domingo, janeiro 30, 2011

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Notas de verão
RANIER BRAGON - INTERINO
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/11

Vários dos 41 suplentes de deputado federal que assumiram o mandato apenas no mês de janeiro, de férias legislativas, usaram a verba de custeio da atividade parlamentar. Até quinta, os "deputados de verão" já haviam consumido R$ 186 mil só nessa rubrica.
Apesar do Congresso fechado e da brevidade do mandato-tampão, há gastos elevados com consultorias, "divulgação do mandato", combustível, aluguel de carros, restaurantes e telegramas. O suplente Flávio Antunes (PSDB-PR), por exemplo, remunerou em R$ 5.000 um jornal de sua região. Sua assessoria diz que pelo acerto o veículo divulgava releases do deputado e destacava repórter para cobrir suas atividades.

Auxílio 1 
O suplente Salles (DEM-SP) gastou R$ 8,4 mil em consultoria. Ele disse que precisou de ajuda técnica para os 15 dias em que assumiu. No período, o deputado afirmou ter solicitado providências a ministérios, como pedido de delegacias, farmácias e UPAs em seu reduto. Garantiu ainda ter pago a própria estadia e a alimentação em Brasília.

Auxílio 2 
Também cobrou reembolso da Câmara por consultorias (R$ 6.000) o deputado-tampão Itamar Rocha (PMDB-RN).

Comercial Cinco dos suplentes usaram suas verbas a título de divulgação do mandato-tampão. Iara Bernardi (PT-SP), por exemplo, gastou R$ 17 mil para confeccionar jornais, segundo a gráfica.

Apetite No roteiro gastronômico dos suplentes, aparecem estabelecimentos como "Peixadinha Baiana", "Choperia Martins & Pavan", "Restaurante e Choperia Al Mare", "Boteco das Onze" e "Nega Maluca Doceria".

RitoOs "deputados de verão" assumiram o mandato no lugar de titulares que foram para cargos no Executivo. Além da verba de custeio, eles recebem todos os outros benefícios, incluindo R$ 60 mil para contratação de assessores. Há na Câmara propostas de emenda à Constituição para desobrigar a Casa de preencher essas vagas em períodos de recesso.

Limbo 
No Planalto, comenta-se que há uma leva de ministros que encerra o primeiro mês com a sensação de que não conseguiu, até agora, despertar a menor atenção da presidente.

Seguro Temendo a influência de Gilberto Kassab (DEM) sobre os vereadores tucanos da capital, aliados de Geraldo Alckmin passaram a defender a candidatura de Julio Semeghini, secretário de Gestão Pública, à direção do PSDB paulistano.

Neoaliados 

Petistas apostam que, sob comando de Michel Temer, o PMDB-SP estará no polo oposto ao dos tucanos paulistas em 2014.

Infiltrado 
Dilma mandou "emissário" ao café da manhã oferecido por Alckmin ao ministro Orlando Silva (Esporte) anteontem. Maurício Muniz Barreto de Carvalho, que foi assessor direto da presidente e hoje atua na Casa Civil, esteve no Bandeirantes para falar do PAC.

Flashback
 
Escolhida por Alckmin para chefiar autarquia de artesanato, Soninha Francine acusou o tucano na campanha municipal de 2008 de copiar proposta sua de revitalização do centro. "Se não tiver copiando é muita coincidência." Na mesma época, rejeitou composição com o então rival por considerá-lo "do centro para a direita no PSDB".

Nome aos bois 
O governo de SP consulta a Procuradoria-Geral do Estado para divulgar na internet a lista de 220 mil beneficiários do Renda Cidadã e do Ação Jovem.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Tiroteio


"Acho ótimo o PT pagar salário para o Lula. Se dessa forma o ex-presidente se comprometer a não fazer palestras, defendo, inclusive, uma pensão vitalícia para ele."
DO DEPUTADO CARLOS SAMPAIO (PSDB-SP), sobre o pagamento de R$ 13 mil mensais a Lula, que reassumirá o cargo simbólico de presidente de honra do PT.

Contraponto

Nas ondas
 
Em reunião da bancada do PSDB, na última quarta, o secretário de Energia de São Paulo, José Anibal, comentava ter visto na TV a informação de que o Brasil possui mais de 202 milhões de telefones celulares, superando a população do país.
No mesmo momento, o novo líder da base tucana na Câmara, Duarte Nogueira (SP), comandava o encontro falando ao microfone. Mas sem abandonar o celular, na sua mão. Aníbal interveio:
-Vejam. Só o Duarte, por exemplo, tem três!

GOSTOSA

ELIO GASPARI

OAB volta a flertar com o voto de lista
ELIO GASPARI
O GLOBO - 30/01/11

Os doutores sabem tudo e acham que a patuleia não deve escolher seu deputado nominalmente


DENTRO DE ALGUMAS semanas, o Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil apreciará o relatório de um seminário que organizou para discutir a reforma política. Nele reapareceu, em grande estilo, a proposta de adoção do voto de lista para a escolha dos deputados.
Pelo sistema atual, na eleição de 2006, um cidadão votou em Delfim Netto e elegeu Michel Temer. Pelo voto de lista, o eleitor simplesmente perde o direito à escolha nominal de seu candidato. Fica obrigado a votar num partido, e irão para a Câmara os candidatos listados pela caciquia, na ordem que ela tiver estabelecido.
O relatório dos doutores argumenta que só 10% dos deputados chegam à Câmara tendo atingido a marca necessária para assegurar-lhes a cadeira. Os demais elegem-se com os votos dos outros, como sucedeu em São Paulo com os partidos coligados ao palhaço Tiririca.
Tudo bem, mas fica uma questão: 100 % dos eleitores votam no candidato que preferiram. Esse direito querem tirar à patuleia. Quem quis votou em Delfim e quem quis votou em Temer, assim como outros decidiram-se por Tiririca. É o jogo jogado.
Quando os generais quiseram qualificar os votos, deu no que deu. Em 1969, eles descobriram que o voto de um general que comandava uma mesa não valia o mesmo de um colega que comandava uma tropa.
A Ordem dos Advogados do Brasil é a guilda dos advogados brasileiros. Há profissionais que gostam do sistema atual, outros preferem as listas, assim como há partidários das diversas modalidades de voto distrital. Por que a Ordem pode pretender falar em nome de todos em assuntos estranhos à profissão?
Isso, fazendo-se de conta que todos os advogados são democratas, o autor do Ato Institucional nº 5, Luis Antonio da Gama e Silva, era veterinário, e não ex-diretor da Faculdade de Direito do largo São Francisco. Seu sucessor, Alfredo Buzaid, que também dirigiu a faculdade, seria astrônomo. O AI-5 vigorou por dez anos, metade desse tempo, com os dois doutores no Ministério da Justiça.
Além de um vício de representatividade, há nessa iniciativa a marca do partidarismo. Em 2007, com o apoio expresso da caciquia petista açoitada pelo mensalão, a OAB já insinuou seu patrocínio ao voto de lista. Depois a sugestão foi arquivada. Mais: a Câmara dos Deputados já rebarbou essa proposta em duas ocasiões.
Sobra uma bonita campanha: enquanto as seccionais da OAB são eleitas pelo voto direto dos advogados, sua direção nacional é escolhida por um conselho. A Ordem podia organizar outro seminário, para discutir uma palavra de ordem com a qual escreveu uma das mais belas páginas de sua história: "Diretas-Já".

