terça-feira, novembro 22, 2011

Euro - românticos maçantese cruéis PAUL KRUGMAN



O Estado de S. Paulo - 22/11/11




As coisas que esse grupo exige em nome de suas visões envolvem enormes sacrifícios dos trabalhadores e suas famílias


Se existe uma palavra que tenho ouvido muito ultimamente é: tecnocrata. Às vezes, ela é usada a título de escárnio - os criadores do euro são tecnocratas que não levaram em conta fatores culturais e humanos. Outras vezes é usada como elogio: os novos primeiros-ministros de Grécia e Itália são tecnocratas que estão acima da política e farão o que é preciso ser feito.

Acho injusto. Conheço tecnocratas, às vezes, eu mesmo atuo como um. E estas pessoas - as pessoas que obrigaram a Europa a adotar uma moeda comum e que estão forçando Estados Unidos e Europa a adotar em medidas de austeridade - não são tecnocratas.

Pelo contrário, são românticos irrealistas.

E, com certeza, trata-se de uma classe de românticos peculiarmente maçantes,que se expressam numa prosa grandiloquente em vez de poesia.

E as coisas que exigem em nome das suas visões românticas são cruéis, envolvendo enormes sacrifícios dos trabalhadores e suas famílias.

Mas persiste o fato de que essas visões são impelidas por sonhos de como as coisas deveriam ser e não por uma avaliação fria da maneira como as coisas realmente são.

E para salvar a economia mundial precisamos derrubar esses românticos perigosos dos seus pedestais.

Comecemos com a criação do euro. Se acha que este foi um projeto motivado por um cálculo cuidadoso dos custos e benefícios, você está muito mal informado.

A verdade é que,desde o início, a marcha da Europa na direção de uma moeda comum foi um projeto questionável sob qual quer análise econômica objetiva. As economias do continente eram muito discrepantes para funcionarem sem percalços com uma única política monetária para todas e, muito provavelmente, condenada a experimentar "choques assimétricos" em que alguns países entrariam em colapso, ao passo que outros prosperariam. E, ao contrário dos Estados do território americano, os países europeus não fazem parte de uma única nação com um orçamento unificado e um mercado de trabalho ligado por uma linguagem comum.

Assim, por que esses "tecnocratas" insistiram tanto no euro, desconsiderando os muitos alertas dos economistas? Em parte foi o sonho da unificação europeia que a elite do continente achou tão atraente que seus membros deixaram de lados as objeções práticas.

E em parte foi um ato de fé econômico, a esperança - impelida pela vontade de acreditar, apesar das fortes evidências do contrário - que tudo funcionaria bem desde que as nações praticassem as virtudes vitorianas da estabilidade de preços e a prudência fiscal.

É triste dizer, mas as coisas não funcionaram como prometido.

Contudo,em vez dese ajustarem à realidade, esses supostos tecnocratas redobraram a aposta - insistindo, por exemplo, que a Grécia conseguiria evitar o calote aplicando um plano de austeridade cruel, quando qualquer pessoa que conhece aritmética sabia que não daria certo.

Deixe-me tratarem particular do Banco Central Europeu (BCE) que, supostamente, seria a instituição democrática de última instância e que é conhecida por se refugiar na fantasia quando as coisas vão mal.No ano passado, por exemplo, o BCE confiou na afirmação de que cortes no orçamento, no caso de uma economia fragilizada, promoveriam uma expansão.

Estranha essa afirmação, isso não ocorreu em lugar nenhum.

E agora, com a Europa em crise - uma crise que não pode ser refreada, salvo se o BCE adotar medidas para interromper o círculo vicioso do colapso financeiros -, seus líderes ainda se agarram à noção de que a estabilidade cura todas as doenças. Na semana passada, Mario Draghi, o novo presidente do BCE,declarou que "ancorar as expectativas inflacionárias" é "a maior contribuição que podemos oferecer para apoiar um crescimento sustentável, a criação de empregos e a estabilidade financeira".

Trata-se de uma afirmação totalmente fantasiosa, feita no momento em que a inflação europeia esperada é bastante baixa e o que vem inquietando os mercados é o temor de um colapso financeiro mais ou menos imediato. E é mais uma proclamação religiosa do que uma avaliação tecnocrata.

Apenas para deixar claro, não estou me insurgindo contra os europeus, uma vez que temos os nossos pseudo - tecnocratas pervertendo o debate nacional. Em particular, grupos alegadamente apartidários de especialistas têm conseguido desviar o debate político econômico, mudando o foco do problema do emprego para o do déficit.

Os verdadeiros tecnocratas estão questionando por que isso teria sentido num momento em que o índice de desemprego chega a 9%e o juro sobre a dívida dos EUA é de apenas 2%. Mas, como o BCE, nossos tecnocratas ranzinzas têm seus argumentos sobre o que é importante.

Então, sou contra os tecnocratas? Não, absolutamente.

Gosto deles - são amigos meus. E precisamos de conhecimento técnico para lidar com nossas dificuldades econômicas.

Mas o nosso discurso está sendo distorcido por ideólogos e sonhadores - românticos

Brasa que se apaga - JOSÉ PAULO KUPFER



O Estado de S. Paulo - 22/11/2011




Que são anormais os tempos na economia disso ninguém mais duvida. Mas ainda é lenta a aceitação de que, em tempos anormais, também não podem ser normais as políticas econômicas mais adequadas para enfrentar esses tempos. Substituir - ou pelo menos flexibilizar - fórmulas consolidadas em décadas de aplicação bem sucedida é compreensivelmente difícil. Essa dificuldade, no caso brasileiro, é ainda maior porque o passado recente - este que, na economia, vem sendo atropelado por um presente repleto de surpresas - localiza-se num ponto fora da curva.

O ritmo de crescimento da economia brasileira em 2010 descolou da média da última década e meia. A alta de 7,5% do PIB apurada pelo IBGE - que na revisão de praxe a ser anunciada no fim do ano pode chegar perto de 8% - produziu uma série de desequilíbrios e estes se refletiram em distorções nos indicadores, sobretudo quanto observados em relação aos últimos 12 meses.

Isso é verdade, entre tantos outros, para os índices de inflação e para os de evolução do crédito. Mês a mês, em meio à ampliação do contágio da crise global, números exuberantes do mesmo período do ano passado vão dando lugar a índices mais moderados do momento. A "febre", medida pelo termômetro dos 12 meses, em razão da troca de números mais altos por novos mais moderados, está baixando aos poucos. Examinada, porém, com instrumentos prospectivos, já mostra, com clareza um firme esfriamento.

O governo, tendo à frente o Banco Central, parece ter entendido esse fato intertemporal e vem atuando de acordo com uma nova régua, mais voltada para os sinais da redução da velocidade projetada para a economia do que para os indicadores quando observados daqui para trás. É o que explica as "surpresas" não só com o início do ciclo de cortes dos juros básicos em agosto, mas também com o alívio das medidas de contenção do crédito no ano passado. Seria difícil mesmo entender esses movimentos diante dos níveis elevados, em 12 meses, tanto da inflação quanto do ritmo de concessões de crédito.

Quando, porém, se constata que a expansão acelerada de 2010 vem sofrendo uma forte reversão, fica mais fácil compreender porque a política macroeconômica também vem passando por reversões, substituindo anteriores providências de aperto por novas medidas de alívio. O que, em resumo, poderia ser visto como lenha na fogueira parece ser, na verdade, uma tentativa de manter avivada uma brasa que se apaga.

Assim como a taxa de desemprego chegou ao ponto mínimo e agora tende a aumentar, também a inflação bateu no teto e começa a recuar. Ao mesmo tempo, o endividamento das pessoas chegou ao limite, devendo entrar numa trajetória de queda. São todos movimentos recentes, que tomaram corpo no segundo semestre, período em que a política econômica ainda se esforçava para segurar o nível de atividades aquecido que transbordou de 2010. A reversão das curvas de acompanhamento da evolução da economia - não uma ou outra, mas paulatina e praticamente todas - dá indicações já bastante seguras de que o esfriamento então pretendido agora pode dispensar as restrições antes adotadas. E até mesmo receber reforço de novos alívios, como a esperada nova redução da taxa básica de juros, na reunião do Comitê de Política Monetária, prevista para a próxima semana.

Por vários ângulos, os sinais do momento são de moderação na economia brasileira. O saldo das contratações formais no mercado de trabalho cai mês a mês, refletindo um arrefecimento que atinge todos os setores de atividade. Em linha com essa tendência, a inadimplência do consumidor recua há dois meses, assim como a demanda por crédito para consumo já registra duas quedas mensais consecutivas.

Não parece se tratar de um quadro apenas temporário. O economista Luiz Rabi, da Serasa Experian, classifica o momento atual como um período de recuperação de crédito. Nunca, aliás, a intenção de utilizar o 13.º salário para quitar dívidas foi tão disseminada, alcançando agora o recorde de 60% dos entrevistados, na tradicional pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças. Rabi considera que os consumidores, com a renda mais comprometida pelo efeito do repique da inflação até setembro, dos juros em ascensão no primeiro semestre e das medidas de restrição ao crédito, decidiram promover uma correção de rota, depois de um ano e meio de altas acentuadas nos níveis de endividamento. Para o economista, o alívio agora anunciado no crédito, justamente por essa razão, pode demorar mais do que se imagina para fazer o serviço pretendido de reestimular o consumo.

O vento virou. Seria estranho se os rumos da política econômica não virassem também.

GOSTOSA


O meu melhor amigo - ARNALDO JABOR


O GLOBO - 22/11/11

Não estou mais com 8 ou 10 anos e acabo de entrar na universidade. Lembranças surgem e somem na minha cabeça. Hoje me lembrei do Nelson: "Genial!" - ele disse perto de mim, sobre um filme que estava passando. Acho que foi A Aventura, do Antonioni. Ergui os olhos e vi, pela primeira vez, aquele que virou meu melhor amigo. Eu me sentia deslocado entre tantos colegas já de terno e gravata, prontos para a vida de advogados. Nelson me pareceu irmão de infortúnios, de loucura, eu que odiava as aulas de Direito num país onde a lei (eu já sentia) era uma piada. Vivíamos entre duas revoluções: a revolução política e a revolução sexual. A pílula ainda não tinha chegado, mas já havia um clima de temerosa liberdade: os 'amassos' eram mais fortes nos automóveis, os vestidos eram mais curtos e sentíamos que em breve amor e sexo seriam diferentes.

