sábado, novembro 05, 2011

SÉRGIO AUGUSTO - Algumas relações perigosas



Algumas relações perigosas
SÉRGIO AUGUSTO 
O Estado de S.Paulo - 05/11/11

Como é sabido, João amava Teresa, mas esta amava Raimundo, que só tinha olhos para Maria, que se amarrava no Joaquim. Vai daí que nada deu certo: João mandou-se para os Estados Unidos, Teresa foi para um convento, Raimundo morreu num desastre, Maria virou solteirona e Joaquim se matou.

Em prosa, a quadrilha poética de Drummond perde a graça, reduz-se a um promissor esboço ficcional, que tanto pode gerar uma tragédia sobre desilusões amorosas como um pífio dramalhão sobre desajustes afetivos. Ou mesmo um arrazoado sobre contradanças e coincidências, reais ou ficcionais, tão ao gosto de pós-modernistas como Enrique Villa-Matas e David Markson.

Na forma original, a trouvaille de Drummond me serviu de inspiração para uma brincadeira que por uns tempos, no final dos anos 1980, compartilhei com os leitores da Folha de S. Paulo e da revista Bundas. Embora inspirada em Drummond, minha quadrilha ganhou um nome laclosiano, Relações Perigosas, não porque desejasse homenagear Choderlos de Laclos ou pegar carona no sucesso da versão para o cinema de Les Liaisons Dangereuses, mas por causa das ligações que nela se articulam, ao sabor de afinidades e coincidências gratuitas, porém autênticas, como convém a uma brincadeira intelectualmente saudável.

Sempre entram na dança (ou contradança) oito figuras, ligadas entre si por sete diferentes afinidades. Quem abre a roda obrigatoriamente a fecha, pois sem circularidade o jogo, a meu ver, não tem a mesma graça. A quadrilha de Drummond tem uma circularidade distinta: em vez de João, quem fecha a roda é um personagem que só entra em cena para dar à dança um insólito, se bem que arredondado, desfecho.

Algumas Relações Perigosas:

Olavo Bilac não gostava de música, como João Cabral de Melo Neto, que também foi diplomata, como Vinicius de Moraes, que viveu alguns anos em Paris, como Susan Sontag, que morreu de leucemia, como Madame Curie, que comia muito pouco, como Mahatma Gandhi, que só se vestia de branco, como Thiago de Mello, que é poeta, como Olavo Bilac.

Noel Rosa foi tirado a fórceps do ventre materno, como Frank Sinatra, que se casou com Ava Gardner, como Artie Shaw, que era louco por café, como Voltaire, que esteve preso na Bastilha, como o Marquês de Sade, cujo nome deu origem a uma palavra, como o de Joseph I. Guillotin, que também nasceu na França, como a Dama das Camélias, que morreu de tuberculose, como Noel Rosa.

Claude Debussy vivia criticando Maurice Ravel, como Igor Stravinski, que se aventurou no jazz, como Darius Milhaud, que sentia saudades do Brasil, como Gonçalves Dias, que era fascinado pelos nossos índios, como Sting, que tentou ser ator de cinema, como Yukio Mishima, que, apesar de homossexual, casou-se com uma mulher, como Paul Verlaine, que foi influenciado pelo impressionismo, como Claude Debussy.

Doris Lessing trabalhou de telefonista, como Aristóteles Onassis, que transou com Eva Perón, como Juan Domingo Perón, que era filho bastardo, como Richard Wagner, que acreditava em reencarnação, como Henry Ford, que cultivou maconha em seu quintal, como Dennis Hopper, que era fascinado por Los Angeles, como Ray Bradbury, que acreditava em seres extraterrenos, como Doris Lessing.

David Markson faz algo parecido, salvo engano desde meados dos anos 1990, mas sem a mesma rigidez estrutural. Livre dos constrangimentos da circularidade obrigatória, dispõe de forma contínua, com variada pontuação, o seu chorrilho de "cultura inútil", basicamente de natureza literária, montando uma cadeia de analogias e contrastes que se imbricam ao longo de, em média, 200 páginas.

A um comentário de Beckett sobre Joyce justapõe-se outro, quase ipsis litteris, de Hannah Arendt sobre Heidegger. Ao motivo da dispensa de Eliot do serviço militar (uma hérnia) justapõe-se o astigmatismo que livrou Pound de também arriscar a vida nos campos de batalha da 1.ª Guerra Mundial. Curiosidades do gênero "pais de filhos bastardos", "filhos de pais analfabetos", "escritores que não concluíram o ensino médio", ou trivialidades sobre carências, manias e deficiências de tais e quais criadores (Zola tinha pavor de raios e trovões, Schopenhauer falava sozinho no meio da rua, Edmund Wilson morreu sem ler Dom Quixote, Wagner usava ceroulas cor-de-rosa, Victor Hugo jamais conseguiu ir além da página 4 de O Vermelho e o Negro) recendem a almanaque, mas o modo criativo como Markson organiza e cadencia essas informações faz toda a diferença.

Lembrar que Huckleberry Finn tem 13 anos é uma coisa; contrastar sua idade com a de Raskolnikov (10 anos mais velho) é outra, inteiramente diferente. Se reproduzidos sem as mesmas pausas e sem os mesmos verbos, certos paralelismos (Jack, o Estripador e Osama bin Laden eram canhotos; Brahms e Abraham Lincoln tinham olhos azuis, como Hitler; ninguém sabe onde Spinoza, Rembrandt e Christopher Marlowe foram enterrados; Eliot se correspondia com Groucho Marx, por iniciativa do poeta) perderiam muito do seu impacto.

Markson qualifica seus bricabraques de "novels" (romances), por mera convenção taxinômica. São outra coisa, ainda sem nome, a que não faltam originalidade e um certo travo beckettiano. A um deles, publicado em 2001, deu o título de This Is not a Novel (Isto não é um Romance), embora nada o distinga de seus outros bricabraques - Reader's Block, Vanishing Point e The Last Novel -, todos à espera de uma tradução ou, pelo menos, de uma inclusão no catálogo de importados da Livraria Cultura.

JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém


Solidariedade
JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém
O GLOBO - 05/11/11

Um dos primeiros da fila para visitar Lula, quando os médicos liberarem, é o ex-presidente Fernando Henrique.

Carinho
E Marta Suplicy — depois que a raiva passar — deverá aceitar o convite de Haddad para saborear o cardápio da jovem Ana Paula, estagiária do restaurante do MEC.
Hoje, Haddad almoça com os últimos moicanos da ex-candidata: Vaccarezza e Mentor à frente.

Fidelidade
Por falar em Haddad, o ministro anotou de onde veio o único apoio dos governadores ao seu embate judicial em defesa do Enem: Alagoas.
Governado pelo tucano Teotônio Vilela.

Desejo
Quem sonha com o MEC é o Mercadante. Mas Dilma quer gente da própria pasta.

Mudança
Enfim, daqui a menos de 90 dias, a presidente Dilma toma posse de fato como presidente da República.
É que, com a reforma ministerial da desincompatibilização, Dilma, finalmente, poderá fazer um Ministério para chamar de seu.
Se bem que seis que ela gostaria de não ter nomeado já foram embora.

Inveja
No caso das ministras, que são as minhas maiores preocupações, aparentemente, poucos problemas.
Mas duas poderão perder os postos, por pressões externas e não por incompetência ou desvio de conduta. Uma é a querida Ana de Hollanda. Aninha não nasceu para a pequenez da política. Moça de berço e valor, entrou, coitada, numa fria.

Outra, mas que ainda duvido, é a Ideli, amiga do peito da presidente. Se cair, será por inveja da bancada governista. Adoro a Ideli.

Gabriel Chalita, a maior vítima do destino
Não se trata nem de tentar tirar proveito de uma situação. Se Lula não estivesse doente, qualquer candidato apoiado por ele já sairia em vantagem. Agora, ser “candidato de Lula” já é meio caminho andado para a vitória.
A candidatura mais abalada por essa nova conjuntura é a do deputado Gabriel Chalita.

Dos males, o menor
Se já estava um circo o palanque do DEM na Bahia, agora, sim, com a presença dos irmãos Vieira Lima — Geddel (Schwarzenegger) e Lucinho (Danny DeVito) —, virou um angu mesmo. É apenas o início do fim.
Na verdade, esmagados pelo PSD de Kassab, os principais líderes jovens do partido terão que buscar carreira solo. O destino do ACM Neto será mesmo o PMDB. Rodrigo Maia, que sonhava com uma fusão com os tucanos, depois das eleições do ano que vem, já joga a toalha:

— Hoje, em nível nacional, o partido mais próximo é o PMDB e não mais o PSDB. PMDB é partido de centro.
Pergunto: Cabral e Paes não são problemas para os Maia?

