sábado, agosto 27, 2011

SERGIO AUGUSTO - O Grande rio dos mitos



O Grande rio dos mitos
SERGIO AUGUSTO 
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Tomo emprestado o título de um recente artigo do poeta, ensaísta e romancista colombiano William Ospina sobre o rio Amazonas e seu "descobridor", o conquistador espanhol Francisco de Orellana, cujos 500 anos não estão passando em branco na Espanha, nem em alguns dos nove países que integram a região amazônica. Apesar de ter ficado com o maior quinhão da jungla, o Brasil não é um deles. Nestas paragens, o único Orellana de quem ainda (e cada vez menos) ouvimos falar é o homônimo bode da caatinga criado pelo Henfil.

Somos um povo desmemoriado e acintosamente ignorantes do passado de nossos vizinhos, mesmo daqueles também banhados pelas águas do rio-mar. Se muitos de nós conhecem a origem cita da palavra Amazonas e a identidade de quem assim o batizou (o rei espanhol Carlos I), bem menos gente sabe que, além de Rio Grande e Mar Dulce, o Amazonas também foi chamado de Rio da Canela. E a Amazônia, por conseguinte, de País da Canela.

Atrás da cobiçada especiaria cingalesa, também abundante naquela região segundo a lenda, aventureiros e emissários reais viraram comida de onça, piranha e silvícolas. Baseado nos relatos que testemunhas oculares como o frei dominicano Gaspar de Carvajal legaram aos pósteros, William Ospina escreveu O País da Canela, segundo volume de uma trilogia sobre as primeiras viagens dos conquistadores ibéricos pelo Amazonas no século 16, prêmio Rómulo Gallegos de Ensaio em 2009. O anterior, Ursúa, publicado quatro anos antes, tampouco foi traduzido aqui.

Apesar de protagonista do segundo volume, Orellana é, cronologicamente, o primeiro "herói" da trilogia. Em vez de ir só atrás da canela, como seu chefe Gonzalo Pizarro (meio-irmão mais jovem de Francisco Pizarro, conquistador do império incaico), Orellana enfrentou mil e um perigos, inclusive as flechas venenosas das icamiabas, as guerreiras da Amazônia (e futuras "destinatárias" daquela satírica carta de Macunaíma), na tentativa de descobrir e subjugar Akator, a mítica Cidade de Ouro, vulgarmente conhecida como Eldorado. É uma proeza lato sensu fabulosa, iniciada em Quito e fermentada por uma traição, que terminou em novembro de 1546, quando Orellana morreu refazendo o caminho inverso, a partir da foz do Amazonas.

Vinte anos depois da expedição de Orellana, veio a de Pedro de Ursúa, que cometeu dois erros: levar a bordo de seu bergantim a mulher mais bonita do Peru, a mestiça Inês de Atienza, com suas donzelas, e o nada confiável Lope de Aguirre, que afinal sublevou a tripulação, provocando a morte de Ursúa e Inês. Essa sangrenta aventura deu início ao ciclo literário de Lope de Aguirre, inspiração de inúmeros poetas e cronistas (destaque para o jesuíta equatoriano Juan de Velasco e para o sevilhano Juan de Castellanos, autor do poema mais extenso da língua espanhola, Elegías de Varones Ilustres de Índias), escritores (Ramón J. Sender, Miguel Otero Silva), historiadores (Ospina, Cristóbal de Acuña) e até cineastas (Werner Herzog e Carlos Saura).

Os filmes chegaram até nós, e pelo menos o de Herzog (Aguirre, A Cólera dos Deuses) circula agora em DVD; dos livros, porém, só encontrei o de Acuña, Novo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas, 1641, traduzido pela Agir 17 anos atrás, já esgotado.

Atrás de Eldorado também veio o coronel britânico Percy Fawcett, já no século passado, quando exploradores e arqueólogos haviam tomado o papel dos conquistadores. Instigado pelo documento de um anônimo bandeirante do século 18 sobre a existência de uma cidade de ouro no meio da floresta, Fawcett desapareceu misteriosamente em 1925, sem achar a sua "lost city of Z". Em 1952, o então repórter Antonio Callado foi ao Xingu verificar se uma ossada lá encontrada era mesmo do coronel (não era), resultando dessa incursão uma bela reportagem ensaística, Esqueleto na Lagoa Verde, editada pela Cia. das Letras, que também traduziu Z, A Cidade Perdida, do americano David Grann, prestes a virar filme com Brad Pitt no papel de Fawcett.

A literatura do labirinto amazônico é um amplo diálogo de mitologias, que começa na antiga Grécia (com o mito das amazonas) e termina em Hollywood (com Indiana Jones e seu "muiraquitã" de cristal, em forma de caveira, não de jacaré). Com heróis e vilões reais e imaginários, sucessores de Orellana, Ursúa e Aguirre, entre os quais se sobressai a figura de Luís Galvez, autoproclamado "imperador do Acre" na virada do outro século, nenhuma outra selva atraiu tantos visionários, predadores, estudiosos (o naturalista berlinense Alexander von Humboldt, o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünber, que inspirou Mário de Andrade a escrever Macunaíma, o antropólogo canadense Wade Davis, autor da mais caudalosa história do rio, One River) e influenciou tantos artistas (de Julio Verne a Vargas Lllosa, passando por Villa-Lobos, Rómulo Gallegos e os demais já citados).

Davis teve seu esplêndido ensaio sobre o vodu no Haiti, A Serpente e o Arco-íris, editado pela Zahar em 1986, mas One River, já no Kindle por US$ 11.99 e há tempos acessível em língua espanhola, permanece inédito na língua de Ceci. Nesse limbo acumulam-se obras que Ospina considera fundamentais para um melhor entendimento do multilinguístico e superlativo mundo que espanhóis e portugueses encontraram entre as geladas montanhas andinas e as águas do Atlântico e tentaram dominar a ferro e fogo, obras que nunca lemos e provavelmente nunca leremos.

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA - Oito meses e alguma turbulência



Oito meses e alguma turbulência
MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
 O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Há bons motivos para avaliarmos positivamente os primeiros meses do governo Dilma Rousseff, sobretudo se se considerarem as reais possibilidades de atuação com que contou. Empurrado e legitimado pelas urnas de 2010, ele se iniciou num momento em que o País estava com a moeda estabilizada, reduzindo a miséria e expandindo o mercado interno, graças à ampliação do crédito popular, aos programas de transferência de renda e à recuperação do emprego. Encontrou, portanto, uma sociedade animada pelos mecanismos consumistas típicos da modernidade atual, ou seja, uma sociedade menos solidária e mais competitiva, que extrai desta sua nova condição o oxigênio necessário para se relacionar de outro modo com o Estado. É uma sociedade que continua pedindo garantias, direitos e proteção, mas também aprofunda sua inserção nas trilhas da despolitização e passa a ver o mundo em termos mais mercantis, aliviando parcialmente a pressão sobre o Estado.

A face política e administrativa do Estado, por sua vez, se não corrigiu por inteiro seus problemas crônicos (ineficiência, inchaço, custo elevado, despreparo), também não piorou. A representação continuou como sempre, com uma classe política que deixa a desejar. A administração permaneceu contagiada pela dinâmica gerencial que se vem afirmando desde a reforma de 1994. Além do mais, está hoje submetida a um maior grau de fiscalização por parte da opinião pública, fato que a torna mais transparente e mais passível de controle. A corrupção não cresceu, mas sua percepção aumentou, o que faz com que denúncias se sucedam e o combate a ela passe a fazer parte da agenda pública e da agenda governamental.

Não é por outro motivo que os oito meses iniciais do novo governo foram vividos sob o signo da instabilidade ministerial. A fraqueza da equipe é flagrante. Ministros saíram por motivos relacionados a desvios de conduta ou a inabilidade. O Ministério não parece funcionar.

Parte dessa instabilidade se vincula à herança recebida por Dilma, que está longe de ser uma "herança maldita", como se ouve dizer em alguns ambientes. De qualquer modo, é um fardo. Aquilo que beneficiou a então candidata nas eleições de 2010 - o apoio de Lula, as realizações governamentais, as alianças feitas com o intuito de fornecer "governabilidade", a base parlamentar -, tudo isso, de repente, parece voltar-se contra o novo governo, dificultando sua arrumação. Afinal, cada presidente precisa imprimir sua própria marca ao governo que dirigirá, e nesse terreno não pode haver simples transferência de esquemas ou continuidade passiva, por mais que Dilma e Lula sejam carne da mesma carne e integrem o mesmo partido.

Não deveria estranhar, portanto, a existência de certos "ajustes de contas" entre os apoiadores do novo governo ou mesmo entre alas do PT. Nos primeiros oito meses esses ajustes foram tão intensos e eloquentes que ofuscaram planos e programas de ação do governo. O quadro acabou por ensejar certa confusão. O Brasil sem Miséria, por exemplo, complementa ou compete com o Bolsa-Família, é uma sua requalificação ou representa a abertura de outra frente de batalha, com distinta lógica e distintos protagonistas?

O legado dos oito anos de Lula não deu trégua aos oito meses de Dilma. Não poderia ter sido diferente. O período Lula imprimiu uma inflexão na vida nacional, seja pelo choque simbólico derivado da biografia de Lula e de seus traços carismáticos, seja pelas novas alianças que produziu, especialmente as que levaram a uma espécie de pacto informal entre o trabalho e o grande capital, seja, enfim, por sua própria agenda pessoal. Não deve ser fácil governar com a sombra de uma liderança popular que se recusa a sair de cena e espera o momento certo para retornar ao palácio. O esforço para se livrar dessa sombra ou, ao menos, neutralizá-la deve ter consumido boas horas de sono no Palácio do Planalto.

Muita gente acreditou que poderia pautar o governo com a ideia de "limpeza ética". A presidente reagiu à altura, e não sem razão. A meta de seu governo, disse, não é fazer "faxina" em ministérios suspeitos de corrupção, mas "fazer o País crescer e combater a pobreza". Há quem pense que o combate à corrupção deveria ocupar o centro da ação governamental, como se só pudesse haver bom governo depois que todos os corruptos fossem presos. Alguns se esquecem de olhar para o próprio quintal e outros imaginam que o governo é a fonte geradora de tudo o que há de errado no País. Falta bom senso por aí.

