sábado, novembro 26, 2011

O que vale mais: um preso ou um estudante? - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Há carência de recursos em escolas e prisões. O absurdo é a negligência do Brasil com o conhecimento


RUTH DE AQUINO  é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
Alguns números falam mais do que mil palavras. No Brasil, um preso federal custa o triplo de um aluno do ensino superior. E um preso estadual demanda quase nove vezes o custo de um estudante do ensino médio. A princípio, o que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. Há carência de recursos tanto em escolas quanto em prisões. Mas o absurdo maior é a negligência do Brasil com o saber, com o conhecimento.
Quando essa equação vai fechar? Vamos gastar muito mais com os presidiários se quisermos tornar as cadeias brasileiras menos degradantes. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, prometeu que “agora vai”. Não sei se você, assim como eu, sente vergonha ao ver as cenas de mãos saindo pelas grades. São seres humanos empilhados, espremidos e seminus. É um circo dos horrores. E piora nos rincões remotos do Norte e Nordeste, longe das câmeras. Mesmo assim, o Estado gasta mais de R$ 40 mil por ano com cada preso em presídio federal. E R$ 21 mil com cada preso em presídio estadual.
Esses valores, absolutos, não significam nada para nós. Mas, se dermos uma olhada no nível de instrução dos 417.112 presos, ficará claro como os dois mundos, o das escolas e o das prisões, estão intimamente ligados. Dos nossos detentos, mais da metade (254.177) é analfabeta ou não completou o ensino fundamental. O menor grupo é o que concluiu a faculdade: 1.715 presos. Esses números estão no relatório do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) do ano passado. Os presídios são um retrato de nossa sociedade. Do lado de fora, poucos têm acesso a universidades. E criminosos ricos e influentes podem pagar bons advogados.
Poderíamos ficar resignados a nosso destino de país pobre em desenvolvimento humano. Poderíamos também construir macropresídios seguros para prender cada vez mais gente em cômodos amplos, com direito a boa alimentação, pátios, esportes e reeducação. Poderíamos melhorar a gestão penitenciária e reduzir a roubalheira. Em algumas cidades, os presos começam a ser soltos por falta de espaço.
O mais complicado de tudo, mesmo, é prevenir a criminalidade. Porque seria preciso investir forte na educação universal e de qualidade. Os últimos números do IBGE, do Censo 2010, deixam clara uma urgência: entre nossas crianças com 10 anos de idade, 6,52% são analfabetas. Você, que lê este artigo, quando se alfabetizou? Provavelmente entre os 5 e 7 anos de idade, como acontece nas maiores economias do mundo – aquele grupo privilegiado em que o Brasil se insere com orgulho.
Essa criançada brasileira que não sabe escrever nem seu nome não faz ideia de que está trancada na prisão da ignorância. Sem cometer crime algum, as crianças foram condenadas à marginalidade perpétua. Isso não significa que serão desonestas ou hóspedes dos presídios-modelos que o ministro da Justiça promete construir. Mas que chance o Estado dá a elas? Esse porcentual de 6,52% nada tem a ver com heranças malditas. São crianças que nasceram na década de Lula.
Por mais que se comemorem avanços na Educação, em uma década o total de analfabetos no Brasil caiu menos de 1 milhão. Eram quase 15 milhões e hoje são 14 milhões que não sabem ler ou escrever – esse total equivale a duas vezes a população inteira do Paraguai. Em dez anos de investimento e dois mandatos de governo do “tudo pelo social”? Não dá para festejar. Entre os brasileiros com mais de 15 anos, continuamos mais analfabetos que Zimbábue, Panamá e Guiné Equatorial.
As disparidades regionais são outra preocupação. Em analfabetismo, segundo o Censo 2010, o Maranhão do clã Sarney está em 24º lugar e só perde para Paraíba, Piauí e Alagoas. Há 19,31% de analfabetos no Maranhão, porcentual maior que na República do Congo, na África. No programa do PMDB em rede nacional de televisão, na quinta-feira passada, o presidente “vitalício” do Senado, José Sarney, afirmou: “O bom homem público olha e vive para seu país”. Eu já ficaria satisfeita se o homem incomum, blindado por Lula e aliado de Dilma, olhasse para o Estado onde nasceu.
Em mortalidade infantil, o Maranhão da governadora Roseana Sarney só perde para Alagoas. De cada 1.000 maranhenses que nascem, 36 bebês morrem antes de completar o primeiro ano de vida. Não sei como a dinastia que controla esse Estado há 45 anos consegue dormir em paz. No programa do PMDB, Roseana disse que uma mulher no poder “significa uma visão mais humana de governar”.
A esperança é que o Brasil amadureça e passe a investir logo em suas crianças e seus estudantes para um dia, talvez, reduzir a superlotação dos presídios. Não é uma fórmula infalível, mas parece ser uma aposta sensata.

UM PAÍS DE BANDIDOS


Um olhar sobre as raízes da narrativa Latino-Americana - LÚCIA GUIMARÃES


O Estado de S.Paulo - 26/11/11


Livros e fotos emolduradas com escritores como Julio Cortázar (1914- 1984) disputam cada metro quadrado da parede do escritório no Departamento de Literatura, habitado pelo "segundo melhor crítico" da Universidade de Yale. O epíteto foi conferido pelo amigo e colega Harold Bloom. Será necessário dizer que Bloom, jamais acusado pelo crime de modéstia, reservou para si a vaga do primeiro lugar? Roberto González Echevarría sorri curioso com a presença da repórter, como se o reconhecimento de um livro de crítica literária com cinco edições em inglês, em 20 anos, ainda provocasse surpresa. Mesmo depois de ter recebido, em março, do presidente Barack Obama, a Medalha Nacional de Artes e Humanidades, em companhia de Philip Roth e Joyce Carol Oates. Ele se confessa feliz com a longevidade de Mito y Archivo - Una Teoría de la Narrativa Latinoamericana. Acaba de escrever Modern Latin American Literature: A Very Short Introduction (Literatura Latino-Americana Moderna: Uma Introdução Muito Curta), que será lançado em 2012. Echevarría começa o novo livro afirmando que se guiou pela "avaliação severa" de qualidade. "Avaliação é a menos admitida e uma das mais predominantes práticas em critica literária", escreve. Para ele, o colombiano Fernando Vallejo e o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) são dois romancistas que aproximaram a literatura latino-americana recente do lugar de proeminência que ocupou durante o boom dos anos 60. E aposta: "Sempre teremos a linguagem e as histórias, não importa o estilo da narrativa".


O senhor ainda sustenta a tese de que o arquivo é uma fonte mais importante para a ficção latino-americana do que a origem tradicional do romance em outros continentes?

Sim. Comecei realmente a pensar na relação entre a lei e a origem da ficção ao escrever sobre o picaresco na Espanha no século 16. Ao mesmo tempo, estava refletindo sobre as crônicas da descoberta do Novo Mundo, porque eu ensinava e ainda dou cursos, tanto sobre a Idade de Ouro da literatura espanhola como sobre a literatura latino-americana colonial e moderna. Foi essa confluência fortuita que me levou a escrever o livro. E me ocorreu que La Vida de Lazarillo de Tormes y de Sus Fortunas y Adversidades, o romance anônimo de 1554, é um depoimento que um criminoso faz diante do juiz. Aquela primeira pessoa é muito parecida com a primeira pessoa em Hernán Cortés, quando ele escreve as suas Cartas de Relación. Foi quando me veio a ideia. Depois, comecei a estudar as origens de nova legislação na Espanha no século 16. Era difícil, especialmente para nós, latino-americanos, pensar na Espanha como um país moderno. Mas a Espanha teve a primeira monarquia moderna com os reis católicos, foi o primeiro Estado moderno e os monarcas reformaram a lei espanhola. A lei se tornou presente na Espanha do século 16. E os herdeiros reais criaram o primeiro grande arquivo do Estado em Simancas, perto Salamanca, num belíssimo castelo que havia se tornado uma prisão - e acabou como arquivo. Para mim, não há símbolo melhor da origem da ficção: castelo-prisão-arquivo. Daquela antiga prisão saiu Pícaro, o criminoso. Assim, os testemunhos de criminosos e dos conquistadores são as primeiras narrativas da América Latina. Elas foras escritas para o Arquivo. Claro que fui influenciado por teóricos como Michel Foucault, havia lido Vigiar e Punir. O fato é que não sou simplesmente um seguidor de teorias literárias, tento formular a minha própria. Reconheço que aprendi muito com Foucault, Derrida e outros, mas espero que esta seja minha contribuição para a teoria quando se trata de América Latina. E aprendi muito também com Jorge Luis Borges e Alejo Carpentier.

O senhor não prefere se ver como um fruto da influência da narrativa da ficção mais do que da teoria literária?