— E como! Como me aliar aos que privatizam a Saúde?

Este é o Aldo
Depois de ter me jurado por Deus que não seria ministro, Aldo Rebelo me liga, em cima da hora, convidando para a sua posse. Recusei:

— Não vou para não o constranger. O senhor não conseguiria olhar para mim, depois de ter negado tudo.

— É verdade, camarada. Mas chame nossos amigos de Mato Grosso.

— Excelência, faltam duas horas para a sua posse! Não dá tempo de eles virem!

— Mas dá tempo de convidá-los.

Revelações
Saiu o novo livro do ministro do STF Gilmar Mendes.
Só que, desta vez, Gilmar reúne suas decisões mais polêmicas na Corte e conta tudo sobre elas.
Leitura obrigatória não só para estudantes e professores como para a sociedade em geral, que acompanhou os sucessivos escândalos.
Não li, mas já gostei e recomendo. Compre o seu.

Fumaça branca
Por falar em STF, foi mais longo do que o normal o jantar de quarta de Peluso e Cardozo.

Fina estampa
Circula no que Ancelmo chama de território livre da internet foto de Sarney com Romário, Tiririca e Popó.
Até aí, tudo bem. Não fosse a legenda: “Porque o fim do mundo está próximo.”

Explicação
Cobrei do Palácio a razão de tanto oba-oba de que ele é o cara em torno do Padilhão! Deram-me um exemplo:
Terça, Dilma e ele lançam SOS Emergência, para acabar com a vergonha dos nossos prontos-socorros, como o da minha querida Cuiabá.

Na quarta, Padilha, com a ajuda dos maiores hospitais privados do país, lança o programa no Rio.
Tudo isso sem contar com o “Melhor em Casa”, a home care dos pobres.
Assim, até eu, Romeu!

GOSTOSA


DRAUZIO VARELLA - Londres, 1348


 Londres, 1348
DRAUZIO VARELLA 
FOLHA DE SP - 05/11/11

A urgência e a falta de espaço obrigavam a empilhá-los uns sobre os outros na mesma cova


Nesse ano, a peste negra invadiu Londres. Quando a epidemia arrefeceu, de um terço à metade da população havia sucumbido.

Para impedir que os corpos fossem abandonados nas ruas e oferecer a oportunidade de funerais cristãos a tanta gente, Ralph Stratford, bispo da cidade, construiu dois cemitérios novos que funcionaram apenas durante a epidemia.

No auge da devastação, eram realizados 200 sepultamentos por dia nessas localidades. Apesar da pressa em enterrá-los, todos os corpos eram dispostos na direção leste-oeste, cobertos de carvão, provavelmente depositado com a finalidade de absorver os fluidos que os antigos imaginavam responsáveis pela transmissão da enfermidade.

A urgência e a falta de espaço obrigavam a empilhá-los uns sobre os outros na mesma cova.

Situados em East e em West Smithfield, áreas hoje soterradas sob edifícios modernos no distrito financeiro da cidade, esses cemitérios foram escavados nos anos 1980. Os arqueólogos resgataram 800 esqueletos, número correspondente a um terço dos que jazem no local.

A peste negra teve origem no oeste da Ásia. Nos tempos de Justiniano, no século 6º, entrou por Constantinopla e se espalhou pela Europa e pelo Oriente Médio. Nos dois séculos seguintes, os surtos se sucederam impiedosamente. Depois, embora com menor frequência, ressurgiram até chegar ao século 19.
Boccaccio, no "Decamerão", assim descreveu o quadro clínico da doença: "De início, ela se manifesta pela emergência de certos tumores nas axilas ou nas virilhas, alguns dos quais crescem até atingirem o tamanho de uma maçã, outros o de um ovo".

Em 1894, Alexander Yersin identificou a Yersinia pestis, causadora da peste bubônica. De início, a bactéria foi apontada como agente etiológico da peste negra e de outras catástrofes epidêmicas.

Mais recentemente, no entanto, surgiram dúvidas, porque as epidemias de peste bubônica, no século passado, foram menos mortais e se disseminaram mais devagar do que aquelas de peste negra.

Boccaccio relata que a morte ocorria três dias depois dos primeiros sintomas, eventualidade rara na peste bubônica. Um vírus como o Ebola ou a bactéria causadora do Antrax provocariam enfermidades mais semelhantes.

A partir de 2000, pesquisadores europeus tentaram recuperar o genoma da bactéria causadora da peste negra, nos dentes de esqueletos de pessoas que teriam morrido da doença. A tarefa tem sido árdua, porque separá-la das provenientes do solo é como encontrar agulha no palheiro.

Depois de muita controvérsia, foram identificadas sequências de DNA da Yersinia pestis, em diversos ossos enterrados em East Smithfield. A descoberta mostrou que a responsável pela peste bubônica também esteve envolvida nas epidemias de peste negra.

A Yersinia pestis dos tempos modernos teria emergido por mutações ocorridas no século 14, enquanto a peste negra assolava a Europa.

O genoma da Yersinia moderna sofreu poucas mutações nos últimos 660 anos. Nenhuma de suas características, entretanto, consegue explicar por que seus ancestrais eram tão virulentos.
Há muito interesse em modificar os genomas das espécies atuais para ressuscitar o da bactéria da peste negra. Não há perigo, porque essas pesquisas são realizadas em laboratórios acadêmicos de segurança máxima. Ainda que ocorresse alguma infecção acidental, a peste negra seria facilmente curável com antibióticos.

A bactéria da peste negra trazida para a Europa pelos soldados que retornavam do mar Negro teve aliados importantes: a desnutrição, o frio e o clima úmido. É possível que não tenha sido espalhada apenas pelas pulgas dos ratos, mas também por outros animais.

Assim como a gripe espanhola que matou 100 milhões de pessoas contou com a ajuda de bactérias causadoras de pneumonia, é possível que outros agentes tenham cooperado com o da peste negra.
Os métodos de sequenciamento de DNA hoje disponíveis permitem conhecer os agentes etiológicos das epidemias do passado, suas relações evolutivas com os patógenos atuais e com aqueles que provocarão as epidemias do futuro.

Como diz Ewen Callaway, na revista "Nature": "Epidemias catastróficas são a regra na história humana, não as exceções".

ROBERTO RODRIGUES - Protecionismo e soja responsável


Protecionismo e soja responsável
 ROBERTO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 05/11/11

Nos últimos dez anos, a produção de soja teve aumentos de 82% no Brasil e de 72% na Argentina

Embora a China já seja o maior comprador mundial de soja, a União Europeia ainda é um grande importador do grão, do farelo e do óleo. E, cada vez mais, tem exigido que a soja seja produzida, especialmente no Brasil e na Argentina, segundo critérios rigorosos de sustentabilidade.
Esse tema aponta para mecanismos de verificação e certificação, de modo que é muito importante analisar os obstáculos que os produtores de soja dos dois países precisam superar para não perder o mercado europeu.
Brasil e Argentina, somados, já produzem mais da oleaginosa do que os Estados Unidos.
Nos últimos dez anos, o Brasil aumentou a produção em 82% e a Argentina, em 72%, basicamente devido a aumentos de produtividade e pela inclusão de novas áreas cultivadas.
O Icone (Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais), respeitado e sério "chapéu pensador" do agro brasileiro, com apoio e financiamento do IDH (Iniciativa Holandesa para o Comércio Sustentável) e do IFC (Corporação Financeira Internacional), fez um estudo nessa direção, a "Análise Estratégica para Produção de Soja Responsável", tomando por base os critérios da Mesa Redonda de Soja Responsável (RTRS).
Para tanto, o Icone realizou entrevistas nos dois países com produtores rurais, ONGs, traders, órgãos públicos estaduais e federais, além de associações de classe. Depois organizou workshops para validar as entrevistas e ampliar o escopo da análise.
O estudo considerou cinco temas fundamentais: o uso das boas práticas agrícolas, os aspectos ambientais, as relações dos produtores com a comunidade, as relações de trabalho no campo e a certificação.
E, como era esperado, foram encontrados alguns problemas para adequar a produção de soja à ideia de sustentabilidade.
1) Em primeiro lugar, verificou-se que há uma boa dose de desconhecimento sobre o quesito de certificação, seus critérios e seus custos, inclusive quanto à legislação reguladora do assunto.
2) Como consequência, não há clareza sobre as vantagens ou os benefícios da adequação a esses critérios.
3) É necessário incluir os pequenos e médios produtores no projeto, uma vez que eles são os menos preparados para adotar as técnicas necessárias.
4) Há morosidade por parte dos órgãos públicos na institucionalização dos processos de certificação. Devido a esses gargalos, o Icone preconiza as seguintes ações para que o modelo funcione melhor e mais rapidamente nos dois países analisados:
a) Identificar as necessidades de cada região -não dá para estabelecer os mesmos critérios para um produtor do Rio Grande do Sul e outro de Mato Grosso ou do Piauí. Que dirá do Brasil e da Argentina! São mundos diferentes que demandam estratégias distintas;
b) Criar parcerias, principalmente em nível local -trata-se de formalizar a integração dos diversos elos da cadeia produtiva, dos insumos às indústrias e às tradings.
c) Disseminar a informação -sem clareza de custos e benefícios, ninguém se lançará no programa. Treinar e capacitar é o caminho;
d) Investir em adequações -aqui entra desde a logística e a infraestrutura até o cumprimento das legislações trabalhista e ambiental;
e) Dar incentivos aos produtores -premiar quem aderir aos métodos indicados, seja por mecanismos de mercado, seja fiscais. É sempre melhor estimular do que castigar;
f) Engajamento das lideranças no sistema de certificação -sair do conservadorismo e olhar para o futuro com mais consistência técnica.
É um estudo muito interessante, que mostra, entre outras coisas, que há uma enorme diversidade no nível de informação e do compromisso com a certificação, objeto final da produção da "soja responsável".
Mas que também evidencia o trabalho sério que vem sendo feito no Brasil e na Argentina, objetivando a permanência em um mercado cada dia mais competitivo, no qual os compradores sempre irão colocar mais dificuldades para os produtores.
Na prática, trata-se de impor barreiras de todo tipo! E de superá-las.

