FOLHA DE SP - 01/03/12
Em conversa ontem pela manhã com Paulo Sérgio Passos (Transportes), Dilma Rousseff disse claramente ao ministro que deverá precisar de seu cargo para acomodar o PR de volta na Esplanada. A presidente prometeu, ainda, realocar o técnico na pasta, provavelmente na secretaria-executiva, seu posto anterior.
No fim da tarde, o PR reagiu a uma proposta de "permuta" com o PMDB: Mendes Ribeiro iria para os Transportes, e o partido ficaria com a Agricultura. A sigla não só rechaçou a troca como ameaça desembarcar da candidatura de Henrique Alves (RN) à presidência da Câmara, se o PMDB insistir no arranjo.
Negativo Dilma avaliou ontem com a ministra Ideli Salvatti o mapa da votação da criação do Funpresp. O PDT, também à espera de uma vaga na Esplanada, só teve 2 dos 24 votos registrados na sessão a favor do governo. Já o PR registrou placar de 20 votos a 12 pró-Planalto.
Retiro Com a nomeação de Marcelo Crivella, ainda que para o lateral Ministério da Pesca, Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) deixa de ser o interlocutor do Planalto com os evangélicos -condição que perdeu ao fazer críticas ao segmento durante o Fórum Social Mundial.
Náufrago Luiz Sérgio (PT-RJ) disse que "já tinha os detalhes" quando foi chamado para conversa final com Dilma. Questionado se ficou surpreso com a segunda demissão em oito meses, o ex-titular das Relações Institucionais divaga: "Eu sempre disse que navegar é preciso".
Cobertor... O jantar de ministros do G-20 na Cidade do México, no último sábado, foi interrompido por reclamações gerais devido ao frio insuportável do local.
...curto A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, teve de ser socorrida com dois cobertores e casacos. O brasileiro Guido Mantega, precavido, havia colocado uma malha por baixo do terno.
Puro-sangue Entre as opções que o PSB oferecerá para vice de Fernando Haddad está Eduardo Storópoli, mantenedor da UniNove, que conta com 100 mil alunos. O ex-ministro cultiva a ampliação do ProUni como marca de sua gestão no MEC.
Terceira via Do pré-candidato peemedebista Gabriel Chalita, diante dos discursos de PT e PSDB apostando na polarização em SP: "Essa tentativa desesperada de reduzir a eleição a dois partidos mostra o medo que os dois lados têm da minha candidatura".
Voo solo Desafiado por José Aníbal e Ricardo Tripoli a debater com militantes do PSDB, José Serra diz, em privado, que não pretende ir a encontros com os pré-candidatos. Seu grupo constrói agenda paralela de reuniões nas regiões da cidade.
Gol de ouro O placar apertado (10 a 8) em favor do adiamento das prévias para dia 25 acendeu alerta geral no QG de Geraldo Alckmin. O governador esperava maior acolhida ao pleito de Serra.
Hierarquia Nas primeiras declarações como pré-candidato, Serra repete que topou entrar no páreo por insistência de Alckmin. A correligionários diz que esperava ação mais incisiva do Bandeirantes sobre Aníbal.
Na marra Diante da resistência de João Sayad à entrada de Marcos Mendonça no conselho da Fundação Padre Anchieta, o secretário Andrea Matarazzo (Cultura) abriu mão de um dos três assentos que tem no órgão para acolher o desafeto do presidente da instituição. Sayad não esconde a insatisfação.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"A ida de Crivella para o Ministério da Pesca é o milagre da multiplicação, não dos peixes nem do seu pequeno PRB, mas da influência do setor evangélico no governo 'laico'."
DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), sobre a troca de Luiz Sérgio (PT-RJ) pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) no comando do Ministério da Pesca como forma de acomodar o PRB, da base aliada, na estrutura do governo.
contraponto
Paredão tucano
Em debate no qual participaram José Aníbal e Ricardo Tripoli na segunda-feira, um dos presentes brincou com a ausência de Bruno Covas e Andrea Matarazzo, que haviam se retirado das prévias do PSDB paulistano um dia antes.
-Está parecendo o "Big Brother". Dois já foram eliminados. Qual será o próximo?
Na plateia, um integrante da direção municipal advertiu, em referência à entrada de José Serra na disputa:
-Mas no próximo debate já vai ter uma terceira cadeira. Com direito a imunidade e prova do líder.
quinta-feira, março 01, 2012
A queda dos aviões - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 01/03/12
A rede mundial de negócios de armamentos e equipamentos militares não tem limites éticos nem legais
A SUSTAÇÃO da encomenda, pelo governo americano, de 20 Super Tucanos da Embraer no valor de US$ 355 milhões, é mais complexa do que as frequentes perdas de negócios. E exige do governo brasileiro cuidados especiais ao tratar do assunto nos Estados Unidos.
As causas da sustação, variadas segundo os autores de considerações sobre o caso, são todas admissíveis até que os americanos exponham as suas com clareza convincente. Atitude, aliás, das menos prováveis, mesmo considerando a rudeza que os americanos se permitem, por falta de algo melhor a conduzi-los ou pelo descaso com interesses que não sejam os seus.
A preliminar do governo brasileiro conviria ser a cautela quanto a incorreções éticas no negócio. A existirem, os americanos podem usá-las para provocar brasileiro, político e moral, na hora em que a elevação internacional do Brasil nos põe fora do seu círculo de manipulação. A atitude de rejeição do governo Obama ao Brasil, depois de pedir-lhe e à Turquia um esforço (bem-sucedido) de apaziguamento do Irã, foi mais do que um agravo.
Apesar de não visto assim no Brasil (fora do governo), foi a declaração oficial de uma linha divisória nas relações Brasil-Estados Unidos.
Nos negócios de armamentos, de modo geral, a corrupção só é um componente menor do que o é nos serviços de obras públicas por empreiteiras. Ambos, no mundo todo. Os equipamentos militares contam, porém, por boas e pelas razões mais abjetas, com a vantagem de ter a cobertura do Estado para processar-se em sigilo, na medida desejada.
A rede mundial de negócios de armamentos e equipamentos militares não tem limites éticos nem legais. Não só porque a concorrência é intensa. Também porque, se houver inconveniência em operar sob sigilo, mas por vias aceitas pelas convenções internacionais, as vias clandestinas de governo a governo, ou de governo a antigoverno, o contrabando e a corrupção são praticados com o mesmo resultado. E em alguma parte do mundo estão acontecendo agora, como em todos os dias, em todas as horas.
(A autorização da ONU, por exemplo, foi para a vigilância aérea sobre a Líbia, mas logo os rebeldes, que viriam a ser governo para as futuras concessões de petróleo, lutaram com farto armamento francês e inglês, e até instrutores e comandos, como provou a mal noticiada morte de um general da reserva francesa.)
A corrupção é o motivo menos citado, entre os já referidos para a sustação. Mas tem citações oficiosas nos Estados Unidos. E é sugerida com menor ou maior clareza, inclusive nas queixas da derrotada Beechcraft. Não quer isso dizer que a Embraer seja o alvo da imputação ou de suspeitas.
A atividade interna dos departamentos de compras militares não se limitam a armas e equipamentos, são repletas de correntes industriais. E, nos Estados Unidos, é mesmo comum que congressistas tenham lugar nas negociações, sejam as visíveis ou as invisíveis.
Fosse, então, para afastar a "Beech" (hoje Hawker Beechcraft) ou outra, ou para incluí-la ou a outra, a sustação da encomenda não tem bom aspecto e requer cautela do governo brasileiro, para o Brasil não se tornar o maior prejudicado na embrulhada.
Se, porém, mostrar-se com mais firmeza um elo entre a dispensa dos Super Tucanos e as dificuldades do F-18 americano na compra de caças pelo Brasil -a capacidade de sedução francesa do polêmico Raphale volta a fazer efeito-, então é aproveitar a oportunidade: nem conversa mais sobre o F-18.
Afinal de contas, ninguém acredita que os americanos transfiram, de fato, tecnologias avançadas e permitam a venda, a quem o Brasil quiser, de F-18 feitos aqui. Tais promessas são conversas de vendedor -o que não quer dizer que o Raphale tenha vendedores com outras conversas.
A rede mundial de negócios de armamentos e equipamentos militares não tem limites éticos nem legais
A SUSTAÇÃO da encomenda, pelo governo americano, de 20 Super Tucanos da Embraer no valor de US$ 355 milhões, é mais complexa do que as frequentes perdas de negócios. E exige do governo brasileiro cuidados especiais ao tratar do assunto nos Estados Unidos.
As causas da sustação, variadas segundo os autores de considerações sobre o caso, são todas admissíveis até que os americanos exponham as suas com clareza convincente. Atitude, aliás, das menos prováveis, mesmo considerando a rudeza que os americanos se permitem, por falta de algo melhor a conduzi-los ou pelo descaso com interesses que não sejam os seus.
A preliminar do governo brasileiro conviria ser a cautela quanto a incorreções éticas no negócio. A existirem, os americanos podem usá-las para provocar brasileiro, político e moral, na hora em que a elevação internacional do Brasil nos põe fora do seu círculo de manipulação. A atitude de rejeição do governo Obama ao Brasil, depois de pedir-lhe e à Turquia um esforço (bem-sucedido) de apaziguamento do Irã, foi mais do que um agravo.
Apesar de não visto assim no Brasil (fora do governo), foi a declaração oficial de uma linha divisória nas relações Brasil-Estados Unidos.
Nos negócios de armamentos, de modo geral, a corrupção só é um componente menor do que o é nos serviços de obras públicas por empreiteiras. Ambos, no mundo todo. Os equipamentos militares contam, porém, por boas e pelas razões mais abjetas, com a vantagem de ter a cobertura do Estado para processar-se em sigilo, na medida desejada.
A rede mundial de negócios de armamentos e equipamentos militares não tem limites éticos nem legais. Não só porque a concorrência é intensa. Também porque, se houver inconveniência em operar sob sigilo, mas por vias aceitas pelas convenções internacionais, as vias clandestinas de governo a governo, ou de governo a antigoverno, o contrabando e a corrupção são praticados com o mesmo resultado. E em alguma parte do mundo estão acontecendo agora, como em todos os dias, em todas as horas.
(A autorização da ONU, por exemplo, foi para a vigilância aérea sobre a Líbia, mas logo os rebeldes, que viriam a ser governo para as futuras concessões de petróleo, lutaram com farto armamento francês e inglês, e até instrutores e comandos, como provou a mal noticiada morte de um general da reserva francesa.)
A corrupção é o motivo menos citado, entre os já referidos para a sustação. Mas tem citações oficiosas nos Estados Unidos. E é sugerida com menor ou maior clareza, inclusive nas queixas da derrotada Beechcraft. Não quer isso dizer que a Embraer seja o alvo da imputação ou de suspeitas.
A atividade interna dos departamentos de compras militares não se limitam a armas e equipamentos, são repletas de correntes industriais. E, nos Estados Unidos, é mesmo comum que congressistas tenham lugar nas negociações, sejam as visíveis ou as invisíveis.
Fosse, então, para afastar a "Beech" (hoje Hawker Beechcraft) ou outra, ou para incluí-la ou a outra, a sustação da encomenda não tem bom aspecto e requer cautela do governo brasileiro, para o Brasil não se tornar o maior prejudicado na embrulhada.
Se, porém, mostrar-se com mais firmeza um elo entre a dispensa dos Super Tucanos e as dificuldades do F-18 americano na compra de caças pelo Brasil -a capacidade de sedução francesa do polêmico Raphale volta a fazer efeito-, então é aproveitar a oportunidade: nem conversa mais sobre o F-18.
Afinal de contas, ninguém acredita que os americanos transfiram, de fato, tecnologias avançadas e permitam a venda, a quem o Brasil quiser, de F-18 feitos aqui. Tais promessas são conversas de vendedor -o que não quer dizer que o Raphale tenha vendedores com outras conversas.
