sábado, março 17, 2012

Pedi, e não recebereis - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 17/03/12


Dá para entender a impaciência dos dirigentes da indústria com as soluções tipo "meia-boca" apresentadas pelo governo, destinadas a conter o esvaziamento do setor. Mas eles também são responsáveis por essa mediocridade de políticas. Aceitam e aplaudem esse jogo.

Esses dirigentes criticam todos os dias o tratamento à base de cosméticos proporcionados pelo governo, mas, quando vêm, as acabam aceitando sob o argumento de que, afinal, é melhor isso do que nada.

Os dirigentes da indústria têxtil, por exemplo, aplaudiram a desoneração das contribuições sociais. E, semanas depois, reclamaram de que foi pouco. Agora cobram contribuições extras dos seus associados, de R$ 600 milhões neste ano, declaradamente para financiar consultorias e iniciativas de defesa comercial. Sabem que nada disso melhorará sua competitividade perdedora nem acrescentará um dólar sequer nas exportações. No entanto, insistem nessas iniciativas, que dão impressão de que "estão fazendo alguma coisa". Não centralizam esforços no que poderia melhorar de fato suas condições de negócio: reforma tributária; investimento em infraestrutura; derrubada de custos financeiros.

Na semana passada, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, avisou que a renegociação das concessões das hidrelétricas, que estão para vencer, não contribuirá para baratear a tarifa - a quarta mais cara do mundo. Surpreendentemente, nenhum dirigente industrial mostra indignação contra essa passividade.

Toda a chamada política industrial está funcionando à base de improvisações, paliativos e "cala-bocas", em geral distribuídos para quem grita mais alto. Nada vem que, de fato, enfrente o problema principal: incapacidade da indústria brasileira de tirar proveito de um mercado consumidor interno que cresce quase o dobro do PIB, num ambiente inédito de pleno emprego e abundância nunca vista de crédito externo a juros rastejantes.

O governo alardeia que passou a exigir conteúdo nacional nos fornecimentos da Petrobrás, política que deveria priorizar interesses dos produtores. No entanto, o mesmo governo impõe política de preços dos combustíveis às custas do caixa da Petrobrás que, de cambulhada, também arrebenta o setor do etanol, até há pouco entendido como altamente competitivo.

A indústria acha que sabe fazer lobby e pressionar o governo, mas se limita quase sempre a pedir mais câmbio e mais isenções tributárias, mesmo sabendo que não há condições práticas de que o governo possa ir fundo nessas concessões.

A que câmbio, por exemplo, a indústria recobraria sua competitividade? O ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, tem opinião formada sobre isso. Ele diz que, "no atual estado da arte", abaixo de R$ 2,50 por dólar não se garante futuro para a indústria. E, no entanto, um câmbio à altura dos R$ 1,90 já parece impraticável para a economia do Brasil. Não é por faltar câmbio que o moderno grupo Coteminas está fechando fábricas no Nordeste.

Se pressões por mais câmbio não têm futuro, então é preciso voltar ao ataque às questões de fundo, que constituem o chamado custo Brasil. Mas o empresário prefere aplicações de doses de morfina a enfrentar o doloroso processo da quimioterapia que salvaria seu negócio.

Por trás dos números - REGINA ALVAREZ

 O GLOBO - 17/03/12
O desempenho da indústria foi muito ruim em 2011 e continua assim. A queda de 2,1% na produção em janeiro acendeu um enorme sinal de alerta no governo e a crise passou para o topo da enorme lista de preocupações da presidente Dilma Rousseff. Medidas estão sendo tomadas para atenuar os efeitos do câmbio e proteger o setor industrial, mas são ações emergenciais, paliativas, que não atacam os problemas estruturais.

O governo tem concentrado suas ações nos setores mais afetados pela valorização do real frente ao dólar e pela concorrência com os produtos asiáticos. Esses setores tiveram os piores desempenhos entre os segmentos da indústria, que, na média, cresceu só 0,2%. Têxteis recuou 14,9% e calçados e artigos de couro, 10,4%.

O economista Júlio Gomes de Almeida, do Iedi, propõe um novo olhar sobre o desempenho da indústria, que não substitui a visão do governo, mas contribui para a busca de soluções permanentes. Na lista de segmentos industriais, destaca três que se saíram bem em 2011, mesmo enfrentando os percalços do câmbio e da crise global. O exercício serve para mostrar o que está dando certo e poderia ser disseminado por meio de políticas públicas ou ações do setor privado.

O segmento de equipamento de instrumentação médico- hospitalar e ópticos é o melhor colocado nesse ranking. Cresceu 11,4% em 2011, incentivado pelo aumento da demanda interna, combinado com o fato de ser dinâmico tecnologicamente.

- A lição desse segmento é que vale a pena investir em setores de alta tecnologia, especialmente onde a demanda é crescente - explica.

O setor de outros equipamentos de transportes cresceu 7,9%, puxado pelos aviões da Embraer. O diferencial é uma primorosa cadeia produtiva. A lição, destaca Almeida, é trabalhar para que as cadeias produtivas sejam mais eficientes, adotando políticas com esse foco.

O terceiro segmento que se destacou em 2011, com crescimento de 3,2%, é o de minerais não metálicos, puxado pelo aquecimento no setor imobiliário e o programa Minha Casa, Minha Vida. A lição é que vale a pena investir em habitação e incentivar a construção. Esse novo olhar, voltado para os setores que se saíram bem na crise, pretende apontar caminhos para a recuperação da indústria ainda pouco explorados.

Se o governo incluir outros vetores na política já em curso, com foco na produtividade da indústria e incentivos aos setores com potencial elevado de crescimento, ainda vai levar um tempo, mas a indústria acabará dando a volta por cima e de forma sustentada, sem a tensão da competitividade deficiente, destaca o economista do Iedi.

Robin Wood I

A economista Teresa Ter-Minassian, do BID, acaba de concluir estudo, encomendado pelo Ministério da Fazenda, sobre a redistribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE) com base em novo critério. O Supremo Tribunal Federal julgou inconstitucional o modelo atual de distribuição das verbas e deu prazo até 31 de dezembro para o Congresso aprovar uma nova lei. A proposta tem o objetivo de promover um rateio mais justo e equilibrado dos recursos da União repassados aos estados, considerando as peculiaridades de cada um, de forma a beneficiar de fato as regiões mais pobres, que não estão concentradas apenas no Norte e Nordeste. A regra que vigora hoje, criada por lei complementar em 1989, era transitória, mas nunca foi alterada e a realidade do país mudou muito de lá para cá. Pela regra, 85% dos recursos vão para os estados do Norte e do Nordeste e só 15% vão para os demais.

Robin Wood II

Pela proposta de Ter-Minassian, o rateio seria feito com base na receita corrente per capita de cada estado, descontadas as transferências do próprio FPE e outras feitas pela União. Ela sugere usar uma média de três anos para calcular a receita, de forma a evitar que um governante ofereça, por exemplo, incentivos em determinado ano para reduzir artificialmente a receita do estado. O governo ainda não se manifestou sobre o assunto, mas vai ter que fazê-lo, pois sem a nova regra os estados deixam de receber os recursos do Fundo, a partir de janeiro de 2013. É mais um assunto com potencial para gerar polêmica no Congresso, assim como acontece com os royalties e a reforma tributária, já que é um jogo de soma zero. Se uns ganham, outros vão perder.

Barril de pólvora

No Ministério da Fazenda prevalece o consenso de que é preciso renegociar os contratos das dívidas dos estados e prefeituras com a União, fechados em 1999 e sacramentados pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Não foi por acaso que o ministro Guido Mantega manifestou-se favorável à mudança na audiência da CAE, no Senado. O que se discute é uma fórmula que atenda os governadores sem ferir a LRF.O tempo joga contra, porque cresce o endividamento de alguns entes e há casos em que a dívida está se tornando impagável.

Ambientalismo sem paixões - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 17/03/12


As margens dos rios devem ser preservadas, mas os parâmetros dessa proteção devem excluir as paixões

PARTICIPEI NESTA semana do Fórum Mundial da Água como senadora e representante dos produtores rurais do Brasil, para associar-me aos esforços que o mundo todo deve fazer para conciliar as exigências da produção agrícola, e da própria vida humana, com a conservação dos recursos hídricos.

Até 40 anos atrás, o Brasil era um grande importador de alimentos, mas a nossa produção rural transformou-se e nos tornamos um dos maiores produtores do planeta e um dos mais importantes exportadores de alimentos.

