FOLHA DE SP - 18/09
SÃO PAULO - A sensação de "déjà-vu" é inescapável. No início de 2006, foram os protestos que se seguiram à publicação, por um jornal dinamarquês, de charges ridicularizando o profeta Maomé. Cem mortos.
Alguns meses depois, muçulmanos foram às ruas para pedir a cabeça do papa Bento 16, por ter supostamente afirmado que o islã era uma religião violenta. Ao menos uma freira foi assassinada. Agora, os tumultos têm como pretexto um obscuro filme anti-islâmico postado no YouTube. É cedo para contabilizar os mortos.
Não sou um especialista em exegese corânica, mas não creio que possamos atribuir a, vá lá, veemência islâmica a especificidades de seu texto sagrado. O Antigo Testamento, que é canônico para judeus e cristãos, traz injunções tão ou mais violentas do que o Corão. Quem duvida pode consultar o Deuteronômio, 13:7-11, onde somos instados a apedrejar nossos familiares que tenham se afastado de Iahweh.
A diferença entre o islã e o Ocidente, creio, está no fato de que, por aqui, passamos por um processo de secularização que teve início no Iluminismo e afastou a maioria dos fiéis de interpretações literais da Bíblia. Os muçulmanos estariam apenas no início dessa jornada, que, na melhor das hipóteses, ainda levará décadas.
Se há um problema mais propriamente teológico, ele é comum às três religiões abraâmicas e reside no fato de elas se pretenderem universais e fundadas numa verdade revelada pelo próprio Deus. Assim, se os cristãos estão certos, judeus e muçulmanos estão necessariamente em apuros e vice-versa duas vezes.
Sob esse aspecto, éramos mais felizes nos tempos do politeísmo, cujos deuses não eram tão exclusivistas nem ciumentos. Gregos, romanos e acádios podiam passar boas horas bebendo e apontando as semelhanças entre Afrodite, Vênus e Ishtar. É verdade que isso não os impedia de se matar logo depois, mas pelo menos não era por causa da religião.
terça-feira, setembro 18, 2012
Russomanno, o católico - CLÁUDIO GONÇALVES COUTO
O ESTADÃO - 18/09
Diante do questionamento sobre seus vínculos com a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), o candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, replica ser católico fervoroso. Diz que católico é não apenas ele, mas 80% de seu partido, que teria apenas 6% de membros da Igreja Universal. Não informa a fonte dos números, mas, mesmo admitindo sua correção, ainda é o caso de questionar sua relevância.
Afinal, as características do conjunto de filiados de um partido diz pouco sobre seus rumos ou propósitos gerais. Agremiações partidárias são organizações de poder concentrado, decisões centralizadas e relações hierárquicas. Isso não é característica do PRB, mas de quaisquer partidos políticos relevantes, mundo afora. Mesmo agremiações originalmente abertas à participação da base militante, como PT e PSDB, se tornaram partidos de poder concentrado.
A concentração decorre da profissionalização da política em geral e dos partidos, em especial. Tal como as empresas, agremiações não profissionalizadas não prosperam: não vencem eleições, não gerem bem suas finanças, não elaboram estratégias vitoriosas de conquista e manutenção do poder. E é para isso que os partidos servem - ainda que acalentemos fins mais nobres para eles.
É fundamental compreender o que realmente importa no funcionamento dos partidos e na definição dos reais interesses por eles defendidos, a saber: a composição de seu grupo dirigente. Logo, tanto faz se de fato houver 80% de católicos entre os filiados do PRB, pois o que, na verdade, conta é a composição dos ocupantes dos cargos de comando na organização.
Levantei estes dados do partido de Russomanno, observando dois tipos de informação: 1) a composição da Executiva Nacional e 2) a presidência dos órgãos estaduais. Ressalte-se ainda que, no que concerne aos Estados, o PRB está organizado (sem nenhuma exceção) em "Comissões Provisórias", um tipo de estrutura que priva os órgãos estaduais de autonomia em relação à direção nacional (como poderia haver no caso de diretórios); assim, pode-se afirmar que os presidentes estaduais são prepostos da Executiva Nacional. Em alguns Estados, como Roraima, tal "provisoriedade" dura desde 2007 e em todos os casos seu prazo de vigência é indeterminado. Assim, o partido reflete nos Estados a diretriz dada pelo centro.
A Executiva Nacional é composta por 18 membros, sendo dez deles (55%) oriundos da Igreja Universal do Reino de Deus ou da Record (em alguns casos, de ambas). No caso dos sete cargos hierarquicamente mais importantes na Executiva, todos os membros são igualmente oriundos da Iurd ou da Record. É bom frisar que essa é uma estimativa modesta, pois não foi possível obter informações sobre sete dos membros (que, aparentemente, não têm uma vida pública de relevo).
Nos órgãos estaduais os números são mais impressionantes. Dos 27 presidentes, só quatro (15%) não têm ou não tiveram vínculo formal aparente com a Igreja Universal ou a Record. Todos os demais ou são eclesiásticos da Iurd ou foram funcionários da Record, ou ambas as coisas. Se Russomanno considera que um partido com 80% de católicos não é vinculado a uma denominação neopentecostal específica, o que dizer de uma agremiação em que nada menos que 85% dos dirigentes estaduais são não apenas fiéis de uma igreja, mas seus funcionários e dirigentes?
Não há como ignorar os vínculos orgânicos entre a igreja, o grupo de comunicação e o partido. A presença simultânea e/ou a circulação de dirigentes nas três organizações evidenciam haver um mesmo grande empreendimento. Iniciado nos anos 70 por Edir Macedo, teve tanto sucesso no acúmulo de recursos que logrou comprar a Rede Record no início dos anos 90 e, após a eleição esparsa de parlamentares por diversos partidos, encampar uma agremiação própria nos anos 2000.
A presença de não membros da Iurd tanto na Record como no partido não desmente a lógica de conglomerado empresarial. Ora, por que motivo uma emissora vinculada a uma igreja evangélica tem em sua grade de programação um programa de forte apelo erótico como A Fazenda? Simples: porque dá audiência e, consequentemente, lucro. E por que um partido controlado por essa igreja evangélica tem como candidato na maior cidade do País um "católico fervoroso"? Simples: porque viu nele a opção mais competitiva para disputar (e, talvez, ganhar) a eleição. Nos dois casos, trata-se de lançar mão do melhor instrumento disponível para alavancar o empreendimento. É de negócios que se trata.
Para que ninguém se iluda, a própria Igreja Universal, por meio de seu veículo próprio de imprensa, a Folha Universal, deu boa mostra de como operam as relações de lealdade entre a direção da organização e seu corpo de funcionários. Desde 30 de agosto, em diferentes cidades do País, foi lançado um livro que traz a autobiografia do bispo Edir Macedo - com o sugestivo título Nada a Perder. Ao lançamento compareceram e adquiriram a obra, prestigiando o patrão, leais funcionários cuja trajetória não tem nada de fidelidade religiosa à Iurd: os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Jorge Pontual, a modelo e apresentadora Ana Hickmann - para quem "o bispo Edir Macedo é uma inspiração pelas lutas que enfrentou e venceu" - e a atriz Bianca Rinaldi.
Celso Russomanno é também empregado da Record, cujos funcionários demonstraram sua lealdade ao bispo, chefe maior da igreja, que controla o grupo de comunicação. Tendo em vista que vínculo equivalente há entre igreja e partido, que conduta se pode esperar dos membros da agremiação que forem eleitos? Certamente, mandatários em cargos importantes, como o prefeito de São Paulo, podem gozar de autonomia política considerável. Desde que, claro, estejam dispostos a exercê-la. Será o caso aqui?
Os sinais de melhora - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 18/09
A economia brasileira está dando seguidos sinais de que vai confirmar a previsão de melhoria do ritmo de atividade no segundo semestre. Todos os indicadores preliminares do terceiro trimestre mostram que ele será melhor do que o segundo. A dificuldade será a economia internacional, que continua em compasso de espera. Nos Estados Unidos, ainda paira a ameaça do impasse fiscal.
O Banco Central está no mais longo período de queda de taxa de juros. Em um ano, houve redução de cinco pontos. A Fazenda fez vários incentivos, com redução setorial de impostos e medidas mais estruturais, como a mudança da forma de cobrança da contribuição previdenciária. Tudo isso estimula a economia.
O Boletim Focus mostrou que o mercado continua reduzindo o crescimento do PIB de 2012. Foi para 1,57%, na sétima semana de redução. Mas até o final do ano as notícias serão melhores. Não em todas as áreas. A projeção para a inflação continua subindo. O dado de ontem foi a 5,26%. Há poucas chances de queda da inflação porque os preços de alimentos permanecerão pressionados.
A previsão de colheita de milho no Estados Unidos da safra 2012/2013 foi reduzida de 375 milhões de toneladas, em junho, para 272 milhões, em setembro, ou seja, 103 milhões a menos. Uma redução de 28%. Isso significa uma oferta menor do grão nos próximos 12 meses. No caso da soja, a previsão foi reduzida de 87 milhões de toneladas para 71 milhões. Queda de 19%. Para a economista Ana Laura Menegatti, da MB Agro, Brasil e Argentina vão conseguir repor a oferta menor de soja dos EUA, mas isso significa que não haverá recomposição de estoques até 2014.
— As commodities agrícolas estão em alta e há fundamentos para isso. Será difícil separar o que é aumento de preço por razões de mercado do que é alta por especulação financeira. O repasse de preços para o Brasil tem sido imediato por causa da desvalorização do real — afirmou.
O cobre subiu 5,4% na semana passada, o ouro atingiu a maior cotação em seis meses. O petróleo está no maior preço em quatro meses. Tudo isso pode se acentuar com a nova rodada de estímulos nos EUA.
O economista Fábio Silveira, da RC Consultores, acredita que pode haver sim um aumento de preços de commodities metálicas por conta da injeção de dólares do Fed. Mas avalia que o baixo crescimento na Europa e nos EUA vai mudar essa tendência ao longo do ano que vem.
A incerteza externa continua, enquanto aqui a situação começa a melhorar. O desafio das autoridades brasileiras será evitar a alta da inflação e manter o crescimento com a economia externa ainda fria. Confira no gráfico abaixo a perda de vigor do comércio internacional. O índice CPB World Trade Monitor, que mede as importações mundiais, desacelerou de 14,5% em janeiro de 2011, numa taxa em 12 meses, para 2,9% em junho deste ano.
A economia brasileira está dando seguidos sinais de que vai confirmar a previsão de melhoria do ritmo de atividade no segundo semestre. Todos os indicadores preliminares do terceiro trimestre mostram que ele será melhor do que o segundo. A dificuldade será a economia internacional, que continua em compasso de espera. Nos Estados Unidos, ainda paira a ameaça do impasse fiscal.
O Banco Central está no mais longo período de queda de taxa de juros. Em um ano, houve redução de cinco pontos. A Fazenda fez vários incentivos, com redução setorial de impostos e medidas mais estruturais, como a mudança da forma de cobrança da contribuição previdenciária. Tudo isso estimula a economia.
