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sábado, agosto 29, 2009
CLAUDIO DE MOURA CASTRO
Claudio de Moura Castro
De malandros e manés
"É inegável o Rio do malandro. Menos visíveis, mas também
inegáveis, são a vida e a força do outro Rio. É o Rio careta,
dos que frequentam livrarias e salas de concerto, em vez
de praias e baladas"
Rio de Janeiro (onde nasci) evoca uma imagem clássica. É a pátria do malandro. É o reino da esperteza, do "golpe", da falta de seriedade proclamada como virtude redentora. É o campo de provas da lei de Gerson, prescrevendo que é preciso levar vantagem em tudo. Não são poucos os prejuízos trazidos pela cultura da malandragem. É alarmante o número de empresas cuja sede fugiu para São Paulo. No nosso cotidiano, é difícil não ter um calafrio ao deixar o carro para consertar em uma oficina carioca. Do lado mais ameno, é o território do bom humor, da piadinha maliciosa e da inexplicável alegria diante da desgraceira.
O malandro carioca é assunto canônico dos sambistas: "...Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio. / Sei que eles falam / Deste meu proceder / Eu vejo quem trabalha / Andar no miserê / Eu sou vadio / Porque tive inclinação" (W. Batista). Bezerra da Silva imortaliza o perfil: "Malandro é malandro e mané é mané".
Essa caracterização popular tem respaldo acadêmico e raízes históricas. Roberto da Matta intitula seu livro clássico de Carnavais, Malandros e Heróis. Segundo ele, na sua origem, "o malandro é o nobre pé-rapado, o sujeito que viu os aristocratas lendo e escrevendo, não teve educação para entender o eventual valor da escola e vive de expediente". José Murilo de Carvalho mostra a imagem do malandro carioca emergindo como reação à alienação engendrada por confrontos políticos no início do século XX. Fala de "irreverência, de deboche, de malícia". Se digitamos no Google "malandro" junto com "Rio de Janeiro", aparecem 200 000 referências.
| Ilustração Atomica Studio |
Porém, há outro Rio de Janeiro, menos lembrado. Durante séculos, por ser a capital econômica e política do país, atraiu as melhores cabeças. Inicialmente, desembarcou a corte de Portugal, com seus mais destacados figurantes. Por muito que seja criticada, é preciso reconhecer, ela criou uma aristocracia intelectualizada, que se perpetua ao longo dos anos. Desde sempre, atraiu os mais inspirados intelectuais das províncias. Até há pouco, foi um magneto para escritores e cientistas, mesmo de São Paulo. A despeito de décadas de desgoverno, ainda tem as melhores escolas médias, um plantel de grandes intelectuais e notáveis centros de pesquisa e pós-graduação. A lei de Gerson passa longe.
Que cara tem esse outro Rio? Sugiro que tem a cara de dom Pedro II. Eis um carioca arquétipo dessa outra persona do Rio. Ao morrer, foi considerado a cabeça coroada mais culta de quantas havia na Europa. Dom Pedro é o outro Rio: sério, digno, disciplinado, erudito. Era o caretão rematado, a figura do antimalandro. Em vez de beija-mãos na corte, promovia saraus intelectuais e trocava cartas com Victor Hugo, Humboldt, Lamartine e Jean-Louis Agassiz, notável zoólogo e geólogo suíço.
É inegável o Rio do malandro. Menos visíveis, mas também inegáveis, são a vida e a força do outro Rio. É o Rio careta, dos que frequentam livrarias e salas de concerto, em vez de praias e baladas. Por anos de convivência, é um Rio incólume e vacinado contra o vírus da malandragem. O grande paradoxo é a incapacidade desse Rio intelectualmente tão sério e bem-dotado de frear o desgoverno que aos poucos foi se infiltrando. A malandragem pitoresca virou bandidagem, com a desmoralização resultante. Inapetência dos "puros" de chafurdar na política? Talvez. Os bons são muito poucos? Acho que não. Estão por todos os lados. Mas não chamam atenção, por serem menos pitorescos e divertidos. Aliás, dom Pedro II gostava mesmo era de um papo cabeça.
Mas, se o Rio tiver alguma arma secreta para reverter sua decadência, com certeza, será esse enorme e possante segmento, estilo dom Pedro II, que representa o oposto da malandragem e possui um respeitável vigor intelectual e moral. Vamos torcer para que decida salvar a sua cidade. "O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos nem dos desonestos nem dos sem ética... (mas) o silêncio dos bons" (M. Luther King).
ANCELMO GÓIS
Duas oficiais de Justiça foram ontem ao apartamento de Romário, no Rio, penhorar vários bens do craque.
Os itens, que não podem ser vendidos, servirão de garantia para o pagamento de quase R$ 1 milhão a Zagallo naquela ação da caricatura do técnico no Café do Gol, ex-bar do Baixinho.
SEGUE...
A lista é farta: oito óculos Prada, cinco ternos Armani e Versace, dois tapetes, um sofá grande, três quadros de autores desconhecidos, quatro TVs de LCD, uns 15 aparelhos de ginástica, uma adega e uma churrasqueira.