O Brasil dispõe de uma das maiores reservas de água doce do mundo (12%), com milhares de rios que cortam o país em todas as latitudes, e de grandes reservas de águas subterrâneas.

Diferentemente dos demais países de grande expressão demográfica, não sofremos, na maior parte do nosso território, de limitação de água. Nossa agricultura irrigada tem pequena participação na produção total, pois o regime de chuvas, salvo em algumas áreas, é adequado às condições de produção.

Ao longo da formação histórica do Brasil, do mesmo modo como aconteceu em todas as partes do mundo civilizado, nem sempre a produção rural e a conservação dos recursos naturais estiveram em harmonia. A própria ideia de que os recursos da terra são limitados e finitos é uma noção recente. É uma consciência que vem ganhando força progressivamente.

Hoje, no entanto, podemos dizer que produzimos muito, com práticas modernas e adequadas, sob uma legislação ambiental bastante rigorosa e detalhada.

Estamos, neste momento, finalizando a atualização e a modernização da legislação ambiental, cujo maior mérito é o de expressar um genuíno consenso social, o que tornará sua aplicação muito mais espontânea e efetiva, sem a necessidade de um exército de fiscais para forçar seu cumprimento.

O mundo precisa que a produção brasileira de alimentos continue crescendo por meio do aumento da produtividade. O crescimento demográfico e o aumento da renda que se observa em todas as partes do mundo em desenvolvimento, pelos avanços da globalização e do comércio internacional, vão exigir uma oferta maior de alimentos nos próximos anos.

A escassez de terras aráveis e as limitações da oferta de água restringem a expansão da produção, na maior parte do mundo.

O Brasil, felizmente, tem ainda abundância de terras agricultáveis, bem como uma disponibilidade bastante ampla de água, o que torna nosso país uma das poucas alternativas para o abastecimento da população da terra.

Desde o início da civilização humana, na Ásia, até hoje, na Europa, os produtores procuraram as margens dos rios para produzir e para habitar.

O Brasil tem uma legislação que fixa normas de proteção com vegetação natural às margens dos rios, em torno das nascentes e nas áreas de recarga.

O aumento da produtividade e as novas técnicas de produção permitem, hoje, que as margens dos rios sejam preservadas, para que o volume e a qualidade das águas sejam protegidos. Mas os parâmetros dessa proteção devem ser fixados com base nas razões da ciência -e não de paixões políticas.

Os benefícios de rios preservados se estendem a toda a sociedade, são benefícios públicos. Os custos de preservação, no entanto, recaem unicamente sobre o produtor.

O equilíbrio das relações sociais e a própria efetividade da norma ambiental estariam muito mais bem servidos se o Estado encontrasse mecanismos financeiros capazes de retribuir o produtor, distribuindo os encargos com o conjunto da sociedade.

Estamos propondo que o modelo brasileiro de preservação das margens dos rios e nascentes -nossas Áreas de Proteção Permanente, as APPs- seja também adotado por todos os países do mundo, para que o Reno, o Danúbio, o Mississippi e o rio Amarelo possam ser protegidos por lei, como o Amazonas, o São Francisco, o Paraná, o Araguaia, o Tocantins, em benefício da humanidade e das gerações futuras, pois é exatamente a água que faz com que a vida não se contenha.

Código Florestal, utopia ou loucura? - RODRIGO LARA MESQUITA


O ESTADÃO - 17/03/12
Só um indivíduo socialmente irresponsável seria contra a possibilidade de o Brasil reverter, num período de tempo plausível, os erros graves cometidos no seu processo de ocupação territorial. Querer resolver esses problemas numa patada, com um golpe de força, é ignorar o processo histórico, suas circunstâncias e criar um ambiente propício para toda ordem de conflitos.

A versão do Senado para o Código Florestal prevê a recuperação de áreas de preservação permanente (APPs) em todas as propriedades rurais. Quem defende esse dispositivo está praticamente condenando à morte 4,5 milhões de pequenos agricultores, responsáveis por mais da metade da produção de alimentos no País, e colocando uma bomba no colo da presidente Dilma Rousseff. E está fazendo isso premido por argumentos e campanhas que muitas vezes se sustentam mais por argumentos emocionais do que racionais; não é possível reverter 500 anos de um processo econômico com um decreto.

No final do século passado, foram consideradas APPs as faixas marginais dos rios, as encostas de morros e outras situações. Mas a ocupação desses locais já ocorrera, ao longo dos nossos 500 anos de História. Os principais exemplos são as pastagens nas montanhas de Minas Gerais, como ocorre nos Alpes e nos Andes; os vinhedos e macieiras em encostas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, como em grande parte da Europa; o café em altitude em São Paulo e Minas Gerais, como na Colômbia; os bananais no Vale do Ribeira, como no Equador; e a ocupação de várzeas e terras férteis à margem de rios com plantios de arroz, irrigação, criação de búfalos e outras atividades, como no Nilo, no Mekong, etc.

Na versão aprovada na Câmara dos Deputados, as atividades agropecuárias tradicionais, desenvolvidas até 2008 em APPs, seriam consolidadas, com a proibição de abertura de novas áreas. Mas o Senado impôs mais uma condição: os agricultores devem arrancar cultivos e pomares, retirar o gado e recuperar a vegetação nativa em faixas de 15 até 500 metros de cada lado dos rios e riachos. Ao longo do Rio São Francisco ou de rios de Mato Grosso, por exemplo, isso pode representar a perda de mais da metade das áreas produtivas. Para quem tem diversos riachos na propriedade pode inviabilizar toda a produção. É também o caso dos projetos de irrigação, instalados ao lado dos rios.

A proposta, portanto, é de que o Estado imponha essa perda agrícola e ainda transfira o ônus para os agricultores: uma utopia ou loucura, dependendo da sua perspectiva. Segundo fontes do Ministério do Meio Ambiente, a agricultura perderia 33 milhões de hectares. Para outras fontes, isso representaria arrancar cultivos, pomares e pastagens de 60 milhões de hectares.

Quanto menor a propriedade rural, pior a sua situação. Os pequenos utilizam a totalidade das terras para produzir e sobreviver. De acordo com a Lei n.º 8.629/93, pequenas propriedades são imóveis entre um e quatro módulos fiscais (MFs), cuja dimensão é definida pelo Incra para cada município.

Em parte do Brasil, o Senado propõe que essa perda de terras produtivas se limite ao máximo de 20% da propriedade com menos de quatro MFs. Ora, ao longo dos rios estão os terrenos mais férteis. Na maioria dos casos, esses 20% de terras férteis garantem 50% a 80% da renda do produtor.

Um estudo da Embrapa Gestão Territorial verificou, com base no Incra e no Censo Agropecuário do IBGE de 2006, que os imóveis com até quatro MFs correspondem a 89% dos estabelecimentos agropecuários do País, ocupam 11% do território e contribuem com 50% da produção agropecuária. Eles serão duramente atingidos por essa medida, cujo alcance social e econômico o Ministério do Meio Ambiente e o governo não dimensionaram, muito menos o Senado.

Como impor indiscriminadamente a recomposição com vegetação nativa de áreas produtivas, se elas foram ocupadas em conformidade com a lei de seu tempo? O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, já prevê uma enxurrada de ações judiciais. Se não é uma enorme irresponsabilidade defender tal medida, é uma tentativa de passar a borracha na nossa História e em alguns casos levar a fatura para quem não tem nenhuma responsabilidade sobre esse passado.

Áreas de preservação permanente devem ser recuperadas quando e onde for pertinente, e todos os esforços nesse sentido são bem-vindos. Mas exigir a mesma faixa de vegetação para um riacho que corre dois meses na caatinga, ou desce encachoeirado as serras do Espírito Santo, ou escoa quase imperceptível pela pampa gaúcha, ou forma um pequeno igarapé na Amazônia é ignorar a diversidade do meio ambiente. Cada bioma pede critérios específicos. Os Estados devem participar da avaliação e do esforço para recompor as APPs de forma adequada, considerando a ocupação das terras, as tecnologias empregadas, a situação de conservação dos solos e das águas e, mais do que tudo, a história de como isso ocorreu, num processo secular.

A regularização das atividades econômicas produtivas até 2008 em APPs dará segurança jurídica ao homem do campo. O princípio da precaução sugere que o governo avalie a situação das APPs e só depois proponha sua recuperação, por meio de critérios técnicos, lá onde for necessário, de forma adequada e no tempo possível. Forçar a recomposição como regra absoluta pode quebrar a agricultura e os agricultores, além de abalar profundamente um dos setores mais desenvolvido e dinâmico da economia do Brasil.

