADA
O próprio relator Humberto Costa (PT-PE) pode ter oferecido o pretexto para o Supremo Tribunal Federal postergar a votação do caso: “Estou satisfeito”, disse, antes de conhecer a defesa de Demóstenes Torres.
DIREITO NATURAL
O advogado de Demóstenes Torres, Antonio Carlos de Almeida Castro, citou ontem o Padre Antonio Vieira: “É direito natural que ninguém possa ser julgado sem lhe dar a defesa e o tempo necessário para ela.”
SINALIZAÇÃO
Para o senador Humberto Costa, o quórum de ontem no Conselho de Ética sinalizou o desejo de definir a cassação de Demóstenes antes do recesso parlamentar, que começa em 17 de julho.
SANCIONOU, DANÇOU
O som alto no aniversário do Varjão (DF) deixou centenas de pessoas acordadas no Lago Norte, na madrugada de domingo. A PM explicava que nada podia fazer porque a festa era “sancionada pelo governo”.
SAIA DE CASA SEM ELE
Campanha eleitoral do PT em São Paulo: R$ 30 milhões. Tempo extra do petista Haddad na TV: 1m35s. Ver Maluf com Lula: não tem preço.
PODER SEM PUDOR
UMA LIÇÃO DE PAZ
O episódio está no livro que a deputada Juliana Brizola (PDT-RS) escreve sobre o avô: durante a “guerra” no início dos anos 1990 entre Leonel Brizola e a Rede Globo, ela estudava na mesma sala do neto do empresário Roberto Marinho, Paulo, numa escola da Zona Sul do Rio de Janeiro. Colocados no mesmo grupo numa feira de ciências, a dupla saiu-se mal. Mas para não frustrar o esforço dos dois, o professor se saiu com esta:
– Não ficou muito bom, mas só por ver um Brizola e um Marinho trabalhando juntos, a nota de vocês é dez.
Presidente Dilma, sobre as torturas que sofreu nos porões do regime militar
DILMA VETOU 21 COMERCIAIS DA RIO+20
NO LIXO
CANSEI
O estilo centralizador e áspero de Dilma está na origem do pedido de demissão de Yole Mendonça da Secom, na presidência da República.
DE QUALQUER JEITO
Ex-diretor do DNIT, Luiz Antonio Pagot, garantiu a integrantes da CPI de Cachoeira que passa a semana em Brasília disposto a contar tudo.
AVISO PRÉVIO
Até parece que o PSB é o dono da caneta: negou que o filiado Luiz Otávio Neves, secretário de Turismo do DF, vá ser demitido. Mas será.
GOVERNO PRIORIZA ALMOÇO COM HOLLANDE, NO RIO
DIPLOMACIA
Em maio, Dilma telefonou ao presidente François Hollande para parabenizar por sua vitória e convidá-lo a participar da Rio+20.
JÁ GANHOU
A PM do Rio terá 2 mil espingardas .12, Benelli, modelo M3TS90, da representante no Brasil. O resultado da licitação sai em novembro.
MANCHA VERDE
Amanhã tem protesto de um bando de ignorantes, na Embaixada do Brasil em Berlim, contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
AS ‘QUENTINHAS’ DE MALUF
Preso em 2005 por suposto crime financeiro, Paulo Maluf reclamou na Band das “quentinhas” da PF, “que não daria nem a um cachorro”. Em 2003, retirou processo no STF contra o candidato Lula, para quem “Maluf deveria ser condenado à prisão perpétua”.
ALMA PENADA
É arriscado levar Paulo Maluf a tiracolo. Sairá em breve a decisão da Justiça de Jersey (Grã Bretanha) sobre a acusação de lavagem de dinheiro que pesa contra ele.
ALTO ESCALÃO
O Congresso lançará hoje a Frente Parlamentar para o Fortalecimento da Gestão Pública. Presidida por Luiz Pitiman (PMDB-DF), a frente terá como vice Aécio Neves (PSDB-MG), Ricardo Berzoini (PT-SP), Kátia Abreu (PSD-TO), Valdir Raupp (PMDB-RO) e Hugo Leal (PSD-RJ).
MAIS UM
Passeata em Paris, sábado, cobrou da polícia o esclarecimento da tortura e assassinato do francês Fernand Mathieu, 69, e dos cachorros dele, perto de casa, em Salvador, há dois meses. A imprensa francesa suspeita de vingança da mulher brasileira.
DEFESA IGNORADA
O próprio relator Humberto Costa (PT-PE) pode ter oferecido o pretexto para o Supremo Tribunal Federal postergar a votação do caso: “Estou satisfeito”, disse, antes de conhecer a defesa de Demóstenes Torres.
DIREITO NATURAL
O advogado de Demóstenes Torres, Antonio Carlos de Almeida Castro, citou ontem o Padre Antonio Vieira: “É direito natural que ninguém possa ser julgado sem lhe dar a defesa e o tempo necessário para ela.”
SINALIZAÇÃO
Para o senador Humberto Costa, o quórum de ontem no Conselho de Ética sinalizou o desejo de definir a cassação de Demóstenes antes do recesso parlamentar, que começa em 17 de julho.
SANCIONOU, DANÇOU
SAIA DE CASA SEM ELE
Campanha eleitoral do PT em São Paulo: R$ 30 milhões. Tempo extra do petista Haddad na TV: 1m35s. Ver Maluf com Lula: não tem preço.
PODER SEM PUDOR
UMA LIÇÃO DE PAZ
O episódio está no livro que a deputada Juliana Brizola (PDT-RS) escreve sobre o avô: durante a “guerra” no início dos anos 1990 entre Leonel Brizola e a Rede Globo, ela estudava na mesma sala do neto do empresário Roberto Marinho, Paulo, numa escola da Zona Sul do Rio de Janeiro. Colocados no mesmo grupo numa feira de ciências, a dupla saiu-se mal. Mas para não frustrar o esforço dos dois, o professor se saiu com esta:
– Não ficou muito bom, mas só por ver um Brizola e um Marinho trabalhando juntos, a nota de vocês é dez.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Aliança com Maluf abre crise em campanha do PT
- Folha: PT faz aliança com Maluf, e Erundina ameaça sair
- Estadão: Alívio grego não basta, e Espanha volta a assustar
- Correio: Comissão vai apurar tortura a Dilma em Minas
- Valor: União investirá R$ 13 bi em novas ferrovias no Sul
- Estado de Minas: Enfim, a busca da verdade
- Jornal do Commercio: Polícia promete rigor nas estradas
- Zero Hora: Dobram as suspeitas de fraudes em concursos
segunda-feira, junho 18, 2012
Comprar e não poder pagar - LYA LUFT
REVISTA VEJA
Bilhões e bilhões empregados para salvar bancos, e milhões de pessoas morrendo de miséria, de fome, de falta de higiene, de falta de dignidade - de falta de respeito de parte dos que deveriam ajudar em vez de gastar bilhões salvando bancos. Morram os bancos, não as pessoas inocentes, não as crianças, não os velhos, os fracos. Que ninguém tenha de chorar impotente por não poder salvar seus filhos.
Mas salvam-se os bancos, o que tecnicamente há de ter suas explicações, mas humanamente me deixa amargurada e perplexa, pois, mesmo não sendo economista, eu vivo neste planeta, e tudo observo e registro com este impotente sofrimento.
Mas no cotidiano, esse agir miúdo de todo dia, de todos nós, de certa forma cada um é especialista. Eu vejo ao meu redor, ou na televisão, na imprensa em geral, a postura delirante das pessoas, certas pessoas, muitas pessoas, com relação ao seu orçamento. A matemática é a mais primária: se ganho 2000, não posso gastar 2500. Se ganho 20000, não posso gastar 22000. Essa conta que qualquer criança de escola elementar entende - ou entenderia se nosso ensino fosse diferente - parece não passar pela cabeça dos grandes consumidores, nem dos microconsumidores, esses que dizem em entrevistas de rua que não podem resistir a uma lingerie bonita, a uma camiseta original, a um eletrodoméstico e tantas maravilhas mais, tudo em doze prestações. Compra-se a prestação no supermercado, compra-se com cartão de crédito sem ter mais crédito. Então cobrimos o buraco com cheque especial. Dali passamos a qualquer outro recurso. Não nos lembramos de calcular os juros. Não nos lembramos de que dez compras baratinhas em várias prestações por semana acabarão em grandes dívidas crescentes durante muitos anos. Isso não nos ocorre porque somos burros, ignorantes. fúteis, bobos, viciados em gastar, insensatos. mal orientados. indiferentes? Não sei. Não chego a nenhuma conclusão. Mas a inadimplência de indivíduos e famílias cresce como abóboras em terra boa, e continuamos comprando sem a menor consciência de que logo estaremos atolados em dívidas, o objeto do nosso desejo retomado pelo vendedor, inclusive o adorado carrinho novo. A mensalidade dos filhos na escola atrasada, nosso respeito pessoal entrando pelo ralo, o desespero baixando como um nevoeiro feio.
Não me considero particularmente obtusa nem especialmente ignorante: mas o que vejo diariamente me dói como se fossem pessoas de minha família, de minha amizade, essas moças, ou senhores, que na televisão sorriem amarelo admitindo que não resistem a boas ofertas nos shoppings e à habilidade de vendedores que, diante de qualquer hesitação, voz do bom-senso, oferecem prestações baixinhas em número espantoso. E toca a comprar qualquer bobagem como se achássemos que alguém vai dar um jeito, alguém vai cuidar de nós, anulando compromissos que estamos assumindo sem entender. .
E assim, às vezes com estímulo de autoridades responsáveis sobretudo pela camada mais desinformada e deseducada do país, de grão em grão esvaziam-se a bolsa, a conta bancária, a credibilidade, o sossego de quem agora recebe diariamente telefonemas de credores legitimamente insistentes: deve, então paga. A bolha de inadimplência entre nós há de estourar um dia, como ocorreu e ocorre em outros países ditos mais adiantados. Não sei quem então vai nos ajudar, Mas sei que a burrice humana, um de nossos maiores males, independe da localização no mapa deste mundo, em crise pela sua própria irresponsabilidade.
Erro com erro - J.R. GUZZO
REVISTA VEJA
Vai ficando cada vez mais distante, no Brasil, a época em que existia uma fronteira clara entre o bem e o mal — o certo estava de um lado e o erro estava de outro, e por aí se costumava parar. Hoje, estranhamente, a fronteira mais comum nos conflitos políticos é entre o mal e o mal. Poucas histórias, entre tantas que acontecem na vida pública atual, demonstram tal mudança tão bem quanto essa extraordinária conversa entre o ex- presidente Luiz Inácio da Silva e o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, no escritório do hoje advogado Nelson Jobim, ex-ministro de uma porção de coisas e amigo de ambos. Como se sabe, Mendes revelou a VEJA, e depois confirmou em várias entrevistas, que foi pressionado por Lula, durante o encontro, a favorecer os réus nesse malfadado mensalão que tanto desmoralizou o seu governo e está perto, enfim, de ser julgado pelo STF. Lula, é claro, negou tudo. O caso entrou em banho- maria e já está a caminho do congelador, mas deixa um retrato perfeito de situação em que não há nada que preste. è a briga do erro com o erro.
Em primeiro lugar, causa espanto, ou deveria causar, a conduta do ministro Gilmar Mendes — por aceitar, como se fosse a coisa mais normal do mundo, uma reunião absolutamente imprópria com o ex-presidente. Ele nunca poderia ter tido uma conversa em particular como a que teve; em sua condição de ministro do STF, que se prepara para um julgamento no qual Lula tem interesses diretos e importantes, Mendes está impedido de qualquer contato pessoal com o ex-presidente, ou outras pessoas de alguma forma ligadas ao caso. Afinal, ele será um dos julgadores do mensalão, e por um dever rudimentar de imparcialidade não tem nada a tratar com acusados ou com acusadores. Conversar sobre o que com Lula, e para quê? O ministro talvez não se lembre, mas já houve um tempo neste país em que juízes, ou pelo menos juízes de verdade, não aceitavam nenhum tipo de conversa particular sobre qualquer caso em apreciação por eles próprios ou peloJudiciário em geral — com ninguém, e em nenhuma circunstância.
