quarta-feira, novembro 02, 2011

ROBERTO DaMATTA - NGOs & ONGs



NGOs & ONGs
ROBERTO DaMATTA
O ESTADÃO - 02/11/11

Como as ONGs e os "ongueiros" de plantão estão em moda, comecemos do começo que, dizia Guimarães Rosa, é tudo. E o começo aqui é o Wikipedia, a mãe de todos os burros virtuais.

Em inglês, o verbete NGO ensina (os grifos são meus): "Uma organização não governamental (NGO) é uma organização legalmente constituída, criada por pessoas naturais (cidadãos no sentido amplo do termo) ou legais que operam independentemente de qualquer governo. O termo se origina na Organização das Nações Unidas e é normalmente usado para se referir a organizações que não fazem parte do governo e que não são criadas como negócios com fins lucrativos. Em caso de serem fundadas parcial ou totalmente por governos, elas mantêm seu estatuto não governamental pela exclusão de representantes e membros do governo de sua organização".

Vejamos agora, na mesma Wikipedia, uma outra definição em português: "As Organizações não governamentais (ONGs) atualmente significam um grupo social organizado, sem fins lucrativos, constituído formal e autonomamente, caracterizado por ações de solidariedade no campo das políticas públicas e pelo legítimo exercício de pressões políticas em proveito de populações excluídas das condições da cidadania. Porém seu conceito não é pacífico na doutrina (...). Essas organizações podem ainda complementar o trabalho do Estado, realizando ações onde ele não consegue chegar, podendo receber financiamentos e doações dele, e também de entidades privadas, para tal fim. É importante ressaltar que ONG não tem valor jurídico".

* * * *

Nenhuma instituição social entra em espaços vazios. No Brasil, as ONGs mudam de significado e são um elo explícito entre o governo e certos setores sociais. Assim, as ONGs que têm aparecido no noticiário político-criminal, derrubando um monte de ministros, têm sido atores ideais na negação das origens dessas associações que, no mundo moderno (e, evidentemente também aqui, no Brasil) estão divorciadas formal e explicitamente de propósitos político-partidários, embora tenham forte atuação política como todos os seres ativos de um sistema social igualitário, liberal e democrático.

Resultado: temos no Brasil, ONGs e ONGs, seguindo lógicas diversas, como testemunhamos com aversão no caso do Ministério do Esporte e sob a égide do Partido Comunista do Brasil. Logo, diga-se de passagem, esse Ministério cuja responsabilidade é gerenciar, estimular, regular e incrementar o esporte. Essa atividade na qual é imperativa a consciência das normas, a competitividade é fundamental, a igualdade perante as regras é indisputável e a eficiência é a marca registrada dos bons atletas e times. É lamentável!

Aqui, cabem as duas formas. Na sociedade e na banda sadia do sistema político atuam as NGOs que não visam ao lucro e são universalistas e conscientes da sua importância para o bom funcionamento da sociedade. No lado podre do sistema, dominam os "ongueiros" filiados a partidos políticos em ONGs que trabalham mais para o partido do que para a sociedade. Com isso, as ONGs são um novo tipo de compadrio político-eleitoral e, como organizações de fachada, elas acabam modernizando ao contrário, servindo ao governo em nome da sociedade. O que deveria ser um instrumento de igualdade passa a ser mais um instrumento de desigualdade, como é o caso da corrupção.

Algo parecido tem ocorrido no capitalismo americano que virou, como alguns cronistas têm acentuado, um "capitalismo de companheiros ou compadres" - um "cronie capitalism". Felizmente, em ambos os casos, existem protestos. Aqui há uma marola contra a corrupção. Nos Estados Unidos, como diz Nicholas Kristof no The New Times, o Ocupar Wall Street não é um movimento para liquidar o capitalismo, mas para devolver-lhe a responsabilidade e os limites.

* * * *

Levamos séculos para estabelecer um sistema político no qual uma competição eleitoral livre, norteada por regras que valem para todos, leva ao poder representantes da sociedade. Soa estranho pensar seriamente num mecanismo que venha, pelo voto, a "deseleger" pessoas e, em paralelo, processar legalmente - isso mesmo, leitor, levar à barra da Justiça - administradores públicos notória e recorrentemente preguiçosos, incompetentes, desonestos, e sórdidos como esses que temos sistematicamente conhecido no Brasil. O "recall" americano é um mecanismo interessante e deveria ser discutido seriamente entre nós. O processo civil seria um outro recurso, talvez mais efetivo. Sou assaltado ou testemunho o assalto de minha neta Serena aqui, em Niterói, e tomo as providências no sentido de processar o secretário de Justiça ou o delegado de Polícia local. Peço justiça por danos morais porque, se há gerenciamento público sustentado regiamente pelos desabusados impostos pagos obrigatoriamente pelos moradores da cidade, tem de haver um sistema correspondente de atribuição de responsabilidade que torne o mundo público mais justo no Brasil!

TÚMULO DO CORRUPTO DESCONHECIDO


TÚMULO DO CORRUPTO DESCONHECIDO

RENATA LO PRETE - PAINEL


Soft landing
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 02/10/11

Quem conhece a fundo o PT paulistano e sabe fazer contas não tem dúvidas quanto ao desfecho de eventual consulta interna sobre a eleição de 2012. "O resultado dessa prévia todo mundo conhece", diz um cardeal do partido, prevendo a vitória de Fernando Haddad.

Feito o diagnóstico, ninguém pediu nem pedirá a Marta Suplicy para desistir. As abordagens serão todas no sentido de tornar confortável uma atitude que, acredita-se, a senadora tomará por iniciativa própria. A real preocupação dos apoiadores do ministro da Educação -Lula e Dilma à frente- é garantir o "pouso suave" de Marta e seu engajamento na campanha.

Incógnita 
Não obstante inscrições anunciadas para os próximos dias, dirigentes apostam que, se Marta recuar, Jilmar Tatto e Carlos Zarattini acabarão por segui-la. A dúvida é Eduardo Suplicy.

Pauta 
No Sírio-Libanês, Lula orientou Dilma a martelar, no G20, a necessidade de manter a Europa unida: "A criação da UE foi uma conquista da democracia mundial. Qualquer dissolução disso afeta o mundo inteiro".

Passatempo 
No período de cinco dias em que deverá ficar "de molho", Lula pretende "ler bastante, ver muito filme e conversar o que der".

Agenda 
Assim que terminar de receber a primeira dose de quimioterapia, Lula quer retomar, ainda que de leve, a rotina no instituto.

Aquele abraço 
José Dirceu conversou ontem por telefone com o ex-presidente. "Eu disse que ele sabe que pode contar comigo sempre." Ficou de visitá-lo domingo.

Conte comigo 
Diante da notícia de que seu partido poderia lançá-lo à presidência da Câmara em aliança com o PSD, Márcio França (PSB-SP) tratou de ligar para Henrique Alves (PMDB-RN), desde sempre candidato ao posto: "Se você tiver dois votos nessa disputa, um será seu, e o outro, meu".

A pé 1 
Para garantir aos moradores de Itaquera acesso seguro ao futuro estádio do Corinthians, o governo estadual construirá a maior passarela da Grande SP, com 180 m de extensão e vãos de 110 m e 70 m. A ligação suspensa cruzará a Radial Leste, a avenida José Borges Pinheiro e os trilhos da CPTM.

A pé 2 
A obra fará parte do pacote viário de R$ 478 mi previsto para o entorno da arena de abertura da Copa. Técnicos da CET apontaram à Dersa, responsável pelas melhorias, que, sem a passarela, só usuários de trem e metrô teriam caminho livre e desimpedido às arquibancadas.