Vale lembrar de novo que o objetivo das leis é apoiar a sociedade, e não controlar a sociedade. São dinâmicas, evoluem com ela, contribuindo para a formação do arcabouço institucional. Quando as estruturas legais se chocam com as estruturas sociais, elas criam as condições para conflitos sem fim.

Os arreganhos da tigrada - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 17/03/12

A parte que cabe à presidente Dilma Rousseff nas desavenças do governo com a assim chamada base aliada já foi exaustivamente exposta.

Vai desde o seu temperamento impositivo à aparente relutância a dominar os códigos da política, passando pela incompreensão do fato elementar de que, nas sociedades democráticas, a propensão para o entendimento com os partidos e o Parlamento, mais do que um atributo subjetivo dos governantes a ser usado em proveito próprio, é condição de legitimidade de seus atos e matéria-prima para a construção da sua liderança. No entanto, as carências da presidente não esgotam a narrativa de seus percalços políticos.

Eles resultam também do fardo que Dilma herdou do mentor Luiz Inácio Lula da Silva e da natureza do jogo político no Brasil. Para ajudar a elegê-la e ajudá-la, no poder, a aplastar a oposição, o então presidente montou e se tornou fiador da mais derramada coligação partidária da história nacional. Entre agremiações grandes, médias, pequenas e nanicas, nada menos de 18 subiram (ou acharam que subiram) a rampa do Planalto com a criatura política do líder que investiu o seu imenso carisma, popularidade e desenvoltura no uso da função para perpetuar nas instituições de governo a supremacia do esquema de sua lavra. À frente situacionista se juntaria, tão logo nasceu, o PSD, que não é de esquerda, nem de direita, nem de centro, mas de Gilberto Kassab, o prefeito paulistano.

Haja bocas a sustentar - ainda mais quando a expectativa por verbas e cargos é tudo o que aproximou da nova presidente a esmagadora maioria dos membros da coalizão de governo. Excluem- se dos aspirantes a comensais as microssiglas, fadadas a se satisfazerem, se tanto, com as migalhas do banquete, e, naturalmente, o PT, o dono dos comes e bebes. Mal acostumados com a mão aberta de Lula no segundo mandato - no primeiro, a sua gente preferiu comprar apoios com metal sonante mesmo, com os resultados conhecidos do mensalão -, os aliados deram de cara com a sovinice da sucessora. Acrescentando insulto à injúria, ela ainda demitiu uma penca de ministros, embora a contragosto, e estabeleceu uma antinomia humilhante para a politicalha em geral: ela, a faxineira; eles, o entulho.

Não fosse a maioria parlamentar tão desprovida de decoro, e fossem os motivos do estranhamento com Dilma divergências substantivas de orientação governamental, as tensões que transbordam do noticiário de Brasília mereceriam ser levadas a sério. Em vez disso, prevalece a imagem de uma chefe de governo cujas limitações avultam diante dos arreganhos de uma tigrada ávida por se lançar sobre os meios que lhes garantem a sobrevivência: a alocação de verbas para os seus feudos e a partilha do Planalto. A crise aberta com a demissão dos líderes do governo na Câmara e no Senado teve novo lance quarta- feira com o "rompimento" da bancada do PR no Senado (7 cadeiras em 81) com a presidente. O episódio é de livro de texto.

Em junho do ano passado, uma barragem de denúncias atingiu o Ministério dos Transportes em posse do partido desde os anos Lula. O escândalo derrubou, além de 15 suspeitos, o titular da pasta, o senador licenciado Alfredo Nascimento, homem forte da legenda. No seu lugar Dilma nomeou o economista Paulo Passos, também do PR. Mas os caciques da sigla nunca o aceitaram como ministro, por não ter sido indicado por eles. O governo, por sua vez, vinha evitando dizer não, com todas as letras, à pretensão perrepista de emplacar outro correligionário.

O caldo entornou de vez depois que a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, riscou, um a um, os nomes de uma lista que lhe apresentara o líder da legenda no Senado, Blairo Maggi.

"Cansei", reagiu o rei da soja. "PT saudações." Não por acaso, um dia antes o governo havia escolhido Eduardo Braga, do PMDB, para seu líder na Casa. Nascimento e Braga são adversários na política amazonense. O cansaço de Blairo, porém, tem conserto. Ele tomou o cuidado de bater a porta na cara do Planalto e mantê-la entreaberta. Disse, com a naturalidade com que seus pares embaralham esfera pública e ambições privadas, que o PR "não abre mão" de voltar aos Transportes. Mas disse também que, se a presidente, afinal, ceder, o partido voltará a ser governo.

Crise e acomodação - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 17/03/12



Planalto e Congresso estão de novo às turras, mas clima ameno na economia e popularidade de Dilma criam espaço para entendimento

Generalizou-se o nome de "crise" para uma confluência de conflitos políticos que, apesar da algazarra parlamentar, parecem circunscritos ao comércio de postos de poder -mercado de onde não devem transbordar, dada a tranquilidade social e econômica no país.

São contendas que derivam do gradual rearranjo do governo de Dilma Rousseff, assim como das disputas de poder entre partidos, em especial PMDB e PT, e também intrapartidárias.

Dilma faz, no momento, o rescaldo da derrubada de ministros de seu primeiro ano de mandato. A presidente aproveitou o empuxo, ao refazer o esquema de poder outorgado pelo antecessor e padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, para alterar também as lideranças parlamentares do governo.

A presidente, assim, confisca e redistribui mais a seu gosto postos em ministérios e estatais. Fere interesses e, ao mesmo tempo, abre terreno para disputas adicionais entre os partidos de sua coalizão e entre correntes desses partidos, em particular no seu, o PT.

A tensão acabou por contagiar um conflito ainda adormecido, o do comando das casas do Congresso em 2013-14. Deveria ser entregue, a princípio, ao PMDB, acordo porém contestado por alas do PT.

Tais confrontos parecem em evidente contraste com uma desaceleração econômica que ainda não se refletiu no cotidiano. Apontem-se ou ocultem-se vários problemas graves, o fato é que o país permanece acomodado.

A presidente é popular. Saiu ilesa da queda em série de seus ministros abatidos por escândalos. Atribuiu-se mesmo a Dilma o mérito de uma "faxina" num governo que, no fim das contas, era o seu, ao menos nominalmente, embora inspirado por Lula.

O tropeço econômico de 2011 mal foi sentido pela população, que pôde aumentar ainda outro ano seu consumo. Líderes empresariais são aliados do governo e veem seus pleitos em parte atendidos, apesar das queixas. A oposição, minoritária em números e diminuída em iniciativa, mal se nota.

O clima conflituoso paralisa o Congresso, sem dúvida, e obsta a resolução de disputas de interesse mais geral. Entre outras, o código florestal, o fundo de pensão dos servidores e a lei do petróleo.

O cordão sanitário da estabilidade na maior parte do país por si só tenderia a barrar transbordamentos desses embates além da praça dos Três Poderes. O fato de que tal conflito se limite a cargos e favores é outro diminutivo da crise.

Governos e parlamentos brasileiros têm de se arranjar e acabam por fazê-lo, pois não têm mais onde buscar o que cobiçam: docilidade no Congresso e feudos de poder.

CLAUDIO HUMBERTO

“O mar está tranquilo; revoltos estão os marinheiros”
Senador Walter Pinheiro - (PT-BA), sobre o clima de guerra na base aliada

LULISTAS DO PT QUEREM DEMISSÃO DE IDELI SALVATTI

Inconformados com a dispensa do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) da liderança do governo na Câmara, membros da facção Construindo um Novo Brasil (CNB), que é majoritária e liderada por Lula, trabalham pela demissão da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), a quem atribuem a armação que resultou na substituição do parlamentar por Arlindo Chinaglia (SP), que integra facção rival dentro do PT.

CHÁ DE SUMIÇO

Os aliados que restam a Ideli Salvatti no PT recomendaram que ela tome um chá de sumiço por uns dias, para ver se a CNB a esquece.

BRIGA PROVINCIANA

Além da guerra de facções no governo, Jilmar Tatto, Arlindo Chinaglia e Cândido Vaccarezza disputam os mesmos territórios em São Paulo.

PIOR DO QUE ESTÁ FICA

Para piorar a situação, o presidente da Câmara, Marco Maia, celebrou a queda de Vaccarezza em casa, com muito uísque. Lula soube.

MAU SINAL

Sinal de que Lula detestou a escolha de Chinaglia: recebeu o novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), mas não o petista.