ECO DO PLANALTO

Ecoa por Brasília frase ouvida pelos caciques do PMDB que foram ao Planalto para reclamar da partilha de cargos e ouviram um diagnóstico do desempenho de um de seu postulantes: "Isso que está aqui é caso de cadeia".

ECO DO PMDB

Ecoa no Planalto uma frase do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-presidente da falecida Telerj (governo Collor), da Companhia Estadual de Habitação do Rio (governo Garotinho) e atento observador da administração de Furnas (governo Lula), reclamando dos petistas:
"É impressionante o instinto suicida desses caras. (...) Quem com ferro fere com ferro será ferido".
A choldra ferrada torce para que todo mundo saia ferido.

ELETROSURINAME
Na tarde da última quinta-feira, a Eletropaulo deixou uma parte da região da avenida Paulista sem energia durante cinco horas.
Até aí, tudo bem, mas parece que a EletroSuriname tem um plano para queimar equipamentos da freguesia. Em duas ocasiões, a energia voltou, religou tudo, e voltou a cair.

HARVARD NO BRASIL
Além do companheiro Obama, virá ao Brasil em março a presidente de Harvard, a professora Drew Faust, que substituiu o economista Lawrence Summers, de atribulada memória. Ela passará por São Paulo e pelo Rio entre os dias 23 e 25.
Faust tornou-se a primeira mulher a dirigir a universidade, fundada em 1672. Ela é historiadora, especializada no estudo da Guerra Civil, autora de pouco blá-blá-blá e muita pesquisa em cima de papéis velhos.

GOLPE À VISTA

Alguns sábios das operadoras de planos de saúde querem ressarcir o SUS pelo atendimento de sua clientela na rede pública compensando a Viúva com créditos em exames laboratoriais.
Há anos o calote passa por baixo das mesas da Agência Nacional de Saúde e, segundo o Tribunal de Contas, entre 2003 e 2007 as operadoras já embolsaram R$ 2,6 bilhões.
A proposta é curiosa. Seria um retorno ao escambo do tempo em que os índios trocavam pau-brasil por machadinhas. As operadoras cobram da choldra em reais e pagariam ao SUS com exames feitos por terceiros. Seria o caso de se contrapropor que a escumalha pagasse suas mensalidades com bananas, repolhos e latas vazias.

MADAME NATASHA

Madame Natasha cuida de evitar que o idioma português seja colocado em áreas de risco. Ela concedeu uma de suas bolsas de estudo ao doutor Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, pela seguinte pérola:
"A imaterialidade do trabalho, mesmo nas fábricas, por efeito da automatização e das novas tecnologias de informação e comunicação, torna o exercício laboral mais intenso e extenso".
Natasha acredita que ele ouviu dizer o seguinte: "Ganharás o pão com o suor do teu rosto".

TORRE DE BABEL

Na quinta-feira, Nova York oferecia um espetáculo para os americanos que combatem os imigrantes que trabalham sem a documentação necessária.
Nas principais avenidas havia milhares de trabalhadores removendo uma camada de neve de um metro de altura. Podia-se atravessar 50 quarteirões sem ouvir uma palavra de inglês nas equipes que desobstruíam os caminhos.

NO EGITO O BURACO É MAIS ACIMA


Se o companheiro Obama conseguir se livrar do ditador egípcio Hosni Mubarak, terá tirado a meia sem descalçar o sapato.
Ao contrário do que sucedia na Tunísia, o faraó é um militar e sua cleptocracia vive entre os cofres públicos e os quartéis.
Se isso fosse pouco, os arquivos do aparelho policial de Mubarak guardam a lembrança da cooperação dos generais egípcios com a máquina de repressão montada no governo de George Bush.
A papelada do WikiLeaks começou a abastecer a crise on-line.
Em algum lugar, no Cairo, está o registro dos entendimentos que cimentaram a colaboração dos torturadores militares e policiais egípcios com a CIA.
Em 1978, o presidente Jimmy Carter puxou o tapete do xá do Irã acreditando que no seu lugar entraria um governo moderado. Deu no que deu, e Ronald Reagan foi para a Casa Branca.

ILIMAR FRANCO

Panela de pressão
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 30/01/11

Os movimentos sociais estão inquietos com a presidente Dilma Rousseff. Reclamam de falta de diálogo. O maior foco de insatisfação é no MST e na UNE. O último desgaste é com as indicações para a presidência do Incra e para a Secretaria Nacional de Juventude. As centrais sindicais já estavam organizando um ato dos movimentos sociais crítico ao governo Dilma, mas recuaram ao serem chamados para negociar o salário mínimo.

A CNI entra em campo

Para pressionar o novo Congresso a votar projetos que dariam mais competitividade à indústria, a CNI vai receber deputados e senadores amanhã com 12 painéis espalhados por Brasília. Dois projetos são considerados prioritários: o que concede autonomia financeira às agências reguladoras e o que regulamenta o trabalho terceirizado. O presidente da CNI, Robson Andrade, lhes entregará um kit com carta dizendo que as empresas brasileiras estão perdendo mercado. 

