sábado, fevereiro 23, 2013

Rancor, ganância e esnobismo universitário - MARCELO RUBENS PAIVA


O ESTADO DE S. PAULO - 23/02

É difícil detectar como surgiram alguns achados brasileiros: 

1. O Chorinho. Não a música, mas a dose extra que nos é servida na maioria dos bares e restaurantes. Quando começou? Peça um uísque. O garçom trará a garrafa, para você conferir a procedência, exigência de uma economia que convive há séculos com contrabando e pirataria, servirá a dose numa pequena cuia de alumínio de 15 a 60 ml chamada dosador, ou medidor, passará o maltado para o copo com ou sem gelo, e em seguida banhará da própria garrafa as pedras que flutuam. É lançado o sorriso cúmplice, vem a piscada: "Só pra você, que é exclusivo".

Se você é da casa, sabe para que time o garçom torce e até o apelido dele, a dose extra é "no capricho", outra expressão brasileira dúbia, pois indica que há doses e porções que não vêm caprichadas, já que existem aquelas especiais para clientes preferenciais.

Com um chorinho, o cliente se sente mimado, qualificado. O estabelecimento aparenta ofertar mais do que o usual, fugir à regra, tratar você com devoção, sem mesquinharia, sem se importar com os lucros, pois foi com a sua cara, gostou do seu jeito,você é um cara bacana, que merece a quebra de protocolos. Ambas as partes ficam satisfeitas. Pode-se dizer que, como em Casablanca, é o começo e a prova de uma longa amizade.

No entanto, é evidente que a dose extra já está embutida no preço, que os R$ 20 em média que você paga por uma dose de um bom escocês envelhecido é exorbitante, já que a garrafa de um litro custa perto de R$ 100, dependendo do fornecedor - se não atravessou o Rio Paraná numa balsa improvisada, proveniente das destilarias do Chaco -, garrafa em que vem muito mais do que quatro ou cinco doses, talvez 30, talvez 40, ou 66,6 doses, se utilizado o medidor de 15 ml, cuja matemática tira do coma alcoólico o mais dedicado dos boêmios: está-se pagando R$ 1.320 por garrafa, 13,2 vezes mais. Portanto, o chorinho não é um favor,é um truque ilusório que entorpece e ilude o brasileiro.

Outro exemplo: o milk-shake que vem acompanhado pela sobra. O garçom deposita o copo de vidro e o de alumínio em que o sorvete foi batido.

Em lanchonetes, a sobra dá outra dose.

E tem aquela que a sobra é maior do que a dose original, como o prato "que dá pra dividir", outra invenção brasileira.

É verdade que é difícil dosar a quantidade de cada cliente. O que um surfista adolescente bebe ou come é diferente daquilo que uma modelo que fará teste para o próximo desfile deixa no prato, ou moças com colesterol alto e rapazes com glicemia alta evitam.

Mas se você se encanta com a generosidade de quem serve, relaxa. Está tudo embutido no preço.

2. Sertanejo Universitário. Universitário por quê? Tem pensamento pré-socrático,semiótica, behaviorismo,sociobiologia, antropologia e darwinismo social, niilismo e hipóteses do pensamento ocidental debatidas nas letras? Algum indício das contradições do pensamento marxista? Marx aparece como historiador ou economista? A dialética é retratada num rasta pé ou bate-coxa com diploma? Mimesis, de Auerbach, dá para ser anunciado. Rola a letra "Auerbach é das mais significativas referências, nos estudos de cunho hermenêutico, eu, eu, eu, de exegese literária, ai, ai, ai, fez uma abordagem original da questão da representação, sai do chão!"? Nada disso. Sertanejo universitário retrata o pensamento que rola fora das salas de aula nas baladas estudantis.

Como o forró universitário, que nasceu no Remelexo, casa de Pinheiros frequentada pela juventude dourada da USP, que queria em São Paulo aquilo que dançava nas férias de Trancoso, Itaúnas e Canoa Quebrada, o sertanejo universitário se apresenta como uma releitura distanciada do modelo anterior. É influenciado pelo sertanejo de raiz, de Tonico & Tinoco, Alvarenga & Ranchinho, e pelo sertanejo mullets, de Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, mas com um conteúdo que recupera a futilidade do novo pagode e detalha os efeitos macroeconômicos da expensão da fronteira agrícola e do lulismo - como exaltação do consumo, facilidade do crédito e mudanças na pirâmide social.

O Camaro, símbolo das pistas de corrida Nascar do Meio-Oeste americano, é retratado como uma arma para a vingança na batalha da luta de classes da sedução amorosa no sucesso de Munhoz & Mariano, Camaro Amarelo: "Agora eu fiquei doce igual caramelo, tô tirando onda de Camaro amarelo, e agora você diz "vem cá que eu te quero", quando eu passo no Camaro amarelo. Quando eu passava por você na minha CG, você nem me olhava. Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber, mas nem me olhava. Aí veio a herança do meu véio, e resolveu os meus problemas, minha situação."

O antigo motoqueiro de uma humilde,mas eficiente CG 125 cilindrada, modelo da Honda de motor 4 tempos monocilíndrico arrefecido a ar, cuja potência máxima é de 11,6 cavalos e custa em torno de R$ 5,5mil, ficou doce e rancoroso ao adquirir um carro da Chevrolet, que custa a partir de R$ 200 mil, V8 de 406 cavalos, com câmera de estacionamento com visualização através de uma tela de LCD de sete polegadas.

"Do dia pra noite fiquei rico, tô na grife, tô bonito, tô andando igual patrão. E agora você vem, né? Agora você quer. Só que agora vou escolher, tá sobrando mulher", finaliza o novo-rico.

Já a dupla Ronny & Rangel, do sucesso Puxa, Agarra e Chupa, que virou obrigatório em formaturas universitárias, deu um troco mais ambicioso no projeto da dupla anterior. Camaro?

"Todo mundo fala de carrinho, mas meu negócio é outro, comprei jatinho, a playboyzada sai de caminhonete, meu avião lotado só de piriguete. Estoura uma champanhe pra gente comemorar, o clima tá gostoso, o bicho vai pegar. Vai se acostumando que ninguém é de ninguém. Ai meu Deus do céu, ram, hoje tem!"

Se Puxa, Agarra e Chupa era o reflexo de um evidente caso de transferência do desejo pela mãe, que impedia o autor de tomar atitudes, expor suas vontades ao viver encolhido num espectro de castração ("com as palavras eu me perco, eu não sei falar direito, e quando eu tô a fim, timidez é meu defeito"), Festa no Jatinho acredita no sonho sem limites, no projeto de redistribuição de renda, proveniente de um novo sertão rural irrigado, terra do agronegócio, de oportunidades que proporcionam inversão da pirâmide social aliada ao Prouni e sistema de cotas que oferece chances antes remotas de ascensão.

E pensar que Menino da Porteira e Chico Mineiro, compostos pela universidade da vida, deram em ganância e esnobismo "universitários".

"Luz! Mais Luz!" - WALTER CENEVIVA

FOLHA DE SP - 23/02

Goethe manteria elegante diálogo com a presidente Dilma Rousseff para pedir "mehr Licht!" (mais luz!)


A CARTA Magna de 1988 se rege por princípios e fundamentos orientadores da aplicação de seus artigos. O fundamento básico está no art. 1º: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".

A plena compreensão do preceito precede a busca dos responsáveis pela constante interrupção do fornecimento de energia elétrica durante horas, sobretudo à noite, no período das chuvas e em várias partes do país. Por isso, o título cita palavras atribuídas a Goethe, no leito de morte, em 1832, para aplicá-las ao drama da falta de luz.

O fornecimento da energia elétrica ao consumidor urbano distingue etapas da produção, do transporte aos centros de consumo e da distribuição. Cada etapa se vincula a critérios de competência da União.

Com as faltas reiteradas de eletricidade, os habitantes de várias cidades do Brasil vêm sendo perturbados nos fundamentos da paz de sua vidas.

Hoje, a energia elétrica é essencial para o ser humano, com agravado viés perverso para aqueles que, na maioria dos casos, não têm como contornar a falta de fornecimento para seus lares.

Goethe, que viveu entre 1749 e 1832, não avaliaria distinções ou distâncias entre as energias hidráulica e elétrica, com seus meios de produção. Modernizado, verificaria que a Constituição brasileira (art. 20, VIII) inclui, entre os bens da União, "os potenciais de energia hidráulica".

Mais ainda: invocaria o art. 22, no inciso IV, no qual se lê que à União compete legislar privativamente sobre águas e energia, ainda que divida os encargos com Estados e municípios, os quais não afastam a reserva da União para estabelecer normas sobre fornecimento de energia, nas várias acepções do vocábulo.

A Constituição assinala mais uma área crítica, que também convém repassar. Trata-se do inciso XII do art. 21. Nele se esclarece melhor a questão da competência para a atuação de cada segmento, se o leitor quiser voltar à inspiração goethiana.

Isso porque é da União o setor administrativo capacitado para explorar diretamente ou mediante autorização, a concessão ou a permissão dos "serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamento energético dos cursos de água".

A última verificação do paulistano (e dos que vivem nas muitas cidades atingidas pelas chuvas) terá complicações.

Constatará que "o regime das empresas concessionárias e permissionárias de serviços públicos, o caráter especial de seu contrato e de sua prorrogação" tem base federal.

O Estado e o Município têm o dever de defender seu povo, defesa que se estende até o capítulo das "condições de caducidade, fiscalização e rescisão da concessão ou permissão" (art. 175 da Constituição).

Quer o defeituoso fornecimento de energia elétrica seja diretamente praticado pelo Poder Público, quer tenha sido passado para empresas privadas, não se exclui, por esse motivo, a vigilância dos governantes sobre o assunto a bem da população, em face da União.

Goethe manteria elegante diálogo com a presidente Dilma Rousseff para lhe pedir "mehr Licht!" (mais luz!). Afinal, no roteiro das apurações, é do Poder Público o dever fundamental de proteger o habitante de São Paulo e de todas as outras cidades brasileiras, ou seja, de seu povo. É o que está faltando.

A quem interessa? - LEONARDO CAVALCANTI

CORREIO BRAZILIENSE - 23/02

Antecipar a campanha só interessa aos marqueteiros e, por tabela, aos próprios políticos. Pouco ou nada contribui para o debate sobre as mazelas nacionais. É só avaliar os discursos do governo e da oposição


É quase um acinte que, a mais de 18 meses das eleições, a cabeça dos políticos esteja voltada para outubro de 2014. Cada coisa com o próprio tempo, senhores, afinal o governo atual ainda tem muito chão a percorrer. E, de mais a mais, há assuntos urgentes a serem discutidos. Dito isso, a agenda eleitoral da semana se materializou de uma forma que a fez parecer forte. A marquetagem venceu e nos levou às urnas nos últimos sete dias. Fomos embalados por uma campanha antecipada. O ponto é que, por mais precoce, o tema parece inevitável pelo cenário inédito de 2014. Explico, pois.