O Boletim Focus mostrou que o mercado continua reduzindo o crescimento do PIB de 2012. Foi para 1,57%, na sétima semana de redução. Mas até o final do ano as notícias serão melhores. Não em todas as áreas. A projeção para a inflação continua subindo. O dado de ontem foi a 5,26%. Há poucas chances de queda da inflação porque os preços de alimentos permanecerão pressionados.
A previsão de colheita de milho no Estados Unidos da safra 2012/2013 foi reduzida de 375 milhões de toneladas, em junho, para 272 milhões, em setembro, ou seja, 103 milhões a menos. Uma redução de 28%. Isso significa uma oferta menor do grão nos próximos 12 meses. No caso da soja, a previsão foi reduzida de 87 milhões de toneladas para 71 milhões. Queda de 19%. Para a economista Ana Laura Menegatti, da MB Agro, Brasil e Argentina vão conseguir repor a oferta menor de soja dos EUA, mas isso significa que não haverá recomposição de estoques até 2014.
— As commodities agrícolas estão em alta e há fundamentos para isso. Será difícil separar o que é aumento de preço por razões de mercado do que é alta por especulação financeira. O repasse de preços para o Brasil tem sido imediato por causa da desvalorização do real — afirmou.
O cobre subiu 5,4% na semana passada, o ouro atingiu a maior cotação em seis meses. O petróleo está no maior preço em quatro meses. Tudo isso pode se acentuar com a nova rodada de estímulos nos EUA.
O economista Fábio Silveira, da RC Consultores, acredita que pode haver sim um aumento de preços de commodities metálicas por conta da injeção de dólares do Fed. Mas avalia que o baixo crescimento na Europa e nos EUA vai mudar essa tendência ao longo do ano que vem.
A incerteza externa continua, enquanto aqui a situação começa a melhorar. O desafio das autoridades brasileiras será evitar a alta da inflação e manter o crescimento com a economia externa ainda fria. Confira no gráfico abaixo a perda de vigor do comércio internacional. O índice CPB World Trade Monitor, que mede as importações mundiais, desacelerou de 14,5% em janeiro de 2011, numa taxa em 12 meses, para 2,9% em junho deste ano.
Além das metas - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 18/09
Há uma série de importantes indicações embutidas na notícia de que os índices de mortalidade infantil, no Brasil, recuaram, em duas décadas, de forma acelerada, a ponto de alcançar - na verdade, superar - as metas estabelecidas pela ONU, para 2015, com quatro anos de antecedência. Em duas décadas, de fato, o recuo no número de óbitos de crianças até cinco anos, por ano, foi de 73%.
Morriam, em 1990, 58 brasileiros por mil nascidos, antes de completar cinco anos. Em 2011, esse número recuou para 16.
A primeira dessas indicações é que várias batalhas foram vencidas, mas a guerra ainda está longe do desfecho. O índice brasileiro continua alto quando comparado com o de outros países. Precisa cair pela metade para emparelhar com o limite superior da faixa em que se encontram muitas nações de renda média, como o próprio Brasil, e as de renda alta.
Essa é uma tarefa obviamente difícil, mas nada impossível. Na última década, o ritmo de redução da mortalidade infantil no Brasil foi de 7,5% ao ano - só outros dez países avançaram tão rapidamente. Mantido esse ritmo, portanto, até 2020 o objetivo poderia ser alcançado.
Dá até para ir mais depressa. A desnutrição infantil, um fator crítico na mortalidade precoce, também está em franco declínio. No Nordeste, a região mais afetada, a redução da desnutrição infantil avança em ritmo sem igual no mundo. Entre 1986, quando começaram os esforços sistemáticos para avaliar a extensão e as causas do problema, a 2006, o índice despencou de 34% das crianças para 6% e já está abaixo de 5%.
Se melhorarem as condições de saneamento, a desnutrição infantil também poderá ser praticamente eliminada antes de 2020.
Existe clara relação entre os avanços nesses indicadores e o resultado das políticas de renda, aplicadas nessas duas últimas décadas e, com mais agressividade, nos últimos dez anos. Mas, como observam os pesquisadores da área, o ritmo de queda nos índices de mortalidade e desnutrição infantis tem sido mais acelerado do que as melhorias de renda são capazes de explicar.
O inegável êxito brasileiro no combate a essas terríveis chagas sociais, mesmo com a contribuição ainda muito insatisfatória dos programas de saneamento básico, tem outras causas além das econômicas.
Uma delas deriva da melhora na atenção à saúde infantil. Seu aspecto talvez mais relevante seja o domínio brasileiro das tecnologias de aplicação de campanhas de vacinação em massa, em combinação com a manutenção atualizada da caderneta de vacinação como requisito para acesso a diversos programas sociais.
Outra contribuição importantíssima deriva da difusão de soluções simples eficazes, de fácil administração, do tipo soro caseiro contra diarreia e desidratação - uma das principais causas imediatas da mortalidade infantil. Aqui é obrigatório render sempre homenagens à Dra. Zilda Arns e ao trabalho por ela desenvolvido na Pastoral da Criança.
Seu legado é o da aplicação do que melhor se pode esperar de uma política econômica: a promoção, a baixo custo e máxima eficiência, de melhorias na qualidade de vida e no bem-estar de enormes e necessitadas parcelas da população. A receita de sucesso, já bem disseminada, é de uma simplicidade comovente.
Junta um simples soro caseiro de água e sal, para combater a desidratação, misturas nutritivas elaboradas com sobras de alimentos, controle periódico de peso e altura das crianças e... educação das mães.
Este último é o grande diferencial explicativo para o avanço acelerado na redução da mortalidade e da desnutrição infantis. Pesquisas e mais pesquisas já não deixam qualquer dúvida sobre o fato de que mães mais pobres, porém mais instruídas, capazes de replicar conhecimentos e orientações puericulturais, asseguram desenvolvimento mais saudável de seus filhos do que mães menos pobres e menos instruídas.
São realmente muitas as lições que os bons resultados brasileiros no combate à mortalidade e à desnutrição infantis permitem extrair.
Talvez a maior delas seja a de que a solução de problemas sociais complexos não advém de alguma ideia genial de um governante genial, adotada com ares de panaceia. De fato, essa história, que caminha para um final feliz, começou lá atrás, há mais de 25 anos, e não é obra de um único governo.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 12/09
Indústria de sorvete lança produtos para elevar venda
As altas temperaturas do inverno deste ano animaram fabricantes de sorvete, que tentam elevar a penetração em um mercado considerado ainda longe de seu potencial.
"O mercado local ainda tem muito espaço para crescer", diz Fernando Fernandez, presidente da Unilever no Brasil. Quando compara com o consumo das Filipinas, onde o executivo já atuou, a penetração do produto no Brasil é mais baixa, apesar de ter renda per capita maior.
Brasileiros associam sorvete a verão, diferentemente de europeus ou americanos, segundo Thaine Cal, da Jundiá.
"Normalmente percebemos queda maior de março a setembro. Mas, neste ano, não teve sazonalidade", diz.
As empresas não divulgam números. Informam apenas que estão em crescimento.
Para elevar o consumo, farão mais lançamentos. A Nestlé teve seis em 2011 e cinco neste ano, até agora. A Unilever fez 12 desde dezembro.
Para a Nielsen, porém, o segmento se desacelera ante o ano passado.
Um levantamento realizado de janeiro a abril mostra diminuição tanto no volume comercializado quanto no faturamento do setor.
"O verão de 2011 teve temperaturas mais altas. Alia-se a isso uma prática de preços agressiva por parte da indústria no ano passado", diz Ramon Cassel, da Nielsen.
ALAVANCADO PELA ENERGIA
O mercado em geral não reagiu bem à redução da tarifa de energia elétrica. O presidente do Goldman Sachs Asset Management, Jim O'Neil, no entanto, destoou.
Criador do termo Bric, O'Neil afirmou em sua análise semanal que a queda no preço da energia, ao lado de outras medidas do governo, "justifica que os investidores ignorem a recente desaceleração" do Brasil.
O país "ainda pode crescer entre 4% e 5%, e suspeito que, em poucos meses, essa disposição irá retornar".
Ainda em sua análise, O'Neil afirma que o mercado precisa esquecer os crescimentos anuais de 10% que a China costumava ter e parar de pensar que haverá um novo programa de investimento em infraestrutura no país.
"Estamos começando um novo tempo da China, que terá mais qualidade e menos quantidade." Sob essa perspectiva, o resultado do PIB não é tão desapontador, diz.
FRONTEIRA RASTREADA
A Iaati (Associação Internacional de Investigadores de Roubo de Automóveis), entidade que reúne órgãos públicos e empresas do setor de recuperação de veículos, criou um departamento específico para América Latina e Caribe. A associação já tinha presença em áreas como América do Norte e Europa.
A primeira iniciativa, neste ano, será montar uma operação de combate a roubo nas fronteiras com troca de informação entre polícias e empresas, segundo o novo diretor, Carlos Betancur.
"Os órgãos de segurança fazem apreensão e nós, tecnologia de rastreamento", diz o executivo, que é também diretor do grupo Tracker, que atua no setor.
IMPACTO NO CONSUMIDOR
O Brasil está em 12º lugar entre os países cuja população é menos afetada pela crise, segundo índice da GfK.
O indicador da empresa mensura as pressões econômicas sobre os consumidores de 25 países.
A Indonésia ficou no topo. Na pior colocação apareceu a Itália, que substituiu o lanterna de 2011 -a Espanha.
Na árvore A Desenvolve SP emprestou, de janeiro a agosto, quase 90% dos R$ 25 milhões disponibilizados por sua linha para financiar projetos de sustentabilidade, como troca de combustível fóssil por renovável e reflorestamento.
Em obras A Doutor Resolve, rede de franquias especializada em reformas e reparos em imóveis, planeja entrar nos Estados Unidos até o final do ano com uma unidade em Miami. No Brasil, a empresa tem 550 franquias.
BEM NA FOTO
Das onze modelos das fotos do Calendário Pirelli 2013, quatro são brasileiras. Todas desenvolvem trabalhos sociais, segundo a empresa.
Sônia Braga, Marisa Monte, Isabeli Fontana e Adriana Lima -a primeira grávida a figurar- além das estrangeiras, posaram, vestidas, para o fotógrafo americano Steve McCurry no Rio.
"O calendário celebra o Brasil e as mudanças socioeconômicas do país", diz o presidente Paolo Dal Pina. A América do Sul representa 34% dos resultados, e o Brasil, a maior parte deles.
O lançamento mundial será, no dia 27 de novembro, no Pier Mauá (Rio), com mais de 700 pessoas do mundo todo.
A lógica férrea do relator - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 18/09
A etapa crucial do julgamento do mensalão - que focaliza os 23 acusados de integrar o "núcleo político" do esquema - começou ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) sob o impacto das declarações atribuídas ao publicitário Marcos Valério pela revista Veja sobre o envolvimento do ex-presidente Lula com o escândalo e a multiplicação de indícios de que, a começar dele e do seu ex-ministro José Dirceu, o PT está perdendo as esperanças de sair com ferimentos suportáveis do ordálio que enfrenta. Quando Dirceu, o primeiro entre os réus do processo, diz que não vai "sofrer por antecipação" e, mais ainda, que não há hipótese de ele "fugir do Brasil", como afirmou à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, deixa claro que as suas manifestações sobre o que o aguarda na Corte finalmente se renderam ao realismo.
