
terça-feira, janeiro 06, 2009
ESTE BLOG É DO CARALH.....
DORA KRAMER
Gente que fala
O Estado de S. Paulo - 06/01/2009 |
Visto assim do alto, o incentivo à gastança do presidente Luiz Inácio da Silva parece só mais um exercício de oratória à deriva, ainda mais quando em contraste com a defesa da contenção de gastos feita pela maioria dos prefeitos em seus discursos de posse. |
ROBERTO FREIRE
Molambos golpistas
O Estado de S. Paulo - 06/01/2009 |
Mais do que ficar na superfície dos trapos juntados pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP) numa trouxa que vem sendo chamada indevidamente de reforma política, o País precisa estar alerta para a traça que se esconde dentro desse embrulho. Escolhido pelo governo relator da "reforma" - cuja admissibilidade já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara -, ele deu vida a uma tese do fim da reeleição com prorrogação de todos os mandatos - tanto de parlamentares quanto de prefeitos, governadores e presidente da República. Feita a modificação, estaria consolidada uma situação nova que - sonham alguns golpistas - talvez pudesse, quem sabe, em vez da imoral prorrogação, viabilizar uma emenda que desse direito a Lula de se candidatar novamente. A grande vitória do PT e de seus aliados na admissão da proposta de João Paulo Cunha é que neste ano se poderá instaurar uma comissão especial para tratar da "reforma" que eles querem. Na verdade, de alterações que interessam ao Palácio do Planalto, mas que em nada mudam a relação entre representantes e representados. Mudanças mais substanciais, que iriam fazer diferença na vida do País e aprofundar a democracia, foram propostas no relatório da Comissão Especial da Reforma Política ainda em 2008. Mas a maioria dos deputados da base aliada impediu a aprovação delas. Esses parlamentares não viram vantagens para si e para suas candidaturas com o fortalecimento dos partidos e o fim da troca de favores entre os que investem em candidatos e aqueles que conseguem chegar ao posto de representantes - sabe-se lá se da sociedade ou daqueles que os financiaram. As propostas de adotar listas fechadas, financiamento público e outras, que trariam mudanças realmente importantes para a democracia no Brasil, quedaram-se derrotadas diante de um plenário lotado mais de interesses próprios que de deputados. É de perguntar se o próprio PT - que votara a favor do relatório que visa à implantação dessa reforma profunda - e o governo, também, não se uniram a essa tese de que é melhor maquiar o ruim e apresentá-lo como novo do que realmente mudar algo em favor do futuro, da ética, da legitimidade da representação da cidadania, enfim, de novos tempos na política. Ao ver o teor da esfarrapada "reforma", não tenho dúvida: houve mais um retrocesso desse partido, que, não é de hoje, perdeu o constrangimento de cometer toda e qualquer ação que um dia condenou. Para comandar mais essa indignidade escolheram um homem dentre aqueles que já carregam a marca do governo Lula: o processado por corrupção. Assim, não paira dúvida alguma de que a coisa não é para ser séria. Além de atender a interesses de algumas lideranças e partidos, os farrapos da "reforma" vêm infestados de larvas, como a tentativa de prorrogação de mandatos, a esdrúxula e antidemocrática tese de coincidência das eleições em todos os níveis de representação. Não convém esquecer que tal propósito prorrogacionista e de coincidência de mandatos só foi concretizado uma única vez em toda a nossa história, pela ditadura que começou em 1964, no tristemente célebre Pacote de Abril. Quem diria: o governo de Lula e do PT, além de explicitar, várias vezes, admiração por generais e tecnocratas do regime ditatorial, passa a adotar os expedientes e casuísmos políticos que mandavam às favas os escrúpulos! Péssimo exemplo para nele se mirar. Já seria trágico se essa enganação terminasse naquilo que o petista mensaleiro encalacrado no Supremo Tribunal Federal propôs. Mas, não. Aninhada onde a cidadania não pode enxergá-la e protegida da luz do sol e da decência está a traça do terceiro mandato, verdadeiro objetivo dessa variedade de molambos da "reforma" que passa a tramitar na Câmara este ano. Aliás, Chico Science, um grande e criativo pernambucano que sabia das coisas, já dizia: "Molambo, boa peça de pano pra se costurar mentira/ molambo boa peça de pano pra se costurar miséria..." Infelizmente, os molambos dessa "reforma" política que o Congresso vai digerir em 2009 podem servir para costurar um golpe! É certo que a praga da tentativa de assalto ao poder está atacando candidatos a ditador na vizinhança. Exemplo clássico é o do coronel Hugo Chávez, que sonha com reeleição ilimitada. Insulta a democracia e tem o discreto apoio do amigo Lula, que contemporiza dizendo que o que não falta na Venezuela é eleição. Chávez apela para plebiscitos para se manter no poder. Perdeu o último, mas não desanimou. Já anunciou para este mês de janeiro uma nova consulta. Disse que não foi derrotado, que o resultado foi apenas um "por enquanto". O "por enquanto" de Lula são duas propostas descaradas de deputados sobre plebiscito pelo terceiro mandato. Ele finge que não vê, desconversa, diz que é contra, mas, vira e mexe, reclama ao povo que oito anos são pouco tempo para fazer tudo o que o País necessita. Enquanto a candidata anunciada pelo presidente à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff, não decola e as recentes eleições municipais demonstram que Lula não transfere voto, como seus aliados gostariam, os trapos de "reforma" acolhidos pela Câmara servem de cortina de marionetes que apontam para um outro caminho, digamos, alternativo: o fim da reeleição. Até poderíamos discutir a possibilidade de acabar com a reeleição - embora, pessoalmente, eu seja favorável à sua vigência no País -, mas a condição sine qua non para isso seria que os princípios do respeito à democracia e à República presidissem o debate. O governo do PT, o presidente Lula e alguns partidos que o apoiam no Congresso, lamentavelmente, não possuem essa condição. Prova mais cabal disso é a própria "reforma". Não é com molambos que iremos costurar as mudanças que o Brasil reclama. |