Os crescentes riscos da China - YAO YANG
Valor Econômico - 01/03/12
Se tudo continuar bem para a China, o país superará os Estados Unidos como maior economia do mundo, em dólares correntes, em 2021 (ou ainda antes em termos reais). Sua renda per capita atingirá o que hoje é a faixa mais baixa dos países de alta renda. Apesar do impulso à frente, a economia chinesa depara-se com riscos à espreita nos próximos dez anos.
O risco imediato é o de continuidade da estagnação, ou recessão, na Europa. Nos últimos dez anos, o crescimento das exportações representou cerca de 30% do crescimento econômico da China e cerca de 30% das exportações chinesas tiveram como destino a União Europeia. Se a situação na Europa continuar a se agravar, o crescimento na China será afetado.
Endurecer excessivamente as políticas macroeconômicas domésticas, especialmente as voltadas ao mercado imobiliário, poderia incrementar o risco de desaceleração. Os preços dos imóveis residenciais na China já estão em queda, afetados por medidas governamentais mais rigorosas. De fato, a situação é bem parecida com a da crise financeira asiática de 1997. Vários anos antes de a crise estourar, a China vinha combatendo a inflação e parecia encaminhar-se a uma desaceleração suave. A crise, no entanto, em conjunto com medidas de austeridade, condenou o país a vários anos de deflação e a um crescimento menor.
Hoje, enquanto a China pensa no médio prazo, o governo precisa abordar os problemas criados por seu papel predominante na economia. Um novo informe do Banco Mundial aponta a falta de reforma das empresas estatais como o maior obstáculo ao crescimento econômico do país. Isso, no entanto, é apenas sintoma de um problema mais profundo: o papel dominante do governo nos assuntos econômicos.
Além de controlar diretamente entre 25% e 30% do Produto Interno Bruto (PIB), o governo também é responsável pela maior parte dos recursos financeiros. Nos últimos anos, cerca de 35% dos empréstimos bancários foram destinados à infraestrutura, sendo a maior para obras de instituições governamentais. É verdade que o governo admitiu seu excesso de investimentos em infraestrutura e recentemente abandonou vários projetos de trens de alta velocidade que já estavam em construção. O excesso de investimentos governamentais, no entanto, também é flagrante nos vários parques industriais e zonas de alta tecnologia.
O frenesi de investimentos da China faz muitas pessoas recordarem o Japão nos anos 80, quando as linhas de trens de alta velocidade foram levadas aos cantos mais remotos do Japão. A maioria depende de subsídios do governo até hoje. E, embora os subsídios possam melhorar a qualidade de vida das pessoas comuns em vários aspectos, também a prejudicam ao suprimir o consumo doméstico.
Os investimentos em infraestrutura inevitavelmente serão contidos pela lei de diminuição dos retornos marginais. O crescimento no consumo, contudo, não tem limite. Suprimir o consumo, portanto, sufocaria o crescimento futuro, sendo que a participação do consumo doméstico no PIB caiu de 67% em meados da década para menos de 50% nos últimos anos.
O governo chinês é orientado à produção por natureza. A vantagem é que isso ajudou a manter altas taxas de expansão do PIB. O lado negativo, contudo, é igualmente forte. Uma consequência negativa é o aprofundamento persistente da desigualdade de renda. O coeficiente Gini de renda per capita é superior a 50 pontos (100 representa o máximo de desigualdade), o que coloca a China entre os piores 25% em desigualdade no mundo.
O problema pode não ser a desigualdade por si só, mas suas consequências, como a bifurcação do capital humano. O retorno do investimento em educação na China vem aumentando, mas o acesso ao ensino torna-se cada vez mais dividido social e geograficamente. Embora a educação esteja melhorando nas áreas urbanas, as crianças na zona rural deparam-se com um declínio na qualidade do ensino, porque os melhores professores mudam-se para as cidades. Além disso, tendo em vista a disparidade de renda entre o campo e a cidade, a educação nas áreas rurais é mais cara.
Como resultado, a maioria das crianças em áreas rurais entrará na força de trabalho sem diploma universitário. Entre os 140 milhões de trabalhadores migrantes da China, 80% têm apenas nove anos ou menos de educação formal - bem menos do que requerem os países de alta renda.
Apesar do aparente desejo das autoridades de reduzir a desigualdade de renda, o governo da China a agrava ao, entre outras coisas, subsidiar produtores, favorecer indústrias de uso intensivo de capital e manter um setor financeiro altamente ineficiente. Também há, no entanto, sinais promissores de avanço econômico. O governo acaba de anunciar novas regras para o registro familiar, conhecido como "hukou". A não ser nas grandes cidades, as pessoas agora podem escolher livremente seu "hukou" após três anos de residência. Isso ajudará os migrantes imensamente, ao garantir condições iguais de acesso à educação para seus filhos.
Mudar completamente o comportamento distorcivo do governo, no entanto, requer mudanças mais radicais nas políticas. A reforma do "hukou" é um bom começo, já que fortalecerá os direitos políticos dos migrantes nas comunidades locais. Tende em vista seu grande número, sua participação política pode obrigar os governos locais a ficarem mais atentos às necessidades das pessoas comuns. E se os degraus mais baixos do governo começarem a dar mais atenção, é de se esperar que isso acabe chegando às esferas mais altas do poder. (Tradução de Sabino Ahumada)
E se os chineses estiverem certos? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O Globo - 01/03/12
Nem convém falar assim, em público, mas há momentos em que o pensamento rompe nossas barreiras e cogita da eficácia do despotismo esclarecido. A gente observa a desgraça que políticos democraticamente eleitos espalham pelo mundo afora e imagina: e se tivéssemos um líder com capacidade intelectual e visão de futuro absolutamente extraordinárias, uma pessoa do bem, com senso de justiça social? Esse líder, com poderes absolutos - quer dizer, sem os constrangimentos de lidar com políticos interesseiros e populistas - não poderia fazer um imenso bem ao país?
Está falando da China - é, pelo menos, o que se diz lá mesmo. O primeiro déspota teria sido Deng Xiao Ping, que no final dos anos 70 venceu a camarilha dos herdeiros de Mao, e lançou as reformas econômicas pró-capitalismo que trouxeram a China à posição de hoje. Além disso, Deng teria solucionado muito bem um problema difícil para todos os déspotas, esclarecidos ou não, que é a sucessão.
Deng não deixou um sucessor, mas um grupo, um sistema, instalado no Partido Comunista. Assim, a China emplacou três décadas crescendo a taxas anuais de 10% e, mais importante, retirou da pobreza algo como 800 milhões de pessoas - os chineses que hoje vivem na parte urbana e desenvolvida.
E, para deixar o leitor ainda mais perturbado com este pensamento tão incorreto quanto tentador, o sistema chinês oferece neste momento mais duas demonstrações de sua eficiência política e visão de futuro. Primeira, a sucessão: ao longo deste ano, de maneira organizada e pré-anunciada, serão substituídos o presidente do país e chefe do partido, Hu Jintao, e o primeiro-ministro, Wen Jiabao.
A outra demonstração é um surpreendente estudo estratégico que o governo chinês encomendou junto ao Banco Mundial - e que foi preparado por economistas do banco e do Centro de Pesquisa de Desenvolvimento do Conselho de Estado da China. O título: "China 2030, construindo uma sociedade de alta renda, moderna, harmoniosa e criativa."
É o que parece, uma tentativa de antecipar o futuro, um documento de 468 páginas, "pensando" como a China pode saltar de um país de renda média para alta, ou seja, de emergente para rico. Parte da constatação de que o modelo dos últimos 30 anos - trabalho duro, salário baixo, muita economia, pouco consumo, tudo exportado - não vale mais. Trata-se, pois, de uma troca organizada de sistema.
Reparem: o Banco Mundial é parte do sistema financeiro global, junto com o FMI e Banco de Compensações Internacionais, o banco central dos bancos centrais. Logo, trata-se do coração do capitalismo global. E, como seria de se esperar, o estudo sugere menos estado e mais mercado, menos governo agindo diretamente na economia e na sociedade e mais espaço para a ação dos indivíduos.
Prestaram atenção? Esse é o estudo preparado com a autorização e o apoio do Conselho de Estado da ditadura do PC chinês. Claro, o relatório não propõe a derrubada da ditadura e a introdução da democracia, mas sugere que não haverá como escapar de uma sociedade mais aberta, em consequência mesmo do enriquecimento e da formação de cidadãos mais expostos ao mundo.
Tudo considerado, como ficamos? A atual versão chinesa do despotismo esclarecido - regime de monarcas europeus do século 18 - pode ser repetida em outros países?
A resposta mais comum é "não". De maneira geral, entende-se que o caso chinês é único sob diversos aspectos. Por exemplo, como sair do desastre sangrento do período maoista para uma democracia liberal clássica, em um país de mais de um bilhão de pessoas, em situações tão diferentes? E como promover a mudança dramática de uma economia rural muito pobre para outra industrializada sem uma marcha forçada pelo regime?
Finalmente, a China seria única pela sorte. Acabou que o poder ficou nas mãos de um Deng Xiao Ping. E se a luta interna tivesse terminado com a vitória da viúva de Mao, Jiang Qing? Isso poderia perfeitamente ter acontecido e a China hoje seria uma imensa Coreia do Norte.
O que nos leva ao outro lado da história. Não se podem colocar as fichas em um regime que depende tanto de acasos históricos. Se começa com um déspota estúpido e mau caráter, fica quase impossível derrubá-lo. Observem como é difícil afastar os ditadores dos países árabes. No Brasil, já tivemos ditaduras variadas, mas não esclarecidas.
Além disso, é preciso colocar na balança os custos da expansão chinesa, a começar pelas pessoas assassinadas na Praça Tiananmen, que justamente reivindicavam mais abertura e benefícios econômicos. É difícil, entretanto, fazer esse balanço: a ditadura esconde seu passivo.
Em resumo: a China já está aí, se prepara para o futuro e ainda nos perturba. Na economia e na política.
Pobre comércio com a China - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 01/03/12
A China descobriu o Brasil muito tarde, há apenas dois anos, e corre agora para recuperar o tempo perdido. Investe em minérios, petróleo e alimentos para se abastecer e influenciar nos preços e não em setores industriais que sustentam seu crescimento econômico. Quer produzir no Brasil o que não tem condições de produzir na China. Não apenas isso, continua exportando para nós o que produz utilizando matérias-primas que importa do Brasil - tecidos, calçados, carros e máquinas.
São essas as conclusões das principais análises das relações bilaterais entre os dois países. Importando a preços menores por causa do protecionismo cambial chinês, o Brasil ganha porque pode conter a inflação e engordar a conta das exportações, mas perde porque exporta essencialmente commodities, o que não só prejudica a indústria, mas, acima de tudo, atentem para isso "empobrece", tese defendida com muitos dados e lucidez pelo professor de Economia da Universidade de Brasília, Jorge Arbache - e muitos outros - em capítulo do livro Brasil e China no Reordenamento das Relações Internacionais: Desafios e Oportunidades, editado pelo Itamaraty.
Empobrece? Sim, afirma Arbache, no livro que recomendamos para quem deseja se aprofundar no assunto. Há pouco mais de dois anos, a China nem figurava no registro do Banco Central dos países que investiam aqui. Tudo mudou nos últimos anos. Em 2010 foram de cerca de US$ 13 bilhões e no ano passado pelo menos US$ 15 bilhões.
Esses valores fornecem uma boa medida do crescente interesse chinês no Brasil. "Obviamente, ele não representa o impacto macroeconômico dos investimentos na economia brasileira, já que a maior parte desses investimentos se refere à troca de controle entre empresas estrangeiras. Se subtrairmos esta troca de controle, obteremos para 2010 um número surpreendentemente inferior a US$ 1,5 bilhão."
Insistimos, porém, que o valor que melhor representa as relações China-Brasil, com todas as implicações que isso pode ter daqui por diante, são os US$ 13 bilhões - já que esse valor marca a consolidação da presença chinesa no Brasil por meio de investimentos, afirma ele.
