domingo, fevereiro 10, 2013

Nem verde nem amarelo - PAULO VINÍCIUS COELHO

FOLHA DE SP - 10/02


A difícil mistura entre jovens e veteranos gera profecias do apocalipse no futebol brasileiro


O TÉCNICO da seleção é empossado e admite estar fora de seu tempo. "Estou desatualizado!" A frase não é de Felipão, mas de Telê Santana em seu retorno ao comando, em fevereiro de 1986.

Otávio Pinto Guimarães, recém-eleito presidente da CBF, não precisava argumentar a favor de Telê, aprovado pela opinião pública. Mas insistia: "Vamos precisar de Telê, porque nosso projeto depende do ânimo do nosso povo!"

Qualquer semelhança não é mera coincidência. A dupla Otávio Pinto Guimarães/Nabi Abi Chedid comandava a CBF. Marin e Del Nero já estavam por perto e rezavam pela cartilha do populismo.

Sempre que alguém deseja profetizar o apocalipse do futebol brasileiro fala sobre 1966, quando também havia uma difícil mistura entre garotos, como Tostão, e veteranos como Bellini. Pela similaridade, os profetas transitavam naquele tempo, antes da segunda Copa do México. Em 1986, o Brasil era campeão mundial sub-20, como hoje.

Tinha jovens promissores, como Muller, Silas, o zagueiro Júlio César e Romário, a quem Telê não chamou. Também tinha gênios consagrados e decadentes -ou machucados- como Sócrates, Falcão, Cerezo e Zico. Os jovens eram verdes, os velhos, carcomidos.

Não estamos nem estávamos às portas do fim. Há e havia problemas. Desde 2009, o Brasil perdeu de Holanda, Alemanha, Inglaterra, França, Argentina... Não há profecias, mas ponderações. Uma delas, sobre a mudança de estilo das seleções de Mano Menezes x Felipão.

Com Mano, as linhas estavam mais juntas, compactas, como se joga na Europa. Com Felipão, o time se espalha mais, Ronaldinho arrisca passes longos -e erra!

Estamos desatualizados.

Sim, estamos, como dizia Telê. Felipão tem raízes no futebol do interior gaúcho... bico pro mato!

Em setembro de 2001, o Brasil perdeu da Argentina de Marcelo Bielsa. A Argentina era moderna, o Brasil arcaico. Em 2002, a Argentina foi eliminada na primeira fase da Copa, o Brasil foi campeão.

Existe um problema maior do que a atualização tática da seleção: ter ou não ter craques.

Em 1986, Telê não se atualizou. Arriscou, tentativa e erro, até montar um time-Frankenstein, meio adolescente, meio caduco. "Ele terá de usar a base de 82, ou essa base modificada", disse o cronista gaúcho Ruy Carlos Ostermann sobre Telê à revista "Placar", março de 1986.

Telê mesclou e não foi suficiente.

Em 2002, o Brasil ganhou com o mais puro Felipão. Não era moderno. Era bom!

Daqui até a Copa, o Brasil não vai praticar o futebol mais atualizado. Não é algo que se peça a Felipão. Pede-se que o atraso tático seja menos importante do que a escolha dos jogadores. Que os jovens não sejam tão verdes, os velhos não estejam amarelados.

Parou por quê? - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 10/02

COM SIMONE IGLESIAS (INTERINA)

Ao aconselhar a presidente Dilma a descentralizar as decisões, o ex-presidente Lula demonstrou preocupação com o seu legado. Citou como exemplo a Transposição do São Francisco, obra que priorizou no segundo mandato e que, agora, está parada por falta de decisão política. Lula avalia que não podem dar margem ao estigma de que ele começou uma obra e ela parou.

No detalhe
É consenso na Esplanada que a presidente Dilma se preocupa com detalhes desnecessários que poderiam ser resolvidos pelos auxiliares. Em recente reunião no Planalto, com uma dezena de ministros, envolveu-se em briga com Marta Suplicy (Cultura) sobre o nome de um programa. A ministra apresentou Céu das Artes, mas Dilma não gostou porque bate com o CEU (Centro Educacional Unificado), criado quando prefeita. Em outra reunião, checou a apresentação de cada ministro para um evento do governo. Raramente, deixa nas mãos deles a batida de martelo. A maioria não tem coragem de contestá-la.

Tomada de assalto
O petista Nilmário Miranda deve presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara administrando a chegada de conservadores, que se armaram para integrar o órgão e barrar mudanças ligadas à religião e orientação sexual.

“Deputados vestem a fantasia depois do carnaval: defensores de mensaleiros querem entrar no Conselho de Ética, e de
fundamentalistas religiosos na Comissão de Direitos Humanos”
Chico Alencar
Deputado federal PSOL-RJ

Estágio obrigatório
Ganha corpo no governo a ideia de aumentar o tempo de formação dos médicos. O modelo discutido é semelhante ao inglês: além dos seis anos de faculdade, os médicos teriam de passar mais dois anos fazendo atendimento básico nos postos de saúde. A proposta tem a simpatia do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

"Poker Face"
A Polícia Legislativa está de olho no carteado dos motoristas dos deputados. Eles se reúnem na garagem do Anexo IV, enquanto esperam os chefes, e a jogatina rola solta. A dinheiro.

Previdência vai mal
Acendeu a luz amarela na Previdência. Problemas das longas filas e das perícias, que tinham sido resolvidos na gestão do PT no ministério, voltaram e preocupam o Planalto, mas Garibaldi Alves Filho, por ora, não corre risco. A presidente Dilma determinou que os problemas sejam solucionados o mais rapidamente possível.

#prontofalei
O deputado Newton Cardoso (MG) reclamou que os ministros do PMDB não recebem partidários. O deputado Francisco Escórcio (MA) se ofereceu para levá-lo a Edison Lobão. "Ele é ministro do (José) Sarney, não ajuda a bancada", respondeu.

Molho de tomate
O peemedebista Geddel Vieira Lima criticou, no Twitter, a alta do preço dos tomates. Um amigo disse esperar que Geddel não jogasse o produto no governador Jaques Wagner (PT-BA). Ao que ele respondeu: "Divirjo, mas não agrido."

A PRESIDENTE DILMA abrirá as portas do Palácio do Planalto para as centrais sindicais dia 6 de março


Um sonho a mais - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 10/02


Em gestação, o novo partido de Marina Silva recorrerá a agressiva estratégia de mobilização virtual para arregimentar as 500 mil assinaturas necessárias ao reconhecimento da sigla pela Justiça Eleitoral até outubro. Grupo da ex-ministra que coordena a coleta de adesões desenvolve página na internet cujo destaque é a área na qual simpatizantes poderão baixar as fichas de apoio, imprimi-las e copiá-las. Os sonháticos serão instados a remetê-las a endereços divulgados no site.

Biodiversidade 
A despeito das regras que Marina pretende estabelecer para filiações, como a identificação com as propostas de sustentabilidade da nascitura sigla, o processo de coleta de adesões será irrestrito. Qualquer cidadão poderá subscrever o pedido de criação da sigla.

Pente-fino 
Quatro especialistas em direito eleitoral estudam, em Brasília, as regras para validação de assinaturas. Isso porque o TSE tem se mostrado rigoroso ao legitimar nome e identificação de eleitores que subscrevem a fundação de legendas.

Trending topics 
Um dos nomes debatidos pelos marineiros para identificar o novo partido é uma hashtag: "#rede". A ideia é que a expressão sirva como convocação de adeptos via Twitter e Facebook a partir de sábado.

Está escrito 
A possível candidatura de Michel Temer ao governo paulista, colocada à mesa por Lula, é vista com ceticismo pelo PMDB-SP. Em deliberação de dezembro passado, os peemedebistas referendaram como prioridade do vice-presidente sua manutenção na chapa reeleitoral de Dilma Rousseff.

Pirâmide 
O PT produzirá diagnóstico atualizado dos estratos sociais para embasar a revisão programática que norteará congresso em 2014. O objetivo é calibrar o discurso eleitoral aos anseios da "nova classe C". Ex-Ipea, Márcio Pochmann coordena o estudo, cujo lema é "o povo como protagonista".

Selo 
Após editar portaria vetando a vinculação do Minha Casa, Minha Vida a programas estaduais, o governo federal estuda agora normatizar eventos de lançamento de unidades habitacionais.

Como assim? 
Auxiliares da presidente Dilma Rousseff relatam que, a despeito do investimento federal, governadores enviam convites à Esplanada como se o programa fosse patrocinado com recursos dos próprios Estados.

Copyright 
O governo prepara também novas campanhas publicitárias para promover o Minha Casa, Minha Vida, de olho na vitrine eleitoral para o ano que vem.

Novas... 
Renan Calheiros (PMDB-AL) nomeou para a chefia de gabinete da Presidência do Senado Luiz Fernando Bandeira de Mello, advogado-geral da Casa na época do escândalo dos atos secretos, em 2009, e consultor legislativo quando o atual presidente enfrentou processo no Conselho de Ética.

... alianças 
Bandeira de Mello, que havia sido nomeado para a Advocacia-Geral por Garibaldi Alves (PMDB-RN) para fazer cumprir na Casa a súmula antinepotismo do STF, atuava agora como chefe de gabinete do hoje ministro da Previdência.

Santo de casa 
O Centro de Convenções Ulysses Guimarães, local onde ocorreu o encontro de Dilma com prefeitos na semana passada, não tem alvará de licença de funcionamento. No evento, a presidente chegou a pedir um minuto de silêncio pela tragédia de Santa Maria (RS).

Outro lado 
A assessoria do centro confirmou que faltam seis itens dos 100 pedidos pelo Corpo de Bombeiros, todos "relativos aos corrimãos e suas espessuras".

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio
"É oportunismo fazer discurso de oposição perante a opinião pública tendo cargos e ocupando ministério no governo Dilma."
DO DEPUTADO MARCUS PESTANA (PSDB-MG), para quem o governador Eduardo Campos (PSB-PE) teve postura ''ambígua'' na eleição das Mesas do Congresso.

contraponto


Folia sem fronteiras

Assim que assumiu a liderança do PSB no Senado, Rodrigo Rollemberg (DF) se reuniu nesta semana com o presidente do partido, Eduardo Campos, em Brasília. Após discutirem os trabalhos no Congresso, o senador foi convidado pelo governador de Pernambuco para participar da tradicional festa do Galo da Madrugada, em Recife.