As meninas deixavam quase tudo, mas enguiçavam na porta dos apartamentos - naquela época, a gravidez solteira era doença venérea.

Eu tive uma namorada, não mais virgem, que nunca me permitiu repetir o feito do 'ex' - na ilusão de 'reconstituir' a inocência perdida.

Uma outra se entregava loucamente, de olhos em alvo, com gemidos de angístia, simulando um 'desmaio' que a absolvia do consentimento, como se não fosse ela que estava ali.

Mas, Nelson, esse se apaixonava. Seus namoros eram de pierrô - mãos dadas, beijos trêmulos. Ele não era feio, mas sua calvície precoce, sua inteligência esmagava as meninas em conversas infinitas, sua leve obesidade em calças de tergal herdadas do pai, sem a menor vaidade masculina, afastava possíveis namoradas.

Nelson não era gay. Ao contrário, mostrava interesse demais pelas moças e não exibia o típico distanciamento viril, para se fazer desejado.

Em conversas ansiosas, elas percebiam sua insegurança denegada, em sua simpatia percebiam o medo e, assim, ficavam suas amigas, mas nunca amantes, enquanto os cafajestes juvenis levavam-nas para mãos nos peitos, sutiãs rasgados, calças arriadas nos bancos de trás dos carros.

Nossa amizade crescia na fome de literatura.

"Quero fazer arte séria!", ele dizia, berrando poemas nas noites estreladas, com sua voz arfante: "April is the cruellest month (...) mixing memory and desire! Genial! Genial!"

Um dia, chegou a pílula e, com ela, amores famintos, os motéis, orgasmos nas noites, os biquínis, os peitos de fora, o fim da aura de pureza ou inocência, beijos de língua, corpos nus entrelaçados.

Nelson apareceu com uma namorada. Era uma garota de roupa muito justa, levemente estrábica, uma sensualidade enleante, visível orgulho de seus seios empinados, parecendo gostar muito do Nelson que a cobria de gentilezas, beijos leves, abraços apertados e uma alegria imensa no rosto. Estava mais adulto, confiante.

"E aí?" - perguntei - "cabaço?"

Ele ficou encabulado. "Não... teve um namorado..."

"Então, o virgem é você! - sacaneei.

Ele riu alto e arfou: "Isso! Rimbaud: "Par delicatesse, j'ai perdu ma vie! Genial! Genial!"

E aí, sumiu durante um tempo. Vivia nos balcões dos cinemas, aos beijos sem fim, sob a luz vigilante dos lanterninhas. Passaram-se uns meses e, um dia, ele me procurou de novo.

Estava mudado. Disse que ia trabalhar num escritório, usava um terno cinzento e uma gravata torta e seus olhos mostravam uma tristeza imensa. Estranhei quando me levou à sua casa e me deu sua coleção dos Cahiers du Cinéma, amarelos, que até hoje guardo.

"Que é isso, Nelson? Os Cahiers?"

"Já li tudo, pode levar...", disse, com se desistisse de alguma coisa.

Na sala, a empregada preta servindo café, um pai gordo e tristíssimo vendo a televisão preto e branco, a mãe lendo a Manchete, tudo sob luzes mortiças e quadros feios, móveis escuros, cortinas ventando como velas de um barco parado.

Entendi de onde vinha a ansiedade do Nelson, querendo respirar a vida. Na porta do elevador, perguntei: "E aí? E a namorada?"

Seu rosto ficou sombrio. "Esta aí, estamos nos vendo..."
Ele sumiu de novo e fui tocando a vida.

Um dia, a garota (Mariana, creio) me apareceu no pequeno apartamento de meu pai em Copacabana, para onde eu fugia. Ela entrou agitada, sem cerimônia, cruzou as pernas fumando e falando sem parar, elogiando muito a bondade do Nelson, sua inteligência, mas acabou dando a entender que a relação estava impossível, que não dava mais, que ele era o máximo, mas...

"Mas, o quê..?

"Não dá mais... ele não consegue, fica chorando com as mãos nos rosto, chorando na beira da cama, dizendo que não consegue, chorando nu, sem parar."

Mariana caiu em prantos e se agarrou a mim, soluçando. Seus seios (seu orgulho) arfavam contra meu corpo e suas lágrimas me molhavam o rosto, que ela começou a beijar febrilmente até a cama onde caímos naquela tarde chuvosa. Foi tudo muito intenso e rápido e ela saiu fumando nervosamente.
Não sabia por onde andava o Nelson, e isso me aliviava, pois ele trabalhava mesmo num escritório de advocacia na Cinelândia.

Passaram uns meses e foi então que tive meu primeiro contato com a tragédia.
Pelo telefone, me chega a notícia de que Nelson tinha morrido. O lanterninha o encontrou imóvel, com seu terno cinzento. Ele morrera do coração silenciosamente, aos 23 anos, dentro de um cinema, sozinho.

Eu nunca tinha visto um morto e, nublado por minhas lágrimas, lá estava seu rosto pálido rodeado de flores. A desgraça era absurda e sua família gemia de dor, sem entender como aquilo podia ter acontecido. As pessoas me olhavam espantadas, porque eu chorava abertamente, de rosto erguido para todos verem e experimentava um estranho prazer em deixar as lágrimas rolando sem parar, pois eu queria que todos me vissem, eu me orgulhava do pranto, quase vergonhoso, excessivo. Muitos estranhavam tanta dor. Creio mesmo que exagerei conscientemente meus soluços. Não sabia porque chorava tanto, mas sabia que tinha de chorar. Hoje, me lembrando, entendo tudo, claro.

Nelson morrera assistindo a Palavras ao Vento, de Douglas Sirk, com Lauren Bacall e Rock Hudson, em reprise no Pathé. "Genial!" - ele teria dito se me encontrasse depois.

A máquina de triturar governos - CLÓVIS ROSSI


FOLHA DE SP - 22/11/11

Agitação nos mercados torna Europa ingovernável, independentemente do partido dos políticos


Na antevéspera da votação, Mariano Rajoy, presidente eleito do governo espanhol, havia mendigado aos mercados que lhe dessem mais de meia hora de trégua, no pressuposto de que governos eleitos devem ser respeitados.

Até concordo com o pressuposto, mas os mercados, ah, os mercados, não lhe deram nem um minutinho, nem um segundo sequer: a Bolsa de Madri caiu, e o risco-país da Espanha foi o que mais subiu ontem, outro dia de baderna nos mercados.

Hoje, é possível que os mercados se acalmem, para voltarem aos berros amanhã ou depois. Talvez, quando Rajoy tomar posse efetivamente, em dezembro, até ganhe seus 30 minutos de paz. Mas os movimentos de ontem são uma indicação adicional de que a Europa está se tornando ingovernável. Ou de que é governada pelos mercados, não pelos líderes eleitos, qualquer que seja a coloração política deles.

Um repasse rápido aos governos triturados nas urnas desde 2010, quando a crise de 2008 entrou no seu segundo tempo, centrado mais na Europa:

Reino Unido: Na eleição de maio de 2010, o trabalhista Gordon Brown obtém o pior resultado para seu partido desde 1983.

Holanda: O derrotado é o democrata-cristão Jan Peter Balkenende, que perdeu a maior quantidade de eleitores em 23 anos.

Irlanda: O Fianna Fáil (Partido Republicano), hegemônico desde a independência, perdeu 24% de seus votos e caiu para o terceiro lugar.

Portugal: Os socialistas tiveram, em junho, o pior resultado em 20 anos e perderam o governo para os conservadores (mais ou menos como aconteceu agora na Espanha).

Dinamarca: Ao contrário de Portugal e Espanha, a social-democracia é que acabou com dez anos de sucessivos governos de direita.

Se se quiser recuar algo mais no tempo, até 2008, o cenário é ainda mais turbulento, pela contabilidade de Ignacio Molina, pesquisador do Real Instituto Elcano (Espanha): de lá para cá, os eleitores castigaram todos os governantes, salvo na Suécia, na Polônia e na Estônia.

"Caíram 21 Executivos, contando o da Itália. Quem governa tem agora opções muito restritas e não pode aplicar seu programa", afirmou Molina a "El País".

A ideia de que os eleitores mais castigam o governo de turno do que premiam a oposição fica nítida no caso da Espanha: o governante PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) perdeu 59 cadeiras nas Cortes, o Parlamento, mas o PP (Partido Popular) ganhou apenas 32, o que não deixa de ser uma anomalia em um sistema que é praticamente bipartidário.

Mais: os 10,8 milhões de votos do PP de Rajoy correspondem a apenas 30% dos 35,8 milhões de eleitores. É claro que a votação lhe dá a mais ampla legitimidade para formar o governo e controlar o Parlamento, mas, na conjuntura crítica que a Espanha vive, qualquer governante precisa de uma massa crítica de apoios ainda mais robusta e que vá além da política.

Para não falar de atores menos poderosos, precisa do mercado, que, como se vê pela lista de decapitações que ajudou a operar, não liga a mínima para a cor política do governante de turno. Berlusconi que o diga.

GALÃ URGENTE - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 22/11/11 


O apresentador da TV Bandeirantes José Luiz Datena posou para a "Rev. Nacional", do fotógrafo J.R. Duran. E revelou: "Se eu tivesse que 'dar' pra alguém, 'daria' pro Alain Delon [ator francês]". A publicação será lançada hoje, a partir das 17h, na Loja do Bispo.

LEÃO NA MASSA
A Receita Federal está cobrando R$ 140 milhões da massa falida do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira. Os valores referem-se ao não pagamento de Imposto de Renda, PIS e Cofins referentes a 2004, acrescidos de multa e juros.

TRANSFERÊNCIA
O administrador da massa falida, Vânio Aguiar, diz que está recorrendo. E que a autuação se refere à corretora PDR. Ela teria sido usada para desviar recursos do Santos, mas seria "estranha" ao banco, já que Edemar nega ser seu dono. A Receita não aceitou os argumentos.

MICROFONE FECHADO
Impedida pelo governo de falar na cerimônia de instalação da Comissão da Verdade para não melindrar os militares, a psicóloga Vera Paiva, filha de Rubens Paiva, desaparecido desde 1971, diz que, em vez de proibir seu pronunciamento, os oficiais deveriam ter falado também. "Teria sido mais coerente. Eles teriam o que dizer, defendendo a Constituição e a importância de se conhecer a verdade. Eles fariam o quê? Defenderiam a ditadura?"