Mais alimentos, minérios. Uma característica importante é que os investimentos dos chineses no Brasil concentram-se em mineração, alimentos, petróleo, gás e na infraestrutura como portos, ferrovias, necessária para o seu escoamento desses produtos para a China. "Em 2010, a quase totalidade dos investimentos foram direcionados a produtos básicos para exportação, sendo o petróleo o grande destaque. Além de se concentrarem em commodities, 70% desses investimentos ocorreram na modalidade de fusões e aquisições, não em investimentos na criação de novas empresas e geração de novos empregos", assinala Jorge Arbache no estudo.
A China também se tornou importante fonte de crédito externo para o Brasil, mas esses créditos são normalmente vinculados a projetos de produção, logística ou comercialização de produtos básicos. O empréstimo de US$ 10 bilhões à Petrobrás, garantido por exportação de petróleo, é um caso mais marcante e repete no Brasil o que a China faz na África e está fazendo na América Latina. Onde não pode comprar terras, financia e compra antecipadamente a produção.
Primarização empobrece. Dessa forma, a China fomenta e encoraja a crescente primarização da produção no Brasil.
A primarização empobrece por várias razões, diz o professor da Universidade de Brasilia. "Uma delas é que apenas 3% dos trabalhadores com carteira estão empregados no setor agropecuário e menos de 0,5% no setor mineral. Além de empregar pouco, o setor de produtos básicos cria muito pouco emprego quando cresce", afirma ele. Exportar cada vez mais commodities também empobrece porque seus preços são extremamente voláteis, afetando os investimentos e as finanças públicas.
A produção e a exportação de commodities são certamente importantes, como fica evidente sua contribuição para a balança comercial, "mas elas não resolvem nem resolverão os desafios da economia brasileira de crescer de forma sustentada." Para a coluna, não se trata de "conter" as exportações de commodities, mas sim aplicar uma politica que estimule as vendas de produtos industrializados e básicos. Ou isso ou a pauta comercial brasileira vai continuar distorcida desestimulando o crescimento econômico a médio prazo.
Cidade domada - CLAUDIA ANTUNES
FOLHA DE SP - 01/03/12
RIO DE JANEIRO - Na madrugada da segunda-feira de Carnaval, enquanto a Beija-Flor desfilava no Sambódromo, a polícia do Rio fez uma operação no vizinho morro de São Carlos para prender um traficante.
O criminoso foi capturado num tiroteio em que um adolescente de 14 anos foi morto. O São Carlos sedia uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) que enfrenta problemas de adaptação, com reação do tráfico e casos de corrupção de policiais.
Seria saudável que a opinião pública carioca questionasse se valeu a pena arriscar a morte de um garoto pela prisão de um bandido que já deve ter sido substituído na favela. Ainda mais quando se sabe que um dos principais desafios das UPPs é conquistar os jovens, que passam a ter seu cotidiano regulado pela polícia.
Ocorre que no Rio vozes questionadoras têm encontrado pouco eco. A cidade vive uma boa fase, mas o oba-oba dos preparativos para a Copa e a Olimpíada domou seu espírito crítico. A Secretaria de Segurança paira acima de ataques, e restrições às obras urbanísticas raramente são levadas em conta.
O Estado, por exemplo, acaba de inaugurar uma ponte para a cidade universitária que desemboca numa via expressa já saturada, a Linha Vermelha. Por que não concentra os gastos viários numa nova linha de metrô, em vez de fazer só a extensão para a Barra de uma rota, a zona sul-centro, também congestionada?
Agora, há mobilização de urbanistas contra a demolição da primeira hípica da cidade, do século 19, e de um antigo quartel, ambos próximos ao Maracanã. O projeto divulgado para o local é de um parque, mas teme-se que venha a incluir um estacionamento para os Jogos. O Patrimônio municipal diz que ainda analisa o valor histórico-cultural dos edifícios.
O Rio não precisa de novas vagas para carros, mas que existam condições para que eles não precisem ser retirados das garagens.
Abestados! Vou votar no Tiririca! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 01/03/12
E um leitor me disse que o Serra é um vampiro canguru: vai pulando de cargo em cargo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Festival de Piadas Prontas! "Ator de 'Tarzan' é preso por ter animais selvagens em casa."
"Em Alagoas, ex-deputado preso é nomeado delegado com tornozeleira eletrônica." Coisa mais bizarra: um delegado com tornozeleira eletrônica! E que ironia: o "Jornal Nacional" mandou a Cláudia Bontempo cobrir as enchentes no Acre.
E mais esta: "PSDB adia prévias para 25 de março". Vinte e cinco de Março? Prévia pirata. Só falta chegar o rapa! Já imaginou os tucanos gritando "olha o rapa!"?
E um leitor me disse que o Serra é um vampiro canguru: vai pulando de cargo em cargo!
E o Ricardo Teixeira plagiou a grávida de Taubaté. A barriga tá idêntica!
E olha o nome que eu vi escrito numa van escolar: "Cleide Barrichello". As crianças vão chegar atrasadas! Rarará!
E atenção! Rio Urgente! O mundo vai acabar! Manchete do Sensacionalista: "Aliança entre Cesar Maia e Garotinho dá início ao calendário oficial do fim do mundo".
Então não é o calendário maia, é o calendário do Cesar Maia! Rarará! 2012!
Calendário Cesar Maia anuncia o fim do mundo! "Cesar Maia e Garotinhos juntos no Rio/ uma coisa que nunca se viu/ minha gata botou ovo/ e a minha galinha pariu!"
Rarará!
E a selecinha do Mano? E o gol contra da Bósnia? Adoro gol contra. Sabe como se chama gol contra em Portugal? Autogol! Ganhamos com um autogol da Bósnia! Ganhamos de 2 a 1, com dois gols da Bósnia! Ou seja, ganhamos mais feio do que o cabelo do Neymar!
O Neymar tá parecendo um escovão de cabeça pra baixo! As "vadia" gosta assim mesmo! Na seleção brasileira, o secador é mais importante do que o técnico. E entende mais de futebol também!
E o Júlio César engoliu um McChicken de oito andares. Avícola Júlio César!
E o Casão. O Casagrande insiste em chamar o Ganso de Paulo Henrique. Parece a mãe dele: "Paulo Henrique, sai já do banco e vai arrumar o quarto". Rarará!
E última notícia: "PR quer Tiririca para eleição em São Paulo". Eu também quero. Quero, não. EXIJO! São Paulo vai ficar Tiririca! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E um leitor me disse que o Serra é um vampiro canguru: vai pulando de cargo em cargo!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Festival de Piadas Prontas! "Ator de 'Tarzan' é preso por ter animais selvagens em casa."
"Em Alagoas, ex-deputado preso é nomeado delegado com tornozeleira eletrônica." Coisa mais bizarra: um delegado com tornozeleira eletrônica! E que ironia: o "Jornal Nacional" mandou a Cláudia Bontempo cobrir as enchentes no Acre.
E mais esta: "PSDB adia prévias para 25 de março". Vinte e cinco de Março? Prévia pirata. Só falta chegar o rapa! Já imaginou os tucanos gritando "olha o rapa!"?
E um leitor me disse que o Serra é um vampiro canguru: vai pulando de cargo em cargo!
E o Ricardo Teixeira plagiou a grávida de Taubaté. A barriga tá idêntica!
E olha o nome que eu vi escrito numa van escolar: "Cleide Barrichello". As crianças vão chegar atrasadas! Rarará!
E atenção! Rio Urgente! O mundo vai acabar! Manchete do Sensacionalista: "Aliança entre Cesar Maia e Garotinho dá início ao calendário oficial do fim do mundo".
Então não é o calendário maia, é o calendário do Cesar Maia! Rarará! 2012!
Calendário Cesar Maia anuncia o fim do mundo! "Cesar Maia e Garotinhos juntos no Rio/ uma coisa que nunca se viu/ minha gata botou ovo/ e a minha galinha pariu!"
Rarará!
E a selecinha do Mano? E o gol contra da Bósnia? Adoro gol contra. Sabe como se chama gol contra em Portugal? Autogol! Ganhamos com um autogol da Bósnia! Ganhamos de 2 a 1, com dois gols da Bósnia! Ou seja, ganhamos mais feio do que o cabelo do Neymar!
O Neymar tá parecendo um escovão de cabeça pra baixo! As "vadia" gosta assim mesmo! Na seleção brasileira, o secador é mais importante do que o técnico. E entende mais de futebol também!
E o Júlio César engoliu um McChicken de oito andares. Avícola Júlio César!
E o Casão. O Casagrande insiste em chamar o Ganso de Paulo Henrique. Parece a mãe dele: "Paulo Henrique, sai já do banco e vai arrumar o quarto". Rarará!
E última notícia: "PR quer Tiririca para eleição em São Paulo". Eu também quero. Quero, não. EXIJO! São Paulo vai ficar Tiririca! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Enfim, uma política de Estado - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 01/03/12
A aprovação na Câmara do projeto que institui novas regras para a aposentadoria dos servidores públicos é um passo importante para equilibrar as contas no sistema previdenciário brasileiro. E deve ser saudada como a concretização de uma política de Estado de reforma do sistema previdenciário que atravessa quatro governos, dois tucanos e dois petistas.
Desde 1995 os governos vêm perseguindo reformas do sistema previdenciário, tendo conseguido avanços quanto aos servidores privados, mas encontrando resistências corporativas e sindicais quando se trata do servidor público.
Foi aprovada no final do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso a legislação que passou a permitir a criação de fundos de previdência complementar para os servidores públicos através de lei complementar, mas somente em 2003, já no governo Lula, uma lei nesse sentido passou no Congresso.
A reação dos sindicatos e corporações foi tamanha que o então presidente Lula desistiu de regulamentar a lei, que não entrou em vigor. Esse episódio, aliás, foi decisivo para que Lula abandonasse o ímpeto reformista com que assumiu o Palácio do Planalto. Ele, a partir do desgaste que sofreu em sua base política, desistiu dessa e de outras reformas estruturais.
Agora, a presidente Dilma aproveita a boa fase da economia para afinal regulamentar o funcionamento dos fundos de pensão para os três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário.
A necessidade da reforma fica patente quando se analisam os números do sistema previdenciário brasileiro: pelo quarto ano consecutivo, o déficit da previdência dos servidores públicos federais superou o rombo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que se refere aos trabalhadores da iniciativa privada. O déficit do sistema do funcionalismo público cresceu 9,8% de 2010 para 2011, totalizando R$ 56 bilhões para atender cerca de um milhão de servidores, e o do INSS - que atende cerca de 29 milhões de pessoas - foi reduzido em 22,3%, fechando o ano no menor patamar desde 2002, com cerca de R$ 36 milhões.
Para este ano, a previsão é de um déficit da previdência dos servidores públicos de R$ 60 bilhões, enquanto o do INSS deve se manter no mesmo nível do ano passado.
O economista Fábio Giambiagi, especialista em Previdência, considera que o Fundo de Previdência dos Servidores Públicos é uma excelente iniciativa do Executivo que, ele confessa, o surpreendeu positivamente, "pois não esperava no começo do ano que o governo fosse se empenhar tanto na sua aprovação".
O fato de a maioria do PSDB ter votado a favor, repetindo um padrão de comportamento que já tinha sido observado por ocasião da reforma previdenciária de Lula em 2003, é indicativo de que deveria haver um espaço para o PT e o PSDB se entenderem minimamente em relação a certas questões de Estado, diz Giambiagi.
Mas ele ressalta que "é uma pena, porém, que em São Paulo, a nível estadual, o PT não tenha tido a mesma atitude em relação à proposta do governador Alckmin, em essência a mesma que o governo está tentando implementar a nível federal".
Por outro lado, ele lembra que, por mais meritória que seja a proposta a longo prazo, é importante que fique bem claro que a rigor, nos próximos anos, ela terá um efeito negativo sobre as contas fiscais, pelo fato de que o governo deixará de receber a receita de contribuições que exceder o teto do INSS, ao mesmo tempo em que terá que passar a contribuir com a parcela do empregador para o Funpresp.
"Por muitos anos, portanto, haverá um efeito duplamente negativo, que será diluído e depois revertido daqui a algumas décadas, quando o teto de todas as aposentadorias for igual ao do INSS."