Sim, acho que quaisquer ideias que formulo vêm da leitura de ficção - Alejo Carpentier, por exemplo, que foi um dos meus professores, e acabei por escrever um livro sobre ele, The Pilgrim at Home: Alejo Carpentier. Lendo Los Pasos Perdidos, de Carpentier, tive ideias que se tornaram relevantes para escrever Mito y Archivo. Quando eu fazia pós-graduação em Yale, li O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Ali estava: a forma de um arquivo, capítulos que podiam ser rearranjados, textos que usam recortes de jornal como fonte. E, é claro, em Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, o arquivo é uma fundação do romance. O impacto de Cem Anos foi o mais importante para a elaboração de Mito y Archivo.

Pouco antes de Mito y Archivo ser concluído, O General em Seu Labirinto, de Márquez, foi lançado. Qual a importância disso?

Muito importante. Representou para mim mais um sinal de que estava no caminho certo. Porque ali está a figura do General Bolívar e a narrativa permitida por um arquivo de milhares de cartas.

O senhor se lembra quando primeiro usou a palavra arquivo como síntese da ideia do livro?

Não tenho certeza, mas gostaria de acreditar que fui inspirado pela etimologia da palavra - arch-ivo - mistério, origem. Architectura, construção que contém coisas. Desconfio que minha mente seja mais poética do que teórica.

Fale um pouco sobre a cumplicidade entre literatura e reportagem científica na América Latina, no século 19.

É o segundo momento, que veio depois do período da Lei, que estabeleceu mecanismos de narrativa. No século 19, tivemos a escrita produzida pelos exploradores científicos. Ela usava métodos que refletiam a emergência das ciências sociais, em conexão com as ciências naturais que deram origem à antropologia. Os Sertões, de Euclides da Cunha, é um livro que representa a quintessência desse fenômeno. Euclides viaja e descreve a paisagem; que livro fenomenal! E fiquei tão contente quando vi que Os Sertões inspirou Mario Vargas Llosa a escrever a Guerra do Fim do Mundo, que considero seu melhor romance.

O senhor afirma que, apesar de Euclides ter a intenção de se apoiar na tradição científica que se formava na época, ele perde o controle da própria perspectiva em Os Sertões.

Sim e acho que isso confere ao livro um molde profundamente literário. É um livro que dramatiza seu próprio fracasso ao tentar explicar Canudos. Isso, para mim, é a mais importante revelação e torna Os Sertões uma grande obra literária, além do que, suponho, o próprio Euclides imaginava. Só Guimarães Rosa descobriu a poética do sertão nesse nível. Mas Os Sertões é insuperável, umas das obras-primas da literatura.

E como o senhor vê Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, no contexto que chama de literatura da tradição antropológica?

É antropologia na medida em que mergulha na linguagem e nos mitos do sertão. Sempre me emociono com o fato de que Guimarães Rosa era um médico e aceitava que os pacientes pobres lhes contassem histórias como pagamento. Pode haver história mais bonita? Ele estava reunindo toda essa narrativa que forma Grande Sertão como um antropólogo. E a antropologia é o terceiro momento, depois da Lei e da exploração científica. O romance latino-americano moderno é essencialmente um projeto antropológico, com toda a poesia que existe na antropologia, como agora descobrimos com a antropologia pós-moderna.

Muitos consideram a prosa de Rosa, em sua invenção regionalista, à altura de Joyce.

Eu concordo plenamente com o argumento. O regionalismo, é claro, pode se tornar universal. Como dizia Miguel Unamuno, "lo universal en lo local". O regionalismo de García Márquez não está preso a uma região específica, abraça toda a América Latina. E a comparação é justa: Rosa é um romancista tão bom quanto James Joyce, mas o português não tem a difusão literária do inglês. Ulisses é um romance regionalista e universal.

O senhor acha que sempre vamos ter a separação entre a literatura brasileira e a de língua espanhola?

A literatura brasileira é a mais rica do continente, depois da norte-americana, que é tremenda. Machado de Assis é o melhor escritor da América Latina no século 19. Mas, apesar da diferença de língua que nos separa, houve a fecundação cruzada. Nós somos quase os mesmos. Eu era muito amigo do Haroldo de Campos, que ensinava aqui, em Yale, quando eu fazia pós-graduação. Ele usou em um de seus poemas uma frase que eu tinha dito para o Severo Sarduy, também meu grande amigo. Estava na Flórida, uma vez, conversando com uma cubana exilada que havia pertencido à alta burguesia e agora tinha de trabalhar. Perguntei: "Senhora, é duro trabalhar?" Ela respondeu, "Ai, meu filho, trabalhar é a morte vestida de verde-jade". Ela parecia ter escapado de um romance do Severo Sarduy! Mandei para o Severo, que usou como título de um capítulo de Colibri. Quando o Haroldo leu, adorou e escreveu o poema A Morte Vestida de Verde-Jade.

O que o senhor acha do argumento de que realismo mágico é uma vertente esgotada?

É o que grupos como McCondo e La Nueva Onda acreditam. E compreendo que a literatura precisa se renovar, o jovem deve matar o velho e tudo isso. Mas quando se fazem esses pronunciamentos esperamos que eles sejam seguidos por grandes obras literárias. E isso ainda não aconteceu. Você pode fazer gozação e dizer que a América Latina não é como Macondo, é globalizada, etc. Mas cadê o novo Cem Anos de Solidão? Macondo existe como a Londres de Charles Dickens ou a Paris de Proust.

Ao final do livro o senhor pergunta: Há narrativa além do arquivo?

Tenho pensado sobre isso (suspira). O mito do arquivo em romances como Cem Anos de Solidão se repetiu em outras ficções - menores, devo dizer. E a tentativa de fugir disso não me parece bem-sucedida na América Latina. As únicas exceções que me ocorrem citar são Fernando Vallejo e Roberto Bolaño. Noturno de Chile, do Bolaño é um romance maravilhoso.

Em outra pergunta o senhor especula se os sistemas de comunicação estão se tornando a nova fonte de narrativa.

Acho que sim e acredito até na transformação da leitura como uma experiência digital. O boliviano Edmundo Paz Soldán, que leciona em Cornell, escreveu, por exemplo, sobre hackers. A questão é, se além de tema, os novos sistemas estão afetando a forma da literatura. É bom lembrar que a mídia é uma outra forma de arquivo, inclusiva e onipresente. O Paz Soldán é um dos mais interessantes entre estes autores jovens. Um outro efeito dos sistemas de comunicação é que se lê menos. Os meus alunos em Yale, que estão entre os melhores do país, leram muito menos do que as gerações anteriores. Mas, no fim das contas, acho que a narrativa é como um fênix, sempre acaba por se erguer das cinzas. Por isso, fico tão feliz quando descubro um Roberto Bolaño. A literatura sempre se renova. Sempre teremos a linguagem e as histórias, não importa o estilo da narrativa.

Acaso - SÉRGIO TELLES


O Estado de S.Paulo - 26/11/11


Tememos o acaso. Ele irrompe de forma inesperada e imprevisível em nossas vidas, expondo nossa impotência contra forças desconhecidas que anulam tudo aquilo que trabalhosamente penamos para organizar e construir. Seu caráter aleatório e gratuito rompe com as leis de causa e efeito com as quais procuramos lidar com a realidade, deixando-nos desarmados e atônitos frente a emergência de algo que está além de nossa compreensão, que evidencia uma desordem contra o qual não temos recursos. O acaso deixa à mostra a assustadora falta de sentido que jaz no fundo das coisas e que tentamos camuflar, revestindo-a com nossas certezas e objetivos, com nossa apreensão lógica do mundo.

Procuramos estratégias para lidar com essa dimensão da realidade que nos inquieta e desestabiliza. Alguns, sem negar sua existência, planejam suas vidas, torcendo para que ela não interfira de forma excessiva em seus projetos. Outros, mais infantis e supersticiosos, tentam esconjurá-la usando fórmulas mágicas. Os mais religiosos simplesmente não acreditam no acaso, pois creem que tudo o que acontece em suas vidas decorre diretamente da vontade de um deus. Aquilo que alguns considerariam como a manifestação do acaso, para eles são provações que esse deus lhes envia para testar-lhes a fé e obediência.

São defesas necessárias para continuarmos a viver. Se a ideia de que estamos à mercê de acontecimentos incontroláveis que podem transformar nossas vidas de modo radical e irreversível estivesse permanentemente presente em nossas mentes, o terror nos paralisaria e nada mais faríamos a não ser pensar na iminência das desgraças possíveis. E nem é necessário imaginar grandes catástrofes, embora elas possam sempre ocorrer. Basta lembrar que nossa própria morte, ou a de um ente querido, pode ocorrer a qualquer instante, sem que nada possamos fazer para impedi-lo.

Entretanto, tem um tipo de homem que age de forma diversa. Ao invés de tentar fugir do acaso, como faz a maioria de nós, ele o convoca constantemente. É o viciado em jogos de azar.

O jogador invoca e provoca o acaso, desafiando-o em suas apostas, numa tentativa de dominá-lo, de curvá-lo, de vencê-lo. E também de aprisioná-lo. É como se, paradoxalmente, o jogador temesse tanto a presença do acaso nos demais recantos da vida, que pretendesse prendê-lo, restringi-lo, confiná-lo à cena do jogo, acreditando que dessa forma o controla e anula seu poder.