MICROFONE FECHADO 2
Vera divulgou no fim de semana o texto do discurso que faria. "Eu apoio a Comissão da Verdade e fui lá [à cerimônia de Brasília] na confiança. Foi um mau começo. Espero que seja corrigido."

MICROFONE ABERTO
A presidente Dilma Rousseff gravou no domingo participação no programa do PT que vai ao ar no dia 8. E vai estrelar inserções publicitárias de dezembro -inclusive na véspera do Natal, 24.

PRÓXIMO PASSO
Reynaldo Gianecchini deve dar entrada no hospital Sírio-Libanês na próxima semana para se preparar para o autotransplante. A previsão é que ele fique um mês internado. O ator marcou para amanhã exame de PET Scan, um dos mais avançados para diagnósticos de câncer, para monitorar a resposta à primeira etapa do tratamento de seu linfoma.

EXTRA
Zezé Di Camargo e Luciano vão interromper as férias de janeiro para duas apresentações extras no Credicard Hall, em SP.

Com shows lotados, a dupla sertaneja acertou duas novas datas para subir ao palco: 13 e 14 de janeiro.

DO LÍBANO
A libanesa Katia Saleh, produtora da série feita para internet "Shankaboot", vencedora do Prêmio Emmy, vem ao Rio em 2012. Ela será uma das palestrantes do evento RioContentMarket.

GESTAÇÃO DE LUCROS
Mãe de dois filhos, a apresentadora Angélica, da TV Globo, deve ser anunciada hoje como sócia do site Baby.com.br. A página, de comércio eletrônico, vende artigos para bebês e gestantes.

Sua participação deve ser semelhante à que o marido, Luciano Huck, tem com o Peixe Urbano, usando as redes sociais para divulgar as ofertas da página.

CEREJA
O Brasil sediará pela primeira vez, em 2012, um encontro das agências reguladoras de medicamentos de todo o mundo, equivalentes à Anvisa nacional. Será um fórum de cúpula, com a presença de representantes de países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.

No mesmo ano, em Brasília, haverá reunião de 57 países que participam do programa da Organização Mundial da Saúde para monitoramento de medicamentos.

É PIQUE!
A promoter Alicinha Cavalcanti fez sua "festa anual de 38 anos" no sábado, em seu apartamento, em Cerqueira César. Entre os convidados, o ator Fiuk e a namorada, Natália Frascino, a apresentadora Marília Gabriela e o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez. Alicinha conta que ofereceu hospedagem em hotel para os vizinhos.

TELAS E PINCÉIS
As galeristas Márcia Fortes e Alessandra d'Aloia fizeram festa para comemorar os dez anos de seu espaço de arte, a Fortes Vilaça, com sedes nos bairros Vila Madalena e Barra Funda. O publicitário Washington Olivetto circulou pelo evento, no sábado à noite, no galpão da Barra Funda.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

PIB nominal? - ANTONIO DELFIM NETO



Valor Econômico - 22/11/2011


A última reunião do G-20 terminou de maneira decepcionante. Foi quase uma tertúlia lítero-musical. Terminou, como todas elas, com a convocação da próxima... A carência de ideias, o despreparo das propostas, a visível insegurança das principais lideranças internacionais e a aparente alienação dos EUA com relação ao problema da Eurolândia orquestraram um espetáculo no mínimo assustador.

O Brasil, na minha opinião, saiu bem na foto. Colocou de forma séria o enorme problema dos desequilíbrios comerciais gerados por políticas cambiais claramente protecionistas de alguns países. Mais do que isso. Discreta, mas firmemente, referiu-se às distorções adicionais produzidas pelas disparidades abissais entre as políticas civilizatórias de proteção ao trabalho que as acompanham em alguns deles. Isso transforma a teoria das vantagens comparativas, que recomenda a liberdade absoluta de comércio, de uma bela história da carochinha numa peça de horror...

No mesmo momento, numa batalha de sites, blogs e "tutti quanti", alguns economistas exumam parte de uma velha ideia, desenvolvida por um grupo de Cambridge (Inglaterra) coordenado pelo competente James Meade (1907-1995, Nobel de 1977), que durante toda a sua vida preocupou-se em como transformar o conhecimento da economia em eficientes receitas para a política econômica.

Trata-se, no fundo, de dar às políticas fiscal, monetária, salarial e cambial não uma meta de inflação, mas uma meta para o Produto Interno Bruto Nominal, de forma que a sua partição entre o crescimento do PIB real e o aumento dos preços dependa da eficiência com que o poder incumbente cria as facilidades para o crescimento físico da economia.

Ao Banco Central, cabe garantir a liquidez para o cumprimento da meta do PIB nominal (PIBN). Quem tiver interesse arqueológico pode consultar o livro "Macro-Economic Policy" (London, 1989), de Weale, M.; Blake, A.; Christodoulakis, N.; Mead J. e Vines, D..

A sugestão é interessante, mas não é isenta dos mesmos grandes problemas que enfrentamos com o sistema de metas inflacionárias e a sua nova ênfase: é preciso cuidado e flexibilidade para controlar a inflação, ao mesmo tempo em que se avaliam os custos sociais das flutuações do PIB e do nível de emprego. No keynesianismo ortodoxo, a função da política econômica era manter um alto e estável nível da demanda global. Quando isso pressionasse a taxa de inflação, seria preciso utilizar políticas de rendas (salários e preços) e providenciar mudanças estruturais para eliminá-las.

No Novo Keynesianismo (de 1977), propõe-se o contrário: utilizar as políticas monetária e fiscal para manter o PIB nominal (PIBN) numa taxa de crescimento estabelecida e deixar por conta do poder incumbente as reformas estruturais das políticas de salário e de preços, para garantir que, enquanto existirem fatores de produção disponíveis, os aumentos de demanda global (PIBN) levem a um aumento do PIB real e não dos preços e dos salários.

A proposta era muito mais sofisticada e impunha uma segunda condição à política econômica: garantir um nível de investimento que leve ao crescimento da capacidade produtiva, porque - como dizem os autores -, "os formuladores da política econômica têm a tentação de controlar a taxa de inflação com expedientes que elevam o padrão de vida presente em detrimento do futuro".

O programa proposto é muito rico e no velho estilo de modelos simples e próximos da realidade. É interessante para os que aprenderam a duvidar das virtudes dos equilíbrios produzidos pelas "leis naturais do mercado perfeito" e já perderam a esperança que os "policy makers" são oniscientes e, portanto, devem ser onipotentes...

Na sua nova encarnação, a ideia de propor meta para o PIB nominal parece um "surto epidêmico", particularmente nos blogs de importantes economistas. A ideia circulou, sem repercussão, no início dos anos 80 do século passado, devido ao grande economista monetário Bennett McCallum.

Mais recentemente, tornou-se uma espécie de cruzada, depois que Scott Summer, David Beckworth e Paul Krugman a abraçaram, em seus blogs. Entre nós, o excelente economista João Marcus Marinho Nunes a vem defendendo há algum tempo e tem navegado com sucesso entre eles.

Provavelmente, esse movimento é apenas uma reação à evidente falta de imaginação das autoridades monetárias, particularmente o Fed, comandado por Ben Bernanke, que não consegue o suporte necessário de seus pares. Lembremos que o presidente Obama não conseguiu aprovar no Senado, até agora, a indicação de dois diretores do Fed. A situação está ficando muito incômoda.

Num artigo de elegância maliciosa, Christina Romer (que foi defenestrada pelos assessores econômicos de Obama da função de presidente do Council of Economic Advisers da Casa Branca) recomendava a Ben Bernanke que assuma um programa de meta de PIB nominal ("Dear Ben: It´s Time for Your Volcker Moment", "The New York Times", Oct. 29).

E, por último, a Goldman Sachs, em dois excelentes documentos ("US Economics Analyst", Oct. 12, e "Global Economics Weekly", Oct. 26), colocou a pasta de dente fora do tubo. Vai ser difícil colocá-la de volta...

O uso de medidas flexíveis nas crises - JOSÉ PASTORE



O Estado de S. Paulo - 22/11/2011

Apresentei ontem os resultados de uma pesquisa que compara as soluções que Alemanha e Brasil adotam nas crises que ameaçam destruir empregos.

São dois países bastante diferentes. A Alemanha produz e exporta bens de alta tecnologia. O Brasil produz e exporta (predominantemente) bens de baixo valor agregado. Na Alemanha, a força de trabalho tem, em média, 13 anos de boa escola. No Brasil, são 7 anos de má escola. A renda per capita dos alemães (medida em poder de compra) é de 29.200 anuais. A do brasileiro equivale a 7.800. Entre nós, a desigualdade é imensa. Entre os alemães, é mínima. O sistema de relações do trabalho da Alemanha se baseia na negociação, no entendimento e nas condutas construtivas. O do Brasil, em legislação, desconfiança e ações judiciais.

A despeito de todas essas diferenças, a pesquisa mostrou que empregadores e empregados que usam medidas flexíveis nos momentos de crise se dão bem; os que não as usam se dão mal. Em outras palavras, o uso adequado dessas medidas preserva os talentos e mantém as pessoas trabalhando. A rejeição destrói o capital humano e põe as pessoas no desemprego (Werner Eichhorst, Paul Marx e José Pastore, O uso de medidas flexíveis para lidar com crises econômicas na Alemanha e no Brasil, São Paulo: Fecomércio, 2011).

Esses foram os resultados encontrados nos dois países durante a crise de 2008-2009. A utilização do banco de horas, da redução de jornada e de salário, da suspensão temporária dos contratos de trabalho (lay off) e de outras medidas flexíveis permitiram às partes superarem as dificuldades, mantendo o mesmo capital humano e os mesmos empregos.

Mas notou-se uma importante diferença. Na Alemanha, essa prática faz parte do cotidiano. Na crise de 2008-2009, foram insignificantes os casos de rejeição de medidas flexíveis. No Brasil, foi praticamente a exceção. Poucos usaram tais expedientes. Consequência: no curto período de novembro de 2008 a fevereiro de 2009, foi destruído mais de 1 milhão de postos de trabalho. Por sua vez, os que fizeram uso da (pouca) flexibilidade existente salvaram muitos empregos.

Ao aprofundar o exame das diferenças entre as empresas brasileiras que usaram e as que não usaram medidas flexíveis, encontramos o seguinte quadro.