Se alguém quisesse falar com o juiz, que fosse ao fórum e, ali, na presença do escrivão ou de outros funcionários do juizado, dissesse tudo o que tinha a dizer. Mas a Justiça brasileira, como tantas outras coisas, foi remasterizada durante os últimos anos; atitudes de simples decência por parte de um magistrado são consideradas, hoje, uma anomalia própria da idade da pedra. O ministro Mendes, é óbvio, tem de atender um ex-presidente da República que deseja falar com ele. Mas por que não fez isso em seu gabinete no Supremo, diante de testemunhas neutras, em vez de ter a tal conversa no escritório de um amigo? É um desastre — mas o mundo político não viu nada de estranho na história, nesta época em que juízes, advogados de renome e até réus, quando são importantes ou ricos, convivem alegremente uns com os outros em churrascos, festas de casamento e a bordo de jatinhos particulares.
Em segundo lugar, deveria causar ainda mais espanto que o ex-presidente da República participe de um encontro a portas fechadas com um dos onze magistrados que vão julgar o mensalão. Se Mendes não tinha nada de conversar com Lula, Lula também não tinha nada de conversar com Mendes — sobretudo levando em conta as coisas para lá de esquisitas que disse, segundo garante o ministro. O momento pior dessa comédia, como de costume, foi a indiferença do ex-presidente diante do seu dever de dar alguma explicação coerente para o caso. Disse que estava “indignado”, e precisava se precaver contra “uma minoria que não gosta de mim”. Mas o problema não é saber quanta gente gosta e quanta gente não gosta dele; é saber o que foi fazer nessa conversa com o ministro e, principalmente, o que disse a ele. Mendes falou que houve pressão e algo muito parecido com chantagem. Como é que fica? Quanto a Nelson Jobim, nenhuma esperança de luzes — pelo pouco que disse, parecia uma dessas testemunhas que viram um homem nem alto nem baixo, que também poderia ser uma mulher, perto de um carro vermelho ou azul, que talvez fosse uma moto amarela.
Os homens públicos do Brasil, já há bom tempo, desfrutam de uma espécie de indulgência plenária — aquela que não apaga o pecado, mas elimina as penas devidas pelo pecador, e que os papas de antigamente vendiam para fazer caixa. Todo mundo pode agir como bem entende e não acontece nada a ninguém. É o ambiente ideal para conversas que nunca deveriam ocorrer.
Em primeiro lugar, causa espanto, ou deveria causar, a conduta do ministro Gilmar Mendes — por aceitar, como se fosse a coisa mais normal do mundo, uma reunião absolutamente imprópria com o ex-presidente. Ele nunca poderia ter tido uma conversa em particular como a que teve; em sua condição de ministro do STF, que se prepara para um julgamento no qual Lula tem interesses diretos e importantes, Mendes está impedido de qualquer contato pessoal com o ex-presidente, ou outras pessoas de alguma forma ligadas ao caso. Afinal, ele será um dos julgadores do mensalão, e por um dever rudimentar de imparcialidade não tem nada a tratar com acusados ou com acusadores. Conversar sobre o que com Lula, e para quê? O ministro talvez não se lembre, mas já houve um tempo neste país em que juízes, ou pelo menos juízes de verdade, não aceitavam nenhum tipo de conversa particular sobre qualquer caso em apreciação por eles próprios ou peloJudiciário em geral — com ninguém, e em nenhuma circunstância.
Se alguém quisesse falar com o juiz, que fosse ao fórum e, ali, na presença do escrivão ou de outros funcionários do juizado, dissesse tudo o que tinha a dizer. Mas a Justiça brasileira, como tantas outras coisas, foi remasterizada durante os últimos anos; atitudes de simples decência por parte de um magistrado são consideradas, hoje, uma anomalia própria da idade da pedra. O ministro Mendes, é óbvio, tem de atender um ex-presidente da República que deseja falar com ele. Mas por que não fez isso em seu gabinete no Supremo, diante de testemunhas neutras, em vez de ter a tal conversa no escritório de um amigo? É um desastre — mas o mundo político não viu nada de estranho na história, nesta época em que juízes, advogados de renome e até réus, quando são importantes ou ricos, convivem alegremente uns com os outros em churrascos, festas de casamento e a bordo de jatinhos particulares.
Em segundo lugar, deveria causar ainda mais espanto que o ex-presidente da República participe de um encontro a portas fechadas com um dos onze magistrados que vão julgar o mensalão. Se Mendes não tinha nada de conversar com Lula, Lula também não tinha nada de conversar com Mendes — sobretudo levando em conta as coisas para lá de esquisitas que disse, segundo garante o ministro. O momento pior dessa comédia, como de costume, foi a indiferença do ex-presidente diante do seu dever de dar alguma explicação coerente para o caso. Disse que estava “indignado”, e precisava se precaver contra “uma minoria que não gosta de mim”. Mas o problema não é saber quanta gente gosta e quanta gente não gosta dele; é saber o que foi fazer nessa conversa com o ministro e, principalmente, o que disse a ele. Mendes falou que houve pressão e algo muito parecido com chantagem. Como é que fica? Quanto a Nelson Jobim, nenhuma esperança de luzes — pelo pouco que disse, parecia uma dessas testemunhas que viram um homem nem alto nem baixo, que também poderia ser uma mulher, perto de um carro vermelho ou azul, que talvez fosse uma moto amarela.
Os homens públicos do Brasil, já há bom tempo, desfrutam de uma espécie de indulgência plenária — aquela que não apaga o pecado, mas elimina as penas devidas pelo pecador, e que os papas de antigamente vendiam para fazer caixa. Todo mundo pode agir como bem entende e não acontece nada a ninguém. É o ambiente ideal para conversas que nunca deveriam ocorrer.
Rio+20 = 0 -GUILHERME FIUZA
Revista Época
Às vésperas da conferência Rio-92, 20 anos atrás, o secretário-geral da Cúpula da Terra, Maurice Strong, afirmou: “Esta é a nossa última chance de salvar o planeta”. Agora, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, avisa que a Rio+20 é a “única oportunidade” de garantir um futuro sustentável. Do jeito como as coisas vão, a Rio+40 será a última oportunidade de salvar o mundo dos ecoburocratas, que estão cada vez mais contagiosos e letais.
Os negociadores dos mais de 130 países que estarão representados na conferência estão preocupados. Vários deles já disseram que a grande questão a decidir na Rio+20 é quem financiará o desenvolvimento sustentável, com quanto dinheiro. E que não há acordo à vista sobre isso. Talvez seja necessário responder a outra questão antes dessa: quem nos salvará dessas festas ecológicas milionárias que não decidem nada? Quem dará um basta nesses banquetes insustentáveis que discutem sustentabilidade?
Ninguém segura a patrulha da bondade e seu alegre circo do apocalipse. No picadeiro da salvação sempre cabe mais um. É aquela oportunidade valiosa para os ativistas de si mesmos descolarem mais um flash por um mundo melhor. O oportunismo é verde. Cientistas políticos gritam que o tempo está se esgotando, artistas buscam sofregamente algum bordão conceitual, mesmo que se atrapalhem um pouquinho - como na célebre frase de uma cantora de MPB em momento ético: “O problema do Brasil é a falta de impunidade”.
Enquanto a feira de lugares-comuns e o show de autoajuda planetária evoluem na avenida, o mundo piora. A crise nascida na Europa veio mostrar que a farra estatal é boa, mas um dia a conta chega. Com a licença dos ecologistas: pode ser a última chance de descobrir que não é o Estado que sustenta a sociedade, mas o contrário. E que não existe Estado forte com sociedade fraca. Pois é nesse momento de alerta contra os governos perdulários que se monta o colossal almoço grátis da Rio+20. Um banquete para discutir o desperdício. Haja sustentabilidade.
O que quer a faminta burocracia verde, com seus sábios fashion de bolinha vermelha na testa e seus relatórios sobre o fim do mundo? Quer a Bolsa Ecologia. Quer mais dinheiro do contribuinte para mais relatórios, mais comissões, mais mesadas para ONGs, mais conferências coloridas e animadas. Enquanto isso, a vida real vai muito bem, obrigado, para monstros como a usina hidrelétrica de Belo Monte - uma estupidez ecológica, uma aberração econômica e um monumento ao desperdício estatal. O custo cada vez mais insustentável da energia nuclear também não é problema para os abastados anfitriões da Rio+20, como prova a construção de Angra 3 - cujo lixo radioativo tem garantia até a Rio+2020. Passaporte para o futuro é isso aí.
Duas décadas de sustentabilidade conceitual não chatearam os vilões reais. Na Rio 92, foram assinadas as convenções de Biodiversidade e do Clima. A primeira instituiu o direito das populações tradicionais sobre o patrimônio genético de suas terras. Enquanto a biotecnologia progride, os povos da maior floresta tropical da Terra continuam a ver navios no Rio Amazonas. Os royalties que conhecem vêm do contrabando de madeira - porque infelizmente não podem se alimentar de convenções. A Convenção do Clima gerou o que se sabe: uma sucessão de protocolos sobre redução das emissões de gás carbônico. Cada um é mais severo que o anterior, devidamente descumprido. Com novos prazos de carência, as metas vão ficando mais ambiciosas, numa espécie de pacto com o nunca.
E aí está a patrulha da bondade em mais uma conferência planetária, reunindo os melhores especialistas internacionais em sustentabilidade e sexo dos anjos. Eles dirão que o mundo vai acabar e a culpa é sua. Mandarão você deixar seu carro na garagem e tomar banho rápido. Não falarão em controle populacional, porque isso é de direita. Eles são progressistas, sociais, amam cada um dos 7 bilhões de habitantes da Terra, que serão 10 bilhões até o fim deste século, todos muito bem-vindos.
O problema, claro, é do capitalismo individualista, cheio de egoístas que demoram no banho. Serão necessários muitos banquetes ecológicos para mudar essa mentalidade.
Os negociadores dos mais de 130 países que estarão representados na conferência estão preocupados. Vários deles já disseram que a grande questão a decidir na Rio+20 é quem financiará o desenvolvimento sustentável, com quanto dinheiro. E que não há acordo à vista sobre isso. Talvez seja necessário responder a outra questão antes dessa: quem nos salvará dessas festas ecológicas milionárias que não decidem nada? Quem dará um basta nesses banquetes insustentáveis que discutem sustentabilidade?
Ninguém segura a patrulha da bondade e seu alegre circo do apocalipse. No picadeiro da salvação sempre cabe mais um. É aquela oportunidade valiosa para os ativistas de si mesmos descolarem mais um flash por um mundo melhor. O oportunismo é verde. Cientistas políticos gritam que o tempo está se esgotando, artistas buscam sofregamente algum bordão conceitual, mesmo que se atrapalhem um pouquinho - como na célebre frase de uma cantora de MPB em momento ético: “O problema do Brasil é a falta de impunidade”.
Enquanto a feira de lugares-comuns e o show de autoajuda planetária evoluem na avenida, o mundo piora. A crise nascida na Europa veio mostrar que a farra estatal é boa, mas um dia a conta chega. Com a licença dos ecologistas: pode ser a última chance de descobrir que não é o Estado que sustenta a sociedade, mas o contrário. E que não existe Estado forte com sociedade fraca. Pois é nesse momento de alerta contra os governos perdulários que se monta o colossal almoço grátis da Rio+20. Um banquete para discutir o desperdício. Haja sustentabilidade.
