segunda-feira, dezembro 26, 2011
À espera dos ianques - VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP -26/12/11
SÃO PAULO - Adiada para as calendas gregas a recuperação da Europa, é dos Estados Unidos que se esperam as próximas notícias de mudanças no quadro de letargia econômica das nações desenvolvidas. Próximas? Aguardemos sentados, dizem os prognósticos das principais instituições financeiras.
O gigante de US$ 15 trilhões tomou neste ano uma segunda cacetada da crise, cuja fase aguda irrompeu em 2008. Não foi suficiente para produzir nova recessão, mas machucou. Os americanos tiveram seu ritmo de crescimento, que foi de 3% em 2010, cortado à metade. Uma reação incipiente foi abortada.
Agora, segundo a maioria dos prognósticos, o PIB dos EUA vai retomar a velocidade de cruzeiro só em 2014. Entenda-se por velocidade de cruzeiro uma alta da atividade econômica de 3% ao ano.
Para quem acha pouco, basta verificar a média anual de crescimento da economia americana nas últimas três décadas: 2,7%. Recuando-se mais 30 anos (1951-1980), o indicador sobe um pouco, para 3,6% ao ano, mas chega apenas à metade, por exemplo, da velocidade do PIB brasileiro no mesmo período.
Não há nada anômalo nessa trajetória dos EUA. Quanto maior se torna uma economia, mais difícil fica sustentar taxas elevadas de crescimento ao longo dos anos. O volume mais que compensa a redução da marcha: para gerar a mesma quantidade de produção nova que os EUA crescendo 3%, o PIB do Brasil teria de saltar 18% de um ano para o outro.
Incomum é uma economia emergente, em pleno voo para romper a barreira do subdesenvolvimento, cair numa armadilha de crescimento baixo, como ocorreu com o Brasil nas décadas de 1980 e 1990 -o PIB andou a 2,1% ao ano no período.
É normal, portanto, que os EUA tenham perdido participação no PIB mundial de 1980 para cá. Anormal é que com o Brasil tenha ocorrido o mesmo fenômeno.
Metonímia eleitoral - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 26/12/11
A presidente Dilma Rousseff exagerou mandando três ministros irem pessoalmente assistir às consequências do incêndio de uma favela no centro de São Paulo, na quinta-feira. O trio não sabia como ir nem o que fazer. Por sorte ou azar, nem os dois corpos da tragédia despertaram clamor nacional. Mas demonstrar preocupação com fatos sensíveis à opinião pública é vital à popularidade de um governante. Melhor errar pelo excesso do que pela omissão.
A lição que a novata Dilma tenta aprender já foi um dos trunfos do agora veterano prefeito Gilberto Kassab. Logo que assumiu a Prefeitura de São Paulo, devido à renúncia de José Serra, o então neófito Kassab dava plantão ao lado do buraco do metrô que engoliu sete pessoas em 2007. Mesmo sem ser sua responsabilidade direta - a obra é estadual -, ele era sempre a autoridade mais disponível para dar entrevistas e satisfações. Matou a crise no peito e faturou com ela.
No começo deste ano, durante a inauguração da estação que desabou, Kassab foi vaiado. Por essa época, sua popularidade já afundava pelos subterrâneos. Entre um evento e outro, o prefeito deixou transparecer que dava menos importância à administração da caótica cidade do que à criação de mais um partido quântico - que não está no centro, nem na esquerda, tampouco na direita do espectro político, muito pelo contrário. Kassab esqueceu-se da própria lição.
Na quinta-feira, o prefeito foi pessoalmente ao local do incêndio. Nova vaia. A desaprovação ao seu governo está ainda mais profunda do que uma estação de metrô. As entrevistas ao lado do local da tragédia já não satisfazem. As aparências são só aparências. Está difícil para o prefeito escapar do buraco de impopularidade em que se meteu.
Já o exagero presidencial indica o quanto Dilma vai tentar influir na eleição paulistana no próximo ano. Para a mineira radicada gaúcha e famosa por sua passagem por Brasília, São Paulo é o centro estratégico da disputa eleitoral de 2012.
No Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, por exemplo, a corrida eleitoral tem favoritos aparentes, ambos aliados de Dilma (ao menos no papel). Hoje, esses pleitos prometem ser mais passeios eleitorais do que embates acirrados. Eleições assim despertam menos interesse da mídia e do público de fora da cidade. Vitórias dos favoritos não são conquistas, são obrigação.
Superávit de Saúde - LIGIA BAHIA
O GLOBO - 26/12/11
A história já é tão conhecida que quase não precisa mais ser contada. O cenário é o de um país situado no hemisfério sul, de renda média que ousou inscrever em sua Constituição a garantia do direito universal à saúde. Tempos depois, o SUS, apesar dos trancos que marcaram sua origem e de ter sido empurrado para diversos barrancos, ainda permanece de pé. Mas quem disser que esse SUS que aí está não é aquele aprovado pela Constituição porque nem é único e nem tão universal não estará mentindo.
A saga da longevidade e descaracterização do SUS é menos popular. A durabilidade da política universal de saúde deve-se ao acerto de seus formuladores sobre as relações entre a maneira como se organiza e desenvolve uma sociedade e as condições de saúde da população. Atualmente, um brasileiro doente pode receber um benefício previdenciário, auxílio transporte para comparecer aos serviços de saúde, ser atendido no SUS, em certos casos, em seu domicílio, e receber medicamentos gratuitamente.
Trata-se de uma proteção social integrada e integradora, tal como prevê o capitulo da Seguridade Social da Constituição. Por outro lado, o esmaecimento do projeto de construção de um sistema de saúde igualitário decorre de previsões acertadas de quem era contra o SUS. A validade do vaticínio "é impossível fazer brotar igualdade de um solo no qual só vicejavam disparidades estruturais" foi renovada condicionalmente. A reinserção dos interesses empresariais da saúde nas coalizões governamentais pós-redemocratização efetivou-se mediante entusiasmada adesão à ideia de um SUS para quem não pode pagar.
A recusa do governo federal, legitimada pelo Congresso Nacional no fim de 2011, de ampliar recursos para o SUS dinamiza um subsistema público subfinanciado e um subsistema privado crescentemente subsidiado com recursos públicos.
Em termos práticos, os direitos abrangentes, já disponíveis para quem tem problemas de saúde muito graves não serão estendidos para os saudáveis ou para usuários eventuais de serviços de saúde. Os não doentes e segmentos de maior renda são cobertos por planos e seguros privados de saúde, e os pobres ou requerentes de serviços de saúde muito caros ficam no SUS.
Assim, a divisão pragmática de mercados na saúde assume internamente condição de política oficial, a despeito de repetidas pesquisas de opinião evidenciarem que a saúde é o principal problema a ser resolvido pelo governo mesmo para quem está vinculado a planos e seguros privados de saúde.
Entretanto, a tendência mundial, apesar e por causa da possível deterioração dos tradicionais sistemas de proteção social, é a de priorizar as políticas universais de saúde. Ao longo deste ano, ficamos bem na foto. Segundo a Declaração da Conferência Mundial dos Determinantes Sociais da Saúde, realizada este ano no Brasil, "para que haja saúde é necessário que o sistema de saúde seja universal, abrangente, equitativo, efetivo, ágil, acessível e de boa qualidade e ainda envolvimento e do diálogo com outros setores e atores, visto que o desempenho dos mesmos gera impactos significativos sobre saúde". Os participantes de 130 países e 62 ministros de estados presentes consideraram que a crise econômica e financeira global deve estimular a inclusão da saúde e o bem-estar entre as mais altas prioridades nos níveis local, nacional, regional e internacional.
Em 2012, a Rio+20 convocará o posicionamento dos governos, empresários e movimentos sociais sobre a sustentabilidade do desenvolvimento, incluindo a dos sistemas de saúde.
A pergunta a ser respondida será sobre o modelo de sistema de saúde que dá melhores respostas em termos de custo-efetividade aos determinantes sociais da saúde. E o SUS será novamente o melhor cartão de visitas a ser apresentado em um ambiente que exigirá do Brasil discrição em relação à ênfase em políticas públicas voltadas ao provimento de infraestrutura e financiamento de negócios.
Por aí afora, muitos economistas sérios não deixam de considerar a saúde na análise dos limites e perspectivas do desenvolvimento do capitalismo ou acreditam que o sistema de saúde possa ser encarado como um mercado qualquer. As previsões de que a saúde, em consequência da inovação tecnológica e envelhecimento, represente daqui a alguns anos 30% do PIB de vários países já seria motivo de sobra para não deixá-la de lado. Ademais, é sobejamente sabido que o comportamento dos preços exige intervenção governamental. Sem que se defina responsavelmente o que é saúde e o que é doença, características físicas ou sintomas como sobrepeso e hipertensão podem ser encarados respectivamente como sentenças de morte e mercados potenciais para a venda de exames e medicamentos.
Reputados economistas brasileiros, à frente de cargos públicos, ignoraram até agora a saúde em suas análises. Contudo, ficará difícil manter ouvidos moucos diante da estridência de agendas socioambientais que valorizam a construção de pontes entre política social e econômica. O SUS terá um megadestaque na Rio+20. Quem tiver o mínimo de noção aproveitará a ocasião para converter metas econômicas em créditos, dividendos e superávit de saúde. Até junho, dá tempo para sair da redundância da suposição de que o consumo, inclusive o de serviços de saúde e medicamentos, é um fim em si mesmo.
Teremos um feliz e próspero ano novo, se as alternativas para as mudanças climáticas e preservação dos ecossistemas forem adequadas a uma inserção tecnológica baseada na produção e controle de inovações. As abordagens defensivas e céticas emprestaram às políticas universais atributos de peso orçamentário ou estorvo utópico. No entanto, é o SUS, fundamentado na concepção sobre a determinação social da saúde, que possui todas as credenciais de sistema sustentável. Que em 2012 a boa fama internacional do SUS seja saúde-presente no cotidiano de todos nós.
Senhora do destino - MELCHIADES FILHO
FOLHA DE SP - 26/12/11
BRASÍLIA - Para uma presidente "gestora", com ojeriza a políticos e sem vocação nem paciência para tratar com partidos, Dilma Rousseff obteve neste ano uma expressiva coleção de vitórias no Congresso.
Liquidou assuntos que, no plenário, poderiam servir como instrumento de chantagem. Prorrogou até 2015 a DRU (licença para o governo gastar como quiser 20% das receitas) e tornou automática a regra de reajuste do salário mínimo.
Destravou temas que mobilizavam lobbies poderosos contra o Executivo. A regulamentação da Emenda 29 foi aprovada sem o temido aumento das despesas da União com saúde. O código floresta avançou fácil no Senado -e com a redação desejada pelo Planalto. O Orçamento de 2012 passou sem o aumento salarial pleiteado pelo Judiciário.
De quebra, questões pessoalmente caras à presidente também prosperaram, como a criação da Comissão da Verdade, o fim do sigilo eterno de documentos públicos e a flexibilização da Lei de Licitações.
Intimidada pela maioria elástica do governo no Congresso, a oposição não teve energia para reagir. Ou fez a opção tática de se recolher, na expectativa de que a intransigência de Dilma erodisse a base.
Desgastes de fato ocorreram. Dilma dispensou o principal operador político (Antonio Palocci), tirou ministros de PMDB, PC do B, PDT e PR e interveio em redutos de aliados na máquina federal. Mas o clima ainda não está para dissidências.
Alguém poderá dizer que todo presidente larga com força política. Ou que o Planalto não conseguiu zerar as pendências no Congresso, vide a divisão dos royalties do pré-sal. Ou que a unidade da aliança não passa de ilusão: legendas só esperam um pretexto (o revés na economia?) para bandear. Mesmo assim, a estreia legislativa de Dilma superou as expectativas e é um curioso contraponto à timidez administrativa do primeiro ano de seu governo.
Liquidou assuntos que, no plenário, poderiam servir como instrumento de chantagem. Prorrogou até 2015 a DRU (licença para o governo gastar como quiser 20% das receitas) e tornou automática a regra de reajuste do salário mínimo.
Destravou temas que mobilizavam lobbies poderosos contra o Executivo. A regulamentação da Emenda 29 foi aprovada sem o temido aumento das despesas da União com saúde. O código floresta avançou fácil no Senado -e com a redação desejada pelo Planalto. O Orçamento de 2012 passou sem o aumento salarial pleiteado pelo Judiciário.
De quebra, questões pessoalmente caras à presidente também prosperaram, como a criação da Comissão da Verdade, o fim do sigilo eterno de documentos públicos e a flexibilização da Lei de Licitações.
Intimidada pela maioria elástica do governo no Congresso, a oposição não teve energia para reagir. Ou fez a opção tática de se recolher, na expectativa de que a intransigência de Dilma erodisse a base.
Desgastes de fato ocorreram. Dilma dispensou o principal operador político (Antonio Palocci), tirou ministros de PMDB, PC do B, PDT e PR e interveio em redutos de aliados na máquina federal. Mas o clima ainda não está para dissidências.
Alguém poderá dizer que todo presidente larga com força política. Ou que o Planalto não conseguiu zerar as pendências no Congresso, vide a divisão dos royalties do pré-sal. Ou que a unidade da aliança não passa de ilusão: legendas só esperam um pretexto (o revés na economia?) para bandear. Mesmo assim, a estreia legislativa de Dilma superou as expectativas e é um curioso contraponto à timidez administrativa do primeiro ano de seu governo.
