sexta-feira, julho 15, 2011

JOÃO MELLÃO NETO - As vítimas serão nossos filhos


As vítimas serão nossos filhos
JOÃO MELLÃO NETO
O Estado de S.Paulo - 15/07/11

Como era a vida nos tempos da ditadura? Minhas lembranças pessoais são confusas. Recordo-me de que os mais antigos nos diziam que o Brasil era governado por um general, de nome Médici. Que cuidava para que o País e a gente pudéssemos todos crescer em segurança.

Nós, adolescentes, exultávamos com ele e cantávamos, arrebatados, as alegres músicas de Dom e Ravel. "Ninguém segura este país" - e disso não tínhamos a menor dúvida. O governo alcançou, na época, 80% de aprovação popular.

Na faculdade vim a conhecer uma visão diferente. Os professores diziam-nos que os militares eram verdadeiros monstros. Eles torturavam e assassinavam sem a menor piedade. Quanto à economia, o que teria ocorrido, de fato, fora uma injusta política que visava a fazer dos ricos mais ricos e dos pobres, ainda mais pobres. Meus pais também, a essa altura, já não mostravam o mesmo entusiasmo de antes pelo regime. Corrupção demais e liberdade de menos, queixavam-se eles.

Na dúvida, entrei de corpo e alma no movimento estudantil. Cheguei até a ser detido. Durante uma passeata de protesto, fui apanhado pela polícia. E após levar alguns pontapés fui transportado de camburão para o Deops - a "masmorra da ditadura", como se dizia. Passei a noite toda em claro, respondendo a intermináveis interrogatórios. Fui libertado ao amanhecer. Senti-me, então, um herói.

Mas isso tudo são reminiscências. Um relato subjetivo de impressões.

Em termos de História, ninguém é capaz de interpretar os fatos mais recentes com a necessária isenção. Ainda há muita paixão envolvida neles.

São três as principais versões.

Da parte dos militares, a intervenção se deu em razão dos desmandos dos políticos dessa época. E a decisão de permanecerem no poder foi apenas uma consequência do fato de não haver, na visão deles, nenhum civil com autoridade e austeridade suficientes para levar adiante a "revolução" que estava em curso.

Da parte dos civis que apoiaram o novo regime, a maioria afirma ter-se desiludido com ele logo depois, quando a democracia foi eliminada e ficou constatado que os militares não pretendiam sair do poder. A "revolução" ter-se-ia desvirtuado, no seu entender. Resumiu-se a um mero contragolpe. A desordem, então, era imensa. Quem queria dar um golpe, na verdade, era o presidente João Goulart.

Na opinião dos que se opuseram desde o início, o que teria ocorrido, de fato, fora a implantação de uma ditadura de direita, com o objetivo de massacrar os movimentos populares e concentrar a renda nacional na mão de alguns poucos. E, dentre esses opositores, houve alguns que foram além: optaram pela luta armada. Não pela volta da democracia, mas sim por outra ditadura, de sinal oposto. Eles se entendiam como guerrilheiros. Mas, para o governo, não passavam de "terroristas". E, a pretexto de combatê-los, o regime foi endurecido. Sucederam-se os tais "anos de chumbo".

Mas, algum tempo depois, o regime foi obrigado a se abrir.

O fato é que a tolerância geral ao sistema autoritário se lastreava em seu alegadamente superior desempenho na administração da coisa pública. Os políticos, diziam, só servem para atrapalhar. Ainda hoje, não são poucos os que pensam assim.

Quando os índices de crescimento econômico começaram a declinar, não havia mais por que manter o regime. E ele terminou desmoralizado, em 1985, quando o general Figueiredo - e os seus equídeos - deixaram o Planalto Central.

O regime militar deixou o País nas mesmas condições em que o encontrou: inflação e descontentamento em alta, crescimento e popularidade em baixa.

Veio a democracia e com ela, a nova Constituição. Alguém, então, apresentou um projeto prevendo uma eventual reparação financeira para quem tivesse sido prejudicado pelos sucessivos governos, desde Dutra até Sarney. O projeto passou batido e transformou-se em disposição constitucional. E esta foi regulamentada por lei, no final de 2001. Assim nasceu a polêmica Comissão de Anistia.

E é neste ponto que cabem algumas considerações.

O que era provisório se tornou permanente. A referida comissão está comemorando o seu décimo aniversário de vida e não pretende morrer tão cedo. Milhares e milhares de indivíduos já foram anistiados. E a sua ideia, agora, é sair em caravana pelo País, à cata de outros tantos. Cada um passa a receber um salário mensal - cujos valores chegam a até R$ 24 mil - pelo resto da vida. Além de uma bolada inicial, a título de retroatividade.

A Comissão de Anistia tem sido muito generosa e seletiva em seus pareceres. Criou custos para o erário de cerca de R$ 4 bilhões a cada ano e, ao que parece, contempla somente os militantes da esquerda. Criou-se no País uma nova profissão: a de vítima.

Segundo se afirmou na época em que a lei foi sancionada, essa comissão era necessária para reparar injustiças e pacificar de vez a Nação.

Haja injustiçados! E também, pelo visto, não houve pacificação alguma. O que se cogita, agora, é de instaurar uma nova comissão - a da "verdade".

Para que serviria ela?, pergunta-se. Ora, para apurar, em detalhes, todas as violações dos direitos humanos ocorridas durante o regime de exceção.

Até aí, tudo bem. Só que a ideia é que apenas uma das partes interessadas seja ouvida.

Ninguém pretende ouvir, também, as famílias daqueles que morreram em decorrência da ação dos guerrilheiros? O número total passa de uma centena. E muitos eram meros transeuntes. Não tinham nada que ver com o embate.

Por que meus filhos - e mais dois terços da população brasileira - terão de arcar com os custos de tudo isso? Eles todos - no tempo da ditadura - nem sequer haviam nascido!