Isso guarda relação direta com os rumos tomados pelo julgamento, agora no seu 24.º dia, desde a decisão do relator do caso, ministro Joaquim Barbosa, de fatiar o exame da denúncia, criando um férreo encadeamento lógico entre o desvio de recursos públicos para bancar o mensalão, o complexo roteiro traçado por Valério para fazer o dinheiro chegar aos beneficiários e a condução política de Dirceu - sob a chefia e o aval de Lula, segundo as palavras atribuídas ao publicitário. A estratégia adotada pelo relator desemaranhou os fatos, deles extraiu os delitos camuflados e tornou como que inexoráveis as condenações, até a semana passada, de 10 réus, entre eles o próprio Valério e o deputado petista João Paulo Cunha (ambos por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção), configurando uma tendência que só deverá se consolidar no julgamento dos 11 políticos até então na fila de espera.
Dois outros fatos devem ter ajudado a pulverizar as ilusões petistas. Um, atingindo Dirceu em especial, é a opinião predominante na Corte de que, em um processo dessa natureza, a massa crítica de indícios pode fazer as vezes de evidência cabal para a condenação dos réus que exerciam funções públicas à época - além de não ser necessária a comprovação do chamado "ato de ofício". Outro, o entendimento, expresso desde o início pela ministra Rosa Weber, de que as razões alegadas para a oferta e o recebimento de "vantagem indevida", bem como o destino dado ao dinheiro ilícito pelos beneficiados, são irrelevantes em matéria de corrupção. Pouco importa, nessa ordem de ideias, por que o então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, recebeu R$ 50 mil do valerioduto e o que fez com o dinheiro. Do mesmo modo, pouco importa, a rigor, se o PT subornou parlamentares para que votassem com o governo em matérias de seu interesse direto ou se as somas distribuídas se destinavam a pagar por baixo dos panos dívidas de campanha dos aliados.
O essencial é a concatenação entre fins e meios. De um lado, o projeto petista de ocupação e permanência no poder. De outro, a decisão de recorrer à "tecnologia" de Marcos Valério que já servira ao PSDB em Minas Gerais. De um lado, o imperativo de proporcionar ao então recém-empossado presidente Lula maioria no Congresso. De outro, o arrebanhamento de políticos de diversos partidos para o lado do Planalto mediante a mais elementar das formas de persuasão conhecidas no ramo. Esse enredo, como antecipou o Estado, é a substância do parecer que o relator Barbosa começou a ler ontem, para respaldar o seu veredicto, tido como certo, pela condenação de Dirceu, do tesoureiro petista Delúbio Soares e do também então presidente da sigla, José Genoino - os protagonistas centrais do "núcleo político" do mensalão.
Nesta fase, pesam contra o ex-ministro nove acusações de corrupção ativa, pela compra da fidelidade de deputados de cinco partidos. A pena prevista em cada caso varia de 2 a 12 anos de prisão. Ele ainda será julgado por formação de quadrilha.
Embora imateriais para o desfecho da ação penal, as revelações atribuídas a Valério - a quem o PT teria prometido adiar o julgamento - vão além do que consta nos autos. Teriam sido movimentados R$ 350 milhões, duas vezes e meia além do que apurou o Ministério Público - o que só teria sido possível porque "Lula era o chefe".
Talentos da maturidade - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 18/09
Ao comandar hoje seu primeiro ato de apoio a José Serra, FHC lançará manifesto de artistas e intelectuais contra o "velho autoritarismo" e o "velho populismo" eleitorais. O texto faz referências veladas ao risco que representariam Celso Russomanno e Fernando Haddad e enaltece a experiência do tucano, de 70 anos. "Não aceitamos o que é velho na política. Velho é explorar as dificuldades do povo para conquistar votos. Velho é fazer promessas que não vão se cumprir", diz o texto.
Ampulheta O manifesto critica a ênfase no "novo" dada pelo PT: "São Paulo vai escolher nestas eleições um de dois caminhos: o da inovação, que tem a seu favor a experiência e exemplos concretos de mãos limpas, ou o das ideias velhas, mirabolantes e ultrapassadas, somadas à inexperiência e a aventuras".
Termômetro Depois de ter negado o pedido de direito de resposta pela propaganda de Serra ligando Haddad ao mensalão, o PT avalia se usará seu próprio programa para responder ao PSDB.
Ouvidos moucos O grupo ligado diretamente ao candidato avalia que vale mais a pena usar o horário eleitoral para ganhar o voto do eleitor petista e levar Haddad ao segundo turno. O foco deveria ser, segundo esse grupo, em reforçar as propostas e bater na tecla do novo contra o velho, ideia associada ao tucano em comerciais e jingles.
Cartada final Interlocutores do Planalto afirmam que Dilma Rousseff tende a comparecer a São Paulo para reforçar a campanha de Haddad na última semana antes da eleição. Uma das datas em estudo é o dia 28 de setembro.
Se a moda pega A Justiça de Sorocaba puniu com multa candidato por pedir votos em templo religioso. Renato Amary (PMDB) terá que pagar R$ 2.000 por fazer campanha num culto da Assembleia de Deus. É a segunda decisão do gênero na cidade.
Day after Monitorando a performance de Gabriel Chalita na campanha paulistana, o PMDB de São Paulo trabalha para reforçar seus quadros após a eleição. Há conversas com o deputado federal Arnaldo Jardim (PPS) e com o secretário estadual de Energia, José Aníbal, em atrito com a ala serrista do PSDB.
Ação... Com a revelação das propostas de penas do relator Joaquim Barbosa, o advogado de Marcos Valério, Marcelo Leonardo, vai preparar um memorial específico sobre dosimetria para entregar aos ministros do STF.
... e reação Segundo ele, o documento tem como objetivo expor a diferença entre as propostas de Barbosa e do ex-ministro Cezar Peluso, que, para a defesa, fixou penas dentro do limite técnico.
Nostalgia De Antonio Carlos de Almeida, o Kakay, advogado de Duda Mendonça e Zilmar Fernandes, sobre a dosimetria aplicada pelo relator: "Nunca imaginei que sentiríamos tão cedo saudades do ministro Peluso, que era duro, mas técnico".
Corretivo 1 Observadores do Supremo anotaram que Barbosa deverá modificar o voto, já que reconheceu indevidamente no cálculo das penas maus antecedentes para Marcos Valério.
Corretivo 2 Para que isso ocorra é preciso condenação transitada em julgado. No caso do publicitário apontado como pivô do mensalão, os casos citados ainda estão pendentes de apelação.
Petróleo O governador Cid Gomes (PSB-CE) fechou em Seul acordo com a GS Caltex, que tem 30% do mercado de combustível na Coreia do Sul, para construir, em parceria com a Petrobras, a refinaria de Pecém. O contrato será assinado em outubro.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Premiada pelo apoio a Haddad, a ministra da Cultura usa vocabulário incompatível com o cargo atacando um aliado do governo."
DO PRESIDENTE DO PRB-SP, VINÍCIUS CARVALHO, sobre Marta Suplicy ter dito, em comício no sábado, que Celso Russomanno faz "pilantragem" na TV.
contraponto
Muy amigo
Durante almoço oferecido por Lula a governadores e ministros, anteontem, em São Paulo, Eduardo Campos (PSB-PE) esbarrou no senador Humberto Costa (PT-PE), adversário de seu partido na disputa pela Prefeitura de Recife. Depois dos cumprimentos protocolares, o presidente nacional da sigla socialista brincou com o petista:
-Lula continua me ajudando! Traz você para São Paulo num domingo, dia mais importante para fazer campanha nas ruas de Recife...
O ex-presidente disse, então, ao governador:
-Precisamos marcar uma conversa!
Lambuzado no melado - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 18/09
Marcos Valério demorou anos para se revoltar. Só quebrou o código de silêncio firmado com José Dirceu e Delúbio Soares para proteger Lula quando se viu diante da evidência de que lhe havia sido feita uma promessa vã.
Confiou que as instituições seriam fiéis aos coronéis de turno e se renderiam às conveniências do poder.
Isso está dito na reportagem de capa da Veja: "Em troca do silêncio, (Marcos Valério) recebeu garantias. Primeiro, de impunidade. Depois, quando o esquema (do mensalão) teve suas entranhas expostas pela Procuradoria-Geral da República, de penas mais brandas".
E quais seriam essas garantias? Vamos pensar juntos. Não é difícil percebê-las, partindo do princípio de que o PT fez o que fez confiando que aquela concepção de Lula sobre os "300 picaretas" que faziam e aconteciam no Congresso era o retrato do Brasil.
Primeira presunção de garantia: controlada pela maioria governista, comandada por um presidente do PT (Delcídio Amaral) e um relator do PMDB (Osmar Serraglio), a CPI dos Correios não daria em nada que pudesse produzir maiores e concretas consequências.
Segunda: a Polícia Federal sob as ordens do dublê de ministro da Justiça e advogado do Palácio do Planalto, Márcio Thomaz Bastos, cuidaria de limitar as investigações sem levá-las a inconvenientes profundezas.
Terceira: indicado e reconduzido ao cargo pelo presidente da República, o procurador-geral se apresentasse denúncia não o faria de maneira consistente.
Quarta: de composição majoritária teoricamente "governista" e de inescapável apego a formalidades, o Supremo Tribunal Federal não abriria processo.
Quinta: complexa e ampla demais, a denúncia não se sustentaria na fase judicial e poderia se estender à eternidade em decorrência de manobras da defesa.
Sexta: o julgamento não ocorreria tão cedo e, quando acontecesse, crimes estariam prescritos.
Sétima: permeável à influência dos comandantes da banda, a Corte de "maioria governista" teria comportamento de poder subordinado. Seja para absolver os acusados ou para lhes abrandar as punições, conforme a promessa feita a Marcos Valério sobre o pior que lhe poderia acontecer se calado ficasse.
Como a realidade mostrou e ainda não se cansou de demonstrar, o Brasil não é tão arcaico, desorganizado, institucionalmente desqualificado nem tão apinhado de vendidos como supunha o PT ao assumir a Presidência da República.
Há juízes em Brasília, como se repete agora a toda hora. Mas também há deputados, há senadores, há delegados, há agentes de polícia, há procuradores, há, sobretudo, uma sociedade a quem todos eles respondem em grau de responsabilidade muito maior que a lealdade supostamente devida ao modelo do "coronelato" que o PT pretendeu copiar.
Cópia cuja matriz é uma visão equivocada do País. Talvez o erro crasso do PT tenha sido acreditar que o Brasil era pior do que de fato é.
Lambuzou-se no melado ao imaginar que a posse do Estado lhe conferia poderes ilimitados para tratar a tudo e a todos como devedores de obediência total e reverência absoluta a uma hierarquia que só existia na cabeça autoritária do PT.
Caldo de galinha. Nota-se pela cautela da reação às declarações de Marcos Valério para Veja, que Lula e companhia não sabem exatamente o quê, mas percebem com nitidez o que vem mais pela frente.