JOSÉ MILTON DALLARI - Salários e inflação o desafio de Dilma


Salários e inflação o desafio de Dilma
JOSÉ MILTON DALLARI
O ESTADÃO - 05/11/11

Assim como os bancários, que obtiveram aumento real de 4,3% no piso da categoria, petroleiros, metalúrgicos, portuários e químicos vão lutar por aumentos reais de salários até o fim do ano, colocando mais combustível na fogueira da inflação.

E,em 2012,o salário mínimo de R$ 545 passará para R$ 616, um reajuste de 14%.Se este ano a inflação já ameaça estourar o teto da meta,segundo previsão de analistas de mercado, no ano que vem o cenário pode se complicar ainda mais.

A estimativa dos economistas é de que o governo tenha muitas dificuldades para trazer o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta, fixadaem4,5%.

A pergunta que o trabalhador se faz é a seguinte: Quando os salários têm ganho real, o resultado é sempre inflação? Em alguns casos, sim. Isso acontece quando o consumo cresce sem que a economia amplie sua capacidade de oferta. Se todo mundo quer comprar automóveis e não há produção suficiente para atender a esse desejo, a tendência é de que os preços aumentem. O Brasil já viveu um cenário como este.

Mas não é o que parece estar ocorrendo agora no País. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),o consumo das famílias, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), caiu entre 2009 e 2010, de 61,7% para 60,6%. Esses números sinalizam que o consumo das famílias tem ficado praticamente estável em relação ao crescimento da economia. Portanto, não vem da falta de produtos no mercado a pressão inflacionária.

Na teoria econômica, o salário mínimo tem de corresponder à "produtividade- padrão" do trabalho na economia.

No Brasil, por enquanto, os salários estão perdendo a corrida para o aumento da produtividade. Entre 1989 e 2008, a produtividade da indústria brasileira cresceu 84% e a média dos salários caiu 37 pontos. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelam que o valor real do salário mínimo chegou ao ano 2000 reduzido a um quinto do que era em 1945. Se a teoria econômica também associa inflação a aumentos salariais acima da produtividade, como se vê, estamos longe disso.

É preciso ter em mente que há muitos outros fatores que causam inflação, não apenas o aumento real de salário.

No Brasil, os impostos e os juros incidem principalmente sobre o consumo.

Os impostos cobrados pelos governos federal( PIS,Cofins e outros),estaduais (ICMS, ITBI e outros) e municipais( IPTU, IPVA e outros),alguns diretos e outros indiretos, e os reflexos dos juros pagos aos bancos pelos títulos públicos emitidos pelos mesmos entes governamentais.

Esses custos da economia brasileira, que representam em média mais de 40%, são repassados diretamente aos preços, causam inflação e punem quem ganha menos.É um ciclo vicioso que há anos não encontra saída no País.

Há mais problemas. Setores da indústria impedem a concorrência e qualquer aumento de custos é repassado imediatamente para os preços. Oligopólios que dominam certos setores da produção nacional também aumentam o lucro via preços.O valor dos produtos é reajustado, mesmo que não haja aumento nos custos de produção.O objetivo é simplesmente aumentar o lucro. Há, ainda, o capítulo das tarifas públicas,boa parte reajustada por contratos indexados,que pressionam a inflação.

Portanto, atribuir o risco de um salto na inflação apenas ao aumento real dos salários e querer combatê-la sob esse ângulo é ineficiente.

Este é o desafio que se impõe ao governo da presidente Dilma Rousseff.

Como equacionar a questão do ganho real do salário no Brasil como controle da inflação e o crescimento sustentado da economia. Se nada for feito no médio prazo, corremos o risco de ficar no eterno dilema dos juros altos, salários baixos e crescimento econômico mediano.

José Milton Dallari: Sócio da Decisão Consultores,foi secretário de acompanhamento econômico do Ministério da Fazenda e Integrante da Equipe que implantou o Plano Real.

CELSO MING - Fracassou


Fracassou
CELSO MING
O ESTADÃO - 05/11/11

Difícil evitar a palavra fracasso. Ficou a impressão de que essas reuniões de cúpula do G-20 servem mais para que os chefes de Estado das 20 maiores potências do Planeta (cerca de 80% do PIB global) possam comparar o tamanho do próprio ego ao dos outros, do que para aprofundar práticas de governança coletiva.

A pauta, pormenorizadamente preparada ao longo de todo um ano pelo governo da França, que presidiu e sediou o encontro, foi atropelada dois dias antes pelo turbilhão da área do euro, que ameaçou mandar para o espaço um pedaço enorme da economia mundial. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, desembarcou em Cannes, onde se realizou o evento, e logo tratou de advertir que o principal objetivo era construir uma porta corta-fogo para impedir a propagação da crise do bloco do euro - primeiramente, dentro dele mesmo e, depois, para o resto do mundo.

Esse projeto consistiria em elevar recursos que se destinassem a socorrer países à beira do precipício - casos hoje da Grécia e, também, da Itália e da Espanha. A ideia anterior, de que outras economias bombassem dinheiro diretamente para o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF), foi barrada na entrada por duas razões: primeira, porque nem os próprios europeus definiram como o EFSF seria alavancado para que pudesse operar como se tivesse 1,3 trilhão de euros; e, segunda, porque os europeus (especialmente os alemães) não querem aumentar suas contribuições e, nessas condições, não podem desejar que emergentes e outras potências de fora façam o que eles não pretendem fazer.

A outra proposta, de expandir a capacidade de intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI), ficou para ser examinada em outra oportunidade.

Assim, o único avanço obtido no sentido de instalar uma porta corta-fogo foi o compromisso assumido "voluntariamente" pelo primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, de submeter trimestralmente as finanças da Itália à auditoria do FMI. Não deixa de ser um jeito de incutir a credibilidade que hoje falta na saúde das contas públicas italianas. Mas seria ótimo se simples monitoramentos bastassem para consertar rombos assustadores.

No mais, foi um amontoado de palavras ditas e depois resumidas no comunicado: "Concordamos com um plano de ação pelo crescimento econômico e criação de empregos. com aumentar esforços para fortalecer a segurança das finanças globais. com aumentar a regulação das instituições financeiras paralelas (shadow banking).". E foram por aí.

Alguns dirigentes, como a nossa presidente Dilma Rousseff, procuraram alertar que o ajuste fica mais difícil sem crescimento econômico. Daí por que não se pode insistir em sacrifícios fiscais excessivos. Certíssimo. Mas como se faz isso? De que modo garantir investimentos e crescimento da renda, se os Tesouros nacionais estão quebrados e o avanço do endividamento ficou insustentável? A resposta é que a saída talvez seja emitir moeda e admitir certa inflação, cujo efeito seria provocar erosão das dívidas. Mas coisas assim não vão para os comunicados.

Na prática, sob convulsões, a encrenca europeia continua sobre o colo dos europeus, de onde não saiu, embora alguns esperassem que os maiorais do mundo talvez pudessem tirar algum coelho de suas cartolas.