ILIMAR FRANCO
A hora do emprego
Panorama Político |
O Globo - 06/01/2009 |
A crise fez os governos despejarem dinheiro em bancos e empresas. Agora, eles se preparam para garantir o emprego. Na próxima semana, o secretário da OIT, Juan Somalia, vai reunir os ministros do Trabalho de México, Brasil, Argentina e Chile para estudar medidas. No mês que vem, em Roma, o G-8 vai debater providências a favor do emprego, com a presença de ministros do Trabalho de países emergentes, entre os quais o do Brasil. Point |
ANCELMO GOIS
Réveillon do apagão
O Globo - 06/01/2009 |
Por pouco, um apagão não estraga o réveillon de paulistas, fluminenses e capixabas. Por causa das chuvas, várias torres de Furnas quase caíram no dia 31, perto de Cachoeira Paulista. Melhor assim |
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Ação contra a desordem no Rio começa com demolições
- Folha: Israel amplia a ofensiva e descarta cessar-fogo
- Estadão: Cresce pressão por trégua, mas Israel amplia invasão
- JB: Choque de ordem derruba 34 imóveis
- Correio: O vilão dos preços
- Valor: Termelétricas vão triplicar a emissão de CO2
- Gazeta Mercantil: Renault troca cinco meses de salário por garantia de emprego
- Estado de Minas: Baixa renda terá ajuda para comprar casa
- Jornal do Commercio: Governo bate de frente com a Celpe
segunda-feira, janeiro 05, 2009
NAS ENTRELINHAS
Yes, nós temos nosso subprime
Correio Braziliense - 05/01/2009 |
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REINALDO AZEVEDO
SIM OU NÃO À EXISTÊNCIA DE ISRAEL? ESSA É A PRIMEIRA QUESTÃO. EU DIGO “SIM” O Hamas rompeu a trégua com Israel — a rigor, nunca integralmente respeitada —, e aqueles que ora clamam pelo fim da reação da vítima — e a vítima é Israel — fizeram um silêncio literalmente mortal. Hipócritas, censuram agora o que consideram a reação desproporcional dos israelenses, mas não apontam nenhuma saída que não seja o conformismo da vítima. É desnecessário indagar como reagiria a França, por exemplo, se seu território fosse alvo de centenas de foguetes. É desnecessário indagar como responderia o próprio Brasil. O Apedeuta e seus escudeiros no Itamaraty — que vive o ponto extremo da delinqüência política sob o comando de Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães — aceitam, de bom grado, que Evo Morales nos tungue a Petrobras, mas creio que defenderiam uma resposta militar se o Brasil passasse a ser alvo diário de inimigos. Há dias, Lula afirmou que o Brasil precisa ser uma potência militar se quiser ser respeitado no mundo. Confesso que, dada a moral ora vigente no Planalto e na diplomacia nativa, prefiro que o país tenha, no máximo, aqueles fogos Caramuru, os únicos que, no nosso caso, não podem dar xabu... Lula merece, no máximo, ter um rojão ou aqueles fósforos coloridos de São João para brincar. É dever de todo governo defender o seu território e a sua gente. Mas, curiosamente (ou nem tanto), pretende-se cassar de Israel o direito à reação. Por quê? O que grita na censura aos israelenses é a voz tenebrosa de um silêncio: essa gente é contra a existência do estado de Israel e acredita que só se obteria a paz no Oriente Médio com a sua extinção. Mas falta a essa canalha coragem para dizer claramente o que pretende. Nesse estrito sentido, um expoente do fascismo islâmico como Mahamoud Ahmadinejad, presidente do Irã, é mais honesto do que boa parte dos hipócritas europeus ou brasileiros. Ele não esconde o que pretende. Aliás, o Hamas também não: o fim da Israel é o segundo item do seu programa, sem o qual o grupo terrorista julga não cumprir adequadamente o primeiro: a defesa do que entende por fé islâmica. Será que exagero? Que outra consideração estaria na origem da suposição de que um país deve se quedar inerme diante de uma chuva de foguetes em seu território? “Não, Reinaldo, o que se censura é o exagero, a reação desproporcional”. Tratarei desse argumento, essencialmente mentiroso e de ocasião, em outro post. Neste artigo, penso questões mais profundas, que estão na raiz do ódio a Israel. Como se considera que aquele estado é essencialmente ilegítimo, cobra-se dele, então, uma tolerância especial. Aliás, exigem-se dos judeus duas reações particulares, de que estariam dispensados outros povos. Como os hipócritas do silêncio consideram que a criação de Israel foi uma violência, cobram que esse estado viva a pedir desculpas por existir e jamais reaja. Seria uma espécie de suicídio. Israel faria por conta própria o que várias nações islâmicas — em grupo, em par ou isoladamente — tentaram sem sucesso em 1956, em 1967 e em 1973: eliminar o país do mapa. Dói na consciência e no orgulho dos inimigos do país a constatação de que ele adquiriu o direito de existir na lei e na marra, na diplomacia e no campo de batalha. A segunda reação particular guarda relação com o nazismo. Porque os judeus conheceram o horror, estariam moralmente proibidos de se comportar como senhores: teriam de ser eternamente vítimas. Ao povo judeu seria facultado despertar ódio ou piedade, mas jamais temor. Franceses, alemães, espanhóis, chineses, japoneses e até brasileiros cometeram ou cometem suas injustiças e violências — e todos esses povos souberam ou sabem ser impressionantemente cruéis em determinadas ocasiões e circunstâncias. Mas os judeus?! Eles não!!! Esperam-se passividade e mansidão pouco importa se são tomados como usurpadores ou vítimas. A anti-semitismo ainda pulsa, eis a verdade insofismável. Tudo seria mais fácil se as posições fossem aclaradas. Acatar ou não a legitimidade do estado de Israel ajudaria muitas nações e muitas correntes político-ideológicas a se posicionar e a se pronunciar com clareza: “Sim, admito a existência de Israel e penso que aquele estado, quando atacado, tem o direito de se defender”. É o