terça-feira, outubro 08, 2013

Novo degrau de juros - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 08/10

Nesta reunião do Copom, o Banco Central terá a vantagem de ter o dado da inflação de setembro, na quarta-feira, dia da decisão. E o número tem grande chance de ser o primeiro, desde dezembro, que puxa a inflação acumulada em 12 meses para uma taxa ligeiramente menor que 6%. O BC já comemora antecipadamente, esquecido que parte do resultado é fruto da repressão dos preços administrados.

A notícia da queda da inflação é boa, mas o BC sabe que isso é média de uma taxa de preços livres, que está em 7,64%, e de preços I administrados, que está em 1,27% nos últimos 12 meses. A inflação de serviços e de alimentos per­manece alta. Portanto, não é hora de fazer a come­moração que o presidente do Banco Central, Ale­xandre Tombini, fez na semana passada em Lisboa, ao falar que a inflação está controlada e em queda: ele sabe que parte do resultado é artificial.

A previsão mais comum no mercado é de nova alta dos juros de 0,5 ponto percentual, coisa que não aconteceria se a inflação estivesse fora da zo­na de perigo. Foi por ter sido condescendente no passado que a taxa subiu, ficou alta muito tempo, e levou o Banco Central a ter que retomar o cami­nho da elevação dos juros.

Um dos preços que têm sido mantidos sob controle e criado distorções é o da gasolina. Ontem, a presi­dente da Petrobras, Graça Foster, disse que o ministro Edson Lobão admitiu que é possível um reajuste até o fim do ano, mas que não há data. É meio constrange­dor para a presidente da maior empresa do país ter que ir a Brasília discutir o preço do seu principal pro­duto. Esse problema tem afetado a geração de caixa da petrolífera e é uma das razões que a Moody"s argu­mentou para reduzir a nota da companhia.

Graça Foster, a propósito, reagiu da forma correta à redução da nota. Disse que ""ninguém gosta de nota baixa, mas respeitamos a avaliação da Mo­ody"s" e disse também que "mesmo manten­do grau de investi­mento, a nova nota é um alerta, e a Petrobras está atenta". Em vez de ir pelo caminho de criticar as agências, muito comum no atual governo quando a no­tícia não é boa, ela rea­giu admitindo o pro­blema e informando que aumentará a pro­dução e isso vai me­lhorar indicadores em breve. Por mais que as agências tenham erra­do, desta vez ela fez um alerta correto. E a executiva da empresa fez bem em reagir des­ta forma, em vez de atacar o mensageiro.

O Banco Central, no entanto, tem tentado tapar o sol com a peneira. Os indicadores fiscais estão fi­cando piores e perdendo qualidade, como alertou a agência, mas o Copom na última reunião disse que a política fiscal caminha para a neutralidade. Deu uma guinada completa do que falara nos meses anteriores, quando alertou para o risco inflacio­nário do aumento de gastos.

É melhor para o governo, até do ponto de vista político-eleitoral, que o Banco Central seja mais duro em relação à deterioração fiscal do país, porque em 2014 naturalmente haverá mais rela­xamento.É muito raro um governo fazer ajuste em ano eleitoral. O governo está ampliando os gastos e piorando os indicadores na antevéspera j da eleição, confiando em que as concessões e os j leilões de privatização de infraestrutura vão ge­: rar as receitas extraordinárias para melhorar as I contas públicas no ano que vem.

No curto prazo, no entanto, as notícias são bo­as. Espera-se que o IBGE divulgue uma inflação moderada para setembro, em torno de 0,3% e 0,4%, e que isso reduza a inflação em 12 meses para 5,9%. Mesmo com esse resultado, o Banco Central deve elevar a taxa de juros para 9,5% na quarta-feira. Se esse será o ponto final no ciclo ; de aperto monetário dependerá do que o BC dis­ser nas suas comunicações pós-reunião. 

'Made in the world' - JOSÉ PASTORE

O Estado de S.Paulo - 08/10

Nos dias de hoje, praticamente inexiste produto que seja feito inteiramente por uma só empresa. Tome o caso de um tênis: quem faz a sola não faz o "tope"; quem faz o cordão não faz os ilhoses. A produção é altamente fragmentada, tudo propelido pelas novas telecomunicações e informática e pela melhoria do transporte e logística. A fragmentação sempre existiu, mas jamais se viu tamanha velocidade e abrangência. Hoje, os produtos unem esforços de várias empresas do mesmo país ou de países diferentes, chegando a um produto que deixou de ser made in USA ou made in Japan. Estamos no tempo do made in the world.

Os bens industriais são frutos de inúmeras interconexões das chamadas "cadeias globais de valor", que incluem atividades que vão da concepção do produto à venda ao consumidor, por preço atraente. O vestido que a mulher compra na loja percorreu velozmente um longo caminho do qual participaram pessoas e empresas das mais variadas procedências e atividades.

Infelizmente, a maioria das empresas brasileiras está fora das cadeias globais de valor. Mesmo as que brilham, fazem-no com restrições. A Embraer, por exemplo, líder da cadeia mundial de produção de aeronaves médias, se concentra na concepção e montagem dos aviões, e não na produção dos milhares de componentes das aeronaves - todos importados da China, Taiwan, Coreia do Sul, Japão, Alemanha, EUA e outros países que são líderes de cadeias globais de valor em vários setores (Timothy Sturgeon e colaboradores, Brazilian Manufacturing in International Perspective, CNI, 2013).

O impacto das cadeias globais de valor é imenso. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 1995 a 2010 elas alavancaram em 50% a interdependência das economias dos países do G-20. Isso foi essencial para a competitividade das empresas e das nações.

No campo do trabalho, capacitação, especialização e relações de trabalho são estratégicas. Nas cadeias globais de valor, alguns trabalham de forma fixa e por prazo indeterminado na mesma empresa; outros trabalham como freelancers. Há ainda uma imensidão de contratados e subcontratados com vários tipos de vinculações.

A terceirização é amplamente praticada, dentro e fora do país de origem das empresas. Caiu por terra o mito de que as cadeias globais precarizam o trabalho humano. Ao contrário. Por serem complexas e altamente tecnificadas, elas vêm induzindo à melhoria da qualificação dos profissionais e elevando sua empregabilidade, produtividade e renda. A literatura sobre o assunto está repleta de comprovações dessa natureza (Gary Gereffi e colaboradores, The governance of global value chains, Review of International Political Economy, 2005).

O sucesso dessa gigantesca articulação de empresas depende também da melhoria das instituições e da retaguarda dos negócios. O estudo da OCDE deixa claro que a desburocratização, a segurança jurídica no cumprimento dos contratos, a logística eficiente e as comunicações rápidas respondem por mais de 50% do sucesso das cadeias globais de valor. Investimentos em pesquisa, inovação e educação de boa qualidade respondem pela outra metade.

Os que ignoram a interconectividade da economia moderna, a necessidade de especialização e de relações de trabalho modernas condenam seus países a uma triste estagnação. É isso que estão fazendo os que combatem a regulamentação da terceirização entre nós. Se as suas teses vencerem, o Brasil será uma nação marginal e desatualizada no cenário das cadeias globais de valor e os consumidores continuarão pagando preços exorbitantes por tudo o que compram e consomem.

Para evitar esse quadro, precisamos aprovar imediatamente as reformas institucionais que induzem as empresas a entrar e participar ativamente nas grandes cadeias globais de valor. Isso é crucial não apenas para exportar, mas, sobretudo, para bem competir internamente.

Nós e o mundo - ANTÔNIO DELFIM NETO

VALOR ECONÔMICO - 08/10

Na organização da economia mundial, os países estão ligados pelos fatos e pelas expectativas que se formam dentro de cada um deles e pela intercomunicação que se estabelece entre eles. Nenhum é uma ilha. Numa razão maior ou menor, todos dependem de todos. Fundamentalmente, cada um é vítima ou beneficiário de sua organização política, da qualidade de suas instituições e da capacidade de liderança do poder incumbente de confirmar a confiança da sociedade e mobilizá-la para a consecução dos objetivos que ela mesmo estabeleceu.

A taxa de desenvolvimento econômico de um país pode ser vista como a soma de três componentes: 1) a resultante do seu próprio esforço interno e da qualidade da sua política econômica; 2) os efeitos de sua interação com o mundo, no que tange às ligações financeiras (movimento de capitais) e de comércio (exportação e importação), que dependem, por sua vez, do esforço interno e da qualidade da política econômica dos seus parceiros internacionais; e 3) de choques globais que afetam simultaneamente todos os países, ainda que cada um à sua moda. É isso que explica o nível da covariação entre as taxas de crescimento dos vários países.

Em setembro último, comemorou-se o quinto ano desde a enorme barbeiragem das autoridades monetárias americanas e inglesas, que foram atropeladas por sua incompetência em organizar a saída do Lehman Brothers do mercado. Finalmente parece que a justiça (não apenas com multas, mas a privação de liberdade) começa a bater nas portas dos que foram diretamente responsáveis pela destruição, nos últimos cinco anos, de cerca de 2/3 do PIB mundial de um ano e pelo desemprego de mais de 40 milhões de pessoas, que viviam honestamente do seu trabalho, enquanto eles continuaram a acumular formidáveis patrimônios.

A recessão iniciada em 2008 foi muito profunda e a recuperação lenta, como se vê no gráfico abaixo. As medidas monetária e fiscal foram insuficientes e mal coordenadas, não apenas por dificuldades políticas (o desarranjo institucional americano e a falta de arranjo institucional da Europa), mas também porque - como disse Ben Bernanke, o chairman do Fed - estávamos sem bússola numa noite escura num mar revolto nunca dantes navegado...

Os sinais de recuperação das economias desenvolvidas são tênues, modestos e, em certa medida, contraditórios. Lentamente, eles tomam fôlego. Por outro lado as emergentes, que foram o suporte do crescimento global, parecem imergir, iniciando um ciclo de menor crescimento, como se vê na tabela. O Brasil talvez tenha antecipado o ciclo, pelos efeitos da segunda componente mencionada acima, além de problemas próprios, como a queda de confiança do setor privado e a lentidão com que estamos aprendendo a fazer concessões eficientes de infraestrutura.

A verdade é que temos respondido frouxamente a algumas reformas absolutamente necessárias, como a radical simplificação do sistema tributário, o enfrentamento do problema previdenciário e a redução do dramático aumento das incertezas produzidas, por exemplo, pela ação discricionária do Tribunal Superior do Trabalho com suas súmulas vinculantes, e pelas decisões duvidosas e arbitrárias tomadas pelo Fisco.

É a falta de fortes e decididas iniciativas do Executivo e do Legislativo, para tentar resolver tais problemas, que aumenta as incertezas sobre o futuro, que põe na geladeira o espírito animal do empresário e retarda as suas decisões de investir. Mesmo quando o corporativismo e interesses menores controlam o Congresso, é a pressão do Executivo, forçando a discussão das reformas e ampliando o espaço da racionalidade, que mobiliza a sociedade para ajudá-lo a superar a resistência oportunística, cuja essência é o curto-prazismo.

