domingo, outubro 16, 2011

JOÃO BOSCO RABELLO - PMDB põe as unhas de fora



PMDB põe as unhas de fora
JOÃO BOSCO RABELLO
O Estado de S.Paulo - 16/10/11

A defesa pública da redução do número de ministérios, feita pelo senador Waldir Raupp (PMDB-RO), dá a medida do descontentamento do PMDB com a hegemonia petista no governo, desproporcional ao peso do partido na aliança que elegeu Dilma Rousseff.

Além de inusitada, por partir do presidente de uma legenda beneficiária dos cargos na estrutura que propõe extinguir, a proposta revela ainda a descrença do PMDB no reequilíbrio de forças na reforma ministerial de janeiro. O partido não espera nenhuma alteração de curso.

O PMDB é um partido que historicamente opera nos bastidores e costuma encaminhar seus interesses com a eficiência própria de uma agremiação partidária capaz de submeter governos à sua força numérica e capilaridade nacional.

A declaração pública de Raupp rompe esse estilo e expõe a dificuldade do vice-presidente Michel Temer em controlar a insatisfação cada vez mais ostensiva do partido com o tratamento por parte do Planalto.

A proposta de redução do ministério não se traduz por um surto virtuoso - ela tem o claro propósito de sinalizar que se não é possível aumentar a participação no governo, que se reduza o espaço do rival na sua composição.

Um movimento que mostra como está radicalizada a disputa com o PT e que acrescenta um grau de dificuldade ainda maior para a presidente Dilma Rousseff na reforma cuja prioridade deverá (pelo menos, deveria) ser a de dotar o governo de uma capacidade mínima de gestão, até agora inexistente. O que se tem até aqui, na avaliação dos políticos é o governo de uma gestora, sem gestão.

Mais gestão

orienta reforma

A provocação do PMDB encontra um governo preocupado não só com a ineficiência da maioria dos ministérios, mas também com a capacidade de pastas sob o comando petista de produzir agendas negativas, após os escândalos de corrupção no primeiro semestre. Casos da recente tentativa de intervenção da Secretaria de Políticas para Mulheres, na área da propaganda, e da Secretaria de Direitos Humanos no projeto já pactuado da Comissão da Verdade. A percepção de gestão no governo fica restrita a poucos ministérios - não chegam a 10 - e com visibilidade quase exclusiva da área econômica, onde os ventos favoráveis que sopraram para Lula não voltarão mais: daqui em diante será uma luta diária pelo controle da inflação e monitoramento da crise externa.

Apostas

Na bolsa de apostas , dois nomes são dados como fora do governo - Carlos Lupi, do Trabalho, e Mário Negromonte, das Cidades. Este, acusado de comandar mensalão no PP.

Namoro de opostos

A perspectiva de uma parceria com a Força Sindical, que reúne 2.675 afiliadas e 10 milhões de trabalhadores, levará a cúpula paulista do PSDB ao lançamento amanhã do livro sobre os 20 anos da entidade - que tem prefácios de Fernando Henrique e Lula. São esperados o governador Geraldo Alckmin, José Serra e o líder na Câmara, Duarte Nogueira. A primeira pedra no caminho da parceria é a votação, na próxima quarta-feira, do projeto que regulamenta o trabalho dos terceirizados, cujos direitos os sindicalistas querem equiparar aos dos contratados diretamente pelas empresas. A Força vai monitorar os votos tucanos na comissão.

Comissão da Verdade

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) entrega quarta-feira o parecer sobre a criação da Comissão da Verdade, restringindo de 1964 a 1988 o período das investigações.

JAPA GOSTOSA


EDITORIAL O ESTADÃO - Roubalheira recorde


Roubalheira recorde
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 16/10/11

Os deputados estaduais do Amapá estão recebendo uma verba indenizatória, paga além do salário, de R$ 100 mil por mês. Mas quem se impressiona com mais esse absurdo? Para qualquer lado que se olhe neste país, em qualquer direção que se procure, lá se encontram marginais travestidos de homens públicos que não hesitam em meter a mão no dinheiro que é de todos, locupletando-se à custa dos brasileiros que, vergados sob o peso de uma das mais onerosas cargas tributárias do mundo, assistem impotentes ao espetáculo da corrupção e da ineficiência no trato da coisa pública. Não há faxina que possa dar conta deles. As evidências que diariamente vêm à tona demonstram que em todos os níveis, em todos os poderes, em todos os partidos, em todos os Estados e municípios, a corrupção se alastra. Basta procurar, que se encontra.

O escândalo da vez vem do Estado amazônico que José Sarney escolheu para representar no Senado. Lá, a Polícia Federal levou a cabo a Operação Mãos Limpas, cujo relatório final o Estado divulgou no domingo passado. O inquérito foi feito com a colaboração de técnicos da Controladoria-Geral da União (CGU) e revela o envolvimento de membros dos Três Poderes estaduais, do Tribunal de Contas e da prefeitura da capital, Macapá, em desvios de recursos públicos que somaram, ao longo de dez anos, cerca de R$ 1 bilhão.

Mesmo diante dessa enormidade a trampolinagem praticada pela Mesa Diretora da Assembleia Legislativa amapaense pode ser considerada de primeira grandeza. Em junho, na maior moita, a verba indenizatória dos 24 deputados estaduais foi elevada para inacreditáveis R$ 100 mil por mês. Essa verba indenizatória é quase três vezes maior do que a paga pela Assembleia de Alagoas - de R$ 39 mil -, considerada recordista em generosidades no trato de seus deputados, até que se conheceram os hábitos amapaenses. E corresponde a sete vezes o que os deputados federais recebem para cobrir as mesmas despesas gerais de aluguel, transporte e consultoria. Os responsáveis pela decisão são o presidente da Assembleia, Moisés Souza (PSC), e o primeiro-secretário da Mesa, Edinho Duarte (PP). Ambos integram com destaque a lista dos indiciados pela Operação Mãos Limpas, acusados de participar de um esquema de emissão de notas frias destinadas a mascarar o desvio de verbas públicas.

Mas o que dá a exata medida da podridão que infesta a vida pública do Estado é a história de um personagem que, se fosse de ficção, seria simplesmente inacreditável. Mas é de carne e osso. José Julio de Miranda Coelho comandou a Polícia Militar, presidiu a Assembleia Legislativa por dois mandatos consecutivos e era presidente do Tribunal de Contas quando foi preso no ano passado pela Operação Mãos Limpas, sob a acusação de desvios num montante de R$ 190 milhões, e solto em março último. É suspeito do assassínio de um policial federal, cuja arma foi encontrada na sua casa, além de responder à acusação de pedofilia. Possui cerca de 100 imóveis, alguns deles em São Paulo, tudo em nome de laranjas. Pois é esse o homem que manda no dia a dia da política amapaense. Lá, tudo é feito à sua imagem e semelhança.

A Assembleia Legislativa, que ele presidiu por duas vezes, por exemplo, está caindo aos pedaços. A verba que sobra para a farra dos deputados falta para manter o prédio em condições minimamente dignas. A Casa tem 3.121 funcionários, apenas 134 efetivos. Os demais são nomeados pelos deputados. Mas não são encontrados no prédio, até porque a maior parte é constituída de fantasmas. Entre os quase 3 mil comissionados, outra revelação inacreditável: 626 ocupam o cargo de agentes parlamentares da presidência; 272 atuam como agentes especiais da presidência e 89 são assessores especiais da presidência. Ao todo, 987 para servir ao chefe do Legislativo.

E este, o deputado Moisés Souza, tem para o fato uma explicação absolutamente cínica: "Seria uma hipocrisia se tivéssemos tantos funcionários que não pudessem percorrer o Estado e manter contato com nossas bases eleitorais. São esses gastos (a verba de R$ 100 mil) que aumentam a qualidade dos trabalhos dos deputados do Amapá". Haja desfaçatez!

JACKSON DIEHLÉ - O Iraque como modelo para o Oriente Médio


O Iraque como modelo para o Oriente Médio
JACKSON DIEHLÉ
O ESTADÃO - 16/10/11

Primavera árabe faz invasão iraquiana parecer válida


Na Síria, unidades de elite do Exército estão atacando violentamente uma resistência agora armada. Partidários de Bashar Assad estão sendo eliminados em assassinatos seletivos enquanto ativistas de oposição são torturados até a morte. Países ocidentais se omitem displicentemente de lado enquanto Rússia e China vetam iniciativas do Conselho de Segurança da ONU. Pelo menos 2.900 mortos foram computados - e a carnificina pode ter apenas começado. Eu poderia escrever uma coluna sobre tudo isso. Em vez disso, gostaria de propor que repensemos a guerra no Iraque.