VIÚVOS DA HELP
Acredite. Jornalistas do Quênia que cobriram o Mundial de Atletismo, em Berlim, ficaram inconsoláveis quando um coleguinha brasileiro contou que a boate Help, templo da saliência no Rio, vai virar Museu da Imagem e do Som. “Ahhh”, suspiraram.
Disseram que a Help foi o “ponto turístico preferido” deles numa vinda ao Rio, em 2008, para o mundial de meia-maratona.
E MAIS...
Os quenianos disseram que torciam pelo Rio na disputa pelos Jogos de 2016 só para revisitar a Help. Um até desabafou:
– We don’t want museum! We want... bunda! (ou, no idioma de Lula, “não queremos museu, queremos... bunda”).
LULISMO NO PODER
Merval Pereira, o coleguinha do Globo, assinou contrato com a Editora Record. Vai publicar o livro Lulismo no Poder.
O livro, que sai em abril do ano que vem, reúne uma seleção de textos de sua coluna, organizados por temas.
COM A PALAVRA...
Do historiador Marco Antonio Villa, inconformado com a absolvição do ex-ministro Antonio Palocci no STF:
– O STF continua o mesmo de sempre: de costas para o País. Mais uma vez, os advogados de defesa dos acusados foram os destaques. Negativos, claro. Será que eles acreditam no que dizem? Ou o que fala mais alto são os honorários?
É. Pode ser.
REAGE, FLAMENGO
Torcedores do Flamengo prometem fazer barulho em frente à sede do clube, hoje, às 10 horas, num ato batizado de “Dia do Basta”.
A manifestação, contra a diretoria, vinha sendo combinada na internet. Tem até site (torcedordoflamengo.com.br).
REAGE, FLUMINENSE
A maré não anda mesmo boa para o Fluminense, lanterna do campeonato brasileiro.
O jogador Arouca entrou na Justiça para cobrar do clube R$ 100 mil de salários atrasados.
ESTADO LAICO
Do deputado Arolde Oliveira, evangélico da Igreja Batista, um dos poucos contrários a tal “Lei Geral das Religiões”, aprovada esta semana na Câmara, que obriga o Estado brasileiro a reconhecer o ato de criação de qualquer instituição religiosa e lhe dar isenção fiscal, sobre a norma: “Além da católica e das protestantes históricas, só de denominações evangélicas novas temos mais de 400. Sem contar as afro, a muçulmana e as orientais... Uma coisa é a igreja católica que tem unidade jurídica e outra são as evangélicas que tem centenas de denominações. A lei acabará se tornando um pomo de discórdia entre as próprias religiões”.
RUY CASTRO
Tudo é business
Pois ontem mesmo fui ao Google, para recuperar o noticiário sobre dois assuntos recentes e momentosos. Primeiro, o bárbaro caso do homem que matou a facadas cinco membros de uma família – um pai e quatro filhos menores – em João Pessoa, Paraíba, por causa de uma galinha morta e dividida entre as duas famílias. O agressor teria discordado da partilha, dizendo que a ele e seus filhos couberam as partes menos nobres da ave. E partiu para a chacina.
O outro assunto é a história dos pintos encontrados cambaleando num quintal em Volta Redonda (RJ), depois de atacar a bicadas um saco de maconha e comer quase toda a erva. Descobriu-se que o quintal pertencia a um traficante e que os pintos estavam há dias sem água e comida. Imagine a larica.
Quando se vai ao Google, ele nos oferece diversos produtos relacionados ao assunto procurado. É como o site fatura em cima das informações que nos dá de graça, não quer saber a natureza do assunto.
Assim, junto com a trágica história da família trucidada por causa da galinha, vêm anúncios de embalagens para ovos, de pousadas em Porto de Galinhas e até de tratamento para rugas e pés de galinha. Na matéria sobre os pintos, vêm ofertas de chocadeiras, instruções sobre como plantar maconha em casa e a dica de uma loja em Londres onde se vendem balas, chocolates e pirulitos de maconha. Tudo é business.
CLÁUDIO HUMBERTO
MARCO AURÉLIO MELLO, SOBRE A DENÚNCIA CONTRA O EX-MINISTRO ANTONIO PALOCCI, REJEITADA PELO STF
LULA USA O PMDB PARA FAZER O “SERVIÇO SUJO”
A direção do PMDB ficou muito irritada com a declaração do líder do PT, deputado Cândido Vacarezza (SP), negando apoio do seu partido à recriação da CPMF, rebatizada de CSS (Contribuição Sobre a Saúde). O PMDB percebeu que tem sido usado para fazer o “serviço sujo” do governo, que desgasta o partido, enquanto o PT faz pose de bonzinho. Foi assim na crise do Senado e tem sido assim na recriação da CPMF.
ORDEM SUPERIOR
Lula pediu ao PMDB para abrir o debate e mandou o ministro José Gomes Temporão percorrer o País em defesa da recriação da CMPF.
OPORTUNISMO
Na crise do Senado, enquanto o PMDB se desgastava, petistas como Aloizio Mercadante e Eduardo Suplicy (SP) posavam de “indignados”.
SOY GOBIERNO
Mais governista que os petistas, o presidente do PMDB (o da Câmara), Michel Temer, não atacou a CSS. Só disse que seria “difícil” votá-la.