Outro especialista, Fabio Zambitte, mestre em Direito Previdenciário, autor do livro recém-lançado "A previdência social no Estado contemporâneo", defende o fim dos regimes diferenciados para servidores, pois "não há razão para a divisão".
Na verdade, ele lembra que a origem dessa divisão é histórica, pois a aposentadoria de servidores possuía a natureza jurídica de prêmio, já que a função pública nada mais era do que uma delegação real. "Era um prêmio pela atividade leal ao Rei."
Após a reforma de 2003, com a consolidação no Brasil do modelo contributivo também para os servidores, "o melhor seria a unificação".
Ele admite que a proposta é ousada, "pois a segregação em regimes diferenciados, também pelos mesmos motivos históricos, é a regra mundo afora. Todavia, se os riscos são os mesmos (doença, idade avançada, morte etc.), não há motivo para distinções".
O fundo dos servidores é um primeiro passo nesse sentido, "pois nivelará os benefícios do regime geral com os regimes próprios".
No seu livro, Zambitte propõe, em linhas gerais, adotar um modelo universalista, como primeiro pilar, com garantia universal de benefícios em determinadas contingências (idade avançada, doença etc.), financiado por impostos. "Não estabeleço um patamar remuneratório determinado, pois isso dependerá de quanto a sociedade estará disposta a financiar, e deverá ser fixado pelo Parlamento", esclarece o autor.
Um segundo pilar, igualmente compulsório, complementaria o primeiro, visando atender, além do mínimo existencial, algum grau de bem-estar compatível com a vida ativa da pessoa. "O financiamento seria por adicional de imposto de renda, viabilizando a tributação de acordo com a renda e, então, fixando o benefício de acordo com o custeio individual."
O terceiro pilar seria a previdência complementar privada de hoje
Viciados em liquidez - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 01/03/12
Com a operação de ontem, o Banco Central Europeu injetou 1 trilhão no sistema financeiro em três meses. Os bancos tomaram o dinheiro emprestado e isso diminuiu a desconfiança entre eles. Uma parte dos recursos será usada para comprar títulos dos países em crise, o que diminuirá o custo da dívida dos governos. O problema é que o dinheiro barato buscará rentabilidade em vários mercados, aumentando a chance de formação de bolhas.
O BCE espera por três coisas ao colocar mais dinheiro na mão dos bancos: que eles melhorem seus balanços, evitando a desconfiança entre eles e uma crise no sistema financeiro; que usem parte dos recursos para comprar títulos dos governos da região; e que repassem o crédito à iniciativa privada, estimulando investimentos das empresas e consumo das famílias. Dos três objetivos, os dois primeiros, de fato, parecem estar acontecendo. A ameaça de uma crise financeira na Europa ficou menor nos últimos meses, as taxas de juros do interbancário caíram. Ao mesmo tempo, os juros pagos pelos governos da Europa para rolagem de dívidas ficaram menores. E isso é bom principalmente para os casos de Espanha e Itália, duas economias grandes demais para serem socorridas.
Mas a indução do crescimento via aumento de crédito não está acontecendo. A demanda na Zona do Euro está fraca, o desemprego está alto, com média de 10,4%, seis países da região estão em recessão, e o mercado já está inundado de liquidez. Não há apetite por mais dívidas e os bancos estão preferindo manter o dinheiro em caixa.
José Júlio Senna, da MCM consultores, explica que o BCE foi obrigado a flexibilizar as exigências de garantias para os empréstimos, para que mais bancos pudessem participar da operação. Isso tirou do radar dos investidores o risco de quebra de alguma instituição e aumentou o apetite por risco nos mercados:
- Os governos da região ganham mais tempo para fazer os ajustes que têm que fazer, como privatizações, corte de salários de funcionários públicos, mudanças nas legislações, aumento da idade das aposentadorias. Mas a operação não muda a essência do problema europeu, que é de um estoque muito grande de dívida por parte dos governos dentro de um ambiente de recessão. Ainda estamos a uma longa distância da linha de chegada.
O estrategista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, acredita que a medida não irá resolver o problema de baixa competitividade de vários países da região. Também aponta uma série de riscos que serão contratos para o futuro.
- O grande risco da operação é o excesso de liquidez que será gerado. A Europa tem muitos países com problemas, e os bancos vão pegar esse dinheiro para comprar títulos desses governos. Os juros vão cair, dando a impressão de que o risco ficou menor. Mas na verdade ele continua lá. Teremos uma melhora aparente, que acontecerá via indução monetária. Além disso, haverá um descolamento ainda maior entre ativos financeiros e a economia real. O lucro das empresas continuará baixo, o desemprego continuará alto - explicou.
Newton Rosa, da Sul América Investimentos, ainda não vê um risco iminente de bolhas porque o mundo está crescendo pouco e não há espaço para a valorização forte dos ativos. Mas diz que os bancos centrais terão o enorme desafio de saber quando toda essa liquidez terá que ser recolhida.
- Essa discussão já está acontecendo dentro do Fed, o banco central americano. Alguns dos seus membros estão votando pelo aumento de juros e pelas restrições das políticas monetárias. A dificuldade dos bancos centrais será saber quando reverter essa política - disse.
A operação de ontem do BCE é mais uma das várias operações das autoridades monetárias na mesma linha: uma superexpansão de crédito num mundo já de juros em torno de zero, para através dessas ações evitar o pior da crise. Isso funciona num primeiro momento, mas depois o mercado começa a exigir mais e mais injeções monetárias. Cada evento desses tem um efeito menor e mais curto. E novas enxurradas monetárias são exigidas. Todo esse dinheiro reduz os efeitos da crise, mas começa a causar desequilíbrios como a formação de bolhas ou a distorção em preços de ativos.
Na maioria das economias emergentes as moedas estão ficando muito valorizadas, como no Brasil. Para piorar um quadro já complexo, a China não tem câmbio flutuante. Isso faz com que o maior exportador do mundo tenha a vantagem de um anabolizante cambial tornando seus produtos mais competitivos do que normalmente já seriam. O comércio internacional passa a ser impactado diretamente por toda essa alteração artificial dos preços das moedas.
No momento de desespero, quando houve o colapso do Lehman Brothers, em 2008, havia necessidade dessa expansão monetária para evitar que aquela crise aguda de confiança entre os bancos provocasse uma queda em dominó de instituições financeiras. Agora, há uma crise fiscal crônica e de superendividamento. O que houve ontem foi a administração de mais um pouco da droga para um organismo que já está ficando viciado. Até agora, os maiores bancos centrais do mundo - Fed, BCE, Banco do Japão e da Inglaterra - ofereceram aos bancos em ajuda de liquidez mais de US$ 5 trilhões.
O BCE espera por três coisas ao colocar mais dinheiro na mão dos bancos: que eles melhorem seus balanços, evitando a desconfiança entre eles e uma crise no sistema financeiro; que usem parte dos recursos para comprar títulos dos governos da região; e que repassem o crédito à iniciativa privada, estimulando investimentos das empresas e consumo das famílias. Dos três objetivos, os dois primeiros, de fato, parecem estar acontecendo. A ameaça de uma crise financeira na Europa ficou menor nos últimos meses, as taxas de juros do interbancário caíram. Ao mesmo tempo, os juros pagos pelos governos da Europa para rolagem de dívidas ficaram menores. E isso é bom principalmente para os casos de Espanha e Itália, duas economias grandes demais para serem socorridas.
Mas a indução do crescimento via aumento de crédito não está acontecendo. A demanda na Zona do Euro está fraca, o desemprego está alto, com média de 10,4%, seis países da região estão em recessão, e o mercado já está inundado de liquidez. Não há apetite por mais dívidas e os bancos estão preferindo manter o dinheiro em caixa.
José Júlio Senna, da MCM consultores, explica que o BCE foi obrigado a flexibilizar as exigências de garantias para os empréstimos, para que mais bancos pudessem participar da operação. Isso tirou do radar dos investidores o risco de quebra de alguma instituição e aumentou o apetite por risco nos mercados:
- Os governos da região ganham mais tempo para fazer os ajustes que têm que fazer, como privatizações, corte de salários de funcionários públicos, mudanças nas legislações, aumento da idade das aposentadorias. Mas a operação não muda a essência do problema europeu, que é de um estoque muito grande de dívida por parte dos governos dentro de um ambiente de recessão. Ainda estamos a uma longa distância da linha de chegada.
O estrategista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, acredita que a medida não irá resolver o problema de baixa competitividade de vários países da região. Também aponta uma série de riscos que serão contratos para o futuro.
- O grande risco da operação é o excesso de liquidez que será gerado. A Europa tem muitos países com problemas, e os bancos vão pegar esse dinheiro para comprar títulos desses governos. Os juros vão cair, dando a impressão de que o risco ficou menor. Mas na verdade ele continua lá. Teremos uma melhora aparente, que acontecerá via indução monetária. Além disso, haverá um descolamento ainda maior entre ativos financeiros e a economia real. O lucro das empresas continuará baixo, o desemprego continuará alto - explicou.
Newton Rosa, da Sul América Investimentos, ainda não vê um risco iminente de bolhas porque o mundo está crescendo pouco e não há espaço para a valorização forte dos ativos. Mas diz que os bancos centrais terão o enorme desafio de saber quando toda essa liquidez terá que ser recolhida.
- Essa discussão já está acontecendo dentro do Fed, o banco central americano. Alguns dos seus membros estão votando pelo aumento de juros e pelas restrições das políticas monetárias. A dificuldade dos bancos centrais será saber quando reverter essa política - disse.
A operação de ontem do BCE é mais uma das várias operações das autoridades monetárias na mesma linha: uma superexpansão de crédito num mundo já de juros em torno de zero, para através dessas ações evitar o pior da crise. Isso funciona num primeiro momento, mas depois o mercado começa a exigir mais e mais injeções monetárias. Cada evento desses tem um efeito menor e mais curto. E novas enxurradas monetárias são exigidas. Todo esse dinheiro reduz os efeitos da crise, mas começa a causar desequilíbrios como a formação de bolhas ou a distorção em preços de ativos.
Na maioria das economias emergentes as moedas estão ficando muito valorizadas, como no Brasil. Para piorar um quadro já complexo, a China não tem câmbio flutuante. Isso faz com que o maior exportador do mundo tenha a vantagem de um anabolizante cambial tornando seus produtos mais competitivos do que normalmente já seriam. O comércio internacional passa a ser impactado diretamente por toda essa alteração artificial dos preços das moedas.
No momento de desespero, quando houve o colapso do Lehman Brothers, em 2008, havia necessidade dessa expansão monetária para evitar que aquela crise aguda de confiança entre os bancos provocasse uma queda em dominó de instituições financeiras. Agora, há uma crise fiscal crônica e de superendividamento. O que houve ontem foi a administração de mais um pouco da droga para um organismo que já está ficando viciado. Até agora, os maiores bancos centrais do mundo - Fed, BCE, Banco do Japão e da Inglaterra - ofereceram aos bancos em ajuda de liquidez mais de US$ 5 trilhões.
Mais meio trilhão de euros - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 01/03/12
Foi grande ontem o comparecimento dos bancos europeus à segunda megaoperação de crédito barato promovida pelo Banco Central Europeu (BCE).
Desta vez, nada menos que 800 bancos tomaram 529,5 bilhões de euros em empréstimos, por três anos, dentro das condições da Operação de Refinanciamento de Longo Prazo (LTRO, na sigla em inglês).
Para as instituições financeiras europeias, é mamão com açúcar. Poderão agora aplicar esse capital (pelo qual pagarão juros de apenas 1% ao ano) em títulos dos países do euro que lhes renderão, no mole, juros de 3%, 4% ou 5% ao ano. Até recentemente, um banco que se atirasse ao crédito fácil junto ao banco central de seu país era visto com suspeita, porque indicava problemas patrimoniais. Pois até esse estigma parece ter sido removido depois que, encorajados pelo BCE, bancos reconhecidamente sólidos admitiram ter recorrido a esse guichê.
