domingo, maio 13, 2012

Lenha na fogueira - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 13/05/12

Responsável por analisar a Operação Vegas, a subprocuradora da República Cláudia Sampaio quebra o silêncio e responde à polêmica da suspensão das investigações, em 2009. Ela, que é mulher do procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, diz que ia arquivar o caso, "mas o doutor Raul foi categórico ao pedir para esperar, para não atrapalhar investigações em curso".

Raul Alexandre é o delegado da Polícia Federal que comandou a operação de 2009, que levou à Monte Carlo em 2010 e à prisão de Carlinhos Cachoeira. "Está claro que a Vegas era uma operação natimorta", disse a subprocuradora, por intermédio da assessoria da PGR.

Vazou A justificativa de Cláudia Sampaio para dizer que a Vegas era "natimorta" é que, segundo ela, se a operação tivesse continuado não iria levar a resultados concretos, uma vez que os policiais encarregados das investigações seriam do esquema.

Aí não As declarações da mulher de Gurgel irritaram a PF, que nega que o delegado tenha feito o pedido.

Outra versão À CPI, Raul Alexandre afirmou que, durante reunião, a subprocuradora alegou que não havia encontrado indícios suficientes do envolvimento do senador Demóstenes Torres (GO) com a organização criminosa para enviar o inquérito ao Supremo Tribunal Federal.

Linha cruzada Gilberto Kassab brinca com aliados que, por sorte, Demóstenes não teve seus telefones grampeados -só aparece nas escutas em conversas com outras pessoas monitoradas. "Passei seis meses ligando para convidá-lo para vir para o PSD", lembra o prefeito.

Bis Integrantes da CPI do Cachoeira já se preparam para votar, na quinta-feira, a reconvocação do acusado de contravenção. Avisados por Márcio Thomaz Bastos que Cachoeira deve se recusar a falar na terça, os parlamentares sabem que terão de chamá-lo de volta à comissão.

Boletim De um alto petista com trânsito na Venezuela: "O câncer de Chávez está mais para Gushiken do que para Lula". O ex-ministro Luiz Gushiken enfrentou câncer de estômago, teve recidivas e está internado. Lula se livrou do câncer de laringe e está sendo monitorado. Chávez teria câncer de reto.

Devagar... Integrantes do Supremo Tribunal Federal se queixam da demora do revisor do processo do mensalão, Ricardo Lewandowski, em concluir os trabalhos. Alegam que os demais ministros receberam o relatório de Joaquim Barbosa depois de Lewandowski e já têm prontos seus votos.

... quase parando Além disso, corre nos bastidores do STF que, se o julgamento não começar em junho, o ministro Cezar Peluso pode nem voltar para a corte após o recesso de julho, o que atrasaria ainda mais o processo. O ex-presidente do Supremo cai na aposentadoria compulsória em setembro.

Noivado O PT pretende apresentar no dia 2 um esboço do plano de governo de Fernando Haddad. À ocasião, o partido fará seu encontro municipal, que precede a convenção, prevista para o dia 30. Até o encontro petistas esperam desatar os nós para anunciar alianças com PR, PSB e PC do B.

Mantra O QG de Haddad captou, em sondagens qualitativas, que a expressão "apagão dos transportes", repetida pelo petista, "pegou". O tema será explorado à exaustão sobretudo diante da perspectiva de difícil solução rápida para panes nos trens e metrô.

Tiroteio
O DEM está agindo como o PSOL: sempre que fala precisa ter alguma frase de efeito para aparecer. Só assim mesmo para o partido de Onyx não sumir definitivamente.

DO LÍDER DO PT NA CÂMARA, JILMAR TATTO (SP), criticando o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) que, durante a reunião da CPI do Cachoeira, chamou o senador Humberto Costa (PT-PE) de sanguessuga.

Contraponto


Não custa sonhar
Durante ato em favor da PEC 438, que expropria terras de quem explora trabalho escravo, terça-feira passada, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Domingos Dutra (PT-MA), se atrapalhou no discurso:

-O governo Dilma apoia a PEC. Mas cabe lembrar que ela foi aprovada em primeiro turno em 2004, no governo do presidente Dutra!

Alertado pela plateia sobre a gafe, o petista emendou:

-Confundi com o Dutra do passado, mas quem sabe eu mesmo não serei presidente no futuro?

Braços abertos e um pé atrás - GILLES LAPOUGE

O Estado de S.Paulo - 13/05/12

Merkel diz que ficará feliz em receber o novo presidente socialista francês e concorda em trabalhar com uma agenda de crescimento, mas não abre mão do pacto de austeridade que Hollande quer renegociar



Há 15 dias, a chanceler alemã, Angela Merkel, recusava-se friamente a receber o adversário de Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas. Mas, após a vitória de François Hollande, Merkel rapidamente telefonou a ele para dizer como ficará feliz em recebê-lo "de braços abertos" em Berlim, no dia 16.

É compreensível que Merkel lamente a derrota de seu bravo Sarkozy: ele obedecia sem se melindrar a todas as ordens dela. Além disso, Sarkozy compartilhava a filosofia político-econômica da chanceler: liberalismo, liberalismo e mais liberalismo. E, para pôr na direção certa países "mal-educados", como a Grécia, Merkel e Sarkozy receitavam o mesmo remédio: rigor, rigor e mais rigor.

Enfim, Sarkozy desaparece e Hollande o substituirá no dia 15. Angela Merkel é realista. Portanto, vai receber Hollande "de braços abertos". Muito gentil. Aliás, vale notar que, no plano humano, aos olhos de Merkel Hollande tem alguns requisitos superiores em comparação com Sarkozy.

Para começar, Sarkozy, que é um sujeito emotivo, não consegue deixar de tocar no braço, no ombro ou no peito das pessoas que deseja convencer. No caso de Merkel, uma senhora luterana educada na Alemanha Oriental, essas mãos apalpando não agradam. Ela levou anos até se conformar.

Acrescente-se que Merkel e Hollande têm um ponto em comum: são adeptos de uma vida simples. Angela vai todos os sábados ao supermercado fazer compras. E François, até agora, fazia o mesmo. Certamente ela se sentirá mais à vontade com o "presidente banal" que Hollande pretende ser, do que com o "presidente bling-bling" (vulgar e ostentatório) que foi Sarkozy.

Em outros pontos, porém, a concordância entre a alemã e o francês será mais difícil. Hollande renegou o plano aplicado por Merkel e Sarkozy para salvar a Grécia e, indiretamente, o euro. Esse plano é de uma simplicidade absoluta: dar bilhões de euros à Grécia para salvá-la da falência, com a condição de que os gregos adotem uma austeridade desumana. É o "memorando", assinado por todos, incluindo a Grécia, em fevereiro.

O enfoque de Hollande é menos seco. Como muitos economistas, e constatando que os 380 bilhões fornecidos à Grécia se evaporaram deixando o país ainda mais demolido que há dois anos, Hollande acredita que não basta só austeridade. Ela precisa ser compensada com a retomada do crescimento.

As divergências não se limitam ao salvamento da Grécia. Elas derivam de duas filosofias. Hollande, embora não ponha em dúvida o capitalismo, pretende que ele não seja tão selvagem e submisso ao mercado, ao mundo das finanças. Por isso, para pilotar a zona do euro, as soluções de Merkel não são as mesmas de Hollande.

Em março, Merkel impôs aos 25 países europeus (menos a Grã-Bretanha, que é esperta) uma "regra de ouro", um "pacto orçamentário" que obriga os signatários a reequilibrar suas contas. Hollande disse que "renegociará" esse pacto, acrescentando uma vertente de crescimento. Merkel recusa-se a isso: "Não é negociável". Ela concorda em trabalhar com uma agenda de crescimento, mas não em "renegociar" o pacto firmado.

Com o agravamento da crise europeia (alcançando Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, Itália e Holanda), a modesta revolta de Hollande teve forte ressonância. Ele próprio parece ter ficado espantado. Grandes economistas, como Paul Krugman, do New York Times, e muitos outros, condenam o rigor extremo. Na Europa, cidadãos sacrificados pelos planos adotados por Merkel e Sarkozy se rebelam, levando seus países ao caos.

Toda a esquerda europeia, bem entendido, aprova François Hollande, mas também, o que é inédito, uma grande parte da direita. Mario Monti, primeiro-ministro italiano, que não é um homem de esquerda, denunciou o rigor. "É preciso ser mais flexível", afirmou. Assim, Hollande, sem o pretender, e de maneira surpreendente, vê-se encabeçando o grupo daqueles que querem afrouxar a coleira posta por Angela Merkel no pescoço dos 25 países que compõem a matilha europeia.

Membros do alto escalão de Bruxelas parecem contentes em ouvir outras vozes que não as de Merkel-Sarkozy. Por isso na quarta e quinta-feira Hollande recebeu dois pesos-pesados da União Europeia: o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, e o presidente da zona do euro, Jean-Claude Juncker (que detesta a chanceler alemã).

Mas hoje todas essas estratégias estão prejudicadas pela nova síncope da Grécia. O país, sem governo e sem dinheiro, sem nada exceto neonazistas e comunistas radicais, encontra-se no abismo. E nos próximos dias será preciso agir, se a intenção é evitar ou a saída de Atenas da zona do euro ou o caos, com risco de um golpe militar no país. François Hollande não podia chegar num momento pior. É verdade que ele só assume o governo no dia 15. Até lá, Sarkozy está no comando. É preciso agir rápido.

Toda a Europa está simpática a Hollande. O jornal espanhol El País afirma que ele "faz nascer uma outra Europa", o que é evidentemente falso. A capacidade de intervenção do novo presidente é ínfima. E, sobretudo, é preciso evitar que a austeridade mortal propugnada por Angela Merkel seja substituída por uma tolerância excessiva, negligência, resignação, que também são mortais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GOSTOSA


O diabo mora nos detalhes - SUZANA SINGER


FOLHA DE SP - 13/05/12


Eles não estão nas primeiras páginas nem ocupam muito espaço, mas podem provocar grandes dores de cabeça. São os "pequenos" erros, que atrapalham bastante a vida de quem usa o jornal no dia a dia.

