domingo, agosto 28, 2011

MARTHA MEDEIROS - A palavra

A palavra
 MARTHA MEDEIROS 
ZERO HORA - 28/08/11

Falar e escrever sem necessidade de tradução ou legenda: eis um dom que é preciso desenvolver todos os dias

Freud costumava dizer que poetas e escritores precederam os psicanalistas na descoberta do inconsciente. Tudo porque literatura e psicanálise possuem um profundo elo em comum: a palavra.

Já me perguntei algumas vezes como é que uma pessoa que tem dificuldade com a palavra consegue externar suas fantasias e carências durante uma terapia. Consultas são um refinado exercício de comunicação. Se relacionamentos amorosos fracassam por falhas na comunicação, creio que a relação terapêutica também naufragará diante da impossibilidade de se fazer entender.

Estou lendo um belo livro de uma autora que, além de poeta, é psicanalista, Sandra Niskier Flander. E o livro chama-se justamente a pa-lavra, assim, em minúsculas e salientando o verbo contido no substantivo. Lavrar: revolver e sulcar a terra, prepará-la para o cultivo.

Se eu tenho um Deus, e tenho alguns, a palavra é certamente um deles. Um Deus feminino, porém não menos dominador. Ela, a palavra, foi determinante na minha trajetória não só profissional, mas existencial. Só cheguei a algum lugar nessa vida por me expressar com clareza, algo que muitos consideram fácil, mas fácil é escrever com afetação.

A clareza exige simplicidade, foco, precisão e generosidade. A pessoa que nos ouve e que nos lê não é obrigada a ter uma bola de cristal para descobrir o que queremos dizer. Falar e escrever sem necessidade de tradução ou legenda: eis um dom que é preciso desenvolver todos os dias por aqueles que apreciam viver num mundo com menos obstáculos.

A palavra, que ferramenta.

É pena que haja tamanha displicência em relação ao seu uso. Poucos se dão conta de que ela é a chave que abre as portas mais emperradas, que ela facilita negociações, encurta caminhos, cria laços, aproxima as pessoas.

Tanta gente nasce e morre sem dialogar com a vida. Contam coisas, falam por falar, mas não conversam, não usam a palavra como elemento de troca. Encantam-se pelo som da própria voz e, nessa onda narcísica, qualquer palavra lhes serve.

Mas não. Não serve qualquer uma.

A palavra exata é uma pequeno diamante. Embeleza tudo: o convívio, o poema, o amor. Quando a palavra não tem serventia alguma, o silêncio mantém-se no posto daquele que melhor fala por nós.

Em terapia – voltemos ao assunto inicial –, temos que nos apresentar sem defesas, relatar impressões do passado, tornar públicas nossas aflições mais secretas, perder o pudor diante das nossas fraquezas, ser honestos de uma forma quase violenta, tudo em busca de uma “absolvição” que nos permita viver sem arrastar tantas correntes.

Como atingir o ponto nevrálgico das nossas dores sem o bisturi certeiro da palavra? É através dela que a gente se cura.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Plano de investimento até 2015 da BR Distribuidora cresce 155%
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 28/08/11

A BR Distribuidora vai investir R$ 1,9 bilhão em terminais e bases até 2015, diz José Lima de Andrade Neto, presidente da companhia.
O novo plano de investimentos da empresa da Petrobras que distribui combustíveis aumentou 155% ante o plano 2010 - 2014, que previa R$ 744 milhões para operações de automação, construção, ampliação e adaptação para exigências legais.
Os terminais são instalações maiores que abastecem as bases.
Duas delas já começaram a ser construídas, uma em Cruzeiro do Sul (AC) com investimentos de R$ 180 milhões e, outra, em Porto Nacional (TO), no valor de R$ 240 milhões. Deverão estar prontas no começo de 2013.
A BR vai ainda ampliar bases em ao menos 11 Estados.
A proporção de gasolina vendida pela empresa aos postos, que subira devido à alta do etanol, caiu, mas não retomou o patamar de 2010. Com a safra prejudicada por problema climático, queda de investimento (devido à crise de 2008) e da produção de etanol, 83% do consumo de combustível hoje é de gasolina e 17% de álcool. Em abril, foi a 93% de gasolina, enquanto em 2010 eram 75%.
"Não vislumbro nenhum motivo para redução do preço do etanol antes da próxima safra", diz Andrade Neto. "São necessárias mais usinas e novos plantios, investimentos que levam três anos."
Para crescer cerca de 10%, ele pretende "comprar distribuidoras, embora só tenham sobrado as pequenas e pegar postos sem bandeira", afirma. Nos planos estão ainda fabricar produtos de maior valor agregado, como lubrificantes_ "estamos ampliando a fábrica"_ e ganhar mercado em SP (onde tem 25% de participação) e no RS (35%).

