sexta-feira, abril 27, 2012

Minto, logo existo - NELSON MOTTA


O Globo - 27/04/12


Com o início de mais uma CPI em busca da verdade, a única certeza é que ouviremos mais uma cachoeira de mentiras. Mesmo jurando sobre a Bíblia, eles vão mentir, como José Roberto Arruda fez na tribuna do Senado, jurando pelos seus filhos que não tinha violado o painel eletrônico.

Quantas vezes ainda ouviremos alguém dizer "eu não sabia"? É difícil saber se já houve mais corrupção no Brasil em outro tempo, mas certamente nunca na história deste país se mentiu tanto. Só que agora as mentiras se espalham instantaneamente pela sociedade, mas podem ser mais rapidamente desmentidas pelos fatos e pela tecnologia.

Historicamente, nos Estados Unidos e em países de cultura protestante, mentir é um ato muito mais grave, moral e legalmente, do que na América católica.

Em países regidos por esses códigos morais, mentir em juízo sob juramento é crime de perjúrio que pode levar à prisão e até derrubar presidentes.

Como o mentiroso Richard Nixon, obrigado a renunciar depois do escândalo Watergate, e Bill Clinton, que sofreu um impeachment na Câmara dos Representantes, com muitos votos do seu próprio partido, não pelo mau gosto do romance com Monica Lewinsky, mas porque mentiu. Foi salvo pelo Senado, por poucos votos. E era um dos presidentes mais populares e bem-sucedidos da história americana, com sólido apoio parlamentar.

A verdade é que todo mundo mente, uns mais e outros menos, para o mal e para o bem, pelos mais diversos motivos, sentimentos e circunstâncias, é parte da condição humana. Mas quando alguém mente para si mesmo, como Sarney se acreditando um grande estadista de moral ilibada, ou Zé Dirceu se dizendo "cada vez mais convencido" de sua inocência no mensalão, para esses casos não há cura. Mas isto é assunto psicanalítico, estamos falando de roubos e conspirações de políticos, empresários e funcionários contra o Estado.

Como nos lembram CPIs recentes, eles mentem cínica e impunemente, humilham nossa inteligência, desmoralizam nossa fé nas instituições e provam que aqui a mentira é não só tolerada como recompensada. Eles anunciam uma verdade brasileira: minto, logo existo.

Cachoeiroduto - VERA MAGALHÃES -


FOLHA DE SP - 27/04/12

As investigações da Polícia Federal sobre empresas suspeitas de ter ligações com o esquema do empresário Carlinhos Cachoeira esbarraram na empreiteira JM Terraplanagem, com sede no Distrito Federal. A JM é citada em diálogo interceptado pela PF entre Cachoeira e Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta, ambos presos.

A JM recebeu R$ 75 milhões da União em 2011. Parte dos negócios está no Acre, governado por Tião Viana (PT). São obras de urbanização, além de recursos do PAC para a BR-364. Nas eleições de 2010, a empresa doou R$ 170 mil para o PT do Acre e R$ 500 mil para o PSDB do Tocantins, Estado já atingido pelo escândalo.

Laços Membro da CPI do Cachoeira, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) é amigo do presidente afastado da Delta. Em 12 de dezembro de 2009, Nogueira postou no seu Twitter: "Hoje vou ao casamento de meu amigo Fernando Cavendish em Itaipava''. A empreiteira deverá ser um dos principais focos da investigação.

Arauto 1 Ex-deputado e delegado da Polícia Federal, Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) circulou pela Câmara nos últimos dias anunciando que a próxima fase da operação que prendeu Cachoeira será no Rio, sede da Delta.

Arauto 2 Ontem, o tucano disparou em seu Twitter: "Delegados federais reunidos no Rio dizem que vem aí a fase carioca da operação. Chama-se Pedra Bonita".

Visual Diante da fila formada na última terça-feira na barbearia do Senado, um dos membros da CPI notou que oito parlamentares que aguardavam estavam na comissão, que vai concentrar atenção de cinegrafistas e fotógrafos nos próximos meses.

Critério O PT, que marca sob pressão Roberto Gurgel, questiona por que o governador Marconi Perillo (PSDB-GO) ficou de fora do pedido de investigação que o procurador-geral da República apresentou ao STJ contra o petista Agnelo Queiroz (DF).

Pente-fino A bancada do PT na Assembleia paulista protocolou representação no Ministério Público Estadual pedindo uma investigação nos contratos do consórcio Nova Tietê, integrado pela Delta, para as obras de ampliação da Marginal Tietê.

Estrela Fernando Haddad ofereceu nesta semana jantar para o neurocientista Miguel Nicolelis em sua casa. O presidente do Instituto Internacional de Neurociências de Natal vai participar de seminário da campanha petista sobre inovação tecnológica e ajudar no plano de governo.

Ninho Geraldo Alckmin atuou diretamente na escolha do novo presidente da Juventude Tucana da capital, Breno Siviero. A preocupação se justifica pelo fato de que os dois últimos presidentes do grupo deixaram o partido para apoiar Gilberto Kassab e Gabriel Chalita.

Oráculo O governador Cid Gomes (CE) vai procurar o ex-presidente Lula diante do impasse para definir o candidato à Prefeitura de Fortaleza. O PSB e o PMDB admitem apoiar um nome do PT desde que não seja ligado à prefeita Luizianne Lins.

Greve Diante do provável veto de Dilma Rousseff ao Código Florestal, deputados da base aliada ameaçam retaliar e não votar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) até o recesso se o veto não for submetido a voto no Congresso.

Visita à Folha José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Francisca Rodrigues, diretora de comunicação da faculdade.

com SILVIO NAVARRO e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Será que o PSDB vai culpar os pobres, o governo federal ou os extraterrestres pelo aumento da violência? Ninguém duvida da criatividade tucana quando naufragam."

DO DEPUTADO ESTADUAL JOÃO ANTONIO (PT), sobre o crescimento do número de homicídios, roubos e furtos no Estado no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2011, segundo dados da Secretaria de Segurança.

contraponto

Não está mais aqui quem falou

Na terça-feira, a Força Sindical fixou em frente ao Senado faixa em homenagem aos 82 anos do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Um segurança pediu, com rispidez, para o secretário Carlos Lacerda retirar o adereço.

-O senhor leu a faixa?, questionou o sindicalista.

-Tire já e saia, insistiu o segurança.

Então, Lacerda leu em voz alta: "Parabéns presidente Sarney pelo seu dia e pelo apoio aos trabalhadores".

-Ah, é melhor colocar mais perto da porta, para que todos vejam, corrigiu o funcionário, sem graça.

