segunda-feira, agosto 08, 2011

CARLOS ALBERTO DI FRANCO - Jornalismo, agenda positiva


Jornalismo, agenda positiva
CARLOS ALBERTO DI FRANCO
O Estado de S.Paulo - 08/08/11

Impressiona o crescente espaço destinado à violência nos meios de comunicação, sobretudo no telejornalismo. Catástrofes, tragédias e agressões, recorrentes como chuvas de verão, compõem uma pauta sombria e perturbadora. A violência, por óbvio, não é uma invenção da mídia. Mas sua espetacularização é um efeito colateral que deve ser evitado. Não se trata de sonegar informação. Mas é preciso contextualizá-la. O excesso de violência na mídia pode gerar fatalismo e uma perigosa resignação. Não há o que fazer, imaginam inúmeros leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Acabamos, todos, paralisados sob o impacto de uma violência que se afirma como algo irrefreável e invencível. Assiste-se aos arrastões nas avenidas, praças e marginais como parte do cotidiano das cidades sem segurança. Não pode ser assim. Podemos todos - jornalistas, formadores de opinião, estudantes, cidadãos, enfim - dar pequenos passos rumo à cidadania e à paz.

Os que estamos do lado de cá, os jornalistas, carregamos nossas idiossincrasias. Sobressai, entre elas, certa tendência ao catastrofismo. O rabo abana o cachorro. O mote, frequentemente usado para justificar o alarmismo de certas matérias, denota, no fundo, a nossa incapacidade para informar em tempos de certa normalidade. Mas mesmo em épocas de crise (e estamos vivendo uma importante crise de segurança pública) é preciso não aumentar desnecessariamente a temperatura. O jornalismo de qualidade reclama um especial cuidado no uso dos adjetivos. Caso contrário, a crise real pode ser amplificada pelos megafones do sensacionalismo. À gravidade da situação, inegável e evidente, acrescenta-se uma dose de espetáculo. O resultado final é a potencialização da crise. Alguns setores da mídia têm feito, de fato, uma opção pelo negativismo. O problema não está no noticiário da violência, mas na miopia, na obsessão pelos aspectos sombrios da realidade. É cômodo e relativamente fácil provocar emoções. Informar com profundidade é outra conversa. Exige trabalho, competência e talento.

O que eu quero dizer é que a complexidade da violência não se combate com espetáculo, atitudes simplórias e reducionistas, mas com ações firmes das autoridades e, sobretudo, com mudanças de comportamento. Como salientou certa vez o antropólogo Roberto DaMatta, "se a discussão da onda de criminalidade que vivemos se reduzir à burrice de um cabo de guerra entre os bons, que reduzem tudo à educação e ao "social", e os maus, que enxergam a partir do mundo real - o mundo da dor e dos menores e maiores assassinos - e sabem que todo ato criminoso é também um caso de polícia, então estaremos fazendo como as aranhas do velho Machado de Assis, querendo acabar com a fraude eleitoral mudando a forma das urnas". O que critico não é a denúncia da violência, mas o culto ao noticiário violento em detrimento de uma análise mais séria e profunda.

Precisamos, ademais, valorizar editorial e informativamente inúmeras iniciativas que tentam construir avenidas ou vielas de paz nas cidades sem alma. É preciso investir numa agenda positiva. A bandeira a meio pau sinalizando a violência sem-fim não pode ocultar o esforço de entidades, universidades e pessoas isoladas que, diariamente, se empenham na recuperação de valores fundamentais: o humanismo, o respeito à vida, a solidariedade. São pautas magníficas. Embriões de grandes reportagens. Denunciar o avanço da violência e a falência do Estado no seu combate é um dever ético. Mas não é menos ético iluminar a cena de ações construtivas, frequentemente desconhecidas do grande público, que, sem alarde ou pirotecnias do marketing, colaboram, e muito, na construção da cidadania.

A preocupação social, felizmente, começa a mobilizar muita gente. Multiplicam-se iniciativas sérias de promoção humana. Conheço de perto uma obra notável. Sob inspiração da prelazia do Opus Dei, foi fundado em 1985 o Centro Educacional e Assistencial de Pedreira (www.pedreira-centro.org.br). Nasceu de um ideal de diversos profissionais e estudantes preocupados em organizar um trabalho social sério na zona sul de São Paulo. Após estudo da situação e das suas necessidades, verificou-se que no Bairro de Pedreira, a 30 km do centro da capital paulista, jovens de 10 a 18 anos se encontravam em situação de grave risco social, expostos a drogas, marginalidade e criminalidade. Implementou-se, então, uma escola técnica para jovens carentes que dispusesse de tudo o que uma escola de "primeira linha" pode oferecer.

A Pedreira - como é carinhosamente conhecida - tem atualmente capacidade para 500 alunos e conta com aproximadamente 5 mil m2 de área construída, distribuídos num terreno de 23 mil m2. Oferece cursos básicos de Eletricidade Residencial e Industrial, Auxiliar de Informática e Informática Aplicada, e cursos técnicos de Administração e de Redes de Computador e Telecomunicações, com duração de um a dois anos.

Muitos dos alunos são a principal fonte de renda em sua família, o que constitui um impacto social relevante. Além disso, deixam a escola com a clara consciência da necessidade de estudar com afinco e dedicação. Com essa mentalidade, é comum que muitos dos alunos da Pedreira cheguem ao nível universitário, uma meta quase impensável no início de seus estudos, em virtude de suas difíceis condições de vida. Mudar é possível.

Por isso, os esforços da Pedreira e de tantas pessoas engajadas no mutirão da inclusão merecem registro jornalístico. Não resgatarão, por óbvio, nossa imensa fatura social, mas sinalizam uma atitude importante: olhar a pobreza não com o distanciamento de uma pesquisa acadêmica, mas com a fisgada de quem se sabe parte do problema e, Deus queira, parte da solução. Iluminar boas iniciativas e construir uma agenda positiva é um modo de construir a paz.

CLÁUDIO HUMBERTO


Horror a militares pode encurtar o ciclo Amorim
A escolha do embaixador Celso Amorim para ministro da Defesa causou perplexidade no próprio Itamaraty. Diplomatas que o conhecem há muitos anos sabem do horror que ele sempre teve pelos militares, por isso não acreditam que ele fique longo tempo no cargo. Além disso, a mulher dele, que exerce grande influência sobre o marido, de família de antigos militantes comunistas, é igualmente avessa à caserna.

Personagem

Celso Amorim se define como "esquerdista", mas na ditadura foi um comportado presidente da estatal Embrafilme, até ser demitido.


Trauma

Celso Amorim acabou defenestrado da Embrafilme por financiar o filme "Pra frente, Brasil", denunciando tortura. Nascia sua ojeriza a milicos.


'Servidor'

Ao se oferecer para substituir Jobim, o diplomata Celso Amorim lembrou que sempre foi "servidor do Estado", como os militares.


Megalonanico

O apego aos salamaleques renderam a Celso Amorim, no serpentário do Itamaraty, o apelido de "megalonanico". E na Defesa, o que será?


Lobby

Seis montadoras multinacionais chinesas, americanas e coreanas de ar-condicionado (Eletrolux, Consul, Samsung, Gree, Spring e LG), já beneficiadas por isenções na Zona Franca de Manaus, fazem lobby na Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério do Desenvolvimento, para aumentar de 60% para 110% a taxa de importação para concorrentes de outros Estados, que importam ou fabricam o mesmo produto. A medida os esmagaria.


Desemprego

O lobby na Camex, se tiver êxito, pode extinguir vinte empresas e mais de 3 mil empregos. Nas seis multinacionais trabalham 2 mil pessoas.


Lula lá

Cachê pouco é bobagem. A coreana LG, muito confiante no lobby na Camex, pagou R$ 1 milhão por uma palestra do ex-presidente Lula.


Aumentos
à vista

As multinacionais de ar-condicionado querem o Imposto de Importação, que não pagam, saltando de 14% para 35%. E o IPI de 20% para 35%.


A praga dos nomes

O DNIT já teve um Fatureto e um Pagot. Agora entra o Caixeta.


FRASE DO DIA


"Dois gaúchos se entendem
ou não se entendem"
Ex-presidente Lula, sobre a rixa entre a presidenta Dilma e Nelson Jobim

PODER SEM PUDOR

Doutor sem diploma


No final dos anos 50, Magalhães Pinto (UDN) e Tancredo Neves (PSD) tentavam viabilizar suas candidaturas ao governo de Minas Gerais. Certa vez, Magalhães ironizou o adversário:
- Tancredo? Francamente, não sei se daria um bom governador. Dizem até que é bom advogado. Mas nunca soube de uma causa que ele ganhou...
Informado sobre a provocação, Tancredo devolveu:
- Engraçado, dizem também ser o Magalhães um grande advogado. Mas nunca encontrei um colega de turma dele...
Magalhães ganhou, então, a alcunha de "Doutor sem diploma".

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: G-7 acena com dinheiro para acalmar as bolsas

Folha: Países do G20 decidem manter títulos dos EUA

Estadão: BC europeu decide comprar títulos para evitar contágio

Correio: BC da Europa intervém para evitar sangria global

Valor: CNJ enfrenta esquemas de corrupção nos Estados

Jornal do Commercio: Prova de fogo para a Zona Sul

Zero Hora: BC europeu intervém para tentar estancar crise na Zona do Euro

domingo, agosto 07, 2011

O HOMEM DA MALA - REVISTA VEJA

 O HOMEM DA MALA
REVISTA VEJA

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ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - Prêmios da semana

Prêmios da semana
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
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MAÍLSON DA NÓBREGA - A corrupção tende a diminuir

A corrupção tende a diminuir
MAÍLSON DA NÓBREGA
REVISTA VEJA

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BARBARA GANCIA - O método Sandy


O método Sandy 
BARBARA GANCIA
FOLHA DE SP - 07/08/11

A vida inteira desconfiei de que tinha gato na tuba. De que esse negócio de autoestima é invenção de americano para vender livro de autoajuda. Agora vem uma psicóloga lá do Texas e escreve um livro de - adivinhe?- autoajuda para nos dizer que autoestima é um demônio capitalista comparável a dirigir com as partes expostas, como fez o jovem encontrado enrolando a língua dentro de um Camaro amassado em São Bernardo.