Os quatro principais nomes para o Planalto estão postos, por mais que o quadro ainda não esteja montado por completo. E isso muda tudo — ou pelo menos difere de eleições passadas, como a de 1998, por exemplo. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede Sustentabilidade) são pré-candidatos de torcidas prontas a defendê-los. Estão ali, sempre a levantar bandeiras. Eduardo Campos (PSB) segue a mesma trilha, apesar de um ou outro discurso evasivo. E por mais que, a cada dia, pareça se envolver numa trama inevitável de campanha, estimulada por ele mesmo, diga-se.

Aqui, permita-me uma rápida pausa na política. Uma vez alguém disse que o brasileiro não gosta de esportes. Ele aprecia a competição, quer ganhar. Pronto. Assim torcíamos para carros de corrida porque um piloto nascido no Brasil vencia as provas. Isso também explica a razão de, a partir da década de 1990, o basquete perder não apenas nas quadras, mas no número de torcedores — o inverso ocorreu com o vôlei. Por sorte, o basquete tem recuperado público e, nos últimos anos, voltou a empolgar.

O mesmo se deu com o tênis, quando escolinhas se multiplicaram e, em seguida, minguaram depois do sucesso e da saída de cena de Gustavo Kuerten. Com eleição presidencial, a história deveria se repetir na cabeça dos políticos. Não por culpa do eleitor, mas da marquetagem. Se a disputa empolga as torcidas organizadas — não necessariamente a população em geral —, que se antecipe o jogo, diriam os marqueteiros. Vide o caso da blogueira cubana Yoani Sánchez, envolvida voluntariamente numa guerra vexaminosa entre petistas, tucanos e demistas. Torcida, doutor, quer jogo, mesmo uma partida amistosa. E nada como uma personagem internacional para dar mais visibilidade ao racha.

Interesses
Voltemos aos nossos pré-candidatos e aos temas de fato nacionais. Adiantar uma campanha só interessa aos marqueteiros e, por tabela, aos clientes. Pouco ou nada contribui para o debate sobre as mazelas de um país. Um exemplo está nos próprios discursos rasteiros, quando petistas e tucanos são incapazes de reconhecer avanços do adversário. Assim, antecipam uma campanha por antecipar. Testar forças ou mesmo discursos — ou até reagir de forma legítima —, nada além. Há uma perda substancial de energia e dinheiro com a preparação de palanques, festas e assessores para nada. Ou quase nada. É improvável que algum eleitor decida o voto ou mude de preferência agora com base nos discursos de ataques. Algo simplório, como “o meu é melhor do que o seu” não interessa ao eleitor, não agora.

Congresso
Existem outras dificuldades. Com a campanha na rua, aumentam as pressões sobre alianças e cargos, tanto na esfera federal quanto nas estaduais, o que aqui vale também para os oposicionistas ao Palácio do Planalto. O próprio Congresso, normalmente travado, tende a piorar com mais e mais negociações. Mas e daí, existe alguma solução de tal quadro mudar e o país seguir sem debates eleitorais nesse momento? Esqueça. Até porque o próprio palanque foi montado primeiramente pelos aliados de Dilma Rousseff, em alto e bom som, numa festa para comemorar os 10 anos do PT no poder. Uma festa com dois meses de atraso, mas que serviu para os governistas tirarem as atenções de Marina e do novo partido.

Por último, por mais que a campanha antecipada atrapalhe o próprio governo federal, Dilma não pode reclamar. Nos últimos dias, a presidente é que mais tem se aproveitado de eventos para soltar frases feitas, pensadas e repensadas pelo marqueteiro João Santana. Chegamos em 2014, pois.

Golpe contra novos rumos - CACÁ DIEGUES

O GLOBO - 23/02

Brasileiros sectários, supostamente em defesa de Cuba, provocam uma reação que só faz prejudicar o projeto de abertura daquele país



Não é muito fácil, para uma pessoa da minha idade, falar sobre Cuba. Para minha geração, Cuba foi um modelo de sonho, esperança de um inédito socialismo democrático, com liberdades individuais, direitos e oportunidades iguais para todos, liderado por rapazes como nós, com menos de 30 anos de idade, num país miscigenado como o nosso, ao som de rumba, mambo e bolero.

Nada poderia nos produzir mais euforia que a noite de Ano Novo em que Fidel Castro entrou em Havana e tomou o poder com seus guerrilheiros barbudos. Eu tinha 18 anos e estava nas ruas, com meus colegas da UNE e os companheiros do futuro Cinema Novo, celebrando a vitória da beleza e da justiça, como diria Paulo Martins em “Terra em transe”. Isso ninguém esquece. Mesmo que o sonho se transforme em pesadelo, permanece em nossos corações na sua forma original.

Nossa proximidade afetiva e cultural com o cinema cubano alimentou, durante anos, nossa tolerância com o que de errado víamos acontecer na ilha. Os cineastas brasileiros sempre tiveram a absoluta solidariedade dos cineastas cubanos liderados por Alfredo Guevara, Tomás Gutierrez Aléa e Julio Garcia Espinoza. Nos piores momentos da ditadura militar no Brasil, nunca nos faltaram moralmente (apoiando nossos filmes e nossos projetos cinematográficos) e materialmente (recebendo alguns de nós em exílio ou na escola de cinema de San Antonio), sem nada em troca.

Mas, ao longo do tempo, foi ficando desconfortável defender Cuba. Era como se a mulher amada estivesse fugindo com outro, a dor de corno reprime o amor.

A agressão na Baía dos Porcos, a desumanidade do embargo comercial, a barbárie de Guantánamo, o terrorismo de estado (vejam “A hora mais escura”, de Kathryn Bigelow), os cubanos presos em Miami, todos os erros e crimes da política externa americana não podem justificar o silêncio diante da falta de liberdade, do controle da vida dos cidadãos, da perseguição aos homossexuais, das misérias da ditadura de Fidel Castro. Não quero viver num mundo em que seja obrigado a escolher entre dois males. Prefiro continuar sonhando.

Em dado momento, a União Soviética se ocupou de Cuba, garantindo sua sobrevivência ao embargo. Com isso, o regime pôde investir correta e fartamente em educação e saúde, com resultados gloriosos. Mas de que serve ser alfabetizado se não posso ler o que bem entender? De que serve estar fisicamente bem se não posso levar meu corpo para onde bem quiser?

Quando a União Soviética desmoronou, deixando Cuba à deriva, o regime cubano tentou resistir por sua própria conta e o resultado foi um período de extrema miséria, cujas consequências eram o desejo de fuga em massa da população e o endurecimento do regime para conter o desagrado geral. Aí começou a história de Yoani Sánchez.

Embora não seja nenhum Hermano Viana (um dos meus heróis do pensamento contemporâneo), uso a web com alguma frequência. Mas não tenho muita paciência, concentração e habilidade para estar acessando os muitos blogs interessantes ou que poderiam vir a me interessar. Não é que eu subestime a tecnologia, a tecnologia é que me superestima.

Assim, nunca li uma só linha do blog de Yoani Sánchez, o Generácion Y. Mas, independentemente do que pudesse achar dele e dela, todos devem ter o direito de se manifestar pacificamente, em qualquer país ou circunstância, mesmo que sejam agentes do demônio (em Cuba, agentes da CIA são presos ou talvez fuzilados, não é provável que recebam passaporte). Essa é aliás uma grande contribuição da internet à civilização — ser quase incontrolável.

Aí a moça vem ao Brasil e é recebida a pedra e pau. Como relataram os jornais, as TVs e o próprio senador Eduardo Suplicy, puxaram-lhe os cabelos, jogaram-lhe objetos, bloquearam sua locomoção, impediram que se projetasse o filme de Dado Galvão em que ela aparece (nem sei direito do que trata o filme, mas é uma pena que nossas associações de classe cinematográfica não se tenham manifestado a propósito dessa censura informal e selvagem contra um cineasta brasileiro).

Os manifestantes, que também têm o direito de dizer o que quiserem, preferiram fazê-lo a cassetete, lembrando vulgares policiais da repressão. Como disse o senador Suplicy, deviam ter tido mais coragem de ouvir.

É evidente que a autorização do governo cubano para que Yoani Sánchez viajasse, depois de suas 20 tentativas fracassadas, é sinal de um processo de abertura política gradual e de lenta transformação econômica. Estranho é que brasileiros sectários, supostamente em defesa de Cuba, provoquem uma reação que só faz prejudicar esse projeto de novos rumos no horizonte político do país.

Impedir pela força que a blogueira se manifeste, pondo em risco sua integridade física, não é só inaceitável gesto de intolerância, como também um golpe traiçoeiro nesse projeto de reaproximação de Cuba com a democracia, em convivência com o resto do mundo. É isso o que deviam desejar aqueles que ainda têm Cuba no coração.

O pastor e os gays - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 23/02

SÃO PAULO - Psicólogos podem tentar curar gays? A guerra de abaixo-assinados contra e a favor da cassação do registro profissional de psicólogo do pastor Silas Malafaia devido a suas declarações sobre o homossexualismo coloca essa candente questão na ordem do dia.

Em minha opinião, enquanto cidadãos, reverendos e despiciendos podem dizer o que pensam, pouco importando se o conteúdo das declarações é politicamente correto ou verdadeiro. Defender a liberdade de expressão é defender a possibilidade de os outros afirmarem exatamente aquilo que não queremos ouvir.

A coisa muda um pouco de figura quando o indivíduo fala na condição de psicólogo ou membro de outra categoria profissional que se apoie, ainda que imperfeitamente, numa ciência. Do mesmo modo que um médico não pode sair por aí dizendo que cura doenças incuráveis, um psicólogo não pode proclamar que possui terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem sequer considera moléstia. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da disciplina. Diversas disposições do Conselho Federal de Psicologia proíbem seus profissionais de "patologizar" o homossexualismo.

Se o pastor crê que a psicologia está errada, pode tentar demonstrá-lo através de trabalhos científicos, apoiados em argumentação técnica, nos fóruns adequados. Ao menos em teoria, se ele convencer os seus pares, mudará o consenso da área e, se não for, precisa resignar-se e abandonar o assunto ou a profissão.