CONFIRA

Não pode falir. Entre as poucas novidades acertadas nesta última cúpula do G-20 está a elaboração de uma lista de bancos que serão objeto de supervisão e acompanhamentos especiais por não poderem mais ser considerados grandes demais para quebrar (too big to fail). A ideia é de que nunca mais se repita o caso Lehman Brothers, que atirou a economia mundial no pânico quando afundou, em setembro de 2008.

E o Lehman Brothers? A grande ironia dessa lista é a de que, se ainda estivesse em operação, o Lehman Brothers provavelmente não estaria lá. Quando quebrou, era apenas o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. E, no entanto, produziu o estrago conhecido.

Lista incompleta? Essa observação sugere que a operação blindagem não alcança um grande número de instituições financeiras também capazes de produzir grandes convulsões financeiras se acabarem quebrando

MÔNICA BERGAMO - NÃO É BRINQUEDO

NÃO É BRINQUEDO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 05/11/11

 O ex-jogador Ronaldo brinca de autorama com os filhos Alex (à esq.) e Ronald em comercial das pilhas Duracell, cliente de sua agência de marketing, a 9ine; no anúncio, que estreia na TV na segunda, eles aparecerão também usando lanternas e instrumentos musicais

NA CABEÇA TUCANA
O vereador Floriano Pesaro, líder da bancada do PSDB na Câmara Municipal de SP, fez pesquisa entre colegas de partido sobre a eleição de 2012. Os oito parlamentares consideram José Serra -que diz não querer o posto- o melhor candidato para a prefeitura. Entre os pré-candidatos, Andrea Matarazzo tem o apoio de Pesaro e outros quatro vereadores. Dois estão com José Aníbal e um está indeciso.

IRMÃOS

Os oito vereadores são favoráveis a uma aliança com o PSD, desde que um tucano lidere a chapa.

LONGA ESPERA

E a maioria dos vereadores defende que as prévias do partido sejam depois de janeiro -os pré-candidatos querem que ocorram no primeiro mês de 2012. A preferência dos parlamentares por mais tempo é justamente para amadurecer a aliança com o PSD -ou para que Serra resolva se lançar.

NADA A VER

De Marta Suplicy (PT-SP) sobre o temor de setores do partido de que ela deixe o PT depois de ter sido preterida na disputa pela candidatura à prefeita: "Cada um delira como quer". E conclui: "Eu sou a cara do PT".

TALHER

E Lula convidou a ex-prefeita para um almoço na próxima semana. Ela diz que ficou positivamente surpresa com a disposição do ex-presidente, que se trata de um câncer. "Ele diz que não aguenta mais ficar em casa. E olha que só estava em repouso há um dia!"

BRECHA

Apesar da sugestão de líderes do PT, a presidente Dilma Rousseff rejeitou a ideia de nomear Marta para um ministério para não abrir precedente. Se fizesse isso, seria pressionada a acomodar outros pré-candidatos do partido descartados para disputar as eleições de 2012.

URNA

O PC do B de São Paulo planeja lançar a candidatura do ex-ministro Orlando Silva a vereador.

SOBRENOME

Ivete Sangalo é a estrela de campanha publicitária que o governo federal coloca no ar a partir de domingo para promover o registro civil de nascimento. Entre 2002 e 2009, a população brasileira sem certidão de nascimento caiu de 20,9% para 8,2%.

Convidada por Dilma Rousseff e pela ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos), a cantora não vai cobrar cachê.

VERSO

"O Poeta e o Passarinho", livro de Ricardo Viveiros lançado pela editora Biruta, já vendeu mais de mil exemplares em dez dias nas livrarias. O jornalista fez a obra inspirado em texto que ele mesmo escreveu, há quinze anos, quando perdeu um filho de 26 anos e uma neta de 7 meses em um acidente de trânsito em SP. A papelada estava perdida na bagunça caseira e foi reencontrada recentemente, quando Viveiros se mudava de casa.

ROCK DE CAMAROTE

Os atores Bruno Gagliasso, Giovanna Ewbank, Jayme Matarazzo e Daniel Boaventura curtiram, anteontem, o primeiro show do Pearl Jam em São Paulo. A empresária Fernanda Thompson também assistiu à apresentação da banda norte-americana no estádio do Morumbi.

ROUPA DE FESTA

A estilista Helena Linhares comemorou seu aniversário no Ballroom, ao lado do irmão Dudu e de convidados como Aline Nobre e Renata Klem.

CURTO-CIRCUITO
O PercPan (Panorama Percussivo Mundial) começa no dia 11, às 21h, com show de Criolo no Auditório Ibirapuera. Livre.

A peça "A Serpente" estreia hoje, às 21h, no teatro Gil Vicente. Classificação etária: 16 anos.

Os designers Fred Gelli e Bruno Porto participaram da conferência "Design at the Edges" em Taiwan.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

JOSÉ SIMÃO - Grécia! Atenas vira Apenas!


Grécia! Atenas vira Apenas!
 JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 05/11/11

E uma turma de rancorosos e hipócritas quer que Aquiles trate seu calcanhar pelo SUS

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República! E a manchete do Piauí Herald: "Luciano mistura sertanejo com axé e tem novo piripaque". Rarará!
E adorei a charge do Salvador com a professora: "Onde fica a Grécia?". "Na Pindaíba." Isso. Grécia, capital Pindaíba! Aliás, o capital tá na pindaíba! E diz que Atenas virou Apenas!
E os gregos foram pedir ajuda a Zeus. E ele mandou pro raio que os parta. Rarará! E esta: "Bill Gates quer que o Brasil dê dinheiro para os países pobres".
Espanha, Portugal e Itália?! Eu não vou dar dinheiro pro Berlusconi gastar tudo em quenga.
Aliás, sabe qual o apelido do pinto do Berlusconi? Fofoca: corre de boca em boca. Rarará! E o G20! O Geme 20! Todo mundo gemendo. Com essa crise, o G20 virou G14,5!
E uma leitora reclamou que o blazer da Dilma tá com a manga muito curta. Não é curta, é que ela já chega com as mangas arregaçadas. Dando pitaco em todo mundo: "Entenderam ou eu tô falando grego?".
Uma amiga tava assistindo a Globonews quando flagrou a Dilma com o dedo em riste no nariz do Obama! Demite esse Obama duma vez!
E tô adorando os tuítes sobre a crise na Grécia Antiga: Apolo vira gogoboy da The Week. Medusa transforma pessoas em pedras e vai vender na Cracolândia. Dionísio vende seus teatros pra Universal.
E uma turma de rancorosos e hipócritas quer que Aquiles trate seu calcanhar pelo SUS. Tudo por Atenas R$ 1,99!
Ah, e Sófocles pegou um bico na Globo. Colaborar com "Malhação"! Rarará! E a Grécia é o berço da democracia: aí o Papandreou teve uma recaída democrática e ia consultar o povo sobre o pacote europeu e o G20 democrático quase mata o cara! Referendo? Nem refudendo!
E Angela Merkel tem cara de quem ganha concurso de torta de maçã, apfesltrudel! Esse G20 tá parecendo reunião de associação de bairro pra distribuir tíquete do leite! E o casaco vermelho da Dilma? O Elefantinho da Cica!
E avisa pro Alckmin que a polícia de São Paulo é mais truculenta do que a polícia de ditador árabe! E uma amiga minha quer um vestido tomara-que-caia, um sutiã tomara-que-segure e uma calcinha tomara-que-tirem. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA


CRISTOVAM BUARQUE - Cinismo ou ceticismo


Cinismo ou ceticismo
CRISTOVAM BUARQUE 
O GLOBO - 05/11/11

Diversos repórteres descreveram a rebelião em Canudos. Mas foi Euclides da Cunha quem ficou na história, porque no lugar de apenas descrever as aparências entre o que parecia um Conselheiro insensato e generais sensatos, mostrou o que havia por baixo das aparências: a disputa entre Cidade e Campo, Império e República, Moderno e Arcaico.

Cem anos depois, estamos repetindo a mesma forma superficial de fazer reportagens sem descrições mais profundas da sociologia da corrupção. As notícias giram em torno de denúncia dos fatos visíveis: vídeos, contratos, fotos e propinas. Ainda não surgiu o Euclides da Cunha da corrupção. Estamos vendo e descrevendo o superficial.

Por trás dos fatos de políticos roubando dinheiro público, está a realidade de uma sociedade acostumada a desprezar o que é público. A indignação contra a corrupção é um bom sinal de que o interesse público começa a nascer, mesmo assim muito discretamente, porque as causas mais profundas não são denunciadas. Como Canudos, há uma barreira protegendo a percepção das causas mais profundas.