É o grande equívoco do jogador, como bem adverte Mallarmé no início de seu famoso poema "um lance de dados não abolirá jamais o acaso". É certo que os lugares onde se praticam os jogos de azar, como os cassinos, são espaços privilegiados onde o acaso é convocado e se faz presente, exibindo todo seu fascínio. Mas é uma ilusão pensar que ele ali ficaria retido, abstendo-se de atuar em outros domínios da vida, como gostaria o jogador.

O jogador leva às ultimas consequências essa forma de lidar com o acaso. Mas, em grau menor, todos nós fazemos algo parecido, todos temos um secreto "jogo de dados". Criamos situações específicas, nas quais concentramos nossa angústia, nossas fobias. Pessoas que têm medo de avião ou de elevador, por exemplo, pretendem circunscrever essas ocasiões à incidência do acaso (o acidente, a morte) e passam a evitá-las, acreditando com isso controlar sua ameaçadora e fortuita emergência.

A psicanálise mostra que o embate do jogador com o acaso, com o destino, é um eco da batalha edipiana, na qual o filho desafia o pai todo-poderoso da infância, tentando vencê-lo (matá-lo), ao mesmo tempo em que se oferece à imolação, expondo-se de forma masoquista ao castigo por tal ousadia, mergulhando na aposta que o põe em risco absoluto.

Através da psicanálise ficou evidente que muitas vezes nos julgamos vítimas do acaso sem nos apercebermos que, movidos por complexos sentimentos ocultos, como a culpa, inadvertidamente nós mesmos fabricamos aquelas situações que nos afligem. O acaso e o inconsciente, é claro, são categorias diversas e não confundíveis, mas provocam na mente consciente e racional semelhante efeito de estranheza.

O acaso tem papel relevante no excelente filme Um Conto Chinês, do argentino Sebastián Borensztein. Num recanto da China, um inacreditável acontecimento (supostamente ocorrido na realidade, como é mostrado no fim do filme, com os créditos) destrói os planos do jovem Jun. Em função disso, ele se traslada para Buenos Aires, onde termina por encontrar Roberto, um metódico comerciante de bairro preso a experiências traumáticas e a lutos impossíveis de elaborar. Mas o acaso, na figura do chinês, desmonta suas rígidas defesas obsessivas, trazendo Roberto de volta à vida.

Um Conto Chinês mostra as duas faces do acaso - o azar que se abate sobre Jun e a sorte que salva Roberto, o infeliz veterano da Guerra das Malvinas.

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O canadense Xavier Dolan, nascido em 1989, é uma das maiores revelações do cinema mundial. Aos 16 anos escreveu o roteiro de Eu Matei Minha Mãe, filme que interpretou e dirigiu e que, ao ser apresentado no Festival de Cannes de 2009, foi aplaudido de pé por oito minutos, ganhando o prêmio da Quinzena dos Diretores. Amores Imaginários, seu novo filme em cartaz, é uma lição sobre o narcisismo enquanto exigência voraz de ser amado incondicionalmente sem nada dar em troca, com toda a crueldade e sadismo nisso implicados. Se em Eu Matei Minha Mãe, Dolan estava mais interessado em contar uma história (com muitos traços autobiográficos), em Amores Imaginários a preocupação formal é mais evidente e bem-sucedida.

GOSTOSA


A soma de todos os nossos malfeitos - MARCO AURÉLIO NOGUEIRA


O Estado de S.Paulo - 26/11/11


Não seria preciso arder uma nova fogueira em Brasília - a do ministro do Trabalho, Carlos Lupi - para que a corrupção voltasse às manchetes. Não haveria como retornar ao primeiro plano algo que dele não sai há anos.

A primeira reação de quem se incomoda com a corrupção é apontar um culpado. Culpados, evidentemente, existem. Ninguém que esteja numa função de responsabilidade deixa passar como rotina certos procedimentos explosivos que deslocam a tomada de decisões para a beira do precipício. Governar ou administrar são operações delicadas e quem vacila no cumprimento das obrigações e abre espaços para lobistas inescrupulosos, parentes vorazes, protegidos e amigos, ou deseja testar os limites da legalidade, não pode merecer perdão. Por bem menos muitos cidadãos são presos ou têm a vida reduzida a pó. Não há ingênuos na alta administração, muito menos anjos. Todos sabem distribuir favores, castigos e recompensas com a mesma desenvoltura. Ninguém rasga dinheiro, assina cheque em branco e pode alegar ter sido enganado. Porém, se sempre há culpados, nem sempre é fácil descobri-los ou atribuir as devidas responsabilidades na cadeia de comando da corrupção. Punições exemplares e cortes de cabeças coroadas são importantes, mas não desmontam esquemas.

A corrupção pode derrubar governos ou atrapalhar a sua atuação. É uma arma de todas as oposições. Isso acaba por fazer as denúncias e apurações ficarem envoltas numa névoa de suspeita. Serão os fatos aqueles mesmo ou tudo não passa de armação para desgastar o governo? Como as coisas hoje vêm a público de modo espetacular e ganham rápida difusão graças aos circuitos midiáticos, sempre haverá alguém para dizer que a "grande mídia golpista" está por trás dos escândalos. Tal tipo de acusação faz parte do jogo e ajuda a que muita gente reflua da luta anticorrupção por receio de ser confundida com os adversários de seu partido ou representante.

Corruptos e corruptores são malvistos. A petulância, a desfaçatez e a arrogância deles agridem a ética do cidadão comum, embora possam ser assimiladas pela ética dos políticos. Irritam e intimidam as pessoas que procuram seguir com a vida tanto quanto possível longe de atritos com a legalidade. Quando a corrupção surge na esfera governamental e na política, o efeito é ainda pior, pois as pessoas tendem a perder a confiança que algum dia depositaram em seus representantes, transferindo isso para todo o sistema representativo. Não é por acaso que a presidente Dilma cresce em prestígio quando afasta ministros suspeitos de atos ilícitos ou indignos. Perderá pontos se os acobertar, permanecer indiferente ou paralisada diante deles. A ética do cidadão comum manifesta-se invariavelmente misturada com lampejos moralistas, podendo chegar mesmo a ser inteiramente comida por eles. Pode-se atacar a corrupção de um ponto de vista ético, político, econômico ou moral, cada um com seu mérito. É insensato, por exemplo, fazer como o ex-deputado José Dirceu, que dias atrás etiquetou as atuais denúncias de corrupção como "campanha moralista". O que teria desejado dizer com isso? Que não é correto pensar a corrupção pelo registro do bom e do mau, do certo e do errado, ou que o correto seria interpretar certos desvios de conduta como sendo inevitáveis em quem tem responsabilidades governamentais?

Se quisermos descobrir como e por que a corrupção ressurge sem cessar, teremos de cortar mais fundo, ir além da caça aos culpados. A corrupção anda de braços dados com a desmoralização da política, dos políticos e de seus partidos. Nunca como hoje a classe política foi tão ruim, nunca os partidos foram tão frouxos e desorientados, nunca a política foi tão improdutiva. Na melhor das hipóteses, as pessoas esperam resultados dos governos em sentido estrito, do Poder Executivo, que costuma emergir cercado de pompa, inflado de expectativas e disfarçado de "vítima" de subordinados incompetentes e interesses poderosos. Um círculo, assim, se fecha: a má qualidade da política fornece oxigênio para a corrupção e dificulta o combate a ela.

Mas não se trata só de má qualidade dos representantes. Políticos despreparados e sem visão social abrangente, tanto quanto corruptos e corruptores pendurados na administração pública, são impulsionados por defeitos sistêmicos. Nosso "presidencialismo de coalizão", por exemplo, é parte importante do problema. Sem coalizões os governos não governam; mas com elas, encharcadas que estão de interesses fisiológicos, ficam expostos a muitos malfeitos e dissonâncias, têm de carregar peso desnecessário e perdem coerência e unidade de ação. Embalada e protegida por esse sistema, a corrupção reproduz-se, governo após governo.

Por fim, há um fator que deriva da época. Sendo verdade que passamos a viver de modo mais rápido, individualizado e fora de controle, inseridos em redes e estruturas cortadas por riscos e crises permanentes, então ficou mais difícil controlar o que quer que seja. A corrupção adquiriu "vida própria", atingindo áreas e pessoas antes tidas como inatingíveis. Também cresceu a percepção social dela, o que a torna ainda mais intolerável.

Isso não significa que sejamos impotentes perante esse problema, que se alimenta de hábitos seculares, bebe em muitas fontes e afeta tanto o setor público quanto o privado. Não poderemos, porém, eliminá-lo pela raiz se o reduzirmos à responsabilização pessoal ou acharmos que a solução virá da mera (e difícil) mobilização da sociedade civil. Avanços consistentes dependerão de múltiplas ações combinadas e só alçarão voo sustentável se estiverem articulados com uma perspectiva reformadora e democrática do Estado e da política que, entre outras coisas, ajude a República brasileira a se tornar efetivamente republicana.