Veto negociado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 27/04/12
Tudo indica que a presidente Dilma vetará mesmo alguns pontos do novo código florestal que foi aprovado pela Câmara, editando uma medida provisória que recuperaria parte do acordo acertado no Senado.
Seria uma maneira de não se confrontar com o Congresso como um todo, alegando que foi descumprido um compromisso negociado politicamente.
Os ambientalistas alegam que alguns pontos são essenciais, como a obrigatoriedade de recomposição das faixas de rio que foram desmatadas.
Eles entendem que, da maneira como foi aprovado o texto, os agricultores ficam desobrigados de recuperar o que foi desmatado, o que caracterizaria uma anistia.
No acordo do Senado, essa obrigação era explícita no texto do novo código florestal e já foi fruto de muita negociação, pois os ambientalistas mais ortodoxos não queriam nem mesmo essa possibilidade de anistia, exigindo punição especialmente para os que desmataram depois do decreto de crimes ambientais de 2008.
Outro ponto importante para os ambientalistas é a obrigação de fazer o Cadastro Ambiental Rural (CAR), para definir a reserva legal e a Área de Preservação Permanente (APP).
Também seria preciso recolocar na lei a possibilidade de o Comitê de Bacias, onde têm assento os prefeitos, os governadores, empresários, determinar medidas suplementares de proteção.
Por fim, mas não menos importante, os ambientalistas querem que seja retirada da legislação a permissão para que sejam autorizadas atividades "agropecuárias" nos topos dos morros, quando o acordo era para que apenas culturas permanentes como café, maçãs ou uvas fossem permitidas.
Os ambientalistas temem que a ampliação do conceito permita a criação de gado nas encostas dos morros.
Até o momento o governo não teme que o veto seja derrubado, pois acham difícil conseguir maioria absoluta contra a presidente, ainda mais que o veto será feito em pontos específicos, não será total, e retomando o acordo do Senado.
O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, lembrou que existem compromissos assumidos por Dilma na campanha eleitoral que ela honrará.
Foi o mesmo que a própria presidente disse para o ex-ministro do Meio Ambiente do governo Lula e atual secretário do governo do Rio Carlos Minc.
Ela assegurou, mesmo sem falar diretamente de vetos, que honraria os compromissos assumidos. Minc foi um de seus assessores para a área de meio ambiente durante a campanha.
A alegação do advogado do governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, de que a gravação telefônica mostrada pelo "Jornal Nacional" não se refere diretamente ao governador é mero subterfúgio.
A gravação, que já se sabia constar do relatório da Polícia Federal, mas cujo teor só ontem ouvimos, refere- se a conversa de dois auxiliares do bicheiro Carlinhos Cachoeira combinando a entrega de dinheiro no Palácio Pedro Ludovico Teixeira, sede do governo de Goiás, onde Perillo dá expediente.
É quase um batom na cueca, e, mesmo que o dinheiro não fosse para subornar o governador, seria para algum de seus auxiliares com poder de fogo para decidir, o que caracteriza por si só que o governo de Goiás está à matroca.
Como tática de defesa de um processo criminal, pode até ser eficiente esse argumento do Kakay, inclusive a encenação de pedir formalmente que o governador seja investigado.
Mas politicamente Marconi Perillo está à beira do abismo, para felicidade do ex-presidente Lula.
Outro governador, Agnelo Queiroz, de Brasília, desta vez petista, também aparece cada vez mais enrolado nas teias do esquema de Cachoeira.
Ontem surgiram evidências, vazadas do relatório da Polícia Federal, de que um esquema de sistema de bilhetagem eletrônica do Departamento de Transportes Urbanos do Distrito Federal estaria sendo aparelhado pelo grupo do bicheiro às custas de propinas no valor de R$ 300 mil.
Os dois governadores, por sinal, enganaram seus companheiros de partido.
O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, reuniu-se com Perillo e depois saiu dizendo que não havia perigo de o escândalo respingar em seu governo.
Também Rui Falcão, presidente do PT, saiu defendendo o governador Agnelo Queiroz. A mesma situação vivida por nada menos que 40 senadores que subiram na tribuna do Senado no primeiro momento para defender a honradez do senador Demóstenes Torres.
O senador Pedro Taques, do PDT, hoje um dos mais empenhados nas investigações, foi a ele perguntar se havia alguma coisa a mais além dos presentes de casamento que recebera do bicheiro - uma geladeira e um fogão importados, lembram- se? -, e Demóstenes garantiu que não havia mais nada.
Pelo visto, ninguém deve confiar em ninguém nessa CPI.
 No julgamento das cotas raciais pelo Supremo Tribunal Federal, prevaleceu por unanimidade a tese do "preconceito positivo", isto é, um tratamento especial para aqueles setores que precisam de ajuda para superar as desigualdades históricas.
Esse conceito, portanto, deve ser incorporado às nossas políticas públicas, mas eu preferia, como o ministro Gilmar Mendes, que as cotas fossem definidas com base em critérios sociais e não raciais.
De qualquer maneira, é possível que a discussão no Supremo ajude a aperfeiçoar o sistema de cotas para que ele realmente alcance uma reparação justa para as minorias.

Experiência não conta? - BARBARA GANCIA

FOLHA DE SP - 27/04/12


A sociedade civil vai se mobilizar ou serão as construtoras de sempre (e as de ocasião) a dar as cartas?
NA QUARTA-FEIRA, estive no Insti­tuto Tomie Ohtake sabo­reando delicadezas como o minicamarão ao molho curry e o kibinho de beringela para celebrar o "Freedom Day", data que neste ano marcou os 18 anos da 1ª eleição pós-apartheid na África do Sul, que levou Mandela ao poder.
Os quitutes estavam daqui, ó, e a ocasião não poderia ser mais opor­tuna para trocar experiências so­bre como organizar uma Copa do Mundo, tendo em vista que o Con­sulado da África do Sul aproveitou a festa para lançar um livro impor­tante: "Reflexões e Oportunidades - Design, Cidades e Copa do Mun­do" com a presença da autora, Zahi­ra Asmal, uma urbanista que se es­pecializa no impacto que megae­ventos geram nas grandes cidades.
Entre uma bocada em um minirro­linho primavera e outra em um croquete de palmito (sim, eles exis­tem!) descobri que Zahira trabalha com uma abordagem chamada "design thinking".
Conhece não, meu ilustradíssimo leitor? Então pense: obra do Mi­nhocão, de Paulo Maluf, Transa­mazônica e obras apressadas da construtora Delta. Trouxe os ele­fantes brancos ao primeiro plano mental?
Agora comece a ouvir uma sirene imaginária tocar bem alto no seu ouvido. "Design thinking" é a antí­tese, o extremo oposto, desse gro­tesco que eu lhe propus imaginar. Arranque esse inferno de concreto inviável da mente e conceba um mundo em que os melhores pensa­ dores pudessem opinar na hora de construir uma via, uma praça, uma escola, um estádio, um aeroporto, uma usina, quem sabe, que não fos­se em Belo Monte.
O livro de Zahira explica que "de­sign thinking" significa organizar de maneira sustentável. Calma. Eu sei que dá sono cada vez que ouvi­mos a palavra. Mas, neste contexto, não estamos falando exatamente do mesmo "sustentável" do saqui­nho de supermercado.
Para construir uma linha de me­trô que irá ligar o estádio ao centro, o "design thinking" propõe que não prevaleça apenas a vontade de en­genheiros e agentes públicos, mas também sejam ouvidos historiado­res, antropólogos, técnicos do ter­ceiro setor, economistas, sociólo­gos, juristas, enfim, uma gama de especialistas, para que eles avaliem como o projeto resistirá à passa­gem do tempo.
"A África do Sul está em posição privilegiada", diz Zahira. "Temos a experiência de ter sediado o tor­neio e podemos compartilhá-la." Nós já estamos vendo Itaquerões e Itaquerinhos brotando por aí e continuamos sentados de braços cruzados. O que estamos esperan­do? A sociedade civil vai se mobili­zar ou mais uma vez serão as cons­trutoras (as de sempre e as nascidas de ocasião) a dar as cartas?
Em Londres, só para dar um exemplo de solução de urbanização que derrubou barreiras e integrou a cidade, há uma lei que obriga cada área nobre a acolher X metros de "public housing", de "moradias pú­blicas". É um passo ousado, que tal­vez nem caiba discutir aqui. Já ima­ginou alguns andares das torres em cima do shopping Cidade Jardim serem cedidas à CDHU?
Por enquanto, melhor ficar com uma pergunta mais simples: como é possível, em sua principal come­moração, que o Consulado do país que recebeu a última Copa, situado na cidade mais importante do país que irá abrigar o próximo Mundial, não tenha sido prestigiado por ne­nhum jornalista esportivo, grande arquiteto ou autoridade municipal, estadual e federal de peso? Será que ficaram todos em casa assistindo na TV o desenrolar do caso Delta?

O mundo (e o petróleo) é delas - RODOLFO LANDIM

FOLHA DE SP - 27/04/12


Uma decide os rumos no setor, outra opera a maior empresa, e a terceira regula e fiscaliza as atividades



Desde os tempos dos primeiros hominídeos, as mulheres tiveram papel fundamental como propulsoras da evolução social da raça humana através do papel inicialmente a elas reservado na tribo: cuidar dos filhos e assegurar um ambiente familiar agradável aos homens, enquanto a eles estava reservada a tarefa de provedores de alimentos e de segurança.

A partir de então, a mulher desenvolveu importantes habilidades, que lhe seriam úteis no decorrer dos tempos, como a fala, a orientação periférica e o instinto de proteção, entre outras.

Por ter desenvolvido a fala melhor do que o homem, a mulher de hoje amadurece mais cedo.

Uma menina com quatro anos de idade tem, em média, 2.000 palavras em seu vocabulário -um garoto da mesma idade não tem mais do que 600. Além disso, elas são mais estudiosas, mais exigentes, mais perfeccionistas e lutam com mais intensidade por seus ideais.

Com o passar do tempo, as atividades femininas foram migrando da esfera doméstica à ocupação de diferentes funções na sociedade moderna. Elas já entram em todas as atividades antes reservadas aos homens. Por exemplo, já são mais de 40% dos advogados de São Paulo, são maioria em profissões como jornalismo e estão em todos os lugares: nas Forças Armadas, nas plataformas de petróleo e atuando como motoristas de caminhões e de táxis -estão até nas lutas marciais.

Mas esse avanço não aconteceu de graça. Estatísticas do Departamento de Educação americano revelam que o número de matrículas do sexo feminino, tanto em universidades como no ensino médio, é superior ao do masculino. Revelam ainda que os homens também estão menos presentes do que as mulheres nos cursos de pós-graduação. A mesma pesquisa mostrou, ainda, que elas levam, em geral, menos tempo para completar a graduação.

Dados do IBGE indicam que, no Brasil, a escolaridade da mulher também é mais alta que a do homem. Entre as mulheres trabalhadoras, 52% tinham 11 anos ou mais de estudo em 2003, ante 60% em 2008. As mulheres são maioria hoje nos cursos de graduação e pós-graduação do país, representando 56% das matrículas, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Também é maior (62%) o percentual de mulheres que concluem o curso superior, conforme levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, em parceria com o Ministério da Educação.

Mas nem tudo são flores. Para a pesquisadora Amanda Fellows, doutoranda no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), o fato de as mulheres ocuparem 62% dos cargos administrativos em empresas privadas, mas apenas 16% das cadeiras de presidente e de gerente-geral, reside em uma questão sexista: as mulheres ainda são alvo de preconceito de gênero.