O QUE ESTOU LENDO

Geraldo Alckmin, governador de SP
"Churchill foi um grande líder que conseguiu unir pessoas sob circunstâncias extremamente adversas", diz o governador Geraldo Alckmin, que está às voltas com a leitura de "Minha Mocidade", de Winston Churchill, na tradução de outro político, Carlos Lacerda. "É no mínimo instigante conhecer, com base em seu próprio relato, os primeiros 25 anos de sua vida, suas expectativas, experiências e a imagem que tinha de seu país e do mundo."

DR. DELIVERY
A MK Saúde, consultoria de gestão de saúde, fará parceria com seguradoras para a área de turismo.
"Complementaremos seguros-viagem. Coberturas usuais de US$ 10 mil são insuficientes em alguns casos", diz Maurício Mittempergher, diretor da empresa.
A MK tem um serviço, em parceria com operadoras e empresas em viagens de incentivo, em que são mapeados os potenciais riscos. "Avaliamos o perfil dos passageiros, suas possíveis doenças, além de clima e alimentação no destino. Na viagem, enviamos médicos."
O custo varia por lugar, tempo e número de viajantes. Há projetos corporativos de R$ 10 mil a R$ 100 mil.

EMPREGO NO CANTEIRO
O nível de emprego da construção pesada recupera as vagas perdidas no final do ano passado, quando as obras se desaceleraram por conta das chuvas. A alta foi de 1,25% em julho, com a contratação de 1.051 trabalhadores em relação a junho, segundo levantamento do Sinicesp (sindicato da indústria da construção pesada do Estado de SP).
"Até o final do ano, o número ainda deve subir, pois há obras sendo iniciadas e novas concorrências", afirma Helcio Farias, do Sinicesp.
No acumulado dos últimos 12 meses foi registrado um crescimento de 4,67%, com a abertura de 3.808 postos de trabalho. Em julho deste ano, as empresas do setor totalizaram 85.374 empregados.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

MERVAL PEREIRA - Jabuticaba eleitoral


Jabuticaba eleitoral
 MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 28/08/11

Mesmo que não tenha nenhuma segunda intenção - e tudo indica que tenha - a proposta do deputado petista Henrique Fontana (RS) para a reforma eleitoral parece ser, no mínimo, uma tentativa de agradar às várias correntes em que o tema divide o Congresso, tornando mais distorcido ainda nosso sistema eleitoral.

A ideia de fazer uma eleição proporcional tanto em lista fechada quanto em aberta, metade dos representantes para cada modalidade, mantém os vícios tão criticados do sistema atual e não produz nenhum avanço da cidadania.

Ao contrário, colocará na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e nas câmaras de vereadores dois tipos de representantes: os escolhidos diretamente pelo povo, e os outros, escolhidos pelas direções partidárias.

Os políticos que temem a ditadura dos partidos novamente sacarão um argumento poderoso, que inviabilizou a aprovação do voto em lista fechada: a de que o eleitor não terá o direito de escolher diretamente parte de seus representantes.

A oposição à lista fechada, que é a preferência dos dois maiores partidos, o PT e o PMDB, deve-se principalmente ao perigo da institucionalização da ditadura partidária, em que as direções dominariam seus filiados pelo poder que teriam de montar a lista de candidaturas de acordo com seus critérios, e os eleitos deveriam seus mandatos aos que controlam o partido.