Rollemberg agradeceu dizendo que tinha outros compromissos na capital federal.

E emendou, brincando:

-Vou ficar para representá-lo na filial daqui, o Galinho de Brasília!


Poeta de campos e espaços - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 10/02


Eduardo Campos surfa no vazio político e voa graças ao vazio de sua pré-pré-candidatura a presidente


NOS MESES de férias do Congresso, a escassez de fofoca costuma dar vida a cadáveres, a notícias-zumbi, tais como a da reforma política, que vagabundeia pelas páginas de jornais até desaparecer num bloco de sujos da Quarta-feira de Cinzas.

Neste ano, a eleição repulsiva no Congresso bastou para preencher quase todo o vácuo das férias. Quase. O resto vem da inflação de notícias sobre Eduardo Campos, governador de Pernambuco, PSB.

Caso jamais venha a ser presidente da República, Campos terá como ganhar a vida como empresário de mídia & marketing, tal sua capacidade de encher e soltar nos céus zepelins de propaganda.

Ninguém sabe se o governador será candidato em 2014, nem ele mesmo, mas o preço do seu passe não para de subir. Verdade ou não, foi a única figura mais ou menos nacional a aparecer como mentor de um movimento organizado contra a eleição repulsiva no Congresso.

O período de baixa das ações de Dilma Rousseff (entre a elite) contribui para a valorização de Campos. O desempenho mofino de Aécio Neves, senador, PSDB, induz gente que não engole o PT a considerar a hipótese Campos.

O governador vendeu a imagem de "pragmático" (esperto, pé no chão e que não tem ou apresenta ideias que ofendam alguém). É popular. Teve habilidade política para articular a engorda eleitoral de seu partido. Não tem ficha na polícia, ao que se saiba.

Fez média bastante com Lula e o PT; está num partido chamado "socialista", o que o diferencia da "direita" ogra, lugar que o PSDB se reservou por incompetência e, claro, também por tolerar a multiplicação de ogros de direita no partido. Mas não há risco de que Campos tenha ideias de esquerda. Pode ser comprado por freguesia variada.

Campos é um personagem à procura de um autor. Tem embalagem, campanha de marketing, logo, nome fantasia. Mas não tem gosto de nada. Que as candidaturas tenham substância talvez seja uma expectativa anacrônica nos dias de hoje, vide as "novas lideranças" brasileiras. Ainda assim, onde Campos vai encostar seu burrinho quando tiver de recolher apoios reais para um eventual governo?

Vai fazer média com a banca? Com a vasta clientela do BNDES, "industriais desenvolvimentistas"? Quem serão seus pensadores, quem serão seus economistas? O que fará do Estado de Bem-Estar Tropical, dos gastos em transferências sociais que não muito em breve não poderão crescer mais? Que tipo de pacto fará com o povo miúdo, se fizer reforma nessa área?

Vai manter o Estado neste tamanho latifundiário, para ter pasto suficiente para PMDBs? Tal como tantos governos brasileiros terá desprezo pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, tal como Lula e, agora, Dilma, que chegou ao extremo terminal de cogitar Gabriel Chalita para o posto?

Ou vai realocar a ação do Estado, fazer uma revolução na pesquisa e outra na educação (para o que terá de desmontar partes do Estado e comprar brigas federativas)?

A vida de Eduardo Campos está muito fácil. Está surfando na onda da mediocridade de figuras políticas; ninguém faz uma pergunta séria ao candidato a candidato, que portanto pode fazer média com todo mundo.

Pátria e morte - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 10/02

Chris Kyle matou, sozinho, comprovadamente, mais de 160 iraquianos (pelas contas dos colegas foram 255). E morreu sem entender nada da guerra, em que acreditava ter triunfado



Nestes tempos de drones, como são chamados os aviões não tripulados capazes de matar à distância e anonimamente, sobra menos espaço para a glorificação individual de atiradores que se notabilizam pelo número de inimigos eliminados.

O texano Chris Kyle tem lugar garantido na história militar dos Estados Unidos. Como franco-atirador da tropa de elite Seal, da Marinha ( a mesma que desentocou e executou Osama Bin-Laden dois anos atrás), ele serviu quatro turnos na guerra do Iraque. Cumpriu como ninguém a missão para a qual fora treinado: garantir a proteção de seus companheiros na fase mais sangrenta dos combates. Matou, sozinho, comprovadamente, mais de 160 iraquianos (pelas contas dos colegas foram 255) e teve a cabeça colocada a prêmio de 20.000 dólares pelas milícias locais. Ao retornar para casa, em 2009, trazia no peito dezesseis condecorações — entre elas 2 Purple Hearts, 2 Estrelas de Prata, 5 Estrelas de Bronze.

Kyle foi a resposta americana à atuação de um inimigo mítico conhecido como “Juba”, cuja ubiquidade e pontaria haviam se transformado em assombração para os soldados yankees em Bagdá. Vídeos de propaganda islâmica postados na internet mostravam “Juba” eliminando soldados americanos, um a um, noite ou dia, em grupo ou sozinhos. Ninguém sabia quem era esse temido atirador islâmico que, além de matar, ainda narrava e filmava cada cena. Dependendo da fonte, seria um mercenário europeu ou um jihadista sírio. À época, a rede de notícias CNN chegou a submeter os vídeos a peritos, que concluíram não tratar-se de montagem. Fosse quem fosse, “Juba”, portanto, existia, e, à falta de sua eliminação física, sua lenda, pelo menos, precisava ser contida.

Os estragos que um franco-atirador é capaz de causar na moral de tropas inimigas são conhecidos e povoam a narrativa patriótica de vários países. Na Finlândia, há mais de meio século o nome Simo Häyhä é pronunciado com orgulho de geração a geração. Fazendeiro desconhecido quando a União Soviética invadiu seu país, em 1939, Häyhä, sozinho, eliminou uma unidade inteira de russos — mais precisamente 542, em menos de 100 dias. Entrou para a história com o apelido de “Morte Branca” por usar uma pelerine alvíssima que o camuflava na neve.

O americano Chris Kyle não alcançou os píncaros do finlandês matador, mas recebeu dos insurgentes o apelido de “Demônio” pelos estragos que provocou nas fileiras islâmicas na cidade de Ramadi. A destreza com que manuseava seu fuzil municiado de cartuchos .300 Winchester Magnum lhe rendeu feitos memoráveis. Gaba-se de ter acertado um alvo a 1,9 km de distância, em 2008, antes de o insurgente disparar um lançador de foguete que visava a um comboio americano.

Tudo isso e muito mais Kyle conta em suas memórias, “Atirador americano: a autobriografia do atirador mais letal da história dos Estados Unidos”, publicadas um ano atrás. Elas são preocupantes no tom e no conteúdo.

“Não sou muito fã de política”, diz ele no livro, “gosto de guerra”. Seu mundo se divide entre “bons” e “maus”, sem nuances ou espaço para dúvidas. Os americanos são “do bem” pelo simples fato de serem americanos, enquanto os muçulmanos são “do mal” por quererem matar os americanos. “Odeio esses selvagens”, acrescenta, referindo-se aos iraquianos. Ao testemunhar perante uma comissão militar de inquérito, acusado da morte de civis, esclareceu: “Não atiro em quem tem um Corão na mão, mas bem que gostaria.”

Uma semana atrás, na tarde de um sábado ensolarado em Stephenville, Texas, Kyle foi morto a tiros pelo fuzileiro naval Eddie Rough, de 25 anos. Rough voltara da guerra com claros sinais de estresse pós-traumático e havia sido colocado sob vigilância por ter ameaçado explodir a cabeça do pai. Procurando ajudar o filho, a mãe de Rough buscou apoio na fundação Fitco Cares, montada por Chris Kyle ao retornar do Iraque e que proporciona assistência a veteranos com distúrbios decorrentes da guerra.

O atirador nº 1 da América morreu aos 38 anos, alvejado num campo de treinamento de tiro do Texas. Não foi abatido por “Juba” nem por nenhum dos “iraquianos selvagens” que combateu. Foi derrubado em solo pátrio por um americano.

Em entrevista concedida por ocasião do lançamento de seu livro declarara não sentir arrependimento por nenhuma das mortes de sua folha corrida. Assegurou também não sentir qualquer desajuste decorrente da brutalidade de tantos anos de combate. “Nenhum dos problemas que tenho deriva das pessoas que matei”, garantiu.

Chris Kyle morreu sem entender nada da guerra em que acredita ter triunfado.

Demografia mortífera para as mulheres - DEBASISH ROY CHOWDHURY

O ESTADO DE S. PAULO - 10/02

Em países onde é muito desproporcional o número de homens, como a China e a índia, são registrados mais casos de violência contra o sexo feminino, estupros e sequestros

Enquanto a Índia se inteirava de um caso pavoroso de estupro que estarreceria o mundo, uma garota de 11 anos do Condado de Qincheng, Província de Gansu, estava caminhando para a escola, chateada talvez por ter de assistir aula muito cedo numa manhã de inverno. No momento em que fazia a curva para um trecho deserto do caminho, um homem saltou sobre ela e a arrastou para os arbustos, onde a estuprou e matou. O jovem foi preso quatro dias depois. O mesmo ocorreu com os seis homens que, juntos, estupraram e brutalizaram uma jovem de 23 anos, que estudava para se tornar paramédica, dentro de um ônibus em movimento em Nova Délhi.

A vítima do estupro em Nova Délhi morreu após quase duas semanas respirando com a ajuda de aparelhos. Por volta da mesma época, a polícia do Condado de Dongguang na Província de Hebei encontrou o corpo de uma menina de 8 anos que havia desaparecido na semana anterior aos estupros em Qincheng e Nova Délhi. Ela estava voltando para casa depois da escola, provavelmente aliviada ao fim de um longo dia, quando um jovem de motocicleta a raptou e na sequência a estuprou e matou.

O abominável estupro de 16 de dezembro em Nova Délhi instigou uma muito adiada discussão sobre a segurança das mulheres na Índia, onde ocorre um estupro a cada 30 minutos. A TrustLaw, uma provedora de serviços gratuitos de informação jurídica, classificou recentemente a Índia como o pior dos 19 países do G-20 para mulheres, numa pesquisa em que a China ficou em 14º lugar.

O baixo status das mulheres somado com uma governança indiferente, uma mentalidade patriarcal, policiamento precário, leis arcaicas e a morosidade do Judiciário teriam conspirado para criar a tempesta de perfeita em que a Índia se encontra.

