terça-feira, novembro 02, 2010

CARONA

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Lula não quer Palocci na área econômica, nem no Palácio

Estadão: Dilma faz reunião de transição só com petistas e irrita PMDB

JB: Os seis problemas para Dilma

Correio: Acabou o coronelismo, diz Agnelo

Estado de Minas: Palocci e Pimentel na transição de governo

Jornal do Commercio: Dilma promete manter a política econômica

Zero Hora: Dilma lançará pacto por saúde e segurança

Leia os destaques de capa de alguns dos principais jornais do país.
- Siga o blog no twitter.

segunda-feira, novembro 01, 2010

JOÃO PEREIRA COUTINHO


Os heroicos 3%
JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/11/10


Passei meus últimos dias com a cabeça mergulhada no Brasil. As eleições, sim, as eleições: na TV ou nos jornais portugueses, a minha tarefa era explicar aos patrícios o que sucedia desse lado do Atlântico. Li muito. Escutei bastante. Perguntei idem.

Mas de tudo que li, escutei ou aprendi, nada me perturbou tanto como saber que Lula deixa o Palácio do Planalto com 82% de aprovação popular.

Minto: o que me impressiona não são os 82%; o que me impressiona são os 3% de brasileiros que desaprovam o governo Lula e que não embarcam no entusiasmo geral. Como são solitários esses 3%! E como são heroicos! É preciso coragem, e uma dose invulgar de realismo e sensatez, para não ser atropelado pela multidão desgovernada. Quem serão esses 3%? Gostaria de os conhecer, de os convidar para minha casa, de beber com eles à liberdade e à democracia. Vou repetir, quase com lágrimas nos olhos: 3%!

Não nego: Lula teve méritos econômicos evidentes. Arrancar 20 milhões da pobreza não é tarefa insignificante; e ter um país com crescimentos anuais de 6% ou 7%, enfim, uma miragem para quem vive na Europa. Se o Banco Mundial acredita que o Brasil será a 5ª economia do mundo no espaço de uma geração (obrigado, "The Economist"), Lula teve um papel nesse caminho. Mesmo que o caminho tenha sido preparado por Fernando Henrique Cardoso.

Mas quando penso nos solitários 3% que desaprovam Lula; quando penso nessa gente residual, marginal, divinal, penso em todos os casos de corrupção que abalaram os governos petistas e que seriam intoleráveis em qualquer país civilizado do mundo. Penso nos ataques e nos insultos que Lula desferiu contra a imprensa mais crítica. Penso na forma como Lula usou o seu cargo para, violando todas as leis eleitorais (e do mero decoro democrático), eleger Dilma Rousseff. E penso, claro, na política externa de Lula.

Sou um realista. Países democráticos não lidam apenas com democracias; por vezes, nossos interesses estratégicos ou econômicos exigem que sujemos as mãos com autocracias, teocracias, ditaduras e aberrações políticas. Mas devemos fazer isso com decoro; envergonhados; como um cavalheiro que frequenta o bordel e não faz publicidade de seus atos.

Os 3% que desaprovam Lula, aposto, desaprovam a forma indigna como ele elegeu Ahmadinejad seu amigo; como manteve relações amistosas com Chávez; como foi displicente perante os presos políticos cubanos.

Acompanhei as eleições brasileiras. Comentei-as. Escrevi a respeito. Mas, nessa hora em que Lula sai para Dilma entrar, os meus únicos pensamentos estão com os 3% que não perderam a cabeça e mantiveram-se à tona da sanidade.

Nessa noite fria de Lisboa, um brinde a eles!

DORA KRAMER

O desafio à criatura 
Dora Kramer 

O Estado de S.Paulo - 01/11/2010

O presidente Luiz Inácio da Silva não apareceu na festa, mas esteve presente na vitória de ontem de Dilma Rousseff em cada um dos 56 milhões de votos dados a ela e até no único momento em que a plateia de correligionários reunidos para ouvir o primeiro discurso da sucessora eleita, se entusiasmou: quando Dilma expressou sua gratidão e admiração por Lula.

A reação reproduziu exatamente o ambiente da eleição, toda ela referida na figura de um presidente que não esconde sua contrariedade em deixar o Planalto nem o desejo de fazer da obra da sucessão uma "prova" de seu poderio junto à população.

Por isso mesmo o resultado sequer pode ser visto - como pretende a propaganda oficial - como uma celebração à participação das mulheres na política brasileira, porque foi na realidade a vitória de uma mulher eleita não por méritos próprios, mas pela vontade e o esforço de um tutor.

E quem confirmou isso foram os petistas reunidos em um hotel de Brasília para ouvir as primeiras palavras de Dilma Rousseff depois de eleita, ao aplaudi-la com vigor apenas quando da referência a Lula.

O discurso de um modo geral foi frio, protocolar e genérico. Talvez como coubesse mesmo à ocasião. Foi parecido com a candidata que, mesmo eleita presidente da República, não demonstrava alegria, não transmitia emoção. Sorriu apenas ao falar de Lula, o único momento em que externou alguma emoção. Não lançou uma ideia nem disse uma frase que pudesse ser vista como marca de personalidade ou de estilo governamental. Quem escreveu o texto, não quis arriscar: pôs Dilma a reafirmar compromissos como a erradicação da miséria, a prometer cumprir contratos, reforçar agências reguladoras, melhorar a segurança pública, a nomear "ministros de primeira qualidade" e, no fim, a convidar "a todos para uma ação em prol do futuro do País".

Até a reafirmação da "mão estendida" à oposição por ora soou como uma formalidade. Pode ser só isso ou pode significar algo mais, disposição de realmente distender os ânimos, mas isso vai depender dos gestos futuros.

Para uma candidata que esperava ganhar no primeiro turno e um partido que preparava há tempo a festa da vitória, o primeiro pronunciamento poderia ter sido mais bem elaborado. Mas não surpreendeu nem decepcionou. Apenas deixou a desejar que os próximos sejam mais pródigos de substância.

Os primeiros instantes de Dilma eleita presidente foram muito semelhantes a todos os momentos já vistos e ouvidos desde que foi lançada candidata e reafirmaram um desafio que se impõe a ela de agora em diante cada vez com mais contundência: o de sair da sombra do criador e mostrar-se uma criatura à altura da responsabilidade que recebeu da maioria do povo do Brasil.

ELEITOR DE DILMA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Escravos de Jó
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 01/11/10