No entanto, pelo menos na esfera do petróleo, indústria tradicionalmente de homens, o Brasil se tornou uma exceção. Primeiro, foi eleita a presidente Dilma, ex-ministra de Minas e Energia, ex-presidente do conselho de administração da Petrobras e a quem são encaminhadas para deliberação as recomendações do Conselho Nacional de Política Energética.

No seu segundo ano de governo, ela escolheu a engenheira Graça Foster como a primeira mulher a comandar a Petrobras, a maior empresa da América Latina. Mais recentemente, Dilma empossou a engenheira Magda Chambriard como diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Assim, uma decide os rumos a serem seguidos no setor, outra opera a maior concessionária no país e a terceira regula e fiscaliza as atividades de petróleo e gás natural em todo o território nacional.

Espera-se que o resultado dessa gestão seja positivo não só pelo exemplo que poderá trazer para outros setores da economia como para ofuscar o lamentável desempenho de Cristina Kirchner, na vizinha Argentina, que, após uma série de medidas equivocadas como o congelamento de preços que afastou investimentos do setor e condenou a indústria do petróleo local à estagnação e à obsolescência, resolveu agora reestatizar a YPF para encobrir o seu fracasso.

Expurgos na China - GILLES LAPOUGE


O Estado de S.Paulo - 27/04/12


Fatos estranhos continuam a ocorrer na China. Alguns falam de expurgo. Outros de acertos de contas. Outros ainda acreditam em "disputa selvagem pelo poder". O certo é que cabeças rolam ou correm o risco de tombar. E são cabeças muito próximas do "céu".

O céu é o Comitê Permanente do Politburo, composto por nove homens, os verdadeiros senhores da China. O comitê deve ser renovado nos próximos meses. E sete dos nove membros serão substituídos, entre eles o secretário-geral, que atualmente é o presidente da república, Hu Jintao.

É compreensível que as batalhas para ascender a esse santuário sejam na ponta da faca. Há alguns dias, um dos pretendentes a um posto no Comitê Permanente, o chefe de Chongqing - de 12 milhões de habitantes em sua área urbana -, Bo Xilai, foi afastado: um candidato a menos.

Além disso, a mulher dele foi acusada pela mídia oficial de ser responsável pela morte de um britânico que sabia muito sobre as atividades financeiras tenebrosas da família de Bo Xilai.

Um problema resolvido. Mas ontem ficamos sabendo que a Justiça agora está concentrada em outra presa, ainda mais grandiosa que Bo Xilai. Trata-se de Zhou Yongkang, que faz parte dos famosos "nove" e cuja carreira está em risco. Quem é ele? Zhou é o chefe do serviço secreto chinês. Ele detém o controle da Justiça e da repressão aos dissidentes. E do que é acusado? Oficialmente, será punido porque, em março, numa reunião secreta dos "nove", ele assumiu a defesa de Bo Xilai, que acabou de ser suspenso.

É possível também que Zhou Yongkang na realidade esteja sendo castigado por um pecado ainda mais grave, o pecado da corrupção. Por um pudor misterioso, Pequim não gosta de falar de corrupção.

Mas os internautas da China, que são numerosos e furiosos, não têm pudor e fornecem detalhes sobre as operações escabrosas desses altos dignatários.

Ficamos sabendo, por exemplo, que Zhou Yongkang desviou, com a ajuda do seu filho Zhou Bin, dezenas de milhões de dólares e possui em Pequim 18 propriedades, uma delas valendo US$ 33 milhões.

Quanto a Bo Xilai, cuja mulher é acusada de assassinato, os desfalques eram em família, dizem os internautas. Ele tinha um salário modesto, US$ 19 mil anuais. Para governar uma cidade de 12 milhões de habitantes, não é uma boa remuneração. Mas devia ser um gênio das finanças, pois sua fortuna chega a US$ 198 milhões.

A família era muito próspera. Suas quatro cunhadas, seu irmão Bo Xiyong e seu filho Li Wangzhi administram várias empresas no exterior. Bo Xiyong controla essas empresas no Caribe. Tem diversos passaportes e, de acordo com o dia, ele muda de nome, para Li Xueming, Brendan Li ou Li Xiaobai.

Zhou Yongkang sofrerá sanções duras ou humilhantes? Segundo os internautas, Pequim vai preferir uma solução mais discreta: daqui a alguns meses ele deverá se aposentar. Com que salário? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Presidenta por decreto - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 27/04/12


RIO DE JANEIRO - Amigos me alertam para um decreto-lei recém-publicado no "Diário Oficial da União": "A Presidenta da República faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte lei: Art. 1º. As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido. [...]

Art. 3º. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 3 de abril de 2012. Dilma Rousseff. Aloizio Mercadante. Eleonora Menicucci de Oliveira".

Tal lei serve apenas à teimosa vontade da presidente Dilma de ser chamada de presidenta, na ilusão de, com isso, estar valorizando as mulheres. E não adianta dizer-lhe que não é assim que a língua funciona. O problema é que, com a medida, ela obriga a que se parem as máquinas e se corrijam a jato todos os dicionários da língua portuguesa.

Porque, se Dilma agora é presidenta por decreto, também quero ser chamado de jornalisto, articulisto, colunisto ou cronisto.

Idem, os calistas, juristas, dentistas, arquivistas, criminalistas, ortopedistas, ginecologistas e médicos-legistas do sexo masculino, todos podem requerer diplomas de calistos, dentistos, arquivistos, criminalistos, ortopedistos, ginecologistos e médicos-legistos. O próprio Aloizio Mercadante, ministro da Educação e cúmplice da presidenta nessa emboscada contra a língua, deve exigir ser chamado de congressisto quando voltar ao Senado.

Pela novilíngua da presidenta, o sindicalista Lula teria sido um sindicalisto. Luiz Carlos Prestes, um comunisto. Millôr Fernandes, um humoristo. Luizinho Eça, um pianisto. Guimarães Rosa, um romancisto. O cego Aderaldo, um repentisto. Ayrton Senna, um automobilisto.

Dilma acha pouco ser presidenta. Quer ser também linguista.

CLAUDIO HUMBERTO

“O bolo precisa crescer para ser repartido depois”
Presidente Dilma, plagiando uma velha máxima da ditadura sobre distribuição de renda

NEGÓCIOS DE EX-AUXILIAR DE HARTUNG SOB SUSPEITA

A Operação Lee Oswald, da Polícia Federal, que prendeu prefeito, vereadores e 15 empresários, descobriu que Presidente Kennedy (ES) era uma espécie de entreposto de negócios suspeitos. Há indícios de que uma empresa que tem como sócio José Teófilo, ex-secretário da Fazenda do governo Paulo Hartung (PMDB), teria sido beneficiada com informação privilegiada: comprou terrenos a preço de banana, no município, para vendê-los poucos dias depois com lucros milionários.

PULO DO GATO

Entre a compra e a venda, foram anunciados investimentos de quase R$ 3 bilhões na região, supervalorizando os terrenos de José Teófilo.

TEVE MAIS

Paulo Hartung concedeu milionária isenção fiscal à empresa Ferrous, que comprou os terrenos de José Teófilo, valorizando-os ainda mais.

ESTÃO NOS AUTOS

Todas as operações de compra e venda do ex-secretário da Fazenda José Teófilo estão listadas no processo da Operação Lee Oswald.

SEM CONTATO

Esta coluna não conseguiu localizar o ex-secretário José Teófilo. Seu partido, PSDB, inclusive informou, como dele, telefones inexistentes.

PAGOT ACUSA VALDEMAR, MAS O INOCENTOU EM 2011

Fora do PR, o ex-diretor-geral do Dnit Luiz Antonio Pagot acusou o “dono” do partido, deputado Valdemar Costa Neto (SP), de ser o agente dos interesses da construtora Delta no órgão. Mas, no depoimento que fez ao Senado, em 2011, Pagot negou qualquer interferência de Valdemar, várias vezes denunciado na imprensa. Com a corda no pescoço, Pagot poderia ter se salvado da caneta de Dilma.

BRIGADA

O PT saiu na frente com tropa de choque cibernética no Twitter para “evitar distorção nas nossas posturas”: @PTnaCPMI. 

QUENTÃO

Pelo baixo volume dos trabalhos, a CPMI do Cachoeira só vai desaguar mesmo em junho, quando as quadrilhas dançam. 

A COR DO BOLSO

Nem os louros de olhos azuis dos EUA entenderam: o Dieese, dos sindicatos, apurou inflação de 10,8%. O IBGE, do governo, 6,2%. 

TESTEMUNHA OCULAR

Na decisão polêmica no STF, o ministro Joaquim Barbosa é a prova viva de como é demagógica e desnecessária a exigência de cotas raciais na universidade. Quem 

se esforça e tem méritos se estabelece.

CONVOCAÇÃO GERAL

Presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO) reage com força sobre convocar o governador do Rio, Sergio Cabral, a depor na CPI de Cachoeira: “Convocar por que, se não há indício de favorecimento? Se for assim, tem de trazer meio mundo, ministro, presidência, o Lula”. 