MÔNICA BERGAMO - "ACREDITEI EM COISAS QUE NÃO ESTAVAM NA BÍBLIA"

"ACREDITEI EM COISAS QUE NÃO ESTAVAM NA BÍBLIA"
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 15/07/11

Caroline Celico
Há um ano, Caroline Celico (pronuncia-se Célico), 23, mulher do jogador Kaká, lançava CD e DVD com músicas falando de Deus para distribuir aos amigos. Em três meses, alcançou a marca de 1,3 milhão de downloads na internet. Assinou contrato com a gravadora Universal e seus CD e DVD começam a ser vendidos no dia 19. Rompida com a igreja evangélica Renascer, ela disse à coluna, em SP (onde está há quatro meses por causa do nascimento da filha Isabella), que não pretende mais se ligar a nenhuma religião.
Afirmou também que o casal só volta a morar no Brasil "no fim da carreira do Kaká".

Folha - Agora que você não faz mais parte de nehuma igreja, acha que as pessoas deixarão de dizer que seu DVD é de religião?

Caroline Celico - Mas não foi nada premeditado! Não saí da igreja para vender CD. É uma coisa que vinha de dois anos pra cá. O DVD foi fruto de uma mudança em mim. Mudei minha forma de pensar. No DVD, começo falando da felicidade, dizendo que ela não está numa conquista, como as pessoas estão pregando por aí: "Você vai ser feliz, vai ter prosperidade". Tenho tentado mostrar que Deus não está agindo aumentando uma conta de banco, ou te dando uma porta de emprego. Pra mim, Deus não é isso.

O que mudou em você?

Fui entendendo Deus de uma forma diferente. Vi que algumas coisas em que eu acreditava, ou fui levada a acreditar, não estavam na Bíblia. Eu interpretava uma frase errada dentro de um contexto. Por exemplo, numa passagem da Bíblia está escrito que para se curar da lepra era preciso dar sete mergulhos no rio Jordão. Então [eu pensava]: se Deus precisava que eu desse sete mergulhos, hoje Ele precisa que eu dê uma oferta, que eu entregue meu dízimo. E até meu dízimo não estar entregue, não vou receber meu milagre. Hoje vejo que Deus conhece o meu coração. Se eu entreguei ou não alguma coisa para Deus, Ele sabe o meu sentimento.

Por isso saiu da Renascer?

[Suspiro] Não. Foram por muitos motivos, mas não vou citar. Isso é uma coisa minha.

Você pretende se ligar novamente a uma religião?

Não. Por enquanto não sinto falta dos rituais. Mas não posso dizer nunca mais.

O que você fará com o dinheiro que ganhar?
Abri uma conta para colocar esse dinheiro e você nunca vai me ver usá-lo para comprar nada pra mim. Vou usar para ações benéficas.

Pensa em fazer shows?

Não. Minha prioridade é o Kaká, a família. Se a gente tiver que se mudar amanhã, vou correr para fazer as malas. Não quero me lançar como cantora.

Quando voltam para o Brasil?
Não sei. Acho que no final da carreira do Kaká.

Você gostaria que algum clube brasileiro convidasse o Kaká para voltar?
O Kaká é são-paulino, né? Eu sou são-paulina porque o meu pai fala. A gente gosta. Acho então que o São Paulo seria uma ótima opção.

QUEM É?

O grupo francês Casino recebeu com descrédito a informação de que o BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, poderia fazer nova proposta de fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour no Brasil por considerar que a condução das conversas pelo empresário Abilio Diniz foi desastrosa. "Eles não são acionistas da empresa. Eles falariam então em nome de quem? Do Casino? Do Abilio? Do Carrefour?", ironiza um alto executivo do grupo.

PÉ NO CHÃO

Sempre a bordo de um jato particular, desta vez Abilio Diniz fez o voo Paris-SP, na terça, num avião da Air France. Saia justa: ao entrar na primeira classe, deu de cara com Ulisses Kameyama, diretor do Casino para a América Latina. Mal se falaram.

PÉ NO CHÃO 2

Ao desembarcar na manhã de quarta no aeroporto de Guarulhos, Abilio ainda enfrentou quase uma hora na fila de imigração.

"Brasileiro ou estrangeiro?", chegou a perguntar um funcionário da Infraero que não o reconheceu.

APOSTAS
Em reuniões para avaliar suas chances de absolvição no STF (Supremo Tribunal Federal), réus do mensalão continuam dando como certos contra eles os ministros Ayres Britto, Ellen Gracie e Joaquim Barbosa. A preocupação recente é em relação a Ricardo Lewandowski.

IMIGRAÇÃO

Foragido da Justiça, o médico Roger Abdelmassih, condenado por estupro, será pai de gêmeos em setembro. É grande a expectativa, entre seus amigos, sobre como sua mulher, Larissa, terá os bebês sem dar pistas de onde o casal está vivendo.

PRODUTIVIDADE
O assessor do deputado Paulo Maluf (PP-SP), Adilson Laranjeira, atira contra o desembargador Alberto de Oliveira Andrade Neto. O magistrado cobra indenização de R$ 100 mil e já conseguiu penhorar carros e ações do ex-prefeito na Eucatex. Laranjeira o acusa de "baixa produção" e diz que ele "tem acervo de 3.429 recursos para serem julgados, quando a média de outros gabinetes é de 1.412". Os dados saíram no "Diário daJustiça". Andrade Neto não comenta.

SANTOS 1 X 0 BARÇA
O canal do Santos no YouTube alcançou a melhor média mensal de acessos entre os clubes de futebol do mundo: 1,5 milhão de visitas.

O Milan vem em segundo, com 760 mil acessos, e o Barcelona, possível adversário do Santos em uma final do Mundial, 740 mil.