Apesar de cada um desses fatores ser um problema grave, eles não explicam inteiramente por que a violência contra mulheres cresceu tanto em algumas partes da Índia. Os casos de estupro registrados cresceram quase 700% desde 1970, e quase dobraram entre 1990 e 2008.

Evidentemente, a mentalidade do indiano médio não deve ser mais patriarcal, nem as leis mais arcaicas agora do que eram em 1970 ou 1990.

Solteiros. Isso levou muitos demógrafos e sociólogos a acreditar que o verdadeiro gatilho não está aí, e ele foi apontado tão diretamente na China quanto na Índia: a população crescente de homens solteiros.

Os dois países estão sentados em barris de pólvora causados pela multiplicação do que os chineses chamam de "galhos nus" (guang gun), ou homens incapazes de encontrar alguém para casar em razão da escassez de mulheres causada por uma proporção entre sexos anormalmente alta (relação quantitativa entre homens e mulheres), o que, por sua vez é o produto da tradicional preferência por homens nessas sociedades. Os "galhos nus" são assim chamados porque não contribuem para a árvore genealógica da família.

Apesar de o crime - sexual ou outros - não ser exclusividade de homens solteiros, evidências estatísticas mundiais mostram que uma quantidade desproporcional de crimes é cometida por esse grupo.

Sociedades que dão grande importância a casamento e linhagem só podem aumentar a frustração e a baixa autoestima dos que não conseguem iniciar uma família, aumentando o risco de violência dentro de um grupo que é o mais propenso a ela.

A Índia e a China têm proporções entre sexos terrivelmente parecidas no nascimento, criando milhões de homens excedentes a cada ano. Na Índia, nascem cerca de 109 meninos para cada 100 meninas, sendo que esse número chega a 120 em muitas partes.

Na China, a taxa está em torno de 120 meninos, e até 140 em províncias como Jiangxi e Henan. A proporção natural é de cerca de 105 meninos para 100 meninas. A natureza fornece um pouco mais de homens do que de mulheres no nascimento porque os homens têm taxas de mortalidade mais altas, de modo que a relação se equilibra quando eles chegam à idade reprodutiva.

Índia e China, cada uma, têm um excesso de 37 milhões de homens. Com exceção da Arábia Saudita, todos os demais países do G-20 têm ou mais mulheres do que homens ou os números são quase iguais. Apesar de ocorrerem estupros em todos os lugares, os estupros predatórios como o de Nova Délhi aumentam quando as proporções entre sexos são anormais.

"Durante anos, pesquisadores notaram que o crime violento contra mulheres aumenta quando a proporção entre sexos se torna mais masculina", diz a professora Valerie Hudson da Universidade A&M do Texas, que foi coautora com a dra. Andrea den Boer do livro seminal Bare Branches: The Security Implications of Asia"s Surplus Male Population (Galhos nus: as implicações de segurança da população masculina excedente da Ásia, em tradução literal).

O respeitado demógrafo chinês Jiang Quanbao, do Instituto de Estudos de População e Desenvolvimento na Universidade Xian Jiaotong, concorda: "O estupro de Nova Délhi pode ser associado aos sistemas social, cultural, legal e judicial. Mas uma questão negligenciada pode ser a proporção distorcida entre sexos".

As sociedades com proporções entre sexos anormais são consideradas inerentemente menos seguras. Como descobriram Hudson e Den Boer, os homens que conseguem se casar nesses ambientes tendem a ter um status socioeconômico mais alto. Os que não conseguem são mais pobres, menos educados e com empregos marginais.

Como têm pouco a perder, eles exibem maior propensão à violência e a um comportamento mais desregrado, em especial quando se enturmam. Quase todos os suspeitos do estupro em grupo de Nova Délhi se encaixam nessa descrição.

"Esses homens já estão sob risco de estabelecer um sistema com base na força física para obter pela força o que não podem obter legitimamente. ... Homens que não conseguem a oportunidade de desenvolver um interesse adquirido num sistema de lei e ordem gravitarão para um sistema com base na força física", escreveram Hudsone Den Boer.

"O casamento é uma vigorosa força socializante", diz Jiang. "A Índia deveria prestar a atenção na estrutura sexual da sua população. O problema dos "galhos nus" também está causando uma preocupação generalizada com o futuro da estabilidade doméstica na China."

A falta de estatísticas prontas e confiáveis sobre estupro na China dificulta o estabelecimento de sua associação exata com o excesso de homens. Mas como a violência sexual tem mais a ver com violência do que com sexo, um padrão crescente de qualquer tipo de violência faz soar o alarme para demógrafos se eles vêm na esteira de uma piora das proporções entre sexos.

Segundo Mara Hvistendahl, a autora, que vive em Xangai, de Unnatural Selection: Choosing Boys Over Girls, and the Consequences of a World Full of Men (Seleção inatural: a escolha de meninos em detrimento de meninas e as consequências de um mundo repleto de homens, em tradução literal), não se trata apenas de crime violento. A proporção distorcida entre sexos também deve preocupar porque fez aumentar o tráfico de mulheres na China. Jiang descobriu que a escala de sequestros e tráfico de mulheres está crescendo de uma maneira alarmante.

Do total de casos de tráfico na China, 50% ou 60% envolvem hoje o sexo e a indústria de entretenimento. No passado, eles eram sobretudo para casamento. O tráfico e a migração do interior para as províncias costeiras mais ricas estão contribuindo para aumentar a desproporção entre sexos nas regiões subdesenvolvidas, deixando uma aldeia após outra repleta de homens deprimidos e inquietos.

E a situação vai piorar. A pesquisa de Jiang mostra que, de 2010 para cá, o número de homens em idade de casamento na China vem aumentando muito mais rapidamente. O excesso de população masculina na faixa de 20 a 49 anos superará 20 milhões em 2015; 30 milhões em 2025; 40 milhões em 2035 e 44 milhões por volta de 2040. Segundo algumas estimativas, entre 2020 e 2050, 15% dos homens chineses não conseguirão arranjar uma mulher.

Mortalidade. O problema do excesso de homens está ligado a um fenômeno que o laureado com o Nobel Amartya Sen chamou "mulheres desaparecidas" - um conceito que ele desenvolveu no início dos anos 90 para calcular o número de mulheres extras que o mundo em desenvolvimento teria se esses países tivessem a mesma proporção entre sexos do que no mundo desenvolvido.

Em números absolutos, Sen descobriu que mais de 100 milhões de mulheres haviam "desaparecido" em consequência de desigualdade e negligência que acarretavam um excesso de mortalidade feminina. Só a China, ele estimou na ocasião, tinha 50 milhões de "mulheres desaparecidas".

Vários estudos desde então tentaram quantificar o número de mulheres "desaparecidas" e chegaram a números muito parecidos: 163 milhões de meninas na Ásia nas três última décadas, segundo Hvistendahl; embora alguns tenham calculado cerca de 2 milhões para China e 2 milhões para a Índia anualmente. Mas há uma grande diferença. Uma porcentagem muito maior - até 45% - de mulheres desaparecidas na China é perdida antes de nascer. Fatores pré-natais respondem por cerca de 11% das mulheres desaparecidas na Índia, indicando que a política de um filho para cada família exacerbou a tradicional preferência pelo filho homem na China criando um forte incentivo ao feticídio.

A tecnologia de determinação de sexo e o acesso fácil ao aborto facilitaram muito a escolha por gênero. Seguindo a política de um único filho, o censo de 1982 mostrou uma proporção entre sexos no nascimento de 108,5 meninos para 100 meninas. Esta cresceu para 113,3 meninos em 1990, 116,9 no censo de 2000, e hoje está em cerca de 120.

As taxas de criminalidade aumentaram proporcionalmente. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Chicago, da Universidade Columbia, da Universidade Chinesa de Hong Kong e da Universidade Tsinghua revelou que entre 1988 e 2004, o número do excedente de homens na China comidades de 16 a 25 anos dobrou. As taxas de criminalidade também quase dobraram. O aumento excessivo de homens foi responsável por um sétimo de todo o aumento total da criminalidade no período. Mas a "seleção para o abate" de mulheres, como o coloca Hudson, tem ramificações muito mais amplas do quemeras perturbações da lei e da ordem. Ao longo da história da China, a discrepância na proporção entre sexos esteve na raiz de agitações sociais e políticas.

"A ameaça mais importante ao governo viria se uma violência de coalizões mudasse do objetivo de desviar recursos, por roubo e contrabando, por exemplo, para se apoderar do poder local, o qual poderia ser um trampolim para objetivos mais ambiciosos", diz ela, citando a rebelião Nien de 1851, que abalou a dinastia Qing.

Os rebeldes Nien vieram de regiões empobrecidas com uma proporção entre sexos de pelo menos 129 homens para 100 mulheres, diz Hudson. Esses pequenos grupos de galhos nus começaram com contrabando e extorsão antes de formarem exércitos para desafiar o controle imperial.

Nos anos 1920 e 1930, a poligamia, combinada com o infanticídio, provocou um alto número de galhos nus. Não surpreende que esse período também tenha assistido ao crescimento de sociedades secretas, quadrilhas criminosas e cultos. Jiang disse que muitas quadrilhas recrutavam homens com a promessa de mulheres cativas.

A questão mais urgente é que a ascensão da criminalidade também pode agir como um forte catalisador da agitação social ao disseminar o descontentamento em massa, o que aponta para o papel vital que a proporão entre sexos joga na manutenção da ordem política - especialmente em países como a China, sem mecanismos institucionais para canalizar o ódio contra o governo. Mesmo numa democracia desorganizada como a Índia, muitos viram ecos do levante da Praça Tahrir do Egito nos protestos espontâneos de rua contra o estupro em Nova Délhi.

"Um agravamento da desproporção entre sexos intensificará a instabilidade tanto da Índia quanto da China. E a ameaça ao regime pode ser maior na China do que na Índia", diz Hudson, sublinhando a mensagem que um estupro na distante Nova Délhi envia a Pequim.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

A leniência com a inflação - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 10/02

Do ponto de vista do crescimento, 2012 não foi nada bom: só não fomos piores do que o Paraguai


Na última quinta-feira, o IBGE divulgou a inflação de janeiro de 2013. O índice de preço ao consumidor amplo (IPCA) elevou-se em janeiro contra dezembro de 2012 0,86%.