O que complica o caso de Malafaia é que ele é a um só tempo clérigo e psicólogo e costuma restringir suas declarações polêmicas às ocasiões em que se manifesta como sacerdote. Se isso basta para limpar sua barra, é o que o conselho de psicologia do Rio, onde corre um processo ético, terá de decidir. Se fosse eu a julgar, no mínimo exigiria que ele avisasse que não fala como psicólogo quando se refere ao homossexualismo.

Redes, partidos e política - MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

O ESTADÃO - 23/02

Compreensível o interesse despertado pelo lançamento da Rede Sustentabilidade, o novo partido articulado pela ex-senadora Marina Silva, entre outros políticos e ativistas. Se o quadro partidário brasileiro provoca tédio e desesperança, nada como uma proposta recheada de boas intenções para que se espalhe a sensação de que algo pode ser feito para que se melhore a política hoje prevalecente.

O novo partido surge propondo-se a ser diferente na estrutura (uma rede), nos procedimentos e nas ideias. Não partiu da arregimentação de lideranças expressivas ou bancadas parlamentares preexistentes. E não está poupando energia para convencer a opinião pública de que veio para valer, não é mero capricho de seus idealizadores. Lançou-se, porém, com uma meta clara: dar abrigo e sustentação à futura candidatura presidencial de Marina Silva, principal justificativa para que a operação fundacional fosse desencadeada agora, quando já é nítido o rufar dos tambores das eleições de 2014, um frenesi eleitoral aparentemente intempestivo e prematuro, mas que tem sua razão de ser, como observou nesta mesma página o cientista político Luiz Werneck Vianna (16/2).

Tal justaposição de objetivos - criar um novo modo de fazer política e tornar viável uma candidatura - fará, portanto, com que os articuladores da proposta tenham de agir para demonstrar que terão disposição para amassar o barro da política dura, que não se sujeita nem obedece a princípios vagos, chefes supremos ou calendários eleitorais. Não à toa o discurso de Marina insiste em enfatizar que o novo partido existirá "para questionar a si, não para disputar uma eleição" - não terá "espírito de manada".

Cercada de expectativa, a Rede chamou a atenção pelo inusitado de algumas de suas ideias. Não aceitará, por exemplo, contribuições financeiras que provenham de negócios que agridam ou prejudiquem a saúde e o meio ambiente (bebidas alcoólicas, cigarros, armas, agrotóxicos), o que mostra uma face simpática e sensível, mas pouco clara quanto a seus efeitos efetivos. A hipótese certamente é que o partido consiga sobreviver eleitoralmente graças à contribuição expressiva de seus militantes e simpatizantes, o que parece romântico demais. Vale o mesmo para a pretensão de limitar a reeleição de seus futuros parlamentares - uma em cada Casa legislativa - e de organizar um conselho de cidadãos que monitore com independência a sigla e seus dirigentes. São ideias interessantes, mas de efeito impreciso, com a agravante de que podem sugerir que o partido pretende estacionar fora da política institucionalizada, feita e vivida pelos brasileiros. Tanto a questão é delicada que alguns de seus propositores, a começar da própria ex-senadora, têm procurado deixar claro que o novo partido não fugirá das alianças (desde que sejam "pontuais e em torno de ideias") e trabalhará para criar novas correlações de forças no País, em vez de deixar tudo como está.

O mais importante, porém, é a proposta abrangente da nova legenda, antes de tudo sua disposição de funcionar como uma rede que promova a articulação entre políticos de diferentes orientações partidárias e, ao mesmo tempo, impeça que o partido concentre todas as decisões políticas e fique engessado em torno de seus próprios interesses. A perspectiva tem potência, especialmente porque proclama que é mais importante privilegiar aquilo que une e é comum do que aquilo que distingue e opõe. Se a questão é agir "pelo bem do País" ou por uma causa magna que esteja acima de partidos e facções, a estruturação em rede faz total sentido. Foi mais ou menos assim que Joaquim Nabuco definiu a estratégia do abolicionismo nos anos 1880: ativar um movimento, uma opinião, uma agitação para "desagregar fortemente os partidos existentes, até certo ponto constituindo uma igreja à parte composta dos cismáticos de todas as outras".

Em seu discurso no ato de lançamento do partido, Marina Silva pareceu emular essa posição de Nabuco: "Não seremos nem oposição nem situação ao governo de Dilma Rousseff. Se a presidente estiver fazendo algo bom para o Brasil, nossa posição será favorável". A Rede pretende "quebrar de fato o monopólio dos partidos na política", substituindo-o pela ação da cidadania. É um palavrório vago. A questão é saber se esse caminhar no fio da navalha será viável diante da natureza "partidária" da política, de sua essência agonística de luta pelo poder, da falta de gente que trabalhe desinteressadamente por uma causa maior.

Apresentar-se como novidade é fácil. Difícil é dar corpo e vida à nova proposta, traduzi-la em termos políticos, intelectuais e organizacionais. Não será simples criar um partido numa época de homens partidos e pobres de ideias políticas. Parecem faltar espaço e oxigênio para que se agregue a essa criação um projeto de sociedade, sustentado por uma análise criteriosa do mundo e do País, que não só revele a estrutura dos problemas, como os acomode numa agenda articulada. Em política, não é novo o que se proclama como tal, mas o que produz coisas novas a partir da transformação daquilo que existe. Será preciso propor soluções positivas a partir de uma análise concreta do existente. Sem isso a Rede vai girar em círculos.

Mas é ainda mais fácil falar mal daquilo que se propõe como novidade. De um modo ou de outro, querendo ou não, o novo incomoda o que está estabelecido e desafia hábitos mentais, rotinas e posições consolidadas. Difícil mesmo é submeter o novo à crítica ponderada e criteriosa, ver se o que se propõe é algo de aproveitável, concedendo-lhe algum crédito de confiança para mostrar a que veio. Se isso não é feito, tudo se resume a bate-boca, a torcida contra ou a favor. E não se avança em direção nenhuma, ficando todos recolhidos ao mesmo ramerrame de sempre.

O papa e a semântica - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 23/02

Esquerda e direita devem ser motivo de horror, e não de orgulho para quem quer que seja


Há temas que, por sua magnitude e transversalidade, perpassam diversos outros, que aparentemente lhe são estranhos. É o caso da renúncia do papa Bento 16.

À parte as numerosas teorias da conspiração que a mídia mundial quis lhe atribuir, indiferente às explicações que ele próprio deu, constata-se que o entendimento do tema está contaminado por um despropósito: o conflito ideológico direita x esquerda, modernidade x ortodoxia. É intolerável que assim o seja -mas é.

Tal reducionismo, que chegou ao interior da Santa Sé, há muito inferniza a vida política e econômica dos países e se faz fortemente presente na América do Sul e, em especial, no Brasil.

Se já é uma distorção em relação aos países, impensável é que se tente estendê-la à religião.

Não existe religião progressista. Esse termo, altamente questionável na sua essência, não se aplica a uma instituição que tem por missão exatamente conservar um legado que se pretende eterno.

É, pois, uma contradição em termos classificar um religioso de moderno ou reacionário. São categorias estranhas ao tema.

No Ocidente cristão, ninguém é obrigado a ter uma religião. Se a tem, deve aceitar seus pressupostos; se não a tem, não faz sentido pretender moldá-los, menos ainda a partir de paradigmas que lhe são inteiramente alheios.

A terminologia direita-esquerda surgiu na Revolução Francesa, no fim do século 18, quando a Assembleia Nacional ganhou assento na Sala do Trono. O representante da aristocracia sentava-se à direita do rei; o da Assembleia, à esquerda.

Marx valeu-se desse simbolismo para atribuir à esquerda as questões de interesse popular e à direita os da elite dominante.

Quem dera fosse tão simples. Discutir temas como economia, ambiente e até valores morais a partir desses pressupostos conspira contra o bom-senso e a eficiência.

Por que, por exemplo, a economia de mercado seria de interesse apenas da elite se é ela, comprovadamente, a que gera riquezas e, por extensão, empregos a todos os segmentos sociais?

Não há um só país que, ao adotar o socialismo, tenha erradicado a pobreza ou melhorado a vida do povo.

Países que embarcaram nesse equívoco -e a Rússia é o exemplo mais evidente- saíram ainda mais pobres. Não obstante, a esquerda fez de temas como justiça social, direitos humanos e até defesa do ambiente sua reserva de mercado.

A história registra algo em torno de 100 mil cubanos mortos na sequência da Revolução Socialista, num país que, à época, tinha aproximadamente 8 milhões de habitantes. Foram cerca de 17 mil fuzilamentos e mais 80 mil assassinados em tentativas de fuga.

A ditadura chilena de Augusto Pinochet contabiliza cerca de 40 mil opositores tombados -menos da metade dos cubanos- e as estatísticas oficiais falam em cerca de 3.200 mortos e desaparecidos. No entanto, Pinochet é um monstro (e não discordo disso), enquanto Fidel Castro é, na visão de alguns, um herói. O que os diferencia? Um é de "direita" e o outro de "esquerda". Os dois são detestáveis.

Na questão do ambiente, a contradição é ainda mais berrante. Conspira-se contra o produtor rural, em meio a uma demanda mundial por aumento na produção de alimentos.

A ONU (Organização das Nações Unidas) avisa que, se a produção não aumentar 20% nos próximos dez anos, haverá escassez. E o Brasil é peça-chave nesse processo.

Mas a esquerda -sobretudo a ambientalista- insiste em demonizar o produtor rural. Arvora-se como única e legítima defensora dos direitos do povo, mas defende inocentemente a fome... do povo.

Esquerda e direita são, na verdade, um outro nome para extremismo e radicalismo irracionais, que já causaram muito desastre e muita dor à humanidade. Devem ser motivo de horror, e não de orgulho para quem quer que seja.

Como supor, no cristianismo, um sacerdote ou um pastor esquerdista se no Apocalipse de são João está dito que os justos sentarão à direita do Pai e os condenados à esquerda? Por aí se vê o despropósito dessa terminologia, sobretudo no âmbito religioso.

O Papa e o meteoro - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 23/02

Seria bom saber que todos os políticos eleitos usam os mesmos serviços públicos de seus eleitores



Ao mesmo tempo em que em Roma o Papa Benedito XVI renunciava ao seu pontificado, na Sibéria caía um meteoro. A renúncia foi um destes fatos que nos surpreendem com o passado. E a queda do meteoro desperta temor no futuro. São temores que nos fazem sonhar com notícias que nos surpreendam ao longo da vida futura.