LOROTA
Nas reuniões, Lula elogia a solidariedade do PMDB, “mas não exige a mesma conduta do PT”, diz um importante ministro peemedebista.
ARRUDA DECIDE NÃO ABRIR MÃO DO VLT
O governador do DF, José Roberto Arruda (DEM), decidiu “não abrir mão” da obra do VLT, o Veículo Leve sobre Trilhos projetado para ligar o aeroporto ao Centro de Brasília, pela avenida W-3 Sul. Quem conhece a cidade sabe a importância dessa obra para o sistema de transporte coletivo e para a revitalização da W-3. Ele havia suspendido a obra por causa da queda na arrecadação, mas mudou de ideia.
SÓ NAQUILO
Visivelmente entediado no encontro da Unasul, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, só pensava nas bases... Do seu terceiro mandato.
COMPANHEIRO LULA
A coluna O presidente responde, que Lula assina em páginas amigas, já circula em 145 jornais de todo o País.
“TAMOFU”
O ex-prefeito Cesar Maia cunhou em seu blog nova terminologia da gripe suína: gripe Dilm.A.
NOVO EX-CANDIDATO
Assim que soube da pré-candidatura ao Senado do ministro José Pimentel (Previdência) no Ceará, Lula avisou o PMDB: “Isso não existe. Ele só assumiu o cargo porque se comprometeu a não ser candidato”.
PRATO SERVIDO FRIO
A prefeita de Natal (RN), Micarla de Souza, que derrotou o presidente Lula em sua campanha, comanda a comitiva de verdes no ato de filiação da senadora Marina Silva, neste domingo, em São Paulo.
MILITÂNCIA PRECOCE
Hoje aos 53 anos, o presidente do Sebrae nacional, Paulo Okamoto tinha apenas oito anos de idade quando se deu o golpe de 1964 e quinze anos quando o general Médici arrebentava como ditador. Ainda assim, conseguiu uma “bolsa ditadura” como “perseguido político”.
CIRO NA FRENTE
O deputado Ciro Gomes (PSB) está eufórico com o seus números nas pesquisas presidenciais. Não é para menos: ele cita levantamento do Vox Popupi indicando ele na frente no Paraná e no Rio Grande do Sul.
O REI EM BRASÍLIA
O vice-governador do DF, Paulo Octavio, esteve ontem à noite com o rei Roberto Carlos em São Paulo para sacramentar sua presença no show dos 50 anos de Brasília. Outro que vem é Paul MacCartney.
SURPREENDENTE
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) estaria liderando as intenções de voto para presidente na Bahia e em Pernambuco, segundo as mesmas pesquisas que chegaram ao conhecimento de Ciro Gomes, ontem.
ENDEREÇO DEFINIDO
O presidente francês Nicolas Sarkozy, sem Carla Bruni, ficará na suíte presidencial de 700 metros quadrados do Hotel Brasília Alvorada (ex-Blue Tree), quando vier recolher alguns bilhões pela venda de armas, helicópteros e submarinos e assistir ao desfile de Sete de Setembro.
O AUTOR DA PROPOSTA
O ex-senador Joaquim Roriz (DF) disse que não disse que de fato disse: ele levou ao presidente do PMDB, Michel Temer (SP), de apoiar Tadeu Filippelli para o Senado. Depois negou que fosse sua a proposta, mas era. E o impasse no PMDB do DF continua.
PENSANDO BEM...
...Único processado na quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, o ex-presidente da Caixa está no Mattoso sem cachorro.
PODER SEM PUDOR
CONSULTA MÉDICA
O presidente Lula recebeu certa vez a visita do então prefeito de Rio Sul (SC), Jaílson Lima da Silva (PT), que é médico. Sentindo-se mal, Lula pediu uma consulta rápida, ali mesmo, para verificar se era sinusite. O prefeito brincou:
– O senhor vai pagar pela tabela do SUS ou particular?
– Pelo SUS – respondeu o presidente.
Correu o risco de não ser atendido.
sexta-feira, agosto 28, 2009
MERVAL PEREIRA
Foi uma vitória tão inesperadamente apertada no Supremo Tribunal Federal — 5 a 4 —, que as vantagens políticas do resultado não serão aproveitadas com tanta amplitude quanto estava sendo planejado pelo próprio ex-ministro Antonio Palocci e pelo presidente Lula. Liberado pelo Supremo Tribunal Federal da acusação de ter quebrado o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, o deputado federal Antonio Palocci volta à cena política principal com menos credibilidade do que antes de ter que abandonar o Ministério da Fazenda, e, para se transformar em um curinga para o governo, terá que batalhar muito para recuperar a imagem.
Ficará marcado pelos quatro votos contrários, que foram acusatórios, e pelos votos que o salvaram de um processo, que não tiveram o caráter de absolvição que sua aspiração política requeria.
A partir de agora, o governo federal, se quiser ter nele uma alternativa mais substancial para seu projeto político de permanência no poder, terá que turbinar sua atuação, expor sua força política.
A reação da opinião pública à decisão do Supremo Tribunal Federal será fundamental para que Palocci volte a ser uma peça decisiva no tabuleiro político.