Mulheres
O tema das comemorações do Dia Internacional da Mulher, organizadas pela ministra Iriny Lopes (Política para as Mulheres), será a erradicação da pobreza. Como a data cai no carnaval, o evento será na primeira semana de março. 

Vamos manter a independência, mas a tendência é de aproximação com o governo” — Dr Aluízio, deputado federal (PV-RJ), sobre a escolha do deputado Sarney Filho (MA) para líder da bancada do Partido Verde 

O governo Dilma e o salário mínimo
Mesmo que o governo tenha endurecido seu discurso, seus integrantes estão convencidos de que terão de negociar um reajuste maior que os R$545. No Palácio do Planalto já há quem fale em R$550. Mas a orientação é fincar pé e adiar ao máximo qualquer concessão. Pelo cronograma, não dá para ceder agora, pois o mínimo só deve ser votado nos primeiros dias de março. Somente depois de vencer esta etapa é que o governo vai tratar da correção da tabela do Imposto de Renda.

A seis mãos
Nunca antes na História um governo deu tanta importância à política. O governo Dilma Rousseff tem três articuladores: os ministros Antonio Palocci (Casa Civil), Luiz Sérgio (Relações Institucionais) e o vice-presidente Michel Temer. 

Colocados em segundo plano

Os sem-terra querem emplacar na presidência do Incra Celso de Lacerda, atual diretor de Obtenção de Terras e Implantação de Projetos de Assentamento. E a UNE indicou para a Secretaria Nacional de Juventude Danilo Moreira da Silva, atual secretário-adjunto. O problema é que essas indicações teriam caído no “limbo”. Os movimentos sociais reclamam que a presidente Dilma já recebeu até o diretor da São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, mas não conversou com eles. Há um acúmulo de insatisfações. O MST não gostou, por exemplo, da escolha do novo ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence.

A CURTO prazo, uma das possibilidades analisadas por Ciro Gomes é administrar a Zona de Processamento de Exportação do Pecém, no Ceará.

FUNCIONÁRIOS da Câmara estão inconsoláveis porque o deputado eleito Tiririca (PR-SP) faltará ao curso que explica as funções de um parlamentar. Ele foi internado para tirar pedras na vesícula. 

DO NOVO
 líder do PSDB, deputado Duarte Nogueira (SP), um dia após documento de apoio à recondução de Sérgio Guerra à presidência do partido abrir uma crise no PSDB: “É animado ser líder”.

SURDO

FÁBIO COLLETTI BARBOSA

Agora, vai!
FÁBIO COLLETTI BARBOSA
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/11


Não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada


O BRASIL VIVE UM momento muito especial. O contexto nos é favorável visto de muitos ângulos. Parece que estamos diante de um alinhamento de conjunturas único na história de um país.
Temos um percentual elevado de pessoas em idade de trabalhar, comparativamente à população total (o chamado "bônus demográfico"), que nos beneficiará ainda por duas décadas; temos a incorporação de novos consumidores por conta de uma renda maior; os preços de nossas commodities estão em patamares históricos; a potencialidade do pré-sal é enorme; os investimentos em infraestrutura trarão grandes oportunidades para muitos; a Olimpíada, a Copa do Mundo etc.
Enfim, são vários aspectos positivos e todos com perspectiva de perdurar por algum bom tempo.
Analisando sob uma perspectiva apartidária, tivemos também um alinhamento positivo e coerente no perfil dos nossos governos.
Numa primeira fase, o governo do presidente FHC estabilizou a moeda e desenhou e fortaleceu as instituições. Com isso, foram criadas as condições para o governo do presidente Lula intensificar os programas sociais e incorporar uma massa enorme de brasileiros a um novo patamar de consumo.
Essa nova base de consumidores, por sua vez, trouxe novas demandas em termos de infraestrutura (aeroportos, estradas, energia etc.), e o governo da presidente Dilma, que agora se inicia, tem justamente o perfil mais executivo, necessário para este momento, e levará adiante com eficiência a extensa agenda de investimentos.
Daí a expressão coloquial que está no título deste artigo: agora, vai!
Entretanto, não nos deixemos levar pela empolgação e lembremos que é preciso adaptação a esse novo cenário. Destacarei aqui apenas duas questões: competitividade e educação que, na verdade, são interligadas.
1) Competitividade - Num país com tantas perspectivas favoráveis, e que já acumula US$ 300 bi em reservas, é claro que o interesse por parte dos investidores internacionais é muito grande e, como consequência, o câmbio se valoriza.
Podemos tomar medidas no curto prazo para atenuar o processo, mas não temos como reverter a condição de que não escaparemos de ter uma moeda valorizada. Assim foi com as economias que se destacavam no século 20, como Inglaterra, EUA, Alemanha e Japão. As moedas valorizavam, mas os países nunca deixavam de ser competitivos.
Isso reforça que precisamos nos preparar para sermos competitivos com essa moeda valorizada. Ineficiências tributárias, fiscais ou custos elevados por conta de uma infraestrutura deficiente não mais poderão ser compensados por um câmbio desvalorizado.
É hora de fazermos as reformas e construirmos um ambiente empresarial mais eficiente, à altura das nossas possibilidades.
2) Educação - Esse momento favorável precisa ser aproveitado em todo o seu potencial, e é claro que já não o estamos fazendo.
Há dados positivos e que mostram que hoje 70% dos jovens da classe C têm um nível escolar mais alto do que o familiar.
Entretanto, essa comparação positiva feita sobre uma base muito baixa esconde uma realidade bem menos aceitável. Vista sob outra ótica, há falta de mão de obra qualificada para podermos levar adiante os projetos necessários.
Muitos jovens, por conta da evasão escolar ou por conta da baixa qualidade de ensino, estarão condenados a ficar à margem desse processo de desenvolvimento que estamos vivendo.
É hora de darmos prioridade total à educação nas esferas federal, estadual e municipal, com o apoio da iniciativa privada onde puder ser feito, para resgatarmos essa dívida maior que ainda temos. Só assim podemos dar oportunidade a cada brasileiro de se desenvolver na sua potencialidade, e só assim teremos construído um país mais digno.
Tudo aponta para um longo período de crescimento. Nosso principal desafio agora é pavimentar o caminho. Do contrário, teremos que prestar contas para as próximas gerações sobre como perdemos essa oportunidade única.