E então... 
O caso da nomeação de Suzana Dieckmann para a Secretaria de Desenvolvimento do Turismo já percorreu os mais altos gabinetes de Brasília. Na segunda, os peemedebistas Michel Temer e José Sarney ligaram para o ministro Gastão Vieira, em tese da cota do partido, cobrando a prometida substituição de Dieckmann por Fábio Rios Mota. Vieira jurou à dupla ter encaminhado o pedido à Casa Civil.

...como é... 
Dilma discutiria o assunto com o vice na segunda, mas teve de antecipar a saída de Brasília. Os peemedebistas, antes indignados somente com o ministro, já começam a procurar outros culpados.

...que fica? 
Ontem, Temer e Gilberto Carvalho conversaram. O Planalto soube que o episódio fez crescer a tensão no PMDB. E que, com a votação da DRU batendo à porta, líder sem controle da bancada não pode ser responsabilizado por eventuais resultados adversos.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Túnel faraônico, escolas superfaturadas. Parece que o partido do Kassab vai ter um preço elevado para os paulistanos."

DO VEREADOR ANTONIO DONATO, PRESIDENTE DO PT MUNICIPAL, sobre a obra na região da avenida Roberto Marinho e a revelação, feita ontem pela Folha, de que escolas e creches a serem construídas pela prefeitura ficaram 28% mais caras entre a fase de pré-qualificação das empreiteiras e a assinatura dos contratos para a realização das obras.

contraponto
Leite das crianças

Em conversa com a deputada Ângela Albino (PC do B-SC) pouco antes de embarcar em Florianópolis no voo 3075 da TAM, anteontem, rumo a Brasília, o ex-titular da Pesca Altemir Gregolin falava de suas atuais atividades:
-Estou muito feliz, com consultorias no Ministério da Pesca e da Agricultura. Está dando para ganhar um bom dinheiro. Tenho que agradecer à Dilma.
O petista ainda acrescentou:
-Sabe, eu até queria voltar à política, mas preciso de uma base financeira...

DORA KRAMER - Saudações partidárias


Saudações partidárias
DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 02/11/11

A cerimônia de posse de Aldo Rebelo no Ministério do Esporte não foi a primeira a se transformar em ato de desagravo ao demitido, nesse verdadeiro dominó de queda de ministros em série na administração Dilma Rousseff.

Orlando Silva, a despeito de todas as denúncias que levaram a presidente da demissão à ordem para uma devassa nos convênios da pasta com ONGs, foi celebrado, elogiado, aplaudido de pé e condecorado com a condição de "vítima" pelo sucessor.

Em junho, a posse de Gleisi Hoffmann na Casa Civil já fora uma sessão de homenagem a Antonio Palocci, demitido por não conseguir explicar a legalidade do crescimento de seu patrimônio. Na ocasião, Palocci também foi aplaudido de pé pela plateia e chamado de "amigo" pela presidente.

Esquisito, já que a saída se deu por motivo de quebra de confiança, mas com boa vontade e algum cinismo compreende-se que o aspecto estritamente partidário pesa. Ademais, o PT daquela vez não estava envolvido na confusão.

Já com o PC do B a coisa foi diferente. Contra Orlando Silva há inúmeras evidências de que dirigia o ministério com mãos excessivamente frouxas e todas envolviam o partido, sobejamente favorecido com dinheiro do ministério.

Levantamento feito pelo jornal O Globo a partir de documentos de tribunais de contas mostra que 73% das verbas liberadas irregularmente foram para entidades ligadas ao PC do B.

Partido que consagra em seu estatuto o princípio de que os filiados ocupantes de cargos públicos devem estar "a serviço do projeto político partidário".

Em comparação com o PT - com presença forte no Parlamento e em todo o País, além de três vezes vitorioso na eleição presidencial - as reverências em relação ao PC do B, que até direito a discurso do presidente da legenda teve na posse de Aldo, suscitam a dúvida: o que deve o governo tanto ao PC do B?

Alguma carta muito poderosa essa agremiação com 14 deputados federais, 18 estaduais, 2 senadores e 608 vereadores guarda na manga para merecer tanta atenção. A representatividade popular é que não é.

Seja qual for a razão, a festança de segunda-feira no Palácio do Planalto consolidou a impressão de que na coalizão governamental há partidos de primeira e segunda categorias.

E é nas despedidas, nas posses dos substitutos, que essas diferenças ficam marcadas. Há os demitidos de luxo, por assim dizer, que merecem tratamento especial, são tratados como legítimos heróis da resistência e há o pessoal que viaja para fora do governo na classe econômica, relegado à frugalidade.

Se não, vejamos por ordem de entrada em cena. Depois de Palocci foi demitido Alfredo Nascimento (PR), dos Transportes, cujo substituto, Paulo Sérgio Passos, nem sequer contou com cerimônia de posse alegadamente por já ser o secretário executivo da pasta. Ficou só com a nomeação no Diário Oficial. 

Sem discursos nem reverências ao demitido. Na verdade, o PR manifestou-se de fora, esperneando e ameaçando romper.

Para Nelson Jobim (PMDB), que nem esteve presente à posse do sucessor Celso Amorim no Ministério da Defesa, não houve agradecimentos.

Em seguida, deu-se a demissão de Wagner Rossi (PMDB), da Agricultura, que, apesar de indicado (ou talvez por isso mesmo) pelo vice-presidente Michel Temer, mereceu na cerimônia de posse de Mendes Ribeiro apenas uma declaração protocolar da presidente sobre a "herança de êxito".

Pedro Novais (PMDB) tampouco recebeu referências e nem estava presente na troca por Mendes Ribeiro, cuja posse ocorreu em cerimônia restrita numa sala de audiências tão pequena que a imprensa não pôde entrar por falta de espaço.

Mas, para Orlando, nem o céu foi o limite para tantas saudações. Não se esperava que a presidente o humilhasse ou coisa parecida. Mas tantos elogios só encontram explicação na necessidade de governo e partido falarem "para dentro".

Quando caberia que falassem "para fora", aos brasileiros que nas últimas semanas souberam que o Ministério do Esporte era um braço avançado do PC do B.

Dilma emitiu um sinal dúbio e, na prática, tornou menos verossímil a presumida disposição de dar um choque de ordem na Esplanada.

MÔNICA BERGAMO - PELÉ EM CAMPO


PELÉ EM CAMPO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 02/11/11

O núcleo duro da equipe de Dilma Rousseff avalia o impacto da doença do ex-presidente Lula no governo. A conclusão inicial é que a dificuldade política aumentará. De acordo com um dos principais interlocutores da presidente, ela estava jogando com "o Pelé" no banco de reserva. Agora, ele se contundiu.

PELÉ 2
Com isso, outros jogadores vão "se ouriçar" em campo: Eduardo Campos, governador de Pernambuco, Sergio Cabral, governador do Rio, e outros pré-candidatos à Presidência "vêm para cima", diz o mesmo interlocutor de Dilma. Com a possibilidade de "Pelé", ou Lula, não estar em plena forma para entrar em campo em 2014 e desequilibrar a partida, eles se animariam a tentar jogadas mais ambiciosas.

PELÉ 3
A situação se acalmaria no começo do próximo ano. É quando Lula termina seu tratamento e o Planalto espera que ele volte à cena já curado e com todo o gás.

AFAGO
Dilma terá também que assumir temporariamente "missões" antes nas mãos do ex-presidente. Uma delas: convencer Marta Suplicy (PT-SP) a desistir de disputar as prévias para ser a candidata do PT à Prefeitura de SP. Numa reunião com petistas, há uma semana, Lula tinha se comprometido a conversar com ela e a fazer um apelo público por sua permanência no Senado.