Muitas empresas nem consideraram o seu uso, temendo que os acordos viessem a ser anulados pela Justiça do Trabalho, o que já aconteceu no Brasil e jamais aconteceria na Alemanha. Lá, o negociado é sagrado e respeitado. A Justiça não tem alçada para desfazer o que as partes consideram adequado. No Brasil, as leis são rígidas, inflexíveis e sujeitas a interpretações oscilantes dos magistrados, que, muitas vezes, anulam cláusulas de acordos negociados.

Outras empresas tentaram usar o que dispõe a lei, mas recuaram por não contarem com o apoio dos sindicatos laborais, o que também não ocorre na Alemanha, onde na maioria das empresas há uma parceria construtiva. No Brasil, o preço da rejeição foi alto, com dispensas devastadoras. Houve empresas que despediram milhares de empregados em um só dia.

A pesquisa focalizou, porém, os casos em que as partes se puseram de acordo e negociaram medidas flexíveis. Em todos eles, foi salva uma grande quantidade de postos de trabalho e preservado o mais precioso capital das empresas: seus colaboradores. Para essas empresas, tudo foi mais fácil na retomada de 2009.

Apesar de resultados tão evidentes, a flexibilização no Brasil ainda gera muitas resistências. Entre nós, esse termo virou um palavrão. Na Alemanha, é medida de salvação.

Espero que a atual crise da Europa não chegue ao mercado de trabalho do Brasil. Mas, se chegar, convém lembrar que o bom senso, a negociação e o entendimento podem mitigar os estragos de uma eventual recessão.

Impasse gigante - MIRIAM LEITÃO



O Globo - 22/11/2011


De novo, a sombra da dívida americana ameaça a economia mundial. O supercomitê dos dois partidos admitiu ontem que fracassou a negociação para reduzir o gasto público de longo prazo. Parte desse aumento do déficit americano foi resultado de políticas de transferências governamentais para manter o consumo; mas a fatia do leão continuou indo para os militares.

Os gastos militares em 2010 atingiram o maior patamar da história, consumindo US$690 bilhões. O déficit mensal médio do governo americano nos últimos 12 meses foi de US$105 bi. A dívida chegou a US$15 trilhões. As contas públicas americanas estão fora da ordem nessa desordem mundial. Houve despesas que evitaram o aprofundamento da recessão. O problema é que apesar do gasto a ameaça de queda da atividade da economia americana continua rondando.

Em agosto, quando ocorreu o impasse da elevação do teto da dívida, foi feito um acordo político que incluía a criação desse comitê no Congresso, com integrantes dos dois partidos, para saber onde cortar US$1,3 tri em 10 anos. O ambiente político polarizado produziu o impasse. O prazo para o novo acordo termina amanhã, mas tem que ser apresentado ao Congresso com 48 horas de antecedência.

Além disso, na negociação anterior ficou acertado que se o comitê não chegasse num acordo haveria cortes maiores nas despesas militares. Um dos problemas da redução de certos gastos é que eles podem reverter a incipiente recuperação - hoje por volta de 2% de alta no PIB. Sem as transferências governamentais, a renda disponível das famílias estaria em patamar menor (vejam no gráfico). No final do ano, dois programas perdem a validade - o da redução do imposto de renda; e o que amplia o prazo de recebimento de seguro-desemprego. Pelos cálculos do Bank of America, se os programas forem suspensos cerca de US$130 bi não chegarão aos consumidores.

O banco aumentou a probabilidade de recessão no ano que vem, de 35% para 40%. Isso apesar dos bons números do comércio nos últimos dois meses, que tiveram aumento de vendas de 8%, anualizado. A poupança das famílias que em 2008 chegou a 6,2% caiu para 4,1%, no último dado disponível, e isso significa que o fôlego para continuar comprando está menor. Também está crescendo a possibilidade de contágio da crise europeia.

"Não acreditamos que os fundamentos darão suporte à melhora dos dados de consumo. O crescimento da renda é lento, o crédito está apertado, a poupança está mais baixa. Mas o maior risco vem de um transbordamento da crise europeia", escreveu o banco em relatório.

O Bank of America prevê desaceleração do PIB americano de 2012 para 2013, de 2% para 1,4%. O preço das residências deve cair 8% este ano, ficando 38% mais baixo que o pico, de 2006. O economista Roberto Prado, do Itaú BBA, explica que há três forças empurrando a economia americana para baixo: o corte de gastos; a redução do consumo na Europa e no mundo; a piora do crédito e do sistema financeiro. Por isso o presidente Obama está lutando para prorrogar as transferências de renda.

- Quando se falava de calote na Grécia, o risco para o sistema financeiro americano era pequeno. Agora, as perdas que os bancos estão tendo com os títulos soberanos já são significativas. O aumento dos juros de Espanha, Itália e França mexe com o balanço de bancos que carregam esses papéis. Isso dificulta a capacidade deles se alavancarem - disse Prado.

A Europa consome 14% das exportações americanas. Ainda assim, Prado explica que o efeito da crise será maior porque o consumo mundial como um todo ficará menor:

- A Europa é muito aberta e ela vai afetar o desempenho de outros países que compram dos EUA.

O mundo conseguiu produzir este ano uma quantidade expressiva de problemas, impasses, riscos, ameaças. Não há quem fique blindado contra isso. No Brasil, o crescimento veio minguando ao longo do ano deixando as empresas confusas sobre como se preparar para 2012.

Sob nova direção - CELSO MING



O Estado de S. Paulo - 22/11/2011


Em somente duas semanas, caíram três dos cinco chefes de Estado que governavam o chamado grupo dos Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha): George Papandreou, da Grécia; Silvio Berlusconi, da Itália; e José Luis Rodriguez Zapatero, da Espanha.

Os três foram removidos pelo mesmo gigante engolidor de dirigentes políticos, movimento que nada tem a ver com ideologia. Simplesmente, a crise econômica foi maior do que eles.

Nesse fim de semana, a Espanha consagrou o conservador Mariano Rajoy (foto) com a maior vitória eleitoral dos últimos 30 anos. Seu partido, o Partido Popular, venceu em 177 dos 179 municípios e amealhou folgada maioria no Parlamento.

Mas os mesmos ventos que transferiram esse montão de votos para Rajoy podem levá-los embora. Ninguém sabe o que o novo governo pretende fazer para dominar a situação atual. Talvez nem mesmo Rajoy saiba claramente.

A Espanha tem a metade da dívida (60% do PIB) da Itália (120% do PIB). Apesar disso, seus títulos estão sob ataque há várias semanas e são obrigados a pagar rendimentos (yields) cada vez mais altos. Mas seu desemprego é recorde. Tem 5 milhões de trabalhadores – 22,6% da população ativa – em busca de trabalho (dados de setembro). O que mais preocupa é o número de jovens desempregados: nada menos que 50% deles. E é nesse segmento que cresce o Movimento dos Indignados. Assim, é o futuro que está sendo mais ameaçado (veja o Confira).

A paradeira econômica deve impedir que o PIB da Espanha (quarta maior economia do euro) avance mais do que 0,5% neste ano. Seu principal produto de exportação, o turismo (receitas anuais acima de 50 bilhões de euros), está sendo fortemente açoitado pelo colapso global, que está reduzindo o afluxo de visitantes.

Para sair da encalacrada não há outro remédio que não o convencional: cortes de despesas públicas, encolhimento de salários e aposentadorias, ganhos de produtividade e reformas para dar mais competitividade ao produto espanhol. Bom número de economistas avisa que esse é o caminho mais curto para a catástrofe, por diminuir a atividade econômica e a arrecadação e elevar o desemprego e as despesas com seguro social. No entanto, sem recursos em caixa, não há como providenciar investimentos públicos que façam a economia decolar.

Ao longo da campanha eleitoral, Rajoy foi lacônico sobre seus planos destinados a ganhar a confiança dos investidores. Não adiantou mais do que um vago pacote de "austeridade sem cortes".

Por temperamento, não é dado a radicalidades e preferiria agir gradativamente. Mas raramente o tempo dos políticos converge com o dos mercados. Sob pena de perder sua força política agora arrebatada, terá de agir o quanto antes.

Sabe-se que pretende enxugar a administração pública e levar a cabo reforma trabalhista que simplifique o sistema de contratação de pessoal – numa economia de relevante uso de mão de obra temporária. Espera-se aumento da idade para aposentadoria e criação de fundo de capitalização que financie o seguro desemprego.

Isso tem um custo político. Rajoy começa a governar sem margem para erros. Seu maior risco é o de que seu enorme capital eleitoral desmorone rapidamente.

CONFIRA

Você tem aí uma ficha da Espanha. A rejeição que seus títulos sofrem no mercado tem mais a ver com a falta de perspectivas de crescimento econômico e o alto nível de desemprego do que com estouro das despesas públicas.

A questão bancária. Uma das imposições da União Europeia é a Espanha capitalizar seus bancos. Rajoy tem se mostrado contra. Argumenta que os bancos espanhóis estão pouco expostos às dívidas da Grécia. Aparentemente, teme que essa exigência leve instituições financeiras da Espanha a desovar ativos para diminuir a exigência de capital e que isso bloqueie o crédito e a recuperação da economia.

Escolas e prisões - LUIZ GARCIA



O Globo - 22/11/2011

O jornal descobriu que o Brasil gasta mais com seus presos do que com seus estudantes. No caso do governo federal são, em média, R$15 mil por ano com estes e R$40 mil com os presos. E nos estados a distância é maior: para os presos, R$21 mil, para os alunos, R$2.300.

A comparação é dramática, mas na verdade não significa obrigatoriamente grande coisa. O que realmente importa é o contraste entre recursos e necessidades. E tanto especialistas em educação como pesquisadores de problemas de segurança pública não se declaram satisfeitos: afirmam que se gasta pouco nas escolas e mal nas penitenciárias.

Especialistas da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, no sistema atual seria necessário aumentar os gastos em algo entre 40% e 50%. Mas, se for implantado o Plano Nacional de Educação - um projeto que está em discussão no Congresso -, o custo aumentará em 100%. Por enquanto, ninguém se aventurou a prever de onde sairá o dinheiro para isso.

Já quem se preocupa com o sistema penal reconhece, apesar das críticas, que a União está investindo corretamente na construção de penitenciárias: com uma que será inaugurada em 2012, serão cinco as unidades federais que se somaram ao sistema penal nos últimos anos. E o Ministério da Justiça vai anunciar esta semana gastos de mais de R$1,1 bilhão em construção e reformas na rede de cadeias públicas.

