segunda-feira, dezembro 12, 2011

Turismo acidental - MARIA INÊS DOLCI


FOLHA DE SP - 12/12/12
Não devolver o dinheiro se a viagem foi cancelada, ou cancelá-la três dias antes da data, é um desrespeito
Cancelamento de viagem provocado pelas cinzas do vulcão chileno Puyehue já seria um episódio desagradável, mas nada podemos fazer com relação a fenômenos naturais, exceto lamentar e evitar riscos desnecessários. Não receber o estorno do pagamento da passagem após mais de quatro meses é um absurdo, um abuso e um desrespeito.
Foi o que aconteceu com Ricardo Caputo, que comprou sua passagem no site Decolar.com. Ele pagou com o cartão -logo, o reembolso deveria ocorrer até a próxima fatura. Passados mais de cem dias, ele ainda não havia recuperado o que pagou. Além disso, a empresa se negou a fornecer a gravação eletrônica, sob a alegação de que seria usada para avaliar o atendimento.
A regulamentação do Serviço de Atendimento ao Consumidor (parágrafo 3º do artigo 15 do decreto nº 6.523/2008) diz que "é obrigatória a manutenção da gravação das chamadas efetuadas para o SAC, pelo prazo mínimo de 90 dias, durante o qual o consumidor poderá requerer acesso ao seu conteúdo". O parágrafo 4º diz que "o registro eletrônico do atendimento será mantido à disposição do consumidor e do órgão ou entidade fiscalizadora por um período mínimo de dois anos após a solução da demanda".
Não foi um caso isolado, nem falha exclusiva daquele site.
A agência de viagens CVC, em suas condições gerais para aquisição de viagens, tem uma 'pérola' de desrespeito ao consumidor: "Quando a execução dos serviços adquiridos depender de um número mínimo de participantes e, não sendo esse número atingido, reserva-se a contratada o direito de cancelar a viagem, comunicando o contratante com a antecedência mínima de 72 horas".
Ou seja, três dias antes de viajar o consumidor poderá receber a informação de que a viagem foi cancelada. É uma cláusula nitidamente abusiva, em contraposição aos direitos do consumidor.
O direito de arrependimento
-uma semana nas compras on-line- é ignorado pelas agências e sites que vendem passagens aéreas. Às vezes, pela subtração de taxas e multas contratuais do valor do reembolso. Outras usam argumentos "criativos" para devolver menos do que foi desembolsado.
O artigo 49 da lei nº 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor) é cristalino: "O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de sete dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio".
O parágrafo único desse artigo diz que "se o consumidor exercitar o direito de arrependimento, os valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente atualizados".
E há artimanhas, por exemplo, que as companhias usam para incluir o seguro viagem no preço total da passagem, sem que as pessoas percebam (a compra já vem selecionada, tendo de ser desmarcada com um clique). Isso é venda "casada", proibida pelo CDC. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) vetou esse expediente, mas as reclamações continuam.
Citei somente alguns dos problemas que mais irritam os viajantes, mas há outros, como extravio de bagagens, longas filas, atrasos e cancelamento de voos.
A propósito, a Anac regulamentou a possibilidade de uso compartilhado das áreas de processamento de passageiros e de bagagens (check-in), sob a alegação de que isso ajudaria a reduzir filas. Acho que a agência deve, efetivamente, procurar soluções para o problema.
Não sei, contudo, se essa partilha não provocará confusões e desconforto para o consumidor, inclusive em relação ao despacho de malas e de outros pertences. Considero que faltam mais fiscalização e sanções às companhias aéreas, sempre que não atenderem adequadamente seus clientes.
Filas ocorrem por falta de espaço, de infraestrutura e de investimentos nos aeroportos. Então, mais do que criatividade, precisamos de melhores aeroportos e de que a Anac cobre das companhias aéreas que respeitem o CDC. Somente isso.

Acesso à informação, revolução cultural - JUDITH BRITO



FOLHA DE SP - 12/12/11

Para os cidadãos, a mudança radical será na compreensão de que podem solicitar dados quando lhes aprouver, e sem precisar explicar suas razões

No último dia 5 de dezembro, a ANJ (Associação Nacional de Jornais), o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, a Unesco e a CGU (Controladoria-Geral da União) realizaram no auditório da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), na cidade de São Paulo, o Seminário Internacional de Acesso à Informação Pública.

Especialistas brasileiros debateram a nova Lei de Acesso à Informação Pública, recém-sancionada pela presidente Dilma Rousseff, e convidados estrangeiros analisaram as experiências sobre o tema em diversos países. Assim como aconteceu lá fora, podemos antever no Brasil uma revolução com a implantação da nova legislação, que começa a vigorar em maio de 2012.

O Estado precisará ter grande transparência diante da sociedade que o custeia, colocando à disposição dos cidadãos todas as informações de interesse público.

Sabemos que não será um processo fácil, pois as mudanças se referem ao governo federal, aos Estados e aos municípios, bem como aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Como bem lembrou a diretora de prevenção da corrupção da Controladoria-Geral da União, Vânia Vieira, serão necessários investimentos e treinamento de pessoal.

E será fundamental, acima de tudo, uma profunda mudança de cultura dos agentes públicos, a serem conscientizados do dever que têm de informar os cidadãos.

Para eles, a mudança radical estará na compreensão plena de que as informações públicas não pertencem aos órgãos públicos.

Não estando taxativa e justificadamente classificadas como sigilosas, as informações não poderão ser negadas, e ao solicitante não será exigida a explicação sobre o uso de tais dados. Para os cidadãos, a mudança radical será na compreensão de que eles podem solicitar dados quando lhes aprouver, sem a necessidade de explicar a razão dessa solicitação. As informações pertencem aos cidadãos.

Para a imprensa, trata-se também de uma nova perspectiva. Esta Folha, por exemplo, já foi obrigada a entrar em juízo para obter informações públicas, de interesse dos cidadãos. Mas -é importante deixar claro- para a ANJ, muito mais do que a possibilidade de que jornais e jornalistas tenham maior acesso às informações de interesse público, a luta por essa legislação sempre esteve relacionada ao direito de todos os cidadãos.

Assim como a ANJ defende a plena liberdade de expressão como um direito da sociedade, e não apenas de jornais e jornalistas, lutamos pelo pleno acesso às informações públicas porque esse é um princípio básico da democracia.

Os especialistas estrangeiros presentes ao seminário, cada um falando sobre a experiência de implantação de legislações de acesso às informações públicas em seus países, deixaram claro que é um processo gradativo, com muitos obstáculos, mas que tudo depende da capacidade de mobilização da sociedade.

Na África do Sul, por exemplo, embora há mais de dez anos exista uma legislação específica para o acesso às informações públicas, cerca de 70% dos pedidos dos cidadãos são ignorados. Já o México criou órgão especializado em atender a esses pedidos, e tudo é feito com grande eficiência por meio da internet.

Cabe então agora a todos nós -imprensa, entidades representativas dos diversos setores da sociedade, academia etc.- cobrarmos a implantação efetiva da nossa legislação de acesso às informações públicas. Somos nós, cidadãos, os maiores interessados.

Somos nós que faremos acontecer essa verdadeira revolução cultural no Estado brasileiro.

JUDITH BRITO é presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e diretora-superintendente da Empresa Folha da Manhã S.A., que edita a Folha.

Iluminar a história - CARLOS ALBERTO DI FRANCO


O Estado de S.Paulo - 12/12/11



O jornalista Carl Bernstein - famoso no mundo inteiro depois da série de reportagens, escritas com Bob Woodward, que revelou o escândalo Watergate e derrubou o presidente Richard Nixon, em 1974 - não forma com o time dos corporativistas. Sua crítica, aberta e direta, aos eventuais desvios das reportagens representa excelente contribuição ao jornalismo de qualidade.