UMA VOZ ME GUIA
Quem utilizar os audioguias da exposição "No Ateliê de Portinari (1920 -1945)", que abre hoje para o público, no MAM de SP, no parque Ibirapuera, notará uma voz conhecida. A narração da mostra foi feita, gratuitamente, pelo ator Odilon Wagner. Ele gravou 17 páginas de textos sobre as cerca de 90 obras. Há 20 aparelhos disponíveis para o público.

PIANO IMPORTADO
O concerto de Arnaldo Cohen na Sala São Paulo em 7 de agosto inaugura a série de apresentações de pianistas brasileiros radicados no exterior "O Piano Brasileiro no Mundo". Estão previstos recitais de nomes como Cristina Ortiz e Ricardo Castro, que nasceram aqui mas se mudaram para outro país.

EU CANTO

A cantora e baterista Naná Rizzini lançou com show no Studio SP seu CD "I Said". O músico Edgard Scandurra e a cantora Tiê, que participam do álbum, foram ouvir o som.

IVALDO AO VIVO
O coreógrafo Ivaldo Bertazzo apresentou seu espetáculo "Corpo Vivo Carrossel das Espécies" no Theatro Municipal de SP. Maria Pia Finócchio esteve na plateia.

CURTO-CIRCUITO

A Secretaria de Estado da Cultura recebe, a partir de hoje, inscrições para o 4º Festival de Teatro Infantil.

A peça "Memória da Cana" reestreia hoje em São Paulo, no Espaço dos Fofos, às 21h. Classificação: 16 anos.

Rita Gullo canta hoje, às 21h, no Sesc Pompeia. 12 anos.

Joca Guanaes e Vera Chaccur Chadad realizam o Salão de Arte a partir de 15 de agosto, no clube A Hebraica.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

LUIZ GARCIA - Amigos do poder

Amigos do poder 
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 15/07/11
União Nacional dos Estudantes abriu esta semana em Goiânia o seu 52º - congresso. Já está bem velhinha essa instituição que representa os universitários brasileiros: nasceu em 1937 quando o Conselho Nacional dos Estudantes trocou de nome.

Durante grande parte de sua história, a UNE teve pauta dupla. Defendia os interesses naturais dos estudantes principalmente os universitários e fazia política, quase sempre de esquerda. O que era inevitável, principalmente quando os governos eram de centro e de direita, como no caso do regime militar de 1964. Teve papel importante, por exemplo, na famosa passeata dos cem mil no Rio. A marcha ocupou toda a Avenida Rio Branco, da Cinelândia à Candelária. E não faltou quem se juntasse à manifestação sem motivos políticos: aderir à marcha era a forma mais prática, ou a única, de chegar à Praça Mauá.

No congresso deste ano em Goiás, temos uma UNE politizada como sempre, mas com um perfil raro em sua história: o de uma amiga do governo. O encontro, que deverá custar cerca de R$ 4 milhões, será financiado por entidades como a Petrobras e outras estatais, além do governo estadual e da prefeitura de Goiânia. Não é de se estranhar: a UNE é velha aliada de Lula, que deve aparecer por lá; outro que deve ir é o ministro da Educação, Fernando Haddad. Outros ministros também foram convidados.

Não é de se estranhar a presença de políticos numa reunião onde deverão estar dez mil jovens eleitores. Mas é fenômeno raro na história política do país que sejam todos, ou quase todos, gente do governo. O apoio financeiro ainda bem que ostensivo dos cofres públicos faz sentido do ponto de vista de quem tem as chaves desses cofres. É um gesto politicamente rentável para os ministros que forem a Goiás e para as autoridades locais.

Mas a opinião pública perde alguma coisa com isso. Os movimentos jovens costumam ser, nos países democráticos, enfáticos e entusiasmados fiscais dos ocupantes no poder. No Brasil destes dias, não parece que seja bem assim. Uma pena.

ALEXANDRE VAN BEECK - Estratégia "mobile" dentro das lojas

Estratégia "mobile" dentro das lojas
ALEXANDRE VAN BEECK
O GLOBO - 15/07/11

Nunca se viu tanta gente interessada num assunto que poucas sabem o que é, mas todos têm a certeza que será fundamental para seu negócio: mobile.

Os varejistas buscam integrar suas iniciativas dentro de uma estratégia multicanal, combinando iniciativas de comunicação de massa com internet e mobile.Mas integração não é simplesmente replicar conteúdo e formato em todos os canais. A estratégia exige conhecer para explorar melhor cada ponto de contato com o consumidor, o que não é uma tarefa fácil. E isso também deve estar presente dentro das lojas de forma simples e eficiente para os consumidores.

Como bem argumentou Phil McKay, da Target, durante palestra na National Retail Federation 2011. "o consumidor não quer saber de tecnologia pura, mas de algo que facilite sua vida na loja, sendo conveniente e fácil As possibilidades são infinitas, porém existem limitações impostas por três fatores: a falta de conhecimento do consumidor sobre os recursos disponíveis no aplicativo, e no aparelho: a cobertura de internet (3G ou WiFi); e a limitação tecnológica dos aparelhos.

A Pizza Hut tem um aplicativo no qual é possível escolher sabor e borda da pizza, e fazer o pedido.Seu maior desafio era torná-lo conhecido e fazer com que as pessoas soubessem utilizar o aplicativo. Porém, posteriormente ao lançamento, foi

identificado que a equipe de loja também não tinha treinamento em assistência de iPhone, e isso ocupava o tempo dos funcionários, tirando o foco de sua real função. A empresa voltou seus esforços para desenvolver um aplicativo fácil de utilizar e intuitivo.