O ex-ministro, mesmo antes da reunião de ontem do Supremo, era considerado a melhor aposta do PT para a disputa do governo de São Paulo em 2010, dando ao partido a possibilidade de disputar o cargo com um nome próprio, evitando assim que o presidente Lula insista na extemporânea candidatura de Ciro Gomes.
Mas o resultado apertado pode ter adiado o plano do PT de São Paulo.
É provável que Palocci retorne, de imediato, ao primeiro escalão do governo em uma função política, provavelmente no papel de ministro das Relações Institucionais do governo, para substituir o deputado José Múcio, que deve ir para o Tribunal de Contas da União (TCU).
Mas a possibilidade de vir a ser uma alternativa viável de candidatura à Presidência, caso a da ministra Dilma Rousseff não se fortaleça, tornou-se menos provável com o resultado do julgamento do Supremo.
O mais improvável, porém, é que ele venha a ser o coordenador econômico da candidata Dilma Rousseff, a não ser que ela mude sua visão do assunto.
Em finais de 2005, pouco antes de ter que sair do governo devido a essa acusação de violação do sigilo do caseiro, Palocci entrou em rota de colisão com Dilma sobre uma proposta de ajuste fiscal de longo prazo apresentada pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, com o seu apoio.
A chefe da Casa Civil classificou publicamente a proposta de “rudimentar”, explicitando um racha dentro do governo com relação ao gasto público. De lá para cá, a proposta do Planejamento foi engavetada, e o gasto público foi aumentando, ganhando um papel importante na mudança de estratégia econômica do governo, e sendo aprofundada depois da crise econômica que se instalou no mundo no final do ano passado, dando margem a que fossem chamadas de políticas anticíclicas até mesmo medidas de aumentos salariais assumidas muito antes da eclosão da crise.
Pois o ex-ministro Antonio Palocci não mudou de posição nestes anos em que esteve de resguardo, exercendo discretamente seu mandato de deputado federal e retomando paulatinamente sua influência junto ao presidente Lula.
Ainda esta semana, em um seminário do Instituto Brasileiro de Siderurgia, em São Paulo, em uma palestra sobre as perspectivas econômicas do país e do mundo, Palocci reassumiu o papel de grande estimulador da economia brasileira que marcou sua passagem pelo Ministério da Fazenda, reafirmando sua crença de que será necessário fazer um plano de longo prazo para reduzir o gasto público.
Diplomático, elogiou a atuação da equipe econômica do governo durante a crise econômica, e disse que, no mundo pós-crise, apenas dois países dos Brics surgirão como potenciais parceiros dos países desenvolvidos: Brasil e China.
Palocci reassumiu uma postura que incomodava muito os petistas nos tempos em que era ministro: elogiou a manutenção de políticas econômicas nos últimos 15 anos, atribuindo a essa continuidade o sucesso que o país vem tendo no enfrentamento da crise mundial.
Mas fez questão de ressaltar que o gasto público vem crescendo acima do PIB nos últimos 15 anos, o que não é sustentável. Para Antonio Palocci, o tamanho do Estado brasileiro não depende da vontade política de Fernando Henrique nem de Lula, mas das necessidades de implementação de políticas sociais compensatórias.
No entanto, disse, é possível reduzir os gastos públicos sem prejudicar os programas sociais. E voltou a defender a proposta “rudimentar” de reduzir os gastos para que, num período de dez anos, sejam gradativamente cortados para ficar abaixo do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o que daria uma sinalização de equilíbrio de longo prazo para a economia.
O ex-ministro Palocci encerrou sua apresentação indicando a educação como nova e fundamental prioridade para um próximo governo, com a necessidade de mais qualidade no ensino, depois de termos universalizado a frequência nas escolas, para que o país passe para um novo patamar de desenvolvimento.
Suas palavras são música para os ouvidos dos empresários, mas sua imagem política ainda está muito avariada para que aspire a voos mais altos.