LIÇÃO DE FUTEBOL E POLÍTICA

O ministro Aldo Rebelo (Esporte) surpreendeu o suíço Joseph Blatter, presidente da Fifa, com algo incomum entre europeus: levou-o à sua casa, quinta à noite. Blatter ficou encantado com o gesto e riu muito dos “causos” de futebol contados pelo alagoano, que é torcedor doente do Palmeiras. Entre um pedaço e outro de picanha, Rebelo deu algumas lições de política e advertiu, com seu jeito manso: “Se houver disputa, briga, a chance de o governo brasileiro perder é zero”.

PÁTRIA DE CHUTEIRAS

Rebelo observou e Blatter anuiu: o futebol ganhou dimensão mundial porque virou o esporte nacional no Brasil, grande país fora da Europa.

DESCULPAS FORMAIS

Blatter pediu desculpas, em nome da Fifa e dele próprio, pela atitude grosseira do secretário-geral Jérôme Valcke, que não foi citado.

NÓ EM PINGO D’ÁGUA

Joseph Blatter é sabido. Fala oito idiomas, inclusive o português, e só usa intérprete para ganhar tempo e pensar melhor as respostas.

BEM COM O POVO

O governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, notou que o povo, ao contrário dos políticos, reage bem à presidente Dilma. Ela foi saudada com entusiasmo nas ruas, na primeira visita ao Estado em 14 meses.

OS PERGUNTADORES

Também com índices elevados de aprovação, o governador de Goiás, Marconi Perillo, descobriu uma característica em comum com Dilma Rousseff: ambos são fissurados em detalhes técnicos das obras. Querem saber de tudo.

GRAVATA MALUFISTA

Em almoço na casa do deputado Fábio Ramalho (PV), o petista Nelson Pellegrino (BA) elogiou a gravata de Paulo Maluf (PP-SP). O ex-governador retirou-a e presenteou o deputado: “Use-a em dia de festa”.

NOVAS CARAS

A vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES), avalia que “as cartas embaralharam” na disputa pelo comando da Casa em 2013. “O troca-troca de líderes do governo muda as caras do jogo”.

FISIOLOGISMO FOR EXPORT

A bancada brasileira no Parlamento do Mercosul nada faz de assinalável, mas aprovou resoluções para a criação de um “Banco do Sul” e de um “Instituto Social do Mercosul”. Cargos. Só pensam nisso.

APOSTA NO TAPETÃO

Ruim de voto e da cabeça, o que o mantém no limbo do próprio PT, o suplente Luiz Eduardo Dutra torce para que o TSE ignore a soberania das urnas para tomar o lugar da senadora Maria do Carmo (DEM-SE).

MISSÃO DE RESGATE

A parceira coreana Samsung, que abdicou da parceria, tinha 400 coreanos trabalhando no Estaleiro Atlântico Sul, em Suape (PE), que ameaça naufragar. A região não tem infraestrutura para os imigrantes.

LIVRO EM SEGUNDO PLANO

A Câmara Brasileira do Livro agora informa que “não se opõe” ao uso da logo apoiando a 1ª Bienal do Livro, em Brasília, mas condiciona isso à citação da Câmara local, cuja existência é ignorada pela cidade.

PENSANDO BEM...

...Isso não se faz: os defensores da proibição de bebida na Copa queriam Lula longe dos estádios. 

PODER SEM PUDOR

DOIS EM UM

Além de Petrônio Portela, articulador da abertura política, o Piauí tinha o senador biônico Lucídio Portela. Ao contrário do irmão, Lucídio tinha fama de autoritário e pouco letrado. Reza a lenda que, certa vez, ele elogiava a ditadura quando citou Dostoiévski. Um senador de oposição aparteou:

– Interessante sua citação de Dostoiévski. A propósito, o nobre colega já leu Crime e Castigo?

– Li os dois! – fulminou o velho Lucídio, multiplicando por dois o clássico romance da literatura russa.  

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Procurador decide denunciar Chevron por crime ambiental
Folha: Universidade frauda MEC e paga comissão a igrejas
Estadão: Cresce suspeita de novo grande vazamento na área da Chevron
Correio: Péssima lição
Zero Hora: Inter e Andrade Gutierrez – Acordo Fechado
Estado de Minas: Do sonho... À realidade
Jornal do Commercio: Um novo sistema de ônibus

sexta-feira, março 16, 2012

A verdade de Elza - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 16/03/12

O diretor Dodô Brandão assinou com o coleguinha Sérgio Rodrigues para levar às telas o livro “Elza, a garota”, publicado pela Nova Fronteira, em 2008, e pela Quetzal, em Lisboa, em 2010. O livro conta a história da jovem Elvira Cupello Calônio, militante comunista que usava o codinome de Elza, estrangulada em 1936 com um fio de varal no bairro carioca de Guadalupe.

Segue...

Acusada de traidora, Elza teria sido morta por sentença do próprio PCB.

A fila anda

Ronaldo Fenômeno está se separando de Bia Antony, mãe de suas filhas Sophia e Maria Alice.

Faxina

Dilma mandou lustrar o piso de mármore do Planalto

Questão de palavra

Quem assiste a este debate sobre venda de bebida na Copa de 14 é a belgo-brasileira InBev, cuja marca Budweiser acaba de renovar com a Fifa também para os Mundiais da Rússia (18) e do Qatar (22), além do Brasil. Se o Congresso proibir bebida nos jogos, a empresa não deve chiar muito. Não só pelos laços com o Brasil, mas também porque venda de cerveja em partida de futebol é quase nada.

No mais...

Na verdade, a questão é mais de ordem moral que comercial. Sem entrar no mérito, o fato é que foi nosso governo quem pleiteou na Fifa a realização da Copa de 14 e se comprometeu a autorizar a venda de bebida.

Ai, Rita te pega
Na loja brasileira do iTunes, a música “Reza”, do CD que Rita Lee lança em abril, passou o sucesso “Ai, se eu te pego” no Top Chart Music, parada das músicas mais vendidas. Rita é a brasileira mais bem colocada no ranking.

MONIQUE ALFRADIQUE, 25 anos, a atriz que excede em beleza, posa de noiva para a capa da edição de seis anos da revista “Noivas Rio de Janeiro”, da Hama Editora, que só estará nas bancas em abril. No ensaio, a lindeza — que brilha na novela “Fina estampa”, da TV Globo, e estreou como rainha de bateria da Viradouro — comparou um casamento a um desfile de carnaval: “Os preparativos demoram, mas a festa passa rápido.” Casa com eu.

‘Justin Biba’
O vídeo “Justin Biba”, feito pelo grupo Galo Frito com o nosso casseta Hélio de la Peña, atingiu a marca de 30 milhões de visualizações no YouTube. É agora o clipe de humor mais assistido no Brasil. Veja em http://casseta.me/xvWLsy.

Ficção policial...

Aliás, a produtora TV Zero foi autorizada pela prefeitura do Rio a captar R$ 800 mil para o filme “Júlio sumiu”, baseado no livro do também casseta Beto Silva. O projeto está orçado em R$ 6.684.211,87.

‘Gol speaks English’

A caixa postal da coluna entupiu com relatos de leitores que também passaram sufoco com o serviço Smiles, da Gol. Um dos sofredores, após dias sem ser atendido, teve a ideia de, no decorrer daquela gravação, apertar a tecla recomendada a quem quer falar em inglês. Foi atendido na hora.

Coisa nossa
Depois de faturar o Prêmio Tony, em 2008, o mais importante do teatro nos EUA, nosso barítono Paulo Szot (foto) acaba de ser indicado ao Prêmio Olivier — o mais importante da Inglaterra — como melhor ator, pela versão britânica do musical “South Pacific”. Aliás, Szot vai estrear como protagonista no Scala de Milão, em 2013.

Manchete perdeu

A 9a- Câmara Cível do Rio decidiu, por unanimidade, que a Rede TV! não é sucessora da finada TV Manchete e “não tem de pagar nenhuma dívida além do que foi contratado”. A decisão “atinge também as reclamações trabalhistas”, na opinião do advogado da emissora, Marlan Marinho.

O preço da vida

A juíza Flávia Viveiros de Castro condenou a Expresso Pegaso a indenizar em R$ 500 mil os pais e o irmão de uma menina de 12 anos atropelada por um ônibus da empresa ao tentar embarcar. A miúda voltava da escola e o motorista arrancou antes que ela conseguisse subir.

Alô, PM!

Uma quadrilha tem rondado o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia, no Rio. Os bandidos, acredite, esperam alguns pacientes saírem da farmácia da unidade, onde recebem insulina, aparelhos de medir glicose, fitas e seringas, e, meu Deus, roubam os medicamentos.