que pensa este escriba. Ou: “Não! Fez-se uma grande bobagem em 1948, e os valentes do Hamas formam, na verdade, uma frente de resistência ao invasor; assim, quando eles explodem uma pizzaria ou um ônibus escolar ou quando jogam foguetes, estão apenas defendendo um direito”. Mas os hipócritas não seriam o que são se não cobrissem o vício com o manto da virtude. Como não conseguem imaginar uma solução para alguns milhões de israelenses que não o mar — e, desta feita, sem Moisés para abri-lo —, então disfarçam o ódio a Israel com um conjunto pastoso de retóricas vagabundas: “pacifismo”, “antimilitarismo”, “reação proporcional”, “direito à resistência” etc. Na imprensa brasileira, um jornalista como Janio de Freitas chegou a chamar o ataque aéreo a Gaza de “genocídio”, dando alguma altitude teórica à militância política anti-Israel — embora o próprio Hamas admita que a maioria das vítimas seja mesmo composta de militantes do grupo. Trata-se, claro, de uma provocação: sempre que Israel é acusado de “genocida”, pretende-se evocar a memória do Holocausto. Em uma única linha, sustenta-se, então, uma farsa gigantesca: a) maximiza-se a tragédia presente dos palestinos; b) minimiza-se a tragédia passada dos judeus: c) apaga-se da história o fato de que o Hamas é a força agressora, e Israel, o país agredido; d) equiparam-se os judeus aos nazistas que tentaram exterminá-los, o que, por razões que dispensam a exposição, diminui a culpa dos algozes; e) cria-se uma equivalência que aponta para uma indagação monstruosa: não seria o povo vítima do Holocausto um tanto merecedor daquele destino já que incapaz de aprender com a história? E pouco importa se os que falam em genocídio têm ou não consciência dessas implicações: o mal que sai da boca dos cínicos não vira virtude porque na boca dos tolos. Em junho de 2007, esse mesmo Hamas foi à guerra contra o Fatah na Faixa de Gaza. E venceu. O grupo preferiu não fazer prisioneiros. Os que eram rendidos ou se rendiam eram executados com tiros na cabeça — muitas vezes, as mulheres e filhos das vítimas eram chamados para presenciar a cena. “O que ocorreu no centro de segurança [as execuções] foi a segunda liberação da Faixa de Gaza; a primeira delas foi a retirada das tropas e dos colonos de Israel da região, em setembro de 2005", disse então Sami Abu Zuhri, um membro do Hamas. “Estamos dizendo ao nosso povo que a era do passado acabou e não irá volta. A era da Justiça e da lei islâmica chegou", afirmou Islam Shahawan, porta-voz do grupo. Nezar Rayyan, também falando em nome dos terroristas, não teve dúvida: “Não haverá diálogo com o Fatah, apenas a espada e as armas. Desde 2006, quase 700 palestinos foram assassinados por rivais... palestinos. Ódio a Israel O ódio a Israel espalhado em várias correntes de opinião no Ocidente é caudatário da chamada “luta contra o Império”. O apoio ao país nunca foi tão modesto — em muitos casos, envergonhado. Não é coincidência que assim seja no exato momento em que se vislumbra o que se convencionou chamar de “declínio americano”. Israel é visto como uma espécie de enclave dos EUA no Oriente Médio. As esquerdas do mundo caíram de amores pelos vários sectarismos islâmicos, tomados como forças antiimperialistas, de resistência. Eu era ainda um quase adolescente (18 anos)— e de esquerda! — quando se deu a revolução no Irã, em 1979, e me perguntava por que os meus supostos parceiros de ideologia se encantavam tanto com o tal aiatolá Khomeini, que me parecia, e era, a negação, vejam só!, de alguns dos pressupostos que deveriam nos orientar — e o estado laico era um deles. Mas quê... A “luta antiimperialista” justificava tudo. O que era ruim para os EUA só poderia ser bom para o mundo e para as esquerdas. No poder, a primeira medida de Khomeini foi fuzilar os esquerdistas que haviam ajudado a fazer a revolução... É ainda o ódio ao “Império” que leva os ditos “progressistas” do mundo a recorrer à vigarice intelectual a mais escancarada para censurar Israel e se alinhar com as “vítimas” palestinas. Abaixo, aponto alguns dos pilares da estupidez. Mas o que é terrorismo? Pergunte a qualquer “progressista” da imprensa ou de seu círculo de amizades se ele considera o Hamas um grupo “terrorista”. A resposta do meliante moral virá na forma de uma outra indagação: “Mas o que é terrorismo?” A luta “antiimperialista” torna esses humanistas uns relativistas. Eles dirão que a definição do que é ou não terrorismo decorre de uma visão ideológica, ditada por Washington, pela Otan, pelo Ocidente, pelo capitalismo, sei lá eu... Esses canalhas são capazes de defender o “direito” que os ditadores islâmicos têm de definir os seus homens viciosos e virtuosos — “democracia não se impõe”, gritam —, mas, por qualquer razão que não saberiam explicar, acreditam, então, que Washington, a Otan, o Ocidente e o capitalismo não podem fazer as suas escolhas. E essas escolhas, vejam que coisa!, costumam ser justamente aquelas que garantem as liberdades democráticas. Se você disser que explodir bombas num ônibus escolar ou num supermercado, por exemplo, é terrorismo, logo responderão que isso não é diferente da ação de Israel na Faixa de Gaza, confundido a guerra declarada (e reativa!!!) com a ação insidiosa contra civis. Para esses humanistas, a ação contra Dresden certamente igualou os Aliados aos nazistas... Falei em nazistas? Ah, sim: os antiisraelenses gostam de comparar as ações do Hamas, do Hezbollah ou das Farc aos atos heróicos dos que lutaram contra o nazismo. Ao fazê-lo, não só igualam, então, os vários “terrorismos” como também os várias “estados da ordem”. No caso, o nazismo não se distinguiria dos governo de Israel, da Colômbia ou de qualquer outro estado que sofra com a ação terrorista. Só querem a paz Aqui e ali, leio textos indignados em nome da “paz”. E penso que o pacifismo pode ser uma coisa muito perigosa. Chamberlain e Daladier, que assinaram com Hitler o Acordo de Munique, que o digam. Como observou