Escritores, a hora da união - A. P. QUARTIM DE MORAES


O ESTADÃO - 26/11/11


Os cerca de 400 escritores de todo o País que participaram do Congresso Brasileiro de Escritores promovido em Ribeirão Preto, de 12 a 15 de novembro, pela União Brasileira de Escritores (UBE), certamente regressaram para casa felizes com o clima de camaradagem que reinou nos quatro dias do evento e animados com os debates que dominaram as dezenas de palestras, oficinas e mesas-redondas realizadas ao longo da variada programação. Foi um primeiro passo de inegável importância no projeto da UBE de resgatar as melhores tradições de combatividade dos escritores brasileiros na defesa de seus interesses e na luta cada vez mais árdua por espaço para a literatura brasileira no mercado editorial.

Considerado de uma perspectiva mais ampla e distanciada, porém, o congresso de Ribeirão Preto revela dramaticamente a enorme distância que ainda precisa ser percorrida para que a UBE chegue perto da meta colocada por sua atual diretoria: tornar-se a entidade efetivamente representativa dos escritores brasileiros, com a força e o prestígio políticos indispensáveis para enfrentar os enormes desafios que tem pela frente. O encontro deixa um saldo de três pontos negativos importantes: foi ignorado, com poucas e honrosas exceções, pelos escritores de maior renome e prestígio no panorama literário brasileiro; foi solenemente ignorado também, e aí sem exceções, pelos grandes veículos de comunicação; e, dentro da mesma lógica, minguaram os patrocinadores.

Estiveram em Ribeirão Preto e participaram ativamente da programação cerca de 20 escritores de reconhecida expressão nacional, além dos presidentes da Academia Paulista de Letras (APL), da Câmara Brasileira do Livro (CBL), do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel), da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu), mais o titular da Diretoria do Livro e Leitura do Ministério da Cultura (MinC). Não é pouco. Mas está longe de ter sido suficiente para compensar o enorme esforço que um grupo de abnegados diretores da UBE despendeu durante mais de um ano para realizar, 29 anos depois do segundo, o terceiro congresso nacional da categoria.

Não se pode dizer que esse resultado tenha sido surpreendente. Para compreendê-lo, creio, é necessário entender, antes de mais nada, que a UBE tem vivido, ao longo de muitos anos, uma certa crise de identidade, que, aliás, já foi diagnosticada por muitos de seus atuais dirigentes. Sem desmerecer o trabalho de diretorias anteriores, comandadas por personalidades ilustres e dedicadas do meio literário, até agora a UBE jamais conseguiu assumir de fato o papel político que lhe cabe. Às vezes ela parece não se ter dado conta de que para reunir escritores no chá das 5 já existem a Academia Brasileira de Letras (ABL) e suas congêneres regionais.

O mundo do livro está repleto de entidades representativas, dentre as quais despontam a CBL, o Snel, a Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros) e a Associação Nacional de Livrarias (ANL), além de muitas entidades regionais, num universo de quase uma centena de siglas. Todas empenhadas em representar e defender os interesses do negócio do livro. E esses interesses, na atual conjuntura, em que a razão de mercado predomina sobre a valorização dos conteúdos, quase nunca coincidem com os dos escritores, pelo menos daqueles que veem no ofício de escrever livros a expressão de uma arte, e não apenas um meio de fazer dinheiro.

Uma evidência dessa discrepância é que hoje o mercado editorial brasileiro abre muito pouco espaço para a literatura brasileira - e investe nela menos ainda. Quem duvidar que tente encontrar, nas listas de livros mais vendidos, obras de ficção de autores brasileiros que não sejam celebridades midiáticas, ídolos musicais ou fenômenos internéticos. Assim mesmo, esses aparecem muito excepcionalmente. Os best-sellers de ficção são, quase invariavelmente, obras estrangeiras, nas quais as editoras comerciais investem centenas de milhares de dólares de adiantamento de direitos autorais, mais outro tanto em grandes tiragens e em promoção midiática e comercial.

Só uma união brasileira de escritores politicamente forte e influente, capaz de atuar com eficiência junto aos poderes públicos e ao próprio negócio editorial, terá condições de representar com eficácia os verdadeiros interesses dos escritores - e me refiro, em particular, aos autores de literatura ficcional e ensaística. Mas para isso é necessário que os próprios escritores, inclusive e principalmente aqueles que de alguma maneira já conquistaram o seu espaço, se disponham a pôr seu próprio prestígio a serviço da literatura brasileira, não apenas como artistas, mas como cidadãos. A escrita é um exercício solitário, "mas o escritor não precisa estar isolado", como apela a UBE no site do congresso de Ribeirão Preto. Mais do que não precisar, não deve.

Mas o fato é que muitos escritores prestigiosos e laureados, beneficiários de alguma intimidade com os contatos na mídia, requisitados pelo circuito dos eventos literários que lhes dão visibilidade, preferem se isolar na zona de conforto representada pelo privilégio de participar desse círculo restrito e tendem a ignorar a realidade perversa que os cerca: todos, sem exceção, vendem muito poucos livros (por isso jamais entram nas listas de best-sellers). E é assim porque é como o big business editorial quer que seja. Para atenuar isso - mudar é improvável - os escritores precisam agir politicamente.

Apesar das enormes dificuldades, a UBE pretende transformar o congresso de escritores em evento bianual. Dificilmente terá êxito se continuar sendo ignorada pela mídia, pelos patrocinadores e, principalmente, pelos próprios escritores.

ALONGAMENTO DO PÊNIS


Nós somos os 99,9% - PAUL KRUGMAN


FOLHA DE SP - 26/11/11


A ideia de que a superelite nos EUA é composta por criadores de empregos é ciência econômica falha

"NÓS SOMOS os 99%" é um grande slogan. Define corretamente a questão como sendo classe média X elite (em oposição a classe média X pobres). E combate a noção do establishment de que a desigualdade crescente se deve aos mais bem instruídos, que se saem melhor que os menos instruídos; os grandes vencedores nesta nova Era Dourada vêm sendo algumas poucas pessoas muito ricas, e não pessoas diplomadas.
Mas o slogan dos 99% ainda diz pouco. Uma grande parcela dos ganhos do 1% mais rico na realidade se concentra em um grupo ainda menor, o 0,1% mais rico -o milésimo mais rico da população.
Segundo relatório de 2005, de 1979 até esse ano, a renda líquida, ajustada para a inflação, dos americanos na faixa de renda mediana subiu 21%. O aumento equivalente do 0,1% mais rico foi de 400%.
Então, por que os republicanos defendem cortes ainda maiores nos impostos dos muito ricos, ao mesmo tempo em que avisam sobre deficit e exigem cortes dramáticos nos programas de seguro social?
A resposta de praxe é que a superelite é feita de "criadores de empregos" -ou seja, que ela faz uma contribuição especial para a economia. Isso é ciência econômica falha.
Afinal, em uma economia de mercado idealizada, cada trabalhador ganharia o equivalente ao que contribui para a economia por optar por trabalhar -nem mais, nem menos. Isso se aplicaria igualmente a operários que recebem US$ 30 mil por ano e executivos que ganham US$ 30 milhões. Não haveria razão para considerar que as contribuições de quem ganha US$ 30 milhões merecem tratamento especial.
Alguns dos muito ricos ficam muito ricos por produzir inovações que valem muito mais para o mundo do que a receita que ganham. Mas, se olharmos para quem realmente compõe o 0,1%, é difícil deixar de concluir que, de modo geral, a superelite ganha demais pelo que faz.
Quem são os membros do 0,1%? Muito poucos são inovadores como Steve Jobs; a maioria é formada por figurões de grandes empresas e executivos do setor financeiro, profissões longe de ter relação clara entre a receita da pessoa e a contribuição econômica que ela faz.
Salários de executivos, que subiram vertiginosamente, são definidos por conselhos diretores nomeados pelas próprias pessoas cujos ganhos eles determinam. CEOs de baixo desempenho recebem salários generosos. E executivos fracassados, muitas vezes, ganham milhões quando deixam empresas.
Enquanto isso, a crise mostrou que boa parte do valor criado pelo setor financeiro moderno era uma miragem. Nas palavras recentes de um diretor do Banco da Inglaterra, os retornos altos antes da crise simplesmente refletiram os riscos adicionais -não dos próprios especuladores, mas de investidores ingênuos ou contribuintes, que levaram prejuízo quando tudo deu errado.
Como observou o diretor: "Se assumir riscos adicionasse valor, os jogadores de roleta russa fariam uma contribuição desproporcional para o bem-estar global".
Será que os 99,9% deveriam odiar o 0,1%? De maneira alguma. Mas deveriam ignorar a propaganda sobre "geradores de empregos" e exigir que a superelite pague substancialmente mais em impostos.
Tradução de CLARA ALLAIN

Conexão potiguar - RENATA LO PRETE



FOLHA DE SP - 26/11/11
Alvo de ação do Ministério Público paulista por suspeita de irregularidades na inspeção veicular, Gilberto Kassab é citado também nos autos da operação Sinal Fechado, do Rio Grande do Norte, que resultou anteontem em 12 prisões relacionadas a um esquema bilionário de desvio de recursos no Detran. Lá também a inspeção aparece entre os serviços fraudados.

