domingo, fevereiro 17, 2013

A terceira onda - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 17/02

Para quem pensa que a #Rede Pró-partido de Marina Silva surge como apenas um misto de sonhadores com lunáticos, os “sonháticos”, é bom analisar um pouquinho as formações partidárias dos últmios 30 anos. Do extinto PRN do ex-presidente Fernando Collor de Mello, até o PT, a grande legenda do momento, vimos de tudo. De pequenas empresas a grandes negócios. De sacerdócio a sonhos. Nessas três décadas, entretanto, apenas dois movimentos pela ética que resultaram em partidos bem sucedidos.

A primeira onda foi o PT. Embora tenha surgido com uma bandeira mais voltada aos direitos trabalhistas, o PT incorporou o discurso da ética. CPI? Lá estava o PT. Recursos públicos mal aplicados? Os petistas eram os primeiros a vasculhar as contas públicas.

O segundo forte movimento resultou na criação do PSDB. Cansados da metodologia do PMDB paulista nos tempos de Orestes Quércia e com as diferenças devidamente registradas na época da constituinte, políticos e um punhado de intelectuais fundaram o partido. O PSDB consegue chegar ao poder antes do PT, graças ao Plano Real e à aliança à direita. O constrangimento da aliança chegou a produzir comentário da ex-primeira-dama Ruth Cardoso, dividindo o PFL entre o de Antonio Carlos Magalhães e o de Marco Maciel e Gustavo Krause — que ficou conhecido como o “o PFL da dona Ruth”.

Desgastado depois de oito anos de mandato, o PSDB terminou suplantado pelo PT, que desembarca no Planalto com a esperança de não sucumbir ao toma lá dá cá da política. Esse sonho, entretanto, não sobrevive ao primeiro governo de Lula. No poder, os petistas fecham acordos com o que de mais controverso há no quadro partidário. Uma turma sai no meio desse caminho e funda o PSol, que surge mais como uma revolta em relação ao PT. Nesse meio tempo, estoura o mensalão, e o resto da história é bem conhecida. Lá está o PT equiparado aos demais e a um passo de ver seus ex-líderes irem para a cadeia. Hoje, o partido de Lula tenta se reinventar da mesma forma que os tucanos buscam um novo discurso capaz de empolgar o eleitorado.

Enquanto isso, no sabadão candango…
É nesse contexto, de os partidos tentando encontrar oxigênio, que surge a #Rede Pró-Partido — na tarde de ontem, batizado de Rede Sustentabilidade. A parte da manhã lembrou o PT dos anos 1980, só que repleto de novos acessórios para buscar maior participação popular, limites a número de mandatos eletivos e cuidados com os financiadores de campanha. Até a distribuição das cadeiras, posicionadas no salão como um grande círculo, foi pensada no sentido de mudar conceitos. A formação prescinde do tradicional mesão, onde, invariavelmente, fica a cúpula partidária. Os copos plásticos, substituídos por canecas, entregues a todos participantes e convidados na chegada. Mais sustentabilidade, menos consumismo.

Antes de qualquer discurso, um debate com intelectuais, como Ricardo Abramovay, da USP, Carlos Nepomuceno e Eduardo Viola, da UnB, sobre a crise mundial econômica, social, ambiental e a ausência de valores. Marina, a grande estrela, menciona a necessidade do valorizar o “ser” em vez do “ter”. Abomina as velhas práticas políticas. As estrelas da Rede são poucas. Estavam lá, além da musa Marina, as ex-senadoras Heloisa Helena e Serys Slhessarenko (ex-PT), o deputado Walter Feldman, do PSDB paulista; Domingos Dutra e Luciano Zica; do PT, e José Aparecido, do PV de Minas Gerais. Na plateia, jovens vereadores de vários partidos, inconformados com a pecha de que político é tudo igual, dão uma cor especial ao encontro.

Ao propor novas práticas e instrumentos para segurar seus filiados na linha da ética exigida pelo eleitor, a Rede chega com um apelo popular que outros partidos criados recentemente não tiveram, a começar pela imagem de sua líder maior. Marina obteve 18% nas últimas pesquisas de intenções de voto para presidente da República. Por mais que muitos a considerem “bicho-grilo” demais, alternativa demais, para comandar o país, ela representa algo de novo que requer observação. E não chega sozinha.

Nem todo o partido surge embalado pela ética na política e nem toda onda pela ética na política vira um partido. Daí, o fato de alguns a classificarem a Rede como a terceira grande onda pela ética que resulta num partido. PT e PSDB chegaram ao poder. O PT levou mais de 20 anos, o PSDB fez um caminho mais curto, mas ambos tiveram sucesso. A Rede, por enquanto, é um embrião alinhado com o movimento de descentralização inspirado nas redes sociais (um dos segredos do sucesso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama). Mostra-se disposta ainda a representar um novo momento na disputa de poder político no mundo, em sintonia com movimentos em curso na Europa, também saturada dos modelos atuais de gestão partidária.

Dentro desse contexto, nunca é demais lembrar que Marina e sua turma estão chegando primeiro. E quem chega primeiro, reza o ditado, bebe água limpa. Se conseguir vencer os entraves burocráticos para a criação da legenda até outubro, vai dar trabalho a Dilma Rousseff, Aécio Neves e quem mais chegar.

A igreja, o papa e a democracia - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 17/02

A fé pode sobreviver por outros dois milênios e até mais, mas, sem se abrir, o papado perde força


ROMA - Suzana Singer, a competentíssima jornalista e ombudsman desta Folha, cobrou, na quinta-feira, em sua crítica interna: "Falta tentar mensurar o tamanho do poder do papa. Qual a sua real influência fora do mundo clerical?".

Coincidência, Suzana, mas eu vinha pensando nisso desde a segunda-feira em que aFolha me cortou as férias para cobrir a renúncia de Bento 16. Só sinto que minha soberba ainda não tenha chegado ao ponto de achar que posso responder.

Uma única resposta me parece óbvia: só uma instituição muitíssimo poderosa poderia resistir impávida a dois milênios de história, crises, confusões, guerras, paz e tudo o mais, segurando, hoje, 1,2 bilhão de fiéis. A mensagem, a Palavra, é, pois, tremendamente poderosa, ainda mais se se considerar que Cristo é também o eixo de sustentação de milhões mais que preferem outras denominações, e não a católica.

Mesmo as novas igrejas evangélicas, que estão roubando público do velho catolicismo, o fazem vendendo a sua interpretação da palavra de Deus -e o verbo vender vai mesmo sem aspas, que você me entende. Outra coisa, no entanto, é dimensionar "o tamanho do poder do papa". Eu não sei. Talvez nem seja mensurável.

Minha sensação, no entanto, é a de que os papas vêm perdendo apelo contínua e crescentemente. OK, sensações são traiçoeiras, mas já escrevi bastante tempo atrás, em outro espaço desta Folha, que viagens de João Paulo 2º ao Brasil, por exemplo, podem ser um enorme sucesso de público, atos de "pop star", mas seus efeitos desaparecem assim que o papa sobe as escadas do avião para ir-se embora.

Se ele convertesse os não crentes, o número de fiéis subiria no Brasil, em vez de cair, antes e depois das várias visitas do anterior e do atual papa. Por quê? É tema para sociólogos e antropólogos, não para meros repórteres.

A minha sensação -e, repito, sensações são traiçoeiras- é a de que algo tem a ver com democracia, com a arquicitada frase "Roma locuta est, causa finita est", ou seja, com o espírito predominante na hierarquia católica segundo o qual, se Roma falou, não cabe mais discutir questões doutrinárias.

O avanço da ideia das liberdades públicas tornou obsoleto esse "diktat" imperial, erroneamente atribuído a santo Agostinho. O próprio Bento 16 produziu uma frase, na audiência com os párocos de Roma, na quinta-feira, que renega essa verticalidade tão absoluta: "Nós, cristãos, somos todos o corpo vivo de Cristo".

Corpos vivos querem participar, querem ter voz em tudo o que diz respeito às suas vidas e às de suas comunidades. De alguma forma, o Concílio Vaticano 2º, que está completando 50 anos, abriu a igreja para esse caminho, mas ele foi fechado nas décadas seguintes, especialmente com João Paulo 2º e Bento 16.

Resta saber se o Colégio de Cardeais preferirá a inércia de acreditar que o que durou dois milênios durará para sempre do jeito que está ou reabrirá o caminho para que os fiéis deixem de ser súditos e se sintam de fato parte do "corpo vivo de Cristo".


Grande chance - ISABEL SANTANA

O GLOBO - 17/02

Mais de quatro mil entre quase 5.600 municípios brasileiros empossaram recentemente prefeitos não reeleitos e, com eles, os respectivos gestores para a pasta da Educação. Os novos secretários assumem em um contexto favorável, de apoio crescente da população à educação, que se consolida como área prioritária para a concentração de esforços e investimentos de governos, empresas e sociedade.

Alinhada a esse consenso, a aprovação do Plano Nacional de Educação, prevista para este ano, demandará das novas administrações a revisão ou elaboração de planos municipais de educação de acordo com a realidade local, pautadas pelas metas que serão estabelecidas para os próximos dez anos. Entre elas, a extensão da oferta de educação integral a 25% dos alunos das escolas de educação básica, como prevê a meta 6 do relatório do PNE.

De acordo com o Censo Escolar 2011, o número de estudantes do ensino fundamental da rede pública matriculados em tempo integral superou 1,6 milhão e cresceu 33,4% de 2010 a 2011 no Brasil. Apesar do aumento, isso representa 6,4% do total de alunos que estavam matriculados nesta etapa durante o levantamento. O desafio fica maior se considerarmos toda a educação básica.

O atendimento da meta aliado à oportunidade de romper o atual modelo de quatro horas de aula subaproveitadas exigirá dos novos secretários empenho e criatividade para pensar em estratégias que envolvam um conceito mais amplo para o aprendizado formal.

Ampliação do repertório cultural, circulação no território, participação na vida pública, domínio de competências e habilidades para a vida autônoma são requisitos para a sociedade contemporânea. Aliados aos conhecimentos selecionados pela escola, constituem condição necessária ao desenvolvimento pessoal pleno.

Essa formação abrangente demanda a composição entre diversos sujeitos e espaços, além da escola. Torna fundamental uma abertura para os arranjos locais, propondo diferentes modalidades na oferta, considerando inclusive que não seria possível, no curto-médio prazo, duplicar o número de escolas e profissionais da educação.

Assim, o desafio da ampliação da oferta de educação integral com qualidade pela rede pública prevê uma compreensão mais avançada de gestão participativa. Para desenvolvê-la, é necessário identificar as propostas que já estão em curso nos municípios, mapear espaços ociosos, formar parcerias com ONGs e universidades. É necessário instituir fóruns para pensar conjuntamente as necessidades e tornar a cidade corresponsável pelo projeto de educação integral.

Os secretários estão diante de um imenso desafio, proporcional à oportunidade. A implantação de planos que prevejam diversas modalidades abre ao Brasil uma chance de equiparar-se aos sistemas de países avançados, promovendo a melhoria da qualidade com a necessária igualdade de oportunidades para todos.