FÁBIO COLLETTI BARBOSA, 55, administrador de empresas, é presidente do Grupo Santander Brasil e da Febraban.

MARA GABRILLI


Cocaína, prisão, educação

MARA GABRILLI
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/11


Os desafios para combater o tráfico são imensos e exigem tanta coragem e esforço quanto para que avancemos em políticas educacionais


Patricia e Funani são sul-africanas. Karima é marroquina; Rodora, filipina; Ligia, moçambicana; Ireri, mexicana; Hadja e Jéssica são francesas. Estão cumprindo pena em São Paulo por tráfico de drogas.
Fui apresentada a elas pelo secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo, por meio de um projeto cultural da Funap (Fundação de Amparo ao Preso) nas penitenciárias. Falei de superação e cidadania para 120 presas enquanto a ocupação do Complexo do Alemão no Rio dominava as manchetes dos jornais.
Essas estrangeiras refletiram sobre liberdade e sobre serem prisioneiras de suas escolhas de modo tão profundo que percebi uma enorme diferença de acesso à educação em relação às brasileiras. Não que ir à escola impeça as escolhas erradas, mas favorece, sim, a reinserção social.
O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), a avaliação educacional mais relevante do mundo, procura medir também a capacidade dos estudantes de refletir, argumentar e comunicar. A mais recente, divulgada no início de dezembro, apontou uma melhora na educação brasileira, porém ainda ocupamos a 53ª posição em leitura e ciências e a 57ª em matemática, em ranking de 65 países.
A leitura é a habilidade mais valorizada. Para ter a nota mais alta, o estudante deve combinar múltiplas e diferentes partes de informações independentes, de contexto não familiar, em ordem precisa. Só 1,4% dos alunos atingiram esse nível.
E ali estava a francesa Hadja, presa em uma penitenciária no Brasil, que resumiu minha palestra para algumas sul-africanas que não dominavam o português e que se queixaram de que haviam perdido muito do conteúdo.
Compreendeu e sintetizou diante de todos uma explanação em uma língua que não é a sua e a traduziu para um terceiro idioma. A França ocupa a 22ª posição no Pisa.
Pergunto-me o que leva pessoas talentosas como Hadja, que podem ter outras oportunidades, a violar seus corpos, carregando cocaína dentro deles. Segundo a Polícia Federal, desde 2008 as prisões por tráfico de drogas no Aeroporto Internacional de Cumbica aumentaram 253%. Em 2010, a ONU apontou o Brasil como o principal corredor de cocaína do mundo.
Em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, a violência imposta pelo narcotráfico faz com que as crianças moradoras das favelas tenham mais problemas de aprendizagem do que seus colegas que não moram em áreas de risco. Mas são essas as crianças que mais precisam das oportunidades da educação para sair da pobreza.
Os desafios para combater o tráfico nas cidades e nas fronteiras são imensos. Exigem tanta coragem e esforço quanto para avançar em políticas para uma educação universal e de qualidade. Ambos são complexos, multifacetados e vitais para melhorar a qualidade de vida, especialmente dos mais excluídos.
Por isso, aguardo com ansiedade conhecer as medidas que serão tomadas pelo novo governo, já que há muito a ser feito e a investir nessas áreas no Brasil.
MARA GABRILLI, psicóloga, publicitária, é vereadora de São Paulo pelo PSDB e deputada federal eleita.

GOSTOSA

SILVANA ARANTES

Ana e o do-in
SILVANA ARANTES
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/11


Ao se tornar ministro da Cultura, em 2003, Gilberto Gil disse que era preciso "fazer uma espécie de do-in antropológico, massageando pontos vitais do corpo cultural do país, para avivar o velho e atiçar o novo".
Ana de Hollanda, que assumiu a pasta neste mês, parece preferir o reiki. A ministra afastou as mãos do ponto que a gestão Gil (2003-2008) e a de seu sucessor, Juca Ferreira, mais pressionaram, embora sem resultados concretos.
Trata-se do propósito de reordenar o sistema de patrocínio a produções culturais, consignado num projeto que extingue a lei federal de incentivo à cultura (Rouanet) e a substitui por mecanismos que conferem ao MinC mais autonomia para gerir os recursos hoje movimentados via lei (cerca de R$ 1 bilhão/ ano).
Discutido ao longo de quase todo o governo Lula, o projeto de reforma da Lei Rouanet só conseguiu ir ao Congresso no início de 2010. Em dezembro passado, escalou o primeiro degrau -foi aprovado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara.
Se Gil evidenciou sua meta já no discurso de posse, quando tomou distância dos "caprichos do deus-mercado" e afirmou a necessidade de regulá-lo, para corrigir suas distorções, Ana de Holanda fez o mesmo, pelo caminho inverso ao da veemência.
A ministra não pronunciou uma única vez o vocábulo "mercado" na fala de sua posse. Quando se referiu à Lei Rouanet, o fez de forma indireta e em tom crítico, dizendo ser preciso "descentralizar sem deserdar".
A concentração de patrocínios da Rouanet no Sudeste, tida como antirrepublicana pelo duo Gil/Juca, era o pilar do discurso por uma reforma da lei que pulverize seus recursos pelas demais regiões.
Ao Congresso, Ana de Hollanda rogou agilidade na aprovação do Vale Cultura, que vem a ser um programa de subvenção do consumo cultural. Nenhuma palavra sobre a Lei Rouanet.
A ministra disse e reiterou que a figura do artista será o foco de suas atenções e ações. No que tange os criadores, ela também se distanciou da gestão anterior.
Estava em curso no MinC a ideia de rever a lei do direito autoral pelo viés da "flexibilização" dos direitos de autor, dado o cenário de crescente difusão digital de produtos culturais. O freio da ministra a esse objetivo foi suave, mas inequívoco.
A julgar por seus passos iniciais e pela promessa de "continuar sem repetir", é provável que Ana de Hollanda não promova nem fortes recuos -temor dos simpatizantes da dupla Gilberto Gil/Juca Ferreira- nem redirecionamento das políticas do MinC- anseio dos adversários da gestão passada. Mas apenas deixe tudo como está. Ou não.
SILVANA ARANTES é editora-adjunta da Ilustrada.

LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA e MIGUEL NAGIB

Direito dos pais ou do Estado?
LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA e MIGUEL NAGIB
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/11


Impõe-se que questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias de ensino; quando muito, podem integrar disciplina facultativa


No começo de 2010, pais de alunos da rede pública de Recife protestaram contra o livro de orientação sexual adotado pelas escolas. Destinada a crianças de sete a dez anos, a obra "Mamãe, Como Eu Nasci?", do professor Marcos Ribeiro, tem trechos como estes: "Olha, ele fica duro! O pênis do papai fica duro também?
Algumas vezes, e o papai acha muito gostoso. Os homens gostam quando o seu pênis fica duro." "Se você abrir um pouquinho as pernas e olhar por um espelhinho, vai ver bem melhor. Aqui em cima está o seu clitóris, que faz as mulheres sentirem muito prazer ao ser tocado, porque é gostoso."
Inadequado? Bem, não é disso que vamos tratar no momento. O ponto que interessa está aqui: "Alguns meninos gostam de brincar com o seu pênis, e algumas meninas com a sua vulva, porque é gostoso. As pessoas grandes dizem que isso vicia ou "tira a mão daí que é feio". Só sabem abrir a boca para proibir. Mas a verdade é que essa brincadeira não causa nenhum problema".
Considerando que entre as pessoas que "só sabem abrir a boca para proibir" estão os pais dos pequenos leitores dessa cartilha, pergunta-se: têm as escolas o direito de dizer aos nossos filhos o que é "a verdade" em matéria de moral?
De acordo com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH), a resposta é negativa. O artigo 12 da CADH reconhece expressamente o direito dos pais a que seus filhos "recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com suas próprias convicções". É fato notório, todavia, que esse direito não tem sido respeitado em nosso país.
Apesar de o Brasil ter aderido à CADH, o MEC não só não impede que o direito dos pais seja usurpado pelas escolas como concorre decisivamente para essa usurpação, ao prescrever a abordagem transversal de questões morais em todas as disciplinas do ensino básico.
Atendendo ao chamado, professores que não conseguem dar conta de sua principal obrigação -conforme demonstrado ano após ano por avaliações de desempenho escolar como o Saeb e o Pisa-, usam o tempo precioso de suas aulas para influenciar o juízo moral dos alunos sobre temas como sexualidade, homossexualismo, contracepção, relações e modelos familiares etc.
Quando não afirmam em tom categórico determinada verdade moral, induzem os alunos a duvidar "criticamente" das que lhes são ensinadas em casa, solapando a confiança dos filhos em seus pais.
A ilegalidade é patente. Ainda que se reconhecesse ao Estado -não a seus agentes- o direito de usar o sistema de ensino para difundir uma agenda moral, esse direito não poderia inviabilizar o exercício da prerrogativa assegurada aos pais pela CADH, e isso fatalmente ocorrerá se os tópicos dessa agenda estiverem presentes nas disciplinas obrigatórias.
Além disso, se a família deve desfrutar da "especial proteção do Estado", como prevê a Constituição, o mínimo que se pode esperar desse Estado é que não contribua para enfraquecer a autoridade moral dos pais sobre seus filhos.
Impõe-se, portanto, que as questões morais sejam varridas dos programas das disciplinas obrigatórias. Quando muito, poderão ser veiculadas em disciplina facultativa, como ocorre com o ensino religioso. Assim, conhecendo previamente o conteúdo de tal disciplina, os pais decidirão se querem ou não compartilhar a educação moral de seus filhos com especialistas de mente aberta como o professor Marcos Ribeiro.
LUIZ CARLOS FARIA DA SILVA, 54, doutor em Educação pela Unicamp, é professor adjunto da Universidade Estadual de Maringá.

MIGUEL NAGIB, 50, é procurador do Estado de São Paulo, coordenador do site www.escolasempartido.org e especialista do Instituto Millenium

BRAZIU: O PUTEIRO

ANCELMO GÓIS

Calma, gente
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 30/01/11

No cargo há um mês, Ana de Hollanda já vem sendo alvo de fogo amigo na classe. Ainda por causa da decisão de retirar do site do MinC a referência ao “creative commons”, o que significa dizer que o conteúdo da página é liberado.

No Zé, ninguém toca
Outro que vem sendo alvo de fogo amigo é José Eduardo Dutra, presidente do PT, às voltas com um Maracanã de petistas em busca de uma boquinha no governo. Mas a um medalhão do partido, Dilma avisou: 

— Ninguém vai enfraquecer o Dutra. Mexeu com ele, mexeu comigo!

Projeto Rondon

Luiz Carlos Barreto resolveu tocar um projeto do filho Fábio, que está doente. Trata-se de uma minissérie de cinco capítulos sobre o marechal Cândido Rondon.

Acorda tarde
Dilma chegaria hoje, às 18h30m, a Buenos Aires para sua primeira viagem internacional como presidente. Mas Cristina Kirchner, que não costuma começar sua agenda muito cedo, marcou a primeira reunião para amanhã, às 11h30m. Dilma, então, chegará meia hora antes do encontro.

No mais
Terça agora, Dilma completa um mês no governo. A presidente conseguiu, no período, desarmar um pouco os espíritos e tornar o clima político menos carregado, livrandose da ideia de enxergar um inimigo à espreita em cada esquina. Que continue assim.

Esquadrilha da...

Outro dia, num voo Buenos Aires-Rio das Aerolineas Argentinas, os passageiros sentiram um cheiro forte de cigarro no ar.
Cabreiro, o pessoal falou com a aeromoça. A resposta: “Não se preocupem, é o piloto que está fumando. Ele pode!” Ah, bom!

‘Grand finale’

As enchentes na Região Serrana do Rio, inclusive com a cheia do Rio Paquequer, que corta Teresópolis, fizeram Ana Maria Machado se lembrar de “O guarani”, tanto a obra de José de Alencar, passada no século XVII , como a ópera de Carlos Gomes.
E até mesmo de um verso da marchinha “História do Brasil”, de Lamartine Babo (“Depois/Ceci amou Peri/Peri beijou Ceci/Ao som.../Ao som do Guarani!”).