No sábado retrasado, o caderno "Mercado" tentou ajudar o leitor a comparar investimentos, levando em conta as mudanças na poupança. Um quadro simulava diferentes aplicações para R$ 100 mil, considerando a taxa de juros atual e uma possível queda da Selic, além do impacto do Imposto de Renda.

Uma revisão atenta notaria que a nova poupança, considerando a Selic a 9%, não poderia render R$ 500 e a mesma aplicação, a 8,5%, R$ 516. Com uma calculadora, o planejador financeiro pessoal Alvaro Dias, 42, encontrou outros 13 erros. A tabela teve que ser publicada de novo na terça-feira passada.

Só contando nos dedos, o jornalista aposentado Vicente Pettinati Netto, 77, descobriu que faltava um número no resultado da Lotofácil no mês passado. "Não raro as correções são de coisas sem importância, e erros mais sérios passam em branco. Imagine se alguém deixar de receber um prêmio por culpa do jornal?", criticou.

O blogueiro Sérgio Beni Luftglas, 45, não perdeu uma fortuna, mas uns tantos reais -e tempo- por causa da Folha. No domingo, 15 de abril, saiu de casa depois de consultar a "revista sãopaulo" para assistir a "Guerra é Guerra", no Shopping Pátio Higienópolis (região central de SP). Parou no estacionamento, tomou um café e... descobriu que o filme não estava mais em cartaz. "Quando voltei para casa, fui olhar no guia do "Estadão" e lá estava certo", reclamou Luftglas.

Os erros em serviços parecem tão insignificantes que muitos relutam em apontá-los. O funcionário público aposentado Camilo Marcantonio, 71, de Monte Alto (interior de SP), ficou na dúvida sobre escrever para o ombudsman, porque, "diante de tantos erros que a Folha comete, o que aponto é nada".

Marcantonio tinha se esquecido de reajustar o salário de sua empregada doméstica. Na seção Faça suas Contas, de "Mercado", viu que o salário mínimo em São Paulo era de R$ 690 em março. "Não tive dúvida. Pedi desculpas pela falha e paguei-lhe a diferença", conta. No dia seguinte, voltou a "Mercado" e encontrou um novo valor (R$ 622). Mais uns dias e... o salário mínimo tinha voltado a R$ 690. Graças a ele, descobriu-se que a tabela já tinha saído com erro quatro vezes. "Se corrigiu, já está bom", conforma-se.

O jornal é que não pode se acomodar. Se não há checadores, poderia ser criado algum tipo de conferência por amostragem, voltada para a parte de serviço (indicadores econômicos, roteiros de lazer, quadro de fusos horários etc).

Aos leitores, peço que não desistam de alertar a Redação: pode ser no ombudsman@uol.com.br ou clicando no ícone "comunicar erro", que aparece no alto de todos os textos da Folha.com.

É obrigatório, na Folha, retificar qualquer incorreção. Não importa se foi manchete ou se estava em letras miúdas perdida no meio de uma tabela. Afinal, o diabo mora nos detalhes.

A IMPRENSA E CACHOEIRA

Muita opinião -e pouca informação- atrapalham a discussão sobre a mídia no caso Cachoeira. Os depoimentos fechados na CPI só pioram a guerra de versões. Quem acha que a imprensa deve ser questionada é "petista querendo cercear o jornalismo". Quem não vê o "conluio entre o bicheiro e a maior revista do país" está vendido para os "barões da mídia". Pobre leitor que não desistiu desse noticiário.

Inflação como solução - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 13/05/12


Cresce entre economistas influentes a ideia de que a saída da crise global exigirá boa dose de inflação. Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia em 2008, é desses que cobram mais ação do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) e do Banco Central Europeu - o que, na prática, significa aumentar emissões de moeda.

A proposta faz algum sentido, mas cria problemas. Mais emissões de moeda e, logo, inflação, traria a vantagem de diluir dívidas. Traria certo alívio tanto para países com altos rombos fiscais - sobretudo Estados Unidos e a maior parte do euro - como para famílias excessivamente endividadas.

Como os impostos são, na sua grande maioria, cobrados sobre preços, mais inflação (ou seja, preços mais altos) também elevaria a arrecadação. Assim, contribuiria para a melhora das finanças públicas, à medida que governos pagariam os mesmos salários para funcionários públicos, os mesmos benefícios para aposentados e os mesmos seguros-desemprego para a legião dos sem-trabalho.

E aí entramos em outra vantagem que seria assegurada pelo aumento da inflação. A alta de preços poderia executar a tarefa que o câmbio desvalorizado não é mais capaz de executar na zona do euro, onde não há moedas nacionais a desvalorizar. Trata-se de reduzir renda em termos reais para baixar os custos de produção.

Cabe aqui explicação. Quando os custos disparam e o setor produtivo perde competitividade, o sistema se ajusta pela queda de salários e pelo aumento do desemprego. O instrumento de política econômica mais adequado para isso não é o achatamento de salários e de preços; é a desvalorização cambial. Trata-se de subir em moeda local o preço da moeda estrangeira. Como isso só funciona em economias dotadas de moeda própria, o único modo de derrubar renda, salários e aposentadoria na área do euro é impor sacrifícios e colocar em marcha reformas dolorosas. Uma inflação mais alentada do que a atual, de 1% a 2% ao ano, também geraria efeito parecido, por achatar o poder de compra do consumidor.

Outro efeito pretendido: ao provocar juros negativos e reduzir o retorno das aplicações financeiras, a inflação também estimularia o consumo e, assim, a retomada da atividade produtiva.

Mas seria jogo de alto risco. Um processo inflacionário induzido por opção de política econômica poderia esvaziar a poupança privada, como ficou dito, e, posteriormente, prejudicar o investimento.

Os juros negativos também levariam à deterioração do patrimônio de fundos de pensão e das reservas técnicas das seguradoras. Depois, os fundos de pensão poderiam não ter condições técnicas de pagar as aposentadorias esperadas. E as seguradoras poderiam não cobrir eventuais sinistros garantidos nas apólices.

E, finalmente, um processo inflacionário é relativamente fácil de ser iniciado. Difícil é impedir que o ribeirão se torne um rio e que o rio vire mar de moeda. A história da economia está cheia de casos de hiperinflação, todos eles dolorosos e de sérios desdobramentos políticos.

Fatalidades e voluntarismos - PEDRO MALAN


O Estado de S.Paulo - 13/05/12


"A austeridade não é uma fatalidade", disse o novo presidente da França no dia de sua vitória, domingo passado. Os gregos, que votaram nesse mesmo dia, parecem estar de acordo, assim como muitos outros europeus. A frase de efeito de François Hollande não é incorreta, mas precisa ser situada no contexto do drama em que se debate a Europa desde 2007. Com particular intensidade desde que, há exatos dois anos, os ministros da Fazenda europeus viraram o segundo fim de semana de maio acertando a forma de evitar um então iminente calote grego, e o efeito contágio que isso teria sobre outros países da região - e sobre seus bancos.

Os gregos antigos entendiam de tragédias e as expressavam em seus poemas épicos por meio de belas metáforas, Na Ilíada, o herói atacava uma cidade que sabia que não conseguiria conquistar; e a cidade se defendia valorosamente, sabendo que ao final seria derrotada. Uma pessoa culta como Hollande talvez estivesse querendo dizer, metaforicamente, que as coisas não precisam acontecer porque os deuses dos gregos antigos assim haviam decidido. E que nossa vida e nosso futuro estão em nossas mãos - como sempre estiveram. Nesse sentido, é correto dizer que a austeridade, como muitas outras coisas na vida, não é uma fatalidade.

Mas a frase de Hollande, já como presidente eleito, expressou de forma sintética o sentimento de milhões de europeus. E deu renovado alento a um falso dilema, mais uma genérica dicotomia entre os defensores da "austeridade" e seus antípodas, os defensores do "crescimento", como se essa fosse a fundamental, óbvia - e fácil - opção europeia.

Afinal, por que alguém preferiria sofrer as agruras da "austeridade" quando poderia, livremente, escolher maior crescimento, renda e emprego, votando em quem se proponha a trazê-los de volta - pela força de sua vontade e capacidade para tal empreitada?

A propósito, Linhas de Falha, o belo livro de Raghuram Rajan, teve sua edição brasileira lançada na semana passada. Vale citar o trecho a seguir. "Governos democráticos não são programados para pensar em ações que têm custos a curto prazo, mas que produzem ganhos a longo prazo - que é o típico padrão de retorno de qualquer investimento. Que por vezes governos façam estes investimentos é uma consequência ou de uma liderança incomumente corajosa ou de um eleitorado que compreende os custos de adiar escolhas difíceis. Liderança corajosa é coisa rara. Mas também é raro um eleitorado informado e comprometido, porque os próprios especialistas são muito confusos... o debate não leva a um consenso, os moderados dentre o eleitorado não sabem bem no que acreditar, e o resultado é que as escolhas de políticas seguem o caminho de menor desconforto - até que a situação se torne insustentável".

Mas, como diz adiante o autor, "as democracias são necessariamente generosas, enquanto que os mercados e a natureza não são". E nas inevitáveis respostas a situações que se tornam insustentáveis, muitos governos podem atingir os limites de suas capacidades (de tributar, de gastar, de se endividar, de reformar, de gerir, de investir), ficando tentados a seguir cursos indesejáveis de ação. Enquanto os políticos hesitam em empreender ações dolorosas, mas necessárias, para colocar a economia no rumo apropriado para o crescimento de longo prazo, os problemas se agravam e se tornam mais difíceis de resolver. Como diz Rajan, "mais anos à deriva" levarão ao aumento dos encargos da dívida pública, a mais direitos (ou expectativas de direitos) frustrados ou inacessíveis e a um crescente número de desfavorecidos.