Uma coisa é combater a corrupção, outra é transformá-la na razão de ser da ação governamental. No primeiro caso, faz-se uma luta política cotidiana que não paralisa o governo. No segundo, o combate é moralista e "espetacular", atrapalhando a ação governamental. Achar corruptos é fácil, governar bem, difícil. Uma coisa não explica a outra. Um governo não é bom só porque combate a corrupção e não é mau só porque mantém prudência na luta contra ela. Como tudo na vida, virtus in medio est.

O equilíbrio demonstrado até agora pelo governo tem sido seu melhor alimento. A situação não lhe é totalmente favorável, há ventos soprando forte pelos lados da economia, a maioria parlamentar não é confiável e falta ao governo maior poder de articulação, seja em seu próprio interior e no âmbito das relações com os demais poderes, seja junto à opinião pública e à sociedade civil. O barco conta com uma timoneira tecnicamente qualificada e disposta a liderar o período governamental que terá pela frente. Sua densidade política, porém, ainda é baixa e ela dispõe de poucas bases próprias. Trata-se de uma situação que talvez nos ajude a entender as razões que mantiveram o governo enredado num matagal de pequenas questões.

O momento é de atenção. Tanto porque as águas em que navega são turbulentas quanto porque amigos, inimigos e adversários estão à espreita, prontos para subir ao palco.

GOSTOSA


RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


De Gleisi para o PGR
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 27/08/11

Em carta enviada ontem ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, Gleisi Hoffmann pergunta se foi lesiva ao erário a operação que lhe permitiu receber R$ 41 mil de multa ao deixar a diretoria de Itaipu, em 2006, para concorrer pela primeira vez ao Senado pelo Paraná. O valor, equivalente a 40% do saldo de seu Fundo de Garantia à época, foi liberado embora a petista tenha saído da empresa por iniciativa própria.
Na consulta endereçado ao PGR, a ministra da Casa Civil se declara disposta a devolver o dinheiro, se o Ministério Público entender que houve prejuízo aos cofres públicos. Nesse caso, ela pede ainda que se defina o índice de correção para a restituição.


Vacina Com a medida, Gleisi se antecipa à bancada do PSDB na Câmara, que na próxima semana entrará com representação na Procuradoria-Geral acusando a ministra de ter se beneficiado de pagamento indevido. Para o líder tucano, Duarte Nogueira, a prática configuraria improbidade e peculato.

Números Pouco mais de duas semanas após ter reunido seu conselho político para tratar da crise financeira internacional, Dilma voltou a convocar o colegiado de líderes e presidentes de partidos aliados para uma conversa, nesta segunda. Espera-se que a presidente exponha as linhas básicas do Orçamento-2012, a ser enviado ao Congresso dois dias depois.

Senta aqui Diante da romaria de autoridades do governo, petistas e aliados ao QG de Lula, a sede do instituto do ex-presidente começa a ser conhecida como "sofá-geral da República".

Pano rápido Como voar a bordo de jatinhos de empresários é prática disseminada entre parlamentares, há um esforço geral para minimizar a revelação de que Marco Maia (PT-RS) circulou pelo país a bordo de aeronaves da Unimed. Em privado, porém, os colegas criticam o presidente da Câmara por ter apresentado diferentes versões para se justificar.

Cadeado Com a votação suspensa por falta de quórum, a proposta que retira a Corregedoria da Polícia Civil do gabinete do secretário Antonio Ferreira Pinto (Segurança Pública) tranca a pauta da Assembleia paulista e ameaça adiar a discussão de projetos de interesse de Geraldo Alckmin (PSDB). Na fila estão os reajustes salariais dos policiais e dos servidores das escolas técnicas.

Onde pega O texto que exige mais celeridade é o do aumento da remuneração da polícia, já que o índice será retroativo a julho.

Chave Para desobstruir os trabalhos, o governador terá de apelar ao aliado Campos Machado (PTB). Autor do projeto que rachou a base governista, o deputado é quem pode pedir sua retirada temporária da pauta.

Base legal O governo paulista dispõe de parecer, redigido pela Procuradoria Geral de Justiça, que sustenta a legalidade do decreto assinado por José Serra e que determinou a transferência da corregedoria, até então acoplada ao delegado-geral, para a alçada do secretário.

Calendário Apesar de prometido por Alckmin para 2015, o trem regional SP-Jundiaí consta no plano plurianual enviado pelo governador à Assembleia com apenas 13% de meta de implantação no atual mandato.

Pop O ministro Alexandre Padilha (Saúde) será a estrela do ato festivo no qual o PT de Ribeirão Preto filiará hoje o juiz aposentado João Agnaldo Gandini, ex-algoz de Antonio Palocci e hoje pré-candidato à prefeitura.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"A derrubada do veto criará uma cisão entre vitoriosos e vencidos, com reflexo em outras votações de interesse do governo. O caminho tem de ser o do entendimento."
DO GOVERNADOR RENATO CASAGRANDE (PSB-ES), sobre a preocupação dos Estados produtores de petróleo com possível mudança na divisão dos royalties.

contraponto

Eterno picadeiro


Durante a recente cerimônia de relançamento da Frente Parlamentar do Esporte, o deputado Popó de Freitas (PRB-BA), uma vez empossado presidente, quebrou o protocolo e chamou o colega Tiririca (PR-SP), que estava na plateia, para compor a mesa.
O palhaço dirigiu-se ao palco, cumprimentou o boxeador e, tomando o microfone, repetiu um dos seus bordões mais conhecidos:
-Eu fui convidado a subir aqui e não poderia deixar de aceitar, senão eu iria mooooorrreerrr!

MÍRIAM LEITÃO - Um erro perigoso



Um erro perigoso
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 27/08/11

A inflação está em 7,1% em 12 meses. A de serviços chegou a 8,8%, sem contar alimentação fora de casa. Se isso entrar na conta, a taxa vai a 9,4%. No ano que vem o País terá um choque de custos pelo aumento de 14% do salário mínimo. Mesmo assim, há uma coalizão de ministros da área econômica - com reforços de economistas até de fora do governo - querendo pressionar o Banco Central a baixar os juros já.

Os juros deveriam cair, eles de fato estão muito altos. O Brasil perdeu boas oportunidades de derrubar mais as taxas. Contudo, a presidente Dilma não deve passar a ideia de que os juros são decididos em outras instâncias ou esferas que não o Banco Central; nem que ela decide aconselhada por economistas que têm histórico de pouco se importar com a alta da inflação. Esse erro ela não deve cometer porque seria um bumerangue. Se ficar consagrada a impressão de um BC dócil a outros ministérios ou submetido a análises de pessoas estrangeiras ao governo, a aposta será em inflação cada vez mais alta. Se todos apostarem que não há Banco Central e que a taxa vai subir, ela subirá. A presidente perderá todo o esforço, que custou muito, de criação de reputação do Banco Central autônomo em seu governo. Os juros subiram cinco vezes em cinco reuniões. Infelizmente, não é ainda a hora de derrubar a taxa.

A inflação em 12 meses vai cair no último trimestre do ano. Essa é a previsão de todos, inclusive do Banco Central. Só que depois virá o ano que vem, com a pressão da fórmula negociada do salário mínimo que, inevitavelmente, impactará a inflação de serviços e os gastos previdenciários. A fórmula prometida tem sim que ser cumprida. O que o governo precisa é dimensionar o impacto do choque na inflação e nas contas públicas, para neutralizar com corte em outros gastos.

O ideal é que não corte em investimentos mas em gastos de custeio. Dos investimentos, o País precisa para manter o crescimento, de preferência que sejam investimentos com uma análise mínima de custo/benefício. Algumas das obras do governo não fizeram tal exercício e podem virar buracos sem fundo e sem juízo.

A hora não é de cometer erros. O mundo está em meio à turbulência e no terreno da incerteza. Os Estados Unidos estão com baixo crescimento; a Europa, com risco de calote; o Japão, em recessão. Nós estamos dependentes de que a China continue encomendando preços altos de commodities, porque isso mantém o superávit comercial. Por mais desejável que seja a alta do dólar, se acontecer de repente ela pode provocar vários efeitos colaterais. O economista José Roberto Mendonça de Barros analisou, num vídeo que sua consultoria disponibilizou, que hoje muitas empresas brasileiras estão mais dependentes de componentes e matérias-primas importados. Caso haja uma virada brusca do câmbio, muitas empresas, inclusive indústrias, serão prejudicadas. O melhor é que um novo patamar do câmbio se dê mais devagar, como consequência da queda de juros. O problema é que a taxa não pode ser decidida de nenhuma outra forma que não seja autonomamente pelo Banco Central, para que o efeito não seja oposto ao desejado.

Um dos argumentos dos que defendem a pressão sobre o Banco Central é que, como o crescimento está caindo, o problema inflacionário está resolvido. Infelizmente, não é simples assim. Uma das piores conjugações que acontecem na economia é de crescimento em queda e inflação em alta. Ocorre com frequência. A queda do ritmo do PIB por si só não garante que a inflação ficará controlada. Do contrário, ela não estaria subindo na morna economia dos EUA.

O remédio agora é fiscal. O Brasil não deve se enganar com a alta do superávit primário divulgado ontem. Nem tudo que reluz é ouro. O superávit subiu porque as receitas subiram e em alguns casos com arrecadação extraordinária, como os quase R$ 5 bilhões pagos pela Vale na discussão judicial que a empresa decidiu abrir mão. Os gastos que caíram foram apenas os investimentos. E isso não é bom. Uma das razões da redução do investimento foi a paralisia nos Transportes, provocada pelas demissões em série no DNIT e a queda do ministro.

Há quem garanta que a situação fiscal é excelente porque relativamente a outros países o Brasil parece sólido. Mas é bom lembrar que ele permanece tendo déficit, mesmo no ano passado, em que cresceu 7,5%. O Brasil não aproveitou o melhor momento para zerar o déficit. Deveria ter feito isso, porque agora teria mais espaço para a política fiscal.