Churchill, entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e tiveram a guerra. Argumentos que remetem ao nazismo, sei disto, costumam desmoralizar um tanto o debate porque apelam sempre a uma situação extrema, que se considera única, irreproduzível. A questão, então, é como Israel pode fazer a paz com quem escolheu o caminho da guerra e só aceita a linguagem das armas e da morte. O Hamas é o inimigo que mora ao lado — e, com freqüência, dentro de Israel. Mas há os que estão um pouco mais distantes, como o Irã por exemplo. O que vocês acham que acontecerá quando (e se) os aiatolás estiverem prestes a ter uma bomba nuclear? Em nome da paz, senhores pacifistas, espero que Israel escolha a guerra.E ele escolherá, fiquem certos, concordem os EUA ou não. A ação de Israel só fortalece o Hamas Israel deixou o Sul do Líbano, e o Líbano foi entregue — sejamos claros — aos xiitas do Hezbollah. Israel deixou a Faixa de Gaza, e o Hamas expulsou de lá os corruptos moderados da Fatah, não sem antes fuzilar todos os que foram feitos prisioneiros na guerra civil palestina. Isso indica um padrão, pouco importa a vertente religiosa dos sectários. A guerra desastrada contra a facção xiita no Líbano, muito mais poderosa do que o inimigo de agora, significou, de fato, uma lição amarga aos israelenses: se a ação militar não cumpre o propósito a que se destina, ela, com efeito, só fortalece o inimigo. Na prática, é o que pedem os que clamam pela suspensão dos ataques à Faixa de Gaza: querem que Israel dispare contra a sua própria segurança. O argumento de que os ataques só fortalecem o Hamas porque fazem do grupo heróis de uma luta de resistência saem, não por acaso, da boca de intelectuais palestinos ou de esquerda. Cumpre perguntar se, no status anterior, havia algum sinal de que os palestinos de Gaza estavam descontentes com os terroristas que os governam. Mais uma vez, está-se diante de uma leitura curiosa: a única maneiras de Israel não fortalecer o Hamas seria suportar os foguetes disparados pelo... Hamas! Como se vê, os argumentos passam pelos mais estranhos caminhos e todos eles cobram que os israelenses se conformem com os ataques. A volta a 1948 Aqui e ali, leio que o estado de Israel só é defensável se devolvido à demarcação definida pela ONU em 1948. Digamos, só para raciocinar, que se possa anular a história da região dos últimos 60 anos... Os inimigos do país considerariam essa condição suficiente para admitir a existência do estado judeu? A resposta, mesmo diante de uma hipótese improvável, é “NÃO”. Mesmo as facções ditas moderadas reivindicam a volta do que chamam “os refugiados”, que teriam sido “expulsos” de suas terras — terras que, na maioria das vezes, foram compradas, é bom que se lembre. Tal reivindicação é só uma maneira oblíqua de se defender que Israel deixe de ser um estado judeu — e, pois, que deixe de ser Israel. E isso nos devolve ao começo deste texto. Aceita-se ou não a existência de um estado judeu? Israel está muito longe, no curtíssimo prazo, dos perigos que, com efeito, viveu em 1967 e em 1973. Não obstante, sustento que nunca correu tanto risco como agora. Desde a sua criação, jamais se viu tamanha conspiração de fatores que concorrem contra a sua existência: - a chamada “causa palestina” foi adotada pela imprensa ocidental — mesmo a americana, tradicionalmente pró-Israel, mostra-se um tanto tímida; - o antiamericanismo, exacerbado pela reação contra a guerra no Iraque, conseguiu transformar o terrorismo em ação de resistência; - os desastres da era Bush transferem para os aliados dos EUA, como Israel, parte da reação negativa ao governo americano; - os palestinos dominam todo o ciclo do marketing da morte e se tornaram os “excluídos” de estimação do pensamento politicamente correto: o que são 300 mil mortos no Sudão e 3 milhões de refugiados perto de 500 mortos na Faixa da Gaza, a maioria deles terroristas do Hamas? A morte de qualquer homem nos diminui, claro, claro, mas a de alguns homens excita mais a fúria justiceira: a dos sudaneses não excita ninguém...; - um estado delinqüente, como é o Irã — que tem em sua pauta a destruição de Israel —, busca romper o isolamento internacional aliando-se a inimigos estratégicos dos EUA; - a Europa ensaia dividir a cena da hegemonia ocidental com os EUA sem ter a mesma clareza sobre o que é e o que não é aceitável no que concerne à segurança de Israel; - atribui-se ao próprio estado de Israel o fortalecimento dos seus inimigos, num paradoxo curioso: considera-se que o combate a seus agressores só os fortalece, ignorando-se o motivo por que, afinal, ele decidiu combatê-los... Sim ou não à existência de Israel? Sem essa primeira resposta, não se pode começar um diálogo. Ou romper de vez o diálogo. Sem essa resposta, o resto é conversa mole. |
MOYSES BRAKARZ
Trato quebrado
O Globo - 05/01/2009 |
TEMA EM DISCUSSÃO: Previdência A Previdência Social surgiu no Brasil em 1923, quando foram criadas as caixas de aposentadorias e pensões. Em 1931, ela foi reformulada, estendendo seus benefícios a empresas de serviços públicos. Em 1960, foi feita a unificação administrativa da Previdência. O recolhimento de contribuições sobre os salários era feito para um cofre único. Sabia-se que a contribuição efetuada por todo trabalhador e empregador serviria para o seu sustento 35 anos após. Quando deixasse de trabalhar, receberia um valor compatível com as contribuições efetuadas. |
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Tropas israelenses dividem Gaza e sitiam maior cidade
- Folha: Israel divide Gaza e rejeita trégua
- Estadão: Gaza é sitiada e dividida por Israel
- JB: Cidade da Música vai exigir mais R$ 120 mi
- Correio: Subsídio para os mais pobres comprarem casa
- Valor: Usiminas investe, mas faz ajuste no plano de expansão
- Gazeta Mercantil: Ônibus escolar injetará R$ 1 bi na indústria
domingo, janeiro 04, 2009
PARA...HIHIHIHI
Quando percebeu a presença do filho, o pai foi logo botando a mão no pau e gritou:
- Sai daqui, menino!