Devo dizer que estou dentre os inúmeros admiradores da "construção europeia" após a 2.ª Guerra Mundial. O que os europeus investiram nesse processo, ao longo de mais de 60 anos, permite certa confiança de que serão capazes, ainda que a elevados custos, de se erguer à altura dos enormes desafios atuais. Porque as lideranças políticas, econômicas e culturais europeias sabem o que está em jogo. E, apesar de seu conturbado processo decisório, deverão fazer o necessário.

O necessário hoje, a meu ver, já está acontecendo. Esse debate sobre "austeridade versus crescimento", quando assim generalizado, é um falso debate. Porém mesmo novas lideranças políticas comprometidas com (e eleitas para) fazer "whatever it takes" (o que quer que seja necessário) para retomar o crescimento sabem, e muito bem, que esta retomada, em muitos países (inclusive na França), não pode ser realizada por meio do aumento adicional dos seus já elevados déficits fiscais anuais e de seus não menos elevados estoques de dívida pública. Na verdade, para muitos países é fundamental reduzi-los, e não apenas não aumentá-los.

A discussão econômica séria hoje na Europa não é sobre se há ou não necessidade de ajustes fiscais. É sobre a possibilidade de recalibrá-los de maneira crível e factível (numa perspectiva de médio prazo) para que a necessária redução dos déficits e dos estoques de dívida seja menos intensamente concentrada nos primeiros anos e, portanto, não tenha efeitos muito negativos sobre o crescimento. Isso é possível e, em alguns casos, necessário. Mas a agenda do crescimento europeu, como a nossa, transcende de muito essa questão.

Por certo, há limites para a austeridade, que podem ser de natureza econômica ou político-social, e que sempre dependem do contexto específico de cada país. Mas também é verdade que há limites para o crescimento, que são ou deveriam ser conhecidos. Governos não decidem, por meio de atos de vontade política, quais serão as taxas de crescimento futuro de uma economia - só os ingênuos, ou arrogantes, pensam assim.

Em resumo, há limites para austeridade, há limites para o crescimento e há limites para o voluntarismo. Nenhum deles é uma fatalidade. Ainda bem.

Na terra e no cais - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 13/05/12
Domingo passado, fui andar com historiadores pelo Cais do Valongo, pelo antigo mercado de escravos e pelo Cemitério dos Pretos Novos. Revisitar a História que aflora no Rio impressiona. A brutalidade do sistema escravagista é maior do que temos em mente. Um milhão de escravos desembarcaram na cidade. Os saudáveis eram levados para o mercado do Valongo; os que morriam nos primeiros dias, jogados num terreno.
O Centro do Rio está todo sendo escavado para a reforma do porto, e foi assim que encontraram o famoso Cais do Valongo, principal porta de entrada de escravos no Brasil. Do Rio, eram distribuídos para a mineração, as plantações de café e usinas de açúcar.

Da caminhada, fiz um programa para a Globonews junto com o jornalista Cláudio Renato. Conversei com o historiador Cláudio de Paula Honorato, autor de dissertação de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF) sobre o que acontecia com os que chegavam saudáveis, a venda no mercado; e com Júlio César Medeiros, autor de um livro, fruto do seu mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o título "À flor da terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro". É possível ver, no buraco aberto no chão, misturados à terra, arcadas dentárias, ossos, pedaços de crânios.

- Um viajante que esteve aqui entre 1812 e 1824, Freyress, escreveu que os escravos que morriam não eram sepultados, mas jogados "à flor da terra". Qualquer chuva descobria os corpos. Eram descartados uma vez por semana. De vez em quando eram queimados, e os ossos, quebrados, para caber mais - disse Júlio.

Essa forma de descarte trazia uma dor para além da vida. Pela cultura africana, o rito de passagem e o sepultamento eram a garantia de que aquela pessoa iria se encontrar com seus ancestrais. Sem ritual e insepultos estavam condenados à solidão eterna, pela explicação de Júlio Cesar.

Havia uma dúvida sobre se era possível ter tantos corpos num lugar pequeno, mas as escavações mostraram que só no pequeno espaço da Rua Pedro Ernesto, debaixo daquela casa, é que foram encontrados ossos. Júlio chegou a um número espantoso do período que ele estudou. Os registros provaram que ali foram jogados entre os anos de 1826 e 1830 exatos 6.122 corpos de recém-chegados. Eram chamados "novos" porque nunca tinham sido "usados". Eram "coisas novas". Não tinham nome, porque não chegaram a ter donos. Morriam pelas condições precárias da viagem. Há cemitérios de escravos em outras partes, mas aquele é único porque só tem africano, recém-chegado. Pode ser fonte de análise de DNA para se saber mais sobre de onde vieram.

Ela tem um nome grande, Ana Maria de la Merced G. G. G. dos Anjos. Maior ainda, a sua tarefa: ter dentro de sua casa um dos mais preciosos sítios arqueológicos da escravidão brasileira. Sua vida foi revirada depois desse achado. A obra foi paralisada, e houve um tempo de curiosidade jornalística. Depois da confirmação arqueológica vieram alguns historiadores, como Júlio. Mas só em 2011, uma década e meia depois, é que se organizou o espaço com um memorial e uma pequena sala de palestras. Dona Merced abria sua casa à visitação para os poucos curiosos dessa história aflorada no chão da casa. O setor público não ajudava e ainda ameaçava de expropriação. Não sabe agora se será renovado o convênio que considera o local "ponto de cultura". Se não for renovado, acaba o pequeno subsídio para a manutenção do local.

Ela se emociona, guarda tudo com carinho, cedeu parte da sua casa para preservação e sonha com mais proteção através do instituto que criou, sem fins lucrativos.

- A sensação que eu tenho é que fui escolhida para proteger isso. Não entendo por quê, me sinto fraca para a missão, mas protejo. Aqui estão restos de muita gente, muitas delas, crianças. Aqui está um pedaço da história de um crime contra a humanidade - diz.

O que mais espanta Cláudio Honorato, que estudou o mercado, é como toda a história foi esquecida. Está, como diz, em teses que vão pegando poeira nas universidades. Durante muito tempo acreditou-se no mito de que tudo havia sido queimado por Ruy Barbosa, quando ele destruiu os documentos fiscais para impedir que os donos de escravos pedissem indenização após a abolição. A historiadora americana Mary Karasch, nos anos 1980, faz parte da nova onda de busca de documentos em outros arquivos. As escavações abrem nova frente de trabalho.

Cláudio Honorato conta que o mercado ocupou mais do que a atual Rua Camerino, segundo a descrição do Marquês de Lavradio, o vice-rei. Há ainda casarões daquela época em pé. Neles, as famílias viviam no segundo andar, e embaixo havia galpões onde eles estavam expostos para a venda. Charles Brand, um viajante, relatou que num desses viu 300 crianças.

- Em alguns navios, o total de crianças podia chegar a 60% do total - disse Honorato.

No Rio, a História do Brasil está à flor da terra, e as escavações têm revelado preciosidades. Que sejam preservadas. Visitar a História é a melhor forma de entender o presente e mudar o futuro.

A VAGABUNDA E O CORRUPTO CAGÃO


Sem novidade e com novidade - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 13/05/12


A CPI limitou-se a ouvir o que está nos relatórios que deveria ler. Mas à sua volta as coisas se complicam mais



Tudo o que foi dito pelos delegados federais Raul Marques de Souza e Matheus Rodrigues, como primeiros depoentes na CPI do Cachoeira, já estava à disposição dos congressistas nos relatórios e documentos legíveis na sala contígua à comissão.

Sem utilidade para a CPI, apesar disso os dois depoimentos foram a única atividade objetiva da comissão no decorrer da semana. A utilidade foi para os meios de comunicação, embora esperassem mais, e para os contrários ao inquérito.

Nem as intenções de vingança, aproveitando a CPI, andaram bem. A acusação dos dois delegados, sempre repetindo seus relatórios, ao procurador-geral da República, desdobrou-se em pequeno bate-boca iniciado pelo próprio Roberto Gurgel. Futuro acusador no julgamento do mensalão, o procurador-geral atribuiu a acusação e o desejo do PT de convocá-lo ao "medo dos mensaleiros". Ou seja, ao propósito de intimidá-lo, ou algo por aí.

Puxada pelo PT, a CPI aprovou requerimento para convocação de Gurgel. Mas veio logo o sinal de que sua recusa a depor tem defensores no Supremo Tribunal Federal. E é o STF que decidirá se o procurador-geral tem ou não que depor.

A outra discussão colateral é em torno de convocação do jornalista Policarpo Junior, de "Veja". Indicações da Polícia Federal apontam pessoas ligadas a Cachoeira como fontes do jornalista, para reportagens da revista contrárias aos governos de Lula e de Dilma. Não há relato de conduta ilegal do jornalista, mas o PT e suas mágoas nem desistem nem optam pela convocação: discutem, sim ou não. Ao menos o relator Odair Cunha, petista porém mineiro, não a incluiu na sua programação de depoimentos.

Mas nem discussões há sobre a convocação que deveria existir desde o primeiro momento. Muitos poucos falam nela. É a convocação de quem deponha sobre a Delta Construções. Não só o seu "ex-dono", Fernando Cavendish. Também os demais diretores, todos, e o pessoal de cálculo, de orçamento, de relações com os clientes, seus engenheiros. É fundamental saber que relação, afinal de contas, Cachoeira tem com a Delta e Fernando Cavendish, e como operaram. Daí tende a vir muita coisa.

Mas não só esse aspecto interessa. A Delta teve um crescimento anormal e em poucos anos, explicado por conhecedores da sua área como fruto de truques de licitação e por multiplicação bem azeitada dos valores no correr da obra. Para clientes sempre oficiais, de diferentes instâncias e setores governamentais. Dinheiro público, portanto.

A pretexto de não interromper obras da Delta para diferentes governos, foi feita de repente, na última semana, uma venda da empresa, tão interessante que repassa bilhões sem custar centavos.