Este é um ano em que a conjuntura internacional está mudando constantemente e os riscos são desconcertantes. O mundo das moedas e dos ativos financeiros oscila ao sabor das corridas das grandes massas de capital, formando bolhas. A ameaça de uma recessão global é concreta. O governo deve controlar seus gastos - que já subiram 11% este ano - reforçar investimentos, abrir espaço para a queda dos juros. O que não pode é seguir a receita de achar que o problema inflacionário está resolvido, reduzir os juros para garantir o crescimento, e achar que os indicadores fiscais - porque estão melhores que em tantos países - são sustentáveis. Nenhum país pode elevar indefinidamente as despesas do governo acima do crescimento PIB.

BRAZIU: O PUTEIRO


CELSO MING - A classe média ganha força



A classe média ganha força
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

O tão esperado pronunciamento de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), feito ontem em Jackson Hole, espalhou desapontamento pelos mercados. Ele não prometeu nenhuma novidade capaz de virar o jogo perdedor da economia americana. Apenas repetiu o que o último comunicado do Fed já apontara: caso seja necessário, colocará em marcha os mecanismos disponíveis.

Na verdade, é improvável haver mecanismos disponíveis fora ou dentro do Fed. O Tesouro americano, por exemplo, está paralisado pelo endividamento excessivo e a alta dos impostos parece difícil, numa paisagem em que o consumidor também está atolado em dívidas. Já o Fed está paralisado por não poder injetar ainda mais recursos nos mercados: os juros rastejarão, ao menos, até meados de 2013 e isso já indica enorme abundância de dinheiro na economia. Como não conseguem ou não querem correr o risco de elevar ainda mais o crédito, os bancos americanos estão guardando US$ 1,6 trilhão no próprio Fed. Ou seja, novas injeções de recursos na economia não acionariam nem o consumo nem o setor produtivo; tenderiam a parar no caixa dos bancos que, por sua vez, aumentariam suas reservas no Fed.

Como fica o Brasil ante a estagnação dos países ricos, portanto, ante sua baixa capacidade de importar? Dá para contar com as encomendas de alimentos e matérias-primas da China, se a própria China apoiou o crescimento de sua economia nas exportações para o Primeiro Mundo?

Ontem, no 5.º Congresso Internacional de Mercados Financeiro e de Capitais, realizado pela BM&FBovespa em Campos do Jordão, o ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, explicou que a China e outros emergentes tendem a desenvolver mais seu mercado interno do que a seguir voltados para as exportações. E isso pode indicar que as exportações brasileiras, fortemente voltadas para os asiáticos, não serão gravemente prejudicadas pela paradeira dos países ricos. Mas ele não descartou um cenário de ruptura da economia global que imponha um custo mais alto, também, para a economia brasileira. Isso aconteceria se sobreviesse um grave naufrágio bancário na Europa como o do Lehman Brothers, de 2008.

Bem mais otimista, o professor Marcelo Cortes Neri, da Fundação Getúlio Vargas, avisou que, desde 2003, nada menos que 50 milhões de emergentes - "mais do que uma Espanha" - foram incorporados ao mercado de consumo. Só no Brasil, 13,3 milhões de pessoas não só aumentaram seu poder aquisitivo, mas também melhoraram a qualidade de vida, com incremento da educação, acesso à informação e emprego com carteira de trabalho assinada. Para Neri, não é uma mudança episódica, mas, sim, uma virada consistente, que garante uma capacidade de resistência sólida dos emergentes à crise mundial.

Assim, o Brasil tem uma peculiaridade especial: ser o campeão da tabela de felicidade futura. Forte otimismo e alto grau de confiança permeiam a sociedade brasileira e ajudam a empurrar a economia.

Mas há um lado ruim. Difundem certa aversão às reformas e à necessidade de preparar a economia para os próximos anos. Pior: tendem a estimular demais o consumo e a desencorajar a poupança. Por isso, tendem a reduzir a capacidade de investimento que, em seguida, garantiria maior capacidade de crescimento econômico e de emprego.

CLAUDIO J. D. SALES - Verdades inconvenientes



Verdades inconvenientes
CLAUDIO J. D. SALES
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Um dos temas mais polêmicos que recaem sobre o governo atual envolve a definição sobre o que será feito com as concessões de energia que começam a vencer a partir de 2015. São inúmeras usinas, linhas de transmissão e distribuidoras que carecem de rápida definição sobre seu destino porque suas concessões envolvem planejamento e financiamento de longo prazo.

Conceitualmente, o governo tem duas alternativas: renovação da concessão para o atual concessionário ou relicitação da concessão para empresas estatais e privadas, dentre as quais o atual concessionário poderia ser um dos competidores.

Seria bom que o processo de tomada de decisão governamental fosse baseado em alguns princípios: contestação pública, respeito a contratos e à regulação vigente, isonomia competitiva e promoção da eficiência. Tudo em prol de um princípio maior: o interesse público.

Se o governo puser o interesse público como prioridade, sua decisão precisa sair da arena política e se basear em critérios técnicos e econômicos, porque cada tipo de concessão (geração, transmissão ou distribuição) implica uma análise diferente.

Para a geração e transmissão de energia, talvez seja mais fácil para o governo argumentar a favor da retomada da concessão seguida de licitação, porque para esses dois elos um leilão seria um mecanismo de contestação pública que permitiria verificar se há outros interessados em operar aquela usina ou linha de transmissão por menor custo. Aliás, é sempre bom deixar a ideologia de lado e esclarecer que: 1) licitar não é "privatizar", porque uma estatal pode ser a vencedora do leilão; e 2) o próprio concessionário atual poderia vencer o leilão.

Mas isso não quer dizer que os "cálculos" propagados por alguns grupos de pressão estejam corretos. Cada concessão é um caso diferente e seu valor de reversão (valor que é devolvido ao concessionário atual no caso de retomada da concessão pela União) precisa cobrir os investimentos ainda não amortizados. O valor de reversão precisa ficar longe de palanques eleitorais.

No caso das distribuidoras de energia, o raciocínio pode ser diferente, porque as distribuidoras já têm sido submetidas, a cada quatro anos, a um processo de contestação pública: as revisões tarifárias periódicas conduzidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Como não haveria rendas inframarginais a serem extraídas numa eventual licitação, para esse elo da cadeia haveria um argumento a favor da renovação. Se esse for o caminho, o governo novamente precisará olhar para cada concessão de forma individual e, se optar pela renovação onerosa, deverá calibrar muito bem a regra para definir a tarifa de forma a manter a concessão equilibrada e capaz de fazer frente às necessidades de investimento.

Como se vê, a decisão é complexa e não é possível criar uma regra geral. Cada concessão precisará ser individualmente analisada. Talvez seja por isso que o governo esteja sendo cauteloso nas suas declarações, atitude louvável porque dá indícios de que não haverá politização da questão.

A sobriedade e a serenidade do governo, no entanto, contrastam com o comportamento de outros grupos, e o assunto começa a tomar uma direção perigosa: o populismo em prol de interesses eleitorais e pessoais. Mas isso não é surpresa: o mesmo grupo de pressão que acaba de iniciar massiva campanha publicitária já deu mostras no passado de que, quando se trata de assuntos do setor elétrico, sua estratégia é a de nutrir os mitos, porque a realidade não atende a seus interesses.

Os formuladores de políticas públicas precisam se isolar das pressões de pequenos grupos e pensar com um olhar de longo prazo que beneficie toda a sociedade. O governo tem uma ótima oportunidade para provar que fatos ainda valem mais do que slogans de campanhas publicitárias milionárias e para dar um sinal inequívoco: o setor elétrico não deve ser plataforma de alguns políticos em busca de uma "causa" para as próximas

WALTER CENEVIVA - Ficção no equilíbrio dos Poderes



Ficção no equilíbrio dos Poderes
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 27/08/11

O artigo 2º da Constituição Federal afirma um belo ideal, mas a prática diária não o confirma


O ARTIGO 2º da Constituição Federal diz que, no Brasil, os Poderes da União (Legislativo, Executivo e Judiciário) são independentes e harmônicos entre si. A regra vale, em cada Estado, para sua organização interna e seus municípios. Pergunto ao leitor: em sua opinião, o que a Carta Magna afirma é verdade para o país, para seu Estado ou para seu município? Em outras palavras: é verdade que deputados e senadores, no nível federal, que deputados e vereadores, na órbita estadual e municipal, agem em favor do bem comum, livres de toda ingerência pelo Executivo, assim preservada a harmonia?
Tendo submetido a questão, sinto-me obrigado a antecipar minha opinião. Entendo que o artigo 2º da Constituição Federal afirma um belo ideal, mas a prática diária não o confirma. A história da política nacional -que no Império sustentava o predomínio do imperador, sendo, por isso mesmo, muito criticado- continua valendo, embora em outro regime. Na atualidade, o Legislativo (nos três níveis de governo) tende a aceitar a ingerência do Executivo e a se compor com ele. Quando vereadores, deputados e senadores se candidatam, nos Estados, a maioria deles afirma sua independência em face dos futuros presidente, governador e prefeito. Já tive ocasião de dizer que, eleitos, logo passam -seja qual for seu partido, salvo poucas exceções- a se compor com o Executivo. Estimulam trocas para satisfação dos desígnios deste, mudando a lei como quem muda de camisa. Parece exagero, mas, do menor município ao Estado mais rico, é frequente que, instalados os respectivos órgãos do Legislativo, logo seus componentes passem a "jogar" com o Executivo. Daí saem dois grupos estando com a maioria e a minoria dos que aprovam tudo.
Se no seu município e no seu Estado a perspectiva desenhada no parágrafo anterior for verdadeira, o resultado estará a dizer que a tripartição dos poderes não é suficiente para assegurar a efetiva representação do interesse dominante. Aquele no qual o leitor dedicou seu voto, como vigoroso oposicionista, "troca" (digamos assim) posições e aprovações por cargos e outras vantagens, as mais diversas, algumas até mesmo legítimas.
Se for verdade que o Legislativo -das Câmaras municipais, das Assembleias estaduais e dos órgãos federais-"compõe" com os desejos e com as forças do Poder Executivo, a tripartição dos poderes é sistema superado, jogo de palavras a ser corrigido. E a relação do Executivo com o Judiciário? O juiz atua sempre com olhos para a prática da Justiça, quando está em jogo o interesse definido pela autoridade administrativa? Por exemplo, ao impor que o Poder Público pague suas dívidas?
Reconhecido que os três Poderes não são harmônicos e independentes entre si (ressalvadas sempre as proverbiais exceções), teremos de admitir que a repartição deles em três segmentos já não satisfaz o interesse do povo, cuja garantia democrática depende, de modo imperativo, da livre autoridade entre os que legislam, os que executam as leis e os que julgam. Independência para aprimorar ideias.
Nesse caso, a Constituição estaria afirmando uma realidade inexistente. Realidade que todos nós temos o dever de corrigir, mudando o sistema ou sanando os defeitos do atual. Como? A resposta só em outra coluna.