- Não, não saio! O que é que senhor tá escondendo?
- Sai daqui, filhinho! Não é nada!
- Não, não saio enquanto num me mostrar o que o senhor tá escondendo aí, pai!
- É um passarinho!
- Sacanagem, heim, pai... Comendo a bunda do passarinho?
JOÃO UBALDO RIBEIRO
Despetalando a flor do Lácio
O Globo
Não, não vai, não é des-petalar. “Flor” e “Lácio” continuam, uma sem acento, outro com acento. Portanto, cem por cento de acerto em meu primeiro título na ortografia nova, brilhei mais uma vez. Isso, contudo, não me aplaca o nervosismo.
Deve ser a idade, porque já encarei algumas reformas ortográficas nesta curta existência e me saí satisfatoriamente, mesmo no tempo em que a gente tinha que grafar “tôda” com circunflexo, para distinguir de “toda”, que ninguém sabia o que era, embora, no ver de alguns, fosse uma ave amazônica pouco sociável, ou, segundo outros, uma exortação obscena de origem xavante.
Acho que esse ponto nunca será esclarecido (de qualquer forma, cartas de esclarecimento para o editor, por caridade) e constituirá mais uma das graves interrogações sem cujas respostas minha geração deixará este mundo.
Quando me peguei lendo, a maior parte da livrama de meu pai era na orthographia antiga e havia livros portugueses com suas próprias normas.
Apesar de leitor fominha que, mesmo sem entender nada, traçava o que aparecesse, levei semanas para compreender que “augmentar” era “aumentar”. Mas me acostumei e sempre transitei bem nessa área, para alguma coisa eu tinha de levar jeito.
Chefiei redação no tempo da abolição do acento diferencial e dedicava grande parte de meu tempo a explicar que, de então em diante, não se escreveria “voce”, mas “você” mesmo, como sempre. Foi difícil, muito mais difícil do que qualquer um imaginaria, tratando-se de gente instruída e, em muitos casos, talentosa.
Uma amiga minha sustenta que tudo vem de trauma da infância e eu tendo a concordar com ela. Sei de traumas profundos, carregados por amigos meus sob o jugo — o que, graças a Deus, não foi meu caso — de professores de português dogmáticos e caturras, que entupiam todos de regras quase impenetráveis e só podiam com isso instilar ódio e temor pela língua e pelo que nela é escrito. Para muitos, os livros são dolorosas memórias de torturas.
E as reformas sempre levam alguma coisa com elas. Já haviam feito isso com o K, o W e o Y, agora reabilitados, se bem que nunca de fato o povo os haja banido, aí estando o Kilo, o Waldir e o Ruy, que não me deixam mentir e nem ao menos caíram na clandestinidade, mas continuaram a circular com grande liberdade.
Levaram a indicação da subtônica também, aquela que, por exemplo, marcava com acento grave palavras como “precàriamente” e mostrava a existência da subtônica (“cà”). Mas, segundo eu soube, nem precisamos (precisamos, sim), nem temos condição de exigir que as subtônicas se pronunciem, tudo bem, não estamos à altura.
Por mim, tenho trauma do trema.
Ontem me disseram que fui visto com o olhar distante, em frente a este monitor, sacudindo lentamente a cabeça e murmurando “não me conformo, não me conformo”. Não me recordo disso, pode perfeitamente ser uma invencionice, mais uma das anedotas apócrifas que contam sobre nós, celebridades internacionais. Mas a verdade é que não me conformo não somente com a saída do trema e suas temíveis consequências (em breve alguém lerá aí “consekências”, assim como chegará o dia em que um simpático alemão que veio morar no Brasil nos perguntará, com sotaque ainda carregado, onde poderá comprar “linghiças”, raio de lingúa difícil, depois reclamam do alemão).
Não posso igualmente aceitar a maneira sem-cerimoniosa com que ele foi humilhantemente defenestrado, depois de tanto tempo de serviços prestados.
Expulso sem nem um relógio folheado a ouro de lembrança, uma plaquinha sequer.
O volume principal de besteiras que vem aí, em nome dessas mudanças, embora esteja longe de restringir-se a ele, deverá ser o despejado pelo enlouquecido movimento do “fala-se como se escreve”, uma completa piração defendida exaltadamente por muita gente.
Gente esquecida, é claro, de que a grafia é uma maneira sempre imperfeita, rudimentar mesmo (os textos gregos clássicos não costumavam ter intervalos entre as palavras e muito menos sinais de pontuação ou acentos, isso tudo veio muito depois), de se tentar congelar em símbolos toda a riqueza da fala, suas inflexões, os gestos, os timbres e os tons que a acompanham, enfim, um universo imensamente amplo para 26 letras e alguns sinais diacríticos.