Seguramente, não é o presente desconforto com relação às políticas monetária e fiscal que preocupa os potenciais investidores estrangeiros, ou as agências de risco, que, apesar de terem perdido credibilidade, ainda influem na determinação do risco Brasil e no aumento da taxa de juros (à qual pode somar-se o efeito da mudança da política monetária americana) e no custo da dívida pública. O que importa é o temor que a aparente pouca importância dada às reformas acabará por tornar a dívida insustentável, se persistirem o baixo crescimento do PIB e a redução sistemática do superávit primário.


Política na veia - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 08/10

A narrativa da tentativa de criar um partido a tempo de concorrer por ele à eleição de 2014 não foi das melhores, mas o desfecho ante a adversidade da recusa do registro da Rede foi um lance político admirável, como há muito não se via.

Inesperado, surpreendente, competente, pragmático no melhor sentido da palavra e feito em termos decentes, o acordo entre a ex-senadora Marina Silva e o governador Eduardo Campos dá um sacode geral nos preparativos para a campanha presidencial.

É cedo para dizer se de fato muda o cenário da eleição, mas sem dúvida alguma altera o quadro de acordos e a correlação de forças nesse período pré-eleitoral. Um movimento taticamente irrepreensível mais não seja por ter subvertido o previsível.

As maneiras adotadas devolvem um pouco de altivez à atividade política por pautadas em estratégia, identificação de propósitos e definição de um objetivo claro: derrotar os atuais condôminos do poder. Muito mais legítimo que o festival de chantagens e barganhas que tem conduzido conversas entre partidos. Nesse sentido, o acordo fechado na sexta-feira à noite é um ponto fora da curva no padrão lamacento em vigor.

Mostrou que Marina não se põe acima do bem e do mal como muitas de suas atitudes ao molde de maria santíssima levam a crer. Venceu a tentação da omissão e foi ao jogo sem abrir mão da coerência. Entendeu que quem tem voto precisa saber conferir materialidade a eles para além do terreno das boas intenções.

A aliança dificulta a vida do PSDB? Sem dúvida, mas esta já não estava fácil mesmo. Tem mais a perder quem dispõe de mais e se imaginava com a vida ganha. O PT, como atesta a entrevista do marqueteiro João Santana à revista Época desta semana, fazendo pouco dos adversários da chefe, Dilma Rousseff.

Segundo ele, a presidente será reeleita no primeiro turno devido a um fenômeno denominado por Santana de "antropofagia de anões". Mais que uma precipitação, a declaração mostra-se ofensiva ao falar em "anões". Na política, o termo evoca aquele grupo que nos anos 90 tomava de assalto a Comissão de Orçamento no Congresso e foi alvo de CPI que ceifou mandatos.

Do ponto de vista das pesquisas, Marina, Campos, Aécio Neves e José Serra podem ser tidos como nanicos em face da dianteira da presidente. Mas sob o aspecto político fazem movimentos na direção do fortalecimento do campo oposicionista.

A permanência de Serra no PSDB impede a fragmentação dos eleitores fiéis ao partido. A aliança entre Marina e Campos confere substância mútua e, portanto, importância, a uma alternativa.

Ela dá a ele potencial de capital eleitoral, a chancela do "novo". Ele agrega estrutura, expectativa de financiamento, passaporte ao Nordeste, densidade no quesito confiança administrativa. Um quê de tradicionalismo às vezes ajuda na compreensão da maioria ainda pouco afeita a modernismos.

Se essa receita vai resultar em êxito, é outra história a ser contada a partir de agora pela capacidade de articulação entre os grupos que se juntam, de conquistar adesões partidárias, de construir um discurso atrativo ao eleitorado, de firmar compromissos nítidos com a sociedade.

Não se pode, entretanto, subestimar a reação do governo. O ex-presidente Lula, tido como o mais esperto entre todos os espertos, levou uma volta de dois ex-aliados. Não vai se conformar nem medir esforços no contra-ataque que, ninguém se iluda, avizinha-se dos mais pesados.

Passe livre. Na conversa de sexta-feira à noite em Brasília, Eduardo Campos assegurou a Marina que o PSB não criará obstáculos à sua desfiliação do partido quando a Rede Sustentabilidade obtiver o registro na Justiça Eleitoral.

Passadas as eleições, bem entendido, porque antes disso a nova legenda não terá condições legais de participar de coligações eleitorais.

Os sonháticos e os pragmáticos - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 08/10

BRASÍLIA - O efeito eleitoral e a quantidade de votos ainda são uma incógnita, mas a surpreendente aliança de Eduardo Campos e Marina Silva foi, seguramente, um grande lance político --e com efeitos.

Marina tem origem no PT e Campos é do PSB, aliado de primeira hora do PT, de Lula e, por extensão, de Dilma. A mensagem e o impacto da união das duas forças são relevantes e forçarão todas as outras peças a se mexerem: Lula, Dilma, Aécio e até Serra, hoje em compasso de espera.

Do ponto de vista dos votos, ou da aritmética, pode haver uma soma zero, pois o resultado não parece aumentar a hipótese de segundo turno. Do ponto de vista político (ou da matemática?), as combinações se tornam muito mais complexas.

A candidatura Eduardo Campos deixou de ser uma possibilidade, para se tornar realidade. Isso significa atrair microfones, holofotes e um punhado de partidos, políticos e empresários interessados. Campos, o lanterninha nas pesquisas, mudou expressivamente de patamar.

Marina fez caminho inverso, pois sua candidatura era uma realidade e, só com muita boa vontade, continua a ser uma possibilidade. Isso significa que seus seguidores estão em fase não só de avaliação, mas de aflição. Deram um pulo no escuro e ainda não veem luz no fim do túnel.

O desafio de Campos e Marina, a partir do anúncio de sábado, é somar suas forças, não subtrair uma da outra. É unir o sonho da Rede Sustentabilidade (que não está morta...) ao pragmatismo e à bandeira da eficiência dos apoiadores de Campos. Ou os votos dos sonháticos urbanos, indigenistas e ambientalistas aos de pragmáticos como Jorge Bornhausen, criador do PFL e do DEM, e Ronaldo Caiado, líder ruralista.

A força de Marina tem de atrair o seu eleitor para o desenvolvimentismo de Campos. E Campos tem de convencer o seu de que sustentabilidade não é atraso. O contrário é um desastre: Marina perde o que tem, e Campos, o que nem chegou a ter.

O jogo e seus efeitos - TEREZA CRUVINEL

CORREIO BRAZILIENSE - 08/10
As nuvens mudaram de forma, como dizia um velho político mineiro, pela ação ousada de alguns atores, e nisso é que reside a maior graça da política. Alterou-se bruscamente o quadro eleitoral. Como jogada política, a aliança entre a ex-ministra Marina Silva e o governador Eduardo Campos, do PSB, foi espetacular: surpreendeu os adversários e até mesmo os aliados, furou a imprensa e impactou a grande plateia brasileira. Mas, para avaliar os efeitos reais sobre a sucessão presidencial, teremos que aguardar, pelo menos, uma pesquisa eleitoral realizada sob as novas circunstâncias e as indicações que ela trará pelo menos sobre uma das variáveis em questão: a base política de Marina, que embarcou no projeto da Rede acreditando em uma nova forma de fazer política, aprovou a jogada e estará com ela ao lado de Eduardo Campos?
 O PT e o governo viram dois ex-aliados se unirem com discurso de oposição. Poderão constituir uma terceira via mais musculosa para quebrar a polaridade PT x PSDB. A ordem entre os governistas, inclusive na reunião de avaliação da conjuntura econômica coordenada pelo ex-presidente Lula em São Paulo, era observar e avaliar. O PSDB também vê ameaçada a posição de principal alternativa de poder ao PT, com riscos de complicação para a candidatura do senador Aécio Neves. Tendo o ex-governador José Serra permanecido no partido, ao primeiro sinal de fragilidade da candidatura de Aécio, ele voltará a reivindicar o posto. Mesmo essas leituras óbvias, entretanto, estão partindo do pressuposto de que a chapa Eduardo-Marina representará a soma das condições favoráveis a um e a outro, a começar pelo segundo lugar nas pesquisas, antes ocupado por Marina como presidenciável.
Voltando à primeira questão, pelo que se pôde ver ontem nas redes sociais, muitos ficaram decepcionados, seja pela forma unilateral como a decisão foi tomada, no varar de uma noite, sem maiores consultas e debates, seja pelo fato de muitos não enxergarem em Eduardo Campos e no PSB nada de diferente em relação ao que Marina chama de "velha política". De fato, o jogo que ele joga é o mesmo que jogam o PT, o PMDB, o PSDB e outros partidos. O deputado José Antônio Reguffe, que esteve com Marina na luta pela Rede, dizia ontem: "Como cidadão que acredita na necessidade de mudar a forma de fazer política no Brasil, estive com Marina no projeto da Rede, e por ele me empenhei. Quanto a Eduardo, espero que ele me convença de que representa essa ruptura com as velhas práticas".

Num ato falho, ao assinar a ficha de filiação ao PSB no sábado, Marina falou em "aliança pragmática", corrigindo-se depois. Queria dizer programática. Mas foi o pragmatismo, e o ressentimento do PT, que a moveu, a partir do momento em que o TSE negou registro à Rede. O que ela priorizou, ao preferir o PSB ao PPS, foi a criação de um campo antipetista mais forte, porque egresso da própria coalizão.
Outro problema da aliança diz respeito à heterogeneidade da aliança, que inclui, por exemplo, o grupo demista do deputado Ronaldo Caiado, que apoia Eduardo Campos e votou contra Marina no caso do Código Florestal, sem falar na família Bornhausen, de Santa Catarina, forte expressão do pensamento conservador. O empresariado da indústria de base, que anda encantado com o governador de Pernambuco, teve conflitos com Marina, quando ela era ministra, pelos problemas que criou para licenciar alguns projetos.

A chapa enfrentará dificuldades não desprezíveis, de natureza eleitoral. Uma, o exíguo tempo de televisão, que, mesmo com o apoio do PPS, mal passaria de dois minutos, contra 10 minutos de Dilma, se ela mantiver boa parte dos partidos da coligação de 2010. E há também o problema de palanques nos estados. Antes da aliança, o PSB, desprovido de bons candidatos a governador na maioria das unidades da Federação, tendia a apoiar nomes do PSDB muito mais do que os do PT. Se se tornar a segunda força, a chapa não poderá ser linha auxiliar de tucanos ou petistas nos estados. Terá que montar seus palanques. Finalmente, a interrogação. Marina tem, em média, 20 pontos percentuais, contra uma média de 5 pontos dele. Se as próximas pesquisas continuarem avaliando os nomes separadamente, e mostrando que ela tem mais votos, ele continuará sendo cabeça de chapa?