Com as tropas americanas a menos de três meses da retirada, essa missão é agora vista geralmente em Washington como, na melhor hipótese, um desperdício de vidas e recursos americanos, e, na pior, como uma loucura monumental - e isso entre os candidatos presidenciais republicanos. Mas a incorretamente nomeada primavera árabe, que se transformou de eufórico inverno na Tunísia e Egito num verão selvagem na Líbia, Iêmen e Síria, lança uma luz diferente sobre o Iraque.

Ocorre que o fim da autocracia no Oriente Médio árabe, diferentemente do que houve na Europa Central ou na Ásia, não será pacífico. O poder popular não está funcionando. Ditadores como Assad, Muamar Kadafi, na Líbia, e Ali Abdullah Saleh, no Iêmen, respaldados por montanhas de armamentos e exércitos fiéis a eles, preferem lutar até a morte a se dobrar pacatamente. Apesar de verem Hosni Mubarak em sua gaiola no tribunal - ou talvez por causa disso -, eles não se deixarão intimidar por crimes contra a humanidade.

A carnificina pode ser vista como lamentável, mas aceitável, se os "malvados" estiverem perdendo. Mas com a notável exceção de Kadafi, eles não estão. Assad tem sido subestimado pela maioria dos serviços de inteligência ocidentais, mas seus tanques e artilharia estão se mostrando mais do que suficientes para os heterogêneos grupos de desertores do Exército em cidades como Homs e Rastan. Saleh quase foi morto por uma bomba, mas quando voltou ao país após três meses num hospital saudita, as forças comandadas por seu filho ainda mantinham o palácio presidencial em Sanaa.

Kadafi está perdendo, é claro, embora isso se deva, em grande parte, à intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Quando a campanha aérea começou, ele estava prestes a massacrar a oposição no baluarte rebelde de Benghazi. Aviões e drones ocidentais se mostraram apenas suficientes para fazer a balança pender contra ele. Mas a Líbia foi o limite dos governos dos EUA, Grã-Bretanha e França: não haverá uma operação como essa na Síria ou no Iêmen, é o que diz o refrão. Isso significa que o derramamento de sangue nesses países poderá se arrastar indefinidamente e piorar cada vez mais.

Decisões. Isso nos trás de volta ao Iraque. Como escreveu recentemente a ex-estrategista do governo Bush, Meghan O'Sullivan no Washington Post, o Iraque ficou muito aquém das expectativas tanto americanas como iraquianas. Os sofrimentos e os custos dessa guerra são algumas das razões porque os EUA e seus aliados descartaram uma intervenção na Síria e porque o governo Obama fez um esforço morno na Líbia.

O Iraque, porém, se parece muito com o que a Síria, e boa parte do resto do Oriente Médio árabe, poderá ficar. Seu ditador odioso e sua família se foram, assim como o controle do governo por uma minoria sectária que requeria uma repressão permanente. A quase guerra civil que se arrastou por cinco anos está dormente, e as diversas seitas do Iraque administram suas diferenças com eleições democráticas. Apesar de alguns ataques espetaculares ainda ganharem as manchetes, morreram menos pessoas violentamente este ano no Iraque que no México - ou na Síria.

Também é significativo que o Iraque permaneça um aliado dos EUA, um inimigo da Al-Qaeda e uma força relativamente do bem no Oriente Médio. Tudo isso ocorreu porque os EUA invadiram o país.

Saddam Hussein demonstrou como poderia lidar com uma rebelião estilo primavera árabe doméstica quando usou helicópteros de combate para massacrar multidões de xiitas em 1991.

Mesmo que seu regime de alguma forma houvesse desmoronado sem o concurso de tropas americanas, nada teria impedido o Iraque de enveredar pelo conflito sectário interminável que hoje ameaça a Síria.

Em suma, a primavera árabe está fazendo a invasão do Iraque parecer mais válida - e necessária - do que há um ano. Antes de mais um ano se passar, os sírios poderão perfeitamente se ver desejando que o mesmo ocorra com eles. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

MICHEL TEMER - Reforma política e participação popular


Reforma política e participação popular
MICHEL TEMER
O Estado de S.Paulo - 16/10/11

Inúmeras vezes o Congresso Nacional tentou votar a reforma política. Nunca com sucesso. O insucesso, contudo, não é derrota da tese de que ela é fundamental para aprimorar as instituições do País. Ao contrário, fortalece a percepção de que devemos buscar meios e modos para manter a mobilização do meio político em relação às mudanças essenciais para melhorar as nossas leis eleitorais.

Relator da matéria na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana fez um belíssimo trabalho, assim como o deputado Ronaldo Caiado já o havia feito na legislatura passada. Senadores envolvidos na discussão do tema na Câmara Alta também trouxeram grande contribuição durante a tramitação da proposta naquela Casa. Não lograram êxito por causa do grande número de resistências internas.

Especificamente localizadas nas alterações do sistema eleitoral, as dificuldades da reforma política se dão porque essa matéria não está relacionada diretamente à órbita dos partidos políticos, mas ao foco individual de como cada parlamentar avalia a própria experiência no processo eleitoral segundo as regras em vigor. Interesses pessoais sobrepõem-se ao aperfeiçoamento das regras das eleições.

Apesar dos problemas enfrentados, a reforma política não pode parar. Se esses debates não têm sequência, hão de ter consequência. E uma delas é trazer o povo para dentro dessa discussão, repisando conceitos que já estão inscritos na vida pública brasileira desde a redemocratização.

A Constituição federal de 1988 prevê a democracia representativa, na qual o povo delega a deputados e senadores o poder para elaborar leis e auxiliar o Poder Executivo na administração do Estado. Mas também incluiu instrumentos propiciadores da democracia direta.

Eis o parágrafo único do artigo 1.º: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".

A democracia direta é exercida por três mecanismos. O primeiro é a iniciativa popular, pela qual o povo pode apresentar petição deflagradora de processo legislativo e que foi instrumento já utilizado com sucesso recentemente. O segundo é o plebiscito, que, com o perdão da obviedade, é a consulta prévia sobre lei aprovada pelo Congresso ou ato administrativo praticado pelo Executivo. O terceiro e último é o referendo, consulta posterior ao povo sobre aplicação de lei já aprovada pelo Legislativo.

O plebiscito foi usado para definir a forma e o regime de governo, ainda no ano de 1993. E o referendo tornou-se palavra comum quando se tratou da questão do desarmamento.

Se há dificuldade da reforma política ser realizada pelos representantes do povo, a solução constitucional é caminhar para a democracia direta com os mecanismos constitucionais já previstos desde 1988. O povo há de ser consultado, por meio de plebiscito, a respeito do sistema eleitoral que deseja: se distrital puro ou misto, se lista fechada ou aberta, se voto proporcional ou majoritário (distritão), se financiamento público ou privado. Tudo isso, a meu ver, poderia ser feito na eleição de 2014, quando se elegem presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Ou seja, acrescentar-se-ia a consulta plebiscitária sobre o sistema eleitoral e sobre a forma de financiamento das campanhas.

O deputado federal Miro Teixeira, com quem conversei várias vezes sobre reforma política, já fala nesse tema da consulta plebiscitária ou referendo há bastante tempo no plenário da Câmara. Reitero a proposta de fazer a consulta popular no ano de 2014 porque isso elevaria o tom programático das discussões durante a campanha. Deputados e senadores haveriam de discuti-la, elucidá-la, propagá-la, esclarecê-la durante o horário eleitoral e nos encontros diretos com os eleitores. Com isso, não se poderia invocar que o povo ignora os vários sistemas. Os eleitores seriam esclarecidos durante o programa eleitoral e nas discussões sobre as diferentes opiniões e divergentes análises de candidatos e estudiosos. Neste tópico, é claro que a sociedade civil organizada e a mídia especializada colaborariam com grande entusiasmo para ampliar a força desse importante debate, cujo fim último é fortalecer a democracia em nosso país.

A consulta é prévia, portanto, plebiscitária. O que o plebiscito definir será levado ao Congresso eleito, que deverá tornar viável a reforma - pelo menos o sistema eleitoral e o financiamento público - para ser aplicado na eleição de 2018. Ou seja, tem a vantagem de não aprovar de imediato algo a ser aplicado logo na eleição seguinte. Circunstância, aliás, que tem sido fator impeditivo da reforma política.

Não se argumente que há muitos votos a serem dados em 2014, já que o povo está cada vez mais habituado a usar a urna eletrônica e tem demonstrado intimidade com esse meio rápido e eficiente de votar. É certo que na eleição municipal o número de votos é menor (somente para prefeito e vereador), mas a temática da disputa municipal sempre dirá respeito à localidade, não a temas nacionais.