"O importante é saber escutar", observa Bernstein. "As respostas são sempre mais importantes que as perguntas que você faz. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos." O comentário é uma estocada nas atitudes de engajamento, arrogância e prejulgamento que corroem e desfiguram a reportagem. "Os jornalistas, hoje, trabalham com um monte de preconceitos", sublinha. "Fazem quatro ou cinco perguntas para provocar alguma polemicazinha de nada, mas evitam iluminar a cena, fazer compreender." Com a autoridade de quem sabe das coisas, Bernstein dá uma lição de maturidade profissional.

O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. A distorção, no entanto, escapa à perspicácia do leitor médio. Daí a gravidade do dolo.

Na verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns procedimentos, próprios de ranços ideológicos invencíveis, transformam um princípio irretocável num jogo de aparência.

A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à qualidade informativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O pluralismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declararem o que o repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.

Certos setores da imprensa, vez por outra, têm caído nessa tentação antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando a credibilidade. O leitor não é tonto. A verdade, cedo ou tarde, acaba se impondo. O brilho da pauta construída com os ingredientes da fraude é fogo de artifício. Não é ético e não vale a pena. Ainda não conseguimos, infelizmente, superar a síndrome dos rótulos. Alguns colegas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro clichês: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas.

Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias, algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das reações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro capital de um veículo jornalístico, esvai-se pelo ralo dos preconceitos.

A reportagem de qualidade é sempre substantiva. O adjetivo é o adorno da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta da apuração. É importante que os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade - que não é neutralidade - é o melhor investimento.

A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade. A incompetência foge dos bancos de dados. Na falta de pergunta inteligente, a ditadura das aspas ocupa o lugar da informação. O jornalismo de registro, burocrático e insosso, é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. Quando editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline, quando as pautas não nascem da vida real, mas de pauteiros anestesiados pelo clima rarefeito das redações, é preciso ter a coragem de repensar todos os processos.

Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal The New York Times, Gay Talese vê alguns problemas a partir da crise que atingiu um dos mais influentes diários do mundo. Embora faça uma vibrante defesa do Times, "uma instituição que está no negócio há mais de cem anos", Talese põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa. "Não fazemos matéria direito porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mails, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando", conclui Talese.

A autocrítica interna deve ser acompanhada por um firme propósito de transparência e de retificação. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legenda é fácil. Mas admitir a prática de prejulgamento, de engajamento ideológico ou de leviandade noticiosa exige pulso e coragem moral.

Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é condição da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade.

GOSTOSA


Dilma: bem na foto, mal na foto - MARCELO DE PAIVA ABREU


O Estado de S.Paulo - 12/12/11


A reprodução da foto inédita de novembro de 1970 de Dilma Rousseff, em audiência na Justiça Militar, reproduzida na mídia há poucos dias, é comovente. O contraste entre a prisioneira e oficiais escondendo o rosto retrata uma versão maligna da cegueira da justiça. Na representação clássica, a justiça é cega porque deve resistir a pressões que interfiram com seus veredictos. No Brasil de 1970, era cega porque refletia as deformações do regime ditatorial e a falta de independência dos tribunais. De qualquer modo, para os que viveram a ditadura a foto simboliza com eficácia a resistência aos desmandos do regime. Reconhecer esse fato não significa nem endosso da luta armada como forma de resistência à ditadura nem falta de reconhecimento das injustiças praticadas na esteira da violência recíproca.

Reavivar a memória é salutar, especialmente tendo em vista que, com a passagem do tempo, o entusiasmo democrático de muitos personagens cresceu dramaticamente. Coerência no longo prazo é assunto complicado.

Em contraste, o retrato metafórico de Dilma Rousseff ao fim de seu primeiro ano de governo é bem pior do que o da guerrilheira altiva de 1970. Tanto no plano político quanto no econômico.

No político, há claro hiato entre o que o Palácio do Planalto considera nível aceitável de fisiologia na condução da coisa pública e o modus operandi de políticos que pilotam o esquema do "presidencialismo de coalizão" consagrado por Lula. A combustão de um ministro a cada dois meses - mesmo que com farto uso de vista grossa - parece insustentável a prazo mais longo. O governo patina em meio à sucessão de escândalos. Na ausência de reforma política séria, o desmantelamento dos redutos fisiológicos poderia, via paralisia parlamentar, afetar as condições mínimas de governabilidade. Parece difícil acreditar que simples reforma ministerial possa constituir solução duradoura desse dilema.

No plano econômico, em nome da prioridade ao crescimento, o governo aumentou sua influência sobre a formulação da política monetária, reduzindo a margem de manobra do Banco Central. Embora tenha gasto muita conversa fiada com pretensa disciplina fiscal, tem dado continuidade à "estratégia" de aumentar a carga tributária para financiar gastos, frequentemente à margem da contabilidade pública convencional.

Quanto ao cerne das limitações ao crescimento - nível e qualidade do investimento -, o governo tem ido pouco além de incitações retóricas e de decisões discricionárias. Reiteração, mesmo que com ênfase crescente, de "compromisso com crescimento" não garante crescimento.

A manutenção do real apreciado tem dificultado a competição de manufaturados tanto no mercado doméstico quanto nos mercados de exportação. A estratégia do governo tem sido calcada na tentativa de incluir desalinhamentos cambiais na agenda da Organização Mundial do Comércio (OMC). A defesa de tal estratégia tem sido acompanhada por duvidosa aritmética que dificilmente será levada a sério em Genebra. O argumento não poderia ser mais fraco: o volume de importações depende da relação entre custo de importações e custo dos produtos competitivos produzidos no Brasil. Se o custo das importações cai, fica mais difícil para a indústria nacional concorrer com importados. O custo dos importados depende principalmente do câmbio e de tarifas de importação. Se o câmbio se aprecia, seria necessário, para manter a mesma competitividade da origem, elevar as tarifas.

Para escolher um exemplo extremo: se o objetivo fosse manter constante a razão entre custos de importação e preços domésticos do final de 2002, seria necessária uma tarifa de 220%... O problema é que a tarifa máxima brasileira consolidada na OMC é de 35%. Para resolvê-lo, o governo brasileiro pretenderia passar a condicionar compromissos tarifários na OMC a compromissos quanto a taxas cambiais.

É difícil acreditar que a mera troca de foros - do FMI para a OMC - possa contribuir para resolver o problema de desalinhamento entre custos de importação e custos de produtos substitutos. Ao FMI o que é do FMI: desajustes cambiais devem ser resolvidos via políticas cambiais, e não por tarifas flutuantes.

Em vez de se perder em filigranas retóricas, o governo brasileiro deveria voltar a concentrar a atenção na redução do "custo Brasil" e no estímulo à inovação como paliativos para a redução das desvantagens competitivas dos produtos brasileiros. E também na redução dos gastos públicos, que abriria espaço para queda da taxa de juros sem risco de recrudescimento inflacionário e depreciaria o câmbio real.

Mas o que se vê é uma árvore de Natal de medidas pontuais baseadas na suposição de que o governo tem boa mira para estimular os setores "vencedores": IPI sobre autos, metas delirantes de conteúdo nacional, "reintegro" fiscal que é primo do finado crédito prêmio do IPI descontinuado no início dos anos 80. Frenesi que lembra as "torneirinhas" de distribuição de benesses tão em voga no regime militar e cuja extirpação foi tão custosa nos anos 90. Os dedos, agora, estão cruzados na expectativa de que Brasília não repita nenhuma besteira do passado ou importada da Argentina.

Os ricos agora choram com os brasileiros - DANIELE CAMBA


Valor Econômico - 12/12/11


Como na novela exibida na década de 80, as bolsas dos países europeus parecem agora viver mais intensamente o drama mexicano "Os ricos também choram". Durante boa parte do ano, a Bovespa esteve praticamente sozinha na lanterninha entre as principais bolsas do mundo, com um desempenho bem ruim. No entanto, agora, o mercado brasileiro já não está mais sozinho. Existe um emaranhado de bolsas com quedas relevantes no ano, várias delas, inclusive, caem bem mais do que a brasileira.