PONTO FINAL
O Facebook suspendeu por três dias a página do coleguinha Fernando Rabelo, por ter postado esta célebre foto de Simone de Beauvoir (1908-1986) nua, feita pelo americano Art Shay, em Chicago, em 1952. Rabelo, que é fotógrafo e mantém um álbum no Facebook com imagens históricas, já havia sido suspenso por 24 horas pelo site, em novembro passado, por causa de uma famosa imagem da atriz francesa Emmanuelle Béart com os seios à mostra. Parece censura. E é. Parece burrice. E é também. 

A lógica do humor - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 16/03/12
SÃO PAULO - Piada racista termina com polícia em casa de shows. É engraçado gozar de minorias? Até onde se pode chegar para fazer os outros rirem? Aliás, do que rimos?

De um modo geral, achamos graça quando percebemos um choque entre dois códigos de regras ou de contextos, todos consistentes, mas incompatíveis entre si. Um exemplo: "O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente".

Cometo agora a heresia de explicar a piada. Aqui, o fato de o sujeito da anedota ser um masoquista subverte a lógica normal: ele faz o contrário do que gosta, porque gosta de sofrer. É claro que a lógica normal não coexiste com seu reverso, daí a graça da pilhéria. Uma variante no mesmo padrão é: "O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista".

Essa "gramática" dá conta da estrutura intelectual das piadas, mas há também dinâmicas emocionais.
Kant, na "Crítica do Juízo", diz que o riso é o resultado da "súbita transformação de uma expectativa tensa em nada". Rimos porque nos sentimos aliviados. Torna-se plausível rir de desgraças alheias. Em alemão, há até uma palavra para isso: "Schadenfreude", que é o sentimento de alegria provocado pelo sofrimento de terceiros. Não necessariamente estamos felizes pelo infortúnio do outro, mas sentimo-nos aliviados com o fato de não sermos nós a vítima.

Mais ou menos na mesma linha vai o filósofo francês Henri Bergson. Em "O Riso", ele observa que muitas piadas exigem "uma anestesia momentânea do coração". Ou seja, pelo menos as partes mais primitivas de nosso eu acham graça em troçar dos outros. Daí os inevitáveis choques entre humor e adequação social.
Como não podemos dispensar o riso nem o combate à discriminação, o conflito é inevitável. Resta torcer para que seja autolimitado. Não deixaremos de rir de piadas racistas, mas não podemos esquecer que elas colocam um problema moral.

Raul continua tocando - NELSON MOTTA


O Estado de S.Paulo - 16/03/12


Virou mania: nos mais diversos shows, de roqueiros a sertanejos, e até nos de Caetano Veloso, em algum momento ouve-se o grito de guerra na plateia: "Toca Rauuuul!"

Que outro artista brasileiro, por mais querido e importante que seja, tem seu nome gritado em apresentações de outros artistas? Quem tem legiões de fãs que se vestem como ele e cantam suas músicas no seu aniversário? E muitos nem eram nascidos quando Raul parou de tocar, em 1989.

A vida breve e turbulenta de Raul Seixas, seu talento de compositor e letrista, sua inteligência e humor, seu personagem e sua pessoa, sua vocação para estrela marginal, são a matéria-prima do emocionante filme de Walter Carvalho, O início, o Fim e o Meio. A quantidade e qualidade de som e imagens recuperados de sua obra, e dos depoimentos sobre sua vida, montados em ritmo roqueiro, fazem rir e chorar, às vezes ao mesmo tempo, do início ao fim. No meio de tudo, Raul, é ele que nos toca.

A galeria de tipos bizarros que passaram por sua vida, satanistas, malucos beleza, velhos roqueiros, gurus de araque, se junta a seus parentes, parceiros e testemunhas, e suas várias mulheres, em depoimentos reveladores. Um dos melhores é de Paulo Coelho, ex-hippie doidão e seu parceiro em muitos clássicos, agora escritor multimilionário em Genebra, em contraste com o processo de pobreza material e decadência física de Raul, contando com sinceridade alguns dos melhores, e piores, momentos dessa dupla do barulho. Às gargalhadas, o mago confessa: "Mas é claro que eu apresentei todas as drogas ao Raul. E não me arrependo de nada, só da cocaína, que é a droga do demônio".

Raul começou a beber e fumar com 12 anos, foi alcoólatra metade da vida, cheirou quilos de cocaína e litros de éter, que o destruíram aos 44 anos. No final do filme, Marcelo Nova consegue convencer Raul, já muito fragilizado, a fazerem três shows juntos, que se desdobram em 50 apresentações triunfais pelo Brasil, com multidões de fanáticos cantando em coro suas músicas, numa heroica turnê de despedida que termina com o fim de Raul. E o início do seu culto.

Cachoeira - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 16/03/12
BRASÍLIA - Carlinhos Cachoeira, simpático e bem relacionado como todo bicheiro que se preze, some e aparece num estalar de dedos.

Como o PSD do prefeito Gilberto Kassab, Cachoeira não é de esquerda, nem de centro, nem de direita. Ou seja: topa todas.

Como o publicitário Marcos Valério, pivô e até agora a única "vítima" do mensalão, Cachoeira é também apartidário. Diz o ditado que "quem vê cara não vê coração". Com eles, não interessa a cara, o coração e muito menos o partido. Atacam ora de PT, ora de DEM, ora de PSDB...

E, como o jornalista Durval Barbosa, que explodiu o esquema do então governador José Roberto Arruda no DF, Cachoeira sempre guarda uma carta -ou melhor, uma gravação- na manga para acossar não os adversários, mas, sobretudo, os aliados, os clientes e até os amigos.

Foi a gravação de uma conversa entre quatro paredes de Cachoeira com Waldomiro Diniz, ex-assessor do PT nas CPIs contra os outros e então presidente da Loterj (loteria do Rio), que detonou o primeiro escândalo do governo Lula. Waldomiro já era o braço direito de José Dirceu.

Se não me falhe a memória, nunca se soube ao certo quem e por que gravou aquele diálogo, em que Waldomiro pedia propina para o bicheiro. O percentual era de 1%, mas os valores não tinham nada de modestos.

Passam-se os anos, e surge nova fita de um petista com Cachoeira, que empurra o senador Demóstenes Torres (DEM) para o constrangimento de ter de explicar a geladeira e o fogão importados que ganhou de casamento do bicheiro. Candidamente, o senador justificou que são amigos. Ah, bem... não fosse Demóstenes promotor de Justiça, homem conceituado, uma voz pela ética no Congresso.

Do escândalo de Waldomiro ao constrangimento de Demóstenes, lá se foram nove anos, e a cachoeira de propinas e de presentes ainda pode respingar em muita gente por aí -apartidariamente.

Quando jegues perdem para motocicletas... - WASHINGTON NOVAES


O Estado de S.Paulo - 16/03/12


Durante esta semana, com a realização do Fórum Mundial da Água em Marselha, na França, a comunicação está bombardeando os leitores/espectadores com uma pletora de informações a esse respeito - que tranquilizam, por alguns ângulos, e inquietam, por outros.

Uma pesquisa da Universidade de Twente, na Holanda, por exemplo, diz que o mundo consome 9 trilhões de metros cúbicos de água por ano - 20% dos quais estão embutidos em produtos exportados (o que faz do Brasil grande "exportador virtual" de água). Já a ONU informou que em duas décadas mais 2 bilhões de pessoas passaram a ter acesso a água de boa qualidade; com isso se reduziu à metade a parcela da população desfavorecida; agora, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial de Saúde, 89% das pessoas (6,1 bilhões de pessoas) dispõem de água potável; e 11% (785 milhões) não a têm. Já no saneamento a situação continua dramática: 3,5 bilhões não têm suas casas ligadas a redes de esgotos. Mas nas áreas rurais dos países mais pobres 97% não têm água canalizada. A cada ano morrem no mundo 1,5 milhão de crianças (4,5 mil por dia) vitimadas por doenças transmitidas pela água, principalmente diarreias.

Mas há notícias boas, como a de que se conseguiu em uma década economizar na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) - quase 20 milhões de pessoas - cerca de 14 bilhões de litros mensais de água com programas de combate a perdas (vazamentos e furtos), que eram de 32% do total de água posta à disposição pelas estações de tratamento; hoje as perdas estão em 25,6% e se pretende chegar em 2019 a entre 10% e 15%, com investimentos de R$ 4,3 bilhões (Estado, 1.º/3). É uma situação muito melhor que a média brasileira nas cidades, onde as perdas estão próximas de 40% do total.