Em 12 meses, a elevação do índice foi de 6,15%. Em que pese o índice ter sido pressionado pela fortíssima elevação do item bebidas e alimentos, não há dúvida de que vivenciamos um lento e persistente processo de descolamento da inflação da meta de 4,5% ao ano e de deterioração dos fundamentos.

Como a inflação apresenta enorme variabilidade, os analistas acompanham a evolução dos núcleos da inflação, que é uma medida da inflação de fundo da economia.

Para calcular os núcleos da inflação utiliza-se metodologia que suaviza a inflação de seus componentes mais voláteis.

Há várias metodologias. No longo prazo, elas contam aproximadamente a mesma história.

A inflação de fundo (medida pelos núcleos) apresenta uma contínua queda desde a forte elevação da inflação que houve na virada de 2002 para 2003, em função do processo de transição política e do medo que os investidores tinham de um governo petista.

De um nível de 7% em meados de 2004, os núcleos reduzem-se continuamente até o nível de 4% observado em meados de 2007.

A partir desse momento, quando aparentemente começou um período de maior leniência com a inflação, os núcleos elevam-se de 4% em meados de 2007 para os atuais 6%. Há inquestionável deterioração da inflação nesse período.

Repercutindo a divulgação de quinta-feira passada, o blog Achados Econômicos documenta que, entre 19 economias latino-americanas, somos a sexta com maior índice de inflação. Na nossa frente estão: Venezuela, Argentina, Haiti, Uruguai e Nicarágua.

Dado que as demais economias latino-americanas compartilham diversas características com a nossa, além de terem passado por processo de formação histórica próximo ao nosso, é natural tomá-las como grupo de controle.

Por essa métrica, estamos bastante mal na foto no que se refere à inflação.

É sabido que, do ponto de vista do crescimento, 2012 não foi nada bom: somente não fomos piores do que o Paraguai. Assim, por ora, estamos no pior dos mundos: inflação em alta e crescimento em baixa.

Por aqui, a leniência com a inflação está associada à forte alteração da política econômica que houve em seguida à saída do ministro Antonio Palocci da Fazenda em 2006 e à proeminência assumida na formulação da política econômica por economistas chamados de desenvolvimentistas.

Houve outros períodos em nossa história econômica do pós-guerra em que a leniência com a inflação conviveu com governos ditos desenvolvimentistas.

Os dois exemplos mais marcantes foram a forte aceleração da inflação que houve no governo JK e a desistência dos governos militares em combater a inflação no período do presidente Geisel.

Em ambos os casos, os governos priorizaram grandes projetos de desenvolvimento, com forte dirigismo do setor público.

Sempre houve a ideia de que o crescimento econômico que seria promovido pelo desenvolvimentismo seria o antídoto que acabaria com a inflação.

Parece que a atual onda de desenvolvimentismo repete o diagnóstico do passado. Há, no entanto, diferenças. Havia à época dos outros surtos desenvolvimentistas o diagnóstico de que o motor do crescimento seria o crescimento do investimento. Atualmente, há uma ênfase em estimular o consumo.

Segundo, somos hoje democracia vibrante que impõe limites estreitos à capacidade dos governos em alavancar poupança forçada dos indivíduos por meio de aceleração da inflação.

Em que pese o pessimismo da coluna, a população não pensa da mesma forma.

A presidente é muito popular. O regime atual de política econômica tem conseguido, apesar da deterioração da inflação e do crescimento medíocre, manter renda em elevação e desemprego em baixa.

Se nada se alterar em um ano em meio, o atual governo estará em ótima situação por ocasião das próximas eleições.

Saudades do PT - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 10/02


SÃO PAULO - O PT faz falta na oposição. Colocando de outra forma, o país se ressente da ausência de uma oposição como a que o PT executava, isto é, atenta, sistemática e incisiva, ainda que às vezes injusta.

Numa semana em que a inflação deu mostras de descontrole, as ações da Petrobras derreteram -por culpa quase que exclusiva do governo- e o Planalto se viu obrigado a rever sua política de concessões, o que de mais relevante a oposição achou para criticar foi a presença do embaixador venezuelano num ato pró-Dirceu.

Oposições podem fazer bravatas e soar ranhetas, mas são um ingrediente crucial da democracia. Talvez possamos avançar mais e dizer que, sem algum tipo de contraditório, a própria razão fica ameaçada.

Uma boa explicação para alguns dos muitos vieses cognitivos característicos da mente humana é interpretar a evolução da racionalidade não como um mecanismo para descobrir a verdade, mas, sim, como uma ferramenta para triunfar em debates. Essa pelo menos é a tese dos franceses Hugo Mercier e Dan Sperber.

Se sua hipótese é correta, a tarefa de erigir um corpo de conhecimentos racionais e de aplicá-los de forma sábia deixa de ser um exercício individual ou partidário para tornar-se um esforço coletivo mais amplo. De fato, se pensarmos sem que nossas ideias sejam questionadas, são grandes as chances de nos afundarmos em nossas próprias ilusões. Mas, se usarmos a razão no contexto de discussões mais acerbas, cresce a possibilidade de nos sairmos bem como grupo.

Um trabalho de Jonathan Evans de 1989 mostrou que, quando submetidas a testes matemáticos nos quais é preciso chegar a uma resposta correta, pessoas atuando sozinhas se deram mal, acertando 10% das respostas. Quando tiveram de solucionar os mesmos problemas em grupo, o índice foi para 80%. É o chamado bônus de assembleia, que só se materializa quando existe uma oposição para acusar erros, reais ou imaginados.

Outra carta da Dorinha - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 10/02

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz ser absolutamente falso que o número do seu primeiro telefone era 2, porque o 1 era do Alexander Graham Bell. Ela desistiu de desfilar como madrinha de bateria neste Carnaval depois do lamentável incidente, ainda não devidamente esclarecido, do ano passado, quando seu tapa-sexo engatou num agogô. Dorinha ainda não sabe o que vai fazer no carnaval, só sabe que quer manter uma distância segura de qualquer desfile, inclusive porque ainda não recuperou o tapa-sexo. Ela está até pensando em... Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinha lilás em papel azul, cheirando a Oui! Oui!, um perfume banido em vários países.

“Caríssimo! Beijos estalados, você escolhe onde. Estou num impasse. Na verdade estou numa sauna mista, o que explica a tinta corrida, mas indecisa. Ainda não decidi como fugir do Carnaval. Todos sabem que já tive meus momentos de glória na avenida, incluindo a vez em que eu e o Clovis Bornay fomos destaques juntos e ficamos presos na fiação durante meia-hora, aproveitando para pôr as fofocas em dia. Outra vez desfilei com os seios nus, com grande sucesso, mas, infelizmente, quando o público começou a gritar “O autor! O autor!” o Pitanguy não apareceu. Este ano, pensei em fazer um retiro espiritual. Eu e o meu ser interior temos nos encontrado pouco, no máximo um “oi” aos nos cruzarmos, e esta seria uma oportunidade para nos conhecermos melhor, fazer cobranças e estabelecer um relacionamento estável – desde que o safado não me corte o cigarro, a bebida e o sexo. Cheguei a procurar um convento para me informar sobre internamento numa cela até Quarta-feira de Cinzas, mas não chegamos a um acordo, por detalhes. A soror não concordou com meus pedidos: uma cela espaçosa, para no mínimo 40 pessoas, pois eu levaria alguns amigos; colchões em vez de palha nas camas de pedra, uma geladeira, alguns canapés, um sonzão e um DJ. Meu grupo, as Socialaites Socialistas, tenta me convencer a esquecer o trauma do ano passado e sair com elas, anonimamente. Todas usarão máscaras do Renan Calheiros, ninguém me reconheceria. Não sei. Ah, decisões, decisões. Um beijo da sua hesitante Dorinha”.

A doutora promete e o MEC pode não entregar - ELIO GASPARI

O GLOBO - 10/02


Depois que as escolas de samba passarem, a doutora Dilma poderá chamar o comissário Aloizio Mercadante para afinar o discurso do governo em relação à promessa de que seriam realizados dois exames do Enem neste ano. Quando essa iniciativa nasceu, em 2009, esse era o projeto e nisso estaria a sua maior virtude. Em vez de jogarem um ano de suas vidas numa só prova, os estudantes teriam duas oportunidades. (A garotada americana tem sete.) A cada ano, o governo prometeu que o segundo exame seria realizado no vindouro. Nada.

Em janeiro de 2012, a doutora disse o seguinte: "No ano que vem, [serão] duas edições".

Um mês depois, Mercadante acrescentou: "Estamos trabalhando nessa possibilidade".

Em janeiro passado, o jogo virou. O ministro Mercadante disse ao repórter Demetrio Weber que "não temos, neste momento, a necessidade de um novo exame. O problema não é o risco, o problema é o custo. Nós dobraríamos os custos do Enem".

Tudo bem, mas quem precisa de dois Enem são os estudantes, não o comissariado, e quem prometeu dois testes foram seus dois ministros da Educação e a doutora Dilma. O último exame custou R$ 271 milhões, e Mercadante argumenta: "quantas creches eu construo?".

Se é para fazer conta de padaria, o ministro poderia perguntar quantas creches construiria com o dinheiro que seus companheiros recebem, acima do teto de R$ 26 mil mensais, vindo de conselhos e auxílios-moradia. Coisa de uns R$ 2 milhões anuais. Ademais, tendo prometido entregar seis mil creches até o fim de 2014, em dezembro de 2012 a doutora entregara apenas 20.

Cabe a pergunta: o MEC tem um banco de questões capaz de aguentar dois testes do Enem? Quem acreditou nas promessas de Fernando Haddad enquanto ele esteve no Ministério da Educação fez papel de bobo. Inclusive o signatário, que não acreditou na promessa da doutora, por escaldado.

NATASHA E O 'ESTADO DITATORIAL MILITAR'

Madame Natasha estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e abandonou o curso para fumar maconha em paz. Ela se lembra de três professores, todos diretores da escola. Um, Luís Antonio da Gama e Silva, foi ministro da Justiça no governo do marechal Costa e Silva. Em junho de 1968, ele propôs que o governo baixasse um Ato Institucional.

Em dezembro, redigiu o AI-5. "Gaminha", como os alunos o chamavam, foi substituído por outro ex-diretor da casa, o professor Alfredo Buzaid, cujo secretário-geral, Manoel Gonçalves Ferreira Filho, ocupou o mesmo cargo.