Quem priva da intimidade de Lula aposta que, na negociação com Dilma Rousseff sobre a composição do futuro governo, o presidente intercederá a favor de pelo menos dois integrantes do atual primeiro escalão: Guido Mantega (Fazenda) e Fernando Haddad (Educação). Não ‘gastará munição’ com o ex-ministro Antonio Palocci e Paulo Bernardo (Planejamento), por acreditar que a presença de ambos em algum lugar na nova equipe está mais ou menos garantida. 
Por fim, os mais próximos acreditam que Lula deixará correr versões de que pediu também por outros auxiliares. Dessa forma, não ficará mal com ninguém quando a presidente eleita disser ‘não’. 
Sombra - Um curioso anotou: Maria das Graças Foster, diretora de Gás da Petrobras cotada para um posto no primeiro escalão e para a presidência da empresa, não perdeu um único evento da campanha de Dilma no Rio. 
02 - Franklin Martins (Comunicação Social), um dos poucos a acompanhar a apuração no Palácio da Alvorada, já disse a Lula e a Dilma que não deseja ficar. Alega razões familiares. Há sinais de que ela está de acordo. 
Dia seguinte - Lula convidou para uma conversa nesta quarta o ministro José Artur Filardi (Comunicações). Este confidenciou a pessoas próximas esperar que, na ocasião, o presidente lhe peça o cargo. Indicado por Erenice Guerra, o presidente dos Correios, David de Matos, também deve rodar. 
Suplício - Jornalistas esperavam amontoados por Dilma quando um ministro passou e brincou: ‘Esperem aí que ela está trazendo um PowerPoint daqueles pra vocês, com todas as diretrizes do futuro governo’. 
Saída - Seul Para despistar os apressados em saber quem fica e quem sai do governo em 2011, a palavra de ordem ontem em Brasília era: ‘Só depois da Ásia’. Trata-se da viagem que Lula fará a Seul, na semana que vem, para a reunião do G20. 
#fato - Aécio Neves só não será presidente do PSDB se não quiser. E ninguém será presidente do PSDB sem a bênção inequívoca de Aécio. 
Frente - Em linha direta com Geraldo Alckmin e Beto Richa (PR) desde o final do primeiro turno, o governador Antonio Anastasia (MG) é entusiasta do desenho de uma frente de oposição que, em ambiente de ‘respeito institucional’ com a recém-eleita presidente, ofereça ‘propostas alternativas’ ao país. 
Pauliceia - Na reta final, Serra recuperou fôlego em São Paulo. Superou a votação de Geraldo Alckmin para governador e bateu Dilma em oito dos dez maiores colégios eleitorais. No primeiro turno, o tucano havia perdido em cinco deles. A petista só manteve a dianteira em São Bernardo e Osasco. Houve reviravolta em Guarulhos, Santo André e Campinas.
Futurologia - Faixa de manifestante em frente ao colégio Santa Cruz, onde o candidato tucano votou no final da manhã de ontem: ‘Serra vereador 2012’. 
In pectore - Outros querem a vaga, mas Alckmin contempla a possibilidade de colocar na Segurança Pública Saulo de Castro Abreu Filho, que ocupou a pasta na gestão anterior do tucano e concebeu o plano de governo do tucano para o setor. 
Sobe-desce - Hubert Alqueres, hoje na Imprensa Oficial de SP, perdeu posições na bolsa de apostas para a Secretaria de Educação. Não está afastada a hipótese de Paulo Renato continuar no cargo, ao menos na largada do governo Alckmin. 
Tiroteio
O que Marina chama de “independência’ é na verdade um nome pomposo para omissão. Ela vai pagar caro por isso. 
DO PRESIDENTE DO PPS, ROBERTO FREIRE, sobre o fato de a candidata do PV, que obteve 20 milhões de votos no primeiro turno, ter se recusado a optar publicamente por Dilma ou Serra no segundo. 
Contraponto
Criacionismo 
No último debate entre Dilma Rousseff e José Serra, sexta-feira passada na Rede Globo, o tucano voltou a usar a formulação ‘eu criei’ para se referir a programas e iniciativas benéficas à população. 
Em uma dessas ocasiões, Antonio Palocci cutucou José Eduardo Dutra, seu colega na coordenação da campanha petista, e brincou: 
- Puxa, ele criou também isso? 
Dutra procurou tranquilizá-lo: 
- Não se preocupe. Ele descansou no sétimo dia...

RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ

Um país cindido ao meio
Ricardo Vélez Rodríguez 
O Estado de S.Paulo - 01/11/10


Uma boa maneira de resumir o que se vem passando no Brasil nestes últimos meses é recorrer à metáfora utilizada por Royer-Collard, no início do século 19, para simbolizar as desgraças e a dinâmica ensejadas pela Revolução Francesa: "A democracia", dizia o grande precursor dos doutrinários, "é um rio que corre com as margens cheias."

Essa é a nossa "democracia de massas", acelerada, ao longo dos últimos oito anos, pelo fenômeno do lulopetismo. Torrente verbal de linguajar chulo e de eterno palanque; de iniciativas mal costuradas (o tal de Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, que influencia o desempenho do País na esfera econômica, com gastança descontrolada jamais vista); de propostas sensatas no terreno macroeconômico (que vieram do passado recente, ao ensejo das reformas social-democratas promovidas notadamente pelos anteriores governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, destacando-se nesse contexto o Plano Real); de pregação messiânica que pretendeu fazer do retirante nordestino ocupante do Palácio do Planalto o novo salvador da Pátria; de favores oficiais distribuídos a esmo com a única finalidade de consolidar um eleitorado subserviente; de jacobinismo em alta por parte da coorte safada de "mata-mosquitos" do presidente populista; de corrupção generalizada, justificada pela revanche ideológica que tem embalado o discurso dos novos "donos do poder" contra as odiadas "elites"; de surgimento e consolidação de uma nova-velha elite de peleguismo sindical, inspirada no pior dos populismos; de clérigos e bispos da "Teologia da Libertação" que seguem as pegadas espertas de Leonardo Boff e de Frei Betto para canonizar as falcatruas petistas em nome da justiça social; de orgástica farra do setor do empresariado que se alinhou desavergonhadamente ao lado do poder para garantir as benesses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os lucros subsidiados com o dinheiro do contribuinte; de louvação oportunista dos intelectuais amamentados com as benesses oficiais; enfim, de reificação ectoplasmática dessa entidade mítica genialmente descrita por Mario de Andrade como o "herói sem nenhum caráter" que, proveniente das obscuras florestas, percorre o País com a sua oralidade falaciosa, enganando todo mundo para voltar, após a farra escatológica, a sumir nas sombras de onde veio, deixando para trás um nunca visto cenário de terra arrasada em matéria de princípios e instituições.

Essa seria a imagem que melhor representaria, a meu ver, estes paradoxais momentos que estamos vivendo, de um País literalmente dividido ao meio pelos que se entregaram ao embalo dos sonhos da democracia fácil e do tudo pode porque "os que estão mandando são os representantes da alma popular", materializando, assim, a pior das éticas, a totalitária, que sagrou o princípio de que "os fins justificam os meios".

Sairemos ilesos desse tsunami de "retórica utópico-democrática" (como diria Jefferson)? Ou sucumbiremos a um chavismo à brasileira, aos cantos de sereia do núcleo marxista-leninista do petismo, que considera termos chegado à etapa definitiva de deflagração da "revolução do proletariado"?

O tempo dirá.

Talvez, para fazer ainda eco à imagem macunaímica, haja uma acomodação geológica de interesses, movida unicamente pela lei da gravidade do menor esforço, essa lei de cuja aplicação está cheia de exemplos a história política das nações. Um dos maiores partidos do nosso universo político, tido como fiel da balança, é justamente aquela agremiação que, desde a fundação da Nova República, canalizou os interesses miúdos das oligarquias regionais e do caciquismo de sempre, solidamente ancorada no espírito patrimonialista de privatização do poder e do espaço público para benefício de amigos e apaniguados.

Se vivo fosse, o iconoclasta Heráclito de Éfeso exclamaria: "Tanto barulho para nada." Parecia, há oito anos, que o velho patrimonialismo havia começado a recuar, ao ensejo da Lei de Responsabilidade Fiscal, do enxugamento da máquina pública e das privatizações, e agora voltamos a um tempo anterior a esse, temerosos e triunfantes, chorosos e risonhos, ébrios e sóbrios, que essa é a imagem cindida da sociedade brasileira nestes momentos de ressaca eleitoral.

Do que estou seguro é que o Brasil continuará com o seu "voo de galinha", com decolagens mirabolantes e quedas desajeitadas, porque não fizemos o dever de casa. Não cuidamos a contento da educação para a cidadania, que deve ocorrer nas quatro primeiras séries do primeiro grau. Os esforços da última década foram envidados para que dinheiro não faltasse às escolas públicas, para compra da merenda escolar e para distribuição do material didático - em boa medida preparado para destruir qualquer sentimento de brasilidade, pois foi viciado pelos ativistas gramscianos com o vírus que destrói os valores tradicionais para "tomar a sopa pelas beiradas", fazendo ruir de podre a odiada "sociedade burguesa".