Outro desafio é o mobile payment. O varejo quer acabar com as filas e agilizar o processo

de saída do consumidor da loja. A substituição do ponto de venda é o grande desafio que requer aumento na segurança das transações, capilaridade de aparelhos com recursos compatíveis e mudança de cultura tanto do varejo como dos consumidores. A Starbucks anunciou, por meio de um aplicativo instalado em iPhones, iPods Touch ou Blackberrys, que os consumidores poderão, além de fazer compras de produtos, identificar qual a loja mais próxima que aceitará o pagamento via celular e também ganhar pontos a cada compra realizada.

Ainda temos um longo caminho a percorrer na estratégia mobile para o varejo, mas o tempo é curto. Estes recursos já estão transformando o setor. Todavia, mesmo com a urgência que o mercado exige, não se deve perder de vista o cuidado no desenvolvimento e o conhecimento sobre o que o seu consumidor quer e o que sua empresa pode oferecer.

GOSTOSA

CLÓVIS PANZARINI - Pirataria fiscal

Pirataria fiscal 
 CLÓVIS PANZARINI
O ESTADÃO - 15/07/11

Recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que, julgando 14 Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adin), derrubou 23 normas, editadas por seis Estados, concessivas de benefícios fiscais com base no ICMS para atrair investimentos para seus territórios, constitui clara evidência de quão desarrumado está o sistema tributário brasileiro.

Essa prática de concessão irregular de benefícios de ICMS vem de longa data. Já nos idos de 1970 o Estado do Espírito Santo criou o Fundo de Apoio às Atividades Portuárias (Fundap) para, supostamente, incentivar o desenvolvimento daquelas atividades no Estado. O modelo assentava-se no incentivo às importações e tinha como sustentáculo o financiamento, em até 20 anos e praticamente sem juros, do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM, hoje ICMS) incidente sobre mercadorias importadas pelo Porto de Vitória. Era o início da guerra fiscal entre Estados, baseada na concessão de benefícios fiscais, que desde então se generalizou, tornando letra morta a Constituição federal e a Lei Complementar n.º 24/75, que regula a forma como esses incentivos devem ser concedidos e revogados.

Os governadores dos Estados menos desenvolvidos argumentam que são instados a transgredir a legislação, concedendo benefícios fiscais irregulares para promover o desenvolvimento econômico local, porque inexiste uma política nacional de desenvolvimento regional.

Uma análise mais detalhada desses procedimentos, contudo, revela que muitas vezes não há nobreza no objetivo e sempre o resultado é desastroso para a economia brasileira. Já na gênese da guerra do ICM, em 1970, o manual de procedimentos do citado Fundap, editado pelo governo capixaba, explicitava, sem nenhuma sutileza, aos candidatos ao enquadramento no programa que, para fazer jus ao benefício, a mercadoria importada por Vitória poderia ser desembaraçada em qualquer porto do País, desde que o ICM fosse recolhido aos cofres do Espírito Santo!

Agora, 40 anos depois, vê-se o governo de Santa Catarina criando um programa chamado Pró-Emprego, que concede devolução de ICMS incidente sobre mercadorias importadas, por exemplo, da China. Supõe-se, pelo nome, que o programa deveria gerar empregos em terras catarinenses, não nas plagas de Xangai! A mercadoria produzida no exterior é desembaraçada nos portos de Santa Catarina e enviada para o resto do Brasil com 12% de crédito de ICMS (essa é a alíquota interestadual do imposto), embora sejam recolhidos àquele Estado apenas 3%. A diferença é subsídio ao emprego no exterior. Cada emprego a mais lá significa um empregado a menos aqui! Esse é um mero exemplo.

Concessão de incentivos de ICMS a mercadorias importadas, inclusive por Estados mediterrâneos, pululam Brasil afora. Verdadeiro dumping às avessas! Essa incrível pirataria fiscal é viabilizada pela tributação das operações interestaduais pelo ICMS: o Estado remetente "finge" que cobra 12% na fronteira interestadual (geralmente cobra 12%, mas devolve 9%); o Estado destinatário é obrigado a devolver integralmente os 12% ao seu contribuinte e a mercadoria chega ao mercado consumidor com 9% de subsídio. Dessa forma, a produção ou importação da mercadoria, quando desviada artificialmente para esses "paraísos fiscais" de ICMS, impõe perda equivalente a 12% ao Estado consumidor, cuja contrapartida é um ganho de 3% ao Estado "generoso" e de 9% ao contribuinte atraído para essa verdadeira maracutaia. É claro que o desenho do nosso sistema tributário não é tão "burro" assim. Qualquer concessão de benefícios de ICMS deveria, desde 1975, ser aprovada pela unanimidade dos Estados, o que evitaria a guerra fiscal, de vez que qualquer prejudicado teria poder de veto. Essa regra, entretanto, vem sendo solenemente ignorada. Uma semana após o "susto" provocado pela histórica decisão do STF de junho, os Estados voltaram a oferecer benesses fiscais a incautos investidores e importadores.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Produção de mel de abelha ganha nova rota no Brasil
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 15/07/11

A expansão da cultura de cana, o preço da mão de obra e do arredamento do pasto no Estado de São Paulo nos últimos anos criaram uma nova "rota das abelhas" no Brasil.
O Nordeste ganha relevância como produtor.
"São Paulo ficou saturado. Hoje o apicultor tem dificuldade para arrendar pasto apícola no Estado, enquanto no Nordeste há muitas áreas livres e mão de obra de agricultores familiares ", diz Joelma Brito, da Abemel (associação de exportadores).
Um "clima de oportunidade" impulsiona a produção nordestina, segundo Brito.
"Abelhas só começam a ser criadas no Nordeste de forma racional nos anos 1980. Depois veio apoio do Banco do Nordeste. A exportação é relativamente recente", diz Darcet Souza, da Universidade Federal do Piauí.
A base da extração do mel é feita pelas abelhas por meio das flores, ausentes na produção de cana. "O avanço da cana pode ter impactado São Paulo. Houve desmatamento do cerrado", diz Souza.
O professor cita a introdução do agrotóxico, que interfere na aceitação no exterior.
As culturas silvestres, em plantações de cipó uva e assa-peixe, por exemplo, produzem mel mais claro e de maior qualidade.
O preço internacional é baseado em aspectos rigorosos como cor, umidade e quantidade de contaminantes.
Em maio, as exportações de mel no país tiveram alta no valor (US$ 8,2 milhões) e queda em volume (2,6 mil toneladas), segundo o Sebrae.
"Hoje, acabamos buscando mais em Minas e no Paraná", afirma Raul Ferreira, da Apis Flora, fabricante de derivados como própolis, mel e fármacos.