Temas nacionais devem ser discutidos e pensados numa eleição nacional. Misturá-los poderia provocar efeito perverso para as questões municipais e para a análise adequada das mudanças nas regras eleitorais. Penso que essa é a maneira de resgatar a reforma política como parte da formação de um convencimento amplo para o bem da sociedade.

Haveria ainda interação do Parlamento com o povo, ficando enaltecida a posição da Casa de Leis, já que é ela que convoca o plebiscito e, ao final, elabora a norma que regulamenta a vontade popular. Dessa forma, não se poderia falar de insucesso, mas de uma histórica participação popular num processo que diz respeito a todos os brasileiros.

VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA

SARNEY PERDE UM PEDAÇO DO PODER



CELSO LAFER - Comércio e finanças na economia internacional



Comércio e finanças na economia internacional
CELSO LAFER
O Estado de S.Paulo - 16/10/11

O comércio e as finanças são os dois pilares da economia globalizada, dentro da qual estamos todos inseridos. Têm regimes internacionais distintos (OMC e FMI), que são, no entanto, interdependentes, como indica a discussão sobre os desalinhamentos cambiais e seu impacto no comércio exterior. Por causa da amplitude da crise financeira e das dificuldades da negociação da Rodada Doha, inseriu-se também na pauta internacional, com renovada intensidade, o tema do déficit da governança prevalecente na economia mundial. Disso se vem ocupando o G-20.

Na análise dos problemas da governança cabe destacar a diferença de perspectivas que separa o pilar do comércio, de que se incumbe a OMC, e o das finanças, que se insere no âmbito do FMI. É dessa diferença de perspectivas e de suas consequências que vou tratar neste artigo.

Não obstante as conhecidas dificuldades da negociação de Doha e em época de crise econômica como a atual, a OMC, por ser um sistema multilateral regido por normas, vem evitando o equivalente a um risco sistêmico do comércio internacional que se traduziria num protecionismo exacerbado e generalizado. Estimativas indicam que restrições comerciais afetaram 1% dos fluxos comerciais em 2009 e 0,9% em 2010.

Em contraste, o pilar financeiro está muito frágil desde a crise de 2008, que, a partir dos EUA, se alastrou pelo mundo. Tornou-se ainda mais quebradiço com a crise do euro. Esta incitou, este ano, a percepção dos riscos trazidos pelos processos de integração dos mercados impelidos por uma alta finança sem apropriada governança. A precariedade do pilar financeiro impacta, ainda que de maneira diferenciada, todas as economias nacionais, pois se internaliza na vida dos países por obra dos processos da globalização que tornam as fronteiras porosas, continuamente transpostas pelos fluxos de capital e pela circulação em rede das informações que, no caso, geram expectativas negativas. Estas, por sua vez, integram a realidade, influenciando os processos e os acontecimentos e trazendo à tona as insuficiências do FMI no trato da questão.

O FMI, assim como o Gatt, que antecedeu a OMC, foram concebidos para evitar que se repetissem as crises provocadas na década de 1930 pela Grande Depressão, que trouxeram guerras cambiais e protecionismos exacerbados, propiciadores de tensões que foram um dos fatores que induziram à 2.ª Guerra Mundial. De 1946 a 1971 o FMI teve um papel regulatório, cuja base era a da gestão das paridades cambiais, fixadas pela relação do ouro com o dólar. Essa gestão deixou de existir quando, em 1971, os EUA anunciaram que não mais converteriam em ouro as reservas em dólar ou outras moedas dos demais países.

Com o término das paridades fixas, as moedas passaram a flutuar livremente, umas em relação às outras, e a acumulação ou perda de reservas foi ocorrendo sem a aprovação ou desaprovação do FMI, ainda que com seu acompanhamento. Esse acompanhamento, em conjunturas de crises financeiras, e muito especificamente nas dos países em desenvolvimento, se fez em entrosamento com o sistema financeiro privado transnacional e é parte da história das duras negociações das dívidas dos países latino-americanos. Entre eles, as do México, da Argentina e do Brasil.

Uma postura não regulatória e não regida por normas, adepta da flexibilização dos padrões do aceitável e do não aceitável, foi se consolidando no âmbito do pilar financeiro, no contexto ideológico que se seguiu à queda do Muro de Berlim. Basicamente, a ideia a realizar que norteou essa postura foi a da desregulamentação nacional e internacional do pilar financeiro com base na crença no poder e na capacidade autorreguladora dos mercados livres. A autorregulação revelou-se desastrosamente inadequada diante da crise sistêmica induzida pelo próprio funcionamento dos mercados financeiros.

Foi distinta a postura do pilar comercial, que adquiriu uma institucionalidade própria com a criação, a partir da Rodada Uruguai, do Gatt, da OMC, que passou a ter vigência em 1995. Nem o Gatt, que foi uma instituição mais modesta que o FMI, nem a OMC, que tem outra amplitude em razão de sua vocação de universalidade e abrangência dos assuntos que disciplina, se basearam na irrestrita desregulamentação do comércio internacional. Com efeito, a concepção de governança do pilar comercial é a de favorecer um processo de liberalização do comércio mundial, regido por normas, porque o mercado não opera no vazio e não se autorregula sem um marco institucional.

Como aponta o Sutherland Report de 2005, sobre o futuro da OMC, de cuja elaboração participei, é preciso compreender o papel central de suas normas, que são seu ativo de governança, pois os acordos da Rodada Uruguai não são uma carta constitutiva de um livre-comércio sem limites. Foram negociados e concebidos para organizar, de modo funcionalmente eficaz, os méritos do livre-comércio que estimula a economia mundial, subordinando-o, porém, a princípios e normas. Estas oferecem a segurança e a previsibilidade do acesso a mercados e contêm dispositivos (como os de dumping e salvaguardas) que permitem, no âmbito de normas prefixadas, mecanismos de proteção dos mercados nacionais quando estes são afetados por atuações que contrariam as normas acordadas na Rodada Uruguai.

Esses dispositivos refreiam os unilateralismos dos protecionismos nacionais, pois são passíveis de controle por um inovador sistema de solução de controvérsias, acessível a todos os membros da OMC. Desse sistema se tem valido o Brasil com competência em defesa dos interesses nacionais, como realçou, com grande pertinência, o chanceler Patriota em artigo publicado neste espaço em 8/10. É por essa razão que a OMC é, para todos os seus membros, o grande hedge, o seguro do pilar do comércio da economia internacional, que contrasta com o quebradiço pilar financeiro.

PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, FOI MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES NO GOVERNO FHC

RENATA LO PRETE - PAINEL


Sob nova direção
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 16/10/11

O Planalto decidiu trocar o comando da Empresa Brasileira de Comunicação, responsável pela administração da TV Brasil e demais canais públicos de rádio e televisão. A jornalista Tereza Cruvinel será substituída por Nelson Breve, atual superintendente de comunicação multimídia da EBC, que conta com a simpatia do ex-ministro Franklin Martins. O governo cogitou a recondução de Cruvinel, cujo mandato expira no dia 29, mas a escolha desagradava conselheiros da emissora, que a acusavam de centralizar decisões. Durante sua passagem pela EBC, três diretores e um âncora se demitiram com críticas a ela.
Caneta 1 Com Lula fora da Presidência, o PT se sente mais liberado para costurar alianças hoje do que há quatro anos. Embora o ex-presidente seja peça central no xadrez eleitoral, grão-petistas avaliam que Dilma Rousseff é mais discreta nos acertos, o que dará à sigla mais autonomia para decisões regionais.

Caneta 2 Exemplo citado da menor ingerência na montagem das coalizões é o caso de Flávio Dino (PCdoB-MA). Se quiser ser candidato em São Luís, o PT deseja apoiá-lo. Em 2010, o comunista, hoje à frente da Embratur, foi escanteado pelos petistas atendendo ao apelo de José Sarney (PMDB-AP), que emplacou sua filha, Roseana, no governo maranhense.

Inimigo íntimo Ainda que, no Congresso, o governo não tenha dúvidas de que vai se beneficiar da criação do PSD, nas eleições municipais o partido de Gilberto Kassab enfrentará candidatos petistas em sete capitais. Já com o aliado PMDB, o PT rivalizará em 12 capitais.

Eu avisei Líder do PMDB, o deputado Henrique Eduardo Alves (RN) avisou o governo que consegue assegurar os votos de seus correligionários na comissão especial que analisa a DRU (Desvinculação das Receitas da União), mas que, quando o texto for ao plenário, o Planalto precisará "fazer a sua parte".

Menos A cúpula peemedebista enviou recado claro ao presidente do partido, Valdir Raupp: não gostou das declarações em que ele defendeu candidatura própria à Presidência em 2014 e pregou o enxugamento no número de ministérios.