O que quer a faminta burocracia verde, com seus sábios fashion de bolinha vermelha na testa e seus relatórios sobre o fim do mundo? Quer a Bolsa Ecologia. Quer mais dinheiro do contribuinte para mais relatórios, mais comissões, mais mesadas para ONGs, mais conferências coloridas e animadas. Enquanto isso, a vida real vai muito bem, obrigado, para monstros como a usina hidrelétrica de Belo Monte - uma estupidez ecológica, uma aberração econômica e um monumento ao desperdício estatal. O custo cada vez mais insustentável da energia nuclear também não é problema para os abastados anfitriões da Rio+20, como prova a construção de Angra 3 - cujo lixo radioativo tem garantia até a Rio+2020. Passaporte para o futuro é isso aí.
Duas décadas de sustentabilidade conceitual não chatearam os vilões reais. Na Rio 92, foram assinadas as convenções de Biodiversidade e do Clima. A primeira instituiu o direito das populações tradicionais sobre o patrimônio genético de suas terras. Enquanto a biotecnologia progride, os povos da maior floresta tropical da Terra continuam a ver navios no Rio Amazonas. Os royalties que conhecem vêm do contrabando de madeira - porque infelizmente não podem se alimentar de convenções. A Convenção do Clima gerou o que se sabe: uma sucessão de protocolos sobre redução das emissões de gás carbônico. Cada um é mais severo que o anterior, devidamente descumprido. Com novos prazos de carência, as metas vão ficando mais ambiciosas, numa espécie de pacto com o nunca.
E aí está a patrulha da bondade em mais uma conferência planetária, reunindo os melhores especialistas internacionais em sustentabilidade e sexo dos anjos. Eles dirão que o mundo vai acabar e a culpa é sua. Mandarão você deixar seu carro na garagem e tomar banho rápido. Não falarão em controle populacional, porque isso é de direita. Eles são progressistas, sociais, amam cada um dos 7 bilhões de habitantes da Terra, que serão 10 bilhões até o fim deste século, todos muito bem-vindos.
O problema, claro, é do capitalismo individualista, cheio de egoístas que demoram no banho. Serão necessários muitos banquetes ecológicos para mudar essa mentalidade.
O preço do amor - RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA
Por que certos homens continuam obcecados por prostitutas, mesmo com a liberação sexual da mulher? Só muda a qualidade do serviço - e o nome. Pobre transa com "puta". Rico transa com "garota de programa".Às vezes, milionários poderosos também curtem um baixo meretrício sem qualquer preocupação estética. Não precisa ser no cinema ou na literatura, mas na vida real mesmo. É só lembrar Hugh Grant, flagrado e detido pelo sexo oral no carro com Divine Brown. Bem casado com uma mulher bonita e independente.
Outros homens não se contentam com a atração momentânea e eventual pelo sexo pago - um tipo de transa que, por definição dos clientes, deveria passar em branco, sem deixar traços ou marcas, algo banal e prazeroso como uma boa refeição num restaurante. Há homens que vão além: são viciados em prostitutas. Na comédia que será lançada em 550 cinemas no dia 22 de junho, E aí...Comeu?, baseada na peça de Marcelo Rubens Paiva, um dos três amigos na mesa do bar só gosta de prostitutas. Porque tem medo de amar. O personagem quer publicar um livro, mas, segundo seu editor, ele fala de amor como um químico fala de laboratório.
Existe uma categoria que pisa mais fundo. É a do executivo Marcos Matsunaga, alvejado, degolado e esquartejado quando só queria comer uma pizza em casa. São homens que se apaixonam, casam e têm filhos com garotas de programa. Quando percebem que a moça dócil se tornou uma "esposa" com seus próprios desejos e cobranças, alguns resolvem ter um caso. Com outra prostituta.
Felizmente para eles, as Elizes são uma exceção. Essa história triste, cruel e trágica que abalou o país não deveria atiçar o moralismo boçal:"Está vendo? Quem manda?". Não tenho nada pessoal contra mulheres que alugam ou vendem seu corpo. Tampouco sinto pena ou solidariedàde. Muitas fazem esse trabalho com profissionalismo, honestidade e, hoje, com camisinha. E não ofendem nem roubam. Até pouco tempo atrás, nossos pais, maridos, namorados ou filhos iniciavam sua vida sexual com prostitutas, por falta de namoradas disponíveis a perder a virgindade.
Antes dos namoros com sexo, a relação com a prostituta era tão natural e familiar que o homem, ao casar, precisava reaprender a se relacionar na cama. Havia a noção de que mulher "direita" não gostava de sexo e só o fazia para satisfazer o marido e procriar. Mulheres não trabalhavam fora
como hoje. O homem financiava a casa.
Gabriela Leite, a ex-aluna de filosofia na USP que virou prostituta aos 22 anos, criou a grife Daspu e hoje é líder da classe. Ela escreveu um livro em que diz que a maior parte dos homens não sabe transar e prefere quantidade em vez de qualidade:"Eles dependem quase integralmente de uma parceira que lhes ensine os mistérios de seu corpo". Segundo ela, os homens morrem de medo de brochar."Mas, na verdade", diz Gabriela,"o homem viril é o homem que se dá.
Uma vez perguntaram ao ator Jack Nicholson por que, com tanta mulher querendo dar para ele de graça, buscava prostitutas. "Não pago para transar, pago para ir embora", disse. A cabeça do homem que paga pelo sexo é assim: satisfaço meu desejo e pronto. Prostituta, além de ser mais barata, não dá aquela trabalheira antes, durante e depois do sexo. Não há negociação - além do preço.
"Com a prostituta, há o exercício do poder, do controle e da vontade própria, sem necessidade de sedução ou conquista",
diz o psicanalista Luiz Alberto Py."Ela faz o que o homem quer, não fica fazendo doce. O cara paga de acordo com seus desejos e, quanto mais complicado o desejo, mais caro." Pode haver um clima de romance fake, diz Py:"Se o homem teve uma decepção amorosa, tem medo de sofrer ou não encontra uma mulher que o queira,é fácil se deixar seduzir por moças
sempre dispostas a fazer um charme. Ele fecha os olhos à transação comercial. E fantasia: elas me querem não pelo dinheiro, mas porque eu sou o cara". Garotas de programa competentes costumam oferecer um serviço de qualidade. O serviço inclui escutar os carentes, ser carinhosa com os sensíveis, ser criativa, fingir que goza e, às vezes, até gozar de verdade.
Mulheres começam a usar serviços de garotos de programa - pelas mesmas razões que os homens. "É um fenômeno marcante nos consultórios", afirma Py,"primeiro porque antes isso não existia e também porque, para elas, ainda é uma transgressão, está longe de ser uma banalidade. Diferentemente do homem, a mulher que paga por sexo precisa digerir essa ideia. E tem medo de ser criticada pelas próprias amigas. Ainda há outra particularidade, segundo Py. As mulheres tendem a se apegar aos rapazes de programa e a se tornar ciumentas. O amor nunca sai de graça.
Outros homens não se contentam com a atração momentânea e eventual pelo sexo pago - um tipo de transa que, por definição dos clientes, deveria passar em branco, sem deixar traços ou marcas, algo banal e prazeroso como uma boa refeição num restaurante. Há homens que vão além: são viciados em prostitutas. Na comédia que será lançada em 550 cinemas no dia 22 de junho, E aí...Comeu?, baseada na peça de Marcelo Rubens Paiva, um dos três amigos na mesa do bar só gosta de prostitutas. Porque tem medo de amar. O personagem quer publicar um livro, mas, segundo seu editor, ele fala de amor como um químico fala de laboratório.
Existe uma categoria que pisa mais fundo. É a do executivo Marcos Matsunaga, alvejado, degolado e esquartejado quando só queria comer uma pizza em casa. São homens que se apaixonam, casam e têm filhos com garotas de programa. Quando percebem que a moça dócil se tornou uma "esposa" com seus próprios desejos e cobranças, alguns resolvem ter um caso. Com outra prostituta.
Felizmente para eles, as Elizes são uma exceção. Essa história triste, cruel e trágica que abalou o país não deveria atiçar o moralismo boçal:"Está vendo? Quem manda?". Não tenho nada pessoal contra mulheres que alugam ou vendem seu corpo. Tampouco sinto pena ou solidariedàde. Muitas fazem esse trabalho com profissionalismo, honestidade e, hoje, com camisinha. E não ofendem nem roubam. Até pouco tempo atrás, nossos pais, maridos, namorados ou filhos iniciavam sua vida sexual com prostitutas, por falta de namoradas disponíveis a perder a virgindade.
Antes dos namoros com sexo, a relação com a prostituta era tão natural e familiar que o homem, ao casar, precisava reaprender a se relacionar na cama. Havia a noção de que mulher "direita" não gostava de sexo e só o fazia para satisfazer o marido e procriar. Mulheres não trabalhavam fora
como hoje. O homem financiava a casa.
Gabriela Leite, a ex-aluna de filosofia na USP que virou prostituta aos 22 anos, criou a grife Daspu e hoje é líder da classe. Ela escreveu um livro em que diz que a maior parte dos homens não sabe transar e prefere quantidade em vez de qualidade:"Eles dependem quase integralmente de uma parceira que lhes ensine os mistérios de seu corpo". Segundo ela, os homens morrem de medo de brochar."Mas, na verdade", diz Gabriela,"o homem viril é o homem que se dá.
Uma vez perguntaram ao ator Jack Nicholson por que, com tanta mulher querendo dar para ele de graça, buscava prostitutas. "Não pago para transar, pago para ir embora", disse. A cabeça do homem que paga pelo sexo é assim: satisfaço meu desejo e pronto. Prostituta, além de ser mais barata, não dá aquela trabalheira antes, durante e depois do sexo. Não há negociação - além do preço.
"Com a prostituta, há o exercício do poder, do controle e da vontade própria, sem necessidade de sedução ou conquista",
diz o psicanalista Luiz Alberto Py."Ela faz o que o homem quer, não fica fazendo doce. O cara paga de acordo com seus desejos e, quanto mais complicado o desejo, mais caro." Pode haver um clima de romance fake, diz Py:"Se o homem teve uma decepção amorosa, tem medo de sofrer ou não encontra uma mulher que o queira,é fácil se deixar seduzir por moças
sempre dispostas a fazer um charme. Ele fecha os olhos à transação comercial. E fantasia: elas me querem não pelo dinheiro, mas porque eu sou o cara". Garotas de programa competentes costumam oferecer um serviço de qualidade. O serviço inclui escutar os carentes, ser carinhosa com os sensíveis, ser criativa, fingir que goza e, às vezes, até gozar de verdade.
Mulheres começam a usar serviços de garotos de programa - pelas mesmas razões que os homens. "É um fenômeno marcante nos consultórios", afirma Py,"primeiro porque antes isso não existia e também porque, para elas, ainda é uma transgressão, está longe de ser uma banalidade. Diferentemente do homem, a mulher que paga por sexo precisa digerir essa ideia. E tem medo de ser criticada pelas próprias amigas. Ainda há outra particularidade, segundo Py. As mulheres tendem a se apegar aos rapazes de programa e a se tornar ciumentas. O amor nunca sai de graça.
Fósforo riscado em paiol de pólvora - PAULO GUEDES
Revista Época
Mais e mais, percebe-se que a grande crise contemporânea é um fenômeno sistêmico, não uma acidental e imprevisível derrapagem da economia global. Só analistas ingênuos acreditam que a quebra do Lehman Brothers foi a causa do colapso financeiro sofrido pela economia americana em 2008-2009, arrastando o mundo para uma grande recessão. Já era claro para analistas atentos que o excesso de endividamento permeava todo o universo financeiro após anos de expansão abusiva do crédito. A quebra do Lehman foi apenas um dos inúmeros gatilhos que poderiam fazer disparar a ameaça de contágio bancário. Qualquer fósforo riscado num paiol de pólvora o faria explodir. Na verdade, os financistas quebraram os bancos com uma formidável farra do crédito à base de alavancagem excessiva.