Pode ser uma cobertura para a não identificada relação de Cachoeira com a Delta, ou com Cavendish, ou com ambos. Pode ser proteção para a fortuna que a Delta lhes tenha dado. Pode ser muita coisa. E, vendida, a Delta assumiria ares de empresa séria e deixaria de estar sob acusações e inquéritos.

A CPI limitou-se a ouvir o que está nos relatórios que deveria ler. CPI da preguiça e do tempo inútil. Mas, para equilibrar o jogo, à sua volta as coisas ficam mais complicadas. E não estão escritas nem faladas: há que buscá-las ou desmoralizar-se, por complacência com Cachoeira, Cavendish, Delta e associados.

Só o governo salva o PIB - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 13/05/12


Não há mais dúvida, a economia está desacelerando. E não faltam indicadores para confirmar esse fato. Entre eles, o resultado da balança comercial até abril. Não é apenas o recuo das exportações, queda de 8%, mas das importações, menos 3,1%. Não se trata apenas de saldo da balança comercial, de superávit menor - que está sendo compensado pelos investimentos -, mas de evidente desaceleração da atividade econômica.

O Brasil está importando menos porque está crescendo menos.

Foi o dólar? E também não é apenas o efeito da valorização do dólar, pois a queda das importações não é recente. Vem registrando recuos no correr do trimestre. Estamos importando menos de tudo, bens de consumo, máquinas e equipamentos, matéria-prima e produtos intermediários.

Mas não é bom? Não seria este um sinal de que estamos produzindo aqui o que antes comprávamos lá fora? Não é bem assim porque as indústrias - que fazem essa produção - também estão importando menos matérias-primas e produtos intermediários. Desacelera apesar de os consumidores estarem comprando 11% menos bens de consumo importados.

O IBGE divulgou na sexta-feira que a produção industrial recuou 3,0% no trimestre, só em São Paulo, 6,2%. Veículos pesaram sim, mas pesou também, o que é importante, a produção de bens de capital, máquinas e bens de consumo. Sinais de que não há intenção de aumentar a produção a curto e médio prazos. "O que se observa no momento é um ambiente predominantemente negativo", diz o gerente de coordenação do IBGE, André Luiz Macedo. O instituto confirmou também que o emprego na indústria recuou 0,4% em março, pelo sexto mês consecutivo, 0,8% no trimestre e 1,2% em 12 meses.

Não deu certo. Tudo isso indica que as medidas de estímulo adotadas pelo governo após o forte arrocho para conter a inflação, não foram suficientes. Agora, o PIB pode ficar em menos de 3,0%. Se havia alguma dúvida, aí está o alerta extremo das importações de bens de consumo. Não há como esperar mais do aumento da renda das famílias com os ganhos salariais puxados pelo salário-mínimo. Eles (os ganhos) estão sendo atenuados pelo endividamento, o aumento da inadimplência, a falta de crédito a juros compatíveis com a renda e menos confiança na ação do governo. Parece claro que o impacto do aumento do consumo da classe C foi em parte absorvido e não será suficiente para reanimar a demanda global e o PIB.

Mais ação. A presidente pediu agora ação à equipe econômica, com possível rodada de desoneração tributária para a indústria. Já havia pedido isso antes. A segunda fase do Plano Brasil Maior, recebeu reação tímida do setor, que enfrenta outros problemas. Prevê-se agora uma terceira rodada com mais crédito, maior injeção de liquidez no mercado, juros menores. Mas não se resolveu ainda a questão do financiamento de longo prazo, base de investimentos de maior alcance.

Falta mais. Não se deve esperar, porém, reação imediata do setor privado. Há duas semanas, a presidente parece ter se conscientizado de que só mais investimentos do governo pode alterar esse cenário pouco animador. Dilma convocou seus ministros - não apenas os econômicos, que sempre são favoráveis a apertos - a reativarem os programas de obras e investimentos que estão travados ou caminham lentamente. Há um exemplo marcante da importância do governo, neste momento. Um dos únicos setores que ainda está crescendo é o da construção civil por causa do Programa Minha Casa, Minha Vida. O programa liberou, só este ano, R$ 5,1 bilhões bem acima do R$ 1,1 bilhão de igual período do ano anterior. Até 2014, serão RS$ 70 bilhões. Um dos resultados é que o emprego no setor de construção aumentou 18,8% no trimestre. Isso além dos efeitos positivos em outros setores que vão desde cimento, alumínio e aço até moveis e eletrodomésticos. Mas é porque estes setores não sofrem competição das importações. Tudo é feito aqui.... Não é porque houve investimento direto do governo.

Tem dinheiro. E o governo pode investir porque a receita aumentou 13,8% no primeiro trimestre em relação a igual período do ano passado e as liberações com obras apenas 3,3%, até fevereiro, quase toda concentrada no plano habitacional. Há muitos, dezenas de projetos que se arrastam ou ficaram parados como portos, rodovia (há quantos anos mesmo?)e saneamento. Um desafio para a presidente e seus ministros resolverem. Sem isso, não haverá mais crescimento este ano.

De volta para o passado - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 13/05/12


É possível que nos tempos de Pedro II o bordão português fosse expressão de compromisso com a verdade: palavra de rei não volta atrás. Foi com o propósito de ver cumprida sua palavra que o generoso imperador, nos idos de 1877, ante a devastadora seca que assolava o Nordeste, proclamou a sentença que viria a abrir o dicionário de promessas para a região: "Não restará uma única joia na coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome". Ao que se sabe, não faltou nenhuma joia na coroa do imperador...

Milhares de nordestinos não resistiram à inclemência das grandes secas que assolaram o semiárido ao correr do século 20 (a de 1915 foi devastadora). E hoje, se não morrem mais de fome, passam muitas necessidades, a começar da falta de água nas torneiras de suas casas. Nos últimos tempos o crônico problema emergiu sob manchetes que dão conta da pior seca em 30 anos - no caso da Bahia, a mais grave em 47 anos -, situação que ressuscita as agruras do passado, simbolizadas por caminhões-pipa levando água para 600 cidades, filas de pessoas com balde na mão, lavouras dizimadas, carcaças de animais nas terras esturricadas, pequenos rebanhos desfilando uma estética da fome.

Os danos começam a atacar o bolso e o estômago: a mão de milho, com 50 espigas, subiu de R$ 8 para R$ 15, o quilo de feijão, de R$ 3 para R$ 6,20. O fato é que o efeito da seca já se faz sentir na economia nordestina, a denotar que os padrões da vida moderna e os bilhões despejados por governantes em obras de serventia duvidosa não conseguem preencher as demandas das populações. Com o celular pregado ao ouvido enquanto espera a vez de pegar água na mangueira do caminhão-pipa, o moço de bermuda mais parece um insólito retrato da extravagância. Afinal, aquele aparelho de cores berrantes e som estridente destoa da cena que lembra a saga do passado, tão bem descrita por trovadores e imortalizada pelo cancioneiro maior do Nordeste, o de Luiz Gonzaga, ao puxar o lamento: "Quando a lama virou pedra/ e mandacaru secou,/ quando o Ribaçã de sede/ bateu asa e voou,/ foi aí que eu vim me embora/ carregando a minha dor".

O povo já não vai embora porque há um colchão social para atenuar as dores de quem vê a lama virar pedra. Dos 13 milhões de famílias que recebem Bolsa-Família, a concentração maior é no sertão do Nordeste, onde 70% são assistidos pelo programa. Isso explica o contraste que se vê naquela fila da água: um traço do Brasil tecnológico, simbolizado pelo celular, ao qual 164 milhões de brasileiros têm acesso; e o desenho do País das grandes carências, dentre as quais a de água, que deixou de pingar nas torneiras de 85% dos municípios da região.

Como contemplar a moldura desconjuntada sem achar que nossa posição de sexta economia do mundo deixa transparecer um tecido roto, a imagem de um queijo suíço, cheio de furos? Às imagens entrelaçadas de passado e presente se soma o acervo verborrágico sobre a seca, pleno de promessas, feitos e realizações. Compreende-se a razão: a água, oxigênio da vida, oxigena também ambições políticas. Transforma-se em discurso para as massas assoladas por sua escassez. Pratica-se, em seu entorno, o jogo político, um recheio de promessas vãs embalado no pacote de mazelas da cultura regional. A cada seca se expande a galeria de governantes autonomeados artífices da redenção do povo. A "solução" encontrada por todos eles, desde os tempos do imperador, tem sido a construção de pequenos e médios reservatórios. Políticas consistentes passam ao largo.

Na campanha presidencial de 1950, Getúlio Vargas, ao discursar no Ceará, lembrava que seu governo, em menos de 15 anos (de 1930 a 1944), conseguira aumentar a capacidade de acumulação de água no Nordeste, de 630 milhões para 2 bilhões de m3, com a construção de 225 açudes. Gastara 15 milhões de cruzeiros. Juscelino Kubitschek, ao assumir a Presidência, em 1956, garantiu no discurso de posse: "Esta é a última seca que assola o Nordeste". A garantia do presidente que inaugurou a barragem do Açude de Orós, na época o maior do País, evaporou-se como a água dos reservatórios. No ciclo da ditadura militar, o tratamento seguiu os trâmites ortodoxos: estado de calamidade pública nos municípios afetados e abertura de crédito extraordinário. A era FHC fechou os olhos ao fenômeno, que acontece com intervalos próximos a dez anos. Iniciou um tímido programa de alistamento para uma bolsa de emergência. O então presidente referiu-se poucas vezes à seca. "O povo do Nordeste e do norte de Minas deve encarar a seca, criando condições de enfrentamento no qual o cidadão será o vencedor", dizia.