Deus hipotético - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 17/02

Um religioso dirá que não faltam provas da existência de Deus e da sua influência em nossas vidas. Quem não tem a mesma convicção não pode deixar de se admirar com o poder do que é, afinal, apenas uma suposição. A hipótese de que haja um Deus que criou o mundo e ouve as nossas preces tem sobrevivido a todos os desafios da razão, independentemente de provas. Agora mesmo assistimos ao espetáculo de uma empresa multinacional às voltas com a sucessão do comando do seu vasto e rico império, e o admirável é que tudo – o império, a riqueza e o fascínio dos rituais e das intrigas da Igreja de Roma – seja baseado, há 2000 anos, em nada mais do que uma suposição.

Todas as religiões monoteístas compartilham da mesma hipótese, só divergindo em detalhes como o nome do seu deus. E todas têm causado o mesmo dano, em nome da hipótese. Não é preciso nem falar no fundamentalismo islâmico, que aterroriza o próprio islã . Há o fundamentalismo judaico, com sua receita teocrática e intolerante para a sobrevivência de Israel. O fundamentalismo cristão que representa o que há de mais retrógrado e assustador no reacionarismo americano, e as religiões neo-pentecostais que se multiplicam no Brasil, quase todas atuando no limite entre o curandeirismo e a exploração da crendice. A igreja católica pelo menos dá espetáculos mais bonitos, mas luta para escapar do obscurantismo que caracterizou sua história nestes 2000 anos, contra um conservadorismo ainda dominante. A hipótese de Deus não tem inspirado as religiões a serem muito religiosas.

Há aquela parábola do Dostoiévski sobre o encontro do Grande Inquisidor com Jesus Cristo, que volta à Terra – o filho da hipótese tornado homem – para salvar a humanidade outra vez, já que da primeira vez não deu certo. Os dois conversam na cela onde Cristo foi metido por estar perturbando a ordem pública, e o Grande Inquisidor não demora a perceber que a pregação do homem ameaçará, antes de mais nada, a própria Igreja, a religião institucionalizada e os privilégios do poder. Não me lembro como termina a parábola. Desconfio que se fosse hoje, deixariam o Cristo trancado na cela e jogariam a chave fora.

Ueba! Papa argentino não pode! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 17/02

Papa argentino não dá certo porque argentino pensa que é Deus. Acúmulo de funções!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento da semana: se o papa for brasileiro, o papamóvel vai ser um trio elétrico! E a piada pronta da semana: "Carro alegórico que homenageia a Copa 2014 atrasa desfile da Mangueira". Até o carro alegórico da Copa atrasa. E superfaturado!

E olha o nível dos heróis do Bial: "'BBB13': 'Você é brocha e bicha', diz Kamilla a André". E faltou "bundão" pra completar o BBB. Nível abaixo do nível do mar!

E até a câmera de segurança do meu prédio é mais animado que o Big Bode Plasil: o porteiro xavecando a diarista, o entregador de pizza encoxando a vizinha na garagem, o porteiro enfiando o dedo no nariz, os meninos do 16 esvaziando os pneus dos carros e o sogro bebum naquele vai não vai na entrada! Aí um amigo perguntou: "Você mora no Bahamas?". Rarará!

E "Salve Jorge"? O Ciro Botelho disse que o melhor ator de "Salve Jorge" é o cavalo do Theo e a melhor atriz, a Emily. A cadelinha da Nicette Bruno! "Salve Jorge" é passada na Tapadócia! Só tem tapado!

E o grande personagem da semana: o Papa! O Papa renunciou! E o Brasil inteiro gritou: Papa renuncia e Sarney se candidata. Vai empregar a parentada toda no Vaticano!

Aliás, sabe o que o Sarney disse quando viu a suntuosidade do Vaticano? "Que bela verba de gabinete." Rarará! E os papáveis? Tem até papável argentino. Papa argentino não dá certo porque argentino pensa que é Deus. Acúmulo de funções! Papa argentino vai espalhar que o Pelé é o anticristo! Se o papa for argentino eu mudo pra umbanda! Parto pra umbanda!

E tem papável brasileiro: dom Odilo Scherer! A fumacinha vai ser verde e amarela com transmissão do Galvão Bueno! "Vai que é tua, dom Odilo. Vai, dom Odilo! Até o chão, dom Odilo! Mostra que Deus é brasileiro! Dom Odilo ScheRRRRer!" Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

O Brasil é Lúdico! A melhor placa de Carnaval é a da distribuidora de bebidas Querosene: "Não abriremos hoje 11.02.13. Estamos bêbados!". Rarará! Bêbados de querosene!

E essa placa num buteco na Praia do Forte: "Proibido falar porra nessa porra". Então não entra ninguém. Rarará! E agora que acabou o Carnaval, o que a gente vai fazer nesse restinho do ano. Nada! Não dá pra fazer mais nada! Aliás, quem disse que o Carnaval acabou? Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Cactos vicejam no deserto - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADO DE S. PAULO - 17/02

Lembram-se do Tiririca, o palhaço eleito com a maior votação em 2010? Desiludido, anuncia que voltará a fazer graça nos palcos porque na política "não dá para fazer muita coisa". O mote de sua campanha, "pior que tá não fica", não apenas dá razão ao deputado Francisco Everardo Oliveira Silva, que recebeu mais de 1 milhão de votos dos paulistas, como se torna até maneiro ante a constatação de que mudanças na forma de fazer política ganharam passos muito tímidos nos dois últimos anos. Em algumas frentes, em vez de avançar, o País retrocedeu.

Veja-se a seara partidária. A par de 30 partidos existentes, pelo menos mais 31 estão sendo criados, a denotar a proliferação abusiva de siglas e os desastrosos efeitos que acabarão mercantilizando ainda mais a política e jogando-a na bolsa de negociação eleitoral. É mais uma demonstração da massa amorfa em que se transformou a estrutura partidária no País. Pior é anotar que isso ocorre num momento de intensa crítica social contra práticas e costumes da velha política.

Nunca se viu tanto alvoroço nas malhas da organização partidária como hoje, haja vista o interesse de múltiplos atores em procurar janelas para saírem de seus atuais abrigos e, na pista do troca- troca de agremiações, barganharem condições de apoio às candidaturas em 2014, tanto na área federal quanto na esfera dos Estados. As 500 mil assinaturas exigidas para registro de novas siglas ganham as ruas sob um regime de pressa, com prazo de validade - para participarem do próximo pleito os novos partidos devem ser autorizados pelo TSE até outubro próximo (um ano antes).

O que chama a atenção é o foco de atuação das novas siglas. Os nomes escolhidos sinalizam a especificidade de interesses grupais em detrimento de escopos mais abrangentes e coletivos. Se levarmos em consideração um espectro partidário com, por exemplo, seis posições - esquerda, direita, centro, centro-esquerda, centro-direita e extrema esquerda-, chega-se à conclusão de que uma constelação com mais de 60 entidades atenta contra o bom senso. Partido é parte do todo, mas isso não significa inserir no arco do pensamento nacional interesses de corporações, núcleos, movimentos, etc.

O rol das novas entidades corrobora a tese de que o corporativismo marca forte presença no espectro social. Um Partido da Mulher Brasileira (PMB), que já conseguiu registro em três Estados, quer apostar na segmentação do eleitorado por gênero; um tal de Movimento Negação da Negação (MNN), autodefinido como trotskista, parece interessado em se fixar na margem extrema com um discurso anulando tudo o que emana do establishment; o Partido de Representação da Vontade Popular (PRVP), pelo visto, pretende apagar os outros, por não representarem a vontade coletiva; o Partido Novo (PN), claro.joga os outros no baú da senilidade; o Partido Cristão (PC) contrapõe-se a outros de viés religioso, como o atual PRB, sob a chancelada Igreja Universal; esboça-se uma Arena, agregando um grupo de jovens de direita que intentam refundar um ente com o mesmo nome que deu apoio à ditadura militar; um Partido Militar Brasileiro (PMB) elege como escopo a segurança pública; e por aí vai, até se chegar ao Partido Pirata do Brasil (PPB), cuja proposta é a defesa da pirataria nas redes sociais. Nessa moldura oportunista, a Rede, sigla que a ex-ministra Marina Silva lançou ontem em Brasília, ganhará até consistência.

Esvai-se, assim, o ideário voltado para o bem comum, conceito que implica a integração de fatores como a liberdade, a justiça, a paz, a utilidade social, a solidariedade e a igualdade. Não se distingue nessa nova modelagem algo que lembre expressões consagradas como o interesse social, a satisfação das demandas da coletividade, enfim, "o bem que a todos apetece", como ensina São Tomás de Aquino. Partido, mesmo querendo significar parcela social, abarca o conceito de comunidade, a "comum união" de pessoas que têm a mesma natureza e sonham com um mesmo fim. Nesse caso, contrapõe-se ao interesse de grupos, corporações e conjuntos que se desdobram para fazer predominar pequena parte sobre o todo.

A facilidade de criar partidos é fruto de uma legislação extremamente liberal, produzida para se contrapor aos tempos em que a ditadura militar mantinha sob cabresto o bipartidarismo da Arena e do MDB, entre 1966 e 1979. Aliás, nossa vida partidária nunca se pautou pela linearidade. No período monárquico, os partidos nacionais não agregavam a participação das bases; no primeiro ciclo da era republicana (1889-1930), em função das articulações entre o presidente e os chefes dos Estados-membros, os partidos tinham identidade regional; entre 1930 e 1946, o autoritarismo restringiu a liberdade partidária. Só a partir da Constituição federal de 1946 os partidos ganharam ares democráticos, passando a exprimir um ideário nacional. A Carta de 1988 abriu as comportas e os partidos se multiplicaram. Poucos, porém, atenderam aos preceitos que os qualificam: catalisar correntes de opinião, formar e selecionar quadros para a política, informar e educar o eleitorado.

Nos últimos anos os pequenos gargalos foram afrouxados. No final de 2006 o STF derrubou a cláusula de barreira,que assim rezava: "Tem direito a funcionamento parlamentar, em todas as Casas Legislativas, para as quais tenha elegido representante, o partido que, em cada eleição para a Câmara dos Deputados, obtenha o apoio de, no mínimo, 5% dos votos apurados, não computados os brancos e os nulos, distribuídos em, pelo menos, um terço dos Estados, com um mínimo de 2% do total de cada um deles". Nestes tempos de intensa negociação de minutos de propaganda eleitoral gratuita (prática usual entre partidos), de coligações proporcionais (que mesclam siglas de visões opostas e elegem figurantes de parcos votos),de bandeiras rotas e assemelhadas, as fontes partidárias secaram. Em seu lugar se descortina um deserto, onde a vegetação tem dificuldades para brotar. Apenas os cactos aí vicejam.

Um país ignorantinho - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 17/02

Instituições de ciência e tecnologia progrediram na última década, mas assunto ainda é marginal


CIÊNCIA, TECNOLOGIA e escola não são assuntos brasileirinhos. Nosso descaso ignorantinho permite que a presidente lance num balão a hipótese de nomear políticos indizíveis para o Ministério da Ciência e Tecnologia.

Nesta coluna, na semana passada, comentava-se de passagem o "faux pas" de Dilma Rousseff, evidência de desprezo de tantos governos brasileiros pela área. O físico Sérgio Rezende, ex-ministro de Ciência e Tecnologia de Lula (2005-10), rebateu a crítica, em carta ao colunista.