Assim como não compartilham da ilusão da militância de internet de que o mineiro não tenha falado à revista já que as frases foram alegadamente ditas a terceiros, um expediente comum na preservação do sigilo da fonte de informações.
Diante do imponderável e da óbvia existência de lastro (gravações), acham melhor não provocar.
O esperneio de Valério revela que a história real é mais feia que a ora narrada pelo Supremo Tribunal Federal.
Marcos Valério demorou anos para se revoltar. Só quebrou o código de silêncio firmado com José Dirceu e Delúbio Soares para proteger Lula quando se viu diante da evidência de que lhe havia sido feita uma promessa vã.
Confiou que as instituições seriam fiéis aos coronéis de turno e se renderiam às conveniências do poder.
Isso está dito na reportagem de capa da Veja: "Em troca do silêncio, (Marcos Valério) recebeu garantias. Primeiro, de impunidade. Depois, quando o esquema (do mensalão) teve suas entranhas expostas pela Procuradoria-Geral da República, de penas mais brandas".
E quais seriam essas garantias? Vamos pensar juntos. Não é difícil percebê-las, partindo do princípio de que o PT fez o que fez confiando que aquela concepção de Lula sobre os "300 picaretas" que faziam e aconteciam no Congresso era o retrato do Brasil.
Primeira presunção de garantia: controlada pela maioria governista, comandada por um presidente do PT (Delcídio Amaral) e um relator do PMDB (Osmar Serraglio), a CPI dos Correios não daria em nada que pudesse produzir maiores e concretas consequências.
Segunda: a Polícia Federal sob as ordens do dublê de ministro da Justiça e advogado do Palácio do Planalto, Márcio Thomaz Bastos, cuidaria de limitar as investigações sem levá-las a inconvenientes profundezas.
Terceira: indicado e reconduzido ao cargo pelo presidente da República, o procurador-geral se apresentasse denúncia não o faria de maneira consistente.
Quarta: de composição majoritária teoricamente "governista" e de inescapável apego a formalidades, o Supremo Tribunal Federal não abriria processo.
Quinta: complexa e ampla demais, a denúncia não se sustentaria na fase judicial e poderia se estender à eternidade em decorrência de manobras da defesa.
Sexta: o julgamento não ocorreria tão cedo e, quando acontecesse, crimes estariam prescritos.
Sétima: permeável à influência dos comandantes da banda, a Corte de "maioria governista" teria comportamento de poder subordinado. Seja para absolver os acusados ou para lhes abrandar as punições, conforme a promessa feita a Marcos Valério sobre o pior que lhe poderia acontecer se calado ficasse.
Como a realidade mostrou e ainda não se cansou de demonstrar, o Brasil não é tão arcaico, desorganizado, institucionalmente desqualificado nem tão apinhado de vendidos como supunha o PT ao assumir a Presidência da República.
Há juízes em Brasília, como se repete agora a toda hora. Mas também há deputados, há senadores, há delegados, há agentes de polícia, há procuradores, há, sobretudo, uma sociedade a quem todos eles respondem em grau de responsabilidade muito maior que a lealdade supostamente devida ao modelo do "coronelato" que o PT pretendeu copiar.
Cópia cuja matriz é uma visão equivocada do País. Talvez o erro crasso do PT tenha sido acreditar que o Brasil era pior do que de fato é.
Lambuzou-se no melado ao imaginar que a posse do Estado lhe conferia poderes ilimitados para tratar a tudo e a todos como devedores de obediência total e reverência absoluta a uma hierarquia que só existia na cabeça autoritária do PT.
Caldo de galinha. Nota-se pela cautela da reação às declarações de Marcos Valério para Veja, que Lula e companhia não sabem exatamente o quê, mas percebem com nitidez o que vem mais pela frente.
Assim como não compartilham da ilusão da militância de internet de que o mineiro não tenha falado à revista já que as frases foram alegadamente ditas a terceiros, um expediente comum na preservação do sigilo da fonte de informações.
Diante do imponderável e da óbvia existência de lastro (gravações), acham melhor não provocar.
O esperneio de Valério revela que a história real é mais feia que a ora narrada pelo Supremo Tribunal Federal.
Agronegócio recua - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 18/09
Portos: centralização do poder
O ponto principal do marco regulatório dos portos é garantir a gestão integral do governo federal, reduzindo o papel das concessionárias e dos estados. O governo vai acabar com todos os três conselhos relacionados ao funcionamento dos portos: o fiscal, o administrativo e o dos portuários. O Planalto acha que há excesso de instâncias para analisar e fiscalizar os contratos. “Há postura passiva dos gestores e dependência excessiva de recursos federais", resume estudo de comissão do Planalto. A exemplo do setor de energia, o governo também deve adotar o modelo de menor tarifa nas concessões dos portos.
“Obteve-se farta prova documental e testemunhal a confirmar a existência do esquema de cobrança de apoio político”
Joaquim Barbosa
Ministro do STF e relator do processo do mensalão
Tele-entrega dá demissão
Uma secretária do Planalto foi demitida porque usava carro oficial para entregar produtos que vendia, roupas e maquiagens, a clientes. Quando não conseguia sair do trabalho para as visitas, mandava office boys, também em carro oficial.
Mudança de lado
O MST está possesso com o diretor da FAO, o ex-queridinho José Graziano da Silva. No dia 6, ele publicou no “Wall Street Journal” artigo dizendo que o agronegócio é o motor mundial da produção de alimentos. Agora, o MST o acusa de promover o extermínio da agricultura familiar. Provocou calafrios a frase “fertilizar as terras com dinheiro”.
Todos querem Dilma
A candidata do PCdoB a prefeita de Porto Alegre, Manoela D’Ávila, foi à Justiça contra o PT e ganhou direito de usar imagens da presidente Dilma, que também passou a ser estrela do candidato à reeleição, José Fortunati (PDT).
Correndo atrás do voto
A chapa Rodrigo Maia-Clarissa Garotinho, à prefeitura do Rio, já detectou o seu principal problema para crescer. Ela não consegue capitalizar para si os eleitores do ex-prefeito Cesar Maia e do ex-governador Anthony Garotinho. A decepção maior é com Garotinho. Maia consegue transferir 16% de seus eleitores para a chapa. Garotinho, só a metade disso.
O pronto-socorro petista
O PT despachou os jornalistas Marcelo Neto e Alexandre Oltramari para socorrer a candidatura de Washington Oliveira (PT-PMDB), em São Luís. Os candidatos anti-Sarney João Castelo (PSDB) e Edvaldo Nogueira (PTC-PCdoB) lideram.
O público x o estatal
Cabeças estão começando a rolar na EBC, criada para ser uma espécie de BBC brasileira. Além do julgamento do mensalão, os ministros petistas também ficaram incomodados com o noticiário sobre a greve nas universidades federais.
CIRCULA NO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES a informação de que o embaixador do Brasil em Washington, Mauro Vieira, será mantido no cargo.
Dirceu é filho da Mãe Lucinda! - JOSÉ SIMÂO
FOLHA DE SP - 18/09
E atenção! Manchetes do dia! Sensacionalista: "Depois de Maomé, novo clipe de Luan Santana pode gerar onda de destruição". Vão cortar o som das embaixadas brasileiras! Piauí Herald: "Foto de José Serra sorrindo causa revolta no Oriente Médio". E na Mooca, no Jardim Ângela, na China e na Conchinchina! Como diz um amigo meu: ainda bem que o sorriso do Serra não faz barulho! Rarará!
E mais esta: "Declaração de Haddad sobre Maluf causa revolta nas Ilhas Cayman". O Haddad diz que o Maluf não vai levar nada. Nada que não dê um puta lucro!
E o Dirceu garante que não vai fugir do Brasil. Nem consegue! Com aquele sotaque de Mazzaropi com Mãe Lucinda! Se ele falar "Close the doooooor", todo mundo vai gritar: "É ele"! ODirceu é filho da Mãe Lucinda. Então, foge pro lixão. Rarará! E eu acho que o Dirceu merecia uma pena bem anos 1960: "Cortar cana em Cuba com tesourinha de unha". Com Trim! Rarará!
E o hilário eleitoral? Uma coisa que todos querem saber do candidato: se a mão que ele balança o pingolim é a mesma que ele cumprimenta o eleitor! Fundamental! E aí aparece uma candidata pelo PMDB-SP: "Sou Samantha, aquela que foi traída pela Bruna Surfistinha". Todas foram! Até a Bruna Surfistinha entrou no pleito. Na zona eleitoral!
E o Supla diz que vai ajudar a mamita Marta Martox na Cultura! Aquele porco espinho albino! E a charge do S. Salvador com o Supla se apresentando pra Dilma: "Eu sou o Supla, mas pode me chamar de suplente". Rarará! Supla Suplente! E diz que o Supla é SUPLApartidário! É mole? É mole, mas sobe!
A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! Direto de Miguel Pereira (RJ): "Cheio de Pulga". Pior, ele tem moto! Vai espalhar pulga de moto! E direto de Embu (SP): "Farinha da Funerária". Joga em cima do feijão e cai morto! Então eu vou transferir meu título pra Itapuí (SP) e votar na Maria Espingarda. E sair atirando pra tudo quanto é lado! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Matrioska - RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 18/09
"Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza." (Sêneca)
Ganhei de presente uma daquelas bonecas russas que é a cara da presidente Dilma. Não seria minha escolha natural, mas não havia como trocar, então fui tentar apreciá-la. A impressão inicial que ela causou foi a de firmeza, alguém com bastante autoconfiança. Uma boa gestora, enfim. Resolvi ver se tinha algo por trás daquela imagem, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que era apenas uma camada superficial e oca! A presidente jamais tinha gerido coisa alguma com eficiência para colocar no currículo, só uma loja de produtos baratos que foi à falência. Mas nem tudo estava perdido. A nova imagem que me saltava aos olhos era a de uma resoluta faxineira da ética. Agora sim, pensei, essa mulher corajosa vai bater de frente com todos os corruptos que circulam em volta do governo como moscas ao redor do mel.
Doce ilusão. Era apenas mais uma camada oca. Lembrei de que Erenice Guerra, ex-braço direito de Dilma e acusada de nepotismo, estava lá, bem ao lado da presidente, no dia de sua posse. Todos os ministros (escolhidos por Dilma) que saíram no começo de seu mandato por escândalos de corrupção foram expostos pela imprensa. Não havia um combate ativo à corrupção por parte do governo.
Desiludido, arranquei mais esta camada fora, e consegui esboçar um sorriso. A nova figura tinha pinta de que, se não faria uma faxina ética, ao menos não iria compactuar com o fisiologismo de seu antecessor.
A empolgação durou pouco. Um bispo que só entende de fisgar crentes foi apontado como ministro da Pesca, e uma sexóloga "progressista", ícone da tal esquerda caviar, foi brindada com o ministério da cultura em troca de apoio ao candidato a prefeito em São Paulo. Toma lá da cá, como sempre.
As camadas ocas iam sendo retiradas como uma cebola descascada, e lágrimas de desapontamento surgiam em meus olhos. Mas pude vislumbrar na nova face uma ponta de esperança: aquela era a imagem de alguém disposta a enfrentar os grandes desafios para colocar nossa economia na rota do crescimento sustentável.