Só love
Vagner Love, o jogador, abriu uma casa de shows em Vila Valqueire, no Rio. Chama-se Love Lounge.

Arte negra

Nei Lopes e Wilson Moreira, nossos grandes sambistas, vão remontar, 30 anos depois, o show de seu lendário disco “Arte negra”, joia da MPB, que lançou clássicos como “Senhora liberdade”, “Goiabada cascão”, “Gostoso veneno” e “Coisa da antiga”.
Será apresentação única, dia 4 de fevereiro, no Parada da Lapa, no ensaio do bloco Simpatia É Quase Amor. 

111

Um carioca fanático por matemática descobriu que, em 2011, qualquer pessoa que somar a idade que fará ou já fez este ano com os dois últimos números de seu ano de nascimento terá como resultado... 111. Tente só. Não é nada, não é nada... não é nada.

Criança de coleira
Pegou neste verão, na Barra, a Miami carioca, a moda de jovens madames andarem nos shoppings com seus filhos presos por... coleiras. Trata-se de uma cordinha fashion amarrada nos miúdos, que, assim, não precisam dar a mão para a mãe.

VERISSIMO

Não é meu
VERISSIMO

O GLOBO - 30/01/11

Tenha paciência, este parágrafo começa com Leon Trotsky mas acaba nas peladas da Playboy. Quando Trotsky caiu em desgraça na União Soviética sua imagem foi literalmente apagada de fotografias dos líderes da revolução, dando início a uma transformação também revolucionária do conceito de fotografia: além de tirar o retrato de alguém, tornou-se possível tirar alguém do retrato. A técnica usada para eliminar o Trotsky das fotos foi quase tão grosseira – comparada com o que se faz hoje – quanto a técnica usada para eliminar o Trotsky em pessoa (um picaretaço, a mando do Stalin). Hoje não só se apaga como se acrescenta pessoas ou se altera suas feições, sua idade e sua quantidade de cabelo e de roupa, em qualquer imagem gravada. A frase “prova fotográfica” foi desmoralizada para sempre, agora que você pode provar qualquer coisa fotograficamente. Existe até uma técnica para retocar a imagem em movimento, e atrizes preocupadas com suas rugas ou manchas não precisam mais carregar na maquiagem convencional – sua maquiagem é feita eletronicamente, no ar. Nossas atrizes rejuvenescem a olhos vistos a cada nova novela. E quem posa nua para a Playboy ou similar não precisa mais encolher a barriga ou tentar esconder sus imperfeições.
O fotoxópi faz isso por ela. O fotoxópi é um revisor da Natureza. Lembro quando não existia fotoxópi e recorriam à pistola, um borrifador à pressão de tinta, para retocar as imagens. Nas Playboys antigas a pistola era usada principalmente para esconder os pelos pubianos das moças, que desapareciam como se nunca tivessem estado ali, como o Trotsky. Imagino que a pistola tenha se juntado à Rolleiflex no sótão da 
História.
Se a prova fotográfica não vale mais nada nestes novos tempos inconfiáveis, a assinatura muito menos. Textos assinados pela Martha Medeiros, pelo Jabor, por mim e por outros, e até pelo Jorge Luis Borges, que nenhum de nós escreveu – a não ser que o Borges esteja mandando matérias da sua biblioteca sideral sem que a gente saiba – rolam na internet, e não se pode fazer nada a respeito a não ser negar a autoria – ou aceitar os elogios, se for o caso. Agora mesmo está circulando um texto atacando o Big Brother Brasil, com a minha assinatura, que não é meu. Isso tem se repetido tanto que já começo a me olhar no espelho todas as manhãs com alguma desconfiança. Esse cara sou eu mesmo? E se eu estiver fazendo a barba e escovando os dentes de um impostor, de um eu apócrifo? E – meu Deus – se esta crônica não for minha 
e sim dele?! 

GOSTOSA

VERISSIMO

Entre grades
VERISSIMO 
O Estado de S.Paulo - 30/01/11

O Vladimir Nabokov certa vez deu uma curiosa explicação sobre a origem do seu romance Lolita. Disse que sua inspiração fora a notícia que lera em algum lugar sobre uma experiência feita num jardim zoológico em que ensinaram um gorila a desenhar, e o primeiro desenho feito pelo gorila foi das barras da sua jaula.

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Se Nabokov não estava deliberadamente tentando enlouquecer um entrevistador - afinal, o que o gorila entre grades tem a ver com a história da paixão de um homem mais velho por uma menina de 12 anos, e seu trágico desfecho? - sua resposta pode ter vários significados. Um deles é o confinamento dentro do próprio texto que é a sina de todo autor, mais evidente no caso do narrador de Lolita, um prisioneiro do seu estilo tanto quanto da sua obsessão por ninfetas. Como o gorila artista dentro da sua jaula, o narrador escreve sobre os seus limites. O seu verdadeiro assunto é a linguagem.

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Humbert Humbert, o narrador de Lolita, escreve em vários níveis de paródia. Parodia a vulgaridade americana do ponto de vista de um intelectual europeu mas também faz uma a paródia do intelectual europeu deslocado e ridicularizado no Novo Mundo, em que o autodesprezo pela sua impostura cultural se mistura com a culpa. Mas ele não pode se livrar nem do seu pedantismo nem da sua obsessão. Lolita está cheio de jogos de palavras, imagens preciosistas, símbolos obscuros, referências literárias - toda a parafernália da ostentação intelectual mobilizada para um só fim, o de justificar uma paixão incomum. Tanto o gorila quanto o Humbert Humbert descrevem o que os separa do mundo.

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No livro A Última Tentação de Cristo de Kazantzakis há um diálogo em que um personagem diz a outro que seus olhos não entendem a mensagem de um profeta porque não veem nada além das palavras. "Mas o que as palavras podem dizer? Elas são as grades negras de uma prisão onde o espírito grita para ser ouvido." No seu livro Speak, Memory (Fala, memória) o próprio Nabokov diz que está "cativo num zoo de palavras". A ideia das palavras como grades que impedem a expressão do espírito ou como uma insatisfatória seleção sem alternativas de animais atrás das cercas de um zoo deve ter ocorrido a muitos autores. Em toda a fascinante literatura da Clarice Lispector, por exemplo, se repete este choque com o limite da linguagem, esta incapacidade angustiante de dizer o indizível, de ultrapassar as grades. O que se quer dizer está sempre lá fora, além das palavras.