Rezende foi o melhor ministro de Ciência que o país já teve. Reorganizou o setor, criou e ordenou instituições, fez planos, arrumou dinheiro para executá-los e cumpriu metas. Os laboratórios brasileiros estavam caindo aos pedaços. Rezende arrumou dinheiro para começar uma grande reforma e para multiplicar grupos de excelência, bolsas de pesquisa, doutores etc.

Isto posto, reconhecida a injustiça com o trabalho de Rezende, voltamos ao nosso problema: ciência e tecnologia, que deveriam ser uma das três ou quatro prioridades nacionais, não o são. O caso é mais desesperador devido à velocidade das mudanças econômicas e à letargia brasileira em inovação.

O Brasil é um dos países em que mais cresce a publicação de artigos científicos, lembra Rezende (ao triplo do ritmo verificado no resto do planeta). Mas registramos 0,3% das patentes do mundo, ante 5% de China ou Coreia do Sul. A parcela brasileira da produção científica mundial (em número de artigos qualificados) equivale mais ou menos à fatia do nosso PIB. Porém, em inovação estamos lá pelo meião de uma lista de 150 países.

Inovação depende de empresas, decerto. Mas depende de um sistema que crie intermediários entre empresa e universidade. Isto é, institutos de pesquisa, como Embrapa, Inpe, Luz Síncrotron, Butantan, Fiocruz etc., com tarefas e objetivos específicos. Os centros mais relevantes são dos anos 1970, ou de antes.

O Brasil ainda tem ambições autárquicas demais e mania de inventar a roda. Muita ciência está à disposição no mundo. É preciso descobrir o que nos interessa, de que precisamos, copiar, incorporar, desenvolver produtos e soluções. Para tanto, precisamos de institutos de pesquisa públicos e privados, de engenheiros para captar soluções na feira mundial de conhecimento; precisamos de trabalhadores qualificados bastantes para trabalhar em empresas que decidam inovar.

Precisamos reparar o desastre da escola básica, de mais formandos em ciência e engenharia. Mas mal formamos dúzias de professores de matemática.

Não "importamos" conhecimento dando sopa, na forma de pesquisadores de países avançados, devido a corporativismo e nacionalismo tosco. Os EUA, já potência líder no pós-guerra de 1945, deram então um salto enorme fazendo a rapa nos cérebros europeus.

Protegemos grandes empresas com subsídios, impostos de importação altos e incentivos à oligopolização em vez de exigirmos inovação e incremento de produtividade.

Sim, difícil de fazer. Depende de um grande programa de um governo que dê prioridade ao assunto, e não apenas melhore a situação do ministério ou da ciência básica.

Oito ou oitenta - DORA KRAMER

O ESTADO DE S. PAULO - 17/02
A ex-senadora Marina Silva quer concorrer à Presidência da República em 2014 e, para isso, se propõe a criar um partido que seja diferente de todos os outros.

Saiu do PT e do governo Lula por preferir "perder o pescoço a perder o juízo". Concorreu em 2010 pelo PV, conseguiu 20 milhões de votos, mas não teve uma boa experiência partidária: retirou-se para não se submeter às normas do pragmatismo dos donos do feudo "verde", em nada diferentes dos caciques das demais legendas.

Até aí, ponto para ela. É preciso mesmo dar uma sacudida nos meios e modos de se fazer política no Brasil. É necessário ousadia; uma boa dose de rebeldia não faz mal a ninguém nesse cenário de conformismo e está mais do que na hora de aparecer alguém disposto a nadar contra a corrente, falando a linguagem da inovação.

A questão é que o conjunto de boas intenções precisa também fazer sentido, estabelecer alguns acertos com os dados de realidade para não correr o risco de se circunscrever ao mundo das boas idéias carentes de condições objetivas para se materializar.

E aí começam os problemas da ex-senadora, com declarada intenção de reunir "sonháticos" para abrir um espaço de participação de atuação que integre a sociedade à atividade política e permita a "participação direta do cidadão".

A não ser que da reunião de ontem tenha saído uma proposta clara de condução de um processo de mudança mediante métodos exeqüíveis, o que se tem até agora é um conjunto de sugestões triviais sem grandes efeitos práticos.

Não se trata de defender que o novo partido siga as normas do pragmatismo exacerbado adotado pelo ex-prefeito Gilberto Kassab na criação do PSD: um partido aberto a quaisquer tipos de alianças, as mais díspares, disponível a ofertas e demandas para o que der e vier.

Para falar apenas das legendas mais recentes, do "oito" representado pelo PSD na escala de extremos, o partido de Marina Silva vai ao "oitenta", sem por enquanto se apresentar como um meio-termo entre o pragmatismo rasteiro e o idealismo utópico que tanto afastam política e sociedade.

As dificuldades do novo partido se expressam na resistência dos políticos a aderir. Por enquanto há muita solidariedade e pouca disposição de embarcar nessa canoa.

Para início de conversa, há a atmosfera de personalismo. A ex-senadora passou os últimos dois anos sem fazer gestos efetivos para agregar aliados e trabalhar de fato para alterar a correlação de forças políticas vigente.

Transitou como quem o faz do patamar dos que se colocam acima do bem e do mal e agora lança um partido com o propósito de sustentar uma candidatura. Isso cria insegurança nos políticos que dependem de visibilidade e espaço.

O mais fácil na trajetória da nova legenda, que já rejeita a denominação de "partido", parece ser a coleta das 500 mil assinaturas exigidas pela Justiça Eleitoral, justamente porque a idéia genérica do "algo novo"é atraente.

O mais difícil será tirar a idéia do papel. Os simpatizantes consideram excêntricas exigências como a limitação de 16 anos de mandato para parlamentares e realização de plebiscito daqui a 20 anos para decidir pela extinção ou continuidade da agremiação.

A reserva de 30% de vagas para candidaturas avulsas não pode ser considerada inusitada, mas no momento é ilegal: só existe na legislação brasileira afigura do candidato com filiação partidária. Daí a decisão da Justiça de que os mandatos pertencem aos partidos.

Tudo isso soa bonito, assim como a proibição de doações de empresas não comprometidas coma "sustentabilidade". Mas como nenhum desses pontos toca de fato nas feridas de um sistema eleitoral falido, soa também superficial, o que subtrai do novo partido substância para se apresentar como fator de real inovação.

Visão social - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 17/02
Um dos temas mais interessantes do debate promovido pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso em torno da atualidade do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) diante da crise financeira que se abate sobre o mundo desde 1998 foi o destaque dado ao lado social de suas teorias, ressaltado pelo ex-ministro Delfim Netto e por Julio Gomes de Almeida, professor da Unicamp.
Primeiro secretário de política econômica do ministro Guido Mantega, ele foi o orientador da tese de doutorado do economista José Roberto Affonso, cujo primeiro capítulo deu origem ao livro "Keynes, crise e política fiscal", que estava em discussão. O Instituto Fernando Henrique Cardoso colocou no YouTube ( http://bit.ly/YweALT ) somente agora uma edição do debate, que foi fechado a um grupo reduzido de economistas.

Gomes de Almeida citou três pontos que considera essenciais para entender a teoria de Keynes: a socialização dos investimentos, com o Estado como indutor; a redistribuição de renda a partir da tributação e a eutanásia do rentista, isto é, fazer com que seja muito difícil viver de sua renda passada e não do seu trabalho. Para Delfim Netto, o resumo seria a busca de uma sociedade mais igualitária, mais preocupada com o bem-estar do cidadão.

"Essas coisas estão lá em Keynes com bastante clareza. Todo mundo tinha que partir do mesmo ponto, uma sociedade de igualdade de oportunidades absoluta. Ele era democrata e republicano", ressaltou.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou que o contexto em que essas teses foram defendidas era "a formação do estado social, depois da guerra", e que esse ideal "surge toda vez que vem uma tragédia, como agora". Para ele, "uma utopia inalcançável, mas que é bom que exista para você tentar se aproximar do modelo ideal".

Delfim lembrou que esses princípios estão na nossa Constituição, e funcionando. "As instituições são cada vez mais fortes", segundo Delfim. Ele e Fernando Henrique concordaram que a nossa "é uma boa Constituição, tem lá todo esse ideal igualitário", inclusive a preocupação com o direito à saúde e à educação, "que é o que ela tem de melhor", na opinião de Fernando Henrique.

O cientista político Sérgio Fausto colocou a discussão num plano mais ligado à nossa realidade atual do investimento público, lembrando as dificuldades operacionais; questões de controle democrático do investimento, como a questão ambiental, e perguntou como é possível ir desamarrando esses investimentos públicos. O economista Roberto Macedo expressou um ceticismo absoluto, inclusive sobre a utilização de parcerias público-privadas, as PPPs.

Delfim disse que as críticas às privatizações são equivocadas porque as taxas de retorno hoje consideradas absurdas só existiram porque o risco Brasil naquela ocasião era de 1.400 pontos, e hoje é de 100 pontos. José Roberto Affonso lembrou que o Keynes original defende que situações distintas recebam tratamentos distintos, e que a participação do Estado em situações de grande depressão é para evitar que a situação piore; não é o Estado que vai conseguir tirar o país da recessão.

Para Fernando Henrique Cardoso, o capitalismo sempre vai ter crise, e por isso o Estado tem que estar presente. O que se discute é que tipo de atuação. O ex-ministro Delfim Netto, com sua veia sarcástica ativa naquele dia, disse que tanto Keynes quanto Marx "tiveram o destino de sofrer na mão dos marxistas e dos keynesianos. Se os dois pudessem matar todos os seus seguidores, acho que fariam isso com grande satisfação".

Para ele, o que Keynes disse foi que "quando o mundo muda, eu mudo". O problema a que Keynes se refere é o da confiança, resume Delfim. "Todo nosso sistema, nossas convenções, estão baseados na confiança. É o que controla tudo". Para Delfim, ninguém inventou a economia de mercado. O homem saiu da África há milhares de anos e foi procurando meios de construir sua própria subsistência, que combinasse com um pouco de liberdade. Para ele, "o homem não nasceu para trabalhar, e tem que encontrar um jeito de viver sua humanidade. A intenção do Keynes é encurtar o tempo do trabalho para liberar o sujeito para viver sua vida". Por isso, foi um defensor do sistema de proteção social - desde o seguro para o desempregado até a aposentadoria.

Cair na rede - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 17/02

Movimento de Marina pode sistematizar a repulsa intuitiva do eleitor a tudo que leva o nome de partido


Dê no que der como resultado eleitoral, o movimento que Marina Silva começa para constituir um partido seu na disputa pela Presidência tende a cumprir um papel político e social de muita utilidade. A ideia de denominá-lo Rede já é sugestiva, nem tanto por sugerir internet, mas pela identificação com a repulsa tão difundida a tudo que leve o nome de partido.

Difuso e confuso, o movimento até já existe na população. Existe como opinião intuitiva e generalizada a respeito do desregramento vigente no Congresso, das chantagens partidárias por cargos, da dinheirama nas eleições, da corrupção generalizada, e de tanto mais. Existe, em suma, muito mais emocional do que racional, como um sentimento de traição dos políticos, assim vistos quase sem o reconhecimento das exceções.

Os princípios preliminares do regimento da Rede são satisfações dadas à opinião pública desencantada. Representam os desejos de restrição a determinados doadores de campanhas políticas, limitação do número de mandatos de um parlamentar, fidelidade dos seus políticos às posições básicas do programa partidário, renúncia ao mandato parlamentar caso aceite cargo em governo, e por aí vai.