CARDÁPIO
Anteontem, no hospital, Lula se alimentou com refeições leves e evitou açúcar. Jantou um filé de merluza ao molho de endro, salada de alface roxa, abobrinha e cenoura, farofa de maracujá, legumes salteados e salada de frutas. Dona Marisa, de chinelinho, circulava pelo corredor e conversava com outros pacientes, que mostravam a ela jornais com as notícias sobre Lula.

TUDO AZUL
Dona Marisa comentava com eles que, "em três meses, tudo vai passar. A quimioterapia [de Lula] vai terminar e nosso neto vai nascer". Lucas, filho de Sandro e Marlene, será o quarto neto do casal -Lula tem outros dois, filhos de Lurian.

SOTAQUE BRITÂNICO
A top Fernanda Tavares será o rosto da próxima campanha da loja de departamentos inglesa Marks & Spencer. Ela será clicada no fim do mês, no sul da Itália.

No contrato, foram colocadas cláusulas que impedem a modelo de engravidar ou ganhar medidas ao longo de pelo menos um ano.

CINE ESPAGUETE
O filme "As Idades do Amor", com Robert De Niro e Monica Bellucci, vai abrir a Semana Pirelli de Cinema Italiano, no dia 10. A mostra terá sessões e debates na Faap, no MIS, no Cine Sabesp e no Cinemark.

BRIGA DE COXIA
Produtores teatrais reclamam de "sabotagem" da Secretaria Municipal de Educação contra o Festival de Teatro Raul Cortez nos CEUs de SP, idealizado por Lulu Librandi. Peças como "Thom Pain", da Sutil Companhia, e "Viver sem Tempos Mortos", com Fernanda Montenegro, programadas para este ano, não devem ser apresentadas por problemas burocráticos. Fernanda já desistiu de fazer o espetáculo em 2011.

QUESTÃO DE BATISMO
"Como foi a Lulu que sugeriu o projeto ao prefeito, o secretário de Educação se sente atropelado", diz o produtor Germano Baía. O secretário Alexandre Schneider teria até mudado o nome do projeto para CEU É Show. Ele se diz "surpreso". E afirma que o fato de a iniciativa ser de Librandi não o chateia. "Vamos continuar o projeto, hoje com cinco peças em cartaz."

CENAS DE MUSICAL
Fotos Zanone Fraissat/Folhapress

Cláudia Raia
Os atores Cláudia Raia, Guilherme Magon e Jarbas Homem de Mello fizeram, anteontem, a estreia para convidados do musical "Cabaret". O diretor José Possi Neto, a atriz Rachel Ripani, o ator Luiz Gustavo e sua mulher, Cris Botelho, foram ao teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

DUPLO PARABÉNS
O ator Lázaro Ramos comemorou seu aniversário, anteontem, junto com colegas de "Amanhã Nunca Mais", que teve pré-estreia no mesmo dia. Maria Luisa Mendonça e Fernanda Machado, que estão no longa, e o diretor Jorge Furtado foram ao Gorila Café.

CURTO-CIRCUITO
A Osesp apresenta o concerto "3 Pianos", de amanhã até sábado, na Sala São Paulo. Classificação etária: sete anos.

O diretor polonês Jerzy Skolimowski vai dar uma aula magna e integrar o júri da competição Novos Olhares no Festival de Cinema de Paraty, que começa no dia 10.

A Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo promove na sexta-feira, a partir das 19h, no Memorial da América Latina, a Festa da Amizade e Integração.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

GOSTOSAS


GILLES LAPOUGE - Devíamos ter desconfiado



Devíamos ter desconfiado
GILLES LAPOUGE 
O Estado de S.Paulo - 02/11/11

Ah, esses gregos! Mas estão completamente loucos! O que está acontecendo com Papandreou? Afinal, todos se unem, os países do bloco europeu, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a China, o Brasil, para impedir que a Grécia afunde. Merkel chegou a despachar um salva-vidas. Sarkozy mergulhou dez vezes para arrancá-la do abismo pelos fundilhos. Os bancos aceitaram abrir mão de 50% do dinheiro devido pela Grécia. Uma soma de 8 bilhões foi desbloqueada para permitir que o governo de Atenas pague seus funcionários. Além disso, receberá uma ajuda de 130 bilhões.

Todo o mundo estava feliz. Finalmente, o perigo do Apocalipse tinha sido afastado. Pela décima vez, a Grécia tinha sido salva e, ao mesmo tempo, a zona do euro. Sarkozy exibia sua força, dizia que o mais forte é ele. Merkel pediu ao seu Bundestag que concordasse em ajudar este pequeno país amável, porém preguiçoso.

E o que foi que Papandreou fez? Sem sequer prevenir seus salvadores, anunciou que submeterá o plano europeu a um referendo, em janeiro.

Trata-se de uma jogada extremamente arriscada. Em Paris, o governo vacilava entre a depressão nervosa e a cólera.

Sarkozy reuniu vários dos seus ministros e especialistas: esbravejou, fulminou, a fumaça saindo pelas narinas. Como são ingratos os gregos! E vejam o que aconteceu com as bolsas! Já tinham sido estabilizadas, na semana passada, justamente com o plano grego, mas ontem pela manhã, o índice da Bolsa de Paris perdeu 5%. Os bancos franceses despencaram de 10% a 12%.

Todos trataram de se tranquilizar. Talvez os gregos respondam "sim" ao referendo e, neste caso, Papandreou terá feito a jogada certa. A Grécia e o euro sairão ganhando. Mas os pessimistas são mais numerosos. Não só as pesquisas de opinião anunciam que Papandreou perderá por 60%, como, além disso, os gregos continuam com os tumultos cotidianos que não são um bom presságio. Outras vozes ainda mais numerosas acrescentam: "Compreendemos perfeitamente os gregos. Sarkozy e Merkel vão salvá-los, sem dúvida, mas também os obrigarão a tomar cada remédio amargo que, no dia em que se curarem, eles estarão mortos".

O referendo será realizado em janeiro ou fevereiro. Como é que os gregos aguentarão até lá? O que fará Atenas sem os 8 bilhões de ajuda de urgência? Como os bancos franceses e alemães aceitarão cancelar a metade de seus créditos se os gregos decidirem dar o calote? E o Bundestag de Berlim, que já hesitava em votar em favor de uma ajuda suplementar a este país do "Club Med", será que vai rejeitar o projeto? Claro. Até fevereiro, o plano Sarkozy-Merkel, que já era acrobático, mal ajambrado, ineficaz, afundará. Hoje então, ele se torna irreal.

Devíamos ter desconfiado. Os gregos já vinham nos prevenindo há muito tempo. O herói preferido de sua história, Ulisses, mentia com a mesma facilidade com que respirava depois da Guerra de Troia. Eles têm até uma deusa, Métis, mulher de Zeus e mãe de Atena, mestra dos estratagemas. E o rei dos deuses, ele mesmo, Zeus, acaso não era um espertalhão? Passava o tempo enganando a mulher com as ninfas, novilhas e todo tipo de donzelas. Seu deus Hermes é o "deus dos ladrões".

Como se não bastasse, amanhã e sexta-feira, se reunirá em Cannes a Cúpula do G-20 que consagrará a glória de Nicolas Sarkozy.

Paralelamente, se realizará outra cúpula, a dos que combatem a globalização, não muito longe de Cannes, em Nice. O que estes terão para contar, considerando que, em geral, são gente descabelada, descuidada e irresponsável? Na realidade, os deuses gregos não se mostram muito bondosos com Nicolas Sarkozy.

Nem com a Europa. E com o euro, menos ainda. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Galvão é o Sarney da Globo!