A escolha de Fux

Alguns ministros do Supremo Tribunal Federal não gostaram da forma pela qual o ministro Luiz Fux foi escolhido como relator dos embargos infringentes, no fim daquela sessão de desempate pelo voto do ministro Celso de Mello. O regimento exigiria que o sorteio ocorresse em sessão administrativa, durante o expediente. O ministro Ricardo Lewandowski estava disposto a questionar o processo, mas parece ter recuado depois da contenda com o presidente da Corte, Joaquim Barbosa, negando-se a devolver ao órgão de origem a funcionária que é mulher do jornalista Felipe Recondo, que ele mandou chafurdar no lixo.

Inclusão digital (e desigual) - PEDRO SOARES

FOLHA DE SP - 08/10

RIO DE JANEIRO - O acesso ao celular no Brasil é uma fotografia idêntica à da renda. Quanto menor a remuneração numa região, mais baixa é a penetração do telefone móvel. O mesmo retrato se repete quando o tema é o uso da internet.

A partir dessa premissa, extraída dos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2012, pode-se vislumbrar que a inclusão digital, crescente ano após ano, caminha para replicar um padrão histórico de desigualdade no país.

No Nordeste, 64,6% das pessoas possuem celular. No rico Sudeste, 77,1% dispõem do aparelho. A pesquisa releva ainda o que intuitivamente já sabíamos: os mais jovens são mais conectados à rede.

O advento crescente dos smartphones junta as duas coisas: internet e telefonia móvel. A ideia de que na era do conhecimento haverá um computador por pessoa possivelmente se materializará com os telefones inteligentes. Mais caros, esses aparelhos são menos acessíveis às regiões e faixas de renda mais pobres. Ainda mais num país que pratica a mais alta tarifa de celular do mundo, segundo levantamento de entidade da ONU.

No anúncio da fusão da Oi com a Portugal Telecom, na semana passada, o presidente da nova companhia (que nasce carioca), Zeinal Bava, prometeu custos menores, a serem repassados nas tarifas. O compromisso parece distante ao se desenhar uma possível venda da TIM para a Vivo, limando uma concorrente.

Sob o pretexto de criar uma "supertele" nacional, o governo Lula mudou as regras e estimulou a compra da Brasil Telecom pela Oi, em 2008. O negócio, que tinha estrangeiros no páreo, só saiu graças ao gordo financiamento do BNDES. O projeto naufragou e o mercado perdeu um competidor.

Ao fim e ao cabo, não importa a nacionalidade da prestadora de serviços. Para o consumidor, o relevante é a maior concorrência, que abre espaço para tarifas mais baixas.

Marina Silva pode ser um rabo de foguete - RAIMUNDO COSTA

VALOR ECONÔMICO - 08/10

A condição do acordo firmado por Marina Silva com o PSB pressupõe a candidatura presidencial do governador Eduardo Campos (PE) na eleição de 2014 e não o contrário. Este é o desafio para PSB e Rede Sustentabilidade, nos próximos meses de acomodação dos dois partidos numa aliança firmada de cima para baixo. Com 4% das intenções de voto, segundo a última pesquisa eleitoral do Ibope, Campos será pressionado a crescer rapidamente, pois a ex-senadora Marina Silva, de acordo com o mesmo levantamento, está com 16%, em segundo lugar, abaixo apenas dos 38% da presidente Dilma Rousseff.

O próximo passo, agora, é encaixar os dois partidos da forma mais suave possível. Haverá o atrito normal do contato de uma superfície com a outra, mas pode ser suavizado. O Rede ficou de logo entregar ao PSB uma relação de seus projetos estaduais. À primeira vista não há grandes problemas de conciliação. Em São Paulo, a intenção das duas siglas é lançar o deputado Walter Feldman, que se desfiliou do PSDB e assinou a ficha de inscrição no PSB, candidato a governador e a deputada Luiza Erundina ao Senado - o deputado Márcio França insiste no apoio à reeleição de Geraldo Alckmin. Em Alagoas, o Rede tem compromisso com a candidatura de Heloisa Helena (PSOL) ao Senado.

São situações replicáveis por todo o país, mais ou menos difíceis de contornar dependendo do desempenho de Campos, após a aliança com Marina. Se a ex-senadora mantiver quatro vezes mais que o governador, nas pesquisas de opinião, é inevitável que Campos comece a ser questionado dentro da própria aliança. "Se o Eduardo Campos não crescer, Marina será uma presença acicatante do lado dele", dizia ontem um ministro do governo Dilma, já atrás de uma formulação para enquadrar a aliança. Em resumo, Marina poderá ser um rabo de foguete.

Marina Silva não tem um partido grande, mas precisa assentar as bases do Rede Sustentabilidade, pois em algum momento seguinte à eleição ocorrerá a separação entre as duas organizações, mesmo com a manutenção da aliança, encorpada de outros partidos, se a empreitada obtiver êxito eleitoral. Ultrapassada essa barreira, urgente, resta saber se a união de Eduardo Campos com Marina dá liga, se a maioria dos 20 milhões de votos de Marina, na eleição de 2010, migra ou não para a candidatura Campos.

Na política brasileira não são muitos os casos de políticos que conseguiram transferir votos em massa. Na eleição de 1989, concorrendo pelo PDT, Leonel Brizola conseguiu transferir para Luiz Inácio Lula da Silva a grande maioria dos votos que obteve no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Outro exemplo é o do próprio Lula na eleição de 2010, quando "inventou" com sucesso a candidatura de Dilma Roussef, que até então não havia disputado um único mandato eletivo. Marina certamente pode ajudar no desempenho de Campos nas maiores metrópoles, onde obteve boa parte de seus 20 milhões de votos.

O PSB e Eduardo Campos, aparentemente, têm uma noção clara de que é preciso agir com rapidez para transformar o fato novo, momento de interferir no processo político, em fato consumado. Prova disso é que já está sendo alterada a propaganda partidária do PSB, prevista para ser exibida nesta quinta-feira, dez minutos em que o protagonismo será todo do governador de Pernambuco, de Marina Silva e da deputada Luiza Erundina. É o momento de apresentar a parceria ao país, além da grande exposição de mídia ocorrida com o anúncio surpresa de que Marina Silva, sem o registro do Rede Sustentabilidade, decidiu se aliar ao PSB.

A dupla já desenhou o discurso de que a aliança PSB-Rede é uma alternativa surgida de dentro do governismo. É o que Eduardo Campos diz quando afirma que é possível fazer mais de um modo diferente. O modo que Eduardo pretende vender é o do estilo de comando e de tomada de decisões, num governo mais aberto ao diálogo com a sociedade, de um modo geral, as classes empresariais e o Congresso. Isso mantendo o discurso de "desenvolvimento para todos" e de identidade com a base social do governo que integrou nesses mais de dez anos. O alvo do jeito "diferente" é Dilma, e não por acaso a presidente da República mudou de comportamento, desde os protestos de junho.

Marina, por seu turno, estabeleceu uma referência ideológica, ao pintar o petismo com as cores do autoritarismo chavista. A ex-senadora está convencida de que o governo e o PT de alguma forma dificultaram a validação de assinaturas, pelos cartórios eleitorais, para a criação do Rede Sustentabilidade - apesar de ser evidente que Marina Silva abusou da sorte e possivelmente, subestimou o poder de fogo dos adversários, ao deixar para a última hora providências urgentes. Eduardo e Marina, por enquanto, sem dúvida ecoam segmentos do eleitorado de oposição, resposta que o senador Aécio Neves (PSDB) ainda não conseguiu dar.

Ao se filiar ao PSB, Marina Silva manteve seu título eleitoral no Acre. Antes de encerrado o prazo de filiação para quem vai concorrer em 2014, a ex-senadora chegou a ser cogitada como candidata, ao Senado ou ao governo do Estado, também do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, locais em que foi muito bem votada em 2010. Agora não há mais saída: ou é candidata no Acre, o que é pouco provável, ou será vice de Eduardo Campos, pois o pressuposto da aliança é que o governador de Pernambuco será o candidato. Acredita-se no PSB que a situação inevitavelmente evoluirá nessa direção. Se sair tudo certo, é claro, pois sempre há margem para o imponderável, como acabam de provar Eduardo e Marina.

A rigor, não existe um acordo para Campos enviar ao Congresso, se for eleito presidente da República, projeto de emenda constitucional propondo o fim da reeleição para presidente. Na realidade esse é um projeto do PSB, junto com unificação da data das eleições no país e o estabelecimento do mandato de cinco anos para cargos no Executivo.

Jogo embaralhado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/10

Vai ser um ano interessante, tanto no sentido estrito da palavra quanto no confuciano, de turbulências infindáveis impedindo a tranquilidade. O fato é que a ex-senadora Marina Silva, que já estava sendo dada como abatida ao decolar, e classificada de incompetente por não ter conseguido organizar a tempo seu partido, deu um golpe de jiu-jitsu no governo, aproveitando sua própria força para derrubá-lo.

A indignação por não ter recebido o registro da Rede, fato que atribui a uma manobra governista, deu-lhe forças para buscar o inesperado e voltar ao jogo que parecia já jogado. Não foi por acaso que o marqueteiro oficial, João Santana, apareceu na revista Época , no mesmo sábado em que Marina anunciava seu golpe de mestre, falando uma série de sandices a respeito de anões e soberanas .

Afirmava até mesmo, para sua infelicidade, que, entre os anões, o mais fraco era justamente o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Estavam ali registrados os dois planos em que se dá essa disputa: de um lado, a arrogância dos mais fortes; do outro, a astúcia da sabedoria, o marketing político contra a política com P maiúsculo, que transforma a realidade, enquanto o marketing a distorce para vender uma imagem, que quase nunca corresponde à vida real.

Os dois assumiram a tarefa de traduzir em gestos e atos os anseios das ruas. Para muitos, porém, Marina, com a decisão de participar do jogo político por dentro, deixou de ser reflexo da vontade de mudar o modo de fazer política, e as coligações diversificadas que Campos já fechara com políticos oriundos da direita começam a ser colocadas em xeque pelos marineiros .

Nada indica, também, que a soma dos dois acabará representada nas pesquisas, o que, à primeira vista, poderá desanimar os apoiadores, podendo até mesmo estimular o aumento de votos nulos. A narrativa que Campos e Marina começaram a montar no sábado, e que ficará mais explícita com o passar dos tempos, inclusive na propaganda partidária, é a de que se uniram para acabar com a Velha República e encerrar a polarização entre PT e PSDB.

Passada a euforia, porém, virá a ressaca. A realidade de nosso sistema político-partidário pode atropelar o sonho de representar uma maneira nova de fazer política. Nas redes sociais, já estão registradas as frustrações dos marineiros , que em sua maioria prefeririam que ela estivesse fora a vê-la abraçada a um político tradicional, de um partido tradicional, que tem alianças tradicionais pelo país afora.

Marina, que tem suas raízes na política tradicional, é capaz de lidar melhor com essas contradições do que a maioria de seus seguidores. O choro que se seguiu ao anúncio, na madrugada de Brasília, prossegue na rede, e foram os políticos tradicionais que traduziram para a realidade do país a decisão tomada.

Lembraram aos marineiros frustrados de que a filiação democrática foi a maneira que muitos partidos de esquerda, que não foram para a luta armada, encontraram para participar da política no MDB, contra a ditadura militar.