Depois de séculos em que até o trabalhador era propriedade privada e de décadas de uma democracia servindo aos interesses de minorias, o interesse privado ainda prevalece sobre o público. Fica explicado - não justificado, obviamente - por que tantos se sentem no direito de vandalizar os bens públicos, como se destruir bens públicos não fosse uma forma de corrupção. Fica explicada também a aceitação de expressões como "isto não é roubo", ou "rouba, mas faz", ou "mas, e daí, se todos roubam", ou a mais moderna e cínica "rouba, mas é um dos nossos", ou ainda "rouba, mas não é para si, é para a campanha".

Até há pouco tempo, pelo menos existiam partidos e militantes que repudiavam essas afirmações. A democracia cooptou-os, absorveu-os e os fez tolerantes, criando uma geração de céticos e cínicos, porque a realidade da primazia do privado é mais forte do que as ideias, os sonhos e a vontade dos que querem defender o público. Isso faz com que os jovens que há poucos meses estavam sendo pisoteados pelas patas de cavalos da polícia, ao manifestarem-se contra a corrupção, não compareçam e até repudiem as recentes manifestações pela ética. Pode ser por ingenuidade ou por convicção de que os fins justificam os meios, ou pode ser por cinismo até porque as ações não mostram fins diferentes do ponto de vista dos interesses do público e do longo prazo.

Esse desprezo pelo interesse público induz e permite uma tolerância com o roubo dos recursos públicos a ponto de, eufemisticamente, chamá-lo de corrupção, no lugar de roubo. A sociedade aceita como natural o uso do dinheiro público para obras desnecessárias ou que beneficiam apenas uma minoria. Felizmente, cobrar propina na construção de prédio público já começa a provocar indignação, mas fazer obra faraônica ou estádios ao lado de casas sem esgoto não escandaliza. A primazia do privado sobre o público, do indivíduo sobre a Nação, leva à "corrupção pelo vandalismo", à "corrupção nas prioridades" e à "corrupção do imediatismo", provocando o consumo de recursos que pertencem também às gerações futuras, como acontecerá com os royalties do petróleo, como se isto não fosse também uma corrupção.

É por isso que, nas palavras do professor Kurt Weyland, citado pelo jornalista Rudolfo Lago, no site Congresso em Foco, "o Brasil tem uma democracia estável, mas de baixa qualidade". Porque a política não está comprometida com a causa pública. Felizmente, enquanto não surge um Euclides da Cunha, temos repórteres atuantes, desvendando segredos e descrevendo a realidade apenas nas aparências. Como os repórteres que foram a Canudos, os de hoje talvez tenham interesses e visão das minorias privilegiadas, viciadas no interesse particular da renda e do consumo privado, que impedem a visão das causas da corrupção que vão muito além do comportamento dos políticos imorais. A corrupção está na estrutura social, na qual o Estado pertence e existe para poucos.

Euclides da Cunha, além da genialidade literária, possuía uma habilidade sociológica que não dá para exigir de todos nós, nem dos nossos leitores que, provavelmente, não gostariam de tomar conhecimento de toda a verdade.

Mas dá para exigir que os militantes não sejam cínicos no presente, para que não sejam todos céticos quanto ao futuro.

CRISTOVAM BUARQUE é senador (PDT-DF).

MIGUEL REALE JÚNIOR - Maldita maioria!


Maldita maioria!
MIGUEL REALE JÚNIOR
O Estado de S.Paulo - 05/11/11

Campos Sales, presidente da República de 1899 a 1902, defendia o regime republicano presidencialista, e não o parlamentarista. Se no regime presidencial o Legislativo não governa nem administra, por isso, a seu ver, era necessário que a ação legislativa fosse "esclarecida e mesmo, a certos respeitos, dirigida", pois o Executivo deve conduzir a feitura das leis por conhecer a realidade. Assim, malgrado "decidido adversário do parlamentarismo", Campos Sales admitia como necessária a construção de uma maioria no Legislativo que, pela afinidade de aspirações, constitua um sólido laço, uma perfeita aliança com o Executivo, para o esforço coordenado entre os Poderes "em proveito dos grandes interesses da Nação".

Por outro lado, antepunha-se à concentração de poderes no governo central, que absorve as forças nacionais, advogando a importância da forma federativa, na qual União e Estados cooperem livre e espontaneamente para o desenvolvimento nacional. Para Campos Sales, uma República unitária apenas estimularia o sentimento de separação. Se no Império a força estava no poder central, na República, dizia ele, a força deve estar nos Estados, pois "é na soma destas unidades autônomas que se encontra a verdadeira soberania da opinião. O que pensam os Estados pensa a União!".

Da conjugação destas duas perspectivas - 1) necessidade de cooperação entre Executivo e Legislativo na formação de uma maioria sólida e 2) cooperação íntima entre União e Estados, que se congregam para construção de uma política nacional - surge a formulação da denominada "política dos governadores".

Como unir, então, esses dois objetivos de formação de uma maioria e de fortalecimento do federalismo, em dupla conjugação: entre Executivo e Legislativo e entre União e Estados? No processo eleitoral da Primeira República, em que o voto era aberto e imperava o voto de cabresto, oposição e situação proclamavam-se vencedoras. Havia, no entanto, a exigência de exame das atas eleitorais por comissão da Câmara dos Deputados - Comissão de Verificação de Poderes -, à qual incumbia legitimar ou não os resultados das juntas eleitorais.

Essa comissão era presidida pelo deputado mais velho da legislatura a se findar. Campos Sales conseguiu, em combinação de próceres da Câmara, fixar que viria sempre a ocupar a presidência dessa comissão o ex-presidente da Câmara, pessoa, portanto, de confiança, que garantiria o resultado favorável aos deputados do grupo dos governadores, verdadeira força política no País.

Estabelecia-se uma grande troca de favores: os governadores apoiavam o candidato à Presidência escolhido em conversas com o presidente da República e este apoiava os candidatos dos governadores à chefia do Estado e à Câmara dos Deputados e ao Senado. Os parlamentares, por sua vez, prometiam dar sustentação ao Executivo. Era um grande conchavo para garantia de maioria serena por todo o canto. E às favas a oposição.

Com a Constituição de 1946 os problemas crônicos do presidencialismo afloraram continuamente, em seguidas crises institucionais que desembocaram no regime militar. Havia, como hoje, uma combinação explosiva: federalismo, voto proporcional, fragilização dos partidos e irresponsabilidade dos dois Poderes no exercício de suas funções.

O quadro não mudou com a estrutura política da Constituição de 1988. Ao contrário, acentuaram-se os conflitos entre os Poderes, pois a pauta do Congresso é fixada pelo Executivo, com medidas provisórias e regime de urgência. E o Legislativo tem a arma da obstrução.

Pequeno é o papel do deputado, mesmo porque apenas 10% da produção legislativa decorre de projetos de iniciativa de deputados ou senadores. A grande tarefa do deputado é pensar na reeleição, pelo que não é fiel ao seu partido, mas aos currais eleitorais. Passa a ser office-boy de luxo, a frequentar corredores dos ministérios atrás da satisfação de pleitos da sua região ou da corporação que representa. Mais importante ainda é conseguir a liberação da verba de emenda para a construção de ponte, clube ou posto de polícia.

Nas gestões de Fernando Henrique Cardoso cumpriu-se, na expressão de Sergio Abranches, o presidencialismo de coalizão. PFL, PSDB, PMDB, PPB e PPS tinham 350 deputados, mas o apoio parlamentar decorria da entrega de ministérios e de cargos aos indicados pelos partidos e também da liberação de verbas.

No primeiro mandato de Lula, o PT, isolado, tinha 91 deputados, enquanto a oposição somava 244. O PT ocupou centenas de cargos estratégicos nos ministérios, em especial naqueles cujo ministro, apenas decorativo, era de partido aliado. Como, então, cooptar o apoio de parlamentares "aliados" nas votações importantes? Decidiu-se pela "doação" de quantias a deputados em hotéis de Brasília. Criou-se, então, o presidencialismo de mensalão. No segundo mandato, o valor das emendas de deputados quintuplicou!

Agora, na gestão Dilma Rousseff, há franca maioria governista na Câmara. Há ministros dos partidos aliados, mas na votação importante da emenda constitucional da Desvinculação de Receitas da União (DRU), que permite ao governo usar livremente 20% da receita de tributos federais, os parlamentares, conforme editorial deste jornal, viraram extorsionários ávidos pela barganha: ou liberam emendas parlamentares e nomeiam apaniguados para empresas públicas ou não se aprova a emenda.