O "sumiço" do gás - CLAUDIO J. D. SALES
O GLOBO - 26/12/11
Oúltimo leilão de energia elétrica de 2011, realizado em 20 de dezembro, foi marcado pela ausência de termelétricas a gás natural, opções importantes para a robustez operacional do sistema. A ausência se deve à repentina falta de gás alegada pela Petrobras.
A indisponibilidade repentina causou surpresa. No leilão realizado três meses atrás, a Petrobras se comprometia a fornecer gás para sete Usinas termelétricas, das quais somente uma usina, da própria estatal, foi contratada. Portanto, a Petrobras deveria dispor de gás.
Termelétricas têm um papel "estabilizador" do sistema porque atuam em complementaridade a outras fontes como hidrelétricas, eólicas etc. Com a decisão governamental (ainda controversa) de não permitir usinas a carvão, a expansão e complementação termelétrica passa a depender de usinas a gás natural. Mas, com o desfalque da Petrobras, tal opção deixa de existir.
Além da perda de robustez, os consumidores perdem os benefícios de uma conta de luz que poderia ser mais barata se não tivesse sido excluído do leilão um bloco grande de competidores que aumentariam a concorrência.
A justificativa da Petrobras para o "sumiço" do gás é baseada na alegação de que ela não pode atender às exigências de comprovação da disponibilidade de gás estabelecidas pelo Ministério de Minas eenergia. Se este é o motivo, teria a Petrobras agido de forma temerária, três meses atrás, ao comprometer-se com o fornecimento de gás, durante 20 anos, para sete termelétricas?
A recusa de fornecimento é prerrogativa empresarial, mas pode ser contestada pelas autoridades de defesa da concorrência quando empregada para prejudicar a competição. E certamente não é condizente com uma estatal que vem advogando para si a responsabilidade de desenvolver o setor em prol do interesse público, bem no estilo do "deixe que eu faço".
Com esse argumento a Petrobras tem sido agraciada com vários privilégios. A "Lei do Gás" de 2009 concedeu prazo de dez anos para exploração em caráter exclusivo dos gasodutos existentes, mantendo por esse período o monopólio que, na prática, a Petrobras exerce. A lei ainda isentou as instalações de tratamento, processamento, regaseificação e liquefação de gás natural da obrigação de prover acesso a terceiros. E a "Lei do Pré-Sal" perpetuou o domínio da estatal ao estabelecer que a Petrobras seja operadora de todos os blocos de exploração da "área do pré-sal".
Para a Petrobras esta frustração da oferta de gás talvez não passe de um detalhe no seu plano de negócios bilionário. Mas o que a estatal negligencia hoje pode tornar-se seu maior desafio no futuro, quando os brasileiros perceberem que seus anseios, como consumidores ou como acionistas, não estão sendo atendidos. Privilégios implicam responsabilidades. Principalmente quando tais privilégios são concedidos com base na fluida argumentação de defesa do interesse público.
Histórias do consumo - MARIA INÊS DOLCI
FOLHA DE SP - 26/12/11
Em 2012, é preciso que todos se mobilizem para pôr fim aos descalabros contra os consumidores
José ficou feliz com a promoção de um site de compras coletivas: passagem aérea pela metade do preço. Não recebeu o bilhete aéreo nem o dinheiro de volta. Não viajou.
Maria teve de pagar, na conta de seu telefone celular, serviço que não contratou. Tenta obter o dinheiro de volta, mas mal consegue falar com um atendente e a ligação é interrompida ou transferida para outra pessoa. Uma canseira daquelas!
Seu João tem 80 anos, é aposentado e recebeu ligação de um correspondente bancário que lhe oferecia um empréstimo consignado. Contratou o crédito e ainda não viu a cor do dinheiro, embora as parcelas sejam descontadas de sua aposentadoria.
Dona Joana, 75 anos, não tem plano de saúde. Sai de casa muito cedo e pega três conduções rumo a um hospital conveniado com o SUS (Sistema Único de Saúde). As filas são imensas e ela fica assustada, porque não há datas próximas para fazer os exames de que necessita. A doença tem pressa, mas o serviço de saúde é tão lento!
Carlinha, 15 anos, é inteligente e gosta de participar das redes sociais. Onde mora não há serviço eficiente de acesso à internet. Ela conta os dias para que o Plano Nacional de Banda Larga chegue a sua cidade. Lamenta o atraso do programa.
Seu tio, Joaquim, não entendeu até hoje por que, apesar das interrupções frequentes de energia elétrica, as concessionárias reajustam a conta sem dificuldades. Ele também aguarda, até hoje, por pura teimosia, que lhe devolvam o valor pago a mais, anos a fio, nas tarifas de energia.
Paulo é um jovem executivo. Poupou muito e comprou um carro zero. O automóvel tem defeito de fabricação. Já esteve duas vezes na oficina, mas não houve uma solução para o problema. Ele sabia que teria direito a um carro zero. Na loja em que comprou o carro, disseram que não. Paulo está certo, mas terá de recorrer à Justiça para assegurar seus direitos.
Laura abasteceu seu automóvel em um posto de combustíveis e percebeu que havia algo errado. O motor começou a pifar, até parar de vez. Resultado: pagou caro pelo reparo na oficina, porque colocaram combustível adulterado no tanque do seu veículo.
Pedro lamentou ter comprado um presente de Natal para sua mãe, que mora em outra cidade, em loja virtual. A TV só foi entregue semanas depois da data prevista, após muita reclamação, em horas de ligações telefônicas.
Lídia levou um susto quando foi renovar o contrato da escola da filha. A mensalidade subiu 14%, mais do que o dobro da inflação do período. Nem comparou com seu salário, sem reajuste há alguns anos, para não ficar mais irritada ainda.
Ana não acreditou que caíra no golpe da bolsa de estudos de um curso de informática. Animou-se com a isenção da matrícula e o desconto de 50% nas mensalidades. Não teve nenhuma aula, perdeu o dinheiro e o pessoal da escola fajuta desapareceu sem deixar vestígios.
Marcos discutiu com os vendedores quando tentou financiar uma geladeira. No anúncio, diziam que o juro era zero. Por sorte, exigiu o CET (Custo Efetivo Total). Descobriu que não havia juros, mas que taxas disso e daquilo encareceriam as parcelas, disfarçadamente.
Sérgio e Patrícia se casaram e tiverem de se hospedar na casa dos pais dele depois da lua de mel. Os móveis que compraram com tanta dificuldade continuam empilhados na garagem e os presentes permanecem dentro das caixas. Eles adquiriram um apartamento na planta, mas a construtora não entregou as moradias.
Todos esses perfis de consumidores existem, não necessariamente com esses nomes. E essas histórias se repetem no Brasil, ano após ano.
Com o Código de Defesa do Consumidor, as instituições que protegem seus direitos e as ouvidorias, os brasileiros ao menos podem reclamar e lutar pelo cumprimento da lei.
Mais consciência dos empresários, mais mobilização dos cidadãos, outra visão dos juízes e dos dirigentes das agências reguladoras poderiam mudar esse quadro. Mãos à obra, então, em 2012!
José ficou feliz com a promoção de um site de compras coletivas: passagem aérea pela metade do preço. Não recebeu o bilhete aéreo nem o dinheiro de volta. Não viajou.
Maria teve de pagar, na conta de seu telefone celular, serviço que não contratou. Tenta obter o dinheiro de volta, mas mal consegue falar com um atendente e a ligação é interrompida ou transferida para outra pessoa. Uma canseira daquelas!
Seu João tem 80 anos, é aposentado e recebeu ligação de um correspondente bancário que lhe oferecia um empréstimo consignado. Contratou o crédito e ainda não viu a cor do dinheiro, embora as parcelas sejam descontadas de sua aposentadoria.
Dona Joana, 75 anos, não tem plano de saúde. Sai de casa muito cedo e pega três conduções rumo a um hospital conveniado com o SUS (Sistema Único de Saúde). As filas são imensas e ela fica assustada, porque não há datas próximas para fazer os exames de que necessita. A doença tem pressa, mas o serviço de saúde é tão lento!
Carlinha, 15 anos, é inteligente e gosta de participar das redes sociais. Onde mora não há serviço eficiente de acesso à internet. Ela conta os dias para que o Plano Nacional de Banda Larga chegue a sua cidade. Lamenta o atraso do programa.
Seu tio, Joaquim, não entendeu até hoje por que, apesar das interrupções frequentes de energia elétrica, as concessionárias reajustam a conta sem dificuldades. Ele também aguarda, até hoje, por pura teimosia, que lhe devolvam o valor pago a mais, anos a fio, nas tarifas de energia.
Paulo é um jovem executivo. Poupou muito e comprou um carro zero. O automóvel tem defeito de fabricação. Já esteve duas vezes na oficina, mas não houve uma solução para o problema. Ele sabia que teria direito a um carro zero. Na loja em que comprou o carro, disseram que não. Paulo está certo, mas terá de recorrer à Justiça para assegurar seus direitos.
Laura abasteceu seu automóvel em um posto de combustíveis e percebeu que havia algo errado. O motor começou a pifar, até parar de vez. Resultado: pagou caro pelo reparo na oficina, porque colocaram combustível adulterado no tanque do seu veículo.
Pedro lamentou ter comprado um presente de Natal para sua mãe, que mora em outra cidade, em loja virtual. A TV só foi entregue semanas depois da data prevista, após muita reclamação, em horas de ligações telefônicas.
Lídia levou um susto quando foi renovar o contrato da escola da filha. A mensalidade subiu 14%, mais do que o dobro da inflação do período. Nem comparou com seu salário, sem reajuste há alguns anos, para não ficar mais irritada ainda.
Ana não acreditou que caíra no golpe da bolsa de estudos de um curso de informática. Animou-se com a isenção da matrícula e o desconto de 50% nas mensalidades. Não teve nenhuma aula, perdeu o dinheiro e o pessoal da escola fajuta desapareceu sem deixar vestígios.
Marcos discutiu com os vendedores quando tentou financiar uma geladeira. No anúncio, diziam que o juro era zero. Por sorte, exigiu o CET (Custo Efetivo Total). Descobriu que não havia juros, mas que taxas disso e daquilo encareceriam as parcelas, disfarçadamente.
Sérgio e Patrícia se casaram e tiverem de se hospedar na casa dos pais dele depois da lua de mel. Os móveis que compraram com tanta dificuldade continuam empilhados na garagem e os presentes permanecem dentro das caixas. Eles adquiriram um apartamento na planta, mas a construtora não entregou as moradias.
Todos esses perfis de consumidores existem, não necessariamente com esses nomes. E essas histórias se repetem no Brasil, ano após ano.
Com o Código de Defesa do Consumidor, as instituições que protegem seus direitos e as ouvidorias, os brasileiros ao menos podem reclamar e lutar pelo cumprimento da lei.
Mais consciência dos empresários, mais mobilização dos cidadãos, outra visão dos juízes e dos dirigentes das agências reguladoras poderiam mudar esse quadro. Mãos à obra, então, em 2012!
Saíram às compras - GEORGE VIDOR
O GLOBO - 26/12/11
A China tem mais de US$3 trilhões em reservas cambiais e, como não deseja continuar exposta a riscos financeiros (seja em dólares ou euros), tem procurado converter parte dessa dinheirama em ativos reais. Só no setor de petróleo no Brasil as empresas chinesas já investiram cerca de US$25 bilhões. Não foi surpresa então que tenham acabado de adquirir uma fatia da EDP portuguesa.
A Eletrobras disputou essa mesma fatia da maior empresa de Portugal, mas nem deu para a saída. Os chineses se comportam às vezes como novos ricos, e do mesmo modo que a classe média alta de lá paga mais caro por bens de consumo de luxo, acreditando que estão comprando o melhor, também fazem lances imbatíveis quando disputam um negócio no qual têm interesse.
Recentemente a State Grid, companhia chinesa que vem investindo em linhas de transmissão de energia elétrica, precisou alugar uma área de 200 metros quadrados no Centro do Rio, e, diante da dificuldade de encontrar esse espaço disponível, acabou comprando um prédio inteiro que acabara de ficar pronto na Avenida Presidente Vargas.
Por causa desse ímpeto comprador, os chineses ficaram decepcionados com a decisão brasileira de restringir a compra de terras por estrangeiros no país. Nos últimos 20 anos, investidores estrangeiros foram bem-vindos na China (tanto que as empresas que vinham de fora pagavam 25% de imposto de renda, e as companhias chinesas, 33%, o que levou muitas delas a terem sócios estrangeiros, para se beneficiarem da tributação mais baixa), e agora os chineses se surpreendem quando esbarram em barreiras para investir em outros países.
A economia brasileira cresceu em 2011 abaixo do que se previa no início do ano, mas foi melhor assim, pois já tinham surgido sinais preocupantes de engargalamento, até mesmo com falta de mão de obra, o que seria impensável tempos atrás.
O país ganhou um pouco mais de tempo para expandir e recuperar sua infraestrutura, além de garantir fontes de suprimento de insumos básicos.
No Rio, por exemplo, onde os engarrafamentos se multiplicaram, os transportes públicos devem começar a melhorar em 2012, com novos trens no metrô e na Supervia. O primeiro corredor expresso para ônibus articulados (BRT), a Transoeste, também será inaugurado.