A entrada de Marina no PSB transformou a Rede num partido clandestino dentro da democracia, numa imagem que ela encontrou para estimular seus seguidores a fazerem guerra de guerrilha contra os que a queriam ver fora da disputa.

Mas essa guerrilha marineira pode levar problemas para a coligação democrática , pois os institutos de pesquisa não deixarão de medir a popularidade de Marina, mesmo ela teoricamente fora da disputa.

A um ano das eleições, o jogo está embaralhado, e caberá aos jogadores se moverem da melhor forma possível pelo campo de batalha redesenhado.

Os petistas, até mesmo Lula, foram apanhados no contrapé, e uma campanha que já estava sendo estruturada para mais uma vez ser o debate entre os governos FH e Lula terá de lidar com o fato novo de que estará sendo oferecida uma alternativa para o futuro do país, e não uma discussão do seu passado.

De Hipócrates à hipocrisia - GIL CASTELLO BRANCO

FOLHA DE SP - 08/10

Vamos gastar R$ 7,1 bilhões nos estádios padrão Fifa, enquanto em dez anos aplicamos só R$ 4,2 bilhões em saneamento



O mais famoso médico da Grécia antiga, Hipócrates, considerado o pai da Medicina, dizia: “Para os males extremos, só são eficazes os remédios intensos.” A frase é oportuna quando se observa que a Saúde no Brasil encontra-se em colapso. Do Sistema Único de Saúde (SUS) aos planos privados, alguns verdadeiras arapucas.

Apesar da crise, políticos permanecem enaltecendo o SUS, muito embora só utilizem o Sírio (Hospital Sírio Libanês), onde são recebidos à porta pelos professores-doutores de plantão. Enquanto isso, menos da metade dos cidadãos confia nos hospitais aos quais têm direito como simples mortais.

Pesquisa da ONU, divulgada no primeiro trimestre deste ano, com base em dados coletados entre 2007 e 2009, revelou que entre 126 países o Brasil ficou em 108° lugar no que diz respeito à satisfação com a qualidade dos serviços prestados. Apenas 44% dos brasileiros sentem-se satisfeitos com os padrões aqui oferecidos. Em nenhum país da América Latina, à exceção do Haiti (35%), foi identificado índice tão baixo quanto o que os brasileiros revelaram. Nesse campeonato, perdemos, por exemplo, para o Uruguai (77%), Bolívia (59%), Afeganistão (46%) e Camarões (54%), onde a população considera os serviços de saúde melhores do que a percepção que temos sobre os nossos.

Aparentemente, o dinheiro não é o fator que mais contribui para o caos. Conforme dados da OMS de 2011, somando-se todas as principais formas de financiamento (impostos/contribuições sociais, sistemas privados de pré-pagamento e desembolsos diretos dos pacientes), o Brasil gasta anualmente com saúde 8,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual é semelhante ao da Espanha (9,4%) e não muito inferior às aplicações da França (11,6%). No entanto, na maioria dos países desenvolvidos a maior parcela do financiamento provém de fontes públicas que respondem, em média, por 70% do gasto global. Em nosso país, o setor público — que atende 150 milhões de pessoas — contribui com apenas 45,7% do total das despesas integrais com Saúde.

Nesse cenário, será que nos últimos anos a Saúde tem sido considerada como prioridade entre as políticas públicas? O programa Mais Médicos irá salvar a saúde da pátria? Infelizmente, ambas as respostas são negativas.

Ainda que os recursos globais do Ministério da Saúde tenham aumentado nos últimos anos, as despesas realizadas mantiveram praticamente a mesma relação com o PIB. Em 2002, o total pago representou 1,87%, percentual que subiu para 1,88% em 2012. Em suma, de FHC a Dilma, com ou sem CPMF, trocamos seis por meia dúzia.

Quanto aos investimentos em Saúde (construção de hospitais, UPAs, aquisições de equipamentos etc.), nos últimos 12 anos foram autorizados nos orçamentos da União R$ 67 bilhões, mas apenas R$ 27,5 bilhões (41%) foram pagos. A título de comparação, o Ministério da Defesa investiu no mesmo período R$ 56,2 bilhões, literalmente o dobro das aplicações da Pasta da Saúde. Estamos comprando blindados, aviões de caça e construindo submarinos nucleares para enfrentar imagináveis inimigos externos enquanto, por aqui, mais de um milhão de brasileiros protestam por serviços públicos de melhor qualidade.

Em 2013, a situação é semelhante. A dotação prevista para os investimentos do Ministério da Saúde é de R$ 10 bilhões. Até setembro apenas R$ 2,9 bilhões foram pagos, incluindo os restos a pagar. O valor investido coloca o Ministério da Saúde em 5° lugar comparativamente aos outros ministérios.

Na verdade, há muito por fazer. Para começar, é difícil imaginar um país saudável em que quase a metade dos domicílios não tem rede de esgotos. Por opção, vamos gastar R$ 7,1 bilhões nos estádios de futebol padrão Fifa, enquanto em dez anos aplicamos somente R$ 4,2 bilhões em saneamento. O Mais Médicos — mesmo sem o Revalida e com certificados distribuídos a esmo — vai gerar o primeiro atendimento em cidades até então desprovidas, o que é bom. Mas por trás das “boas intenções” está a reeleição de Dilma, o fortalecimento da candidatura de Padilha ao governo de São Paulo, além do financiamento da ditadura cubana.

Dessa forma, o programa passa ao largo de questões cruciais como a necessidade de mais investimentos públicos, melhor gestão, atualização das tabelas de ressarcimento do SUS, aumento das vagas nos cursos de Medicina, nas UTIs e nas residências médicas, entre outros problemas a serem enfrentados. Tal como dizia Hipócrates, urgem remédios intensos. A reconstrução da saúde no Brasil exige mais ações e menos hipocrisia.

Presente e futuro - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 08/10

A história das eleições já legou exemplos suficientes de que acordos são passíveis de desmanchar-se no ar


Visão política é a capacidade de olhar para o momento presente e, em vez dele, ver o futuro.

Tudo indica que Marina Silva e Eduardo Campos voltaram os olhos para o futuro e viram apenas um momento do presente.

Em um só lance, os dois plantaram fartos problemas para sua adaptação mútua, em meio a igual dificuldade de seus grupos. Políticos costumam ter flexibilidade circense, mas não é o caso, por certo. Bem ao contrário.

Nem mesmo o pessoal do PSB cita o nome do partido por inteiro, há muito tempo: fazê-lo exigiria mencionar a palavra "Socialista". O que se sabe das ideias do próprio Eduardo Campos não é muito mais do que se sabe de Marina Silva. Em relação aos dois sabe-se, porém, o suficiente para perceber a inconciliação quase completa. Não cabe mais dizer que o PSB seja partido "de esquerda", nem se pode dizer isso de Eduardo Campos. Mas conservadores, o partido e seu presidente não são, nem podem sê-lo, por exigência da ambição eleitoral que expõem.

Marina Silva tem mais de esfinge que de política (sem alusão a certa semelhança de traços básicos). Se não há clareza de como a ex-candidata à Presidência pensa o país e seus problemas, ao menos se dispõe de uma percepção básica, na medida em que uma dedicação religiosa intensa exprime uma concepção bastante mais ampla. E ao deixar o catolicismo para tornar-se evangélica dedicada, Marina Silva integrou-se a uma corrente de notório conservadorismo. Demonstrado, inclusive, em extensão política, nas posições e atos de sua bancada no Congresso, com frequentes referências nos meios de comunicação.

Imaginar que tamanha diferença, digamos, conceitual caminhe para a conciliação, em nome de conveniências políticas imediatistas, exige esquecer o início da questão: as conveniências políticas dos dois são as mesmas e concorrentes entre si. Sustentadas, de uma parte e de outra, em graus equivalentes de pretensão e mal contido autoritarismo.

Com este pano de fundo, veremos o que se passará diante das posições de ambos invertidas na chapa do PSB em comparação com as pesquisas. Os seguidores de Marina nem esperam por próximas pesquisas, já entregues à campanha pela cabeça da chapa. As simpatias dos dois grupos vão mostrar o que são, de fato, quando se derem as verdadeiras discussões sobre liderança, temas de campanha, respostas às cobranças do eleitorado, a batalha.

A história das eleições, mesmo a recente, já legou exemplos suficientes de que acordos, garantias, alianças e comunhões são passíveis de também desmanchar-se no ar. É só bater um ventinho mais conveniente para um dos lados. Eduardo Campos sabe disso, o que significa que o festejado entendimento com Marina representa, para ele, múltiplos riscos. Entre os quais, até o desgaste político decorrente da simples dificuldade de convivência, descoberta agora por vários (ex-)entusiastas da Rede Sustentabilidade.

Marina Silva, ao passar de uma posição de liderança para a duvidosa inserção em partido alheio e com líder-candidato definido, na melhor hipótese fez uma jogada no escuro sob a luz do dia. Ao menos terá tempo para sair pelo país explicando ao seu eleitorado o que quer dizer sustentabilidade, um nome de partido à altura da incompetência com que foi tratado por seus sustentadores.

As armas de cada um - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 08/10

Mantega prepara petistas para reverberar que a economia vai bem, apesar de crescer pouco. Dar a sensação de país vai bem e está em crescimento é o principal instrumento de Dilma para fazer frente a qualquer adversário


A confirmar o cenário que se avizinha para 2014, já se tem uma ideia do que os atuais pré-candidatos farão a partir de agora no sentido de arregimentar aliados às suas pré-campanhas. O governo “venderá” cargos, emendas ao orçamento. Aécio e Eduardo, entretanto, venderão esperanças. Da parte do PSDB, a mercadoria será a esperança de uma gestão mais eficiente, especialmente, na economia. E do PSB, vem por aí o jeitão da nova política, sem o toma-lá-dá-cá explícito dos últimos anos, quando o partido que não recebia o ministério do seu desejo fazia beicinho e acabava levando. E todos os três tratarão de “vender” apoios nos estados, algo que, se bem trabalhado, pode fazer a diferença, caso a disputa fique apertada na hora do voto.

Os exemplos do toma-lá-dá-cá são fartos. Basta ver o PR com o Ministério dos Transportes, onde está hoje o ministro César Borges, da Bahia. Ou o Ministério do Trabalho, lote do PDT. As últimas denúncias só não afastaram o atual ministro porque os petistas não desejam ver o PDT pular para do palanque de Dilma. O mesmo vale para o PP no Ministério das Cidades.

Obviamente, os cargos que dão direito a carro oficial com placa verde e amarela têm seu charme e, às vezes, desgastes, como o uso do helicóptero em Santa Catarina pela ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, estampada com exclusividade nas páginas do Correio. Mas pode representar uma faca de dois gumes e tirar voto se a coisa ficar tão explícita ao ponto de colar em Dilma a imagem da velha política.