Na prática, isso já existe hoje, embora sempre seja possível um candidato bom de voto se impor diante da direção partidária.

Na teoria, os defensores da lista fechada consideram que o sistema fortalece o partido político e reduz o individualismo que hoje predomina nas relações partidárias e mesmo na atuação nos plenários.

Essa deveria ser uma discussão bastante ampla para resultar em algum consenso, mas, da maneira como o assunto vem sendo tratado em Brasília, se alguma solução for aprovada será sem acordo entre os parlamentares, a maioria afastada das discussões.

Existe a comissão que trata da reforma política e vários fóruns informais em que o assunto está sendo discutido, mas diversos partidos não têm representantes em nenhum dos grupos.

Uma reforma no sistema eleitoral à guisa de reforma política está sendo gestada nos bastidores do Congresso, e PT e PMDB voltam a defender o voto em lista fechada, o que daria às direções partidárias o poder de escolher quais seriam os candidatos, e em que lugar eles apareceriam na lista oficial.

Como houve uma grande reação na primeira vez em que o assunto foi lançado à discussão, chegaram a essa fórmula esdrúxula de duas formas de voto proporcional, mais uma jabuticaba política, assim como já houve propostas de fazer um "distritão" misto, que seria um jeitinho brasileiro de fazer o voto distrital misto sem o problema de dividir o país em distritos.

A adoção do voto distrital, puro ou misto, parece ser a melhor tentativa para baratear o custo das campanhas eleitorais e dar maior controle dos eleitos aos eleitores.

A discussão não vai muito longe porque esbarra na impossibilidade de se chegar a uma definição sobre o melhor critério de se dividir o país.

O que dificulta a aprovação de sistemas eleitorais que adotem a divisão dos estados em distritos é o desequilíbrio na representação popular, com um distrito de 800 mil eleitores em São Paulo e outro de oito mil no Amapá.

O eleitor dos grandes centros ficaria em desvantagem, seu voto valendo menos do que o do eleitor de um pequeno estado.

Tendo em vista a excessiva fragmentação do pluripartidarismo brasileiro, há também o risco de a definição da vontade das maiorias ser uma tarefa complexa e polêmica.

Com 21 partidos disputando a eleição em um distrito para uma vaga, dificilmente o eleito no distrito representará a maioria, a não ser que a definição seja feita em um segundo turno, o que complica ainda mais a eleição.

A proposta que está sendo apresentada pelo relator petista Henrique Fontana tem outra incongruência: ela mantém o financiamento privado das campanhas eleitorais, embora institua também o financiamento público.

Na origem da defesa do voto em lista fechada, um dos argumentos mais fortes era o de que somente esse tipo de sistema eleitoral permitiria o financiamento público de campanha, que seria dado ao partido responsável pela lista.

Seus defensores chegaram a dizer que o verdadeiro objetivo da proposta era moralizar as campanhas eleitorais, reduzindo a corrupção e suas consequências nos desmandos dos governos.

O voto distrital, e até mesmo o "distritão" (onde os estados viram distritos e a eleição torna-se majoritária, com a eleição dos mais votados), no entanto, teriam as mesmas vantagens de reduzir ao âmbito do distrito as campanhas, reduzindo seus custos ou dificultando exteriorizações de riqueza de candidatos.

Com a apresentação da proposta de uma espécie de financiamento misto entre público e privado, a solução para a questão do caixa dois eleitoral fica mais longe ainda, e a defesa do voto em lista fechada perde um de seus melhores argumentos.

A proposta do deputado Henrique Fontana tenta alterar as regras eleitorais por maioria simples, utilizando a legislação ordinária e não mudanças constitucionais.

O fim das coligações, no entanto, só poderia acontecer por mudança na Constituição, logo esse ponto, um dos mais importantes para evitar a distorção do voto proporcional, onde o eleitor vota em um candidato e ajuda a eleger outros, de outras legendas que nada têm a ver com a sua intenção inicial.