Só nas duas operações desse tipo - a de ontem e a de 21 de dezembro - o BCE, presidido pelo italiano Mario Draghi (foto), despejou mais de 1 trilhão de euros. O objetivo é proporcionar abundância de recursos que, em seguida, vão disputar a compra de títulos que vierem a ser colocados no mercado para dar cobertura a déficits e, assim, ajudarão a derrubar os juros de longo prazo - cuja alta vinha tirando sustentação das dívidas públicas da área do euro (veja o Confira).
Desde 2008, o BCE emitiu nada menos que 3,2 trilhões de euros para tirar o fôlego da crise. Mas esses mecanismos não resolvem os enormes problemas que estão nos fundamentos do euro; apenas desmontam fatores imediatos de pânico que uma quebra em cadeia dos bancos provocaria. Nessas condições, ajudam a ganhar tempo que pode, em princípio, ser aproveitado pelas autoridades para encaminhar soluções de fundo.
O BCE corre dois grandes riscos: primeiro, o de provocar inflação, que poderia vir na cauda dessas enormes emissões de moeda; segundo, perder certa dose de credibilidade. Explica-se: como garantia desses empréstimos de três anos, o BCE passou a aceitar títulos públicos e privados de dívida cuja qualidade levanta reservas no mercado.
Essas operações do BCE somam-se às equivalentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), do Banco da Inglaterra e do Banco do Japão na produção de importantes efeitos colaterais. Geram enorme liquidez (abundância de dinheiro). Se somente um grande banco central recorresse a elas, o efeito da desvalorização de sua própria moeda seria mais visível. No entanto, como todos eles estão emitindo, as desvalorizações em boa parte se anulam quando comparadas entre si - e arrastam também o yuan da China, que tem suas cotações amarradas à do dólar. É o grande jogo global das moedas que o ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, está chamando de guerra cambial.
Como já analisado nesta Coluna em outros momentos, do ponto de vista do Brasil essa megainjeção de moeda nos mercados já provocou - e tende a continuar provocando - valorização do real (baixa do dólar), porque o Banco Central brasileiro não tem capacidade de contra-ataque que evite inflação imediata nas proporções que neutralizariam essa consequência.
Tapete vermelho - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 01/03/12
Grávida de sete meses de uma menina, a atriz Grazi Massafera foi à pré-estreia do filme "Billi Pig", em que atua. Seus colegas de elenco Milhem Cortaz e Milton Gonçalves circularam pela sessão, anteontem, no Cinemark Iguatemi.
UM PÉ FORA
O advogado e ex-ministro da Justiça José Carlos Dias ameaça se desligar do centenário Club Athletico Paulistano, frequentado pela elite de SP, caso a associação se recuse a aceitar que um sócio gay inclua o parceiro como dependente. "Eu tenho nojo de pisar num clube em que prevaleça esse comportamento discriminatório odioso", diz. "O que eu vou fazer lá?"
LONGA ESTRADA
Dias é sócio remido do clube -seu pai comprou um título no começo do século passado e a primeira carteirinha que ele tem mostra sua foto ainda bebê.
EXPLICAÇÃO
O casal (o cirurgião Mario Warde Filho, 40, e o infectologista Ricardo Tapajós, 46) ganhou na Justiça o direito de frequentar o Paulistano. O clube vai recorrer. "É puro preconceito. Não tem explicação plausível", diz Aloísio Lacerda Medeiros, único dos 213 conselheiros que votou a favor dos dois. Os demais alegam que o estatuto do Paulistano reconhece como estável apenas a relação entre homem e mulher.
BOLSA
A Prefeitura de SP vai dar bolsa de estudos a 60 estudantes de jornalismo e arquitetura, entre outros, para que façam atendimento em hospitais municipais. A ideia é que a equipe forneça informações e orientações para facilitar a vida dos pacientes.
NA ONDA
O editor Luiz Fernando Emediato propôs ao jornalista Amaury Ribeiro Jr. o relançamento do livro "A Privataria Tucana", com denúncias contra a filha e amigos de José Serra (PSDB), que acaba de se lançar pré-candidato a prefeito de SP. "Vamos corrigir erros de pequena monta e acrescentar dados que ficaram de fora", diz ele.
LIXO
Verônica Serra, filha do candidato, nega as acusações de que tem negócios ilegais no exterior.
E José Serra já classificou o livro como "lixo".
A GRANDE FAMÍLIA
A mulher de Wagner Moura, Sandra Delgado, está grávida do terceiro filho do casal. Eles estão em Berlim, onde o ator filma "Praia do Futuro", de Karim Aïnouz.
Eles já são pais de dois meninos.
PRETA NA TELONA
A cantora Preta Gil, que faz uma participação no longa "Billi Pig", de José Eduardo Belmonte, foi convidada para estrelar um filme seu em 2013. "A produtora Vânia Catani me convidou e topei. Vou pensar no roteiro, no elenco, na direção, em tudo. Será uma comédia", diz.
SOS INTERNACIONAL
A ex-ministra Marina Silva está ligando para embaixadas em busca de ajuda para as vítimas de enchentes no Acre, seu Estado natal. Já falou com funcionários da França, Itália, Holanda e Suécia pedindo alimentos e materiais de limpeza. "A receptividade foi muito boa."
DOAÇÃO
Marina diz que está mobilizando também empresas privadas para fazer doações. Ela considera os R$ 5 milhões repassados pelo governo federal ao Acre "completamente insuficientes para atender as vítimas na emergência, quanto mais no processo de reconstrução".
VOZ DO MORRO
Os rappers Criolo e MV Bill foram anteontem à entrega do Prêmio Anu 2012, promovido pela Cufa (Central Única de Favelas). O ator Lázaro Ramos e o humorista Helio de La Peña também estiveram no Teatro João Caetano, no Rio.
CURTO-CIRCUITO
Os 80 anos de Modesto Carvalhosa serão comemorados no dia 17, às 13h30, com almoço e bênção na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano.
A peça "O Libertino" terá a renda da sessão de hoje, às 21h, revertida para a reconstrução do Teatro Cultura Artística. 16 anos.
O Funk como Le Gusta faz show hoje, às 23h, no Bourbon Street. 18 anos.
A marca de sapatos Masqué lança coleção de inverno hoje, no Itaim.
UM PÉ FORA
O advogado e ex-ministro da Justiça José Carlos Dias ameaça se desligar do centenário Club Athletico Paulistano, frequentado pela elite de SP, caso a associação se recuse a aceitar que um sócio gay inclua o parceiro como dependente. "Eu tenho nojo de pisar num clube em que prevaleça esse comportamento discriminatório odioso", diz. "O que eu vou fazer lá?"
LONGA ESTRADA
Dias é sócio remido do clube -seu pai comprou um título no começo do século passado e a primeira carteirinha que ele tem mostra sua foto ainda bebê.
EXPLICAÇÃO
O casal (o cirurgião Mario Warde Filho, 40, e o infectologista Ricardo Tapajós, 46) ganhou na Justiça o direito de frequentar o Paulistano. O clube vai recorrer. "É puro preconceito. Não tem explicação plausível", diz Aloísio Lacerda Medeiros, único dos 213 conselheiros que votou a favor dos dois. Os demais alegam que o estatuto do Paulistano reconhece como estável apenas a relação entre homem e mulher.
BOLSA
A Prefeitura de SP vai dar bolsa de estudos a 60 estudantes de jornalismo e arquitetura, entre outros, para que façam atendimento em hospitais municipais. A ideia é que a equipe forneça informações e orientações para facilitar a vida dos pacientes.
NA ONDA
O editor Luiz Fernando Emediato propôs ao jornalista Amaury Ribeiro Jr. o relançamento do livro "A Privataria Tucana", com denúncias contra a filha e amigos de José Serra (PSDB), que acaba de se lançar pré-candidato a prefeito de SP. "Vamos corrigir erros de pequena monta e acrescentar dados que ficaram de fora", diz ele.
LIXO
Verônica Serra, filha do candidato, nega as acusações de que tem negócios ilegais no exterior.
E José Serra já classificou o livro como "lixo".
A GRANDE FAMÍLIA
A mulher de Wagner Moura, Sandra Delgado, está grávida do terceiro filho do casal. Eles estão em Berlim, onde o ator filma "Praia do Futuro", de Karim Aïnouz.
Eles já são pais de dois meninos.
PRETA NA TELONA
A cantora Preta Gil, que faz uma participação no longa "Billi Pig", de José Eduardo Belmonte, foi convidada para estrelar um filme seu em 2013. "A produtora Vânia Catani me convidou e topei. Vou pensar no roteiro, no elenco, na direção, em tudo. Será uma comédia", diz.
SOS INTERNACIONAL
A ex-ministra Marina Silva está ligando para embaixadas em busca de ajuda para as vítimas de enchentes no Acre, seu Estado natal. Já falou com funcionários da França, Itália, Holanda e Suécia pedindo alimentos e materiais de limpeza. "A receptividade foi muito boa."
DOAÇÃO
Marina diz que está mobilizando também empresas privadas para fazer doações. Ela considera os R$ 5 milhões repassados pelo governo federal ao Acre "completamente insuficientes para atender as vítimas na emergência, quanto mais no processo de reconstrução".
VOZ DO MORRO
Os rappers Criolo e MV Bill foram anteontem à entrega do Prêmio Anu 2012, promovido pela Cufa (Central Única de Favelas). O ator Lázaro Ramos e o humorista Helio de La Peña também estiveram no Teatro João Caetano, no Rio.
CURTO-CIRCUITO
Os 80 anos de Modesto Carvalhosa serão comemorados no dia 17, às 13h30, com almoço e bênção na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano.
A peça "O Libertino" terá a renda da sessão de hoje, às 21h, revertida para a reconstrução do Teatro Cultura Artística. 16 anos.
O Funk como Le Gusta faz show hoje, às 23h, no Bourbon Street. 18 anos.
A marca de sapatos Masqué lança coleção de inverno hoje, no Itaim.
Baião de dois - RAQUEL ULHÔA
Valor Econômico - 01/03/12
Vai levar um tempo para o PT de São Paulo sair das cordas, depois do golpe do prefeito Gilberto Kassab. Golpe que, de resultados tão bons para José Serra, parece fruto de estratégia montada lá atrás, pelos dois, para trazer o ex-governador tucano de volta à cena política como dono da situação.
A articulação de Kassab encurralou o PT, mas teve também efeito interno, no PSDB. Deu a Serra posição privilegiada na relação com o governador Geraldo Alckmin e com o comando do partido. A demora no anúncio da candidatura e a aproximação de Kassab com o PT conseguiram angustiar o governador e o partido. A reeleição de Alckmin em 2014 e a sobrevivência do PSDB estão em jogo.
Um lançamento antecipado de Serra, num ambiente sem ameaça de Kassab apoiar o petista Fernando Haddad, talvez deixasse o tucano à mercê do empenho de Alckmin na campanha. Mas, ao se apresentar quando o jogo era considerado quase perdido, Serra apareceu como espécie de salvador do PSDB. E uma candidatura competitiva em São Paulo tem repercussão nacional.
"Serra e Kassab são almas grudadas", diz um petista de São Paulo, inconformado com o fato de o partido não ter previsto a intenção do prefeito e presidente do PSD, ao se aproximar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Era óbvio demais. Kassab e o PSD não seriam nada sem São Paulo. E Serra não poderia prescindir de concorrer à Prefeitura de São Paulo. Antes, ele tinha apenas o Twitter. Agora está a cavaleiro", avalia.
Justiça seja feita, os recentes lances da disputa eleitoral em São Paulo confirmam teses defendidas pela senadora Marta Suplicy (PT-SP) desde o início de 2011, contrariando os cenários de então. Num momento em que Serra negava de pé junto a intenção de concorrer, ela afirmava que ele acabaria saindo candidato. E, quando o prefeito deixava um partido de oposição (DEM) para criar outro com tendências governistas, ela avisava: ele está a serviço do Serra.
Foi apostando nesse quadro que ela lançou a pré-candidatura, acreditando ser, com a experiência de ex-prefeita, o nome mais competitivo do PT para enfrentar Serra e confrontar a administração de Kassab. Lula e o PT não deram crédito. Lula escolheu Haddad, nunca testado nas urnas, e o PT aceitou. O passo seguinte do ex-presidente foi a aproximação com Kassab.