Essa é a nossa realidade. Um país que, na era lulista, mostrou os músculos ao mundo, numa política externa desastrada que conspirou contra os interesses dos nossos amigos lá de fora e dos nossos empresários e contribuintes, dando força aos que nos desacreditam no cenário internacional, pois aparecemos agora nas fotos ao lado de ditadores e facínoras, como os irmãos Fidel e Raúl Castro, Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e quejandos. O Brasil não conseguiu emplacar, com a diplomacia lulista, nem a direção da Unesco, nem a coordenação da Organização Mundial do Comércio (OMC), nem a vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.


COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS"PAULINO SOARES DE SOUSA" DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA 

MÚSICA

JOSÉ CECHIN

Indexar, um mau negócio
José Cechin 
O Estado de S.Paulo - 01/11/10


Os planos de saúde, como são apresentados hoje no País, suscitam questionamentos de todas as partes. O beneficiário acha que paga muito e, muitas vezes, não é atendido como gostaria. As operadoras trabalham com margens apertadas e estão sempre buscando soluções para fechar as contas. Os prestadores de serviço, por sua vez, se sentem mal remunerados. O problema existe, e deve-se pensar alternativas para que todas as pontas se sintam atendidas.

Uma proposta que surgiu nos últimos tempos sugere repassar aos prestadores de serviço o reajuste autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) às operadoras. A ideia é muito arriscada. Caso isso aconteça, o custo das operadoras será sistematicamente aumentado, pois este varia com o preço pago pelo serviço e também com a frequência de utilização.

Os prestadores de serviço, ao contrário das operadoras de planos de saúde, não têm seus custos afetados pela variação de frequência de utilização dos serviços de assistência médica por parte dos usuários de planos, já que cobram por procedimento realizado. Para o prestador importa apenas a variação de custo dos insumos utilizados, pois quanto maior a frequência, maior a sua receita.

As operadoras de planos de saúde, por sua vez, pagam por uma variedade enorme de procedimentos com características distintas ente si. Nos exames de diagnóstico, por exemplo, verificam-se ganhos de produtividade pela incorporação de novas tecnologias e pelo aumento da escala com a consolidação do setor. Nos exames tradicionais, observam-se o barateamento do preço e aumento na frequência, ao mesmo tempo que se incorporam exames mais complexos.

Nas internações, os ganhos de produtividade advindos da incorporação tecnológica geram uma conta médica mais cara. Um estudo realizado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) sobre o tratamento das colelitíases sintomáticas (vesícula biliar) mostra claramente esse fenômeno. Os dois procedimentos mais utilizados no Brasil para o tratamento dessa doença são a colecistectomia convencional, ou a cirurgia tradicional, em que é feito o corte no abdome do paciente, e a colecistectomia feita por videolaparoscopia, realizada por meio de uma incisão minúscula na barriga para a inserção da câmera e dos instrumentos. O resultado do estudo mostrou que, se por um lado existe uma melhoria na qualidade de vida do paciente que se submete à cirurgia por videolaparoscopia, por outro, o custo nessa cirurgia aumenta em cerca de 32%.

Nas consultas, a experiência do profissional tem impacto na resolubilidade, mas dificilmente na quantidade de consultas realizadas. Ao adquirir experiência, o médico produz melhores diagnósticos, mas é pouco provável que reduza o tempo de realização de cada consulta. A introdução de tecnologias no consultório também pode diversificar a quantidade de procedimentos realizados e aumentar a remuneração do médico, como ocorre na consulta oftalmológica ou nos procedimentos ambulatoriais em ginecologia e dermatologia.

O VCMH (Variação de Custo Médico Hospitalar), índice levantado pelo IESS mensalmente há algum tempo, mostra que a variação dos custos das operadoras para internação e consulta normalmente supera a variação de preço, em razão do aumento na frequência de uso.

O reajuste anual de planos individuais é delimitado pela ANS, que o estabelece com base na média dos reajustes praticados em planos coletivos, pois esses valores não são regulados. As operadoras não têm influência sobre o reajuste do plano individual, por resultar de uma média setorial. Se o aumento dos valores pagos aos prestadores estivesse vinculado ao reajuste máximo que a ANS determina, o efeito dessa indexação seria um aumento de custo referente à variação de frequência. A operadora estaria sempre sendo reajustada em condições inferiores à variação do seu custo.

Ou seja, se for adiante a ideia da indexação, os custos tendem a se multiplicar. Uma simulação mostra o que aconteceria se fosse repassado aos prestadores o mesmo índice de reajuste autorizado pela ANS para as mensalidades dos planos médicos, num plano com mensalidade inicial de R$ 150: sendo 80% o custo assistencial (R$ 120) repassado aos prestadores; 15% o custo administrativo; e o restante, 5%, resultado da operação. Assumindo uma variação da frequência de uso por parte dos beneficiários de 3% ao ano e um reajuste de 7% ao ano nas mensalidades, repassado integralmente aos prestadores, os custos das operadoras cresceriam 10,21%.

Portanto, enquanto o custo assistencial inicial representava 80% da mensalidade (taxa de sinistralidade), após oito anos somente a despesa assistencial consumiria toda a mensalidade dos beneficiários. Ampliando a análise, ao observar a despesa total (despesa assistencial + despesa administrativa), em apenas três anos essa carteira passaria a apresentar resultado negativo e caminharia para a insolvência.

Portanto, é preciso refletir bastante sobre repassar aos prestadores o reajuste da ANS às operadoras. O reajuste anual das operadoras tem de refletir as variações nos preços dos procedimentos e na frequência de uso, bem como os efeitos da introdução de novas tecnologias e ampliação do rol de coberturas. Porém, operadoras e prestadores não podem depender exclusivamente de reajustes para recompor margens. Devem, sobretudo, buscar novas formas de gestão e novos processos para aumentar a eficiência em seus negócios.

A relação entre prestadores de serviço e operadoras de planos de saúde se forma no mercado. Se o negócio é competitivo, não há porque o governo intervir ou regular essa relação. Ao regulador compete incentivar a concorrência, novas práticas de gestão e a busca por qualidade e eficiência.


SUPERINTENDENTE EXECUTIVO DO IESS, FOI MINISTRO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

CARLOS ALBERTO DI FRANCO

Recados da eleição
Carlos Alberto Di Franco 
O Estado de S.Paulo - 01/11/10


Escrevo este artigo antes da abertura das urnas. Mas o tom do segundo turno, marcado por uma participação sem precedentes da cidadania, sobretudo na internet, transmite um forte recado à Presidência da República e ao Congresso Nacional. A eleição despertou algo que estava adormecido na alma dos brasileiros: o exercício da cidadania. O povo percebeu, finalmente, que os governantes são representantes da sociedade, mas não donos do poder. Assistimos ao estertor dos caciques. Daqui para a frente, os políticos serão cobrados e confrontados. Felizmente. Além disso, os brasileiros, mesmo os que foram seduzidos pelo carisma do presidente Lula, não estão dispostos a renunciar aos valores que compõem a essência da nossa História: a paixão pela liberdade, a defesa da vida e a prática da tolerância.

Eugênio Bucci, brilhante jornalista e grande amigo, afirma, com razão, que "os jornalistas e o órgãos de imprensa não têm o direito de não ser livres, não têm o direito de não demarcar a sua independência a cada pergunta que fazem, a cada passo que dão, a cada palavra que escrevem. (...) Os jornalistas devem recusar qualquer vínculo, direto ou indireto, com instituições, causas ou interesses comerciais que possa acarretar - ou dar a impressão de que venha a acarretar - a captura do modo como veem, relatam e se relacionam com os fatos e as ideias que estão encarregados de cobrir".