Há também proposta de permitir a formação de "federações" de partidos, o que na prática seria uma maneira de permitir que partidos menores se coliguem com os grandes puxadores de votos.

GOSTOSA


FERREIRA GULLAR - Uma experiência radical

Uma experiência radical
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 28/08/11

Todas as pessoas, informadas nesse terreno, sabem que fui eu quem inventou o nome "neoconcreto", propus que criássemos um movimento com esse nome e escrevi o Manifesto Neoconcreto e a teoria do não objeto.

É verdade, também, como tenho dito, que nada disso teria sido possível nem teria consequências efetivas se se tratasse apenas de sacações minhas: de fato, não fiz mais do que formular o que já estava sendo criado pelos pintores, escultores e poetas que constituíam, àquela época, o grupo de concretistas do Rio de Janeiro.

E só por isso aquele movimento deu certo, marcando um momento de nossa história artística. Certamente, a tomada de consciência do processo de criação que o nosso grupo realizava foi um fator decisivo para o desdobramento que teria, pois era necessário que alguém formulasse teoricamente aquilo.

Coube a mim fazê-lo por ser eu, além de membro do grupo como poeta, também teórico e crítico de arte.

Sabemos todos, porém, que não é a teoria que produz as obras de arte, muito embora o processo criador exija a consciência crítica.

Desse equívoco estão cheios os manifestos dos diferentes movimentos de vanguarda do século 20, que, a exemplo dos manifestos políticos, prometem coisas que jamais serão realizadas.

Já o Manifesto Neoconcreto caracterizou-se por não fazer promessa nenhuma. Trata-se de um texto nascido da constatação do que estava sendo realizado: nos trabalhos de Lygia Clark, Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Hélio Oiticica, Aluisio Carvão, Lygia Pape e dos poetas do grupo, algo surgira que diferia da concepção concretista herdada de Max Bill e dos conceitos da Escola de Ulm.

O fator principal dessa diferença era, no caso dos cariocas, o predomínio da busca intuitiva, ainda que sem romper com o rigor construtivo que caracterizava a arte concreta. A teoria do não objeto, por exemplo, surgiu como consequência de um trabalho de Lygia Clark que ela não sabia como classificar. Não era escultura, não era pintura, não era relevo. Entendi que era um objeto, mas um objeto sem função: só significação. Daí chamá-lo de "não objeto".

Disse, certa vez, que o primeiro "Bicho", de Lygia Clark, se inspirara no meu livro-poema "fruta". Mas observei, nesse mesmo texto, que era uma característica do nosso grupo a troca permanente de ideias e experiências, uma vez que estávamos frequentemente juntos a mostrar uns aos outros o que realizávamos.

A experiência neoconcreta foi muito rica, porque, particularmente no terreno das artes plásticas, levou às últimas consequências uma linha de experiência estética que começou no cubismo.

Esse processo de vanguarda terminou por desintegrar a linguagem artística. Resumindo: um dos objetivos surgidos dessa busca - a criação de uma arte não figurativa - conduziu Casemir Malévitch a pintar o quadro "Branco sobre Branco", que, a meu ver, estava a um passo do fim da pintura: a tela em branco. A saída que encontrou, então, foi abandonar a tela e partir para construções no espaço tridimensional, que chamou de "Construções Suprematistas".

Pois bem, Lygia, por outros caminhos, também chegou à tela em branco e - embora ignorando o que fizera o artista russo - partiu também para as construções no espaço tridimensional, que são os "Bichos".

Mas Lygia, antes de dar esse passo, desistira de pintar e passara a agir materialmente sobre o quadro, criando o que chamaria de "Casulos". Foi então que fiz os livros-poema, também para superar um impasse com que me defrontara ao escrever o poema "verde relva".

Ao ver que o leitor, diante da repetição da palavra verde, não lia o poema palavra por palavra, como eu pretendia, decidi escrevê-lo no verso das páginas, para obrigá-lo a isso. Intitulei-o de livro-poema porque ali poema e livro eram uma coisa só. O livro-poema "fruta" já não era um livro, embora feito em papel: o leitor o abria como se abrisse uma fruta, gomo por gomo.