Em conversas telefônicas de maio deste ano captadas com autorização judicial, o lobista Alcides Fernandes Barbosa, um dos detidos, diz negociar com o prefeito paulistano o afastamento da Controlar, concessionária do serviço na capital, de licitação congênere no RN.

Sabe com quem... Em um dos telefonemas, quando lhe perguntam se poderia ser identificado como uma pessoa que "tem ligação com Kassab", Alcides responde: "Não precisa, mas pode dizer que é um cara que já trabalhou com o Kassab quando ele foi secretário do Pitta. E pede que não deixe isso vazar para ninguém".

...está falando? Segundo os promotores, Alcides ligou em 25 de maio para o gabinete de Kassab, identificando-se como "a pessoa que tem a concessão da inspeção veicular no Rio Grande do Norte". No dia seguinte, o lobista disse a um interlocutor que conseguira falar com o prefeito e que a conversa fora "muito boa".

Q.I. Quem viu de perto a articulação que colocou João Faustino, preso na operação Sinal Fechado, na suplência do senador José Agripino (DEM-RN) afirma: José Serra trabalhou intensamente para que isso ocorresse.

Segue preso Em liminar, foi negado ontem o pedido de habeas corpus de Faustino.

Cadê? Os tucanos Andrea Matarazzo e José Aníbal debaterão com Fernando Haddad (PT) e Soninha (PPS) o impacto da Copa em SP num seminário segunda-feira com pré-candidatos à prefeitura. Guilherme Afif (PSD), nome de Gilberto Kassab para a sucessão, não foi chamado.

Bandejão Técnicos da comitiva da Fifa que farão nova vistoria no Itaquerão hoje foram convidados pela Odebrecht a almoçar com os trabalhadores da obra. Antes, visitarão o canteiro e o pátio de manobras do metrô.

Carreira solo Como Dilma é menos "palanqueira" do que Lula, ministros palacianos têm alcançado inédita visibilidade política. Ontem, Ideli Salvatti (Relações Institucionais) prestigiou inauguração do programa Minha Casa Minha Vida em Santa Catarina, sua base eleitoral. Gleisi Hoffmann (Casa Civil) já realizou várias incursões semelhantes no Paraná.

E aí? O debate sobre regulamentação da mídia promovido ontem pelo PT escancarou a cobrança para que o governo "faça sua parte". Recado transmitido em vários discursos: nos países onde esse tipo de legislação prosperou, havia proposta e empenho oficiais. O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) chegou a confirmar presença no evento, mas recuou.

Rosário Depois de rápidas intervenções do presidente do PT, Rui Falcão, e do secretário de Comunicação, André Vargas, Edinho Silva tomou o microfone por quase 40 minutos. O presidente do diretório paulista expôs a mágoa pelo cancelamento de seu programa na emissora de TV católica Canção Nova.

Visita à Folha Virgilio Viana, superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Janine Saponara, assessora de imprensa.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Se o preso fosse um aliado do governo Dilma, Agripino estaria esbravejando. Mas, como se trata de seu suplente, clama pela inocência do suspeito."

DA DEPUTADA FÁTIMA BEZERRA (PT-RN), recomendando ao senador José Agripino (DEM), cujo suplente foi preso na operação Sinal Fechado, que não se antecipe à Justiça na condenação de agentes públicos acusados de ilícitos.

contraponto

Além das aparências

Durante encontro com o novo secretário paulista de Planejamento, Julio Semeghini, o comandante-geral da Polícia Militar no Estado, Álvaro Camilo, tratou de reivindicar mais recursos para sua corporação.

-Agora já sei a quem devo recorrer...

Ao responder, Semeghini brincou com o fato de que o coronel estava fardado:

-Olha, não adianta o senhor vir com o quepe na mão. Fique sabendo que esse negócio de passar o chapéu não dará resultado aqui comigo!

Seja chinês uma vez - DAVID COIMBRA


ZERO HORA - 26/11/11

Ouvi ou li em algum lugar que dormir de lado é melhor para a saúde. Bom para a respiração, para a coluna e tudo mais. E a perna de baixo tem de ficar mais estendida do que a de cima. Por causa da coluna, também.

Por algum motivo, é ótimo para a coluna esticar mais a perna de baixo do que a de cima quando se está dormindo. Dormindo de lado, evidentemente.

Um homem pode se acostumar a dormir sempre do mesmo jeito. Os gansos dormem sempre do mesmo jeito. Sei disso porque na cobertura do Pan do Rio descobri que a peteca do jogo de badminton é feita somente com penas da asa esquerda do ganso.

É que o ganso tem o hábito de dormir sobre a asa direita, que acaba ficando com as penas amassadas. Logo, as da esquerda são as ideais para se fazer uma peteca oficial. Se você andar pelo campo e vir um monte de gansos com uma única asa (a esquerda) depenada, já sabe: parte daquele ganso virou peteca e provavelmente está sendo jogado por chineses, que adoram badminton.

Outro esporte que os chineses adoram é o pingue-pongue. Os chineses gostam tanto de pingue-pongue que usaram o jogo para estreitar relações com os Estados Unidos no tempo da Guerra Fria. Mao Tsé-tung, durante um encontro com Nixon no começo dos anos 70, convidou a seleção americana de pingue-pongue para partidas na China.

Era um avanço oceânico em direção à amizade entre os dois países rivais. Os americanos mandaram uma delegação e as partidas de pingue-pongue foram assistidas com gravidade pelo mundo inteiro.

Quando estive na China para a cobertura da Olimpíada de Pequim vi condomínios residenciais não com uma, mas com 20 mesas de pingue-pongue enfileiradas na área de lazer dos prédios. Assim como nós aqui temos quadras de futebol, lá eles têm mesas de pingue-pongue.

Mas atenção: você não deve chamar o pingue-pongue de pingue-pongue, assim como não deve chamar o jogo de peteca de jogo de peteca. Chame de tênis de mesa e badminton, respectivamente, ou os praticantes desses jogos ficam ofendidos.

O fato é que um bilhão e meio de chineses jogam pingue-pongue, discutem pingue-pongue nos bares, leem reportagens sobre o pingue-pongue, assistem matérias de TV sobre pingue-pongue. Há chineses que passam a maior parte do dia pensando no pingue-pongue, na melhor estratégia para enfrentar uma partida de pingue-pongue, na forma como um atleta do pingue-pongue deve se comportar, nos heróis imortais do pingue-pongue, nas lendas e mistérios do pingue-pongue. Há chineses que brigam com outros chineses por causa do pingue-pongue, imagine.

Existem comentaristas de pingue-pongue, repórteres especializados em pingue-pongue, torcidas organizadas de pingue-pongue, cartolas do pingue-pongue, pensadores do pingue-pongue e chineses que se gabam de entender de pingue-pongue e que acusam outros chineses, apontando-lhes um indicador feroz:

– Você não entende nada de pingue-pongue!

Entender de pingue-pongue, na China, confere status, mas nada dá mais status do que ser um craque do pingue-pongue. Craques do pingue-pongue ganham milhões, circulam com loiras à tiracolo, rodam pela China em carros luxuosos, são alvo da cobiça e da admiração dos seres humanos chineses.

Isso não nos leva a uma reflexão filosófica? Pense: você está aqui, preocupado com o Grêmio ou com o Inter, com a fórmula do Campeonato Brasileiro ou com os desmandos do STJD. Por que isso? Porque você não nasceu na China.

Uma contingência geográfica, nada mais. Se você fosse chinês, suas preocupações e tormentos envolveriam o pingue-pongue. Todos os dias, todas as horas, todos os momentos de sua vida teriam algo a ver com o pingue-pongue.

Tente fazer esse exercício de imaginação e compreenda: há certas coisas que parecem importantes, mas não são. Seja chinês uma vez na vida e sua mente de abrirá. Você verá que para algumas pessoas não faz diferença se um time joga com um, dois ou três meias-armadores. Seja chinês uma vez e você verá que nem tudo que as pessoas levam a sério é de fato sério.

Entenda: o que importa mesmo, o que faz diferença para você ou para um bilhão e meio de chineses é se esforçar para dormir de lado todas as noites. Dormir de lado é ótimo para a saúde, como bem sabem todos os gansos.

Sem solução para o álcool - CELSO MING


O ESTADÃO - 26/11/11


A safra da cana-de-açúcar no Centro-Sul praticamente acabou e os resultados são todos negativos.

A massa verde moída até 31 de outubro na região (mais de 85% do setor sucroalcooleiro do País) foi 8,3% menor do que no mesmo período de 2010, como mostra a tabela. O volume de açúcar processado até agora caiu 4,3%. E o recuo da produção de álcool foi ainda mais acentuado: 16,5%.