A independência é, de fato, a regra de ouro da nossa atividade. Para cumprir a nossa missão de levar informação de qualidade à sociedade, precisamos fiscalizar o poder. A imprensa não tem jamais o papel de apoiar o poder. A relação entre mídia e governos, embora pautada por um clima respeitoso e civilizado, deve ser marcada por estrita independência.

Um país não se pode apresentar como democrático e livre se pedir à imprensa que não reverbere os problemas do país. O governo Lula, sobretudo no seu segundo mandato, manifestou crescente insatisfação com o trabalho da imprensa. Para o presidente da República - um político que deve muito à liberdade de imprensa e de expressão -, jornalismo bom é o que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda, irrita e "provoca azia". Está, na visão de Lula, a serviço da "elite brasileira". Reconheço, no entanto, que Lula e seus companheiros não são críticos solitários da mídia. Políticos, habitualmente, não morrem de amores pelo trabalho dos jornalistas.

A simples leitura dos jornais oferece um quadro assustador do cinismo que se instalou na entranha do poder. Os criminosos, confiados nos precedentes da impunidade, já não se preocupam em apagar suas impressões digitais. Tudo é feito às escâncaras. Quando pilhados, tratam de desqualificar a importância dos fatos. Atacam a imprensa e lançam cruzadas contra suposto prejulgamento.

O que fazer quando o presidente da República faz graça com a corrupção e incinera a ética no forno do pragmatismo e da suposta governabilidade? O que fazer quando políticos se lixam para a opinião pública? Só há um caminho: informação livre e independente. Não se constrói um grande país com mentira, casuísmos e esperteza. Edifica-se uma grande nação, sim, com o respeito à lei e à ética. A transparência informativa, de que os políticos não gostam, representa o elemento essencial de renovação do Brasil.

Além da defesa da liberdade de imprensa e de expressão, os eleitores deram um forte recado em favor da vida. O passado de Dilma Rousseff e suas declarações pró-aborto causaram o segundo turno. Ela acusou o golpe. Por isso os debates foram marcados por surpreendente engajamento dos candidatos no discurso em favor da vida. O brasileiro é contra o aborto. Não se trata apenas de uma opinião, mas de um fato medido em inúmeras pesquisas. A última, do Datafolha, foi eloquente: mais de 70% dos brasileiros são contra o aborto. Por isso o governo precisa ir devagar com o andor. A legalização do aborto seria uma ação nitidamente antidemocrática. Ademais, existe a questão dos princípios. A democracia é o regime que mais genuinamente respeita a dignidade da pessoa humana. Qualquer construção democrática, autêntica, e não apenas de fachada, reclama os alicerces dos valores éticos fundamentais.

O terceiro recado, claro e nítido, foi o do repúdio à intolerância. A agressividade de Lula e seus destemperos verbais também empurraram a eleição para o segundo turno. A radicalização ideológica não tem a cara do brasileiro. O PT tenta dividir o Brasil ao meio. Jogar pobres contra ricos, negros contra brancos, homos contra heteros. Quer substituir o Brasil da alegria pelo país do ódio e da divisão. Tenta arrancar com os fórceps da luta de classes o espírito mágico dos brasileiros. Procura extirpar o DNA, a alma de um povo bom, aberto e multicolorido. Não quer o Brasil café com leite. A miscigenação, riqueza maior da nossa cultura, evapora nos rarefeitos laboratórios arianos do radicalismo petista.

Está surgindo, de forma acelerada, uma nova "democracia" totalitária e ditatorial, que pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar, elemento essencial da democracia. Se a ditadura politicamente correta constrange a cidadania, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e redações. O primeiro mandamento do jornalismo de qualidade é, como já disse, a independência. Não podemos sucumbir às pressões dos lobbies direitistas, esquerdistas, homossexuais ou raciais. O Brasil eliminou a censura. E só há um desvio pior que o controle governamental da informação: a autocensura. Para o jornalismo não há vetos, tabus e proibições. Informar é um dever ético. E ninguém, ninguém mesmo, impedirá o cumprimento do primeiro mandamento da nossa profissão: transmitir a verdade dos fatos.


DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO

BAR ZIL, ZIL

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Com tudo 
Sonia Racy 

O Estado de S.Paulo - 01/11/2010

E o Brasil ganhou sua primeira mulher presidente, que assume com o conforto de ter um Congresso a seu favor. Na Câmara, Dilma poderá contar com mais de 350 dos 513 parlamentares. No Senado, a coligação controlará a maioria. Na prática, a escolhida de Lula, ironicamente, desfrutará o que Lula - ou qualquer outro antecessor -, não teve: o apoio do Congresso, com poder para aprovar até mudanças na Constituição.
Desafio maior? O de suceder o presidente mais popular da história política
Brasileira.


Deferência
Lula marcou para as 9h sua votação em São Bernardo, ontem. Atrasou-se em meia hora para conversar com Luiz Marinho que foi até seu apê.
O prefeito é aposta política de futuro, na visão do presidente.

Xô, pijama
Entre CQC e Pânico, Lula preferiu... a bela Sabrina Sato. Prometeu à apresentadora que iria trabalhar com ela assim que deixasse o cargo.
Do Pânico, Lula ganhou passaporte do Corinthians. Do CQC, pantufa do Timão e pijama, repassados imediatamente a Marisa Letícia, sinalizando não ter gostado dos itens.

Serviço
Do que Lula sentirá mais falta? O presidente relembrou a época em que deixou a presidência do sindicato e, simultaneamente, perdeu as eleições. "Não tinha mais ninguém para pedir as coisas e ninguém para xingar a não ser a Marisa."
E remendou: "Ela volta a ter mais poder do que eu. O que vivo agora é anormal".

Na terrinha
Das 22 horas que Dilma passou em Porto Alegre, só uma foi de atividade pública. Ficou entre papo com o ex-marido, visita ao neto e conversa com apoiadores. Todos a sete chaves.
E na hora de votar, surpresa: não foi incomodada ou parabenizada. Praticou o ato cívico com tranquilidade.

Dia D
Tanto Serra quanto Indio da Costa tiraram uma soneca, ontem, após o almoço oferecido por Goldman no Palácio dos Bandeirantes. Depois, tucanos e aliados fizeram da casa de Andrea Matarazzo, o seu próprio ninho...


Mão amiga
Marta entregou sua prestação de contas ao Tribunal Regional Eleitoral. Surpresa: a senadora eleita doou R$ 2,5 milhões dos seus recursos arrecadados para a campanha de candidatos do PT.

Vão, não
Marina Silva vai se dedicar, nos últimos dois meses de mandato, para que a reforma do Código Florestal seja brecada. "O Aldo Rebelo e turma estão espalhando que colocarão em votação a reforma assim que acabarem as eleições. Ela vai desmontar essa bomba-relógio", assegura Mario Mantovani, do SOS Mata Atlântica.

Noves fora, nenhum
Plínio de Arruda Sampaio declarou ontem ter anulado seu voto, apesar do seu neto, de seis anos, ter pedido para votar em Serra.

E errou a direção na hora de votar no Santa Cruz. Pegou a esquerda. De propósito?

Melhor, não
Esta coluna informou a alto executivo de instituto de pesquisa, sua estranheza por jamais ter sido contatada ou conhecer alguém que foi. "Sabe qual a chance disso acontecer na sua vida? A mesma de você ser atropelada."
Nossa.

Estranha, a vida
O brasileiro precisa do título de eleitor para se inscrever no Exército, para tirar passaporte. Mas ele não é necessário para ... Votar.