Fiesp e FGV vão avaliar a gestão das prefeituras de São Paulo
A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a FGV-SP anunciam hoje a criação de um prêmio para avaliar as 645 prefeituras do Estado de São Paulo.
Além de indicadores de saúde e educação, a análise levará em conta a transparência e a responsabilidade fiscal na gestão dos municípios.
"Não faremos um ranking, queremos divulgar experiências positivas", diz o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.
As cidades serão separadas em três categorias, conforme o número de habitantes. Só serão avaliados os municípios que se inscreverem.
"Imaginamos que cerca de 20% das prefeituras participarão", diz o coordenador do projeto Francisco Fonseca.
O prefeito de São Carlos, Oswaldo Barba (PT), vê a iniciativa com bons olhos e diz que pretende participar.

PROCURAM-SE ESCRITÓRIOS
A taxa de vacância de escritórios na cidade de São Paulo deve voltar a cair nos próximos meses, de acordo com a CB Richard Ellis. O índice, que chegou a 3,5% em abril, passou para 4,2% depois do lançamento de um estoque de 48 mil m2.
"Os empreendimentos que entraram no mercado serão absorvidos em pouco tempo", diz o diretor da consultoria Adriano Sartori.
A queda deve ocorrer de forma gradual e dependerá da rapidez com que as empresas ocuparão os imóveis após o fechamento dos contratos, segundo Sartori.

COLMEIA
Uma recente fiscalização na China pelo órgão regulador de saúde local baniu grande parte da produção de própolis por falsificação, abrindo espaço para o mercado brasileiro na demanda chinesa.
A Apis Flora, fabricante de fitoterápicos e produtos à base de mel, própolis e plantas medicinais, acaba de assinar contrato para exportar 12 toneladas de extrato de própolis para o país.
Com o aumento no volume, a China passa a representar 80% das vendas externas da empresa, que terá de receber novos recursos para ampliar mais uma vez a capacidade de produção.
A fábrica em Ribeirão Preto recebeu, nos últimos meses, injeção de cerca de R$ 10 milhões, para atender os requisitos da Anvisa para a produção de medicamentos.
"Com isso, nos tornamos farmacêutica e agora começamos a fazer pesquisas para ter outros produtos, como uma pomada cicatrizante à base de própolis", afirma Raul Ferreira, sócio da Apis Flora.

GIRASSOL
Para criar um salgadinho com novos valores nutricionais, a PepsiCo investiu R$ 57 milhões.
Os recursos foram aplicados na adaptação da linha de produção de seis fábricas no Brasil e no desenvolvimento técnico do produto.
O novo Cheetos, que será lançado neste mês em todo o país, terá redução de 25% de sódio e de 75% de gordura saturada. A mudança na gordura se deve ao uso do óleo de girassol.
Para viabilizar esse projeto, a companhia fechou uma parceria com produtores de girassol nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.
"A parceria é estratégica. Um dos grandes problemas do projeto era a garantia de que teríamos a quantidade necessária do óleo", afirma Patricia Kastrup, vice-presidente da PepsiCo para a área de alimentos.
Cerca de 70% do óleo utilizado vem da parceria com os produtores. "Com treinamento e apoio técnico, temos segurança com a qualidade da matéria-prima."
A companhia já estuda transferir a tecnologia para outras linhas e países, segundo Kastrup.

Logística 
O investimento em processos de logística interna pode reduzir em até 80% o custo das empresas para estocagem de produtos, segundo pesquisa do grupo Imam (Inovação e Melhoramento na Administração Moderna).

Papelaria 
A Newell Rubbermaid acaba de trazer para o mercado brasileiro a Sharpie, de marcadores de texto. Com 80% do mercado americano e presença em mais de cem países, a marca começa a ser vendida neste mês no Brasil.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION

ALBERTO TAMER - País pronto para novas tensões

País pronto para novas tensões
ALBERTO TAMER
O ESTADO DE S. PAULO  - 15/07/11


Tensão econômica nos dois lados do Atlântico Norte. Na Europa, a crise grega se prolonga; nos Estados Unidos, a resistência da oposição conservadora em aumentar o limite de endividamento do governo. Uma atitude irresponsável do Partido Republicano que, defendendo interesses próprios, está colocando em risco o sistema financeiro internacional.

A agência de risco Moody"s alertou que pode reduzir a nota dos EUA se o Congresso não elevar o limite de crédito de US$ 14,3 trilhões para que o governo possa pagar suas dívidas. A S&P deu sinais idênticos. O prazo é 2 de agosto.

As reuniões entre Obama e parlamentares continuavam ontem pelo quinto dia consecutivo, sem solução até o fim da tarde.

Analistas do mercado financeiro acreditam que o Partido Republicano vai acabar cedendo, mas só depois de obter medidas que prejudiquem a reeleição de Obama. Por exemplo, que os recursos para combater a recessão sejam utilizados para pagar o juro da dívida e que sejam cortados os benefícios destinados aos programas sociais, ponto de honra da última campanha de Obama.