O período de Lula abriu esperanças. Os nordestinos imaginavam que um filho da região arrumaria a ideia para contornar o flagelo. Sacou ele de seu bornal a obra de transposição do Rio São Francisco, com a qual prometeu combater "a indústria da seca". Hoje, trechos estão paralisados. Obras feitas, e abandonadas, se degradam. O desânimo se instala. Ademais, apenas 4% da água desviada pelos canais deverá ser usada para consumo humano, enquanto 70% seguirá para irrigação em grandes projetos de exportação e 26%, para uso industrial. Sob esse acervo de projetos inacabados, ausência de visão sistêmica, carência de continuidade, interesses conflituosos entre Estados, expande-se a primeira grande seca do século 21.

À guisa de conclusão: e agora, presidente Dilma, o que fazer para a região conviver, de maneira harmoniosa, com o fenômeno? Por que regiões áridas do mundo acharam a solução para seu pleno desenvolvimento, como áreas dos EUA, de Israel (Deserto de Neguev), do México, do Peru, do Chile e do Senegal? Como integrar a moto, o celular, o óculos ray-ban, a quinquilharia made in China à paisagem real do País? Como dizer ao sertanejo Manoel e a sua mulher, Rosa, personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, do genial Glauber Rocha, que eles não participam do filme De Volta para o Futuro?

Relevantes e irrelevantes - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 13/05/12

Depois de passar outra tarde inteira estudando e escrevendo num banco duro da Biblioteca Britânica, Karl Marx teria dito que um dia a burguesia ainda lamentaria as suas hemorroidas. Marx foi o melhor exemplo da sua própria exortação aos filósofos, a de que era preciso mudar o mundo em vez de apenas entendê-lo, e teria mais razão do que a maioria dos intelectuais para achar que seu trabalho tinha consequência, ou que suas hemorroidas não tinham sido em vão. Outro intelectual do século dezenove, Sigmund Freud também poderia reivindicar a mesma pertinência para o seu trabalho duro, e a mesma influência na história humana, mas enquanto hoje ainda se ouvem alguns lamentos pelas hemorroidas do Marx – ou pelo menos se discute se o mundo teria sido o mesmo com ou sem ele, ou com ou sem elas –, a relevância histórica de Freud é pouca.

Antes que freudianos me mordam explico que a importância de Freud, como pioneiro e teórico, ainda é imensa e que suas teses e terapias, mesmo as que hoje estão ultrapassadas, afetaram a história pessoal de muita gente. Mas a História com maiúscula, a história da humanidade como “case” de neurose coletiva, não tomou conhecimento da inversão freudiana da exortação marxista, a de que era preciso reinterpretar o mundo para poder entendê-lo, e mudá-lo. Nenhumas das descobertas de Freud sobre o inconsciente e o comportamento neurótico, sobre o homem movido por impulsos que mal conhece, teve o mesmo impacto da ideia marxista do homem econômico, entregue a leis históricas que mal domina. Nem impacto social nem intelectual, pois fora algumas tentativas de juntar Marx e Freud numa explicação só – num pobre homem atacado por fora pelo determinismo econômico e por dentro por ele mesmo – e uma ou outra iniciativa de interpretar a história psicanaliticamente, como fez Norman O. Brown num livro hoje esquecido, a investigação da humanidade como candidata a um divã não prosperou. Que eu saiba. E basta olhar em volta para ver quanta coisa Freud ao menos explicaria, mesmo que não mudasse.

Quanto às hemorroidas citadas por Marx, são um símbolo da pretensão de todos nós a fazer alguma diferença com o que escrevemos. É insuportável saber que o único efeito de passar tanto tempo neste computador no mundo real seja uma possível tendinite. 

O procurador-geral fabricou uma crise - ELIO GASPARI


O GLOBO - 13/05/12

Numa época em que surgiu o ofício de "gerenciador de crise", o procurador-geral Roberto Gurgel se tornou um fabricante de encrenca. O doutor sobrestou a Operação Vegas da Polícia Federal, que expunha relações do senador Demóstenes Torres com Carlinhos Cachoeira durante três anos. Em março, quando outra investigação detonou a quadrilha, Gurgel representou ao STF contra o senador. Conhecem-se duas explicações de sua conduta. Uma, apresentada numa nota oficial, informa que ele "optou por sobrestar o caso, como estratégia para evitar que fossem reveladas outras investigações". Noutra, contada pelo delegado que chefiou a Vegas, a subprocuradora-geral Claudia Sampaio (casada com Gurgel) disse-lhe que não foram encontrados elementos suficientes para a abertura de um processo. Diante das cobranças para que se explique melhor, Gurgel tumultuou o debate: tudo seria coisa de "pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão". Há gente com medo do desfecho do mensalão, é até possível que essas pessoas queiram azucriná-lo, mas a questão continua do mesmo tamanho: ele segurou a Operação Vegas. Pode tê-lo feito pelos melhores motivos, mas suas explicações ainda não satisfazem quem queira entendê-los. Em sua representação de 2012, Gurgel valeu-se de 22 gravações que estavam no inquérito que recebeu em 2009. O doutor não quer ir à CPI e tanto o ministro Joaquim Barbosa como seu contemporâneo Gilmar Mendes, do STF, dão-lhe razão.

Quando uma CPI é instalada, começa a funcionar um filtro subjetivo que destaca aqueles que não querem depor ou se movem para bloquear depoimentos. Por exemplo: o PT não quer que o governador Agnelo Queiroz vá à CPI, já o PSDB, não quer que chamem o governador Marconi Perillo e o PMDB quer evitar a convocação de Sérgio Cabral. Gurgel não faz parte desse plantel, mas decidiu juntar-se a ele.

A CPI de Cachoeira difere de todas as outras, que começaram com perguntas para desembocar em inquéritos. Ela começou com um inquérito, onde estão quase todas as respostas. Até agora, o que se vê é uma teologia da blindagem para evitar novas perguntas. Felizmente, a couraça da quadrilha de Cachoeira foi furada pela Polícia Federal com seus grampos.

D. Renan

O senador Renan Calheiros não tem assento na CPI do Cachoeira, mas destacados membros da Comissão têm assento na antessala de seu gabinete.

Quem o viu em 2007, quando renunciou à presidência do Senado no meio de um escândalo onde não faltava um empreiteiro, pode constatar o efeito rejuvenescedor do poder.

Nova tática

O comissariado do Planalto achou que podia deixar a CPI do Cachoeira andar sozinha. Achava que teria pouco a temer, além do pescoço de Agnelo Queiroz.

Em uma semana e com o surgimento da Operação Delta-JBS (leia-se JBS-BNDES-Delta), decidiu organizar sua tropa.

Novo tempo

Em julho de 2003, a taxa básica de juros estava em 26,5%, nos cheques especiais ia a 142,2% e os 50 maiores bancos lucraram R$ 5,7 bilhões, enquanto as 150 maiores empresas industriais conseguiram R$ 3 bilhões.

Abriu-se uma discussão em torno dos juros e dos spreads bancários. O Banco Central saiu em defesa da banca com uma cartilha de 27 páginas, explicando que nada havia de estranho naqueles números. Era o livre mercado em funcionamento.

Mudou o Brasil, e o Banco Central conseguiu ficar independente. Não sai mais em defesa dos banqueiros.

O BC destruiria a carta de Caminha

O doutor Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, sustenta que as posições individuais dos membros do Comitê de Política Monetária, que decide a taxa de juros Selic, devem ficar em segredo.

Tem toda razão. Se as atas do Copom derem nome aos bois, os diretores do BC sofrerão pressões impertinentes.

Bem outra coisa é manter sob sigilo eterno essas discussões. Desde 1976, as reuniões do Copom americano são gravadas e, desde 1994, são divulgadas, respeitando-se um embargo de cinco anos.

Sigilo é uma coisa, inimputabilidade é outra. O que se busca com o silêncio do Copom é a inimputabilidade dos diretores do BC. Os doutores são mais secretos que os generais do Alto Comando do Exército durante os dez primeiros anos da ditadura. Até 1974, suas reuniões eram gravadas. A partir de então, o general Sylvio Frota mandou que a máquina fosse desligada quando as discussões não tratassem de assuntos militares.

Graças a esse gravador, conhecem-se as atas da anarquia militar de 1969, quando os generais discutiam a sucessão do presidente Costa e Silva. Se o Banco Central tivesse gravado as reuniões de 1998, a choldra conheceria a anarquia financeira do colapso do populismo cambial tucano.

El Rey D. Manuel considerava secretos os mapas e documentos das navegações. Se a coroa portuguesa trabalhasse com as regras do BC, a carta de Caminha teria sido destruída.

Cavalos e a banca

De um conhecedor de cavalos e de banqueiros:

"A Febraban disse que ''você pode levar um cavalo para a beira de um rio, mas não pode obrigá-lo a beber água''. De cavalos eles não entendem. Se você salgar a aveia, o bicho beberá a água. Prova disso é que, no dia seguinte, diante da irritação do governo, retrataram-se. Dilma Rousseff salgou-lhes a ração."

Tremenda história

Está nas livrarias "No Jardim das Feras - Intriga e Sedução na Alemanha de Hitler", do americano Erik Larson. É boa leitura, sobretudo numa época de crise econômica com surtos xenófobos, quando uma parte do mundo extasia-se com uma potência econômica que faz grandes obras de infraestrutura e mantém o povo quieto.

O jardim de Larson é a Berlim de 1933, com suas noites feéricas. As feras tinham tomado o poder. No meio disso tudo, o presidente Roosevelt jogou, como seu embaixador, o historiador William Dodd, um homem frugal que pretendia usar o tempo para escrever mais um livro. Junto, veio sua filha Martha, bonita, namoradeira e frívola.

Primeiro o Larson mostra como a vida seguia, com boas festas e, achava-se, alguns excessos. A metamorfose de Dodd, a ponto de se tornar um estorvo para os nazistas e para o Departamento de Estado, com sua bancada pragmática e antissemita, é contada magnificamente. Quando parece ser impossível que semelhante enredo contenha mais surpresas, Larson conta a história de Martha e de sua amiga Mildred, guilhotinada em 1943. Ela morreu em 1990, aos 82 anos.