Em dólar, para facilitar a comparação entre os países, o Índice Bovespa acumula uma queda no ano de 22,19%. Existem bolsas piores tanto em outros mercados emergentes quanto nos desenvolvidos. Entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o índice Shenzen, da bolsa da China, cai 22,45%, o indicador da Rússia tem queda de 20,44%, o da Índia, 31,87% e o da África do Sul outros 17,54%.

Os números dos mercados europeus são bastante ruins também, especialmente nos países que estão no epicentro desta crise. O índice da Bolsa de Milão, por exemplo, registra no ano, em dólar, uma queda de 22,63%. Já o da Bolsa de Atenas cai nada menos que 52,19% e o indicador da de Lisboa, 20,46%.

Nem mesmo os países considerados os alicerces da Europa passam ilesos pela piora dos mercados. Em dólar, o índice Dax, da Bolsa de Frankfurt, acumula uma queda anual de 12,72%, enquanto o Cac, da Bolsa de Paris, se desvaloriza 16,60%.

O tom negativo contagiou tanto o mundo que, dos 48 principais mercados, apenas três conseguem estar no azul - EUA, Venezuela e Filipinas, sendo que apenas o primeiro é relevante. Aliás, é surpreendente que o mercado americano ainda se segure no campo positivo, apesar de todas as mazelas na vizinha Europa e até na própria economia dos EUA.

"Muito mais do que uma melhora significativa do mercado brasileiro, as outras bolsas pioraram bastante nos últimos tempos, diminuindo a distância entre o número negativo da Bovespa e os dos demais mercados", explica o diretor de investimentos da Fundação Cesp, Jorge Simino.

Além da piora de outras bolsas, houve sim uma recente recuperação do Brasil, o que reduziu a distância entre os mercados. Na visão de Simino, essa valorização tem dois motivos. As ações ficaram baratas frente aos fundamentos da economia local. E, como os investidores estrangeiros estão com uma quantidade recorde de caixa, compraram ações ao menor sinal de recuperação da Bovespa, o que incentivou novas altas. Simino lembra também que as quedas de Petrobras, Vale e dos bancos, que juntos representam cerca de 40% do Ibovespa, perderam força, até porque já tinham caído muito.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

São Paulo precisa mudar - RENATO JANINE RIBEIRO


Valor Econômico - 12/12/11

A menos de um ano das eleições municipais, a situação em nossa maior cidade parece se definir. Ninguém mais pode mudar de partido para concorrer. O PT irá com Fernando Haddad, como um novo valor que se prepara para voos mais altos. O PMDB investe em Gabriel Chalita, uma das pessoas mais simpáticas que existem. Sei, por experiência, que é capaz de retribuir críticas com educação e cooperação - o que é um trunfo que, se aproveitado no tempo de televisão de seu partido, lhe renderá votos. Já o PSDB tem uma dura opção. Ou escolhe um nome novo, com pouca chance de recompor a aliança tucana que há tempos governa a cidade e o Estado, ou convence José Serra a desistir da Presidência da República, que provavelmente ele almeja em 2014, e a encerrar sua carreira como prefeito - o que certamente não almeja. Mas é a grande chance tucana.

Mas nada disso tem muita importância. Poderia continuar o artigo como o iniciei, mas quero inverter a argumentação: em vez de perguntar que candidatos têm chance, indagar do que a cidade precisa. É mais difícil. Se focarmos os nomes e os partidos, sabemos que algo sairá: alguém será eleito. Teremos prefeito... Porém, se perguntarmos do que São Paulo precisa, é possível que o futuro prefeito não esteja à altura. Só que, na democracia, devemos ir de baixo para cima: do povo, dos cidadãos, para os políticos. Estes podem mandar, decidir, fazer muita coisa errada e alguma boa, mas o metro para avaliá-los são os eleitores, os anônimos.

O custo São Paulo é o trânsito parar a cidade

Do que São Paulo precisa, então? Vou me concentrar em poucos pontos. O primeiro é o transporte. É uma cidade em colapso. Quando o rodízio municipal de veículos foi introduzido, há uma década e meia, gerou um trânsito bom. Mas em poucos anos o enorme crescimento vegetativo da frota eliminou esse ganho. Nenhuma iniciativa audaz corrigiu a gradual conversão dos automóveis em imóveis. Um amigo diz que os carros vão parar de pagar IPVA e começar a recolher IPTU. Estamos perto disso. Os pobres gastam duas ou três horas para ir ao trabalho. A classe média facilmente leva, de carro, uma hora nesse trajeto.

Isso tem dois custos. Um é econômico. Todo serviço que dependa de locomoção, inclusive a entrega de mercadorias, tornou-se muito caro. Dificilmente um técnico de televisão visitará mais que duas casas num período do dia. Com um trânsito melhor, faria o dobro. Daí vem um "custo São Paulo", que merece ser destacado em comparação com o tão citado "custo Brasil". Este último é o peso tributário e burocrático sobre os negócios, somado a uma malha de transportes insuficiente para escoar a produção, sobretudo, agrícola. O custo São Paulo é o tempo perdido. Um prefeito inteligente de uma cidade pequena pode competir com a capital paulista. Introduzirá wi-fi por toda a parte e combinará com o Senac e o Sesi a formação de mão de obra para serviços não presenciais. Algo parecido sucede na Índia, onde vivem muitos atendentes das linhas telefônicas de vendas que servem os Estados Unidos. Para comprar uma geladeira, você liga um 1-800 e fala com alguém em... Nova Delhi. Nem percebe, porque o indiano treinou o sotaque americano. E há trabalhos a distância melhores. Em suma, qualquer lugar periférico pode competir com metrópoles estressadas, em tudo o que exija mais raciocínio que presença.

Outro custo do nosso transporte público ruim e do trânsito caótico é humano. O desgaste das pessoas é espantoso. Quem pode aguentar horas, por dia, guiando um carro? Hoje há até uma rádio, da qual eu pessoalmente gosto, consagrada ao trânsito. Ela tem fãs que, quando falam na emissora, usam as expressões e termos dos repórteres: surgiu até um dialeto da rádio Trânsito, neste ponto a mais bem sucedida de nossas emissoras. E o sofrimento humano de que falei pode ser quantificado. Ele aumenta doenças, onera relacionamentos pessoais, amplia a violência. Mas basta dizer que é um custo humano alto. Gente submetida a um tal desgaste emocional sofre.

Falei do transporte. "Dá para resolver", como dizia a "Folha de S. Paulo" em boxes no interior de suas páginas, anos atrás; mas ela abandonou a expressão, não sei se porque terá perdido a esperança. Há um problema, porém, que pode vir justamente do êxito. São Paulo é a cidade mais rica do país e oferece oportunidades de trabalho e de renda boas. Isso faz dela um polo de atração para pessoas, de todas as qualificações, de outros lugares. Chegamos à dura situação de que, se a cidade resolver seus problemas, com isso criará novos, porque atrairá mais pessoas. A única saída para isso é surgirem outros polos de atração.

Na verdade, a única saída consistente para São Paulo é o restante do Brasil se desenvolver bastante. Muitas soluções paulistanas são, na verdade, brasileiras. Nossos destinos estão indissoluvelmente entrelaçados. Para o transporte funcionar, o Brasil tem de parar de investir tanto no carro. Um dos maiores erros de Lula foi em 2008, a fim de enfrentar a crise, incentivar a compra de automóveis. Já para São Paulo ter uma dimensão humana - o que, no limite, exigiria reverter a migração, reduzindo seu número de habitantes - o Brasil tem de ser mais igual. É bom o fato de estar avançando neste rumo.

Os candidatos estão à altura desses desafios? Não sei. Mas a cidade e o Brasil ganharão se nós, eleitores ou comentadores, pensarmos menos em quem vai ganhar - ou perder - o governo, e mais em quem ganhará - ou perderá - com o governo. Um começo seria uma campanha, pelas redes sociais, por uma consciência de que não adianta facilitar o uso do carro, porque ele cria adictos; o negócio é melhorar o transporte público.