Da mesma forma, do outro lado do Atlântico, políticos europeus quebraram os governos e congelaram seus mercados de trabalho com as práticas populistas, obsoletas e financeiramente irresponsáveis de socialistas e social-democratas. Só os mesmos ingênuos analistas acreditam que a quebra da Grécia é a causa do colapso financeiro sofrido pela economia europeia em 2011-2012. A quebra da Irlanda, a de Portugal e a da Grécia, como um rastilho que agora chega à Espanha e à Itália, ameaçando derrubar em cadeia o sistema bancário europeu, são manifestações de um fenômeno maior. Na verdade, a emergência do euro como moeda continental estimulou a expansão excessiva do crédito e acabou desnudando sistemáticos abusos da classe política europeia contra os orçamentos públicos.
Agora quem pede água é a Espanha. As estimativas de socorro financeiro para evitar o colapso do sistema bancário espanhol estão em torno de € 100 bilhões. O que não é muito, e deverá ser concedido, quando se considera que a Espanha é a quarta maior economia da Zona do Euro. A Irlanda tomou € 85 bilhões em 2010, Portugal recebeu € 78 bilhões em 2011. E a Grécia levou € 110 bilhões em 2010, mais € 130 bilhões em 2012. Enquanto a Espanha tem promovido austeridade e reformas, a esquerda radical grega ameaça deixar o euro se vencer as eleições neste domingo.
O sistema financeiro europeu é uma cobra que engoliu o próprio rabo. Os bancos não podem mais comprar títulos públicos para rolar dívidas dos governos nacionais porque os riscos soberanos em alta trazem pesadas perdas de capital ao sistema financeiro. E os governos nacionais não podem mais socorrer seus bancos porque fariam disparar ainda mais seus riscos soberanos e os custos de rolagem de suas dívidas públicas. Suas finanças já foram exauridas por décadas de demagogia social-democrata.
O agravamento da crise europeia tem sido atribuído exclusivamente à adoção de uma moeda continental. Mas a armadilha social-democrata do baixo crescimento, com regimes previdenciários irrealistas e legislações trabalhistas anacrônicas, foi produzida por décadas de práticas políticas obsoletas. Tornando inflexíveis os mercados de trabalho, a euroesclerose socialista estilhaçou o maior mercado potencial do planeta em imensos bolsões “nacionais” de desemprego. A balcanização econômica da Europa e a insatisfação de eleitorados nacionais com a estagnação da produção e do emprego apenas se tornaram visíveis com a emergência do euro ao status de moeda forte.
Essa armadilha de baixo crescimento resulta da falta de sintonia de classes políticas nacionais com os requisitos de uma nova ordem global. Ela aprisionou a economia europeia e a condenou ao crescimento medíocre e à incapacidade de gerar empregos. Crítico contumaz de uma adoção global do capitalismo, que considera uma singularidade histórica anglo-saxã de consequências desastrosas para o resto do mundo, o filósofo e cientista político britânico John Gray julga irreconciliáveis as contradições entre as práticas políticas social-democratas e as práticas econômicas de livres mercados globais.
O esfriamento da economia brasileira tem sido atribuído ao aprofundamento da grande crise contemporânea. Seríamos vítimas do fenômeno da desaceleração econômica global. Estariam contribuindo para a frustração de nossas expectativas de crescimento a frágil recuperação da economia americana, o esfriamento das demais economias emergentes - novas fronteiras de crescimento da economia mundial - e, principalmente, o buraco negro da Zona do Euro. Após forte desaceleração econômica ao longo de 2011, o Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2012 com a economia praticamente estagnada. Estaríamos sofrendo os efeitos de uma sincronização com a crise global.
Na tentativa de conter os impactos externos sobre nossa dinâmica de crescimento, o governo deflagrou novos rounds de políticas macroeconômicas expansionistas. Reduziu os impostos e baixou as taxas de juros para estimular a economia. A desvalorização do dólar dá um empurrão às exportações e atenua os estragos da onda de importações sobre a produção nacional. Espera-se, em consequência, maior ritmo de atividade econômica no segundo semestre.
Mas nossa desaceleração econômica tem um componente estrutural. Não é possível bombar a economia simplesmente à base do crédito fácil. O importante é garantir o crescimento contínuo da produtividade, aumentando a vantagem competitiva do país e das empresas brasileiras. Não é possível bombar a economia expandindo gastos públicos indefinidamente. O importante é ampliar os investimentos e as exportações, garantindo nossa integração competitiva à economia mundial. É preciso reduzir e simplificar os impostos, investir em infraestrutura e logística, para reduzir o Custo Brasil. É preciso estimular o empreendedorismo e as inovações, acelerar os investimentos em educação e novas tecnologias.
Como adverte o prêmio Nobel de Economia Douglass North, em Compreendendo o processo das mudanças econômicas (2005), “o requisito básico para escapar do baixo desempenho econômico é o claro entendimento de que se origina de instituições deficientes, que, por sua vez, resultam de crenças e percepções inadequadas diante de uma nova realidade. A estrutura institucional existente é um poderoso obstáculo às necessárias mudanças, pois reage em defesa de interesses adquiridos”. Precisamos combater os grupos de interesses estabelecidos com reformas institucionais modernizantes.
Da mesma forma, do outro lado do Atlântico, políticos europeus quebraram os governos e congelaram seus mercados de trabalho com as práticas populistas, obsoletas e financeiramente irresponsáveis de socialistas e social-democratas. Só os mesmos ingênuos analistas acreditam que a quebra da Grécia é a causa do colapso financeiro sofrido pela economia europeia em 2011-2012. A quebra da Irlanda, a de Portugal e a da Grécia, como um rastilho que agora chega à Espanha e à Itália, ameaçando derrubar em cadeia o sistema bancário europeu, são manifestações de um fenômeno maior. Na verdade, a emergência do euro como moeda continental estimulou a expansão excessiva do crédito e acabou desnudando sistemáticos abusos da classe política europeia contra os orçamentos públicos.
Agora quem pede água é a Espanha. As estimativas de socorro financeiro para evitar o colapso do sistema bancário espanhol estão em torno de € 100 bilhões. O que não é muito, e deverá ser concedido, quando se considera que a Espanha é a quarta maior economia da Zona do Euro. A Irlanda tomou € 85 bilhões em 2010, Portugal recebeu € 78 bilhões em 2011. E a Grécia levou € 110 bilhões em 2010, mais € 130 bilhões em 2012. Enquanto a Espanha tem promovido austeridade e reformas, a esquerda radical grega ameaça deixar o euro se vencer as eleições neste domingo.
O sistema financeiro europeu é uma cobra que engoliu o próprio rabo. Os bancos não podem mais comprar títulos públicos para rolar dívidas dos governos nacionais porque os riscos soberanos em alta trazem pesadas perdas de capital ao sistema financeiro. E os governos nacionais não podem mais socorrer seus bancos porque fariam disparar ainda mais seus riscos soberanos e os custos de rolagem de suas dívidas públicas. Suas finanças já foram exauridas por décadas de demagogia social-democrata.
O agravamento da crise europeia tem sido atribuído exclusivamente à adoção de uma moeda continental. Mas a armadilha social-democrata do baixo crescimento, com regimes previdenciários irrealistas e legislações trabalhistas anacrônicas, foi produzida por décadas de práticas políticas obsoletas. Tornando inflexíveis os mercados de trabalho, a euroesclerose socialista estilhaçou o maior mercado potencial do planeta em imensos bolsões “nacionais” de desemprego. A balcanização econômica da Europa e a insatisfação de eleitorados nacionais com a estagnação da produção e do emprego apenas se tornaram visíveis com a emergência do euro ao status de moeda forte.
Essa armadilha de baixo crescimento resulta da falta de sintonia de classes políticas nacionais com os requisitos de uma nova ordem global. Ela aprisionou a economia europeia e a condenou ao crescimento medíocre e à incapacidade de gerar empregos. Crítico contumaz de uma adoção global do capitalismo, que considera uma singularidade histórica anglo-saxã de consequências desastrosas para o resto do mundo, o filósofo e cientista político britânico John Gray julga irreconciliáveis as contradições entre as práticas políticas social-democratas e as práticas econômicas de livres mercados globais.
O esfriamento da economia brasileira tem sido atribuído ao aprofundamento da grande crise contemporânea. Seríamos vítimas do fenômeno da desaceleração econômica global. Estariam contribuindo para a frustração de nossas expectativas de crescimento a frágil recuperação da economia americana, o esfriamento das demais economias emergentes - novas fronteiras de crescimento da economia mundial - e, principalmente, o buraco negro da Zona do Euro. Após forte desaceleração econômica ao longo de 2011, o Brasil encerrou o primeiro trimestre de 2012 com a economia praticamente estagnada. Estaríamos sofrendo os efeitos de uma sincronização com a crise global.
Na tentativa de conter os impactos externos sobre nossa dinâmica de crescimento, o governo deflagrou novos rounds de políticas macroeconômicas expansionistas. Reduziu os impostos e baixou as taxas de juros para estimular a economia. A desvalorização do dólar dá um empurrão às exportações e atenua os estragos da onda de importações sobre a produção nacional. Espera-se, em consequência, maior ritmo de atividade econômica no segundo semestre.
Mas nossa desaceleração econômica tem um componente estrutural. Não é possível bombar a economia simplesmente à base do crédito fácil. O importante é garantir o crescimento contínuo da produtividade, aumentando a vantagem competitiva do país e das empresas brasileiras. Não é possível bombar a economia expandindo gastos públicos indefinidamente. O importante é ampliar os investimentos e as exportações, garantindo nossa integração competitiva à economia mundial. É preciso reduzir e simplificar os impostos, investir em infraestrutura e logística, para reduzir o Custo Brasil. É preciso estimular o empreendedorismo e as inovações, acelerar os investimentos em educação e novas tecnologias.
Como adverte o prêmio Nobel de Economia Douglass North, em Compreendendo o processo das mudanças econômicas (2005), “o requisito básico para escapar do baixo desempenho econômico é o claro entendimento de que se origina de instituições deficientes, que, por sua vez, resultam de crenças e percepções inadequadas diante de uma nova realidade. A estrutura institucional existente é um poderoso obstáculo às necessárias mudanças, pois reage em defesa de interesses adquiridos”. Precisamos combater os grupos de interesses estabelecidos com reformas institucionais modernizantes.
Invasão russa - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 18/06
Esta Rio+20 é um grande teste para a Aeronáutica com vistas à Copa de 14 e à Olimpíada de 16. Esta semana é esperado um grande engarrafamento nos céus do Rio com centenas de aviões, jatinhos e helicópteros. A delegação russa é campeã: vem com 5 grandes aeronaves.
Segue...
Várias pistas de pouso foram mobilizadas para abrigar esta frota. Os helicópteros ficarão no Campo dos Afonsos. Já o Aeroporto de Cabo Frio, com se sabe, vai abrigar 10 aeronaves de chefes de Estado.
Calma, gente
Na carona da Rio+20, jovens universitários da organização Articulação Nacional pela Verdade, Memória e Justiça planejam mais um ato para “escrachar” um “ex-torturador” dos anos de ditadura militar. Não revelam o local nem a identidade do alvo. A concentração será amanhã às 9h, na Urca.
Fumaça sustentável
Amanhã, às 4h20m no MAM, haverá uma edição extraordinária da Marcha da Maconha. Irá percorrer toda a área da Cúpula dos Povos da Rio+20.
Cápsula do tempo
Dia 22, nos jardins do Museu da República, será enterrada uma caixa com objetos com informações sobre a Rio+20. A ideia é abrir a caixa numa eventual Rio+40, se o mundo não acabar até lá...
Era de mentirinha
Rita Lee anunciou em janeiro que iria se aposentar dos palcos, mas desistiu. Melhor assim. A roqueira programa uma nova turnê do seu disco “Reza” e pretende lançar um CD só com músicas inéditas ainda em 2012.