Marina Silva tem audiência no país todo. Apesar da base partidária mínima, sua candidatura à Presidência em 2010 foi encorpada por cerca de um quinto dos votos totais. Com a já iniciada organização de ideias e propostas, a pregação da Rede para constituir-se e, se obtido o registro, para a campanha eleitoral, pode transmitir ao eleitorado alguma dose de sistematização, digamos, de racionalidade ao que até agora não passa de uma força emocional caótica e sem proveito.

O PT cumpriu essa função em vários segmentos sociais, mas deixou de cumpri-las. O PSDB nasceu com o projeto de tal função, mas se descaracterizou depressa. Não falta quem possa cair na Rede.

UM HOMEM DE BEM

Todos os que desejaram a vitória da oposição em 1985, resultante na eleição de Tancredo Neves, têm uma dívida de gratidão com Fernando Lyra. Foi o grande artífice político, desde os primeiros passos, daquela consagração do sonho de democracia sobre a vocação de ditadura.

Morto na quinta-feira, ao fim de longas e sucessivas doenças, Fernando Lyra só pôde cumprir seu enorme papel histórico em razão de duas características pessoais: a acuidade incomparável para a interpretação política, exposta sempre com brilho fascinante, e a integridade moral.

Deputado de repetidas legislaturas, ministro da Justiça no governo composto por Tancredo e encampado por José Sarney, Fernando Lyra afastou-se do centro da política no final dos anos 90. Muito por desencanto.

LATINA

A frase "Antes que o ano [2012] findasse, Bento 16 e a Cúria Romana restabeleceram o uso do latim", no artigo de quinta passada, gerou algumas estranhezas, a propósito de missa em latim desde 2007. Bem, não só de missas se fazem o catolicismo e o latim. A liberação de missa nessa obscuridade idiomática, já praticada pela oposição que o cardeal francês Lefèvre liderou contra o Concílio Vaticano 2 e o papa João 23, foi complementada pela criação, no final do ano passado, da Academia Pontifícia para o Uso do Latim. Como "idioma da Igreja Católica Apostólica Romana".

Daí, por exemplo, e exemplo definitivo, que Bento 16 comunicasse em latim a sua renúncia. Para aturdimento de muitos doutores da Igreja, que devem voltar aos bancos escolares para aprender seu idioma exclusivo.

Governos espetaculares fazem espetáculos - ELIO GASPARI

O GLOBO - 17/02

Desde o ano passado, o semiárido nordestino atravessa uma grave seca. Na Bahia, em Sergipe, Alagoas e no Maranhão, 75% dos municípios estão em estado de emergência. No Ceará, são 177 em 184. Lá, as chuvas do ano passado ficaram em metade da média habitual e neste ano estão abaixo do terço (55,1 milímetros contra 161,8). Há 136 municípios dependendo de carros-pipa para atender perto de um milhão de pessoas. Em algumas cidades, as escolas dependem do socorro de vizinhos.

Os investimentos feitos na região mostraram-se insuficientes para enfrentar uma calamidade natural que, segundo os meteorologistas, tende a se agravar. Estima-se que as chuvas deste ano serão poucas.

A mais vistosa ação do governo federal tem sido um filme de um minuto que a Secom botou nas televisões da região. Nele, Chambinho do Acordeon, feliz e sorridente, anda pela caatinga informando que "a seca sempre vai existir, mas o sertanejo vai poder se defender cada vez mais dela". Cantando louvores aos investimentos feitos pelo governo, informa que "o sertanejo é um cabra forte, só precisa de apoio, e vai ter cada vez mais".

Os sertanejos que estão sem o abastecimento de carros-pipa não precisam de propaganda. O que lhes falta é água. Esse tipo de marquetagem no meio de uma seca chega a ser deboche. Para falar sério, o aparelho de autoglorificação da doutora Dilma deveria anunciar, ao fim de cada clipe, quanto gastou na marquetagem e quantos carros-pipa ela pagaria.

Durante a seca de 1998, Lula visitou o interior do Ceará acompanhado de José Genoino, cuja família morava em Jaguaruana. Culpou a desatenção dos tucanos e prometeu rios de mel. Nas palavras de Nosso Guia: "O sofrimento do povo nordestino só vai acabar no dia em que a gente tiver políticas de investimento para tornar esta terra produtiva. E essas políticas, o PT tem". Qual era? "O Fernando Henrique veio ao Ceará na campanha de 1994 e prometeu transpor as águas do Rio São Francisco. Mas até agora não trouxe sequer um copo de água. Ele foi mentiroso e vai mentir de novo prometendo a obra para ganhar voto". Em 2003, eleito, Lula prometeu: "Nesses quatro anos, 24 horas por dia serão dedicadas para fazer aquilo em que acredito: a transposição das águas do Rio São Francisco". Ficou oito anos, a doutora Dilma juntou mais dois, e depois de dez anos o "copo de água" ainda não apareceu.

A opção preferencial dos governos pela propaganda e pelos espetáculos criou um novo estilo de administração e, nele, o governador do Ceará, Cid Gomes, tem se revelado um talento à altura de Steven Spielberg. No ano passado, a Viúva entrou com boa parte do custo da festa de inauguração de um centro de convenções abrilhantado pelo tenor espanhol Placido Domingo. A tertúlia custou R$ 3,1 milhões e alegrou três mil convidados.

Até aí tudo bem, pois de fato havia um centro de convenções. Em janeiro passado, ele pagou um cachê de R$ 650 mil à cantora Ivete Sangalo para lustrar a inauguração do Hospital Regional Euclides Ferreira Gomes, em Sobral, berço político de sua família desde a proclamação da República. Cadê o hospital? Houvera o show, o prédio estava pronto, mas não havia funcionários. Até hoje, ele funciona como posto de saúde, só com consultas e raios X. Hospital mesmo, só em maio.

Assim como a Secom poderia investir em carros-pipa o que gasta em propaganda, Cid Gomes poderia ao menos fazer a caridade de só patrocinar shows quanto tiver serviço para entregar.


Joesley da JBS-Friboi e Warren Buffett

Outro dia, o empresário Joesley Batista, controlador do grupo JBS-Friboi, disse que pretende transformar sua empresa numa similar da Berkshire Hathaway, do americano Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo, com US$ 46 bilhões no cofrinho.

Associado a executivos bilionários brasileiros, o "mago de Omaha" acaba de oferecer US$ 24 bilhões pela fabricante de molhos Heinz, a mais famosa marca do gênero no mundo. Se o doutor Joesley quer seguir o caminho de Buffett, alguém precisa aconselhá-lo a conhecer a vida de seu modelo.

Em outubro passado, ao casar-se, ele jogou uma bolsa Chanel para as convidadas. Já o bilionário Buffett comprou o anel de casamento de sua segunda mulher numa loja que lhe dava direito a desconto, fez uma cerimônia de 15 minutos e foi jantar num restaurante.

Joesley colocou na presidência do conselho consultivo da JBS o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Com Buffett ocorre o contrário; são os presidentes dos Estados Unidos e do Fed que se aconselham com ele. Tomando dinheiro emprestado no BNDES, a JBS deu-lhe um prejuízo escritural de R$ 2,2 bilhões. Buffett não tem BNDES a quem pedir dinheiro e na crise de 2008 socorreu o banco Goldman Sachs, investindo nele US$ 5 bilhões. Parece ter ganhado um bom dinheiro.

Em 2012, o grupo JBS doou R$ 16 milhões a partidos políticos numa eleição municipal. Aos 82 anos, Buffett nunca desembolsou semelhante quantia no patrocínio de políticos, mas assumiu o compromisso de doar metade de sua fortuna para atividades sociais.


Precaução

O chanceler Antonio Patriota trabalha com a ideia de que seu prazo de validade expira ao final do mandato da doutora Dilma.


Recordar é viver

Um curioso achou uma breve declaração de Nosso Guia num depoimento a Ronaldo Costa Couto, publicado em seu livro "História indiscreta da ditadura e da abertura".
Em 1989 Lula dizia o seguinte: "E depois tem outra coisa: o medo de largar o poder. As pessoas gostam do poder. O poder é uma coisa muito filha da puta. As pessoas dizem que estão cansadas, que estão velhas, que trabalham muito, mas ninguém larga o poder. E eu acho que os militares gostaram do poder."

Os militares chegavam ao poder sem voto. Lula e seus postes ocupam-no pela vontade popular, mas nenhum general meteu-se no governo de seu sucessor nem tentou voltar à Presidência.


Boa notícia

Se Deus é brasileiro, a Comissão da Verdade trabalhará em silêncio.

Seu último surto exibicionista só ocorreu porque decidiu-se evitar a renúncia pública de um de seus membros.


Palpite

Um conhecedor da política do Vaticano capaz de dizer, há seis meses, que Bento XVI poderia renunciar terminou a semana esperançoso.

O cardeal Oscar Maradiaga, de Honduras, entrou na lista dos dez favoritos em duas bolsas de apostas. Isso não quer dizer nada, mas para quem se entristeceu durante o pontificado de Joseph Ratzinger, permite ao menos algumas semanas de torcida.

Como não se fazem mais - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 17/02

BRASÍLIA - De uma família abastada de Caruaru (PE), Fernando Lyra poderia ter sido empresário, advogado rico ou viver dos louros e lucros da companhia do pai. Não só optou pela política como desdenhou o conforto da Arena e aderiu com paixão ao MDB.

Ele, aliás, sempre foi um apaixonado. Foi assim que articulou o Grupo Autêntico do MDB, num momento em que o regime só autorizava o bipartidarismo, o sim ou não. Quis o não de fato, aguerrido, foi além do não de fachada, consentido.

Lutou ao lado de grandes nomes -como Alencar Furtado, Francisco Pinto e Lysâneas Maciel, cassados pelo regime-, aproveitando brechas como a anticandidatura de Ulysses Guimarães nos anos 1970 e as Diretas-Já, na década seguinte.

Bacharel formado em Caruaru, o forte de Fernando Lyra nunca foi a teoria, mas a prática. Tinha uma inteligência política rara, aliada a uma simpatia pessoal que abria portas e foi de grande utilidade ao construir pontes e definir alianças.

Derrotadas as diretas, em 1984, dedicou a paixão ao plano B: a eleição indireta de Tancredo Neves. Os "autênticos" torciam o nariz, mas ele soube digerir a realidade: a oposição não teria chance com um adversário frontal dos militares, como Ulysses, mas, sim, com um moderado que unisse a oposição e atraísse os dissidentes do regime. Alguém melhor do que a raposa mineira do antigo PSD? Impossível.

A Fernando Lyra coube seduzir a esquerda, o que lhe valeu o Ministério da Justiça da Nova República. Acabou com a censura (seu grande orgulho) e deixou para a história uma definição impecável do velho adversário e então seu chefe, José Sarney: "a vanguarda do atraso".

Assim como enfrentou os militares sem ser cassado e aderiu a Tancredo sem deixar de ser autêntico, Fernando Lyra sobreviveu 35 anos a um infarto, sem perder a inteligência política, a paixão e a simpatia. Ótimo político, grande figura.