Sonho ler notícia de que a economia é orientada para a redução da pobreza e a construção da igualdade social, com respeito ao equilíbrio ecológico; que o consumo está subordinado ao bem-estar, e este à felicidade das pessoas. Sonho ler a informação de que todas as crianças do mundo estão em escolas com a mesma alta qualidade, e nenhum pai ou mãe no analfabetismo; que a corrupção passou a ser tema limitado a estudo nos cursos de História; e que todos os políticos são comprometidos com utopias, propondo ações para todo o planeta e as próximas gerações. Gostaria de ver que os principais recursos da Terra passaram a ser regidos por normas do interesse de toda a humanidade e que a água do mar pode ser dessalinizada a baixo custo energético e com a mesma qualidade da água potável.

Será muito bom saber que todos os políticos eleitos usam os mesmos serviços públicos de seus eleitores; ter a surpresa de ver os mapas-múndi sem fronteiras separando países, todos integrados em uma mesma comunidade de seres humanos, com os mesmos compartilhados sonhos, e saber da desativação da última arma e do último reator nuclear. Será muito bom saber que os porta-aviões seriam usados apenas para fins turísticos e os bombardeiros para viagens de jovens pelo mundo.

Espero me surpreender ao saber da notícia da cura definitiva de todas as formas de câncer; da recuperação ou o atendimento daqueles que têm deficiências; da previsão e cura do Mal de Alzheimer; e do envelhecimento sem a perda do vigor, nem da saúde, nem da memória do passado ou dos sonhos para o futuro. Gostaria de ver publicidade de chocolate descafeinado, uísque sem álcool, massa sem engordar, sal que não eleva pressão arterial. No esporte, quero ver um jogador de futebol ainda melhor do que Pelé.

Sonho ver com deslumbrada surpresa a descida do primeiro homem ou mulher em Marte; quero que ainda em minha vida a ciência seja capaz de criar chips injetáveis no cérebro para fazer cada pessoa ler, entender e falar qualquer idioma; quero usar aeroportos sabendo que não há polícia de fronteira, nem revista ou demora na espera.

Sonho com acordo dos líderes mundiais para desativar o meteoro que explode dentro da civilização industrial, desigualando a sociedade e depredando a natureza. Ver a notícia de que a tecnologia espacial já dispõe do poder de destruir asteroides a caminho da Terra, garantindo, assim, que a humanidade não terá o destino dos dinossauros e que terá milênios para continuar com boas surpresas, como a de um Papa com dignidade suficiente para abrir mão de seu cargo, nos provocando a lembrar as surpresas do passado e a desejar imaginar sonhos para o futuro.

Sem caixa? - SONIA RACY

O ESTADÃO - 23/02

Divergências entre Santander, Itaú, Bradesco e a AES Eletropaulo impedem que clientes paguem a conta de luz na boca do caixa. A Eletropaulo rescindiu o contrato com os três por discordar do reajuste de tarifa pedido pelos bancos.

Segundo Mariana Alves Tornero, do Idec, a prática é considerada abusiva, uma vez que concessionária e bancos não - poderiam recusar prestação de serviço mediante pagamento: "Se o cliente for impedido de pagar, pode reclamar com o Banco Central e na Justiça".

Sem caixa 2
O BC não pensa assim. Diz que, pela regulamentação do CMN, um banco só pode receber contas de um prestador de serviços se houver acordo - que, nestes três casos, foi rompido.

Sem caixa 3
Procurada, a AES Eletropaulo avisa: os clientes podem fazer o mesmo pagamento nos caixas eletrônicos, débito automático, por meio da internet e telefone.

Torpedo
O Detran começa, segunda, a enviar SMS para alertar motoristas sobre o vencimento da CNH. Até agora, 200 mil pessoas cadastradas autorizaram o recebimento do alerta.

Coletivos
Marina Silva colhe assinaturas, hoje, em Brasília, para a criação de seu novo partido. O mutirão será na Feira do Guará.

É preciso o apoio de meio milhão de pessoas para a Rede Sustentabilidade sair do papel

Defesa grátis
Com a posse de 120 novos defensores públicos, ontem, SP terá, pela primeira vez, pelo menos um profissional em cada comarca onde há presídios. Eles atuarão em 61 municípios para acompanhar o cumprimento de pena de presos sem dinheiro para pagar advogado.

A lei, sancionada por Alckmin em dezembro, prevê, ao todo, 400 novos cargos em 4 anos.

A tiracolo
Sérgio Cabral deu uma de cabo eleitoral, ontem, na inauguração do Centro Estadual de Transplantes, no Rio. Apresentou o vice a todos os médicos e enfermeiras. Pezão, sabe-se, é o nome do governador para a sucessão estadual.

Back Home
O juiz Sérgio Moro está de malas prontas: vai voltar para o Paraná. Um dos maiores especialistas do País em lavagem de dinheiro, ele auxiliou Rosa Weber, do STF, no julgamento do mensalão.

Quem vem
Joseph Jackson, pai de Michael Jackson, vem ao Brasil. Chega dia 8, exclusivamente para falar sobre o musical Forever King Of Pop - que estreia por aqui em abril e é o único chancelado pela Fundação Michael Jackson.

Ele aprovou o espetáculo após assisti-lo na Europa e se encantar com a produção.

Suspense
O STJ retoma, terça-feira, o julgamento da maior disputa societária brasileira - sobre a validade da arbitragem prevista no acordo de acionistas firmado entre os Odebrecht e os Gradin.

Samba no pé
Maurilio Biagi, presidente da Agrishow, articula apresentação da campeã carioca Unidos de Vila Isabel para abrir a feira, em Ribeirão Preto, no fim de abril.

A escola de Martinho da Vila homenageou o agronegócio na Marquês de Sapucaí este ano.

Skindô não!
Em pleno feriado de carnaval, produtor rural trabalhava na floresta amazônica. Só que o Ibama também estava de prontidão.

Resultado? Dois tratores, que iniciavam desmatamento no interior do Mato Grosso, foram apreendidos - além de correntão (usado para derrubar árvores) e carreta-tanque com 5.000 litros de combustível.

Lista de dispensa - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 23/02

Em mais um gesto de contestação à herança de Gilberto Kassab, Fernando Haddad exonerou 400 funcionários de confiança instalados pelo antecessor nas 31 subprefeituras cumprindo cotas de indicações de vereadores e partidos aliados. Os cargos serão preenchidos gradativamente, mas o prefeito proibiu apadrinhamentos para funções de coordenação e supervisão. Pela lógica do governo Haddad, só as chefias de gabinete serão ocupadas por servidores de perfil político.

Geopolítica 1 Salvo alteração de última hora, Recife, capital do Estado governado por Eduardo Campos (PSB), está excluída do mapa das caravanas do PT e de Lula, que começam na quinta-feira, em Fortaleza. O roteiro prevê nove escalas até o encerramento em Salvador, em maio.

Geopolítica 2 Organizados pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, e pelo instituto do ex-presidente, os seminários serão temáticos. O de Cuiabá (MT), em 15 de março, abordará a agricultura. O evento de Manaus (AM), previsto para 20 de abril, tratará de sustentabilidade.

Hortifrúti Em busca de adesões para fundar seu novo partido, Marina Silva percorrerá hoje a feira do Guará, no Distrito Federal. A ex-ministra levará a tiracolo o deputado federal José Antonio Reguffe (PDT-DF), que dá suporte à criação da Rede.

Subliminar De um pessebista, sobre a "rinha" entre PT e PSDB apontada por Eduardo Campos: "Que marketing é esse do Aécio que reforça o 13, número do PT?".

Diplomacia 1 Após a polêmica sobre Yoani Sánchez, o embaixador de Cuba no Brasil, Carlos Zamora Rodríguez, se reuniu anteontem com membros da assessoria internacional da Presidência.

Diplomacia 2 O Planalto diz que o embaixador, que liderou ação para difamar a blogueira, pediu a audiência na semana passada.

Nada feito Além das exigências que conseguiram emplacar para evitar greves futuras, as federações petroleiras tentaram que o governo desistisse da multa arbitrada pelo TST para a paralisação de ontem. Consultado, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, disse não.

Sujou A Câmara de São Paulo mudou as regras da Ficha Limpa para contratação de funcionários. Portaria da Mesa Diretora permite que o servidor ateste de próprio punho que não tem pendências judiciais para ser admitido. Antes, era exigida a apresentação de certidões negativas.

Alvo fácil Enquanto insiste na discussão de emenda que restringe o poder de investigação do Ministério Público, a Assembleia paulista passará a debater projeto recém-apresentado por Vitor Sapienza (PPS) que cria o "Dia Estadual do Ovo".

Guardanapos... O ex-procurador-geral de Justiça do Rio Cláudio Lopes arquivou procedimento que investigava as viagens do governador Sérgio Cabral com Fernando Cavendish, dono da Delta. A decisão foi tomada em 9 de janeiro, oito dias antes de Marfan Martins Vieira assumir o lugar de Lopes.

... limpos No despacho, Lopes afirma que não há indícios de improbidade nas viagens do governador com o empresário. Cabral esteve com Cavendish em Mônaco, em viagem particular, e em Paris, durante missão oficial.

No atacado Pré-candidato à reeleição, Beto Richa (PSDB) reunirá prefeitos e secretários das 399 cidades paranaenses segunda-feira, no museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Anunciará repasse de R$ 39 milhões para saúde preventiva, incluindo campanhas e vigilância sanitária.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI


TIROTEIO

"Com o preço estratosférico e a especulação que corre solta no Rio de Janeiro, o jogo deveria se chamar Bando Imobiliário."
DO DEPUTADO MARCELO FREIXO (PSOL-RJ), sobre a versão do tradicional jogo de tabuleiro "Banco Imobiliário", que destaca ações do governo Eduardo Paes.


CONTRAPONTO

Fora de área


Durante as negociações sobre a MP dos Portos, Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) pediu que o ministro Leônidas Cristino (Portos) não executasse multa judicial de R$ 200 mil pela greve no setor. Ao perceber que o governo não queria negociar, o dirigente da Força Sindical disse:

-Vou telefonar agora e pedir para a greve, de sete horas, continuar até completar 24 horas, já que multa refere-se ao valor de um dia.

Cristino decidiu consultar o Planalto. Na volta, disse:

-Aceitamos não cobrar a multa, mas o senhor nem pegue neste telefone durante a reunião!