Kristin Neff, autora de "Self-Compassion", foi entrevistada pelo Equilíbrio, da Folha, e explicou que o narcisismo se tornou uma epidemia: "Para manter a autoestima em alta, precisamos nos sentir melhor do que somos e achar que os outros são piores do que são", diz. "Numa sociedade competitiva, crianças têm sido educadas com a ideia de que devem sempre se sentir especiais e ganhar prêmios."

Eu me amo e me odeio, me amo e me odeio... Essa gangorra emocional não pode dar certo. Onde eu me encaixo em uma sociedade que já não fala mais nem sequer em "segmentação"?

Vivemos a era da "customização". O mercado globalizado do luxo é um Bin Laden que opera debaixo de nossas fuças, sabotando todo mundo e nos fazendo crer que somos especiais quando todos podem ver que até os plantadores de ópio do Afeganistão agora possuem bolsas Louis Vuitton. Não basta mais ser hippie, punk ou Hell's Angels para ser único.

Agora eu tenho de ter algo a mais. E dá-lhe exclusividade e bacanice. Autoestima em alta eu reconheço à distância. Identificamos a falação no meio da aula da Casa do Saber, lugar frequentado para adquirir cultura porque, afinal de contas, modelos de bolsas já temos todos. Quando dona madame interrompe o Wisnik com a mesma tranquilidade com que cortaria a fala da camareira de casa é porque estamos com a autoestima em turbo. E tome viagem para a Índia ciceroneada pelo Deepak Chopra. Pensa que a subida do Everest está atulhada de lixo por quê? É a montanha pagando os pecados da nossa vulgaridade.

A mim sempre disseram: "Barbara, você deveria aprender a se gostar mais". E, a cada vez, cuspi de volta: "Puxa, mas justo agora que eu estava pensando em ir até dezembro sem tomar banho, escovar os dentes ou cortar as unhas dos pés?".

No meu tempo, um a cada três conviviva muito mal com o nariz; três a cada duas achavam que tinham cabelo ruim e cerca de 90% sofriam de inadequação com o seu pênis.

Hoje não. Tem lavadora e secadora numa máquina só e sobra tempo para pensar na vida. E o pessoal acaba elevando o problema da autoestima a patamares complexos. Pesquisas mostram que todo mundo se acha mais engraçado, mais coerente, mais confiável e melhor motorista do que o resto do mundo. E como fica na hora de renovar a autoestima? Ansiolíticos? Ou será que a Sandy, com suas infinitas sabedoria e versatilidade, não terá encontrado o caminho?

Isso mesmo, a Sandy. Tão pura, casada com aquele menino polido que conheci na sala de maquiagem da Band. Não posso crer que esteja querendo me manipular. Se ela diz que gosta de determinada prática, eu também gosto. Muito melhor fazer exercício do que ficar correndo atrás do impossível, né não? Pronto, resolvi. Vou aderir à técnica de relaxamento da Sandy. Vem comigo?

GOSTOSA




EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - O Brasil e a turbulência global


O Brasil e a turbulência global
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 07/08/11

O Brasil está pronto para enfrentar turbulências mais fortes no mercado internacional, garantem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Se isso dependesse apenas do otimismo oficial, os brasileiros poderiam ficar tranquilos. Não é hora, no entanto, para relaxar. Se Estados Unidos e Europa afundarem numa segunda recessão, todo o resto do mundo pagará um preço muito alto. O comércio internacional será afetado, a concorrência nos mercados será muito mais dura e, se a economia chinesa perder impulso, os exportadores de produtos básicos, como o Brasil, terão muita dificuldade para faturar com as vendas externas. As empresas terão menos acesso ao financiamento internacional e a disputa pelo crédito interno será mais dura e as pequenas e médias companhias serão prejudicadas, como já foram na crise financeira de 2008-2009.

Mas é justo ressaltar pelo menos um detalhe positivo. Desta vez, nenhuma autoridade teve a imprudência de usar a palavra "marolinha" para descrever a possível consequência de uma piora do quadro internacional.

O Brasil tem a seu favor, para começar, um bom nível de reservas em moeda estrangeira. Entre o fim de julho e o dia 3 de agosto as reservas subiram de US$ 346,1 bilhões para US$ 348,5 bilhões. Se houver uma alteração brusca nos fluxos de capitais, por enquanto favoráveis ao País, será possível enfrentar a nova situação sem grande abalo imediato. Há alguma gordura para ser queimada. Quem defendeu a acumulação de reservas tem esse argumento a seu favor.

Mas há pontos vulneráveis nas contas externas. De janeiro a julho, o valor das exportações - US$ 140,5 bilhões - foi 31,5% maior que o de um ano antes. Mas isso resultou principalmente do aumento das cotações dos produtos básicos e semimanufaturados, classificáveis, de modo geral, como commodities. Os preços da soja foram 31,7% maiores que os de janeiro a julho do ano passado; os do suco de laranja, 69,2%; os do açúcar em bruto, 35,3%; os do minério de ferro, 23,3%; e os dos semimanufaturados de ferro e aço, 23,5%. Estes são apenas alguns exemplos.

Essas cotações dependeram basicamente do vigor econômico de vários países do Extremo Oriente. O Brasil conseguiu na Ásia 29,2% de sua receita comercial. A China, mercado individual mais importante, pagou 17,4% dos dólares faturados pelos exportadores brasileiros.

Se a economia desses países enfraquecer, o Brasil terá dificuldade para aumentar - e talvez para manter - seus ganhos com as vendas ao exterior. Isso dependerá também da evolução do câmbio. A situação ficará um pouco melhor se o dólar se valorizar, mas é arriscado apostar nisso. Se o Federal Reserve, o banco central americano, voltar a emitir grandes volumes de moeda para estimular a economia, o dólar voltará a inundar os mercados e seu valor tenderá a cair, prejudicando a indústria de vários países, incluída a brasileira.

Se a economia mundial se enfraquecer e o governo brasileiro insistir em estimular a demanda interna, o mercado continuará muito dependente da importação de artigos de consumo e de bens intermediários destinados à fabricação de produtos finais. A situação das contas externas ficará mais precária.

Ao mesmo tempo, as condições de financiamento poderão tornar-se menos favoráveis. O Brasil deverá chegar ao fim deste ano com um déficit em conta corrente superior a US$ 50 bilhões. Diante da perspectiva de piora do cenário externo, o governo deveria dar mais atenção a esse ponto. Não se pode esperar nenhum resultado importante do arremedo de política industrial anunciado na terça-feira passada.

No plano fiscal, o governo terá pouca folga para adotar novas medidas anticíclicas, porque o orçamento, já muito rígido, estará em 2012 mais comprometido com gastos salariais e previdenciários. Além disso, as obras da Copa de 2014 estão atrasadas e será necessário apressar vários projetos para se evitar um vexame. O governo enviará ao Congresso, no fim do mês, a nova proposta orçamentária. Se tiverem juízo, as autoridades tentarão preservar o máximo espaço de manobra para um ano difícil.

MÔNICA BERGAMO - CHICO É FELIZ COM ELA

CHICO É FELIZ COM ELA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 07/08/11


A curitibana Thais Gulin, 31, namorada de Chico Buarque, diz que as respostas sobre o relacionamento dos dois está nos discos de ambos


No último ensaio antes de seu primeiro show no Rio em quatro anos, Thais Gulin, 31, erra a letra de uma música no estúdio. De calça preta, regata listrada em branco e preto com a alça do sutiã bordô à mostra, engasga nos versos de "Se Eu Soubesse", composição que Chico Buarque deu de presente para ela gravar em "ôÔÔôôÔôÔ" (Som Livre), seu segundo disco.

"Em uma parte da letra, está escrito 'Não vivo com a cabeça na lua', mas na hora de gravar troquei por 'Não ando com a cabeça na lua', porque achei mais sonoro. E agora tô errando por causa disso", diz. A mesma canção está no recém-lançado álbum do cantor de 67 anos. "Quando terminei os arranjos, vi que ele precisava estar ali. E depois ele me chamou pra cantar no disco dele", conta à repórter Lígia Mesquita. 

"No meu primeiro disco, gravei 'Hino de Duran', do Chico." Os dois não se conheciam. "Em uma parte da música havia reticências. Achei que era uma pausa e que podia improvisar. Criei outra letra. Sou muito sem noção, né?" Chico recebeu o CD. Mandou e-mail elogiando. Ela respondeu. Começou uma amizade. Hoje, é namoro. 

Às 23h30, a curitibana, descendente de italianos da região do Vêneto, deixa o estúdio e segue para seu apartamento no Alto Leblon. O apartamento, alugado, é no mesmo prédio onde o compositor vivia, na cobertura, há três anos. Thais troca os sapatos por um All-Star dourado, arruma o cabelo e se prepara para as fotos. Pede um batom emprestado à repórter e um lápis de olho à sua assessora. Na mesa, papéis, revistas, caixas de remédios e o novo CD de Chico. No som, discos de João Gilberto, o seu próprio e "Álbum de Teatro", de Chico e Edu Lobo. Na prateleira, os últimos livros de Chico e obras de Bernardo Carvalho, Nelson Motta e Shakespeare. 

Ela diz que só cozinha "quando tem alguém pra lavar a louça", a tarefa doméstica que mais odeia. Tenta descobrir se a diarista deixou algo para o jantar. Encontra um tupperware com mandiocas cozidas. Senta no sofá e saboreia os pedaços de aipim. 