Ueba! Galvão é o Sarney da Globo!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 02/11/11 

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República! E a manchete do Piauí Herald: "Enem reprovado no Enem". E adorei que a Dilma trocou o nome do Aldo Rebelo. Chamou de RABELO! Isso! "Se você não se comportar, vai levar um chute no RABELO". Rarará!
E esta: "Detrans estudam a possibilidade de utilizar bafômetro que mede a presença de álcool à distância". Como é o nome? ESPOSA! Rarará! E esta: "China fará viagem espacial em 2012". Vão piratear os marcianos! Disco voador ching ling!
E hoje é Finados. Finados é aquele Senado. A Turma do Já Morreu! E tão dizendo que o Sarney é um finado-vivo! E que o Galvão é o Sarney da Globo! E que a Cristina Kirchner tá a cara da bispa Sônia! E que a Vanusa vai reunir uma turma pra cantar o hino na porta do cemitério: os desaFINADOS!
E adorei a lápide do hipocondríaco: "Eu não falei que estava doente?". Rarará! E todo ano aquelas minhas amigas sapatas promovem uma festa de Halloween chamada Rala-o-Hímen! Pior aquela brasileira que abriu uma loja em Nova Jersey e botou a placa: "Vende-se hímens pra geladeira".
Rarará! E o chargista Marco Aurelio disse que o homem mais rico do Brasil é o Pina. Tudo vai propina! Rarará! E a Europa quer dinheiro emprestado do Brasil! A gente empresta se eles mandarem como garantia: o time do Barcelona com o Messi, a Torre Eiffel e neve no Natal! Século 20: o Brasil quer entrar para o Primeiro Mundo. Século 21: o Primeiro Mundo quer entrar para o Brasil! Rarará! E quero convidar os meus leitores para uma palestra sobre treinamento de vendas com: Diego BERRO! Esse deve vender na base do berro. "Vai compra ou não vai, caraca?" Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é lúdico! É que no Recife tem uma barraca que vende frutas fatiadas com a placa: "Coma no prato ou leve no saco". Rarará! E em Alto Paraíso, Goiás, tem uma casinha bem bagaça com a pichação: "Consertamos Disco Voador". E em Salvador, no bairro de San Martin: Cabelereiro Duas Irmães, escova e prancha". Uma deve se chamar Escova e a outra Prancha, as Irmães!
Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Trabalhar em feriado dá íngua, entojo, cobreiro, nó nas tripas, juízo incriziado, zovido estorado e dormência numa banda do corpo. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

REGINA ALVAREZ - Além da conta


Além da conta
REGINA ALVAREZ
O GLOBO - 02/11/11

O tombo de 2% na produção industrial em setembro superou todas as expectativas, pela intensidade. Analistas esperavam um resultado negativo, o quarto consecutivo do ano, mas o recuo foi além das previsões mais pessimistas, deixando algumas perguntas no ar. A queda na produção da indústria aponta um crescimento mais acanhado da economia em 2011 e 2012, mas não se sabe exatamente o tamanho dessa desaceleração.

Desde o fim do ano passado, o governo vem adotando medidas para conter a economia e a inflação. Elevou juros, restringiu o crédito e cortou investimentos. Mas o plano era um pouso suave, dos 7,5% de 2010 para algo em torno de 3,5% ou 4%. O que vemos agora são previsões bem mais acanhadas para este ano e o próximo, abaixo dos 3%.

O economista Julio Almeida, do Iedi, diz que os números de setembro da indústria deixaram a sensação de que a dose do remédio para conter a economia pode ter sido excessiva e destaca um aspecto interessante. O excesso pode estar localizado na combinação das medidas com o discurso do governo alertando para a gravidade da crise internacional.

— O governo bate muito nessa tecla, e isso está afetando as expectativas dos empresários e as decisões de investir. A forma como a equipe propagou a crise internacional pode ter sido além da conta — observa.
A queda de 5,5% na produção de bens de capital em setembro é um indicativo claro da perda de confiança dos empresários e um sinal de que a crise externa já nos afeta.

Na visão do economista Flávio Castelo Branco, da CNI, o resultado de setembro da indústria reflete uma combinação do ambiente doméstico com a crise internacional. Ele concorda que a retração na produção de bens de capital é uma sinalização importante de desaceleração futura:

— Reflete as expectativas. O empresário com confiança alta se arrisca, contrata e investe. Se perde a confiança, ele se retrai.

Para baixo
A produção industrial vem encolhendo. A maior concorrência com os importados e o fraco dinamismo das exportações de bens manufaturados são algumas das razões, diz Rafael Bacciotti, economista da Tendências. Neste trimestre o desempenho deve ser melhor, mas não suficiente para deslocar essa trajetória. Assim, Bacciotti revisou a projeção para o crescimento da indústria no ano de 2% para 1%. Em 2010, o setor cresceu 10,5%.

G-20 do B I
Embora a crise da zona do euro domine a cúpula do G-20, os empresários brasileiros que participam do B-20, grupo empresarial que se reúne antes do encontro de líderes mundiais, estão focados na discussão da reforma do sistema monetário internacional. “Um sistema estável exige que os países do G-20 se comprometam com políticas internas sólidas, coordenação macroeconômica, restauração da estabilidade do setor financeiro e políticas estruturais pró-crescimento”, diz o documento com as propostas dos brasileiros. Reforçar o papel do FMI e caminhar para um sistema monetário multipolar, que incentive a conversibilidade e flexibilidade de moedas relevantes para o comércio e investimento, como o yuan chinês, estão entre as propostas.

G-20 do B II
O presidente da CNI, Robson Andrade, que participa da reunião do B-20, considera que qualquer sinalização da cúpula do G-20 no caminho de uma reforma do sistema monetário internacional é muito importante neste momento em que a crise global pode acirrar os movimentos protecionistas:
— É preciso tornar esse sistema mais estável, mais previsível e flexível, de forma que não se criem entraves e embaraços ao comércio internacional. O Japão já fala em proteger sua moeda. A China já faz isso e pode aumentar a proteção. Temos de trabalhar por um comércio internacional mais ético.

CEMITÉRIO DO POVO BRASILEIRO

CEMITÉRIO DO POVO BRASILEIRO
O CAMPO DA DESILUSÃO


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Obra olímpica com recurso privado custa R$ 3,4 bi a investidores
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 02/11/11

Única obra olímpica prevista para ser toda construída com recurso privado, o Porto Olímpico deve custar R$ 3,4 bilhões a investidores, segundo a Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto), da Prefeitura do Rio. A Caixa estuda participar do projeto através de fundo de investimento imobiliário com recursos do FGTS. A operação reduziria em até 34% o custo da iniciativa privada, segundo o município.

O Porto Olímpico surgiu após o prefeito Eduardo Paes (PMDB) convencer o COI (Comitê Olímpico Internacional) a transferir unidades dos Jogos para a zona portuária.

Foram transferidas vilas de árbitros, mídia e centros de logística. Para isso, o COI exigiu a construção de 10,6 mil quartos e espaço para instalações administrativas.

A empresa que construir as instalações dos Jogos poderá vendê-las como unidades residenciais ou comerciais. A transferência aos donos será após 2016. ªÉ atípico, mas viávelº, diz o presidente da Cdurp, Jorge Arraes.

Apesar do custo alto, a Cdurp calcula retorno de R$ 4 bilhões em vendas de unidades. Haverá, segundo o município, exploração comercial de centro de convenção e hotel. Na Olimpíada, o COI pagará aluguel pelo uso. Concurso da Prefeitura e do Instituto dos Arquitetos do Brasil apontou projeto vencedor, dos arquitetos João Backheuser e Ignácio Riera. O consórcio que assumir a obra pode alterar o modelo.

A escolha do construtor será da Caixa. Ela é administradora do fundo que tem direito sobre terrenos e o potencial construtivo da zona portuária obtido por leilão em junho. O principal diálogo é com a Solace, criada por OAS, Odebrecht e Carioca. Sem o banco, a iniciativa privada terá de comprar títulos imobiliários para aproveitar o potencial construtivo.