Mesmo assim, as tensões aumentaram depois que o presidente do Fed, Ben Bernanke, afirmou no Congresso que será "uma calamidade" se os Estados Unidos não puderem rolar sua divida.

Sem acordo. Na zona do euro, também não há acordo sobre a crise grega. As reuniões se sucederam nesta semana com alguns países pressionando para uma solução e outros afirmando que a Grécia tem recursos para girar sua dívida até setembro com os recursos do último pacote.

Brasil preparado. O Brasil está atento a esse cenário de incerteza nos Estados Unidos e tensões crescentes no mercado financeiro internacional. Atento e preparado para os impactos que possam vir de fora. O sistema financeiro é sólido, sem exposição no exterior.

Como na crise financeira de 2008, pode sofrer efeitos indiretos, por exemplo, na linha de financiamento externo, mas é um problema que não preocupa ou preocupa menos. Não é o caso dos Estados Unidos, onde os fundos de curto prazo têm mais de US$ 3 trilhões aplicados na zona do euro. Mohamed El-Erian, diretor do fundo Pimco, afirmou que o Brasil está em boa posição para apertar suas políticas monetária e fiscal, além de ter o que chamou de "reservas internacionais fartas". Mas deve ficar atento, pois, como os outros, "vai navegar numa economia mundial muito mais volátil", que cresce menos.

Bernanke, mais dólares. O que ele e todos analistas preveem é uma retração no crescimento mundial com repercussões negativas sobre o comércio e tensões cambiais com cada um pretendendo proteger seus mercados. E, aqui, os Estados Unidos preocupam muito, mais que a zona do euro, não só porque desaceleram, mas porque estão adotando medidas que desvalorizam o dólar. E isso pode intensificar-se mesmo com a aprovação do novo limite de endividamento do governo.

Mais dólares. Um sinal disso é que, no Congresso dos Estados Unidos na quarta-feira, Bernanke reafirmou, com mais ênfase, que o Federal Reserve não afasta a possibilidade de oferecer novos incentivos a uma economia que cresce de forma apenas moderada e tem desemprego alto. Quando perguntaram se isso significaria uma nova onda de ativos, ele afirmou: "Todas as opções estão na mesa". E acrescentou com ênfase: "Nós não sabemos para onde a economia vai".

Somando essas declarações, que ele ontem relativizou, e o que revelou a ata da última reunião do Fed, além das entrevistas de vários presidentes regionais do banco, os analistas do mercado acreditam que deve haver mais um afrouxamento monetário nos próximos meses. O terceiro depois da recessão. Se a situação não é boa, sem eles estaria bem pior.

Ou seja, a injeção direta ou indireta de mais dólares no mercado. O que significa maior desvalorização do dólar (ele recuou logo depois do pronunciamento de Bernanke), bom para eles, e maior valorização do real, um problema para nós. Economia americana e europeia crescendo menos e comércio mundial desacelerando, mais problemas aqui. Só vai restar mesmo é o mercado interno que não pode ser desprezado quando a economia para lá fora.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Foi sem nunca ter sido
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 15/07/11

O Palácio do Planalto assegura não ter existido, na prática, a suspensão por 30 dias das licitações e obras do Ministério dos Transportes. O anúncio foi feito por Alfredo Nascimento um dia antes de sua queda, mas a presidente Dilma Rousseff e alguns de seus principais ministros teriam avaliado não haver cabimento nem condições legais -manifestações do Congresso ou do Tribunal de Contas da União- para essa paralisação.
No governo, o discurso é que Nascimento agiu por conta própria, na tentativa de se segurar no cargo e, talvez, estimulado pela fala da própria Dilma de que seria "o responsável pela apuração das denúncias".
Nada muda O diretor de Infraestrutura Ferroviária do Dnit, Geraldo Lourenço de Souza Neto, assegurou a manutenção do projeto de construção de dois viadutos sobre a linha férrea de Mogi das Cruzes, reduto de Valdemar Costa Neto (PR-SP).

Regional 
O governo prepara evento de Dilma com os nove governadores do Nordeste, em Alagoas. A ideia é celebrar uma espécie de pacto da região com o Brasil sem Miséria, focado na atenção a pequenos agricultores e na ampliação do acesso à água.

Para registro
A série de agradecimentos aos congressistas feitos por Dilma no coquetel de anteontem levou o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), a proclamar: "É com aquela Dilma que a gente quer conviver".

Brasil sem copo 
No encontro, a presidente sugeriu um brinde, mas a saudação teve que esperar um tempo -vários convidados não tinham uma taça à mão.

Faroeste 
A Câmara assistiu na segunda a bate-boca entre Domingos Dutra (PT-MA), adversário da família Sarney, e Francisco Escórcio (PMDB-MA), aliado do clã. O peemedebista acusou o petista de mandar sequestrá-lo. "Eu discuto com o dono da fazenda, não com jagunço", respondeu Dutra.

Na real 
Pouco antes de embarcar rumo a Goiânia, onde receberia entusiasmados elogios de Lula, o ministro Fernando Haddad (Educação) fez análise um tanto pessimista sobre suas chances de virar o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo. Ele avalia que a bola está cada vez mais nas mãos da senadora Marta Suplicy.

Aquecimento 
A direção municipal do PT promoverá já no mês que vem sabatinas com os pré-candidatos.

Sem milagre 
Mentor do boicote a Dilma Rousseff na campanha de 2010, d. Luiz Bergonzini, bispo de Guarulhos, apelou à prefeitura, sob controle do PT, na tentativa de evitar o fechamento do hospital que dirige, que acumula dívida de R$ 40 milhões. Não deu certo.

Semântica 

Geraldo Alckmin enfatizou ontem, no lançamento do seu Via Rápida do Emprego, a expressão "porta de saída", que embute a histórica crítica dos tucanos aos programas de transferência de renda do PT. A terminologia é vedada no Brasil Sem Miséria, de Dilma, que prefere o conceito de "inclusão produtiva".