O RIO PODE perder mais uma figueira centenária. O alerta foi feito pelos moradores da Rua Dona Mariana, em Botafogo, que temem pela vida desta linda árvore da foto em um terreno particular usado como estacionamento do Bradesco. A turma, em tempos de Rio+20, já ligou para Deus e o mundo pedindo socorro. Segundo a Fundação Parques e Jardins, um laudo da Defesa Civil concluiu que a “árvore estava sob risco de queda, além de apresentar grave lesão na base e cupim ativo”. Bem que o Bradesco podia se mobilizar nesta luta pela preservação da figueira
Habemus Papam
Este filme “Habemus Papam” é baseado no livro “Habemus Papam, Francesco”, de 1999, do padre italiano Paolo Farinella. No livro, o Papa Francesco tem sete conselheiros dos quais três são os brasileiros Helder Camara, Leonardo Boff e Frei Betto.
Desastre aéreo
Ontem fez um ano da queda do helicóptero em Porto Seguro (BA), que matou as sete pessoas, inclusive a namorada do filho de Sérgio Cabral. Quarta passada, Carlos Peregrino, diretor da Anac, reuniu-se com as famílias das vítimas e apresentou as medidas adotadas para que haja mais rigor na autorização das viagens.
Filho único
Bruno Gouveia, líder do Biquíni Cavadão, que perdeu o seu filho único Gabriel, resumiu o encontro: — Nada os trará de volta e só nos resta perseguir a certeza de que absurdos como esses nunca mais se repitam.
Filho da guerra fria
A palestra hoje no Midrash, centro cultural judaico carioca, do americano Robert Meeropol, filho do casal Julius e Ethel Rosenberg, acusado de repassar aos soviéticos informações sobre a bomba atômica, terá uma participação especial da atriz Clarice Niskier. Ela fará a leitura da última carta escrita por eles aos filhos, horas antes de serem executados numa cadeira elétrica em 1953, em Nova York.
Herzog
A palestra faz parte do ciclo de debates sobre direitos humanos. Dia 25, Zuenir Ventura fala sobre seu colega Vladimir Herzog (1937-1975), assassinado pela ditadura militar.
MaracaFla
A Traffic se uniu ao Flamengo para tentar ganhar a administração do Maracanã.
Peladeiros
Thiago Silva, capitão da seleção brasileira na Olimpíada, que se machucou no último amistoso, e Marcelo, do Real Madrid, estavam sábado jogando bola no Cheirinho do Gol, no Recreio.
Forró do Guido
Os coleguinhas setoristas do Ministério da Fazenda estão promovendo “O arraiá da crise”. No convite, versos de forró. Um trecho: “Em toda festa de São João/tem combate à inflação/pibinho vira um pibão/e as medidas não param não.”
Esta Rio+20 é um grande teste para a Aeronáutica com vistas à Copa de 14 e à Olimpíada de 16. Esta semana é esperado um grande engarrafamento nos céus do Rio com centenas de aviões, jatinhos e helicópteros. A delegação russa é campeã: vem com 5 grandes aeronaves.
Segue...
Várias pistas de pouso foram mobilizadas para abrigar esta frota. Os helicópteros ficarão no Campo dos Afonsos. Já o Aeroporto de Cabo Frio, com se sabe, vai abrigar 10 aeronaves de chefes de Estado.
Calma, gente
Na carona da Rio+20, jovens universitários da organização Articulação Nacional pela Verdade, Memória e Justiça planejam mais um ato para “escrachar” um “ex-torturador” dos anos de ditadura militar. Não revelam o local nem a identidade do alvo. A concentração será amanhã às 9h, na Urca.
Fumaça sustentável
Amanhã, às 4h20m no MAM, haverá uma edição extraordinária da Marcha da Maconha. Irá percorrer toda a área da Cúpula dos Povos da Rio+20.
Cápsula do tempo
Dia 22, nos jardins do Museu da República, será enterrada uma caixa com objetos com informações sobre a Rio+20. A ideia é abrir a caixa numa eventual Rio+40, se o mundo não acabar até lá...
Era de mentirinha
Rita Lee anunciou em janeiro que iria se aposentar dos palcos, mas desistiu. Melhor assim. A roqueira programa uma nova turnê do seu disco “Reza” e pretende lançar um CD só com músicas inéditas ainda em 2012.
O RIO PODE perder mais uma figueira centenária. O alerta foi feito pelos moradores da Rua Dona Mariana, em Botafogo, que temem pela vida desta linda árvore da foto em um terreno particular usado como estacionamento do Bradesco. A turma, em tempos de Rio+20, já ligou para Deus e o mundo pedindo socorro. Segundo a Fundação Parques e Jardins, um laudo da Defesa Civil concluiu que a “árvore estava sob risco de queda, além de apresentar grave lesão na base e cupim ativo”. Bem que o Bradesco podia se mobilizar nesta luta pela preservação da figueira
Habemus Papam
Este filme “Habemus Papam” é baseado no livro “Habemus Papam, Francesco”, de 1999, do padre italiano Paolo Farinella. No livro, o Papa Francesco tem sete conselheiros dos quais três são os brasileiros Helder Camara, Leonardo Boff e Frei Betto.
Desastre aéreo
Ontem fez um ano da queda do helicóptero em Porto Seguro (BA), que matou as sete pessoas, inclusive a namorada do filho de Sérgio Cabral. Quarta passada, Carlos Peregrino, diretor da Anac, reuniu-se com as famílias das vítimas e apresentou as medidas adotadas para que haja mais rigor na autorização das viagens.
Filho único
Bruno Gouveia, líder do Biquíni Cavadão, que perdeu o seu filho único Gabriel, resumiu o encontro: — Nada os trará de volta e só nos resta perseguir a certeza de que absurdos como esses nunca mais se repitam.
Filho da guerra fria
A palestra hoje no Midrash, centro cultural judaico carioca, do americano Robert Meeropol, filho do casal Julius e Ethel Rosenberg, acusado de repassar aos soviéticos informações sobre a bomba atômica, terá uma participação especial da atriz Clarice Niskier. Ela fará a leitura da última carta escrita por eles aos filhos, horas antes de serem executados numa cadeira elétrica em 1953, em Nova York.
Herzog
A palestra faz parte do ciclo de debates sobre direitos humanos. Dia 25, Zuenir Ventura fala sobre seu colega Vladimir Herzog (1937-1975), assassinado pela ditadura militar.
MaracaFla
A Traffic se uniu ao Flamengo para tentar ganhar a administração do Maracanã.
Peladeiros
Thiago Silva, capitão da seleção brasileira na Olimpíada, que se machucou no último amistoso, e Marcelo, do Real Madrid, estavam sábado jogando bola no Cheirinho do Gol, no Recreio.
Forró do Guido
Os coleguinhas setoristas do Ministério da Fazenda estão promovendo “O arraiá da crise”. No convite, versos de forró. Um trecho: “Em toda festa de São João/tem combate à inflação/pibinho vira um pibão/e as medidas não param não.”
Lula, a antítese - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 18/06
Mesmo no período em que Lula convalescia, seu telefone não parou de tocar. Houve inclusive uma temporada em que o Hospital Sírio-Libanês mais parecia um bureau político do que um local destinado exclusivamente a atendimento médico. Qualquer político de primeira grandeza no cenário nacional que passasse por lá dava uma paradinha pra ver Lula. Se era assim no período de convalescência, imagine agora que os médicos tiraram o catéter e declaram o ex-presidente curado.
A aposta geral é a de que Lula não largará mais a ribalta e terá papel de recepcionar os descontentes com Dilma. Ele considera que o balanço de seus atos é positivo, ainda que haja rusgas no próprio PT em função das suas atitudes, como no caso do Recife, onde o prefeito João da Costa insiste em ser candidato à reeleição contra a vontade do ex-presidente.
Por falar em recepção…
A verdadeira estreia de Lula pós-tratamento do câncer será nesta quarta-feira, na Rio+20. Na cena em que Dilma Rousseff se prepara para se apresentar como a salvadora do documento O futuro que queremos — já apelidado de “o passado que sempre tivemos”, por causa das dificuldades de acordo em torno do texto —, quem promete tomar conta do evento é Lula. Com uma vantagem: como ex-governante, deixa subentendido que as falhas se devem a quem o antecedeu ou sucedeu. E conquista corações e mentes ao dizer que “a maior carência no mundo de hoje é de vontade política de nossos governantes”. Refletirá assim as dificuldades dos países de construir o documento síntese da conferência.
Obviamente, Lula faz ressalvas sobre “a vontade política de dezenas” ao se referir a um “rumo de desenvolvimento na África, na Ásia e na América Latina, onde centenas de pessoas começam a ter uma vida melhor”. Aí, claro, ele se inclui sem precisar citar as realizações de seu governo. E, de quebra, ainda deixa transparecer que, se algo falhar, a responsabilidade é de quem está no poder. Ou seja, se coloca como solidário de quem cobra medidas mais ousadas sem precisar se responsabilizar pelo cumprimento delas. Como nos velhos tempos em que o PT era apenas oposição, sem levar muito em conta detalhes e contratos que devem ser cumpridos por quem está no comando.
Por falar em comandar…
Rio+20 à parte, quem acompanha os movimentos de Lula e a forma como ele se solidariza com todos os grupos sai com a impressão de que ele, embora se sinta responsável por Dilma, sempre deixa claro aquilo que discorda da administração dela. Foi assim quando da briga com o PMDB pela liberação das emendas. Ou seja, Lula, ao mesmo tempo em que é o mentor do governo, ocupa também o papel de sutil oposição a ele. Cada vez mais ocupa o espaço de antítese de Dilma — a mulher de classe média estudiosa versus o trabalhador talentoso, a durona versus o bom de papo com os políticos.
Quem entende do traçado e enxerga a política longe, percebe que o PT trabalha em duas frentes: enquanto Dilma recolhe votos na classe média que votou no PSDB em 2010, Lula mantém os mais pobres e a classe política com saudades do jeito dele de abrir as portas do governo aos aliados. Assim, um vai compensando o que o outro perde e o espaço da oposição vai se reduzindo. Não por acaso o PSD do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, nasce do DEM e vira independente. Afinal, enquanto o PT com o charme de Lula e a imagem de durona de Dilma estiverem ocupando dois terços do cenário político, sobra pouca margem de manobra e de sobrevivência na oposição. No momento, os dois dominam o palco como dominarão a Rio+20, a principal vitrine desta semana. Vamos acompanhar.
O ex-presidente aproveita a Rio+20 para marcar seu retorno à ribalta da política. E vem cada vez mais claro como um contraponto a Dilma. Enquanto a presidente conquista a classe média, ele se coloca como receptáculo das insatisfações políticas e tenta segurar parte daqueles decepcionados com o PT
A internet ultrarrápida - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 18/06
Sob o ponto de vista financeiro, o leilão para introduzir no Brasil a internet móvel ultrarrápida de quarta geração (4G), realizado na terça-feira pela Anatel, não foi dos piores. Os ágios pagos para a concessão por 15 anos, prorrogáveis por mais 15, das quatro faixas nacionais de 4G - não incluindo 269 faixas regionais - variaram entre 5% e 66,61%, ficando o ágio médio em 35,59%, proporcionando ao governo uma receita de R$ 2,565 bilhões. Como se esperava, as concessões foram feitas às quatro maiores empresas de telefonia no País - Claro, Vivo, TIM e Oi. Como a tecnologia de terceira geração (3G) ainda deixa muito a desejar no País, há muitas dúvidas quanto à capacidade de as empresas vencedoras satisfazerem - com serviços de qualidade - a demanda de 4G no prazo previsto, o que exigirá pesados investimentos. Parece irrealista a previsão do Ministério das Comunicações de que o leilão 4G proporcionará cobertura adequada para os grandes eventos esportivos programados para os próximos anos.
A Claro e a Vivo venceram, respectivamente, as disputas pelo primeiro e o segundo lotes, ficando com as duas faixas de frequência de 2,5 gigahertz (GHz), com maior capacidade, e as duas restantes, com espectro de menor envergadura, foram para a TIM e a Oi. O presidente da Anatel, João Batista de Rezende, estima que os investimentos das operadoras devem variar entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões até 2018 para implantar a rede que dará suporte à 4G e à telefonia rural. Em comunicado divulgado depois do leilão, a Claro informou que, já tendo capacitado toda a sua rede para a conexão 3G, pretende investir R$ 3,5 bilhões ainda este ano na nova tecnologia.