Nesta segunda-feira, novos levantamentos, potencialmente mais negativos, serão divulgados. A última projeção para o desempenho final desta safra - da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) e do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) - agravou as perdas: de 12,3% no processamento de cana-de-açúcar; de 8,1% na geração de açúcar; e de 19,7% na de álcool.

Empresas do ramo já importaram 567,8 milhões de litros e outro tanto virá até maio de 2012 (fim da entressafra) para atender a um consumo que avança num ritmo superior a 5% ao ano.

Nada menos que dez repartições do governo, de algum modo, cuidam ou deveriam cuidar de tudo relacionado a álcool e açúcar. E, no entanto, nessas horas em que os problemas se acumulam, as autoridades estão sempre prontas a reclamar das adversidades climáticas. É truque velho de guerra cuja finalidade é se eximir de responsabilidades. O problema de fundo é a insuficiência de investimentos em todas as áreas: cultivo de cana, moagem, fábricas de açúcar e destilarias de álcool.

Com maior ou menor razão, produtores reclamam do avanço dos custos. As estimativas variam de acordo com o nível de eficiência de cada empresa, mas o número que circula é de que nos últimos cinco anos, o encarecimento da terra, do equipamento e da mão de obra puxaram os custos em cerca de 40%, enquanto os preços dos produtos finais ficaram para trás. A alta do açúcar em três anos foi superior a 100%, mas não compensou essas perdas. Enquanto isso, os do álcool permanecem achatados por terem de concorrer com os da gasolina.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan Consultoria, adverte que anos de abandono impedem a reversão em curto prazo deste quadro. "É apenas o início de uma fase ruim. Mesmo se todas as providências adequadas fossem tomadas imediatamente, só a partir de 2015 veríamos avanços significativos".

Até 2020, mais de 80% da frota brasileira de veículos automotivos será dotada de motores flex e, no entanto, a perspectiva é de produção insuficiente de álcool, tanto hidratado (que vai direto no tanque) como anidro (misturado com a gasolina, hoje, à proporção de 20%). Isso significa que o País fica cada vez mais dependente da importação de álcool e de gasolina.

Embora tenha determinado que as questões do álcool passassem a ser tratadas no âmbito da Agência Nacional do Petróleo, o governo não tem uma política para ele. Até a terceira semana de novembro, os preços do álcool nos postos superam em 17,4% o valor médio de novembro de 2010. De novo, o problema começa no canavial, passa pelo bolso do motorista e segue sem solução. /COLABOROU GUSTAVO SANTOS FERREIRA

CONFIRA

Tanto a dívida bruta como a dívida líquida do governo federal em relação ao PIB se mantêm relativamente estáveis. A diferença entre uma e outra são os créditos, especialmente as reservas internacionais administradas pelo Banco Central.

Copom. Ganhou certa força no mercado financeiro o prognóstico de que na próxima quarta-feira o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortará os juros básicos (Selic) em mais de meio ponto porcentual ao ano. Essa aposta é improvável. Os juros deverão cair para 11,00%.

Dois pontos - MIRIAM LEITÃO



O GLOBO - 26/11/11
O Copom apostou num cenário em que a situação internacional se agravaria a ponto de derrubar a inflação no Brasil. Olhando a crise lá fora e os números internos, chega-se à conclusão de que o BC acertou apenas em uma parte. De fato, o quadro internacional piorou, até além da imaginação, mas a inflação permanece pressionada.
Já era prevista a queda neste final de ano do IPCA acumulado em 12 meses, mas olhando-se dentro dos números - que estão disponíveis no próprio site do Banco Central - encontram-se índices muito acima do razoável. A inflação do grupo vestuário foi de 9,57% nos últimos 12 meses até outubro; alimentos e bebidas subiram 8,5%; a educação ficou 8,1% mais cara e os serviços tiveram alta de 8,94%.
O núcleo da inflação, que exclui da conta preços voláteis como combustíveis e alguns alimentos, está ainda acima do teto da meta: 6,61%, em 12 meses. O que mais impressiona é o que está acontecendo no mercado imobiliário. O preço do metro quadrado dos imóveis no país, medido pelo índice Fipe Zap, aumentou 28% de outubro de 2010 a outubro de 2011. No Rio de Janeiro, a alta foi de 39%. Os aluguéis no Rio ficaram 24% mais caros em um ano. Em São Paulo, a alta foi de 15,6%. Os custos da construção civil subiram 7,72%. A mão de obra para as construtoras ficou 11,3% mais cara.
Essa montanha de números mostra que o movimento no mercado imobiliário - tanto em locação, quanto em compra e venda de imóveis - está perigosamente aquecido.
A cesta básica está mais alta que a média da inflação no Brasil inteiro, mas em algumas cidades o custo pesa mais. Somente este ano, de janeiro a outubro, a cesta básica aumentou no país 9,11%. Na cidade de Fortaleza, a alta foi de 16%. Em Florianópolis, a cesta subiu 12,48%. No Rio, 11,37%. Em Belo Horizonte, 10,86%, em Vitória, 10,51%.
A previsão do BC era que a deterioração do quadro externo seria tão forte que diminuiria fortemente o preço das commodities. Isso derrubaria o preço dos alimentos no Brasil e tiraria pressão sobre a inflação. O cálculo é que esse efeito seria grande o suficiente para neutralizar o impacto de uma alta do dólar decorrente exatamente do agravamento da crise.
O dólar subiu, sim, a situação ficou pior, de fato, mas o índice IC-Br, do Banco Central, que mede os preços das commodities em reais, subiu 15,49% de outubro a outubro. A maior parte da alta é velha, aconteceu no final de 2010, mas em agosto, setembro e outubro os preços aumentaram 4,11%, mesmo com o agravamento da crise. O que mais pesou foi a desvalorização do real no período. Os produtos agropecuários aumentaram 7,11% nesses três meses. Os produtos ligados à energia (petróleo, carvão e gás natural) também subiram no trimestre, 4,14%.
O mercado de trabalho no Brasil continua forte e o crédito segue com taxas altas de elevação em relação ao ano passado, o que tem mantido o crescimento. O país cresce bem menos do que 2010, menos do que se previa, mas ainda está no terreno positivo. O rendimento do trabalhador caiu 0,3% em outubro, em comparação com o aquecido outubro do ano passado, mas foi a primeira queda desde janeiro de 2010. O total de rendimentos das pessoas com trabalho subiu 22% de janeiro a agosto. O rendimento médio aumentou 21,53%. O crédito destinado a pessoas físicas subiu 12,4% de janeiro a outubro. Para as empresas, a alta foi de 12,8%. O crédito para habitação deu um salto de 34%.
O governo em dez meses quase cumpriu a meta de superávit primário, mas não porque reduziu despesas, mas sim porque elevou a arrecadação. Mais uma vez, como tem sido sempre nos últimos anos, o Tesouro cumpre as metas fiscais por receber mais receitas do contribuinte, e não por redimensionar suas despesas. Essa elevação constante do gasto público é uma parte da lenha na fogueira da inflação.
A arrecadação do governo com Impostos sobre Produtos Industrializados (IPI) aumentou 14% de outubro a outubro. Com o setor automobilístico, a alta foi de 28%. Do setor de bebidas, mais 11,3%. Quando os dados forem calculados, eles mostrarão que em 2011 houve nova alta da carga tributária. O economista Rogério Werneck escreveu no seu artigo publicado ontem no GLOBO que pode ser de 1,5 ponto percentual de alta este ano.
Os juros vão cair na semana que vem, novamente, e o que se discute no mercado é se será um corte de 0,5% ou 0,75%. O cenário Tombini está se confirmando em parte: o mundo está pior a cada semana. Há um volume enorme de incertezas aumentando a possibilidade de novos agravamentos.
A economia brasileira sente isso de diversas formas: o dólar sobe, o ritmo de crescimento diminui, a bolsa cai ou anda de lado, mas a inflação continua pressionada. O próximo ano começará com a alta de 14% no salário mínimo, o que representará um impacto forte nos custos da Previdência e na inflação de serviços.
Pelo cenário do Banco Central, tudo isso será absorvido e eliminado durante o ano de 2012 que terminará com a taxa em 4,5%, no centro da meta. É torcer para que isso ocorra.