GOSTOSA


PAULO PICCHETTI - Alta externa de commodities impacta a inflação no Brasil


 Alta externa de commodities impacta a inflação no Brasil
PAULO PICCHETTI
 FOLHA DE SP - 27/08/11

A possibilidade de nova recessão nas grandes economias tomou um papel central na discussão de conjuntura nas últimas semanas. Um dos desdobramentos desse cenário seria a reversão na tendência de aumentos dos preços das várias commodities no mercado internacional.
A desaceleração já ocorre, com diferentes intensidades, refletindo fundamentos dos mercados distintos.
De forma geral, podemos olhar para um indicador agregado como o Índice Reuters-CRB de Commodities (CCI), composto pelos preços internacionais de produtos agrícolas, metais e combustíveis.
Para separarmos variações de curto prazo de tendências mais representativas, podemos olhar para variações nos valores mensais comparados com os mesmos períodos de anos anteriores.
Na crise de 2008/9, por exemplo, o CCI chegou a cair 30,7% em abril de 2009 ante o mesmo mês de 2008. A recuperação de 2010 devolveu parte dessa queda: em abril de 2010, o CCI estava 29,5% acima do de abril de 2009.
Esse movimento de alta continuou forte até maio de 2011, quando o CCI mostrou elevação de 43,1% sobre o mesmo mês do ano anterior.
Desde então, as variações mensais com ajuste sazonal acumularam queda de 6,3% entre maio e julho, sendo o acumulado em 12 meses até julho 29,4% maior do que o de julho de 2010.
Uma questão importante são os desdobramentos desse movimento de preços externos sobre os preços internos. A relação mais direta pode ser sentida no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPPA), um dos componentes do Índice Geral de Preços (IGP) da FGV.
Em termos quantitativos, podemos estimar o impacto desse movimento dos preços internacionais das commodities sobre os preços no atacado no Brasil, usando um modelo econométrico especificado de forma a captar as relações dinâmicas entre o IPPA e seu próprio passado, e com os valores contemporâneos e defasados do CCI.
Com uma amostra de janeiro de 1999 a julho de 2011, esse modelo mostra que os impactos das variações do CCI sobre as variações do IPPA são distribuídos ao longo de cinco meses, ao término dos quais o IPPA absorve 58% das variações do CCI.
As perspectivas do impacto da redução do crescimento econômico mundial sobre a desaceleração dos preços internacionais têm então um desdobramento positivo pelo menos na dinâmica esperada da evolução dos preços no Brasil.
O desafio da política econômica é aproveitar esse lado positivo do cenário internacional de forma a minimizar os efeitos negativos da desaceleração do nível de atividade associados a ele.

PAULO PICCHETTI, 48, doutor em economia pela Universidade de Illinois, é professor da EESP/FGV e coordenador do IPC-S/Ibre/FGV.

PAUL KRUGMAN - O problema Perry de Bernanke



O problema Perry de Bernanke
PAUL KRUGMAN
O Estado de S.Paulo

Uso o governador do Texas como símbolo da intimidação política que está matando nossa última esperança de recuperação econômica


No momento em que escrevo isto, investidores de todo o mundo estão ansiosamente à espera do pronunciamento de Ben Bernanke na reunião anual do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em Jackson Hole, Wyoming. Eles querem saber se Bernanke, que é o presidente do Fed, anunciará novas políticas que poderiam tirar a economia americana do que está parecendo, cada vez mais, um estado quase permanente de demanda deprimida e desemprego alto.

Mas eu levarei um susto se Bernanke propuser alguma coisa significativa - isto é, alguma coisa capaz de causar um sério impacto no desemprego ou oferecer algum impulso sério ao crescimento.

Por que não espero muito de Bernanke? Em duas palavras: Rick Perry.

Ok, não pretendo dizer que Perry, o governador do Texas, está pessoalmente bloqueando o caminho de uma política monetária eficaz. Não ainda, pelo menos. Estou usando Perry - que famosamente ameaçou Bernanke com consequências pessoais tétricas se ele der prosseguimento à política monetária expansionista antes da eleição de 2012 - como um símbolo da intimidação política que está matando nossa última esperança de recuperação econômica.

Para entenderem o que estou falando, perguntemos que políticas o Fed realmente deveria estar seguindo neste momento.

Obviamente, a economia americana permanece deprimida, e, em condições normais, poderíamos esperar que o Fed a estimulasse cortando juros. Mas as taxas já estão perto de zero. Então, o que o Fed pode fazer? Bem, em 2000, um economista chamado Ben Bernanke apresentou algumas propostas para uma política no "limite zero". É bem verdade que o estudo estava focado na política do Japão. Mas os EUA estão hoje numa armadilha econômica muito parecida com a do Japão, só que mais grave. Assim é que aprendemos muito ao perguntar por que Ben Bernanke 2011 não está seguindo o conselho de Ben Bernanke 2000.

Naquela época, Bernanke sugeriu que o Banco do Japão poderia colocar a economia do país em movimento com várias políticas não convencionais.

Essas poderiam incluir: compras de dívida do governo de longo prazo; um anúncio de que os juros de curto prazo permaneceriam perto de zero por um longo período; um anúncio de que o banco estava buscando uma inflação moderada, o que estimularia o empréstimo e desencorajaria as pessoas de entesourarem dinheiro; e "uma tentativa de conseguir uma desvalorização substancial do iene".

Estaria Bernanke no caminho certo? Penso que sim - e deveria pensar, já que seu estudo se baseou em parte sobre meu próprio trabalho anterior. Então, por que o Fed não está seguindo a agenda que seu presidente um dia recomendou ao Japão?

A resposta maior passa ao largo da pressão política. No ano passado, o Fed realmente instituiu uma política de comprar dívida de longo prazo, conhecida como "afrouxamento quantitativo". Mas ele enfrentou um tranco político absolutamente desproporcional a seu efeito modesto sobre a economia, culminando na declaração de Perry de que um novo afrouxamento monetário antes da eleição de 2012 seria "quase traiçoeiro", e que se Bernanke fosse em frente e o fizesse, "nós o trataríamos muito mal lá no Texas".

Agora imaginem só a reação se o Fed agisse nas outras e, possivelmente, mais importantes partes daquela agenda de 2000 de Bernanke, mirando uma taxa mais alta de inflação e saudando um dólar mais fraco. Com republicanos proeminentes como o deputado Paul Ryan já denunciando políticas que alegadamente "desvalorizam o dólar", um incêndio político estaria garantido.

Portanto, agora vocês veem por que não espero algum anúncio de política substancial em Jackson Hole. Em 2000, Bernanke acusou o Banco do Japão de sofrer uma "paralisia autoinduzida". Bem, agora o Fed está sofrendo uma paralisia externamente induzida. Aliás, ele tem sido politicamente intimidado a se omitir enquanto a economia estagna. E isso é uma coisa muito, mas muito ruim.

A oposição política aleijou a política fiscal. Em vez de ajudar a criar empregos, o governo está recuando, agindo como um obstáculo à produção e ao emprego. Com o Fed intimidado até a inação, é difícil ver algum fim para o desastre econômico em curso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

DILMA CABEÇA OCA


SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Porta fechada?
SONIA RACY
O ESTADÃO - 27/08/11

A Comissão de Ética Pública ligada à Presidência enviou recomendação a BC, BB, CEF e BNDES. Nela, pede para que seus servidores, quando afastados por qualquer justificativa, não atuem em consultorias privadas. E avisa que, se o fizerem, poderão sofrer punições.

O objetivo é impedir o repasse de informação privilegiada.

Porta 2

A recomendação vai bater fundo. Qualquer servidor licenciado não poderá mais trabalhar fora do sistema público, por exemplo.

O que a comissão quer é inibir a chamada porta-giratória, caracterizada como "exercício de atividades profissionais realizado de forma intermitente".

Porta 3

Diferentemente do que se pensa, a comissão lembra que defendeu a instauração de procedimento administrativo contra Palocci.

Número 2

Depois de Marisa Letícia, especula-se, em São Bernardo do Campo, que Luís Cláudio, filho de Lula, seria candidato a vice de Luiz Marinho em 2012.

Alta fonte da prefeitura garante, porém, que não há qualquer discussão nesse sentido. A tendência é manter Frank Aguiar, apesar do assédio dos demais partidos aliados.

De placa

Santista, Alckmin foi ontem à festa de 97 anos do Palmeiras. E levou a tiracolo seus sete secretários alviverdes. Para reunir a porcada, convocou um corintiano roxo, Fábio Lepique, seu secretário particular.

Gasparzinho

Braço direito de Marina Silva, Alfredo Sirkis, que continuou no PV para não perder o mandato, vem sendo perseguido pela direção nacional do partido.

Foi vetado de participar de programa de TV dos verdes no Rio.

Gasparzinho 2

Mesmo tendo hostilizado os tucanos em breve período como governador, Claudio Lembo intercedeu para que inaugurassem seu retrato no mural do Bandeirantes.

Vai entrar para a história na quinta-feira.

Arte ilimitada

Bernardo Paz está em costura avançada para transformar Inhotim em polo cultural mais acessível do que é hoje. Quer montar estrutura turística com rede hoteleira e aeroporto. O idealizador do museu a céu aberto tem conversado com empresas interessadas no projeto. As obras do primeiro hotel já estão em curso.

Paz quer fazer também um centro de convenções, um teatro e uma concha acústica.