Ela já tem a desvantagem, para o público jovem, de ser a única pré-candidata com mais de 60 anos, a contar pela preferência da cúpula do PSDB e do PSB registradas até o momento, um ano antes da eleição. Será ainda a única que comeu o pão que o diabo amassou no período da ditadura militar, quando Eduardo e Aécio ainda eram crianças. Até por isso, os dois tratarão de colocar o PT e a relação do partido de Lula com o PMDB, no papel da velha política espelhada na candidatura pela reeleição da presidente.

Enquanto isso, no Planalto…
A presidente, embora tenha plena consciência de que a junção de Eduardo e Marina Silva não é a melhor notícia que ela poderia receber, jogará com a principal arma que tem, ou seja, o próprio governo. Ontem mesmo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, estava no Instituto Lula, dando munição aos petistas para defender a economia nos próximos dias. Lá estavam, por exemplo, Devanir Ribeiro, Rui Falcão, Arlindo Chinaglia e o senador Wellington Dias, ex-governador do Piauí. Coincidência ou não, na quarta-feira haverá reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) que traz a perspectiva de mais uma alta nos juros. Isso, sim, na avaliação do PT, é um problema.

Dilma e Mantega estão preparando o PT para responder diretamente aos adversários na hora em que o Copom trouxer uma verdadeira má notícia. Para isso, Mantega explicou ontem a diversos integrantes da legenda reunidos no Instituto Lula que a partir de 2014, o crescimento será maior, o Brasil está investindo em infraestrutura e a economia cresce, ainda que devagar, num momento em que a Índia cai, e que a China caiu e se estabilizou. É isso que, na opinião do partido de Lula, fará a diferença na hora do voto. E é isso que os petistas farão chegar aos aliados, como forma e manter todos na órbita governamental.

E nos partidos…
Nada disso, entretanto, será suficiente para fazer os partidos entrarem de corpo e alma na campanha de Dilma se, nos estados, ela e Lula ficarem apenas voltados aos palanques petistas. O escaldado Geddel Vieira Lima, pré-candidato a governador da Bahia, por exemplo, ligou ontem para Eduardo Campos. Sabe como é, Geddel já viu Dilma desfilar com o petista Jaques Wagner em 2010 e se reunir com o PMDB apenas em recintos fechados. Por isso, busca hoje outros candidatos a presidente para chamar de seu. Há quem diga que Geddel abre uma porta que outros podem seguir. Mas essa é outra história que hoje depende mais do PT do que de qualquer outro candidato.

Além da linha vermelha - ARNALDO JABOR

O Estado de S.Paulo - 08/10

Cresce a paranoia. A Al-Qaeda já domina rebeldes sírios. No Quênia, explodiu o shopping. Surgem ataques espontâneos, individuais, no Ocidente. Nigéria, Somália, Sudão, a polícia da Casa Branca mata uma mulher ao volante. O terror cresce sob os olhos impotentes dos "cães infiéis" - nós.

Os atentados, desde o 11 de setembro, foram parte de um processo que começa com o fim da Segunda Guerra. Foram uma novidade imensa na história: os Estados Unidos nunca tinham sido atacados em casa. Em todas as guerras, eles atuaram de fora. O atentado de Oklahoma foi cometido por um americano. O ataque a Pearl Harbour foi no Havaí. Essa vulnerabilidade foi uma perda de virgindade. Mudou o conceito de poder, o conceito de segurança.

Nem em filme do James Bond alguém pensou nisso. Todo mundo viu a população de Nova York correndo pela rua. Aquilo era o "Godzilla". De certo modo, a realização de um secreto desejo deles, porque os americanos têm esse "bode" de fazer filme-catástrofe, numa relação de amor-ódio com o próprio país. Nos atentados de hoje, o cinema perde. A realidade é muito mais ficcional. A guerra de nações está acabando. É a guerra da teocracia contra a tecnologia.

Na religião islâmica, a morte é um prêmio. Quando havia degola na Argélia, eles chegavam ao detalhe de decapitar os inimigos com uma faca rombuda, porque quanto mais o cara gritava, mais se enobrecia o degolador perante Alá. O terrorista também quer ascensão social: um fugaz poder com bombas no corpo, sucesso "post-mortem" e subida aos céus, para comer as mil virgens, as "huris", dançando de odaliscas. É um "hype" no Oriente. A maior ferida americana é que os miseráveis "mendigos", ignorantes, barbados e imundos chegaram a um nível de competência e imaginação "midiática" com que nunca Hollywood sonhou. O grande orgulho americano da eficiência foi perdido para "macacos suicidas".

A partir daí, todo mundo virou cientista político. Surgiram multidões de analistas de bom senso tentando fazer a tragédia absurda caber num discurso coerente, racional (inclusive eu...). Mas o terror não cabe na razão. Os conceitos operacionais para entender o que está havendo são insuficientes. Osama quebrou o discurso racional. Todos os nossos gestos, palavras, bravatas vêm de um arquivo morto, de um repertório que ficou subitamente antigo. Foram atingidos: o ateísmo, o iluminismo, a arquitetura, a paz burguesa, o turismo, a sensação de invulnerabilidade, o consumo. Os comentários buscam uma restauração do senso comum e são a nostalgia pela volta do bem-estar, do sossego. Enquanto estamos nervosos, o que apavora é que todos os terroristas afegãos, talibãs, fanáticos em geral têm um rosto calmo, o olhar iluminado de certezas, a tranquilidade da loucura. Os jihadistas xiitas ou sunitas não têm as angústias da liberdade nem do progresso. Não querem ser modernos; querem ser eternos. Os talibãs vivem na eternidade. Finalmente, a globalização criou uma democratização da desgraça. De uma forma repugnante, a verdade do mundo apareceu. Quem ganha? Ninguém. Esta guerra sem rosto nunca terá derrota ou vitória. Nietzsche escreveu: "Ao combater uma monstruosidade, temos de ter cuidado para não virarmos monstros". Ou já viramos ou vamos virar. A beleza do "homem revoltado" morreu e pode estar pintando um grande tempo de conformismo deprimido. Ficaremos mais minimalistas, afirmando singularidades. Como disse Baudrillard: "O universal acabou; só resta o singular contra o mundial".

Mudou a ideia de "finalidade", de "projeto", o doce aroma do sucesso a qualquer preço, o "happy end", o princípio, o meio e o fim, a vontade de esquecer a morte, que não mais estará num leito burguês com extrema-unção e família chorando, a morte será um cachorro pelas ruas, atacando de repente. Mudou a busca de plenitude, a realização de todos os desejos, sobe a fé, caem a esperança e a caridade, muda o sonho de "solução". Mudou a ideia de "futuro redentor" - será o fim do "Fim da História". Mudou o ideal detergente de um mundo branco, asséptico, sem fraturas, higiênico, a harmonia doce do lar, a decoração de interiores, a alvura dos lençóis, os pecados veniais, as deliciosas perversões irresponsáveis e indolores, pois as coisas vão doer mais. As coisas estão mais graves, as crises mais profundas, mas a superficialidade vai aumentar. Acabou a oportunista e enobrecedora contemplação caridosa da miséria, que chegou violenta, nas asas da estupidez religiosa. Cada vez mais, aumentam o charme arrogante dos ricos e famosos, a tecnologia sem Deus, as lágrimas mentirosas, a busca da perfeição física, do corpo sem órgãos, do orgasmo total. Acabou o mito de James Bond, que criou o ideal de eu dos "baby boomers", seus ternos impecáveis, o sexo sem envolvimento, as mil mulheres comidas, a licença para matar, o amor sem risco. Ninguém sabe o que fazer da arte, da beleza, até mesmo da elegantíssima vivência do desespero crítico, acabam o mal-estar abstrato, a náusea romântica, a infelicidade vaga, a delícia das grandes dores de amor, o difuso sentimento ocidental de superioridade, a aparente tolerância e a falsa generosidade, acaba a fleuma, a displicência chique ou mesmo a deliciosa sensação da canalhice.

Acaba o drama e volta a tragédia; perdeu sentido até o "absurdo" como literatura, o surrealismo virou piada naturalista e apareceu o novo indivíduo esfacelado por bombas, coberto de pizzas sangrentas. Acaba o "outro" como figura existencial-virtual, pois surgiu o horrendo "outro", sujo e mortífero, suicidando-se às gargalhadas; volta a marcha a ré para o ano 1000, acaba a esperança de achar Deus entre as galáxias, pois Deus já está entre nós armado até os dentes. O Islã está nos expondo ao ridículo. A maior potência do mundo lutando contra os Flintstones.

Vale tudo - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 08/10

Na véspera de eleições, só não vale transparência no acesso privilegiado ao dinheiro público



Começa esta semana a etapa menos visível da disputa eleitoral do ano que vem: um ciclo de 80 dias de votações dos orçamentos de 2014 para a União, os estados e os municípios.

O acordo entre Marina Silva (Rede) e Eduardo Campos (PSB) embaralhou o jogo dos partidos pela Presidência, governos estaduais e bancadas legislativas. A pressão dos aliados de Dilma Rousseff (PT), que batalha pela reeleição, e as novas composições regionais acirram a competição pelo acesso privilegiado ao Tesouro, em todos os níveis. O prêmio é o “direito” de gastar o dinheiro alheio sem ser incomodado.

Vale tudo, só não vale transparência. Veja-se o caso do Orçamento da União, mais enigmático a cada eleição. A gestão Dilma acentuou o obscurantismo ao classificar 98% das despesas deste ano com um “não atribuído” a qualquer plano orçamentário. E foi além, com uma miríade de projetos-fantasia (os Brasis “Sem Miséria”, “Carinhoso”, “Sorridente”, “Verde” etc.), sem relação direta com as políticas já definidas pelo próprio governo. Deixou perdidos analistas do Congresso, do Tribunal de Contas e de organizações independentes como Contas Abertas.

Nesse trevor orçamentário, multiplicam-se as transferências de recursos do governo federal a “entidades privadas sem fins lucrativos” (ONGs, fundações e partidos políticos, entre outros).

Já são 87.399 convênios e contratos com mais de sete mil entidades privadas. Custaram R$ 13,7 bilhões até 2012. É dinheiro equivalente a meio Bolsa Família e 30% mais que o capital investido pelo BNDES no grupo de Eike Batista. A conta aumentou em R$ 3,7 bilhões nos primeiros nove meses deste ano.

Falta “uma atuação mais contundente” do governo na fiscalização, acha o TCU. O acervo sobre o descontrole mostra que 43% dos contratos (38.321 convênios) foram feitos sem um plano de trabalho dos agentes privados beneficiários. Quatro mil entidades não apresentaram contas nos últimos cinco anos. Frágil, o sistema mistura a minoria de entidades sérias com as outras.

Há, também, evidências de avanço da “política uterina” — autoridades atuando em benefício próprio ou de parentes até segundo grau. Por amostragem, identificaram-se 134 casos de repasses a entidades privadas dirigidas por juízes, procuradores, deputados, prefeitos e vereadores, ou seus parentes, nos estados do Rio, de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Acre, Alagoas e Sergipe. O TCU mantém nomes em sigilo, e decidiu enviá-los à Justiça e à polícia. Entre os achados há uma entidade privada dirigida pelo secretário de um deputado federal, autor da emenda orçamentária que a privilegiou com dinheiro público. Qualquer semelhança com a ficção, claro, é pura coincidência.