Petit comité Quem acompanha a preparação das prévias tucanas para a prefeitura sentencia: apesar da mobilização da militância, José Serra, Geraldo Alckmin e FHC terão papel capital na definição do rumo do PSDB paulistano em 2012.

Subterrâneo Depois de a Odebrecht apresentar proposta para a obra da linha Laranja do metrô paulistano, o consórcio OAS-Invepar entregou ao Bandeirantes Manifestação de Interesse Privado no projeto da linha Rosa, que ligará Lapa e Moema.

Lotado O primeiro lote de PPPs do governo Alckmin prevê a construção de três presídios, com capacidade para 10.700 detentos.

Quero mais A Fifa quer que o texto da Lei Geral da Copa deixe mais claro que o credenciamento para a cobertura do evento será prerrogativa exclusiva da entidade. Quer também proibir portais de internet de exibir imagens dos jogos para serem acessadas fora do país.

Pior não fica Com sua alfabetização questionada na Justiça, Tiririca (PR-SP) vai pilotar a primeira audiência pública como coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Cultura. O deputado convoca ONGs e empresas para o encontro de 7 de novembro na Funarte-SP.
com LETÍCIA SANDER e DANIELA LIMA

tiroteio

"O PT é um partido esquisito. Às vezes se afasta da gente. Deve ser porque ainda estamos longe da eleição. Ano que vem, pode ter certeza, os petistas aparecem."
DO DEPUTADO PAULINHO DA FORÇA, PRESIDENTE DO PDT-SP, sobre as dificuldades encontradas por seu partido na composição de aliança com o PT para as eleições paulistanas de 2012.

Contraponto

Transporte coletivo


Em passagem do livro "Ousadia que deu certo", o hoje deputado Ricardo Trípoli (PSDB-SP) conta que Mario Covas escalou seu secretariado, em 1983, para mutirão na zona leste paulistana. O então prefeito percebeu que uma fila de carros oficiais seguia a comitiva, instalada em um ônibus, e disparou:
-Se vocês pensam que vão dar uma voltinha no bairro e voltar cada um no seu carro para o centro, estão enganados. Todo mundo fica junto e volta junto. Se não for assim, não vai ninguém. Mandem esses carros de volta!

DORA KRAMER - República de surdos


República de surdos
DORA KRAMER
O ESTADÃO - 16/10/11

As três bandeiras levadas aos atos de rua da última quarta-feira – fim do voto secreto no Congresso, validade da Lei da Ficha Limpa e manutenção das prerrogativas do Conselho Nacional de Justiça – dependem de decisões dos poderes Legislativo e Judiciário, que se mantiveram indiferentes ao fato de brasileiros terem saído de casa para dizer o que estão querendo.

Talvez porque os protestos tenham acontecido em semana de feriado ou possivelmente porque a quantidade de gente nas ruas não tenha sido suficiente para mobilizar as opiniões de suas excelências.

Se milhares não bastam e milhões ainda não parecem despertados para a gravidade do problema, pois, como se diz, andam satisfeitos com a economia, autoridades não dão ouvidos.

Apenas não se diga que os magistrados só falam nos autos, porque falam a respeito de tudo o tempo todo. E fazem bem em falar.

Fariam, no entanto, juízes e parlamentares, melhor em agir. Ou, melhor dizendo, em fazer a parte que lhes cabe nesse latifúndio de deformações que servem de abrigo à impunidade, alimentando, por óbvio, o crime.

Ao Poder Executivo tampouco ocorreu fazer qualquer manifestação a respeito das demandas dos protestantes, nem para dizer que sim ou que não à justeza de cada uma delas.

Se é verdade que a presidente da República se sensibiliza com essas e outras questões relacionadas à corrupção, natural seria que do governo se visse um gesto, se ouvisse uma palavra.

Mas, não. Assim como ocorreu na primeira rodada de protestos, em setembro, os poderes da República surdos estavam, mudos ficaram.

Realmente não é fácil atuar no campo da generalidade, do combate à corrupção como um todo, se não há pontos de partida e de chegada.

Mas, no caso, aqueles atos apresentaram pedidos objetivos, além de perfeitamente exequíveis.

A resolução de dois deles está prometida para muito em breve: os julgamentos no Supremo Tribunal Federal da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa e da ação que retira do CNJ o poder de iniciativa de investigar condutas suspeitas na Justiça.

Tais decisões têm sido adiadas sob o argumento de que são controversas e seria necessário esperar a nomeação pela presidente do nome que falta para completar o colegiado de 11 ministros.

A presidente não faz a sua parte, indicando o (a) substituto (a) de Ellen Gracie, mas o tribunal nem por isso tem razão objetiva para esperar. Tanto que estava pronto para votar a questão do CNJ e só não fez por causa da polêmica suscitada pela corregedora Eliana Calmon ao se referir à existência de “bandidos de toga” no Judiciário.

Sobre a Ficha Limpa, o adiamento tampouco se justifica, uma vez que no primeiro exame do tema, ainda em 2010, a maioria dos magistrados havia se manifestado a favor da constitucionalidade da lei.

Lei esta que já produziu filhotes em dez cidades e quatro estados, cujo conceito está sendo incorporado no cotidiano e ampliado para além da exigência a deputados e senadores.

O terceiro pedido, o fim do voto secreto nas decisões do Parlamento, seria em tese o mais fácil de ser atendido porque já tem um bom caminho andado.

Foi aprovado em primeiro turno na Câmara em setembro de 2006 e, apesar dos 383 votos favoráveis, nenhum contra e quatro abstenções, virou letra morta na leniência surda dos líderes partidários e da Mesa Diretora da Casa.

O que falta para retomar a votação? Nada além de vontade para escutar a voz que vem de fora. Voz consagrada no sempre ignorado artigo primeiro da Constituição que estabelece o poder como originário do povo, “que o exerce por meio de representantes ou diretamente”.

Ao ignorar o mandamento, os eleitos, para o Legislativo ou para o Executivo, subestimam o discernimento popular e põem em dúvida a legitimidade dos próprios mandatos.

Delegações estas que só existem porque em determinado momento os donos das vozes que não são depois ouvidas foram às urnas para autorizar sua existência. E, estando credenciados para eleger, estão também para exercer o poder de dizer o que fazer.

Do contrário, suas excelências estarão reconhecendo que o povo errou na escolha.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



Vale pretende empregar mais no próximo ano
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 16/10/11

O presidente da Vale, Murilo Ferreira, diz que espera aumentar o número de funcionários no ano que vem. Hoje são 126 mil, espalhados pelas várias unidades da mineradora pelo mundo.
"Espero, no ano que vem, ter muito mais do que os 126 mil. Estamos tentando o orçamento para decidir até o final do mês. Ainda não sei o número certo. Mas estamos confiantes no nosso crescimento", diz o executivo que assumiu há cinco meses o comando da companhia. "Vai subir, se Deus quiser, aqui no Brasil, no Pará, em Minas Gerais, onde temos o projeto Apolo e Vargem Grande. O crescimento será em mineração."
O executivo evita falar das demissões de 2008. "Tinha de estar na cadeira onde estou para julgar." É cauteloso também para falar de investimentos que ainda não passaram pelo conselho de acionistas. "Sou hierárquico."
A Vale aprovou novo investimento em mina de Moçambique. "Vamos dobrar a capacidade de 11 milhões de toneladas de carvão para 22 milhões de toneladas. Construir mais uma na Guiné, na Angola. Gosto muito da África, a última fronteira de negócios." Ferreira se diz mais do que animado com energia limpa.
"Estou doido para aprovar a primeira energia eólica, espero que neste ano ainda, e construir nossas eólicas." Com relação à usina siderúrgica Alpa, no Pará, Ferreira diz que "ela está indo. Estamos praticamente terminando a terraplanagem. Falta muito", afirma. "Mas a disposição da Vale continua a mesma, ou seja, muito forte [para fazer]."

"A China continuará demandando matéria-prima. As pessoas ficam impressionadas com a infraestrutura nas cidades da costa, mas, pega um avião e anda três horas para dentro, para ver como tem coisa a ser feita. É só sair daquele circuito 'Elisabeth Arden' das grandes cidades"

"Melhor cortar jatinho do que demitir. É meu estilo. Não preciso de luxos do cargo. Se precisar, corto"

"Quando [a presidente Dilma] era ministra, dizia que, se estivesse no setor privado, estaria em posição de destaque. A capacidade de gestão dela é muito forte"

O QUE ESTOU LENDO

PRESENTE PARA PRESIDENTE
Sergio Lima - 28.set.11/Folhapress

Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores

Em sua última viagem aos Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, comprou o livro "Confidence Men: Wall Street, Washington, and the Education of a President" (ed. Harper), de Ron Suskind. A obra aborda a resposta do presidente norte-americano Barack Obama à crise econômica. Mostra também um presidente sempre em busca de consenso e a quem falta liderança. "Comprei outro também para dar de presente à presidente Dilma Rouseff", disse o ministro.