Na frente

A cúpula tucana foi votar ontem tendo ainda um fio de esperança. A pesquisa tracking do partido apontava, sábado à noite, diferença de quatro pontos para Dilma.

Conhecido publicitário cometeu duas infrações de trânsito antes de votar no Colégio Santo Américo. Parou seu carro em fila dupla e sobre a faixa de pedestre.

Monica Serra escapou dos holofotes para...votar. A mulher do candidato quis ir embora em carro diferente do marido depois de cumprir seu dever cívico. "É bom porque com Serra aqui, todo mundo fica em cima dele e esquecem de mim", afirmou.

Kassab madrugou. Foi um dos primeiros a votar no Santa Cruz. E retornou mais tarde para acompanhar Serra.

Alexandre Padilha e Marcelo Déda, em dueto, cantarolaram músicas de Vandré no final do debate da TV Globo.

E Serra venceu...na China. Dos 287 votos, conseguiu 81%.

ANCELMO GÓIS

Fator Piauí 
Ancelmo Góis 
O Globo - 01/11/2010

O Piauí não é o falecido polvo Paul, mas também acerta todas. Nas seis eleições diretas, depois da volta da democracia, o candidato presidencial preferido dos eleitores do estado nordestino sempre é eleito. Foi assim com Collor (1989) FH (94 e 98) Lula (2002 e 2006). Com Dilma não foi diferente. Lá a petista obteve 68% dos votos.

Segue...

Já os eleitores de São Paulo e do Rio nem sempre acompanham a tendência nacional. Em 2006, Lula foi reeleito. Mas em São Paulo perdeu para Alckmin (54%), mesmo percentual que o derrotado Serra obteve na eleição de ontem. O Rio também já votou diferente do resto do país. Foi na eleição de Collor. Lula, com o apoio de Brizola, abocanhou naquela eleição 72% dos votos fluminenses.

Dilma na floresta

Dilma durante a campanha apelidou Antonio Palloci, José Eduardo Cardozo e José Eduardo Dutra de Os Três Porquinhos e o publicitário João Santana de o Lobo Mau.

Chefe da oposição

De Delfim Netto, sempre bemhumorado, ontem, antes de saber do resultado da eleição: — Serra ou Dilma o certo é que segunda-feira o Brasil terá um novo chefe da oposição: Aécio Neves.

No mais

Que sejam felizes. Dilma e o Brasil.

Quebra de sigilo

Sobrou para o contribuinte. Quem tem uma dívida com a Receita e precisa pedir a um contador para calcular o parcelamento agora tem de dar uma autorização expedida em cartório. Custa R$ 160. Melhor assim.

‘Me deixem em paz’

FH, depois de votar em Serra, ontem, no Colégio Sion, em São Paulo, foi surpreendido pela pergunta de um jornalista, que queria saber se era verdadeiro o boato de um suposto romance entre ele e a ministra Ellen Gracie, do Supremo: — Romance? Mas por que eu tenho de estar casado com alguém? Eu tenho 80 anos, meu Deus. Me deixem em paz!

Em tempo...

O ex-presidente, no caso, aumentou sua idade em um ano. Tem 79 anos.

Pão duro

Aliás, de Aécio Neves sobre o fato de FH ter perdido uma sola do sapato durante a passeata pró-Serra na sexta, em São Paulo: — Pão-duro como ele é. Só pode ter recauchutado essa sola.

Bolsa Miami

No Golden Green, condomínio de bacanas na Barra, houve queima de fogos depois do anúncio da vitória de Dilma.

Mão-leve

Outro dia em Campina Grande, na Paraíba, veja só, uma turma de mãos-leves aproveitou um corpo a corpo para levar quatro celulares de assessores de José Serra.

Só que...

Uma das vítimas conseguiu ligar para o celular furtado e estabeleceu, digamos, uma negociação.

Em troca do pagamento de R$ 200 de resgate, os larápios devolveram os telefones pelos Correios em São Paulo.

Rádio Corredor

A socióloga Aspásia Camargo, do PV, teria sido convidada para assumir a Secretaria municipal de Cultura de Paes.

Boletim médico

José Gomes Talarico, 94 anos, jornalista, ex-deputado e líder sindical, recebeu alta do Hospital Samaritano, no Rio.

Dia das Bruxas

Neste fim de semana eleitoral, uma festa de halloween (halloween é o cacete!) bombou na Favela do Vidigal, vizinha do Leblon, no Rio Lotou de gringos.

Quem parte...

De Sérgio Cabral: — Vou perder meu “Lulinha”, ele vai embora.

SHERON MENEZES, a linda Rainha de Bateria da Portela, veja só, mostra por que mereceu o título na sua festa de coroação

EM SUA PRIMEIRA turnê pela Europa, o cantor Diogo Nogueira foi recebido com festa pelo craque Ronaldinho Gaúcho em Milão

PONTO FINAL

Princesa Rousseff

Dilma não é a primeira mulher a ser chefe de Estado no Brasil. A primeira foi Dona Maria, a Louca; a segunda, a imperatriz Leopoldina; e a terceira, a princesa Isabel, que foi regente do Império por três ocasiões, numa das quais assinou a lei que aboliu a escravidão negra. Mas Dilma é a primeira mulher a ser eleita pelo voto livre e soberano do povo brasileiro, num país em que, até dia destes, lugar de mulher era na cozinha. Um feito histórico notável.

CAGADA

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Dilma no espelho
FERNANDO DE BARROS E SILVA
folha de são paulo - 01/11/10


SÃO PAULO - Como a sua aprovação popular traduz, Lula fez um governo de comunhão nacional. Um governo que patrocinou ganhos consideráveis aos mais pobres sem que nenhum interesse dos poderosos tenha sido arranhado. O próprio presidente nunca cansou de alardear, referindo-se aos bancos: "Nunca ganharam tanto dinheiro". Valeria para empreiteiras etc.
Na quase totalidade das vezes, os enfrentamentos retóricos que Lula protagonizou foram apenas isso -brigas retóricas, fumaça verbal. Na condução da economia, ele foi conservador e extremamente cauteloso. Na política, concedeu o que foi necessário à tradição patrimonialista, abençoando o casamento da velha fisiologia com os piores aspectos do petismo. Ao mesmo tempo, seu governo agiu sobre o país como uma espécie de morfina social. É por isso que será lembrado.
Eleita por obra e graça do padrinho, Dilma Rousseff herda esse arranjo complexo e delicado que sustenta o lulismo. O que fará dele e com ele é uma grande incógnita.
Lula governou por assimilação, por cooptação, acomodando conflitos. Dilma terá essa vocação? Terá condições de exercê-la, diante da variedade de interesses e do gigantismo de sua base de apoio?
Há, no PT, quem veja nessa vitória a oportunidade histórica para executar uma política mais claramente de esquerda. Mas há, também, quem considere Dilma refém demais das circunstâncias, além de lulo-dependente, para ousar qualquer passo em falso. Entre visões díspares e até antagônicas, a futura Presidência parece mais cercada de dúvidas do que de expectativas.
Não tenho memória de outra candidatura presidencial no país tão ostensivamente tutelada. O gesso que Dilma usou numa das pernas durante parte da disputa talvez fosse a peça mais maleável da sua persona política. Ao acordar hoje, livre da armadura da campanha, é possível que a própria presidente eleita estranhe o rosto que estará a observá-la do lado de lá do espelho.