Golpe de mestre? - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 08/10

SÃO PAULO - A filiação de Marina Silva ao PSB de Eduardo Campos foi um golpe de mestre ou representa o embarque numa canoa furada?

Em termos puramente aritméticos, a decisão de Marina mais subtrai do que soma. Se o objetivo da oposição é derrotar Dilma Rousseff, deve antes forçar a realização de um segundo turno, para o que, quanto mais candidatos competitivos estiverem na disputa, melhor.

Obviamente, Marina e Campos sabem fazer essa conta. Se resolveram se juntar, é porque acreditam que a aliança vai alterar a dinâmica do processo eleitoral, rompendo a polarização PT-PSDB, que se repete em graus variados de magnitude desde 1994. É uma aposta interessante.

Em seu favor, a dupla tem o fato de poder apresentar-se como uma oposição à esquerda --ambos foram ministros de Lula--, o que, no Brasil, sempre faz mais sucesso do que o discurso liberal ou conservador, ainda que, no poder, nenhum governo hesite antes de ligar-se ao que há de mais atrasado na política do país.

Se a estratégia tiver sucesso parcial, o grande derrotado terá sido o PSDB, que perderia o posto de segunda força e o direito de medir popularidade com Dilma num segundo turno.

Contra o socialismo verde pesa a natureza humana. Campos e Marina não chegaram a definir com clareza quem será a cabeça de chapa em 2014. O governador de Pernambuco tem a máquina do partido, mas a ex-senadora traz consigo a preferência de mais de 20% do eleitorado. Não será, portanto, um casamento fácil.

De todo modo, só se poderá carimbar que a aliança foi mesmo um golpe de mestre se a dupla conseguir derrotar Dilma, que tem a enorme vantagem de estar no comando do governo federal. Aqui, eles precisariam de auxílio externo, que poderia vir na forma de uma sensível piora da economia --cenário pouco provável--, ou de uma nova crise de mau humor, como a de junho. Mas aí já estamos falando do imponderável.

Mais um sonho desfeito - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 08/10

Além de sua importância para o mercado e para os investidores, a fusão da companhia brasileira de telecomunicações Oi com a Portugal Telecom, que assume a gestão da nova empresa, tem também um significado político de grande relevância. Ela simboliza o fracasso - mais um, entre tantos outros - da política do governo do PT de mobilizar grande volume de recursos públicos, beneficiar grupos empresariais privados por ele escolhidos e modificar regras e normas para formar o que vinha chamando de empresas campeãs nacionais capazes de conquistar espaço no mercado internacional. É mais um sonho de grandeza criado durante o governo Lula que se desvanece na realidade da vida empresarial.

A história da Oi e de suas antecessoras é, em boa medida, a história do ativismo e do intervencionismo estatal no setor de telefonia muitas vezes justificados pela necessidade de viabilizar a entrada de empresas privadas em setores antes dominados por estatais, mas também marcados por intrigantes trocas de favores.

O leilão de concessão da Tele Norte-Leste, que reunia operadoras de 16 Estados até então controladas pela Telebrás, foi vencido em 1998 pelo grupo - formado, entre outras, por uma empresa da área comercial, uma construtora de grande porte e companhias de seguro - que ofereceu ágio de apenas 1%. Para viabilizar a operação, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entrou no consórcio com significativa participação no capital, mas com a disposição de dele se retirar assim que houvesse um investidor para assumir a sua parte.

Dez anos depois, na metade do segundo mandato de Lula, o governo voltou a apoiar o grupo, já com o nome de Oi, para viabilizar a compra da Brasil Telecom (BrT), com o que se formaria o que se chamou de "supertele" brasileira, uma empresa forte financeiramente e com capacidade técnica para operar em outros países. Seria o que, na área de telecomunicações, o BNDES passou a chamar de empresa campeã, cuja constituição apoiaria fortemente.

Para permitir a formação da "supertele", além de assegurar-lhe apoio financeiro, o governo teve de mudar o Plano Geral de Outorgas (PGO), dele eliminando a regra segundo a qual a operadora poderia atuar em apenas uma das quatro regiões em que o País foi dividido. Assim, a Oi tornou-se a primeira tele de alcance nacional.

Não passou despercebido, na ocasião, o fato de que, entre os principais sócios da Oi, estava a construtora Andrade Gutierrez, principal financiadora da campanha que levou Lula à Presidência da República. Igualmente foi observado que a Oi tinha sido investidora da Gamecorp, empresa especializada em produção de programas de televisão e de jogos para celular, da qual o principal sócio era Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República.

Mas, em vez de se transformar na "supertele" pretendida pelo governo, a Oi - cujos sócios principais, desde o início, não eram do setor de telecomunicações - passou a enfrentar dificuldades, sintetizadas na dívida de mais de R$ 29 bilhões. A soma das dívidas da Oi e da Portugal Telecom alcança R$ 45,6 bilhões. A capacidade de geração de recursos, expressa no conceito de Ebtida (lucro antes dos juros, depreciações, amortizações e impostos), nos últimos 12 meses alcançou R$ 12,5 bilhões. Ou seja, a dívida é 3,64 vezes maior do que a capacidade de geração de recursos, relação um pouco maior do que a considerada tolerável pelos analistas financeiros (de 3,5 vezes).

O BNDES investiu cerca de R$ 18 bilhões na criação das "campeãs nacionais". Elas receberam recursos do banco público para operações de fusão ou aquisição, inclusive no exterior. Uma delas, a Lácteos Brasil (LBR), em regime de recuperação judicial, impôs prejuízos estimados em R$ 700 milhões ao banco estatal. Já as ações de outras empresas escolhidas como "campeãs" tiveram forte desvalorização desde a entrada do BNDES. O valor de mercado da Oi, por exemplo, que alcançou R$ 13 bilhões na época da compra da BrT, chegou a cair para R$ 7 bilhões. O BNDES e diversos fundos de pensão de estatais são acionistas da Oi.

Samu a serviço exclusivo de Ideli Salvatti - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 08/10
Causa indignação a denúncia publicada com exclusividade pelo Correio de que a ministra de Relações Institucionais requisita helicóptero do Samu para uso privado. Se a aeronave se destina a prestar socorro médico em casos de emergência, soma-se mais um sentimento - a revolta. A repulsa cresce com o aprofundamento dos abusos.
Para servir melhor a propósitos eleitoreiros, Ideli Salvatti exige a retirada de equipamentos destinados a salvar vidas. Entre eles, maca, tubo de oxigênio e material de primeiros socorros. Pior: a escala de atendimento de urgência deixa de existir. Quando se toma conhecimento de que o estado só dispõe de um helicóptero, o léxico português se torna insuficiente para classificar o fato.

O Brasil volta ao passado. Revive o tempo da vinda da família real para o Rio de Janeiro. A fim de responder ao problema da falta de moradias para abrigar a corte, os representantes do rei escolhiam as residências que lhes pareciam aptas a abrigar os aristocratas que se deslocaram para a América. Ato contínuo, afixavam na porta aviso com duas letras: PR. Eram as iniciais de príncipe regente.

Tratava-se de ordem de despejo. O povo interpretava o mandado com divertida ironia - ponha-se na rua. No século 21, repete-se a história. Ideli Salvatti - para fazer campanha eleitoral - priva os catarinenses do helicóptero que pode evitar tragédias. Pré-candidata ao Senado, usa o Estado para benefício próprio. Em troca de votos, deixa o Samu sem condições de prestar socorro, prevenir traumas e evitar mortes.

O aumento da escolaridade, a urbanização e a explosão das mídias sociais criaram a ilusão de mudança em velhos costumes. Um deles, talvez o mais perverso, é o trato da coisa pública. Pareciam distantes os tempos em que se via com naturalidade a depredação do patrimônio estatal. É o caso de alunos que quebram carteiras, passantes que danificam orelhões, adultos e crianças que inutilizam brinquedos de parquinhos ou destroem plantas que enfeitam praças ou caminhos por onde transitam.

É o caso, também, de políticos que lançam mão de verbas do Orçamento para si ou para os correligionários. Nem sempre o desvio se traduz em aumento da conta bancária do dono do poder. Às vezes a moeda é o loteamento da administração. Dá-se o assento a determinada pessoa em elevados escalões do governo não pela competência, mas pela necessidade de saldar favores.

Em português popular: faz-se cumprimento com o chapéu alheio. O caso Ideli não foge à regra. Além de privar os cidadãos do único helicóptero disponível, a ministra os obriga a pagar a conta. Desvia-se do rumo o dinheiro que deveria abastecer farmácias de hospitais, alimentar crianças na escola, tapar buracos do asfalto, melhorar o transporte coletivo, garantir a segurança do ir e vir. É o PR dos tempos modernos.

Insegurança jurídica ameaça portos - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 08/10

Terminais privados não são mais obrigados a utilizar trabalhadores avulsos, mas sindicatos de estivadores querem impor tal regra, que se tornou opcional na nova lei


Algumas regras de 150 anos atrás persistem no sistema portuário no Brasil, entre as quais a utilização quase compulsória de trabalhadores avulsos, os estivadores, sejam eles necessários ou não para a movimentação de cargas no convés dos navios, depois que as embarcações atracam. Em terra, no cais, as tarefas geralmente são executadas por profissionais contratados, os portuários.

Até o início da década de 1990, os trabalhadores avulsos designados para cada navio atracado eram escolhidos pelos sindicatos locais de estivadores, criando uma espécie de casta nos portos. Estivadores designados muitas vezes “subcontratavam” outras pessoas, conhecidas como “bagrinhos”, para substituí-los em tarefas pesadas, ficando para si com parte da remuneração.

Após a Lei de Modernização dos Postos, tal prerrogativa foi substituída pelos órgãos gestores de mão de obra (Ogmos), ainda com participação dos sindicatos, porém não mais com exclusividade. A criação dos Ogmos foi acompanhada de um programa de redução gradual do número de estivadores, com planos de indenização, aposentadoria e requalificação profissional. O uso crescente de equipamentos aboliu em grande parte o trabalho braçal nos portos, o que tornou desnecessária a mesma quantidade de estivadores. Assim, mesmo com a redução do número de trabalhadores avulsos sindicalizados, o quadro atual é de oferta de mão de obra, e não de escassez.

A utilização de trabalhadores avulsos é quase compulsória no chamado porto organizado (áreas públicas arrendadas ou não). Há operadores privados que preferem contratar permanentemente trabalhadores, respaldando-se em decisões da justiça, mas sob pressão dos sindicatos. Como aliados, costumam encontrar apoio nas famílias de estivadores quando elas são informadas de benefícios oferecidos aos contratados.