Back on track

Luis Fabiano está ansioso para voltar aos gramados. A depender do otimismo da equipe que cuida do jogador, sua reestreia não deve demorar. A previsão é que o "Fabuloso" seja escalado semana que vem.

Tríade dura

Emma Thompson, Kate Winslet e Rachel Weisz se engajaram a favor do envelhecimento natural. As atrizes inglesas criaram a Liga Britânica Contra a Cirurgia Plástica e andam anunciando, em alto e bom tom, que jamais cederão ao bisturi.

Tipo exportação

Rodrigo Pederneira, coreógrafo do Grupo Corpo, empresta seus talentos à Limón Dance Company. A trupe dança no Sesc Vila Mariana neste fim de semana, como parte do Teatro Stage Fest.

Os ensaios começam no dia 28 de novembro, em Nova York.

Na Luz

Grande mostra de Saul Steinberg está prestes a chegar a São Paulo, mais precisamente à Pinacoteca. Cerca de 100 desenhos, incluindo quatro murais, serão exibidos em conjunto pela primeira vez no Brasil.

24 horas

Parece que começa a dar certo. Desde que o telefone do Disque-Denúncia foi estampado nos caixas eletrônicos, o serviço recebeu 48 ligações anônimas relacionadas a ataques contra as máquinas. A média é de um chamado por dia.

Batizado

Mais um posto de gasolina de São Paulo foi cassado anteontem pela Operação De Olho na Bomba. Segundo a secretaria da Fazenda, já são 68 as autuações este ano por causa de combustível adulterado no Estado.

Como ainda estamos em agosto, a marca de 2010 (66 postos autuados) pode deixar saudade...

Direto de Miami

Paula Barreto havia prometido um roteiro perfeito para entregar a Sonia Braga. Revelou à coluna, em Miami, durante o Brazilian Film Festival, que encontrou. Acaba de comprar os direitos de A Casa dos Budas Ditosos, que terá roteiro do próprio autor, João Ubaldo Ribeiro. Direção? O escolhido foi Roberto Talma.

E Fabio Barreto começa a recuperar os movimentos das mãos e do tronco. O diretor de Lula, o Filho do Brasil está em coma desde dezembro de 2009, quando sofreu um acidente de carro.

Adriana Dutra, da produtora Inffinito, lança em setembro o Midiafundmarket, site de crowdfunding voltado exclusivamente ao mercado audiovisual. Como funciona? Produtores postam seus projetos e buscam gente interessada em patrociná-los. "Uma alternativa para pequenos e médios investidores", explica.

Assunto mais comentado do festival? O furacão Irene. Toniko Melo, diretor do filme VIPs, andava tão nervoso que até ameaçou "fugir" para NY. Ou seja, justamente para onde a tempestade está indo... Por aqui, a "moça" só assanhou o mar e provocou um dia inteiro de chuva.

Convidados que seguiam de van para a exibição de filmes do festival testemunharam o terror de Ney Latorraca. "Gente, me convidaram para gravar um programa dia 11 de setembro... em Nova York", anunciou, quase saltando da poltrona. E emendou: "Acho que não vou, não! Vou tentar transferir para dia 10 ou dia 12".

Já Maria Arlete Gonçalves, presidente do júri do festival, machucou o pé. E teve de voltar para casa antes do fim do evento. Vai acompanhar tudo à distância.

Na frente

Denise Fraga lê poemas hoje no lançamento da revista IDE Psicanálise e Cultura, na Livraria da Vila da Lorena. Publicação editada pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

A trajetória de Cledorvino Belini, Fábio Barbosa e Luiz Seabra virou três livros. Lançamento segunda, no Grand Hyatt.

Fause Haten abre Fause em Curtas, hoje, no MIS. Idealizada pelo estilista, a mostra faz parte da programação do Festival Internacional de Curtas-Metragens de SP.

O bar Original comemora 15 anos, segunda-feira, com festa fechada.

Da internet: revelado o motivo pelo qual o MAC/USP não quer mudar sua coleção para o prédio do Detran. Corre o risco de ela sair do anonimato e ser descoberta pelo público.

FERNANDO RODRIGUES - Imagem é tudo

Imagem é tudo
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 27/08/11

Acabou a faxina que foi sem nunca ter sido. Ficou o ganho de marketing para a presidente Dilma Rousseff. Publicações internacionais andam infestadas de interpretações sobre a atitude 'firme' da petista na sua luta contra a corrupção e os maus costumes. Quem anda por Brasília por dever do ofício sabe que as demissões de ministros e de servidores ocorreram mais por inevitabilidade do que por desejo específico e determinação do Palácio do Planalto.

Dos quatro ministros demitidos, um (Nelson Jobim) caiu por falar em demasia e desagradar a presidente. Os demais saíram por terem as entranhas reveladas pela mídia e não por investigação do governo. Aliás, os fatos pendentes no Ministério do Turismo e no das Cidades têm octanagem equivalente aos "malfeitos", como prefere Dilma, dos já demitidos. Mas agora, basta. A presidente mudou a escala com a qual mede a corrupção.

Brasília entrou numa fase de boatos e expectativas. Não há meio de antever o resultado de inúmeras investigações em curso. Fatos graves ficaram mais visíveis durante a fase "política zero" de Dilma. A presidente se eximiu de arbitrar as desavenças do cotidiano da micropolítica. As informações tomaram seu curso natural, até a mídia. Aos poucos, tudo será apurado e publicado – quando houver veracidade. O efeito é imprevisível. Daí o clima de fim do mundo às vezes sentido entre os políticos no Congresso.

É cedo para fazer juízos definitivos. A força centrípeta do Planalto é imensa. O negócio do governo, qualquer governo, é produzir adesões em série. Mas quem imaginaria em janeiro que Antonio Palocci cairia da Casa Civil em junho? Por enquanto, resta apenas o ganho de imagem para Dilma. Ao produzir a miragem de que faria uma faxina sem limites, a presidente atraiu o apoio até de tucanos ilustres, como FHC e Alckmin. Com uma oposição assim, tão dócil, fica bem suave a tarefa de governar.

CLÁUDIO HUMBERTO


"Faxina na pobreza substituirá faxina na corrupção?”
SENADOR ÁLVARO DIAS (PSDB-PR) QUESTIONANDO A PRIORIDADE DA PRESIDENTE DILMA

MAIA ‘DO JATINHO’ RECEBEU CHEFÃO DA UNIMED
A opção preferencial pelo jatinho da Unimed para uma suposta viagem  grátis pode ser só uma coincidência na vida do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). Ao se defender das acusações, afirmou desconhecer dirigentes da gigante dos planos de saúde, mas ele recebeu no gabinete, em fevereiro, o presidente da Federação das Unimeds, José Abel Ximenes, e noticiou a reunião no site da Câmara.

TRÊS PODERES
Ximenes apresentou o novo “modelo de atuação” da Unimed no Legislativo, Executivo e Judiciário, seja lá o que isso signifique.

MILHAGEM 
Maia justificou que vai pagar a conta do voo particular na Uniair, a transportadora da Unimed, que também freta jatinhos a particulares.

PENSANDO BEM... 
...o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), usou jatinho da Unimed para uma “emergência parlamentar”.

CASA ARROMBADA 
O governo federal gastou R$ 2,3 milhões com chaveiros em 2010, segundo o Portal da Transparência. A tendência é aumentar muito.

ESPORTE: MINISTÉRIO PREFERE FORNECEDOR MAIS CARO 
O Ministério do Esporte vai pagar R$ 58 milhões para o consórcio Johnson-Controls/Dex instalar câmeras de vigilância nas arquibancadas dos estádios para a Copa de 2014. O curioso é que o segundo colocado, uma empresa brasileira, ofereceu o mesmo serviço e de qualidade similar por R$ 13 milhões a menos. O ministério informou que a escolha foi feita “por combinação entre técnica e preço”.

APITO FINAL 
A FGV foi contratada para os serviços de planejamento, orçamentação, seleção e acompanhamento da execução de estudos.

PARA ESCANTEIO 
A comissão de licitação fez diligências nas ofertas e escanteou a Fundação Getúlio Vargas, cujos relatórios não tiveram vez no leilão.

CIRURGIA 
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu se submeteu em São Paulo a uma pequena cirurgia de hérnia inguinal. Recebeu alta e está em casa.

DECISÃO TOMADA 
O governador do DF, Agnelo Queiroz, bateu o martelo: vai ordenar o início da construção do centro administrativo entre Taguatinga e Ceilândia, a 26 km de Brasília. A obra será tocada em parceria público-privada. O governo pagará R$ 12,6 milhões mensais por vinte anos.

NATUREZA MORTA 
A influência do ex-ministro Antonio Palocci continua viva no Palácio do Planalto. Petistas o chamam de “nosso melhor quadro”, mas Dilma não quer manter o quadro na parede. Não gosta de natureza morta.

RODA BAIANA 
Um deputado do PMDB comentou, desolado, que Dilma não rodou entre todas as mesas, durante o jantar no Palácio do Jaburu. Deu só adeuzinhos de longe. “Pelo menos não rodou a baiana”, consola-se.

USO E ABUSO 
Lula ensinou a seus ministros a voarem daqui para lá em jatinhos. É campeão nesse abuso. Mas como ele prescreveu a última edição do Código de Ética do Funcionalismo Público, não é mais abuso. É uso.

É DE ARAQUE
A Câmara Legislativa do DF decretou fim do nepotismo, dois anos depois da decisão do Supremo Tribunal Federal, mas a medida só vale para parentes de servidores estáveis. Parentes comissionados serão poupados, como a assessora do presidente cuja tia é concursada.

VOA QUEM PODE 
A portaria 3016/88 determina que inspetores da aviação devem viajar como tripulantes, sem pagar passagem. Já a Anac, compra passagens nas agências de viagens contratadas. Sem “vaga”, há dias, um inspetor “achou” voo e passagem no mesmo dia, pela internet. Na Continental.

TEORIA DA EVOLUÇÃO
O deputado estadual Magno Bacelar (PV-MA) defendeu o uso do helicóptero, perguntando se Sarney iria “andar em jumento”. Seria caso para criação de uma CPI de Darwin, se ocorresse o contrário.