A VOZ DAS RUAS

O ministro Ricardo Lewandowsky, que é atento à opinião pública, não recebeu ontem o grupo com 58 mil assinaturas pedindo julgamento do mensalão após audiência confirmada pela Transparência Brasil. 

SEM CONTROLE

Presidente da CPI do Ecad, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) diz que o órgão “não tem controle”. A CPI apurou acusações de cartel, enriquecimento ilícito, fraude e apropriação indébita.

LICENÇA PARA 2014

De olho nas eleições a presidente da República de 2014, e com sinais de tédio, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) planeja se licenciar por três meses do Senado para bater pernas País afora.

CRUZ OU ESPADA

O PT está entre a cruz e a espada em Campina Grande (PB). 

Declarou apoio à irmã do ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades), do PP, e recebe pressão de Vital do Rêgo, da CPI do Cachoeira, para apoiar o PMDB.

RIOS DE SANGUE

O deputado Fernando Ferro (PT-PE) cita um clássico de Cazuza para dar o tom da briga no PT pela candidatura a prefeito de Recife: “A nossa briga a gente inventa... 

Vão correr rios de sangue”, completa.

PIZZA NA CERTA

Para o ex-senador Wellington Salgado (PMDB), que participou de várias CPIs, a do 

Cachoeira está fadada à pizza: “Nem a oposição tem interesse, nem o time da governabilidade”.

PENSANDO BEM...

...Cachoeira que molha Delta também pode respingar na Camargo Corrêa, Queiroz Galvão... 

PODER SEM PUDOR

CUIDADOS REDOBRADOS

Ao saber que estava sendo filmado pelo mesmo cinegrafista que havia flagrado o aspone Marco Aurélio Garcia fazendo top-top, e era entrevistado pela jornalista cuja pergunta resultou no “relaxa e goza” de Marta Suplicy, que era ministra do Turismo, o então senador Renato Casagrande (PSB), hoje governador capixaba, ficou mais cauteloso:

– Acho que não quero mais ficar aqui, não. Tenho de ter mais cuidado ainda com o que falo e o que faço com as mãos...

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Por 10 x 0, Supremo libera cota racial em universidade
Folha: STF diz que cotas raciais são legais
Correio: STF aprova o sistema de cotas para negros
Valor: Mesmo com economia fraca, renda real tem forte avanço
Estado de Minas: Cuidado com as armadilhas
Zero Hora: Estado paga R$ 1.451 a magistério, mas não cumpre a lei do piso

quinta-feira, abril 26, 2012

Cacá é o cara - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 26/04/12



Cacá Diegues, nosso cineasta que completa 50 anos de carreira em 2012, foi convidado para presidir o Júri da Caméra d’Or do Festival de Cannes, que começa dia 16 de maio. O Brasil é representado no festivalzão francês, este ano, pelo longa “Na estrada”, de Walter Salles. “A música segundo Tom Jobim”, de Nelson Pereira dos Santos, será exibido numa mostra hors-concours.

Slim no Rio

O magnata mexicano Carlos Slim, apontado pela revista americana “Forbes” como o homem mais rico do mundo, passa uns dias no Rio.

Silhueta

O deputado petista CândidoVaccarezza, 56 anos, médico, pretende fazer uma gastroplastia para reduzir o peso.

Rumo a Paris

Paulo César de Oliveira Campos será nosso novo embaixador em Paris.

Plástica

Elba Ramalho, a nossa querida cantora, pôs prótese de silicone nos seios.

Deus castiga

A Espanha, que ontem deportou mais 15 brasileiros, vive um inferno astral. Crise na economia, crise com a Argentina, crise com a Monarquia e derrotas do Barça e do Real Madrid.

História do Twitter
Pelo selo Portfolio Penguin, está para ser lançado em vários países — no Brasil, inclusive — um livro sobre a história do Twitter. É escrito por Nick Bilton, colunista de tecnologia do “New York Times”.

Calma, gente
O reitor Carlos Levi convocou uma reunião do Conselho da UFRJ para hoje. Vai insistir na concessão do título de doutor honoris causa para Lula, a ser entregue dia 4 com outras universidades fluminenses. Mas o assunto continua gerando polêmica.

Segue...

Um dos conselheiros da UFRJ distribuiu ontem uma carta aos colegas. Nela, ponderou que, apesar de todos os méritos do expresidente, o assunto em discussão não é do interesse da universidade, “mas de um partido que está no governo”.

Aliás...

O Conselho Universitário da UFF, em Niterói, aprovou ontem o título a Lula. Foram 56 “sim”, seis “não”, 12 votos em branco e um nulo.

Nem vem ao Rio
A 38ª Vara Criminal do Rio decidiu que o traficante Nem, da Rocinha, enjaulado em Campo Grande, MS, virá à cidade dia10. É que a ideia de a audiência ser feita por videoconferência esbarrou na Defensoria Pública do Mato Grosso do Sul, que se recusoua prestar o atendimento.

Dança dos microfones

A Rádio Globo está contratando Luiz Penido, da Tupi, para o lugar de José Carlos Araújo, que vai para a Rádio Bradesco/Band.

Volta ao samba

O cenógrafo Mário Monteiro vai assinar, com Kaká Monteiro e Cahê Rodrigues, o desfile da Imperatriz Leopoldinense.

Livro in Rio

Ziraldo reclama de Eduardo Paes por não ter autorizado o uso de galhardetes para divulgar o 13º Salão Brasileiro de Literatura Infanto-Juvenil: — Com os milhares de galhardetes que o Rock in Rio espalhou, parece que rock é mais importante do que livro...

Verba para congresso

A Riotur repassou R$ 150 mil à Associação dos Delegados Federais para a realização do congresso da classe, no Rio.

Garota de Ipanema

Ellen Gracie, ministra aposentada do STF, passeava ontem de vestido curto, por volta de 20h, com seu cachorrinho em Ipanema.

No chão - SONIA RACY


O ESTADÃO - 26/04/12


Pesquisa encomendada pela Prefeitura, guardada a sete chaves, indicaria que, no embate público contra a abertura do Shopping JK, Walter Torre ganha até agora em termos de imagem.

Kassab estaria sendo considerado culpado pelo atraso na liberação das licenças requeridas pela construtora.

Chão 2
Talvez seja porque ainda não veio a público fatos como o de a WTorre ter fracassado na compra de terreno necessário para construção do viaduto que liga a avenida JK à Marginal Pinheiros.

O dono simplesmente se recusa a vendê-lo. E sem isso…

Chão 3
E quem pedala pelos 2,4 km que a WTorre já construiu entre as estações Hebraica/Rebouças e Jaguaré/Villa-Lobos tem enfrentado um pequeno problema: sem passarelas de acesso, não há como sair do trecho.

Trovões
Firmino Sampaio deve ser o novo presidente da Light.

Contra vontade de Aécio.

Mantido
O PSDB bem que tentou, anteontem à noite, tirar do ar inserções de Chalita na TV.

A Justiça indeferiu a liminar.

Martelando
Assessores de Haddad comemoram a facilidade com que o ex-ministro vem repetindo frases de efeito.

Entre as prediletas, “tivemos quatro anos de governo progressista, com Marta, e oito de governo ‘regressista’, de Serra e Kassab”.

Estranho no ninho
Quem acompanha o organograma da campanha de Serra em SP reparou: Edson Aparecido, por enquanto, é o único alckmista num time formado por serristas de raiz.

Roqueiro erudito
Roger Waters volta ao Brasil no ano que vem. E não será com seu The Wall, mas com uma… ópera.

Sim, o moço – durante passagem por Sampa – procurou Beatriz Franco do Amaral, do Teatro Municipal, mostrando interesse em encenar sua Ça Ira, sobre a Revolução Francesa.

Erudito 2
O músico, que foi conhecer o teatro, passou anônimo pelo público e por funcionários presentes. A negociação é para que a apresentação aconteça na Virada Cultural do ano que vem.

$$$
Uma grande agência de publicidade fez proposta milionária para Silvio Santos pintar os cabelos.

O empresário-apresentador ainda não se decidiu.

Cheia de charme
Narcisa Tamborindeguy quer fazer o Mulheres Ricas 2, mas sob uma condição: “Sem gente do tipo da‘Valdirene do Frango’. Afinal, o programa é para mulheres ricas, não farofeiras!”, explica, em alusão mais do que clara aVal Marchiori.

Noite feliz
Ainda falta algum tempo, mas já está confirmado: São Paulo será sede da maior exposição de presépios a céu aberto do mundo – que serão espalhados pelas ruas da cidade. Abertura? Dia 5 de dezembro. Com apoio da Arquidiocese paulistana.

Na frente
Bertoldo Salum lança livro sobre sua trajetória e a saga de 135 anos da migração libanesa para o Brasil. Com renda revertida às sociedades Cedro do Líbano e A Mão Branca. Hoje, no Clube Monte Líbano.

Kat Maconie está no Brasil para firmar nova parceria. A designer de sapatos londrina fechou com a Triya e apresentará suas criações no próximo desfile da marca.