Na RMSP a disponibilidade de água é de 146 mil litros anuais por habitante (400 litros/dia). Mesmo se reduzirmos as perdas a 15%, ainda estaremos longe do Japão (que nos está fornecendo tecnologia), onde essa perda é de 3%. Aqui, um dos dramas está na extensão das redes - 32,7 mil km na RMSP. Mas é uma questão vital, porque a região metropolitana só dispõe de 1,6% da água do País. E mesmo assim com água "viajando" até 120 km, como no sistema Cantareira.

Já no saneamento básico a situação brasileira continua constrangedora, como se tem comentado neste espaço. Só 45,7% da população (IBGE) têm suas casas conectada a redes de esgotos e, do que é coletado, apenas 37,9% recebem algum tipo de tratamento, em geral primário, que devolve aos rios metade da carga orgânica e não trata da poluição secundária e terciária. Ou seja, poluímos os cursos d'água com mais de metade dos 9,3 bilhões de litros de esgotos gerados a cada dia. Fossas sépticas em pouco mais de 50% das residências amenizam a situação; 2.495 municípios não dispõem de sistemas de esgotos. Na Região Norte do País, a situação é dramática: só 13,5% da população conta com rede de esgotos. No Nordeste, 33,8%. Só 30% das obras do PAC nesse setor foram concluídas. E a Agência Nacional de Águas (ANA) pede investimentos de R$ 22,1 bilhões em cinco anos nas infraestruturas para que não falte água na maioria dos municípios em 2025.

Com todos esses dramas, o governo federal continua a garantir que o projeto de transposição de águas do Rio São Francisco - paralisado em tantos lugares, apesar do aumento dos custos - resolverá o problema do abastecimento de água no semiárido. Quando, desde o estudo de impacto ambiental, foi afirmado que 70% da água transposta iria para irrigação em grandes projetos de exportação, 26% para uso industrial e só 4% para a chamada "população difusa" - ainda assim, reforçando o abastecimento em cidades que chegam a desperdiçar até 70% da água que distribuem. Mais ainda, a Fundação Getúlio Vargas calcula o custo da água no Eixo Leste em R$ 0,13 por metro cúbico, quando a média nacional é de R$ 0,02.

Em certos momentos, a impressão é de que se reserva para o Nordeste certa cota de notícias indesejáveis. Uma delas é na área do abastecimento de comunidades isoladas, aonde não chegará água da transposição. Há muitos anos uma coligação de ONGs - chamada de Articulação do Semiárido - vem instalando nesses locais as chamadas cisternas de placa, com revestimento de concreto para impedir que se infiltre na terra a água de chuvas recolhida nos telhados e para elas canalizada. Cada cisterna consegue abastecer com 20 litros diários cada pessoa de uma família, na estiagem. Ao custo de pouco mais de R$ 1 mil por unidade, já foram construídas mais de 300 mil e é preciso implantar outras centenas de milhares. Pois bem, há poucas semanas o governo federal anunciou que substituiria as cisternas de placa por cisternas de plástico, muito mais caras (R$ 5 mil cada). E algumas das primeiras instaladas, com três meses ao sol, já se estão derretendo (texto e fotos de Roberto Malvezzi/CPT, 5/3), quando tinham "garantia" de 15 anos. O governo federal já recuou de 300 mil para 60 mil cisternas de plástico e assegura que o derretimento foi apenas um "acidente" já resolvido - mas ainda não faz sentido. Sem falar que poderia optar também pelas minibarragens desenvolvidas pela Embrapa Sete Lagoas.

Não bastasse, o Ministério da Agricultura pensa agora em liberar variedades de mandioca resistentes ao glifosato (usado com transgênicos), quando a mandioca, a mais brasileira das variedades de alimento, mais adaptada aos nossos solos, não costuma precisar nem de fertilizantes nem de agrotóxicos.

Devem estar estimulados por tantos descaminhos produtores nordestinos que decidiram agora vender à China 300 mil jegues por ano, para serem abatidos pelas indústrias de cosméticos e alimentos (remaatlantico, 7/3). Dizem os exportadores que não há mais lugar para jegues, substituídos no sertão por motocicletas.

Glauber Rocha, lá do seu canto, deve estar pensando que o sertão vai mesmo virar mar e o mar vai virar sertão.

A situação da oposição - TUTTY VASQUES


O ESTADÃO - 16/03/12

O rompimento dos senadores do PR com o governo é, a rigor, má notícia para todo mundo: a presidente Dilma perdeu sete votos na casa legislativa e a oposição ganhou a companhia de Blairo Maggi. Nada tão grave quanto o relacionamento de Demóstenes Torres com Carlinhos Cachoeira e, convenhamos, tem coisa muito pior na base aliada do governo. O problema da chegada de Blairo Maggi à oposição é o precedente que isso abre na fronteira com a situação que atravessa o Palácio do Planalto. Imagina se, no rastro do PR de Blairo, o PMDB do Renan Calheiros e o PDT do Carlos Lupi tomarem o mesmo caminho, trazendo o Sarney, o Romero Jucá, o Paulinho da Força e o Amazonino Mendes para a mesma trincheira de José Agripino Maia, Ronaldo Caiado e Álvaro Dias. Já pensou? Não à toa, Aécio Neves está visivelmente preocupado com os rumos de sua candidatura em 2014. O senador nunca foi apegado ao conceito puro sangue em política, mas pondera que “tudo tem limite, sô”! Já disse a amigos que, para se eleger com essa turma que dá governabilidade a Dilma, prefere deixar o Serra realizar seu velho sonho político na presidência da República.

Novo exílioÉ o tipo de coisa que deixa Ricardo Teixeira magoado: Parece que um vizinho dele em Boca Raton voltou com a família para Cuba ao saber que o ex-presidente da CBF pretende agora passar a maior parte de seu tempo por lá

CândiddoO numerólogo do deputado Cândido Vaccarezza o aconselhou a também dobrar um dos dês de seu nome! Se deu super certo com o cê e o zê do sobrenome, não custa nada tentar, né?

Politicamente corretaA CBF deve ser o único lugar do Brasil onde os mais velhos têm prioridade no trabalho. Tal critério garantiu José Maria Marin na presidência da entidade.

SortudaA funcionária a serviço da Infraero que caiu ontem em bueiro aberto no Aeroporto Internacional do Rio devia dar graças a Deus. Já pensou se pensou se ele explode com ela lá dentro?

Chute no traseiroA candidatura de Nicolas Sarkozy só ganhou ritmo nas pesquisas depois que ele resolveu “se donner un coup de pied aux fesses” dos imigrantes .

Evidência de criseLula ficou chocado ao saber que a Bienal do Livro de Brasília vai pagar R$ 5 mil por palestra de José Dirceu. O ex-presidente cobrava R$ 200 mil quando se afastou para cuidar da saúde.

Perda totalDemóstenes Torres está virando uma espécie de Antônio Palocci da direita. Não sabe como explicar nada do que pesa contra ele.

Experimenta só!Aviso aos bajuladores de plantão na Praça dos Três Poderes: o novo presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto, adora que lhe elogiem o penteado!! 

O Sarah - FERNANDA TORRES

FOLHA DE SP - 16/03/12


O resultado é uma visão ampla das enfermidades, anseios, carências, dores e prazeres do paciente


Domingos Oliveira, que diz ter testemunhado o fim do comunismo, do casamento, da psicanálise e do humanismo, acompanha agora o enterro de mais uma utopia. Ouvi da boca de economistas: o capitalismo fez a passagem.

A competição desenfreada levou a humanidade para a zona de risco até irmos todos à bancarrota. O Estado pagou a conta, como na velha tradição soviética. Não adianta controlar demais, e nem de menos.
Em 1960, o ortopedista Aloysio Campos da Paz deixou a família com larga tradição na medicina do Rio de Janeiro para se aventurar na implantação de Brasília.

Seu primeiro emprego foi em um hospital de campanha, atendendo os candangos acidentados do gigantesco parque de obras.

Uma década depois, chamado pelos generais, assumiu o hospital Sarah Kubitschek, um centro de reabilitação motora fundado pela ex-primeira dama.

Lúcia Willadino Braga veio com os parentes do Sul e foi aluna de Paz. Nas poucas escolas da capital do futuro, todas públicas, estudavam o filho do ministro e o do porteiro. "Havia um sentido de comunidade. Éramos poucos e todos se conheciam."