Esperei, em vão, pelas reformas estruturais, como a previdenciária, a trabalhista e a tributária. Nada. Parecia que o único instrumento conhecido pela presidente era o estímulo ao consumo por meio do crédito público. Trata-se de um modelo esgotado, pois o endividamento das famílias chegou ao seu limite. Resultado: crescimento medíocre, inflação elevada.
Triste, joguei fora esta camada, mas vi que talvez nem tudo estivesse perdido. Privatização! Era o que aquela nova imagem irradiava para a alegria de todos aqueles cansados da incompetência e da roubalheira nas estatais. Finalmente, comemorei. Antes tarde do que nunca! Mas o diabo está nos detalhes...
Dilma é do PT, e privatização não combina com o petismo. Fizeram tudo de forma acanhada, envergonhada e, portanto, repleta de equívocos. O intervencionismo estatal ainda estaria presente em demasia, no financiamento, na regulação, na limitação do retorno ao investimento, na garantia de compras do que não tivesse demanda no setor privado. Enfim, uma onda de privatização com ares de estatização.
Com visível mau humor, tirei fora mais esta camada e me lembrei da caixa de Pandora: a esperança é a última que morre. Lá estava um rosto impávido, que passava a determinação de quem não teme enfrentar as máfias sindicais e os marajás do setor público.
Greves daqueles que já ganham bem mais que os trabalhadores da iniciativa privada e gozam de inúmeros privilégios, como estabilidade de emprego e auxílios até não poder mais? Nem pensar! Thatcher iria se incorporar em Dilma e desafiar essa gente que transformou o povo em refém. A esperança pode ser a última que morre, mas ela também é mortal. O governo sucumbiu e os grevistas ganharam bons aumentos de salário, indexando sua renda à inflação que o próprio setor público produz com seus gastos excessivos. Os gastos públicos sobem sem parar desde que o PT assumiu o poder. É a principal causa do tal Custo Brasil: falta dinheiro para investimento, impede redução dos impostos e pressiona a taxa de juros.
Melancólico, retirei feito um autômato aquela que parecia a última camada da minha matrioska. Que susto! Confesso que tive até de pegar uma lupa para verificar se meus olhos não me traíam. Aquela pequena boneca não se parecia mais com a presidente Dilma. Olhei bem perto para confirmar: era a cara do ex-presidente Lula! Embaixo, em letras minúsculas, estava escrito: "Made in Russia."
Do simples ao complexo - MARCELO COELHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/09
Primeiro, foi estabelecida a origem do dinheiro. Depois, como foi ocultado. Agora, como se fez sua distribuição
DECEPCIONOU-SE QUEM esperava, já na segunda-feira, a análise da culpa de José Dirceu no processo do mensalão.
Como tem ocorrido desde o início do julgamento no STF, o relator segue a lógica da denúncia. Acompanha, ademais, a regra cartesiana de ir do mais simples para o mais complexo.
Primeiro, foi estabelecida a origem do dinheiro. Depois, o modo como foi ocultado. Por último, como se fez sua distribuição.
Com isso, foram caindo, em dominó, Henrique Pizzolato e João Paulo Cunha, que favoreceram Marcos Valério e seus sócios, e os administradores do Banco Rural, que deram aparência legal ao dinheiro levantado.
Trata-se agora de analisar o "núcleo político" do mensalão. Dentro de tantos parlamentares, há subgrupos.
O Partido Progressista (PP) talvez constitua o caso mais simples.
Para começar, diz Joaquim Barbosa, o partido de Pedro Henry, Pedro Corrêa e José Janene apoiava José Serra nas eleições de 2002. Estava na oposição, ao lado de PSDB, PFL e Prona, quando iniciava o ano parlamentar de 2003.
O dinheiro a esses membros do PP, respectivamente líder da bancada na Câmara dos Deputados, presidente e tesoureiro do partido, começou a ser pago depois de um acordo realizado com o Partido dos Trabalhadores.
Joaquim Barbosa rememorou os inícios do escândalo, quando se dizia apenas que Roberto Jefferson tinha inventado tudo.
Foi só depois de um tempo que se teve acesso aos documentos guardados no Banco Rural e à lista de Marcos Valério, mostrando quem recebia o quê, e quando. Os nomes citados por Jefferson se confirmavam um por um.
Vieram as explicações. Tratava-se de acordo para pagamento de dívidas eleitorais passadas! De dinheiro com vistas a futuras alianças nas eleições municipais!
E também, no caso específico do PP, de ajuda para pagar os honorários de um advogado! Cumpria defender o pepista Ronivon Santiago em escândalo anterior -o da compra de votos para garantir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso.
Dívidas eleitorais passadas? Mas o PP nem mesmo fizera parte da coligação lulista. Futuras alianças na campanha municipal? No mínimo, isso não se concretizou: PP e PT só viriam a se coligar no município de Campo Grande.
Honorários de advogado? Já seria uma beleza o PT ajudar a absolvição de quem se vendeu para apoiar Fernando Henrique. Mas isso não importa, relembra Joaquim Barbosa. O que um corrupto faz com o dinheiro não muda o crime que cometeu.
O apoio do PP aos projetos de interesse do governo se confirma, diz Barbosa, pelas datas em que se concentraram os repasses de dinheiro. Setembro de 2003 foi o mês crucial, em que se votou a reforma previdenciária.
Barbosa fez as contas: os votos conjuntos de PP, PTB, PL e PMDB foram decisivos nesse e em outros tópicos. Mesmo que esses partidos não tivessem votado com o governo, não há dúvida, diz o relator, que o dinheiro lhes chegou às mãos com vistas à sua atuação parlamentar. É o que basta para tipificar o crime.
Primeiro, foi estabelecida a origem do dinheiro. Depois, como foi ocultado. Agora, como se fez sua distribuição
DECEPCIONOU-SE QUEM esperava, já na segunda-feira, a análise da culpa de José Dirceu no processo do mensalão.
Como tem ocorrido desde o início do julgamento no STF, o relator segue a lógica da denúncia. Acompanha, ademais, a regra cartesiana de ir do mais simples para o mais complexo.
Primeiro, foi estabelecida a origem do dinheiro. Depois, o modo como foi ocultado. Por último, como se fez sua distribuição.
Com isso, foram caindo, em dominó, Henrique Pizzolato e João Paulo Cunha, que favoreceram Marcos Valério e seus sócios, e os administradores do Banco Rural, que deram aparência legal ao dinheiro levantado.
Trata-se agora de analisar o "núcleo político" do mensalão. Dentro de tantos parlamentares, há subgrupos.
O Partido Progressista (PP) talvez constitua o caso mais simples.
Para começar, diz Joaquim Barbosa, o partido de Pedro Henry, Pedro Corrêa e José Janene apoiava José Serra nas eleições de 2002. Estava na oposição, ao lado de PSDB, PFL e Prona, quando iniciava o ano parlamentar de 2003.
O dinheiro a esses membros do PP, respectivamente líder da bancada na Câmara dos Deputados, presidente e tesoureiro do partido, começou a ser pago depois de um acordo realizado com o Partido dos Trabalhadores.
Joaquim Barbosa rememorou os inícios do escândalo, quando se dizia apenas que Roberto Jefferson tinha inventado tudo.
Foi só depois de um tempo que se teve acesso aos documentos guardados no Banco Rural e à lista de Marcos Valério, mostrando quem recebia o quê, e quando. Os nomes citados por Jefferson se confirmavam um por um.
Vieram as explicações. Tratava-se de acordo para pagamento de dívidas eleitorais passadas! De dinheiro com vistas a futuras alianças nas eleições municipais!
E também, no caso específico do PP, de ajuda para pagar os honorários de um advogado! Cumpria defender o pepista Ronivon Santiago em escândalo anterior -o da compra de votos para garantir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso.
Dívidas eleitorais passadas? Mas o PP nem mesmo fizera parte da coligação lulista. Futuras alianças na campanha municipal? No mínimo, isso não se concretizou: PP e PT só viriam a se coligar no município de Campo Grande.
Honorários de advogado? Já seria uma beleza o PT ajudar a absolvição de quem se vendeu para apoiar Fernando Henrique. Mas isso não importa, relembra Joaquim Barbosa. O que um corrupto faz com o dinheiro não muda o crime que cometeu.
O apoio do PP aos projetos de interesse do governo se confirma, diz Barbosa, pelas datas em que se concentraram os repasses de dinheiro. Setembro de 2003 foi o mês crucial, em que se votou a reforma previdenciária.
Barbosa fez as contas: os votos conjuntos de PP, PTB, PL e PMDB foram decisivos nesse e em outros tópicos. Mesmo que esses partidos não tivessem votado com o governo, não há dúvida, diz o relator, que o dinheiro lhes chegou às mãos com vistas à sua atuação parlamentar. É o que basta para tipificar o crime.
A melhor alternativa - ADRIANO PIRES
O GLOBO - 18/09
Durante o governo Dilma, temos presenciado tentativas para reverter a trajetória do PIB brasileiro, o chamado "pibinho". Têm sido lançados tanto pacotes já velhos e ultrapassados, como a recorrente ajuda à indústria automobilística, quanto pacotes mais modernos, como as concessões de aeroportos, rodovias e ferrovias, além das medidas de redução das tarifas de energia elétrica. No entanto, um importante setor permanece esquecido: o de petróleo e gás natural. O pacote do petróleo deveria conter as seguintes medidas: a volta dos leilões, mudanças no marco regulatório da Partilha, revisão da política de conteúdo local, bem como da política de preços da gasolina e do diesel.
Voltar a fazer leilões é voltar a colocar o Brasil na rota dos investimentos das empresas petrolíferas. Imaginem quanto dinheiro o país perdeu de arrecadação de bônus de assinatura nos últimos quatro anos e quantos empregos deixaram de ser criados.
O novo marco regulatório foi baseado na premissa de que o risco de explorar no pré-sal seria baixo, e o Brasil, uma das últimas fronteiras de exploração. Com isso, criou-se um marco com uma maior intervenção do Estado e dando um tratamento diferenciado para a Petrobras. As premissas se mostraram equivocadas e, portanto, é preciso mudar alguns pontos, como o mínimo de 30% de participação da Petrobras nos blocos do pré-sal que vierem a ser licitados, o monopólio da estatal na operação desses blocos e o poder de veto da Petrosal no comitê de gerenciamento dos blocos. Outro ponto do pacote é uma revisão da atual política de conteúdo local. Não podemos, nem devemos, insistir em utilizar a Petrobras como instrumento de política industrial. Dentro do contexto atual do mercado de exploração e produção de petróleo no mundo, não faz sentido atrelar o crescimento da produção no Brasil à capacidade da indústria local de fornecer bens e serviços. Faz sentido, sim, elaborar uma política onde se elejam segmentos em que o país possa se tornar competitivo em nível internacional. Deveríamos avaliar se não seria melhor introduzir as obrigações de conteúdo local no contrato de concessão ou de partilha, em vez de considerar como critério de pontuação nos leilões.