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"A glória de Deus é encobrir, mas a glória dos reis é tudo investigar", disse Salomão (Provérbios 25:2). Substitua-se "reis" por escritores e artistas e sua busca de glória pela investigação de toda a experiência humana e seus mistérios, e chegamos ao Nabokov e seu gorila. Nunca ultrapassaremos as grades. Podemos no máximo sacudi-las com mais ou menos talento ou vigor, mas resignados à ideia de que a verdadeira glória de Deus começa onde termina a linguagem.

Pois se trata de um Deus ciumento, senhor de todas as nossas paixões, e indisposto a compartilhar sua glória, ou sua literatura, com quem quer que seja. Mesmo o Nabokov ou a Clarice.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Se tiver que morrer, morro de pé”
SANDRO MABEL (PR-GO) SOBRE DISPUTA PELA PRESIDÊNCIA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

LEI IMPEDE LULA DE TER CARTEIRA ASSINADA NO PT 
A anunciada contratação de Lula para presidente de honra do PT por R$13 mil, com carteira assinada, esbarra no artigo 42 da lei federal 8213/91: aposentado por invalidez que voltar voluntariamente ao trabalho perderá o benefício. Lula ganha R$ 5 mil do INSS por ter perdido o dedo mínimo em suposto acidente de trabalho, aos 39 anos. À letra da lei, deveria ter renunciado à grana ao ser eleito presidente. 

DIFERENTE IGUAL 
O INSS pune a ilegalidade cobrando com juros e multa o aposentado por invalidez que volta ao trabalho remunerado. Os “normais”, claro. 

VEREADOR LULA 
Fosse servidor público à época, Lula manteria os dois benefícios se eleito vereador e pudesse cumprir ambos os expedientes. 

DOAÇÃO IMPROVÁVEL 
Amigos de Lula tentam convencê-lo a doar os R$ 13 mil que receber do PT todos os meses. O destino seriam os Alcoólicos Anônimos. Sério.

ESFINGE 
Taí uma missão para o “cara”: mediar a revolta da oposição no mundo árabe, onde fez amigos e negócios com os ditadores
ameaçados. 

SIMON, O FRANCISCANO, ADIOU VIRTUDES PARA 2015 
A afirmação do senador Pedro Simon (PMDB-RS), de que até fevereiro de 2015 vai decidir se fará opção pela aposentadoria de ex-governador (R$ 25,7 mil) ou de ex-senador (R$ 24,1 mil), embolsando até lá R$ 2,6 milhões, faz lembrar Santo Agostino (354-430 d.C) em suas Confissões (volume VII, 7, 17), que, adolescente, pediu a Deus a castidade, “mas não agora”. A frase poderia ser reescrita por Simon: “Dai-me a virtude da pobreza e do comedimento, mas só em 2015”...

SECRETÁRIA ELETRÔNICA A ONG 
Avaaz pediu “blitz” nos telefones do gabinete de Dilma, para impedir a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, Pará. 

MEUS CAROS, CARÍSSIMOS 
O Diário Oficial da União publicou ontem o relatório de gestão fiscal do Senado: foram R$ 2,6 milhões, brutos, com despesa de pessoal. 

MEDO DE LADRÃO 
O Batalhão Esplanada, da PM-DF, fará “segurança externa” da Câmara Legislativa. Não, não é para proteger os cidadãos dos deputados.

CONCORRÊNCIA 
Dilma Rousseff gosta e até estimula a briga entre os governadores do Ceará, Cid Gomes, e de Pernambuco, Eduardo Campos, ambos do PSB. Ela sabe: Campos é forte candidato a presidente, em 2014.

INDIGESTÃO 
O governador da Bahia, Jacques Wagner (PT), não consegue digerir o plano de Lula, de fazer o presidente da Petrobras, Sergio Gabrieli, seu sucessor. Wagner tem outros nomes no
seu coração.

DANÇA DAS CADEIRAS 
O ex-governador tucano José Serra quer lançar à prefeitura paulistana o senador Aloysio Nunes. Outro Aloizio, o Mercadante, agora ministro,
é candidato do PT a uma nova derrota – para prefeito, em 2014. 

NÃO VEM QUE NÃO TEM 
Na Consultoria Jurídica do Ministério das Comunicações, a ordem é ignorar ou “cozinhar” pedidos de audiência de senador ou de deputado. E manter longe o senador Renan Calheiros (PMDB-AL).

BEM NA FOTO 
O senador Clésio Andrade (MG) tem a simpatia de pelo menos 25 deputados federais para acompanhá-lo em seu novo partido, que está em gestação. Especialmente parlamentares do DEM e PSDB.

OUVIR ESTRELAS 
O Observatório Europeu do Sul (Eso, em inglês), terá no Chile o maior telescópio do mundo graças a € 300 milhões do Brasil, revela o site especializado Maxisciences. O Eso é custeado por 14 países europeus. 

O DESEMPATE 
O clima no Supremo Tribunal Federal anda pesado com o julgamento sobre o bandidão Cesare Battisti. Dá rigoroso empate. Nas férias, ministros do STF se dedicam ao esporte de identificar quem poderá mudar o voto, dando a vitória a uma das duas tendências.

A VIDA É UM PORRE 
Amigos de Lula mais chegados aos meios intelectuais o estão advertindo para as tardes sensaboronas que passará no Instituto da Cidadania. A vida acadêmica é literalmente um porre, avisam.

COMER, BEBER... 
Na Itália, as orgias do premiê Berlusconi chamam-se “Bunga Bunga” e viraram filme pornô. Por aqui, ninguém ainda pensou num “Hic! Hic!”... 

PODER SEM PUDOR
A SABEDORIA DO SILÊNCIO 
Colecionador de todas as formas de coruja (chaveiros, biscuits, relógios, etc.), o ex-sindicalista Antônio Rogério Magri era ministro do Trabalho e vivia sob o fogo cerrado da oposição e dos jornalistas. Cada declaração sua, em geral desastrada, provocava uma nova crise. E ele não parava de falar. Só o fez após ouvir um colega de ministério encarregado de convencê-lo a fechar a boca:
– Magri, sabe por que coruja tem fama de sábia? Não é porque é sábia, é porque é muda...