A agudeza da estudante de 17 anos levou Paz a dar sinal verde para que Lúcia iniciasse a sua pesquisa de recuperação por meio da arte. "Se um médico não leu 'Moby Dick', como ele pode ser médico?", ela costuma dizer. A parceria dura até hoje.

O Sarah foi fundado em um gabinete. O primeiro hospital modelo foi inaugurado em 1980. Em 1991, com aprovação por voto no Senado e na Câmara, a verba da instituição passou a sair diretamente da União para a conta da sociedade de direito privado, sem fins lucrativos. Com essa independência, a rede foi ampliada.
A cada novo presidente, e foram muitos, o arranjo é questionado. Por que proteger alguns dos interesses partidários que disputam o orçamento ministerial enquanto os outros guerreiam nas emergências do SUS? Uma breve rodada pela internet já denuncia a agressiva divisão de opiniões. A única justificativa para a sobrevida do Sarah é a excelência do seu serviço.

A criadora do "Braga's Method" é uma assalariada, deve ganhar menos do que um profissional da sua altura em um consultório particular, mas conta com uma rede hospitalar de vanguarda que ajudou a criar. Os equipamentos são projetados por eles, e os médicos não têm outro emprego. No Rio, um passeio pelo complexo arquitetônico verde de João Figueira Lima, o Lelé, atravessa sessões de dança de salão, pintura, piscinas com esteiras submersas e auditório futurista. É um mundo que repete a Brasília da menina Lúcia, onde o engenheiro, o cientista e o peão conviviam próximos, cercados pela audácia estética de Niemeyer.
"O pessoal da limpeza olha no microscópio para entender o porquê da faxina", explica Lúcia.

Ali, a corrupção não devora recursos, não há trocas políticas e nem mercantis. "Se sou patrocinada por uma empresa farmacêutica, terei que usar esse ou aquele medicamento. Na medicina pública, escolhe-se o melhor." Parece delírio, mas não é. A rede atende a 2 milhões de pessoas democrática e gratuitamente, exporta descobertas e presta contas.

Não falo com isenção. A mistura de alto conhecimento científico com prescrições singelas, e igualmente importantes, como um passeio à beira-mar, salvou meu pai do labirinto de fármacos dos especialistas.
O Sarah não opera intestino e nem enfrenta doenças infectocontagiosas. Focado na ortopedia e na neurologia, sua ciência estuda a relação entre o corpo e a mente, a carne e o espírito.
O resultado é uma visão ampla das enfermidades, anseios, carências, dores e prazeres do paciente; palavra que Lúcia detesta.

A história do Sarah se baseia na persistência de um grupo de profissionais capacitados, que encontraram brechas para crescer com audácia em sociedade com o governo. É uma experiência que extrapola o setor de saúde e ensina a respeito de uma possível terceira via entre o totalitarismo de Estado e a voracidade do livre mercado.

O trabalho de Paz e Braga também recupera valores humanos como a ética, a família, a arte e a filosofia. É um hospital modelo para muitas de nossas mazelas.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 16/03/12
Embraer fecha compra de participação em portuguesa

A Embraer concluiu na terça-feira a compra da participação da Eads (European Aeronautic Defense and Space Company) na Airholding, SGPS, S.A. O investimento foi de € 13 milhões (cerca de R$ 31 milhões).

A Embraer passa a deter 100% do capital da Airholding e, por consequência, 65% do controle acionário da Ogma (Indústria Aeronáutica de Portugal S.A.).

A Airholding é um consórcio formado em 2005, pela Embraer e pela EADS, constituído em Portugal com o propósito específico de deter 65% de participação acionária na Ogma.

O governo português vai permanecer com 35% das ações da Ogma por meio da Empordef (Empresa Portuguesa de Defesa).

A Ogma, uma empresa de mais de 90 anos, faz manutenção de aeronaves e fabrica segmentos de estruturas para aviões.

"Ampliamos o controle e faremos investimentos adicionais", diz Luiz Carlos Aguiar, presidente da Embraer Defesa e Segurança.

A fábrica em Alverca (30 kms de Lisboa) será ampliada para produzir componentes do cargueiro KC-390.

"Será um produto brasileiro. Os aviões serão produzidos aqui, com componentes que virão de lá para cá."

O governo de Portugal vai adquirir os cargueiros no futuro, de acordo com Aguiar.

"Há o compromisso de Portugal, mas ainda não sabemos quantos serão. O contrato será fechado no médio prazo porque ainda estamos desenvolvendo a aeronave."

"O governo português não tem exigência de conteúdo nacional para a aquisição de aeronaves", afirma.

Apenas dois funcionários serão brasileiros.

"Ter um cliente europeu usando um cargueiro nosso é importante para nós. Criamos emprego lá, exportações e serviços. Em contrapartida, geramos dividendos e produzimos aqui também."

Venda de pacote turístico para a Grécia despenca no Brasil

As vendas de viagens de turismo para a Grécia praticamente pararam desde o fim do ano passado no Brasil.

A queda estimada é de cerca de 90%, segundo Marco Ferraz, presidente da Braztoa (associação de operadoras).

"Estávamos vendendo bem em 2011, até que começaram as imagens de manifestações, greves e tumultos. Tivemos muitos cancelamentos", diz.

Queda semelhante ocorreu meses antes no Egito. "Mas no Egito, como o movimento era para derrubar governo, o impacto foi maior. Ainda não resgatamos as vendas."

Os poucos visitantes enviados para a Grécia hoje são os que têm cruzeiros com passagem pelo país e ficam por alguns dias em terra, segundo Leonel Rossi, da Abav (associação de agências).

"Em tempo de crise há hotéis mais baratos. Crise atrai turista, desde que não haja estresse associado. Correr o risco de não ter serviço de táxi ninguém quer", diz Rossi.

Na Agaxtur, as vendas para Grécia e Egito secaram, segundo diz Aldo Leone Filho, presidente da empresa. "Crise pode atrair. Mire-se no exemplo dos EUA, que estão explodindo em vendas. O que espanta são as manifestações sociais", afirma Filho.

90% é a queda estimada nas vendas de pacotes de viagens para a Grécia

TATAME NO NORDESTE

A Nissin Ajinomoto Alimentos, joint venture brasileira formada pelas duas empresas japonesas, investirá

R$ 46 milhões em sua segunda fábrica no país.

A planta será instalada em Glória do Goitá (PE) e terá capacidade para produzir 1.200 pacotes de macarrão instantâneo por minuto.

"Estamos buscando crescimento no Nordeste. Ter uma fábrica nesta região permitirá expandir a capacidade de produção e melhorar a eficiência na distribuição", afirma o diretor-presidente da companhia, Mitsuaki Morihiro.

A empresa tem 60% do mercado nacional do setor. No Nordeste, porém, o "market share" é de 45%; em Pernambuco, de 39%.

A outra fábrica da joint venture fica em Ibiúna (SP).

A Nissin tem 30 plantas industriais no mundo e está construindo, além da brasileiras, outras três -na Índia, no Vietnã e na Tailândia.

VIAGEM MAIS CARA

O preço das diárias dos hotéis cresceu 4% no ano passado, em relação a 2010, segundo o estudo mundial HPI (Hotel Price Index).

Os valores, porém, ainda estão mais baixos que os de 2005, devido a uma queda de 13% em 2009.

Entre os países que registraram maiores altas em 2011 estão Itália e Espanha, em especial as regiões litorâneas, onde o aumento médio foi de 40%. As maiores quedas, de 30%, ocorreram no Egito, na Tunísia e na Líbia, afetados pela Primavera Árabe.

O valor da hospedagem no Brasil aumentou mais no verão, quando, devido à desvalorização momentânea do real, os brasileiros optaram por ficar no país em vez de ir para o exterior, segundo o estudo.

A pesquisa, realizada desde 2004, analisou os dados de 142 mil hotéis em 85 países.

Gás O Sindigás e a ANP lançam em Campinas uma campanha para ajudar o consumidor de gás LP a identificar as revendas autorizadas de botijão. Postos de venda cadastrados receberão placas, adesivos para os veículos e crachá para os entregadores.

Passarela O estilista Ricardo Almeida é agora consultor de tendências e negócios da marca de roupas The Candy Shop Flavor, grife de Roberta Alonso e do ator Paulo Vilhena. A marca foi fundada em 2008 e, agora, deverá se expandir pelo país.

Gestão... A FGV-Eaesp lançará uma cartilha sobre o desenvolvimento de políticas públicas de fomento ao empreendedorismo, elaborada com apoio do Prosperity Fund, da Embaixada Britânica.

...pública O trabalho inclui enquete para o diagnóstico da eficácia das políticas implementadas e indicadores de políticas públicas para o desenvolvimento dos negócios.