É claro que os problemas do sistema penal não se limitam ao número de celas disponíveis. Pelo menos em tese, as prisões não existem apenas para punir criminosos, e sim para isolar os irrecuperáveis e preparar para a volta à liberdade os condenados por delitos, digamos assim, eventuais. E especialistas no assunto também defendem um aumento na aplicação de penas alternativas, beneficiando réus primários e evitando as consequências obviamente negativas de sua convivência com bandidos irrecuperáveis.

Tudo isso é importante, nada disso é novidade, mas sempre vale a pena lembrar que é melhor e mais barato reduzir a necessidade de punir o crime - o que se consegue agindo sobre as frustrações e tentações que levam à criminalidade.

A responsável - MERVAL PEREIRA



O Globo - 22/11/2011

A desmoralização do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, tem o efeito imediato de desmoralizar junto com ele o seu partido, o PDT, mas paradoxalmente não atinge, pelo menos até o momento, o prestígio da presidente Dilma junto à população, que não identifica nela o que ela realmente é: a única responsável pela indicação de um ministro desqualificado para seu governo e, mais que isso, pela sua manutenção no cargo, mesmo depois de ter mentido privadamente para a própria presidente e publicamente numa comissão do Congresso.

Fora as acusações de corrupção no ministério que, com a comprovação de que o próprio ministro viajou de carona com o presidente da ONG Pró-Cerrado, que tem contratos milionários com o Ministério do Trabalho, já envolvem Lupi diretamente.

Mesmo sem ter tomado a iniciativa de nenhuma das cinco demissões por corrupção - é interessante notar que o único caso em que a presidente assumiu a dianteira foi na única demissão que não teve nada com corrupção, a do ministro Nelson Jobim (Defesa), que fez críticas públicas a companheiros de governo -, a presidente Dilma vem recebendo por parte da opinião pública a responsabilidade por uma "faxina ética", que hoje está evidente que nunca existiu como projeto de governo, mas continua tendo seus efeitos políticos positivos para ela.

O problema que já começa a perturbar os partidos aliados é que essa sucessão de crises ministeriais, ao mesmo tempo em que aumenta estranhamente a popularidade de Dilma, aprofunda inversamente a descrença da população nos partidos políticos, que no final das contas são os únicos responsáveis, diante da opinião pública, pelos desvios de conduta, e também não recebem os bônus por eventuais programas de governo que deem certo. Nesses casos, é também a presidente Dilma que recebe o reconhecimento da população.

Como estamos em regime presidencialista, a responsabilidade por erros e acertos deveria ser da presidente, assim como a decisão de tirar ministro que ficasse inviabilizado, por qualquer motivo, de continuar no governo. Como vem ressaltando nos últimos dias o deputado do PDT Miro Teixeira, que dirigiu a pasta das Comunicações no primeiro ministério do governo Lula.

Até porque, em última instância, foi a presidente quem o escolheu para o ministério. Para os políticos sérios - que ainda os há -, está se tornando um péssimo negócio fazer parte do Ministério Dilma.

A não ser que ela, na reforma ministerial anunciada para o início do ano, resolva montar uma equipe de acordo com um programa de governo previamente negociado com os partidos políticos, num governo de verdadeira coalizão partidária.

O que temos hoje é um governo de cooptação, que se baseia em interesses outros que não os do país.

A propósito da coluna de domingo, "A moral do dinheiro", baseada em uma exposição que vi recentemente no Palazzo Strozzi, em Florença, sobre a influência do dinheiro no desenvolvimento das artes e a difícil relação entre a religião e os banqueiros, recebo do professor Luiz A. Correa do Lago, do Departamento de Economia da PUC-RJ, um lembrete sobre a exposição permanente de história da moeda metálica no Museu Histórico Nacional (MHN) "As moedas contam a História", da qual é curador.

Segundo ele, a exposição tem como objetivo retraçar as grandes linhas da História mundial entre 600 a.C e 2000 d.C., tendo por fio condutor a moeda metálica, com base em cerca de 2.600 moedas expostas em 19 vitrines, acompanhadas de mapas e de descrições das moedas.

Acompanham também cada vitrine, painéis com ilustrações da arte do período correspondente, emoldurando cronologias de História política e de História monetária, e "textos de bancada" vinculando cada moeda exposta ao seu contexto histórico.

Encontram-se expostas cerca de 140 moedas medievais (de c. 800 a 1460 d.C), desde os deniers dos carolíngios, incluindo o famoso florim de ouro de Florença, mas também um dos seus "rivais", o genovino, de ouro de Gênova, cuja cunhagem também se iniciou por volta de 1252.

Os mapas correspondentes mostram a grande expansão do comércio medieval, e as vitrines também contêm moedas de ouro de França, Portugal e Inglaterra que foram cunhadas principalmente a partir de meados do século XIV para atender a necessidades crescentes de pagamentos.

As ilustrações dos painéis incluem o Duomo de Florença, a pintura de Van Eyck do mercador e banqueiro italiano Arnolfini e pintura mostrando a distribuição de moedas aos pobres por religiosos.

Também é de interesse mencionar, ressalta o curador, que o painel relativo ao Renascimento da exposição do Museu Histórico Nacional contém a famosa pintura de Quentin Metsys, no Louvre, do "Banqueiro ou cambista e sua mulher", provavelmente de 1514, na qual se baseia a pintura de Marinus Van Reymerswaele com o mesmo tema (existindo também uma pintura de "Usurários" deste último no Louvre).

As 66 moedas relativas ao período 1460-1563 (fim do Concílio de Trento) na exposição do MHN incluem os famosos "testones" (com retratos fidedignos - abandonados após o período romano e novamente adotados nas moedas no Renascimento), notadamente dos Sforza de Milão, gravados por artistas de renome, além de outras moedas de notável valor artístico, incluindo excelente retrato de Carlos V, enquanto destaca-se pelo seu valor intrínseco o "português", então a maior moeda de ouro da Cristandade.

O professor Luiz A. Correa do Lago ressalta que "dados os cruzamentos" entre as duas exposições, apesar de atenderem a objetivos diferentes", achou interessante "assinalar que certos assuntos também podem ser acompanhados, pelo menos em parte, com base nos acervos de nossos museus, mesmo sem esperarmos dispor, por exemplo, do quadro original de Savonarola sendo queimado na Piazza della Signoria".

Analfabetismo precoce - HÉLIO SCHWARTSMAN


FOLHA DE SP - 22/11/11

SÃO PAULO - Ali, meio que perdido entre os bons números que o IBGE divulgou na semana passada, mostrando uma significativa redução do analfabetismo no Brasil, desponta um dado perturbador: 6,52% das crianças com dez anos de idade não sabem ler nem escrever.

Essa cifra é inquietante porque, ao contrário do índice geral de analfabetismo, ela não diz respeito ao passado, mas ao presente e ao futuro.

O Censo 2010 apurou 9,6% de iletrados acima de 15 anos. Já entre os com 60 anos ou mais, essa taxa vai a 28%. Não aprenderam por falhas do sistema educacional de 50 anos atrás. É lamentável, mas é passado. Devemos oferecer a essas pessoas a oportunidade de alfabetizar-se, mas a maioria delas não se interessa e é difícil obter bons resultados.

Já os 6,52% de crianças de dez anos incapazes de ler representam o fracasso do sistema educacional de hoje. Apesar dos avanços em termos de universalização registrados nos últimos 20 anos, a escola está ensinando a ler muito tarde e muito mal.

Não haveria, em princípio, nenhum motivo para não obter taxas de analfabetismo inferiores a 1% nessa faixa etária, como ocorre em países do Primeiro Mundo. Em teoria, só crianças com algum problema neurológico grave não conseguiriam aprender a ler até os sete anos.

Para tornar o quadro um pouco mais sombrio, vale lembrar que os jovens que dominam mal a leitura têm grande probabilidade de tornarem-se maus alunos pelo restante de suas vidas acadêmicas.

Os dados até aqui divulgados pelo IBGE sugerem que esse problema do analfabetismo precoce está bem concentrado em alguns Estados do Nordeste -Alagoas tem 17,8%, e o Maranhão, 16,4%- e entre as camadas mais pobres. É o caso, portanto, de desenvolver programas específicos para essa população. Se nada for feito, é possível que, no remoto ano de 2081, o Brasil ainda não tenha conseguido erradicar o analfabetismo.

Solidariedade - BENJAMIN STEINBRUCH


FOLHA DE SP - 22/11/11

Não é absurda a sugestão de Bill Gates, de que o Brasil olhe para os países da África com generosidade


O BRASIL começa a ser cobrado como se fosse um novo-rico no cenário internacional. Uma dessas cobranças diretas foi feita pelo fundador da Microsoft, Bill Gates, à repórter Patrícia Campos Mello, da Folha.

Gates sugeriu que o Brasil aumente suas doações aos países pobres, principalmente os da África. Ele quer que o Brasil separe uma parte maior do Orçamento para ajuda externa, uma vez que o país estaria mais rico, com enormes reservas de petróleo, enquanto na África "há mães e crianças morrendo porque as grávidas não têm estradas para chegar à maternidade".

As cobranças sobre os novos-ricos emergentes, também explicitadas em fóruns internacionais, como o G20 do início deste mês, se estendem para a Índia e para a China.

Sem dúvida, houve uma mudança importante na economia mundial nas duas últimas décadas. Os países em desenvolvimento emergiram num ritmo mais rápido do que previu o famoso trabalho do Goldman Sachs que criou a sigla Bric.

Apesar disso, esses países estão longe de alcançar um nível em que efetivamente possam ser considerados ricos. A pobreza ainda é explícita em muitas áreas desses emergentes. Para comprovar isso, basta viajar para regiões mais pobres do Brasil, muitas no Nordeste, para o interior da China ou para qualquer parte da Índia. Nesses lugares, a paisagem de Primeiro Mundo ainda não aparece.

Gates sugere que o Brasil faça como a Europa e dedique 0,7% do seu PIB à ajuda externa. Se esse mesmo percentual fosse aplicado ao Brasil, daria uns US$ 12 bilhões por ano. Trata-se de um valor elevado, mais ou menos o que o país deve gastar em 2012 com o Bolsa Família.

Vai aqui uma pergunta objetiva: seria absurdo pensar em estender o bem-sucedido Bolsa Família a algumas sofridas populações da África? Minha resposta é não. E, como não é razoável ter a pretensão de cuidar da pobreza na África inteira, penso logo em Angola e em Moçambique, duas nações da comunidade de língua portuguesa e culturalmente mais próximas do Brasil.