CONSULTORIA PARA REVITALIZAR
Com o objetivo de participar como sócia de empreendimentos imobiliários da zona portuária do Rio, a Caixa Econômica Federal contratou a Hines do Brasil para auxiliar na análise das propostas. Oficialmente, a Caixa não confirma as negociações de atuar como sócia nos empreendimentos, inclusive no projeto do Porto Olímpico. "A Caixa, na condição de gestora do Fundo de Investimento Imobiliário Porto Maravilha, está avaliando diversos modelos de investimento nos projetos da região do porto", afirmou, em nota.

O banco diz buscar adequar a relação de risco e retorno para o FGTS. Por ser uma operação não habitual, a Caixa recorreu à consultoria externa. Não foi informado o valor do contrato. A Hines, fundada em 1957 e que está no Brasil desde 1988, participou de investimentos imobiliários em projetos de revitalização em Milão (Itália) e Barcelona (Espanha). A cidade espanhola é modelo para a revitalização da zona portuária pretendida pela Prefeitura do Rio.

NEVE PARA BRASILEIROS
A argentina Terra Patagônia e a norte-americana Hicks Trans American Partners investirão US$ 60 milhões (cerca de R$ 104 milhões) em um empreendimento em San Martín de los Andes, na Patagônia. Cada uma das empresas arcará com metade do investimento no projeto, que ocupará terreno de 1.050 hectares (mais de 10 milhões de m2) e terá clubes hípico e de golfe, além de 600 lotes para comercialização.

"Os brasileiros conhecem Bariloche, mas não o resto da Patagônia argentina. Esperamos atrair pessoas do Brasil com opções de lazer que não existem no país, como neve e montanhas", afirma o sócio do empreendimento e da Terra Patagônia, Claudio Hirsch. As companhias, que esperam faturar ao menos US$ 300 milhões (cerca de R$ 521 milhões) com a venda dos 600 lotes, estimam que os brasileiros comprem metade das unidades.

O QUE ESTOU LENDO
José Lima de Andrade Neto, presidente da BR Distribuidora

"Além da Crise - 
O Futuro do Capitalismo", de Adjiedj Bakas (ed. Qualitymark) é a leitura de José Lima de Andrade Neto, presidente da BR Distribuidora. Bakas é também o autor, com Rob Creemers, de "A Vida Sem Petróleo", e de "Megatendências Mundiais". No livro que Lima lê, Bakas aponta as tendências pós-crise financeira mundial.

"A análise não se restringe, no entanto, ao mundo empresarial e financeiro, mas abrange também questões sociais, políticas e religiosas, entre outras. A leitura é simples e o conteúdo é, no mínimo, instigante para uma reflexão sobre nosso futuro comum", diz o executivo.

Intuição... 
O otimismo dos empresários brasileiros no terceiro trimestre com relação ao desempenho da economia para os próximos 12 meses subiu dez pontos percentuais em relação ao trimestre anterior, segundo a Grant Thornton.

...empresarial 
Metade dos empresários brasileiros estão otimistas com relação ao país. O resultado difere da média global, que registrou queda de 28 pontos em relação ao segundo trimestre.

MOTOR NACIONAL
A Sazaki Motors do Brasil investirá R$ 40 milhões para construir uma fábrica de motocicletas em São Caitano, no interior de Pernambuco. A subsidiária da empresa chinesa fabrica desde 2009 em Cajazeiras, na Paraíba. Com a nova unidade, a produção deve passar de cerca de mil motos por mês para 15 mil. A fábrica de Cajazeiras será desativada assim que a nova for concluída.

A previsão é que a produção em Pernambuco seja iniciada em julho de 2012. Hoje, todas as peças usadas na fabricação vêm prontas da China. As motocicletas são apenas montadas na Paraíba. Na nova fábrica, 30% dos componentes serão brasileiros. A empresa espera que, após um ano de operação, 65% das peças sejam produzidas no país. Sete modelos de motocicletas serão fabricados, todos voltados para o público C e D.

DA BOTA
A Clássica Design passará a vender móveis do estúdio italiano Decoma. O lançamento da primeira linha produzida através da parceria será na sexta-feira no Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo. Com as novas peças, a empresa brasileira espera um incremento de 8% em seu faturamento, afirma o presidente da Clássica Design, Vitor Michelini. O mercado brasileiro é hoje responsável por 10% da demanda do Decoma. A expectativa é que esse número suba para 30% em dois anos, segundo o sócio do estúdio no país, Daniel Ribeiro.

CELSO MING - A surpresa grega


A surpresa grega
CELSO MING 
O Estado de S.Paulo - 02/11/11

A decisão do primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, de convocar referendo popular para validar (ou não) o pacote de salvação aprovado na cúpula da área do euro, dia 27, mostra como são precárias as condições políticas do bloco. O que foi arduamente negociado pode não servir para nada.

Há o tempo da política, o tempo da economia e o tempo dos mercados. Mesmo quando tudo vai bem, nem sempre são sincronizados. Mas na crise são sempre desencontrados e produzem um tranco após o outro.

Papandreou precisa de apoio para governar, porque 60% da população rejeita o programa de austeridade negociado em troca do socorro. Mas, se for mesmo convocado, o referendo suspenderá a vigência do principal que, agora, pode não acontecer. Nem todas as decisões tomadas na cúpula do euro diziam respeito à Grécia. A necessidade de elevar o alcance do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF), por exemplo, fica ainda mais reforçada.

A realização do referendo não é certa. Há indicações de que o Congresso da Grécia pode rejeitá-lo. Nesse caso, as condições de sobrevivência política de Papandreou diminuirão e novas eleições poderão ser marcadas. Mesmo assim, ficaria a incógnita do tratamento político que um novo governo daria ao pacote de socorro.

Se o referendo for mantido e os eleitores não aceitarem o arranjo proposto, não obrigatoriamente a Grécia teria de sair da zona do euro. Essa posição seria entendida como recusa do plano de austeridade e imposição de novas condições (mais transferências) pela Grécia aos sócios da União Monetária. E seria preciso saber se os outros 16 países-membros do bloco se disporiam a bancar mais ajuda aos gregos e a troco de quê.

Independentemente disso, seria improvável que essa votação acontecesse antes de janeiro e, enquanto isso, mergulhada em mais incerteza, a economia europeia poderá encolher ainda mais.

Alguns analistas têm argumentado que o abandono da área do euro pela Grécia sairia caro para os gregos mas, ainda assim, ficaria mais barato do que continuar nas atuais condições.

Essa é uma conta difícil de fazer. O problema é que um calote maior do que 50%, como o acertado na semana passada, deixaria credores em situação ainda mais complicada e exigiria mais reforço de capital dos bancos. Além disso, fora do clube a Grécia não poderia mais esperar por ajuda externa.

A reintrodução da dracma, por sua vez, exigiria forte desvalorização em relação ao euro, para que salários de trabalhadores gregos se desvalorizassem em euros e custos de produção caíssem e facilitassem a recuperação da atividade econômica e do emprego. Uma das consequências seria o aumento da inflação na Grécia.

Do ponto de vista da área do euro, mais essa surpresa dos gregos demonstra como é frágil a sustentação da União Monetária, sem união fiscal e sem um mínimo de coesão política.

Caso se mantenha a convocação do referendo, a provável deterioração da economia pelo aumento do tempo de espera aumentaria o risco de que ocorra uma série desordenada de suspensão de pagamentos (defaults) por parte de Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. O acordo do dia 27 mostrou que, em havendo vontade política, é possível agilizar respostas. Mas fica cada vez mais inevitável que o Banco Central Europeu seja chamado para apagar incêndios com emissão de moeda.