O pacote deveria criar condições para que os preços da gasolina e do diesel sigam a tendência do mercado internacional e assim não penalize a Petrobras e os seus acionistas. A primeira ideia seria o governo tratar a Petrobras como uma empresa de capital aberto e no final do ano, como acionista majoritário, cobrar os resultados. A outra forma seria voltarmos a estabelecer a fórmula paramétrica criada em 1998, onde todo o início do mês os derivados eram reajustados em função do preço no mercado internacional e da taxa de câmbio. Esse pacote, com certeza, promoveria uma maior participação do setor no PIB. E, o melhor, seria um pacote em que o governo, em vez de abrir mão de arrecadação, aumentaria as suas receitas através da realização dos leilões e do volume de royalties.
Adriano Pires é diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)
Roma decidiu - CELSO MING
O ESTADÃO - 18/09
Um dos maiores poetas do século 20, o grego Konstantinos Kaváfis, tem um poema, intitulado Embaixadores de Alexandria, que lembra o que vem acontecendo com o Banco Central e suas políticas.
O poema conta que os dois Ptolomeus que lutavam pelo trono do Egito mandaram embaixadores ao santuário de Delfos para consultar Apolo sobre qual dos dois arrebataria o poder. Era grande a ansiedade por um sinal e a resposta demorava exasperantemente. Mas eis que, de repente, desapareceu o interesse pelo oráculo. Por quê? Ora, Roma decidira quem ficaria com o trono e já não era necessário o veredicto de Delfos.
O recado mais notável que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou na entrevista à repórter Raquel Landim, publicada no domingo pelo Estadão, foi que já não esconde quem manda no Banco Central.
Não precisamos mais de Comitê de Política Monetária (Copom). Adeus "Copom watchers" - aqueles que antes se punham a interpretar os oráculos do Banco Central ou a falta deles. Também não necessitamos mais dos enormes catataus do Relatório de Inflação nem tampouco das sempre herméticas atas do Copom.
Sabemos com pelo menos quatro meses de antecedência que "os juros (básicos ou a Selic) não precisam ser elevados (em 2013)" e que o corte nas reservas dos bancos (depósito compulsório) se destina não propriamente a estimular o consumo, mas é parte da mesma política, na medida em que procura criar condições para a redução da margem de retorno dos bancos no crédito.
Enfim, as grandes decisões de política monetária já estão definidas - e não foram tomadas pelo Banco Central, cuja nova função é manter as aparências; é fazer o teatro de que roda incessantemente seus computadores em sofisticadas simulações e de que decide sempre na hora apropriada.
Ficamos sabendo ainda que a política de câmbio, outra ex-prerrogativa do Banco Central, é território da Fazenda: "Não vamos deixar o real se valorizar. Há quatro meses, o câmbio está acima de R$ 2. (.) É do interesse da produção brasileira não valorizar a moeda", disse o ministro.
No entanto, a última palavra sobre câmbio proferida pelo Banco Central é que as intervenções se limitam a reduzir a volatilidade das cotações - e não a dar competitividade à produção, conforme sugeriu Mantega.
Não há nada de especialmente errado em que a política de juros seja comandada direta ou indiretamente pela Presidência da República ou pelo Ministério da Fazenda. A crise global está revirando as funções institucionais dos grandes bancos centrais e seria estranho se o Banco Central do Brasil prosseguisse operando como dantes, como se nada de atípico acontecesse.
A diferença é que os presidentes dos outros bancos centrais reconhecem que estão navegando em águas não mapeadas e que se arriscam em operações "fora de padrão" - como têm feito Ben Bernanke, do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), e Mario Draghi, do Banco Central Europeu. Não é o que está se passando por aqui. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, finge que conduz as expectativas e já não se importa com que o ministro da Fazenda - com a desenvoltura já vista - determine as regras do jogo que se cumprirão depois.
Deduções de fato - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 18/09
Não há dúvida de que a quitação de dívidas foi motivo comum na entrega de dinheiro a parlamentares
A NOVA fase do julgamento do chamado mensalão, dedicada ao "núcleo político", introduz o próprio Supremo Tribunal Federal em zona de perigo. Há muito menos provas documentais e indícios factuais no novo capítulo do que nas operações financeiras, já julgadas, entre o Banco Rural, as agências de Marcos Valério e o PT.
Carência que está substituída, em quesitos importantes, por deduções problemáticas a serem enfrentadas pelos ministros.
Não há dúvida quanto à entrega de dinheiro a dirigentes partidários e a parlamentares, indicados pelo PT. Daí vem um salto grande e impróprio: a acusação elaborada pelo procurador-geral, Roberto Gurgel, e a parte já conhecida da acusação feita por Joaquim Barbosa, como ministro-relator, deduzem que o dinheiro se destinou à compra de votos, na Câmara, a favor do governo.
A finalidade de um pagamento é importante, no caso, não mais para comprovar ou negar a ocorrência das transações ilegais, mas por influir na dimensão da pena de um réu condenado. Ou seja, por influir naquilo mesmo que se tem por justiça.
É possível que houvesse compra de voto. Mas não pode ser desconsiderado que o PT fez acordos eleitorais com o compromisso de financiar campanhas dos novos aliados.
Disso ficaram registros nos meios de comunicação e há confissões e testemunhos no processo. Nenhum acusado se inocenta por isso. Mas se altera a dedução que o procurador-geral e o relator tiram da cronologia de pagamentos e votações.
Joaquim Barbosa expôs, ontem, a quase coincidência dessas datas, com R$ 100 mil, R$ 200 mil ou R$ 250 mil entregues a alguns dos acusados e, adiante, a obediência dos seus votos ao desejado pelo governo. Mas, a propósito, há mais do que apenas a hipótese de compra dos votos para aquela votação.
O PT saiu da campanha de Lula devendo muito do financiamento a que se comprometeu com os partidos aliados. A combinada cessão de cargos preservou, por certo tempo, a convivência no governismo.
Esgotado esse festival, começaram as cobranças dos dirigentes em nome dos partidos e, com a chegada das votações importantes para o governo, o "paga ou não voto" de deputados que esperavam por sua parte do financiamento descumprido. Alguns deles falando por diretórios regionais, como demonstra o movimento apurado das verbas.
Essa sucessão desde o acordo até a cobrança ficou descrita por envolvidos já na CPI dos Correios. Inclusive em minucioso depoimento de Roberto Jefferson. Nem por isso fica negada a possibilidade de compra de tal ou qual deputado, para esta ou aquela votação.
Mas não há dúvida de que a quitação de dívidas foi motivo comum na entrega de dinheiro a parlamentares. E há diferença importante entre uma e outra causas.
O relatório de Joaquim Barbosa argumenta que, em seguida ao recebimento por um deputado, ele e sua bancada votaram com o governo, como atesta levantamento da Câmara.
Poderia ser por recebimento de dinheiro. Ou, simplesmente, porque votar com o governo é o esperado de uma bancada da "base aliada". Os deputados que receberam eram dos partidos "da base" -PMDB, PTB, PP, PL, além do PT.
O problema do tribunal, no novo capítulo do julgamento, será o que deduzir das deduções.
Não há dúvida de que a quitação de dívidas foi motivo comum na entrega de dinheiro a parlamentares
A NOVA fase do julgamento do chamado mensalão, dedicada ao "núcleo político", introduz o próprio Supremo Tribunal Federal em zona de perigo. Há muito menos provas documentais e indícios factuais no novo capítulo do que nas operações financeiras, já julgadas, entre o Banco Rural, as agências de Marcos Valério e o PT.
Carência que está substituída, em quesitos importantes, por deduções problemáticas a serem enfrentadas pelos ministros.
Não há dúvida quanto à entrega de dinheiro a dirigentes partidários e a parlamentares, indicados pelo PT. Daí vem um salto grande e impróprio: a acusação elaborada pelo procurador-geral, Roberto Gurgel, e a parte já conhecida da acusação feita por Joaquim Barbosa, como ministro-relator, deduzem que o dinheiro se destinou à compra de votos, na Câmara, a favor do governo.
A finalidade de um pagamento é importante, no caso, não mais para comprovar ou negar a ocorrência das transações ilegais, mas por influir na dimensão da pena de um réu condenado. Ou seja, por influir naquilo mesmo que se tem por justiça.
É possível que houvesse compra de voto. Mas não pode ser desconsiderado que o PT fez acordos eleitorais com o compromisso de financiar campanhas dos novos aliados.
Disso ficaram registros nos meios de comunicação e há confissões e testemunhos no processo. Nenhum acusado se inocenta por isso. Mas se altera a dedução que o procurador-geral e o relator tiram da cronologia de pagamentos e votações.
Joaquim Barbosa expôs, ontem, a quase coincidência dessas datas, com R$ 100 mil, R$ 200 mil ou R$ 250 mil entregues a alguns dos acusados e, adiante, a obediência dos seus votos ao desejado pelo governo. Mas, a propósito, há mais do que apenas a hipótese de compra dos votos para aquela votação.
O PT saiu da campanha de Lula devendo muito do financiamento a que se comprometeu com os partidos aliados. A combinada cessão de cargos preservou, por certo tempo, a convivência no governismo.
Esgotado esse festival, começaram as cobranças dos dirigentes em nome dos partidos e, com a chegada das votações importantes para o governo, o "paga ou não voto" de deputados que esperavam por sua parte do financiamento descumprido. Alguns deles falando por diretórios regionais, como demonstra o movimento apurado das verbas.
Essa sucessão desde o acordo até a cobrança ficou descrita por envolvidos já na CPI dos Correios. Inclusive em minucioso depoimento de Roberto Jefferson. Nem por isso fica negada a possibilidade de compra de tal ou qual deputado, para esta ou aquela votação.
Mas não há dúvida de que a quitação de dívidas foi motivo comum na entrega de dinheiro a parlamentares. E há diferença importante entre uma e outra causas.
O relatório de Joaquim Barbosa argumenta que, em seguida ao recebimento por um deputado, ele e sua bancada votaram com o governo, como atesta levantamento da Câmara.
Poderia ser por recebimento de dinheiro. Ou, simplesmente, porque votar com o governo é o esperado de uma bancada da "base aliada". Os deputados que receberam eram dos partidos "da base" -PMDB, PTB, PP, PL, além do PT.
O problema do tribunal, no novo capítulo do julgamento, será o que deduzir das deduções.
Religião eleitoral - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE S. PAULO - 18/09
Troca de farpas entre as igrejas Católica e Universal na campanha paulistana está não só fora de lugar como também fora de propósito
O tema da religião adentrou a campanha à Prefeitura de São Paulo como se fosse a questão mais importante da cidade. Obviamente não é, mas perdeu toda proporção e enveredou pela artificialidade.
De que outra maneira se deveria qualificar a iniciativa "sui generis" da Arquidiocese de São Paulo de fazer ler em 300 igrejas, no domingo, um manifesto do cardeal dom Odilo Pedro Scherer com críticas à campanha de Celso Russomanno (PRB)? Manifestação extemporânea, diga-se, porque o texto a que respondia o arcebispo havia sido publicado 16 meses antes.
Não que a tardia réplica católica carecesse de razão. O artigo assinado por Marcos Pereira, presidente do PRB, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e coordenador da campanha de Russomanno, era delirante.