Cinco consórcios se candidataram a montar os equipamentos de Angra 3. No ano que vem, as obras civis da usina prosseguirão paralelamente à montagem dos equipamentos.
A construção do prédio do reator só não vem andando mais rápido porque o licenciamento, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), é feito por etapas, a cada novo anel de concreto, e às vezes a autorização sofre algum atraso. Trabalham hoje na obra 3.700 pessoas.
A maior parte dos contratos tem sido assinada com uma redução de preços da ordem de 30% em relação aos valores estimados.
Depois de Angra 3, a próxima usina nuclear brasileira, se e quando autorizada pelo Congresso, deverá ser no Nordeste, em uma área geologicamente protegida, no interior, e não no litoral, como as atuais. O sistema de resfriamento terá de ser feito com água de rio, e não do mar.
Nos últimos dez anos, a educação dentro das empresas aumentou 40 vezes, e nesse conceito não estão incluídas companhias que têm apenas programas internos de treinamento. O conceito é mais amplo. No ano 2000, eram apenas dez empresas brasileiras que tinham verdadeiras escolas de negócios dentro de suas estruturas. Agora são mais de 400.
A formação de pessoal dentro das empresas não decorre somente da deficiência do sistema educacional brasileiro. As empresas sentem necessidade de preparar seu pessoal para adaptação a questões específicas ou mesmo à compreensão de sua cultura interna. A Vale, por exemplo, hoje presente em vários países, desenvolveu um programa de ambientação para seus funcionários ao redor do mundo, a fim de que possam conhecer melhor o que a empresa faz.
O mercado de educação corporativa é atendido por universidades, instituições com a Fundação Getulio Vargas e a Fundação Dom Cabral, entidades como Senai-Senac-Senat, e também por novas empresas que surgiram exatamente para esse fim, como é o caso da Affero, resultado da fusão de três companhias que surgiram na incubadora da PUC do Rio de Janeiro.
Com 120 clientes, dos quais 50 participantes do grupo das 500 maiores companhias brasileiras, a Affero juntou o uso da tecnologia (informática e novas mídias) com conhecimento em pedagogia, educação e comunicação. O meio eletrônico é a chave para que o aprendizado não se perca nem fique restrito à sala de aula. E com esses recursos modernos, os programas de educação corporativa chegam hoje aonde estão as pessoas que necessitam desse aprendizado.
A Affero tem como sócios um grupo de profissionais que se formou na PUC-RJ (60%) e mais o fundo de investimento privado da BR Educacional, com 40% (leia-se Paulo Guedes e outros).
Em novembro último, São Paulo passou a ser o terceiro maior produtor de petróleo no mar, atrás do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Em 2012, a questão dos royalties certamente passará a ser discutida no Congresso por um outro prisma.
Com base no cadastro do Bolsa Família e em análises próprias, a Secretaria estadual de Assistência Social já vem executando pequenos programas na Baixada Fluminense que considerem dificuldades específicas que as pessoas beneficiárias da transferência de renda pelo governo têm para melhorar de vida. Em Japeri, um dos municípios mais pobres da região, o programa que mais atendeu a essas pessoas foi o de treinamento para a construção civil. Todos os inscritos estão agora empregados.
Como esta é a última coluna de 2011, desejo um bom Ano Novo a todos.
CLAUDIO HUMBERTO
"Não se trata de um grupo de amigos"
Ministra Eliana Calmonao afirmar que não procuraria dirigentes de entidades de juízes
Caixa: petista deve explicar 'apagão' misterioso
A ex-vice-presidente de Tecnologia da Informação Clarice Coppetti deve ser convocada pela oposição a explicar no Congresso como uma instituição do porte da Caixa Econômica Federal pôde gerar e distribuir, todos os meses, relatórios atestando que contratos do FCVS estavam desonerados, não tinham débitos, e poderiam merecer investimento do mercado, e três anos depois confessa que por três anos o sistema esteve sob suposto "apagão" e que os contratos tinham débitos.
Em família
Clarice Coppetti é mulher de um figurão da tecnocracia petista: Cesar Alvarez, atual secretário-executivo do Ministério das Comunicações.
Pandora
O suposto "apagão", com o maior jeitão de fraude, fez sumir R$ 1 bilhão e agora provoca desconfiança do mercado na própria Caixa.
Pandora 2
Deve também se explicar Joaquim Lima Oliveira, ex-vice-presidente de Fundos do Governo e atual vice de Tecnologia da Informação da Caixa.
Pandora 3
Têm a contar sobre o caso: Marcos R. Vasconcelos, vice-presidente de Ativos de Terceiros e Raphael Rezende Neto, vice de Risco, na Caixa.
Zona Franca
O presidente do Centro das Indústrias do Amazonas, Wilson Périco, vê um movimento, no Ministério do Desenvolvimento, na tentativa de esvaziar a Zona Franca de Manaus. "Dizem que a Zona Franca já está 'saturada' e não aprovam novos processos produtivos básicos, os PPBs", diz Wilson Périco. Sem os "PPBs", as indústrias não podem fabricar os produtos. Em 2009, foram aprovados 30 novos PPBs, Em 2010 apenas 21 e, em 2011, somente 11.
Roda presa
A restrição a novos processos produtivos básicos causa estranheza em Manaus pelo momento em que o país busca investir no crescimento.
Prorrogação
O Ministério do Desenvolvimento, entretanto, nega boicote à Zona Franca de Manaus. Lembra que a vigência da Zona Franca até foi prorrogada pela presidente Dilma Rousseff por mais 50 anos.
Twitterfobia
Outro que anda sumido do Twitter é o vice-presidente Michel Temer. "Apareceu" na rede social até o início de novembro e depois calou.
Cheira mal
Lula está comprometido - com empreiteiras amigas - a viabilizar o terceiro aeroporto em São Paulo. Para quem mandou construir o Itaquerão a tapa, não é nada mandar construir "aeroportão" com BNDES por trás.
Dia do Índio?
O futuro presidente do Supremo, ministro Carlos Ayres Britto, que votou a favor dos índios na questão da reserva Raposo Serra do Sol, deve tomar posse no cargo justamente em 19 de abril, Dia do Índio. O ministro deverá ficar no cargo até 18 de novembro, quando se aposenta ao completar 70 anos.
Dia do adeus
Cezar Peluso deixa a presidência do Supremo Tribunal Federal, mas permanece ministro até setembro de 2012. Amigos próximos apostam que ele pedirá aposentadoria antecipada para morar em Bragança Paulista, onde nasceu, ou em Santos, onde estudou se formou.
Número quatro
Pretendente à presidência da Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) é o quarto mais faltoso nas sessões plenárias. Não esteve em 47% das sessões de 2011, segundo o site Excelências.
Palmada
O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) obteve as assinaturas necessárias para fazer a Câmara a votar, no plenário, o projeto da Lei da Palmada. Aprovada em comissão especial, seguiria diretamente para o Senado.
Intimidação
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ataca a "investigação da conduta" da ministra Eliana Calmon. "É só para intimidar".
PODER SEM PUDOR
Só fazendo milagre
Quando se falava na necessidade de reforma tributária no Brasil, o presidente do Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo, Joseph Couri, lembrava o exemplo de Jesus Cristo, que mandou pegar um peixe e retirar de sua boca uma moeda de ouro, para pagar os tributos ao coletor de impostos de Jerusalém:
- Se, naquela época, com carga tributária e burocracia infinitamente menores, Jesus Cristo teve de fazer milagre para pagar impostos, imagina os pobres mortais de hoje em dia, com a carga a quase 40% do PIB!
Em família
Clarice Coppetti é mulher de um figurão da tecnocracia petista: Cesar Alvarez, atual secretário-executivo do Ministério das Comunicações.
Pandora
O suposto "apagão", com o maior jeitão de fraude, fez sumir R$ 1 bilhão e agora provoca desconfiança do mercado na própria Caixa.
Pandora 2
Deve também se explicar Joaquim Lima Oliveira, ex-vice-presidente de Fundos do Governo e atual vice de Tecnologia da Informação da Caixa.
Pandora 3
Têm a contar sobre o caso: Marcos R. Vasconcelos, vice-presidente de Ativos de Terceiros e Raphael Rezende Neto, vice de Risco, na Caixa.
Zona Franca
O presidente do Centro das Indústrias do Amazonas, Wilson Périco, vê um movimento, no Ministério do Desenvolvimento, na tentativa de esvaziar a Zona Franca de Manaus. "Dizem que a Zona Franca já está 'saturada' e não aprovam novos processos produtivos básicos, os PPBs", diz Wilson Périco. Sem os "PPBs", as indústrias não podem fabricar os produtos. Em 2009, foram aprovados 30 novos PPBs, Em 2010 apenas 21 e, em 2011, somente 11.
Roda presa
A restrição a novos processos produtivos básicos causa estranheza em Manaus pelo momento em que o país busca investir no crescimento.
Prorrogação
O Ministério do Desenvolvimento, entretanto, nega boicote à Zona Franca de Manaus. Lembra que a vigência da Zona Franca até foi prorrogada pela presidente Dilma Rousseff por mais 50 anos.
Twitterfobia
Outro que anda sumido do Twitter é o vice-presidente Michel Temer. "Apareceu" na rede social até o início de novembro e depois calou.
Cheira mal
Lula está comprometido - com empreiteiras amigas - a viabilizar o terceiro aeroporto em São Paulo. Para quem mandou construir o Itaquerão a tapa, não é nada mandar construir "aeroportão" com BNDES por trás.
Dia do Índio?
O futuro presidente do Supremo, ministro Carlos Ayres Britto, que votou a favor dos índios na questão da reserva Raposo Serra do Sol, deve tomar posse no cargo justamente em 19 de abril, Dia do Índio. O ministro deverá ficar no cargo até 18 de novembro, quando se aposenta ao completar 70 anos.
Dia do adeus
Cezar Peluso deixa a presidência do Supremo Tribunal Federal, mas permanece ministro até setembro de 2012. Amigos próximos apostam que ele pedirá aposentadoria antecipada para morar em Bragança Paulista, onde nasceu, ou em Santos, onde estudou se formou.
Número quatro
Pretendente à presidência da Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) é o quarto mais faltoso nas sessões plenárias. Não esteve em 47% das sessões de 2011, segundo o site Excelências.
Palmada
O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) obteve as assinaturas necessárias para fazer a Câmara a votar, no plenário, o projeto da Lei da Palmada. Aprovada em comissão especial, seguiria diretamente para o Senado.
Intimidação
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) ataca a "investigação da conduta" da ministra Eliana Calmon. "É só para intimidar".
PODER SEM PUDOR
Só fazendo milagre
Quando se falava na necessidade de reforma tributária no Brasil, o presidente do Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo, Joseph Couri, lembrava o exemplo de Jesus Cristo, que mandou pegar um peixe e retirar de sua boca uma moeda de ouro, para pagar os tributos ao coletor de impostos de Jerusalém:
- Se, naquela época, com carga tributária e burocracia infinitamente menores, Jesus Cristo teve de fazer milagre para pagar impostos, imagina os pobres mortais de hoje em dia, com a carga a quase 40% do PIB!
SEGUNDA NOS JORNAIS
O Globo: CGU constata desvios de R$ 1,1 bi em 5 ministérios
Folha de S. Paulo: País perde R$ 15 bi com acidentes em estradas neste ano
O Estado de S. Paulo: Governo adia quase R$ 50 bi de investimento em infraestrutura
Correio Braziliense: Vidas interrompidas no asfalto
Valor Econômico: Varejo reduz ritmo de expansão
Estado de Minas: Feliz vida nova
Zero Hora: Burocracia e brechas jurídicas emperram alterações no Daer
Jornal do Commercio: Senado e INSS abrem inscrição de concurso
domingo, dezembro 25, 2011
Protegendo as crianças - JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADÃO - 25/12/11
Uma vez falei aqui contra a chamada lei da palmada e fiquei com medo de sofrer uma tentativa de linchamento. Falei contra a lei e não a favor da palmada, mas fui amplamente descrito como um primitivo nordestino, defensor da tortura de criancinhas. Então acho que devo esclarecer que apanhei bastante em pequeno e até admito que o muito que há de torto em minha cabeça possa ser ligado a essas tundas, que iam bastante além de palmadas, em detalhes que não me dá gosto lembrar. No meu currículo, arrolam-se chinelos, tamancos, cabos de escovas, palmatórias (não só em casa, mas também na escola da professora Madalena, em Itaparica), cinturões de todos os materiais, beliscões, puxavantes de orelha, um ocasional cachação e aparentados.
Contudo, embora tenha as naturais queixas, pois que apanhar nunca me pareceu boa coisa, não desejei vingar-me disso nem com os autores das surras, nem com seus descendentes através de mim. Continuei a me dar bem com meus pais até o fim da vida deles e jamais bati em meus filhos, nem sequer com palmadinhas. Aliás, minto. Uma vez, em Salvador, minha filha mais velha, então com uns 5 anos, aprontou tanto e tão incontrolavelmente, que eu também me descontrolei e dei um palmadaço nela. Primeiro e único, porque, assim que vi sua carinha subitamente aterrorizada pela surpresa violenta, me senti um espécie de monstro. Exagero, claro, mas continuo pessoalmente contra não só palmadas como qualquer castigo físico.