De Dilma para Dilma, nova herança maldita? - ROLF KUNTZ

O Estado de S.Paulo - 23/02

Candidata à reeleição, a presidente Dilma Rousseff poderá legar uma herança maldita a si mesma se continuar apostando na maquiagem da economia e cometer o erro do autoengano. Ela pode ter desprezado outros sinais, mas fará algo bom para seu governo, e para o País, se levar a sério o alerta disparado pela pesquisa mensal de emprego do Ministério do Trabalho. Foram criados em janeiro 28.900 postos de trabalho com carteira assinada, de acordo com o primeiro levantamento. Esse número - diferença entre admissões e demissões - é muito menor que o de um ano antes por qualquer das comparações possíveis. É 75,7% inferior ao dado preliminar de janeiro de 2011 e fica 84% abaixo do corrigido com as informações enviadas fora do prazo.

Ainda ontem dois outros dados bem ruins foram divulgados. O IPCA-15, indicador de inflação fechado no meio do mês, subiu 0,68% em fevereiro. Foi um resultado melhor que o do mês anterior, 0,88%, mas ainda muito alto e, além disso, atenuado pela redução da conta de eletricidade. Também na manhã de ontem o Banco Central (BC) publicou as contas externas de janeiro, indicando uma piora nas transações correntes: o déficit acumulado em 12 meses chegou a US$ 58,57 bilhões e subiu de 2,4% para 2,58% do produto interno bruto (PIB). Esse déficit ainda foi financiado com folga pelo investimento estrangeiro direto, mas a tendência, a julgar pela experiência brasileira, é preocupante por mais de um motivo.

Mais preocupantes que esses números tem sido a reação das autoridades às más notícias. A inflação tem resistido nos últimos tempos, mas deverá recuar no segundo semestre, disse na quinta-feira o presidente do BC, Alexandre Tombini. A boa safra e o crescimento menor da massa de salários, a seu ver, devem contribuir para uma desaceleração dos preços. Na sexta-feira, o diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho, Rodolfo Torelly, também realizou seu ato de fé. Já em 2o12 o menor dinamismo do mercado de trabalho havia sido notado, disse ele, mas deverá haver recuperação nos próximos meses, acrescentou. As medidas econômicas tomadas pelo governo "vão surtir efeito ainda no primeiro semestre", garantiu. O secretário do Tesouro, Arno Augustín, também participou do coro do otimismo. Medidas como a redução da conta de energia, o corte de juros, a desoneração da folha de salários e o lançamento do plano de transportes devem permitir um 2013 parecido com 2010, "um ano de recuperação".

Neste momento, no entanto, a recuperação prevista pelo governo é um crescimento na faixa de 3% a 3,5%, com inflação anual próxima de 5,5%. Para isso ainda será necessária, é claro, uma boa acomodação. A alta do IPCA-15 acumulada em 12 meses ainda ficou em 6,18%, com índice de difusão de 71% (proporção de bens e serviços com elevação de preços). Além disso, a conta de luz ficou 13,45% mais barata, por iniciativa do governo, e isso retirou 0,45 ponto porcentual do resultado geral. Medidas como essa podem frear o avanço dos indicadores, mas de nenhum modo se confundem com política anti-inflacionária. Podem ser positivas para o consumidor e beneficiar a produção e o consumo, mas a inflação é determinada por outros fatores, como a expansão do crédito, o gasto público e, como consequência, o descompasso entre a demanda e a oferta de bens e serviços.

Fora do governo ninguém pode dizer com certeza se haverá algum esforço para controlar esses fatores, embora o ministro da Fazenda e o presidente do BC admitam a hipótese de uma elevação dos juros. Nenhum deles indica, no entanto, quando essa intervenção poderá ocorrer e, além disso, ambos parecem dispostos a tolerar por vários meses uma inflação bem acima da meta oficial de 4,5%.

O BC poderá agir depois de conhecer os números de fevereiro e de março, segundo uma interpretação corrente no mercado, mas conversas desse tipo ainda são meras especulações.

Se as condições de emprego continuarem piorando, os consumidores poderão ser levados a uma atitude mais cautelosa. Nesse caso, a pressão da demanda será atenuada e os preços tenderão a se acomodar. Então, o BC poderá evitar uma nova elevação, embora pequena, dos juros básicos. A política monetária continuará, portanto, cumprindo uma das determinações mais firmes da presidente Dilma Rousseff e os empresários mais preocupados com os juros e o câmbio do que com a eficiência produtiva poderão aplaudi-la por mais tempo.

Mas mesmo essa hipótese é um tanto mal ajambrada. Atenuar a pressão inflacionária pela piora das condições do emprego, enquanto o governo continua gastando muito, investindo mal e concedendo incentivos errados e ineficientes a uma indústria emperrada, está longe de ser um caminho promissor. Além disso, a piora das contas externas vem sendo causada em boa parte pela deterioração do saldo comercial. Até a terceira semana de fevereiro o País acumulou um déficit de US$ 4,6 bilhões na conta de mercadorias, com exportações 7,3% menores que as de um ano antes e importações 12,5% maiores, pelas médias diárias. Mas esse resultado ainda é maior do que seria se as compras da Petrobrás fossem contabilizadas com menor atraso.

Apesar de todo o falatório do governo e das desonerações parciais, a indústria continua com baixo poder de competição e esse é o dado mais importante para a avaliação das perspectivas de crescimento em médio prazo. A política econômica permanece mal definida, os estímulos são remendos mal costurados e há pouca segurança para investir. O investimento encolheu em 2012 e terá de aumentar muito além das previsões correntes para o País crescer no ritmo de seus vizinhos mais dinâmicos.

A balança comercial tem sido tão maquiada quanto a inflação (atenuada pela contenção política de vários preços) e as contas públicas. Já no meio de seu mandato, a presidente Dilma Rousseff tem pouco tempo para limpar a cara da economia nacional, mudar o jogo e cuidar do legado para o próximo governo.

O outro lado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 23/02

E, se em vez de insistirmos na comparação entre os governos petistas e os do PSDB dos últimos 20 anos, fizéssemos uma análise mais abrangente, com as comparações da performance brasileira nos últimos dez anos com a própria performance dos governos ao longo da nossa História e, além disso, com as demais economias do mundo, inclusive dos países emergentes? O professor titular de Economia Internacional da UFRJ Reinaldo Gonçalves se propôs a se distanciar da polarização PT-PSDB para analisar a economia brasileira e os avanços sociais nos dez anos de governos petistas, e encontrou quadro bastante desolador, distante da propaganda oficial, a que deu o título "Brasil negativado, Brasil invertebrado: legado de dois governos do PT".

A"negatividade" é informada por inúmeros indicadores de desempenho da economia brasileira que abarcam o país, o governo, as empresas e as famílias. O "invertebramento" envolve a estrutura econômica, o processo social, as relações políticas e os arranjos institucionais. Essa trajetória é marcada, segundo Gonçalves, na dimensão econômica, por fraco desempenho; crescente vulnerabilidade externa estrutural; transformações estruturais que fragilizam e implicam volta ao passado; e ausência de mudanças ou de reformas que sejam eixos estruturantes do desenvolvimento de longo prazo. Na avaliação do crescimento da renda durante os governos do PT, o professor classifica de "fraco desempenho pelo padrão histórico brasileiro e pelo atual padrão internacional". A taxa secular de crescimento médio real do PIB brasileiro no período republicano é 4,5%, e a taxa mediana é 4,7%. No governo Lula, a taxa obtida é 4%, enquanto as estimativas e projeções do FMI para o governo Dilma informam taxa de 2,8%.

O resultado é claramente negativo: no ranking dos presidentes do país, Lula está na 19ª posição, e Dilma tem desempenho ainda pior (24ª), em um conjunto de 30 presidentes com mandatos superiores a um ano. Resultados que não são compensados pelo fato de o governo Fernando Henrique estar em 27ª posição, com o crescimento médio de 2,3%.

O Brasil negativado dos governos do PT também é evidente quando se observam os padrões atuais de desempenho da economia mundial, ressalta Gonçalves. Durante os governos petistas, a taxa média anual de crescimento do PIB (considerando as estimativas e projeções do FMI para os dois últimos anos do governo Dilma) é 3,6%. No período 2003-2014, a estimativa é que a economia mundial cresça à taxa média anual de 3,8%; no caso dos países em desenvolvimento, essa taxa deverá ser de 6,4%.

Portanto, salienta Gonçalves, o Brasil negativado é evidente quando se constatam não somente essas diferenças como dois outros fatos: em seis dos 12 anos do período 2003-14, a taxa de crescimento da economia brasileira é menor do que a taxa média mundial; e, em todos os anos, a taxa de crescimento do PIB brasileiro é menor do que a média dos países em desenvolvimento.

O Brasil negativado também é evidente quando se compara o crescimento do PIB brasileiro durante os governos petistas com a média simples e a mediana das taxas de crescimento dos 186 países que são membros do FMI e que representam um painel muito representativo da economia mundial.

A taxa média durante os governos Lula e Dilma (3,6%) é menor que a média simples (4,6%) e a mediana (4,4%) das taxas de crescimento dos 186 países. A taxa de crescimento brasileiro é menor que a média simples e a mediana da economia mundial em dez e sete anos dos 12 anos, respectivamente.

O fraco crescimento da economia brasileira durante os governos petistas está diretamente associado às baixas taxas de investimento, ressalta Gonçalves. A taxa média de investimento do Brasil no período 2003-14 é 18,8% enquanto a média e a mediana mundial (painel do FMI) são 23,9% e 22,5%, respectivamente. Em todos os anos de governo petista, a taxa de investimento é menor que a média e a mediana do mundo. No painel de 170 países o Brasil ocupa a 126ª posição, média para o período 2003-14. (Amanhã, o social)

O futebol e a política - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 23/02

BRASÍLIA - É inquestionável a melhora do Brasil com a sequência de FHC, Lula e Dilma no Palácio do Planalto. Agora, PT e PSDB têm duelado para saber quem fez o país avançar mais. Esse debate só interessa aos políticos.

Petistas e tucanos fariam melhor se refletissem sobre o que preocupa os brasileiros no dia a dia. Por exemplo, a persistência de um certo bolsão de incivilidade e intolerância entre torcidas de futebol nos estádios e em suas redondezas.

A violência das torcidas não é exclusiva dos brasileiros, mas o país poderia dar o exemplo para o mundo. Essa não parece ser uma preocupação de quem comanda o país, pois nenhuma política eficaz foi adotada por tucanos ou petistas nas últimas décadas.

Agora, os brasileiros chegaram ao paroxismo. Exportaram a violência. Há indícios de que foram torcedores do Corinthians os responsáveis pela morte de um boliviano de 14 anos durante um jogo no país vizinho.