A coluna pergunta há quanto tempo ela e Chico Buarque estão juntos. Thais dá uma risadinha e fica muda. A repórter insiste. Ela olha para sua assessora, Júlia, e diz, com o pedaço de mandioca na mão: "Ah, não quero falar sobre isso, gente! Júlia, eu não quero! (risos)". 

Ela poderia ao menos confirmar o namoro? Nova risada, novo silêncio. "Não quero falar disso, sabe? Porque é tudo tão...Tá nos nossos discos. Quem ouvir vai saber (risos)." 

"Meu tempo é curto, o tempo dela sobra/ Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora/ Temo que não dure muito a nossa novela, mas/ Eu sou tão feliz com ela", canta Chico em "Essa Pequena", música com claras referências à namorada. 

A convivência profissional com o namorado "é uma aula. Tanto com o Chico como com o Tom Zé, o Macalé [de quem também gravou canções]. Não tem preço. É muita arte, né? Sempre me senti um peixe fora d'água, desde criança. É bom encontrar pessoas que têm tanta curiosidade, pessoas tão livres."
A diferença de idade entre os dois é de 36 anos. Ela diz que "isso não existe. [Pausa] Só existe quando a alma é, sei lá, uma coisa de [pausa]... jeito. Eu nem penso nisso. E eu nasci com uns 50 anos, sou capricorniana". "Não é isso [a diferença de idade] que coloca as pessoas em lugares diferentes. São os valores, o jeito de ver a vida. É tudo o que você acha, sente, sua verdade, sua liberdade." Casar não está nos planos. "Não penso nisso." Já ser mãe é uma certeza. "Também vou adotar muitos filhos. Quero ter uma família grande." 

Filha de uma criadora de cavalos que atualmente mora em SP, e de um empresário de Curitiba, Thais passou a adolescência se dedicando aos esportes no Paraná. Fez hipismo, ginástica olímpica, handebol, atletismo e até futebol. Hoje pratica gyrotonic. Se pudesse, diz, "jogaria todos os dias pingue-pongue. Adoro! E jogo muito bem". 

Também estudou balé. No ensaio, a toda hora arruma a postura e faz coques de bailarina. Depois do show no Rio, na quinta passada, ela agora se prepara para a apresentação em SP, no dia 18, no Tom Jazz. 

Quando completou 19 anos, trancou a faculdade de administração e passou um ano na Europa. "Juntei uma grana com alguns comerciais que fiz, inclusive um pro Boticário. Eu era chamada por causa da ginástica olímpica", lembra. "Estudei francês em Nice por seis meses. Depois fiquei um tempo na Bélgica montando [a cavalo], estudei teatro em Londres e conheci o leste europeu". De volta, se dedicou ao teatro e às aulas de violão e canto. Terminou a graduação. 

Em 2001, assim que acabou os estudos, se mudou para o Rio para estudar teatro. Fez aulas no Tablado e oficinas com o diretor Gerald Thomas. Essas últimas lhe causaram "uma semana de enxaqueca, de tanta coisa nova que ele falava". Na sequência, participou de peças de Augusto Boal e com Paulo Betti.

Televisão, afirma, nunca quis fazer. "Eu era idealista, não queria [TV]". O dinheiro que ganhava com as peças, diz, "dava pra viver". "Se a coisa apertava, meu pai me ajudava."
Thais dava canjas em um bar onde um amigo cantava, fazia alguns shows. "Quando gravei o primeiro disco, deixei o teatro." 

Costuma dormir às 3h da manhã e acordar às 13h. "Meu dia voa e ela não acorda", diz Chico na canção. Gosta de ficar em casa "olhando a janela", ler, ver filmes e assistir ao seriado "Two and a Half Men". "E de tomar cerveja com os amigos no Baixo Gávea, ir ao teatro, ao cinema e andar na praia." Adora moda, mas não tem "paciência pra shopping nem compras". 

Seu título eleitoral ainda é de Curitiba. Mas, tivesse votado em 2010, teria escolhido Dilma Rousseff. Por causa de Lula. "Independentemente de qualquer outra coisa que tenha acontecido no governo, a coisa mais linda do mundo é que o cara que botava gasolina no seu carro hoje vai no avião do seu lado. Acho isso f... E tem gente que fica p..." Aos 31, não tem medo de envelhecer. "Se eu não ficar cansada, tá bom. Todo mundo vai envelhecer, né?"

"Não é isso [a diferença de idade] que coloca as pessoas em lugares diferentes. São os valores, o jeito de ver a vida" "Também vou adotar muitos filhos. Quero ter uma família grande"
THAIS GULIN
cantora

" Meu tempo é curto, o tempo dela sobra/ Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora/ Temo que não dure muito a nossa novela, mas/ Eu sou tão feliz com ela"
CHICO BUARQUE
na canção "Essa Pequena"

DEBORA DINIZ - Bolsonaro e as calcinhas


Bolsonaro e as calcinhas 
DEBORA DINIZ
O ESTADÃO - 07/08/11

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi convidado para ser garoto-propaganda da Duloren, empresa especializada em roupas íntimas. Bolsonaro não é nenhum deus grego que inspire mulheres a comprar calcinhas. Não é seu corpo que importa à Duloren, mas suas opiniões sobre sexo, gays e mulheres. A atual campanha da Duloren de moda para homens no site da empresa traz a imagem de um desses modelos perfeitos sendo admirado por um pit bull. O slogan da campanha é "perigoso, viril e arrebatador". Minha dúvida foi se a chamada era para o cachorro ou para o modelo. O cachorro e o modelo estão de cueca, a diferença é que o cachorro a usa entre os dentes. Imaginei a atualização da campanha com Bolsonaro como modelo para a venda de calcinhas. Com o slogan "machão, conservador, homofóbico", Bolsonaro ocuparia bem o lugar do pit bull.

O comércio de roupas íntimas transita entre símbolos contraditórios sobre o corpo e a sexualidade: o proibido e o desejado, o vulgar e o íntimo. Bolsonaro e as calcinhas representarão a força do vulgar, mas com alta dose de desrespeito às mulheres e aos gays. Não consigo imaginá-lo vestindo calcinha na campanha, o que seria um contrassenso ainda maior, considerando sua posição de parlamentar.

Portanto, sua aparição deve ser como a de quem admira ou aprova mulheres vestindo calcinhas. Exatamente o lugar de censor moral no qual hoje ele vocifera como deputado ou, na iconografia da Duloren, o lugar do pit bull que admira os homens: o senhor da heterossexualidade, a favor de que as mulheres retornem à casa e ao cuidado dos filhos, e contra a igualdade sexual. Há outras cores de conservadorismo na voz do quase modelo da Duloren: revisionismo da ditadura como opressão, defesa da pena de morte, além das recentes controvérsias sobre racismo.

O que fez a Duloren imaginar que Bolsonaro inspiraria as mulheres a comprar calcinhas? Apostar na ironia seria o caminho confortável e menos controverso, mas também pouco provável para uma empresa que se rege pelo lucro. Bolsonaro não seria um modelo, mas um contramodelo para a intimidade feminina. Ao comprar uma calcinha aprovada por ele, as mulheres negariam os valores subliminares da campanha. Bolsonaro não seria o censor que se imagina ser, mas uma paródia de seu colega Tiririca no campo da sexualidade feminina: o humor sexual moveria o comércio das calcinhas.

Acho pouco provável uma aposta de risco como essa. Uma campanha de sucesso é aquela cuja mensagem não deixa dúvida sobre sua eficácia, semelhante à promovida pela Duloren que envolvia um padre e uma modelo com roupas íntimas, ambientada na Praça de São Pedro. A modelo segurava uma cruz em direção ao padre, sugerindo que a lingerie provocaria o espírito libidinoso dos padres. Não havia dúvidas quanta à mensagem dessa campanha, o que deixou a Igreja Católica justamente indignada.

Minha aposta sobre o sentido da campanha é outra. Não há subliminaridades em Bolsonaro como garoto-propaganda, assim como no uso da cruz e do padre na campanha anterior. A Duloren aposta no símbolo do machão como o de um bom vendedor de calcinhas, assim como apostou no modelo perfeito e no pit bull para vender cuecas para homens. É o sentido do machão na cultura brasileira que será negociado pela campanha. Gostar de mulheres e, mais ainda, de mulheres lindas vestindo calcinhas sedutoras, seria um ato de masculinidade. Para admirar mulheres na intimidade, somente homens machões. Mas machão aqui não se resume à ordem heterossexual do desejo - confunde-se com a homofobia, a opressão de gênero e a redução das mulheres a objeto de posse dos homens. O machão censor da sexualidade e do corpo das mulheres está em baixa e a Lei Maria da Penha é um sinal vigoroso da sociedade brasileira sobre essa mudança de mentalidade e práticas de gênero.

Não sei se Bolsonaro ajudará a Duloren a vender calcinhas, mas a Duloren o ajudará a se manter como o deputado federal censor da sexualidade. Afirmar-se como machão e defensor da heteronormatividade faz os parlamentares se projetarem, nem que seja pelo espanto medieval. O sinal mais recente dessa atualização do machão foi a aprovação da lei para a criação do Dia do Orgulho Heterossexual pela Câmara Municipal de São Paulo. Foram 31 votos pela aprovação contra 19, com forte hegemonia dos partidos conservadores na defesa da lei. Assim como na campanha da Duloren, há várias incongruências na lei, sendo a mais importante a inversão da ordem moral - quem é discriminado é o gay, e não o heterossexual. Não se mata um casal heterossexual na rua, mas se violentam pai e filho que expressam carinho em público. A homofobia mata, mas é a heteronormatividade que define as leis e, como gorjeta, pode ajudar o capitalismo a vender calcinhas.