CLÁUDIO HUMBERTO


Lula vence a disputa e faz de Dilma presidente
 

No chamado "Dia das Bruxas", mais de 54% dos brasileiros optaram pela candidata ungida por Lula, apostando em duas incógnitas: no governo que a primeira presidente do Brasil fará e se nele se incluirá, mesmo nos bastidores, o presidente Lula, o grande vencedor desta disputa entre o "continuísmo" e a "experiência" alardeada pelo tucano José Serra. Mas o criador descarta participar do governo da criatura.


Era de isopor

Lula jurou que não quer encargos no novo governo, mas ninguém acredita que ele optará por carregar isopor em praia paradisíaca.


Sem ele

Chefe de gabinete, Gilberto Carvalho diz que o presidente ficará longe da escolha do ministério de Dilma. A menos que seja chamado a opinar.


Pé-quente

Dilma livrou Lula da fama de pé-frio, mas ignora-se se manterá a pulseira de olho grego contra má sorte que usou durante a campanha.


Finados

Prefeito, governador, ex-ministro, José Serra terá que refazer seu destino: aprender a fazer oposição, com Aécio Neves de olho em 2014.


Casa Civil

O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) continua o mais cotado para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Ele conhece bem a máquina governamental, até porque, durante o governo Lula, cuidou das áreas de Orçamento e Gestão, e se trata de um quadro respeitado no PT, com trânsito em setores da sociedade e até na oposição. Paulo Bernardo também tem a confiança de Lula e da presidente Dilma Rousseff.


Jobim, de novo

É forte a chance de o ministro Nelson Jobim (Defesa) permanecer no cargo. Sua lealdade a Lula ficou demonstrada na campanha, quando não fez força pela candidatura do velho amigo José Serra.

Plano de Ciro

Ciro Gomes quer ser presidente do BNDES, mas Dilma acha que se trata de um cargo estratégico. A prioridade será a escolha técnica.


É só querer

Principal assessora de imprensa da campanha de Dilma, Helena Chagas só não será ministra de Comunicação Social se não quiser.


Eminência

Muito ligado a Dilma, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, pode não ocupar cargo, mas terá muita influência no novo governo.


Petrobras

A presidência da Petrobras é sonho de consumo do ex-ministro Antonio Palocci, que em nome de Lula atuou como verdadeiro "tutor" da Dilma candidata. A menos que ela o queira na Casa Civil, o cargo será dele.


Coutinho

Guido Mantega se credenciou para continuar ministro, mas não mais da Fazenda. Faz a cabeça de Dilma nessa área Luciano Coutinho, atual presidente do BNDES. Mantega talvez volte para o Planejamento.


Desejo

O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) espera uma boa recompensa pelo "sacrifício" que fez pelo partido, disputando sem chances o governo de São Paulo. Pode virar ministro de Ciência e Tecnologia.


A missão

O paulista Fernando Haddad tem sido considerado um dos melhores ministros do atual governo, por isso sua indicação para permanecer na pasta da Educação pode entrar na quota do presidente Lula.


FRASE DO DIA


"Ao ex-presidente só cabe torcer para que ela faça mais do que eu"

Lula, em mais um ataque de modéstia, afirmando que não vai atuar no futuro governo

PODER SEM PUDOR

Espírito de paz
O ministro Sepúlveda Pertence, que é mineiro, presidia o Supremo Tribunal Federal, quando fez uma visita a Vitória, em meio a uma briga entre desembargadores do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Uma repórter logo quis saber sua opinião sobre o caso. Sua mineirice se manifestou:
- Minha filha, em coisas do Espírito Santo, nem o Pai nem o Filho devem falar...

QUADRILHA

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014

Folha: Dilma é eleita

Estadão: A vitória de Lula

JB: A mulher chega ao poder: 56% garantem vitória de Dilma

Correio: Dilma do Brasil

Valor: Dilma é eleita e define medidas

Estado de Minas: Mineira será a primeira presidente

Zero Hora: A presidente do Brasil

domingo, outubro 31, 2010

ELEIÇÃO - A BANDIDAGEM GANHOU


Serão mais quatro anos de sombra sobre a DEMOCRACIA.

DORA KRAMER

Imagem e semelhança
DORA KRAMER
O ESTADO DE SÃO PAULO - 31/10/10

Hoje à noite o Brasil terá novo presidente. Depois de oito anos de Presidência “irradiada” - como se dizia na era das transmissões exclusivamente radiofônicas - daqui a dois meses o País volta ao normal em termos de conduta presidencial. A menos que Luiz Inácio da Silva pretenda substituir-se ao presidente - seja como chefe da oposição ou como tutor da chefe da Nação - e ocupe todo dia algum microfone por alguma razão, chega ao fim um período peculiar no que tange à figura de alguém que fez da Presidência um exercício de egolatria.

Daí a singularidade da campanha eleitoral que ontem chegou ao fim, exatamente no molde pretendido por Lula: uma guerra desprovida de conteúdo político (na melhor acepção do termo), na qual o que menos importou foram os atributos dos candidatos e os respectivos projetos de País.
Sinal mais expressivo é que nenhum dos dois se deu ao trabalho de expor ao eleitorado um plano de governo bem explicado e detalhado. E pelo pior dos motivos: medo de criar polêmica e, com isso, prejudicar as chances de vitória.
Embromaram no que seria substantivo e capricharam no adjetivo, no “aqui e agora” do embate. Diga-se, por sinal, que esse tipo de atitude seria impossível se o voto fosse facultativo, com os candidatos precisando lutar pelo interesse do eleitor.
Prevaleceu uma disputa na qual o eleitor foi ora espectador, ora massa de manobra, ora inocente útil, e Lula o protagonista.
A sociedade foi ativa ao provocar um segundo turno? 
É relativo: o segundo turno é da regra, sempre esteve no cenário. Representou apenas um fato surpreendente em relação ao quadro de artificialismo triunfante criado pela máquina de propaganda governamental em conjunto com pesquisas, cujos números acabaram se mostrando excessivos no tocante ao favoritismo da candidata oficial.
Lula conseguiu exatamente o que queria ao se impor como a figura central da campanha. Não lhe importa a evidência de que isso significa uma deformação institucional. Por si fácil de ser entendida, mas podemos ilustrar com o exemplo mais ou menos recente da então presidente do Chile, Michelle Bachelet, que mesmo popularíssima perdeu a eleição. Só não perdeu a compostura.
Para não ir longe, mas recuando bem mais no tempo, tivemos aqui Fernando Henrique Cardoso na transição civilizada para o PT. Mérito? Só porque a comparação é com Lula, pois de verdade seria uma obrigação.
Fragilizado politicamente, José Sarney ficou distante da eleição de 1989 servindo apenas de muro de pancadas dos muitos candidatos da época.
Itamar Franco não jogou o governo na luta pelo sucessor. Fernando Collor, com toda ausência de zelo pela coisa pública e arrogância doentia, enfrentou o período de acusações, investigações e impedimento sem fazer um centésimo do que Lula fez em matéria de abuso da máquina pública.
Pintou e bordou como nunca se viu diante de parte da sociedade perplexa, parte embasbacada, parte inebriada com a chance de comprar e crente que tudo se deveu à vontade, à coragem e à sensibilidade social de Lula.
Fez e aconteceu nas barbas da Justiça Eleitoral totalmente leniente e de um Ministério Público ausente.
Usou governo, ministros, capacidade de pressão, ludibriou e ainda se fez de ofendido quando a oposição resolver parar de apanhar calada. Conseguiu que, ao final, a impressão fosse de “baixarias de parte a parte”. 
Quem fez campanha ilegal por dois anos e transgrediu fora do limite de qualquer responsabilidade? Pois é.
Na regra limpa, no mano a mano, Dilma Rousseff teria chegado aonde chegou? Pois é.
Pode-se argumentar que os presidentes citados, à exceção de Itamar, foram derrotados pelas circunstâncias.
Lula saiu vencedor, no mínimo no quesito popularidade. Falta ainda esperar que a História conte a história toda: aquela parte que fala da credibilidade e fica para sempre. 
ABSTENÇÃO
Hoje não é demais repetir: “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”. Arnold Toynbee.