Então, “falar como se escreve” é uma inversão completa, que só pode ter efeitos grotescos, para não dizer maléficos. Alguns já podem ser notados, em suas primeiras manifestações insidiosas. O que mais me mexe com os ner vos é o umazero (1x0) ou umaum (1x1) de grande parte dos narradores esportivos. Não sei o que deu neles, praticando a forma mais execranda do “fala como escreve”. O eme do final de “um” está aí para nasalar a vogal, só para isso, tanto assim que, em português antigo, era comum escreverse com til. Agora não, agora se pronuncia “como se escreve”, e o resultado é que, se deixarem a coisa correr solta, daqui a pouco ninguém distingue mais “um olho”, de “um molho”, “um achado” de “um machado”.
Ouço também, embora com muito menos frekência (esta palavra está errada, foi só vontade de usar o K) o M final de “com”, ser “misturado” à vogal inicial da palavra que a segue. “Com ida marcada para” seria “comida marcada para”, o que poderia render um mal-entendido ou outro. E por aí vai a língua, junto com a vida. Alguém já está ganhando dinheiro com isso. Não somos nós, como de hábito, mas nem por isso deixemos de nos alegrar. Combustível novo na combalida economia do livro. E que serve para mais uma vez mostrar aos eternos descontentes como este governo é reformista
CLÓVIS ROSSI
Duas hipóteses sobre o Hamas
Qualquer plano teria que partir de uma de duas hipóteses. Hipótese 1 - Tratar o Hamas como um grupo terrorista com o apoio da maioria dos palestinos (pelo menos os de Gaza). Se é assim, o plano seria aniquilar o grupo, transformando Gaza no maior cemitério do mundo. Hipótese 2 - Tratar o Hamas como um movimento político, religioso e assistencialista que tem, sim, um grupo armado -e terrorista. A pergunta seguinte é: dá para amputar o braço podre sem matar o resto do corpo? Tudo indica que não.
Aliás, o Ocidente já foi submetido a uma prova parecida, na Argélia de 1992. A FIS (Frente Islâmica de Salvação, grupo com algum parentesco com o Hamas) ganhou o primeiro turno da eleição. A reação foi um golpe militar, com apoio/estímulo ocidental, que deu origem a uma guerra civil cruenta, dezenas de milhares de mortos e uma paz apenas relativa, vira e mexe interrompida por atentados. Se se aceitar a hipótese 2, o lógico seria negociar com o Hamas.
É horrível negociar com um grupo que abriga terroristas? Também acho. Mas não é igualmente horrível ter parte da população de Israel sob ameaça permanente de que um foguete caia dos céus na cabeça dela? Não é igualmente horrível promover um banho de sangue de civis inocentes, inclusive crianças, e de suspeitos de terrorismo, condenados à morte sem o direito ao devido processo legal, o que contraria a essência do judaísmo? Há até antecedente: a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) também era dada como terrorista, mas Israel acabou por negociar com ela.
CLÓVIS ROSSI
Duas hipóteses sobre o Hamas
Qualquer plano teria que partir de uma de duas hipóteses. Hipótese 1 - Tratar o Hamas como um grupo terrorista com o apoio da maioria dos palestinos (pelo menos os de Gaza). Se é assim, o plano seria aniquilar o grupo, transformando Gaza no maior cemitério do mundo. Hipótese 2 - Tratar o Hamas como um movimento político, religioso e assistencialista que tem, sim, um grupo armado -e terrorista. A pergunta seguinte é: dá para amputar o braço podre sem matar o resto do corpo? Tudo indica que não.
Aliás, o Ocidente já foi submetido a uma prova parecida, na Argélia de 1992. A FIS (Frente Islâmica de Salvação, grupo com algum parentesco com o Hamas) ganhou o primeiro turno da eleição. A reação foi um golpe militar, com apoio/estímulo ocidental, que deu origem a uma guerra civil cruenta, dezenas de milhares de mortos e uma paz apenas relativa, vira e mexe interrompida por atentados. Se se aceitar a hipótese 2, o lógico seria negociar com o Hamas.
É horrível negociar com um grupo que abriga terroristas? Também acho. Mas não é igualmente horrível ter parte da população de Israel sob ameaça permanente de que um foguete caia dos céus na cabeça dela? Não é igualmente horrível promover um banho de sangue de civis inocentes, inclusive crianças, e de suspeitos de terrorismo, condenados à morte sem o direito ao devido processo legal, o que contraria a essência do judaísmo? Há até antecedente: a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) também era dada como terrorista, mas Israel acabou por negociar com ela.
ELIANE CANTANHÊDE
O Maranhão é o Brasil
BRASÍLIA - Nada poderia espelhar melhor a desigualdade brasileira do que o Maranhão que emergiu de três páginas diferentes da Folha na última sexta-feira.
Na pág. A2, no texto "A crise na janela", delicioso como sempre, José Sarney não fica a ver navios e sim "um solitário barco envolto na bruma de sal". É a crise a olho nu, mas Sarney trata de enaltecer São Luís como o segundo porto do Brasil, exportando 110 milhões de toneladas de minério de ferro e alumínio, além de soja, milho, babaçu.
O Maranhão também tem "a maior fábrica de alumínio do mundo, da Alcoa" e a "melhor infraestrutura do Nordeste", com estradas de ferro e "comboios imensos, milhares de operários, lavra, energia e estradas". Fantástico.
Mas esse é um Maranhão. Há outros. Você vira a página e, na A4, as notas "Fichados 1" e "Fichados 2", do Painel, informam que o Estado contribui para a nova "lista suja" de trabalho escravo com um juiz, Marcelo Baldochi, e o ex-prefeito de Santa Luzia Antonio Braide, pai de um ex-assessor do ministro maranhense Edison Lobão.