Além disso, agora compreendo que devo manifestar-me a favor da lei da palmada. Em primeiro lugar, somos um país que protege muito. Não há ninguém que não esteja protegido - jovens, idosos, mulheres, homossexuais, consumidores, corruptos com direito a foro especial e quem mais nos ocorrer. O menor de idade mesmo é protegido por todos os lados. Creio que é exemplar o caso de um menor que faça 18 anos no dia 10 e, durante um assalto no dia 9, mate o assaltado somente pelo prazer de experimentar o revólver novo. Já vi casos assim, ou piores, em reportagens de televisão. Como somos um país rigoroso quanto à aplicação da lei, o delegado, embora privadamente tenha convicção oposta, é, assim como o juiz, obrigado a fazer valer a norma. Dura lex, sed lex. Portanto, matar com 17 anos e 364 dias é, por assim dizer, permitido, não dá nada. Já matar aos 18 anos pode dar cana séria, ainda que raramente. É talvez oportuno lembrar o episódio havido em Brasília e noticiado nos jornais, em que um homem assassinou a namorada e, no dia seguinte, foi à delegacia, levando a arma e o cadáver, e confessou o crime. Deu lá seu depoimento e foi solto na hora. Eu não conto essas maravilhas a meus amigos estrangeiros porque eles não acreditam, nós somos um país abençoado demais.
Mas desculpem, saí do assunto. O assunto é a lei da palmada. Devo reconhecer que nunca vi o texto do projeto e só sei dele o que ouço e leio aqui e ali. Em meu favor, porém, posso alegar que, como praticamente todos nós, não sou bem cidadão, mas súdito. Esse negócio de dar penada em nossa própria vida não é para nós. Como ensina a história da lei de ficha limpa, o que nós queremos não tem nada a ver com o que fazem do País, a gente não tem nada que se meter. Eles resolvem as coisas e nós vamos sabendo aos poucos, isso quando interessa que a gente saiba, para poder fazer o que eles mandam.
Eu ia dizendo que parece ser meu dever manifestar-me a favor da lei da palmada, que estende a proteção estatal sobre uma categoria desamparada. Antigamente, as crianças podiam ser surradas, afogadas, esfoladas ou fritas, não havia lei que as protegesse. Agora, sim, agora haverá, com certeza também através de novos órgãos oficiais, novos especialistas, funcionários, verbas e assim por diante - os legisladores não esquecem essa prioridade nacional, a criação de postos de trabalho. E a rede não se limita ao Estado. Entram nela, por exemplo, sogras e vizinhos. Calculem quantas sogras, por esse Brasil afora, fiscalizarão as mulheres de seus queridos filhos, essas desmazeladas sem educação doméstica. Não haverá palmada que não seja denunciada à polícia e prevejo que esse mar de proteção poderá espraiar-se de tal forma que teremos delegacias das palmadas e um Disque Palmada 24 horas por dia.
Tenho um pouco de preocupação, é bem verdade, com a obediência à lei, notadamente por pais e mães recalcitrantes ou de outras culturas. Fico pensando na possibilidade de certas situações. Imagino que, denunciada por ter dado meia dúzia de palmadas no Ranulfinho, a mãe do Ranulfinho deva receber a visita de um psicólogo oficial, que tentará demonstrar-lhe a inadequação e inaceitabilidade científica e legal do castigo físico. Ao que a mãe do Ranulfinho, que sempre foi da pá virada e ostenta cabelinhos na venta, diz que o psicólogo é psicólogo lá pras negas dele e que o sacaneta do Ranulfinho vai apanhar toda vez que tornar a abrir a geladeira, morder um pedaço de tudo o que tem lá dentro, deixar a porta aberta e emporcalhar a cozinha toda. Como de fato, dias depois há nova denúncia e novamente a mãe do Ranulfinho manda o governo pastar. Para encurtar a história, virá depois do psicólogo um psiquiatra, a mãe do Ranulfinho dirá que o psiquiatra se meta com a mãe dele e reincidirá, não restando recurso, senão cadeia mesmo. E, já que o pai do Ranulfinho apoia sua mulher, far-se-á a retirada da guarda do Ranulfinho e seus três irmãozinhos. Naturalmente que serão separados, porque ninguém poderá ficar com a guarda dos quatro. E, se não houver parentes ou amigos dispostos, o Estado tomará a si a guarda deles e, enquanto os pais mofam na justa cadeia, eles serão criados na mesma instituição modelar em que foi várias vezes confinado o menor que matou dois e feriu quatro, para experimentar o revólver. O Brasil se aperfeiçoa cada vez mais, o Ranulfinho é um menino de sorte.
Natal branco - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O ESTADÃO - 25/12/11
O condomínio se chama Happy Houses. No portão de entrada está escrito "Entrance" em vez de "Entrada" e todas as ruas têm nomes em inglês, como "Flower Lane" e "Sunshine Street". O condomínio tem um "playground" para as crianças, com serviço permanente de "baby sitters" e uma área de lazer para adultos chamada "Relaxation and Recreation". Cada casa, em estilo americano, tem seu "swimming pool" e o policiamento de todo o projeto é fornecido pela empresa de segurança "Confidence". No Natal as casas ficam cobertas de luzinhas decorativas e os moradores costumam fazer uma grande festa comunitária na praça central, ou "Central Park", do condomínio, com Papai Noel, troca de presentes e tudo, ao som de Jingle Bells. E sempre há um que começa a cantar White Christmas, e não demora estão todos cantando, em inglês, que sonham com um natal branco, com um natal com neve. E, numa noite de Natal, aconteceu o seguinte: quando estavam todos cantando White Christmas começou a nevar sobre o condomínio.
XXX
A princípio, ninguém acreditou. O que era aquilo? Flocos brancos caindo do céu e se acumulando no chão do "Central Park", nos galhos da árvore de Natal, na cabeça das pessoas? Parecia neve.
- É neve! - exclamou alguém.
- Como, neve? Aqui? No verão? Com este ca...
Não pode completar a frase porque foi atingido no nariz por uma bola de (agora não havia mais dúvidas) neve.
A algazarra foi grande. O sonho se realizava. As preces tinham sido ouvidas. Pois só um milagre explicava aquela neve. Só um milagre explicava estarem tendo um Natal branco, como deveriam ser todos os natais.
XXX
Todos correram para dentro de suas casas, para procurar agasalhos e voltar para a praça. A neve não parava de cair, cada vez com mais intensidade. Já havia neve acumulada nos jardins e nos telhados. Surgiram bonecos de neve, iguais aos de filme americano. As crianças se divertiam rolando na neve. E continuava a nevar, e a nevar. A locomoção sobre os montes de neve se tornava difícil. Muitos decidiram voltar para suas casas antes que a neve os impedisse de andar nas ruas. As casas não tinham calefação, como seria se ficassem soterrados pela neve durante dias? As lareiras das casas eram só para dar um toque americano, como nos filmes, à decoração. Não adiantariam nada. O socorro demoraria a chegar, por causa da neve. E continuava a nevar, e a nevar. A neve já estava pelas janelas das casas. Os telhados poderiam não aguentar o peso de tanta neve acumulada. Ninguém dormiu tranquilo sob as cobertas, naquela noite.
XXX
No dia seguinte, outro milagre. A neve desaparecera por completo. Só restara um montinho na cabeça de um jacaré de borracha boiando numa das piscinas, e este também desapareceu com o calor. Os proprietários se reuniram no "Meeting Room" da "Relaxation and Recreation" para discutir o fenômeno. Estranhamente, não saíra nenhuma notícia de nevadas em outros lugares da região. A neve só caíra no "Happy Houses" Por que seria? Decidiram não falar do ocorrido para ninguém fora do condomínio. Se acontecesse outra vez, contariam. Ser o único lugar do Brasil em que nevava no Natal só aumentaria o valor das propriedades. Mas, por enquanto, não diriam nada. A nevada poderia muito bem ter sido um aviso.
Um ano para ser esquecido - MARCO ANTONIO VILLA
O ESTADÃO - 25/12/11
O governo Dilma Rousseff é absolutamente previsível. Não passa um mês sem uma crise no ministério. Dilma obteve um triste feito: é a administração que mais colecionou denúncias de corrupção no seu primeiro ano de gestão. Passou semanas e semanas escondendo os "malfeitos" dos seus ministros. Perdeu um tempo precioso tentado a todo custo sustentar no governo os acusados de corrupção. Nunca tomou a iniciativa de apurar um escândalo - e foram tantos. Muito menos de demitir imediatamente um ministro corrupto. Pelo contrário, defendeu o quanto pôde os acusados e só demitiu quando não era mais possível mantê-los nos cargos.
A história - até o momento - não deve reservar à presidente Dilma um bom lugar. É um governo anódino, sem identidade própria, que sempre anuncia que vai, finalmente, iniciar, para logo esquecer a promessa. Não há registro de nenhuma realização administrativa de monta. Desde d. Pedro I, é possível afirmar, sem medo de errar, que formou um dos piores ministérios da história. O leitor teria coragem de discutir algum assunto de energia com o ministro Lobão?
É um governo sem agenda. Administra o varejo. Vê o futuro do Brasil, no máximo, até o mês seguinte. Não consegue planejar nada, mesmo tendo um Ministério do Planejamento e uma Secretaria de Assuntos Estratégicos. Inexiste uma política industrial. Ignora que o agronegócio dá demostrações evidentes de que o modelo montado nos últimos 20 anos precisa ser remodelado. Proclama que a crise internacional não atingirá o Brasil. Em suma: é um governo sem ideias, irresponsável e que não pensa. Ou melhor, tem um só pensamento: manter-se, a qualquer custo, indefinidamente no poder.
Até agora, o crescimento econômico, mesmo com taxas muito inferiores às nossas possibilidades, deu ao governo apoio popular. Contudo, esse ciclo está terminando. Basta ver os péssimos resultados do último trimestre. Na inexistência de um projeto para o País, a solução foi a adoção de medidas pontuais que só devem agravar, no futuro, os problemas econômicos. Em outras palavras: o governo (entenda-se, as presidências Lula-Dilma) não soube aproveitar os ventos favoráveis da economia internacional e realizar as reformas e os investimentos necessários para uma nova etapa de crescimento.
Se a economia não vai bem, a política vai ainda pior. Excetuando o esforço solitário de alguns deputados e senadores - não mais que uma dúzia -, o governo age como se o Congresso fosse uma extensão do Palácio do Planalto. Aprova o que quer. Desde projetos de pouca relevância, até questões importantes, como a Desvinculação de Receitas da União (DRU). A maioria congressual age como no regime militar. A base governamental é uma versão moderna da Arena. Não é acidental que, hoje, a figura mais expressiva é o senador José Sarney, o mesmo que presidiu o partido do regime militar.
Nenhuma discussão relevante prospera no Parlamento. As grandes questões nacionais, a crise econômica internacional, o papel do Brasil no mundo. Nada. Silêncio absoluto no plenário e nas comissões. A desmoralização do Congresso chegou ao ponto de não podermos sequer confiar nas atas das suas reuniões. Daqui a meio século, um historiador, ao consultar a documentação sobre a sessão do último dia 6, lá não encontrará a altercação entre os senadores José Sarney e Demóstenes Torres. Tudo porque Sarney determinou, sem consultar nenhum dos seus pares, que a expressão "torpe" fosse retirada dos anais. Ou seja, alterou a ata como mudou o seu próprio nome, sem nenhum pudor. Desta forma, naquela Casa, até as atas são falsas.
Para demonstrar o alheamento do Congresso dos temas nacionais, basta recordar as recentes reportagens do Estadão sobre a paralisação das obras da transposição das águas do Rio São Francisco. O Nordeste tem 27 senadores e mais de uma centena de deputados federais. Nenhum deles, antes das reportagens, tinha denunciado o abandono e o desperdício de milhões de reais. Inclusive o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, que representa o Estado de Pernambuco. Guerra, presumo, deve estar preocupado com questões mais importantes. Quais?
Falando em oposição, vale destacar o PSDB. Governou o Brasil por oito anos vencendo por duas vezes a eleição presidencial no primeiro turno. Nas últimas três eleições chegou ao segundo turno. Hoje governa importantes Estados. Porém, o partido inexiste. Inexiste como partido, no sentido moderno. O PSDB é um agrupamento, quase um ajuntamento. Não se sabe o que pensa sobre absolutamente nada. Um ou outro líder emite uma opinião crítica - mas não é secundado pelos companheiros. Bem, chamar de companheiros é um tremendo exagero. Mas, deixando de lado a pequena política, o que interessa é que o partido passou o ano inteiro sem ter uma oposição firme, clara, propositiva sobre os rumos do Brasil. E não pode ser dito que o governo Dilma tenha obtido tal êxito, que não deixou espaço para a ação oposicionista. Muito pelo contrário.
A paralisia do PSDB é de tal ordem que o Conselho Político - que deveria pautar o partido no debate nacional - simplesmente sumiu. Ninguém sabe onde está. Fez uma reunião e ponto final. Morreu. Alguém reclamou? A grande realização da direção nacional foi organizar um seminário sobre economia num hotel cinco estrelas do Rio de Janeiro, algo bem popular, diga-se. E de um dia. Afinal, discutir as alternativas para o nosso país deve ser algo muito cansativo.