O amor pelo futebol é uma das marcas mais vibrantes da cultura brasileira. Os jogos da seleção nacional são um dos raros momentos em que o país parece virar uma nação. Ao mesmo tempo, fãs desse esporte -as chamadas torcidas organizadas- demonstram seus instintos mais primitivos quando assistem a um jogo.

Um levantamento do jornal "Lance" em 2012 indicava que a violência ligada ao futebol já havia provocado 191 mortes no Brasil desde 1988. A maioria, jovens de até 30 anos.

Vou a estádios desde os anos 70. A situação só piora. Governadores, deputados, senadores, prefeitos e a presidente da República têm o dever de propor políticas eficazes que reduzam esse tipo de violência.

Até ontem, apenas o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, havia manifestado pesar pela morte do jovem boliviano. É pouco. E demonstra como a política está desconectada da vida real das pessoas.

Fora da linha - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 23/02

O embaixador Roberto Abdalla retorna hoje ao país após investigar o cônsul do Brasil em Sydney (Austrália), Américo Fontenelle. Já afastado do cargo, Fontenelle vai responder a processo disciplinar por assédio moral contra seus funcionários. Promovido por ter sido assessor do ex-ministro José Dirceu, ele tinha por hábito fazer chacota do embaixador na Austrália, Rubem Antonio Correa Barbosa.

Tricô diplomático
A intervenção determinada pelo ministro Antonio Patriota ocorreu pelo volume de denúncias contra o embaixador Fontenelle, que já fora alvo de sindicância no Canadá. Um relato recebido pela Comissão de Ética do Itamaraty conta sobre “longas reuniões diárias para recriminar funcionários, comentar decote das funcionárias, gabar-se dos amigos importantes, injuriar minorias sociais”. O processo envolve o conselheiro Cezar Cidade, que entrou de licença médica. Ele tinha o hábito de distribuir agulhas e novelos de lã aos servidores e os obrigava, no expediente, a terem com ele aulas de tricô. (No blog, trechos de uma das cartas-denúncia.)

“O conteúdo do discurso do senador Aécio Neves (PSDB-MG) não foi o importante, o relevante é que ele deu ordem-unida nas tropas da oposição” 

José Agripino, Presidente do DEM e senador (RN)

Termômetro
O que calou mais fundo na oposição no discurso de Aécio Neves (PSDB-MG), quarta-feira, no Senado, foi a forma pela qual o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) manifestou seu apoio à fala do candidato tucano à Presidência da República.

Pedem arreglo
Em reunião ontem com a Casa Civil, o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva
(PDT-SP), foto, pediu para o governo “maneirar” com os sindicalistas, pois estão sendo demonizados por
criticarem a MP dos Portos. O Planalto não cede porque não mexeu em direitos trabalhistas e acusa sindicalistas de agir em favor de empresários.

Cabo eleitoral
A presidente Dilma levou em sua comitiva à África o candidato do Brasil a diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), o embaixador Roberto Azevêdo. Ele está participando de todas as reuniões bilaterais.

Saia justa na Corte
Há mal-estar no STJ por causa de acordo feito pelo presidente, Felix Fischer, com partidos para aprovar o nome de Sérgio Kukina a ministro em troca da escolha posterior do procurador de Justiça do Acre Sammy Barbosa, candidato do governador Tião Viana (PT). O acordo foi feito em nome do STJ e desagradou a ministros, que não foram consultados e não aceitam os termos.

Na linha de frente
O vice Michel Temer teve papel fundamental, nestes dias, ao convencer os ministros do STF a resolver logo a questão da votação dos vetos pelo Congresso. A missão, que visa permitir a votação do Orçamento, foi dada pela presidente Dilma.

Monitor
Eleito presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Lindbergh Farias (PT-RJ) terá na sua equipe um colaborador do ministro Guido Mantega (Fazenda), Élvio Gaspar, que era diretor de Inclusão Social do BNDES.

O MENSALÃO
A expectativa no STF é de que o Acórdão do julgamento seja publicado na semana que vem. Depois vem o capítulo dos embargos.

O Brasil visto pelo G-20 - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 23/02

A economia brasileira crescerá 3,5% neste ano e 4% no próximo, acertando o passo com a economia mundial depois de dois anos desastrosos, mas o País continuará bem atrás de outros emergentes, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses números foram apresentados em reunião ministerial do Grupo dos 20 (G-20) no último fim de semana, em Moscou. Nem autoridades de Brasília, apesar de inclinadas a bravatas, têm formulado publicamente previsões muito mais otimistas. Mesmo a expansão estimada para 2013 e 2014, embora modesta, dependerá de condições ainda incertas. Uma das mais importantes será uma rápida elevação do investimento em máquinas, equipamentos, instalações produtivas, estradas, portos e outros componentes da infraestrutura. Segundo o material preparado pelo Fundo para a reunião, o investimento realizado pelos emergentes - e isto inclui a América Latina - aumentou mais rapidamente que o Produto Interno Bruto (PIB) desde o começo da crise, em 2008, e assim deverá continuar pelo menos até 2016.

O ingresso de capitais estrangeiros tem ajudado os países da região a investir mais. Mas os grandes números escondem diferenças importantes. Se as cifras do Brasil fossem discriminadas, o País certamente apareceria mal na foto dos investimentos, apesar do ingresso ainda volumoso de recursos externos.

O FMI apresentou ao G-20 um documento sobre perspectivas econômicas e desafios e outro sobre investimentos e os recursos para financiá-los. No mundo rico, os mercados financeiros têm reagido, os maiores riscos de curto prazo foram superados e as políticas de ajuste avançam, mas os desafios de médio prazo permanecem, com algumas diferenças, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos e no Japão. Um dos grandes desafios comuns continua sendo a adoção de planos claros e confiáveis de consolidação fiscal.

As condições dos emergentes são variadas, mas pelo menos um desafio se impõe a todos ou quase todos: reconstruir o espaço fiscal. As finanças públicas foram afrouxadas em muitos países, no esforço para atenuar o impacto da crise internacional. A estratégia deu certo na maior parte dos casos. Mas é preciso recompor as contas públicas. Diante de novas emergências, os governos terão muito menos espaço para agir.

Os economistas do Fundo repetem essa recomendação há algum tempo e destacaram algumas indicações no documento. O governo russo continuará dispondo de recursos do petróleo, mas deveria cuidar de outras fontes. A índia precisa de uma "substancial reforma" para a consolidação fiscal a médio prazo. No caso do Brasil, a sugestão é continuar baseando a política nos esquemas atuais. Trata-se de uma óbvia referência ao sistema de metas desde 1999. Essa estratégia deu bons resultados, segundo a avaliação do Fundo, a tendência em Brasília, sabem os brasileiros, tem sido o afrouxamento dos critérios de superávit primário, de meta de inflação e de câmbio flutuante.

Mas os economistas do Fundo vão um pouco mais longe nas recomendações: com a recuperação da economia, as autoridades brasileiras deveriam começar a desfazer os estímulos monetários, para manter "as expectativas de inflação bem ancoradas".

Embora o documento sobre perspectivas globais tenha apenas dez páginas, há suficiente espaço para recomendações a todos os grupos de países. Nem as economias aparentemente bem comportadas, como a alemã, escapam de observações críticas - nesse caso, sobre a administração de sua demanda interna.

Para os economistas do Fundo e para sua diretora-gerente, Christine Lagarde, tem havido exagero na discussão sobre a chamada guerra cambial, assunto reavivado depois da recente desvalorização do iene. Mas o tema ganhou destaque na declaração final dos ministros do G-20: todos prometeram evitar o recurso a desvalorizações cambiais para tornar suas economias mais competitivas. Mas a promessa é vaga e nenhum grande banco central sujeitará sua política monetária a esse compromisso. Cuidar dos outros temas continua sendo muito mais produtivo.

Oportunidade a passar - MARCOS CARAMURU DE PAIVA

FOLHA DE SP - 23/02

O comércio chinês exibe crescentemente produtos importados, com marcas europeias se acotovelando


Poucos duvidam de que o mercado mais promissor dos próximos anos será a China. Por duas razões óbvias: o número de consumidores e as características do projeto econômico chinês.

O país crescerá pelo menos cinco a seis por cento ao ano, apenas pela via da redução da pobreza. Mas certamente crescerá mais que isso e será um motor da economia mundial por algumas décadas.

É sempre possível adotar uma atitude derrotista diante das possibilidades de entrar na China.

Mas o comércio chinês exibe crescentemente produtos importados. Marcas europeias de todo tamanho têm-se acotovelado na disputa por pontos de venda.

O dilema é que não se pode pensar na China de maneira casual: como um país que absorverá o excedente de produção ou um local para onde vamos canalizar vendas quando a economia brasileira estiver desaquecida. O gigantismo do mercado não permite tratá-lo como um coadjuvante.

Explorar todo o potencial que ele exibe requer estratégia, investimento pesado e audácia.

As gôndolas dos supermercados chineses são exemplo de desafio para um país com a força agrícola do Brasil. Estão cheias de leite francês e alemão, de produtos europeus, japoneses, norte-americanos, australianos e neozelandeses que vão da água às mais variadas iguarias. Exceção feita ao frango, não se veem produtos brasileiros.

Muitas razões dificultam um bom desempenho exportador brasileiro. O custo Brasil apequena o nosso potencial de vendas. O custo China, por sua vez, mesmo mais elevado, ainda é baixo.

Mas há pontos que não podem passar despercebidos. No setor de alimentos, por exemplo, os chineses têm baixa confiança nos produtos de origem local.

Quando aumentam um pouco a sua renda, compram importados. O mesmo se passa com remédios e produtos de higiene pessoal.

O chinês é ávido por conhecer novas marcas de bens de consumo. Há pesquisas que tentam medir quantas marcas o cidadão de classe média identifica, quantas procura quando viaja. As pessoas com um nível razoável de renda vão três vezes por ano ao exterior e gastam US$ 800 por compra que fazem.

Talvez estejamos fadados a deixar passar a oportunidade na China ou a entrar modestamente num mercado que nada tem de modesto.

O problema é que outros (chineses e estrangeiros) preencherão os espaços vazios. E os que tiverem escala no mercado chinês precisarão utilizar só uma fração de sua musculatura para conquistar o nosso mercado.

A onda de grifes de luxo que chegam com força ao Brasil depois de anos de receitas gordas na China é uma boa mostra disso.

Vai mudar, em casa, o cenário para as grifes brasileiras. Expulsá-las para andares menos nobres dos shoppings, tomar uma parte de suas vendas.