Não há como garantir, sem maiores estudos, que essa extensão do Bolsa Família seja tecnicamente factível, mas, sem dúvida, ela seria humanitariamente memorável, uma enorme demonstração da generosidade e da solidariedade brasileiras.

Por ser uma ajuda localizada, seriam necessários cuidados diplomáticos para não configurar ingerência externa. Além de recursos, o Brasil levaria para a África a tecnologia de um dos maiores programas de transferência de renda que se conhece, com resultados efetivos no combate à fome e à pobreza.

Certamente, esse gasto além-fronteiras demandaria aprovação política do Congresso brasileiro. Além disso, a ação exigiria cuidados extremos para evitar corrupção na implantação do programa e apropriação indevida de recursos por intermediários. E o Brasil deveria solicitar contrapartidas de recursos dos governos locais e de organizações internacionais, como a ONU.

Angola ocupa a 148ª posição no ranking das 187 nações que entram no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Moçambique está na 184ª, ou seja, apenas três países são mais pobres: Burundi, Níger e República Democrática do Congo.

O PIB de Angola, com seus 13,3 milhões de habitantes, atingiu
US$ 107 bilhões em 2010. Trata-se de um país com grandes reservas e produção de petróleo, mas com renda mal distribuída e pobreza. O índice de mortalidade infantil é de 176 por 1.000 nascidos vivos e a expectativa de vida é de 39 anos.

Moçambique, com 23 milhões de habitantes, tem PIB de US$ 21 bilhões e renda per capita abaixo de US$ 1.000 por ano. Cerca de 70% da população vive abaixo da linha de pobreza.

O Brasil, embora ainda seja um país com enormes deficiências e bolsões de pobreza, tem números melhores. Não é absurda a sugestão de Bill Gates, de o país olhar para a África com generosidade, o que não deixaria os brasileiros mais pobres.

Afinal, o país tem tecnologia social e recursos e, não custa lembrar, mantém uma conta histórica em aberto com os povos africanos, que ajudaram a construir com trabalho e lágrimas as bases da gigante economia que temos hoje.

Arcabuz ou carabina - JANIO DE FREITAS



FOLHA DE SP - 22/11/11

Ou a Constituição é uma fraude ou é fraudada pelos setores que representariam o Estado em relação aos índios


Dezoito dias antes de jagunços encapuzados assassinarem, na sexta-feira, o cacique kaiowá-guarani Nísio e desaparecerem com uma criança e dois adolescentes no ataque à tribo, o Cimi, Conselho Indigenista Missionário, emitiu um documento para os meios de comunicação e, em especial, o governo: mais uma vez, alertava para o agravamento da matança de índios na apropriação de terras por fazendeiros de Mato Grosso do Sul.

Na ocasião em que o núcleo kaiowá era atacado a bala, no Palácio do Planalto realizava-se, com a sanção presidencial à Comissão da Verdade, justificado "marco dos direitos humanos na história do país", nas palavras da própria ministra dos Direitos Humanos.

O ato no Planalto foi excepcional, em Mato Grosso do Sul foi normal. Ao menos 250 índios foram assassinados, da posse de Lula para cá, conforme registros do Cimi.

As estatísticas oficiais e oficiosas confirmam a honraria de Mato Grasso do Sul no ímpeto genocida. Se a média brasileira é de 24,5 homicídios por 100 mil habitantes, só na reserva indígena de Dourados chega a 145 para a mesma quantidade da população.

Os índios que perdem as terras, a liberdade, a cultura e a vida têm um lugar próprio na Constituição, no qual lhes são assegurados o direito e a proteção à terra onde possam desfrutar com liberdade e dignidade a vida e sua cultura.

Ou a Constituição é uma fraude ou é fraudada pelos múltiplos setores que representariam o Estado e os governos em relação aos índios. E se ocorre esta fraudulência, está em plena inconstitucionalidade, situação ilegal cujos responsáveis a legislação submete, inclusive, a sanções penais.

Nas escolas ensinam-se, com certo horror, os esforços do colonizador português para a escravização dos índios e a longa dizimação de tribos, pelo país afora, reduzidas a milhares de cadáveres. Horror e pedagogia seletivos: só recaem sobre o passado distante. Ou sinalização sutil, talvez, de que o presente dos índios está no fim, pelos mesmos métodos e motivos dos apropriadores de terras dos nossos séculos remotos. Justificados em sua versão atualizada pela soja, pelo gado, a exportação, o subsídio, que são denominações finórias da mesma voracidade de outrora.

Ministério da Justiça, Ministério dos Direitos Humanos, Ministério da Igualdade Racional, Fundação Nacional do Índio (Funai, sim, mas "do Índio"?) -o dispositivo protetor é bastante, perfeito. Não precisa de mais nada para deixar fazendeiros-jagunços e jagunços-fazendeiros praticarem a verdadeira política indigenista brasileira.

PARABÉNS

Os 25 anos da Companhia das Letras são mesmo para comemorar. Com sua chegada, o livro ganhou no Brasil um novo status, na elaboração carinhosa, no tratamento respeitoso ao texto, na elegância da identidade editorial.

A influência da Companhia das Letras tocou quase todas as editoras já existentes, e difundiu um gosto pela edição que tem multiplicado selos e títulos benfazejos.

O significado da Companhia das Letras chegou até mesmo à indústria gráfica brasileira, obsoleta e extenuada, e de repente forçada a repor-se à altura das edições pretendidas. Cada íntimo de livros deve, sim, um cumprimento à Companhia das Letras.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



FOLHA DE SP - 22/11/11


Sinistralidade no segmento de saúde suplementar retoma nível da gripe suína

A sinistralidade no setor de saúde suplementar alcançou no primeiro semestre o elevado patamar registrado no período da gripe suína, segundo o Iess (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar).

O comprometimento da receita de operadoras com assistência a saúde, foi de 81,4%.

"O índice equivale ao percentual da receita de mensalidade usado no pagamento dos serviços de assistência como consultas, exames e internações", diz Luiz Carneiro, superintendente do Iess.

O cálculo não inclui despesas administrativas e de comercialização.

"As razões para a elevação variam. Pode ter aumentado a frequência de uso ou o valor médio dos procedimentos. Ou então algumas operadoras estão com dificuldade de repassar o aumento de custo para a receita", diz Carneiro.

O índice representa a média de sinistralidade de diferentes tipos de operadoras, como filantrópicas, cooperativas, autogestão, medicina de grupo e seguradoras.

A autogestão, por exemplo, tem sinistralidade de 89%, segundo Denise Eloi, presidente da Unidas Nacional, que congrega o grupo. "Temos mais idosos na carteira."

Em contrapartida, na autogestão, não há despesas com marketing e corretores, pois são trabalhadores que organizam seu próprio plano. "Ainda não afirmamos que 81% inviabiliza o mercado, só alerta", diz Carneiro. A ANS informa que não percebe tendência de alta na sinistralidade. Só "oscilação sazonal".

CONSULTA MÉDICA
O hospital particular Santa Isabel, que integra o complexo hospitalar da instituição filantrópica Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, reformou um prédio de

11 andares para abrigar 48 novos consultórios a partir do ano que vem.

O investimento faz parte de um aporte de R$ 50 milhões que já começou a ser injetado desde o ano passado, de acordo com a entidade.

As novas salas funcionarão de forma rotativa e serão usadas por diferentes especialistas.

"O médico ou o paciente que precisar ir de um prédio ao outro poderá transitar por passagens como se estivesse em um mesmo ambiente", diz o diretor do Hospital Santa Isabel, Laércio Martins.

"Este será o segundo centro médico do hospital. O lucro será usado para o próprio Santa Isabel e para cobrir os déficits da Santa Casa", afirma Kalil Abdalla, provedor da Santa Casa.

Capital externo impulsiona crescimento de países pobres

O fluxo de capital externo para o grupo dos 48 países menos desenvolvidos do mundo (que inclui Haiti, Afeganistão e Uganda, entre outros) favoreceu um crescimento na região de 5,7% em 2010 e de 7,1% em 2009.

Os dados da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) mostram que a soma dos investimentos estrangeiros diretos e das remessas aumentou cerca de 235% na última década.

Do total do investimento direto, porém, 43% foi para Angola, Sudão e Guiné Equatorial (três ricos em petróleo). Segundo o estudo, isso mostra que os países estão se especializando em commodities e que o impacto dos investimentos na capacidade produtiva dos países será limitado.

Nos últimos anos, também cresceu a ajuda oficial. Em 2009, foram US$ 40 bilhões (cerca de 72% para a África).

Nada gelado A rede paulista Casa do Sorvete Jundiá abrirá 50 franquias em São Paulo até o final do verão.

Brinquedos A PBKids vai abrir uma loja no Mooca Plaza Shopping (SP). A empresa tem 58 unidades e espera faturar R$ 270 milhões neste ano (alta de 15% ante 2010).

ONGs A Fundação Itaú Social anuncia hoje vencedores do prêmio Itaú Unicef. A iniciativa reforça o seu compromisso com ONGs cujas ações merecem apoio, segundo o vice-presidente Antonio Matias.

CORRETORES NA ESCOLA
Mais da metade (60%) dos corretores de imóveis do Estado de São Paulo tem ensino superior completo, segundo estudo da Lello.

Os três cursos mais procurados pelos profissionais do setor são administração, economia e direito.

"Há um crescimento no número de corretores que fazem direito. A atividade envolve muito contato com documentação", diz o presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Corretores de Imóveis, Francisco Zagari Neto.

O levantamento foi feito neste mês com 150 corretores de imóveis, sendo que 58% eram homens e 25% tinham mais de 50 anos.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

O primeiro Nobel - JOÃO PEREIRA COUTINHO


FOLHA DE SP - 22/11/11

Os mesmos cientistas que demonizam Egas Moniz não estão livres de ser um dia olhados com desprezo
José Saramago não foi o primeiro Nobel de língua portuguesa. Antes dele, houve outro.

Às vezes, gosto de abismar o meu auditório com essas manifestações de erudição. Gera-se espanto, curiosidade, a pergunta inevitável: "Quem foi?".