O hambúrguer das cavalgaduras - CARLOS ALBERTO DÓRIA

O ESTADO DE S. PAULO - 17/02

A alimentação humana é sempre assunto contraditório, pois os homens não possuem valores uniformes em relação ao que comem. Dessa perspectiva, o "escândalo" sobre o consumo involuntário de carne de cavalo pelos europeus possui ao menos dois aspectos dignos de nota. O primeiro diz respeito à credibilidade dos produtos da indústria. Por que deveríamos acreditar cegamente nela se, está provado, nos engana? O segundo remete ao arranhão que provocou no padrão cultural de carne que o Ocidente consome. Boi é para comer; cavalo, para esportes.

A primeira grande suspeição em relação à carne industrial surgiu por ocasião da chamada "crise da vaca louca", em 1986, na Inglaterra. Apesar de a doença ter sido detectada entre carneiros nos EUA, em 1947, ela só foi verificada em humanos na Nova Guiné, em 1955, valendo um Nobel de medicina a Daniel Gajdusek, em 1976, por descobrir a causa da encefalopatia no consumo de cérebros e vísceras, conforme ritos funerários canibais. Ora, como não nos consideramos canibais, o problema parecia distante. Apesar do conhecimento do que produzia a encefalopatia, a grande indústria da carne não renunciou a cérebros e vísceras na ração bovina, obrigando-os a um canibalismo contrário a sua natureza herbívora. Só com a epidemia no rebanho britânico é que, em 1988, o governo proibiu a utilização de farinha animal na ração.

Mas o estrago já estava feito. A repercussão planetária de um "problema veterinário" colocava o consumidor à mercê de um risco insuportável. E até hoje, inclusive entre nós, floresce uma próspera indústria de rações que formula sem transparência a alimentação de bois, aves ou peixes - ministrando restos orgânicos de um gênero ao outro, o que, hipoteticamente, poderia produzir uma contaminação cruzada. Num certo sentido, como disse o antropólogo Lévi-Strauss, somos, sim, todos canibais; ao menos se considerarmos que, nos tempos bíblicos, homens e animais eram irmanados e só depois da Arca de Noé é que começamos a comer nossos semelhantes. E, se nos comemos uns aos outros, é claro que um só destino se desenha no horizonte. Afinal, como diz o mantra dos gourmets, "somos o que comemos".

A importância da vaca louca foi a transcendência que a crise adquiriu. A partir daquela epidemia houve enorme retração do consumo de carne e surgiram ONGs a exigir dos governos perfeita transparência nas transformações ocorridas na cadeia que liga o campo à gôndola dos supermercados. O vegetarianismo cresceu como ideologia alimentar e se multiplicaram as certificações de produções "bio", "naturais", ou "orgânicos". A rastreabilidade da produção tornou-se um novo dogma do comércio.

Agora, a descoberta da carne de cavalo em produtos da indústria mostra a quebra de confiança nos padrões atuais de rastreabilidade, construídos a duras penas. Os governos, que em última instância são seus garantidores, foram postos em xeque e será necessário jogar às feras alguns expoentes da indústria, como o Food Group ABP, cujos tentáculos na Irlanda iniciaram essa nova crise. Além disso, imporão aos produtos o teste de DNA, essa verdade moderna vulgarizada por séries como CSI, para desvendar crimes.

As razões para esses desvios da norma desejada são sempre as margens de lucro que propiciam num mercado duramente concorrencial. Inócuas etiquetas quantitativas nutricionais nos revelam muito pouco do que atualmente interessa ao consumidor: a qualidade do produto. E o que temos de fato dentro de uma mortadela, uma salsicha ou um hambúrguer? Tínhamos a confiança cega de que a indústria zelava por nós. Entende-se, portanto, por que a sociedade reage utilizando o termo "falsificação", como se descobrisse uma traição imperdoável, urdida nas altas rodas das finanças e gabinetes governamentais.

O próprio juízo sobre a indústria não escapa às vicissitudes históricas. Quando, em 1869, o químico francês Mège-Mouriès aplicou a saponificação para produzir manteiga diretamente da gordura dos bovinos - a prosaica margarina - o agro francês se levantou em pé de guerra taxando a descoberta de "falsificação". A manteiga "falsa" levou anos para encontrar seu lugar no mercado, num percurso cheio de compromissos que incluiu a produção da beurrine - composto misto de manteiga e margarina. Hoje se sabe, a lei das fraudes e falsificações francesa, de 1851, veio à luz justamente para barrar o avanço da indústria sobre a produção rural tradicional. E essa "beurrine" moderna, mix de carne bovina e equina, não está muito distante desse quadro de competição entre produtores, sempre tentados a adotar soluções mais baratas, moendo cavalos imprestáveis.

No entanto, numa dimensão mais profunda, não estamos dispostos a conceder que qualquer carne seja admissível na nossa dieta. Apesar de se ver carne de cavalo à venda em açougues franceses e italianos, não são todos os consumidores que consideram esse produto comestível. Assim, o "direito de escolha" também foi violado de maneira grave.

Nos repugna que certos povos possam comer cães - esses pets tão maravilhosos que vêm num longo processo de "humanização" no Ocidente (que começa com a designação "he" ou "she" para seres que, antes, eram "it") até culminar na "Declaração Universal dos Direitos dos Animais" (Unesco, 1978), que praticamente os considera membros da família humana. A velha noção de canibalismo perturba nosso espírito quando descobrimos um animal de espécie próxima (doméstica) ou distante (selvagem) sendo comida. Proíbe-se a caça e, de quebra, exige-se tratamento humanitário para os animas de abate; não é à toa que os antigos matadouros foram rebatizados como frigoríficos, substituindo a consciência do sangue e do sacrifício pela imagem da rigidez cadavérica.

Por outro lado, num estudo desbravador, o historiador norte-americano Warren Belasco mostra como, no Ocidente, comer carne bovina se tornou sinônimo de "civilizado". Apesar da diferença de dietas dos povos, mesmo a FAO, em seus diagnósticos sobre a fome no mundo, apontava déficits graves de nutrição nas civilizações milenares da China e da Índia pelo baixo consumo de carne bovina. Mas sem esse mito ocidental do século 19 não compreenderíamos a expansão do faroeste norte-americano nem a ocupação dos pampas argentinos. E foi a invenção dos navios frigoríficos que permitiu, a partir de 1880, à frozen meat cruzar o oceano em direção às mesas europeias.

Ora, todo traço alimentar serve para identificar os povos e estabelecer suas fronteiras culturais. A identidade repousa na cor da pele, na língua, nos hábitos alimentares. Somos "comedores de bois", não de cavalos, nem de formigas ou porquinhos-da-índia. Além disso, os cavalos trazem à memória outros fatos históricos. Durante muito tempo foram signos de distinção da aristocracia; em guerras não tão distantes, aqueles que admiravam essa nobreza do cavalo foram obrigados a comê-los para não morrer de fome. A carga cultural do cavalo reforça a primazia da carne de boi à mesa. Nós, brasileiros, comemos boi sob a forma de "bife a cavalo", numa alegoria culinária que nos lembra de que esse animal é para ser montado, nem que seja por um reles ovo frito.

A chamada "angústia alimentar moderna" - a certeza de que não sabemos o que comemos - aviva-se agora no cotidiano europeu por conta da "fraude" na composição de hambúrgueres, kebabs e lasanhas. Por enquanto, nada que não seja relativamente comestível, nada que esteja contaminado, mas a abertura da "caixa-preta" certamente trará novas revelações. Enquanto isso, a Europa se escandaliza com a clara ruptura de um padrão alimentar, histórico e consagrado, por uma sórdida estratégia de capitalistas gananciosos.

Que defesa pode haver contra isso? Seguramente um impulso grande em direção à comida tradicional de "terroir", ao "locavorismo" e outras propostas que aproximam o consumidor do universo dos produtores. Uma bela utopia que esteve à espera da confirmação de que a indústria, infelizmente, não merece a confiança cega que nela depositamos há séculos, quando nos prometia um futuro radioso. Uma ruralidade mais próxima - ainda que meramente alimentar - poderá avançar nos interstícios de um mundo que se quer pós-moderno.

Fica tudo como está... - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 17/02
Na manhã de sexta-feira, em entrevista a jornalistas brasileiros em Moscou, onde se encontrava para participar da reunião dos líderes do Grupo dos Vinte (G-20), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez nova declaração surpreendente.

Disse que "são os juros, e não o câmbio, o principal instrumento de controle da inflação no Brasil". O surpreendente não é o conteúdo da afirmação, porque é exatamente isso que se espera da política de juros. Surpreendente é quem a fez e os motivos que o levaram a fazê-la.

As questões de fundo são sobejamente conhecidas: a inflação no Brasil mudou de patamar e agora paira acima dos 6% ao ano; o Banco Central vem repetindo em seus documentos que, tão cedo, não pretende usar sua política de juros (política monetária) para domar os preços; e, meses depois de ter puxado as cotações do dólar para a altura dos R$ 2,10, reconhecidamente para dar mais competitividade à indústria, o Banco Central pareceu ter alterado o objetivo do câmbio, passando a usá-lo mais para combater a inflação. (O impacto anti-inflacionário do câmbio se dá quando há redução das cotações do dólar em moeda nacional - valorização cambial -, que contribui para derrubar os preços dos produtos importados.)

As novas declarações do ministro Mantega passam a impressão de que o governo brasileiro não sabe o que quer. Não sabe se aciona o câmbio para dar prioridade ao incremento da competitividade à indústria ou se para o controle da inflação. Por outro lado, também não sabe se a derrubada dos juros básicos (Selic) é uma decisão sem retorno ou se, a qualquer momento, pode ser revertida para reconduzir para a meta a inflação que se acerca perigosamente do teto.

Outra hipótese é a de que a episódica divergência entre Fazenda e Banco Central possa ter se acirrado, a ponto do ministro Mantega ter desautorizado o uso do câmbio para combater a inflação. Mas, caso seja assim, como explicar a decisão tomada sexta-feira pelo Banco Central, de voltar a recomprar dólares no câmbio interno para impedir novas baixas da moeda estrangeira e, assim, atuar na direção apontada por Mantega?

Mais complicado é tentar explicar o que de fato pretende o governo. O nível de tolerância com a inflação inegavelmente cresceu. Tanto o Banco Central como o resto do governo Dilma parecem conformados tanto com a sucessão de pibinhos como com essa inflação acima dos 6,0% ao ano - aparentemente, os índices de aprovação popular do governo Dilma seguem elevados.

Uma das possibilidades é que o Banco Central volte atrás no que escreveu e se disponha novamente a puxar pelos juros. Caso isso se confirme, ainda será preciso saber se essa decisão será para valer. Se for, os juros seriam acionados até que a inflação volte para os trilhos. Mas, se o que se pretende for somente um efeito cosmético, destinado a agir temporariamente sobre as expectativas, será somente um jeito de ganhar tempo, sabe-se lá para quê.

De todo modo, as condições dos fundamentos da economia brasileira seguem em deterioração, mas não a ponto de provocar uma ruptura no atual arranjo. E, ao que tudo indica, é o que basta para que tudo permaneça mais ou menos como está. Até quando? Até (ou se) um choque qualquer desequilibrar tudo e for preciso rever as coisas.

Direitos com deveres - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 17/02

Em seu discurso do Estado da União, o presidente Barack Obama levantou três questões fundamentais para um governante: como criar mais emprego via crescimento econômico, como treinar adequadamente os trabalhadores e como assegurar que o trabalho bem executado resulte em bom padrão de vida.