VINICIUS TORRES FREIRE - Primaveras e inverno grego


Primaveras e inverno grego
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 02/11/11

Não é Wall Street, Londres ou Madri; os revoltados da Grécia é que podem balançar a finança global

OCUPAM Wall Street, ocupam o pátio da catedral em Londres, acampam praças em Madri etc. Mas a refrega séria acontece em Atenas. Tenha razão ou sentido, tanto faz, o protesto grego está escaldado em ampla fúria social, leva tumulto à rua e ao Parlamento; em suma, pretende derrubar a presente ordem. Isto é, o governo grego, de fato sob intervenção europeia. Mais importante ainda, os revoltados gregos têm algum poder de levar à breca a finança e a economia mundiais. É o que se tem visto nesta semana, com a piora da crise política no país.
George Papandreou, o primeiro-ministro socialista, pode ter parecido tresloucado ao propor referendo para aprovação do plano europeu. Mas, embora esteja à beira de um colapso político-nervoso, o premiê não é doido nem nasceu ontem. Papandreou lançou uma carta aparentemente desatinada porque está à beira de ser defenestrado. Está para cair, é óbvio, porque estão no fim seu apoio e legitimidade políticos, na rua, no seu Pasok e no establishment gregos.
A Grécia está em recessão faz uns quatro anos. Ficará pelo menos estagnada outros tantos. Todo o modelo de vida dos gregos, seus arranjos políticos e socioeconômicos, decerto absurdos, vão para o vinagre.
Em suma, voltando aos miúdos da vaca fria, Papandreou está para cair ou temia cair em breve. Queria evitar eleições antecipadas, demanda da oposição e até de parte de seus correligionários. O premiê ou queria se legitimar com um plebiscito ou assustar a oposição dentro e fora de seu partido. Pelo jeito, não deu certo o seu golpe -ou gambito.
Mas o que virá agora? A crise política continua. Papandreou parece um morto-vivo. Alemanha e França apenas não querem a sua cabeça porque temem qualquer marola nova. Os socialistas gregos estão à beira de dizer "fora" para o premiê, mas ainda não sabem o que botar no lugar. A oposição de "centro-direita" diz ser contra os planos europeus para a Grécia Alguns dos socialistas adversários de Papandreou estão sugerindo uma espécie de "governo de união nacional". Mas precisam combinar o plano com seus confrades de partido e com a oposição.
Mais ou menos metade dos gregos, a depender da pesquisa, se diz farta dos "socorros" europeus. Quase metade deles votaria "não" ao pacote de União Europeia, Banco Central Europeu e FMI. Cansaram ainda da "intervenção estrangeira". O resumo da ópera é que a revolta nas ruas contagiou a política parlamentar. O tumulto político grego pode até não derrubar sem mais o pacote europeu. Mas os donos do dinheiro grosso no mundo estão à beira de outro ataque de pânico.
Os ditos "mercados" podem de repente "antecipar" o fracasso da tramitação política do pacote na Grécia. Nessa hipótese terminal, os gregos dariam o tal "calote desorganizado", Portugal e talvez Irlanda e Bélgica perderiam o crédito e os juros iriam à lua da falência para Itália e Espanha.
Não, não se trata de dizer que vai acontecer. Mas de ressaltar que a situação é delicada: marolas extras podem afogar todo mundo. A gente viu isso ontem: a mera ameaça distante de um referendo grego sobre o pacote europeu já levou os mercados a "precificar" o tumulto.

ANTONIO DELFIM NETTO - Microeconomia


Microeconomia
ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 02/11/11

O Banco Mundial acaba de publicar seu importante relatório anual "Doing Business - 2012", no qual são ordenados 183 países de acordo com as condições apreciadas em cada um deles por agências independentes e de boa qualidade.
O país mais amigável com a realização de "negócios privados" é classificado como número um (Cingapura) e o mais hostil, como número 183 (Chade). No Brasil, o total de informantes é da ordem de cem, com um viés para grandes e bem-sucedidos escritórios de advocacia, que, obviamente, têm "intimidade" com as dificuldades de negócios de seus clientes.
Qual o lugar do Brasil nessa corrida de 183 países? Nada lisonjeiro: 126º. Na inevitável comparação com os Brics, estamos atrás da China (91º) e da Rússia (120º) e ligeiramente à frente da Índia (132º).
O fato dramático é que, entre 2011 e 2012, realizamos apenas um aperfeiçoamento digno de nota na melhoria das condições para fazer negócios no Brasil: a aprovação da lei do cadastro positivo para a concessão de crédito.
Estamos retomando a ideia do Estado-indutor na macroeconomia, mas revelamos ainda enorme letargia para enfrentar as chamadas "reformas" microeconômicas fundamentais para um aumento da produtividade do país. É lamentável que algumas dessas medidas continuem seu sono eterno no Congresso Nacional enquanto se disputa como "aparelhar" mais o Estado.
Para dar uma ideia dessa apatia, basta lembrar que:
1º) No processo de instalar um empreendimento, no qual somos qualificados em 120º lugar, 53 países fizeram reforma em 2011;
2º) No campo do crédito, no qual somos o 98º, fizemos apenas uma reforma (que estava havia anos no Congresso), enquanto 44 países avançaram,
3º) No campo da facilidade de pagamentos de tributos, no qual estamos em 150º lugar, outros 53 países fizeram algum progresso.
Para terminar, uma boa notícia. No campo das permissões ambientais, em que somos o 127º colocado, estamos, finalmente, a ponto de fazer uma revolução com as propostas do governo por meio da eficiente ministra Izabela Teixeira.
Temos saído muito bem das situações de crise que estão abalando a economia mundial, mas é ilusão pensar que a crise passará sem nos atingir de alguma forma. Somos parte do mundo e vamos pagar o preço de sê-lo. Nosso problema é que, com o nosso atual modelo agromineral exportador, não daremos emprego de qualidade aos 150 milhões da população economicamente ativa que teremos em 2030.
Precisamos de um mercado interno industrial e de serviços eficientes. Isso exige que enfrentemos agora, com inteligência, determinação e coragem, os necessários aperfei-çoamentos de nossas políticas macro e microeconômicas.

LUÍS EDUARDO ASSIS - A crise não fará o trabalho por nós


A crise não fará o trabalho por nós
LUÍS EDUARDO ASSIS
O ESTADÃO - 02/11/11

Aos poucos, articula-se a ideia de que a crise internacional, da qual não se enxerga o fundo, representa uma oportunidade para que o Banco Central (BC), piedosamente, corte rápido a taxa de juros. A tese é tentadora. Faz parte do repertório de besteirol dos livros de autoajuda corporativa dizer que o ideograma chinês que significa "crise" traz também o significado de "oportunidade". Há quem pense que essa bizarrice possa inspirar a condução da política monetária. Por trás dessa visão de Poliana confucionista, no entanto, está a percepção de que os juros são altos não porque tenhamos problemas estruturais, mas apenas por teimosia da autoridade monetária, insensível às carências sociais. Há quem vá além e pense que essa maldade decorra de o BC ter sido "capturado" pelo mercado financeiro. Como os bancos ganham com juros altos, eles orientam seus economistas a superestimar a inflação, alardeando um perigo que não existe e induzindo o BC a erro. Faria sentido, se fosse verdade.

O BC divulga a expectativa da inflação do mercado financeiro para os 12 meses subsequentes. Pois o "mercado", contrariando a tese conspiratória, tem sistematicamente errado para menos as expectativas de inflação anual. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado nos 12 meses até setembro variou 7,3%, muito mais que as expectativas dos economistas de mercado há 12 meses, quando se previa uma inflação de apenas 5,14%.