Ao vê-lo, Lygia percebeu nele a solução para o impasse a que chegara e criou os seus "Bichos". No livro-poema, o manuseio não era invenção, já que livro é manuseável; nos "Bichos", sim.

Por isso mesmo o defini como "um ser novo no universo da arte". Era fascinante esse diálogo da poesia com as artes plásticas.

JANIO DE FREITAS - A história que falta


A história que falta
 JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 28/08/11

A renúncia de Jânio Quadros, tratada em "O Romance da Renúncia", foi fator decisivo para o golpe de 1964


A maltratada história brasileira recente tem no que ocorreu há exatos 50 anos, em seguida à renúncia de Jânio Quadros, um rombo que a desonra. Foi um episódio grandioso demais, por si mesmo e como um dos fatores mais importantes do que viria, para ficar sem o merecido estudo e apenas nas memórias que o tempo vem levando, em números já próximos do final, para o desconhecido.

Nos primeiros anos daquele período, encerrado com o golpe de 1964, três ou quatro editoras dispuseram-se a publicar uns poucos livros a respeito. Ficaram como contribuições informativas, mas por força do imediatismo e da carga passional do momento, ou apenas introdutórios, ou reflexos de comprometimento pessoal, ou ambos. Eram testemunhos e jornalismo em livro, não trabalho de historiografia, propriamente.

O golpe de 1964, por exemplo, foi a efetivação do fracassado golpismo que, em 1955, pretendeu impedir a candidatura de Juscelino e, depois, a posse na Presidência, mas sua raiz factual mais funda não foi essa. Foi a descarga dos ódios ampliados ou criados no golpismo pela derrota que lhe impôs, como às Forças Armadas, o levante do então governador gaúcho Brizola, em defesa da posse do vice Jango Goulart como determinado pela Constituição.

A derrota em 1961 foi fator fundamental para 1964 por vias variadas. Nem por isso tal aspecto foi sequer arranhado nas escassas e rarefeitas referências àquele episódio.

Dá ideia das disposições derrotadas, em 1961, um episódio sem registro histórico, mas comprovado. Em visita à China quando Jânio renunciou, Jango, além de retardar a saída, fez a mais sinuosa, saltitante e demorada volta de lá ao Brasil. Desde o dia seguinte à renúncia, jornais noticiavam aqui a sua chegada, havida ou para logo, e essa era só uma das suas muitas invenções na ocasião. Afinal chegado pelo Sul, Jango só viajou a Brasília depois de aceita a mudança do presidencialismo para o parlamentarismo.

Chegara vivo graças a uma insubordinação: caças a jato da FAB receberam ordem de abater o avião de passageiros da Panair em que Jango estava. Nas cassações de 1964 veio a vingança a quem se recusou ao crime monstruoso, nela incluída a negação futura de licença para pilotar até aviões comerciais em empresas e territórios estrangeiros. O ódio de 1955 e de 1961 jorrava, furioso.

A renúncia de Jânio, antecessora do período aqui considerado, está recebendo "O Romance da Renúncia", do admirável jornalista José Augusto Ribeiro, com a contribuição sobretudo de um dos dois políticos mais próximos de Jânio -José Aparecido de Oliveira, seus braços direito e esquerdo na Presidência.

Ex-ministro do governo Jango, Almino Afonso é dos mais informados e brilhante analista daquele período, com a melhor interpretação entre as de meu conhecimento.

É quase inacreditável que não lhes sejam propostas, como a outros ainda, condições para complementar seus trabalhos até o limite do possível, para dar à história do Brasil e aos presentes e vindouros o que lhes é devido. E que, além do mais, é um conjunto extraordinário de ensinamentos de política, de democracia e de cidadania.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - Um programa de oposição radical


Um programa de oposição radical
 VINÍCIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 28/08/11

Para economistas tucanos, "transição completa" do país depende de privatização ampla, geral e irrestrita


Economistas um dia associados ao governo tucano e a FHC têm um programa contra "tudo isso que está aí", como dizia o PT nos tempos fernandinos.