FHC: "eu não" - RENATA LO PRETE

FOLHA DE SP - 12/12/11
Em resposta a Fernando Pimentel, segundo quem Fernando Henrique Cardoso teria recebido R$ 80 mil para "passar a manhã, conversar e tomar um café" na Federação das Indústrias de Minas Gerais, o ex-presidente da República diz: "Eu cobro por palestras. Não recebi da Fiemg o referido montante nem qualquer outra remuneração, pois não fiz palestras lá. Devem ter se enganado de pessoa". Em entrevista à Folha, o ministro atribuiu a informação sobre os alegados R$ 80 mil a Robson Andrade. Hoje presidente da CNI, ele comandava a Fiemg à época em que a entidade pagou R$ 1 milhão a Pimentel a título de consultoria.

Quem é vivo... O nome de Erenice Guerra, ex-braço-direito de Dilma, voltou a circular nos gabinetes de Brasília. E sempre relacionado ao mesmo tema: o consórcio que toca a usina de Jirau (RO).

Fervendo 1
 O litígio entre PT e PMDB na cúpula da Caixa Econômica Federal continua: peemedebistas agoram acusam o petista Jorge Hereda, presidente, de não ter agilizado a tempo a recondução do vice de Loterias, Fábio Cleto, ao conselho curador do Fundo de Investimento do FGTS. O mandato de Cleto expira no dia 17, segundo peemedebistas.

Fervendo 2
 Procurada, a Caixa afirmou, via assessoria, "estranhar que assuntos internos estejam sendo discutidos pela mídia". E acrescentou que o representante no conselho em questão é e será Fábio Cleto.

Colateral Por ter perdido a cadeira de ministro do Trabalho, o pedetista Carlos Lupi perderá também a vaga no conselho de administração do BNDES, que lhe rendia salário de R$ 5,5 mil.

Voluntário A pedido de Aloizio Mercadante, Ciro Gomes coordenará a elaboração de um projeto de ciência, tecnologia e inovação voltado para o Nordeste. Segundo o ministro, sem remuneração.

Funil Mesmo antes de o novo Datafolha mostrar Bruno Covas em situação um pouco melhor que a dos outros pré-candidatos tucanos à prefeitura paulistana, a disputa interna no PSDB, apesar dos quatro nomes colocados, vinha caminhando para uma polarização entre o próprio Bruno e Andrea Matarazzo.

Puro-sangue O desempenho algo diferenciado de Bruno não configura boa notícia para os "aliancistas": dos quatro pré-candidatos, ele é, de longe, o que tem feito o discurso mais refratário ao entendimento com o PSD de Gilberto Kassab.

Passe valorizado O QG de Fernando Haddad teme que a intenção de voto de Netinho de Paula, mesmo atribuída a "recall" de 2010, adie o acordo com o PC do B, vital para agregar tempo de TV ao petista, caso o PMDB de fato lance Gabriel Chalita.

Araponga 1 Depois do Senado, a Câmara também analisa a compra de um equipamento para identificar escutas nos gabinetes dos deputados e órgãos da Casa. Ao custo de R$ 160 mil, o aparelho, chamado de Oscor Green, já foi adquirido pelo Exército e é apontado como a última novidade em máquinas de contraespionagem.

Araponga 2 O Senado já desistiu do negócio, diante da má repercussão. Na Câmara, o primeiro-secretário, Eduardo Gomes (PSDB-TO), afirmou que vai pedir ao departamento jurídico um parecer que indique se a Casa tem a atribuição de fazer esse tipo de monitoramento- inicialmente de competência da Polícia Federal. Não há legislação sobre o assunto.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Fernando Henrique não precisava ter ido tão longe na tentativa de agradar o PT -que jamais teve ou terá qualquer consideração por ele."

DO PRESIDENTE DO PTB, ROBERTO JEFFERSON, sobre o tucano, que, em sabatina promovida pela Folha na sexta-feira passada, disse que o deputado cassado "teatralizou" a denúncia do mensalão.

contraponto

Bilhete azul


Em jantar realizado há uma semana para comemorar os 23 anos do PSDB, os quatro pré-candidatos tucanos à prefeitura paulistana subiram ao palco para discursar. Recém-incorporado à lista de postulantes, João Dória Jr. também foi convidado a falar. Quando o empresário se aproximou do quarteto, um assessor perguntou, numa referência ao programa de TV no qual Dória elimina participantes que não atingem suas metas:

-Será que você também vai demitir todo mundo aqui, como tem feito no "Aprendiz"?

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 12/12/11


Derivados de petróleo crescem o dobro do PIB neste ano, diz Petrobras

O mercado de derivados de petróleo (inclui diesel, gasolina, óleo combustível e querosene de aviação) cresceu neste ano, se considerado o PIB menor, de acordo com dados da Petrobras.

"Em 2010, o PIB foi de 7,6% e os derivados tiveram alta de 10%. Neste ano, com PIB em torno de 3,5%, a expansão foi de 7% até novembro. Ou seja, cresceu o dobro do PIB", diz Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento.

O consumo de gasolina, por sua vez, que havia crescido 19% em 2010 ante 2009, subiu 18% até novembro.

A gasolina de aviação (para pequenos aviões) exportada pela Petrobras até outubro deste ano teve alta de 88% em dólares e de 44,5% em volume ante 2010.

"A demanda é pequena por querosene de aviação. Só fazemos em Cubatão (SP)", diz Costa. "Há flutuação na produção. Depende do valor comercial do combustível. Uma vez por ano há uma parada na atividade da refinaria para manutenção. A exportação aumenta quando há estoque maior e demanda interna menor." Em 2010, a demanda foi 15% maior ante 2009. Neste ano, 12%, afirma o executivo.

A alta da receita de exportação deve-se em parte ao aumento do volume exportado, mas também à escalada de preços internacionais de petróleo e derivados, diz.

A média das cotações do Brent em 2011 está cerca de 40% acima da média de 2010.

ÓLEO, GÁS, IMÓVEIS E TERMINAL
A empresa fluminense Gaia, que inicialmente trabalhava apenas com importação e exportação de produtos para a cadeia de óleo e gás, investirá R$ 120 milhões em 2012 para desenvolver três projetos em áreas diferentes.

O braço imobiliário da companhia iniciará as obras de um centro de logística em Duque de Caxias, de um complexo hoteleiro e comercial em Macaé e de um prédio de escritórios na Barra da Tijuca.

"O diferencial do centro de logística é que terá terminal para receber cargas de trem e de caminhão", diz o presidente da empresa, Luiz Germano Bodanese.

O terreno onde será construído o centro fica em frente à Refinaria de Duque de Caxias e ao lado de uma linha de trem.

Motorista... A satisfação dos clientes da indústria automobilística foi a que registrou maior queda em novembro (quatro pontos percentuais), segundo levantamento realizado pela ESPM.

...descontente A insatisfação com comerciais de algumas marcas de carros e os recalls foram os responsáveis por esse recuo, de acordo com a instituição. O índice nacional, no entanto, registrou uma elevação de 1,4 ponto percentual e fechou a 62,8%.

Rota... BM&FBovespa e PwC discutem a Lei Fatca (Foreign Account Tax Compliance Act), quarta, em SP. A medida, prevista para 2014, obriga instituições financeiras a informarem quanto os americanos têm em investimentos.

...do investimento As que não cumprirem serão taxadas em 30% nas transações que fizerem nos EUA. Estima-se que 30% do dinheiro que circula no mundo passe por Nova York.

UNIÃO NOS NEGÓCIOS
As companhias europeias dos setores financeiro, industrial e de energia são as mais propensas do continente a fazer aquisições em 2012, de acordo com levantamento da consultoria BCG (The Boston Consulting Group).

Entre as empresas entrevistadas, 16% pretendem realizar negócios de fusão ou aquisição no próximo ano.