Roupa... A Gregory, marca de moda feminina, vai inaugurar lojas em ao menos sete Estados do país neste ano.

...feminina A rede, que tem 83 lojas no país, sendo metade delas franquias, também estuda novas operações em Blumenau (SC), Bauru (SP), Joinville (SC), Juiz de Fora (MG), Novo Hamburgo (RS), Uberaba (MG) e Vitória (ES). 

Às claras - REGINA ALVAREZ

O GLOBO - 16/03/12


A ata do Copom foi esclarecedora. Depois de anunciar de forma telegráfica o corte na taxa básica de juros em 0,75 ponto, na semana passada, o Banco Central detalhou ontem na ata seus motivos. E foi além, ao sinalizar o que pretende até o fim de 2012, ou seja, o piso da Selic para o ano, de 9%. O documento traz informações importantes sobre os cenários para a economia, que refletem também os desafios que o governo tem pela frente para fazê-la crescer.

Fica claro, por exemplo, que o crescimento em 2012 depende muito mais do mercado interno, pois as fontes externas que turbinaram o PIB no passado recente estão secando.

O economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, destaca alguns pontos da ata que considera relevantes. Um deles é a confirmação de que houve uma deterioração do cenário externo maior do que o esperado e isso vai permanecer por um bom tempo. O mega estímulo que o Brasil vinha recebendo por meio da balança comercial estancou e já se observa um movimento no sentido contrário.

- Andar com as próprias pernas é o maior desafio no momento - destaca. Outro aspecto importante é a ênfase que o Banco Central deu na ata à política fiscal. Na visão do economista, está claro que a estratégia para viabilizar a redução dos juros passa por uma política fiscal restritiva, com cortes em despesas e um esforço para cumprir a meta de superávit primário cheia, como prometido pela equipe econômica. O problema é que o impacto negativo do ajuste fiscal pesará mais no PIB do que o estímulo positivo da política monetária. Nessa equação, as variáveis puxam mais o produto para baixo do que para cima. - A política fiscal vai puxar pra baixo, o setor externo, também, e os investimentos não serão tão fortes por conta da ociosidade da indústria - destaca.

O economista Luis Otávio Leal, do banco ABC Brasil, lembra que se a economia crescer estimulada pelo consumo interno há o risco de a inflação de serviços, que já pressiona o índice, aumentar e a indústria recorrer cada vez mais às importações, prejudicando a balança comercial e aumentando a vulnerabilidade externa.

Leal viu na ata a intenção clara do BC no sentido de estimular o crescimento, mas destaca um outro recado, que é o comprometimento com o sistema de metas e o controle da inflação.

- Sinalizar com juros de 9% foi uma tentativa de frear as expectativas de inflação. O BC quis dizer que tem um piso para os juros e, portanto, não está rasgando o manual.

Desafio ao crescimento
Embora o governo federal tenha aumentado os investimentos públicos nos últimos anos e faça grande publicidade em torno do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), as taxas ainda estão muito aquém do necessário para estimular o crescimento da economia. A fatia de investimentos é pequena em relação aos gastos correntes. E ainda encolheu em 2011, na comparação com o ano anterior. O investimento público global correspondia a uma fatia de 21% das despesas correntes no começo da década de 70, enquanto hoje está na faixa de 7%, ou seja, um terço daquele percentual.

- A diferença entre o gasto corrente e os investimentos ainda é muito grande, mesmo o investimento tendo crescido - observa Velloso.

A impressão de que o país está muito melhor do que as economias avançadas , na visão do economista, é falsa, porque está calçada na dívida e não considera os gargalos na infraestrutura. Ele cita o exemplo de Portugal, visto como a bola da vez na crise da Zona do Euro:

- Eles fizeram há anos o que a gente não consegue fazer. O desafio pela frente é muito grande.

Intransferível
A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar pessoalmente algumas personalidades para a Rio + 20. Fez isso com Angela Merkel, na visita à Alemanha, e fará o mesmo com o presidente Obama, em abril, quando viaja aos EUA. Faz parte do esforço para tornar a conferência a maior da história das Nações Unidas.

Precaução
Antes de propor qualquer mudança nas regras da caderneta de poupança, o governo quer fazer uma grande campanha de esclarecimento à sociedade, mostrando, por exemplo, que os pequenos poupadores não serão prejudicados e como o país ganha com a queda dos juros. O maior desafio neste caso é a comunicação, avalia o governo, pois qualquer ruído pode causar estragos, relembrando o trauma do confisco do Plano Collor. Aquilo ninguém esquece, diz uma fonte. 

Dilma, Collor e Ideli - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 16/03/12
Imagine, leitor, Dilma anunciando com sua voz grave que trabalha por um Brasil grande; e o PMDB de Renan Calheiros, o PTB de Roberto Jefferson e o PR de Valdemar Costa Neto puxam-lhe o tapete. Com quem você acha que o povo ficaria?
Muito se falou nas últimas 24 horas sobre os alertas que o senador Fernando Collor (PTB-AL) fez no Senado ao dizer que a presidente Dilma Rousseff incorre no mesmo erro que ele, desprezando os políticos tradicionais. Vale, entretanto, colocar as declarações do ex-presidente nos devidos contextos históricos.

Para começar, Collor tinha um partido pequeno, construído em cima das benesses do poder. Dilma tem um partido grande, o PT. Embora uma parte expressiva do partido esteja inconformada com a destituição de Cândido Vaccarezza (PT-SP) do cargo de líder do governo na Câmara, os petistas não vão atear fogo às vestes permitindo que a situação chegue ao ponto de tirar a presidente do cargo para colocar o vice Michel Temer, do PMDB.

Segundo, vejamos a população. O prestígio de Collor estava em frangalhos quando ele caiu. Isso porque, paralelamente às denúncias de corrupção e à saraivada de contas fantasmas gerenciadas pelo finado Paulo César Farias - o tesoureiro da campanha collorida - todos os planos econômicos fracassaram. A decepção se deu logo na largada, com o confisco da poupança. Dias antes do impeachment, Fernando Collor chamou os brasileiros às ruas para apoiá-lo. Na TV, conclamou todos a sair de verde e amarelo em defesa de seu governo. O Brasil se vestiu de preto. Precisa dizer mais?

Por falar em TV...
Imagine, leitor, Dilma na TV hoje pedindo apoio à população porque os políticos tradicionais boicotam seu governo. Ou Dilma anunciando com sua voz grave que sonhou com um Brasil grande; e o PMDB de Renan Calheiros, o PTB de Roberto Jefferson e o PR de Valdemar Costa Neto não deixam, puxam-lhe o tapete para retomar o poder. Com quem você acha que o povo ficaria? Dilma, ao tirar Romero Jucá (PMDB-RR), expôs os políticos tradicionais. A classe política está em baixa e a situação não vai melhorar se, daqui para frente, eles inventarem motivos para derrubá-la ou inviabilizarem o crescimento econômico.

É certo também que a presidente não pode levar tudo ao estilo "faca na bota" como se diz no Rio Grande do Sul, onde ela fez política. À presidente, cabe resolver diferenças pelo diálogo, de forma cordata e afável. Bater, sem machucar. Ao mesmo tempo, não é possível ceder a tudo que os partidos desejam. O PT, por exemplo, não tem por que brigar. No saldo de ministérios, ainda é o grande vencedor. Não perdeu um milímetro sequer nesta dança das cadeiras, à exceção, é claro, da luta de tendências em São Paulo - considerado o centro dos males petistas e tucanos.

Por falar em centro dos males...
Ontem, não eram poucos os políticos que citavam a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, como a grande responsável pela maioria das tensões que vive a base governista. Mencionavam como tropeços a retirada da venda de bebidas alcoólicas do texto da Lei da Copa (ontem o governo voltou atrás), a forma como ela tratou o PR na conversa de quarta-feira com o senador Blairo Maggi (MT) e, ainda, as reuniões sobre o código florestal.

No Planalto, há quem diga ser bom lembrar que Ideli não dá um passo sem ordem da chefe. Portanto, só sai se não houver qualquer alternativa. Os palacianos chamam a atenção ainda para o fato de Dilma ter sido politicamente forjada na guerrilha, nos porões da ditadura, onde a lealdade aos companheiros valia preservar-lhes a vida. Não é de seu feitio abandonar quem lhe é leal, nem deixar companheiros pelo caminho. Talvez seja obrigada a mexer na coordenação mais à frente. Mas não o fará agora, nessa fogueira. Ela sabe que outras virão.