Pela legislação agora em vigor, os terminais privados, situados fora dos limites do porto organizado, têm a opção de contratar profissionais ou utilizar avulsos não necessariamente escalados pelo Ogmo. Um grande terminal privado em Santos (o Embraport), vizinho ao porto organizado, fez isso e tem sido alvo sistemático do sindicato local de estivadores. Suas instalações foram recentemente ocupadas e até mesmo um navio que estava ali atracado, impossibilitando a operação de embarque e desembarque de cargas.

Sob a égide da nova legislação, o governo espera atrair investimentos privados para a construção ou arrendamento de novos terminais. Essa questão precisa ser resolvida, pois os custos da mão de obra pesam no cálculo do investimento. Se a estimativa for feita considerando-se as definições da lei, mas, por imposição sindical, a prática tiver de ser diferente, o potencial investidor deverá se retrair diante de um ambiente de insegurança jurídica.

Respeitar as biografias - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 08/10

As trajetórias de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil sem dúvida merecem consideração. Gosto à parte, o valor artístico de suas obras --assim como as de Djavan, Erasmo Carlos e Milton Nascimento-- também é patente. As páginas mais recentes de suas histórias pessoais, contudo, não são dignas da mesma deferência.

Entre outros, esses compositores e cantores nacionais uniram-se ao não menos popular Roberto Carlos em uma cruzada contra as biografias não autorizadas no país.

Juntos, criaram a Procure Saber, associação autoproclamada de defesa dos interesses da classe. Segundo a produtora Paula Lavigne, porta-voz do grupo, um dos objetivos é garantir que esse gênero de livro não seja comercializado sem a autorização prévia do biografado.

Não passa despercebida a ironia na escolha do nome. A Procure Saber luta, sem meias palavras, para impor restrições ao trabalho daqueles que desejam aumentar o conhecimento a respeito de personagens públicos relevantes.

É ainda curioso --e triste-- que artistas censurados e críticos desse "modus operandi" típico das ditaduras pretendam, em plena democracia, tornar-se censores.

Uma biografia, por sua natureza, envolve a divulgação de detalhes nem sempre agradáveis sobre a vida dos biografados. Se o escritor sempre precisar do aval de seus personagens, logo se vê que, nesse gênero literário, os únicos livros publicados serão aqueles assemelhados aos contos de fadas, com protagonistas idealizados.

Pouco adianta a Procure Saber afirmar que só quer proibir a comercialização dessas obras. Dá na mesma: sem remuneração, o trabalho do escritor não é viável. Ou os artistas dariam o exemplo, compondo e cantando de graça?

Reconheça-se que existe uma tensão entre a proteção da honra e da privacidade, de um lado, e da liberdade de expressão e do direito de acesso a informações, de outro. A solução democrática para esse dilema é que as partes atingidas por informações inverídicas recorram ao Judiciário para exigir indenização.

A polêmica se encerraria se o Supremo Tribunal Federal colocasse em pauta ação ajuizada no ano passado pela Associação Nacional dos Editores de Livros.

Se o fizer, a corte poderá deixar claro que os artigos 20 e 21 do Código Civil --que tornam possível proibir a circulação de textos e imagens não autorizadas-- não se aplicam a relatos biográficos, históricos e jornalísticos.

Sem esse julgamento, o Brasil ficará refém da odiosa censura prévia. Um desrespeito à biografia desses cantores --e de tantos outros.

Impasse nos EUA - EDITORIAL GAZETA DO POVO PR

GAZETA DO POVO PR - 08/10

O shutdown serve de aviso: mesmo a grande nação americana não é um lugar totalmente livre de riscos para investimentos financeiros


Nos Estados Unidos, o valor total que a dívida pública pode atingir é fixado pelo Poder Legislativo, e a premissa para a imposição de um teto é que o Poder Executivo não pode ser livre para gastar mais do que arrecada indefinidamente, cujos déficits anuais são cobertos com dinheiro emprestado do público interno e do mundo inteiro. Assim, pode-se argumentar que o Congresso é corresponsável pelo tamanho da dívida pública, pois os orçamentos anuais são aprovados pelo Poder Legislativo; logo, o déficit é aquele autorizado por lei votada por deputados e senadores.

Em sentido geral, a prática de a proposta orçamentária ser feita pelo Executivo e enviada ao parlamento para aprovação não varia muito nas democracias ocidentais. Cabe ao governo elaborar uma proposta com estimativa das receitas e fixação das despesas, explicitando em que áreas e programas a arrecadação tributária será aplicada. A proposta é analisada pelo Poder Legislativo e o orçamento final aprovado sai do parlamento com definição do resultado final, na maioria das vezes com previsão de um déficit nominal a ser financiado pela expansão da dívida pública.

Ocorre que, no caso dos Estados Unidos, uma lei define o teto máximo da dívida pública – valor que, atualmente, está em US$ 16,7 trilhões, equivalente a 100% do Produto Interno Bruto (PIB) de um ano. Os déficits anuais podem ser financiados com emissão de títulos, alguns com prazo de vencimento indeterminado – ou seja, nunca vencem –, e a dívida vai se acumulando ano a ano, de maneira a formar um estoque crescente de passivo estatal. Como é normal em qualquer dívida, os empréstimos para o tesouro nacional dos Estados Unidos implicam a cobrança de juros, levando os orçamentos anuais a destinar parte da arrecadação para o pagamento de juros.

Um aspecto essencial na teoria da dívida pública é que, quando um governo gasta mais do que arrecada em determinado ano, ele joga sobre as gerações futuras a conta de um serviço ou investimento público feito para as gerações do presente. Se o endividamento é feito para pagar obras de infraestrutura, as gerações futuras pagarão a conta, mas também usufruirão das obras, e isso é normal e aceitável. Entretanto, quando o governo faz dívida para pagar déficits decorrentes de serviços públicos consumidos apenas pelas gerações do presente, os contribuintes futuros acabam pagando uma conta cujos benefícios eles não tiveram.

Embora não seja comum os países fazerem distinção entre endividamento público para investimento e endividamento para gastos correntes, a existência de limite para o déficit orçamentário anual é pressionado, como no caso dos EUA, pelo teto máximo admitido para a dívida pública. Assim, caso o governo leve a dívida até o teto permitido, acaba ali a possibilidade de seguir gastando mais do que arrecada e, no caso dos EUA, isso obriga o governo a desligar os cofres – o shutdown que agora presenciamos.

O problema de chegar-se a essa situação – e Obama afirma que, no dia 17 de outubro, o teto da dívida será atingido – é a tragédia financeira imposta à economia mundial, pois os títulos públicos norte-americanos são comprados por investidores do mundo inteiro, inclusive pelo Brasil, que chegou a acumular US$ 200 bilhões em títulos daquele país. Conforme disse o presidente Obama, se o Congresso não aprovar a elevação do teto da dívida, o governo deixará de pagar títulos públicos vincendos.

Adicionalmente, nos EUA, caso o impasse realmente ocorra, o governo ficará impedido de fazer pagamentos essenciais para a saúde e, inclusive, salários de funcionários. O shutdown é uma espécie de desligamento das chaves que fazem o governo funcionar. A gravidade do problema norte-americano tem como origem a crise financeira que eclodiu em 2008 e obrigou o governo a socorrer as instituições envolvidas com o colapso imobiliário – a crise dos empréstimos subprime.

O pano de fundo da crise entre o governo Obama e o Poder Legislativo é a reforma do sistema de saúde que, até hoje, não foi digerida pelos representantes do Partido Republicano. Isso, porém, foi apenas o estopim que desencadeou uma série de conflitos entre o presidente e o parlamento. E, como já ocorreu em outras oportunidades, a crise está sendo levada até seu último momento, deixando o mundo em suspense e alertando que mesmo a grande nação americana não é um lugar totalmente livre de riscos para investimentos financeiros.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Nós reconhecemos as diferenças que temos”
Governador Eduardo Campos sobre a injeção de clorofila de Marina Silva no PSB


REJEITADO E JURURU, PPS COGITA CANDIDATO PRÓPRIO

Após a rejeição do tucano José Serra e da ex-senadora Marina Silva, recém-filiada ao PSB, a Executiva Nacional do PPS se reunirá nesta terça, em Brasília, para discutir candidatura própria à Presidência em 2014. São cotados Roberto Freire (SP), presidente do PPS, Soninha Francine (SP) e o ex-ministro Raul Jungmann. O PPS se ofereceu para receber Marina, mas ela já havia fechado acordo com o PSB.

TIRO NO PÉ?

Roberto Freire disse a Marina que considera um erro o seu recuo sobre a disputa à Presidência, porque poderá inviabilizar o segundo turno.

MANTRA

Durante a conversa com o PPS, Marina criticou o “modelo chavista” e as retaliações do PT, atuando em cartórios para impedir a Rede.

AS VOLTAS DA VIDA

José Serra está com um (raro) sorriso no rosto com a filiação de Marina ao PSB. Na ótica dele, isso enfraqueceria o desafeto Aécio Neves.

NO DIVÃ

O diretório estadual do PSDB-SP se reuniu ontem à noite para discutir a disputa local no cenário com Marina Silva aliada a Eduardo Campos.

GOVERNO RESERVA R$ 1 TRILHÃO PARA DÍVIDA EM 2014

Só Tio Patinhas para contar tanto dinheiro: com números da Comissão de Orçamento da Câmara, a ONG Auditoria Cidadã analisou o destino do Orçamento de 2014 que o governo federal enviou ao Congresso: R$ 1 trilhão (42,42%) dos R$ 2,6 trilhões destinam-se ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública. A bomba-relógio da Previdência Social “engole” 20,05% dos nossos impostos.

LOW-TECH

Dilma, que se queixa tanto de espionagem dos EUA, destinou merreca à Ciência e Tecnologia, área crucial à segurança da rede: 0,37%.

PAUTA DAS RUAS

Alvo de queixas dos protestos de junho, Segurança Pública terá menos ainda no Orçamento: 0,35%. O setor de Transportes vai levar 1,03%.

DEIXA COM ELES

Na contramão das acusações de Dilma contra a espionagem mundial, postaram no Twitter que “a Etiópia sabe quem matou Celso Daniel”.

ESTABILIDADE NO EMPREGO

Dilma sinalizou ao ministro Aldo Rebelo (Esporte) que deseja sua permanência no cargo durante a Copa do Mundo. Deputado federal pelo PCdoB-SP, Aldo ainda não sabe se disputará mandato em 2014.

PMDB ADOROU

A cúpula do PMDB adorou o “tiro de inquietação” que foi o ingresso de Marina Silva no PSB. Dilma havia retomado o desdém contra o partido, após subir nas pesquisas. Mas agora deverá reencontrar a humildade.

JOGOS DE GUERRA

Ex-espião da Inteligência canadense, Ray Boisvert garantiu ao jornal local Globe and Mail que o Brasil não é alvo de espionagem industrial de canadenses e americanos, que o terrorismo é prioridade e que as revelações de Edward Snowden seriam simulações de cenário futuro.

BARRADO NA OAB

Renan Calheiros nem foi convidado pela OAB à festa dos 25 anos da Constituição, seja como presidente do Senado, seja como deputado constituinte Nota 10. Ele não esquece: o presidente da OAB, Marcos Coelho, foi em campanha à sua casa em Alagoas suplicar apoio.