Concorrente conserva cliente dos Correios após greve

Com a greve dos Correios, empresas que atuam no segmento de entregas expressas registraram um aumento de demanda que deve permanecer após o fim da paralisação, pelo menos em parte. A JadLog, que teve volume de encomendas 30% superior ao habitual, espera reter 15% do incremento. "Isso não é estimativa. É experiência de outras greves. Uma parte não volta mais aos Correios", diz Ronan Hudson, da JadLog. A Azul Cargo, que teve alta de 60% no número de encomendas, informa que trabalhou para que toda a elevação fosse retida, porém, nos próximos dias, espera pequena retração desse volume.
A GOL, que sentiu crescimento de 45% no volume de cargas transportado, principalmente na demanda por produtos da Gollog Express, sua plataforma de serviço expresso, diz que é cedo para estimar a parte preservada. A DHL Express afirma que "adotou como postura priorizar o atendimento aos clientes já existentes para eliminar impactos que a greve pudesse gerar a seus negócios". Procurados, os Correios não responderam.

DESIGN ITALIANO NA REDE
A grife italiana Natuzzi, especializada em estofados de couro de alto padrão, criou uma marca chamada Softaly para vender em grandes redes de móveis no país. A primeira parceria será com a Magazine Luiza. "A ideia é atrair a classe média brasileira", afirma o fundador e presidente do grupo, Pasquale Natuzzi, que veio ao Brasil apresentar a nova marca. No foco estão empresas como Casas Bahia e Máquina de Vendas, para quem Natuzzi diz já ter começado a oferecer mais parcerias. Os móveis, de preços mais baixos, serão produzidos nas fábricas que a companhia tem instaladas na região metropolitana de Salvador (BA).

À BEIRA-MAR
A Hantei Engenharia, de Florianópolis, investirá cerca de R$ 80 milhões na construção de um empreendimento com shopping center, centro de convenção e seis torres de apart-hotel à beira-mar. Batizado de Centrinho Ingleses, o projeto deve ser mais um voltado para o turismo de eventos, segundo o presidente da empresa, Aliator Silveira. Próximo ao local onde ficará o empreendimento, na região norte da cidade, já há o Costão do Santinho, resort que atrai congressos fora da temporada. O projeto deve ser lançado daqui a um ano. O início das obras está previsto para março de 2013.

Sócias O Barbosa, Müssnich & Aragão recebe novas sócias. Cristiana Moreira, especialista em direito imobiliário, retorna ao escritório. Adriana Dantas conduzirá a área de comércio internacional.

Telefonista O setor de call center deve faturar R$ 10 bilhões até o final do ano, segundo levantamento da ABT (Associação Brasileira de Telesserviços) que será divulgado amanhã, em São Paulo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

ALBERTO TAMER - PIB recua, inflação sobe. E daí?


PIB recua, inflação sobe. E daí? 
ALBERTO TAMER
 ESTADO DE S. PAULO - 16/10/11

A economia está desacelerando. Em agosto, 0,53%, de acordo com o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) e o PIB do terceiro trimestre pode ficar em zero ou negativo. O mercado fala em menos 0,2%. Preocupa, mas ainda não é grave porque não indica uma tendência e governo e BC estão adotando medidas para evitá-la. Talvez seja preciso mais. Em 12 meses, a atividade econômica ainda cresceu 4%, mas a desaceleração tem sido maior nos últimos meses. A manter esse ritmo, o PIB não deve passar de 3% este ano, apesar de o BC ainda trabalhar com 3,5%. O governo, que vai divulgar a nova previsão esta semana, admite um pouco mais. Não convenceu ninguém, nem a ele mesmo. É o que se pôde ver nas entrevistas de Guido Mantega após divulgação do índice.

Tudo bem. O ministro da Fazenda disse em Paris, onde participou de reunião com seus colegas do G-20, que esse resultado apontado pelo IBC-Br estava previsto, foi até programado. Era para ser assim. Vai se reverter no quarto trimestre, quando as medidas já em prática pelo governo, para estimular a demanda interna e a produção industrial, estiverem sutindo efeito mais intensamente. A impressão é que o ministro parece conformado com 3%, que não é mal - afinal ainda estamos crescendo e atraindo investimentos externos diretos, que podem passar de US$ 60 bilhões este ano. Isso criará produção, demanda e emprego.

Emprego até quando? Este ano, deverão ser criados 2,5 milhões de empregos no País, abaixo da previsão de 3 milhões, mas que, somados aos outros 2,5 milhões do ano passado, representam um forte estímulo à demanda interna. É um resultado que precisa ser mantido e deve estar surpreendendo outros países, como os EUA e a União Europeia, onde o desemprego é entre 9% e 10%, quase o dobro do Brasil. A dúvida é se esse resultado poderá se repetir no próximo ano, porque a produção da indústria continua estagnada. Ainda não reagiu aos últimos estímulos do governo. O crescimento continua sustentado pelo mercado interno que resiste, mas as vendas no varejo incluindo veículos e material de construção estão recuando. Devem tomar fôlego com o 13.º salário e os novos reajustes salariais marcados para o próximo ano. E aqui entra a inflação...

E não falaram nela. É estranho que após a divulgação do IBC-Br ninguém falou da inflação. Afinal, o que estamos vendo aí é uma economia em baixa e uma inflação de 6,5% em alta. Curiosamente, os índices coincidem. O indicador de atividade econômica do BC recuou 0,53% e a inflação aumentou também 0,53%. Uma associação no mínimo desconfortável. Até onde os preços mais altos vão conter a demanda e reduzir ainda mais o PIB este ano? Não estaríamos diante do pior dos cenários, estagnação econômica e inflação?

A equipe econômica e o BC já indicaram que o objetivo não é derrubar a inflação para 4,5% ou 5% nos próximos meses, é aceitá-la próximo do teto e conter os preços futuros, agindo caso a caso. O que preocupa é a expectativa inflacionária. Nos próximos dias deve ser anunciado um pacote de R$ 2 bilhões para financiar as atividades da indústria sucroalcooleira para atenuar a alta dos preços. O mesmo vem ocorrendo no setor agrícola, que já recebeu mais de R$ 100 milhões e deve apresentar uma safra novamente próxima do recorde apesar do clima. A prioridade é manter um crescimento mínimo de 3% com uma inflação ainda alta, sim, mas sob controle.

Mas não vai dar! É o que alguns economistas afirmam. Uma hora, vai estourar! Alguns, como Affonso Celso Pastore, dizem que o regime de metas não existe mais, foi para o espaço; outros, como Delfim Netto, discordam. É uma política realista. É o que se podia e deve fazer por enquanto. Não se trata de uma mudança permanente da política econômica, mas ajustes às novas circunstâncias Como Keynes respondeu certa vez quando alguém o criticou por ter mudado de posição. "Quando as circunstâncias mudam, eu mudo também. E o senhor?"

Quando tudo voltar a ser como era, a gente muda também... Como Keynes.

ROBERTO GIANNETTI DA FONSECA - Quais os limites da guerra cambial?



Quais os limites da guerra cambial?
 ROBERTO GIANNETTI DA FONSECA
O ESTADO DE S. PAULO - 16/10/11

Durante a crise de 2008 e até fins de 2009, o governo chinês manteve sua moeda, o yuan, relativamente estável diante do dólar, apesar de seu imenso superávit em contas correntes e de uma acumulação de reservas internacionais que atualmente excede US$ 3,2 trilhões. Essa estratégia cambial intervencionista vem sendo fortemente questionada no mercado internacional, mesmo que de forma discreta, seja diretamente por certos países como os Estados Unidos e o Brasil, seja pelo conjunto de países integrantes do Grupo dos 20 (G-20).

Afinal, a recusa da China em permitir uma flutuação de sua moeda conspira não só contra seu reconhecimento como economia de mercado, mas também contra o ajuste da economia mundial nesta conjuntura de crise monetária e fiscal dos países desenvolvidos. E põe em risco milhares de indústrias e milhões de empregos ao redor do mundo, vítimas de concorrência desleal por parte das exportações chinesas, subsidiadas por um câmbio artificialmente desvalorizado.

Nos últimos 12 meses se observa, no entanto, uma mudança na estratégia cambial do governo chinês, como poderemos ver, mais em razão de seus próprios interesses do que como resposta às críticas de terceiros países ou de instituições multilaterais.

O fato é que o yuan se valorizou 6% em relação ao dólar desde julho de 2010 para cá. Essa valorização da moeda chinesa provoca, vis-à-vis os Estados Unidos, uma redução da competitividade de suas exportações e, de outro lado, aumenta suas importações.