O cronograma é bastante apertado. As cidades onde serão realizados os jogos da Copa das Confederações deverão ter cobertura 4G até 30 de abril do ano que vem. Em antecipação à Copa do Mundo de 2014, todas as sedes e subsedes - ainda não definidas - dos jogos devem contar com o serviço até dezembro de 2013. Quanto às regiões rurais, o prazo vai até 2015 e, como não houve interesse por essas áreas, elas foram distribuídas entre as vencedoras. As empresas também tiveram de oferecer internet em escolas públicas com velocidade de download de 256 kilobytes por segundo (kbps).
Isso acarreta aumento de custos, e o mercado tende a evoluir lentamente. A faixa de 2,5 GHz permite grande capacidade de transmissão de dados, embora a cobertura da antena seja menor. As empresas terão, portanto, de instalar antenas a distâncias menores, o que exigirá entendimentos às vezes demorados com municípios e governos estaduais, que têm normas a esse respeito. Isso depende, naturalmente, da popularização da tecnologia 4G, com maior uso de aparelhos caros, como smartphones, modems e tablets, ainda pouco acessíveis a grande parte da população brasileira.
Com os pés no chão, o presidente da consultoria Teleco, Eduardo Tude, avalia que a velocidade média de 4G no Brasil possa ficar entre 5 megabytes por segundo (Mbps) e 12 Mbps, muito mais rápida do que a 3G (entre 1 e 2 Mbps). Falando ao jornal O Globo, porém, Tude ressaltou que o serviço deve levar alguns anos para atingir um nível adequado por causa do preço, não só dos aparelhos, mas também dos planos das operadoras, mais caros que os praticados na 3G. Para ele, a 4G no começo deve servir, basicamente, a profissionais que dependem da internet móvel rápida para o trabalho, dispostos a pagar alto preço pelo serviço.
O maior obstáculo, porém, é a exigência de conteúdo nacional de 60% dos bens, produtos e equipamentos que constituirão a infraestrutura da 4G, sendo 10% de tecnologia nacional. Essa proporção vale para o período entre 2012 e 2014, subindo para 70% entre 2017 e 2022. Isso deve significar custos bastante elevados, principalmente no período inicial de implantação da 4G. Além disso, a medida é contestada no plano internacional. Os governos dos EUA e países da União Europeia (UE) já se pronunciaram na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra essa exigência, alegando tratar-se de uma barreira ilegal ao comércio no setor de telecomunicações.
O longo e o curto prazo podem se reconciliar - MARCO ANTONIO ROCHA
O Estado de S.Paulo - 18/06
O que vale mais, o longo prazo ou o curto prazo?
"No longo prazo todos estaremos mortos" - frase repetida por dezenas de economistas, depois que John Maynard Keynes a inscreveu no prefácio de seu livro Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda, de 1935. Numa interpretação rombuda, ela sugeriria que deixemos de pensar ou nos preocupar com o longo prazo e cuidemos do que é imediato.
O problema é que o curto prazo atropela e cria problemas para o longo prazo, podendo até inviabilizá-lo - como também repetem dezenas de economistas. A história dos elefantes é famosa: de repente a atividade humana começou a ter grande necessidade de marfim, que se valorizou enormemente. O atendimento imediato dessa necessidade lançou centenas de caçadores atrás do animal, cuja espécie quase foi extinta, exigindo de governos e instituições mundiais enérgicas medidas de proteção e cerceamento do abate - ou seja, uma política de longo prazo para corrigir defeitos (e efeitos) do curto prazo.
Outro caso famoso foi o das baleias. A descoberta de que o óleo de baleia purificado propiciava excelente iluminação (embora um pouco mal cheirosa) nos palácios e salões da Europa incentivou a frenética matança dos bichos só amenizada quando os derivados do petróleo e o gás entraram nos lampiões. Hoje, as baleias ainda precisam de proteção porque há povos que apreciam sua carne.
Enfim, é essa a questão: a pressa de atender às necessidades contra a necessidade de preservar a sustentabilidade.
A Rio+20 é a nova tentativa de estabelecer compromissos políticos nacionais de longo prazo para corrigir defeitos que foram provocados pelo curto prazo - e evitar novos.
Disse muito bem a presidente Dilma que não podemos, em razão de problemas e crises do dia a dia, deixar de lado os cuidados e prevenções quanto ao futuro. Não usou essas palavras, mas acho que foi esse o sentido do que disse no discurso de abertura da conferência.
E a advertência era oportuna porque logo se viu que uma das principais resoluções que a Rio+20 deveria (ou deverá) tomar, para melhorar o longo prazo, esbarra num problema de curto prazo. A proposta de criação de um fundo internacional de US$ 30 bilhões por ano para financiar e desenvolver atividades economicamente sustentáveis encontra resistências porque os países desenvolvidos - principalmente a Europa e os EUA - reclamam que já estão desembolsando busilhões, como diz o vulgo, para salvar da falência bancos encalacrados.
É mais um pretexto, pois os países ricos já os vinham procurando para descartar a ideia de criação desse fundo antes mesmo da crise dos bancos e governos. E alegavam que a maior parte do dinheiro tinha que sair dos cofres deles. E daí? O Banco Central Europeu não acaba de colocar 100 bilhões (equivalentes a US$ 126 bilhões) a serviço da salvação apenas dos bancos espanhóis? - 4,2 vezes mais do que a proposta de criação do fundo ecológico.
Sem falar que o Banco da Inglaterra e o Tesouro inglês também anunciaram um plano de 100 bilhões de libras (US$ 155 bilhões) para combater os efeitos da crise, isto é, resgatar bancos da falência.
Mas, desde a semana passada, um outro óbice de caráter imediatista à criação do fundo de salvamento do planeta foi colocado na mesa de discussões: as eleições parlamentares na Grécia, pois temia-se ou teme-se que o seu resultado determine a saída do país da zona do euro, com todas as consequências tenebrosas que isso alegadamente traria para a economia mundial, especialmente a europeia.
De qualquer forma, as duas coisas, a criação do fundo ecológico e a salvação do euro, não precisariam dar trombada, com uma anulando ou inviabilizando a outra. A imediata criação do fundo é importante porque é um farol que ilumina o futuro do meio ambiente no planeta e gera expectativas de que ele pode ser melhorado. Traz confiança.
Qualquer raciocínio inteligente mostra que o desembolso para o fundo não precisa ser imediato, nem pode ser. O que precisa de imediatismo é o "tutu" para a salvação do euro. Assim, como diz o brasileiro esperto, cada coisa é uma coisa - e não precisam caminhar simultâneas. Dá para criar já o fundo e continuar salvando o euro.
Em todo caso, as duas políticas - a de longo prazo e a de curto prazo - podem ter alguma resposta inteligente nessa semana, se é que os atuais líderes dos negócios mundiais são capazes de laivos de inteligência.
Hoje, em Los Cabos (no México), os países do G-20 começam uma reunião (deve terminar amanhã) que objetiva articular um firme compromisso entre eles de usarem todos os meios possíveis para "salvaguardar a integridade da zona do euro", como reportava Assis Moreira, de Genebra, para o jornal Valor, na última sexta-feira.
E nos dois últimos dias da Rio+20, ainda nesta semana, uma cúpula de chefes de Estado presentes deverá dar a sua aprovação ao documento final da reunião, e a torcida dos ambientalistas é de que no documento conste o aval dos cabeças coroadas à criação do fundo (coisa que parece difícil, mas pode acontecer).
De qualquer forma, é uma rara oportunidade para o longo e o curto prazo se apoiarem.
A China perene e pós-moderna - CANDIDO MENDES
FOLHA DE SP - 18/06
Não se queira, na vertigem da mudança, buscar, na China de hoje, a memória da revolução cultural ou das jornadas heroicas de 1949
Demorará, em tempos de multiculturalismo, imaginar-se, finalmente, um vis-à-vis entre o Ocidente e a China, a partir da chegada do subcontinente ao mundo contemporâneo.
Este não é o ponto de remate a partir do qual se poderia falar em coexistências da modernidade, e esse, na mesma medida em que o Império do Meio, manteria o seu tempo social, e não o nivelamento a uma mesma civilização do consumo.
Megalópoles como Pequim ou Xangai estão em permanente metamorfose, num jogo de escalas de seus edifícios e da mudança do seu skyline, a desorbitar das alturas clássicas de Nova York ou Chicago.
Nem se queira, na vertigem dessa mudança, buscar, na China de hoje, a memória da revolução cultural ou das jornadas heroicas de 1949. Tal como não se procure lideranças carismáticas no que é a decisão, tão sensível quanto anônima, da política pública chinesa.
O carisma fica como uma construção definitiva e pedagógica desta memória, que bane as lembranças de Zhou Enlai e Deng Xiaoping, para concentrar-se na onipresença de Mao Tse-tung, tratado, invariavelmente, de "chairman Mao" pelas novas gerações.
Nem se procurem equivalências do nosso desenvolvimento sustentável na política em que a nova prosperidade chinesa trabalha os contrapontos entre as dimensões política, social, econômica ou cultural da mudança.
A democracia se contrapõe ao deslanche conjunto da mobilidade coletiva e cultural, na enormidade acelerada da urbanização e na ruptura de toda inércia de suas periferias pela vida cultural.
São 250 milhões de chineses que, anualmente, frequentam os museus do país. A universidade absorve, hoje, 25% de um mesmo grupo etário. Mas, sobretudo, a China tem consciência da densidade da sua comunicação na quase complacência com que cita a "barbárie" das línguas ocidentais.
Mal nos damos conta do que representa, para a dita civilização do meio, o que seja traduzir os idiomas do Ocidente ou, sobretudo, garantir às ditas culturas do progresso a riqueza do sentido da expressão chinesa, a mudança de sua expressão pelos fonemas e a multiversão, que permite na intelecção o seu recado. Tal para não se adicionar o culto da caligrafia num plus da expressão de cada um.
O universo chinês pode prescindir de toda transcendência, buscar a realização de valores numa ética ou numa prudência de princípio contra todos os extremos, a que responde o confucionismo. Quer encontrar no meio do caminho a regra de toda a convivência ou de uma visão de mundo que já neutralizou todos os excessos e acolhe, de vez, com a toda a tolerância, os extremos e arroubos das jovens culturas ocidentais.
Não se queira, na vertigem da mudança, buscar, na China de hoje, a memória da revolução cultural ou das jornadas heroicas de 1949
Demorará, em tempos de multiculturalismo, imaginar-se, finalmente, um vis-à-vis entre o Ocidente e a China, a partir da chegada do subcontinente ao mundo contemporâneo.
Este não é o ponto de remate a partir do qual se poderia falar em coexistências da modernidade, e esse, na mesma medida em que o Império do Meio, manteria o seu tempo social, e não o nivelamento a uma mesma civilização do consumo.
Megalópoles como Pequim ou Xangai estão em permanente metamorfose, num jogo de escalas de seus edifícios e da mudança do seu skyline, a desorbitar das alturas clássicas de Nova York ou Chicago.
Nem se queira, na vertigem dessa mudança, buscar, na China de hoje, a memória da revolução cultural ou das jornadas heroicas de 1949. Tal como não se procure lideranças carismáticas no que é a decisão, tão sensível quanto anônima, da política pública chinesa.
O carisma fica como uma construção definitiva e pedagógica desta memória, que bane as lembranças de Zhou Enlai e Deng Xiaoping, para concentrar-se na onipresença de Mao Tse-tung, tratado, invariavelmente, de "chairman Mao" pelas novas gerações.
Nem se procurem equivalências do nosso desenvolvimento sustentável na política em que a nova prosperidade chinesa trabalha os contrapontos entre as dimensões política, social, econômica ou cultural da mudança.