Privataria petista

O repórter André Borges informa que, no escurinho do cinema, o comissariado do Planalto prepara a prorrogação das concessões de 1.482 quilômetros de rodovias entregues pelo tucanato a seis empresas, entre 1994 e 1997.

A prorrogação de concessões envolve, necessariamente, um acerto em relação ao contrato original. Às vezes, esse acerto é feito por dentro, às vezes, é feito por fora.

Nus na cachoeira, pelados de ideias - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 13/05/12


No momento em que política econômica vira do avesso, políticos se dedicam quase apenas a mumunhas para salvar amigos desclassificados



O CONGRESSO APITA pouco sobre economia. Não é novidade. Mal mexe no Orçamento, ao qual quase apenas emenda verbas para bases eleitorais da deputação.

A política econômica, então, é um universo paralelo. Além de estar muita vez fora da alçada legal do Congresso, as providências econômicas escapam do entendimento intelectual dos parlamentares, cada vez mais toscos e omissos, uma tigrada.

A ausência do Congresso fica ainda mais notável em momentos como este, em que a política econômica vai sendo como que virada do avesso ao mesmo tempo em que outra vez a gente enxerga as entranhas mais revoltantes da política politiqueira, o caso de Cachoeira & turma, e as mumunhas que antecedem o julgamento do mensalão.

Sim, o Congresso legisla sobre impostos, divisões de royalties, aumentos de funcionários etc., aprecia as medidas provisórias que definem muito da política econômica.

Mas, no melhor dos casos, quanto a gastos e impostos, dedica-se a dividir o butim federativo. No comum dos casos, pendura nas leis contrabandos que favorecem interesses muito privados.

Não devia ser tanto assim.

Política econômica é, enfim, política, e nem política os políticos fazem a respeito. Não se espera outra coisa do PT e da coalizão de peemedebês aboletada no governo, que, enfim, são governistas, embora pudessem demonstrar um pouco de vergonha na cara e altivez) em relação aos decretos do Executivo. Mas quede a oposição?

Está tão dedicada a manobras e mutretas quanto o petismo-peemedebismo, ambos mergulhados na tarefa de livrar a cara dos desclassificados piores pegos nus na cachoeira ou na mensalagem.

Além de ínfima, inoperante e dedicada a críticas de um oportunismo mesquinho e oligofrênico, a oposição, diga-se logo o PSDB, ainda se finge de morta diante de casos como o desse notório deputado Lereia, declarado "amigo pessoal" desse Cachoeira, ou do enroladíssimo Marconi Perillo, governador de Goiás.

É degradante: portanto talvez condizente mesmo com a atitude de gente que tolerou o mensalão mineiro de Eduardo Azeredo, para ficar numa história mais conhecida.

Parece, pois, tolice ingênua esperar que essa gente pequena se organize para debater economia ou qualquer coisa, criticar Dilma, chamar notáveis para pensar alternativas.

Vez e outra, alguns dos melhores pensadores tucanos se encontram no Instituto FHC. Mas debates assim são, em termos políticos, quase clandestinos, para poucos.

Se não fosse tanta a preguiça, a burrice e a falta de imaginação, o PSDB poderia juntar seu quadros pensantes restantes e fazer barulho na mídia, suscitar algum debate sério, mas politicamente relevante e audível. Debate: não essas idiotices sobre "meter a mão no bolso do povo" (como a "crítica" à mexida na poupança"). Mas quede?

Uma lei para o Banco Central - SUELY CALDAS


O Estado de S.Paulo - 13/05/12


Os anais do Congresso registram disparates absurdos sobre a função e os métodos de ação do Banco Central (BC). "O BC quer independência para defender o dinheiro dos banqueiros", era o xingamento mais leve a quem ousasse sugerir autonomia para o banco (hoje o BC é criticado justamente pela falta de autonomia ao definir juros). Nos anos 90, um parlamentar chegou a propor quarentena antecipada para os diretores: o candidato não poderia ter trabalhado em banco ou outra instituição financeira nos quatro anos que antecedessem sua nomeação. É como se dissesse ao advogado: se quer ser ministro do Supremo Tribunal Federal em 2012, trate de parar de advogar em 2008.

Mas isso é passado. Na gestão FHC, o BC iniciou uma série de mudanças em seus métodos de gestão e na relação com o Congresso que fazem dele hoje uma instituição respeitável e confiável. A mais importante delas foi intensificar sua comunicação com o público, dar ampla divulgação às suas decisões, reduzindo incertezas, eliminando surpresas e aumentando previsibilidades sobre suas intenções. Assim nasceram o Copom e as atas de suas reuniões, a pesquisa semanal Focus, o relatório trimestral de inflação e seis audiências públicas do presidente do BC no Congresso, quando ele é questionado e explica decisões da diretoria aos parlamentares.

Mais transparente e democrático, o BC precisava de algo que tornasse mais previsível sua mais nobre tarefa: garantir o poder de compra da moeda, controlar a inflação. Em junho de 1999 foi criado o sistema de metas de inflação, pelo qual o governo define a meta (hoje de 4,5%, com tolerância de 2% para cima e para baixo) e o BC trata de cumpri-la com total autonomia, sem nenhuma interferência política.

Pois bem, autonomia e sistema de metas sofrem, hoje, questionamentos, abalos de credibilidade. A percepção de interferência da presidente Dilma Rousseff em reuniões do Copom que definem a taxa Selic e a opção do governo pelo crescimento econômico, quando confrontado com a aceleração da inflação, têm enfraquecido o sistema de metas e conduzido a autonomia do BC ao descrédito. Hoje é unânime no mercado financeiro a convicção de que o BC abandonou o centro da meta (4,5%) e tenta salvar o teto (6,5%). O banco nega a interferência de Dilma e reafirma sua "total autonomia na condução da política monetária". Mas as palavras cada vez mais se distanciam de suas ações.

Recuperar a credibilidade não necessariamente implica elevar a taxa Selic na próxima reunião do Copom. Ela pode até cair, se a inflação ceder e a avaliação técnica indicar ser essa a melhor decisão. O que não cabe é o BC agir de forma a alimentar a percepção de interferência política e de que abandonou o sistema de metas. Seria um retrocesso na escalada de mudanças nos últimos anos, que têm contribuído, e muito, para a estabilidade da economia.

Quem estudou o novo modelo de gestão do BC chega à mesma conclusão: a estabilidade da economia é sempre maior quando é menor a incerteza sobre o comportamento do BC em suas intenções. Por isso é fundamental manter a autonomia operacional e o sistema de metas, que reforçam a previsibilidade e inibem ações de quem especula para gerar lucro fácil. Hoje a autonomia é mera formalidade, uma concessão do governante, não consagrada em lei. FHC a respeitou, Lula também, mas com Dilma ela passou a ser questionada. Quando isso ocorre, portas se abrem à especulação e à volatilidade de preços.

Dilma tem sido elogiada pela coragem de enfrentar forças políticas do atraso, partidos corruptos e seus representantes no Congresso. Se ela realmente não interfere nas decisões do BC, como tem reafirmado, que desfaça de vez essas desconfianças e tome a iniciativa de enviar proposta ao Congresso formalizando a autonomia do BC em lei. Faça o que FHC e Lula deixaram de fazer. Se ela confia na qualidade e na competência dos diretores que escolheu e nomeou, deixe com eles a tarefa de definir juros e proteger o País contra a inflação. O Congresso já foi mais resistente à ideia. Hoje, nem tanto.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV


8h30 - Torneio de Madri, Tênis (final), Bandsports

9h - GP da Espanha, F-1, Globo

11h - M. City x QPR, Campeonato Inglês, RedeTV! e ESPN

11h - Sunderland x M. United, Campeonato Inglês, ESPN Brasil

11h - West Bromwich x Arsenal, Campeonato Inglês, ESPN HD

11h30 - Masters 1.000 de Madri, Tênis (final), Sportv 2

13h15 - Corinthians x Al Ahli, Mundialito de futebol de praia, Sportv

14h45 - Pré-Olímpico masc. de vôlei, Final, ESPN

15h - Olimpiakos x CSKA, Euroliga de basquete (final), ESPN HD

15h45 - Lazio x Inter de Milão, Campeonato Italiano, ESPN Brasil

16h - Santos x Guarani, Campeonato Paulista, Band e Globo (para SP) e Sportv

16h - Botafogo x Fluminense, Estadual do Rio, Band e Globo (menos SP) e Sportv 2

16h15 - PGA Tour, Golfe, ESPN e ESPN HD

18h - Mundial de Motocross, Etapa do México, Bandsports

18h30 - Pré-Olímpico fem. de vôlei, Final, Sportv 2

19h - Grand Prix de Charlotte, Natação, Bandsports

19h15 - Boca Jrs. x Vélez, Campeonato Argentino, Esporte Interativo

21h - Texas x Los Angeles, Beisebol, ESPN e ESPN HD

Julgar o mensalão - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 13/05/12



Supremo Tribunal Federal tem a responsabilidade de concluir em 2012 processo sobre o maior escândalo político em duas décadas



Foram necessárias mais de cem páginas para o ministro Joaquim Barbosa reduzir ao essencial, em relatório divulgado na quinta-feira, o processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF).

Apesar de longo, o documento resulta de um considerável esforço de concisão e objetividade.

O processo, que examina o maior escândalo político ocorrido no

país depois do Collorgate (1992), acumulou cerca de 70 mil páginas, distribuídas em 147 volumes e 173 apensos. Mais de 600 testemunhas foram arroladas pela defesa -meia centena de advogados.

Dos 40 envolvidos, apenas quatro tiveram, até agora, dissipadas as ameaças de sofrer condenação.

Por falta de provas, Luiz Gushiken, ministro das Comunicações no governo Lula, e Antônio Lamas, irmão do então tesoureiro do PL, Jacinto Lamas, tiveram a absolvição pedida pelo Ministério Público Federal. O secretário-geral do PT na época do escândalo, Sílvio

Pereira, fez acordo e aceitou prestar serviços comunitários. José Janene, deputado federal pelo PP, morreu em 2010.