O prefeito tão combatido pela militância petista foi recebido na convenção do partido, em Brasília. Recebeu vaias de uma parte dos presentes, é verdade, mas também gestos simpáticos da presidente Dilma Rousseff. As vaias não o abalaram. Haddad, com apoio de Kassab e até então sem adversário forte do PSDB, despontava como favoritismo.
O tempo fechou para o PT quando Serra decidiu disputar. Sem constrangimento, Kassab anunciou mudança de planos. Ficaria ao lado do tucano - como, aliás, desde o início tinha avisado que faria, se ele fosse candidato. Mas ele garantia a Lula que Serra era categórico ao rejeitar a ideia. "Acreditamos no Kassab", diz um petista revoltado.
O presidente do PSD deu um nó na campanha do PT. Como avaliou o senador Aécio Neves, deixou Haddad sem condições de fazer oposição ao prefeito na campanha. Como é que o PT vai justificar que Kassab servia como aliado, mas como adversário só tem defeito?
A aposta na parceria com o prefeito paralisou o PT. Ele perdeu tempo na busca de outras alianças. Com isso, a cotação dos indecisos aumentou no mercado. Agora, Dilma está sendo acionada a atender partidos da base, como o PR, que quer retomar o Ministério dos Transportes.
Ao aproximar-se de Lula, Kassab conseguiu outro feito: mascarar a avaliação negativa de sua gestão (42% dos paulistanos consideram a administração ruim ou péssima, segundo pesquisa). Um petista pergunta: "Quem vai falar mal dele, de braço dado com Lula?"
Pelo conjunto da obra, o prefeito está sendo considerado um mestre da política, mesmo deixando insatisfeita muita gente no PSD, que queria entrar logo no governo Dilma. A jogada de Kassab levanta dúvidas sobre a propalada habilidade de articulação de Lula.
O pessimismo começa a rondar o PT. O líder do partido na Câmara, Jilmar Tatto, defendeu aliança com o PMDB, ainda que seja à custa da cabeça de chapa. Irritou o partido. A própria Marta, que teve suas teses confirmadas pelos fatos e foi preterida por Haddad, em conversas com interlocutores, defende outra postura: admitir o erro (como ela fez em sua página no Twitter), se reagrupar e seguir em frente.
Mas não é considerada fácil. Serra tem a seu lado as máquinas municipal e estadual, ferramentas para atrair aliados, o que significa mais tempo de televisão. Haddad tem o governo federal, mas Dilma havia sinalizado, anteriormente, que não permitiria o uso da máquina a favor de candidaturas. A conferir. Haddad tem o apoio de Dilma, mas ela terá dificuldade de subir em seu palanque, ao menos no primeiro turno, já que o vice-presidente, Michel Temer, é o principal padrinho de Chalita.
Há dúvidas quanto ao discurso de Haddad, neófito em campanha eleitoral, como oposição à prefeitura. Depois do flerte de Lula com Kassab, apenas Marta não teria constrangimento em bater no prefeito. Afinal, ela deixou claro desde o início que era contra essa aliança.
Segundo dirigentes do PT, ao ungir Haddad, Lula está trabalhando na renovação do partido. Mesmo perdendo, o ex-ministro da Educação faria parte de uma nova geração de petistas em ascensão. Boa parte dos fundadores do PT está fora de combate, a maioria por envolvimento - ou suspeita de envolvimento - em casos de irregularidades.
Aposta arriscada, que pode atrasar o projeto do PT de recuperar a prefeitura, mas dar resultado futuro. O momento favorece Serra. Um dos riscos, para ele, é não convencer o eleitorado da disposição de cumprir o mandato na prefeitura. Por isso, já começou a campanha. Ontem, disse que o projeto presidencial está adormecido até 2016.
Responsabilização - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 01/03/12
O Cristopher Hitchens disse certa fez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou – no Chile e no Vietnã, por exemplo. Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.
O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da Segunda Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje discute-se a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém-liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.
A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido. A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrógrada como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e a responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.
Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.
O Cristopher Hitchens disse certa fez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou – no Chile e no Vietnã, por exemplo. Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.
O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da Segunda Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje discute-se a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém-liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.
A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido. A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrógrada como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e a responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.
Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.
Heraldo, a cor e a alma - DEMÉTRIO MAGNOLI
O Estado de S.Paulo - 01/03/12
A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como "negro de alma branca" e escreveu que o jornalista "não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde".
Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades - na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação. Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder. Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog infame.
Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a natureza de sua injúria racial tem. "Negro de alma branca", uma expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do "traidor da raça". No passado serviu para traçar um círculo de desonra em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o cenário que a infâmia almeja conservar oculto.
O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948, instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente não o classificariam como "branco de alma negra", pois uma "alma negra" não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan não traiu a sua "raça". Sob a lógica pervertida do pensamento racial, eles o designariam como "branco de alma branca", embutindo numa única expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca. Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria "raça", ele figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois (1868-1963), "pai fundador" do movimento negro americano, congratulou Adolf Hitler, um "branco de alma branca", pela promoção do "orgulho racial" dos arianos.
Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é qualificado como "um negro da Casa Grande da Rede Globo", que "não dignifica a sua ancestralidade e origem" pois "nunca fez um comentário quando a emissora se posiciona contra as cotas". No fim, os dois linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a (atual) opinião de Amorim.
O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente os indivíduos "desviantes". O economista Thomas Sowell produziu uma obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em 1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista, assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda, um marxista - mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei. Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de "negros de alma branca" pela Santa Inquisição dos novos arautos da raça.
A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas de preferências raciais - e também o de não opinar sobre o tema. Como, entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito menor de direitos - efetivamente, entre as três opções, só está autorizado a abraçar uma delas.
Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da "raça branca" são indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da "raça negra" dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar, obedientemente, diante de seus "líderes raciais", os guardiões da "ancestralidade e origem". Hoje, como nos tempos da segregação oficial americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica principalmente os negros.
Professores reprovados - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 01/03/12
SÃO PAULO - O ensino público em São Paulo, no que depender da engenhosidade do governador Geraldo Alckmin, não corre o menor risco de melhorar nos próximos anos.
Pela terceira vez seguida, diante da dificuldade em preencher as vagas abertas no corpo docente das escolas, o governo paulista autorizou a contratação de professores reprovados em um teste de seleção aplicado pelo próprio Estado.
Ou seja, o contribuinte paulista vai continuar a pagar alguém para ensinar aquilo que não sabe para os seus filhos. Será que era esse o tipo de solução que o tucano se propunha a oferecer quando, na eleição de 2010, dizia que "governar é enfrentar problemas e concretizar sonhos"?
A falta de professor não é um tema novo. Em 2007, o Conselho Nacional de Educação divulgou um relatório no qual tratava do assunto e dizia temer um verdadeiro "apagão" no futuro. De fato, estima-se que haja atualmente uma carência de mais de 300 mil docentes no país, sobretudo para áreas como matemática, física, biologia e química.
As razões para esse desinteresse pela profissão são várias e tão antigas quanto óbvias. A carreira perdeu prestígio, as faculdades são, muitas vezes, ruins e desestimulantes e, claro, o salário é baixo -um professor iniciante recebe R$ 1.988,83 em SP, valor semelhante à média que se paga, por exemplo, para um marceneiro (R$ 1.969) e para um serralheiro (R$ 1.927), segundo o Datafolha.
Mas será que simplesmente reduzir as exigências e contratar qualquer um, como faz o governo, é a melhor maneira de encarar a situação?
Alckmin costuma dizer que o Estado é o motor do país. Pois, em vez de desistir da qualidade e se conformar com a debilidade do ensino público oferecido aqui, deveria criar algum tipo de estímulo para tentar atrair os melhores formandos para a rede estadual. E utilizar a USP, a Unicamp e a Unesp para reciclar e recapacitar esses professores que há anos vão mal nos testes de seleção.
SÃO PAULO - O ensino público em São Paulo, no que depender da engenhosidade do governador Geraldo Alckmin, não corre o menor risco de melhorar nos próximos anos.
Pela terceira vez seguida, diante da dificuldade em preencher as vagas abertas no corpo docente das escolas, o governo paulista autorizou a contratação de professores reprovados em um teste de seleção aplicado pelo próprio Estado.
Ou seja, o contribuinte paulista vai continuar a pagar alguém para ensinar aquilo que não sabe para os seus filhos. Será que era esse o tipo de solução que o tucano se propunha a oferecer quando, na eleição de 2010, dizia que "governar é enfrentar problemas e concretizar sonhos"?
A falta de professor não é um tema novo. Em 2007, o Conselho Nacional de Educação divulgou um relatório no qual tratava do assunto e dizia temer um verdadeiro "apagão" no futuro. De fato, estima-se que haja atualmente uma carência de mais de 300 mil docentes no país, sobretudo para áreas como matemática, física, biologia e química.
As razões para esse desinteresse pela profissão são várias e tão antigas quanto óbvias. A carreira perdeu prestígio, as faculdades são, muitas vezes, ruins e desestimulantes e, claro, o salário é baixo -um professor iniciante recebe R$ 1.988,83 em SP, valor semelhante à média que se paga, por exemplo, para um marceneiro (R$ 1.969) e para um serralheiro (R$ 1.927), segundo o Datafolha.
Mas será que simplesmente reduzir as exigências e contratar qualquer um, como faz o governo, é a melhor maneira de encarar a situação?
Alckmin costuma dizer que o Estado é o motor do país. Pois, em vez de desistir da qualidade e se conformar com a debilidade do ensino público oferecido aqui, deveria criar algum tipo de estímulo para tentar atrair os melhores formandos para a rede estadual. E utilizar a USP, a Unicamp e a Unesp para reciclar e recapacitar esses professores que há anos vão mal nos testes de seleção.
Xeque em quatro - ALEXANDRE SCHWARTSMAN
VALOR ECONÔMICO - 01/03/12
O crescimento industrial em 2011 foi fraco, marcado pela expansão pífia da indústria de transformação, apenas 0,2%. Mesmo este resultado, todavia, não revela a real extensão da questão: seguindo-se a um crescimento robusto no primeiro trimestre do ano passado, a produção manufatureira caiu nos três trimestres seguintes, apesar do desempenho mais favorável no fim de 2011.
Em que pese a ligação entre produção industrial e o Produto Interno Bruto (PIB) ter perdido força nos últimos anos, tal resultado parece ter reforçado a noção que o Banco Central (BC) teria "acertado o cenário" ao apostar suas fichas na crise internacional, que teria efeito de natureza semelhante, embora em escala menor, ao da crise de 2008-09. A redução da produção teria resultado da fraqueza da demanda externa, afetando mais a indústria, por ser este um setor mais exposto ao comércio internacional, em particular exportações.
No entanto, uma investigação mais detalhada revela que os dados não apoiam a conclusão acima. A começar porque, ao contrário do observado em 2008-09, a queda da produção não aparenta ter resultado primordialmente do desempenho das exportações industriais. Àquela época os segmentos industriais com maior exposição ao mercado externo lideraram a redução da produção, fenômeno que não encontra paralelo na situação atual, uma indicação que a natureza da estagnação é distinta da observada no passado.
Projeções do BC já indicam que queda da inflação pode acabar, provavelmente, no terceiro trimestre
Ainda que esta observação já indique uma diferença potencialmente relevante entre o desempenho industrial corrente e passado, com consequências que exploraremos à frente, é necessário dar um passo adiante na análise do problema, o que requer um pouco mais de estrutura, a saber, um modelo que permita decompor os impactos sobre a produção local advindos da demanda doméstica, aqui aproximada pelo comportamento das vendas varejistas, e da demanda externa, medida pelas quantidades exportadas de produtos industrializados.
O gráfico mostra os resultados de nossa estimação (omitindo, para fins de clareza de exposição, outras variáveis utilizadas no modelo) revelando que, em contraste com o que se observou durante a fase mais aguda da crise internacional, não foi a fraqueza das exportações de industrializados que trouxe o crescimento manufatureiro para baixo, mas sim, principalmente, a demanda interna (no caso, as vendas varejistas).