YOANI SÁNCHEZ - O silêncio de Raúl Castro


O silêncio de Raúl Castro 
YOANI SÁNCHEZ
O ESTADÃO - 07/08/11

A estética dos atos políticos em Cuba envelheceu com seus protagonistas. Antes, o público permanecia de pé na praça, gritando sem parar palavras de ordem. Agora, só são dados vivas quando a pausa do orador dá a deixa.

Uma ampla área ocupada por cadeiras permite que os membros dos primeiros escalões da classe dirigente se sentem durante o evento. Alguns assentos especialmente acolchoados destinam-se aos ocupantes dos mais altos escalões. Atrás deles, a multidão calada parece conhecer perfeitamente o que acontecerá no palanque.

Ela sabe que, em determinado momento, aparecerá algum locutor de televisão para apresentar o coro que entoará as notas do hino nacional. Depois, será feita a leitura dos nomes dos que mais se destacaram aos quais será entregue uma bandeira em sinal de reconhecimento ou um abraço apertado.

O ponto final é quase sempre dado pelo discurso do líder, que termina gritando palavras de ordem que sacudirão a multidão.

É assim que se repete - sem nenhuma modificação - o roteiro de cada evento público, de cada enorme comício organizado oficialmente. Podem ocorrer pequenas variações nesta dramaturgia enfadonha, como a de 26 de julho, na Província de Ciego de Ávila, durante a qual o presidente Raúl Castro, o esperado orador, sentou-se longe do microfone. Em seu lugar, tomou a palavra uma das vozes mais ortodoxas do governo cubano.

Ordem, disciplina e rigor, enfatizou em sua alocução José Ramón Machado Ventura, primeiro-vice-presidente do Conselho de Estado e de Ministros. E afirmou isso sem paixão excessiva, bem distante daquele tom altissonante que Fidel Castro empregava em seus quilométricos discursos.

Ao contrário do comandante-chefe, o funcionário não participou do assalto ao Quartel Moncada, há 58 anos. O que o torna o único orador que foi protagonista - durante dois anos consecutivos - do ato pela rebeldia nacional, sem ter participado da ação militar que este comemora.

A ascensão de Machado Ventura ao pódio revestia-se, assim, de simbolismo, pois até mesmo sua falta de brilho pessoal e sua retórica nada atraente são uma maneira de dizer que o tempo do carisma ficou para trás.

Falta de resultados. Já não se trata de hipnotizar a multidão para que realize determinada ação, mas de repreendê-la por aquilo que não conseguiu realizar. O triunfalismo das frases de outrora deixou o lugar a outras que têm a urgência do naufrágio, o cuidadoso apuro de quem suspeita do descalabro.

Talvez o que levou Raúl Castro a ceder a sua vez diante do microfone tenha sido a falta de novidades e a acentuada ausência de resultados. Três meses depois do 6.º Congresso do Partido Comunista, a aplicação dos acordos nele firmados caminha a um ritmo desesperadamente lento. A tibieza é indubitavelmente um sinal característico do mandato do irmão menor, desde que, no ano passado, 38.165 cubanos emigraram, cansados de esperar as reformas prometidas.

Muitos desejavam que nesta jornada o atual presidente falasse da entrada em funcionamento das flexibilizações previstas para a compra e venda de automóveis e casas. Além disso, ele deveria ter confirmado - ou desmentido - certas informações saídas de maneira fragmentada de trás do espesso cortinado governamental, como a possível demissão, nos próximos meses, de mais de 15 mil trabalhadores da área da educação.

Deveria ter esclarecido com suas próprias palavras, por exemplo, o que está havendo com o cabo de fibra ótica que chegou da Venezuela e já deveria estar operando, permitindo o acesso à internet em julho. Alguns, muito iludidos, apostavam até mesmo que ele informaria sobre uma revisão das leis de migração, camisa de força que impede o livre ingresso e saída dos cubanos de seu país. Falando no lugar de Raúl Castro, o apagado vice-presidente limitou-se a repetir que é preciso eliminar os preconceitos contra o setor não estatal da produção. Eufemismo com o qual se tenta substituir o conceito de "empresa privada" para definir os empreendimentos particulares.

Por sua vez, voltou a ganhar mais tempo, até janeiro de 2012, quando será realizada uma conferência nacional do Partido Comunista. Na ocasião, espera-se que seja debatida a própria estrutura de um partido que continua governando respaldando-se na declaração de ilegalidade de todas as outras forças políticas. Até lá, o país poderá ver partir outro contingente enorme de cidadãos, também cansados de aguardar.

Os atos políticos vão tomando a fisionomia de seus artífices, eles acabam se parecendo com aqueles que os organizam. Por isso, na manhã de 26 de julho, vimos o espetáculo da falta de criatividade e de frescor que caracteriza há muito tempo o sistema cubano e sua hierarquia. Duas horas depois, só podíamos lembrar o silêncio de Raúl Castro e a imagem de sua escolta pessoal, que o seguia em toda parte.

Como música de fundo, uma série de lugares comuns no discurso de Machado Ventura e os aplausos uniformes que explodiam nas pausas programadas. Lá em cima, o sol punha a única nota brincalhona no pouco brilho de uma jornada opaca. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

JOÃO UBALDO RIBEIRO - Vida arriscada


Vida arriscada 
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADÃO - 07/08/11

De vez em quando sai uma matéria mostrando como, entre as profissões mais perigosas, está a de jornalista. No meu caso, acho que apenas enfrentei uns periguetes de quinta categoria, que não dão para adornar nem uma notinha biográfica e fazem parte do ramerrão de qualquer um que haja trabalhado em redações antes do computador. (Outro dia, visitei uma redação toda eletrônica, quieta, silenciosa e álgida e senti bem na carne o que é viver duas eras distintas. Diante das velhas redações de máquinas mecânicas, fumaça e berreiro, as de hoje são CTI"s - e de fato essa que vi me lembrou a ambiência de um CTI. É a idade mesmo, mas tenho saudades de minhas velhas redações e o teclado de meu computador faz todos os barulhinhos das antigas máquinas mecânicas, me rejuvenesce.) De qualquer forma, no meu tempo de foca, o pessoal falava muito em jornalistas do interior que haviam sido obrigados a comer a página de seu jornal que continha uma opinião considerada descortês, pelo coronel da área. Na capital, a gente fazia cara séria, quando os colegas do interior vinham relatar seus dramas, dávamos abraços de solidariedade e denunciávamos o abuso.

Não deixava de haver certa valentia nessas denúncias, pois alguém sempre lembrava a história, fictícia ou não, de um jornalista da capital ser também obrigado a almoçar um artigo seu. Conheci de longe um colega sertanejo que, segundo se comentava à boca não tão pequena, comera verso por verso de um poema satírico com que desgostara o coronel de sua terra. A gente o tratava com deferência e respeito, mas, sendo a natureza humana o que é, todo mundo dava uma risadinha disfarçada quando ele passava - devia ser por causa do apelido que ele pegou, pelo qual era universalmente conhecido e o qual não vou reproduzir aqui, bastando que se saiba que era um verbo chulo seguido da palavra "rima". Até no enterro dele usaram esse apelido.

Quando o jornalista, além de repórter, é fotógrafo ou cinegrafista, a barra pesa muito. Sempre que vejo esses documentários épicos sobre explorações em águas profundas ou entre tubarões, escaladas de picos inacessíveis, intimidade de feras selvagens e coisas assim, só penso nos cinegrafistas. Todos eles deviam receber medalhas por bravura, mas espelho meu comportamento em relação a esse assunto no exemplo dado, antes mesmo de eu nascer, pelo finado Quininho Viola, pioneiro do jornalismo em Itaparica.

Deu-se que Itaparica, que nessa época era bem mais próspera que depois que a prosperidade chegou, foi visitada por um circo, que, entre outras atrações, contava com um leão chamado Gengis Kan. Não sei bem como é que foi a conversa, mas o dono do circo encomendou a Quininho um cartaz e um anúncio do circo. A estrela tinha que ser o leão, besta-fera invencível, rei de todos os animais. Num particular havido a portas fechadas, o dono do circo esclareceu a Quininho certas verdades sobre Gengis Kan. Era cego de um olho e meio cego de outro. Não tinha dentes, não tinha garras, mais pigarreava do que rugia e vivia de uma dieta de mingau de aveia com banana e os restos de comida que lhe apetecessem. Para levantar uma pata era um custo.

Quininho se reproclamou um homem arrojado, jornalista valente, não ia correr da presa. E, bem no horário estabelecido, lá estava ele no circo. Como é, haviam providenciado o escudo que ele encomendara? Sem escudo, nem pensar. E o debate encheu a noite, até que Quininho disse que ia lá atrás, pegar a máquina, que era daquelas grandalhonas que pareciam um farol. Demorou bastante lá atrás, mas voltou. Botou só metade do corpo para dentro do recinto onde Gengis Kan já dormia o oitavo sono, arregalou os olhos e sussurrou:

- Amarraram bem o bicho?

Sim, não houve nem fotografia, nem anúncio, nem cartaz. Ainda peguei o finado Quininho vivo e ele me explicou que não era nada daquilo que contavam, ele não era um fotógrafo comercial, apenas isso. E o leão era um animal estrangeiro em nossa fauna, não havia por que prestigiá-lo, ninguém aqui era Tarzan. Se fosse uma onça, aí sim, a conversa seria outra. Infelizmente, durante todo esse tempo, nem circo nem onça apareceram mais em Itaparica, de forma que de Quininho só resta mesmo o exemplo a seguir.
Munido de tais precedentes e tal filosofia, acredito-me bem distante do epicentro dos perigos jornalísticos. Se já era ruim de reportagem quando fui repórter, pior hei de ter ficado, com o tempo. E aí me limito, às vezes não sem certa melancolia de tanto ver chover no molhado, a denunciar ou criticar o que julgo merecedor. O governo, os governantes e o Estado são alvos permanentes porque estão envolvidos em tudo no Brasil, e tomam tal parte em nossa vida, a começar por impostos, que acabam responsáveis por tudo o que de mau acontece.