A democracia se contrapõe ao deslanche conjunto da mobilidade coletiva e cultural, na enormidade acelerada da urbanização e na ruptura de toda inércia de suas periferias pela vida cultural.
São 250 milhões de chineses que, anualmente, frequentam os museus do país. A universidade absorve, hoje, 25% de um mesmo grupo etário. Mas, sobretudo, a China tem consciência da densidade da sua comunicação na quase complacência com que cita a "barbárie" das línguas ocidentais.
Mal nos damos conta do que representa, para a dita civilização do meio, o que seja traduzir os idiomas do Ocidente ou, sobretudo, garantir às ditas culturas do progresso a riqueza do sentido da expressão chinesa, a mudança de sua expressão pelos fonemas e a multiversão, que permite na intelecção o seu recado. Tal para não se adicionar o culto da caligrafia num plus da expressão de cada um.
O universo chinês pode prescindir de toda transcendência, buscar a realização de valores numa ética ou numa prudência de princípio contra todos os extremos, a que responde o confucionismo. Quer encontrar no meio do caminho a regra de toda a convivência ou de uma visão de mundo que já neutralizou todos os excessos e acolhe, de vez, com a toda a tolerância, os extremos e arroubos das jovens culturas ocidentais.
Rio+20: Onde estão as montadoras? - MARLI OLMOS
Valor Econômico - 18/06
Tem sido cada vez mais frequente ver a indústria automobilística engajada na causa ambiental, com planos consistentes para tornar o automóvel cada vez mais limpo. Já faz alguns anos, inclusive, que os slogans dos salões de veículos em todo o mundo são inspirados na batalha do setor em busca de energias alternativas. Os fabricantes de veículos parecem à vontade para tratar o tema quando estão em seus próprios fóruns. Mas seus representantes praticamente desaparecem quando a discussão se amplia para um universo de debates tão global e tão diversificado como a Conferência das Nações Unidas.
É fácil notar a ausência das montadoras em qualquer dos espaços dedicados a debates na Rio+20. Uma das exceções será uma apresentação, amanhã, do vice-presidente mundial da Nissan, Toshiaki Otani, responsável pela área de veículos elétricos e emissão zero da montadora japonesa, em um dos fóruns dedicados ao setor privado.
Até sexta-feira, dia do encerramento da conferência, diversos outros grupos vão, no entanto, debater os problemas da mobilidade nos centros urbanos, o desafio de encontrar formas de reduzir o nível de emissões de CO2 e as alternativas para o transporte. Essas discussões não contam, no entanto, com representantes da indústria automotiva, que teriam muito a contribuir.
Setor está ausente dos debates sobre mobilidade e poluição
Ontem mesmo, o debate sobre cidades sustentáveis e energias renováveis, durante o fórum de sustentabilidade corporativa, seria uma das boas oportunidades de a indústria automobilística ter dividido seus planos com outros agentes da iniciativa privada, interessados em compartilhar experiências. Talvez por isso as palestras conduzidas por representantes da indústria de eletricidade e de planejamento urbano tenham tratado o automóvel de forma vaga.
Não se pode, no entanto, numa análise sobre a ausência da indústria automobilística na Rio + 20, fazer injustiça com a BMW. Na contramão da postura das demais empresas do setor, a marca alemã trouxe para a Conferência das Nações Unidas executivos da Alemanha graduados no desenvolvimento de energias alternativas. Eles passaram o fim de semana por conta de apresentações sobre os planos de desenvolvimento do carro do futuro e dos resultados de pesquisas com consumidores que experimentaram automóveis elétricos em seu estande, de 400 metros quadrados, instalado no Parque dos Atletas.
Fora isso, a presença do setor é bastante tímida. A Volkswagen também montou estande no Parque dos Atletas, defronte ao Riocentro, com suas soluções para reduzir emissões e consumo. Nessa área, formada por pavilhões com exposições da iniciativa privada e de representantes governamentais, também podem ser vistos os ônibus híbridos da Volvo, que a Prefeitura de Curitiba adotou para o transporte público. Mas, em geral, os executivos dessas empresas não se envolveram com o evento.
A modesta presença dos estandes no parque e a quase total ausência nas salas de debates da conferência revelam, em boa parte, que a indústria automobilística participa da Rio+20 como se estivesse numa exposição.
E, apesar de a BMW se mostrar mais participativa, ainda que tenha sido por meio de palestras limitadas à imprensa, as novidades que seus executivos trouxeram para o Rio de Janeiro pouco servem para o consumidor brasileiro. A experiência dos carros elétricos e híbridos que a montadora exibe no Rio ficará, por enquanto, quase que totalmente limitada aos mercados onde os governos calculam as taxas de impostos de acordo com o consumo e emissões do veículo. Ou seja, nos países mais alinhados com a causa ambiental, onde recolhe menos imposto o carro que polui menos e gasta pouco.
O Brasil ainda não adotou essa cultura. É justamente no carro elétrico que incide a mais alta carga tributária, já que o modelo de tributação do país é feito com base no motor a combustão e esse tipo de veículo teria que ser importado, por enquanto. Depois da intervenção do governo para elevar o IPI dos importados, os tributos num veículo desse tipo chegam hoje a 125%.
Como o automóvel é tradicionalmente apontado como um dos vilões do aquecimento global, é bem provável que a indústria automobilística tenha preferido adotar uma postura mais discreta para sequer ser notada num fórum mais heterogêneo, como a Rio+20.
É quase certo, porém, que, logo que a conferência terminar os fabricantes de veículos voltarão à toda carga para exibir seus planos para ajudar a salvar o planeta. Em outubro, eles certamente retomarão o tema, e farão muita propaganda dele, no salão do automóvel de São Paulo, a principal feira do setor no Brasil. Protegidas, em seu território, as montadoras provavelmente se sentem mais à vontade para falar com o público que mais lhes interessa: o consumidor que enlouquece com as novidades que essa indústria lhes oferece. E pelas quais ele quase sempre se endivida.
É fácil notar a ausência das montadoras em qualquer dos espaços dedicados a debates na Rio+20. Uma das exceções será uma apresentação, amanhã, do vice-presidente mundial da Nissan, Toshiaki Otani, responsável pela área de veículos elétricos e emissão zero da montadora japonesa, em um dos fóruns dedicados ao setor privado.
Até sexta-feira, dia do encerramento da conferência, diversos outros grupos vão, no entanto, debater os problemas da mobilidade nos centros urbanos, o desafio de encontrar formas de reduzir o nível de emissões de CO2 e as alternativas para o transporte. Essas discussões não contam, no entanto, com representantes da indústria automotiva, que teriam muito a contribuir.
Setor está ausente dos debates sobre mobilidade e poluição
Ontem mesmo, o debate sobre cidades sustentáveis e energias renováveis, durante o fórum de sustentabilidade corporativa, seria uma das boas oportunidades de a indústria automobilística ter dividido seus planos com outros agentes da iniciativa privada, interessados em compartilhar experiências. Talvez por isso as palestras conduzidas por representantes da indústria de eletricidade e de planejamento urbano tenham tratado o automóvel de forma vaga.
Não se pode, no entanto, numa análise sobre a ausência da indústria automobilística na Rio + 20, fazer injustiça com a BMW. Na contramão da postura das demais empresas do setor, a marca alemã trouxe para a Conferência das Nações Unidas executivos da Alemanha graduados no desenvolvimento de energias alternativas. Eles passaram o fim de semana por conta de apresentações sobre os planos de desenvolvimento do carro do futuro e dos resultados de pesquisas com consumidores que experimentaram automóveis elétricos em seu estande, de 400 metros quadrados, instalado no Parque dos Atletas.
Fora isso, a presença do setor é bastante tímida. A Volkswagen também montou estande no Parque dos Atletas, defronte ao Riocentro, com suas soluções para reduzir emissões e consumo. Nessa área, formada por pavilhões com exposições da iniciativa privada e de representantes governamentais, também podem ser vistos os ônibus híbridos da Volvo, que a Prefeitura de Curitiba adotou para o transporte público. Mas, em geral, os executivos dessas empresas não se envolveram com o evento.
A modesta presença dos estandes no parque e a quase total ausência nas salas de debates da conferência revelam, em boa parte, que a indústria automobilística participa da Rio+20 como se estivesse numa exposição.
E, apesar de a BMW se mostrar mais participativa, ainda que tenha sido por meio de palestras limitadas à imprensa, as novidades que seus executivos trouxeram para o Rio de Janeiro pouco servem para o consumidor brasileiro. A experiência dos carros elétricos e híbridos que a montadora exibe no Rio ficará, por enquanto, quase que totalmente limitada aos mercados onde os governos calculam as taxas de impostos de acordo com o consumo e emissões do veículo. Ou seja, nos países mais alinhados com a causa ambiental, onde recolhe menos imposto o carro que polui menos e gasta pouco.
O Brasil ainda não adotou essa cultura. É justamente no carro elétrico que incide a mais alta carga tributária, já que o modelo de tributação do país é feito com base no motor a combustão e esse tipo de veículo teria que ser importado, por enquanto. Depois da intervenção do governo para elevar o IPI dos importados, os tributos num veículo desse tipo chegam hoje a 125%.
Como o automóvel é tradicionalmente apontado como um dos vilões do aquecimento global, é bem provável que a indústria automobilística tenha preferido adotar uma postura mais discreta para sequer ser notada num fórum mais heterogêneo, como a Rio+20.
É quase certo, porém, que, logo que a conferência terminar os fabricantes de veículos voltarão à toda carga para exibir seus planos para ajudar a salvar o planeta. Em outubro, eles certamente retomarão o tema, e farão muita propaganda dele, no salão do automóvel de São Paulo, a principal feira do setor no Brasil. Protegidas, em seu território, as montadoras provavelmente se sentem mais à vontade para falar com o público que mais lhes interessa: o consumidor que enlouquece com as novidades que essa indústria lhes oferece. E pelas quais ele quase sempre se endivida.
Recado em prosa - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 18/06
RIO DE JANEIRO - Se estivesse vivo -e, nesse caso, estaria com 85 anos-, Tom Jobim teria sido recebido com clarins nos salões do Riocentro, na abertura da conferência Rio+20. Não por ser o autor de "Corcovado", "Chovendo na Roseira", "Águas de Março", "Borzeguim", "O Boto" e muitos outros sambas que celebram a conservação da natureza. Ou não apenas por isso. Mas por ser um porta-voz da ecologia, desde a época em que, no Brasil, essa palavra tinha de ser procurada no dicionário.
Na maioria das entrevistas que concedeu, Tom sempre denunciou a destruição da mata e da fauna, a contaminação dos rios, lagoas e baías, o envenenamento do ar e a descaracterização das cidades pelo automóvel e pela política de terra arrasada da especulação imobiliária. Era quase uma ideia fixa, mais até do que a música -sobre a qual, aliás, pouco falava para jornalistas.
De repente, entre duas frases, Tom desfiava os nomes das diversas espécies de urubu. Ou se queixava:
"Outro dia fui ao mato piar um inhambu, e o que saiu de trás da moita foi um Volkswagen". Ou, como num passeio que fiz com ele pelo Central
Park, em Nova York, em 1989 -parecia saber identificar pelo nome cada passarinho americano. Mas a paixão pelo Brasil é que era sua seiva criativa: "Toda a minha obra é inspirada na mata atlântica".
Conto isso para contrastar com a brutalidade com que Tom era visto nas redações em que trabalhei, no Rio e em SP, durante os anos 70 e boa parte dos 80. Era visto como um chato. "Ih, lá vem de novo o Tom Jobim com aquela mania de ecologia." Ou, diante de minhas repetidas sugestões de uma entrevista com ele, para uma revista que se orgulhava de suas entrevistas: "Não! Tom Jobim é a coisa mais rançosa que existe!".
Ainda não percebíamos que ele estava dando em prosa o mesmo recado que dava nas canções.