Não há dúvida de que os juros altos constituem uma aberração. Eles não só reprimem o crescimento econômico como drenam vultosos recursos tributários para o pagamento do serviço da dívida - a "bolsa juros" em 2011 deve ser 14 vezes maior que o Bolsa-Família. Como a carga tributária entre nós é regressiva e como o pagamento de juros é, por definição, feito de acordo com o estoque de riqueza líquida existente, o impacto sobre a concentração de renda é muito grande.

Mas o corte dos juros exige mais do que sensibilidade social e boa vontade. Também não é uma mera questão de aproveitar oportunidades supostamente criadas pela crise internacional. Não é por acaso que o Brasil se transformou no nirvana dos rentistas e não será sem esforço que escaparemos deste quadro. A solução não é simples, ainda que dela se conheçam alguns ingredientes.

Um corte de despesas públicas, tão ao gosto dos analistas do mercado financeiro, seria benfazejo - se fosse possível. O problema é que não é. Nenhum CEO do setor privado conseguiria cortar despesas se parte significativa de seus gastos fosse vinculada à receita e a demissão de funcionários fosse vetada. Mas, mesmo dentro das restrições impostas pelo nosso presidencialismo de coalizão, seria possível, se vontade houvesse, assumir a meta de zerar o déficit nominal dentro de um par de anos. Esse objetivo reduziria o ônus que recai hoje sobre a política monetária.

A gradual desindexação da economia é outra iniciativa factível. Quase 20 anos depois do êxito do Plano Real, convivemos ainda com o vício da indexação. Ainda que a batalha da superindexação do salário mínimo esteja perdida, há espaço para o Banco Central apressar as exéquias da LFT. Este título se destacou pelos valiosos serviços prestados, mas nada justifica sua sobrevivência. A esta altura, as LFTs deveriam ser vendidas apenas em feiras hippies, ao lado de batas, incensos, discos de vinil e toda a memorabilia dos anos 70. A mesma ousadia que o BC usou para cortar as taxas de juros recentemente poderia ser direcionada para acabar gradualmente com as LFTs e seus clones. Da mesma forma, e com mais razão, não tem sentido indexar a caderneta de poupança à taxa Selic, o que configuraria importante passo na direção errada.

Há muito a fazer para que se criem as condições para termos juros mais baixos. Seria bom começar. A crise não pode ser pretexto para a inércia.

ELIO GASPARI - Lula, o câncer, o SUS e o Sírio


Lula, o câncer, o SUS e o Sírio
ELIO GASPARI
O GLOBO - 02/10/11

As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre. Na rede pública de saúde, em 1971, Lula perdeu a primeira mulher e um filho. Em 1998, o metalúrgico tornou-se candidato à Presidência da República e pegou pesado: "Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar". Nessa época acusava o governo de desossar o SUS, estimulando a migração para os planos privados. Quando Lula chegou ao Planalto, havia 31,2 milhões de brasileiros no mercado de planos particulares. Ao deixá-lo, essa clientela era de 45,6 milhões e ele não tocava mais no assunto.

Em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto-Atendimento do SUS no Recife dizendo que "ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido". Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado.

Lula percorreu todo o arco da malversação do debate da saúde pública. Foi de vítima a denunciante, passou da denúncia à marquetagem oficialista e acabou aninhado no Sírio Libanês, um dos melhores e mais caros hospitais do país. Melhor para ele.

(No andar do SUS, uma pessoa que teve dor de ouvido e sentiu algo esquisito na garganta leva uns 30 dias para ser examinada corretamente, outros 76, na média, para começar um tratamento quimioterápico, 113 dias se precisar de radioterapia. No andar de Lula, é possível chegar-se ao diagnóstico numa sexta-feira e à quimio na segunda. A conta fica em algo como R$ 50 mil.)

Lula, Dilma Roussef e José Alencar trataram seus tumores no Sírio. Lá, Dilma recebeu uma droga que não era oferecida à patuleia do SUS. Deve-se a ela a inclusão do rituximab na lista de medicamentos da saúde pública.

Os companheiros descobriram as virtudes da medicina privada, mas, em nove anos de poder, pouco fizeram pelos pacientes da rede pública. Melhoraram o acesso aos diagnósticos, mas os tratamentos continuam arruinados. Fora isso, alteraram o nome do Instituto Nacional do Câncer, acrescentando-lhe uma homenagem a José Alencar, que lá nunca pôs os pés. Depois de oito anos: um em cada cinco pacientes de câncer dos planos de saúde era mandado para a rede pública. Já o tucanato, tendo criado em São Paulo um centro de excelência, o Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira, por pouco não entregou 25% dos seus leitos à privataria. (A iniciativa, do governador Geraldo Alckmin, foi derrubada pelo Judiciário paulista.)

A luta de José Alencar contra "o insidioso mal", serviu para retirar o estigma da doença. Se o câncer de Lula servir para responsabilizar burocratas que compram mamógrafos e não os desencaixotam (as comissões vêm por fora) e médicos que não comparecem ao local de trabalho, as filas do SUS poderão diminuir. Poderá servir também para acabar com a política de duplas portas, pelas quais os clientes de planos privados têm atendimento expedito nos hospitais públicos.

Lula soube cuidar de si. Delirou ao tratar da saúde dos outros quando, em 2006, disse que "o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde". Está precisamente a 33 quilômetros, a distância entre seu apartamento de São Bernardo e o Sírio.

EDITORIAL FOLHA DE SP - Triste dialética


Triste dialética
 EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 02/11/11

A cerimônia de posse do novo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, do PC do B, deu um novo sentido ao termo "dialética". A julgar pelo tom dos discursos, o afastamento do antigo titular da pasta por suspeitas de corrupção já traz em si sua própria negação, que assume a forma de desagravos e elogios ao ex-ministro e sua sigla.

Se tudo não passou de uma intriga contra Orlando Silva, como sugeriram vários oradores no ato realizado anteontem, a presidente Dilma Rousseff não deveria tê-lo afastado nem dado posse a Rebelo.

Tampouco precisaria suspender os repasses de verba a 2.670 convênios do governo com ONGs -isto é, todas menos as que atuem na saúde, na proteção a testemunhas ou que operem há mais de cinco anos sem irregularidades.

Se a mandatária o fez, é razoável supor que as suspeitas tenham pelo menos alguma base real.

Sendo assim, a manutenção do PC do B à frente da pasta resulta numa "aufhebung" (síntese, superação) inquietante, pois a agremiação vê-se liberada a prosseguir com o aparelhamento do ministério -agora sob "nova" gerência.

Como disse a presidente, "perco um colaborador, mas preservo o apoio de um partido cuja presença no meu governo considero fundamental". Estamos, portanto, ao que tudo indica, diante de uma daquelas mudanças providenciadas para nada mudar.

"Fundamental" para o governo, o PC do B segue em sua saga de equívocos históricos. O partido, como se sabe, foi incapaz de romper com o stalinismo mesmo quando se demonstraram os crimes do ditador, em 1956. Seis anos depois, abraçou um segundo tirano, Mao Tsé-tung, quando este passou a atacar a desestalinização em curso na União Soviética.

Foi sob essa dupla inspiração, acrescida de delírios revolucionários, que o partido se embrenhou na aventura guerrilheira do Araguaia. Quando a China, enfim, começou a livrar-se do fardo maoísta, a partir de 1976, os comunistas do Brasil, preservando o culto a ditadores, esqueceram Pequim para cair nos braços de Enver Hoxha, líder stalinista da Albânia.

Com o fim de Hoxha e do comunismo no mundo real, o PC do B passou a viver de uma aliança predatória com o PT e da ocupação de entidades, como o Ministério do Esporte ou a UNE (União Nacional dos Estudantes), com sua máquina de carteirinhas.