Pronto, qual é perigo que oferece mais esta vida? A época dos escritores aventureiros já passou, desde Jack London e Hemingway. Até, embora se trate de outro tipo de aventura, a voga do Castañeda já passou. É verdade, penso eu, com a serenidade de quem deixou para trás as fases mais arriscadas da vida. Ou não? Deixei nada. O noticiário norueguês me lembra outra vez de que tenho a cara errada em toda parte. Tenho cara de turco na Alemanha, cara de árabe na França, cara de hispano nos Estados Unidos, cara de latino-americano na Espanha, cara e fala de brasileiro em Portugal, cara de nordestino, cara de mestiço, um desastre em toda a linha. Mas não será por isso que eu vou desistir de viajar. Eu sou aquele sem bigode, de cabeça raspada e de olhos verdes, lá no fundo. Espero me acostumar às lentes de contato, porque olhos castanhos, sopra-me do além Quininho, já são meio caminho andado para tomar um tirambaço europeu. A Humanidade não progrede, me garantiu também ele.

BOTANDO NAS COXAS

ANCELMO GÓIS - Astro no Planalto

Astro no Planalto
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 07/08/11

No Brasil de hoje, há dúvidas, não necessariamente nesta ordem, sobre quem matou Salomão Hayala e qual será o próximo ministro a cair? Mantido o ritmo atual do “Bolsa Demissão”, um a cada dois meses, o próximo deve cair ou passar de cavalo a burro quando setembro vier.

Mas...
A lista não é só de ministros. Há quem ache, por exemplo, que o líder de Dilma na Câmara, Cândido Vaccarezza, periga ser o próximo.
A avaliação é que o líder não está em sintonia com o pensamento da presidente. A conferir.

Polícia montada
Em meados de setembro, finalmente, vai desembarcar no Brasil o bancão canadense Nova Scotia Bank, com quase 200 anos de história, presente em 50 países. Será dirigido aqui na terra de Dilma por Armando Mariante Carvalho, 62 anos, exvice- presidente do BNDES.

Ditadura nunca mais
Sexta, na PUC-Rio, haverá missa para lembrar os 40 anos da morte do engenheiro Raul Amaro Ferreira, no DOI-Codi. Por interferência do então cardeal Eugenio Sales, o Exército entregou o corpo do rapaz, de 27 anos, com marcas de tortura, à família.

No mais
No ritmo em que vai, Lula, em breve, será o maior especialista nacional em jatinhos de empresários. O cara não perde uma carona.

Paris é uma festa
Eros Grau, que publicou o romance erótico “Triângulo no ponto”, em 2007, entregou à Globo Livros os originais de “Paris, quartier Saint-Germain-des- Prés”. Deve sair em novembro. O ex-ministro do STF tem apartamento na França.

Deixa que eu chuto
Muito se falou das cobranças de Dilma numa reunião para que sua equipe apressasse a conclusão do programa Brasil Maior. Mas veja o relato de uma testemunha ocular e auricular.

Foi assim... 
Dilma: “Vocês estão me enrolando, vocês todos estão me enrolando. Já é a terceira reunião e não se chega a nada.” Mantega: “Estamos fazendo estudos que ficam prontos em 15 dias.” Dilma: “Quinze dias? Quinze? Vocês trabalhem no fim de semana que eu vou anunciar a política industrial na terça.”

Minha mocidade 

A Nova Fronteira vai lançar uma nova edição de “Minha mocidade”, de Winston Churchill, traduzido por Carlos Lacerda. É o primeiro de uma série em que o célebre britânico conta sua história desde a infância.

Chopin no Alemão
O teleférico do Complexo do Alemão ultrapassou a marca de 220.000 passageiros nestas quatro primeiras semanas. Além disso, incluiu música boa nas comunidades. Pelo sistema de som das estações e gôndolas, as mais tocadas foram... composições de Chopin, Beethoven, Manuel de Falla, Isaac Albéniz e Enrique Granados.

Mãos ao alto, bebê!

Quinta de manhã, um fotógrafo parceiro da coluna estava com a mulher e o filho de 1 ano na Praça Saens Peña, quando, ao tirar o miúdo do carrinho para brincar, distraiu-se por cinco minutos e... “Cadê o carrinho?!?” Acredite. Um gatuno já fugia, empurrando o possante do bebê. O pai correu e o recuperou.

Ratos no navio 
A casa do comandante da Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia, RJ, foi assaltada há uns dois meses.

Acende a luz 
O TJ-RJ condenou a Light a indenizar uma moça em R$ 2 mil. É que, ao reclamar do valor de sua conta na agência da elétrica em Madureira, a gerente, em vez de mandar um técnico à casa dela, disse que a cliente teria de... levar seu relógio-medidor à loja.

Rock no céu
Frase malvada no Facebook: “No céu, estão Amy Winehouse, Jimmy Hendrix, Jim Morrison, metade dos Beatles, Fred Mercury, Cazuza, Janis Joplin, Raul Seixas, Cássia Eller, Renato Russo, Elvis Presley, Michael Jackson... Está valendo mais a pena morrer
do que ir ao Rock in Rio.” Faz sentido.

CAETANO VELOSO - Alternativa nacional


 Alternativa nacional
CAETANO VELOSO
O GLOBO - 07/08/11

Mangabeira deve ser ouvido porque ele destoa dos papos costumeiros


Minha amiga Heloisa Chaves me pergunta, brincando, se quero que os brasileiros se orientem pelas falas de Mangabeira no YouTube (http://bit.ly/robertounger) se nem todos os brasileiros entendem inglês. Isso porque há uma série de vídeos sobre a crise econômica (além de outros, interessantíssimos, de temática religiosa e filosófica) dirigidas a um público global, quando não especificamente a estudantes americanos, todos em inglês. Mas os vídeos que recomendo aos brasileiros têm por título “Alternativa nacional”, e em todos Mangabeira fala português. Uma outra amiga, Suely, diz não entender o português do professor. Diferentemente de Heloisa, Suely não o faz (ao menos aparentemente) em tom de piada. Ela se queixa de que o sotaque dele a impede de compreender as palavras. Me pede que eu comente aqui as falas para que ela possa saber o que é que ele diz. Claro que eu não acreditei nela. Mangabeira tem um sotaque peculiar, mas fala pausado e com grande clareza.

Eu me lembro de ter um dia escrito aqui que seus erres retroflexos não se justificavam. Ouvindo essas palestras me dei conta de que, embora ele tenha aspectos fortes de pronúncia americana em sua fala, seus erres não são retroflexos (palavra que acho que aprendi com Heloisa, no tempo do blog Obra em Progresso, de feitura do CD “Zii e Zie”). Os erres de Mangabeira são linguodentais, nunca guturais ou aspirados, mas são tão límpidos quanto os de um cantor de ópera. Nada dos erres molhados e moles do inglês americano. Há mais estranhezas em algumas vogais (e outras consoantes, como o T ou o P) do que nos erres. Seja como for, o português de Mangabeira é excelente e claríssimo — e suas ideias, brilhantes.

Trata-se de brilho retórico com resquícios baianos mas sem dar a impressão de superfluidade. Mangabeira tem muito apreço pelo desenrolar da inteligência por entre as palavras. Mas não faz disso o fim último de seu discurso. A entrada direta na arte substancial dos assuntos de que trata é exigência primeira em suas manifestações. De resto, seu inglês tampouco é “normal”. Há uma estilização, uma empostação, que o distanciam do falar do americano comum. É um inglês totalmente americano, mas sem que se possa dizer de que parte dos Estados Unidos. É um inglês, mais do que da academia, do projeto pessoal único de Mangabeira. Em português ou em inglês, temos de enfrentar a peculiaridade desse pensador generoso, porém exigente — e nada preguiçoso.

Já começamos com o reconhecimento do papel importante que pode e deve desempenhar na História futura do Brasil a nova classe média, que veio de baixo e que muitas vezes se reúne em igrejas neopentecostais e desenvolve uma cultura de autoajuda. Sobre essa classe média Mangabeira vem falando há muito tempo, desde bem antes de ela se tornar tão conspicuamente numerosa. Podemos dizer que ele foi seu profeta. É esse tipo de coisa que sempre me atraiu no professor de Harvard. Ele percebe as possibilidades singulares do nosso país e busca pensar com coragem e lucidez sobre como fazer-nos realizá-las. Ele fala da grande vitalidade, “anárquica, quase cega”, do Brasil — e de nossa tragédia em não termos ainda achado os meios de encaminhá-la. Essa nova classe média consegue esboçar caminhos — e servir de guia e líder à multidão de emergentes que a seguirá. Mangabeira lembra que Getúlio Vargas promoveu uma revolução ao pôr o Estado a serviço das forças organizadas da sociedade brasileira no meio de século XX. E que agora a revolução seria o Estado pôr-se ao serviço da maioria que quer seguir a vanguarda representada por essa nova classe média.

Não vou parafrasear suas falas (sempre meio mal: é difícil, mesmo escrevendo, achar as palavras adequadas com tanta precisão quanto esse orador). Ou seja, vou ter que frustrar Suely e insistir em pedir que assistam aos vídeos. Posso, no máximo, chamar a atenção para trechos que possam servir de atrativo para curiosos. “ Precisamos construir um modelo de desenvolvimento baseado em ampliação de opor tunidades para aprender, para trabalhar e para produzir”;“A política industrial do Brasil consiste tradicionalmente em apoiar um pequeno número de grandes empresas sob o pretexto de transformá-las em campeãs mundiais. Enquanto isso, as pequenas e médias empresas, que geram a maioria esmagadora dos empregos, carecem de acesso a crédito e a tecnologia”. Tudo o que destoa da combinação de marxismo encolhido (que abandonou o ímpeto transformador e reteve o fatalismo histórico) com cópia das ideias econômicas neoliberais, combinação essa que é a língua franca da alta cultura brasileira, é rotulado de voluntarismo romântico — queixa-se Mangabeira. Eu, que uma vez fui chamado de arrogante por ter respondido “Sim” à pergunta “Você acha que o Brasil pode dar certo?” com a explicação de que isso é “Porque eu quero”, sou irresistivelmente atraído por esse suposto voluntarismo.