Belezura 

Já de olho no turismo da Copa-2014, Alckmin quer acelerar a obra do Jardim Metropolitano, concebido por Ruy Ohtake, no Parque Ecológico do Tietê. O projeto contempla o corredor de acesso do aeroporto de Cumbica à capital.

Dérbi 
O colorado Tarso Genro (PT-RS) recebe hoje comitiva gremista no Piratini. Dirigentes do clube vão cobrar do governador obras no entorno da futura arena.
com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Nesse ritmo, o Kassab será obrigado a assistir a eleição de 2012 da arquibancada."
DO DEPUTADO ACM NETO (DEM-BA), sobre a corrida do PSD para certificar as assinaturas de apoio nos cartórios a fim de conseguir seu registro em tempo hábil -até 7 de outubro deste ano- para participar da disputa de 2012.

contraponto

A vida começa aos 80

Em jantar oferecido por Geraldo Alckmin a Fernando Henrique Cardoso anteontem na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes, o governador sugeriu um brinde ao ex-presidente, que comemora 80 anos:
-Queria pedir agora um brinde à saúde do ex-presidente da República e agora presidente de honra da nossa Juventude Tucana.
O homenageado da noite prontamente interveio:
-De honra não! Presidente efetivo!

TREM DE BANDIDOS

MARINA SILVA - Recomeço

Recomeço
MARINA SILVA
FOLHA DE SP - 15/07/11

Pouco antes de ter oficializada a minha candidatura à Presidência da República, em junho de 2010, encerrei minha participação como colunista deste jornal. Despedi-me apontando para a extraordinária força política da sociedade e insistindo na urgência de nos mobilizarmos para mudar os rumos do país.
Não falava de forma genérica, mas, sim, da prioridade de começarmos a sair daquilo que a muitos parece ser um destino patrimonialista inexorável, em direção ao aperfeiçoamento da democracia, com prevalência de valores coletivos e do interesse público.
Reiterei a certeza de que somente a militância civilizatória da própria sociedade poderá nos levar a outro patamar de desenvolvimento. Por coincidência, retorno logo após outra grande decisão: minha desfiliação partidária. Agradeço à Folha a nova oportunidade de compartilhar com seus leitores esse momento de intensa reflexão sobre como seguir contribuindo para ampliar a causa da sustentabilidade.
Ao deixar a vida partidária, não rompi com a compreensão de que as instituições públicas -entre as quais os partidos- só poderão ser consideradas como tal se forem abertas à participação de todos. Nelas, afirma-se a existência ou não da democracia.
No debate e no confronto de ideias, na ação dos diferentes atores políticos, as instituições públicas constituem o instrumento que garante o cumprimento dos preceitos constitucionais e dos direitos fundamentais.
O Estado democrático contemporâneo é uma obra de engenharia política a todo momento confrontada com desafios que o obrigam a se reinventar, mas um fator nunca muda: os governos e quaisquer instâncias representativas precisam ser legitimados pela sociedade, ainda que as autoridades sejam ungidas, pela lei, com responsabilidades e prerrogativas de poder.
Isso só funciona se as autoridades não esquecerem qual é a fonte real do seu poder.
Nem sempre é compreendido que a necessidade de respostas, a ação e a reação são direitos da sociedade, e quando eles não são exercidos, quem perde é a democracia.
É preciso que o cidadão tome nas mãos o que é seu e faça valer sua vontade, inclusive a de mudar o sistema político. É como um circuito elétrico, que só terá valia se houver energia a circular nele.
Sem interação com a sociedade, as instituições públicas tornam-se arcaicas, mera soma dos interesses privados de muitos matizes, diminuídas e empobrecidas pelo clientelismo de tempos imemoriais.
O mundo de múltiplas crises em que vivemos é o mesmo que nos possibilita múltiplas respostas. A questão é como ajudar a constituir e a viabilizar um novo idioma político, que nos auxiliará a resolver a estagnação civilizatória a que estamos submetidos.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - TCM e Kassab: tudo a ver

TCM e Kassab: tudo a ver
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 15/07/11

SÃO PAULO - Num resumo bruto, o relatório anual do TCM (o Tribunal de Contas do Município) diz que Gilberto Kassab gastou o dinheiro mas não entregou a mercadoria. Os termos não são esses, obviamente. Tudo é mais sóbrio e supostamente mais sério, mas só supostamente.
O TCM chegou à conclusão de que o prefeito gastou mais do que a lei exige com saúde e educação, além de ampliar os gastos com transporte em 2010. Isso, porém, não impede que um exame neurológico no sistema municipal de saúde ainda demore, em média, mais de sete meses. Ou que a rede de semáforos da cidade tenha se degradado e viva em pane. Ou ainda que a tarifa da passagem de ônibus tenha subido acima da inflação, apesar do subsídio público de quase R$ 1 bilhão às empresas da área.
São todos exemplos do TCM. A despeito do que as evidências sugerem (onde está o dinheiro?), o mesmo TCM deu parecer favorável à aprovação das contas de Kassab. Se acontecesse o contrário (mas não corremos esse risco), não haveria problema: a Câmara Municipal derrubaria o relatório do seu órgão auxiliar e aprovaria as contas.
Já que nada tem consequências práticas, tudo, no fim, se resume a um grande teatro da transparência: o TCM finge que fiscaliza, a Câmara finge que o leva a sério e o prefeito finge que vai tomar providências. Ano após ano, nada acontece.
O orçamento do TCM para este ano é de R$ 208,3 milhões, quase metade do previsto para a Câmara. É muito dinheiro para este cabidão de empregos a serviço de apaniguados, aliados sem mandato e políticos em final de carreira.
Há também, é claro, pessoas sérias e qualificadas entre as centenas de técnicos do TCM. Mas seu trabalho, na prática, serve para justificar a sinecura, ou coisas piores, de uma cúpula de conselheiros sempre disposta a praticar a indulgência com o dinheiro alheio, mesmo quando faz "reparos" à ação do Executivo. Kassab agradece empenhado ao órgão fiscalizador.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Se para o Planalto Pagot pode não ficar, me avise que ele sai logo”
SENADOR BLAIRO MAGGI (PR-MT), DONO DO PASSE DE LUIZ PAGOT, DIRETOR-GERAL DO DNIT