A partir dessa lembrança, Natasha decidiu oferecer uma de suas bolsas de estudo ao doutor Cláudio Fonteles, coordenador da Comissão da Verdade, pelo uso do conceito de "Estado Ditatorial Militar" em suas bulas.

Ela crê que Fonteles poderia dizer "Estado Ditatorial", botando civis na roda, pois sem eles não haveria atos institucionais e teria sido mais difícil manter as centrais de torturas montadas em quartéis.

Natasha sabe que há uma tendência para se atribuir aos militares os malfeitos, varrendo- se para baixo do tapete (persa) o integral apoio de civis a todas as ditaduras do mundo. O doutor Fonteles já deve ter visto a famosa fotografia de Adolf Hitler em Paris, com a Torre Eiffel ao fundo.

Nela, o Führer, de quepe, está ladeado por outras duas pessoas fardadas. Ele era cabo reservista da Guerra de 14. Os outros dois, paisanos fantasiados.

O da esquerda era o arquiteto Albert Speer e o da direita, o escultor Arno Breker.

(No seu ofício, Breker era melhor que Speer.) O "generalíssimo" Stalin e o Duce Benito Mussolini também gostavam de usar farda.

Um nunca entrara em quartel, o outro chegou a cabo em 1916.

FERVURA

O ministro Guido Mantega ainda não ferveu, mas na água de sua panela começaram a surgir pequenas bolhinhas.

A fervura não decorre de sua atividade, mas de um fato mais grave: ganha uma viagem de ida a Cuba quem souber o nome da pessoa que cuida da política econômica do governo. E ganha a passagem de volta quem souber qual é essa política.

OLHO VIVO

De uma víbora, comentando as últimas ascensões políticas ocorridas em Brasília: "Não passam no detector de metais."

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e sabe que Jorge Paulo Lemann e Joseph Safra têm horror a ver seus nomes nos jornais em listas de ricos semelhantes às dos desempenhos dos cavalos no Jockey. Desde que surgiu o fenômeno Eike Batista, Lemann e Safra perderam a paz. Um viu-se no noticiário por ter ultrapassado Eike na cabeça da lista. (A poupança dele está em US$ 19,1 bilhões.) Agora Safra entrou na dança porque tomou o terceiro lugar, com seu cofrinho de US$ 12 bilhões, pois Eike, ainda longe de precisar de um Bolsa Família, ficou só com US$ 11,4 bilhões, em quarto lugar. (Na segunda posição fica Dirce Camargo, herdeira do empreiteiro Sebastião Camargo.) O idiota acha que Lemann e Safra deveriam criar um fundo de garantia para Eike, permitindo-lhe que continue na cabeça da lista, sem expô-los.

Se cada um passasse US$ 4 bilhões a Batista, continuariam fora dos holofotes.

ESTREIA

O deputado Eduardo Cunha estreou na liderança do PMDB criticando as desonerações de impostos (que resultam em mercadorias mais baratas para a choldra) e defendendo a liberação de 100% das emendas feitas ao Orçamento pelos parlamentares (que resultam em despesas a serem feitas no interesse dos doutores).

Bom começo para o modo PMDB de administração do dinheiro da Viúva.

ZÉ CELSO NO SERTÃO

Está nas livrarias "Do Pós-Tropicalismo aos Sertões".

É uma longa entrevista, magnificamente ilustrada, do teatrólogo José Celso Martinez Correa ao jornalista Miguel de Almeida. Zé Celso criou o Teatro Oficina nos anos 60, revolucionou a arte com as montagens de "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, e "Roda Viva", de Chico Buarque.

Transgressor num tempo de transgressões, está aí até hoje.

O valor histórico desse depoimento é inestimável. Aos 75 anos, ele está mais bem-comportado, e isso fez com que contasse sua história com um mínimo de pirotecnia.

Para se conhecer a peça, o livro traz o seguinte diálogo: Miguel: "Durante um certo período, dentro do Oficina, você vendia ácido. Você fazia disso um ato deliberado contra a ditadura?".

Zé Celso: "Não, era sobrevivência. (...) Eu não podia fazer mais nada".

Ou ainda: "Eu tinha uma ideia muito doida, que era montar 'Os Sertões' na Bahia, com uma equipe para filmar, mas, na realidade, nós estaríamos fazendo guerrilha, um grupo de guerrilheiros, aquilo seria um foco poderosíssimo de guerrilha”.


O pré-sal e outros erros - SUELY CALDAS

O ESTADO DE S. PAULO - 10/02

É essencial tirar da Petrobrás o peso de única operadora e de obrigá-la a aplicar 30% de todo o capital investido



Além da diretoria da Petrobrás, a proposta vem ganhando adeptos no governo federal. E, diante do cenário de desencanto com o futuro financeiro da estatal no curto prazo, descrito na semana passada pela presidente Graça Foster, tudo indica não haver outra saída: o governo terá mesmo de recuar na lei que regula a exploração de óleo do pré-sal para tirar da Petrobrás o status de operadora única e sua obrigatoriedade de entrar com 30% de todo o capital de investimento.

Longe de ser um privilégio, essa reserva de mercado não favorece a Petrobrás. Muito pelo contrário, para ela, é um peso insuportável: a empresa não tem dinheiro para investir; seu endividamento beira o limite do rebaixamento da nota de risco; e, se for rebaixada, vai pagar juros mais altos ao tomar créditos, e a alternativa de uma nova capitalização foi descartada por Graça Foster. É uma insanidade obrigá-la a injetar 30% do dinheiro de investimento em cada poço do pré-sal e ainda dar conta de operar sozinha em todos eles.

É hora de pensar em recuperar nossa maior empresa, abandonar os caprichos e a teimosia de não dar o braço a torcer. E hora de consertar, não de insistir num erro que atrasa a extração de óleo, emperra a produção, represa o faturamento, aumenta a importação, não gera empregos, engessa o progresso e alonga e agrava os problemas que levaram a estatal, em 2012, a encolher seu lucro em 36% e a ser rebaixada do terceiro para o oitavo lugar no ranking das maiores petrolíferas do mundo.

E não é só a Petrobrás a penalizada. Sem a extração das ricas jazidas do pré- sal, o que poderia ser traduzido em milhares de empregos, progresso e renda tributária para o Tesouro Nacional aplicar nas carências sociais (educação, saúde, saneamento) é simplesmente convertido a nada, punindo o Brasil e os brasileiros.

Depois de seis anos de paralisia, finalmente o governo programou duas licitações de petróleo para 2013, e a segunda delas - a primeira sob regime de partilha no pré-sal - está marcada para novembro. Se quiser que a mudança nas regras da lei alcance essa licitação, Dilma Rousseff precisa decidir rápido, enviar a proposta ao Congresso Nacional o quanto antes e batalhar por sua tramitação - evitando o que aconteceu com o Orçamento de 2013, que deveria ser votado em 2012 e até hoje, nada.

É fundamental recolocar a Petrobrás na linha da prosperidade. Em 2012 sua produção caiu, o endividamento cresceu, o investimento foi contido, as duas refinarias que seriam construídas no Nordeste só sairão do papel se sócios privados chegarem, o complexo petroquímico do Rio de Janeiro corre o risco de virar uma simples refinaria e muitos de seus ativos aqui e no exterior estão à venda. Enfim, a Petrobrás não tem dinheiro para bancar o pré-sal e precisa recuperar o seu caixa. É essencial tirar-lhe o peso de única operadora e de obrigá-la a aplicar 30% de todo o capital investido.

Mais erros. Teimosia, controle e tabelamento parecem palavras doces, aos ouvidos do governo federal, e amargas, para o investimento em infraestrutura. Ao definir regras de licitações, a equipe de Dilma Rousseff tem cometido erros que derivam da teimosia ideológica de controlar o lucro do investidor, ao tabelar sua taxa de retorno.

Como bem lembrou o ex-ministro Delfim Netto (por sinal, um conselheiro ouvido e respeitado por Lula e Dilma), em recente entrevista, "o governo não tem conseguido produzir leilões capazes de atrair a iniciativa privada porque tenta fixar coisas que não podem ser fixadas simultaneamente". O modelo ideal, sugere ele, "é fixar a qualidade da concessão e depois fazer um leilão competitivo em que é determinada a taxa de retorno". No final - conclui Delfim -, "o mercado responder com a porcaria que cabe na taxa de retorno".

Em todos os projetos de licitações recentes, o governo teve de reconhecer erros e recuar pela insistência em determinara taxa de retorno do empresário, em vez de deixar que a concorrência entre os competidores cumpra esse papel. Agora mesmo, para evitar o fracasso do leilão de rodovias por falta de competidores, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou recuos: estendeu os prazos de financiamento e de concessão, mas continuou obrigando investidores a definirem a taxa de retorno pretendida. A ver se essas mudanças conseguem atrair o capital privado ou se o leilão resultará em novo fracasso.

A sensação é de que o governo está sempre desconfiando do empresário, suspeita de que sua intenção é lucrar mais do que o tolerável (?), responde com intervenções autoritárias e recebe de volta a rejeição.

A desconfiança se quebra com exigências de qualidade no serviço prestado e com um modelo de leilão inteligente, capaz de neutralizar espertezas e deixar que os competidores briguem entre si. Vai vencer o mais competitivo, o que oferecer melhor qualidade do serviço e melhor tarifa para o consumidor. Não há nenhuma necessidade de tabelar nem de controlar lucro.

No caso do leilão dos Aeroportos de Brasília, Guarulhos e Viracopos, houve mais erros que irritaram a presidente Dilma. Afinal, agestão do Aeroporto de Guarulhos (São Paulo), o maior da América Latina, acabou sendo entregue a um consórcio inexperiente em operar grandes e populosos terminais.

O governo, no entanto, não conseguiu (ou não quis) entender os motivos que afastaram os grandes operadores. E mudou para pior as regras para o próximo leilão dos Aeroportos do Galeão (Rio de Janeiro) e de Confins (Minas Gerais): a Infraero ficaria com 51% do consórcio e os investidores privados dividiriam os 49% restantes. Foi um fiasco. O grupo de funcionários que expôs a proposta na Europa só ouviu negativas. Mais uma vez o desgaste e o recuo. Neste momento, o governo prepara novas regras para os dois aeroportos. A ver.