Virando mais uma página, chegamos à A6 e à reportagem sobre maranhenses que, no primeiro dia do ano, incendiaram a prefeitura, o fórum e o cartório da mesma Santa Luzia, a 300 km de São Luís e do segundo porto brasileiro. Motivo: quem ganhou a eleição para prefeito não levou. A Justiça não deixou.
Na véspera, com os salários atrasados e sem Natal, prestadores de serviço tinham invadido a casa do prefeito Zilmar Melo e a empresa de informática da família, em Tutoia (457 km da capital e do porto maravilhoso). Quebraram até os carros. O que restou, levaram.
E o Maranhão de um ex-presidente recente (1985-1990) e "da maior fábrica de alumínio do mundo" não é só lembrado por trabalho escravo e pela fúria de cidadãos, mas pelos piores desempenhos em português e em matemática. E no IDH, claro.
O Maranhão é o Brasil. Ou melhor, o Brasil é o Maranhão.
O Maranhão também tem "a maior fábrica de alumínio do mundo, da Alcoa" e a "melhor infraestrutura do Nordeste", com estradas de ferro e "comboios imensos, milhares de operários, lavra, energia e estradas". Fantástico.
Mas esse é um Maranhão. Há outros. Você vira a página e, na A4, as notas "Fichados 1" e "Fichados 2", do Painel, informam que o Estado contribui para a nova "lista suja" de trabalho escravo com um juiz, Marcelo Baldochi, e o ex-prefeito de Santa Luzia Antonio Braide, pai de um ex-assessor do ministro maranhense Edison Lobão.
Virando mais uma página, chegamos à A6 e à reportagem sobre maranhenses que, no primeiro dia do ano, incendiaram a prefeitura, o fórum e o cartório da mesma Santa Luzia, a 300 km de São Luís e do segundo porto brasileiro. Motivo: quem ganhou a eleição para prefeito não levou. A Justiça não deixou.
Na véspera, com os salários atrasados e sem Natal, prestadores de serviço tinham invadido a casa do prefeito Zilmar Melo e a empresa de informática da família, em Tutoia (457 km da capital e do porto maravilhoso). Quebraram até os carros. O que restou, levaram.
E o Maranhão de um ex-presidente recente (1985-1990) e "da maior fábrica de alumínio do mundo" não é só lembrado por trabalho escravo e pela fúria de cidadãos, mas pelos piores desempenhos em português e em matemática. E no IDH, claro.
O Maranhão é o Brasil. Ou melhor, o Brasil é o Maranhão.
STEPHEN KANITZ
Stephen Kanitz
Um castelo de cartas
que desaba?
"Para o futuro, devemos indagar por que
as empresas não possuem as reservas
que deveriam ter para aguentar as crises"
Ilustração Atómica Studio |
Duas alegorias estão sendo associadas à crise de 2008. A primeira, a de que se trata de um castelo de cartas que desabou, como o Muro de Berlim – só que agora é o muro de Wall Street –, o que significaria uma nova ordem mundial a ser construída, com Barack Obama no comando. Por isso tão poucos artigos foram escritos numa tentativa de impedir essa crise. Muito pelo contrário, a maioria dos intelectuais americanos noticiava, com certo prazer, cada detalhe desse desmoronamento. Quanto pior e mais rápido, melhor. O problema é que o castelo de cartas era americano, e não brasileiro, e quem vai pagar pelo pânico aqui gerado é nosso trabalhador, como sempre.
Uma pesquisa do Datafolha revela que 29% dos trabalhadores brasileiros acham que perderão o emprego em 2009, o que mostra a extensão do medo disseminado. Nem em 1929 o desemprego chegou a tanto. Pesquisa do Ibope indica que 50% dos brasileiros vão reduzir gastos.
Se não revertermos esse pânico, aí, sim, teremos uma recessão em 2009. Portanto, demos vários tiros no pé, podería-mos ter passado relativamente imunes, mas não agora com esse pessimismo todo. Acreditar que reduzir juros resolve, como muitos estão sugerindo, é até infantil. Quem teme perder o emprego não compra a prazo nem com juro zero. Nem com redução de IPI.
A outra alegoria, a que eu prefiro, é a da cadeia de dominós que tombam um a um. É o setor imobiliário, que derruba o setor financeiro, que derruba o setor automobilístico, que derruba o de autopeças, e assim por diante. Não é um castelo de cartas que desaba, mas, sim, uma única peça que cai por alguma razão e arrasta as demais. Perguntas que aqueles que se dizem especialistas no assunto deveriam fazer, mas, infelizmente, não fazem, são: por que o segundo dominó não conseguiu aguentar o tranco do primeiro? Por que, quando um cliente seu não paga, você tem de atrasar seu fornecedor ou despedir seus funcionários? Quando uma empresa despede 2% dos funcionários, como fez a Vale do Rio Doce, o que ela está dizendo é o seguinte: "Vocês, trabalhadores, que sobrevivam usando as suas reservas financeiras pessoais. Não vamos ajudá-los usando as nossas reservas empresariais. Boa sorte e adeus!".
A solução para o futuro é fazer indagações como estas: por que as companhias não possuem as reservas que deveriam ter para aguentar o tranco do parceiro na frente, se ele tropeçar? Por que as empresas não constituem reservas nos tempos bons para usar nos tempos difíceis? Não é por ganância, mas por arrogância intelectual. Muitas companhias passaram a contratar especialistas em prever o cenário econômico, aqueles que previram que o dólar fecharia o ano a 1,67 real, lembram-se? Derrubaram a Sadia, a VCP e a Aracruz. "O futuro é previsível, senhores, o câmbio não passa de 1,80 real, portanto as reservas da sua empresa podem ser reduzidas." Ledo engano, como já alertei inúmeras vezes aqui. O futuro não é previsível, minha gente, e foi essa arrogância intelectual que fez o sistema todo ruir.