Para contrarrestar essa tendência, temos, é verdade, a possibilidade das medidas protecionistas. Mas elas estarão longe de resolver definitivamente o problema, se as empresas não se dispuserem a avançar no processo de internacionalização.

É o consumo, idiota - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 23/02


Uma inflação alta demais e a rápida deterioração das contas externas são manifestações do mesmo fenômeno: consumo elevado demais, não acompanhado por aumento proporcional da produção interna.

A inflação tem tudo para se manter acima de 6% ao ano nos próximos meses. O governo Dilma assegura que, no segundo semestre, esse número ruim será revertido. No entanto, não está claro como e se isso acontecerá de fato. Por enquanto, o governo espera uma virada mais ou menos espontânea. Há razões para acreditar em que, também nesse caso, somente boas intenções não bastarão, como ficará mais bem exposto na próxima Coluna.

A piora das contas externas ficou demonstrada pelo aumento recorde do rombo nas Contas Correntes.

(Apenas para refrescar a memória, Contas Correntes ou Transações Correntes é o fluxo de pagamentos e recebimentos com o exterior em mercadorias, serviços e transferências, que é aquele dinheiro que as famílias mandam ou recebem de quem trabalha ou estuda lá fora. Excluem os fluxos de capital em empréstimos e investimentos.)

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, apressou-se em explicar que as contas externas de janeiro vieram inchadas demais porque parte das importações de dezembro, especialmente de combustíveis, foi descarregada no mês seguinte, por decisões burocráticas que tiveram cheiro de embelezamento dos números de 2012. Esse efeito estatístico tem menos importância. O fato relevante é que as importações medidas em 12 meses (até janeiro) dispararam 14,6%, enquanto as exportações caíram 1,1%.

Refletem elevação do consumo interno (de mais de 8% em 12 meses) que a oferta interna não tem sido capaz de acompanhar. Daí esse forte aumento do suprimento externo.

A surrada tese de que o mau desempenho do comércio com o resto do mundo é consequência "do câmbio fora de lugar" não consegue convencer. Entre março e dezembro de 2012, o câmbio proporcionou desvalorização do real (alta do dólar) de 20%, sem que o ajuste tenha se refletido no resultado.

Esse diagnóstico não é da oposição ao governo, é do Banco Central. Na última Ata do Copom, a autoridade monetária advertiu que o baixo crescimento econômico do País não é desdobramento da falta de demanda (ao contrário, está aquecida demais), mas da insuficiência da oferta. Essa, por sua vez, é o resultado da falta de investimentos e do elevado custo de produção, que vem tirando competitividade da indústria.

Por enquanto, o rombo nas Contas Correntes continua sendo generosamente compensado com a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). Mas, mesmo sobre esse item, começam a piscar luzes amarelas. Os números de janeiro (entrada líquida de US$ 3,7 bilhões) ficou aquém do esperado. Ainda é cedo para dizer que a deterioração da percepção que os analistas internacionais têm sobre o Brasil prejudica os IEDs. Mas é bom ficar de olho.

No divã externo - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 23/02
O Brasil precisa relaxar num bom divã e fazer a seguinte análise: por que temos tanto medo de comércio exterior? Por que o país é tão defensivo quando o assunto é comércio internacional? Vinte e dois anos depois da abertura comercial, o país ainda aposta em defesa, joga na retranca, mais do que em aumentar a competitividade estrutural da economia.

Essa é a conclusão da conversa com o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, e com o presidente da Winner Desenvolvimento Empresarial, Joseph Tutundjian, no programa da GloboNews.

José Augusto, a exemplo de Tutundjian, acha que o Brasil está ficando isolado e dá um exemplo:

- O Mercosul é união aduaneira e por isso não podemos fazer acordos com nenhum país sem eles. O Nafta é uma área de livre comércio e eles podem fazer acordos e têm feito. Nós só pensamos em defesa comercial, o governo acabou de contratar mais 60 técnicos para a área.

Castro acha que o Brasil deveria aproveitar a exigência descabida da Argentina do uno por uno - a cada dólar importado pela Argentina o Brasil tem que importar um deles também - para garantir sua liberdade de fazer acordos:

- Estamos exportando menos manufaturados para a Argentina e perdendo espaço para os produtos chineses porque eles estão aumentando a importação da China.

É cada vez mais comum ouvir que o Mercosul foi uma boa ideia, que elevou o comércio regional do Brasil, mas acabou virando uma trava que nos impede de avançar.

- O Brasil joga na retranca desde sempre. Em comércio exterior, já entra em campo com medo de perder. Quem joga na retranca tem campo de ação limitado. E essa atitude protecionista é a ponta do iceberg das nossas ineficiências. Por que o empresário quer se defender? Porque sabe que tem o custo tributário, o da infraestrutura - diz Tutundjian.

Ele acha que o governo está com a atitude errada diante do anúncio de acordo de comércio transatlântico unindo Estados Unidos e Europa.

- O governo disse que não podemos ficar afobados com esse acordo. Temos que ficar afobados, sim, e saber o que vamos fazer. É uma revolução, um deslocamento para o hemisfério Norte de um terço do comércio mundial, os dois grandes blocos fazendo um acordo entre si - disse Tutundjian.

José Augusto lembra que Brasil e Estados Unidos são competidores. Em vários casos vendem as mesmas commodities, como soja, carne, milho.

- O mercado que eles querem é o mesmo que nós queremos, por isso temos que nos preocupar. O café que exportamos para a Europa é tributado, o colombiano não é tributado e isso porque eles têm acordo e nós não temos. Portanto, acordo faz diferença.

Tutundjian acha que esse é um velho problema do Brasil:

- Historicamente, temos uma relação complicada com o comércio exterior. Quem se fecha, aceita ser fornecedor de segunda classe, porque sabe que não tem competitividade. Quando o Brasil era fechado, e tinha o mercado interno para a sua indústria, os produtos brasileiros eram ruins e caros.

Uma informação dada por José Augusto de Castro nem divã resolve. Ele acha que faltam US$ 5 bilhões de compras feitas pela Petrobras e que não foram ainda contabilizadas no comércio. Fez o cálculo a partir da comparação entre as próprias declarações da empresa de aumento de compras e das estatísticas oficiais. Ontem, o Banco Central anunciou que em janeiro o déficit em transações correntes atingiu o recorde para o mês ao superar US$ 11 bi. Em grande parte foi o déficit comercial de janeiro que pesou nas contas externas.

Se balançar muito, o tripé desmonta... - JOSEF BARAT

O ESTADO DE S. PAULO - 23/02

Por décadas, a inflação foi o flagelo que assolou a sociedade brasileira. Um tributo forçado e injusto, que penalizou os mais pobres e favoreceu a concentração da renda. Não era sustada porque governo e empresas ganhavam com ela. O governo gerava recursos para investimentos nas infraestruturas, com base na emissão de moeda. A inflação bancava boa parte do crescimento, que se dava, porém, em mercados restritos, com salários reais erodidos e apropriação desigual da riqueza.

Crescer a qualquer custo fez a alegria dos que acreditavam que importava mais crescer do que ter uma moeda estável, mercados mais amplos e atenuar a pobreza endêmica. O Estado era "for- te",grande investidor e resguardou a indústria da competição externa com reservas de mercado, proteções tarifárias e intervenções no câmbio. O País cresceu até que, nos anos 80, as crises fiscal e da dívida, o drástico declínio dos investimentos públicos e a perda de credibilidade internacional impusessem duas décadas de estagnação e inflação alta.

É nesse contexto que se deve entender o alcance do Plano Real, após várias tentativas frustradas de estabilização. Foi possível consolidá-lo graças à conjugação de moderna instrumentação macroeconômica com um arcabouço legal e institucional de apoio. Três foram os instrumentos: adoção de metas de inflação, geração de superávit primário e regime de câmbio flutuante. Com o objetivo de controlar a inflação no longo prazo, o anúncio prévio de uma meta sinalizava que o Banco Central se comprometia a viabilizar o seu cumprimento, valendo-se de juros, câmbio e controle da base monetária. As metas tiveram duas importantes funções: oferecer transparência para a condução da política monetária, reduzindo incertezas.e coordenar expectativas dos agentes econômicos e do mercado financeiro.

No resultado das contas públicas, o superávit primário propiciou recursos pai a o pagamento dos juros e quitação de parte do montante da dívida. O trauma do passado era o do total descontrole, pois o resultado entre receitas e despesas nunca era positivo. O governo cobria a diferença via emissão de moeda e ampliava o endividamento por meio da "rolagem" da dívida. Assim, para estancar a pressão inflacionária era preciso conter as despesas visando a resultados positivos, ou seja,gerar um superávit para cobrir o custo dos juros da dívida do governo. Com o câmbio flutuante, as operações de compra e venda de divisas funcionaram sem intervenções sistemáticas. O valor das moedas estrangeiras flutuou tão simplesmente de acordo com a oferta e a demanda no mercado de câmbio. Em suma, foi esse o tripé que deu sustentação de longo prazo à estabilidade monetária.

Três importantes mudanças institucionais serviram ainda de apoio: a Lei n.° 8.987/95, que dispôs sobre o regime de concessão e permissão na prestação de serviços públicos; a Lei Complementar n.° 101, que estabeleceu a responsabilidade fiscal impondo a transparência e o controle dos gastos públicos relativamente à capacidade de arrecadação de tributos; e a criação das agências reguladoras para controle e fiscalização dos contratos de concessões. Foram avanços consideráveis para modernizar a administração pública, ampliai" a capacidade de investimento nas infraestruturas com participação privada e gerar um ambiente de segurança jurídica. Ainda no governo FHC, ao tripé foi acrescentado o apoio de programas sociais visando à redistribuição de renda. O governo Lula, apesar de algumas balançadas, o manteve em Linhas gerais. Ampliaram- se as reservas cambiais, o crédito e os mecanismos de redução da pobreza.

No momento, manifestos desejos de volta ao passado se contrapõem à necessidade de abrir novas perspectivas para o futuro. Cabe refletir sobre os imensos riscos de menosprezar a inflação, sobre- valorizar a capacidade intervencionista do governo e proteger a falta de competitividade com reservas de mercado, câmbio e medidas pontuais e descoordenadas de desoneração de custos. Se balançar muito agora, o tripé desmonta...

A volta do mensalão - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 23/02

Joaquim Barbosa conclui sua parte do acórdão e mantém pressão no STF para que julgamento chegue ao final e sentenças sejam cumpridas


O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, dá indícios de que pretende manter neste ano o mesmo empenho com que conduziu, em 2012, o julgamento do mensalão.