Certamente, essa medida não agrada aos produtores chineses nem concorre com o objetivo prioritário das autoridades do governo central em Beijing de criar cerca de 25 milhões de empregos por ano, de forma a absorver novos jovens entrantes no mercado de trabalho e a maciça migração rural para os grandes centros urbanos e industriais.

Então por que estariam as autoridades chinesas dispostas a permitir, como parece, uma valorização mais rápida do yuan em relação ao dólar do que a ocorrida durante os anos passados?

Vários motivos podem em parte explicar essa nova postura cambial da China.

Em primeiro lugar, a preocupação com seu trilionário portfólio de títulos estrangeiros denominados principalmente em dólar e em euro, no momento em que aumenta no horizonte o risco de uma forte desvalorização em ambas as moedas e de consequente inflação nos Estados Unidos e na Europa. Quanto maior o superávit comercial da China, maior a sua acumulação de reservas externas e maior a sua exposição ao risco de títulos soberanos em outras moedas com relativo valor declinante. Isso gera uma perda implícita de poder de compra de suas reservas externas, o que, sem dúvida, aflige hoje em dia as autoridades chinesas.

Outro fato que deve estar pesando na decisão cambial chinesa é a inflação crescente em seu mercado doméstico. Caso a valorização do yuan prossiga adiante, se reduzirá gradualmente o custo de produtos importados para empresas e consumidores chineses.

Note-se que a China importa anualmente cerca de US$ 1,4 trilhão, ou seja, aproximadamente 25% de seu Produto Interno Bruto (PIB), o que torna este efeito cambial mais relevante no controle da inflação.

Cabe destacar que não podemos circunscrever a observação de paridade cambial do yuan apenas com o dólar norte-americano, especialmente tendo em vista o fato de que desde 2009 o dólar se desvalorizou em relação a quase todas as moedas importantes do mundo. Em relação ao euro, por exemplo, a moeda norte-americana declinou cerca de 10% nos últimos 12 meses, o que implica que o yuan se tornou 4% mais desvalorizado em relação ao euro no mesmo período.

As moedas do Brasil, Canadá, África do Sul, Suíça, Austrália, entre outras, todas apresentaram forte valorização em relação ao yuan nos últimos anos. Ou seja, o movimento do yuan chinês não foi suficientemente forte para anular ou nem sequer reduzir sua artificial desvalorização em relação às principais moedas mundiais. Seria de esperar que, diante deste cenário, as autoridades chinesas permitissem uma valorização mais acentuada do yuan não só em relação ao dólar, mas também em relação às outras moedas mundiais, inclusive o nosso agravado real.

Ocorre que essa consciência de buscar um melhor equilíbrio cambial e competitivo entre as nações está longe de ser um consenso mundial, e muito menos dentro da própria China. Daí se verifica que, às vésperas de uma nova reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do G-20, se agrava a chamada guerra cambial.

A conservadora Suíça impõe uma nova política de bandas cambiais; os Estados Unidos ameaçam novas rodadas de emissão de moeda (QE3) que devem ser seguidas pela União Europeia às voltas com o inexorável calote da dívida da Grécia; e aqui, no Brasil, o governo federal vê-se praticamente obrigado a aplicar medidas de intervenção no mercado futuro de câmbio.

Quanto à China, suspeita-se cada vez mais da atuação direta de seu banco central, por meio de hedge funds internacionais, nos mercados derivativos aqui, no Brasil, e em outros países-alvos, com o objetivo de valorizar relativamente as suas moedas, tornando mais competitivos os produtos chineses nos seus respectivos mercados e a valorização gradual do yuan diante do dólar, menos gravosa nos demais mercados ao redor do mundo.

Essa é a face mais escandalosa e absurda da guerra cambial, fruto da excessiva desregulamentação e da falta de controles dos mercados de derivativos, que veio a permitir que alguns países possam especular sorrateiramente contra a moeda dos outros, camuflados atrás de renomados bancos internacionais, e com intenções não de lucro especulativo, como faria um especulador privado, mas de manipulação do valor das moedas de forma a favorecer seus exportadores para aquele específico mercado importador.

Enquanto isso, o FMI e a Organização Mundial do Comércio (OMC) permanecem ineficazes e omissos diante dessa anarquia cambial a que assistimos com crescente preocupação.

Nesta guerra cambial ainda vão acontecer muitas atitudes desleais e agressivas contra o real, e não podemos ficar ingenuamente indefesos a esses ataques especulativos, quanto mais sabendo que eles estão sendo promovidos intencionalmente por outros países ditos "parceiros".

CELSO MING - Mais um corte nos juros


Mais um corte nos juros
CELSO MING
O ESTADÃO - 16/10/11

Quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central terá reunião para redefinir o nível dos juros básicos (Selic), hoje nos 12% ao ano.

Esta diretoria do Banco Central formatou sua administração de um jeito diferente da anterior. Não se dispõe a pilotar voo solo. Só em último caso deixará de cumprir o combinado previamente com o governo federal. Em outras palavras, não faz questão de trabalhar com autonomia, como a equipe que sucedeu fazia.

E o que a presidente Dilma Rousseff já anunciou como tarefa da autoridade monetária: derrubar a Selic para a casa dos 9% ao ano em 2012, algo que pode ser entendido como meta de juros.

Isso significa que, nas próximas dez reuniões do Copom (duas em 2011 e oito em 2012), devem cair 3 pontos porcentuais. Se a inflação, de fato, convergir para a meta, como está nas apostas do Banco Central, isso corresponderia a juros reais (descontada a inflação) próximos dos 4,5%.

Com todos os meios à sua disposição, o Banco Central vem argumentando que o período ideal para derrubar os juros básicos no Brasil é agora. É tarefa, dizem seus comunicados, que tem tudo para ser ajudada pela recessão ou, se não por isso, pelo crescimento bem mais baixo da economia global; pelo provável recuo da inflação das commodities; e pela desaceleração da atividade econômica no País.

Esses não são propriamente panoramas suficientes para cumprir o projeto do governo federal. Mas, por enquanto, o Banco Central está determinado a levá-lo adiante. Aparentemente, só estará disposto a rever essa estratégia caso, lá pelas tantas, se configure um estouro do teto da meta (4,5% mais os 2% de tolerância).

E o que poderá dar errado? São quatro os fatores que levam o risco de puxar a inflação para além desse limite. O primeiro deles é a recuperação da economia mundial ou uma desaceleração não suficientemente forte a ponto de derrubar os preços das commodities e, com eles, os preços dos alimentos também no Brasil.

O segundo é o maior descolamento dos preços do setor interno de serviços, que já vem crescendo a 9% em 12 meses. O terceiro é a demanda excessiva no mercado interno, que pode ser mantida pelo ainda forte aquecimento do mercado de trabalho e pelo reajuste da renda acima do avanço do índice de produtividade. (A intensificação dos investimentos em infraestrutura e nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpíada de 2016 sugere que isso pode ocorrer.)

E há o quarto fator, que, por enquanto, é somente uma boa hipótese. Trata-se da propensão à aceleração das despesas públicas num ano eleitoral, como será 2012. O risco é de que o governo federal não cumpra seu compromisso de entregar um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida pública) da ordem de 3,1% do PIB.

Em todo o caso, esses puxadores de inflação ainda terão de se confirmar. Por enquanto, o Banco Central não olhará para eles com preocupação. Seu principal objetivo é corresponder a determinação do governo Dilma. Isso quer dizer que, enquanto puder, continuará determinado a cortar a Selic em pelo menos meio ponto porcentual por vez.