Fotos inéditas das obras de Niemeyer registradas por Jorge Sato. É a mostra que abre hoje na Tripolli Galeria.

Benoît Rivero, editor-adjunto da coleção francesa Photo Poche, e Eduardo Muylaert, advogado e fotógrafo, batem papo com o público sobre… fotografia. Terça-feira, no MIS.

Lúcio Carvalho abre a mostra Invasões. Hoje, na Monica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria.

Luan Santana lança novo CD. Hoje, no Villa Country.

A TAM Viagens avança. Acaba de inaugurar duas franquias nos supermercados Pão de Açúcar: de Alphaville e da Vila Clementino.

O Hotel Fasano Boa Vista entrou na Hot List 2012 da edição americana de maio da Condé Nast Traveller. É o único brasileiro.

Indagado, segunda, no programa Jogo Aberto, da Band, se tem algum amuleto da sorte, Barrichello se desconcertou. Disse que não. E se tivesse?

A agulha da bússola nos bicos das pombas - FERNANDO REINACH


O ESTADÃO - 26/04/12


Tem sido mais difícil que achar uma agulha em um palheiro. Apesar de uma pomba ser bem menor que um monte de palha, identificar a agulha que controla a bússola no corpo delas tem tirado o sono de cientistas.

Quase 20% das espécies de aves voam grandes distâncias todos os anos. Muitos habitantes do Hemisfério Norte passam o verão no Sul, voando milhares de quilômetros. A orientação durante o voo é crucial. Se o animal não chegar ao destino correto, a morte é certa. Esses voos podem durar semanas e seu sucesso depende da capacidade de orientação durante o dia, a noite e quando o céu esta encoberto. E sem dispor das tecnologias básicas de navegação - astrolábio, bússola, relógio ou GPS.

Essa capacidade intrínseca de orientação das aves já despertava a curiosidade de Aristóteles e Homero. Na Bíblia já encontramos a dúvida: as aves são orientadas por Deus ou são capazes de identificar o Sul? Durante séculos, antes do telefone, a capacidade dos pombos de voltar para seu lugar de origem fazia parte de nossa sofisticada tecnologia de comunicação. Pombos-correios eram levados a cidades distantes, bilhetes eram amarrados nos seus pés e a ave era solta. Ao voltar para sua cidade de origem, levava notícias frescas. Todo general de destaque tinha seu pombo-correio.

Hoje sabemos que os pombos possuem dois mecanismos de orientação. Um depende do sistema visual. Avaliando a posição do Sol e das estrelas, ele pode orientar o voo. Outro é uma bússola que permite à ave determinar a orientação e a intensidade do campo magnético a cada instante. Ambos foram descobertos analisando o voo de pássaros em condições em que a posição do Sol e das estrelas foi modificada artificialmente (em um planetário) ou em que um campo magnético artificial (um forte ímã) foi colocado na proximidade do pombo.

Se por um lado os cientistas sabem que o primeiro sistema depende do olho e de processos visuais, o órgão responsável por detectar o campo magnético (a bússola) foi mais difícil de achar.

Há quase dez anos, duas descobertas levaram os cientistas a crer que a bússola estava no bico. Primeiro um grupo descobriu um nervo que leva informações do bico ao cérebro. Quando esse nervo é cortado, a pomba perde a capacidade de se orientar no campo magnético, indicando que a bússola estava no bico. Mas como a ave detectaria o campo magnético? Nas bússolas, ele é detectado por uma agulha imantada que muda de direção, orientando-se no campo magnético da Terra.

Em 2003, foi descoberto que no bico das pombas há seis locais (três de cada lado da parte superior) em que se concentravam células com minúsculos cristais de ferro. Era desse local que partiam os nervos que levavam a informação sobre o campo magnético para o cérebro. Isso sugeria que os cristais de ferro seriam as agulhas. A proposta era que esses cristais, que estariam dentro dos neurônios, funcionariam como uma agulha de bússola. Sua mudança de orientação seria detectada pelos neurônios e transmitida ao cérebro. Todos estavam felizes. A agulha da bússola da pomba havia sido encontrada.

Mas agora um grupo de cientistas resolveu investigar o local exato em que esses cristais de ferro (a suposta agulha da bússola) estão localizados. E, para surpresa geral, eles descobriram que os cristais de ferro não estão no interior de neurônios, mas no interior de macrófagos, um tipo de célula que até agora nunca foi envolvida com a transmissão de impulsos nervosos.

Ficou a dúvida: será que essas partículas de ferro são mesmo as agulhas da bússola ou será que uma outra estrutura presente no bico é capaz de detectar o campo magnético?

A frustração é grande. Quando tudo parecia fazer sentido, aparece um dado novo para estragar a festa. Mas o progresso da ciência é assim mesmo, dois passos para frente, um para trás. A vantagem é que agora o palheiro ficou menor. Se antes os cientistas estavam procurando a agulha em todo o corpo das pombas, agora a investigação esta centrada na parte superior do bico. Ele parece pequeno, mas fica enorme quando examinado com um microscópio. Só nos resta esperar...

Juntos, só por Lula - DENISE ROTHENBURG


Correio Braziliense - 26/04/12


A chegada de Lula a Brasília soou como uma lufada de ar político para os petistas que andam com muita saudade dessa brisa. Foi tanta conversa que o lançamento do filme Pela primeira vez, do jornalista e fotógrafo Ricardo Stuckert, terminou em segundo plano. Foi esse lançamento que levou Lula à capital da República. Afinal, Stuckert acompanhou todo o período de governo do ex-presidente e, agora, retrata a eleição da primeira mulher eleita para comandar o país. Lula, invariavelmente leal ao amigos, não faria desfeita a ele.

O assunto principal da viagem, entretanto, foi bem outro. Primeiro, o almoço com Dilma Rousseff, onde discutiram a CPI do Cachoeira, a economia, a eleição municipal, a popularidade da presidente criada por Lula ao longo de seu segundo mandato presidencial. É fato que Dilma e Lula têm visões diferentes sobre vários pontos da administração pública e ela está mais popular do que seu próprio criador. Mas errará feio quem apostar num rompimento ou numa relação de desconfiança ou de profundo mal-estar entre os dois. Dilma e Lula vão muito bem, obrigado. Com mais alegrias do que dissabores na convivência.

O que "pega" nesse bolo é o PT. Ontem mesmo, Lula nem tinha desembarcado em Brasília, mas os petistas já estavam em festa à sua espera. Ficaram frustrados ao saber que o programado almoço com a bancada tinha sido cancelado em nome de um encontro restrito a poucos convidados, no Palácio da Alvorada. Em conversas reservadas, muitos no PT dizem que Dilma precisa tirar "a carranca". Comentam que, ao lançar o programa no Nordeste, ela não deixou de lado a expressão de impaciência. O mesmo ocorreu no Palácio do Planalto, quando do anúncio do PAC da Mobilidade Urbana, na última terça-feira.

Por falar em PT...

Diante de tanta expressão de mau humor, associada à falta de convites para aquela conversa mais descontraída, mas nem por isso menos importante, os petistas não negam a saudade que sentem de Lula e do seu jeito leve de se relacionar com os políticos. E, diante disso, eles chegam a confessar que hoje só estão ao lado de Dilma por causa de Lula. E por Lula. E, também porque é melhor alguém do PT, ainda que seja de mau humor, do que um governo de oposição.

De olho na permanência no poder, os petistas não negam fôlego na hora de defender o governo Dilma no plenário. Ontem, por exemplo, nos bastidores da sessão que tratou da votação do Código Florestal, muitos comentavam à boca pequena que estava cada vez mais clara a existência de uma disputa entre PT e PMDB. Enquanto os petistas cerravam fileiras em prol do texto aprovado no Senado, defendido pelo governo, Henrique Eduardo Alves, o líder do PMDB, bradava a plenos pulmões o voto em favor do texto do deputado Paulo Piau (PMDB-MG).

Por falar em PMDB...

A defesa do texto de Piau coloca Alves em sintonia com a expressiva bancada ruralista da Casa, que contará votos na hora de escolher o sucessor de Marco Maia (PT-RS) no papel de comandante. Mas o afasta de parte do PT e da presidente Dilma. Não por acaso, ontem no plenário da Câmara, houve quem avaliasse a votação do Código como um embate entre Dilma e o vice-presidente Michel Temer. Não vamos chegar a tanto, mas a distância entre PT e PMDB está cada dia maior.

De olho no esfriamento da relação, os peemedebistas vão marcar um jantar das duas bancadas para a semana seguinte ao feriado de 1º de maio. É hora de "amarrar os bigodes". Os peemedebistas também têm saudade dos tempos em que ocupavam melhores espaços na Esplanada: o governo Lula. Nesse sentido, PT e PMDB têm muito em comum: gostam do poder e estão com saudade de Lula. Não é à toa que a festa no Museu da República ontem à noite reuniu tanta gente. É saudade dos tempos em que a política cantava no Palácio da Alvorada. Agora, para os políticos, resta a CPI instalada ontem, um colegiado que ninguém ainda é capaz de dizer para onde irá.

Por falar em CPI...