BIGODE

DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: Redução de favelas no Rio é do tamanho de 47 Maracanãs
Folha: Ação de ditador falha, e protesto cresce no Egito
Estadão: Protestos aumentam e Egito conta 100 mortos em um dia
Correio: Chuvas deixam quase 100 mil desabrigados
Estado de Minas: Dinheiro público para jovem enriquece empresário mineiro
Jornal do Commercio: Investimentos para qualquer bolso
Zero Hora: Crise corrói ditadura de 30 anos no Egito

sábado, janeiro 29, 2011

EU

DEMOCRACIA? NEVER
EU


Sai Hosni Mubarak entra quem? Os filhotes de Bin Laden?
Juntando Alá, Jesus Cristo, BUNDA, Hare Hare, São Lula e o cacete a quatro, não tem quem resolva esse nó.
Isso é nó cego, só sai na faca.

AUGUSTO NUNES

Dilma esquece a contagem dos mortos para contar vantagem e troca a carranca de luto pelo sorriso de aeromoça de Tupolev
AUGUSTO NUNES
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Quem ensinou a Dilma Rousseff que carranca não rima com política precisa explicar-lhe urgentemente que, em certas ocasiões, a mostra de todos os dentes pode ser mais perturbadora que a cara de professora de matemática que reprova até gênio da raça. Foi assim na visita ao túmulo de Tancredo Neves, quando a candidata em campanha resolveu estrear num cemitério o sorriso de aeromoça de Tupolev. Foi assim na quinta-feira, quando reprisou a alegria fora de hora na visita ao Centro de Operações do Rio.

Enquanto prossegue a contagem dos mortos na Região Serrana, a presidente, escoltada pelo também sorridente Sérgio Cabral, gastou o dia contando vantagem em parceria com Eduardo Paes. Teve de conter a euforia ao ouvir do prefeito que a cidade será monitorada 24 horas por dia pelo centro, concebido para identificar a tempo quaisquer perigos que possam resultar em situações de emergência. Desastres naturais semelhantes ao que devastou a Região Serrana, por exemplo, serão detectados com dois dias de antecedência.

“Aqui estamos vendo o futuro: vocês estão um passo à frente do Brasil”, festejou Dilma Rousseff. É outro palavrório cretino, mas não deixa de fazer sentido. Por estarem um passo à frente do resto do país, os cariocas terão 48 horas para tentar salvar-se por conta própria, simultaneamente, do dilúvio e da incompetência dos pais-da-pátria — uma associação letal cujo poder de destruição os habitantes da Região Serrana descobriram tarde demais.

Agora o país inteiro sabe que é inútil pedir socorro ao governo. Melhor rezar para não chover. O Sistema Nacional de Defesa Civil inventado por Lula só existe na papelada registrada em cartório que descreve um país do faz-de-conta. O Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais prometido há dias por Dilma vai demorar pelo menos quatro anos. Se o Centro de Operações do Rio localizar uma tragédia em gestação, o governo federal não fará mais que antecipar os votos de solidariedade às famílias atingidas pela inclemência da natureza.

Na quinta-feira, Dilma, Cabral e Paes não perderam tempo com os mortos da Região Serrana. (Eram 847 no fim da tarde de sexta-feira. Logo passarão de mil). A festinha no Centro de Operações foi armada para mostrar aos cartolas muito vivos da Fifa e do Comitê Olímpico que a cidade mais bela do mundo é também a mais segura. Está pronta para a Copa do Mundo e a Olimpíada. Com chuva ou sem chuva.

O espetáculo do cinismo e da ganância não pode parar. O sorriso da turma sublinha a expressão beatífica de quem contempla verdes campos de dólares ou descansa à sombra das licitações em flor.

HÉLIO SCHWARTSMAN

"Bismillah"
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SÃO PAULO - 29/01/11

SÃO PAULO - "Bismillah al rahman al rahim". Em nome de Deus, o clemente, o misericordioso. Não sei quais são os planos de Allah para Hosni Mubarak e o Egito, mas devo confessar que estou dividido.
É sempre um prazer ver ditadores levando a pior. Mas -sempre há um "mas"-, na hipótese de Mubarak ser mesmo defenestrado, é pouco provável que o Egito se converta numa república anarco-autonomista. Como a política tem horror ao vácuo, alguém ou alguma estrutura de poder ocupará o lugar vago.
No momento, vislumbram-se dois candidatos. O ex-diretor da agência nuclear da ONU e prêmio Nobel da Paz, Mohamed ElBaradei, viajou às pressas para o Cairo para tentar surfar na onda do movimento, cacifando-se como líder unificador da oposição. Tem a seu favor uma boa reputação internacional. Contra si, há o fato de que é quase um estrangeiro (vive no exterior há décadas) e pode ser facilmente rotulado como um Mubarak "light" (sua eventual ascensão representaria mais uma troca de guarda do que uma verdadeira revolução).
Um candidato mais verossímil é a Irmandade Muçulmana, grupo islâmico que goza de bastante popularidade. Mesmo sendo ilegal, conseguiu fazer 88 deputados "independentes" (20% do Parlamento) no pleito legislativo de 2005.
O problema com a Irmandade Muçulmana é que ela é muçulmana demais. Uma de suas várias ramificações é o Hamas palestino que, depois que chegou ao poder na faixa de Gaza, passou a impor restrições de caráter religioso à população e a perseguir membros da oposição.
Uma possível entronização da Irmandade Muçulmana no Egito não só viraria do avesso a geopolítica do Oriente Médio como ainda poderia levar ao estabelecimento de uma nova teocracia na região.
Dá para conciliar um Estado religioso com democracia? Ou o regime de liberdades só é possível se houver uma forte laicização da sociedade, a qual ocorreu no Ocidente mas não no islã?

ps: O colunista escreve tbm na ''pensata''.Num de seus artigos,propunha aprender um idioma a cada 5 anos- dentre os quais o falecido Esperanto.E ele aprendeu ÁRABE tbm.E escrevo isso porque sempre tive a mesma filosofia.Mas confesso: Árabe e Alemão,não passei da primeira fase.De resto, me viro nos idiomas mais falados no mundo.