Acusados de crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, peculato (desvio de bens por funcionário público), formação de quadrilha ou gestão fraudulenta de instituição bancária, restam nomes célebres, e outros nem tanto, dentro e fora da hierarquia petista.

Passados sete anos, muitos detalhes do escândalo se esvaem da memória geral. O relatório do ministro Barbosa, sumarizando os argumentos da acusação e da defesa, repõe o caso nos seus devidos -e espantosos- termos.

Não se tratou, em absoluto, de um simples episódio de "recursos não contabilizados", ou caixa dois, com sobras de uma campanha política sendo distribuídas informalmente a membros de uma coalizão política.

Tal versão, veiculada insistentemente pelas áreas do PT mais implicadas no escândalo, já seria por si só desmoralizante, em se tratando de um partido que por tanto tempo prometera introduzir novos padrões éticos na política brasileira.

Bem mais do que isso, entretanto, veio à luz com o mensalão -e será relembrado durante o julgamento do caso pelo STF.

Um partido, o PT, recebe empréstimos bancários sem apresentar em troca as necessárias garantias legais. Os empréstimos, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República, eram a fachada para um esquema mais complexo.

Resultavam das operações comandadas pelo publicitário Marcos Valério, em troca de vantagens obtidas de setores do poder petista. A saber, o favorecimento de suas agências publicitárias em contratos com o Banco do Brasil e a Câmara dos Deputados, cujo presidente na época, o petista João Paulo Cunha, de acordo com a peça de acusação, se beneficiou de R$ 50 mil sacados em espécie.

Ainda segundo a denúncia, os favores oferecidos por Marcos Valério não serviram apenas para o caixa petista ou para interesses pessoais de membros do partido (por exemplo, a concessão de um empréstimo à ex-mulher do então ministro José Dirceu).

Deputados de outros partidos da base aliada beneficiaram-se de ajuda financeira para, em tese, votar favoravelmente ao governo.

Dois argumentos em defesa dos envolvidos não cessam de ser postos em circulação -e se notabilizam pela fragilidade.

Sustenta-se, por exemplo, que "não existiu o mensalão", porque não tinham regularidade mensal as doações aos deputados. Uma vez que estes já pertenciam à base aliada, acrescenta-se, não era necessário corrompê-los com doações diretas em dinheiro.

Esses e outros argumentos, relativos por exemplo à ausência de irregularidade na prática dos contratos publicitários, serão examinados pelos ministros do STF por ocasião do julgamento.

Com o relatório de Joaquim Barbosa, cabe agora ao ministro Ricardo Lewandowski, no papel de revisor, dar andamento ao processo.

Como se sabe, o STF corre contra o tempo. Alguns dos crimes, como peculato e evasão de divisas, poderão prescrever (coisa que depende da pena que será efetivamente aplicada pelo STF).

No cenário mais favorável aos réus, mesmo a acusação de corrupção ativa, uma das que pesam contra José Dirceu e outros dirigentes petistas, como Delúbio Soares e José Genoino, já estaria em risco. O mesmo raciocínio se aplicaria ao crime de corrupção passiva, de que são acusadas figuras como João Paulo Cunha, Roberto Jefferson e Valdemar da Costa Neto.

Não se leva em conta, num processo jurídico, mais do que a letra dos autos. Está no âmbito da subjetividade de cada ministro, todavia, avaliar o quanto são suficientes os indícios de envolvimento de cada acusado.

Pesam nisso, sem dúvida, inclinações políticas individuais e as pressões contraditórias do mundo político e da opinião pública.

Tratando-se de julgamento em corte colegiada, com ampla oportunidade de defesa, é de esperar que haja equilíbrio na decisão final.

O que mais importa, num caso que se arrasta há tanto tempo, é que possa ser julgado o mais breve possível -a menos que se queira, pelo mecanismo da prescrição, dar a muitos dos envolvidos a vantagem da impunidade, ao mesmo tempo em que persiste o descrédito que, com tantas evidências acumuladas, fizeram por merecer na opinião pública.

CLAUDIO HUMBERTO

“Querem transformar a CPI do Cachoeira na CPI da PGR”
Senador Pedro Simon (PMDB), sobre o PT tentando prejudicar processo do mensalão

MPF INICIA INVESTIGAÇÕES CONTRA CHEVRON NO RIO

Seis meses após vazamento de três mil barris de petróleo no Campo de Frade, na costa do Rio de Janeiro, o Ministério Público Federal iniciou as investigações contra a operadora Chevron. O procurador da República no Rio Eduardo Santos de Oliveira comunicou ao Congresso e ao Ministério de Minas e Energia a abertura do inquérito civil público. Em março, o MPF denunciou as empresas Chevron, Transocean e mais 17 pessoas por crime ambiental e dano ao patrimônio público.

FALHAS NA FISCALIZAÇÃO

A procuradoria investigará a atuação da Agência Nacional de Petróleo e já pediu ao órgão e à Marinha informações sobre a plataforma.

MUNICÍPIOS ATINGIDOS

O MPF quer saber as condições dos poços em Quissamã, Campos dos Goytacazes, São Franscisco do Itabapoana e São João da Barra. 

PREVENÇÃO

O MPF vai requisitar, ainda, a cada empresa que opera petróleo no local, a cópia dos Planos de Emergência Individual em cada poço. 

PF X MP

Suspeita-se na CPI que, por trás das operações Monte Carlo e Vegas, há uma guerra entre grupos pelo comando da PF, contrários ao MPF. 

ES: CONSELHEIRO TERIA SE REUNIDO COM IMPLICADOS

Gravado pela PF em suposto esquema de fraude em licitações milionárias no município de Presidente Kennedy, o conselheiro do Tribunal de Contas do Espírito Santo José Antônio de Almeida Pimentel também andou conversando com empresários com interesses em processos na Corte. Ele teria se encontrado com o presidente da Federação de Beach Soccer, William Vairo, e Carlos Fernando Zaché. 

NEGÓCIOS

Em uma das escutas telefônicas, Carlos Zaché informa William Vairo de que “Pimentel está falando com ele de negócio em Itapemirim (ES)”.

ELE, DE NOVO

Relatório da Polícia Federal indica que o conselheiro Pimentel é amigo do ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB).

CORRUPÇÃO DE TODA ORDEM

A Operação Lee Oswald revelou esquema de desvio de verbas, fraude em licitações e lavagem de dinheiro em Presidente Kennedy (ES).

PROCURA-SE

O ex-dono da Delta, Fernando Cavendish, recuperando-se do rolo da Delta, e o presidente do Senado, José Sarney, recuperando-se da colocação de um stent, têm algo em comum: não foram mais vistos. 

BRIGA TUCANA

Na última reunião da CPI mista de Cachoeira, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) disse a deputados que só defenderá com convicção o procurador-geral, Roberto Gurgel. Quanto aos governadores Marconi Perillo (Goiás) e Beto Richa (Paraná), “a história será outra”.

ELEIÇÕES DIRETAS NA OAB

A OAB do Rio de Janeiro lança, nesta segunda-feira, uma campanha por eleições diretas para a escolha de presidentes da OAB nacional. Hoje, a eleição é indireta e votam apenas os 81 conselheiros federais. 

DEPUTADO TOPA A BRIGA

O deputado Fernando Francischini (PSDB-PR) pedirá ao Superior Tribunal de Justiça acesso a inquérito sigiloso contra o governador do DF, Agnelo Queiroz: “Ele fez tudo o que eu queria, me processou, e agora tenho direito a acessar o inquérito para formular minha defesa”. 

PAUTA DA MORTE

O radialista e blogueiro Isanilson Dias, da rádio São Bento (MA), denunciou à Federação dos Jornalistas ameaças de morte por críticas à prefeitura. Décio de Sá também foi assassinado no Maranhão. 

JOGO DE EMPURRA

O líder do PSDB, Bruno Araújo (PE), joga para a executiva do partido a decisão de expulsar o deputado Carlos Leréia (GO), acusado de envolvimento no esquema de Cachoeira. O presidente tucano, Sérgio Guerra (PE), diz que a responsabilidade é da bancada.

FUNDO DO POÇO

Algo anda errado nos Correios. Um leitor pagou R$ 20 para enviar segunda-feira (7), por Sedex, do Rio para São Paulo, um envelope com documento. A encomenda levou cinco dias para chegar ao destino.

ORDEM DOS FATORES

O deputado Dr. Rosinha (PT-PR) discorda da decisão de conduzir o bicheiro Cachoeira para depor logo no início dos trabalhos: “Na CPI da Nike/CBF, o último a ser ouvido foi Ricardo Teixeira, quando já sabíamos até da morte de suposta amante dele nos Estados Unidos”.

PERGUNTA NO AÇOUGUE

Você compraria uma empresa quase falida, que poderá ficar inidônea, para construir obras do governo sem ajuda do governo? 

PODER SEM PUDOR

RIGOR CONVENTUAL

Era um almoço oferecido a empresários de outros Estados, no Palácio das Princesas, pelo então governador Roberto Magalhães. Durante a sobremesa, um dos convidados elogiou a fruta servida.

– É um fruto divino! – brincou Sileno Ribeiro, poderoso secretário do Gabinete Civil de Magalhães. Brincou com fogo.

D. Jane, a influente primeira-dama, católica fervorosa, achou que o secretário cometera uma blasfêmia e exigiu sua demissão. Foi atendida.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Negros só ganham mais em 4% das profissões
Folha de S. Paulo:Queda de juros provoca embate entre BB e Caixa
O Estado de S. Paulo: Lei de Acesso à Informação vai começar enfraquecida
Jornal do Commercio: Duas camisas e um sonho
Correio Braziliense: Mamãe, Brasília agora é nossa...
Zero Hora: Problemas transformam concursos em armadilhas

sábado, maio 12, 2012

O segredo do sushi - WALCYR CARRASCO

REVISTA ÉPOCA


Sushi engorda. Eu me sinto traído pela culinária japonesa. Sempre achei que fosse light. Passei boa parte dos últimos anos fazendo regime para emagrecer. Moro perto de uma doceria maravilhosa. Se fui lá três vezes em quatro anos, é muito. Sou doido por coxinha. Quando como alguma, sinto-me tão culpado que tenho vontade de entrar na igreja e confessar:

– Padre, comi uma coxinha!
Apesar de todos os cuidados, nos últimos anos meus índices de glicose no sangue não andam bons. Não sou diabético, mas sempre estou no limite. Sofria com meus exames imaginando que algo deveria estar indo muito mal já que, mesmo ingerindo doses mínimas de açúcar, continuava com números máximos.