Para o Brasil, 2011 é um ano para ser esquecido. Foi marcado pela irrelevância no debate dos grandes temas, pela desmoralização das instituições republicanas e por uma absoluta incapacidade governamental para gerir o presente, pensar e construir o futuro do País.
Quando mito e ciência se encontram - MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 25/12/11
Muito do que é narrado nas tradições religiosas, como a estrela de Belém, é inspirado por eventos reais
No seu belíssimo "A Adoração dos Magos", o pintor renascentista italiano Giotto di Bondone reproduz a icônica visita dos reis magos à manjedoura onde está o bebê Jesus. Acima, vemos a estrela de Belém, representada como um cometa dourado. Giotto observou o cometa de Halley em 1301, o que influenciou sua obra de 1304.
O que ele não sabia é que o cometa havia aparecido também em 12 a.C.. A conexão que Giotto fez entre o cometa e a famosa estrela foi criticada por muitos, incluindo São Tomás de Aquino. (Quem estiver interessado em visões astronômicas de fim de mundo consulte o meu livro "O Fim da Terra e do Céu"). Cometas não brilham durante o dia, ele argumentou; fora isso, cometas são um mau agouro: "No sétimo dia todas as estrelas, tanto planetas quanto estrelas fixas, cairão dos céus com caudas em fogo, como cometas", escreveu.
A crença de que fenômenos celestes têm significado profético integra inúmeras culturas. Os céus, sendo a morada dos deuses (ou de Deus), espelham as intenções divinas, sejam elas boas ou más.
O grande astrônomo alemão Johannes Kepler, tentando justificar o evento bíblico em termos astronômicos, mostrou que Júpiter e Saturno sofreram três conjunções (estavam perto um do outro) no ano 7 a.C.. Ele imaginou que essas conjunções criassem uma nova, que seria o nascimento de uma estrela. (Hoje sabemos que o fenômeno nova ocorre quando uma estrela do tipo anã branca suga matéria de uma companheira a ponto de acumulá-la sobre sua superfície em altas densidades. O hidrogênio acumulado funde-se em hélio, criando uma nova, que brilha de 20 a cem dias).
Várias tentativas já foram feitas para se associar a estrela de Belém a um evento astronômico, nenhuma ainda conclusiva, se bem que muitas são sugestivas. Isso não tira a importância mítica do evento bíblico, mas mostra que muito do que é narrado nas tradições culturais e religiosas da humanidade é inspirado por eventos reais.
Outro exemplo curioso é o das renas voadoras, cuja origem já foi ligada aos efeitos de um cogumelo alucinógeno (capaz de causar delírios), o Amanita muscaria, que era, e presumivelmente ainda é, consumido em rituais xamânicos na Lapônia e em certas regiões da Sibéria. O cogumelo tem o aspecto que vemos nos contos de fada, vermelho com bolinhas brancas, e aparece frequentemente em lendas de várias culturas europeias. Entre os seus vários apelidos, meu favorito é "ovolo matto" (ovo louco), da região italiana de Trentino.
O etnobotânico Jonathan Ott chegou a especular que as cores do cogumelo inspiraram as da roupa do Papai Noel e que as renas davam a impressão de voar após ingerir o cogumelo e agir de forma descontrolada. Ou talvez os pastores e caçadores da Lapônia viam tais coisas após ingerir o cogumelo.
A cultura popular-religiosa ou não-é um rico repositório de experiências e narrativas, muitas vezes inspirada pelo que as pessoas veem (ou pensam que veem) e sentem (ou pensam que sentem). Se a ciência pode iluminar a origem dessas histórias, isso só adiciona à sua magia. Neste ano, pendurei um Amanita muscaria na árvore de Natal. A estrela, claro, já está no topo.
Turismo no Rio - DANUZA LEÃO
FOLHA DE SP - 25/12/11
E outra breguice maravilhosa é subir ao Corcovado, e na descida se aventurar pela floresta
A melhor coisa do mundo é ser turista no Rio. Eles/elas chegam trazendo uma sacola com duas bermudas, cinco camisetas, um biquíni, uma sandália de borracha, um boné, acordam cedo e saem para conhecer a cidade -e que cidade.
Um dia vão a Santa Teresa, o bairro mais charmoso que existe, e andam a pé, vendo casas lindas, descobrindo ruelas sem saída, parando várias vezes para comer um pastel, tomar um caldo de cana ou uma cerveja gelada, e conhecendo botequins e restaurantes que quase nenhum carioca conhece, só eles.
O problema é a escolha: podem caminhar na pista Claudio Coutinho, que faz a volta do morro da Urca, depois aproveitar a viagem e subir ao Pão de Açúcar para ver a vista mais deslumbrante que existe.
É um programa que não passaria pela cabeça de nenhum carioca fazer; eles acham brega, não sabem o que estão perdendo.
E outra breguice maravilhosa é subir ao Corcovado, e na descida se aventurar pela floresta, com direito a um banho de cascata para refrescar. E pense: qual a grande cidade que tem a sorte de ter uma floresta de verdade tão perto?
Se estiver de carro, pode voltar pelo outro lado, descer direto na Barra e escolher em que ponto dos muitos quilômetros de praia vai dar um mergulho.
Vai poder também visitar o sítio Burle Marx e se extasiar com as centenas, milhares de plantas tropicais; depois, almoçar em um dos restaurantes das "tias" ali perto, em chão de terra batida, comer um camarão fresquinho, um peixe acabado de pescar, pagando três, quatro, cinco vezes menos do que num restaurante chique. E dar uma volta no Jardim Botânico, lembrando que era o lugar preferido de Tom (Jobim, é claro), e se deixar levar pela memória, pensando nas músicas que o maestro compôs, muitas delas inspiradas por ali.
Mas o Rio tem mais, muito mais.
Um mercado de artesanato: quem não gosta? E não é programa obrigatório, quando se visita um país exótico? Pois aos domingos temos um, maravilhoso: é a feira hippie, na praça General Osório. Lá você compra por dez, 20 reais, as pulseirinhas mais lindas, que estão nas vitrines das butiques por cem, 150, e mais colares e brincos, bolsas que vão fazer furor na volta para casa, calças compridas, blusas, pareôs, tudo bem baratinho, como a gente gosta, ainda com direito a comer um acarajé feito na hora por R$ 6,50 (só os cariocas não vão à feira).
Depois das compras feitas, mais um mergulho para arrematar o dia, e detalhe: a praia é a dois passos.
Como moro no Rio, não costumo seguir esse roteiro, mas no fim de tarde faço como eles: boto um tênis e ando até o Arpoador.
Na volta, paro num quiosque, tomo uma água de coco -R$ 4-, fico vendo o sol se esconder atrás do morro Dois Irmãos, e a cada vez me surpreendo com a beleza. Só vou para casa depois que escurece, mas eles, os turistas, continuam: como se fosse mágica, rola um som, a caipirinha aparece, e a festa continua até de madrugada.
Ah, se eu fosse esperta mesmo, nas próximas férias iria para um hotel na frente do mar, me fantasiaria de turista e aproveitaria melhor a cidade onde tenho o privilégio de morar.
PS - O governo do Rio é muito criativo; como, durante as obras do metrô, algumas ruas serão fechadas ao trânsito -o que vai impedir os moradores de ter acesso às garagens-, manobristas estarão à disposição para cuidar dos carros, não é lindo?
E aproveitando: será que o visual das novas estações do metrô não podia melhorar? A da praça General Osório é monstruosa, e dá medo só de pensar que podem fazer algo parecido na linda praça Nossa Senhora da Paz.
Brasília Urgente! Feliz 2012%! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 25/12/11
Os maias marcaram o fim do mundo pra 2012. Com medo de a Argentina ganhar a Copa no Brasil!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Pronto! Peru engolido, missão cumprida! Agora é rumo a 2012! Faltam sete dias pra começar o fim do mundo. Aliás, diz que o Itaquerão vai ficar pronto em 2012. Pra sediar o fim do mundo!
E diz que os maias marcaram o fim do mundo pra 2012. Com medo de a Argentina ganhar a Copa no Brasil! E sabe o que os maias fizeram quando viram a Ana Maria Braga de touca de Papai Noel? Anteciparam o fim do mundo! Rarará!
E um amigo meu comprou um carro modelo 2012. Literalmente o último modelo! Rarará! Eu não acho que o mundo vai acabar. Eu acho que o mundo TEM que acabar.
E adorei a retrospectiva de 2011 do chargista Alecrim: "Caiu outro ministro!". Pronto, só isso.
Retrospectiva 2011: caiu outro ministro. E a derrota do Santos tem um lado positivo: sobraram fogos pro Réveillon da Paulista. Rarará!
E São Paulo já está tão vazia que parece que teve uma explosão nuclear, só ficaram as baratas! Rarará! Feliz 2012! Ou como dizem em Brasília: Feliz 2012%. E tão loucos pra chegar em 2050%. Ops, em 20100%! Socuerro!
É hoje, viu! Tô com a mesma azia do ano passado. E esse maldito peru que não acaba! Cada pedaço que você corta, parece que aumenta! Peru até no café da manhã. Fora aquele tupperware lotado de rabanada que tá na geladeira!
E a ceia de Natal na casa de uma amiga minha: bolo prum lado, brigadeiro pro outro, sanduíches voando e Coca derramando. Zona de turbulência. Tem que apertar os cintos pra passar o Natal na casa dela!
E uma amiga minha fez um Natal diferente neste ano: foi comida pelo peru! Aí saiu a manchete: "Foi comida pelo peru". Rarará! Ai, eu tinha jurado nunca mais fazer trocadilho com peru.
E um amigo meu em vez de peru comeu uma perua da revista "Caras"! Com farofa!
E as simpatias de fim de ano? Pular sete ondas. Se eu pular sete ondas, eu morro afogado. Guardar sete grãos de romã na carteira pra ficar rico. Prefiro guardar sete cartões de crédito!
E eu tenho uma amiga tão insegura que escreveu na calcinha que comprou pro Ano Novo: "Você me ama mesmo ou só quer me comer?". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
De Louis.Brandeis@edu para Peluso@org - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 25/12/11
Não podemos defender a privacidade de quem avança sobre o patrimônio da coletividade
Caro colega Cezar Peluso,
Eu nunca fui um frasista. Estive na Corte Suprema dos Estados Unidos durante 23 anos, até 1936, e muita gente só se lembra de mim pela frase "a luz do sol é o melhor desinfetante". Fui um devorador de números, mais preocupado com os conceitos do que com o espetáculo.
Minha contribuição acadêmica foi a invenção da moderna doutrina da privacidade, o direito do cidadão de ser deixado em paz. Em 1890, eu condenava a "publicação desautorizada de fotografias de pessoas". O mundo mudou, mas a essência da minha proposição prevaleceu: quem não quer ser celebridade tem o direito de ser deixado em paz.
Eu, o senhor e o ministro Ricardo Lewandowski, bem como os desembargadores dos Tribunais de Justiça, tornamo-nos celebridades porque quisemos.
Nesse litígio com a juíza Eliana Calmon, corregedora do CNJ, o Judiciário foi capturado pelo estilo do noticiário policial. Acusam-na de querer investigar em torno de 200 mil pessoas. A juíza pediu ao órgão competente do Estado que examine, principalmente, as movimentações financeiras anuais superiores a R$ 500 mil nas declarações de renda de magistrados, servidores do Judiciário e parentes próximos.
Ora, essas 200 mil pessoas são a base, assim como 5,7 milhões de declarações de renda são a base sobre a qual trabalha a Receita Federal. As omissões de rendimento que caíram na malha fina foram 320 mil. No caso do CNJ, as movimentações estranhas foram 3.438. Essas, é bom que sejam investigadas.
Achou-se uma movimentação geral de R$ 173 milhões em dinheiro vivo. Desse montante, R$ 60 milhões giraram em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Três cidadãos, em tribunais paulistas e baianos moveram R$ 116,5 milhões num só ano. No TRT do Rio, uma só pessoa rodou US$ 157 milhões. Quando vim para cá, deixei, em dinheiro de hoje, US$ 15 milhões, e lembre-se de que cheguei rico à corte.
Não há invasão de privacidade no exame de documentos oficiais quando o Estado investiga uma invasão do patrimônio da coletividade.
O episódio adquiriu uma nova dimensão quando o nosso colega Ricardo Lewandowski concedeu uma liminar travando momentaneamente a ação do CNJ.
Diante da informação de que teria recebido cerca de R$ 1 milhão de subsídios legalmente devidos, do tempo em que era desembargador em São Paulo, foi defendido pelo senhor, que teve direito a R$ 700 mil. Esse caso agrupa 17 dos 354 desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo e conheço-o bem, pois conversei com o ex-presidente da corte, Antonio Carlos Viana Santos, que chegou aqui em janeiro. Posso revelar que Lewandowski não recebeu R$ 1 milhão.
Sei que o senhor tem uma relação difícil com a colega Eliana Calmon. Releve. Em 1924, o juiz James McReynolds recusou-se a sentar-se ao meu lado, e a Suprema Corte não fez sua tradicional fotografia oficial do início do ano. Por quê? Porque eu era judeu, "pulga de cão". Nunca falei dele, nem em casa.
Acredito que o senhor está preocupado com a instituição. Sendo o caso, devemos fazer de tudo para preservá-la. Quando Franklin Roosevelt quis mudar a sistemática da composição da corte, dei-lhe um golpe fatal. Ele foi um grande presidente, maior que Jefferson, quase da estatura de Lincoln, mas aliei-me aos Quatro Cavaleiros (do Apocalipse) que travavam suas reformas. Prevalecemos.