Há erros e recuos também em regras para a construção de novos portos. Essas idas e vindas denotam insegurança e abrem tempo e espaço para a atuação de lobbies e reclamações, que trazem ainda mais confusão. Até mesmo estivadores, que há décadas dominam uma espécie de reserva de mercado de trabalho em portos, vieram a público reclamar.

E verdade que houve um avanço: o governo Dilma finalmente reconheceu que, sem investimentos em infraestrutura, o "pibinho" nunca vai virar "pibão". E partiu para a privatização. Mas como demora a acertar o passo!


Etanol precisa reconquistar espaço perdido - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 10/02

A crise no álcool foi decorrente de uma conjugação de problemas financeiros dos produtores, clima desfavorável e política bisonha de preços do governo



Após três anos seguidos de maus resultados, a safra de cana-de-açúcar a ser colhida este ano deverá apresentar um crescimento razoável, superior a 3% na região Centro-Sul, que responde pela maior parte da produção. É um crescimento ainda insuficiente para atender à demanda pelos derivados da cana, especialmente o etanol, mas talvez seja um primeiro sinal de recuperação do setor. A cana tem uma característica peculiar que não permite que se calcule com alguma antecedência, de maneira precisa, a produtividade da safra. Somente no período mais próximo ao corte é possível estimar os teores de açúcar nela contidos. É claro que são feitas estimativas como base na área plantada, nas condições meteorológicas nas épocas de plantio de novas mudas e no crescimento das já existentes.

O otimismo moderado em relação à possibilidade concreta de recuperação é que este ano já se consegue obter bons resultados da renovação de antigos canaviais, do uso de variedades mais produtivas, do aperfeiçoamento de técnicas de mecanização e da entrada em funcionamento de usinas modernas.

O setor sucroalcooleiro foi apanhado no contrapé ao meio de um processo de transformação. A crise de 2008/2009 foi dura com os grupos que se endividaram na tentativa de assegurar ganhos de escala. Se antes empresas com capacidade de moer três milhões de toneladas anuais de cana eram vistas como grandes, em determinado momento cifras inferiores a dez milhões de toneladas deixaram de ser reconhecidas como economicamente viáveis. O setor entrou, então, em uma fase de fusões e incorporações atrelado a endividamento audacioso. Em consequência da situação financeira desfavorável, investimentos não foram feitos adequadamente, e a queda da produtividade agravou esse quadro de descapitalização.

O golpe de morte foi dado pela política bisonha do governo em relação aos preços de alguns combustíveis. Ao segurar artificialmente a gasolina por várias safras consecutivas, o etanol perdeu competitividade. Além disso, o álcool não angariou a merecida desoneração tributária, enquanto a gasolina era favorecida.

O resultado é este desequilíbrio difícil de ser neutralizado no mercado de combustíveis para veículos leves. Com o recente aumento da gasolina, as autoridades esperam dar fôlego também aos produtores de etanol, e já acenam com o aumento de percentual de mistura, de 20% para 25% de álcool anidro, o que pode proporcionar, a partir de abril, uma pequena redução de preços pagos pelo consumidor na bomba. O álcool hidratado, que concorre diretamente com a gasolina, continuará com a oferta limitada.

O que aconteceu com o etanol merece uma reflexão mais profunda. Em termos de emprego, geração de empregos, recolhimento de impostos, e, principalmente, ganhos ambientais, o etanol tem mais impacto positivo na cadeia produtiva e na economia brasileira que a gasolina.

Troféu Petrobras - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 10/02


BRASÍLIA - O petróleo é nosso, a Petrobras é um dos maiores orgulhos nacionais e o pré-sal (junto com a magia da "autossuficiência") embotou o brilho dos biocombustíveis, encheu os olhos do mundo, atiçou a verve de Lula e recheou as urnas de Dilma Rousseff em 2010.

Apesar de tudo isso, o lucro líquido da Petrobras caiu 36% em 2012 e suas ações despencam ano após ano. Ela vem recuando no ranking internacional de petroleiras e perdeu o mítico primeiro lugar entre as empresas nacionais para a Ambev, um grupo privado.

Nós, os leigos, não sabemos nada e temos má vontade ao analisar a grandiosidade das intenções e das ações dos governantes (que o digam Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e, agora, Dilma). Mas alguém poderia nos explicar?

Na versão corrente, a culpa é das oscilações do dólar; do aumento das importações da gasolina e do diesel; e da defasagem entre os preços dos combustíveis praticados internamente e a cotação internacional.

Mas como assim importação? Não se falava tanto na tal "autossuficiência"? E essa defasagem nos preços não foi um erro de cálculo, foi uma decisão política da Presidência da República imposta de cima para baixo a uma companhia que deve explicações a seus acionistas -e, principalmente, à sociedade brasileira.

A gestão política dos preços, aliás, tem tudo a ver com o aparelhamento insolente da maior, ops!, da ex-maior companhia brasileira. Os companheiros arrombaram a porta, sentaram, usaram e abusaram. Os incontáveis alertas feitos por técnicos e pela imprensa nos últimos dez anos foram sempre desqualificados como "coisa da elite", "estratégia tucana", "ataque dos conservadores".

Graça Foster, uma técnica que parece respeitar a verdade, veio para ajustar a bússola e evitar um Titanic. Ela deveria dar um troféu pelo desastre para o seu antecessor, José Sergio Gabrielli. Ou para Lula.

Uma carta de Sarney - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 10/02 

O ex-presidente José Sarney me enviou carta com dois anexos. Num deles, uma correspondência de Juscelino a ele; no outro, uma defesa que fez do jornal "Estado de S.Paulo", em 1973. Negou ser autor dos atos secretos do Senado. "Jogaram no meu colo os atos secretos." Enviou estatística: 196 dos atos são de Renan Calheiros, e só 16, dele, Sarney. Quis responder à crítica ao seu apoio à ditadura. Missão difícil.

Para situar o leitor, a carta é uma reação à coluna em que comento a triste legislatura que começa agora e me refiro ao discurso de despedida do senador José Sarney em dois pontos: sua afirmação de que é pioneiro em transparência, apesar do escândalo dos atos secretos, e de que jamais feriu ninguém, nem com um espinho, apesar de ter apoiado um regime que usou mais que espinhos para ferir adversários.

Muitos que apoiaram o golpe de 1964 mudaram de ideia diante do endurecimento do regime. Mas não Sarney. Ele esteve ao lado dos militares até junho de 1984. Faltou-lhes apenas nos últimos nove meses. É difícil negar fatos tão consistentes no tempo. Sarney foi da Arena enquanto ela existiu e presidiu o partido que a sucedeu. Quando se afastou, no ocaso do regime, não foi por discordar dos seus princípios. Foram as circunstâncias da disputa presidencial da época.

Ele exibe como prova de que era um defensor da liberdade de imprensa um pronunciamento feito em 1973 de repulsa a um ataque que o "Estadão" recebeu do então governador paulista. "Chegaram os tempos em que a liberdade de imprensa passou a ser fundamental para a democracia, de tal modo que hoje ela não é mais uma aspiração liberal; é um direito do homem como o é a saúde." Belas palavras. Pena que não tenha defendido o mesmo "Estado de S. Paulo" da sistemática censura prévia que sofreu por anos. Ou mesmo, em tempos mais presentes, da censura judicial que hoje o jornal sofre para não publicar informações que se referem à pessoa da família do senador. Um discurso de 1973 não há de preencher tão vasto silêncio.

Sarney é figura ambivalente. Foi também o primeiro presidente civil pela fatalidade da morte de Tancredo Neves. A Aliança que fez com Tancredo não apaga seu passado de servilismo ao regime militar, mas ele demonstrou temperança em momento de delicada transição. É homem que teve a chance, que raramente têm as pessoas públicas, de mudar a própria biografia. Mas a desperdiçou, em parte, ao permanecer tão colado ao poder, quanto ficou nos últimos anos, com tantos e tão controversos atos.

Sobre os atos secretos, Sarney diz: "Jogaram no meu colo os atos chamados secretos. Pois bem eles foram apropriação estelionatária, pois publicada como descoberta de um repórter, foi fruto da Fundação Getúlio Vargas, que, contratada por mim, constatou que alguns atos de administrações anteriores não tinham entrado na rede da Intranet do Senado."

Segundo Sarney, o inquérito feito na época da denúncia encontrou 952 atos secretos: de Antônio Carlos Magalhães, 584; Garibaldi Alves, 204; Renan Calheiros, 196; Ramez Tebet, 34; Tião Viana, 16; José Sarney, 16; Edison Lobão, 2.

Na carta que enviou a Sarney, em 1972, o ex-presidente Juscelino Kubitschek elogia o então governador do Maranhão que, em 12 de dezembro de 1968 (véspera do AI-5), fez um discurso em homenagem ao ex-presidente cassado. E o chama de "jovem, inteligente, corajoso e digno", além de dizer que leu de um fôlego o livro "Norte das águas".

JK foi uma grande e delicada figura pública, é o que a carta do ex-presidente Juscelino ao então governador do Maranhão comprova.

Furos na economia - CELSO MING

O ESTADO DE S. PAULO - 10/02

É carnaval, os foliões sambam nas passarelas, o povo se diverte como pode e, por enquanto, os índices de aprovação da administração Dilma seguem batendo recordes.

Mas os fundamentos da economia do Brasil estão em deterioração. É só conferir o que a atual administração está entregando: uma sucessão de pibinhos, a inflação mais alta desde 2005, o investimento empacado, a indústria em franco esvaziamento, a Petrobrás sangrando em seu caixa, o outrora pujante setor dos biocombustíveis perdendo importância, a balança comercial passando sinais preocupantes; a percepção externa sobre o Brasil piorando aos poucos.

O galardão da presidente Dilma é a área social. As classes médias seguem aumentando. O povo nunca consumiu tanto, nunca viajou tanto. O setor de serviços está em grande expansão. Paradoxalmente, a área mais pujante da economia é o agronegócio, justamente o setor que vem sendo acusado por áreas do governo como o reduto dos ruralistas, da monocultura e da exploração do trabalhador. Apenas um reparo: há dois subsetores no agronegócio que, ao contrário dos outros, enfrentam séria crise: é o já mencionado ramo do açúcar e do álcool, em consequência do represamento dos preços dos combustíveis; e o da laranja, atacado por forte deterioração dos preços internacionais.