BAR ZIL, ZIL

DANUZA LEÃO


É hoje

DANUZA LEÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 31/10/10


Que Deus proteja o Brasil. Quando novo presidente é eleito, tudo muda, para melhor ou para pior

BOA SORTE ao eleito de hoje.
Se for aquele em quem votei, ótimo; se não for, boa sorte assim mesmo, e que Deus proteja o Brasil -e nos proteja.
Hoje à noite, na hora em que Lula puser a cabeça no travesseiro, vai cair a ficha: agora é só uma questão de tempo, e pouco tempo.
Ele se acostumou com o sucesso e a popularidade, mas vai ter também que se acostumar a não ser mais presidente da República, só que não vai ser assim tão fácil. Para isso é preciso ter sabedoria e equilíbrio, qualidades que definitivamente o presidente não tem.
Lula sonhou alto; pretendia ser secretário-geral da ONU, pretendia que o Brasil fizesse parte do Conselho de Segurança, pretendia ganhar o Nobel da Paz, quis resolver o confronto no Oriente Médio, foi chamado por Obama de "o cara"; começou a se achar dono do mundo, meteu os pés pelas mãos e conseguiu, na hora de sair, ficar mal na foto. Bem mal.
Qualquer que seja o resultado de hoje, temos boas razões para comemorar. Não vamos mais ver na TV Lula andando com o microfone na mão, como se estivesse num auditório, dizendo "nunca antes nesse país", comparando tudo que acontece a um jogo de futebol, sem um pingo de graça.
Não vamos mais ver Marisa Letícia vestida de verde e amarelo nas comemorações da Independência ou de vermelho em carreata eleitoral, saudando o povo com os braços para o alto, como se fosse uma miss; sua voz, ninguém jamais ouviu, e seu único ato foi fazer um canteiro com uma estrela vermelha no jardim do Palácio da Alvorada. Que foi retirada, por sinal.
O Brasil, que já tinha ficado bem mal educado nos tempos de Collor, ficou ainda menos educado depois dos oito anos de Lula. A falta de cerimônia, os péssimos modos, a maneira de se dirigir a seus adversários, o pouco caso com que atropelou as leis eleitorais; dizer inverdades, agindo como se os fins justificassem quaisquer meios, e que a impunidade é lei. Tudo foi um péssimo exemplo.
Quando um novo presidente é eleito, tudo muda - para melhor ou para pior. Penso em Cristina Kirchner, que deve estar passando por maus momentos, em todos os sentidos. Como fará para governar o país, sem seu marido ao lado para encarar os problemas, maiores ou menores?
É o perigo de ser eleito/a um candidato/a que precisa de quem o dirija na hora do aperto, para que o país não fique à deriva. Já pensaram se a mulher de Joaquim Roriz vence a eleição no Distrito Federal e seu marido morre? Antes de votar, há que se pensar em tudo, até no que parece impossível poder acontecer. E se acontecer?
Lula deve estar cansado, merece umas férias, e será recebido com festa na Venezuela, em Cuba e também no Irã.
Vai, Lula, você merece: nós também estamos muito cansados de você.
PS - Não há mais o que falar sobre eleição; então, depois de votar, passe numa livraria e compre o livro "Contra um Mundo Melhor", de Luiz Felipe Pondé, editora Leya. Tive dificuldade em alguns trechos -difíceis para quem não tem uma grande cultura-, por isso aconselho a deixá-lo na mesa de cabeceira, pegar de vez em quando, abrir em qualquer página e reler. É uma leitura perturbadora, que nos faz pensar, o que fazemos pouco.
Dê a você essa chance, a de pensar. Juro que não dói.

MERVAL PEREIRA


Tarefa inadiável 
Merval Pereira
O GLOBO - 31/10/10


O presidente eleito hoje terá pela frente como uma de suas tarefas inevitáveis desarmar os espíritos, radicalizados nesta eleição como há muito não se via neste país, mais precisamente desde a eleição de 1989, que colocou frente a frente um Lula e um Collor no grau mais acentuado de suas radicalizações políticas.

No processo eleitoral que se encerra hoje, quem radicalizou a ação política foi o próprio presidente Lula, provocando um retrocesso que custará caro ao amadurecimento institucional do país, se o próximo presidente não tiver noção do que aconteceu e não se dispuser a reverter essa tendência.

O país que vinha desde a redemocratização num processo de aperfeiçoamento de suas instituições viu a máquina do Estado, aparelhada politicamente como nunca antes, ser usada de maneira escancarada para viabilizar a eleição de uma candidata cujo surgimento no cenário político nacional deve-se única e exclusivamente à vontade de um homem que se considera o próprio "pai da pátria".

O país que vinha mantendo um processo continuado de equilíbrio das contas públicas viu o governo abandonar qualquer cautela, se não por pudor, pelo menos por prudência, e se jogar num gasto público crescente e descontrolado, na mais pura demagogia.

Utilizando empresas públicas emblemáticas como a Petrobras não apenas como símbolo de uma fantasiosa campanha contra as privatizações, mas também como máquina política, a ponto de antecipar a exploração de um campo de petróleo do pré-sal, provocando a desvalorização do patrimônio de seus acionistas - o maior dos quais é a própria União.

Os avanços conquistados nos últimos anos no governo Lula, como a redução da pobreza e da desigualdade, com a distribuição de renda através de programas sociais, e a inclusão de uma vasta camada da população no mercado consumidor, ao mesmo tempo sinalizam as deficiências que ainda temos, como a baixa qualidade da educação e a falta de infraestrutura, de que a melhor definição é a constatação de que quase 100% dos lares brasileiros têm acesso à energia e à televisão, mas apenas 50% têm rede de esgoto.

O aumento da demanda interna, se por um lado ajuda a manter o crescimento da economia, por outro força os limites desse mesmo processo, com o risco de gerar inflação.

Dois temas dessa campanha informam ao estrangeiro que chega ao país o atraso de nossa sociedade: as privatizações como ícone de um nacionalismo ultrapassado, que ainda vê o Estado como o provedor da segurança individual sem se importar com a ineficiência de seus serviços, mesmo com uma das maiores cargas tributárias do mundo; e a descriminalização do aborto, já aprovada em países tão ou mais religiosos que o Brasil, como Portugal e Itália.

Se as pesquisas de opinião, ao contrário do primeiro turno, estiverem certas, o mais provável é que a candidata oficial Dilma Rousseff seja eleita hoje, mas a distância que a separa de seu oponente José Serra, do PSDB, é pequena para padrões lulísticos de popularidade, o que demonstra que, se não tivesse perdido as estribeiras institucionais, o presidente Lula não conseguiria obter o que ele acredita ser - e a grande maioria dos eleitores de Dilma também - o seu terceiro mandato consecutivo por interposta pessoa.

Durante esta campanha ficou claro o contraste entre um país que exibe orgulho por certas instituições próprias de democracias avançadas, como a possibilidade de alternância no poder na mais absoluta normalidade, e a livre manifestação de opiniões, com sinais de atraso evidentes, com destaque para o fato de que, paradoxalmente, o presidente da República utilizou todos os meios a seu alcance, legais e ilegais, justamente para tentar impedir uma eventual alternância no poder.

E comandou uma campanha contra a liberdade de expressão que tem nas diversas iniciativas governamentais e partidárias a correspondência de sua retórica palanqueira.