Sem as trocas da Velha República, sem os benefícios do mensalão, sem condescendência criminosa e com faxina, mesmo que parcial, o forte Executivo vira fraca vítima de chantagem, a mostrar que desde sempre, na República, não se forja maioria parlamentar "em proveito dos grandes interesses da Nação", na expressão pouco sincera de Campos Sales ao tentar justificar sua política de cooptação.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Projeto Haddad, fase 2
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 05/11/11

Removido o obstáculo Marta Suplicy, o próximo passo de Lula em prol da candidatura de Fernando Haddad é investir num grande acordo PT-PMDB no Estado de São Paulo. No cenário imaginado pelo ex-presidente, a aliança se estenderia à capital, onde os peemedebistas preparam o lançamento de Gabriel Chalita. Quem conversou com Lula diz que a meta é fazer de Chalita o vice de Haddad. Apesar de uma certa redundância de perfis, o arranjo cumpriria o objetivo principal: agregar o tempo de TV do PMDB. Ninguém subestima a força de Lula, mas petistas com acesso constante a Michel Temer arriscam o palpite de que não será nada fácil.

Barbeador Lula relatou a amigos que o visitaram ontem em São Bernardo a intenção de tirar a barba já neste final de semana, para se antecipar aos efeitos da quimioterapia. Segundo o ex-presidente, sua primeira reação ao tratamento foi a perda do sabor de alguns alimentos.

Só pensa naquilo Brincando, Lula disse ter uma só preocupação no momento: "Quero o Timão na liderança do Brasileiro". E apelou ao prefeito Luiz Marinho, santista: "Espero que seu time não entregue o jogo", afirmou, referindo-se ao duelo da equipe da Baixada contra o Vasco, rival do Corinthians na disputa pelo topo da tabela.

Seu pedido... A manifestação pública de Geraldo Alckmin em defesa do adiamento das prévias paulistanas do PSDB para março já faz com que a direção do partido admita mudança no calendário recém-aprovado pelos pré-candidatos, que previa a consulta em janeiro.

...é uma ordem O presidente tucano, Julio Semeghini, diz que outros líderes da sigla, além de Alckmin, expressam o desejo de postergar a disputa interna como forma de ampliar as alianças. "Defendo o cronograma aprovado. Mas é preciso mobilizar a militância. Se não conseguirmos, nada impede que se discuta novo prazo".

Pântano 1 Ao demitir toda a cúpula da Polícia Civil na esteira do vazamento de informações da operação que apura irregularidades em repasses do Esporte, o ex-ministro e atual governador Agnelo Queiroz (PT) fez acender luz amarela na turbulenta cena política do Distrito Federal. Alguns sinais de instabilidade lembram a época do governo interino que se seguiu ao afastamento de José Roberto Arruda (DEM).

Pântano 2 Segundo relatos de quem acompanha o dia-a-dia da administração Agnelo, aos 11 meses de vida ela já apresenta evidentes sinais de paralisia.

Nunca antes 1 Alvo da ira da bancada do PP pelo baixo ritmo de liberação de emendas e sob pressão do Planalto para acelerar os repasses às vésperas da votação da DRU (Desvinculação de Receitas da União), o ministro Mário Negromonte escancarou: desde o início da semana, o site das Cidades traz, com destaque, um informe denominado "Plantão emenda parlamentar 2011".

Nunca antes 2 O serviço pede apoio dos autores das emendas para agilizar processos e sanar eventuais dúvidas: "A assessoria do Ministério das Cidades está contatando, via e-mail e telefone, tanto os gabinetes dos parlamentares, responsáveis pela destinação das emendas, como as prefeituras que apresentaram os projetos".

Visita à Folha Nelson Barbosa, ministro interino da Fazenda, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de Patrícia Mesquita, chefe de gabinete.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"O Haddad não está com essa bola toda para gastarmos nossa energia na Câmara com ele. Só queremos investigar os erros no Enem."
DO LÍDER DO PSDB, DUARTE NOGUEIRA (SP), negando que os convites para Fernando Haddad explicar os problemas no Exame Nacional do Ensino Médio à Comissão de Fiscalização e Controle façam parte de uma estratégia para constranger o ministro da Educação, agora praticamente escolhido candidato do PT à Prefeitura de São Paulo.

contraponto
Faça como eu digo

Na solenidade de lançamento da nova fase do programa Bolsa Talento Esportivo, anteontem, Geraldo Alckmin discorria sobre a importância do exercício físico para a manutenção da qualidade de vida: -Devemos mexer o corpo a vida inteira. Cerca de 70% do organismo humano é água, e água parada estraga. Em bebês, esse percentual chega a 80%. Ou seja, a gente vai ficando mais velho e mais enxuto.
A plateia olhou desconfiada, e o tucano emendou:
-Mais ou menos, né? Nem todos...

HERON GUIMARÃES - Os imbecis da USP

Os imbecis da USP
HERON GUIMARÃES 
O TEMPO MG - 05/11/11

Cabe à reitoria da USP deixar a frouxidão de lado e assumir a autoridade que lhe é assegurada

Chega a ser patético o movimento de estudantes que, nesta semana, tomaram conta da reitoria da Universidade de São Paulo (USP). Ligados a partidos políticos e movimentos que ainda veneram ideias bizarras e pueris, baseadas em um trotskismo escalafobético, os malandros transmutados em estudantes usam camisas para esconder os rostos e não sabem nem mesmo dizer qual é a "grande causa" que defendem.


A desculpa para toda essa tolice é a presença da Polícia Militar no campus universitário, mas o verdadeiro interesse dos astrogildos é mesmo o livre uso da maconha e, quiçá, a permissão para traficarem drogas sem que para isso sofram qualquer tipo de perturbação.


A liminar da Justiça que determinou a saída dos mascarados ligados ao PCO e a "negação da negação" é o mínimo que se espera de um Estado democrático, mas cabe à reitoria da principal universidade brasileira deixar a frouxidão de lado e assumir a autoridade que lhe é assegurada.
Exemplo correto para esse tipo de situação, até como satisfação para quem está ali para estudar de verdade, seria a expulsão dos imbecis que transformaram uma repreensão insignificante em fato nacional.


Os pasmados que reivindicam para si a denominação de "revolucionários" deveriam largar as caras cadeiras da USP para zarparem às matas onde estão as Farc, pois lá, na floresta colombiana, o uso da maconha é liberado e o tráfico é a atividade-fim.


Dessa forma, deixariam de consumir o nosso dinheiro e abririam vagas na universidade para pessoas realmente comprometidas com causas nobres, como o desenvolvimento pessoal, a aquisição de cultura, o debate político, o aperfeiçoamento de ideais e a conquista de uma profissão.


A presença da PM na USP para controlar essa patota é um desperdício, de dinheiro e de tempo, pois, nas escolas da periferia, onde a violência é maior, nem sequer há um policial nas redondezas para proteger professores e alunos de escolas públicas do assédio e das ameaças de traficantes. Mas, se está lá e a comunidade pediu para estar lá, não é um bando de desocupados que definirá sua retirada.


A USP, em sua maioria, é composta por mentes produtivas e destinadas à conquista do conhecimento. Ainda bem. Fica para os estudantes do resto do país o exemplo de como não fazer. Jovens que tanto ajudaram o Brasil a corrigir seus rumos não podem se diminuir tanto.


Há combates mais dignos para serem combatidos, como a corrupção, por exemplo. Se, contudo, fumar maconha é hoje a principal "causa" da juventude, é bom que nossos universitários recorram ao Planet Hemp. D2 fez isso melhor no início da década de 1990, pois não destruiu nada que não era dele.

FERNANDO RODRIGUES - Prévias, adeus


Prévias, adeus
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 05/11/11

BRASÍLIA - A desistência de Marta Suplicy na disputa do PT para ser candidata a prefeita de São Paulo transcende à guerra interna na sigla. Trata-se de fato emblemático no processo de similarização orwelliana dos principais partidos.

Com todos os seus defeitos, o PT sempre foi a agremiação que mais tateou algum tipo de democracia interna. Em 2002, Lula só se tornou candidato a presidente depois de enfrentar Eduardo Suplicy num processo de eleição prévia da legenda.

Agora veio o dedaço de Lula a favor do ministro da Educação, Fernando Haddad, que está ungido como candidato a prefeito de São Paulo pelo PT. Nada contra nem a favor de nenhum dos postulantes petistas à vaga. Mas, ao rejeitar o processo de eleição interna, o PT não apenas dá adeus às prévias como também a uma cultura cada vez mais escassa entre os partidos políticos.

Se os partidos são a base do sistema de democracia representativa, toda vez que esses agrupamentos rejeitam uma forma transparente de escolha interna estão, ao mesmo tempo, reduzindo a sua inserção na sociedade. Por que alguém pretenderá se filiar ao PT com o sonho de ser candidato a prefeito um dia se quem manda e desmanda são só os caciques, Lula à frente?