RETOMADA DO MENSALÃO FEZ DILMA ENCARAR O PR 
A presidente Dilma decidiu encarar a cúpula do Partido da República, afastando-a do comando do Ministério dos Transportes, não por meras “suspeitas”, mas após ser informada, por órgãos de inteligência, de que o PR teria implantado um novo mensalão, com distribuição de dinheiro vivo para parlamentares. A informação foi confirmada por fonte ligada ao Palácio do Planalto. O caso deve ser remetido à Polícia Federal.

AFASTAMENTO 
Ao tomar conhecimento do esquema, Dilma mandou afastar Mauro Barbosa e Luiz Tito, ex-assessores do ministro, e Luiz Pagot, do Dnit.

BANCADA MENSALEIRA 
A denúncia a ser investigada é que mais de trinta deputados do PR e outros dez de partidos menores estariam na folha do novo “mensalão”.

VELHO CONHECIDO 
Valdemar Costa Neto (SP), “dono” do PR, é réu do STF no mensalão do era Lula, e está sujeito a mais de um século de prisão.

HÁ EXCEÇÕES 
Políticos do PR como o senador Clésio Andrade (MG) e Sandro Mabel, que não rezam na cartilha do “dono”, sofrem ameaças de expulsão.

ANTAQ APROVEITA CRISES PARA FORÇAR “PRIVATIZAÇÃO” 
Fernando Fialho, diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), aproveitou as crises políticas envolvendo os ex-ministros Antonio Palocci e Alfredo Nascimento para tentar emplacar – em longo ofício ao Tribunal de Contas da União – o entendimento de empresas como a empreiteira Odebrecht, favorável à privatização branca dos portos no País, em posição oposta a do governo Dilma.

NOVO MARCO 
Ainda ministro, Antonio Palocci informou ao TCU que o governo apenas estuda um novo marco regulatório para o setor portuário.

MUITO SUSPEITO 
O Sindicato dos Operadores Portuários da Bahia também fez ao TCU grave denúncia sobre o favorecimento da Antaq a grupos privados.

OUTRA DA ANTAQ 
A denúncia: a Antaq cobra R$ 6,90 dos portos públicos por tonelada de carga movimentada e só R$ 0,36 dos privativos, em prejuízo do Erário.

HONRA AO MÉRITO 
Diretor de Infraestrutura do Dnit, o petista Hideraldo Caron, que as más línguas chamam de “Caríssimo”, tem prestígio em Minas: ganhou do governador tucano Antonio Anastasia a medalha da Inconfidência. 

TRAJETÓRIA 
O gaúcho Hideraldo Caron é um sobrevivente: teve contas rejeitadas na direção do Departamento de Estradas e Rodagens e apareceu em inquérito criminal em 2006, por suposto envolvimento na máfia
do lixo. 

CLASSIFICADOS 
Um presidente desempregado ronda nossas fronteiras: o Senado do Paraguai rejeitou a emenda constitucional permitindo a reeleição do ex-bispo papão Fernando Lugo. Nem poderá se queixar a ele mesmo. 

LUZ NO TÚNEL 
Na última visita ao Rio Grande do Sul, o então presidente Lula bancou o durão em público, com seu amigo Hideraldo Caron, na duplicação da BR-101: “Quantos palavrões eu disse e batidas na mesa eu fiz (ao telefone). Toda reunião eu perguntava (a Caron): “E o meu túnel?”. 

ABANDONO 
A Academia Brasileira de Letras esperava que o imortal Paulo Coelho, campeão mundial de vendas, fosse o seu “garoto propaganda” mundo afora. Ele vive na França, e nem por carta votou, nas últimas eleições.

E O CLIENTE, Ó... 
Leis municipais proíbem agora que clientes falem ao celular dentro dos bancos. É para dificultar as “saidinhas”, quando o malandro identifica a vítima e avisa ao comparsa na rua. Com a polícia é incapaz de combater o roubo, o cliente, coitado, cada vez mais perde os direitos de cidadão.

TUNGA NO AEROPORTO 
Quem vai viajar e tenta comprar dólares ou euros na casa de câmbio Confidence, do aeroporto de Brasília, é surpreendido pela cobrança de uma tarifa da Infraero no valor de R$ 10. E ninguém é processado.

AVON CHAMA! 
Depois da China, México, Argentina, Índia e Japão, a corrupção bate à porta da multinacional de cosméticos no Brasil: a Justiça americana vai investigar suposto suborno a autoridades para “agilizar” negócios.

PERGUNTA NA ESTRADA 
No Dnit, “taxa de sucesso” virou “taxa de escopo”? 

PODER SEM PUDOR
MÃO NA CUMBUCA 
Dia desses, em plena crise das denúncias de ladroagem no Ministério dos Transportes, o abonado senador Blairo Maggi (PR-MT), maior plantador de soja do planeta, dirigiu-se ao caixa logo após almoçar no restaurante do Senado. Muito à vontade, mergulhou a mão direita no baleiro sobre o balcão, enchendo-a de caramelos e balinhas. Justificou:
– Tenho que me abastecer para o resto da tarde...
Como se não tivesse condições de comprar as guloseimas por seus próprios meios.