Vencendo a candidata oficial Dilma Rousseff, veremos se a busca do equilíbrio da economia voltará a vigorar, ou se o novo governo será a continuação da política econômica posta em prática a partir do segundo mandato do presidente Lula, com um papel acentuado do governo na economia.

Mesmo recebendo um Congresso onde cerca de 70% dos eleitos fazem teoricamente parte dos partidos da base parlamentar do governo, um futuro governo Dilma dependerá principalmente do PMDB, cujo presidente é o seu companheiro de chapa Michel Temer.

Ele será o responsável, se não formal, certamente na prática, pela negociação com o Congresso. A disputa entre o PMDB e o PT por espaços de poder terá um problema adicional: Dilma não é Lula, falta a ela a capacidade de negociação de seu tutor, e sua maneira rude de comandar não parece ser o melhor caminho para se chegar a um acordo parlamentar.

Ao mesmo tempo, a oposição saiu da eleição menor na sua representação parlamentar, mas mais unida e com trunfos importantes, como o domínio dos principais colégios eleitorais, São Paulo e Minas, e o comando dos estados do Sul como Paraná e Santa Catarina, este a ser governado pelo DEM.

Cravou, também com o DEM, sua estaca no Nordeste, com vitória no Rio Grande do Norte; e no Norte, com o governo tucano de Tocantins; e hoje pode confirmar os governos do Pará, de Alagoas e de Goiás.

Tudo indica que mesmo com a confirmação da vitória de Dilma, as urnas mostrarão um país dividido, com a oposição ampliando sua votação nesse segundo turno.

E os tucanos ainda sonham com uma reviravolta que, se acontecer, ficará na história das eleições brasileiras como a vitória de Harry Truman sobre Thomas Dewey, em 1948, quando o jornal "Chicago Daily Tribune" garantiu na sua manchete na noite das eleições, com base em projeções de pesquisa de opinião, "Dewey derrota Truman".

Truman não só ganhou as eleições como posou sorridente com o jornal nas mãos, numa foto que se tornou famosa.

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Votando hoje
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADO DE SÃO PAULO - 31/10/10



Minha primeira lembrança política é de um comício comunista, em noite muito remota, na Praça Pinheiro Machado, em Aracaju. Nossa casa ficava na praça e meu pai resolveu que ia dar uma espiada e me levar com ele.

Não lembro oradores, só lembro uma aglomeração de silhuetas agitadas, em frente ao palanque armado sobre o coreto.

Ficamos pouco tempo, mas me impressionei com o coro dos participantes, repetindo o que para mim soou como "luí-cálu-pré!", "luí-cálu-pré!", "luícálupré!". Apesar do medo de que ele me remetesse ao dicionário e, a depender da veneta, me mandasse copiar o verbete com boa letra, perguntei o que queria dizer aquilo.

- Não é luí-cálu-pré - respondeu o velho. - É Luís Carlos Prestes.

Desta vez receando que fosse alguém cujo nome eu devesse ter decorado de algum livro, não perguntei de quem se tratava, apenas assenti com a cabeça, imitando os gestos dos adultos.

Ele ainda acrescentou que aquilo era um comício, um comício dos comunistas, mas eu não quis abusar da sorte e novamente não me arrisquei a fazer perguntas. Mais tarde, fui ao dicionário (um Laudelino Freire descomunal, em cinco volumes maiores que tijolos), ver secretamente o significado de comunista, li-o várias vezes, não entendi, fechei o livro e não disse nada a ninguém, para esconder a vergonha.

Algum tempo depois vieram as eleições presidenciais e minha vida política não mudou muito. Foi a primeira vez em que torci pelo resultado de uma eleição, embora deva confessar que por uma questão de conveniência. O velho, já político pessedista, ficou, é claro, com o candidato de seu partido, Cristiano Machado. Mas minha mãe, embora não militante, era getulista - "queremista", como se dizia na época - e, como a mais vantajosa aliança doméstica era com ela mesmo, acho que mais ou menos vendi meu voto e juntos saímos vitoriosos.

Ainda mais ou menos nessa época, tive os primeiros contatos com o processo eleitoral, na casa de meu avô, em Itaparica. Meu avô era coronel do tempo em que Itaparica era interior mesmo e as eleições uma produção complexa, que requeria o concurso de diversos especialistas, sob a direção logística de minha avó, respeitada como a pessoa mais valente da família e comandante férrea de um batalhão de cabos eleitorais.

A festa da democracia era caprichada e, nos dias próximos às eleições, já estavam organizadas as mesas de refeições em rodízio contínuo, o pessoal do empréstimo de sapatos, do empréstimo de ternos (alguns eleitores só admitiam votar de paletó e gravata) e demais petrechos eleitorais. Antes, já se haviam acumulado meses de trabalho, sobretudo no frequentemente penoso ensinamento de como desenhar a assinatura, porque analfabeto não podia votar e era preciso providenciar um jeitinho de superar essa odiosa discriminação.

Tinha gente que levava mais de um ano para aprender o desenho, embora minha avó, que sempre professou ser "da realidade", comentasse que, com almoço e janta de graça todo dia, Ruy Barbosa não ia passar da cartilha.

Hoje, com tudo isso já envolto na bruma do tempo e da memória distante, as coisas certamente mudaram. Terei mudado eu, já mais coroa que o desejável, e mudaram as eleições. Não há mais minha avó e seus esquadrões eleitorais.

Os marqueteiros são diferentes e, no máximo, podem ser acusados de manipulação, mas nunca de comandar diretamente o eleitor. Também não há mais coronéis e, embora mande a verdade reconhecer que os esquemas de sapatos, dentaduras e correlatos ainda existem, somos, afinal, um país moderno, livre desses velhos vícios.

Mas houve mesmo mudanças e, se houve, estamos melhor agora? Talvez, mas me ocorrem novamente as reformas, elas sempre me ocorrem, quando penso no Brasil. Todos aparentemente concordam em que o país precisa de reformas. Não são mais chamadas, como antigamente, de reformas de base, mas não se discute sua necessidade e talvez apenas se debatam prioridades, entre a fiscal, a política, a judiciária e outras, fáceis de arrolar. Contudo, só se fala nelas de raspão e, na campanha agora encerrada, elas não mereceram atenção, a não ser passageira. As reformas continuarão a ser algo em que se fala, não algo que se faz. Será que não precisamos mais delas? Nenhum dos candidatos ofereceu uma visão do futuro, um projeto, uma vocação nacional, um plano coerente de ação, nem mesmo um símbolo ou um slogan, como os "50 anos em 5" de JK, que pelo menos tinha uma força inspiradora e aglutinadora. Ouviram-se deles arrolamentos de providências, como se a tarefa do governo não passasse de ir tocando uma série de medidas pontuais, uma aqui, outra lá, sem integração numa estrutura orgânica, que deixasse claro para onde se pretende que rume a sociedade. Qual a face programática, qual, por assim dizer, a filosofia de governo que se pretende adotar o eleitor não sabe, ou se sabe, é por meios particulares ou adivinhação, pois dos candidatos é que ele não ouviu senão afirmações genéricas e vagas, fáceis de dizer e com as quais qualquer um concorda, como educação de qualidade para todos, inclusão social, melhor distribuição de renda, segurança e assim por diante.

Tanto assim que é bem ilustrativo um comentário feito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num programa de televisão. Com um risinho, ele observou que as diferenças entre os candidatos são na verdade muito pequenas.

Não está havendo, observou ele, disputa por uma causa, mas apenas uma disputa pelo poder. Ele deve saber do que está falando. Não vamos hoje, de jeito nenhum, escolher o quê, isso já era. Vamos apenas escolher quem. Entendo aquele que achar úni-dúni-tê um bom critério.

*JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

SERRA PRESIDENTE