São questões inter-relacionadas: o crescimento é diretamente correlacionado ao aumento da produtividade, que é correlacionado à melhora da educação, e esses dois fatores levam ao aumento de salários e do padrão de vida. As sociedades com modelos de crescimento bem-sucedidos são as que equilibram esses três fatores básicos.

A China privilegiou de forma radical o primeiro objetivo, crescer e gerar empregos. Depois, investiu fortemente em educação e treinamento, o segundo objetivo. Mas adotou como política a baixa remuneração e os poucos benefícios, visando elevar a competitividade exportadora e reduzir custos. As exportações cresceram exponencialmente, porém com padrão de vida relativamente baixo para a maioria dos chineses.

Países do sul da Europa adotaram outro sistema, baseado no acesso ao crédito barato da zona do euro. Investiram muito no aumento do padrão de vida, elevando benefícios, salários e proteção social, e descuidaram da competitividade.

Esses dois modelos atingiram o limite e estão se transformando. A China enfrentou as limitações do modelo exportador depois de a crise global derrubar a demanda por seus produtos. Mas ela já estava no momento de perseguir o terceiro objetivo, o aumento do padrão de vida, que eleva o consumo doméstico e substitui parcialmente as exportações. A China, portanto, move-se para um modelo mais equilibrado entre produtividade, treinamento e remuneração, com o fortalecimento do consumo.

Já países do sul da Europa adotam políticas rigorosas de restrição de benefícios e salários, investindo em produtividade, redução de custos e competitividade.

Todos são movimentos permeados pela grande dualidade entre direitos e deveres da sociedade, de difícil equilíbrio. Enquanto tivemos na Europa, principalmente no sul, grande ênfase nos direitos dos cidadãos, na China vimos ênfase excessiva nos deveres.

O Brasil busca, hoje, esse equilíbrio. O sistema econômico concentrador da década de 1970 evoluiu, pelo processo democrático, para a chamada "Constituição cidadã", que assegura uma série de direitos e benefícios ao cidadão. O momento, agora, é de investir na produtividade, que passa, entre outras coisas, pela maior ênfase nos deveres de cada um para com a sociedade, principalmente o de trabalhar com mais produtividade para assegurar renda maior.

Os sem-rumo - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 17/02

O Brasil está precisando fazer uma revisão da sua política econômica e dizer como pretende atingir seus objetivos e quais são eles. Vários países estão tentando sair da crise do baixo crescimento apostando em aumento de produtividade e inovação. O Brasil vem repetindo os mesmos erros e convivendo de forma condescendente com inflação e perda de dinamismo.

O vigoroso discurso do presidente Barack Obama na terça-feira foi seguido de atitudes: sua bancada no Congresso está se preparando para uma nova lei de taxação de gases de efeito estufa e o acordo transatlântico de comércio e investimento foi anunciado no dia seguinte. Partiu-se do anúncio à ação imediatamente.

O primeiro movimento é decorrente da convicção defendida pelo presidente de que a superseca no Meio-Oeste e o superfuracão Sandy do ano passado exigem mais atitude no combate às mudanças climáticas. O segundo intensifica os acordos comerciais para aumentar a criação de empregos e elevar os fluxos de comércio.

No Brasil, enquanto isso, os empréstimos subsidiados do governo são distribuídos para empresas amigas para que elas sejam grandes. Não importa que práticas ambientais tenham ou que viabilidade financeira tenham. O jornal "Valor Econômico" de sexta-feira trouxe a confirmação: o BNDES não verá a cor dos R$ 750 milhões que depositou na LBR Lácteos Brasil, a gigante de leite que pretendia criar. A empresa deu entrada com um pedido de recuperação judicial e fará uma reestruturação. A nova companhia não será a gigante que se pretendia, os investidores, entre eles o BNDES, não recuperarão seu dinheiro, e os novos diretores dizem que tudo é culpa da estrutura tributária do país. Dizem que o governo deu isenção de PIS/Cofins na cadeia do leite, e eles ficaram com créditos de R$ 500 milhões a receber que não têm como descontar. Espanto que não se soubesse disso há um ano atrás quando o banco estatal apostava na sua nova criatura.

A história mostra que a megalomania do BNDES já trouxe prejuízos suficientes. Já era hora de mudar a estratégia. Quanto à Fazenda, em vez de sair distribuindo reduções de impostos aqui e acolá, deveria pôr em prática uma ampla reforma tributária. Obama anunciou que vai propor uma reforma tributária para aumentar a competitividade da economia. Aqui, nas crises recentes, o governo distribuiu reduções do IPI, elevou impostos sobre importados e incentivou bancos públicos a aumentarem a oferta de crédito. Com isso, melhorou as vendas temporariamente, reduziu a competição interna e elevou a inadimplência.

A inflação ronda o teto da meta apesar de o país ter crescido zero em termos per capita no ano passado. As medidas para enfrentá-la são postergar aumento de ônibus, reduzir taxação ocasional de imposto, evitar alta do dólar. A única medida que tem efeitos mais duradouros é a queda do preço da energia, que será em parte neutralizada pela manutenção das térmicas ligadas durante o ano.

O combate à inflação está precisando de um bom diagnóstico, ações permanentes e autonomia do Banco Central. Hoje, a impressão geral é que o BC não poderá elevar os juros se precisar. E essa ideia é confirmada cada vez que alguém do Ministério da Fazenda garante, como aconteceu muito nos últimos meses, que os juros não vão subir. Quem tem que julgar isso é o Copom, em reunião de seus membros. Amarrar as mãos do seu melhor lutador é um bom caminho para perder a briga. Os juros podem não subir, mas o que não pode acontecer é o BC ficar com reputação de ser o último a saber.


Congelamento populista de Cristina - SUELY CALDAS

O ESTADO DE S. PAULO - 17/02

O Brasil enfrentou dois congelamentos de preços aplicados a toda a economia: no governo Mediei, na década de 1970, e em 1986, com o Plano Cruzado, gestão Sarney. Nos anos 70, num ato de força (como de força era o regime político do País), o então ministro da Fazenda, Delfim Netto, decretou um congelamento por todos desrespeitado e que só serviu para falsificar os índices de inflação, corrigidos por Mario Henrique Simonsen no governo Geisel. Em 1986 a mesma equipe de economistas que, em 1994, arquitetou o bem-sucedido Plano Real falhou no Cruzado, justamente porque o congelamento não se sustentou e a inflação disparou. Ainda no governo Sarney e depois, no de Collor, outros planos econômicos (Cruzado 2, Bresser, Verão, Collor 1 e 2) recorreram a rápidos congelamentos, todos fracassados, desmoralizados e de vida curta. Há 19 anos, desde março de 1994, o Brasil vive estabilidade nos preços, aperfeiçoou seu sistema de controle da inflação, sem nenhum congelamento e com total liberdade de preços.

É grande a tentação do governante populista de congelar preços quando a inflação foge do controle e ameaça matar sua popularidade. Ele sabe que vai dar tudo errado e a inflação vai voltar com força redobrada. Mas, além de acreditar que congelamento provoca impacto popular positivo, ele quer ganhar tempo para tentar recuperar credibilidade política O Brasil parece ter-se vacinado contra esse artifício. Ao sinal de descontrole da inflação, como agora, o Banco Central age para revertê-lo. Mas los hermanos argentinos não aprenderam. Apesar de há mais de 40 anos, desde Juan Domingo Perón, o país acumular triste e longo histórico de fracassados congelamentos, a presidente Cristina Kirchner acaba de anunciar acordo com redes varejistas de supermercados e eletrodomésticos para congelar preços por dois meses, até 1º de abril.

A rejeição foi imediata, o impacto popular esperado converteu-se em descrença e reprovação. Até o aliado do governo Antônio Calo, líder metalúrgico e dirigente da Confederação Geral do Trabalho, criticou: "De que adianta fixar preços máximos se minha esposa vai ao supermercado e não encontra o produto?". Não demorou para o fantasma do desabastecimento novamente rondar os argentinos. E pior: a inflação não vai recuar; pelo contrário, tem tudo para explodir depois de abril. Eles sabem disso.

Congelar preços é método erradicado no múltiplo mundo globalizado e conectado na internet, pela absoluta incompatibilidade com este mundo, a inescapável ineficácia e total impossibilidade de controle. Para dar certo, seria preciso domesticar todos os setores da economia, não só o varejo de alimentos e eletrodomésticos. A começar pelos trabalhadores, que abririam mão de aumentos salariais; as tarifas públicas sem reajuste algum; a produção agrícola e industrial com preços parados; o comércio bancando o disciplinado bom moço; e até o preço dos importados teria de ser combinado lá fora. Seria como revogar a lei da oferta e da procura. Como respondeu Garrincha ao técnico de futebol Feola, que ensinava cada passe dos brasileiros para derrotar a Rússia: "Mas, seu Feola, tem também de combinar com os russos". Senão, não dá certo. Como o congelamento de Cristina.

Na semana passada a indústria de alimentos que fornece aos supermercados se reuniu e decidiu liberar as empresas para praticarem preços compatíveis com seus custos. Se fornecedores de insumos, tarifas de energia elétrica e combustíveis e salários dos empregados são reajustados, impossível manter os mesmos preços, argumentam empresários. E essa situação se espalha por toda a economia.

A popularidade de Cristina Kirchner desabou com o medíocre Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 1,9% em 2012 e uma inflação que avançou 25,6% e subiu 2,58% no mês passado. Cristina é pressionada por trabalhadores que reivindicam aumentos salariais entre 25% e 30%. Está ameaçada de expulsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) por falsificar índices de inflação. Jogou a cartada do congelamento, não deu certo. Entrou numa enrascada...

A revolução da oferta de trabalho - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 17/02

Parece que os cinco séculos de oferta elástica de trabalho estão ficando para o passado


É natural que as pessoas atribuam características excepcionais à época que vivem. Em geral pensamos que grandes transformações únicas na história da humanidade estão ocorrendo.

Muitas vezes esse sentimento de singularidade é acompanhado por certa dose de nostalgia com o passado, que sempre nos parece melhor sob alguma dimensão.

Hoje vou correr o risco de cair nessa armadilha e atribuir um papel excepcional na história da sociedade brasileira ao desenvolvimento que tem ocorrido na última década e meia no mercado de trabalho, apesar de não nutrir nenhuma nostalgia pelo nosso passado.

Parafraseando o ex-presidente Lula, é correto afirmar que nunca antes na história deste país tivemos oferta de trabalho inelástica. A recente inelasticidade da oferta de trabalho explica boa parcela da elevação dos salários, principalmente dos trabalhadores mais desqualificados e, portanto, explica boa parcela da melhora da recente queda na desigualdade.

Mas o que exatamente vem a ser a inelasticidade do mercado de trabalho? A oferta é elástica se responde muito a preços. Assim, a oferta de soja, por exemplo, é elástica se pequenas elevações dos preços induzirem grandes aumentos na quantidade produzida. E, simetricamente, se pequenas reduções dos preços induzirem grandes reduções nas quantidades produzidas.

Durante séculos fomos um país escravista. O escravismo torna a oferta de trabalho no longo prazo muito elástica. Isso porque o escravismo torna o trabalho um fator de produção reprodutível, como é o caso, hoje, do capital físico.