Tudo o que destoa me interessa. Mangabeira deve ser ouvido porque ele destoa dos papos costumeiros. Mas não só. Faz anos que me proponho a fazer propaganda das atividades teóricas e das propostas práticas de Roberto Mangabeira Unger. Nunca me arrependi. Vendo esses vídeos — mesmo em meio a todas as urgentes novidades do noticiário nacional e internacional — me senti mais uma vez no dever de convidar meus compatriotas a atentarem mais para quem tem tanto a dar e demonstra tanto desejo de fazê-lo.

DANUZA LEÃO - Certos encontros

Certos encontros
DANUZA LEÃO
FOLHA DE SP - 07/08/11 

Como estava de óculos escuros, disfarçou e olhou. Não, não podia ser ele. Não podia ser, só que era


ELES TIVERAM UM ROMANCE; não um grande romance, mais tipo um caso.
Ele às vezes sumia, depois aparecia, e assim foram levando, até que um dia acabou de vez; depois de um tempo ela nem lembrava dele, e nunca mais se viram, nem por acaso, andando numa rua.
Anos depois, na sala de embarque de um aeroporto, ela viu lá longe, sentado, alguém que parecia ser ele. Será? Como estava de óculos escuros, disfarçou e olhou. Não, não podia ser. Não podia ser, só que era.
Um começo de calvície, um paletó meio churreado e um ar de derrota: tudo o que ela achava lindo e charmoso no tempo em que achava que estava apaixonada.
Respirou fundo e teve medo que ele a reconhecesse e tivessem que conversar.
Sentou-se bem longe e ficou de olho, para evitar o encontro.
Daria a vida, naquela hora, por um cigarro, mas tinha deixado de fumar, e nem poderia, num aeroporto. Pegou o jornal e fingiu que lia as notícias econômicas, enquanto pensava nas loucuras que fez por aquele homem, e nas que teria feito, se ele tivesse deixado.
Pensou também que poderia ser mais normal, passar por ele e dizer um oi, perguntar como vai a vida, mas não teve coragem. Tentou pensar em outra coisa, mas não conseguiu, só queria embarcar logo, e que ele não a visse, pelo amor de Deus.
Depois do que lhe pareceram horas, o embarque foi dado, o que significava que teria que passar pelo lugar em que ele estava, se é que ele ainda estava lá. Tomou coragem, respirou fundo, e foi.
Ele continuava no mesmo lugar; ela ajeitou os óculos e passou, com um olhar distraído, mas olhando pelo rabo do olho. E teve a dolorosa impressão que ele a tinha visto e que não tinha se dirigido a ela pelos mesmos motivos: talvez a tivesse achado feia, velha, churreada, com ar de derrotada pela vida.
Foi das primeiras a entrar no avião e sentou-se bem no fundo, para ver se ele ia no mesmo voo, o que felizmente não aconteceu.
Pensou em como o mundo é cruel, e quando a comissária de bordo passou oferecendo um lanche, pediu um uísque -só que na ponte aérea não servem bebidas alcoólicas.
Teve que segurar o tumulto dentro dela até chegar em casa, tirar o gelo e tomar não um, mas três, um depois do outro.
E parou no terceiro porque, se continuasse, seria capaz de cair em prantos; por ele, por ela, por tudo.

ILIMAR FRANCO - A barganha

A barganha 
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 07/08/11

Para aprovar a prorrogação da Desvinculação das Receitas da União (DRU) até 2015, como quer o Ministério da Fazenda, a base aliada na Câmara está cobrando do governo a liberação imediata de uma fatia suculenta das emendas parlamentares. A exigência foi feita, semana passada, pelos líderes à ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais). A discrição dos líderes se deve à opinião pública, contrária às demandas dos políticos.

Redistribuição dos royalties
O senador Wellington Dias (PT-PI) apresentou uma nova versão para seu projeto de redistribuição dos royalties do petróleo. Tanto no regime de partilha quanto no de concessão, quando a lavra ocorrer no mar, a União ficaria com 40%; estados e municípios, com 30% cada. No caso dos blocos já licitados, os estados produtores receberiam os valores referentes a 2010. Para os municípios produtores, essa regra valeria só no primeiro ano da vigência da lei. Nos anos seguintes, esse valor seria reduzido em 5% ao ano, até atingir 50% do montante. O acordo é para votar até 15 de setembro e há um requerimento de urgência.

Precisamos convencer o Congresso de que estamos vivendo uma grave crise econômica internacional” — Cândido Vaccarezza, líder do governo na Câmara (PT-SP), sobre a ida ao plenário da Câmara dos ministros Guido Mantega e Fernando Pimentel

A VERDADE. O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), acha que é um equívoco seu partido ficar contra a criação da Comissão da Verdade em função da troca do ministro da Defesa. “Eu sou a favor e acho que a maioria do PSDB também é a favor de que a verdade (sobre a repressão na ditadura militar) seja conhecida”, afirma. Os tucanos querem evitar assumir posições conservadoras, como fez José Serra na última eleição.

Palanques
O PSDB e o DEM terão dificuldades para ficar juntos em São Paulo, Salvador, Recife e Natal. Nesta última, o presidente do DEM, José
Agripino (RN), quer lançar seu filho, o deputado Felipe Maia, e o PSDB, o deputado Rogério Marinho.

Aliança
O presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), acena com apoio a Netinho de Paula (PCdoB) para prefeito
de São Paulo. Fala Paulinho: “Eu e esse negão vamos dar muito trabalho nesta cidade, em 2012.”

Troca de gentilezas
Diálogo entre os deputados Jilmar Tatto (PT-SP) e Gabriel Chalita (PMDB-SP), ambos pré-candidatos à prefeitura de São Paulo, brincando no plenário da Câmara: “Já que PT e PMDB têm uma aliança tão bemsucedida no governo federal, vamos reproduzi-la em São Paulo. Você vai ser meu vice”, disse Tatto. Chalita retrucou: “Já que o PT é um partido tão generoso e nos demos tão bem no plano nacional, então em São Paulo você é que poderia ser o meu vice.”

Animador

O governador Sérgio Cabral está convidando todos os parlamentares aliados do governo Dilma para um encontro com o ex-presidente
Lula, terça-feira, no Palácio das Laranjeiras. Lula vai pedir que apoiem o governo e a presidente.

No forno
A Secretaria de Assuntos Estratégicos mostra amanhã, à presidente Dilma, uma radiografia da classe média no Brasil. O estudo diz que “seis de cada dez pessoas no Sudeste são classe média, com renda entre R$ 1.000 e R$ 4.000”.

 EM FLORIANÓPOLIS, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) foi vista cantarolando, no celular, verso de “Feitio de oração” (Noel Rosa e Vadico): “Quem (se) acha vive se perdendo.”
 O EX-MINISTRO Nelson Jobim, na conversa com o vice Michel Temer, manifestou o desejo de voltar a fazer política partidária no PMDB.
● NO NÚCLEO DURO do Planalto, o único ministro que ainda tentou defender Jobim foi Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - EUA tiram nota baixa; e o Brasil?

EUA tiram nota baixa; e o Brasil?
VINICIUS TORRES FREIRE 
FOLHA DE SP - 07/08/11

Governo não vai mexer nas aplicações nos EUA, diz Mantega, que teme vinda de nova torrente de dólares


do dinheiro que o Brasil aplica em dívida de outras países, cerca de 70% está investido em títulos da dívida dos Estados Unidos.
Agora que a dívida pública federal americana não é mais "nota 10" o Brasil pode continuar a aplicar nos EUA? Não só pode como não tem muita alternativa, como qualquer grande investidor do planeta.
Na sexta-feira, a nota de crédito do governo dos EUA foi rebaixada de AAA para AA+ pela desacreditada mas legalmente importante agência de risco Standard & Poor's.
"Seria obviamente uma insensatez o país se desfazer de dezenas de bilhões de dólares em títulos de suas reservas. Nem teria como vender. Venderíamos para quem? Para Marte? Aliás, não há muito o que fazer com a grande massa de títulos americanos que o mundo detém. Você vende e compra o quê?", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega à Folha, quando ainda se discutia a possibilidade de calote dos EUA.
Segundo o mais recente "Relatório de Gestão de Reservas Internacionais" do BC, de agosto de 2010, 96% das reservas estavam aplicadas em ativos AAA (nota máxima) e 4% em ativos AA, ao final de 2009.
Ou seja, o país pode aplicar em títulos com nota inferior à máxima. Quem decide o risco, a rentabilidade e a liquidez que os ativos das reservas devem ter é a diretoria colegiada do Banco Central.
Dos US$ 348,3 bilhões de reservas internacionais do Brasil, administradas pelo Banco Central, cerca de 88% estão aplicadas em títulos da dívida de governos.
O governo do Brasil empresta dinheiro ao governo federal americano. Com aplicações de US$ 211,4 bilhões, o Brasil era em julho o quarto maior credor dos EUA (depois de China, Japão e Reino Unido).
Mantega explica que, em caso de calote ou, como aconteceu, rebaixamento da nota de crédito dos EUA, o governo relaxaria as exigências de investir em títulos AAA.
"Difícil de saber o que acontece em caso de rebaixamento da nota dos EUA. É um cenário inédito. Pode haver venda em massa de ativos americanos? Mas fica a questão: onde é seguro então guardar dinheiro? O euro está com problemas. Sobra a moeda de países pequenos com dívidas pequenas. Não dá."
Mantega observava que ainda mais dinheiro poderia vir para cá. "Parece que muita gente acha que o Brasil é um caminho. Desconfio que, em parte, essa alta recente do real contra o dólar [final de julho] se deveu ao fato de que, para alguns investidores, agora, é melhor sair de ativos em dólar e colocar dinheiro no Brasil, um porto seguro. O país é institucionalmente estável, tem um sistema financeiro seguro, o mercado tem liquidez."
Em caso de nova crise grave, com paralisia do mercado de crédito mundial, com em 2008, o Brasil não teria política nova, diz o ministro.
"Não temos nenhum plano de contingência, ou melhor, nenhuma novidade nesse aspecto. Temos aqueles instrumentos essenciais que já usamos na crise de 2008. Podemos liberar linhas emergenciais de crédito, afrouxar compulsórios, o que depende do BC, mas acho que pode ser feito. No mais, já estamos tentando aumentar a segurança do mercado financeiro como um todo, com as medidas prudenciais na área de crédito e no câmbio, para evitar excessos e apostas arriscadas".