Despeço-me, citando um voto meu, de 1924: "O conhecimento é essencial para a compreensão e a compreensão deve anteceder o julgamento". Não creio que se deva impedir o CNJ de conhecer, para compreender e, depois, julgar.
Meus respeitos e feliz 2012.
Louis Brandeis
MERCADANTE NO GRID
Se Aloizio Mercadante trocar o Ministério da Ciência e da Tecnologia pelo da Educação, deixará a quinta fila do grid de largada da sucessão presidencial, indo para a segunda.
Na primeira, há só dois carros: Lula (se quiser) e Dilma Rousseff.
MODELO CHINÊS
A blogosfera nacional está de tal forma contaminada pela militância repetitiva que talvez seja a hora de algum grupo buscar compensação financeira junto às suas lideranças políticas.
Na China, existe o "Partido dos 50 Centavos". Essa seria a quantia que o governo paga por post a interneteiros profissionais. São centenas de milhares, recrutados e orientados pelo Partido Comunista.
Com 30 posts, o blogueiro ganha o suficiente para comprar um Big Mac.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e acredita ter entendido porque há 11 milhões de pessoas vivendo em moradias irregulares em 323 cidades brasileiras.
Se há alguém morando onde não é permitido, em algum momento, os Poderes Executivo e Judiciário deixaram de fazer o que deviam.
Não mandaram desocupar terrenos que têm donos, ou não fizeram esforço para regularizar a posse de quem comprou uma casa sem a documentação necessária.
Ao saber o tamanho dos auxílios-moradia pagos a desembargadores, o idiota sentiu cair a ficha.
O ministro Ricardo Lewandowski teve direito a esse subsídio, pois foi juiz da corte paulista.
O doutor jamais precisou de auxílio para morar. Sua família é uma bem-sucedida empreendedora imobiliária em São Bernardo.
Papai Noel distribuiu o cartão SUS
Papai Noel mora no Ministério da Saúde. O secretário de Gestão Estratégica e Participativa, Luiz Odorico Monteiro Andrade, mostrou que o Cartão Nacional de Saúde já existe e exibiu o seu. Tem o número 898.0019.2601.1564.
Esse projeto já custou à Viúva algo como R$ 400 milhões e 15 anos de promessas. Quando o comissário Alexandre Padilha assumiu o ministério, prometeu desatar o nó e avisou que não faria negócios sem licitação. No meio do caminho, amparou um contrato da Fiocruz, fechado sem licitação, no valor de R$ 365 milhões. Como tinha cheiro de Dnit, foi cancelado.
Para que o Cartão SUS funcione é preciso que exista uma rede de software interligando os computadores dos hospitais e os postos de atendimento.
Quando isso acontecer, a ficha médica e as despesas hospitalares de 190 milhões de brasileiros estarão num banco de dados. Agiliza-se o processo, mede-se a eficiência das unidades e dificulta-se a roubalheira.
Com o cancelamento do contrato dos portugueses (para glória da tradição da Fiocruz), voltou tudo à estaca zero. Há o serviço do Datasus, mas ele não gera negócios.
E o cartão do doutor Odorico? Coisa de Papai Noel. Foi uma simulação. O número 898.0019.2601.1564 pertence à cidadã Bruna Ewylien Santos Moura, que mora em Aracaju, onde existe, desde 2000, um bem-sucedido projeto do Cartão SUS. Odorico tem um cartão, mas o dele não é uma realização do comissariado. Foi produzido em 2002, durante o tucanato.
A arte como um não fazer - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 25/12/11
O artista conceitual, se usa objetos, usa-os pelo que significam em sua relação com o espaço social
Os adeptos da arte conceitual, em geral, consideram-me um inimigo irredutível desse tipo de expressão, o que não é inteiramente verdade.
Ou pelo menos, não adoto uma atitude meramente negativa; antes, procuro entender o que ocorreu, o que gerou esse tipo de manifestação. E esse pode ser o caminho, se não para aceitá-la, pelo menos para compreendê-la e situá-la.
E nisso espero que o leitor me acompanhe porque, se não me engano, a maioria, como eu, questiona esse tipo de arte.
O que se chama de arte conceitual eliminou a pintura. Eliminou também a escultura, mas, como lida com objetos, tem alguma coisa de escultura em suas instalações.
Mas só aparentemente, porque o escultor, seja ele figurativo ou abstrato, valha-se ele do volume ou da placa, trabalha sobre a superfície e o espaço, buscando transfigurá-los.
Já o artista conceitual não; se usa objetos -cadeiras e mesas, manequins de gesso ou o que for- usa-os pelo que significam em sua relação com o espaço social; enfim, pelo que significam como coisas do nosso dia a dia. Valem-se dessa situação normal para violentá-la e chocar o espectador. Um exemplo é quando põem cadeiras e mesas, uma sobre as outras, num equilíbrio instável, criando uma relação inesperada entre esses objetos e o espectador.
Esse tipo de expressão tem origem no dadaísmo, que, por sua vez, inspirou-se, de um lado nas colagens cubistas: envelopes de cartas e recortes de jornal -elementos "ready-made"- colados na tela, e de outro, na frase de Lautréamont: "O encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de necrotério".
É que o objeto comum, posto em situação inusitada, revela a expressão de sua forma, até então oculta pelo hábito.
Isso se aplica perfeitamente ao urinol que Duchamp enviou para a Exposição dos Independentes, em 1917, uma vez que, posto na situação de obra de arte, o objeto perde a funcionalidade para revelar-se como pura forma. Neste caso, ao escolher um urinol, e não outro objeto, Duchamp manifesta seu desprezo pelo que se considerava arte, uma atitude bem dadaísta.
Mas há outro componente implícito no nascimento desse primeiro "ready-made", já mencionado por mim aqui, e que foi a sua visita a uma exposição de indústria naval, em Paris, quando se deparou com uma enorme hélice de navio, que lhe pareceu uma escultura.
Era uma obra de arte criada pela indústria sem o propósito de criar arte -um "ready-made". Esse fato compõe o quadro histórico em que se dá grande mudança dos valores artísticos no começo do século 20: trata-se de uma época em que a produção industrial toma conta da sociedade. Isso, de certo modo, agrava a crise da pintura, que é essencialmente não industrial, artesanal.
Mas nem todos os artistas daquela época viam as coisas do mesmo modo que Duchamp. Mesmo um dadaísta como Hans Arp, ainda que tendo abandonado a linguagem usual da pintura e da escultura, manteve-se fiel à essência delas, criando obras não obstante inovadoras. A verdade é que as artes artesanais se mantiveram e se mantêm até hoje.
O próprio Duchamp, como já observei anteriormente, não abriu mão da realização artesanal, quando realiza, entre 1915 e 1923, "O Grande Vidro" e, depois, dedica os últimos 20 anos de sua vida à realização de "Étant Donné".
Outro artista desse mesmo grupo que se mantém durante alguns anos realizando obras artesanais é Kurt Schwitters, com suas colagens a que deu o nome de arte Merz.
Mais tarde, inventou o "Merzbau", uma antecipação das atuais instalações, ainda que essencialmente diferente, uma vez que se trata de uma obra sem fim, feita ao sabor do acaso: saía para trabalhar e, se encontrava alguma coisa que a seu ver cabia na obra, a trazia para casa e a inseria nela.
Como uma espécie de árvore, o "Merzbau" crescia a cada novo achado, a ponto de ter invadido o andar de cima da casa. Como teve que deixar a Alemanha, perseguido pelos nazistas, retomou a realização do "Merzbau" em Londres e nele trabalhou até morrer.
Como se vê, trata-se de uma experiência muito distinta das instalações feitas atualmente, que, como o próprio nome indica, pretendem emitir conceitos, a exemplo da arte engajada que sobrepõe a mensagem à elaboração estética.
Varapaus dos campos carecas - SÉRGIO AUGUSTO
O ESTADÃO - 25/12/11
Ante os passes errados, faltas a granel e cruzamentos patéticos do nosso atual futebol, fica a pergunta: que esporte é esse?
Sete meses atrás, emendei a vitória do Barcelona sobre o Manchester United na Liga dos Campeões com um jogo do Campeonato Brasileiro. Fui de Wembley ao Engenhão. Choque cultural é pouco. Os jogadores nem haviam entrado em campo e já estávamos perdendo; e não me refiro ao meu time, que afinal ganhou a partida, mas ao estado do gramado: careca, cheio de buracos e implantes de areia. É assim a maioria dos campos de futebol do Brasil, que ainda mais medonhos ficam se imediatamente expostos a uma comparação com o de qualquer estádio europeu de primeira e segunda linha.
Com a bola rolando, a derrota ampliou-se. Passes errados de tudo quanto é distância, chutes descalibrados, faltas a granel, jogadas bisonhas, cruzamentos patéticos para varapaus obsoletos. Que esporte é esse?, perguntei-me, perplexo. Se era futebol aquilo que eu acabara de ver na ESPN, o que estava vendo no SporTV - e outras vezes vira e continuaria vendo - precisava ser rebatizado. Pensando bem, aquela cancha estava à altura do insípido esporte que nela botinavam o Botafogo e seu adversário, justo o Santos, que há cinco décadas dividia com o alvinegro carioca o galardão de melhor time de futebol do melhor futebol do mundo.
Acabou-se o que era doce. E não foi no domingo passado não. Aquele olé catalão na arena de Yokohama foi apenas a última faena de uma corrida iniciada faz tempo. Quando? Antes da última Copa do Mundo, que apenas sacramentou a atual superioridade do futebol europeu, mais especificamente do espanhol. Bem antes, portanto, da desclassificação do Internacional pelo congolês Mazembe, no Mundial de Clubes de 2010, e da medíocre temporada da seleção brasileira sob o comando de Mano Menezes, que ainda não conseguiu extirpar todos os vícios da Era Dunga e nos assegurou um sexto lugar (sexto lugar!) no ranking da Fifa.
Estagnamos técnica, tática e filosoficamente. Como na educação, descuidamos do ensino fundamental, do estudo nas escolinhas de base, da formação de jogadores que conheçam bem os fundamentos do futebol e não cresçam semialfabetizados com a bola nos pés e na cabeça, sem uma visão coletiva do que, afinal, se chama football association. A crítica vale para toda a América do Sul. São erros acumulados que, como os problemas econômicos que em parte os determinaram, não se superam de uma hora para outra. A próxima Copa do Mundo já é daqui a dois anos. O Brasil corre o risco de ser o primeiro campeão mundial a perder as duas copas que disputou em casa. Já foi o primeiro a perder um ministro do Esporte por corrupção, durante os preparativos para hospedar um Mundial.
Se ainda vivo e à sombra das chuteiras imortais, Nelson Rodrigues teria escrito que o Santos levou do Barcelona "um banho de Paulina Bonaparte", e que os gandulas de Wembley pegaram mais na bola que os jogadores santistas. Mas não há como saber se o seu "patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo" o deixaria enxergar o óbvio: que não mais se trata de um confronto entre a "saúde de vaca premiada" e a "velocidade burríssima" dos jogadores europeus e a "morosidade inteligentíssima" dos brasileiros, Fla-Flu retórico dos anos 60, soberbamente superado pela seleção que levantou o caneco em 1970.
No Mundial do México fizemos a maior diferença porque, além de bem preparados fisicamente, ousamos desde a primeira convocação, sem as hesitações que liquidaram nosso time na Copa da Inglaterra, e escalando os melhores até fora de suas habituais posições - Piazza de zagueiro, Rivellino na ponta esquerda, Tostão enfiando-se pelo meio da área -, e adotando o "sistema Dumas": um por todos, todos por um. Mais "association", impossível. E, como havia alguns gênios no time para aumentar a diferença, fizemos a mais fulgurante campanha de um país numa Copa do Mundo.
O que se viu no México foi a culminância de uma revolução a rigor iniciada pelo húngaro Béla Guttman, no início dos anos 50, só ultrapassada pelo "futebol total" que Rinus Michels impôs ao futebol holandês do início da década de 70. Fala-se muito no 16 de julho de 1950, quando perdemos a Jules Rimet para os uruguaios, mas não sei o que é pior, se perder para um time inferior, jogando em casa, ou levar um baile de técnica, tática, disposição e o escambau, como aconteceu com o que sobrara do dream team de Zagalo no dia 3 de julho de 1974, quando a Laranja Mecânica regida por Cruyff nos tirou o tetra em Dortmund.
"Muito tico-tico no fubá", desdenhou Zagallo sobre o alucinante toque de bola dos holandeses, antes da Copa. Tico-tico, sim. Mas o fubá era verde e amarelo.
Depois, como se sabe, Michels levou o futebol tico-tico para o Barcelona, por onde, aliás, passariam duas gerações de craques holandeses. E é por aí que podemos começar a decifrar o enigma da acachapante superioridade do futebol catalão. Ora, direis, fazendo vosso um raciocínio bem rodrigueano, que a Holanda não venceu sequer sua melhor Copa, ao passo que o Brasil, para todo sempre liberto de seu complexo de vira-lata, emplacaria mais dois Mundiais. Ambos, medíocres, diga-se.