E eu, com uma voz indiferente e ligeiramente pedante, concedo: "Egas Moniz, obviamente, médico e cientista". O auditório fica ao rubro. As madames, abanando os seus leques, procuram saber mais. Os cavalheiros acariciam os bigodes e imaginam descobertas heroicas para o destino da humanidade: uma vacina, uma cirurgia, uma cura!

É hora da estocada final: "Egas Moniz tornou possível a lobotomia". E, com prazer sádico, ainda acrescento: "Nunca assistiram ao filme 'Um Estranho no Ninho' [1975]?".
Gritos de horror. Desmaios. Alguém pega num crucifixo e abjura o meu nome.

Egas Moniz (1874-1955) era o meu fantasma preferido em jantares sociais. No Brasil, nunca falhava.
Infelizmente, João Lobo Antunes estragou a festa. Informação: João, irmão do romancista António, é um um neurocirurgião português. E a biografia que escreveu sobre o Nobel ("Egas Moniz: Uma Biografia") vai demolindo, com elegância e serenidade, os mitos e as maldades que sobre Egas se escreveram.

Primeiro que tudo, temos um homem, não um monstro. E que homem: nascido no norte de Portugal, em Estarreja, corria 1874, António Egas Moniz conheceu a morte demasiado cedo. A morte dos seus familiares próximos, entenda-se, de tal forma que, ao concluir medicina na Universidade de Coimbra, em 1899, já não restava ninguém para o ver doutor.

Nada que impedisse uma carreira fulgurante: na universidade, certamente, onde escreveu os primeiros estudos sobre a sexualidade humana (uma delícia!).

Mas também na política, na qual foi conspirador antimonárquico e, deposta a monarquia portuguesa (em 1910), parlamentar republicano, ministro das Relações Exteriores e presidente da delegação lusa na Conferência de Paz, em Paris, depois da Grande Guerra de 1914-1918.

Mas a política não era o território preferencial de Egas. Abandonou-a cedo para se entregar à medicina. Primeiro, à clínica, onde se fazia pagar bem e tinha como doentes Mário de Sá-Carneiro e um tal de Fernando Pessoa.

A ciência viria mais tarde. Demasiado tarde, dirão alguns; os mesmos que, ironia do destino, teceram iguais sentenças quando Saramago, já na meia-idade, se dedicou à literatura.

Egas Moniz tinha mais de 50 anos quando ofereceu à medicina a primeira descoberta -uma descoberta que, por si só, era merecedora de um Prêmio Nobel.

"Angiografia cerebral", eis o nome. Tradução: um método de diagnóstico que permite visualizar a morfologia dos vasos intracerebrais -ou, como escreve Lobo Antunes, um "retrato" que localiza o "inimigo" dentro da caixa craniana.

E o inimigo podia ser um tumor. Uma malformação. Um aneurisma cerebral. Ainda hoje é o método de diagnóstico "gold standard" em certas patologias e permitiu mesmo o desenvolvimento de outras técnicas de intervenção nas neurociências.

Mas não foi a angiografia que imortalizou Egas. Foi a lobotomia - ou, para sermos rigorosos, a "leucotomia pré-frontal", que lhe trouxe o Nobel em 1949. Trata-se de um procedimento cirúrgico que, ao cortar a substância branca da porção pré-frontal do cérebro, permitia o tratamento possível para vários transtornos mentais sem medicação disponível à época.

É fácil, hoje, olhar para o procedimento e recusá-lo. Sobretudo para quem vive num mundo saturado de medicamentos psicotrópicos e encara a leucotomia como um erro irreversível -e imperdoável.

O problema é que a história será sempre um erro irreversível e imperdoável para os que chegam depois.
Esse talvez seja o grande mérito do livro de João Lobo Antunes: mostrar que o pecado do anacronismo não é um exclusivo das humanidades. As ciências cometem-no com demasiada ligeireza.

Um pouco de humildade seria aconselhável nessas matérias.

Até porque os mesmos cientistas que demonizam Egas Moniz, e até pretendem retirar-lhe postumamente o Nobel, não estão livres de ser um dia olhados com igual desprezo e horror pelas superiores gerações vindouras. Só critica fantasmas quem acredita ingenuamente que jamais será um.

De cabeça para baixo - DORA KRAMER


O Estado de S. Paulo - 22/11/2011


São tantos os absurdos que passaram a ser aceitos com grande naturalidade, que os jornais noticiam uma reunião do PDT hoje para "decidir" se Carlos Lupi continua ou não no Ministério do Trabalho e ninguém acha esquisito.

Tampouco parece espantar uma ofensiva, cujo palco principal é a internet, contra os bons costumes aplicados ao trato da coisa pública.

Cria-se uma relação de causa e efeito entre os que reclamam que a corrupção precisa de um freio e uma presumida intenção de "derrubar" o governo, dá-se a isso o nome de investida moralista e a poucos ocorre constatar que desse modo o Brasil retrocede aos tempos de celebração da malandragem, do país do "jeitinho" onde o que interessa é levar vantagem, certo?

Anda tudo muito errado nesse diapasão. Há enquetes internas para estabelecer o escore de apoio à permanência ou não de Lupi entre os deputados federais do PDT.

Apura-se uma divisão no partido que estaria preso ao seguinte dilema: Lupi sai agora e a pasta do Trabalho continua nas mãos do PDT ou Lupi sai na reforma de 2012 e os pedetistas se arriscam a perder a boquinha, eis a questão.

Informa-se que o ministro estará no encontro e, como é a pessoa de mais destaque e influência na legenda, imagina-se que comandará os trabalhos.

Em algum momento dos últimos anos perderam-se as referências e os padrões, mas nessa discussão pública sobre o destino do ministro do Trabalho perdeu-se o último resquício de razão.

Com o quê, então, é o partido que decide se um ministro serve ou não serve para integrar a equipe de trabalho da presidente da República? Em que momento a Nação dormiu e não testemunhou a transferência dessa delegação de Dilma Rousseff para o PDT?

Se a presidente não demite, é de se supor que não veja motivos para tal.

Mas, da forma como as coisas se apresentam, Dilma parece mais ser "presidida" pelas legendas de sua coalizão do que propriamente presidi-las como seria o normal.

Retrato fiel. Ainda sobre a entrevista de Ciro Gomes sexta-feira última ao jornal Valor Econômico, ele faz uma análise sobre a Câmara que esclarece algumas das razões pelas quais quadros qualificados fogem do Congresso onde hoje vicejam as nulidades.

Diz: "São 513 deputados e o palavrório do século 19 ainda é a tônica. Não tem uma organização que faça convergir uma inteligência - que é grande ali como o espírito público e a decência também são, mas a mecânica é fragmentária".

Detalha: "O cara se inscreve para falar cinco minutos em homenagem ao padre fulano. Se o orador seguinte falasse sobre a mesma tese, alguma inteligência convergiria para algum assunto. Mas tem um sorteio. E naquele dia se eu for sorteado tenho que falar mesmo sem nada para dizer. No dia em que eu tenho não posso falar, porque o sorteado está interessado em falar sobre a importância da azeitona".

E conclui: "Para compensar, tentaram criar mediações. São o colégio de líderes e a Mesa. Mas as minorias ativas e a ingerência do Palácio do Planalto fraudaram a lógica do coletivo. Então, os líderes não lideram e a pauta da Mesa é resolvida no Palácio do Planalto. Há acertos tenebrosos".

Se, como diz Ciro, organização houvesse para fazer convergir inteligência, espírito público e decência, esse seria o grande tema de reflexão sobre o papel da Câmara como instituição encarregada de representar os cidadãos.

Em domicílio. Em entrevista ao Estado, domingo, a historiadora e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas Marly da Silva Motta faz uma análise sobre a trajetória do PDT, a atuação de Leonel Brizola, e conclui com um resumo preciso da história ao dizer que o partido "perdeu a alma".

Sob a ótica jornalística, ousaria acrescentar que a derrocada começou na eleição de 1998, quando Brizola aceitou ser vice de Lula, que, em troca, promoveu a intervenção no PT do Rio de Janeiro para forçar a aliança com o então candidato a governador pelo PDT, Anthony Garotinho.

Ueba! Adriano faz gol de cofrinho! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 22/11/11
Trocadilho com Picasso, mangueira e ganso é o que eu chamo de humor CVC: humor de massa. Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E mais uma predestinada: sabe como se chama a mulher apontada como responsável por aceitar propinas para furar o sorteio de casas populares em Ribeirão Preto? Marta Aparecida MOBIGLIA! A Mobiglia chegou antes!
E adorei esta promoção: "Studio Motel, diversão: pernoite mais mandioca frita!". Rarará!

E um leitor quer que eu lance a campanha: Fica, Lupi. Pelo humor na política brasileira. Então tá lançada a campanha: "Viva o Humor! Fica, Lupi!". Eu acho que o problema do Lupi não é a corrupção, é Alzheimer. Rarará!

Socuerro! A Terra Treme! Terremoto no Brasileirão! Gooool do Adriano! O Caminhão de Usina desencantou! Com o calção caindo e mostrando o cofrinho. Vocês já viram um hipopótamo com o cofrinho de fora? Rarará! Cofrinho, não, aquilo é a caixa forte do Tio Patinhas! Cofrinho de hipopótamo!
E um cara me perguntou no Twitter: "O que foi mais difícil pro Adriano? Fazer o gol ou tirar a camisa?". Tirar a camisa! E já saiu o anúncio: "Vendo baratinho camisas do Adriano que estavam encalhadas. Mas só tem tamanho GG". Então manda uma pro Gornaldo! Aliás, ele parecia o Gornaldo Fenômeno, Godzilla invadindo a área!

E eu adoro assistir ao "Roda Roda Jequiti" porque o Silvio Santos confunde torrada com coalhada. Três palavras, tema café da manhã. E o Silvio: "Coalhada!". Ele é do tempo da coalhada. Coalhada sabor arroz doce! E não conseguia acertar "pão de forma". Aí um amigo falou: "É que ele não come pão de forma". Então ele só se lembra do que ele come?

E sabe o que o goleiro do Atlético Mineiro falou? "Anotaram a placa do caminhão? Ops, da jamanta!" Gol de jamanta! E sabe o que o Adriano falou depois do gol? "Alguém me dá uma carona pra casa? Minhas pernas não se aguentam." E quem já foi craque sabe o que faz: qualquer um teria jogado aquela bola pra torcida!