Isto dito, resta ainda saber o que restringiu o crescimento das vendas no varejo e, mais importante, suas implicações. A evidência disponível aponta para a elevação das taxas de juros em conjunto com as medidas de restrição ao crédito como os suspeitos mais prováveis. De fato, a desaceleração mais intensa ocorreu nos setores mais sensíveis à taxa de juros e às condições de crédito, em particular no segmento automotivo, uma indicação forte da característica do processo.
Todavia, se isto é verdade (e eu creio que é), quais seriam as decorrências de tal fato?
Considerando que os juros caíram para suas mínimas históricas e que as restrições ao crédito foram afrouxadas no fim de 2011, conclui-se que a demanda doméstica deverá, provavelmente já ao fim deste trimestre, começar a crescer de forma mais vigorosa, fenômeno que deve se fortalecer a partir do segundo trimestre deste ano, a valerem as defasagens habituais entre alterações da política monetária e a resposta da demanda (cerca de dois trimestres).
Como os efeitos contrários dos ventos internacionais são mais fracos do que presumido pelo BC, a aceleração da demanda doméstica deve se traduzir, a exemplo de 2009, em expansão mais vigorosa da indústria. Porém, em contraste com o ocorrido àquela época, a economia brasileira não dispõe da mesma folga de recursos para expandir a produção sem incorrer em pressões inflacionárias.
Não é demais lembrar que a indústria em 2009 partiu de uma situação em que o nível de utilização de capacidade instalada caíra abaixo de 79%, contra um pico de quase 84% no terceiro trimestre de 2008, correndo hoje pouco acima de 81%. Já o desemprego subira para algo mais de 8% em seguida à crise, uma elevação da ordem de 1 ponto percentual. Agora observamos o desemprego (na série livre de influências sazonais) na casa de 5,5%, o mais baixo desde que a série se iniciou em 2002.
Não por acaso, portanto, as próprias projeções do BC já indicam que a queda da inflação medida em 12 meses tem data marcada para acabar, provavelmente no terceiro trimestre de 2012. A partir daí a inflação deve retomar a trajetória ascendente, sem convergência à meta, colocando em xeque a estratégia atual de política monetária.
O crescimento industrial em 2011 foi fraco, marcado pela expansão pífia da indústria de transformação, apenas 0,2%. Mesmo este resultado, todavia, não revela a real extensão da questão: seguindo-se a um crescimento robusto no primeiro trimestre do ano passado, a produção manufatureira caiu nos três trimestres seguintes, apesar do desempenho mais favorável no fim de 2011.
Em que pese a ligação entre produção industrial e o Produto Interno Bruto (PIB) ter perdido força nos últimos anos, tal resultado parece ter reforçado a noção que o Banco Central (BC) teria "acertado o cenário" ao apostar suas fichas na crise internacional, que teria efeito de natureza semelhante, embora em escala menor, ao da crise de 2008-09. A redução da produção teria resultado da fraqueza da demanda externa, afetando mais a indústria, por ser este um setor mais exposto ao comércio internacional, em particular exportações.
No entanto, uma investigação mais detalhada revela que os dados não apoiam a conclusão acima. A começar porque, ao contrário do observado em 2008-09, a queda da produção não aparenta ter resultado primordialmente do desempenho das exportações industriais. Àquela época os segmentos industriais com maior exposição ao mercado externo lideraram a redução da produção, fenômeno que não encontra paralelo na situação atual, uma indicação que a natureza da estagnação é distinta da observada no passado.
Projeções do BC já indicam que queda da inflação pode acabar, provavelmente, no terceiro trimestre
Ainda que esta observação já indique uma diferença potencialmente relevante entre o desempenho industrial corrente e passado, com consequências que exploraremos à frente, é necessário dar um passo adiante na análise do problema, o que requer um pouco mais de estrutura, a saber, um modelo que permita decompor os impactos sobre a produção local advindos da demanda doméstica, aqui aproximada pelo comportamento das vendas varejistas, e da demanda externa, medida pelas quantidades exportadas de produtos industrializados.
O gráfico mostra os resultados de nossa estimação (omitindo, para fins de clareza de exposição, outras variáveis utilizadas no modelo) revelando que, em contraste com o que se observou durante a fase mais aguda da crise internacional, não foi a fraqueza das exportações de industrializados que trouxe o crescimento manufatureiro para baixo, mas sim, principalmente, a demanda interna (no caso, as vendas varejistas).
Isto dito, resta ainda saber o que restringiu o crescimento das vendas no varejo e, mais importante, suas implicações. A evidência disponível aponta para a elevação das taxas de juros em conjunto com as medidas de restrição ao crédito como os suspeitos mais prováveis. De fato, a desaceleração mais intensa ocorreu nos setores mais sensíveis à taxa de juros e às condições de crédito, em particular no segmento automotivo, uma indicação forte da característica do processo.
Todavia, se isto é verdade (e eu creio que é), quais seriam as decorrências de tal fato?
Considerando que os juros caíram para suas mínimas históricas e que as restrições ao crédito foram afrouxadas no fim de 2011, conclui-se que a demanda doméstica deverá, provavelmente já ao fim deste trimestre, começar a crescer de forma mais vigorosa, fenômeno que deve se fortalecer a partir do segundo trimestre deste ano, a valerem as defasagens habituais entre alterações da política monetária e a resposta da demanda (cerca de dois trimestres).
Como os efeitos contrários dos ventos internacionais são mais fracos do que presumido pelo BC, a aceleração da demanda doméstica deve se traduzir, a exemplo de 2009, em expansão mais vigorosa da indústria. Porém, em contraste com o ocorrido àquela época, a economia brasileira não dispõe da mesma folga de recursos para expandir a produção sem incorrer em pressões inflacionárias.
Não é demais lembrar que a indústria em 2009 partiu de uma situação em que o nível de utilização de capacidade instalada caíra abaixo de 79%, contra um pico de quase 84% no terceiro trimestre de 2008, correndo hoje pouco acima de 81%. Já o desemprego subira para algo mais de 8% em seguida à crise, uma elevação da ordem de 1 ponto percentual. Agora observamos o desemprego (na série livre de influências sazonais) na casa de 5,5%, o mais baixo desde que a série se iniciou em 2002.
Não por acaso, portanto, as próprias projeções do BC já indicam que a queda da inflação medida em 12 meses tem data marcada para acabar, provavelmente no terceiro trimestre de 2012. A partir daí a inflação deve retomar a trajetória ascendente, sem convergência à meta, colocando em xeque a estratégia atual de política monetária.
Adeus futebol-arte - WAGNER VILARON
O Estado de S.Paulo - 01/03/12
O futebol-arte brasileiro morreu. Morte morrida mesmo. Talvez esta conclusão até faça parte do inconsciente coletivo. Mesmo assim é difícil admiti-la, sobretudo para um povo que, durante anos, teve sua autoestima diante do mundo baseada exatamente na capacidade de transformar um tal jogo de 11 contra 11 em puro espetáculo, capaz de multiplicar admiradores e torná-lo conhecido em todo o planeta.
Mas, infelizmente, como diz o ditado, "contra fatos não há argumentos". E antes que alguém possa imaginar que esta coluna foi motivada pela - vamos abusar do eufemismo agora - "infeliz" atuação da seleção brasileira diante da Bósnia, esqueça. Trata-se de constatações feitas a longo tempo. Preparem suas cornetas e vamos a elas.
Há 30 anos utilizamos sempre o mesmo exemplo quando nos referimos à última seleção brasileira que apresentou o tal futebol-arte. Trata-se, claro, do time comandado por Telê Santana em 1982.
A Copa na Espanha foi a primeira que acompanhei de fato. E durante muito tempo achei que aquela derrota foi injusta simplesmente por ter causado a eliminação da melhor equipe. Hoje, porém, entendo que os efeitos daquela derrota por 3 a 2 para a, diga-se de passagem, boa seleção italiana, teve consequências muito maiores do que o corriqueiro adeus de um favorito.
Foi ali, em Barcelona, no estádio Sarriá, que não existe mais, que nosso futebol-arte começou a degringolar. Diante da pressão de 16 anos sem a conquista de um Mundial (período que se completaria em 1986 e que parecia uma eternidade para um País tricampeão do mundo), passou-se a questionar o custo-benefício de ter um time que joga bonito, mas não ganha. Conclusão, trocou-se o espetáculo pela eficiência. Afinal, ganhar também é bonito.
E o Brasil venceu em 1994 e 2002, além de ter chegado à final em 1998. Mesmo assim, o torcedor sente-se carente. Talvez seja difícil para qualquer outro povo entender tal sentimento, afinal, o que todos buscam é a vitória. Porém, aqui, o futebol não é uma simples questão de resultado, não é apenas um jogo. Aqui, este esporte ainda é uma forma de manifestação cultural que reflete o orgulho/pachequismo de muita gente. Por isso lembramos sempre de 1982.
Não sou daqueles românticos que acham isso lindo. Muito pelo contrário, meu ceticismo faz com que veja exageros em tais manifestações. Mas independentemente de concordamos ou não com elas, não podemos ignorar sua existência.
A esperança de que o futebol-arte brasileiro ainda poderia ressuscitar é sepultada de vez pelos clubes. Acometidos pela ameaça constante de demissão, os técnicos elaboram a mesma estratégia de jogo: marcação forte, retomada de bola e contra-ataques, com pequenas variações.
O primeiro objetivo, que era fazer gols, passou a ser não sofrê-los. Mas e o Santos de Neymar? É a exceção que justifica a regra. E qual é a regra? O Corinthians.
Uma vela para Deus, outra... - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 01/03/12
BRASÍLIA - Ao nomear Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca, a presidente Dilma Rousseff tenta matar dois coelhos com uma cajadada só, ou melhor, com uma canetada só. Quer satisfazer o PRB e, ao mesmo tempo, acalmar os evangélicos, de olho no Congresso e na eleição para a Prefeitura de São Paulo.
Crivella é senador do PRB, partido que não tinha nenhum ministério até agora, coitado, e tem um nome para a prefeitura, Celso Russomanno, que lidera as pesquisas e pode tirar votos do candidato do PT, Fernando Haddad. Uma coisa -o ministério- pode compensar a outra -o fim da candidatura de Russomanno.
Mais que isso, Crivella é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e influente integrante da chamada "bancada evangélica", que anda de mau humor com o Planalto e com Haddad por erros e por acertos do governo: a nomeação da ministra Eleonora Menicucci (Mulheres), defensora assumida do aborto; a convocação do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) para que as esquerdas travem uma "disputa ideológica" com as igrejas pela "nova classe média"; e o kit anti-homofobia do MEC à época de Haddad.
Colocados os dados políticos da escolha de Crivella, vem a pergunta que não quer calar: o que o senador evangélico entende de pesca?
Provavelmente, nada, o que não é nem mais nem menos do que seus antecessores no governo Dilma, os petistas Luiz Sérgio, que conseguiu a proeza de pescar duas demissões num único governo, e Ideli Salvatti, que virou ministra da articulação política e foi jogar o arrastão em águas mais profundas -no Congresso.
Essas escolhas apenas comprovam que o Ministério da Pesca é uma abstração e foi criado exatamente para isso: acomodar interesses e aliados políticos, além de justificar uma penca de emendas parlamentares. Poderia ser o ministério do frango, da soja, do gado de corte, do gado leiteiro, quem sabe das almas?
BRASÍLIA - Ao nomear Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca, a presidente Dilma Rousseff tenta matar dois coelhos com uma cajadada só, ou melhor, com uma canetada só. Quer satisfazer o PRB e, ao mesmo tempo, acalmar os evangélicos, de olho no Congresso e na eleição para a Prefeitura de São Paulo.
Crivella é senador do PRB, partido que não tinha nenhum ministério até agora, coitado, e tem um nome para a prefeitura, Celso Russomanno, que lidera as pesquisas e pode tirar votos do candidato do PT, Fernando Haddad. Uma coisa -o ministério- pode compensar a outra -o fim da candidatura de Russomanno.