No início de 2009, no entanto, o número de companhias que tinha a intenção de fazer esse tipo de transação era de 29%.

A principal dificuldade para a realização de negócios atualmente é a ausência de empresas atraentes, de acordo com quase metade (45%) dos 701 entrevistados.

Os dois motivos que aparecem em seguida na pesquisa são o elevado preço em que as companhias estão avaliadas e as incertezas da crise mundial, com 39% e 24%, respectivamente.

O levantamento foi feito entre os meses de outubro e novembro de 2011.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

GOSTOSA


Um país resignado - MARCELO COUTINHO


O GLOBO - 12/12/11


As duas últimas grandes potências, Inglaterra e EUA, tornaram-se hegemônicas quando lideraram revoluções industriais. Os ingleses estiveram à frente nas duas primeiras, e os americanos, na terceira. É provável que para completar um novo deslocamento de poder no mundo seja preciso um conjunto de transformações tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo e relações sociais.

A pergunta óbvia a fazer hoje é se a China lidera uma revolução como esta, tendo em vista as perspectivas de superar a economia americana. Não há qualquer indício até agora de inovação chinesa que possa ser caracterizada como uma revolução industrial. Outros países como Japão, na nanotecnologia, ou os EUA, na informática e telecomunicações, ou ainda a Europa, na biotecnologia, destacam-se bem mais.

Em ranking sem Taiwan, a China ocupa um modesto 38º lugar em TI, atrás da Índia e apenas uma posição à frente do Brasil. Por outro lado, EUA, China, Alemanha, Japão e Inglaterra são os primeiros no ranking da produção científica. O Brasil vem em 13º lugar. Quando o enfoque é a produção tecnológica, mais importante para identificar os campeões, o país cai para a 29ª colocação. Em 1974, ocupávamos a 28ª. China e Coreia do Sul, que sequer apareciam no ranking, hoje estão em 10º e 4º, respectivamente. Mais uma vez, os EUA lideram, o que não refuta a troca de eixo econômico mundial em razão, sobretudo, do tamanho do mercado chinês.

O crescimento asiático, a desintegração europeia e os desentendimentos em Washington sem dúvida alimentam as chances de uma mudança decisiva ocorrer. Mas ninguém sabe ao certo onde será dada a partida para o novo salto tecnológico. Depois das energias a carvão (sec. XVIII), elétrica (sec. XIX) e nuclear (sec. XX), as apostas recaem sobre a energia Limpa como transição para a economia de baixo carbono.

A China tem investido em proporções cada vez maiores. No entanto, para ficar à frente dos EUA, detentores das melhores universidades, a China ainda precisa avançar muito. Infelizmente, o Brasil abdicou desta disputa. O corte de quase R$2 bilhões no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia em 2011 é prova disso. A política externa de relações desequilibradas com a China encontrou uma face comum de política interna que nos conduz à redução da capacidade industrial.

Temos apenas uma universidade entre as 200 melhores do mundo, e duas entre as trezentas. Os nossos cientistas até que têm feito o seu papel, aumentando a produção científica nacional numa velocidade acima da média. Mas falta combinar esse esforço com as indústrias do país de modo a nos colocar novamente na corrida tecnológica global. Do jeito que as coisas vão, o Brasil substitui setores industriais por primários, constituindo ainda uma sociedade pós-moderna baseada em serviços.

O Brasil busca uma inserção internacional pelas commodities agrícolas e metálicas. Como são setores tradicionais, é bem possível que a sociedade brasileira e a vida organizativa do país também sofram mudanças. A corrupção e a reoligarquização do poder são sintomas do fortalecimento de padrões clientelistas da Velha República. A alta instabilidade ministerial faz lembrar os piores momentos da nossa democracia de 1946, interrompida em 1964.

Ainda que a política tenha um grau razoável de autonomia e hoje assuma novas fórmulas, cedo ou tarde a desindustrialização impacta sobre ela de alguma maneira. A queda na qualidade política dos congressistas e ministros já não teria algo a ver com a perda de poder dos segmentos econômicos e sociais que modernizaram o país na segunda metade do século passado?

Crescemos em 2011 algo como 3%, média, aliás, dos últimos três anos. Antes considerado insuficiente, muitos já vêem virtudes nesse baixo desempenho, sem oferecer, todavia, qualquer explicação para o fato de o nosso crescimento no segundo semestre ser igual ou inferior ao da tumultuadíssima Europa. Resignado, o Brasil apresenta raras boas iniciativas como o Vale do Silício carioca, que vem sendo criado pela UFRJ no seu parque tecnológico.

No fundo, queremos simplesmente acreditar. Mas será preciso bem mais que isso: abandonar a política externa sinocentrista de 2008 para cá, voltar-se de novo para a América Latina, elaborar uma politica industrial moderna e investir no Brasil pesadamente em pesquisa e desenvolvimento.

MARCELO COUTINHO é professor de Relações Internacionais da UFRJ e do Iuperj.

CHEQUE EM BRANCO - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 12/12/11


O governo do Estado de SP não quer arcar com o ônus -financeiro e político- de bancar as arquibancadas provisórias que garantirão ao Itaquerão a capacidade de público para abrir a Copa do Mundo. Depois de ter assumido esse compromisso, que garantiu a confirmação da abertura no estádio, o comitê paulista trabalha em um projeto para convencer patrocinadores, principalmente os da Fifa, a pagarem essa estrutura.

QUER PAGAR QUANTO?
O primeiro passo é realizar um estudo para ver, exatamente, quanto custarão tais arquibancadas. Ainda não existe uma cifra oficial sobre o valor dessa conta.

FÉRIAS NO JAPÃO
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, tira férias de 30 dias a partir de hoje. O ex-governador José Maria Marin, um de seus vices, irá para o Japão, onde o Santos joga o Mundial de Clubes, como mandatário em exercício.

POR IMAGEM
Paulo Hoff, diretor do Instituto do Câncer de SP e um dos médicos de Lula, falará amanhã sobre prevenção e tratamento da doença em chat em vídeo no Twitter.

MENINA MALVADA
O ensaio da atriz Lindsay Lohan para a "Playboy" dos EUA será publicado em janeiro pela edição brasileira da revista. A publicação cogita, inclusive, lançar uma tiragem limitada com a americana na capa. Na maior parte dos exemplares, a estrela será Vanessa Zotth, a personagem Fifi de Assis da "Escolinha do Gugu".

NO PAREDÃO
E a "Playboy" pensa em diminuir o número de capas com mulheres do "Big Brother Brasil" em 2012. As participantes do reality show da Globo já não têm nas bancas o mesmo desempenho de anos anteriores.

NOME PRÓPRIO
Após dez anos brigando na Justiça, a banda de rock Autoramas conseguiu o direito de usar o seu nome. A disputa era travada com a Estrela, fabricante de um brinquedo homônimo.

"No nosso último show, nossa advogada subiu no palco para entregar à banda o diploma com a autorização. Foi um alívio", conta Gabriel Thomaz, vocalista do grupo.

DO SEU LADO
O ex-secretário Walter Feldman (PSDB-SP) está apoiando o deputado Ricardo Trípoli, um dos pré-candidatos do partido à Prefeitura de SP, na prévia tucana. "Ele pediu e eu o estou ajudando com alegria. Temos uma carreira de 30 anos juntos."

ENVIADO ESPECIAL
Feldman, que em abril anunciou sua saída do PSDB, mas não se desfiliou, conta que o presidente do partido, Sérgio Guerra, pediu que ele estude as prévias paulistanas e apresente relatórios para levar como modelo para o plano nacional. "Estou com muita vontade de desempenhar essa tarefa empolgante. Não falo mais nisso [saída do PSDB]."

ARTE DA DIPLOMACIA
Thereza Collor está preparando uma exposição com mais de 1.500 adornos de sua coleção particular. O tema da mostra, que acontecerá em março na Fiesp, deverá ser "Coexistência Árabe-Judaica no Médio Oriente", porque, diz ela, "está muito em voga". Há dois meses, Thereza cataloga suas peças, que vão de roupas a joias étnicas, muitas vindas de "povos que estão desaparecendo."