GOSTOSA


Políticos - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 26/11/11


Definitivamente a imprensa livre e as críticas não fazem bem aos políticos brasileiros, seja de que ideologia forem. Vários deles, ontem, tiveram ataques de nervos, reagindo de maneiras diversas, mas todas beirando a histeria, a críticas recebidas.
O deputado do PP Jair Bolsonaro, cuja atuação política é marcada por atitudes radicais e provocações baratas, teve o desplante de subir à tribuna da Câmara para insinuar, aos berros, que a presidente Dilma Rousseff tem tendências homossexuais.
Criticado por todos os seus colegas, disse que não pediria desculpas, mas tentou explicar que sua frase, embora possa ter dado essa impressão, não queria dizer que a presidente era homossexual, mas sim que ela "gostava" de homossexuais, no sentido de que apoiava suas reivindicações.
O mesmo Bolsonaro já protagonizara inaceitável episódio anteriormente, levando para o plenário da Câmara o tenente-coronel do Exército Lício Augusto Ribeiro, que prendeu e interrogou em 1972 o então guerrilheiro do Araguaia José Genoino.
O ministro das Cidades, Mário Negromonte, também do PP, derramou lágrimas (de crocodilo?) ao ser homenageado por seguidores numa tentativa de prestar-lhe solidariedade contra as denúncias de que seu ministério fraudou um documento para mudar projeto de transporte em Cuiabá para a Copa do Mundo: em vez de uma linha rápida de ônibus (BRT), a alteração permitiu, contra parecer técnico, a contratação de um Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), aumentando em R$700 milhões o custo da obra.
Há gravações de reuniões em que pressões claras foram feitas e documentos que provam que o parecer técnico original foi adulterado.
No entanto, o ministro se diz "perseguido pela imprensa do sul", que teria "desprezo por nordestino".
Também o ex-presidente José Sarney, atual presidente do Senado, soltou uma nota indignada em seu blog oficial, intitulada "A política e a burrice", em que afirma, entre outras coisas, que os que criticam o fato de a Fundação José Sarney ter sido assumida pelo governo do Maranhão, por proposta de sua filha, a governadora Roseana Sarney, reúnem "todos aqueles defeitos que movem o ódio político: a inveja, a burrice e a ingratidão".
Na visão do ex-presidente, são injustas as críticas "de alguns idiotas", pois doou com "grandeza, amor e desprendimento" ao povo do Maranhão "um patrimônio, como o que outros presidentes venderam, do meu valioso arquivo de mais de um milhão de documentos, três mil peças de museu de obras de arte e uma biblioteca de mais de 30.000 livros, muitos raríssimos, que acumulei ao longo de minha vida".
A Fundação Sarney funciona no Convento das Mercês, um prédio do século XVII, tombado pelo Patrimônio Histórico, que foi doado à família Sarney pelo aliado político e então governador Epitácio Cafeteira, o que também mereceu críticas.
Acho normal que um prédio público abrigue a fundação de um ex-presidente da República, embora essa não seja a prática internacional e nem mesmo local.
Os ex-presidentes Fernando Henrique e Lula mantêm fundações com os mesmo objetivos de Sarney em prédios próprios e mantidas com doações privadas.
Daí a um estado pobre como o Maranhão ter que custear a manutenção da fundação vai uma distância grande, por mais que o estado deva comemorar seu filho ilustre, único presidente da República maranhense na História até o momento.
Seria preciso que o país tivesse mecanismos, como existem, por exemplo, nos Estados Unidos, para que os acervos dos ex-presidentes, quando fosse o caso, pudessem ser incorporados ao patrimônio nacional, como a Biblioteca Nixon, que acabou fazendo parte do sistema de bibliotecas nacionais do país.
Mas esse é um passo grande demais para um país de tantas necessidades.
Já o ex-deputado cassado José Dirceu voltou a seu tema obsessivo, o controle dos meios de comunicação, que ele chama de "regulamentação".
No seminário do PT para debater o tema, mesmo garantindo que não haverá ameaça à liberdade de imprensa, Dirceu fez críticas à imprensa de maneira geral, mas não se conteve e explicitou o objetivo da ação quando soltou, em meio a seu discurso, a seguinte pérola:
"Os proprietários de veículos de comunicação são contra nós do PT. Fazem campanha noite e dia contra nós. Só lamento que não haja jornal de esquerda, que seja a favor do governo."
Para desmenti-lo, mesmo que sem querer, o líder do PT, deputado Paulo Teixeira, fez uma homenagem aos blogueiros "de esquerda" que apoiam o governo, afirmando que eles ajudam a "democratizar a mídia".
O presidente do PT, Rui Falcão, arranjou um subterfúgio para justificar a obsessão petista de regulamentar a mídia, como eles chamam o conjunto de órgãos de informação que atuam no país.
Agora, em vez de controlar os meios de comunicação, intenção que sempre negaram, os petistas querem mesmo é "protegê-los" das leis do mercado.
O termo "controle social" da mídia, que era o mote principal sempre que se falava do assunto, será abandonado, por sugestão do ex-ministro da Comunicação do governo Lula Franklin Martins, que o considerou "ambíguo e ruim".
No seu lugar, surgiu a palavra "proteção". O presidente do PT, Rui Falcão, passou a usar o termo sempre que abordava o tema, alegando que sem uma legislação que a proteja, a "mídia" fica à mercê da "lei da selva".
Na mesma batida, Franklin Martins usou o argumento de que as regras que o PT quer criar servirão para proteger as emissoras de rádio e TV. Segundo ele, "comunicações é um vale-tudo, um faroeste caboclo".
E o PT, em vez de bandido, quer se apresentar como o "mocinho"...

Desafio necessário e possível - EDMAR DE ALMEIDA


FOLHA DE SP - 26/11/11


Os recentes acidentes com derramamento de petróleo no golfo do México e agora na bacia de Campos colocam em tela dois tipos de questionamentos à exploração do pré-sal brasileiro: não estaria o Brasil entrando numa aventura desnecessária, com a iminência da substituição do petróleo por fontes de energia renováveis? Estaria o Brasil preparado para enfrentar os desafios econômicos, tecnológicos e ambientais do pré-sal?
O primeiro questionamento está ligado à ideia de que o petróleo é uma energia do passado e que não vale a pena mobilizar recursos da sociedade em um negócio fadado a encolher e desaparecer rapidamente. Tal ideia não tem sustentação na realidade dos fatos.
Os estudos de previsão da matriz energética mundial apontam para um papel do petróleo e do gás natural ainda dominante no horizonte de longo prazo. Segundo a Agência Internacional de Energia, essas fontes deverão representar 75% da matriz energética mundial em 2035, no cenário mais otimista para as energias renováveis.
Esse tipo de previsão é confirmado por outras agências governamentais e pelas principais empresas energéticas mundiais. Podemos dizer que o petróleo e o gás conservarão um papel destacado na longa transição para uma economia descarbonizada. Nesse sentido, o pré-sal constitui uma expressiva vantagem comparativa para o Brasil.
Nosso país poderá assumir papel de destaque na transição energética, não só devido à sua grande dotação de petróleo e gás, mas também em função do seu potencial significativo de recursos renováveis.
Com relação ao segundo questionamento, é importante ressaltar que o Brasil é um grande caso de sucesso na exploração "offshore" em águas profundas. A partir dos anos 1980, o país fez um enorme esforço econômico e tecnológico no campo da exploração "offshore" na busca da autossuficiência em petróleo.
Como resultado desse esforço, a Petrobras tornou-se empresa líder nessa tecnologia e hoje é a maior operadora mundial na produção de petróleo em águas profundas.
O país vem, até o momento, equacionando com sucesso outro grande desafio: o financiamento do expressivo volume de investimentos necessários para o aproveitamento do petróleo do pré-sal.
Grande parte dos recursos para financiar tais investimentos vem do próprio fluxo de caixa da Petrobras. Em 2010, os lucros e os investimentos da empresa atingiram R$ 35,2 bilhões e R$76,4 bilhões, respectivamente. Isso significa que o sistema Petrobras investiu o equivalente a R$ 210 milhões de reais por dia.
Esse esforço está, em grande medida, associado à política de alinhar os preços dos combustíveis no Brasil aos do mercado internacional. Tal estratégia garantiu uma forte elevação dos ganhos da Petrobras em função do crescimento do preço do barril do petróleo.
A política de preços adotada gerou confiança para que grandes "players" da indústria mundial do petróleo, assim como novas empresas brasileiras, apostassem no futuro do petróleo e do gás no país.
Por fim, vale dizer que o desenvolvimento do pré-sal não representa necessariamente um obstáculo para as energias renováveis.
Pelo contrário, o Brasil tem a oportunidade de se apoiar nos benefícios econômicos do pré-sal para desempenhar um papel-chave nas energias do futuro. Esse é um desafio ambicioso, que deve ser enfrentado no âmbito de uma estratégia de longo prazo.

BOTOX NA CABEÇA - MÔNICA BERGAMO



FOLHA DE SP - 26/11/11

O Grupo de Dor do hospital Sírio-Libanês, em SP, está fazendo testes com aplicação de botox para o tratamento de dor de cabeça crônica desde o início do ano. Doze pacientes já receberam aplicações da toxina botulínica, principalmente na região da nuca. Nove relataram diminuição dos sintomas-quatro deles classificaram as melhoras como acentuadas.

BOTOX NA CABEÇA 2
"O tratamento é realizado através de aplicação da toxina botulínica em pontos específicos da cabeça, em ambiente ambulatorial, com sessões a cada três meses, totalizando quatro aplicações", diz o neurologista Carlos Altieri, um dos coordenadores do grupo. Cada aplicação custa, em média, R$ 2.500.