O Brasil em outros tempos já estaria pedindo socorro ou reservas financeiras ao FMI. O que ocorreu de diferente desta vez? O país tinha reservas de 200 bilhões de dólares, acumuladas sob críticas constantes de que eram desnecessárias. Existem inúmeras outras razões por que empresas não constituem reservas, desde a pressão de analistas, a tributação de reservas, o que é um absurdo, e otimismo demasiado com relação ao futuro. No Brasil, taxamos reservas na pessoa jurídica em 32% e na pessoa física em 20%, o que leva à distribuição imediata aos sócios. Outro absurdo.
Para que companhias se mantenham sólidas no futuro, temos de lidar com essas questões, e não com a redução de juros, mais gastos do governo, mais supervisão mundial. Portanto, preparem-se, porque em 2009 vamos ler um monte de bobagens, com prêmios Nobel sugerindo uma nova ordem mundial, e ninguém vai se lembrar do óbvio de que países, empresas e famílias precisam de reservas financeiras adequadas, para aguentar as tempestades futuras e não demitir pessoal.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Preço de passagem aérea pode cair 30% em 2009
- Folha: Prevista para 2010, obra do São Francisco tem trechos parados
- Estadão: Indústria aposta no mercado interno para enfrentar crise
- JB: Os 100 primeiros dias de Paes
- Correio: Material escolar: Está tudo mais caro
- Valor: Economia desaquecida vai garantir oferta de energia
- Gazeta Mercantil: Por que as 'ações de viúva' fazem sucesso
sábado, janeiro 03, 2009
ISRAEL

UM VERÃO PERIGOSO
O VERÃO E A DOLOROSA MISSÃO ECLESIAL
Nem se iniciou a efervescente temporada de veraneio, e os acidentes, o descumprimento das normas, o descaso e o perigo a que nos expomos já fez a sua primeira (?!) vítima.
Como se não bastassem os quadriciclos e motos na areia da praia, os jet skis e lanchas disputando espaço com os banhistas; como se já não fosse demais a quantidade de dejetos arremessados irresponsavelmente no Rio Pium e em quase toda a orla potiguar; o som de trio elétrico nos carros; motoristas menores de idade; lanchas trafegando com pessoas sem habilitação e seus ocupantes sem uso de coletes salva-vidas; agora também estamos expostos à velocidade, ao perigo e às manobras (ao gosto do vento) dos Kite Surfs.
O equipamento (ou a arma do crime) é composto de uma prancha, confeccionada em espuma de poliuretano de alta densidade (divinicel) e resina epoxi, que está ligada a uma vela de nylon rip-stop (o mesmo usado em pára-quedas e asa-delta) por uma rede de fios também de nylon que, durante a prática esportiva, em um momento ficam a 15 metros de altura e, no instante seguinte, já estão paralelos ao nível do mar, prontos para cortar o seu pescoço como uma navalha. A prancha também representa perigo igual ou maior ao chocar-se, em alta velocidade, contra qualquer banhista.
Lamentavelmente, não falo no campo da hipótese. Na manhã de ontem (27.12.2008), estávamos, eu e minha esposa Uianê Azevedo, tomando banho na Praia de Pirangi do Norte, a não mais de 5 metros da areia. A água estava um pouco acima do joelho. Em segundos, um destes equipamentos aproximou-se de nós. Enquanto tentávamos correr para a areia, a tal vela (também conhecida como pipa), totalmente descontrolada, começou a girar em alta velocidade e, de forma violenta, oscilava seu giro entre o mar e o ar, em círculos de 10 metros de diâmetros. Ao descer veloz, batia violentamente sobre a minha esposa lhe provocando lesões corporais na fronte, na barriga, nas costas, nos braços, em uma das axilas... E o mais grave: um dos fios atingiu-lhe exatamente o pescoço.
Por ser médica, conseguiu, com meu auxílio e de outras pessoas, adotar os primeiros socorros em seu benefício, na tentativa de diminuir o sofrimento e dores causadas pelos ferimentos.
Foram momentos de muito terror. O seu corpo, atingido em vários locais, sangrava. O desespero tomava conta de nós pela incapacidade de reagir a tão violento ataque. Por verdadeiro milagre, as cordas de nylon se desenrolaram de seu corpo por si só. Não tive dúvidas de que a sua vida esteve ali por um fio... de nylon.
O tal kite surf vinha “dirigido” por um jovem que se identificou, após o acidente, como sendo instrutor. Quando ele me disse isto, fiquei com um questionamento: como será, então, que um aprendiz “dirige” aquele equipamento?!
É importante realçar que já há disciplinamento legal a ser cumprido. A Lei Federal nº 9.537, de 11.12.1997, regulamentada pelo Decreto nº 2.596, de 18.5.1998; a Lei Federal nº 7.661, de 16.5.1988, regulamentada pelo Decreto nº 5.300, de 7.12.2004; além da NORMAM nº 03, emanada da Diretoria de Portos e Costas que, em seu capítulo 1 - 109, (Áreas Seletivas para a Navegação), contém, no item “b”, 1, que as embarcações utilizando propulsão a remo ou a vela só poderão trafegar a partir de cem (100) metros da linha de arrebentação das ondas e as embarcações de propulsão a motor, tais como jet ski, reboque de esqui aquático e pára-quedas a partir de duzentos (200) metros daquela linha.
Para pôr fim a todo este “mundo-sem-lei” em que se transformam as praias, sobretudo na época do veraneio, é necessário que cada cidadão respeite o ordenamento legal. Que a Guarda Costeira, a Capitania dos Portos, a Polícia Militar, o DETRAN e Corpo de Bombeiros (salva-vidas) estejam presentes e fiscalizem. É imprescindível que a autoridade legislativa discuta e regulamente o que ainda não está limitado. É necessário que cada um faça a sua parte e assuma seu papel para evitar que a autoridade eclesial necessite cumprir sua dolorosa missão: celebrar a missa de sétimo dia.
Artêmio Jorge de Araújo Azevedo
Advogado