O descontentamento começou a espalhar-se numa área até recentemente tida como aliada do governo: o dos empresários. As empresas enfrentam custos crescentes, especialmente de mão de obra, e já não podem contar com o rendimento financeiro para compensar o baixo retorno operacional. É o que explica tantos balanços bem mais fracos do que os apresentados em outros anos. O empresário não se anima a investir porque entende que deixou de ganhar dinheiro - não importando aqui o quanto isso é verdadeiro. Ele só não demite mais porque a situação de pleno emprego tornou mais difícil a contratação de pessoal.

Os cala-bocas da hora não vêm surtindo o efeito desejado. A tão festejada desoneração dos encargos sociais é pouco mais do que uma insignificância. As renúncias fiscais (isenção ou redução de impostos) não podem mais ser mantidas; estão sendo gradativamente revogadas. A desvalorização cambial (alta do dólar) que veio para dar mais competitividade ao setor produtivo, está em parte sendo revertida pelo Banco Centra e, em parte, comida pela inflação à proporção de 6% ao ano. E o BNDES não é uma solução para todos porque só contempla os previamente destinados a serem campeões em sua área.

A presidente Dilma parece ter-se convencido de que não pode mais tratar o setor privado a pão e água e que precisa abrir as licitações de projetos de infraestrutura e energia. Mas essa mudança vem um pouco tarde e deverá demorar muito mais a maturar e a dar frutos.

A desenvoltura da inflação preocupa. Se continuar com o discurso de que não é preciso agir porque, logo adiante, a inflação cederá por simples imperativo estatístico, o Banco Central corre o risco de perder ainda mais credibilidade. Já não conduz as expectativas, passou a percepção de que só reage com autorização superior e aceitou passivamente demais à deterioração das contas públicas. Agora pode defrontar-se com a força da inércia inflacionária. Mais ainda, corre o risco de ter de puxar os juros de volta para cima apenas às vésperas das eleições.

Sambão com gestão - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 10/02


Visitantes que assistem aos desfiles das escolas de samba se deslumbram não somente com o ritmo, o espetáculo e a emoção, mas também com a sua organização.

De fato, é impressionante o número de envolvidos e a diversidade de cenários e papéis, tudo funcionando de maneira sincronizada numa festa marcada pela explosão das emoções e pelo descompromisso com formalidades.

Essa aparente contradição intrigou muitos estudiosos da administração. Como, dentro do ambiente carnavalesco, pode funcionar de forma tão eficiente uma estrutura com tantos participantes de ori-gens tão diversas, muitos reunidos somente no dia do desfile, organizados em ensaios apenas parciais?

O resultado desses estudos são muito úteis para a administração pública e privada.

A primeira lição importante é que a organização tem que levar em conta a cultura e as condições objetivas na qual opera. O desfile está totalmente inserido na cultura local. Seus participantes se sentem à vontade para exercer seu ritmo natural e com ele construir um espetáculo grandioso que encanta milhões de pessoas do mundo todo com beleza visual e conteúdo emocional.

O grande segredo é a estrutura relativamente folgada das escolas, que dá a cada participante grande margem de manobra para exercer sua criatividade, divertir-se, acenar aos amigos, sem deixar de desempenhar seu papel nem prejudicar o espetáculo. A regulação é justamente feita para preservar esse espaço individual.

Outros pontos importantes são a cadência da música, determinada pela bateria, que marca um ritmo comum a toda a estrutura, e a direção, determinada pela própria limitação física do sambódromo. Há ainda uma clara divisão de setores, definidos por figurinos e cores, e um forte componente motivacional: os participantes da organização estão muito motivados e desempenham seu papel por escolha.

Muito importante também é o fator plateia. Estudos recentes de psicologia organizacional mostram uma diferença enorme de desempenho entre pessoas que executam determinada tarefa isoladamente e pessoas que a executam com outros assistindo. Quanto maior a plateia, maior a motivação, pois o ser humano é gregário por natureza.

O desfile de Carnaval mostra, assim, um caminho de sucesso para as organizações: estrutura inserida na cultura local; ritmo e direção comuns a todos; papéis claramente definidos; margem de manobra no exercício de cada tarefa; alto grau de motivação e planejamento.

Já vimos fracassos enormes de organizações que falham em atender a esses conceitos básicos em desfile na avenida.

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV - 10/02


9h - Barcelona x Getafe, Espanhol, ESPN

11h - Evian x O. de Marselha, Francês, ESPN + e SporTV 2

11h30 - Aston Villa x West Ham, Inglês, ESPN Brasil

11h30 - Ajax x Roda, Holandês, ESPN

11h30 - Atletismo, Grand Prix de Gent, Bandsports

12h - Cagliari x Milan, Italiano, Fox Sports

12h30 - Judô, Grand Slam de Paris, Esporte Interativo

13h - Irlanda x Inglaterra, rúgbi, ESPN +

13h30 - Zwolle x Twente, Holandês, ESPN

13h45 - Manchester United x Everton, Inglês, ESPN Brasil

14h - Sporting x Marítimo, Português, SporTV

16h - Athletic Bilbao x Espanyol, Espanhol, ESPN

16h - Toluca x Tigres, Mexicano, ESPN +

16h - Basquete, Copa do Rei (final), Bandsports

16h30 - Nigéria x Burkina Fasso, Copa Africana de Nações (final), SporTV

17h45 - Inter de Milão x Chievo, Italiano, Fox Sports

18h - Lyon x Lille, Francês, ESPN Brasil e SporTV 2

18h - St. John's x Syracuse, basquete universitário, ESPN +

19h - Torneio de Viña del Mar (final), tênis masc., Bandsports

19h30 - Mogi Mirim x Palmeiras, Paulista, SporTV

20h15 - Estrellas Orientales-VEN x Flamengo, Liga das Américas de basquete, Fox Sports

21h - Duke x Boston College, basquete universitário, ESPN +

Um desconfortável Banco Central - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 10/02

Inflação, como previsto, começa a assustar em 2013, mas governo aposta que ela será menor que em 2012. Mas é bom saber que Tombini não goste desta situação


O esperado aumento da pressão inflacionária neste início de ano se confirma em grande estilo, com o IPCA de 0,86% em janeiro, ou 6,15% nos doze meses anteriores, apenas 0,35 ponto percentual do teto da meta anual de 4,5%, já não alcançada há três exercícios. É a mais elevada taxa em janeiro desde 2003, quando o recém-empossado governo Lula se viu diante de um choque de inflação provocado pela alta do dólar durante a campanha eleitoral, subproduto dos temores dos mercados e de parte da sociedade com a chegada do PT ao poder.

À época, numa demonstração de maturidade, o governo aplicou os remédios monetários (juros) e fiscais (gastos) adequados, e os índices cederam. Hoje, a conjuntura é diferente e mais complexa.

Em outros tempos, o BC já teria elevado a taxa básica de juros, de 7,25%, a mais baixa desde a criação da Selic. Mas o momento é outro. A economia cresce em ritmo lento — na melhor das hipóteses, 3,5% este ano, e muito em função da baixa base de comparação de 2012 — e há a aposta do BC e governo em que o segundo semestre será menos ingrato, com a inflação do ano fechando abaixo dos 5,8% de 2012.

Um parêntese: mesmo assim, um índice alto, não só, mais uma vez, acima da meta de 4,5%, como, por exemplo, à frente da inflação do emergente mais próximo do Brasil no continente, o México (3,6% no ano passado, mais que a meta de 3%, e com um crescimento bem maior, 4%, contra cerca de 1% do Brasil).

O BC de Alexandre Tombini conseguiu o feito de, contra a maioria das expectativas, fazer um corte histórico nos juros, por antever, com eficiência, a degradação da economia mundial, com a entrada da Europa em parafuso. BC e governo dão todos os sinais de que farão o máximo para manter os juros baixos. Mas Tombini acaba de reconhecer que “a situação não é confortável”. Em “bancocentralês”, significa que a autoridade monetária, apesar de visões em contrário, não abrirá mão do seu mandato para preservar o poder aquisitivo da moeda, já erodido pela inflação elevada dos últimos anos. E é bom que assim seja.

Os alimentos continuaram a pressionar os índices. Porém, prevê-se uma descompressão daqui para frente. Não deverá haver nova seca histórica nos Estados Unidos, e o Brasil colherá uma supersafra de grãos. Um reajuste mais baixo do salário mínimo, por sua vez, poderá pôr rédeas curtas nos preços dos serviços. São em pontos como estes que se baseia o governo para ostentar algum otimismo. Mas até que os ventos soprem a favor, a quadro piorará, com taxas talvez bem acima do teto de 6,5%. Qual a dimensão dos estragos que os mecanismos de indexação existente nas economia farão, não se sabe.

Além disso, é certo que o BC — como tem sido norma — continuará sem a ajuda do Ministério da Fazenda na contenção dos preços, por ele ser um gastador incorrigível. Neste contexto, é bom um BC desconfortável.

Novas regras para concessões - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 10/02

O governo garante que as novas regras para a concessão de rodovias são mais realistas, mais atraentes para os investidores e colocam mais recursos financeiros de 

bancos públicos à disposição dos interessados, razão pela qual devem atrair mais concorrentes para as próximas licitações. O setor privado concorda com boa parte do que dizem as autoridades.

Se isso parece tão óbvio, por que só agora, depois de ter adiado as licitações marcadas para 30 de janeiro, os novos critérios estão sendo incorporados ao programa de concessões? Com as regras anteriores, havia poucos grupos interessados em investir num empreendimento de longo prazo de maturação e com a rentabilidade excessivamente comprimida.

"Nós caprichamos nas medidas", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao anunciálas na terça-feira (5/2) durante evento que reuniu em São Paulo empresários do setor de infraestrutura e investidores. "Ficou mais fácil fazer investimentos nessas condições."

O leilão de janeiro incluía a concessão de nove trechos - dois dos quais, em Minas Gerais, de grande importância para o País - de acordo com regras fixadas em 2012 e, por isso, não previam a possibilidade de obtenção de financiamentos nas condições oferecidas pelo Programa de Sustentação de Investimentos (PSI), mais favoráveis do que outras linhas de crédito. O PSI foi estendido a obras de infraestrutura e logística depois de publicado o edital das concessões rodoviárias.

As novas condições anunciadas pelo ministro da Fazenda são ainda melhores do que as do PSI. O prazo do financiamento será estendido de 20 para 25 anos, a carência aumentou de 3 para 5 anos e o custo, antes equivalente à TJLP mais 1,5%, ficará em TJLP mais um acréscimo de até 1,5%, dependendo da classificação de risco do empreendedor.