O HC também está usando o método.

EM PAZ
Roberto Civita, presidente do conselho de administração da Editora Abril, diz que a saída do jornalista Mario Sabino, redator-chefe da revista "Veja", da empresa está sendo "uma separação amigável e carinhosa". E também "absolutamente pontual". Nada mais muda na publicação, segundo o empresário. "As pessoas são loucas para ver conspirações incríveis onde não tem. A verdade é que juntaram duas coisas: o Mario querendo mudar de vida e um convite que recebeu. Por mim, ele ficaria aqui por mais 20 anos."

DESENHO EM MÚSICA
Jorge Aragão, que vai gravar o "Samba do Arquiteto", composto em 1962 por Oscar Niemeyer, apresentou uma versão preliminar ao autor na semana passada. Queria ouvir a opinião do arquiteto antes de fazer o registro definitivo da canção.

O cantor quer dar a gravação de presente no aniversário de 104 anos de Niemeyer, no dia 15 de dezembro.

FLORESTA TRIBALISTA
Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes gravaram uma música para o movimento Floresta Faz a Diferença, que se opõe às mudanças no Código Florestal. O grupo quer fazer uma espécie de "We Are the World", com cerca de dez artistas interpretando a canção.

CONSCIÊNCIA NEGRA
A Biblioteca Nacional e a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Presidência assinam na segunda acordo para publicação de uma coleção de e-books sobre a questão do negro. O projeto, lançado no mês da consciência negra, prevê a implantação de dez pontos de leitura em terreiros e comunidades quilombolas.

TOCA DJ
A cantora Macy Gray será DJ na festa F1 Rocks Afterparty, que comemora o encerramento do GP Brasil de Fórmula 1, amanhã, no Terraço Daslu.

ABRE ALAS
A banda Tono, de Bem Gil, abrirá os shows de Ben Harper no Brasil. As apresentações acontecem no dia 9 de dezembro, em SP, e no dia 10, no Rio.

SOBE SOM
A atriz Luciana Vendramini foi com o namorado, o empresário Stefan Weitbrecht, ao show de Macy Gray e Jessie J, no projeto F1 Rocks. O cantor Latino também circulou, anteontem, pelo Via Funchal.

CORRENTE SOLIDÁRIA
A Associação Amigos da Oncologia e Hematologia Einstein foi lançada com jantar, nesta semana, no hospital Albert Einstein. Os médicos Sidney Klajner e Nelson Hamerschlak receberam convidados como a atriz Drica Moraes e a coreógrafa Deborah Colker.

CURTO CIRCUITO
Danilo Caymmi se apresenta nos dias 3 e 4 de dezembro no Sesc Bom Retiro. Classificação: 12 anos.

O restaurante Cantaloup comemora 15 anos com jantares especiais na segunda e na terça-feira.

A peça "Avesso - Um Relato Íntimo" está em cartaz no teatro Ágora até o dia 18 de dezembro, nos finais de semana. 12 anos.

A médica Adriana Moretti participará do Congresso Mundial de Diabetes em Dubai, em dezembro.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Ueba! Rubinho corre de táxi! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 26/11/11

Galvão Urubueno não vai transmitir, vai gritar, gritar mais do que galinha com o ovo atravessado

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Cliente da operadora Vivo deve ser indenizada por receber torpedos eróticos, sentencia juíza Célia MELIGA PESSOA"! Recebeu torpedos eróticos, me liga pessoa! Rarará.
E tem um mineiro indignado com a foto do Aécio saindo da balada em São Paulo: "O que ele tá fazendo em São Paulo se o lugar dele é no Rio?". Rarará!
E amanhã Interlagos! Fórmula do Um: porque o Vettel ganha todas. E o Galvão Urubueno? O Galvão vai transmitir? Transmitir é modo de dizer, ele vai GRITAR! Gritar mais que galinha com o ovo atravessado!
E o Rubinho vai correr? Correr não, vai PARTICIPAR! E todo mundo quer que o Rubinho pare. Mas ele vive parado! Rarará! E agora ele vai dirigir cadeira de balanço, colher de sopa e geladeira de rodinha. Sabe aquela geladeira vermelha de rodinha? Pra lembrar dos tempos da Ferrari! Ou então vai virar baterista da Vai-Vai, de tanto que bate. Rarará! O Rubinho é o nosso anti-herói!
E piloto tem uma vida maravilhosa: trabalha deitado, roda até ficar tonto e quando perde bota a culpa no carro! E o Rubinho devia correr de táxi. Eu pago a corrida.
E diz que o Flamengo agora só joga às 13h. Pra ver se UMA HORA ganha! Rarará! E sabe qual a diferença entre Ibope e Bope? O Ibope aumenta a torcida do Flamengo e o Bope diminui. Rarará! Hoje a coluna tá estilo borracharia de novo!
E piloto gringo vem pro Brasil pra duas coisas: churrascaria e quenga. Ou seja, comida. Vem pra comer! E aquelas marias gasolina que vão pra Interlagos pegar piloto, pega qualquer um de macacão e acaba dando pro mecânico!
Tenho a foto duma maria gasolina ao lado duma Ferrari, segurando a placa: "Vou dar o meu fiofó pro dono desse carro". Sou do tempo em que carro de corrida tinha porta. Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
E olha o que um cara escreveu no meu Twitter: "Corintiano é maloqueiro, palmeirense é verdureiro, santista é caiçara e são-paulino? Acabou de fazer as unhas". Rarará!
E um amigo meu se trancou no banheiro com a "Playboy" e começou a cantar a musiquinha: "Maria Maricota, com a direita e com a canhota". Rarará! E espero que o Rubinho não nos decepcione. Não é pra ganhar. É pra fazer alguma coisa engraçada. Nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Longo caminho a percorrer - JOSÉ GOLDEMBERG


FOLHA DE SP - 26/11/11

Ainda é cedo para uma completa avaliação da gravidade do acidente que ocorreu num poço perfurado pela Chevron na bacia de Campos, que lançou no mar cerca de 3.000 barris de petróleo, afetando 160 km² do oceano.
O problema desses acidentes não é apenas a proteção do ambiente, mas a segurança física das plataformas e a proteção dos trabalhadores: segurança e proteção do ambiente andam juntos.
O acidente da Chevron não tem a gravidade do acidente no golfo do México, em 2010, que lançou 5 milhões de barris de petróleo no mar e destruiu a plataforma de perfuração (a um custo de US$ 1 bilhão), causando 11 mortes e 17 feridos.
O custo da recuperação das áreas litorâneas degradadas, a compensação pelos prejuízos causados à indústria da pesca e os dispêndios no fechamento do poço são estimados em cerca de US$ 20 bilhões.
Há, porém, várias similaridades entre os dois acidentes: a Chevron, como a British Petroleum (BP) no caso do golfo do México, demorou a dar explicações claras e transparentes e aparentemente ocultou informações, como fizera a BP.
A Agência Nacional de Petróleo (ANP), contudo, deu sinais de vitalidade -o que não é usual- e multou a empresa em R$ 50 milhões, com insinuações de suspender
suas atividades no Brasil, esquecendo talvez que a Petrobras é associada à Chevron nessa área.
Por sua vez, o Ibama -só após o acidente- deu-se conta de que deixou de fazer importantes exigências por ocasião do licenciamento.
O problema, na realidade, é mais profundo: as empresas que operam no setor petrolífero no Brasil, incluindo a Petrobras, não têm uma cultura empresarial que priorize a proteção ambiental, vista, em geral, como um estorvo às atividades de perfuração e produção.
Essa conduta é um aspecto do problema geral de escolher entre desenvolvimento e preservação ambiental, um fantasma que persegue o atual governo, que não consegue perceber que é possível conciliar as duas opções.
Exemplo desses problemas é a euforia com a exploração do pré-sal, que inclusive já levou à aprovação de leis para dividir os royalties de petróleo que eventualmente só será produzido daqui a cinco ou dez anos. Até chegarmos lá, porém, há um longo caminho a percorrer.
O que aconteceu com o poço da Chevron é apenas um aviso, que talvez seja bem-vindo, porque acordará as autoridades para a necessidade de mais transparência na exploração do pré-sal.
Não é preciso entrar em depressão, mas reduzir a euforia em relação ao pré-sal, que lembra os tempos do "Brasil Grande".
Tem sido argumentado, por exemplo, que os poços de pré-sal estão a cerca de 300 quilômetros da costa e que, se houver derramamento de petróleo, ele se dispersará antes de atingir a costa -o que não significa que a vida marinha deverá deixar de ser seriamente afetada.
Outro argumento usado por técnicos da Petrobras é o de que a "melhor tecnologia disponível" está sendo usada na exploração, o que pode até ser verdade.
Contudo não existe experiência para retirar petróleo de reservatório situado abaixo da camada de sal de mais de três quilômetros, o que não foi feito ainda em outros países.
Estamos realmente entrando numa área nova, em que problemas inesperados podem ocorrer. Podemos liderar essa área ou comprometer seriamente seu futuro.