No escravismo, se houver elevação da rentabilidade do trabalho, os produtores aumentam sua demanda por importação de mão de obra escrava. A maior importação eleva o número de escravos até que a rentabilidade volte a cair.

No longo prazo, a rentabilidade do escravo tem que ser igual ao custo de compra do escravo no porto da África adicionado ao custo do transporte. Ou seja, independentemente da melhora técnica no escravismo, a rentabilidade de um escravo está fixada.

Qualquer melhora técnica que eleva a rentabilidade de um escravo redunda na elevação das importações. É nesse sentido que no escravismo a oferta de trabalho é elástica: a rentabilidade do escravo no longo prazo está fixada independentemente da tecnologia.

Quando terminou o escravismo, tivemos um período em que a importação de mão de obra imigrante tornava a oferta de trabalho elástica. Qualquer pressão por elevação dos salários era compensada pela alta da importação de imigrantes.

Quando o mundo se fechou para a imigração a partir dos anos 30 do século 20, o Brasil iniciou o processo conhecido por transição demográfica. A forte queda da mortalidade a partir dos anos 30 a partir de valores muito elevados sem que houvesse simultaneamente queda da natalidade fez com que a oferta de trabalho crescesse muito rapidamente.

Esse fenômeno foi potencializado, pois a sociedade brasileira enfrentou a transição demográfica sem universalizar a educação fundamental. Como existe forte relação entre a escolaridade dos indivíduos e a decisão reprodutiva, nossa decisão de não universalizar a educação fundamental naquele momento de nossa dinâmica demográfica aumentou muito a oferta de trabalho desqualificado.

Dessa forma, apesar de a oferta de trabalhadores deixar de responder a fatores puramente econômicos desde os anos 30, a dinâmica demográfica associada à decisão da sociedade de não universalizar a educação fundamental criou um fôlego de várias décadas a um modelo de desenvolvimento com oferta muita elástica de trabalho.

Parece que os cinco séculos de oferta elástica de trabalho estão ficando para o passado. Para nós, o século 21 já pode ser chamado do século da restrição de mão de obra.

Não será a solução para todos os nossos problemas e, em particular, não resolverá o problema da baixa produtividade da mão de obra, em grande medida fruto da baixa qualidade de nosso sistema educacional. Mas certamente ajudará e com certeza contribuirá muito para reduzir a desigualdade.

Quem viver verá.

O refino é parte da longa crise da Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 17/02

Empresas petrolíferas valem mais pelas reservas de óleo e gás - provadas e prováveis - que serão exploradas e assegurarão as receitas futuras do que pela capacidade de refino, que pode fortalecer suas receitas presentes, mas é pouco lucrativa. O que se constata no Brasil é que os investimentos em abastecimento, que inclui o refino, foram mal- sucedidos. Não acompanharam as projeções de demanda e ajudam a explicar o vultoso déficit decorrente da importação de derivados de petróleo, previsto para toda a década.

Entre 2006 e 2011, os investimentos da Petrobrás em abastecimento aumentaram cerca de 750%, de US$ 1,9 bilhão por ano para US$ 16,1 bilhões, enquanto os investimentos em exploração e produção cresceram menos de 200%, de US$ 7 bilhões para US$ 20,4 bilhões, segundo dados da estatal. Em 2011, a área de abastecimento da Petrobrás teve prejuízo operacional de US$ 14,5 bilhões. Entre 2011 e 2012, mais que dobrou o prejuízo líquido consolidado da área: de US$ 5,718 bilhões passou para US$ 11,718 bilhões, conforme os dados distribuídos pela empresa.

A capacidade de refino da Petrobrás é, hoje, da ordem de 2 milhões de barris/dia de petróleo, inferior ao consumo. "Estamos sempre correndo atrás do mercado", disse ao jornal Valor o diretor de Abastecimento da Petrobrás, José Carlos Cosenza. O déficit é estimado em 250 mil a 300 mil barris/dia e só tende a crescer. O aumento da eficiência das refinarias, da ordem de 5%, entre 2011 e 2012, só diminuiu a gravidade do problema.

Para eliminar o déficit entre produção e consumo, o Brasil depende da conclusão de refinarias em fase de construção. A Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, com capacidade de processar 230 mil barris/dia, só entrará em operação entre novembro de 2014 e maio de 2015; e o Comperj, com 165 mil barris/dia, em abril de 2015. Mas elas estão atrasadas, bem como os projetos de construção das Refinarias Premium I (600 mil barris/ dia, no Maranhão), Premium II (300 mil barris/dia, no Ceará) e a segunda etapa do Comperj (300 mil barris/ dia). O equilíbrio entre oferta e procura, estimadas em 3,6 milhões de barris/dia, foi transferido para 2022.

Com lucros em declínio, a Petrobrás está incumbida pelo governo de fazer mais do que pode. Seria mais fácil se a opção fosse atrair capitais para a exploração e a produção, com as regras antigas e mais flexíveis, que foram abolidas nas áreas do pré-sal.

O setor de petróleo depende de planejamento rigoroso para trabalhar com segurança. A situação do refino indica que isso não ocorreu.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O instrumento é o juro”
Ministro Guido Mantega (Fazenda) negando uso do dólar para controlar a inflação


ESCÂNDALO ENVOLVENDO MINISTRO AINDA É MISTÉRIO

Um anos após a denúncia de graves irregularidades, o Tribunal de Contas da União ainda aguarda que a Polícia Federal conclua investigação do escândalo do milionário projeto Jampa Digital, sistema de internet gratuita, sem fio, para toda a cidade de João Pessoa, inaugurado pelo ministro paraibano Aguinaldo Ribeiro (Cidades), em 2010. Sob suspeita de superfaturamento, o projeto previa também que a cidade seria monitorada por câmeras e escolas informatizadas.

COMISSÃO

O projeto Jampa Digital foi confiado à empresa Ideia Digital Sistemas, cujo representante admitiu pagar “de 5% a 10%” a quem a contratava.

ALÔ, GALERA

Aguinaldo Ribeiro era secretário de Ciência e Tecnologia quando anunciou “internet de graça pra toda a galera de João Pessoa”.

FANTÁSTICO

O escândalo e as suspeitas de superfaturamento foram revelados há quase um ano, em março de 2012, no programa Fantástico, da Globo.

FUI

O ministro Aguinaldo Ribeiro não foi encontrado. Sua assessoria diz que ele está em ferias até sexta (22), e não pode ser contatado.

EM TORONTO, ITAMARATY FEZ DO ASSÉDIO UMA PIZZA

O embaixador Américo Fontenelle se livrou em 2007 da acusação de insultar e humilhar subordinados, como a que responde hoje em Sidney (Austrália). Era cônsul-geral do Brasil em Toronto (Canadá) e, apesar da gravidade da denúncia e da contundência dos testemunhos, o corregedor do Itamaraty arquivou a sindicância. Ainda foi premiado com o posto em Sidney, onde é novamente acusado de assédio moral.

SOB PROTEÇÃO

Américo Fontenelle teria se livrar da sindicância de Toronto por suas ligações ao ex-ministro José Dirceu, a quem assessorou na Casa Civil.

PIZZARIA PATRIOTA

No Itamaraty, poucos apostam que resulte em punição as investigações instauradas contra Fontenelle e seu adjunto, Cezar Cidade, em Sidney.

GRACINHAS

O site da revista americana Forbes chama a Petrobras de “patinho feio” das petroleiras, mas não aponta quem é a “patinha feia” da empresa.

PTB COM EDUARDO

Réu condenado no mensalão, o presidente licenciado do PTB, Roberto Jefferson, acompanha com entusiasmo a consolidação da candidatura a presidente do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Ele tem mágoas do PSDB e não suporta o PT, daí...

PERSONA NON GRATA

O artigo 9 da Convenção de Viena prevê a declaração de persona non grata do embaixador que se meter em questões soberanas, como foi o caso do venezuelano Maximilien Arveláiz. Ninguém se mexe?

CONTRA CORRUPÇÃO

Diretora da Escola de Formação dos Magistrados, a ministra Eliana Calmon (STJ) assinará acordo de cooperação com o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Conselho Nacional de Justiça, para preparar juízes a combater e julgar com mais rapidez crimes de corrupção.

PAUTA COMUM

Os senadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Flexa Ribeiro (PSDB-PA) articulam para votar, logo após serem instaladas as comissões, o projeto que reformula a tributação sobre royalties da mineração.

CONSOLIDAÇÃO

A carteira política do senador Valdir Raupp (RO), presidente interino do PMDB, cresceu de significado: consolidou o posto de ligação mais estreita da cúpula do partido com o vice-presidente Michel Temer.

ROSE PERDE ESPAÇO

Isolada após disputar com Henrique Alves (PMDB-RN), a deputada Rose de Freitas (ES) não vai apitar mais nada na Câmara. No PMDB, a avaliação é que ela se queimou ao enfrentar Henrique, que a ajudou a alcançar a vice-presidência da Casa. Rose poderá deixar o partido.

MAL A PIOR

Militares de cidades onde não há hospital do Exército comemoram: o plano de saúde da Força encaminha aos melhores especialistas. Os outros colegas aguardam na fila de espera para serem atendidos.

NÃO É MOLE

Presidente do PEN, Adilson Barroso, não vê chance de a ex-senadora Marina Silva conseguir montar seu partido a tempo de disputar a Presidência em 2014: “Eu demorei cinco anos”.

MÃO DE DEUS

A Nasa informa: a ciência ainda não descobriu como desviar meteoritos para regiões com grande concentração de políticos corruptos.


PODER SEM PUDOR

A DONA DA VOZ

Interventor em Minas, Benedito Valadares era apaixonado pela voz melodiosa de uma locutora de Belo Horizonte, como lembra o escritor Petrônio Souza. Mas se a voz era bonita, a moça era feia de dar dó. Como a paixão é cega, os assessores de Valadares resolveram promover um encontro da locutora com o fã ilustre. Foi um desastre: ao ser apresentado à moça, no Lacmè, antigo "point" político e cultural da cidade, a paixão de Valadares parece ter entrado em estado de choque. Ele apenas balbuciou:

- É este fantasma que tem aquela voz maravilhosa?