POR QUE NÃO TE CALAS? 
O líder do PT na Câmara, Cândido Vacarezza (SP), teve seu momento Ofélia na tribuna da Câmara, há dias, dizendo que nem na época do pré-impeachment de Collor o plenário convocou ministro a depor.

PENSANDO BEM... 
...há mais políticos no ar que aviões de carreira.

PODER SEM PUDOR
VINGANÇA 
Líder do PTB na Assembleia Legislativa de São Paulo anos atrás, Campos Machado fazia marcação cerrada a parlamentares ligados ao MST. Um dia, um deputado do PT ligado aos sem-terra resolveu ir à forra:
– O pessoal vai invadir a sua fazenda, lá em Lins...
– Como vocês sabem que tenho fazenda em Lins?
– Temos as nossas informações... – respondeu o petista, sorrindo.
– Então invadam! – desafiou o líder do PTB.
De fato, no dia seguinte o MST invadiu a tal fazenda em Lins, depredando tudo. achado se divertiu muito: sua fazenda era outra, no Vale do Ribeira.

SÁBADO NOS JORNAIS


O Globo: Interventor encontra ralos para corrupção na Conab

FOLHA: Alerta sobre furacão tira 272 mil de casa em NY

O Estado de S. Paulo: Prefeitura de SP sofre fraude recorde

Correio Braziliense: Justiça proíbe Câmara de pagar supersalário

Estado de Minas: 100 anos de perigo

Zero Hora: Protesto e vandalismo de PMs por salários constrangem quartéis








sexta-feira, agosto 26, 2011

TUTTY VASQUES - Turismo catástrofe


Turismo catástrofe
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 26/08/11

Tem turista brasileiro - ô, raça! - desconsolado em Manhattan. Gente que estava em Nova York no dia em que a terra tremeu na costa leste e, todavia, não terá nenhuma história para contar a respeito quando voltar de férias.
O terremoto sem pânico, feridos ou tumultos da última terça-feira na Big Apple foi tão mixuruca que uma boa parte da cidade só se deu conta do que tinha acontecido quando ligou a TV ou, no caso de estrangeiro a passeio, recebeu telefonema de parente preocupado em seu país de origem.
A sensação, como bem definiu alguém que saiu de Belo Horizonte com a família em excursão pelos Estados Unidos, "foi a de acordar em São Joaquim e ficar sabendo que nevou até agorinha mesmo, sô!".
A turma que já comprou quase tudo que tinha de comprar em Nova York torce agora para que o Furacão Irene não vire um ventinho de nada quando, a qualquer momento, chegar à Time Square.
Se der pra tirar uma foto de um guarda-chuva virado com o néon dos letreiros ao fundo já valeu a viagem!
Pode ser arriscado esperar até 11 de setembro pra ver se acontece alguma coisa de grande magnitude por lá. Vai que...

"Eu, hein!"De Paulo Maluf, questionado ontem pela imprensa sobre o tal acordo que teria negociado com a promotoria de Manhattan: "Vocês devem estar me confundindo com o Dominique Strauss-Kahn!" São, convenhamos, lábias diferentes.

Dúvida cruel"NEGROMONTE DE QUÊ?!"Entreouvido em um ponto de ônibus, dito por uma senhora que tentava entender a indignação de outro passageiro com o ministro das Cidades, Mário Negromonte.

Gordura estávelAmanhã faz uma semana que se diz no Corinthians que "Adriano precisa perder três quilos". Isso quer dizer o seguinte: o Imperador não emagrece um grama há seis dias.

UpgradeRubinho Barrichello ganhou uma motivação extra para o GP da Bélgica: com a volta de Bruno Senna à F-1, dificilmente ele será o brasileiro pior colocado na corrida. Ou não!

Bode expiatórioDeu na revista científica Nature: o fenômeno climático El Niño duplica o risco de guerras civis em países tropicais. Era só o que faltava, né não? Qualquer dia vão responsabilizar o aquecimento global pela corrupção nos países emergentes.

Tiro no pé
O que tem de corrupto em Brasília ameaçando assinar o pedido de CPI da Corrupção no Congresso é o que se pode chamar de fogo amigo premeditado. Coisa de louco!

Mal comparandoPrefeito de Campinas é como técnico de futebol: alta rotatividade no cargo!

Paranoia de sempreDepois de confundir tremor com terror, os americanos cismaram agora que a Al-Qaeda está por trás do furação que atingiu a costa leste dos Estados Unidos. 

ANCELMO GÓIS - Meirelles na Copa


Meirelles na Copa
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 26/08/11

Ricardo Teixeira convidou Henrique Meirelles para ser o diretor-executivo da Copa de 14.

O ex-presidente do BC, cujo cargo na Autoridade Pública Olímpica é figurativo, deve aceitar.

Aliás...

Desde que o economista Carlos Langoni, também ex-presidente do BC, deixou o Comitê Organizador Local da Copa de 14 , ano passado, gente de dentro e fora do governo sentia falta de um nome de peso no posto.

Nocaute da Justiça

Mike Tyson já estava de malas prontas para vir assistir ao UFC, torneio dessa espécie de novo vale-tudo, amanhã, no Rio.

Mas a Justiça americana, terreno onde o ex-campeão mundial de pesos-pesados coleciona problemas, não autorizou.

Alô, brigões!...

Aliás, o TJ do Rio vai fazer um plantão na Arena Multiuso, na Barra, local do evento.

Os juízes Rafael Estrela, Marcel Laguna e Paulo Roberto Jangutta ficarão num ônibus para qualquer ocorrência.

A propósito...

Como lembrou Zuenir Ventura, qual é a graça de assistir a uma pessoa espancar outra?

Com todo o respeito.

Clube da Luluzinha

Dilma vai aproveitar a ida à Assembleia Geral da ONU, dia 21 de setembro, em Nova York, para participar de um colóquio de mulheres, a convite de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e atual diretora da ONU-Mulher.

Partido da Bola

Túlio Maravilha, 42 anos, o velho atacante contratado pelo Bonsucesso, foi sondado para mudar o domicílio eleitoral e ser candidato à Câmara do Rio pelo PMDB.

O jogador é vereador licenciado em Goiânia.

Divulgação

ESTE ESTACIONAMENTO, na Rua da Lapa, é tão legítimo como uma nota de três reais. Controlado por um grupo de milicianos que cercou a área e pôs uma guarita sem qualquer autorização, vai deixar de existir hoje, a partir das 9h, quando a Subprefeitura do Centro iniciará seu desmonte para dar lugar a uma das praças do Programa Lapa Legal. E já vai tarde. Para varrer da paisagem mais este ponto de marginais, o subprefeito do Centro, Thiago Barcellos, sofreu até ameaças por telefone, registradas numa queixa à 5ª DP

Jovens fumantes

O Inca divulga segunda agora, Dia Nacional de Combate ao Fumo, o estudo "A situação do tabagismo no Brasil".

Apesar da onda antifumo, os números são alarmantes. Dos fumantes, 70% acendem o primeiro cigarro antes dos 20 anos.

Saiu na "Playboy"

A 3ª Turma do STJ condenou a Editora Abril a indenizar em R$17,5 mil uma advogada de São Paulo.

É que a "Playboy" publicou, em 2002, matéria sobre a noite paulistana, e ela aparecia numa foto, dançado numa boate. Para ela, havia no texto trechos ofensivos às frequentadoras.

Carnaval de Paes

Eduardo Paes passou o dia ontem em reuniões sobre o carnaval. O prefeito diz que as obras da Passarela do Samba estão no prazo:

- São estruturas modulares. Vai dar tempo.

Cidade do Samba

Paes também atuou para que, afinal, sejam feitas as obras dos barracões incendiados na Cidade do Samba, a cargo da Liesa.

A Delta, que fez a obra, receberá pelo serviço R$22 milhões, fixados pela seguradora Mapfre.

"Eu sou bandida"

A impagável Valéria ("Ah, como eu sou bandida!"), do "Zorra Total", da TV Globo, vivida pelo humorista Rodrigo Sant"Anna, estreia na Rádio Globo dia 5.

Terá um quadro no programa "Vale-Tudo", de Tino Júnior.

AeroBellizze

A Amaerj vai fretar um avião para levar 99 magistrados à posse do desembargador Marco Aurélio Bellizze, dia 5, em Brasília, no STJ.

Cena carioca

Dia desses, no Príncipe dos Galetos, no Centro, um cliente reclamou da conta:

- Não vou pagar um galeto inteiro. Eu pedi meio...

O garçom perguntou.

- Quantas coxinhas o senhor comeu?

- Duas - respondeu.

- Meio galeto só tem uma coxa - rebateu o da bandeja.

Para concluir...

O cliente se rendeu à matemática e pagou a conta integral.

Há testemunhas.

ILIMAR FRANCO - José Pimentel


José Pimentel
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 26/08/11

A presidente Dilma Rousseff tem preferência pelo nome do senador José Pimentel (PT-CE) para substituir o deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS) na liderança do governo no Congresso. Como a presidente não quer problemas com o PMDB, isso ainda precisa ser negociado com o partido, que tem dois nomes para o posto: o deputado Marcelo Castro (PI) e o senador Eduardo Braga (AM).

Governo Dilma quer ganhar tempo

O governo quer vincular a votação da distribuição dos royalties do petróleo com a negociação da regulamentação da emenda 29, que define patamares mínimos de gastos na Saúde; o fim da guerra fiscal; e novos critérios de partilha do Fundo de Participação dos Estados. A presidente Dilma argumenta que os estados que saírem perdendo em cada uma dessas questões vão querer ser compensados pela União, mas que a fonte de recursos é uma só: o Tesouro Nacional. “Os governadores vão querer que eu pague a conta”, tem repetido a
presidente. A emenda 29 e os royalties estão pautados para setembro no Congresso.

"A unidade (do PMDB) não pode beneficiar só alguns, tem que trazer benefícios para todo mundo” — Geddel Vieira Lima, vice-presidente de Pessoa Jurídica da CEF

FLERTE. O ex-presidente Lula conversou ontem, por duas horas, no Instituto Lula, com o pré-candidato do PMDB à prefeitura de São Paulo, deputado Gabriel Chalita. O encontro teve o objetivo de manter os canais abertos. Na conversa, Lula reafirmou que, no PT, o melhor candidato é o ministro Fernando Haddad (Educação). O ex-presidente quer que o PT da capital decida quem será o candidato até o final deste ano.