JANIO DE FREITAS - O direito ao crime


O direito ao crime
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 16/10/11

Não é próprio da civilização ocidental aplicar suas leis punitivas aos vitoriosos que se mantenham com poder


Mais de mil páginas de acusações contra um acusado não são coisa excepcional no mundo do crime. Nos crimes do mundo, são. E ainda mais se o personagem do histórico é ex-presidente, mas não um dos saídos dos Bálcãs ou da África para o Tribunal Internacional de Justiça, o que faria das mil páginas mais um fácil dossiê de derrotados. No Tribunal de Nuremberg, que ao fim da Segunda Guerra distribuiu penas de enforcamento a altos criminosos do nazismo, processos enciclopédicos foram o comum: os acusados eram vencidos.
O histórico de mais de mil documentos entregue à Procuradoria-Geral do Canadá ocupa-se de crimes de tortura autorizados, ou consentidos, ou acobertados por uma autoridade sem contraste na condução do seu país. Com múltiplos efeitos mundiais. A excepcionalidade aí existente consiste em que o acusado é um ex-presidente ainda poderoso por sua representação política, louvado por muitos outros poderosos e por massas de compatriotas, e no gozo pleno da rica liberdade e incontáveis privilégios. É George W. Bush, invasor do Iraque e do Afeganistão.
Elaborado com vídeos, fotos, testemunhos, trechos de manuais militares, justificativas de generais e trechos da autobiografia do acusado, o dossiê dá motivo a uma expectativa a ser respondida, conforme agendas oficiais, na quinta-feira desta semana. É a data prevista para a chegada de Bush ao Canadá.
Se aceita pela Procuradoria-Geral a ação denunciatória, a prisão de Bush estaria determinada nos termos da legislação aprovada pela ONU e denominada Convenção Internacional Contra a Tortura.
O destino determinado pela história para o dossiê, porém, é o arquivo da Anistia Internacional. Levar-se a excepcionalidade do dossiê e da prisão ao extremo de ser realidade, exigiria uma transgressão sem precedente de fundamentos essenciais da chamada civilização ocidental (por décadas, chamada de civilização ocidental e cristã, um louvor à discriminação religiosa).
Não é próprio desta civilização aplicar suas leis punitivas aos vitoriosos e aos que se mantenham de algum modo poderosos. O que tem o mesmo significado de proclamar a liberdade para o crime, por hediondo que seja, a depender de quem tenha sido mandante, protetor ou executor.
Com este princípio em vigência desde os primórdios do Ocidente político, os seus povos não tinham mesmo a esperar mais do que os poucos e pequenos passos, século a século, que obtiveram e sobretudo não obtiveram em nome da Justiça.

ELIANE CANTANHÊDE - Abaixo a corrupção!


Abaixo a corrupção!
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 16/10/11

BRASÍLIA - Má notícia para os descrentes, boa notícia para os milhares que foram às ruas no 12 de outubro protestar contra a corrupção e exigir a constitucionalidade da Ficha Limpa, o fim do voto secreto no Congresso e a abrangência do CNJ: a onda está crescendo.
No Congresso, políticos e assessores já buscam e analisam projetos que estendem a Ficha Limpa, hoje restrita ao Legislativo, para o Executivo e o Judiciário. Assim, o candidato a uma vaga num dos três Poderes só poderá assumir se não tiver sido condenado por um colegiado.
No governo, a Controladoria-Geral da União propõe a introdução, por decreto, de critérios da Lei da Ficha Limpa para ministros e todos os cargos de confiança, que, cá pra nós, não são poucos.
E os Estados começam a se coçar. Em Santa Catarina, um dos que saiu na frente, foi aprovada a extensão da Ficha Limpa para, simplificando, todo mundo. E está sendo cumprida.
Alertado pelo Ministério Público Estadual, o governador Raimundo Colombo teve de trocar o presidente da SCGás (companhia de gás do Estado), Altamir José Paes, e vai ter de afastar o secretário de Agricultura, João Rodrigues. Sem entrar no mérito, o fato é que ambos não são, técnica e legalmente, Ficha Limpa. Logo, não podem ocupar os cargos.
É assim, com as instituições agindo, a lei sendo cumprida e as pessoas exercendo a cidadania, que o Brasil vai caminhando. Aos trancos e barrancos, é verdade, mas em frente.
Saiu de uma ditadura violenta pacificamente, sem derramar uma gota de sangue. Viveu o impeachment do primeiro presidente eleito por voto direto em décadas sem um tiro. Estabilizou a economia e mudou a moeda com brilho. Foi governado por um migrante nordestino que deixou sua marca e encantou o mundo.
A nova batalha é contra a corrupção, que nunca será extinta, mas pode ser bem menos dramática se cada um fizer a sua parte. Inclusive você.

CLAUDIO HUMBERTO

Quando o povo começa a se manifestar, a coisa melhora”
DOM ODILO SCHERER, ARCEBISPO DE SÃO PAULO

PSD DEFENDERÁ CONSTITUINTE PARA REFORMAS
Ainda sem bandeira e com programa em elaboração, o Partido Social Democrático (PSD) vai mobilizar a bancada para defender uma reforma política e uma tributária por meio de Constituinte exclusiva, diz o secretário-geral do partido, Saulo Queiroz. O projeto vai ao encontro da ideia do ex-presidente Lula, lançada para o Congresso mas abortada pelos parlamentares aliados. O PSD, porém, vai comprar a briga.

ESTOQUE 
Com a 3ª maior bancada no Congresso – 55 deputados e dois senadores –, o PSD não corre risco de ser escanteado. Será pelo menos ouvido.

TURMA DO TRATOR 
Outro discurso que será adotado pelo novato PSD é o de “valorizar a produção industrial” e o agronegócio, revela Saulo Queiroz.

A DOIS 
O ex-BC Henrique Meirelles tratou de sua entrada no PSD em almoço na casa de Gilberto Kassab no último dia 2. Sonha ser prefeito de SP.

SALADÃO 
O PSD nasce de centro e um pouco zonzo. Fará alianças municipais em 2012 com PSB, PSDB, PT e DEM para cumprir 
acordos de filiações.

EMBAIXADA DOS EUA MANDA NO TRÂNSITO DO DF
A título de “segurança” para os pedestres e usuários de seus serviços, a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília fez algo que daria cadeia se patrocinado pelo embaixador brasileiro em Washington: bloqueou uma via pública. Fechou com cones de concreto um contorno na L4 Sul, na Av. das Nações, que dá acesso à embaixada. O GDF gastou 
R$ 16,5 milhões na obra interditada pela paranoia dos americanos.

WHAT ELSE... 
A Embaixada informa que acertou o bloqueio com o Detran num “projeto mais abrangente para atender à grande demanda” de visitas ao prédio.

TÁ BOM 
Na via onde só passa carro, a resposta dos americanos atropela: “O bloqueio (...) foi necessário para (...) não colocar em risco os pedestres”.

LÁ, NÃO! 
O Itamaraty informou que a embaixada pode atuar junto às autoridades. Mas não respondeu se o mesmo pode ser feito pelo Brasil nos EUA.

SIRENE DO MINISTRO 
Nenhum vizinho aguenta mais o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) no Lago Norte. Fã de parafernálias high techs, instalou no muro 
de sua mansão um sensor de aproximação. Constantemente, a sirene toca à noite, e viaturas da PM aparecem cantando pneu.

NY É SEGURA 
Uma reportagem publicada no site The Huffington Post, nos EUA, alerta o turista estrangeiro para o perigo de pisar no Brasil. 
Insere o País no rol de Afeganistão, Iraque e Líbia, e orienta a ouvir 
dicas dos nativos.

MANCADA 
No programa nacional do PSDB na televisão, na participação do líder Álvaro Dias, o português foi assassinado. Álvaro diz ter combatido o tráfico de influência no governo Dilma, mas a legenda cravou “tráfego”. 

OAB ONTEM E HOJE 
O advogado e escritor Cezar Britto, ex-presidente da OAB, vai lançar, na 21ª Conferência Nacional da entidade, em Curitiba, de 19 a 24 de novembro, um romance contando a história da OAB desde o Império. 

SEM NOÇÃO 
Sem muito o que fazer, a ministra Iriny Lopes (Secretaria da Mulher), na ânsia de aparecer, iria pessoalmente assistir ao julgamento no Conar do processo em que pediu a censura do comercial de Gisele Bündchen. Ligou para lá e foi aconselhada a não ir, porque perderia. E perdeu.

BANHEIRO NA LINHA 
O deputado distrital Benedito Domingos (PP) sugeriu ao governo do DF que construa banheiros nas plataformas do metrô. São 160 mil usuários por dia. 
Quem precisa tem que sair das estações e procurar bares.

IDELI & ALDO 
A ministra Ideli Salvatti e o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) bateram papo no Planalto. Aldo sustenta que conversaram sobre política e nada discutiram sobre ameaças ao cargo de Orlando Silva (Esporte). 

POR FORA 
Já houve quem sugeriu à presidente Dilma que nomeie Henrique Meirelles para o Ministério do Esporte, para aliviar a disputa de Fernando Haddad na campanha municipal de 
São Paulo ano que vem.

PENSANDO BEM... 
Para um país que dá asilo ao terrorista Cesare Battisti, todo cuidado tomado pela Embaixada dos EUA é pouco. 