Uma excelência comentava dia desses que iria dizer à "dona da pensão", no caso, Dilma, que a CPI seria um tiro no pé do PT. A resposta dela, depois da conversa foi: "E eu com isso?" O assunto CPI na sala presidencial terminou ali.

Os petistas não negam a saudade que sentem do ex-presidente e do seu jeito leve de se relacionar com os políticos. Alguns confessam que só estão ao lado de Dilma por Lula e por pragmatismo: melhor um presidente da República petista, ainda que seja de mau humor, do que um governo de oposição

PT na cabeça - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 26/04/12

Os petistas escolheram alguns de seus melhores quadros para integrar a CPI, enquanto o PMDB escalou parlamentares do segundo time. Essa diferença de postura é decorrência de posição anterior: o PMDB era contra a criação da CPI, e o PT, a favor. Agora, a cúpula do PMDB jogou toda a responsabilidade nas costas dos petistas. O recado do principal aliado do governo Dilma é claro: quem criou a CPI que cuide dela.

Resistências técnicas
A redução dos juros determinada pela presidente Dilma não foi adotada sem resistências pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal. Os técnicos das duas instituições têm dúvidas sobre a sustentabilidade da decisão. Eles se perguntam de onde virão os fundos para garantir tal alavancagem de crédito. E estão prevendo que ela vai levar a perdas no resultado de ambos no final deste exercício. Num deles, a previsão é de uma queda nos lucros de R$ 3 bilhões. No caso do financiamento da casa própria, a queda dos juros vai reduzir drasticamente a margem da Caixa. Mesmo assim, fizeram o que a presidente mandou.

"Esta CPI está mais para uma CPI dos Anões do Orçamento” — Miro Teixeira, deputado federal (PDT-RJ), sobre os desdobramentos da CPI do Carlos Cachoeira

SOLIDARIEDADE. O presidente do PT, Rui Falcão, no encontro com o goverrnador Agnelo Queiroz (DF), na foto, garantiu que ele não será abandonado. Sobre a Delta em Brasília, Agnelo relatou que a empresa opera na cidade por decisão judicial e que o governo paga cerca de 50% abaixo do preço médio da coleta de lixo e 10% menos no caso da varrição. Falcão esteve com o governador para simbolizar publicamente que ele não está só.

Leitura
Para o PT, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, agiu em autodefesa ao abrir inquérito contra o governador Agnelo Queiroz. Ele demorou dois anos para tomar providências no caso do senador Demóstenes Torres (GO).

É sempre assim...
Até a eclosão do escândalo do contraventor Carlos Cachoeira, e a criação da CPI, a agenda política do governo era de temas relacionados ao pacto federativo. Agora, a investigação vai ditar o ritmo e amarrar o trabalho no Congresso.

Lula e os medos de Dilma
Durante o encontro, ontem no Alvorada, o ex-presidente Lula voltou a demonstrar que está despreocupado com a CPI. Mas a presidente Dilma continuou batendo na tecla de que ela pode ser desastrosa para seu governo. Seus temores são dois: a CPI pode levar o escândalo para dentro do governo via Ministério dos Transportes; e pode paralisar o Congresso, atrapalhando a calendário de votações.

PMDB 1 x 0 PT
O PMDB liderou o bloco de partidos que aprovou o novo Código Florestal. O PT, que queria manter o texto do Senado em detrimento do relatório do deputado Paulo Piau (PMDB-MG), ficou no canto do ringue, alinhado ao PSOL e ao PV.

Governo x governo
Os governistas que derrotaram a posição da presidente Dilma na votação do Código Florestal reagem contra a afirmação de que o governo perdeu. "Perdeu como? Eu sou governo e ganhei", diz o líder do PMDB, Henrique Alves (RN).

OS SENADORES Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Pedro Taques (PDT-MT) e o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) fecharam posição comum ontem durante almoço. Serão contrários às tentativas de usar a CPI para promover acertos de contas políticos e regionais.

POLIGLOTA. O ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores) fez ontem uma intervenção em inglês na reunião da União Africana. Como o português é uma das línguas de trabalho da organização, os países lusófonos estranharam a sua escolha.

O PSB, o PDT e o PCdoB racharam na votação do Código Florestal. O PT ficou só.

Delírio e mau caráter - CONTARDO CALLIGARIS




Cada um é moralmente responsável pela qualidade da religião que escolhe ou do delírio que ele elabora



1) CONTINUO pensando em Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, o canibal do agreste. Ele tem uma visão do mundo que justifica sua vida e seus atos.

Com suas duas companheiras, ele era encarregado de uma missão divina: devia encontrar mulheres perdidas e purificá-las. Essa purificação passava pelo assassinato e pela ingestão da carne das escolhidas. A visão e a missão de Jorge eram delirantes, mas o que é um delírio?

O senso comum e a psicopatologia concordam: delírio é uma convicção inquestionável, incorrigível e muito pouco plausível. Além disso, um delírio não é apenas um exercício de fantasia, ele preenche a função (crucial) de dar sentido à existência do indivíduo que delira.

São poucas as pessoas saudáveis a ponto de conseguir viver sem se atormentar com a necessidade de resolver, como se diz, o enigma da vida. Ou seja, são poucas as pessoas para quem a experiência concreta se justifica por si só, pela alegria de viver. A maioria precisa recorrer a crenças que digam por que e para o que estamos aqui.

Ora, as crenças que explicam nossa razão de estar no mundo são todas inverossímeis. Claro, a "missão" canibalesca de Jorge nos parece mais estranha do que a crença de um cristão, mas isso pouco tem a ver com a verossimilhança. Como dizer o que é mais provável, que o filho de Deus tenha sido crucificado para nos redimir ou que Deus nos encoraje a redimir os pecadores filtrando-os pela nossa digestão? No fundo, a grande diferença é que as ideias de Jorge são só dele e de suas duas cúmplices, enquanto as ideias de um cristão são compartilhadas por 2 bilhões de pessoas. Por mais que seja pouco plausível, uma crença cessa de ser delírio quando ela se socializa.

A definição de delírio (no "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais", DSM-IV) diz que uma pessoa não pode ser diagnosticada como delirante se sua crença é "normalmente aceita por outros membros da cultura ou da subcultura dessa pessoa" -"um artigo de fé religiosa" não pode ser um delírio.
Síntese paradoxal: uma religião individual é um delírio, e um delírio coletivo deixa de ser delírio e se torna uma religião.

É um pouco frustrante dispor só de critérios quantitativos para decidir o que é delirante. Mas talvez a capacidade de compartilhar uma crença com outros já seja o sinal de uma certa "normalidade".
2) Jorge e suas companheiras são loucos e delirantes. Será que a loucura e o delírio dispensam qualquer juízo moral? Será que, moralmente, todo delírio se vale?

Não estou convencido disso. Entendo que a urgência de dar sentido à vida leve alguém a escolher uma religião ou, se ele não conseguir, a elaborar um delírio próprio. Mas cada um é responsável pela qualidade da religião que escolhe ou do delírio que ele elabora.

Comparemos religiões. Posso acreditar que Deus me reconhecerá como seu filho à condição que eu leve uma vida ilibada e, a cada noite, eu me açoite, no silêncio do meu quarto. Ou, então, posso acreditar que ele me reconhecerá como filho à condição que eu desmascare, prenda e execute os pecadores, mundo afora.

Comparemos delírios. Posso acreditar que Deus quer que eu mude de sexo. Ou posso acreditar que Deus me encarregou de andar com pinças e bisturi no bolso, para mudar o sexo dos outros.
Conclusão: uma religião ou um delírio segundo os quais os outros deveriam pagar para que MEU mundo faça sentido são, no mínimo, provas de mau caráter.

3) Dúvida diagnóstica. Os canibais do agreste chamaram a atenção da polícia quando usaram o cartão de crédito de uma das vítimas. Isso era também parte do "ritual de purificação"?
Consideremos ainda uma frase do memorial de Jorge, descrevendo o fim da primeira das três vítimas: "Eu, Bel e Jéssica nos alimentamos com a carne do mal, como se fosse um ritual de purificação, e o resto eu enterro no nosso quintal, cada parte em um lugar diferente".

Em tese, um delírio diria que aquilo ERA, sem sombra de dúvida, o ritual de purificação -nada de "como se fosse".

Se o tribunal me consultasse como perito, talvez eu alegasse o estelionato e essa frase para afirmar que Jorge não é um louco, mas um perverso, que manipulou duas abobadas e deixou alguns escritos, tudo com a intenção de urdir crimes sinistros e de ser reconhecido (e assim "desculpado") como louco.

Carga pesada - DORA KRAMER

 O Estado de S.Paulo - 26/04/12


A requisição para exame da CPI dos autos da Operação Vegas, iniciada pela Polícia Federal em 2007 e concluída no início de 2009, é tida como essencial por integrantes da comissão mista já instalada para investigar as ramificações do chamado esquema Cachoeira.

Considerada a "mãe" da Operação Monte Carlo, que resultou na prisão do bicheiro Carlos Augusto Ramos, pôs fim à carreira do personagem encarnado pelo senador Demóstenes Torres e motivou a criação da CPI, a Vegas pode levar à ampliação das investigações para caminhos ainda não explorados.