SE VOCÊ FOSSE SINCERA, ÔÔÔÔ
O jogador do Santos Neymar, 19, fez um ensaio sensual para a "TPM". À revista, ele diz que muitas mulheres se aproximam por interesse: "É difícil encontrar uma sincera. A maioria quer aparecer em cima do cara. É normal, né? O mundo da fama é assim". Sobre a paternidade, o craque afirma ter sido um "descuido". "Levamos bronca de todos os lados. Hoje, é uma bênção." E conta que se dá bem com a mãe de Davi Lucca: "Não ficamos juntos, mas temos uma relação de amizade muito boa".

OLHA O LANCE
Maricy e Romeu Trussardi comandaram leilão em prol do Conjunto Assistencial Nossa Senhora da Conceição Aparecida, fundado por eles. Adriana Trussardi e Camila Bourgerie foram ao Mynt Lounge, no Itaim Bibi.

DEUS E O DIABO NA TERRA DA GAROA
O escritor e crítico musical Nelson Motta lançou o livro "A Primavera do Dragão - A Juventude de Glauber Rocha", no MIS de SP. A empresária Cosette Alves, presidente do conselho do museu, e o diretor André Strum estiveram lá.

CURTO-CIRCUITO
A SP Escola de Teatro recebe hoje Simon Norrthon, reitor da Escola de Teatro e Cinema de Estocolmo.

O Instituto Tomie Ohtake faz aniversário e inaugura hoje, a partir das 20h, a mostra "Os Primeiros Dez Anos", com trabalhos de artistas que despontaram na última década.

O livro "O Artilheiro Indomável", sobre Serginho Chulapa, será lançado hoje, às 19h, no Artilheiros Bar, na Vila Madalena.

"Vaivem", livro com imagens e textos sobre ferrovias paulistas, será lançado hoje, às 18h30, na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Motivo de vergonha - PEDRO ANTONIO ALMEIDA E SILVA e YVES BESSE

O GLOBO - 12/12/12


A escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 vem suscitando um amplo debate sobre a capacidade do país para realizar as obras necessárias nos estados dentro do prazo, isto é, a tempo do início dos majestosos eventos. Dentro do debate, vem também a polêmica sobre a necessidade de realização de obras para melhoria da infraestrutura nas cidades-sede e arredores, a fim de proporcionar uma experiência proveitosa aos estrangeiros que aqui aportarão.

Quando se fala em infraestrutura, porém, a discussão tem ficado circunscrita às carências mais visíveis, sobretudo ao sistema de transporte, mobilidade urbana, hotelaria. É fato que há muito o que melhorar nesses setores, pois o Brasil hoje teria problemas sérios para receber bem os turistas. Se sobram cordialidade e simpatia, falta quase todo o resto: bons aeroportos, hotéis em quantidade suficiente em várias das cidades-sede, para não falar no transporte público de baixíssima qualidade presente nas grandes metrópoles brasileiras.

Não há nenhuma dúvida de que o Brasil precisa avançar muito para receber a Copa e as Olimpíadas como se deve. O debate em torno das obras, como está sendo conduzido, não contempla de maneira global o problema. A bem da verdade, o maior gargalo de infraestrutura do Brasil não está no transporte nem na falta de mão de obra qualificada para prestação de serviços. O segmento que realmente precisa de avanços substanciais é o do saneamento básico, sobre o qual pouco se fala.

Deveria ser motivo de vergonha para todos nós, brasileiros, o percentual de 55,1% de cobertura para coleta de esgoto, aferido pelo Atlas do Saneamento Básico do Brasil do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), a partir dos dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), realizada em 2008 e divulgada no ano passado. Comparativamente ao levantamento feito no ano 2000, houve um incremento de apenas 3% - 52,2% dos municípios contavam com coleta há 11 anos.

O cenário é ainda mais desolador quando se trata das realidades regionais: em 2008, a região Sudeste coletava esgoto em 95,1% dos seus municípios, ao passo que na região Norte a taxa era de apenas 13,3%, o menor índice do país. No Nordeste, este mesmo índice era de 43%, superior, para a surpresa de muita gente, ao verificado na região Sul, cuja taxa era de 40%. No Centro-Oeste, o índice era de 28%.

Desde 2007, quando o governo federal lançou o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), destinando R$40 bilhões apenas para projetos e obras de saneamento básico, recurso este a ser empregado nos 4 anos seguintes, foram verificados alguns avanços, mas a verdade é que este montante foi, é e será insuficiente se a meta fora a universalização do acesso a água e esgoto - e não há outra meta a ser perseguida que não a da universalização.

Estimativas de estudiosos do setor mostram que são necessários, no mínimo, R$270 bilhões para garantir o acesso a água e serviços de esgoto a todos os brasileiros. Um investimento com retorno garantido: uma vez que, para cada real investido em saneamento, o país economizaria R$4 em serviços de saúde, outro setor tão importante quanto carente de recursos.

Se os entes federativos - União, Estados e Municípios - não dispõem das condições materiais para investir e gerenciar o sistema de saneamento básico, existe uma opção viável, testada e aprovada, à mão: a da parceria com a iniciativa privada, por meio de diversos modelos, cada qual com suas regras e políticas de remuneração.

O regime de Parcerias Público-Privadas tem se mostrado especialmente adequado para o segmento de saneamento básico e mereceria ser mais incentivado para que os projetos caminhem em um ritmo compatível com o ritmo de um país com chance de mostrar que não apenas é capaz de sediar a Copa e as Olimpíadas, mas também de provar que possui uma estrutura adequada para receber turistas .

Se não é possível completar a universalização até 2014, é preciso desencadear o processo, com a massificação de parcerias e incentivos. Até porque não dá mais para empurrar com a barriga esta enorme dívida social.

PEDRO ANTONIO GOUVÊA VIEIRA DE ALMEIDA E SILVA é advogado.

YVES BESSE é presidente da CAB Ambiental e vice-presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto.

Eleição de síndico - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


 O Estado de S.Paulo - 12/12/11


O paulistano não percebeu, mas foi dada a largada para mais uma eleição de prefeito de São Paulo. É a oitava desde a redemocratização, e a primeira sem favoritos nem estrelas. Em quase três décadas, nunca houve uma eleição majoritária na cidade sem Suplicys, Malufes e Serras. E a renovação não fica por aí. É uma disputa sem outros caciques. Os candidatos são todos índios - uns menos anônimos do que outros, é fato, mas nenhum comanda uma tribo própria.

E os 20% de Celso Russomanno (PP), ou os 15% de Netinho de Paula (PC do B) na mais recente pesquisa Datafolha? Essas taxas entram mais na categoria recall do que na de intenção de voto. São um apelo desesperado do eleitor à própria memória diante de uma lista de ilustres desconhecidos. Dá até para imaginar o entrevistado pensando: "Ah, desse eu já ouvi falar".

Quando o pesquisador aparece com uma pergunta que o entrevistado não sabe responder, muitos respondem mesmo assim - seja para agradar o entrevistador, seja por vergonha de admitir ignorância. Cabe a quem analisa o resultado discernir o que é voto firme de simples efeito lembrança. O eleitor responde a pesquisas com a memória, mas vota com outras partes do cérebro.

O dado mais relevante da pesquisa Datafolha é que nenhum pré-candidato é citado espontaneamente por mais do que 1% ou 2% dos paulistanos. Os nomes mais ditos de pronto são os de Marta Suplicy (PT), com 8% de citações espontâneas, e o do prefeito Gilberto Kassab (PSD), com 3%. Graças à Lula e à legislação, ambos estão fora do páreo.