MOLECAGEM

Não se deve escrever o que diz a assessoria de imprensa da Câmara dos Deputados. A Liderança do PSD ocupa sala de 325 m², bem maior que a saleta de 1,5 m² informada sexta-feira pela assessoria da Casa.

ELE SÓ PENSA NAQUILO

Paulinho da Força ironiza o R$ 1 milhão por mês que sua turma “dava” ao PDT de Carlos Lupi, de fundo partidário. Mas desconversa sobre a receita do seu Solidariedade: diz “não se preocupar” com dinheiro.

CABEÇAS-DURAS

A lenga-lenga do diagnóstico cifrado bolivariano se repete no hematoma craniano de Cristina Kirchner: seu médico diz que foi “espontâneo”, mas hematomas, em geral, são fruto de choque violento.

PERGUNTA NO MERCOSUL

Quando Nicolás Maduro e sua banda bolivariana vão começar a culpar os EUA pela doença de Cristina Kirchner?

EXPLICA AÍ

O grande desafio do pré-candidato Eduardo Campos é explicar como pretende que Marina Silva seja sua vice, se a nova filiada tem no mínimo oito vezes mais intenções de votos que ele, nas pesquisas.


PODER SEM PUDOR

EPISÓDIO ESTRANHO

Logo depois da renúncia de Jânio Quadros, os ministros civis Oscar Pedroso Horta (Justiça) e Quintanilha Ribeiro (Casa Civil) se reuniram com os militares, insinuando apoio das tropas ao presidente. Após a reunião, o oficial Ernesto Geisel, ajudante de ordens do ministro da Guerra, voltou para pegar uma pasta esquecida, e contou depois aos chefes militares:

- Preciso relatar um episódio muito estranho: encontrei os dois ministros rindo à solta e dizendo que haviam conseguido enganar os senhores.

Pelo sim, pelo não, nenhum chefe militar impediu que Jânio fosse embora.

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Batalha nas ruas – Vândalos sufocam protesto, de novo
Folha: Protestos em SP e Rio voltam a ter vandalismo e confronto
Estadão: Ex-ministro de Dilma vai chefiar programa de Campos
Correio: Partidos vão tirar mais dinheiro do seu bolso
Valor: Governo prepara venda de ativos da BNDESPar
- Estado de Minas: Abrigos para moradores de rua – Não há mais vagas
- Jornal do Commercio: Medicina da UFPE chega a Caruaru
- Zero Hora: Fala o chefão da Copa
- Brasil Econômico: Bolsas do governo são o motor do ensino privado

segunda-feira, outubro 07, 2013

Dilma dá lição de espionagem a Obama - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA

Dilma foi à ONU e acabou com Barack Obama. Lendo com fúria o discurso terceiro-mundista que algum Marco Aurélio Garcia ajuntou para ela, deixou os yankees apavorados. Falando sobre espionagem digital, a presidente brasileira deu uma lição de direito e democracia aos americanos, com sua autoridade de aliada de Cuba, Irã, Síria e Venezuela. E Dilma fez mais: cancelou a visita que faria neste mês aos Estados Unidos. A maior potência mundial talvez não resista a esse golpe.

Obama inventou uma briguinha com o Congresso e fez seu governo parar de funcionar - tudo para ganhar tempo e pensar o que fará sem Dilma. A Casa Branca estaria tentando negociar pelo menos a substituição dela por outra grande líder do Brasil transparente - como Erenice Guerra ou Rosemary Noronha -, mas o Planalto estaria irredutível.

A ética petista não transige com espiões, não tolera governos que abusam de seu poder para fins de dominação política. Tanto que a espionagem do sigilo bancário do caseiro Francenildo foi feita sem qualquer invasão de privacidade,  a conta era num banco estatal, e as estatais, como se sabe, são deles, e ninguém tem nada com isso. Inclusive, Marcos Valério levava tranquilamente sacos de dinheiro do Banco do Brasil para o PT, tudo em casa. Agora os Estados Unidos aprenderão com Dilma a respeitar o que é dos outros.

Alguns críticos neoliberais, elitistas e burgueses andaram dizendo que o discurso de Dilma na ONU foi uma bravata pueril, uma lambança diplomática. Disseram que Oswaldo Aranha e o Barão do Rio Branco se reviraram nas catacumbas com a transformação da assembleia da ONU em assembleia do PT, onde o que vale é rosnar contra o "inimigo" para excitar a militância e descolar uns votos. Esses críticos acham que a gritaria de Dilma em Nova York e o cancelamento de sua visita aos EUA fazem bem ao PT e mal ao Brasil. São uns invejosos.

Quando o assunto é espionagem e manipulação de dados protegidos, o governo popular sabe do que está falando. Uma de suas obras-primas na matéria foi o vultoso Dossiê Ruth Cardoso - uma varredura em registros contábeis sobre a ex-primeira-dama. Na ocasião, o primeiro escalão do governo Lula era denunciado por uso abusivo dos cartões corporativos. O material sobre as despesas de Dona Ruth não trazia nenhuma irregularidade, mas virou um "banco de dados" nas mãos da "inteligência" aloprada, acostumada a envenenar informação e jogar no ventilador.

O Dossiê Ruth Cardoso foi montado na Casa Civil pela ainda desconhecida Erenice Guerra. Sua chefe se chamava Dilma Rousseff, essa mesma que agora ensina Obama a não futricar a vida alheia.

Ela pode ensinar, porque entende de invasão. Segundo a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, a então ministra chefe da Casa Civil Dilma Rousseff - a quem Lina não era subordinada - ordenou-lhe que desse cabo de um processo envolvendo o companheiro Sarney. Após a denúncia, Lina aceitou ser acareada com Dilma, que dessa vez preferiu não se meter com ela.

Na campanha presidencial de Dilma em 2010, funcionários de seu comitê invadiram o sigilo fiscal da filha de seu adversário eleitoral. Era mais uma tentativa de dossiê, traficando dados protegidos por lei. Que Obama compreenda de uma vez: ou para de espionar os outros ou se filia ao PT, que aí não tem problema.

Enquanto Dilma lia seu panfleto na ONU, o Brasil registrava o primeiro déficit nas contas públicas desde 2001. O mês de agosto de 2013 passa à história como um marco do governo popular: após dez anos zombando das metas de inflação e de superávit, os pilares da estabilidade econômica, torrando dinheiro público com sua Arca de Noé ministerial e o dilúvio de convênios piratas, o PT conseguiu levar o Brasil de volta ao vermelho.

Mas está tudo bem. Basta olhar para os manifestantes nas ruas, ninjas, black blocs, sindicalistas e arruaceiros light para entender que o negócio hoje é brincar de revolução. Nessa linha, nada mais excitante que a "presidenta-mulher falando grosso" com os imperialistas. O Brasil entrega as calças, mas não admite acordar desse conto de fadas. Feliz 2019.

Uma alma em agonia - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 07/10

Na realidade, nem só de liberdade vive o desejo, mas também de pecado, medo e vergonha


Outro dia, dirigindo pelo trânsito de São Paulo, ouvi uma música da Lana del Rey que me chamou atenção, pela ideia que nela se repetia: o medo sentido por uma mulher de ser abandonada por seu amado um dia, quando sua beleza e juventude acabassem e restasse apenas sua "aching soul" (sua alma em dor ou em agonia). Uma letra romântica banal, como todo clichê.

Mas quem em sã consciência negaria que essa mesma letra banal descreve a dor de todos nós, homens e mulheres que envelhecem e perdem a beleza dia após dia? Acredito mais nessa letra de música do que em inúmeros textos sofisticados sobre "relações entre sexo, afeto e poder".

Cada dia que passa, temo pela irrelevância dos estudos acadêmicos das chamadas ciências humanas, devido ao que o intelectual americano Thomas Sowell chama de alienação da classe "ungida" que somos nós, os intelectuais.

Essa música seria facilmente acusada de repetir a "ideologia dominante" (para mim, esse conceito tem a mesma validade de dizer que algo acontece porque Saturno está na casa sete...) e de que esse medo é simplesmente "culpa" da opressão do conceito de beleza capitalista ou sexista. Pensar que cultura pop seja simples sintoma da "ideologia dominante" é ser incapaz de enxergar o óbvio.

A vida é clichê, por isso, temo, revistas femininas logo serão mais relevantes no debate sobre comportamento e afetos contemporâneos do que estudos acadêmicos. Seria essa, afinal, a vingança do jornalismo, muitas vezes menosprezado por nós, intelectuais, contra a soberba dos ungidos que nada entendem das agonias de carne e osso? Talvez a condição de escrever sob o gosto de sangue e de saliva que tem a trincheira da vida real dê às revistas femininas mais consistência do que as elaborações sem corpo dos especialistas em afetos.

O filósofo Francis Bacon (séculos 16-17) tirava sarro da "baixa escolástica" e suas questões sobre quem puxava o burro, quando se puxava um burro com uma corda, se era a pessoa ou a corda que puxava o burro... (risadas?). Penso que, em 500 anos, rirão de nós da mesma forma quando se diz hoje em dia que o medo de uma mulher (ou de um homem) de ser abandonada é sintoma de "opressão social", e que pessoas emancipadas não sofrem com isso. O conceito de opressão virou um grande fetiche dos intelectuais.

Suponho que assim como os textos de Sade (considerado lixo no século 18) hoje são parte do cenário filosófico, em 500 anos as revistas femininas serão mais importantes para a compreensão do que pensamos hoje do que toda a parafernália de teorias sobre "relações de poder".

Um adendo: vale salientar que Sade não ficou importante porque é o ancestral de toda teoria que relaciona sexo à perversão, mas sim porque ele relaciona sexo, afeto e a crueldade de nossa natureza humana e da natureza biológica como um todo.

Talvez um dos maiores medos humanos e que move o mundo desde sempre seja justamente o medo de perder a beleza e a juventude, e se restará alguém ao nosso lado quando formos apenas uma alma em agonia. Já que as ciências humanas mentem, a esperança é que as revistas femininas falem a verdade que não quer calar: ao final, temos mesmo é medo de sermos feios e mal-amados.

Por fim, recomendo vivamente o livro "Não se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo" (Nova Fronteira), de Nelson Rodrigues, escrito sob o pseudônimo de Myrna, sua rápida coluna de 1949 no "Diário da Noite". Esta "mulher" Myrna é uma sábia. Falaremos dela em 500 anos.

Revistas femininas e autores como Nelson Rodrigues são acusados de moralismo. Antigamente o moralismo relacionava sexo, afeto e demônios. Incrível como não se vê que hoje o verdadeiro moralismo está nas teorias que relacionam as formas comuns (dos meros mortais) de afeto e sexo a "frutos da opressão da mulher".

Aprendemos a negar nosso medo com teorias sofisticadas, mas o medo sempre aparece. Ficou chique dizer que se é emancipado, quando na realidade nem só de liberdade vive o desejo, mas também de pecado, medo e vergonha. Como dizia Nelson, "o desejo também precisa de seu claustro".