Mata Atlântica

A presidente Dilma afirmou, em reunião com o PV, que, em um segundo momento, a intenção é expandir o Bolsa Verde para a Mata Atlântica. O benefício é de R$ 300, por trimestre, para as famílias que preservarem a Amazônia.

Ficha suja

Os senadores Pedro Taques (MT), Cristovam Buarque (DF) e o deputado Reguffe (DF) tentam barrar a entrada do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, no PDT. O principal argumento é que ele não seria um político ficha-limpa.

Eduardo Campos arregaça as mangas
Para eleger a mãe, a líder do PSB na Câmara, Ana Arraes, para ministra do TCU, o governador Eduardo Campos (PE) já esteve em quatro estados. Em um deles, Sergipe, o governador petista Marcelo Déda reuniu toda a bancada federal de seu estado. Campos conta com a neutralidade do Planalto. Os adversários de Ana Arraes são: Átila Lins (PMDB-AM), Sérgio Carneiro (PT-BA), Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Jovair Arantes (PTB-GO).

Inconformado

O presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, protesta: “Nossa proposta de reestruturação não tem relação com o projeto do governo FH. Ele previa a quebra do monopólio postal e o fatiamento dos Correios em várias empresas”.

Ele tem a força
Defenestrado do governo Dilma, o ex-secretário-executivo do Ministério da Agricultura Milton Ortolan foi resgatado da faxina pelos militares. Ele foi um dos agraciados, ontem, pelo Comando do Exército, com a Medalha do Pacificador.

 CONTRARIADO porque a oposição não queria votar ontem um crédito para as justiças do Trabalho e Eleitoral, o líder da minoria no Congresso, senador Jayme Campos (DEM-MT), explodiu: “Depois a gente sai do DEM, e vocês não sabem o porquê!”.
 O GOVERNADOR Tião Viana (PT-AC) e o senador Jorge Viana (PT-AC) não foram ao lançamento da précandidatura à prefeitura de Rio Branco da aliada Perpétua Almeida (PCdoB).
● NO SAL. O relator do processo do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) no Conselho de Ética, o tucano Fernando Francischini (PR), é delegado da PF.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Santo remédio
SONIA RACY
O ESTADÃO - 26/08/11

Depois da fusão Droga Raia/Drogasil, há quem jure que vem aí a união da Drogaria São Paulo com a rede carioca Drogaria Pacheco. A negociação estaria sendo tocada pelo Banco Espirito Santo.

Correndo por fora, André Esteves e sua Farmais.

1001 utilidades

Alice, mulher de Ronaldo Ferreira (controlador da Bombril), inaugura terça-feira estúdio que reproduz todas as atividades do lar. Com cursos gratuitos para profissionalização de domésticas. Nome? Casa Bombril.

E abrirá também, em breve, o Espaço Memória, contando a história da marca por meio da evolução das mulheres.

Poder do carisma

As ações da Apple caíam ontem enquanto crescia o número de pessoas que assistiam ao discurso de Steve Jobs na Universidade de Stanford, em 2005. O vídeo tem variações no YouTube e soma 5,5 milhões de acessos. Nele, Jobs fala sobre superação.
Passou?

Alckmistas ventilam a reabilitação de Guilherme Afif perante os tucanos. Além de turbinar as PPPs, o vice-governador tem sido interlocutor de importantes questões entre Alckmin e Kassab.

Teto de vidro

A Câmara dos Vereadores convocou, recentemente, instituições da construção civil para falar na CPI da Acessibilidade. Ironia: no 13º andar do edifício, onde funciona o RH da casa, só se chega pela... escada.

Gilberto Natalini, presidente da CPI, promete aproveitar a reforma prevista para resolver o problema.

Solito

Beto Amaral separou-se do sócio, Pedro Igor. E criou a Cisma Produções, cujo primeiro voo-solo é Hedwig, rock-musical que inicia temporada em Sampa hoje, no Teatro Nair Bello. Com presença do compositor Stephen Trask.

Little Kate

É motivo de comentários, no Lourenço Castanho, a festa de aniversário de uma estudante semana passada. A família reservou a suíte presidencial do Fasano para comemorar os 10 anos da menina.

Com direito a pantufas e travesseiros que traziam, bordados, os nomes das amigas.

Cidade 4?

Cobiçado também pela Prefeitura, o Estado saiu na frente. Desapropriou o prédio do Itaú, no centro de São Paulo. Valor estimado do ato? Algo em torno de R$ 20 milhões.

Vizinho ao Cidade 1, receberá setores do governo que hoje funcionam em prédios alugados.

Amigo é

Desconfia-se que o mercado de trabalho brasileiro esteja passando por uma mudança estrutural. Integrante da equipe econômica garante que índices de desemprego próximos a 10% "são coisa do passado". E pergunta se já não estaria na hora de rever a taxa de equilíbrio, hoje em torno dos 7%.

Afinal, como o IBGE informou ontem, o País vem registrando, há quase um ano, desemprego na casa dos 6%.

Sangue

Da série "isto é incrível". Estão quase esgotados os 1.600 ingressos para a exibição, ao vivo, do UFC Rio nos cinemas UCI pelo Brasil. Repetindo o sucesso do evento, que acontece amanhã no HSBC Arena.

Mutirão

Com a perda de mais um ministro no horizonte, Dilma parece estar correndo contra o relógio. Recebeu Haddad, pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, todos os dias esta semana.

Moda xadrez

A grife Daspre fará desfile em setembro na... Fiesp. Parte do Encontro Nacional do Projeto Começar de Novo. Com roupas confeccionadas por detentas paulistas, as presidiárias também farão as vezes de modelos.

Tem até vestido de noiva.

Mascote

Grupo flamenguista encabeçado por Patricia Amorim pretende adotar um urubu-rei do zoo do Rio. Custo? R$ 500 por mês. A ideia foi muito festejada no clube.

Na frente

Foi visto entrando no Instituto Lula ontem, na hora do almoço, Márcio Thomaz Bastos. Só uma visita?

Sai este mês livro escrito por Cesar Giobbi contando a história dos 20 anos da marca Tania Bulhões.

Mario Testino recebe homenagens por seus 30 anos de trabalho no mês de setembro. A começar pelo prêmio Moët & Chandon Étoile.

Oliver Mangels palestra, hoje na Defensoria Pública, sobre deficiência intelectual.

O Ministério da Cultura enviou e-mail negando que qualquer de seus dirigentes tenha emitido declaração que permitisse deduzir defesa de algo parecido com uma CPI, conforme publicou a coluna.

André Cencin pilota leilão de arte, segunda, nos Jardins.

O que Tiago Leifert e Eriberto Leão têm em comum? Vão palestrar sobre suas profissões para alunos do Dante Alighieri. Hoje e amanhã.

Ao ser escolhido curador da Flip, Miguel Conde assumiu um compromisso: não se engalfinhar com os... Convidados.

GOSTOSA


FERNANDO DE BARROS E SILVA - A faxina do Ferreira

A faxina do Ferreira
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 26/08/11 

SÃO PAULO - O assunto é chato, mas importante. Há dois anos, a Corregedoria da Polícia Civil foi transferida para o âmbito da Secretaria da Segurança Pública. Saiu das mãos do delegado-geral e passou a funcionar subordinada diretamente a Antonio Ferreira Pinto.
Foi uma mudança institucional que contrariou muita gente, exatamente porque deu resultados: cerca de 950 delegados, quase um terço dos 3.200 da Polícia Civil, estão sob investigação da corregedoria. Muito deles respondem por faltas leves, é fato. Mas há também na corporação uma corrupção endêmica que está sendo enfrentada como tal pela primeira vez, sem poupar quadros históricos da cúpula.
O deputado estadual Campos Machado (PTB) tentou aprovar nesta semana um projeto de sua autoria que devolve o comando da corregedoria ao delegado-geral. Não conseguiu por falta de quorum.
Mas o lobby de uma certa banda da polícia que Campos vocaliza contou com o apoio do PMDB e de metade das bancadas do DEM e do PT -uma união esdrúxula a favor do retrocesso. O PSDB e outros aliados do governo obstruíram a sessão, orientados por Alckmin.
A corregedoria da polícia desde sempre foi um órgão de fachada, sem autonomia ou disposição para punir corruptos, suscetível à ação das quadrilhas ou à pressão corporativa. A iniciativa do notório parlamentar para devolvê-la ao regime anterior, submetendo-a ao controle da polícia, representa um passo inequívoco para esvaziar suas atribuições e aplicar, assim, um golpe na faxina do Ferreira.
Este não é, sabemos, o único cancro da polícia paulista. Exemplos de brutalidade e de desrespeito sumário aos direitos humanos ainda são comuns, sobretudo na PM.
A rixa histórica entre as duas polícias voltou a recrudescer. A banda podre da Civil vem explorando casos de truculência da Militar para atingir o secretário. Cabe a ele desarmar essa cilada. E a Alckmin segurar a tropa de Campos Machado.

GUSTAVO PATU - Ortodoxia de ocasião

Ortodoxia de ocasião
GUSTAVO PATU
FOLHA DE SP - 26/08/11 

BRASÍLIA - Nem Dilma Rousseff nem Guido Mantega são conhecidos pela fé nas virtudes redentoras da contenção do gasto público. E se o Planalto e a Fazenda não professam essa crença, não é o resto do governo que vai.
Mas a administração petista, desde Lula, é racional e pragmática. Sempre trata de produzir os resultados necessários -ou, ao menos, as expectativas de resultado- para evitar que a economia desande a ponto de ameaçar seu projeto de poder. Como agora.
Está em curso uma bem-sucedida combinação de aumento da receita e, em menor grau, de controle das despesas, cujo objetivo é combater o excesso de inflação nascido do excesso de gastos do ano eleitoral. Em contrapartida, há uma conspiração de eventos e humores para pôr fim ao purgatório do cumprimento pleno das metas fiscais.
Já está previsto em lei o maior reajuste do salário mínimo desde o pós-mensalão, em 2006; o último pacote de reajustes parcelados para os servidores públicos, de 2008, encerrará seus efeitos, e já há greves entre algumas categorias.
Há centenas de obras prioritárias em atraso, incluindo promessas de campanha, Copa e Olimpíada; há milhares de obras não prioritárias com as quais deputados e senadores pretendem atender suas bases nas eleições municipais.
O sinal mais evidente de que toda Brasília espera por mais gastos é a recente defesa, por Mantega, da preservação da austeridade, mesmo com a piora do cenário global ameaçando o crescimento doméstico. Admitir, agora, um relaxamento precipitaria uma corrida entre generosidades legislativas e executivas, enquanto ainda nem se sabe o efeito da crise na arrecadação.
Nessas horas, o discurso ortodoxo vem a calhar -em particular, a ressurreição da tese de que mais alguns anos de dura disciplina permitirão, finalmente, a derrubada dos juros. Afinal, quem precisa acreditar é quem escuta.