Especialmente no governo e no PT há evidente disposição a fazer carga sobre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel. A posição contrária do partido no momento é tática.

Por todo lado que se ande, com qualquer pessoa que se converse nos escalões elevados do Legislativo e do Executivo surge sempre a pergunta: por que Gurgel não tomou providência quando o inquérito da Vegas foi para o Ministério Público?

Ele poderia ter arquivado, requerido novas investigações ou encaminhado o material para o Supremo Tribunal Federal. Optou por não tomar nenhuma atitude e explicou que o fez no aguardo da conclusão da Operação Monte Carlo.

Esta, porém, não existia por ocasião da conclusão da primeira. Só começou em 2010.

Por isso a explicação do procurador é considerada insatisfatória. Não se lançam suspeições sobre sua conduta pessoal, mas existe sim a desconfiança de que alguma razão muito forte pautou a paralisia.

Os de boa-fé acreditam que o procurador simplesmente teria informações de que a PF iniciaria uma nova operação e, por isso, resolveu aguardar.

Os de má-fé disseminam a versão de que ele teria deliberadamente tentado proteger Demóstenes Torres pelo fato de o senador ser oriundo do Ministério Público.

Argumento frágil, na visão dos "neutros", porém igualmente curiosos a respeito: se fosse levar a questão esse lado, Roberto Gurgel teria mais motivos para expor que para resguardar o senador que por diversas vezes o atacou publicamente.

No ambiente de dúvidas, vicejam as especulações que só seriam dirimidas com eventual convocação de Roberto Gurgel à CPI. Não há nas conversas preliminares consenso quanto a isso.

No governo existe explícito desejo de que a comissão decida convocá-lo. Não se faz referência aberta ao fato, mas a realidade é que o procurador não ficou exatamente bem visto nesse setor ao ter qualificado no ano passado o mensalão como um "grave atentado à democracia".

Mas, deixando retaliações de lado, sobram desconfianças de que a cautela do procurador-geral possa indicar a existência de informações sobre contaminação do Poder Judiciário, ou mesmo do Ministério Público, no inquérito da Vegas.

E se houver base nessa suspeita, aí sim, haveria suporte para a ofensiva petista em defesa da CPI como tentativa de misturar nesse caldo o mensalão e atrapalhar o julgamento do processo.

Conjugado. Os trabalhos da CPI levarão seis meses. Terminam, portanto, em outubro, em cima das eleições municipais. Observados critérios de seriedade, para usar o mantra da estação, doerá em alguém.

No governo, na oposição ou em ambos.

No forno. Criada por lei aprovada no ano passado, a Comissão da Verdade deverá ser finalmente constituída em maio. No governo assegura-se que a demora nada tem a ver com a resistência de militares. Guarda, antes, relação com questões políticas.

Provavelmente relacionadas ao ajuste cirúrgico necessário à escolha dos sete nomes para o equilíbrio de forças na composição do grupo.

Redundância. Se o enriquecimento é "ilícito", a decisão da comissão de juristas que auxilia o Senado na reforma do Código Penal de torná-lo crime é um pleonasmo.

Bancos ainda na retranca - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 26/04/12


OS POVOS DOS mercados venderam ontem ações dos bancos brasileiros. Derrubaram assim seus preços e, por tabela, a Bovespa.

O mercado faz muxoxo porque o lucro dos bancos caiu no primeiro trimestre e não deve ser muito melhor até ao menos a metade do ano.

Aumentou o risco de calote, e o governo Dilma Rousseff faz campanha para diminuir o ganho das instituições. O "efeito Dilma" nem apareceu ainda nas estatísticas -deve pesar mais a partir de abril.

A inadimplência já pesou, e os banqueiros tiveram de colocar mais dinheiro de lado a fim de cobrir possíveis perdas. O mercado estima que a inadimplência não vai baixar bastante tão cedo. Em março, os números de atrasos de pagamentos apenas pararam de piorar, segundo os dados consolidados e divulgados ontem pelo Banco Central.

Mas os "spreads" foram menores já em março. Isto é, diminuiu a diferença entre as taxas que os bancos cobram para emprestar e aquelas que pagam para tomar emprestado. Mais muxoxo do mercado, dos donos do dinheiro, que negociam o grosso das ações na Bolsa.

Apesar da quedinha de março, os "spreads" continuam tão altos quanto em setembro de 2011. Foi em agosto que a Selic, a taxa "básica" de juros da economia, começou a cair. Mas foi então que se notou que a inadimplência era persistente.

O pessoal do Itaú, que divulgou anteontem balanço trimestral, disse que o banco terá de ser mais seletivo na concessão de crédito e que vai ter de fazer mais provisões ("reservar") para cobrir eventuais calotes. O Bradesco atribui a pequena expansão do seu lucro também à necessidade de se proteger de calotes.

Os bancos privados brasileiros estão mesmo seletivos, faz tempo. No balanço geral do crédito divulgado ontem pelo BC, vê-se que o aumento do estoque de crédito (dinheiro emprestado) das instituições privadas de capital nacional foi de 13,9% em 12 meses. No caso dos bancos públicos, o avanço foi de 24,6%.

É uma diferença brutal. Mas, no conjunto do setor financeiro, o avanço do crédito não acelera quase nada, embora ainda corra a boa velocidade, aumentando 19,3% nos últimos 12 meses.

Não é por causa do BNDES, que está emprestando menos porque a demanda do setor privado vinha sendo fraca. Banco do Brasil e Caixa estão segurando a peteca do crédito. Aliás, estão chutando a peteca para muito alto. Desde julho do ano passado vêm roubando mercado dos bancos privados.

E daí?

Bem, o governo está feliz porque, na sua opinião, "dobrou" os bancos privados, obrigou-os a baixar taxas de juros. Ainda é preciso ver quanto dinheiro foi emprestado a taxas menores na estatística de abril. Porém, a julgar pelas entrevistas de diretores e banqueiros na divulgação de balanços, os grandes bancos privados brasileiros dificilmente vão "correr para a galera".

Desde que começou a grande querela dos juros, os bancos privados dizem que estão meio na retranca devido à inadimplência. O Banco Central acha que a retranca foi excessiva, mas não exagera na crítica. O resto do governo pega muito mais pesado com os bancões. Mas tal campanha vai fazer a banca privada jogar mais no ataque? Ou os bancos estatais vão apenas compensar a retranca privada?

As facetas da CPI - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 26/04/12


A desconstrução em curso da empreiteira Delta parece ter o objetivo de tentar fazer com que ela desapareça do noticiário antes que a CPI do Cachoeira comece seus trabalhos.

Sair das obras do Maracanã, no entanto, não desviará a atenção das implicações que porventura existirem com políticos do Rio, nem deixar as obras da Petrobras apagará o rastro da empreiteira Delta pelo governo federal, notadamente no PAC, para o qual, ao final de 2011, era a principal fornecedora do programa, com contratos avaliados em mais de R$ 2 bilhões.

A prisão de seu diretor para o Centro-Oeste, Claudio Abreu, que, pelas gravações de conversas telefônicas, mais parecia um empregado de Carlinhos Cachoeira, não vai ter o dom de desfazer os "malfeitos", nem de restringir a ele as acusações contra a Delta.

A CPI terá espaço, por exemplo, para investigar qual a verdadeira relação do bicheiro com a empreiteira, pois cada vez mais essa promiscuidade dos negócios de ambos sugere que Cachoeira tem mais a ver com a Delta do que se suspeita.

A CPI começa com todas as investigações já feitas, e muita gente presa, e tudo indica que será difícil que novas revelações surjam, a não ser que as investigações sejam aprofundadas justamente onde a Polícia Federal e o Ministério Público ainda estão começando, que é o caso da Delta.

Além de tornar oficial o conteúdo das investigações anteriores, muito do qual já vazou, a CPI pode aprofundar aspectos das investigações.

O fato de a Corregedoria Geral da União (CGU) ter aberto um processo que pode resultar na declaração de inidoneidade da empreiteira não significa que os órgãos encarregados da vigilância do dinheiro público estejam cumprindo com o seu dever.

Um dos primeiros requerimentos da CPI deverá ser para que os órgãos fiscalizadores, como o Tribunal de Contas da União e a CGU expliquem por que não têm a capacidade de se adiantar aos fatos que são denunciados permanentemente pela imprensa e, como no caso da Delta, estão sempre a reboque das denúncias.

A capacidade de prevenção desses órgãos é praticamente nenhuma, e há uma tendência dentro da CPI para que uma de suas vertentes mais importantes seja a que vai definir novos procedimentos para a fiscalização das obras públicas e das licitações, para que se saia desta CPI com medidas concretas de melhoria do controle. Outra decisão que parece estar ganhando força dentro da CPI é não repetir o que já foi investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público nas operações Vegas e Monte Carlo.