É um programa de oposição ao desenvolvimentismo acidental dos petistas. À herança econômica do estatismo militar (1964-85). À ideia de implantar um Estado de bem-estar social no Brasil, "à moda europeia"; à Carta de 1988.

Linhas de força desse "programa" foram apresentadas em seminário do Instituto FHC, na semana passada. Os expositores eram André Lara Rezende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan e Pérsio Arida.

O seminário era um debate intelectual, não reunião partidária, claro. Mas o que se pregava por lá?

Primeiro, redução de gasto público e impostos de modo a permitir o aumento da poupança, do poder de decisão privado sobre poupança e investimento e, de quebra, a queda dos juros.

Não se trata só da ladainha sobre gasto excessivo e inflação. Não se trata de coisa pequena, mas:

1) da limitação legal da despesa pública (ideia de Malan);

2) de equilíbrio orçamentário que dê conta não só do deficit anual (2,2% do PIB) mas ainda da monstruosa rolagem da dívida que deveria ser amortizada anualmente (17% do PIB. Ideia de Franco);

3) de reforma fiscal-constitucional que reconhecesse a ilusão de que poderemos ter um "welfare state" europeu (Malan e Franco).

Segundo, propôs-se privatização, claro. Mas não só de empresas restantes ou da infraestrutura de serviços públicos. De um modo metafórico, mas não muito, propôs-se a "privatização" das reservas internacionais (ativos e moedas conversíveis comprados pelo BC, grosso modo dólares).

Isto é, sugeriu-se a liberdade geral de manter moeda no exterior (o que, hoje, pouparia o governo/BC de gastar na compra de dólares a fim de conter a valorização do real).

Em suma, pede-se a abertura da fronteira final das finanças (ideias de Franco e Arida), o que redundaria num mercado de câmbio mais equilibrado, além de reduzir ineficiências e incertezas que prejudicam investimentos do e no Brasil etc.

Propôs-se privatizar os recursos ou a gestão dos fundos de poupança obrigatória, como FGTS e FAT (Arida e Franco). Ou dar cabo do crédito dirigido por leis ou pelo governo (o dinheiro da poupança para habitação; o crédito rural).

Em 2010, o FGTS bancou investimentos de R$ 45 bilhões (63% em habitação, 24% em infraestrutura, 10% em saneamento). Dos R$ 41 bilhões do FAT, 50% foram para seguro-desemprego, 21,5% para o abono salarial e 11,5% para o BNDES.

Franco e Arida dizem que tais fundos expropriam o trabalhador (não rendem de fato quase nada) e beneficiam empresários com empréstimos baratinhos ("fisiologia industrial", no dizer de Franco). Além do mais, distorcem o mercado de crédito e impedem a queda dos juros. Sob gestão livre e privada, renderiam mais para os trabalhadores; a alocação de capital seria mais eficiente no país.

É um programa radical. É ignorado pela oposição, se é que os tacanhos tucanos do PSDB de hoje ainda merecem tal nome.

Politicamente, o "programa" não tem corpo nem alma. Mas é um bom debate num país em que o mercado é atravancado e o Estado está fora do lugar.

SERGIO AUGUSTO - A César o que é de César


A César o que é de César
SERGIO AUGUSTO
O ESTADÃO - 28/08/11

Jaques Wagner é um homem lúcido. Diante da queda de mais um ministro, o terceiro a deixar o governo sob acusações de corrupção, o governador da Bahia comparou o estilo da presidente Dilma ao de seu antecessor: "Ela é dura, o sistema dela é um pouco brutal". Já Lula seria "mais ‘palanqueiro’, talvez mais tolerante com as coisas".

Wagner chegou perto de dizer a verdade, mas não a disse por inteiro. A verdade inteira é que foi Lula quem construiu a coalizão de forças que está aí; quem deu passe livre para que seus integrantes, a começar pelo PT, usassem o Estado brasileiro como se fosse propriedade sua, acobertando o malfeito e dando proteção política aos malfeitores.