BRASÍLIA - DF
Eminência na Receita
| Correio Braziliense - 28/08/2009 | ||||||||||||
Resistência
Estrada
Herege
Cinema
Porteira
|
NELSON MOTTA
Paixão pelo amarelo
| O Globo - 28/08/2009 |
Nas ruas de grandes cidades americanas e europeias sempre me admiro com o respeito, e o temor, dos motoristas pelas leis de trânsito. Não há horário ou pretexto para que algum carro avance com o sinal amarelo. Pode até ranger freios e pneus, dar um susto no passageiro, até mesmo levar uma encostada na traseira, mas ninguém cruza a faixa de pedestres no amarelo. Não só a multa é pesadíssima, como o infrator tem que comparecer ao tribunal, perde pontos na carteira, tem uma grossa chateação. É um comportamento profundamente arraigado nos motoristas e um símbolo de convívio urbano civilizado. Entre nós é justamente o contrário. Porque no Brasil em geral, e no Rio de Janeiro em particular, a regra é aproveitar até o último restinho de amarelo antes do vermelho e ser mais esperto do que os outros. Pelo menos até o próximo sinal. Em cidades mais violentas e inseguras como Rio, Recife, Belo Horizonte e Vitória, nem o sinal vermelho é respeitado, por motivos óbvios: para não ser assaltado, hoje um clássico urbano brasileiro. O Estado é incapaz de dar segurança ao cidadão e não pode puni-lo por proteger sua própria vida. Mas mesmo em nossas cidades mais civilizadas o amarelo é como um extra, um bônus, um “chorinho” do verde. Não é preciso ser nenhum professor DaMatta para perceber que, mais do que um mau hábito perigoso, é uma metáfora do nosso jeito brasileiro de ser. A pressa que leva ao atraso. Acostumado a atravessar as ruas do Rio de Janeiro depressa, mesmo com a luz verde, e depois de olhar para os dois lados, até em vias de mão única, tive um choque de civilização em Roma quando descobri, incrédulo, que onde não havia sinal bastava colocar o pé na faixa para que todos os carros parassem imediatamente, em qualquer lugar ou horário, por mais movimentados que fossem. Mas nós amamos tanto o amarelo, símbolo do ouro na nossa bandeira e na camisa da seleção, que o usamos até para mostrar desprezo. Se falta coragem a alguém em um momento decisivo, diz-se que amarelou. Como o senador Mercadante, que para não ficar vermelho por cinco minutos vai ficar amarelo o resto da vida |
ARI CUNHA
Baleia era uma vaca doméstica. Entrava na cozinha como se fosse um cãozinho. Todos de casa conversavam com ela. Era como se ouvissem a resposta. A criançada adorava. Nenhum adulto se incomodava com a presença de Baleia entre as mesas e panelas. E assim iam se passando os dias. Até que, depois do almoço, o patriarca perguntou se todos tinham almoçado bem. E declarou que a carne daquele dia era da Baleia, a vaca querida. O dinheiro estava curto e o homem precisava vender o animal. A choradeira foi geral. O espanto não gerou outra reação. Olhando de perto, essa história faz pensar no PT. Mais exatamente nos senadores Suplicy e Mercadante. Nunca foram designados para cargos importantes. Nem tiveram do presidente Lula o reconhecimento pelo trabalho feito. É como se eles tivessem engolido o PT. O que ficou no corpo passou para o sangue. (Circe Cunha)
A frase que não foi pronunciada
“Para quem está morrendo afogado, jacaré é toco.”
Antonio Palocci, esfregando as mãos, esperando o resultado da votação no Supremo.
Diferente
“Diploma não mede a inteligência de ninguém.” “Ter coração é mais importante do que ser letrado.” O presidente Lula entendeu que a educação formal incrementa a inteligência e o bom coração é fundamental na gestão e aplicação de políticas públicas. Depois de pronunciar essa sabedoria, homem do povo não vai mais ouvir o presidente relacionando educação formal com burguesia.
Aos poucos
Crescem, sem que alguém impeça, os condomínios Privê I e II. A impressão que se tem é que sopraram a possibilidade de legalizar mais uma invasão.
Sempre
Aconteceu em 2003. Em reunião para a prorrogação da guerra fiscal, governo e parlamentares discutiram durante horas. Antes de abrir a porta para os repórteres, Mercadante sugeriu que todos rissem para mostrar o sucesso da reunião, mas advertiu: “Menos você Rachid, senão o contribuinte vai pensar que se deu mal”.
Turismo
Ricardo Moesh, coordenador do Ministério do Turismo, informou em audiência pública no Senado que o Nordeste vai investir na capacitação da população local. Formalizar a mão de obra será um passo importante para garantir benefícios também aos moradores.
Saneamento
Fortaleza (CE) saiu do 5º lugar para o 26º no setor saneamento. Pesquisa do Ibope Inteligência com o Trata Brasil. A posição considera os municípios do Brasil com mais de 300 mil habitantes. Caucaia degringolou. Se em 2003 estava na 26ª colocação, em 2007 passou para a 64ª. Investimento em saneamento é a causa indicada para a ocorrência desses fatos.
De olho
Arthur Virgílio disse que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) considerou como estados produtivos aqueles que mais esbanjaram e errou quando comparou a produtividade do setor público com a do privado. Pode ser para esconder os gastos correntes crescentes do atual governo — que começam a ficar insuportáveis, em detrimento do investimento, apontou o senador.
BBB
Tanto a Presidência da República do Brasil quanto os executivos do Canal 4, da Inglaterra, estão cansados de sucessivas edições de reality show. Rodrigo, o brasileiro que participa da última edição no Reino Unido, e Dilma Rousseff fecham o entretenimento.
Faz sentido
Escolas chegam a aldeias indígenas. A Universidade do Estado do Amazonas estende o conhecimento pela comunidade, com respeito à diversidade cultural. Animado, o senador João Pedro terminou o discurso dizendo que o brasileiro só vai dominar a Amazônia se conhecê-la. Bernard Shaw disse que quem não sabe ensina.
Ted Kennedy
Família criada para alçar o voo mais alto nos Estados Unidos termina com a morte de Ted Kennedy. Passou por todos os tropeços. Desde a morte do filho mais velho na guerra à sucessão de assassinatos e escândalos. Desaparece Ted, vítima de câncer. Sua vida foi dedicada ao Congresso, onde viveu grandes momentos da democracia. Presidente Barack Obama interrompe férias para saudar o amigo que o pôs no caminho da Casa Branca.