A pobre locutora morreu com raiva do fã que preferia não tê-la conhecido.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Loucura atrás das grades- Brasil mantém doentes mentais presos ilegalmente
Folha: Parlamentar do Brasil é o segundo mais caro do mundo
Estadão: Renúncia abre crise e Vaticano planeja antecipar Conclave
Correio: Brasília, a capital do conhecimento
Zero Hora: De olho na reeleição, Dilma desenha reforma ministerial
Estado de Minas: A morte lenta do Velho Chico
Jornal do Commercio: Torcedor é baleado na entrada dos Aflitos

sábado, fevereiro 16, 2013

Bento XVI contra a cultura da morte - REINALDO AZEVEDO

REVISTA VEJA
Ao anunciar que deixará o pontificado no próximo dia 28, o papa Bento XVI tomou a mais ousada decisão na sua luta contra a cultura da morte e contra o relativismo, que hoje reivindicam o estatuto de um humanismo superior e que se infiltraram no seio da Igreja Católica. Em muitos aspectos, são os inimigos mais poderosos e articulados que ela jamais enfrentou. O sumo pontífice empenhado na preservação da "Cidade de Deus", para lembrar Santo Agostinho (354-430), de quem é admirador confesso, apelou à experiência do cardeal Joseph Ratzinger, um profundo conhecedor da "cidade dos homens", e agiu. O teólogo mais influente da Igreja nos últimos 35 anos pode, assim, articular a própria sucessão. Nos dias que se seguiram ao anúncio da decisão, o papa não disse boa parte do que lhe atribuíram e falou bem mais do que muitos perceberam. Ao renunciar, definiu um caminho. Você pode não acreditar em Deus, leitor. Mas evite o ridículo em que vejo cair muitos colegas, daqui e de fora, de não acreditar na clareza da Igreja.
Na Quarta-Feira de Cinzas, diante dos cardeais, Bento XVI censurou "os golpes dados contra a unidade da Igreja" e "as divisões no corpo eclesial". No trecho mais significativo de sua homília, a que se deu pouco destaque, citou o apóstolo Paulo: "Ele denuncia a hipocrisia religiosa, o comportamento que deseja aparecer, os hábitos que procuram o aplauso e a aprovação. O verdadeiro discípulo não serve a si mesmo nem ao público, mas a seu Senhor, na simplicidade e na generosidade". No dia seguinte, num encontro com sacerdotes da Diocese de Roma, conclamou: "Temos de trabalhar para a realização verdadeira do Concilio (Vaticano II) e para a verdadeira renovação da Igreja".
Os "golpes contra a unidade da Igreja" e as "divisões no corpo eclesial" não remetem às picuinhas de bastidores do Vaticano. E um erro ler a vida intelectual da Igreja como quem analisava as divisões internas do Kremlin, e analisa agora as do Palácio do Planalto ou da CBF. Não se está discutindo se, depois da disciplina bronca de Dunga, é chegada a hora da bonomia molenga de Mano Menezes... O catolicismo é um pouco mais complexo. Ao citar São Paulo e lembrar que "o verdadeiro discípulo não serve a si mesmo nem ao público, mas a seu Senhor", Bento XVI está afirmando o óbvio, freqüentemente esquecido até pela hierarquia religiosa, especialmente pelos partidários de cena "Escatologia da Libertação": para os católicos, a Igreja não é autora de uma verdade humana, submetida a uma permanente revisão, mas a depositária de uma verdade revelada por Deus, que é eterna.
A confusão só fez aumentar quando o papa afirmou ser preciso trabalhar para "a realização verdadeira do Concilio Vaticano II" e para "a verdadeira renovação da Igreja". Ignorou-se o adjetivo "verdadeiro", dito e reiterado, e se deu destaque à "renovação". Bento XVI estaria, assim, admitindo a própria obsolescência e a da instituição que dirige. O Concilio teve duas faces, a boa e a má. Com ele, o catolicismo buscou se abrir mais à experiência comunitária, um retorno às origens. Fez bem. É preciso radicalizar essa experiência. Mas se deixou infiltrar pelo proselitismo ideológico de esquerda, substituindo, especialmente nos anos 60 e 70, os Evangelhos por uma versão da luta de classes ainda mais primitiva do que a dos comunistas. Nos dias correntes, essa expressão particular do laicismo degenerou no que aqui se chama "cultura da morte", manifesta especialmente na defesa da legalização do aborto e da eutanásia e no relativismo, segundo o qual a verdade revelada por Cristo se iguala a outras tantas. Não para a Igreja. Não para os católicos. A "verdadeira renovação" de Bento XVI significa a reiteração de fundamentos que não são nem velhos nem reacionários, mas apenas eternos. Para quem crê, é evidente.
Decisão como essa não se toma de inopino, muito menos em solidão. Quando tornou pública a sua mensagem em homenagem ao Dia Mundial da Paz, em I o de janeiro, Bento XVI já tinha traçado o caminho da Igreja. E lá se lê com todas as letras e sem nenhuma ambiguidade  "Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autônoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem. A paz é construção em termos racionais e morais da convivência, fundando-a sobre um alicerce cuja medida não é criada pelo homem, mas por Deus".
Bento XVI é aquele que veio restaurar na cristandade contemporânea a convicção de que fé e razão podem conviver e se iluminar mutuamente, como já queria Santo Agostinho no século V, de quem o papa, na verdade, fez uma glosa. O chefe da Igreja reafirma a herança do Agostinho da maturidade, segundo quem a Divina Providência dotou o homem do livre-arbítrio - a "lei moral natural inscrita por Deus em nossa consciência". Ocorre que esse exercício da vontade, como queria o santo, "só é meritoriamente livre quando liberado pela graça de Deus". Nesse mesmo texto, Bento XVI atacou a cultura da morte: "O caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana. (...) Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida. Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida humana, chegando a defender, por exemplo, a liberalização do aborto, talvez não se deem conta de que, assim, estão a propor a prossecução duma paz ilusória. (...) Tampouco é justo codificar ardilosamente falsos direitos ou opções que, (...) com o hábil recurso a expressões ambíguas tendentes a favorecer um suposto direito ao aborto e à eutanásia, ameaçam o direito fundamental à vida".
A "verdadeira renovação", e não a falsa, da instituição de 2000 está na conservação dos seus valores. Não será desta vez - e, por óbvio, nunca será - que a Igreja vai aderir a uma pauta que a destruiria em busca, como advertiu o apóstolo Paulo, "do aplauso e da aprovação". Ao contrário! É preciso combater com vontade e energia "o desregramento perverso dos pecadores". A Igreja, é verdade, perde fiéis e tem dificuldade de formar sacerdotes na Europa, mas se expande na África e na Ásia, onde a defesa incondicional da vida e da família dita "tradicional" tem potencial subversivo, a exemplo do que acontecia no mundo helênico, nos primeiros tempos do cristianismo. Não por acaso, o cristianismo, em especial o catolicismo, é a religião mais perseguida do mundo.
Em pleno século XXI, milhares de pessoas são mortas porque ousam proclamar a mensagem de Cristo. Em Darfur. no Sudão, 500 000 foram assassinadas no que a imprensa ocidental chamou candidamente de "conflitos sectários". Eram cristãos sendo massacrados por milícias islâmicas. No dia 11 de abril, a encíclica Pacem ih Terris, do celebrado João XXIII. completa cinqüenta anos. Lá está: "Em uma convivência humana bem constituída e eficiente, é fundamental o princípio de que cada ser humano é pessoa; isto é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por essa razão, possui em si mesmo direitos e deveres, que emanam direta e simultaneamente de sua própria natureza. Trata-se, por conseguinte, de direitos e deveres universais, invioláveis e inalienáveis. E, se contemplarmos a dignidade da pessoa humana à luz das verdades reveladas, não poderemos deixar de tê-la em estima incomparavelmente maior. Trata-se, com efeito, de pessoas remidas pelo Sangue de Cristo, as quais com a graça se tornaram filhas e amigas de Deus, herdeiras da glória eterna". Bento XVI renunciou ao comando dessa Igreja para que a Igreja não corra o risco de renunciar a si mesma e à herança que nos torna filhos de Deus porque filhos do homem.

Desastre no petróleo - MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA
O petróleo produz fascínio. A ideia de que se trata de um bem "estratégico"é poderosa. Roberto Campos dizia, porém, que o petróleo "é apenas um líquido pegajoso e fedorento". Na verdade, estratégico é atributo da educação e das instituições. Claro, grandes reservas de petróleo podem impulsionar a economia e assegurar o suprimento de energia, mas elas não são essenciais. Suíça, Coreia do Sul e Singapura, países bem-sucedidos, não têm uma gota sequer de petróleo no seu território. Na Nigéria e na Venezuela, grandes produtores, o petróleo se tornou uma calamidade e perpetua o atraso. A desgraça vem do uso irresponsável dos recursos, que inibe a construção institucional, provoca o desperdício e anima a corrupção.

O Brasil instituiu o monopólio da exploração e produção do petróleo em 1953 e confiou sua execução à Petrobras. Com o tempo e duas crises do petróleo (anos 1970), ficou claro que a autossuficiência dependeria de atrair capitais privados. Daí a Lei do Petróleo, de 1997, que manteve o monopólio da União mas permitiu a participação de empresas privadas na atividade.

A mudança da Lei do Petróleo, motivada por razões políticas e ideológicas, ainda não foi posta em prática, mas o intervencionismo sugere que vai ser e que cobrará um preço elevado em termos de desenvolvimento do Brasil

Adotou-se, então, o regime de concessão, que trouxe maior dinamismo ao setor. Sob o incentivo da competição, a Petrobras se fortaleceu, bateu recordes de produção e granjeou reputação nacional e internacional. Os leilões atraíram quase 100 empresas privadas, nacionais e estrangeiras. Muitas outras se prepararam para fornecer bens e serviços. As reservas de petróleo e gás cresceram de forma acelerada. O novo modelo foi um grande êxito.

O PT, que se opôs à nova lei, lutou pela contrarreforma. A oportunidade surgiu com a descoberta do pré-sal, que Lula considerou um "bilhete premiado". Mudou-se a lei e instituiu-se o regime de partilha nessa região, o qual amplia a ingerência estatal, reduz a competição e submete o setor a ações de política industrial. É grande a semelhança com a ação estatal que levou à estagnação do país nos anos 1980.

Imaginava-se que a mudança manteria o interesse das empresas petrolíferas, em razão do potencial das reservas e da inexistência de oportunidades comparáveis no mundo. Diagnóstico errado. Surgiram novas oportunidades menos arriscadas e mais atraentes, viabilizadas pela revolução tecnológica - como no gás de xisto e no tightoil (petróleo) nos Estados Unidos e pela expansão da fronteira de produção na África, na Rússia e no Iraque.

O regime mais restritivo contribuiu para que muitas empresas deixassem o Brasil. Um efeito colateral da mudança foi despertar o apetite de estados e municípios pelos recursos da exploração, criando o atual imbróglio da divisão dos royalties. Não há novas licitações desde 2008. O investimento privado estancou. A produção caiu em 2012. Esses e outros aspectos foram abordados em excelente livro organizado por Fábio Giambiagi e Luiz Paulo Velíozo Lucas (Petróleo, Editora Elsevier, 2012).

A lógica que permeia o novo modelo - ingerência estatal e "desenvolvimentismo"-é a mesma que o governo usa na gestão da Petrobras, à qual foi imposto o peso excessivo da participação de pelo menos 30% em todos os consórcios do pré-sal. A rentabilidade despencou por causa do controle de seus preços, que a obriga a importar gasolina e diesel para revendê-los a preços mais baixos no mercado brasileiro e a perder bilhões de reais com tal política. Por isso, a empresa tem sido obrigada a se endividar mais intensamente, de forma a não interromper o ambicioso plano de investimentos. O problema é que, apesar do recente aumento de seu capital, o endividamento começa a chegar perto de seus limites. O custo financeiro poderá aumentar se a classificação de risco da empresa for rebaixada. Tal situação, insustentável, pode comprometer a exploração de nossas reservas de petróleo. Conforta saber que a nova e séria presidente da Petrobras parece compreender os riscos de tamanha intervenção.

A mudança da Lei do Petróleo, motivada por razões políticas e ideológicas, ainda não foi posta em prática, mas o intervencionismo em curso sugere que vai ser e que cobrará um preço elevado em termos de desenvolvimento do país. É hora de discutir o retorno à racionalidade nessa questão fundamental.