Petistas desdenham desse raciocínio. Dizem que nos outros 28 partidos tal tipo de debate interno nunca existiu. É verdade. Mas esses mesmos petistas agora já não poderão tampouco fazer chacota com o PMDB, o PSDB e as outras legendas tradicionais. Estão todos iguais.

Pressionada pelo momento, Marta Suplicy usou um sofisma ao sair do páreo. Disse que sua presença poderia "estraçalhar a militância". O partido ficaria "absolutamente rachado, sem unidade". Se fosse assim, não existiria democracia. Ganhar e perder é parte do processo. Não mais no PT, que emula antigos adversários e assume "con gusto" o caciquismo que tanto combateu.

RONILSON DE SOUZA LUIZ - Odres novos e coragem para travessia


Odres novos e coragem para travessia
RONILSON DE SOUZA LUIZ
FOLHA DE SP - 05/11/11

"Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põem-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam" (Mateus 9.16,17).

O debate só é possível se pensarmos nos contemporâneos papéis e missões atribuídos à Universidade de São Paulo e à Polícia Militar. Escrevo visando os que ainda estão na "dúvida razoável". A abordagem policial é sempre um momento de grande tensão e exige do profissional de polícia cautela, firmeza e conhecimento da legislação.

Os manifestantes sabem que nada mais recorrente do que ouvir que a USP está distante do dia a dia e dos problemas das pessoas comuns. Seguir a opção de afastar a PM do campus, neste momento, reforçará essa imagem.

A USP firmou convênio temporário com a PM no sentido de que policiais militares com motos e viaturas operacionais também exercessem o inquestionável poder de polícia no interior do campus, apoiando a competente Guarda Universitária. Um recente homicídio ocorrido na FEA motivou o convênio.

Não cabe ao patrulheiro questionar o que foi decidido e planejado, dentro da legalidade.

Prever e prover são tarefas do escalão superior, sempre com respeito à vida, à integridade física, à dignidade das pessoas e interagindo com o cidadão, construindo soluções sólidas e perenes para problemas de segurança.

Em 2011, registramos 146 mil interessados em frequentar o campus; mais de 133 mil não terão êxito.

Na USP, onde me formei, ou na Cidade Tiradentes, onde morei, a atuação, a postura e a transparência da atividade policial deverá ser a mesma, quer quanto ao uso de drogas, quer em ocorrências de dano ao patrimônio público. Aos uspianos, não há que se falar em uso inocente ou desconhecimento do submundo das drogas.

A universidade lutou para que a prestação dos serviços públicos essenciais (saúde, educação e segurança) ocorressem de forma indistinta e com imparcialidade.

A segurança pública é um processo sistêmico e de responsabilidade de todos. Queiramos ou não, a polícia representa o resultado da correlação de forças políticas existentes na própria sociedade.

Um PM é um profissional do Estado como qualquer outro, contudo, mexe com questões vitais altamente sensíveis e explosivas (vida e liberdade) e só ele pode, na forma da lei, fazer seu papel, usando, se necessário, a força.

Certamente parte da sociedade alegrou-se ao ver discentes promoverem ato favorável à manutenção da PM, que zela pela mais perfeita fruição da vida universitária.

A frase da praça do Relógio pode ajudar aos mais extremistas no debate: "No universo do conhecimento, o centro está em toda parte".

Em um esforço com as palavras, eu diria que o papel da polícia é manter o tenso equilíbrio da lei e da ordem, não qualquer ordem, mas aquela desejada pelos justos cidadãos; pelo que consta, estes não repelem a PM.

Ao contrário do que alguns ainda pensam, a moderna formação e os constantes treinamentos habilitam a PM a lidar com ocorrências e adversidades de toda ordem, em qualquer dia, horário e lugar.

Lembro Fernando Pessoa: "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo/ E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares/ É o tempo da travessia/ E se não ousarmos fazê-la/ Teremos ficado para sempre/À margem de nós mesmos."

RONILSON DE SOUZA LUIZ é capitão da Polícia Militar de São Paulo, docente da Academia de Polícia Militar do Barro Branco e doutor em educação pela PUC/SP.

LUIZ SÉRGIO HENRIQUES - Indignação e política


Indignação e política 
LUIZ SÉRGIO HENRIQUES
O ESTADÃO - 05/11/11

Uma das profecias mais frágeis de que se tem notícia foi aquela que anunciou há pouco mais de 20 anos, com a implosão do comunismo "realmente existente", o fim de toda a História. Teríamos chegado a uma forma política definitiva - uma versão débil da democracia liberal, concebida como mero rodízio de elites incapazes de visões alternativas -, homóloga do funcionamento de certo tipo de mercado, com crescente dominância financeira, livre das regulações social-democratas do pós-guerra ou mesmo, um pouco antes, da época do reformismo rooseveltiano.

A ideia, tornada senso comum, é que teríamos passado a viver um eterno presente, capturado eficientemente pelo famigerado acróstico Tina - there is no alternative -, da lavra de uma das dirigentes mais endurecidas do novo curso inevitável das coisas. A palavra "social" aparecia como um adjetivo inútil e, radicalizando esse modo de pensar, melhor seria dissolver a noção de "sociedade" e considerar apenas indivíduos e interesses particulares que a compõem, à maneira de átomos.

Não cabe adotar aqui o ponto de vista do juízo final e decretar retoricamente a falência do capitalismo. Mais ainda, deve-se admitir que os espíritos animais do capital globalizado, liberados, golpearam definitivamente até as novas muralhas da China, ocasionando uma das mais surpreendentes transformações da História e promovendo a vinda ao mundo moderno de centenas de milhões de pessoas. Com todas essas cautelas, é autoevidente que os acontecimentos destes anos, com a grande recessão que remete aos idos de 1930, feriram de morte a ideia de um capitalismo sem crises e de uma democracia débil, submetida ao império das categorias econômicas.

Na verdade, a dissonância entre política e economia parece estar no centro do mal-estar que nos aflige. A impotência da primeira manifesta-se, entre outros sintomas, na falta de instrumentos de governo da dimensão sistêmica da economia, que se tornou global e unificou definitivamente o gênero humano, ainda que de uma forma desigual e, ao que tudo indica, ambientalmente insustentável.

Podemos estar no começo de um bem-vindo retorno da política - e dos sujeitos -, num movimento que, como nos anos 1960, abrange situações muito diversas, como as praças das revoluções no mundo árabe, os indignados da Porta do Sol em Madri e outras cidades europeias, para não falar dos surpreendentes "habitantes" da Praça Zuccotti, em Nova York. Neste último caso, os acampados podem até ceder diante da inclemência do inverno próximo, o que, no entanto, não autoriza a diminuir o sopro de renovação que podem vir a ter para a esquerda dos Estados Unidos, no seu sentido lato, e de todo o mundo.

Os habitantes da Praça Zuccotti situam-se num mundo em que o virtual e o real se cruzam de modo muito significativo. O idioma que falam está longe de ser unívoco e talvez esteja mesmo fadado a ser plural - contraditoriamente plural -, com acentos utópicos e possivelmente irrealizáveis. Em suas assembleias-gerais, conduzidas segundo os procedimentos de uma "democracia direta", formulam-se exigências claras de responsabilização do setor financeiro e de luta contra as desigualdades crescentes, que minaram o sonho americano de uma grande sociedade constituída majoritariamente por extensas camadas médias.

Mas há mais do que isso, pois o desafio é também a um sistema político que não funciona e parece entrincheirado, como que constituído por uma só casta incapaz de representar adequadamente a cidadania. Critica-se não só o Partido Republicano - capturado sectariamente por uma direita anti-intelectual, às turras com boa parte da ciência contemporânea, especialmente a que estuda o clima, e até com Darwin -, mas também o Partido Democrata, como se ambos fossem pura e simplesmente os dois braços de um mesmo partido: o da grande propriedade.

Pode haver nisso uma certa pulsão anti-institucional, uma vontade de não se dobrar à "cooptação", o que é compreensível em momentos inaugurais. Mas a tentação de se constituir obstinadamente em contrassociedade, oposta ao mundo "convencional", muitas vezes termina em opção pelo espírito de gueto, incapaz de falar a todos. E a experiência histórica também ensina que uma outra obstinação - a ênfase unilateral nos mecanismos da democracia direta - tem redundado em formas complicadíssimas (e, portanto, absurdamente indiretas) de exercício de poder, com escasso ou nenhum respeito pelas minorias e pelos processos de alternância normais numa comunidade política moderna.