Para me consolar, ia a restaurantes japoneses. Devorava sushis algumas vezes por semana, com a consciência tranquila. Havia prato mais saudável?

Minha paixão cresceu tanto que resolvi fazer um curso de sushiman. Recentemente, matriculei-me numa escola profissional, que me concedeu até diploma. (Caso deixe de ser escritor, já posso me empregar como ajudante de sushiman. Não que eu pretenda fazer isso, mas é bom saber.) No primeiro dia, meu professor, Jefferson, oito anos de experiência em restaurantes variados e bufês, ensinou-me a fazer o arroz, que leva saquê e uma alga chamada konbu.

– À parte, bote no fogo açúcar e vinagre em partes iguais, mexa e...

– O queeeeeeeeeê? Açúcar?

Jefferson me encarou, surpreso.

– É para misturar com o arroz depois de feito.

Exatamente! Quando o arroz sai do fogo, mistura-se com calda de açúcar e vinagre.

Depois, liga-se um ventilador em cima da papa, para dar um choque térmico. Só assim o arroz ganha viscosidade para moldar os bolinhos do sushi.

– Quer dizer que passei todos estes anos comendo açúcar três vezes por semana sem saber?

– Amasse bem o bolinho, bote o filé de peixe na palma da mão e dê a forma assim – respondeu Jefferson estrategicamente.

Agarrei uma porção de arroz e amassei com fúria. O avental deslizou pela minha barriga e caiu no chão para me lembrar do efeito de todos estes anos de sushi.

Passei os últimos dias fazendo a revelação aos meus amigos. O efeito é igual ao de um apocalipse. Meu professor de ioga, Guilherme, não come doce há anos. É magérrimo, mas evita açúcar branco a todo custo, pois acredita ser ruinoso para a saúde física e mental. Tremeu ao me ouvir.

– Mas eu como comida japonesa várias vezes por semana!

– Ouça, tenho mais detalhes – disse eu.

E contei. O gari, aquele delicioso gengibre servido nas mesas nipônicas, é fervido no açúcar e no vinagre. O sunomono, um delicioso pepino cortado em tirinhas, idem, idem. O professor de ioga deu um nó nas pernas de angústia.

Cada um que me ouve, o mesmo susto!

– É supercalórico! – disse o personal trainer.

– O sushi parecia tão inocente! Eu comia para emagrecer. É por isso que continuei engordando! – falou uma amiga escritora.

E os diabéticos? Ai, ai.

Outros pratos da culinária japonesa também engordam. Salmão skin, por exemplo. Nada mais é que a pele do salmão grelhada. É tão gordurosa que basta jogar na chapa quente para em seguida boiar no óleo. O delicioso salmão skin é o bacon do mar! A omelete usada em vários pratos também é feita com açúcar! No tempura, legumes e camarões são empanados em uma pasta de farinha e atirados no óleo fervente!

O único prato realmente saudável é o sashimi: fatias de peixe cru mergulhadas no molho de soja. Mesmo assim, o molho de soja, não sei não...

Meu dentista, Sérgio, é gourmet. Discutimos a criação de um bolinho de arroz sem açúcar.

– Mas aí vai perder o sabor. O bom é justamente aquele gostinho agridoce – disse ele.

Ai de mim! Quis estudar culinária japonesa para me dedicar a pratos saudáveis e saborosos. Cozinha que conheço desde criança, pois fui criado em Marília, cidade do interior paulista com uma grande comunidade nipônica. Devia ter desconfiado. Na infância, comia doces de feijão com meus amigos japoneses. Quem inventa doce de feijão, claro que fará arroz com açúcar.

O que mais me surpreende é ninguém falar nisso. Há restaurantes japoneses por todo lado. O uso do açúcar como ingrediente fundamental não é segredo. Não se toca no assunto. E o sushi continua com a fama de comida levezinha. Ninguém questiona, talvez porque o mundo seja povoado por gordos que preferem comer sem culpa. Um gordo nunca gosta de ouvir a verdade, principalmente quando a comida é boa.

Luta Longa - RUY CASTRO


FOLHA DE SP - 12/05/12


RIO DE JANEIRO - Mês sim, mês não, o caso volta ao noticiário: o processo movido há 20 anos por João Gilberto contra a gravadora EMI por esta ter espremido seus três LPs da Odeon num LP duplo (“O Mito”) e num CD simples (“The Legendary João Gilberto”), “apressando” algumas faixas para encurtá-las, adulterando sua sonoridade e alterando a ordem original para caberem naqueles formatos. Músicos foram chamados a ouvir esses discos e deram razão a João Gilberto.

Enquanto o processo não se resolve, os três discos -”Chega de Saudade”, 1959, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, 1960, e “João Gilberto”, 1961- ficam impedidos de sair no Brasil, em CD ou no que for. Com isso, o país da bossa nova é o único proibido de ouvir os discos que formam o seu cânone. Equivale a proibir os meninos brasileiros de ler o Machado de “Dom Casmurro”, “Brás Cubas” e “Quincas Borba”.

Já na Europa qualquer selo se sente à vontade para lançá-los em qualquer suporte. O Él/Cherry, por exemplo, soltou os três LPs em CDs individuais, com as capas originais e enriquecendo-os com gravações raras da época, por outros cantores, todas do acervo da EMI.

É uma edição boa, mas não se compara à da Doxy, que os relançou em LPs mesmo, só que em vinil de 180 gramas (ou seja, virgem). O som é melhor que o dos próprios LPs originais (que a Odeon, na época, certamente prensou em vinil reciclado). E cada LP traz uma cópia-bônus em CD.

Os três discos de João Gilberto estão proibidos no Brasil, mas isso não se aplica ao seu conteúdo. Suas faixas podem ser “baixadas”, avulsas, por quem quiser -tanto as legítimas, que mudaram a história da música brasileira, quanto as adulteradas pela gravadora. Um dia já não se saberá qual é qual, e -isso é que é triste- talvez não faça muita diferença. João Gilberto terá lutado em vão.

Morar bem - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 12/05/12

Casado com uma brasileira, o holandês Seedorf, jogador do Milan que pode vir para o Botafogo, tem um apartamento na Av. Vieira Souto, em Ipanema.

Pagou R$ 6 milhões.

Delta-Brastel
Um sábio acha que o governo pode se meter em encrenca se estimular a JBS a comprar a Delta. Teme que se repita como farsa o escândalo Coroa-Brastel.

Em 1980, Assis Paim, dono da rede de lojas de eletrodomésticos Brastel, foi induzido pelo governo militar a comprar a Corretora Laureano. Deu no que deu.

Cegonha
Maria Rita e Davi Moraes vão ter um bebê.

Questão de saúde
Em Caracas, comenta-se que Chávez desistiu de vir à Rio+20.

Júri popular
O MP do Rio pediu a pronúncia de Rafael Bussamra, que atropelou e matou Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães, em 2010, por homicídio doloso (com intenção de matar).

Deve ir a júri popular.

No mais
Dilma incluiu Collor na lista dos ex-presidentes que estarão quarta na instalação da Comissão da Verdade. Coisa civilizada.

Lula, mesmo após se aliar a “elle”, não o convidou, em 2005, para o funeral de João Paulo II. Foram só FH, Sarney e Itamar.

Verissimo no rádio
Nosso Luis Fernando Verissimo, que, como se sabe, é tímido e fala pouco, estreou quinta, acredite, um... programa de rádio na internet (minima.fm), da qual sua filha Fernanda é colaboradora.

Será sempre às quintas, às 17h.

A Rosa da verdade
A carioca Rosa Maria Cardoso da Cunha, 65 anos, advogada de Dilma na ditadura, é o nome menos conhecido da Comissão da Verdade.

Sua foto publicada ontem no GLOBO é antiga, ainda dos tempos do preto e branco.

Dilma torturada...
O que se diz é que a decisão de Dilma de nomear Rosa foi tomada depois da entrevista do general Luiz Eduardo Rocha Paiva a Míriam Leitão.

O general, num gesto de desrespeito, pôs em dúvida se Dilma foi torturada. Rosa, se preciso, estará lá para testemunhar.

Vips na floresta
A 2' Câmara Cível do Rio condenou 26 vips — entre outros, Vera do Canto e Mello, Maria Alice Tapajós e Walter Salles Jr. — a bancar a recomposição de área verde degradada pela construção de suas belas casas em local de reserva florestal, no Jardim Botânico.

Os vips terão de pagar ainda indenização por “dano causado à coletividade”.

Segue...
As casas não serão derrubadas, pois, segundo a perícia, “a natureza não suportaria demolições, máquinas, etc”.
A indenização, destinada ao Fundo Estadual de Conservação Ambiental, será equivalente ao preju que os vips teriam se fossem demolir todos os imóveis.

Hard Rock Café
O finado Bingo Arpoador, fechado há anos no Posto 6, em Copacabana, deve ser o novo endereço do Hard Rock Café, que saiu do Cittá América, na Barra.

Contra helicópteros
Com base na legislação estadual sobre poluição sonora, a Secretaria do Ambiente vai editar normas para o uso de helicópteros no Rio.

O Imperador
Adriano, o jogador, em recuperação de uma cirurgia no tendão, submeteu-se ontem a um procedimento chamado PRP, técnica que usa células do sangue do próprio paciente para acelerar a regeneração de área lesionada.