Sobra
Foi oficializada a entrega de R$ 80 milhões para a educação infantil. O presidente da Câmara, Michel Temer, entregou ao ministro Haddad a doação. Esse é o valor economizado pela atual Mesa Diretora. Depois que aprovar um projeto de lei, a transferência da verba será efetivada.
Receita Federal
Quando se mexe no cofre, o coração do país balança. Punições na Receita Federal superam expectativas. O desalinhamento das chefias em quase todos os estados afeta a curiosidade do contribuinte. A confiança não foi perdida, mas o pêndulo está passando de um lado para outro. Ministro Mantega atenua. No íntimo, entretanto, reconhece a situação e se sente culpado, em parte, pelos acontecimentos.
História de Brasília
Enquanto não há transporte abundante na cidade, a Câmara Júnior lançará uma campanha de carona. Os proprietários de carros que aderirem à campanha trarão, no para-brisa, uma plaqueta indicativa. (Publicado em 7/2/1961)
CLÓVIS ROSSI
Templo é dinheiro?
| Folha de S. Paulo - 28/08/2009 |
Passo a coluna para o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), porque o que ele narra consegue ser estarrecedor mesmo em um país em que parecia esgotado o estoque de estarrecimentos. |
PARA....HIHIHIHI
Então ela pede a mãe que a acompanhe durante a lua-de-mel. A mãe a acompanha e hospeda-se no quarto ao lado do casal. Pela madrugada a mãe escuta o seguinte diálogo:
- Filha deixa vai, deixa, deixa...
- Não, não deixo.
O Noivo insistia:
- Pelo amor de Deus, DEIXA.
A mãe impaciente e vendo a besteira da filha, arromba a porta do quarto do casal e entra no quarto dizendo para a filha:
- Ó maluca, porque você não deixa.
A filha responde:
- Ô mãe, deu tanto trabalho para entrar e ele já quer tirar...
JOÃO MELLÃO NETO
Nós ainda acreditamos na ética
| O Estado de S. Paulo - 28/08/2009 |
O PT salvou Sarney. E isso, para os crédulos militantes petistas, é um desastre. Para entender o que significa ser petista e por que os militantes do partido acreditam ser moralmente superiores é preciso voltar no tempo. Mais precisamente, ao início da década de 1980, quando o PT foi fundado. Nas universidades e na intelectualidade em geral, o pensamento marxista prevalecia. Eu, então, era estudante. E naquela época quem não abraçava a causa de Marx era automaticamente tachado de simpatizante da ditadura. O regime militar bem que alimentava essa dicotomia. Para seus defensores, quem não era favorável ao sistema era imediatamente identificado como comunista. E assim fluía o pensamento: marxistas de um lado e militaristas de outro, não havia lugar para liberais e democratas. E o que é o marxismo ou, como proclamam os seus seguidores, a "causa"? A "causa" é a mais nobre das aspirações que um humano possa ter. Ela defende o comunismo como etapa necessária para se chegar ao socialismo. E tanto o comunismo como o socialismo requerem de seus seguidores que abandonem todo o apego aos bens materiais. A lógica é perversa: a propriedade privada é a causa de todos os males que assolam a humanidade. É por causa de sua existência que os homens, em vez de colaborarem entre si, preferem disputar a posse de todo e qualquer bem, usando da violência se preciso for. Uma vez abolida a propriedade privada e investindo pesadamente na educação, a geração seguinte necessariamente será solidária, preocupar-se-á com o bem comum e colocará as aspirações coletivas acima das suas próprias, individuais. Bem, isso vale para as próximas gerações. E para esta, a atual? Para esta geração, na qual se dará a grande transformação, impõe-se como condição básica que seus defensores tenham um rígido autocontrole. Todos nós fomos criados e condicionados a alimentar ambições materiais e aspirar a toda e qualquer propriedade. Os adeptos da "causa" têm de ter consciência de que essa transição não é fácil. Luta-se contra aquilo que os burgueses chamam de "natureza humana". Querem estes que sejam timbradas como naturais ao homem as ambições materiais, quando elas, na verdade, não passam de um condicionamento proveniente da existência da propriedade privada. Mas, uma vez feita a transição - e não se descarta o uso da violência e da luta armada para tanto -, o "homem socialista" que advirá será em tudo superior ao atual. Esta é a grande "causa": promover a transição da geração atual para a futura, muito melhor. Os raciocínios que presidem a "causa" são mais sofisticados do que isso e não vale a pena descrevê-los. O importante é ter ciência de que os adeptos da "causa" se sentem agentes da grande mudança. Não é à toa que se sentem, individualmente, moralmente superiores ao restante da humanidade. A "causa" exige muito, mas acaba sendo gratificante. Os seus adeptos não alimentam mais nenhuma dúvida sobre nada. Para todas as manifestações da natureza humana existem explicações plausíveis. E toda mesquinhez, todo egoísmo e toda ganância desaparecerão, uma vez abolida a propriedade privada. Em especial a propriedade privada dos meios de produção. Pois bem, foi com esse espírito de entrega, renúncia e dedicação à "causa" que nasceu o Partido dos Trabalhadores, em 1980. Era um partido que se proclamava diferente e superior