PODER SEM PUDOR
PORCARIA DE CONSTITUIÇÃO 
Quando cotada para o Supremo Tribunal Federal, a constitucionalista Carmen Lúcia Antunes Rocha passava o fim de semana com o pai, dono de um posto de gasolina em Espinosa (MG), onde a família foi assaltada por quatro bandidos. Ela entregou a carteira e a mochila de viagem, sob a mira de revólveres. Os bandidos iam saindo, quando a jurista apelou:
– Por favor, me deixem a Constituição, está no bolso de fora da mochila.
– Mas o que é isso, dona? – perguntou um ladrão, intrigado.
– É o livrinho que está aí na bolsa... 
– É essa porcaria aqui que a senhora quer? – confirmou o bandido. 
– Era.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Gastos com proteção social já superam investimentos

Folha: Amazônia vira motor de desenvolvimento

Estadão: Brasil não sabe quanto custará a Copa

Correio: A corrida do brasiliense para a bolsa de valores

Estado de Minas: Vale tudo para estacionar

Jornal do Commercio: Por dentro do Enem

Zero Hora: Volks avalia credenciais do RS para receber fábrica

sábado, outubro 15, 2011

NELSON MOTTA - Os Milagres do Cristo



Os Milagres do Cristo
NELSON MOTTA
REVISTA VEJA - RIO




No filme em preto e branco de 1941, o DC-3 da Pan Am se aproxima do Rio de Janeiro, trazendo Carmen Miranda e seus amigos de Hollywood para uma aventura nos trópicos. O avião sobrevoa a cidade, com a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo, os dedos de uma imensa mão de concreto, depois um braço e o corpo inteiro do Cristo Redentor entram em quadro. É a mais clássica imagem do Rio de Janeiro, o postal mais banal, o maior clichê visual, o insuperável lugar-comum da beleza incomum da cidade. É a vista do Rio que se tem do céu.

No Brasil de 1931, construir uma estátua daquele tamanho, no alto de uma montanha de difícil acesso, era, no mínimo, um despropósito, uma insanidade, seria um Fitzcarraldo carioca que terminaria em mortes e tragédia. Autoabençoado, o Cristo resistiu a tudo com estoica concretude.
O cinema ficou colorido, a cidade mudou, mudaram os aviões e os passageiros, mas ao longo do tempo, em filmes, novelas, seriados e comerciais, quando alguém chega ao Rio de Janeiro, a cena continua a mesma. A cidade se espalhando à beira-mar, a baía cercada de montanhas, abençoada pelo Cristo entre as nuvens.

"Muita calma pra pensar / e ter tempo pra sonhar / da janela vê-se o Corcovado / o Redentor, que lindo… " — cantava João Gilberto em 1959, lançando a bossa nova no histórico LP Chega de Saudade. Anos depois, consagrado nos Estados Unidos, o autor de Corcovado, Tom Jobim, voltava ao Brasil e compunha o clássico Samba do Avião: "Cristo Redentor / braços abertos sobre a Guanabara / estou morrendo de saudade..."

No Carnaval de 1989, um dos piores períodos da nossa história recente, nos estertores do desmoralizado governo Sarney, com inflação que chegou a passar de 80% em um mês, Collor eleito presidente e o Rio de Janeiro falido e entregue à bandidagem, o gênio de Joãosinho Trinta concebeu o enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia para a Beija-Flor de Nilópolis, trazendo o Cristo Redentor para a passarela do samba. E para o centro de uma polêmica.

O enredo de Joãosinho era "não só sobre o lixo físico, mas o lixo moral, mental e espiritual, que cria uma multidão de marginalizados, que tiram do lixo as coisas de brilho". Proibido pela Arquidiocese e coberto por um plástico preto, com a faixa desafiadora "Mesmo proibido, olhai por nós", o carro alegórico do Cristo,abarrotado de mendigos foliões cantando e dançando à sua volta, levantou a Sapucaí.

O Cristo Redentor de 2011 é o da animação Rio, em 3-D. É de tirar o fôlego, visto de ângulos que não existem, criados pela imaginação de Carlos Saldanha e pela tecnologia de ponta. Agora vamos imaginar o inimaginável: que o Cristo não existisse. E aparecesse um carioca católico e empreendedor, meio Roberto Medina, meio Eike Batista, e propusesse a construção de um Cristo gigante no alto do Corcovado, sem custos para o estado. Claro, os logos dos patrocinadores estariam na base da estátua, afinal alguém teria de pagar a conta. O cara ia ser chamado de maluco, de picareta, de explorador da imagem divina, e não conseguiria construí-lo. Pior ainda se algum político o propusesse como um projeto público. Com concorrência fajuta, aditivos e superfaturamentos, custaria mais caro do que a reforma do Maracanã. E um desenho medonho seria o escolhido.

Ainda bem que o Cristo foi construído há oitenta anos, porque hoje certamente o Ibama e a Secretaria do Meio Ambiente não autorizariam a obra, pelos distúrbios que o gigantesco corpo estranho provocaria na fauna e na flora do Corcovado, pelas luzes e pelo movimento de pessoas que assustariam os animais silvestres, pelo abalo que provocaria no ecossistema, pela interferência na paisagem natural das montanhas emoldurando a Baía de Guanabara. Sob protestos das outras religiões e dos ateus, o Cristo Redentor teria de ser construído na Barra.

IVAN ANGELO - Choro

Choro
IVAN ANGELO
REVISTA VEJA SP



Toca o interfone. O porteiro quer saber se o motoboy da farmácia pode subir. Sim, claro. Daí a pouco soa a campainha da porta de serviço e é ele, um rapaz alto, com o capacete pendurado no braço e a encomenda da farmácia na mão. Tenho de conferir a nota, dar-lhe o cheque, assinar o protocolo, e é tudo; ele sai, vai esperar o elevador no hall, encosto a porta. Só encosto, porque pretendo abrir o pacote e jogar a embalagem na lixeira. Quando abro a porta, ele ainda está lá, e chora alto.

Vacilo um instante, golpeado pela cena; não tenho coragem de invadir sua intimidade; cerro discretamente a porta, sem fechar, e fico protegido, esperando que o elevador chegue e me liberte daquele estupor, o sofrimento de um desconhecido.

Tento rapidamente me lembrar de algum detalhe do breve momento em que estivemos juntos, algo que me teria escapado ao trocarmos o pacote por papéis, qualquer coisa que me teria avisado de que iria ocorrer algo desconcertante, íntimo, no final daquela relação efêmera e prosaica, um detalhe como mãos trêmulas ou voz embargada. Mesmo que tivesse notado, poderia interpretar tais detalhes como prenúncio de choro, em encontro tão rápido? Sem saber como eram a sua voz ou as suas mãos nos bons e nos maus momentos?

Não, não houve sinais; reconstruo a cena: abro a porta, rapaz de fino trato e traços, o pacote, a caneta dele, o cheque, o papel para o visto, a caneta de volta, aceita uma água, não obrigado, então obrigado, boa tarde, com licença — e só.

O elevador tarda, tento parecer inaudível, respiração de pessoa escondida. Pela fresta ouço um soluço alto, entrevejo um soco na parede, não um soco com os nós dos dedos, mas um golpe com a lateral da mão fechada, testa encostada na parede. Decido-me: vou lá.

Uma vez vi meu pai chorando. Não vi, ouvi. Coragem não tive de ir lá, passar a mão na cabeça dele. Creio que não seria isso que faria se tivesse ido lá; teria encostado nele, acho que teria chorado junto. Era menino muito pequeno e estava assustado porque tinha ouvido as duas pancadas com que ele havia matado nosso cãozinho, doente terminal de raiva. Eu estava deitado, meus irmãos dormiam, e eu não conseguia dormir porque desconfiava que aquilo ia acontecer, desconfiava daquele buraco aberto no quintal para plantar um pé de mamão. Ele havia esperado a madrugada a fim de nos poupar de algum sofrimento, mas eu ouvi as pancadas, e o ouvi enterrá- lo, e depois ele entrou na cozinha e ficou lá sem acender a luz, e daí a pouco ouvi os soluços dele, por um tempo que não acabava mais. Era a primeira vez que o via chorar, a primeira vez que via um homem chorar. De manhã ele disse que o cachorro tinha fugido. Fui olhar o mamoeiro plantado e nunca disse a ele que sabia.

Vou lá, mas fazer o quê? Num segundo ensaio a pergunta ao motoqueiro: posso te ajudar? Depois oferecer uma limonada, talvez; de qualquer forma não deixá-lo descer naquele instante, não seria seguro que ele entrasse de moto no trânsito violento da cidade com aquele transbordamento de si mesmo.

Abro a porta já falando “amigo”, e nesse momento eu o vejo entrar pela porta do elevador com sua dor escondida pelo capacete. Percebo na hora que havia colocado o capacete para que os passageiros não vissem que estivera ou estava chorando. Não atende ao meu chamado, a porta automática se fecha.

Corro a olhá-lo da varanda. Sai do prédio, sobe na sua moto, dá a pedalada de partida do motor e segue ereto, rosto indevassável, como qualquer motoqueiro sem sofrimento. Faz aquele bamboleio na curva e é absorvido de novo pelo anonimato.