E esta: "Estratégia de Muricy para o Mundial: provocações aos medalhões e carinho em Ganso". E acho que devia ser proibido trocadilho com Picasso, mangueira e ganso. Trocadilho com Picasso, mangueira e ganso é o que eu chamo de humor CVC, humor de massa. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Sem resposta - VLADIMIR SAFATLE


FOLHA DE SP - 22/11/11


"O estilo é o próprio homem." Essa frase do conde de Buffon, enunciada à ocasião de sua entrada na Academia Francesa, merece ser levada a sério.Ela nos lembra como determinados homens sabem que nada lhes é mais importante do que conservar um certo tom, uma forma que aparece, sobretudo, na palavra escrita. Eles sabem que, se perderem tal forma, trairão o que lhes é mais importante, a saber, um modo de ser.
Isso talvez explique porque eles nunca responderão a situações nas quais a palavra escrita resvala para o pugilato, nas quais ela flerta com as cenas da mais tosca briga de rua com seus palavrões e suas acusações "ad hominen". Seria, simplesmente, ignorar a força seletiva do estilo.
Ele aproxima certas pessoas, mesmo que suas ideias sejam radicalmente antagônicas, assim como afasta definitivamente outras.
Houve uma época, não muito distante, que o pensamento conservador teve mais estilo. Há de se reconhecer que, para alguém de esquerda,
seria uma experiência de aprimoramento discutir com conservadores como Daniel Bell, Leo Strauss, Isaiah Berlin
ou mesmo com o anarcocapitalista Robert Nozick, entre tantos outros de inegável inteligência. Ganha-se em precisão quando ouvimos oponentes sem precisar reduzi-los a caricatura.
No Brasil, atualmente somos obrigados a ter certa nostalgia da época em que o pensamento conservador nacional conseguia produzir alguém como José Guilherme Merquior, mesmo que este tenha terminado como ghost-writer de Fernando Collor. De toda forma, ao menos ele realmente lia os autores que criticava, o que parece ter se tornado algo supérfluo nos dias que correm.
Na verdade, hoje tem-se a impressão de que os conservadores rumam para transformar Glenn Beck, com sua finesse intelectual de comentarista político da Fox News e seus fieis leitores de Oklahoma (ou qualquer outra província perdida no interior dos EUA), em ideal de vida. Ou seja, seu ideal de discussão é aquele dos radialistas rasos da América profunda. O mínimo que se pode dizer é que sofrem de um problema radical de estilo.
Por sinal, que existam "fieis leitores" a validar tais procedimentos, eis algo que não deve nos estranhar. Quando um pensamento chega perto do fim, ele tende a gritar de maneira desesperada e violenta.
Ele pede adesão incondicional e tal pedido ressoa, principalmente, na mente daqueles cujo último riso é apenas o sarcasmo da autoglorificação e do ressentimento.
Tudo o que se pode desejar a esse respeito é que seu riso seja bem pago. Amém. Outros preferem ver esse espetáculo em silêncio.

Comportem-se, "Yankees"! - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 22/11/11

BRASÍLIA - Não é hora de disseminar patriotadas e resgatar o velho "fora, Yankees!". Acidentes acontecem e o vazamento de petróleo no litoral do Rio é bem menor, por exemplo, do que o da British Petroleum no golfo do México, em 2010.
Feitas as devidas ressalvas, a tragédia ambiental causada pela norte-americana Chevron na Bacia de Campos é de bom tamanho, sim, afeta gravemente a fauna e a flora marítimas brasileiras e merece uma boa reflexão sobre empresas estrangeiras que atuam em áreas tão estratégicas no país. Além de suscitar dúvidas: a Chevron do Brasil tem planos de contingência para acidentes assim?
Um dado particularmente estressante é a "coincidência" de a também estrangeira Transocean estar no centro tanto no incidente aqui, no Brasil, quanto na tragédia lá, no golfo do México. É caso de reincidência. Costuma aumentar penas e multas.
Pelo divulgado até agora, foi a Petrobras que percebeu a mancha de óleo, alertou os órgãos responsáveis, avisou a própria Chevron e, enfim, iniciou o trabalho de limpeza.
Já a Chevron errou ao calcular o risco, ao demorar a admitir o vazamento, ao não ter um plano de contingência -nem sequer um robô capaz de identificar imediatamente a origem do problema. E continua errando na operação para reduzir danos.
Aqui não é a casa da mãe Joana. Temos lá nossos escândalos e bizarrices, mas a licença pode ser cassada, o Ibama aplica a pena máxima ambiental de R$ 50 milhões, como anunciado ontem, e o governo do Rio pode cobrar a reparação de prejuízos dos pescadores lesados.
A punição é um alerta para a Chevron e para grandes empresas que são bem-vindas para parcerias no Brasil, mas com direitos e deveres, não só para sugar petróleo e lucros.
Ao reagir, o Brasil serve de padrão para países da África, do Caribe e da própria América do Sul, que as potências e suas empresas ainda tratam como suas colônias. Não são mais.

CLAUDIO HUMBERTO

“Às vezes, suspeito que seja um caso clínico”

José Serra, ao rebater críticas e a “imaginação fértil” de Ciro Gomes

SAÚDE DOS SENADORES NOS CUSTARÁ R$ 66 MILHÕES

Eventuais consultas, exames e internações dos 81 senadores em hospitais vão nos custar R$ 66,1 milhões, apesar do completo serviço médico do Senado. Os quatro contratos, todos com dispensa de licitação, valem por 60 meses. O Hospital Santa Luzia pode faturar R$ 45 milhões, o centro médico Carpevie, R$ 17 milhões, e o Centro Urológico de Brasília R$ 1,2 milhão para cuidar das próstatas ilustres.

SHOW DO MILHÃO

Só a Clínica de Olhos Dr. João Eugênio receberá até R$ 2,4 milhões do Senado, que garante: os contratos são legais. Ah, bom.

FALA, CABRAL

O governador Sérgio Cabral (PMBD), que adora holofotes para cobrar royalties do petróleo, entrou na muda sobre o vazamento da Chevron.

MEU DIÁRIO OFICIAL

O peremptório governador petista Tarso Genro pirou de tanto tomar chimarrão: concedeu a si mesmo a Cruz de Ferro da Brigada Militar.

MAMA ÁFRICA

Na trilha do ex-presidente Lula, Dilma também deverá visitar Cabo Verde, em meados de 2012. Talvez em julho, dois anos depois do ex.

PERNAMBUCANO PODE VIRAR LÍDER TUCANO NA CÂMARA

No momento em que a oposição está no fundo do poço (nunca foi tão minoritária no Congresso), o pernambucano Bruno Araújo articula o consenso para ser o próximo Líder do PSDB na Câmara. Ele pretende substituir, sem disputa, o paulista Duarte Nogueira, que não pode ser reeleito em razão de proibição incluída no regimento da bancada, no início do ano. O consenso é essencial para o PSDB se manter vivo.

ACLAMAÇÃO

A escolha do novo líder do PSDB na Câmara dos Deputados será em 14 de dezembro. Por aclamação, segundo pretende Bruno Araújo.

ROTINA QUEBRADA

Os deputados querem na liderança do PSDB um tucano que rompa a alternância de paulistas e mineiros, daí a escolha por um nordestino.

AUTODISSOLUÇÃO

A oposição hoje é tão inexpressiva quanto em 1970, quando o MDB até discutiu sua autodissolução. Mas, em 1974, ressurgiria nas urnas.

CARIOCAS CONSTRANGIDOS...

Moradores do edifício Marcelle, Av. Beira Mar, 242, Centro do Rio de Janeiro, estão constrangidos com o novo morador do apartamento 1301. Trata-se do terrorista italiano Cesare Battisti.

...COM O VIZINHO TERRORISTA

Cesare Battisti foi condenado duas vezes à prisão perpétua, por quatro assassinatos cruéis e covardes, na Itália. Ironicamente, o bandido protegido por Lula agora vive a 50 metros do consulado da Itália.

PDT PATINANDO

Na reunião desta terça, a executiva do PDT nada deve decidir. Todos se acham o melhor substituto do ministro mentiroso Carlos Lupi, morto-vivo na Esplanada dos Ministérios, mas nenhum conta com o consenso do partido. O PDT (por enquanto) tem um ministério, mas não ministro.

TEM PARA TODOS

O projeto de “modernização e reestruturação” do serviço público federal – eufemismo para trem da alegria e reajuste – uniu a “base aliada” aos deputados Andrea Zito (PSDB-RJ) e Chico Alencar (PSOL-RJ).

SUSTO NO SUCATÃO

O Sucatão (Boeing 707) da FAB, levando à África o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e 66 empresários, sábado, retornou após 90 minutos sobre o oceano, com defeito em uma turbina. Um dos empresários aproveitou o pit-stop no Rio para desistir da viagem.

LOUCURA PACÍFICA

Pacificada, a comunidade dona Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, entrou em guerra com os prédios vizinhos, valorizados em 50%: no feriado de 15 de novembro, o baile da pesada acabou às 4h45.

BEIJOQUEIRO NA OAB

No coquetel da 21ªConferência dos Advogados, em Curitiba (PR), o presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, foi surpreendido por um advogado beijoqueiro do Rio. Meio bebum, agradeceu um discurso dele em Cabo Frio. Mas Ophir nunca esteve na cidade litorânea.

DURO DE ENGOLIR

Petistas históricos em Santo André não confiam no taco do ministro Fernando Haddad (Educação) para ganhar a prefeitura paulistana. Temem que, diante do quadro raso, José Serra entre como azarão.

PENSANDO BEM...

...Os espanhóis entraram de sola no Zapatero. 

PODER SEM PUDOR

AH, BOM

Candidato ao Senado pelo PMDB do Paraná em 1990, Waldyr Pugliesi convocou coletiva para explicar que era injusta sua fama de “pavio curto”.

Na coletiva, um militante do PMDB puxou uma conversa cabulosa e ele a encerrou com um soco na mesa. Refeito, contou que só perdeu a cabeça uma vez, em Arapongas, quando esmurrou um vereador que o criticara. Mas observou:

– Aquele soco foi com o braço democrático...

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Nas nossas costas-ANP: Chevron mente e pode ser proibida de atuar no país

Folha: Egípcios voltam às ruas, e governo pede para sair

Estadão: Multada em R$ 150 milhões, Chevron é acusada de mentir

Correio: Reze para não apagar

Valor: União deve bancar o risco cambial do projeto trem-bala

Estado de Minas: Crise começa a cortar empregos em Minas

Zero Hora: Levantamento indica baixa adesão à greve