MARCELO GLEISER - O bom, o mau e o feio

O bom, o mau e o feio
MARCELO GLEISER 
FOLHA DE SP - 07/08/11

O desafio da globalização será reinventar nossa natureza tribal; queremos viver sem bandeiras?


Será que a globalização, essa força que anda redefinindo o mundo, melhorará ou piorará as coisas? De um lado, vemos o mundo encolher com maior acesso à internet e com o aumento da eficiência e velocidade dos transportes e da intensidade do comércio internacional. De outro, nosso tribalismo desconfia de culturas diferentes e reage negativamente a valores externos.
Há muito tempo futuristas preveem que o desenvolvimento tecnológico deixará o mundo cada vez mais homogêneo. Considere, por exemplo, o livro do físico Mikio Kaku "A Física do Futuro", continuação de outros semelhantes que ele escreveu.
Ele entrevistou 300 cientistas para criar uma visão utópica de um mundo definido pela ciência. Em 2100, diz, computadores inteligentes trabalharão com humanos, o acesso à internet será por lentes de contato e moveremos objetos com o pensamento; nanorrobôs destruirão células de câncer, a propulsão a laser redefinirá as viagens espaciais e colonizaremos Marte. Não haverá barreiras comerciais, e a mesma cultura e os mesmos alimentos serão divididos por todos. Essa homogeneização da sociedade acabará com as guerras.
Essas maravilhas tecnológicas são extrapolações do que já temos. Se alguém tivesse previsto que em 2010 teríamos laptops capazes de baixar remotamente gigabytes de informação ninguém acreditaria. O difícil é prever o inesperado.
Recentemente, o cientista político Pankaj Ghemawat, professor de estudos estratégicos da Universidade de Navarra, em Barcelona, Espanha, publicou um livro em que critica o excesso de otimismo com relação à globalização.
Segundo ele, valores que tendem a diluir barreiras culturais vão contra a nossa natureza tribal. O autor mostra que a maior parte de nossas relações permanece local: o correio internacional é apenas 1% do total, telefonemas internacionais são menos de 2% e tráfego internacional na internet representa entre 17% e 18% das informações da rede.
O fundamentalismo é uma reação à essa tendência homogeneizante. Quando valores externos ameaçam aqueles em que você e seus antepassados baseiam suas vidas, existem duas opções: ou você os absorve a um maior ou menor grau ou você se rebela e se fecha ainda mais, reagindo agressivamente à qualquer tipo de "intrusão".
Além de nossas famílias, nossa rede de interação social e cultural é baseada na aliança a certas tribos: Palmeiras ou Corinthians, brasileiro ou argentino, branco ou negro, católico ou muçulmano etc. A troca de ideias enriquece, mas a sua homogeneização empobrece.
Muitas das extrapolações tecnológicas que Kaku e outros descrevem estão chegando. Questões relativas a cultura e mercado são mais sutis. Não há dúvida de que barreiras comerciais continuarão a cair e que a globalização fará com que bens sejam acessíveis a um número cada vez maior de pessoas.
O desafio será reinventarmos nossa natureza tribal. Será que podemos (ou queremos) viver sem bandeiras? Se não aprendermos a respeitar as nossas diferenças, criando uma atmosfera de troca de informações e culturas, o sonho de um mundo melhor pode se transformar num pesadelo nada utópico.

GOSTOSA

GAUDÊNCIO TORQUATO - PT, saudações! Ao passado


PT, saudações! Ao passado
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 07/08/11

Cui bono? Em benefício de quem? Essa era a pergunta que os antigos romanos costumavam fazer quando se deparavam com situações enrascadas ou decisões polêmicas dos seus cônsules e membros do Senado. Se a política no mundo contemporâneo se torna um exercício de fuga da verdade, a velha indagação romana reveste-se de grande atualidade. Quem se beneficia com os dribles à realidade?

Há quatro séculos Francis Bacon, o filósofo inglês, já apontava que os políticos são bons ilusionistas. Alguns tentam impedir que as pessoas os tomem como efetivamente se apresentam, outros multiplicam argumentos para provar que não são o que deles se pensa ou fingem ser o que não são. No palco da política, a simulação e a dissimulação tornam-se ferramentas indispensáveis para a grandeza do espetáculo e o aplauso das plateias. Por isso os atores se esmeram em artifícios para melhorar o desempenho no teatro político. Mas os artifícios, como arabescos carnavalescos, mudam de cor e de cenário, ao sabor de momentos e circunstâncias.

Veja-se, por exemplo, o artifício das prévias, que o Partido dos Trabalhadores (PT) incluiu em seu estatuto por enxergar nele alta taxa democrática. Prévias propiciam às bases escolher candidatos aos pleitos, ajustando posições, integrando vontades, respeitando maiorias, enfim, fornecendo oxigênio aos pulmões partidários. Se assim é, por que as prévias passaram, agora, a ser malvistas? Porque, respondem alguns, o PT precisa ter "maturidade política". O que vem a significar isso? Ou, em termos romanos, cui bono? A quem o enterro das prévias petistas beneficia?

A resposta é complexa. Embute a história de uma agremiação que não é aquela que diz ser e finge ser o que não é. O fim das prévias, decisão a ser tomada no 4.º Congresso do PT, em setembro, coroará o fechamento da era ideológica do partido. O argumento de que consulta prévia abre rachaduras na base reforça a tese de que a sigla, como todas as outras, adentra o espaço da competitividade política sob o império de uma nova ordem. Hoje a meta petista é aprofundar os pilares do partido no centro e nas margens do poder. Para tanto os fins justificam qualquer mudança na metodologia de conquista. Nesse caso, a verticalização de comando faz-se necessária para afastar dissidentes, grupos insatisfeitos e quadros que insistem em reviver a utopia socialista.

É oportuno lembrar que o PT é um partido de facções. Há, porém, um grupo majoritário que dá as cartas, define estratégias, estabelece rotinas e impõe o mando. Pois bem, essa nova disposição arquiva no baú da História a velha sigla formada, há três décadas, pela comunhão de interesses de sindicatos, ala progressista da Igreja Católica, intelectuais e quadros que militaram nas frentes contra a ditadura. Desse PT original só restam resquícios. Hoje os sindicatos são as pernas de centrais absorvidas pelo establishment. Já os parceiros religiosos se dispersaram. Ou perderam a crença. Militantes, por sua vez, esvaziaram os pulmões revolucionários, migraram para outras siglas, enquanto alguns foram indenizados e outros passaram a integrar as "milícias" do Estado como burocratas.

O velho PT é um retrato na parede.

A alteração da fisionomia, vale lembrar, começou antes da ascensão da sigla ao pódio central do poder, em 2002, com a primeira eleição de Lula. O pano de fundo descortina o cenário da despolitização e desideologização, com os traços marcantes da queda do Muro de Berlim, cujos efeitos se fazem notar em fenômenos como o arrefecimento da densidade ideológica da competição política, o abandono de intransigências doutrinárias e o refluxo do antagonismo de classes. Por estas plagas, as cores doutrinárias também se tornaram menos contrastantes, mais leves, por causa da expansão econômica, que aproximou identidades e provocou mudança de paradigmas. Os partidos substituíram o escopo ideológico por eficácia eleitoral, significando isso pragmatismo e prioridade à micropolítica (demandas setoriais de comunidades e localidades). Nossa democracia representativa ganhou o reforço da democracia supletiva, sendo esta fruto da pressão de grupos organizados e entidades intermediárias, polos de demandas grupais e comunitárias. A nova topografia política espalhou-se pelo território, siglas tradicionais perderam força e outras, menores, começaram a se mexer no palco. Com o ingresso de mais participantes o espectro político tornou-se multifacetado.

Sob essa arrumação e acomodação ideológica, faltava apenas o pulo do gato para o PT se conformar ao modus faciendi da política tupiniquim. O pulo do gato era o ingresso no paraíso, meta só alcançável se Luiz Inácio, ex-metalúrgico treinado na arte de conquistar as massas, realizasse a façanha de tomar assento principal naquele palácio cujas colunas seu criador, Oscar Niemeyer, dizia serem "leves como penas pousando no chão". Depois de três tentativas, lá ele se plantou por oito anos, tempo que aproveitou para fazer uma administração de sucesso, ganhar prestígio nacional e internacional e, sob o prisma partidário, prolongar o ciclo do PT no comando do País.