O senador Pedro Taques, do PDT, por exemplo, um novato no Congresso e em CPIs, imagina um procedimento ideal: acha que não se deve convocar ninguém, muito menos o bicheiro Carlinhos Cachoeira, antes de a CPI receber os processos relativos às operações Vegas e Monte Carlo, para que todos os membros da comissão estejam bem preparados na hora do interrogatório.

Isso não impedirá, por exemplo, que as convocações de praxe aconteçam, e já está havendo uma corrida para registrar os primeiros pedidos dos partidos, que vão desde a convocação das figurinhas carimbadas da investigação, como o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o empresário Fernando Cavendish, a até mesmo uma acareação entre o ex-diretor do Dnit Luiz Pagot com o bicheiro, a quem acusa de ter manobrado para tirá-lo do posto.

A preocupação formal com os trabalhos da CPI parece mais presente do que em outras ocasiões, pois o desejo é que essa não seja apenas mais uma comissão de inquérito, mas deixe sua contribuição para avanços na área de fiscalização do dinheiro público.

Por isso está ganhando corpo a proposta do deputado federal Miro Teixeira, representante do PDT na Comissão Mista, de bloquear os bens dos principais acusados nos processos da Polícia Federal e do Ministério Público, para que o dinheiro desviado possa ser ressarcido aos cofres públicos em caso de condenação.

Outro aspecto formal que terá muita importância no decorrer dos trabalhos é um pedido a todos os órgãos públicos para que enviem seus documentos digitalizados no mesmo formato, a ser definido pelos técnicos do Prodasen (serviço de processamento de dados do Senado Federal), para que seja possível montar um banco de dados de fácil acesso para seus membros.

Na próxima quarta-feira haverá a primeira reunião administrativa para definir os rumos que a CPI tomará. Há uma preocupação com a forma, para não perder o conteúdo. O grupo independente não quer deixar que as apurações se percam em brigas partidárias e pretende agir suprapartidariamente, "doa a quem doer".

O senador Jarbas Vasconcellos, do PMDB, por exemplo, só está na CPI por uma gentileza da oposição. Embora não se alinhe no bloco aliado, ele pretende trabalhar não com o objetivo de condenar o governo, mas de desbaratar o esquema criminoso que foi montado pelo bicheiro goiano, que vai muito além de seus domínios geográficos. Vai ser difícil, no entanto, impedir que a CPI sirva de trampolim político tanto para governistas quanto para oposicionistas, pois ela nasceu de um desejo de vingança, e esse traço negativo não desaparecerá mesmo que o ex-presidente Lula, que queria se vingar originalmente de seus adversários goianos, o governador Marconi Perillo e o senador Demóstenes Torres, já tenha compreendido que junto com eles poderão cair aliados diversos.

Lula parece empenhado em reorganizar suas forças para a batalha que ajudou a montar, mas já perdeu a primeira queda de braço com o Planalto, que vetou seu relator preferido, o deputado Cândido Vaccarezza.

A presidente Dilma, discretamente, como é de seu estilo na Presidência, não pretende ficar refém de manobras políticas alheias e tratou de montar sua própria estratégia, escolhendo um relator de confiança de seu grupo político.

Já que o desfecho é inevitável, pelo menos está tentando minimizar os danos.

Sarkozy, o destruidor de mundos - DEMÉTRIO MAGNOLI


O Estado de S.Paulo - 26/04/12


"Imagine a França, durante uma crise, sendo liderada pelo triunvirato Mélenchon-Joly-Hollande", bradou o presidente Nicolas Sarkozy, referindo-se às indicações de voto de Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda, e de Eva Joly, dos Verdes, em favor de François Hollande, o desafiante do Partido Socialista. A visão, talvez perturbadora, nem se aproxima, porém, da perspectiva de uma França na qual a direção da oposição se transferirá para a Frente Nacional de Marine Le Pen. Entretanto, esse é um desenlace provável do ciclo eleitoral em curso, que abrange o segundo turno da disputa presidencial e as eleições parlamentares de junho. A responsabilidade cabe a Sarkozy - e à crise do euro.

Na sua campanha triunfante de 2007 o presidente aprendeu um truque político simples, que só demanda o desprezo pelos princípios sobre os quais se sustenta a democracia francesa. A artimanha consiste em reproduzir, um tom abaixo, o hino ultranacionalista da Frente Nacional, cantando as glórias da "França católica", articulando as noções de "identidade nacional" e "singularidade francesa", costurando sentenças trançadas em torno dos termos "imigrantes", "segurança" e "terrorismo". A operação funcionou cinco anos atrás, transferindo-lhe eleitores seduzidos pela extrema direita. Repetida nos últimos meses com alarido ainda maior, revelou-se inútil: Le Pen obteve 18% dos votos, superando o recorde histórico de seu pai, Jean-Marie, alcançado em 2002. A Frente Nacional concentrou sua campanha na promessa de ruptura com o euro e com a União Europeia, relegando a xenofobia a patamar secundário.

Pela primeira vez na História da Quinta República Francesa o presidente que busca a reeleição viu escapar a dianteira no turno inicial. Sob o impacto da crise do euro, o posto ficou com Hollande, que recebeu 28,6% dos votos, ante os 27,2% de Sarkozy. A diferença parece insignificante, ainda mais quando se compara o desempenho de Mélenchon com o de Le Pen: a Frente de Esquerda obteve 11% dos sufrágios, muito longe do que indicavam as pesquisas - e de sua meta de superar a extrema direita, recuperando o antigo eleitorado comunista. No domingo os estrategistas presidenciais adicionaram os votos de Le Pen aos de Sarkozy, chegando à soma de 45%, maior que o total do "triunvirato" da esquerda, de 42%. Segundo a aritmética, tudo dependeria do comportamento dos 9% de eleitores do candidato centrista François Bayrou. Política, contudo, não é aritmética.

O primeiro turno sugere somas mais pertinentes. A Frente Nacional e a Frente de Esquerda, linhas paralelas extremas da política francesa, encontram-se no pátio da rejeição à União Europeia (a "Europa libertina" de Le Pen, que é a "Europa neoliberal" de Mélenchon). Somados, Le Pen e Mélenchon representam 29% dos eleitores, mais que Hollande ou Sarkozy. A adição é eleitoralmente irrelevante, mas evidencia as dimensões da crise política emanada do tufão que se abate sobre a zona do euro.

A soma dos sufrágios do "triunvirato" da esquerda também tem sentido, pois Mélenchon e Joly indicaram o voto em Hollande. A missão do candidato social-democrata no segundo turno não é trivial: para atrair os eleitores da Frente de Esquerda, que rejeitam a "Europa neoliberal", ele se inclinará um pouco à esquerda, desenhando no ar a quimera de uma reforma da União Europeia. Na hipótese provável de sucesso, enfrentará como presidente o dilema insolúvel de se equilibrar entre os imperativos categóricos da Alemanha de Angela Merkel e as doces promessas que vendeu aos franceses.

A soma dos sufrágios de Sarkozy e da Frente Nacional é um exercício contábil impertinente. O partido da extrema direita, grande vitorioso do primeiro turno, consolidou as bases populares e operárias que no passado votavam nos comunistas, mas foram atraídas pelo ultranacionalismo de Jean-Marie após a queda do Muro de Berlim. Marine Le Pen, ao contrário de Mélenchon, classificou como equivalentes os dois rivais do turno final. Sua estratégia, proclamada publicamente, é alçar-se à condição de "chefe da oposição". Nas hostes de Le Pen nenhum dirigente oculta o desejo de assistir à falência política de Sarkozy e à fragmentação da coalizão de centro-direita.

Corretamente, Sarkozy interpretou o cenário do primeiro turno como "um voto de crise". Agora, sob o signo da crise, ele está condenado a radicalizar a estratégia que fracassou no turno inicial, caçando os eleitores de Le Pen com o laço da xenofobia. Na democracia, contudo, política é sobretudo linguagem. A renúncia a uma linguagem em nome de outra, estranha às próprias tradições, geralmente tem custos intoleráveis. Os sábios que cercam o presidente começam, tarde demais, a aprender essa lição, bem conhecida pelo ex-presidente Jacques Chirac, antecessor de Sarkozy no comando da centro-direita francesa.

Há uma década um desastre eleitoral tirou o socialista Lionel Jospin do segundo turno, provocando um embate direto entre Chirac e Jean-Marie Le Pen. Então Chirac se recusou a debater com o rival e concluiu com o Partido Socialista o acordo tácito do "cordão sanitário", pelo qual ambos rejeitariam alianças eleitorais com a extrema direita. O acerto funcionou: a Frente Nacional jamais conseguiu representação parlamentar e a centro-direita conservou suas credenciais democráticas.

Chirac foi o segundo herdeiro político de Charles de Gaulle. A complexa tradição gaullista tem um forte componente nacionalista, mas não combina com os impulsos quase fascistas da Frente Nacional. Sarkozy, o terceiro herdeiro, engajou-se no jogo perigoso da mistura, apropriando-se de elementos fundamentais da linguagem da extrema direita. Tudo indica que pagará o preço dessa opção. Entretanto, a fatura recairá também sobre o sistema político da democracia francesa e, em última análise, sobre as engrenagens fragilizadas da União Europeia.