Ou seja, num passo dialético final, trocou Stálin e o que restava de ideologia por migalhas de poder e um punhado de cargos e benesses.

HÉLIO SCHWARTSMAN - Polícia e civilização


Polícia e civilização
HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 02/11/11

SÃO PAULO - Alunos da USP ocuparam um prédio administrativo com o objetivo de forçar a polícia a não atuar mais no campus. Ou eles são jovens e não sabem o que fazem, ou estamos diante de um movimento profundamente reacionário.

Uma das melhores coisas que aconteceram à humanidade foi a criação da polícia. Como mostra Steven Pinker em seu novo livro sobre a violência, o surgimento de Estados fortes na Europa do século 16, com suas milícias e o monopólio do uso da força, fez com que as taxas de homicídio ficassem de 10 a 50 vezes menores.

A provável origem da confusão da garotada é que, vencida essa fase, o principal perpetrador de violência deixou de ser a rivalidade entre clãs e bandos rivais para tornar-se o próprio Estado, que não raro se punha a perseguir, a torturar e a executar cidadãos por motivos às vezes tão banais como abraçar uma religião minoritária, fazer oposição política ou apenas ser diferente.

Precisamos avançar mais na marcha civilizacional, mas seria um contrassenso tentar fazê-lo revertendo nossos principais acertos.

O caminho é educar os agentes da lei e a própria sociedade, o que, como sugere Pinker, vem ocorrendo paulatinamente por meio de novas visões de mundo que acabam sendo incorporadas ao "Zeitgeist", o espírito da época. Dois exemplos eloquentes são o Iluminismo do século 18, que está na origem da democracia e da abolição da escravatura, e a era dos direitos, que, desde 1948, alimenta o feminismo, a igualdade racial etc.

Em resumo, o Estado é nosso amigo, ainda que tenhamos que mantê-lo sob vigilância para eliminar-lhe toda e qualquer recaída despótica.

Nesse contexto, seria bom que os policiais que operam no campus fizessem vista grossa para quem fuma maconha. É verdade que, em teoria, eles não têm escolha que não seguir a lei, mas a melhor receita para criar o pior dos mundos é aplicar com máximo zelo todas as normas vigentes.

CLAUDIO HUMBERTO

Doença de Lula segurou Haddad no Ministério


O diagnóstico de câncer do ex-presidente Lula ajudou a segurar no cargo o ministro Fernando Haddad (Educação), que voltou a provocar constrangimentos ao governo com o vazamento da prova do Enem. Apesar de ser o candidato preferido de Lula à Prefeitura de São Paulo, Haddad estava advertido de que uma nova trapalhada não seria tolerada. Ele sairia do governo alegando que precisa se dedicar à candidatura. Dilma até pediu a Marta Suplicy para sair da disputa.

SALVO PELO GONGO 
Fonte do Planalto confirmou que Fernando Haddad pediria mesmo demissão, mas a doença de Lula tornou irrelevante o mico do Enem.

PRIMEIRO CASO 
Em 2009 ocorreu a primeira trapalhada na era Fernando Haddad: a prova do Enem foi cancelada devido ao furto dos testes na gráfica.

MAIS UM 
Em 2010, vazaram informações pessoais de inscritos e o MEC admitiu erros nas dez milhões de provas já impressas, e refez o teste do Enem.

DESENCARNOU 
Demitido na quinta-feira (27), Orlando Silva custou a largar o osso: somente cinco dias depois seu nome saiu do site do Ministério do Esporte.

DF: GOVERNO TROCA ÁREA VALORIZADA POR OBRA RUIM 
Agraciada com negócio da China, a construtora JC Gontijo, de Brasília, saboreia um presente do governo de José Roberto Arruda. Construiu em frente ao ParkShopping uma nova rodoviária na cidade, de gosto e materiais de qualidade duvidosos, por R$ 45 milhões, e ganhou em troca, a título de “doação em pagamento” área de 60 mil metros quadrados em frente ao Zoológico, que vale, no mínimo, R$ 70 milhões.

MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO 
A JC Gontijo não quis informar o que fará na área, mas já concluiu o projeto de novo bairro residencial com mais de dois mil apartamentos.

HAJA INCHAÇO 
Em outro negócio da China (centro administrativo), Via e Odebrecht devem faturar outra área, de 320 mil m², próxima à da JC Gontijo.

PAIS DA IDEIA 
O centro administrativo do DF, a 30 km de Brasília, foi concebido pelo delator Durval Barbosa e amigo Rogério Rosso, na estatal Codeplan.

GRANA NÃO É PROBLEMA 
Questionado por que Lula não se trata pelo SUS, provocação nacional que movimenta a internet, o pagador de contas Paulo Okamotto admitiu: “Além de plano (de saúde), ele tem dinheiro também”. Humm...

O XIS DA POLÊMICA 
Lula tem o direito de usar hospital de excelência, pois pode pagar. Mas deveria ter poupado o País de uma de suas mentiras mais cabeludas, afirmando que o SUS estava “à beira da perfeição”. Se fosse, lá estaria.

PROGRAMA DE ÍNDIO 
O ministro Aldo Rebelo (Esporte), conhecido pelo nacionalismo exacerbado, autorizou apenas o agendamento de uma audiência, ontem: recebeu Marcos Terena, para tratar dos Jogos Indígenas.

PARA PIOR 
“Antes do recesso, a Câmara vai ter que decidir se fica com o nosso texto ou com o do Aldo Rebelo”, desabafa o relator do Código Florestal no Senado, Jorge Viana (PT-AC), que fez mudanças na redação.

SALTO TERCEIRIZADO 
O Ministério Público do Trabalho em Pernambuco entrou com ação contra a Companhia Energética de Pernambuco, privatizada em 1997. Os terceirizados saltaram de 30% do quadro para 75%.

CINEMA EM MANAUS 
O longa Xingu, de Fernando Meirelles, fará sua estreia no 8º Festival de Cinema do Amazonas, que começa hoje. A cineasta brasiliense Joana Limongi integra o júri que premiará os melhores curtas.

EFEITO COPA 
A bonança é tanta entre empreiteiros de Brasília que dois hotéis de dez andares no Setor Sul serão implodidos, em vez de reformados. Um deles nesta quarta. Ali serão erguidos edifícios cinco estrelas.

TUDO NA PAZ 
A ONG Rio de Paz avisa que, independente, não recebe verbas públicas, por isso tem autoridade para protestos como o das vassouras. Já a Viva Rio está sob investigação do Tribunal de Contas da União.

PENSANDO BEM... 
o único PanAmericano que o Brasil ganhou foi o ex-banco de Silvio Santos. 

“Se Haddad cuidasse tão bem do MEC quanto da sua candidatura...”
DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA, LÍDER DO PSDB, SOBRE OS MICOS DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO

PODER SEM PUDOR
INDÚSTRIA FORTE 
Responsável por grandes êxitos editoriais como as revistas Sexy, de belas mulheres, e G Magazine, para o público gay, certa vez a publisher Ana Fadigas foi apresentada ao então deputado Delfim Netto (PP-SP), em 1998. No papo rápido, ela brincou, dizendo ser empresária do “ramo pornográfico”.
– Meus parabéns! – exultou Delfim – A senhora é legítima representante da única indústria que o Fernando Henrique não conseguiu quebrar.

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Turbulência global – Referendo grego sobre calote ameaça a unidade europeia

Folha: Referendo grego faz desabar bolsas

Estadão: Ameaça grega de recusar plano de ajuda abala Europa

Correio: MEC pagou sertanejos para proteger dados

Estado de Minas: O que fazer com o seu 13º

Jornal do Commercio: Mais de três mil vagas nos shoppings centers

Zero Hora: Injeção de 13º na economia gaúcha será 17% maior