O ministro não se limitou a terminar com 40 dias de antecedência a parte que lhe cabia na redação do acórdão do processo (ato que reúne os votos e informa oficialmente a decisão da corte). Também enviou ofício para comunicar o fato aos demais colegas.

Por si só, e ainda mais por ter partido de quem partiu, o gesto já se caracterizava como pressão discreta para acelerar o trabalho de todos os ministros. Mesmo assim, Barbosa foi explícito: "Minha parte está feita, e espero que os outros preparem sua parte".

Seria difícil crer que algum membro do STF pudesse desconhecer a importância de que o acórdão seja finalizado o mais cedo possível. Antes disso, os réus não podem apresentar seus recursos; portanto, o julgamento fica, em certo sentido, paralisado.

Mesmo após a conclusão dessa etapa, que depende da diligência de cada um dos ministros, haverá ainda um longo caminho pela frente antes que as decisões possam alcançar alguma "efetividade", para usar expressão do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Ele próprio aposta que levará um ano para que as sentenças venham a ser cumpridas.

Uma vez concluído o acórdão -que possivelmente se estenderá por mais de 10 mil páginas-, os advogados terão prazo de cinco dias para recorrer. Em seguida, deverão ser marcadas novas sessões para que todos os embargos (recursos) sejam julgados.

Só quando não houver mais possibilidade de recorrer é que as sanções poderão ser aplicadas. Entre os 37 réus, 25 foram condenados; 11 devem cumprir a pena inicialmente na prisão. Também é só após o trânsito em julgado que os deputados José Genoino (PT-SP), João Paulo Cunha (PT-SP), Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP) perderão seus mandatos.

É de prever, nesse contexto, que os advogados envidem todos os esforços para tentar melhorar a sorte de seus clientes. Caberá aos defensores mostrar, se for o caso, que os ministros exageraram na aplicação da punição, por exemplo, ou que foram contraditórios em determinados trechos da sentença.

Não se descarta, porém, que vários dos advogados façam uso ilegítimo das hipóteses de recurso previstas na lei, explorando-as apenas para retardar a execução da pena.

Os ministros decerto estarão atentos a esses ardis. Rejeitar manobras meramente protelatórias é tão importante para a Justiça quanto garantir o direito de defesa.

Quebrar o cartório portuário - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 23/02

As greves de trabalhadores portuários e avulsos em alguns portos brasileiros dão bem uma ideia dos obstáculos que se terá pela frente na tentativa de promover uma nova etapa de modernização do setor. A primeira, resultante da lei promulgada em 1993, após longo debate, permitiu que as antigas e defasadas companhias docas estatais se retirassem das atividades operacionais, com o arrendamento de diversos terminais por agentes privados. Por força de contratos ou pela necessidade de atender à demanda reprimida, os operadores investiram em equipamentos, ampliaram áreas de armazenamento de mercadorias e atracação de navios, e acabaram deixando à mostra outras deficiências estruturais do sistema portuário.

A questão da mão de obra, um dos pontos mais delicados porque até então prevaleciam regras herdadas do século XIX, foi resolvida apenas em parte, com a eliminação da obrigatoriedade de trabalhadores avulsos que já não tinham mais função. Ainda assim, para se evitar um clima de conturbação, partiu-se para um meio termo, atribuindo-se a um novo órgão (Ogmo) a definição de regras para escolha dos avulsos.

Em alguns portos públicos mais movimentados, os terminais foram arrendados por diferentes operadores, o que assegurou inicialmente mais concorrência e aumento de eficiência na movimentação da carga. Se comparado à situação jurássica do passado, houve considerável avanço. No entanto, nesse mesmo período, o resto do mundo também pôs em prática mudanças que agilizaram seus sistemas portuários. Dessa forma, se comparados a portos asiáticos, europeus e mesmo a de países da América Latina, os brasileiros são caros. Tal custo é um dos fatores que retiram competitividade do comércio exterior e impedem que o transporte marítimo e fluvial seja mais usado na movimentação de mercadorias entre as regiões do país.

Por meio da Medida Provisória 595, em discussão no Congresso, o governo dá um choque de competitividade no setor portuário, atraindo mais investidores para assegurar mais concorrência entre os terminais. Limitações para quem quiser investir em novos terminais desaparecem com essa legislação. A reação dos que já estão estabelecidos, incluindo as representações sindicais dos trabalhadores, é deixar tudo como estava antes. Ou impor aos novos investimentos as amarras dos portos públicos.

Ora, o objetivo da mudança é exatamente quebrar os cartórios, estabelecer mais concorrência para tornar o setor mais eficiente, e, por tabela, propiciar ganhos de competitividade nas cargas brasileiras. Nivelar por baixo seria caminhar no sentido inverso. O que se deve buscar é a retirada de amarras também nos portos públicos. Trata-se de uma questão crucial para a economia brasileira.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Ela é uma heroína moderna, pela liberdade de expressão”
Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, sobre a blogueira Yoani Sánchez


CANDIDATURA DE EDUARDO CAMPOS CHATEIA DILMA

A presidente Dilma está chateada com os movimentos do governador Eduardo Campos (PSB-PE) para viabilizar a própria candidatura a presidente, em 2014. Ela acha “legítima” a pretensão, mas avalia que sua reeleição é a melhor opção para Eduardo, que poderia tentar obter o apoio do PT, em 2018. Curiosamente, Dilma acha que a candidatura de Eduardo seria uma manobra para forçar a volta de Lula em 2014.

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Para os “dilmistas”, Eduardo Campos estaria a serviço dos “lulistas”, aliados dele no PT, para forçar a candidatura de Lula em 2014.

PROJETO ADIADO

Para a presidente, “o pior dos mundos” para Eduardo Campos seria a volta de Lula, que tentaria reeleição, adiando os planos dele para 2022.

DÍVIDA ETERNA

Eduardo Campos afirmou que somente abriria mão da candidatura à Presidência caso Lula pretendesse retomar o cargo, em 2014.

RECADO DURO

No ato do PT, Lula desafiou a oposição a “se juntar com quem quiser”, mas Dilma vencerá em 2014. O recado seria para Eduardo Campos.

CADE IGNORA QUEIXA DE ‘TUBAÍNAS’ CONTRA GIGANTES

Apesar de admitir “indícios de práticas anticoncorrenciais”, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), do Ministério da Justiça, não se comoveu com a denúncia da Afebras, associação de fabricantes de refrigerantes, atribuindo o fechamento de pequenos produtores de “tubaínas” à concentração de mercado pelas grandes marcas. O Cade não descarta retomar o assunto, mas o arquivou. Nem abriu inquérito.

NOME É DESTINO

Foi a Marquise a construtora do hospital em Sobral cuja marquise caiu, após a inauguração onde Cid Gomes torrou R$ 650 mil em um show.

CAÇA FANTASMAS

O cocaleiro Evo Morales correu para a Venezuela, mas não pôde ver o ídolo Hugo Chávez no hospital, em estado crítico. Lula se conteve.

MERCI, THANKS!

Europeus e americanos agradecem aos brasileiros os R$ 2,2 bilhões gastos em viagens baratas e compras idem. Foi recorde em 56 anos.

IDEIA FIXA

O deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) continua excitado com o sonho de assumir o Ministério dos Transportes. Procurou o presidente da Câmara, Henrique Alves, para falar mal do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento Industrial) e cobrar apoio do partido.

DAMA DE BRANCO

Yoani Sánchez deu tapa de luva nos militóides, um deles com faca em punho, na livraria Cultura, em São Paulo: “As ditaduras não devem ser avaliadas por serem de direita ou esquerda, mas por serem ditaduras”.

NEXO EXPLÍCITO

Na festa petista de São Paulo, em torno de Lula e Dilma, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) foi o mais aplaudido. Aloizio Mercadante (Educação) deixou tão explícito seu desagrado que ficou meio ridículo.

PRÊMIO

Envolvida nas agressões à blogueira cubana Yoani Sánchez, a União da Juventude Socialista sorteia tablets capitalistas e viagens à Cuba comunista, após os congressos políticos de sua gurizada baderneira.

O MENSAGEIRO

Com 7 milhões de seguidores no Twitter, o escritor Paulo Coelho apoiou em inglês e português a blogueiraYoani Sánchez: “Chega de palhaçadas e de teorias conspiratórias de idiotas sobre agente da CIA”.

BOI NA LINHA

O Grupo JBS-Friboi nega ação na Justiça Federal contra o Banco JBS, mas não diz que o hoje Banco Original é fusão do antigo JBS com o Matone. O primeiro presidente do Banco JBS, incluído na ação, é José Geraldo Dantal, ex-diretor do Banco Rural e corréu no mensalão.

PORTAL DO JERICO

Deve ser em nome da “liberdade de expressão” que o Blog da Dilma chamou Yaoni Sánchez de “rola bosta”, abaixo de foto da presidente. Quem assina o vitupério mais realista que Dilma é Jussara Seixas.

LIXO DO MUNDO

Os irmãos brasileiros Júlio e Juliano da Costa se declararam culpados num tribunal em Londres e vão pagar multa milionária pelo envio de 15 mil toneladas de lixo contaminado e apreendido no Brasil, em 2009.

PERGUNTA BAIXINHO

Depois dos ataques da tropa de choque da “juventude esquerdista” virá a noite de quebrar os “cristais burgueses”?


PODER SEM PUDOR

DUDA E SEU JOÃO-BOBO

Lula ainda cambaleava, após a segunda derrota para FHC, quando Duda Mendonça encontrou o jornalista Ricardo Kotsho na cantina "Il SognodiAnarello", em São Paulo. Ali, o marqueteiro fez uma proposta surpreendente: vindo de campanhas malufistas, ele queria o apoio de Kotsho, amigo de Lula, para "vender ao PT" a ideia de ele fazer a próxima campanha petista, e de graça. Antecipou até a primeira "peça" de campanha: um Lulinha de bolso, pequenininho, que funcionaria como joão-bobo, aquele que toma piparote e fica sempre de pé. "Getúlio usava um bonequinho desses", lembrou Duda. Kotsho não se entusiasmou, mas prometeu levar a ideia ao PT. Duda não precisou usar o Lulinha. Muito menos trabalhar de graça.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Sem competitividade – Após greve ilegal, governo adia privatização de portos
Folha: Comércio corta vagas, e emprego perde força
Estadão: Lula garante Temer como vice de Dilma, diz Alves
Correio: Denúncias de homofobia crescem 400% em Brasília
Estado de Minas: Martírio Mineiro – Governo suspende duplicação da 381
Zero Hora: Carro cedido à BM some em depósito