Mais que isso, Crivella é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e influente integrante da chamada "bancada evangélica", que anda de mau humor com o Planalto e com Haddad por erros e por acertos do governo: a nomeação da ministra Eleonora Menicucci (Mulheres), defensora assumida do aborto; a convocação do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) para que as esquerdas travem uma "disputa ideológica" com as igrejas pela "nova classe média"; e o kit anti-homofobia do MEC à época de Haddad.
Colocados os dados políticos da escolha de Crivella, vem a pergunta que não quer calar: o que o senador evangélico entende de pesca?
Provavelmente, nada, o que não é nem mais nem menos do que seus antecessores no governo Dilma, os petistas Luiz Sérgio, que conseguiu a proeza de pescar duas demissões num único governo, e Ideli Salvatti, que virou ministra da articulação política e foi jogar o arrastão em águas mais profundas -no Congresso.
Essas escolhas apenas comprovam que o Ministério da Pesca é uma abstração e foi criado exatamente para isso: acomodar interesses e aliados políticos, além de justificar uma penca de emendas parlamentares. Poderia ser o ministério do frango, da soja, do gado de corte, do gado leiteiro, quem sabe das almas?
CLAUDIO HUMBERTO
“Cidadão paulistano quer candidato que cumpra o mandato”
Fernando Haddad (PT) alfinetando José Serra (PSDB), que nunca cumpriu mandatos
POLÊMICA COM CHEVRON VIRA ARMA CONTRA SERRA
Candidato a prefeito de São Paulo, o tucano José Serra pode enfrentar a polêmica sobre um telegrama, revelado pelo site Wikileaks, que relata conversa dele com Patrícia Pradal, diretora da petroleira americana Chevron, aquela do vazamento de óleo na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB) vai convocá-la à Comissão de Segurança Pública. É uma arma poderosa contra Serra.
LESA-PÁTRIA
Em telegrama do consulado dos EUA no Rio, Patrícia Pradal relata a promessa de Serra de mudar o marco de exploração do pré-sal.
TAMBÉM QUERO
As petroleiras americanas temem que a Petrobras se torne operadora exclusiva dos campos gigantes na camada do pré-sal.
RELAÇÃO ESTRANHA
Para Protógenes, a relação entre Patrícia e Serra “causa estranheza”. “Mesmo fora da estrutura, Serra mantém muitos poderes políticos”.
INVESTIGADA
A Chevron foi multada pela Agência Nacional do Petróleo e virou alvo de ação civil pública e inquérito da Polícia Federal pelo acidente no
Rio.
PROMOÇÃO DE HERÓI EXPÕE SOLDOS VERGONHOSOS
O governo anunciou a promoção póstuma a 2º tenente do suboficial de Marinha Carlos Aberto Vieira Figueiredo, que morreu tentando combater o incêndio da base brasileira na Antártida. Mas não revelou o valor, certamente por vergonha: a família do herói brasileiro receberá seus vencimentos integrais, que passam agora
de R$ 4.152,10 para R$ 5.012,47. Mais ou menos o que percebe um PM iniciante no DF.
AH, BOM
A Marinha nega os problemas na Base da Antártida, relatados desde 2006 pelo especialista Antonio Cesar Sepulveda, prevendo o desastre.
FOGO DE PALHA
O caldeirão de insatisfação entre os militares se alastra, na ativa e na reserva, pelo baixo salário dos militares, há muito sem reajuste.
JÁ VAI TARDE
Dilma finalmente conseguiu se livrar de Luiz Sérgio, demitindo-o da Secretaria de Aquicultura e Pesca por sua mais absoluta incapacidade.
CAIU NA REDE
A troca do mosca-morta Luiz Sérgio pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) no ministério da Pesca, chegou ao topo do Twitter ontem, com as inevitáveis gozações: “é para a multiplicação dos peixes”.
VOLTANDO AO NORMAL
Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) era interlocutor do governo junto aos evangélicos, mas foi destituído por sua incontinência verbal. Com Marcelo Crivella, Dilma restabelece a interlocução.
PLEITO DE GRATIDÃO
Dilma é grata a Marcelo Crivella. Na campanha, ele percorreu igrejas de todo o País desmentindo boatos – que já impactavam nas pesquisas – de que ela não acreditava em Deus e que defendia o aborto.
TAQUARA RACHADA
O ex-ministro da Saúde, Humberto Costa (PT-PR) registrou orgulhoso em seu blog o elogio de Dilma a seu desempenho na articulação da base aliada em Brasília. E com aquela vozinha de gralha desafinada...
PIADA DE BRASILEIRO
O Detran-RJ pediu tradução do passaporte do jornalista português Luiz Frederico Pinho para licenciar o carro. “É a mesma língua”, ele insistiu. Nada. Virou piada dos leitores no jornal lisboeta Correio da Manhã.
BEIJA-MÃO
Os procuradores devem estar contentes com o governo Dilma, ao contrário dos auditores, que ameaçam greve: entidades que os representam oferecem almoço, nesta quinta-feira, pelo aniversário de Luis Inácio Adams, ministro-chefe da Advocacia-Geral da União.
SONHO
O motorista do carro preto, placa nº 26, de subprocurador-geral da República, fez fezinha na lotérica da 404 norte, em Brasília, pelas 14h55m de ontem. O nome da loja é sugestivo: “Sonho dourado”.
VIAJANTES
É o ex-marido mala e abilolado Eduardo Suplicy (PT-SP), e não a senadora Marta, quem vai a Boston (EUA) passear às nossas custas, em março. E Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) informou que viajará à República Tcheca a convite e por conta do parlamento local.
PENSANDO BEM...
...O senador e ex-bispo da Igreja Universal Marcelo Crivela (PRB-RJ) passou de pescador de almas a pescador de peixes mesmo.
PODER SEM PUDOR
LULA QUASE MATOU FIDEL
No início dos anos 90, o presidente de Cuba, Fidel Castro, foi almoçar na casa de Lula, em São Bernardo do Campo (SP). D. Marisa teve de cozinhar sob a vigilância da segurança cubana. Ela compreendeu: afinal, a CIA tenta matar o homem há décadas. Mas Fidel meteu um bife rolê inteiro na boca e se engasgou com o palito. Ficou roxo, fez cara de pânico, todos ficaram apavorados, um inferno, até Lula aplicar um providencial tapa em suas costas. Um alívio. Após as despedidas, Lula comentou na porta de casa:
– Quase matei o Fidel, coisa que nem a CIA conseguiu...
Fernando Haddad (PT) alfinetando José Serra (PSDB), que nunca cumpriu mandatos
POLÊMICA COM CHEVRON VIRA ARMA CONTRA SERRA
Candidato a prefeito de São Paulo, o tucano José Serra pode enfrentar a polêmica sobre um telegrama, revelado pelo site Wikileaks, que relata conversa dele com Patrícia Pradal, diretora da petroleira americana Chevron, aquela do vazamento de óleo na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB) vai convocá-la à Comissão de Segurança Pública. É uma arma poderosa contra Serra.
LESA-PÁTRIA
Em telegrama do consulado dos EUA no Rio, Patrícia Pradal relata a promessa de Serra de mudar o marco de exploração do pré-sal.
TAMBÉM QUERO
As petroleiras americanas temem que a Petrobras se torne operadora exclusiva dos campos gigantes na camada do pré-sal.
RELAÇÃO ESTRANHA
Para Protógenes, a relação entre Patrícia e Serra “causa estranheza”. “Mesmo fora da estrutura, Serra mantém muitos poderes políticos”.
INVESTIGADA
A Chevron foi multada pela Agência Nacional do Petróleo e virou alvo de ação civil pública e inquérito da Polícia Federal pelo acidente no
Rio.
PROMOÇÃO DE HERÓI EXPÕE SOLDOS VERGONHOSOS
O governo anunciou a promoção póstuma a 2º tenente do suboficial de Marinha Carlos Aberto Vieira Figueiredo, que morreu tentando combater o incêndio da base brasileira na Antártida. Mas não revelou o valor, certamente por vergonha: a família do herói brasileiro receberá seus vencimentos integrais, que passam agora
de R$ 4.152,10 para R$ 5.012,47. Mais ou menos o que percebe um PM iniciante no DF.
AH, BOM
A Marinha nega os problemas na Base da Antártida, relatados desde 2006 pelo especialista Antonio Cesar Sepulveda, prevendo o desastre.
FOGO DE PALHA
O caldeirão de insatisfação entre os militares se alastra, na ativa e na reserva, pelo baixo salário dos militares, há muito sem reajuste.
JÁ VAI TARDE
Dilma finalmente conseguiu se livrar de Luiz Sérgio, demitindo-o da Secretaria de Aquicultura e Pesca por sua mais absoluta incapacidade.
CAIU NA REDE
A troca do mosca-morta Luiz Sérgio pelo senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) no ministério da Pesca, chegou ao topo do Twitter ontem, com as inevitáveis gozações: “é para a multiplicação dos peixes”.
VOLTANDO AO NORMAL
Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) era interlocutor do governo junto aos evangélicos, mas foi destituído por sua incontinência verbal. Com Marcelo Crivella, Dilma restabelece a interlocução.
PLEITO DE GRATIDÃO
Dilma é grata a Marcelo Crivella. Na campanha, ele percorreu igrejas de todo o País desmentindo boatos – que já impactavam nas pesquisas – de que ela não acreditava em Deus e que defendia o aborto.
TAQUARA RACHADA
O ex-ministro da Saúde, Humberto Costa (PT-PR) registrou orgulhoso em seu blog o elogio de Dilma a seu desempenho na articulação da base aliada em Brasília. E com aquela vozinha de gralha desafinada...
PIADA DE BRASILEIRO
O Detran-RJ pediu tradução do passaporte do jornalista português Luiz Frederico Pinho para licenciar o carro. “É a mesma língua”, ele insistiu. Nada. Virou piada dos leitores no jornal lisboeta Correio da Manhã.
BEIJA-MÃO
Os procuradores devem estar contentes com o governo Dilma, ao contrário dos auditores, que ameaçam greve: entidades que os representam oferecem almoço, nesta quinta-feira, pelo aniversário de Luis Inácio Adams, ministro-chefe da Advocacia-Geral da União.
SONHO
O motorista do carro preto, placa nº 26, de subprocurador-geral da República, fez fezinha na lotérica da 404 norte, em Brasília, pelas 14h55m de ontem. O nome da loja é sugestivo: “Sonho dourado”.
VIAJANTES
É o ex-marido mala e abilolado Eduardo Suplicy (PT-SP), e não a senadora Marta, quem vai a Boston (EUA) passear às nossas custas, em março. E Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) informou que viajará à República Tcheca a convite e por conta do parlamento local.
PENSANDO BEM...
...O senador e ex-bispo da Igreja Universal Marcelo Crivela (PRB-RJ) passou de pescador de almas a pescador de peixes mesmo.
PODER SEM PUDOR
LULA QUASE MATOU FIDEL
No início dos anos 90, o presidente de Cuba, Fidel Castro, foi almoçar na casa de Lula, em São Bernardo do Campo (SP). D. Marisa teve de cozinhar sob a vigilância da segurança cubana. Ela compreendeu: afinal, a CIA tenta matar o homem há décadas. Mas Fidel meteu um bife rolê inteiro na boca e se engasgou com o palito. Ficou roxo, fez cara de pânico, todos ficaram apavorados, um inferno, até Lula aplicar um providencial tapa em suas costas. Um alívio. Após as despedidas, Lula comentou na porta de casa:
– Quase matei o Fidel, coisa que nem a CIA conseguiu...
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Dilma faz Crivella ministro para enfrentar Serra em SP
- Folha: Dilma troca ministro para atrair evangélicos
- Estadão: Coreia do Norte para seu programa nuclear em troca de comida
- Correio: Bicheiro, delegados e policiais na cadeia
- Valor: Investimento direto pode ter ‘pedágio’
- Jornal do Commercio: Novo servidor deve ter limite na aposentadoria
- Zero Hora: Dilma pressiona construtora por obra no Beira-Rio
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