Será aumentado o limite do financiamento público em relação ao total do investimento e reduzida a exigência de garantias. O prazo de concessão foi aumentado de 25 para 30 anos, o que dá mais segurança aos investidores. Algumas exigências anteriores foram mantidas, como a que condiciona a cobrança de pedágio à aplicação de pelo menos 10% dos investimentos previstos. Foi mantido também o prazo de cinco anos para a conclusão de todo o programa de obras, inclusive a duplicação das rodovias concedidas.

A grande mudança, porém, foi na taxa de retorno do empreendimento, dado essencial para o cálculo da rentabilidade do investimento e, consequentemente, do valor do pedágio.

No edital publicado no ano passado, essa taxa podia oscilar de 10,8% a 14,6% do volume total de investimentos; agora, poderá ficar entre 12% e 17%. Quanto mais alta a taxa de retorno, maior deve ser o valor do pedágio a ser pedido pelos interessados nas concessões. Também afetará esse valor a revisão do aumento do tráfego nas rodovias a serem concedidas, de 5% para 4% ao ano.

São regras e projeções mais realistas, diz o governo. Empresários do setor fazem comentários semelhantes. São, de fato, mudanças em geral positivas.

O governo do PT resistiu o quanto pode à transferência para os empreendedores privados das tarefas de operação, manutenção e expansão de setores essenciais para a economia, mas que ele já não conseguia administrar, por carência de recursos e de competência técnica e administrativa. Mesmo quando admitiu a entrada do setor privado na área de infraestrutura, agiu de maneira ambígua, na tentativa de reduzir seu campo de atuação, com regras que limitavam ou eliminavam o interesse de empresas de reconhecida capacidade financeira e operacional pelos empreendimentos licitados.

Tendo demorado tanto para aceitar a indispensável parceria com o setor privado e, depois, para entender que as regras das concessões não podem ofender princípios elementares da atividade empresarial - como a estabilidade das regras e a garantia de rentabilidade suficiente para remunerar o investimento -, o governo Dilma precisa agir. Para crescer, além de estradas, o País carece de ferrovias, portos, aeroportos, entre outros requisitos de infraestrutura.

Miséria publicitária - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 10/02


Ao distorcer dados da emancipação de miseráveis, governo solapa a seriedade necessária para discutir os rumos da política social


A área econômica do governo Dilma Rousseff faz escola. O malabarismo estatístico, ou "contabilidade criativa", difunde-se também para outros setores da administração federal.

O Planalto alardeia ter tirado da miséria quase 20 milhões de pessoas. São 10% da população brasileira, e isso em apenas dois anos.

O segredo da prestidigitação, no caso, está em manipular os dois aspectos cruciais da contabilidade: a definição do que vem a ser pobreza extrema (ou miséria), de um lado, e o cadastro das famílias declaradas miseráveis, do outro.

Desde 2009 está fixado em R$ 70 o teto da renda mensal familiar per capita que define a miséria para fins do Bolsa Família e de outros programas federais de assistência. Já o rendimento dos mais pobres no mercado de trabalho veio aumentando, nesse período, mais depressa que a inflação.

Trata-se de uma emancipação social independente da ação do governo. Mas ela seria menor que a alegada na propaganda oficial superlativa, e mais corretamente medida, se o Planalto reajustasse a linha da indigência pelos índices de preço. Corrigidos pelo IPCA, os R$ 70 de 2009 correspondem a quase R$ 90 hoje.

A alquimia para simular tamanha progressão social instantânea envolve outro sortilégio. Em 2010, o Censo do IBGE apontava cerca de 16 milhões de brasileiros com rendimento inferior a R$ 70 mensais. Abaixo, portanto, dos 19,5 milhões que o governo anuncia terem saído da miséria nos dois anos seguintes.

Em vez de fiar-se no IBGE, o governo passou a contabilizar os indigentes de acordo com seu próprio cadastro, realizado em parceria com os mais de 5.500 municípios brasileiros. Daí surgiu o milagre da multiplicação dos miseráveis, dois anos atrás.

Não é preciso muita reflexão para atribuir ao cadastro dos beneficiários do governo um grau de vulnerabilidade técnica -para não falar das brechas a fraudes- bem mais elevado que o do Censo do IBGE.

A discussão sobre a pobreza e as formas de enfrentá-la está pronta para subir de patamar. Sabe-se hoje, por exemplo, que as condições de moradia e instrução dos mais pobres evoluíram bem mais lentamente que a renda. Deveriam ganhar mais destaque na política social e originar novos indicadores.

Os reiterados lances de pirotecnia estatística do governo federal, porém, chamuscam sua seriedade e sua credibilidade nesse debate.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Entre nações amigas não existe constrangimentos”
Chanceler Antonio Patriota sobre o embaixador venezuelano em ato contra o STF


PR DIZ A DILMA QUE VETA BLAIRO MAGGI NO MINISTÉRIO

O senador Alfredo Nascimento (AM), presidente do Partido da República (PR), vetou o senador Blairo Maggi (MT) para assumir ministério no governo Dilma. Em conversa com a presidente, quinta, ele afirmou que ele pode até ser o escolhido, mas não representará o PR. O partido não perdoa Blairo após ele haver declarado que não admite ser comandado por Valdemar da Costa Neto, condenado no mensalão.

SAIA JUSTA

Para piorar, Blairo fez consulta à Justiça Eleitoral em busca de carta branca para deixar o PR sem o risco de perder o mandato no Senado.

PR NÃO PERDOA

Blairo quis saber do TSE se a condenação do mensaleiro Valdemar seria uma “justa causa” para ele deixar o PR e manter o mandato.

NÃO DÁ A MÍNIMA

O senador Magno Malta (PR-ES) não esconde a rejeição a Blairo Maggi: “Ele nos trata igual a um saco de soja”.

NEGOCIAÇÕES

Em busca de apoio para 2014, Dilma combinou nova conversa com o PR após o carnaval. Ela quer concluir a minirreforma até março.

CHEFE DA FESTA DA COPA ACUSADO DE SONEGAÇÃO

É muita falta de sorte do Brasil: fundador do Cirque du Soleil, o italiano Franco Dragone é investigado na Bélgica por suposta fraude fiscal da holding Franco Dragone Entertainment Group, que organizará a festa de abertura da Copa em São Paulo e do encerramento no Maracanã, no Rio. Não paga impostos desde 2001, lavando dinheiro em paraísos fiscais. Dragone processa o jornal belga Le Vif pelas denúncias.

‘CONFIANTE’

Dragone, organizador da festa da Eurocopa 2000, confirmou ser alvo de inquérito, mas se diz “confiante” no esclarecimento das denúncias.

REFÚGIO DO DEM

O prefeito ACM Neto convidou os deputados do DEM a passar este domingão de carnaval no camarote da prefeitura, em Salvador.

DE PLANTÃO

O presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), ficou em Brasília, no carnaval, para organizar a convenção nacional do partido, em março.

MENSAGEM A GARCIA

Dilma não visitou Marco Aurélio Garcia no Incor-DF, só telefonou. Ela nunca esqueceu o mico diplomático que amargou, quando Top-Top não a posicionou claramente do que havia acontecido no Paraguai, com o inexistente “golpe” contra o ex-bispo tarado Fernando Lugo.

CANTOS DO EXÍLIO

Aumentou a distância entre os gabinetes de Dilma e o do vice Michel Temer, segundo muy amigos dele. A chefona não tem perguntado nem pelo livro de poesias de Temer, aliás, muito elogiado.

BOM EXEMPLO

O deputado Ruy Carneiro (PSDB-PB) quer reunir os 53 deputados que abriram mão do 14º e do 15º salário para pressionar a votação do fim da moleza. Dois deputados do DF estão entre os primeiros a dispensar a remuneração maldita: Luiz Pitiman (PMDB) e Antonio Reguffe (PDT).

CHERCHEZ L’HOMME

É cercada de mistérios na Venezuela a carreira do embaixador Maximilien Sánchez, que tripudiou sobre a lei brasileira apoiando em público os meliantes do mensalão. Militante trotskista, teria nascido em subúrbio de Paris e obtido nacionalidade em tempo recorde.

NOVOS TEMPOS

Presidente do PPS, Roberto Freire (SP) diz estar esperançoso sobre o novo presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN): “Na gestão do PT, viramos correio de transmissão dos interesses do governo”.

AMEAÇA DIRETA

Deputados do Maranhão estão em pé de guerra com o secretariado de Roseana Sarney (PMDB). A bancada acusa cinco secretários de ajudar prefeitos em troca de apoio para a Câmara dos Deputados em 2014.

PERIGO CONSTANTE

Servidores das duas torres do Congresso estão preocupados: não há escadas externas e nada pode ser feito, porque o prédio é tombado. Os bombeiros nem encostariam no prédio, por causa do espelho d’água.

JÂNIO NA USP

A Universidade de São Paulo abrigará, após o carnaval, o precioso e imenso acervo de Jânio Quadros, entregue à secretaria de Cultura de Minas Gerais pela família do ex-ministro José Aparecido de Oliveira.

NOME É DESTINO

Chama-se Ivo Lodo o gestor do banco BVA, que será liquidado pelo Banco Central, após fraude na captação de recursos de fundos estatais.


PODER SEM PUDOR

O ANIMAL E O PERISCÓPIO

A polícia política de Felinto Muller, na ditadura Vargas, prendeu um suspeito de militar no Partido Comunista. Levado aos porões do Dops, foi submetido a uma medonha sessão de tortura por um delegado. Horas depois, chegou Luís Glayssman, do serviço secreto:

- Não adianta resistir: diga onde está o mimeógrafo.

- Ah, o mimeógrafo? Está enterrado lá no fundo do quintal...

- Por que não falou antes? - gritou Glayssman.

- É que esse animal passou o tempo todo onde estava o "periscópio"!

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Carnaval 2013 – Milionários do samba
Folha: Um terço das cidades de SP ambiciona ser lugar turístico
Estadão: Doze Estados aumentam gastos com propaganda
Correio: Batalha de gigantes
Estado de Minas: Pelo nome do pai
Jornal do Commercio: Tudo isso é Galo
Zero Hora: Quatro criminosos são mortos em tiroteio após ataque a banco