No cenário aplainado pelo anonimato coletivo dos prefeituráveis, outras forças, que não o carisma pessoal, comandarão a eleição. A atual geração de eleitores paulistanos verá a primeira campanha que não é uma disputa de personalidades. Sem intimidade com os candidatos, o voto não deverá ser apenas na pessoa física. Afinidades e antipatias pessoais serão secundárias no processo.

Quais vetores levarão o eleitor a confirmar este ou aquele nome na urna eletrônica, então?

Em regra, o prefeito de turno é um forte cabo eleitoral. Não é o caso de Kassab. Com apenas 20% de "ótimo" e "bom" contra 40% de "ruim" e "péssimo", o prefeito paulistano transfere mais ônus do que bônus para seu candidato. A curva de popularidade de Kassab é um espelho invertido do seu primeiro mandato. A recuperação de 2006 a 2008 virou franca decadência nos últimos três anos. Nada indica reversão dessa tendência. O trânsito está cada vez pior, não há melhorias sensíveis na saúde nem na educação.

Na eleição passada, o prefeito candidato à reeleição vinha em ascensão e usou a propaganda eleitoral para melhorar ainda mais a imagem de sua gestão. Desta vez, nem muito tempo de TV o candidato de Kassab terá. Se a Justiça não mudar as regras, o nome do PSD ficará no bloco dos nanicos. Só lhe sobra o dinheiro, que é suficiente para atrair políticos para uma nova sigla, mas não compra, nem metaforicamente, os votos necessários para eleger o prefeito num colégio eleitoral de mais de 7 milhões de almas.

Apesar do esforço comovente do governador Geraldo Alckmin (PSDB) no sentido oposto, a gestão de Kassab tem tudo para ser a Geni da campanha eleitoral de 2012. Essa é a primeira desvantagem dos pré-candidatos tucanos. Enquanto seus adversários estão livres para criticar um prefeito cada vez mais impopular, os quatro são pressionados pelo governador a pegar leve com o possível futuro aliado.

A segunda desvantagem é que enquanto outros partidos trabalham há meses para dar visibilidade aos seus respectivos candidatos quase anônimos, o PSDB patina para escolher o seu entre nomes que oscilam de 2% a 6% na pesquisa estimulada do Datafolha. Tempo é voto nesta eleição.

Antecipando que a sucessão paulistana seria a mais simbólica entre todos os 5.565 pleitos de 2012, e que a disputa se daria entre desconhecidos, Lula atropelou o PT e impingiu Fernando Haddad ao partido. O ministro da Educação não passa de 4% na estimulada, mas terá o ex-presidente e Dilma Rousseff como padrinhos. Mais importante, conta com o apoio da máquina eleitoral petista.

Desde 1988, o candidato a prefeito do PT sempre foi um dos dois primeiros colocados na eleição paulistana. Por esse retrospecto, Haddad só precisa se fazer conhecido entre militantes e simpatizantes do partido para chegar ao 2.º turno. A questão é: quem mobilizará o antipetismo e ocupará a outra vaga no turno final? Tucanos, egressos do malufismo ou surgirá uma quarta força política na cidade?

A resposta passa pelo clima geral da opinião pública no momento da eleição (e, portanto, pelo ritmo do consumo/economia), pelo bom aproveitamento do palanque digital (TV + internet), pela impopularidade de Kassab e por um fator ainda pouco lembrado, mas muito importante: o efeito abandono.

Cresce a percepção entre paulistanos de que Kassab largou a cidade para se dedicar à política comezinha. O trauma se soma à renúncia de José Serra para disputar o governo paulista em 2006, menos de dois anos após ter sido eleito prefeito. A Prefeitura de São Paulo virou escada eleitoral. O cargo de prefeito perdeu importância, e a gestão da cidade ficou em segundo plano.

Ganhará votos em 2012 o candidato que conseguir convencer o eleitor que administrar São Paulo é seu maior objetivo na vida, e que se dedicar à cidade lhe é mais importante do que disputar outras eleições. O paulistano é bem capaz de eleger um síndico.

Adeus à ilusão - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 12/12/11

A faxineira ética foi uma ilusão que durou pouco. Seu ex-companheiro de luta contra a ditadura de 64, único ministro que pode dizer "Dilma me ama", Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, meteu-se com consultorias nada ortodoxas. E como agiu Dilma? Mandou investigá-lo? Não. Mandou-o se explicar no Congresso? Também não. Ordenou: "Resista". Isso é lá comportamento de uma presidente que proclamou sua aversão a desvios de condutas antes mesmo de subir a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez? Está no seu discurso de posse: Não haverá compromisso com o malfeito, a corrupção será combatida permanentemente .

Diante de indícios de que um auxiliar seu prevaricara, Itamar Franco, ex-presidente da República, primeiro o afastava do cargo. Segundo, mandava investigar os indícios. Caso eles ruíssem, chamava o auxiliar de volta. Dilma? Ela bem que se esforçou por manter no governo os ministros que pediram para sair, abatidos por denúncias de corrupção.

Na última sexta-feira, ao desembarcar em Buenos Aires para a posse da presidente Cristina Kirchner, Pimentel limitou-se a declarar aos jornalistas: Já falei tudo o que tinha de falar. Todas as explicações foram dadas. Estou tranquilíssimo . Não. Não falou tudo o que tinha de falar. Nem deu todas as explicações devidas.

Gilberto Carvalho, secretário- geral da Presidência da República, socorreu Pimentel. O governo está satisfeito com as explicações oferecidas pelo ministro até agora , ditou. Esclarecer o Congresso? Não vejo razão porque as denúncias são relativas a Belo Horizonte. Como é que é? Tem nova jurisprudência na praça?

A intervenção de Gilberto soaria como piada se não tivesse sido feita a sério. Pimentel ganhou R$ 2 milhões em 2009 e 2010, dando consultorias em Minas Gerais e em Pernambuco. Quer dizer que os fóruns competentes para ouvi-lo seriam as Assembleias Legislativas dos dois estados? Por que não Câmaras Municipais? Menos, Gilbertinho!

Se convocado, irei ao Congresso , admitiu Pimentel. Que graça! Arrisca-se a ser preso quem ignora uma convocação do Congresso. Pimentel joga com as palavras para confundir o distinto e distraído público. O governo joga com a sua força para evitar que o Congresso convoque Pimentel. Receia que ele se enrasque mais um pouco.

São tantas as perguntas a exigirem de Pimentel respostas convincentes... Por que, de início, ele revelou que tivera apenas três clientes? Depois citou um quarto. Que disse não ganhar o bastante para pagar consultoria. Mas que em seguida recuou e deu razão a Pimentel. Por que com três dos quatro clientes ele não assinou contratos?

Foram contratos de boca. Sabe como é... Por escrito, só o contrato de R$ 1 milhão com a Federação das Indústrias de Minas. Pimentel esqueceu quantas vezes esteve com o cliente. Ganha um bolo de rolo quem tiver visto Pimentel dando consultoria em Pernambuco. As quatro consultorias não produziram sequer um esquálido documento.

Robson Andrade, ex-presidente da federação mineira, assim justifica a contratação de Pimentel: Quanto vale um dia de conversa com uma pessoa que tem conhecimento estratégico sobre como trabalhar com o governo, discutir questões tributárias, ações de crescimento nas indústrias? Convenhamos: faz sentido.

Na época, ex-prefeito de Belo Horizonte, Pimentel ambicionava o governo de Minas. O PT apoiou Hélio Costa, do PMDB. Pimentel foi então candidato ao Senado. Perdeu para Itamar. Estava destinado a ser ministro de Dilma. Foi um dos coordenadores de sua campanha. Quem não pagaria para têlo como conselheiro? Não pagaram a Palocci?

Lula foi tolerante com autores de malfeitos. Dilma também, mas fracassou até aqui. Nenhum dos ministros que abandonou o governo tinha com ela a íntima ligação que Pimentel tem. É razoável que Pimentel acabe ficando. Mas tudo na política cobra o seu preço. E algum será pago por ele, por Dilma ou pelos dois.