Mas o fato é que ganhamos, somos pentacampeões, produzimos e exportamos craques em profusão, como exportávamos ouro e pedras preciosas, e substituímos o complexo de vira-lata pelo que Francisco Bosco muito apropriadamente batizou de "complexo de dálmata", tão ou mais danoso que o outro na medida em que o narcisismo de que se nutre pode nos dar a ilusão de que o futebol jogado pelo Barcelona tem o mesmo pedigree do que jogamos na Copa de 1982. Para encurtar a discussão: quem é o Serginho Chulapa do Barcelona?
Mesmo sem ter visto o Honved de Puskas, o Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, Bosco afirma, intrepidamente, que nada se compara ao Barcelona. Eu, que vi todos os citados (os dois primeiros só em imagens), assino embaixo desse juízo e desta explicação: "Os times do passado jogavam o mesmo futebol dos adversários, só que melhor. Esse time do Barcelona não joga o mesmo futebol que os adversários; joga um futebol inédito". Sorte nossa que Mano Menezes também tenha percebido isso.
(E)terno Natal - JOSUÉ GOMES DA SILVA
FOLHA DE SP - 25/12/11
Todos os anos, às vésperas do Natal e no seu transcurso, mudamos de comportamento, ficamos mais tolerantes e afáveis. Surge um clima de harmonia e paz. Nessa época, todos ficamos mais generosos. Tal comportamento é excelente e emblemático, pois demonstra que temos capacidade e potencial para a fraternidade, a ética e a boa educação.
Pena que esses sentimentos não perdurem por todos os outros meses do ano. Passadas as festas, não é incomum atos de egoísmo, a falta de civismo e o desrespeito ao próximo, em casa, no trabalho e nos espaços públicos.
Tornam-se outra vez indisfarçáveis o individualismo, a intolerância, a insensatez no trânsito, a prepotência, a incapacidade de ouvir, o excesso de nervosismo, o preconceito, a má vontade em ponderar e outros maus costumes.
Assim, a cada Natal, é importante refletir sobre o verdadeiro significado dessa data tão expressiva para a humanidade. A comemoração do nascimento de Jesus Cristo traz mensagem universal e se aplica a todas as crenças. Afinal, ninguém com o mínimo de bom-senso poderia discordar de que o mundo seria muito melhor se fossem prevalentes o amor ao próximo, os princípios do perdão, o respeito às diferenças, a boa vontade e a consciência de que dependemos uns dos outros.
Essas considerações valem para o cotidiano da convivência familiar, profissional e social e também para o intercâmbio entre os povos. Especialistas indicam que a alternativa capaz de pôr fim às crises intermitentes, e cada vez mais graves no mundo atual, será a ajuda mútua das nações. Estaríamos, numa visão otimista, migrando para uma nova fase do capitalismo, na qual os países atuariam de modo cooperativo para garantir o crescimento sustentado, a solidez e a dinâmica dos mercados.
Entretanto o florescer dessa era verdadeiramente revolucionária depende da preponderância dos ideais de solidariedade e desprendimento. A nova realidade será impossível sem que se superem os fanatismos, as vaidades, os ódios seculares, a cobiça, a inveja. Ou seja, ninguém é melhor ou tem mais direitos do que os outros e nenhum país é mais dono da Terra do que todos os demais.
Somos habitantes da mesma aldeia que, embora global, nos pertence e oferece oportunidades de viver e prosperar. Mas precisamos ser realmente iguais perante as leis divinas e as dos homens, acreditar e praticar a fraternidade.
Não basta, portanto, a bondade individual efêmera e as tréguas passageiras das datas comemorativas. A humanidade precisa de um definitivo sentimento natalino, ancorado num ecumenismo sincero e multilateral, para conquistar sua redenção de prosperidade e paz.
Feliz Natal!
Messias no plural - GUSTAVO PATU
FOLHA DE SP - 25/12/11
BRASÍLIA - "Vocês não precisam seguir ninguém. Vocês têm de pensar por conta própria. Vocês todos são indivíduos!", grita o homem, da janela. "Sim, somos todos indivíduos!", diz em uníssono a multidão aglomerada em frente à casa. "Vocês todos são diferentes!", insiste ele. "Sim, somos todos diferentes!", responde a turba, em êxtase.
Trata-se de "A Vida de Brian", clássico filme satírico do grupo inglês Monty Python, em que o personagem-título, nascido no mesmo dia e a poucos metros de Jesus, acaba involuntariamente tomado por líder espiritual e realizador de milagres.
Para efeito cômico, um blog do "New York Times" postou a cena logo abaixo de outro vídeo, recente, em que o consagrado economista Joseph Stiglitz, crítico da ortodoxia neoliberal, fala ao movimento "Ocupe Wall Street". Os manifestantes reproduzem em coro as palavras do orador para que mais pessoas na rua possam escutar o discurso, expediente batizado de microfone humano.
O paralelo entre devoção religiosa e ativismo político é recorrente, ainda mais nos casos extremos ou caricaturais de uma e de outro. O próprio Brian, tão racional e libertário ao repelir seguidores, adere com fervor e sem reflexão a uma tal Frente Popular da Judeia, que prega o ódio ao imperialismo romano e, principalmente, à rival Frente do Povo da Judeia.
Aqui e agora, novas mídias e tecnologias facilitam tanto a afirmação individual e a difusão de ideias como a organização de rebanhos em redes sociais, sites pessoais interconectados, correntes no Twitter. Facções agressivas multiplicam ao infinito versões e argumentos verdadeiros e falsos. Candidatos a mentores fomentam o maniqueísmo para inflamar ânimos e afastar hesitações.
De volta ao filme, no célebre Sermão da Montanha, os presentes mais distantes mal conseguem ouvir o que é dito. Entediada, a nada santa mãe de Brian quer prazer mais imediato: "Vamos a um apedrejamento".
Os últimos dias - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 25/12/11
Não sei se esta é uma boa hora para falar nisso, mas se a previsão de que o mundo vai acabar em 2012 estiver correta, este é o último Natal das nossas vidas. E o próximo réveillon tem a obrigação de ser uma festa para acabar com todas as festas, pois depois não haverá remorsos nem recriminações – depois não haverá mais nada. Você está livre para fazer, na Festa do Último Fim de Ano, tudo que sempre pensou em fazer mas foi detido pela moral, os bons costumes, o código civil e seu instinto de preservação. Pode entrar na festa nu e sair caramelado. Pode derrubar o cantor da banda e tomar seu lugar pelo resto da noite, como sempre sonhou, rechaçando aos pontapés todas as tentativas de tirá-lo do palco. Pode dizer o que pensa de todas as pessoas que não gosta e declarar sua paixão para todos os seus amores secretos, sem temer o revide ou o desdém. Pode fazer tudo isto sem pensar na sua reputação, pois se a previsão estiver certa ninguém mais vai ter uma reputação.
Deve-se pensar em algumas medidas práticas a serem tomadas na iminência do fim do mundo. Começar a comprar tudo com cheques pré-datados ou a crédito, por exemplo. Usar ao máximo os cartões de crédito, inclusive nas viagens para o exterior que se fará às pressas. E a crédito. Conhecer o maior número de lugares que ainda não se conhece no mundo, numa espécie de tour de despedida. Fazer a Copa do Mundo de 2014 em seguida, sem esperar 2014. Encurtar o carnaval deste ano para poder fazer, adiantados, os de 2013, 2014 e 2015. Aproveitar todos os pores de Sol possíveis, pois eles também serão os últimos. E isto é o mais difícil: passar a só dizer coisas definitivas. A proximidade do fim certamente aguçará nossos sentidos e nos tornará mais graves e filosóficos. Ou então, o contrário. Só dizer bobagens. Entregar-se à besteira e ir para o fim às gargalhadas. Pois se tudo vai acabar mesmo, se a morte do nosso planeta será apenas um pontinho ridículo pipocando na escuridão cósmica, pra que fingir que algo de tudo isto era sério?
E o fim nos trará algumas vantagens. Tornará coisas como caderninhos com datas de aniversário, horóscopos e índices de colesterol sem sentido. Todos os tipos de restrições alimentares serão risíveis, poderemos comer de tudo que nos faz mal como se não houvesse amanhã – porque não haverá mesmo. Está bem, não veremos o fim das novelas, mas não será tão ruim assim. Bom Natal para todos.
Não sei se esta é uma boa hora para falar nisso, mas se a previsão de que o mundo vai acabar em 2012 estiver correta, este é o último Natal das nossas vidas. E o próximo réveillon tem a obrigação de ser uma festa para acabar com todas as festas, pois depois não haverá remorsos nem recriminações – depois não haverá mais nada. Você está livre para fazer, na Festa do Último Fim de Ano, tudo que sempre pensou em fazer mas foi detido pela moral, os bons costumes, o código civil e seu instinto de preservação. Pode entrar na festa nu e sair caramelado. Pode derrubar o cantor da banda e tomar seu lugar pelo resto da noite, como sempre sonhou, rechaçando aos pontapés todas as tentativas de tirá-lo do palco. Pode dizer o que pensa de todas as pessoas que não gosta e declarar sua paixão para todos os seus amores secretos, sem temer o revide ou o desdém. Pode fazer tudo isto sem pensar na sua reputação, pois se a previsão estiver certa ninguém mais vai ter uma reputação.
Deve-se pensar em algumas medidas práticas a serem tomadas na iminência do fim do mundo. Começar a comprar tudo com cheques pré-datados ou a crédito, por exemplo. Usar ao máximo os cartões de crédito, inclusive nas viagens para o exterior que se fará às pressas. E a crédito. Conhecer o maior número de lugares que ainda não se conhece no mundo, numa espécie de tour de despedida. Fazer a Copa do Mundo de 2014 em seguida, sem esperar 2014. Encurtar o carnaval deste ano para poder fazer, adiantados, os de 2013, 2014 e 2015. Aproveitar todos os pores de Sol possíveis, pois eles também serão os últimos. E isto é o mais difícil: passar a só dizer coisas definitivas. A proximidade do fim certamente aguçará nossos sentidos e nos tornará mais graves e filosóficos. Ou então, o contrário. Só dizer bobagens. Entregar-se à besteira e ir para o fim às gargalhadas. Pois se tudo vai acabar mesmo, se a morte do nosso planeta será apenas um pontinho ridículo pipocando na escuridão cósmica, pra que fingir que algo de tudo isto era sério?
E o fim nos trará algumas vantagens. Tornará coisas como caderninhos com datas de aniversário, horóscopos e índices de colesterol sem sentido. Todos os tipos de restrições alimentares serão risíveis, poderemos comer de tudo que nos faz mal como se não houvesse amanhã – porque não haverá mesmo. Está bem, não veremos o fim das novelas, mas não será tão ruim assim. Bom Natal para todos.
CLAUDIO HUMBERTO
“O que está realmente em jogo é a sobrevivência do CNJ”
Ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, e o esvaziamento do CNJ
POLICIAIS DO DF DEVASSAM A VIDA DO GOVERNADOR
A Polícia Civil do DF investiga, em caráter reservado, onze integrantes da corporação, entre delegados e agentes, que criaram uma “força-tarefa informal” para investigar o governador Agnelo Queiroz e seus familiares. Já foram identificados os policiais, que seriam ligados a adversários políticos do governador, mas seus nomes são mantidos sob sigilo para que as investigações não sejam prejudicadas.
SUSPEITA Nº 1
A “força-tarefa informal” da Polícia Civil do DF é suspeita inclusive de quebrar ilegalmente o sigilo fiscal da família do governador do DF.
POLÍCIA CAIXA-2
Durante a recente greve, com a Polícia Civil esvaziada, a Inteligência descobriu que policiais faziam investigações “não contabilizadas”.
PESO DA EXPERIÊNCIA
A Polícia Civil não descarta o envolvimento de ex-policiais na “força-tarefa informal” que devassa a vida do governador e familiares.
A MELHOR DO PAÍS
Bem paga e bem treinada, a Polícia Civil do DF também tem recursos mais modernos que a Polícia Federal, inclusive na área de inteligência.
MAIA SE JACTA DE ‘DAR TRABALHO’ A DILMA EM 2011
Acusado até pelos aliados de não estar à altura do cargo, o presidente da Câmara, deputado Marco Maia (RS), tem destacado em conversas reservadas que seu petismo não é assim tão arraigado. Com orgulho, ele enumera derrotas do governo para ilustrar que em sua gestão os deputados federais deram “muito trabalho” a Dilma, ao contrário do governo Lula, quando era o Senado que deixava o presidente insone.
BATENDO O PÉ
No primeiro semestre, Marco Maia chegou a recusar convites para solenidades no Planalto só para sinalizar sua “insatisfação”.
FIM DA BIRRA
Os sinais de insatisfação de Marco Maia nem foram percebidos por Dilma, e o presidente da Câmara retomou o caminho para o Planalto.
BRINCADEIRA
No jantar de quarta, Dilma disse que a cada viagem ao exterior Marco Maia quer saber se o vice também vai. Adora ser presidente interino.
BUFUNFA
A mansão da ex-gravadora de Flávio Maluf, filho do próprio, e do publicitário Duda Mendonça, será a sede da campanha de Gabriel Chalita (PMDB) à prefeitura. Só de luvas teria pago R$ 1 milhão.