O xis da questão está decodificado. Qualquer disposição - norma, instrumento, meio, recurso - necessária para extensão do projeto de poder do PT deve ser aceita e internalizada por seus membros. Prévias, em determinada fase da vida petista, significavam algo bem diferente do que representam nestes tempos de conquista do "poder pelo poder". Hoje abrem fissuras, provocam disputas, geram dissensões. A meta de perpetuação no poder requer ordem unida. Que carece de concórdia nas bases.

Essa é a indeclinável nova maneira de ser do PT. Assentada com a argamassa do pragmatismo. Ancorada no acolhimento de todas as facções no seio da administração. Firmada com parceiros temporários. E com a visão grudada nas colunas do Palácio do Planalto.

Cui bono? Agora se sabe.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Confissão de um sócio atleta

Confissão de um sócio atleta
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O ESTADÃO - 07/08/11

Participei do grande evento culinário-gastronômico que o suplemento Paladar, do Estadão, organiza todos os anos, e que reúne chefs e sommeliers, produtores de comida e aficionados do bem comer para trocar ideias, ensinar, aprender e simplesmente conviver durante três deliciosos dias. Fui convidado como palestrante, junto com o Ignácio Loyola Brandão, o Humberto Werneck, o Pedro Martinelli, o Fernando Gabeira e o Guilherme Studart, entre outros.

O Loyola lembrou as comidas da sua infância, em Araraquara, o Werneck falou das famosas empadinhas de Belo Horizonte, o fotógrafo Pedro Martinelli tratou da comida dos índios da Amazônia, que ele conhece como ninguém, e o Gabeira, da sua experiência com a macrobiótica. E o assunto do Guilherme Studart, que edita um guia dos botecos do Rio, foi comida de boteco um universo em expansão.

Anos atrás, eu e o Armando Coelho Borges, que depois escreveria sobre gastronomia na imprensa de São Paulo, ajudamos a criar um clube de gourmets em Porto Alegre. Como éramos os únicos do grupo que não sabiam cozinhar, ficou acertado que entraríamos na categoria de sócio atleta. E não decepcionamos: dispensados de entrar na cozinha, tivemos um ótimo desempenho na mesa. Me senti um pouco como sócio atleta no evento do Paladar.

Sem saber cozinhar e como é tarde demais para aprender, não aproveitei nada das aulas como a do Edinho Engel sobre as muitas variedades de feijão e seu preparo, ou a da Helena Rizzo sobre nhoques feitos de mandioca, a não ser os pratinhos servidos para a plateia com o magnífico resultado final da arte de cada chef, quando gemi mais alto do que qualquer um.

Também não podia competir com a Amazônia, a macrobiótica, as empadas de Belo Horizonte, os bolinhos de bacalhau do Rio – e, meu Deus, a Araraquara do Loyola – nas minhas reminiscências.

Palestrar sobre o quê? Me lembrei de uma história que fazia parte do folclore da família. Com meus quatro ou cinco anos de idade ganhei um carrinho em miniatura, daqueles em que as partes de um carro de verdade são minuciosamente reproduzidas, provavelmente importado e certamente caro.

Estava brincando com o carrinho na frente da casa da minha avó quando passou um garoto com um balaio vendendo pastéis de carne. O garoto me propôs uma troca: um pastel pelo carrinho.

Aceitei na hora. Com quatro ou cinco anos de idade, defini minhas prioridades para o resto da vida. Até hoje acho que foi uma boa troca. E ainda dou qualquer coisa por um bom pastel de carne.

Comecei minha “palestra” com este episódio definidor. Botei “palestra” aí entre aspas porque em seguida me limitei a ler coisas que já tinha escrito sobre minhas relações com comida, paladar, restaurantes, etc., depois daquele pastel primordial. E preciso fazer uma confissão.

Só aceitei participar do evento pela oportunidade que ele me traria de provar pratos feitos por alguns dos melhores cozinheiros do país, sem pagar nada. Estou fazendo “mmmmm” até agora.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO - David e Golias

David e Golias 
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
O ESTADÃO - 07/08/11

Apropósito do atual dilema americano, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que pela primeira vez em muito tempo não havia um abismo tão grande entre poder, economia e sociedade. Pode parecer banal, mas não é: nos Estados Unidos, o “ideal americano” dava solidez para um caminho em comum para o país.

Havia tensões, tendências mais progressistas chocavam-se com outras mais conservadoras, o grande business sempre quis controlar mais de perto o governo, os governos ora se inclinavam para atender aos reclamos das maiorias ora assumiam a cara mais circunspecta de quem ouve as ponderações da ordem, da econômica em primeiro lugar.

Mas, bem ou mal, liberdade, democracia, prosperidade e ação pública caminhavam mais ou menos em conjunto.

E agora, poderia perguntar perplexa a secretária de Estado? Agora, digo eu, parece que as classes médias e os mais pobres querem gasto público maior e emprego mais abundante, os conservadores querem ortodoxia fiscal sem aumento de impostos, os muito ricos pouco se incomodam com o gasto social reduzido, desde que a propriedade de cada um continue intocável.

No meio de tudo isso, a crise provocada pelo cassino financeiro surgiu como um terremoto. Logo depois, veio o marasmo da semiestagnação e, pior ainda, se desenha o que há pouco era impensável, a moratória do país mais rico do mundo!

Por trás da peleja econômica corre a outra, mais profunda, a do poder: o Tea Party – os ultrarreacionários do Partido Republicano – levaram o governo Obama às cordas. A agenda política, mesmo depois de “resolvida” a questão do endividamento, passou a ser ditada por eles: onde e quanto cortar mais no orçamento de um país que clama por muletas para reavivar a economia.

Na Europa, as coisas não andam melhores. Cada solavanco da economia americana aumenta o contágio, esta doença internética: as taxas de juros cobrados dos países ultraendividados vão para as nuvens. A rua se agita, não faltam movimentos dos “Indignados” que veem o povo sofrer as agruras do desemprego e da desesperança e ainda ser cobrado para que as contas se ajustem.

E, naturalmente, como nos Estados Unidos, os que mais têm e os que mais especularam ou esbanjaram (inclusive governantes imprevidentes) balançam a poeira e querem dar a volta por cima. Esperam que mais aperto, mais rigidez no gasto público e menos salários resolvam o impasse. Não se estão dando conta de que a cada xis meses uma nova tormenta balança os equilíbrios instáveis alcançados.

É como se daqui a 30 anos os historiadores olhassem para trás e dissessem, “ah, bom, a Grande Crise dos Derivativos começou em 2007/2008, foi mudando de cara, mas prosseguiu até que novas formas de produzir e de distribuir o poder começaram a dar sinais de vida lá por 2015/2020...”

E nós aqui nesta periferia gloriosa a quantas andamos? Longe do olho do furacão, cantamos glória pelo que fizemos, pelo que de errado os outros fizeram e pelo que não fizemos, mas, pensamos, pouco importa, o vendaval do mundo varreu a riqueza de uma parte do globo para outra e nos beneficiou. Será que é assim mesmo? Será que a proe-za de evitar as ondas do tsunami impede que a malignidade do resto do mundo nos alcance?

Tenho minhas dúvidas. Falta-nos, como impuseram os reacionários americanos a Obama, uma agenda, mas que seja nova e não a desgastada do “clube do chá” americano. A nova agenda existe, está exposta cotidianamente pela mídia e não é propriedade de um partido ou de um governo. Mas onde está a argamassa, como o antigo ideal americano, para conter as divergências, o choque de interesses, e guiar-nos para um patamar mais seguro, mais próspero e mais coeso como nação?

Mal comparando, a presidenta Dilma está aprisionada em um dilema do gênero daquele que agarrou Obama. Só que, se no caso americano a crise apareceu como econômica para depois se tornar política, em nosso caso ela surgiu como política, mas poderá se tornar econômica.

Explico-me: a presidenta é herdeira de um Sistema, como dizíamos no período do autoritarismo militar. Este funciona solidificando interesses do grande capital, das estatais, dos fundos de pensão, dos sindicatos e de um conjunto desordenado de atores políticos que passaram a se legitimar como se expressassem um presidencialismo de coalizão no qual troca-se governabilidade por favores, cargos e tudo mais que se junta a isso.

Esta tendência não é nova. Ela foi-se constituindo à medida que o capitalismo burocrático (ou de Estado, ou como se o queira qualificar) amealhou apoios amplos entre sindicalistas, funcionários e empresários sedentos por contratos e passou a conviver com o capitalismo de mercado, mais competitivo.

Na onda do crescimento econômico, as acomodações foram se tornando mais fáceis, tanto entre interesses econômicos quanto políticos (incluindo-se neles os “fisiológicos” e a corrupção).

No início, parecia fenômeno normal das épocas de prosperidade capitalista, que seria passageiro. Pouco a pouco, se foi vendo que era mais do que isso: cada parte do Sistema precisa da outra para funcionar e o próprio Sistema necessita da anuência dos cooptáveis pelas bolsas e empregos de baixos salários e precisa de símbolos e de voz. Esta veio com o “predestinado”: o lulismo anestesiou qualquer crítica não só ao Sistema mas a suas partes constitutivas.

É neste ponto que o bicho pega. A presidenta é menos leniente com certas práticas condenáveis do Sistema. Entretanto, quando começa a fazer uma faxina, quebram-se as peças da engrenagem toda. Sem leniên- cias e cumplicidades entre as várias partes, como obter apoios para a agenda necessária à modernização do país?

E, sem ela, como fazer frente à concorrência da China, à relativa desindustrialização, ou melhor, “desprodutividade” da economia e como arbitrar entre interesses legítimos ou não dos que precisam de mais apoio do governo, advenham eles de setores populares ou empresariais?

É cedo para prever o curso dessa história, que apenas começa. Mas não há dúvida de que para se desfazer da herança recebida será preciso não só “vontade política” como, o que é tão difícil quanto, refazer os sistemas de alianças. É luta para Davis, e, no caso, Golias é pai de Davi.