RIO DE JANEIRO - Se estivesse vivo -e, nesse caso, estaria com 85 anos-, Tom Jobim teria sido recebido com clarins nos salões do Riocentro, na abertura da conferência Rio+20. Não por ser o autor de "Corcovado", "Chovendo na Roseira", "Águas de Março", "Borzeguim", "O Boto" e muitos outros sambas que celebram a conservação da natureza. Ou não apenas por isso. Mas por ser um porta-voz da ecologia, desde a época em que, no Brasil, essa palavra tinha de ser procurada no dicionário.
Na maioria das entrevistas que concedeu, Tom sempre denunciou a destruição da mata e da fauna, a contaminação dos rios, lagoas e baías, o envenenamento do ar e a descaracterização das cidades pelo automóvel e pela política de terra arrasada da especulação imobiliária. Era quase uma ideia fixa, mais até do que a música -sobre a qual, aliás, pouco falava para jornalistas.
De repente, entre duas frases, Tom desfiava os nomes das diversas espécies de urubu. Ou se queixava:
"Outro dia fui ao mato piar um inhambu, e o que saiu de trás da moita foi um Volkswagen". Ou, como num passeio que fiz com ele pelo Central
Park, em Nova York, em 1989 -parecia saber identificar pelo nome cada passarinho americano. Mas a paixão pelo Brasil é que era sua seiva criativa: "Toda a minha obra é inspirada na mata atlântica".
Conto isso para contrastar com a brutalidade com que Tom era visto nas redações em que trabalhei, no Rio e em SP, durante os anos 70 e boa parte dos 80. Era visto como um chato. "Ih, lá vem de novo o Tom Jobim com aquela mania de ecologia." Ou, diante de minhas repetidas sugestões de uma entrevista com ele, para uma revista que se orgulhava de suas entrevistas: "Não! Tom Jobim é a coisa mais rançosa que existe!".
Ainda não percebíamos que ele estava dando em prosa o mesmo recado que dava nas canções.
A lógica da ministra - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O ESTADÃO - 18/06
A CGU deve ter analisado o comportamento futuro da Delta, não a sua atuação passada
A controladoria-Geral da União(CGU) declarou a construtora Delta inidônea. A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, afirma que essa inidoneidade é "para novas contratações", de modo que a declaração da CGU é "irrelevante" para os contratos que a companhia já tem com o governo. Pela lógica da ministra, pois, a CGU deve ter analisado o comportamento futuro da Delta, não a sua atuação passada. Mas como teria adivinhado que a Delta teria no futuro um comportamento inidôneo?
Na natureza, os fenômenos se repetem, sempre se sabe como vai ser. Com os humanos, essa estranha parte da natureza, a gente só consegue imaginar o que vão fazer examinando o comportamento passado ou o atual.
Ou seja, se não cometeu nenhuma injustiça, a CGU está dizendo que a Delta não pode ter novo negócio com o governo - não, pelo menos, com um governo sério-porque se comportou mal nos negócios passados e atuais. O que condena todos os contratos, certo?
Não em Brasília. Além dos comentários da ministra, a CPI decidiu na semana passada que não precisa convocar para depor o dono da Delta, Fernando Cavendish. A CPI é para investigar as articulações do grupo de Cachoeira, cuja investigação exibiu várias participações da Delta.
Podem ter sido participações legais, claro, mas podem ter sido fraudulentas - para isso mesmo existe a CPI. E os depoimentos. Mas a maioria governista na CPI pensou como a ministra:a Comissão trata de fatos já ocorridos e a Delta é inidônea só daqui em diante.
Contra o etanol. Na Rio 92, o governo brasileiro encontrou a melhor maneira de fazer propaganda de uma energia renovável bem nacional: os carros oferecidos às autoridades eram todos movidos a etanol. Funcionou.
De lá para cá, a tecnologia do etanol também funcionou. Tudo melhorou. A produção de cana tornou-se mais eficiente e sustentável, inclusive com a progressiva eliminação do penoso corte manual, as usinas são mais produtivas, o etanol gera mais energia, sendo, pois, mais econômico, e, ponto forte, o motor flex é um marco tecnológico. Também se começou a produzir energia a partir do bagaço da cana, processo duplamente sustentável. O Brasil tornou-se exportador de todo esse complexo.
Mas na Rio+20, nem a presidente Dilma vai de carro a álcool. Ainda na quinta-feira, a presidente defendeu o etanol brasileiro, mas o fato é que isso está em baixa no Brasil, e não é de hoje.
Boa parte dos ambientalistas, locais e estrangeiros, não gosta do etanol brasileiro. Há três broncas principais: a cana vem da Amazônia desmatada; é produzida com trabalho escravo; e reduz a produção de alimento.
Vamos supor que fosse verdade para toda a produção brasileira, atual e antiga. Mesmo assim, o etanol continuaria sendo energia verde e renovável. Melhor que gasolina, por exemplo. Ou seja, o problema estaria no modo de produção, que sempre pode ser corrigido e melhorado, do que no produto. E, de todo modo, deveria ser condenado apenas o etanol produzido na Amazônia e com trabalho escravo.
Mas as broncas não têm fundamento. Não aquelas, pelo menos. Começa que a maior parte desse negócio está no Estado de São Paulo e em outras regiões muito distantes da Amazônia. As condições de trabalho na cana têm melhorado claramente. E não tem faltado açúcar.
Resumindo, o agronegócio brasileiro tem condições de produzir etanol e açúcar em condições mais do que razoáveis, em padrões internacionais. E a indústria pode entregar os carros flex.
Aqui aparece a verdadeira bronca. Tem muita gente que detesta o agronegócio- coisa de usineiro - e os carros. É pura ideologia anticapitalista. De um modo ou de outro, mesmo com a defesa explícita da presidente Dilma, o governo dela trabalha como se fosse para atrapalhar o etanol.
Em 2011, por exemplo, o consumo de combustível derivado de petróleo aumentou 19% no Brasil. O de etanol caiu 29%. Culpa do governo, que manteve estável o preço da gasolina e ainda reduziu o imposto (a Cide) para manter barato o litro na bomba. Ouso do etanol só é vantajoso quando for 70% do preço da gasolina. Mantido baixo o preço desta, o etanol também cai e deixa de ser rentável para o produtor. Cai a produção.
Na semana passada, a diretora gerente do FMI, Christine Lagarde, retomou a proposta de taxar a poluição. O produto gerado com maior emissão de carbono tem de ser mais caro. O custo ambiental precisa estar no preço, justamente para desestimular o uso.
O jeito mais simples de fazer isso é cobrar impostos sobre a emissão. Resumindo, a gasolina deveria ser super taxada e o etanol, totalmente isento. Há países que não têm alternativa à gasolina. Não há oferta suficiente de etanol e carros com esse combustível. Mas, o Brasil tem - e faz o contrário.
A bronca com os usineiros e os carros termina em consumo de gasolina e automóveis mais poluidores. Termina também com a importação do etanol de milho dos EUA-menos eficiente e menos sustentável que o brasileiro.
Vai ver que estão preparando a demanda para o petróleo do pré-sal. Mas se for isso, poderiam ao menos parar com essa falsa conversa ambiental. E mais: o mundo inteiro está pesquisando como produzir mais etanol, de diferentes fontes. O mundo demanda esse combustível. O Brasil está perdendo seu lugar nessa corrida tecnológica.
Na natureza, os fenômenos se repetem, sempre se sabe como vai ser. Com os humanos, essa estranha parte da natureza, a gente só consegue imaginar o que vão fazer examinando o comportamento passado ou o atual.
Ou seja, se não cometeu nenhuma injustiça, a CGU está dizendo que a Delta não pode ter novo negócio com o governo - não, pelo menos, com um governo sério-porque se comportou mal nos negócios passados e atuais. O que condena todos os contratos, certo?
Não em Brasília. Além dos comentários da ministra, a CPI decidiu na semana passada que não precisa convocar para depor o dono da Delta, Fernando Cavendish. A CPI é para investigar as articulações do grupo de Cachoeira, cuja investigação exibiu várias participações da Delta.
Podem ter sido participações legais, claro, mas podem ter sido fraudulentas - para isso mesmo existe a CPI. E os depoimentos. Mas a maioria governista na CPI pensou como a ministra:a Comissão trata de fatos já ocorridos e a Delta é inidônea só daqui em diante.
Contra o etanol. Na Rio 92, o governo brasileiro encontrou a melhor maneira de fazer propaganda de uma energia renovável bem nacional: os carros oferecidos às autoridades eram todos movidos a etanol. Funcionou.
De lá para cá, a tecnologia do etanol também funcionou. Tudo melhorou. A produção de cana tornou-se mais eficiente e sustentável, inclusive com a progressiva eliminação do penoso corte manual, as usinas são mais produtivas, o etanol gera mais energia, sendo, pois, mais econômico, e, ponto forte, o motor flex é um marco tecnológico. Também se começou a produzir energia a partir do bagaço da cana, processo duplamente sustentável. O Brasil tornou-se exportador de todo esse complexo.
Mas na Rio+20, nem a presidente Dilma vai de carro a álcool. Ainda na quinta-feira, a presidente defendeu o etanol brasileiro, mas o fato é que isso está em baixa no Brasil, e não é de hoje.
Boa parte dos ambientalistas, locais e estrangeiros, não gosta do etanol brasileiro. Há três broncas principais: a cana vem da Amazônia desmatada; é produzida com trabalho escravo; e reduz a produção de alimento.
Vamos supor que fosse verdade para toda a produção brasileira, atual e antiga. Mesmo assim, o etanol continuaria sendo energia verde e renovável. Melhor que gasolina, por exemplo. Ou seja, o problema estaria no modo de produção, que sempre pode ser corrigido e melhorado, do que no produto. E, de todo modo, deveria ser condenado apenas o etanol produzido na Amazônia e com trabalho escravo.
Mas as broncas não têm fundamento. Não aquelas, pelo menos. Começa que a maior parte desse negócio está no Estado de São Paulo e em outras regiões muito distantes da Amazônia. As condições de trabalho na cana têm melhorado claramente. E não tem faltado açúcar.
Resumindo, o agronegócio brasileiro tem condições de produzir etanol e açúcar em condições mais do que razoáveis, em padrões internacionais. E a indústria pode entregar os carros flex.
Aqui aparece a verdadeira bronca. Tem muita gente que detesta o agronegócio- coisa de usineiro - e os carros. É pura ideologia anticapitalista. De um modo ou de outro, mesmo com a defesa explícita da presidente Dilma, o governo dela trabalha como se fosse para atrapalhar o etanol.
Em 2011, por exemplo, o consumo de combustível derivado de petróleo aumentou 19% no Brasil. O de etanol caiu 29%. Culpa do governo, que manteve estável o preço da gasolina e ainda reduziu o imposto (a Cide) para manter barato o litro na bomba. Ouso do etanol só é vantajoso quando for 70% do preço da gasolina. Mantido baixo o preço desta, o etanol também cai e deixa de ser rentável para o produtor. Cai a produção.
Na semana passada, a diretora gerente do FMI, Christine Lagarde, retomou a proposta de taxar a poluição. O produto gerado com maior emissão de carbono tem de ser mais caro. O custo ambiental precisa estar no preço, justamente para desestimular o uso.
O jeito mais simples de fazer isso é cobrar impostos sobre a emissão. Resumindo, a gasolina deveria ser super taxada e o etanol, totalmente isento. Há países que não têm alternativa à gasolina. Não há oferta suficiente de etanol e carros com esse combustível. Mas, o Brasil tem - e faz o contrário.
A bronca com os usineiros e os carros termina em consumo de gasolina e automóveis mais poluidores. Termina também com a importação do etanol de milho dos EUA-menos eficiente e menos sustentável que o brasileiro.
Vai ver que estão preparando a demanda para o petróleo do pré-sal. Mas se for isso, poderiam ao menos parar com essa falsa conversa ambiental. E mais: o mundo inteiro está pesquisando como produzir mais etanol, de diferentes fontes. O mundo demanda esse combustível. O Brasil está perdendo seu lugar nessa corrida tecnológica.
Assinar:
Postagens (Atom)