Sem afirmá-lo às claras, Pereira atribuía ao "Vaticano" influência no famigerado "kit gay" cogitado pelo Ministério da Educação quando era dirigido por Fernando Haddad, candidato do PT. Um absurdo, pois é notória a rejeição da Igreja Católica ao material.
No caso paulistano, a intromissão da esfera das convicções pessoais na campanha parece ainda mais artificiosa que a da controvérsia do aborto na eleição presidencial de 2010. Naquela oportunidade, tratava-se de dar a conhecer para eleitores a posição de cada candidato sobre a interrupção da gravidez. Para muitos cidadãos, ela equivale a um divisor de águas no campo da moralidade.
Nada há de ilegítimo na tentativa de organizações confessionais de influir na política, ainda que soe como um retrocesso àqueles que favorecem uma visão mais republicana, fundada na moderna separação entre os assuntos de Estado e os da religião -que pertencem ao domínio da vida privada.
Esta Folha defende a laicização da política, mas jamais até o ponto de censurar quem cuida de guiá-la por valores religiosos.
Se a cúpula do PRB se vê no direito de atacar politicamente a Igreja Católica, não pode se queixar de perseguição quando seu candidato é chamado a explicar vínculos com a Igreja Universal. Por fantasioso que seja supor que a Iurd vá controlar uma gestão Russomanno na cidade, se eleito, a opinião pública tem o direito de ser esclarecida sobre a questão, e é dever da imprensa escrutiná-lo a respeito.
Isto posto, a disputa precisa ser devolvida à sua dimensão real. A arquidiocese parece ter encontrado um pretexto para fustigar os rivais, mas não levou em conta que a Iurd tem apenas 126 mil fiéis recenseados na cidade -contra 6,5 milhões de católicos.
Solução agroambiental - XICO GRAZIANO
O ESTADÃO - 18/09
Quando o deputado federal Ronaldo Caiado, por fim, abrandou o discurso e aceitou, naquela quartafeira 29 de agosto, votar favoravelmente ao relatório da Comissão Especial, levantou-se a senadora Kátia Abreu, presidente da poderosa Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e lhe beijou a face. O carinhoso gesto, aplaudido de pé, simbolizava o recuo dos ruralistas radicais, permitindo o acordo de votação sobre o código florestal. Rara unanimidade.
No dia seguinte a Folha de S.Paulo estampava: Governo faz concessões a ruralistas. O Estado de S. Paulo também destacava: Novo código florestal beneficia ruralistas. Curiosamente, as manchetes invertiam a realidade dos fatos. Interessante. Nessa discussão da lei ambiental, as notícias sempre tenderam a desfavorecer o campo. Por que será?
O assunto básico da Medida Provisória 571 recai sobre as chamadas áreas de preservação permanente (APPs), especialmente aquelas situadas nas margens dos rios. Qual a divergência básica entre ruralistas e ambientalistas? Estes propõem regredir a produção nesses locais, obrigando os agricultores a recuperá-los com vegetação nativa, numa distância mínima de 30 metros ao longo dos cursos d"água. Os ruralistas, ao contrário, querem manter os terrenos já ocupados historicamente, consolidando neles a agropecuária.
No acordo de votação, definiu-se a querela: na situação mais comum, de propriedades médias, em rios estreitos a faixa obrigatória de recuperação ambiental será de 15 metros. Nem zero, nem 30 metros, exatamente a metade. Para aceitar o trato os ambientalistas exigiram que os rios intermitentes também participassem da regra ecológica. Os ruralistas, contrariados, tiveram de ceder.
Vários outros detalhes da legislação florestal, agora definida, comprovam ter funcionado o mote anterior. Buscou-se uma composição capaz de assegurar equilíbrio entre as posições da produção agropecuária e da preservação ambiental. Nem lá, nem cá. A concertação política realizada expressa uma decisão típica, em matérias complexas, dos regimes democráticos maduros. Nem vencidos, nem vencedores. Bom para a sociedade.
No Brasil, porém, as coisas se passam de forma um pouco diferente. Certo preconceito da sociedade urbana, exacerbado recentemente pelo discurso agressivo dos ecologistas, leva os formadores de opinião a tomar posição, invariavelmente, contra os produtores rurais. Estes são os "do mal"; os ambientalistas, "do bem". Triste concepção.
No polarizado debate sobre o código florestal, os ruralistas jamais defenderam a possibilidade, muito menos a facilidade, de realizar novos desmatamentos nas matas ciliares. O bicho pegou no suposto "passivo ambiental" da agricultura. Esse conceito, moderno, se refere àquelas áreas que deveriam ter sido mantidas com vegetação nativa, mas acabaram sendo incorporadas à agricultura. Parte desses locais - situados nas encostas montanhosas, nas beiradas de rios elagoas, no topo dos morros - serve hoje à produção rural, lavouras e pastagens. Ademais, eles recebem residências e instalações, geram trabalho e riqueza.
Os ruralistas queriam a regularização dessa ocupação histórica, livrando-se da conta de um passivo que, a bem da verdade, se existir, pertence a toda a sociedade. Afinal, foi exatamente a expansão agrícola do passado que permitiu o desenvolvimento apreciado no presente. Vale o mesmo para a "reserva legal" das propriedades rurais.
Segundo o código florestal, além das áreas de preservação permanente, um porcentual da fazenda, variável conforme a região e o bioma, deveria ser excluído da exploração agropecuária. Por aqui, no Sul e no Sudeste do País, esse pedaço de preservação é de 20%. Por várias razões, porém, a lei nunca foi devidamente cumprida. Pois bem, agora o acordo obriga os produtores rurais a compensarem a supressão florestal realizada anteriormente.
Não será tarefa fácil. Fórmulas alternativas procuram torná-la viável. O agricultor, por exemplo, pode recompor suas próprias matas; pode, ainda, adquirir florestas noutros locais, mantendo-as intactas, compensando as que não tem na sua fazenda. Todos precisam regularizar, ambientalmente, sua propriedade. Mas, perceba, nenhum ruralista defendeu a extinção das reservas legais, nem quis facilitar a derrubada de florestas virgens. Nada disso. O problema fundamental residia em como regularizar o passado.
Na leitura da sociedade, entretanto, ficou a pecha de que os agricultores são "criminosos ambientais". Imperou o raciocínio simplista, estimulado por certo ambientalismo fundamentalista, de tipo messiânico, que agrada aos jornalistas especializados em vender notícias fortes, sensacionalistas. Os verdadeiros dilemas, que denomino agroambientais, cuja resolução significa um difícil acerto de contas entre o passado e o presente, sucumbiram no jogo da comunicação.
O pior, porém, estava por vir. Lendo os jornais daquele dia, a presidente Dilma Rousseff, assustada com o famigerado acordo com os ruralistas, repreendeu de pronto a sua equipe. Resultado: na semana seguinte, prestes a ser votado no plenário da Câmara dos Deputados, o acerto miou. O senador Jorge Viana, petista de carteirinha, engenheiro florestal, o principal fiador da articulação congressual nessa matéria do Legislativo federal, engoliu as suas palavras. Estaca zero.
O governo federal preferiu desmoralizar a boa política, que no fundo patrocinara, a vender à opinião pública uma imagem associada ao ruralismo. Daí surgiu a cena do bilhetinho de Dilma, rechaçando a solução de compromisso pelas regras da democracia. Sua atitude maltrata o campo, despreza o passado. Infeliz país que trata com desdém seus agricultores.
Primaveras ou invernos? - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 18/09
O fato de derrubarmos um ditador não significa necessariamente que as alternativas serão melhores
UM FILME amador sobre a vida do profeta Maomé incendiou a sempre pacífica "rua árabe". O embaixador americano na Líbia foi morto. Embaixadas americanas no Oriente Médio foram atacadas. E até lanchonetes da Kentucky Fried Chicken tiveram a sua dose de violência e destruição.
Confesso: eu já almocei na KFC. Também tive vontade de a destruir depois de provar o menu da casa. Mas será que a qualidade do produto merece um ato tresloucado?
Escutei Barack Obama. Escutei Hillary Clinton. Escutei o secretário-geral da ONU, um nome impronunciável que não vou checar. Escutei toda gente que é gente e a sentença, sem surpresa, é a mesma: o filme é nojento, ofensivo, ignorante; mas nada disso justifica a violência que ele provocou.
Concordo com a segunda parte. Só não concordo com a primeira porque não sabia que Obama, Clinton, Ban Ki-moon (sim, chequei) e "tutti quanti" eram críticos de cinema.
É indiferente saber se o filme é bom ou mau, nojento ou refinado, ofensivo ou altamente elogioso para o islã. Não é função de nenhum chefe político tecer comentários sobre a qualidade do que se diz, faz ou pensa em países ocidentais, onde a liberdade de expressão é um valor sacramental.
E a liberdade de expressão comporta tudo: o repelente, o ofensivo, o ignorante, o sacrílego. Se existem fanáticos que não gostam desse modo de vida, o problema não é do Ocidente. O problema é dos fanáticos.
Claro que, para além da violência superficial que se espalhou pelo Oriente Médio, existem questões mais perversas: e se os atos dos fanáticos não estiverem apenas relacionados com o filme?
E se o ódio ao Ocidente for a verdadeira gasolina que faz arder esses atos? E se a Primavera Árabe, afinal, foi apenas uma forma de trocar velhos tiranos por novos?
A mídia ocidental, que cavalgou romanticamente a Primavera Árabe, recua de horror ante a possibilidade. Na Líbia do detestável Gaddafi, no Egito do detestável Mubarak, ou na Tunísia do detestável Ben Ali, só podem florescer democracias civilizadas, respeitadoras dos direitos humanos e onde a liberdade individual não tem preço.
Eis a suprema falácia do pensamento progressista, que o filósofo John Gray, em artigo recente para a BBC, destruiu sem piedade: o fato de derrubarmos um ditador não significa necessariamente que as alternativas serão melhores. E por quê?
Aqui, Gray faz o que melhor sabe: mamar forte no pensamento do seu pai espiritual, o historiador das ideias Isaiah Berlin (1909 - 1997).
No ensaio clássico "Dois Conceitos de Liberdade", que pode ser lido no livro "Estudos sobre a Humanidade" (Companhia das Letras), Berlin já tinha avisado que os valores mais importantes em política não podem ser confundidos uns com os outros.
Liberdade é liberdade, não é igualdade. Igualdade é igualdade, não é liberdade. Democracia é democracia, não é justiça.
Por outras palavras: o voto da maioria pode ser uma condição para a existência de regimes livres.
Mas pode também ser o contrário: uma forma de liquidar a liberdade individual. Basta que a maioria, por exemplo, opte por um regime baseado na sharia islâmica, e não pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.
E essa perversão nem sequer é uma exclusividade do islã. Será preciso recordar que Adolf Hitler é o exemplo mais eloquente de alguém que usou a democracia para liquidar a democracia?
Hoje, no mundo islâmico, sabemos que ditaduras criminosas foram derrubadas. Mas também sabemos que islamitas tomaram o poder no Egito ou na Tunísia. E que várias facções, com vários graus de radicalismo fundamentalista, lutam pelo poder dentro de cada um desses países.
O que não sabemos nem escutamos são vozes liberais dentro do Egito ou da Tunísia defendendo regimes democráticos respeitadores dos direitos humanos e da liberdade individual.