RUY CASTRO - Gaiolas abertas

Gaiolas abertas
RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 26/08/11 

RIO DE JANEIRO - Outro dia, flanando pelo centro, atravessei a praça Tiradentes, sem grades, depois de anos cercada. É o primeiro passo da Prefeitura do Rio, apoiada por arquitetos e urbanistas, para libertar as praças cariocas -devolvê-las à cidade, como eram no passado.
Se a ausência de grades atrairá mendigos, drogados e assaltantes, só a prática dirá. Os antídotos contra essas mazelas são urbanismo, iluminação e policiamento -o que, afinal, toda municipalidade deve oferecer a qualquer via pública. Mas, além da ação que vem de cima, a atual reconquista do Rio pelo carioca está contando com a cabeça do cidadão. Ele se deu conta de que a paranoia preventiva, vigente há décadas, contribuiu para a satanização da cidade.
Com o fim das grades nas praças, cabe aos prédios particulares seguir o exemplo. Alguém ainda se lembra de como as grades se instituíram nos prédios do Rio nos anos 80 e 90? Não foi por causa de bandidos ou ladrões -e nem o Rio, mesmo na pior fase, sofreu particularmente com assaltos a residências. Foi por causa da população de rua, que, em certo momento, pareceu se multiplicar.
Para evitar que mendigos dormissem sob as marquises e junto às escadas e portarias, os primeiros edifícios se cercaram. Síndicos e porteiros viram nisso um filão. Alegando a violência, e em conluio com os fabricantes, começaram a impor as grades -contra a vontade de moradores sensatos, vencidos nas reuniões pelos condôminos mais impressionáveis. E assim, rapidinho, fomos nos engaiolando.
Bem, as coisas mudaram. Nos últimos anos, todos os índices de pobreza e insegurança no Rio vêm caindo. Por inércia ou má-fé, a máfia das grades continua -mas, quero crer, apenas por enquanto. Talvez já não seja tão fácil para um síndico, hoje, por mais cínico, cercar um prédio. Resta ao carioca libertar-se das jaulas que já plantou.

BARBARA GANCIA - Vidão de cachorro

Vidão de cachorro
BARBARA GANCIA 
FOLHA DE SP - 26/08/11

Nos últimos 15 anos, o leitor conviveu com meu cão e personal trainer, Pacheco Pafúncio (1996 - 2011)


ESCREVO COM o estrupício aninhado sob os meus pés. Também não estou lá grande coisa. Desde a noite de quarta, quando voltamos do hospital veterinário, venho tentando me conformar com mantras repetidos em sequência: "Ele levou uma vida gloriosa; viveu mais de cem anos caninos; tomou água de coco no dia em que se foi".
Nos últimos 15 anos, o leitor desta coluna se acostumou a conviver com meu cão e personal trainer, Pacheco Pafúncio. Nesse período, tornou-se rotina sermos parados na rua por gente interessada: "Este que é o famoso Pacheco Pafúncio?". E o Pachecão lá parado com ar de sonso, esperando a conversa terminar para dar prosseguimento à caminhada. Sem a menor ideia de que eu o havia transformado numa espécie de Lassie do jornalismo tapuia.
Para seu núcleo íntimo, composto pelo estrupício, ou seja, por meu outro cão, o também salsicha Ziggy Stardust (ou Ziggy Zagallo, aquele que, a partir de hoje, vocês vão ter de engolir), é evidente que ele era bem mais do que uma celebridade das colunas e revistas de amenidades. Para nós, ele era o SuperPacheco, o melhor cão do mundo.
Nos últimos tempos, porque um era idoso e o outro não, e cada um tinha seu ritmo, eles saíam para passear separados. Quem ficava o fazia de focinho grudado na porta até que ela se abrisse novamente. O reencontro sempre era o de velhos amigos que não se viam há décadas. "Pacheco, você por aqui?", "Ziggy, querido, há quanto tempo!" Eu ficava comovida com a camaradagem. Nunca o ancião usou do seu privilégio de chefe de matilha para submeter o caçula.
Pacheco era o nosso "metrônomo", foi o impressionante caso do cão que abanou o rabo desde o primeiro ao último dia de vida, que morreu de velhice sem nunca ter importunado ninguém e sem jamais ter cometido um malfeito.
Podemos descontar como fraqueza momentânea -ou quem sabe computar como uma forcinha a mais na dieta da moça- o dia em que ele deu uma lambida no sorvete de cone da gorda sentada ao nosso lado no banco da Brunella.
Meu personal trainer em forma de quadrúpede era tão especial que arrancou a ponta do dedo da minha cunhada em uma única e asséptica dentada. Outro teria causado uma infecção generalizada ou passado alguns momentos mastigando a carne sadicamente feito chiclete Nicorette -castigo inclusive merecido se levarmos em conta o grau de debilidade mental da brincadeira que desencadeou a mordida.
Fato está que, para o Ziggy e para mim, Pacheco possuía o dom da infalibilidade, nós o víamos como um Dalai Lama de bigodes e rabo.
Na última quarta-feira, cheguei em casa para encontrar meu velhinho cardíaco ofegante e quase sem movimento. Peguei-o com o máximo cuidado e procurei uma posição que facilitasse sua respiração. Percebi alguma intenção e coloquei meu rosto perto do seu focinho. Com muita dificuldade, apenas com a pontinha da língua ele conseguiu lambiscar a minha bochecha.
Em qualquer outra circunstância, eu teria limpado o rosto na hora. Desta vez não. Consegui colocá-lo no carro e ele chegou ao hospital quase desfalecido.
Levaram-no para a emergência e não o vimos mais até que vieram me chamar. "Ele está tendo uma parada cardíaca, a senhora quer tentar reanimá-lo?" Pedi para ser levada até ele e, com o Ziggy e comigo ao seu lado, Pacheco Pafúncio foi sedado. Sobramos o estrupício e eu.

ROBERTO FREIRE - O Brasil tocado em tom menor


O Brasil tocado em tom menor
ROBERTO FREIRE
Brasil Econômico - 26/08/2011

Enquanto a propaganda oficial trombeteia os benefícios do Programa Brasil Maior, a realidade é a silenciosa dependência da China

Lançado como importante instrumento de competitividade de nossa indústria, o programa “Brasil Maior”, urdido pelo Ministério da Fazenda, sob a regência de Guido Mantega e apresentado como a política industrial do governo Dilma — mas buscando, basicamente, produzir uma agenda positiva em um governo subordinado, cotidianamente, à agenda da corrupção — começa a fazer água e a despertar a desconfiança de setores que seriam beneficiados com o plano.

Descobriram os empresários dos setores calçadista, moveleiro e têxtil que poderiam arcar com uma carga tributária maior pelo fato de a proclamada desoneração da folha ser acompanhada da elevação do imposto sobre o faturamento bruto dessas empresas. Simplesmente porque a fórmula mágica que foi apresentada, segundo estudos das assessorias econômicas de tais setores, não representa desoneração real, como alardeado pela própria presidente Dilma Rousseff. Ao contrário, em alguns casos, haverá até mesmo o pagamento de mais impostos.

Este é o resultado de uma política industrial feita no afogadilho, que não tem por finalidade resolver os reais problemas da indústria: falta de infraestrutura física e humana, alta carga tributária, juros escorchantes, taxa de câmbio que ajuda os importadores, etc. São causas profundas de nossa perda de competitividade internacional. Em vez de se preocupar com isso, o governo quer é produzir boas notícias, buscando reproduzir a estratégia midiática de seu antecessor. Fiel a seu mestre, a presidente Dilma prefere o faz-de-conta da publicidade ao enfrentamento das verdadeiras causas dessa situação.

Um dos motivos apontados pelos representantes desses setores que tornam inócuas as medidas do governo é que as indústrias escolhidas para fazer parte do projeto-piloto de desoneração da folha de pagamento são as que mais enfrentam concorrência de importados, barateados pelo generoso câmbio que tem apreciado nossa moeda, esse sim um problema real.

Além isso, dois preocupantes fenômenos ocorrem sem chamar a devida atenção do governo: nossa crescente dependência do mercado chinês, tornando-nos meros exportadores de matérias primas e de commodities, e os sinais vindos da indústria nacional, que deverá puxar para baixo o crescimento da economia nacional neste ano, por conta da política cambial do governo e da retração do consumo, fruto do cenário de incertezas que ronda a economia mundial nesse recrudescimento da crise de 2008.

Isso sem falar dos investimentos, que não estão se expandindo na velocidade e taxas projetadas, ao ponto de empresas de consultoria, como a Tendências, por exemplo, trabalhar com uma retração de 0,9% no segundo trimestre em relação ao primeiro. Assim, já foi revisto o crescimento do PIB do segundo trimestre de 1,1% para 0,7%, o que impactará negativamente o crescimento anual da nossa economia.

Enquanto a propaganda oficial trombeteia, em todos os tipos de mídia, os benefícios do Programa Brasil Maior, carro-chefe de uma pretendida política industrial do governo, a realidade é a crescente e silenciosa dependência da China e o contínuo processo de estagnação e declínio de nossa indústria.

Ao contrário do ufanismo do governo, o que vemos é um país sendo tocado em tom menor, com a incompetência gerencial tão marcante no lulodilmismo.

Roberto Freire é Presidente do Partido Popular Socialista (PPS).