É frequente o comentário político de que os vícios que agora se revelam são resultado inevitável do funcionamento do presidencialismo brasileiro.

Atribui-se a culpa ao sistema, para isentar de responsabilidade o ex-presidente Lula. Não é verdade, porém, que um presidente esteja condenado a fazer o que fez o antecessor de Dilma Rousseff. Se o fez foi porque escolheu fazer.

No início de seu primeiro mandato, Lula recusou-se a aceitar um acordo preferencial com o PMDB, costurado por José Dirceu. Temia ficar refém de um grande partido e pôr em risco a hegemonia do PT na aliança. Preferiu armar sua base parlamentar com a adesão de pequenos partidos, anabolizados com a transferência de parlamentares e recursos financeiros, sob o patrocínio do Palácio do Planalto.

Cresceu assim o Partido da República (PR), então chamado Partido Liberal, agremiação controlada por Valdemar Costa Neto, cujas estripulias são hoje bem conhecidas.

Para encontrar espaço para enfiar tamanho saco de gastos no Executivo, Lula ampliou, de pouco mais de 20 para 35, o número de postos ministeriais e abriu as portas de empresas estatais e agências regulatórias ao loteamento político. No Congresso Nacional, mais especificamente na Câmara dos Deputados, seu governo passou a operar o esquema que viria a ser conhecido como "mensalão". Que Lula tenha alegado nada saber sobre o esquema não é moralmente desculpável, mas é da lógica política. Ter decidido travesti-lo com a roupagem de caixa 2 e se empenhado na proteção e posterior reabilitação política de boa parte dos envolvidos foi escolha sua.

Diante do susto do "mensalão", Lula resolveu dar ao PMDB o lugar de sócio privilegiado na aliança governista. O cuidado para não enfraquecer a posição do PT explica o zelo demonstrado na proteção política a "aloprados" de variada natureza e dimensão. Seria de esperar que reforçasse os mecanismos de controle dentro de seu próprio governo. Esses não são apenas institucionais. São também políticos e dependem fundamentalmente da autoridade do presidente e de como ele a utiliza.

Mas, como disse Jaques Wagner, que o conhece bem, Lula é "palanqueiro" e "tolerante".

A tolerância pode ser uma virtude política, e Lula a tem: não é homem de perseguir os adversários nem de se negar ao diálogo. Pode ser, porém, um enorme defeito, quando significar complacência com o mau uso dos recursos públicos. Palco de escândalo no primeiro mandato, a Empresa de Correios e Telégrafos foi entregue em seguida ao PMDB. Este deitou e rolou na estatal a ponto de exigir uma intervenção de emergência ao apagar das luzes do segundo mandato, já em plena campanha eleitoral, em face da iminência de um colapso em seus serviços. Outros partidos deitaram e rolaram em outras estatais (Infraero, por exemplo) e agências reguladoras (vide ANP).

Com a economia "bombando", em pleno "espetáculo do crescimento", Lula não pensava senão naquilo: agregar e manter apoios políticos para eleger a sua sucessora, empenhando-se pessoalmente na empreitada, não raro infringindo a legislação eleitoral e debochando de juízes que, cumprindo o dever, lhe aplicavam multas por transformar cerimônias oficiais em palanques eleitorais.

Dilma não se pode dar ao luxo de não ver ou aceitar prazenteiramente o modus operandi da coalizão de forças que a elegeu. Faltam-lhe as grandes qualidades e os defeitos superlativos de Lula. A economia não está mais "bombando". E "bombará" menos ainda, até onde a vista alcança, por mais que seja atenuado o impacto da crise internacional sobre o Brasil. Por ora, não há faxina alguma. Observam-se, sim, umas sapatadas aqui e acolá à medida que uma barata aparece na sala, na feliz imagem do jornalista Fernando Barros e Silva. E elas estão aparecendo não porque a presidente se tenha posto a caçá-las pela casa, mas porque há uma briga de punhais dentro da aliança governista - ou não foi o irmão do senador Roberto Jucá, líder do governo no Senado, quem primeiro acusou o recém-caído ministro da Agricultura? - e porque a imprensa e alguns órgãos de Estado estão cumprindo o seu papel. Conseguirá a presidente rearticular a sua base de apoio político sem coonestar o modus operandi da aliança que foi funcional para a sua eleição, mas ameaça gravemente a qualidade do seu governo?