A esquerda americana e, em geral, a esquerda em toda parte só foram capazes de mudar suas respectivas sociedades, nelas imprimindo a marca de justiça social, quando conciliaram produtivamente participação e representação. Foi assim no período áureo do reformismo rooseveltiano ou das social-democracias europeias: a construção do Estado de bem-estar social não foi dádiva ou projeto gestado por elites "esclarecidas", mas fruto de intenso conflito entre diferentes ideias de convivência. Um conflito travado, evidentemente, segundo as regras de uma democracia política que se reinventou e aprofundou, garantindo, por exemplo, a livre organização dos trabalhadores e universalizando os direitos políticos.

É provável que estejamos no limiar de um ciclo de grandes esperanças. A nova esquerda dos anos 60, portadora de instâncias antiautoritárias que em parte se cumpriram, em algum momento se deixou levar pela tentação da violência, favorecendo a grande maré conservadora que se seguiria. Hoje, a indignação dos jovens - e não tão jovens - merece tornar-se força transformadora e capacidade hegemônica, o que só é possível por meio de uma democracia renovada por atores comprometidos com um explícito regime de liberdades.

LUIZ SÉRGIO HENRIQUES:TRADUTOR, ENSAÍSTA, , É UM DOS ORGANIZADORES DAS OBRAS DE GRAMSCI NO BRASIL

HÉLIO SCHWARTSMAN - A democracia funciona?


A democracia funciona?
HÉLIO SCHWARTSMAN 
FOHA DE SP - 05/11/11

SÃO PAULO - O premiê George Papandreou até que tentou submeter a referendo o pacote de ajuda da UE à Grécia, mas foi impedido por uma improvável aliança entre membros de seu próprio partido e países graúdos da Europa. A questão é: mercados e democracia são compatíveis?

Grupos mais à esquerda respondem com um sonoro "não" e se põem a maldizer o capital, num roteiro conhecido. Quem também diz "não", mas fica com o mercado, maldizendo os eleitores, é o economista ultraliberal e militante libertário Bryan Caplan, em "The Myth of the Rational Voter" (o mito do eleitor racional).

A tese do autor é simples: democracias não dão muito certo porque elas entregam aos eleitores o que eles querem -e o que eles querem é frequentemente algo que os prejudica. Isso ocorre porque cidadãos de Estados democráticos, como todos os seres humanos, vêm de fábrica com uma série de preferências e vieses que os impelem a escolhas ruins.

Exemplos de erros sistemáticos citados incluem a nossa resistência natural a elementos do mercado, como juros e intermediários (a quem chamamos de "atravessadores"), a estrangeiros (imigração e deficit comercial são vistos como vilões) e nossa obsessão por criar empregos, mesmo que à custa de novas tecnologias.

No caso específico do pacote grego, ele provavelmente seria recusado nas urnas devido à nossa tendência de valorizar o presente em detrimento do futuro. Para não perder mais agora, o eleitor grego sacrificaria a retomada mais à frente.

Na democracia, sustenta o autor, esses vieses são ampliados pelo fato de que, como o peso de cada voto é irrisório, a urna se torna o lugar onde o eleitor dá rédeas aos seus instintos antimercadistas mais básicos.

Não compro tudo da argumentação de Caplan. A economia precisa melhorar muito antes de reclamar o estatuto de ciência dura. Mas é sempre bom ler argumentos inteligentes dos quais discordamos. No mínimo, aprimoramos nossas próprias ideias.

CLAUDIO HUMBERTO

“Importante é que ela é fundamental para vencermos as eleições”
EX-MINISTRO JOSÉ DIRCEU E O PAPEL DE MARTA SUPLICY NA ELEIÇÃO MUNICIPAL PAULISTANA

DENÚNCIAS PODEM PROVOCAR A DEMISSÃO DE LUPI 
Sob suspeita de favorecer ONGs amigas com recursosdo bilionário Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), para supostos cursos de qualificação profissional, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) virou um problema para o Palácio do Planalto, que passou a semana pedindo processos específicos de financiamentos suspeitos para responder a indagações de órgãos de controle e das principais revistas semanais.

SERVENTIA DA CASA 
O Planalto estudava antecipar a demissão de Carlos Lupi, prevista para março, após sua entrevista ao site IG reclamando de “esvaziamento”.

MINISTRO DE FATO 
Por ordem de Dilma, Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, há meses assumiu as atribuições que restam ao Ministério do Trabalho.

FUSÃO É A META 
Com a saída de Carlos Lupi, o governo deve promover a fusão dos ministérios do Trabalho e da Previdência, como esta coluna já antecipou.

PROVA DE FOGO 
No próximo Enem, marque com um X a opção certa:
( ) Esta questão vai vazar;
( ) Não vai;
( ) A Justiça decide;
( ) Pergunte ao ministro.

SAÚDE PÚBLICA FAZ BRASIL PASSAR VEXAME LÁ FORA 
A tragédia da saúde pública brasileira ultrapassou fronteiras e já produz constrangimentos para o País, em organismos internacionais. O vexame mais recente foi registrado na Organização Mundial de Saúde, há dias, quando o Brasil foi objeto de relatos preocupados, de diplomatas de diversos países, sobre a bactéria streptococcus pyogenes, que este ano matou quatro pessoas, somente em Brasília.

VETO NATALINO 
Um juiz de Teresina (PI) proibiu as lojas de tocarem em seus sistemas de som a música “Então é Natal”, de Simone, para seus clientes. 

ESPELHO 
O ditador “aposentado” Fidel Castro classificou o G-20, na França, de “reunião de oligarcas milionários”. Deve ser inveja...

CAPACETE DE JERICO 
O Senado aprovou projeto obrigando número de habilitação no capacete de motoqueiros. O projeto não inclui fornecimento de telescópios.

TEA PARTY 
Solução de um leitor gaúcho para o fim do acampamento de uma penca de jovens “indignados” no Viaduto do Chá, em São Paulo. Arremessar várias carteiras de trabalho. Melhor que gás de pimenta.

MALDIÇÃO AÉREA 
Parece praga: basta o governador Sérgio Cabral sair do Brasil – o que é habitual – e o Rio de Janeiro entra em convulsão: ontem (4), os traficantes retomaram seus occupy, numa escola e em duas “comunidades”.

TÁ FEIA A COISA 
Sérgio Cabral está em baixa ou Portugal anda contando moedas. Na festa black-tie luso-brasileira em sua homenagem, no Cassino Estoril, serviram o sofrível vinho Periquita em copinhos e batata palha como canapés.

CRIME E CASTIGO 
O brasileiro Márcio Gonçalves da Silva, 32, pegou prisão perpétua na Irlanda pelo brutal assassinato em 2009, com 51 facadas, da conterrânea com quem dividia apartamento, em Tullamore. Admitiu o crime passional, mas o júri, unânime, rejeitou a apelação.

TELEFONE MORTAL 
Pré-candidato a prefeito de São Paulo, o senador Eduardo Suplicy (PT) agradeceu as “muitas ligações” no telefone que pôs no Twitter pedindo apoio. Desligado da ironia, o abilolado não reparou: era Dia de Finados.

BABAQUICE NOSSA 
O pecadilho semanal da Infraero não foi pela reunião de seus doze diretores no Galeão, no Rio de Janeiro. Ficou por conta da autorização para que três aspones viajem a Barcelona para um curso de “interatividade entre aeroportos e portos”, uma babaquice custeada com diárias em euros.

BALANÇO RURAL 
Desde 1995, 40 mil lavradores foram libertados de trabalho escravo em fazendas brasileiras, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Mas, por falta de opção, 60% voltaram a esse tipo de emprego.

SEIF O QUÊ? 
A Odebrecht garante que não colocou barcos e aviões à disposição de Seif al-Islan, o filho de Gaddafi cuja proximidade virou um problema. A empreiteira brasileira só admite haver copatrocinado em São Paulo uma exposição de arte da qual o filho do tirano foi o organizador.

PENSANDO BEM... 
o euro está uma zona. 

PODER SEM PUDOR
CONFUSÃO 
O falecido ex-governador paulista Franco Montoro trocava nomes e pessoas, mas tentava acertar. Até fazia associações. Por isso, sempre chamava o então deputado Flávio Bierrenbach de “Bierrenbrahms”. Associava o sobrenome do ministro aposentado do Superior Tribunal Militar com um certo compositor de Hamburgo (Alemanha), mas novamente trocava Johann Sebastian Bach, nascido em 1685, por Johannes Brahms, de 1833.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Crack já é problema de saúde pública para 64% das cidades

Folha: G20 acaba sem achar saída para a crise global

Estadão: Cúpula do G-20 acaba sem reforçar caixa europeu

Correio: Três sequestros em menos de cinco horas

Jornal do Commercio: Conta de telefone vai cair

Zero Hora: Força-tarefa vai atacar os 25 pontos mortais das estradas gaúchas