Planos de Ano-Novo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 12/12/11

Em vez de atuar apenas como gerente de crises, tomando providências pontuais, o governo deveria apresentar planejamento de longo prazo

Até o final do mandato da presidente Dilma Rousseff, o governo vai poupar por ano o equivalente a 3,1% do PIB, excluídas despesas com juros da dívida pública. No jargão, essa poupança é chamada de superavit primário.

A promessa foi reafirmada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista ao jornal "Valor Econômico", na semana que passou. Recorde-se que a meta inicial do governo era inferior. Foi na tentativa circunstancial de coordenar a ação da Fazenda com a do Banco Central no combate à alta de preços que se adotou um objetivo fiscal mais ambicioso.

Gastos adicionais do governo, em determinados contextos, pressionam a inflação ou dificultam seu controle. A contenção da despesa pública pode, portanto, permitir que o Banco Central atue com mão mais leve sobre a taxa de juros, optando por movimentos moderados. Foi o que ocorreu neste ano no Brasil.

O objetivo declarado pelo ministro é sem dúvida bem-vindo. Além de colaborar para a redução da dívida pública e dos juros, o anúncio de um planejamento fiscal de médio prazo dá mais credibilidade e eficiência à atuação do governo.

Ainda assim, cabe notar que se trata de um caso praticamente isolado, pois grande parte das decisões cruciais na área econômica tem sido tomada ao sabor de contingências adversas.

Num momento, providenciam-se medidas de última hora com o intuito de conter a inflação que supera o teto da meta oficial; em outro, adotam-se medidas setoriais e de efeito incerto com o fito de conter uma desaceleração excessiva da economia.

É óbvio que qualquer governo tem de estar pronto para mudar seus planos e adaptar suas políticas às alterações da conjuntura.

No entanto a escassez de planos de médio e de longo prazos e a frequência com que se anunciam mudanças de rumo pontuais vão conferindo ao governo certo ar de gerente de crise. Mais do que isso, denotam inapetência para enfrentar questões de fundo, como a esperar que a sorte -uma improvável estabilidade econômica mundial, por exemplo- desobrigue as autoridades de decisões difíceis e desagradáveis.

Estipular objetivos de médio e de longo prazos para cortar o deficit público (a zero, de preferência, no horizonte de um governo), diminuir o endividamento e reduzir a meta de inflação só melhoraria o ambiente do país. Ajudaria a ordenar as perspectivas de empresários e demais agentes da economia, demonstraria prudência e colaboraria para a redução de custos do financiamento público e do próprio índice de inflação.

O nome desse conjunto de metas é plano de governo -o que até aqui não se conhece. Bem que poderia ser a promessa de Ano-Novo da presidente Dilma e de seus assessores econômicos.

CLAUDIO HUMBERTO

"Definitivamente, Passos não representa o PR"
 Senador Blairo Maggi (PR-MT), sobre o ministro Paulo Sergio Passos (Transportes)


Crises fazem dilma reavaliar reforma ministerial

Duas encrencas que explodiram dias atrás complicaram o desenho da reforma ministerial pretendida pela presidenta Dilma. Primeiro, as acusações ao ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento). Depois, o vazamento da informação de que a gerência do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) sairia do Ministério do Planejamento para a Casa Civil. Com as confusões, o projeto voltou à gaveta.

GLEISI NO PAC

O plano de Dilma era entregar à ministra Gleisi Hoffmann o comando das ações do PAC, com sua conhecida mão de ferro.

IDELI VENDIDA

Outra mudança seria Fernando Pimentel substituir Ideli Salvatti (Relações Institucionais) na articulação política do governo.

QUEM? COMO?

Ideli Salvatti anda tão perdida na articulação política que só apareceu no Senado quando a prorrogação da DRU já tinha sido aprovada.

SARNEY FEZ O TRABALHO

Ideli virou piada no Planalto: após a votação da DRU, ela entrou no plenário e deu continência a Sarney, o articulador da vitória governista.

LEWANDOWSKY DEVE ANTECIPAR SUA SAÍDA DO TSE

No meio jurídico é dado como certo que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Ricardo Lewandoswski, sairá do cargo logo após inaugurar o luxuoso e espaçoso prédio do tribunal. A saída de Lewandoswski ocorreria somente em abril. Com isso, assumirá imediatamente o cargo a ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, a quem caberá o comando das próximas eleições municipais, em 2012.

PIONEIRA

Cármen Lúcia, que é ministra do Supremo Tribunal Federal, será a primeira mulher a assumir a presidência da Justiça Eleitoral.

PAÍS RICO

O novo prédio do TSE custou meio bilhão de reais e vai abrigar apenas sete ministros (que têm outras atribuições), às terças e quintas à noite.

OUSADIA

Bolivianos acham inúteis os 40mw que o Brasil ofereceu contra seus apagões. Para Evo Morales, o Dilma teria que gastar mais... na Bolívia.

DOIDO POR JATINHO

O ministro Celso Amorim (Defesa) não perdeu tiques de ex-chanceler: só voa no jato Legacy, da presidência da República, desbancando, sem constrangimento, a prioridade de outros ministros. Ele decide e ponto.

PRATO QUENTE

A presidenta aguarda uma chance para dizer ao governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), com o jeito Dilma de manifestar desagrado, que não esquecerá o ataque de seu irmão, Ciro, ao ministro Fernando Pimentel.

ELA DECIDIRÁ

Bem que o PMDB de José Sarney se assanhou, mas foi avisado de que a presidenta Dilma não abre mão de indicar o substituto de Haroldo Lima na presidência da Agencia Nacional de Petróleo (ANP).

INCAPACIDADE

Clamor do senador Delcídio Amaral (PT-MS) na audiência pública com a ministra Miriam Belchior (Planejamento): "A Infraero é incapaz de preparar os aeroportos para a Copa!" Só o governo não sabia disso.

GRITO NO DESERTO

O ministro Fernando Haddad (Educação) faz de tudo para não ter de sair junto com os demais, na reforma de janeiro. Amigos afirmam que, desse modo, ele poderia ser confundido com ladrões, coisa que não é.

FALA, TORCEDOR

Votos para 2012 do presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, vascaíno doente: democracia e apuração das denúncias na CBF, árbitros que não prejudiquem equipes e campeonatos disputados com lisura.

'EU EXISTO'

Eduardo Braga (PMDB-AM/foto) parece haver concluído que o Senado não é sua praia, e cansou de se oferecer para ocupar um ministério importante. Agora admite disputar a prefeitura de Manaus, em 2012.

PREVENÇÃO

O gibi "Turma Legal", destinado a prevenir acidentes domésticos com armas de fogo, será lançado na Câmara dos Deputados, nesta terça, pela Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições (Aniam).

PENSANDO BEM...

...Pimentel nos olhos de Dilma até agora é refresco.

PODER SEM PUDOR

PASSANDO A SACOLINHA

Jânio Quadros reuniu empresários para pedir dinheiro para sua campanha. Advertiu para o "perigo comunista" ( Eduardo Suplicy, do PT, e Fernando Henrique Cardoso, PMDB, eram os adversários na disputa para prefeito de São Paulo) e pediu apoio "para salvar os próprios pescoços" dos empresários, que, no entanto, permaneciam relutantes. Jânio radicalizou:

- Os senhores são tão usurários, tão miseráveis, que quando veem um pobre lhe pedem as horas!

Eles deram muitas risadas. E muito dinheiro.

SEGUNDA NOS JORNAIS


- Globo: Eleitores do Pará dizem 'não' à divisão do estado

- Folha: Acordo do clima obrigará países a cortar emissões

- Estadão: Conferência do clima faz acordo com apoio inédito de EUA e China

- Correio: Mais chance para você comprar a casa em 2012

- Valor: Escassez de leilões reduz a exploração de petróleo

- Estado de Minas: Manobra muda a cara de área protegida em BH

- Jornal do Commercio: Pedestre sem vez no Grande Recife

- Zero Hora: Governo faz mudanças no Imposto de Renda