Na década de 1960, perguntaram ao premiê chinês Zhou Enlai o que ele pensava sobre a Revolução Francesa de 1789. Resposta: "Ainda é muito cedo para dizer".
Faço minhas as palavras dele sobre as primaveras que podem virar invernos.
CLAUDIO HUMBERTO
“Não há dúvida da existência da compra de votos”
Ministro Joaquim Barbosa (STF) sacramentando existência do mensalão
PP TINHA MENSALEIROS DE OURO, PRATA E BRONZE
Integrante da base de apoio ao governo Lula, o Partido Progressista (PP) também se enrolou no mensalão, tanto assim que o ex-líder Pedro Henry (MT) e o ex-dirigente Pedro Corrêa (PE) são réus no “núcleo político” do esquema. A organização do propinoduto no PP, segundo ex-dirigente partidário, dividia os beneficiários nas categorias Ouro, Prata e Bronze, determinando o nível do pagamento do suborno.
CHEQUE EM BRANCO
Na categoria Ouro, dirigentes e figurões do PP recebiam todos os meses ou quando solicitavam valores do mensalão, sempre elevados.
LIMITE ELEVADO
Os parlamentares da categoria Prata, na bancada do PP, embolsavam do mensalão valores sempre altos, mas limitados a R$ 100 mil.
BAIXO CLERO
Na categoria Bronze estavam políticos de menor expressão, do “baixo clero” do PP, e os valores mensais nunca ultrapassavam os R$ 30 mil.
CAIXA PRETA
O antigo dirigente partidário disse à coluna, inclusive, que o verdadeiro mensalão do governo Lula jamais foi investigado seriamente.
PRESIDENTE DO IPHAN ARMOU E SE DEU BEM: PARIS
Luiz Fernando Almeida, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico (Iphan), que sonha viver em Paris, já tem uma filha morando lá há dois meses. Ele luta para ser representante do Brasil na Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura, com sede... em Paris, por isso a nomeação da ministra Marta Suplicy (Cultura) foi um alento para seus planos. Ele até já tem substituta praticamente definida.
MÃO QUE LAVA OUTRA
A substituta de Luiz Almeida no Iphan, funcionária da Unesco, é simpática à Quadra 901, xodó da especulação imobiliária em Brasília.
A GANÂNCIA VENCEU
O ex-chefe do Iphan-DF, Alfredo Gastal, queria ocupação controlada na Quadra 901. Com sua saída, gabarito deve pular de 3 para 12 andares.
O CORAÇÃO PIFOU
Réu do mensalão, o ex-deputado José Genoino (PT) se submete hoje a cateterismo, no Incor-SP, na exata semana do seu julgamento no STF.
PREVARICAR, NÃO
Chefiando um órgão que transforma até cartas anônimas em inquéritos, Roberto Gurgel minimizou as acusações de Marcos Valério à Veja. Seus subordinados o ironizam, na PGR: depois do “engavetador-geral” de era tucana, Gurgel corre o risco de virar “prevaricador-geral”.
MONITORAMENTO
Quando soube que o ministro Dias Toffoli pode alegar suspeição e não opinar no julgamento do ex-chefe e amigo José Dirceu, Lula enviou emissários a Brasília para tentar convencê-lo a votar.
EU SOU A LEI
Ao arrepio da lei de licitações, o secretário-executivo do Ministério dos Transportes, Miguel Masella, é acusado de ignorar a área jurídica da Valec, estatal de ferrovias, ao lançar um edital para compra de trilhos que proíbe a participação de empresas nacionais e até consórcios.
CACÓFATO
Em São Paulo, candidato a vereador pelo PPL, do velho MR-8, aposta na baixaria subliminar. “São Paulo está na UTI e a boneca sabe”, diz. Qualquer referência a Kassab não é mera coincidência.
PELUSO PARA MINISTRO
No debate sobre aposentadoria aos 70 anos, o presidenciável e senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez um elogio revelador de suas intenções: “Ainda bem que no Executivo não tem ‘expulsória’; e que grande ministro da Justiça daria o ministro aposentado Cezar Peluso...”
SEGREDO DE ESTADO
Condenado por lavagem de dinheiro no esquema do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), além de renunciar à Prefeitura de Osasco, protegeu sua conta no Twitter: só autorizados podem segui-lo.
CANJA
Muito elucidativo: no intervalo do julgamento do mensalão, a TV Justiça exibiu arquivo da decisão do Supremo proibindo as brigas de galo, o esporte favorito de um dos réus, o publicitário Duda Mendonça.
CHUMBO GROSSO
O governo do Distrito Federal espera uma verdadeira guerra judicial com as empresas de transporte público agora, com realização de licitação para substituir a frota de ônibus ordinária que roda na capital.
PERGUNTA NO TRIBUNAL
Se o “Zé” (Dirceu) tivesse desobedecido ao “sai daí” de Roberto Jefferson, haveria julgamento do mensalão no Supremo?
PODER SEM PUDOR
DESPACHO ON THE ROCKS
O governador mineiro Hélio Garcia era famoso por não despachar com secretários. Houve quem jamais se reunisse a sós com ele. O titular da importante pasta de Obras, Maurício Pádua, levou três meses tentando agendar um despacho. Na hora marcada, chegou ao Palácio das Mangabeiras, residência oficial, e Garcia observou lá de cima que ele carregava grande volume de pastas. Orientou o ajudante de ordens:
- Eu não chamei o Maurício aqui para despachar, sô, mas para tomar uns uísques. Leve aquelas pastas de volta ao carro dele!
Ministro Joaquim Barbosa (STF) sacramentando existência do mensalão
PP TINHA MENSALEIROS DE OURO, PRATA E BRONZE
Integrante da base de apoio ao governo Lula, o Partido Progressista (PP) também se enrolou no mensalão, tanto assim que o ex-líder Pedro Henry (MT) e o ex-dirigente Pedro Corrêa (PE) são réus no “núcleo político” do esquema. A organização do propinoduto no PP, segundo ex-dirigente partidário, dividia os beneficiários nas categorias Ouro, Prata e Bronze, determinando o nível do pagamento do suborno.
CHEQUE EM BRANCO
Na categoria Ouro, dirigentes e figurões do PP recebiam todos os meses ou quando solicitavam valores do mensalão, sempre elevados.
LIMITE ELEVADO
Os parlamentares da categoria Prata, na bancada do PP, embolsavam do mensalão valores sempre altos, mas limitados a R$ 100 mil.
BAIXO CLERO
Na categoria Bronze estavam políticos de menor expressão, do “baixo clero” do PP, e os valores mensais nunca ultrapassavam os R$ 30 mil.
CAIXA PRETA
O antigo dirigente partidário disse à coluna, inclusive, que o verdadeiro mensalão do governo Lula jamais foi investigado seriamente.
PRESIDENTE DO IPHAN ARMOU E SE DEU BEM: PARIS
Luiz Fernando Almeida, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico (Iphan), que sonha viver em Paris, já tem uma filha morando lá há dois meses. Ele luta para ser representante do Brasil na Unesco, órgão das Nações Unidas para educação e cultura, com sede... em Paris, por isso a nomeação da ministra Marta Suplicy (Cultura) foi um alento para seus planos. Ele até já tem substituta praticamente definida.
MÃO QUE LAVA OUTRA
A substituta de Luiz Almeida no Iphan, funcionária da Unesco, é simpática à Quadra 901, xodó da especulação imobiliária em Brasília.
A GANÂNCIA VENCEU
O ex-chefe do Iphan-DF, Alfredo Gastal, queria ocupação controlada na Quadra 901. Com sua saída, gabarito deve pular de 3 para 12 andares.
O CORAÇÃO PIFOU
Réu do mensalão, o ex-deputado José Genoino (PT) se submete hoje a cateterismo, no Incor-SP, na exata semana do seu julgamento no STF.
PREVARICAR, NÃO
Chefiando um órgão que transforma até cartas anônimas em inquéritos, Roberto Gurgel minimizou as acusações de Marcos Valério à Veja. Seus subordinados o ironizam, na PGR: depois do “engavetador-geral” de era tucana, Gurgel corre o risco de virar “prevaricador-geral”.
MONITORAMENTO
Quando soube que o ministro Dias Toffoli pode alegar suspeição e não opinar no julgamento do ex-chefe e amigo José Dirceu, Lula enviou emissários a Brasília para tentar convencê-lo a votar.
EU SOU A LEI
Ao arrepio da lei de licitações, o secretário-executivo do Ministério dos Transportes, Miguel Masella, é acusado de ignorar a área jurídica da Valec, estatal de ferrovias, ao lançar um edital para compra de trilhos que proíbe a participação de empresas nacionais e até consórcios.
CACÓFATO
Em São Paulo, candidato a vereador pelo PPL, do velho MR-8, aposta na baixaria subliminar. “São Paulo está na UTI e a boneca sabe”, diz. Qualquer referência a Kassab não é mera coincidência.
PELUSO PARA MINISTRO
No debate sobre aposentadoria aos 70 anos, o presidenciável e senador Aécio Neves (PSDB-MG) fez um elogio revelador de suas intenções: “Ainda bem que no Executivo não tem ‘expulsória’; e que grande ministro da Justiça daria o ministro aposentado Cezar Peluso...”
SEGREDO DE ESTADO
Condenado por lavagem de dinheiro no esquema do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), além de renunciar à Prefeitura de Osasco, protegeu sua conta no Twitter: só autorizados podem segui-lo.
CANJA
Muito elucidativo: no intervalo do julgamento do mensalão, a TV Justiça exibiu arquivo da decisão do Supremo proibindo as brigas de galo, o esporte favorito de um dos réus, o publicitário Duda Mendonça.
CHUMBO GROSSO
O governo do Distrito Federal espera uma verdadeira guerra judicial com as empresas de transporte público agora, com realização de licitação para substituir a frota de ônibus ordinária que roda na capital.
PERGUNTA NO TRIBUNAL
Se o “Zé” (Dirceu) tivesse desobedecido ao “sai daí” de Roberto Jefferson, haveria julgamento do mensalão no Supremo?
PODER SEM PUDOR
DESPACHO ON THE ROCKS
O governador mineiro Hélio Garcia era famoso por não despachar com secretários. Houve quem jamais se reunisse a sós com ele. O titular da importante pasta de Obras, Maurício Pádua, levou três meses tentando agendar um despacho. Na hora marcada, chegou ao Palácio das Mangabeiras, residência oficial, e Garcia observou lá de cima que ele carregava grande volume de pastas. Orientou o ajudante de ordens:
- Eu não chamei o Maurício aqui para despachar, sô, mas para tomar uns uísques. Leve aquelas pastas de volta ao carro dele!
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Hora do mensalão – PT comprou voto de deputados, diz relator
- Folha: Não há dúvida de que PT comprou votos, diz relator
- Estadão: Relator do mensalão diz que governo Lula comprou votos
- Valor: Governo agora quer licitar aeroportos no ‘modelo Vale’
- Estado de Minas: Corregedoria vai investigar boca-livre de PMs
- Zero Hora: “Não há dúvida sobre compra de votos”, diz relator do mensalão
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