a todos os outros partidos porque não estava ingressando na política para satisfazer vontades e aspirações individuais, mas sim para implementar uma ideia. O PT seria um partido com um norte definido. E esse objetivo era nada menos do que a "causa". Poucos se recordam agora, mas antes de entrar na fase ética e moralista os intelectuais petistas torciam o nariz quando se lhes propunha que desfraldassem a bandeira do combate à corrupção. Esse era um tema secundário, argumentavam eles. Que importância tem expurgar os corruptos da sociedade quando o grande roubo que existe nela é o perpetrado pelos burgueses sobre os proletários? A classe trabalhadora, diziam, era explorada pelos patrões, que estavam cada vez mais ricos, enquanto os pobres ficavam cada vez mais pobres. Bem, esse era o clima que perdurou por toda a década de 80. Na década seguinte o PT abraçou de corpo e alma a imagem de um partido ético, que, na esfera pública, não rouba nem deixa roubar. Foi com essa silhueta que o partido cresceu e finalmente alcançou o poder maior, em 2002, com a eleição de Lula para presidente da República. Tudo isso está sendo relembrado para demonstrar que a ética e a moralidade na área pública são bandeiras estranhas à "causa". Não estão impressas em seu DNA. Isso ficou claro em 2005, quando ocorreu o escândalo do "mensalão". Os petistas, ficou demonstrado, não se incomodam em recorrer a expedientes antiéticos, desde que o façam para facilitar a implementação da "causa". Nos dias que correm, já há intelectuais petistas que voltam a demonstrar o seu menosprezo original pelas bandeiras éticas. Alegam que ficar clamando pelo combate à corrupção é uma manifestação de moralismo "pequeno-burguês" e de "udenismo tardio". É, no mínimo, curioso ouvir tais argumentos da boca de empertigados intelectuais petistas que, antes da chegada ao poder, eram os paladinos da caça aos corruptos e da introdução da ética na esfera pública. Nós, os execráveis "pequenos burgueses", ao menos estamos onde sempre estivemos. Entendemos que aqueles que se vendem não merecem ser comprados. E que os que entendem não ser possível ser políticos honestos que tratem de ser honestos sem ser políticos. |
TODA MÍDIA
Manchete da Agência Brasil, "Dinheiro do pré-sal deve ir para educação e combate à pobreza". No dizer de Lula, "se a gente pulverizar esse dinheiro, ele vai entrar pelo ralo do governo".
Destaque no G1, da Globo, "Sérgio Cabral e Paulo Hartung vão falar com Lula antes do anúncio do pré-sal". Os governadores do Rio e do Espírito Santo não estão sós na pressão por royalties para seus Estados. "É legítimo que Cabral e Hartung façam sentir as suas posições", declarou José Serra, governador de São Paulo, também interessado.
Por fim, no UOL, "Lula se reúne com Serra, Cabral e Hartung domingo para fechar acordo do pré-sal".
US$ 100 BI
Na notícia de Brasil com maior eco no exterior, por AP, Bloomberg, Dow Jones, ecoando a manchete do "Valor" de papel, o governo "avançou na discussão da capitalização da Petrobras", com vistas ao pré-sal, e "pode pôr até R$ 100 bilhões" ou US$ 53 bilhões.
DESEJADA
Destaque ontem no Portal Exame, da revista, "Petrobras é a preferida dos jovens" ou "a mais desejada", pela quarta vez, segundo pesquisa DMRH com 30 mil universitários ou recém-formados. "O maior motivo", sublinha o texto, "é o crescimento profissional que pode proporcionar".
DE MODO TORTO
Sob o enunciado "Uma força machucada em busca de nova bússola" e a foto acima, reportagem da "Economist" diz que "o plano de Lula de ungir Dilma Rousseff como a sua sucessora começou de modo torto em meio à divisão do Partido dos Trabalhadores". No relato da BBC Brasil, "PT se reduziu ao papel de manter Lula no poder, diz revista"
ARQUIVO
Já na segunda manchete, "O líder do governo divulga as datas em que a ex-secretária da Receita, Lina Vieira, foi ao Palácio do Planalto".
BOM PARA OS NEGÓCIOS
A nova "Economist" dá longa entrevista com David Neeleman, que fundou a JetBlue nos EUA e agora comanda a Azul no Brasil. Começa descrevendo como ele, aos 19 anos, missionário mórmon, "passou dois anos entre crianças descalças e seus pais desdentados no pobre Nordeste".
A partir daí, a reportagem relata sua nova experiência de meio ano com a Azul, do nada para 1.300 funcionários. Num país em que a classe média está "inchando", algumas passagens custam menos que viajar de ônibus. Mas ele descreve o Brasil, no enunciado, como "um país tão bom para fazer negócios como a América".
ZICO?
O "Wall Street Journal" destacou as "Bolhas de água de coco" que estreiam esta semana em Nova York, da americana Zico, que importa do Pará -e garante não ter se inspirado no jogador
PARA CONSUMO, OK
O "New York Times" noticiou, de Brasília, que a Argentina abriu caminho para a descriminalização do consumo de drogas ilícitas. É só "o mais recente latino a rejeitar política punitiva". O México fez o mesmo dias antes. E o Brasil, "que tinha as penas mais pesadas para o tráfico, essencialmente descriminalizou o consumo em 2006, quando eliminou as prisões". No título, "América Latina tenta saída menos punitiva para conter o uso de drogas".