NINJA PERNAMBUCANO
Está ficando monótono o pernambucano Eduardo Campos (PSB) ser o Governador do Ano. Enquanto ele trabalha como um ninja, como dizem seus secretários com expediente dobrado, os outros fazem espuma.
BOLSA BILIONÁRIA
Em 2011, o governo Dilma gastou R$ 14,1 bilhões no Bolsa Família. Os Estados que mais receberam foram Pernambuco, Maranhão, São Paulo Paulo, Bahia, Minas e Ceará. Mais de R$ 1 bilhão para cada.
CONSULTA
Relator do projeto do Código Florestal na Câmara, Paulo Piau (PMDB-MG) enviou o texto do Senado aos governadores e ao Centro de Monitoramento da Embrapa, em Campinas, para avaliar os impactos.
SEM JUSTIFICATIVA
Quatro deputados faltaram, sem justificativas, 100% das sessões de comissões que integram: os mineiros Lincoln Portela (PR) e Rogrigo Castro (PSDB), Pedro Novais (MA) e Leonardo Picciani (RJ) do PMDB.
OS FALTOSOS
Em média, 15% dos deputados federais faltaram ao trabalho na Câmara, em 2011. Eduardo Gomes (TO) e Zenaldo Coutinho (PA) foram os tucanos que mais faltaram.
A FAXINA DE DILMA
A Presidência da República promoverá uma limpeza geral em suas dependências em 2012, com detergente, sabão, água sanitária etc. Reservou R$ 514,5 mil para renovar o estoque da copa e cozinha.
RIFA PARAIBANA
Rei Lear, drama de Shakespeare, é fichinha. O senador Vital do Rego Filho (PMDB-PB) e o irmão Vezeziano, prefeito de Campina Grande, “rifaram” a própria mãe, deputada Nilda Gondim (PMDBP-B), obrigada a se licenciar por quatro meses, para atender arranjos políticos deles.
TIRIRICA NOEL
O deputado Tiririca (PR-SP) deu uma de Papai Noel e doou R$ 1.500 para caixinha dos funcionários do edifício onde mora, em Brasília.
PODER SEM PUDOR
OLHOS NOS OLHOS
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) jamais perde uma boa piada. Ele ouvia o então ministro da Defesa Waldir Pires (Defesa) se meter onde não é chamado, reclamando do projeto de Tasso Jereissati que previa a videoconferência na Justiça. Para Waldir, o projeto “impede que o magistrado interrogue o acusado ‘olhos nos olhos’”. Demóstenes observou na bucha, lembrando a conhecida canção:
– Baiano, o ministro Waldir com certeza prefere uma lei Maria Bethânia
Ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça, e o esvaziamento do CNJ
POLICIAIS DO DF DEVASSAM A VIDA DO GOVERNADOR
A Polícia Civil do DF investiga, em caráter reservado, onze integrantes da corporação, entre delegados e agentes, que criaram uma “força-tarefa informal” para investigar o governador Agnelo Queiroz e seus familiares. Já foram identificados os policiais, que seriam ligados a adversários políticos do governador, mas seus nomes são mantidos sob sigilo para que as investigações não sejam prejudicadas.
SUSPEITA Nº 1
A “força-tarefa informal” da Polícia Civil do DF é suspeita inclusive de quebrar ilegalmente o sigilo fiscal da família do governador do DF.
POLÍCIA CAIXA-2
Durante a recente greve, com a Polícia Civil esvaziada, a Inteligência descobriu que policiais faziam investigações “não contabilizadas”.
PESO DA EXPERIÊNCIA
A Polícia Civil não descarta o envolvimento de ex-policiais na “força-tarefa informal” que devassa a vida do governador e familiares.
A MELHOR DO PAÍS
Bem paga e bem treinada, a Polícia Civil do DF também tem recursos mais modernos que a Polícia Federal, inclusive na área de inteligência.
MAIA SE JACTA DE ‘DAR TRABALHO’ A DILMA EM 2011
Acusado até pelos aliados de não estar à altura do cargo, o presidente da Câmara, deputado Marco Maia (RS), tem destacado em conversas reservadas que seu petismo não é assim tão arraigado. Com orgulho, ele enumera derrotas do governo para ilustrar que em sua gestão os deputados federais deram “muito trabalho” a Dilma, ao contrário do governo Lula, quando era o Senado que deixava o presidente insone.
BATENDO O PÉ
No primeiro semestre, Marco Maia chegou a recusar convites para solenidades no Planalto só para sinalizar sua “insatisfação”.
FIM DA BIRRA
Os sinais de insatisfação de Marco Maia nem foram percebidos por Dilma, e o presidente da Câmara retomou o caminho para o Planalto.
BRINCADEIRA
No jantar de quarta, Dilma disse que a cada viagem ao exterior Marco Maia quer saber se o vice também vai. Adora ser presidente interino.
BUFUNFA
A mansão da ex-gravadora de Flávio Maluf, filho do próprio, e do publicitário Duda Mendonça, será a sede da campanha de Gabriel Chalita (PMDB) à prefeitura. Só de luvas teria pago R$ 1 milhão.
NINJA PERNAMBUCANO
Está ficando monótono o pernambucano Eduardo Campos (PSB) ser o Governador do Ano. Enquanto ele trabalha como um ninja, como dizem seus secretários com expediente dobrado, os outros fazem espuma.
BOLSA BILIONÁRIA
Em 2011, o governo Dilma gastou R$ 14,1 bilhões no Bolsa Família. Os Estados que mais receberam foram Pernambuco, Maranhão, São Paulo Paulo, Bahia, Minas e Ceará. Mais de R$ 1 bilhão para cada.
CONSULTA
Relator do projeto do Código Florestal na Câmara, Paulo Piau (PMDB-MG) enviou o texto do Senado aos governadores e ao Centro de Monitoramento da Embrapa, em Campinas, para avaliar os impactos.
SEM JUSTIFICATIVA
Quatro deputados faltaram, sem justificativas, 100% das sessões de comissões que integram: os mineiros Lincoln Portela (PR) e Rogrigo Castro (PSDB), Pedro Novais (MA) e Leonardo Picciani (RJ) do PMDB.
OS FALTOSOS
Em média, 15% dos deputados federais faltaram ao trabalho na Câmara, em 2011. Eduardo Gomes (TO) e Zenaldo Coutinho (PA) foram os tucanos que mais faltaram.
A FAXINA DE DILMA
A Presidência da República promoverá uma limpeza geral em suas dependências em 2012, com detergente, sabão, água sanitária etc. Reservou R$ 514,5 mil para renovar o estoque da copa e cozinha.
RIFA PARAIBANA
Rei Lear, drama de Shakespeare, é fichinha. O senador Vital do Rego Filho (PMDB-PB) e o irmão Vezeziano, prefeito de Campina Grande, “rifaram” a própria mãe, deputada Nilda Gondim (PMDBP-B), obrigada a se licenciar por quatro meses, para atender arranjos políticos deles.
TIRIRICA NOEL
O deputado Tiririca (PR-SP) deu uma de Papai Noel e doou R$ 1.500 para caixinha dos funcionários do edifício onde mora, em Brasília.
PODER SEM PUDOR
OLHOS NOS OLHOS
O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) jamais perde uma boa piada. Ele ouvia o então ministro da Defesa Waldir Pires (Defesa) se meter onde não é chamado, reclamando do projeto de Tasso Jereissati que previa a videoconferência na Justiça. Para Waldir, o projeto “impede que o magistrado interrogue o acusado ‘olhos nos olhos’”. Demóstenes observou na bucha, lembrando a conhecida canção:
– Baiano, o ministro Waldir com certeza prefere uma lei Maria Bethânia
sábado, dezembro 24, 2011
Nascidos em dezembro - IVAN ANGELO
REVISTA VEJA - SP
A jovem grávida tinha medo de que seu filho nascesse na noite de Natal. O médico havia previsto que a criança nasceria entre 20 e 30 de dezembro, no mais tardar, 2 de janeiro. Desde a última avaliação de data ela vinha tecendo fantasias. Brincava, ria quando falava disso com as amigas, mas ao verbalizar punha para fora seus receios:
— Já imaginou se a criaturinha resolve nascer na noite de Natal, na hora da ceia?
As amigas diziam que ela sossegasse, seria muita coincidência ele embicar logo no dia 24, “relaxa”, “desencana”, mas se acontecesse, qual o problema?
— Já imaginou? Hospital em noite de Natal?
— Ué, normal.
— Normal! Helooo! Com que disposição você acha que as pessoas trabalham na noite de Natal? Pessoal lá fora comemorando, maior amigo oculto, dando risada, tomando um vinho com o love, e elas lá de branquinho medindo xixi de paciente! Vão ter ódio de mim e do meu filho.
— Já imaginou? Hospital em noite de Natal?
— Ué, normal.
— Normal! Helooo! Com que disposição você acha que as pessoas trabalham na noite de Natal? Pessoal lá fora comemorando, maior amigo oculto, dando risada, tomando um vinho com o love, e elas lá de branquinho medindo xixi de paciente! Vão ter ódio de mim e do meu filho.
Riam junto com ela daqueles medos, e quanto mais perto chegavam do período provável, mais ela falava naquilo. Fazia questão de parto normal, nada de cortes na sua barriga. O marido apoiava, dizia que a escolha era dela, mas achava bom esse negócio de não cortar. Nem era pela estética da barriga, tinha horror de cirurgia.
Tudo era argumento para ela. Teatralizava:
Tudo era argumento para ela. Teatralizava:
— Não, não, não, não, não! Meu bebê não vai fazer isso comigo! Sabe que a Mariana, minha amiga, entrou em trabalho de parto no dia 29 de dezembro? O médico estava no Guarujá, maior descansadão! E ela teve dificuldades, correu perigo feio, a pressão foi a quatro. A máxima!
Que nada, não vai acontecer com você, relaxa, desencana, diziam.
E ela, cômica:
— Já imaginou meu filhinho nascendo com aquela barulhada de Natal? O foguetório! Os sustos que ele vai levar, bum!, bum!, depois de passar esse tempo todo no silêncio gostosinho do meu barrigão?
Riam junto. E ela:
— Agora imagina essa: e se o médico sai correndo da mesa da ceia e solta aquele bafo de vinho na cara do meu baby? Tadinho, mal nasceu e já encara um arroto de farofa! E outra: e se houver uma emergência e o anestesista vier correndo vestido de Papai Noel? Não tiver tempo nem de tirar a fantasia?
Gostavam do jeito daquela amiga loquaz, capaz de transformar medos em comédia, mas lembraram a ela que, se não queria filho no final de dezembro, tivesse pensado nisso na hora de engravidar. E ela:
— Na hora a gente não pensa. Ninguém pensa quarenta semanas para frente na hora de transar.
Nas conversas de sala de espera de consultório ela soube que várias grávidas de dezembro tinham preocupações. Por exemplo, os filhos nascidos no fim do ano não gostavam de fazer aniversário perto do Natal, porque perdiam a festinha com os colegas e, lógico, dezenas de presentes. Ou ganhavam da parentada um só presente valendo por dois. Nos casos de parto de fim de ano, a própria festa familiar do Natal era atropelada pela agitação do nascimento. Ficou sabendo que a maioria das mães antecipava a cesárea.
— Nem pensar em cesárea! — ela se manteve decidida. — Vai nascer bonitinho, parto normal, e é antes do dia 20.
Não foi. O dia 20 passou, passou o 21, chegou o 24, e assim que ela se sentou à mesa para a ceia sentiu a primeira contração. O bebê bagunçou a ceia, a entrega dos presentes de amigo oculto, a sequência de brindes espumantes, a festa das crianças, e nasceu saudável e forte às 2 e pouco da madrugada. De cesariana. Deu tudo errado, mas deu tudo certo.
Riam junto. E ela:
— Agora imagina essa: e se o médico sai correndo da mesa da ceia e solta aquele bafo de vinho na cara do meu baby? Tadinho, mal nasceu e já encara um arroto de farofa! E outra: e se houver uma emergência e o anestesista vier correndo vestido de Papai Noel? Não tiver tempo nem de tirar a fantasia?
Gostavam do jeito daquela amiga loquaz, capaz de transformar medos em comédia, mas lembraram a ela que, se não queria filho no final de dezembro, tivesse pensado nisso na hora de engravidar. E ela:
— Na hora a gente não pensa. Ninguém pensa quarenta semanas para frente na hora de transar.
Nas conversas de sala de espera de consultório ela soube que várias grávidas de dezembro tinham preocupações. Por exemplo, os filhos nascidos no fim do ano não gostavam de fazer aniversário perto do Natal, porque perdiam a festinha com os colegas e, lógico, dezenas de presentes. Ou ganhavam da parentada um só presente valendo por dois. Nos casos de parto de fim de ano, a própria festa familiar do Natal era atropelada pela agitação do nascimento. Ficou sabendo que a maioria das mães antecipava a cesárea.
— Nem pensar em cesárea! — ela se manteve decidida. — Vai nascer bonitinho, parto normal, e é antes do dia 20.
Não foi. O dia 20 passou, passou o 21, chegou o 24, e assim que ela se sentou à mesa para a ceia sentiu a primeira contração. O bebê bagunçou a ceia, a entrega dos presentes de amigo oculto, a sequência de brindes espumantes, a festa das crianças, e nasceu saudável e forte às 2 e pouco da madrugada. De cesariana. Deu tudo errado, mas deu tudo certo.
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