A nova "Time" também destaca a decisão mexicana e, notando o silêncio de Obama e como difere da reação de Bush, que conseguiu derrubar lei semelhante no vizinho em 2006, alerta que "Nova lei mexicana pode estabelecer exemplo", inclusive para o Norte.
CELSO MING
A primeira ideia do governo Lula foi afastar a Petrobrás da exploração das áreas do pré-sal porque temia favorecer uma empresa excessivamente privatizada, já que a União detém apenas 32% do seu capital. Seria entregar riqueza nacional para interesses privados.
De todo modo, a Petrobrás terá mesmo de ser capitalizada porque os investimentos a serem feitos exigem grande capacidade de inversão e de endividamento, especialmente se tiver de participar em 30% de cada nova área do pré-sal a ser partilhada.
Já no início das discussões da comissão interministerial que estuda o novo marco regulatório, a atual direção da Petrobrás convenceu o presidente Lula de que não havia razão para temer desvio da renda do pré-sal para "as contas bancárias dos gringos". Bastaria capitalizar maciçamente a empresa, exigência que poderia ser cumprida pela União sem despender um único centavo.
Uma das propostas é a de que a União incorpore ao capital da Petrobrás reservas físicas de hidrocarbonetos das áreas adjacentes às que estão sob concessão da empresa, processo conhecido como unitização. Explicando melhor: algumas das atuais jazidas do pré-sal descobertas pela Petrobrás ultrapassam a área de licitação. Assim, para que durante a produção ela não sugue o suco do vizinho, tem de haver acordo prévio que divida a produção.
Uma vez definida assim a subscrição de capital pelo Tesouro, que é o controlador das ações ordinárias (com direito a voto), os acionistas minoritários seriam chamados a apresentar a sua parte em dinheiro. Muito provavelmente, um grande número deles não o acompanharia por incapacidade financeira. Muitos dos trabalhadores que no passado usaram o Fundo de Garantia para comprar ações da empresa provavelmente não estão em condições de seguir o Tesouro.
A União poderia subscrever a parcela adicional do capital que não encontrasse interessados. Assim, ficou definida uma estratégia que eventualmente poderá levar a União a voltar a ter participação majoritária no capital.
A subscrição assim definida traz um punhado de dificuldades. Fiquemos com três. A primeira consiste em medir corretamente o petróleo recuperável das áreas adjacentes. A segunda, em definir o valor de mercado do petróleo que jaz a 6 mil metros de profundidade de maneira a que possa ser incorporado ao capital da Petrobrás. A hipótese com que vinha trabalhando a diretoria da empresa é a de que esse petróleo poderia valer US$ 19 por barril de 159 litros, magnitude sujeita aos vaivéns do mercado. Esses dois problemas técnicos exigem medição a ser feita por meio de novos furos e testes de produção. Nada disso parece equacionado.
A terceira dificuldade é a de que a parcela de subscrição a ser feita pela União com petróleo futuro não resolve o problema da necessidade de recursos em dinheiro vivo para tocar os investimentos. Daí a nova ideia de levar a União a subscrever sua parte no capital com títulos públicos. Se for isso, o endividamento vai subir.
E ainda é preciso ver em que proporção seria feito esse aumento de capital e em que prazo. Não basta convocar uma assembleia extraordinária e votar o tamanho da subscrição. É preciso ver qual será a capacidade da Petrobrás de remunerar esse capital.
ELIANE CANTANHÊDE
Jobim foi a Quito e a Bogotá e diz que a tensão baixou. Marco Aurélio Garcia, que estava com ele, fala em "distensão". OK, mas falta combinar com os amigos dos russos.
Às vésperas da reunião, Chávez ameaçou seguir o Equador e romper com a Colômbia. O chanceler colombiano deu o troco, dizendo que vai chegar aqui botando a boca no trombone contra o "expansionismo chavista". E os dois embaixadores ecoaram na OEA.
Uribe está na berlinda, por dar liberdade a tropas norte-americanas de usarem (e abusarem?) de bases militares colombianas. Leia-se sul-americanas. Como ele não foi à última reunião, em Quito, houve todo um trabalho para amansar a fera e trazê-la a Bariloche. O primeiro cuidado foi jogar a reunião para campo neutro. O segundo foi uma agenda que não seja focada só no acordo Colômbia-EUA e possa contemplar as ligações da Venezuela com o Irã, com a Rússia e, dizem as más línguas, com as Farc.
Aí entram em campo Brasil, Argentina e Chile, tentando empurrar o assunto para uma nova reunião, agora do Conselho de Defesa, nas ilhas Galápagos, no Equador. Seriam então criados mecanismos para catalogar os acordos militares, o armamento e o efetivo de cada país.
Ou seja, parar com o disse-que-disse e botar tudo no papel, para quem quiser, ou precisar, ver.
Chávez vai puxar para um lado, Uribe, para o outro, os dois dando de bandeja para Lula a chance de brilhar pelo equilíbrio, bom senso e negociação. Essas coisas que o presidente sabe muito bem como levar para fora do país. E que tanta falta fazem dentro do próprio Brasil.

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