Uma coisa é certa: o rei está nu. Lula não inventou o sistema político brasileiro, não criou o fisiologismo nem deu origem à corrupção. Tudo isso já existia antes de ele assumir a Presidência. Mas nada do que se está vendo - na escala, na extensão e na profundidade que se revelam - deixa de ter a sua marca registrada.

A honestidade intelectual me impede de dizer sobre o governo Lula o que ele próprio e seu partido disseram sobre o governo Fernando Henrique Cardoso. O antecessor de Dilma Rousseff e seu governo têm qualidades. Deixaram-nos, porém, esta, sim, uma herança maldita: a corrupção sistêmica e disseminada no setor público federal; o aparelhamento do Estado, em níveis que há muito não se viam, incluindo ministérios cruciais, agências regulatórias e empresas estatais; a desmoralização do sistema partidário; e o debilitamento do próprio PT, agora tutelado por sua "majestade".

Ou nos livramos dessa herança ou seremos tragados por ela.

DORA KRAMER - Pé na estrada


Pé na estrada
DORA KRAMER
O ESTADÃO - 28/08/11

O senador Aécio Neves admite que em 2010 nunca foi de fato candidato a presidente. Fez movimentos táticos. "Mas não tinha apoio do partido nem a convicção de que seria a minha hora", diz, reconhecendo que na época o nome "natural" do PSDB era mesmo o de José Serra.

Agora Aécio sente que o cenário se inverteu e trabalha fortemente com a hipótese de ser o principal candidato de oposição em 2014. "Contra Lula ou Dilma", embora aposte que ela será candidata à reeleição. "A renúncia à candidatura equivale à aceitação de que o governo não deu certo." A conversa de Aécio Neves hoje realmente não é a mesma dos meses que antecederam a definição do candidato tucano que disputaria a sucessão de Luiz Inácio da Silva. Ele falava sobre a candidatura de maneira difusa.

Enquanto Serra tinha na cabeça todo o esquema de governo, aí incluídos nomes de ministros, Aécio posicionava-se como possível candidato, mas não agia como tal.

Um episódio: em setembro de 2010 preferiu viajar com a filha para a Itália a correr o País para organizar as prévias no partido conforme havia anunciado.

Agora é diferente. Mal terminada a eleição tratou de conquistar a hegemonia dentro do partido, estabeleceu um plano de ação para reorganizar o PSDB nos Estados, reincorporar ao partido forças da política e da sociedade que se dispersaram durante o governo Lula e se prepara para subir no maior número possível de palanques nas eleições municipais de 2012 a fim de atrair aliados com o seguinte critério: só o PT é adversário.

"No amanhecer de 2013 o partido já deve ter definidas as bandeiras que defenderá, traçado um esboço das alianças que poderá conquistar e principalmente deve estar pronto para defender seu legado e mostrar que é o único capaz de pensar o Brasil do futuro." E a enorme decepção com a atuação do PSDB mesmo entre os eleitores tradicionais do partido? "Os que se decepcionaram com o PT são em maior número." No capítulo alianças sonha alto e vai pescar nas águas dos dois maiores parceiros do governo: PSB e PMDB. "Nenhum dos dois terá na aliança com o PT o lugar de destaque de que se julgam merecedores." Por exemplo, o lugar de vice.

Aécio acha que tem jogo. Cita Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB, e faz referência às afinidades com o governador Sérgio Cabral (RJ) e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, ambos do PMDB.

Tudo muito bem pensado, mas há um "pormaior": José Serra já andou confidenciando a amigos que não pretende ser candidato a prefeito de São Paulo porque prefere se preservar para 2014.

"Tudo bem. Pode até ser o Serra, mas uma coisa é certa. Desta vez o candidato não será quem quiser ser e sim quem estiver em melhores condições." O parâmetro Aécio não tem claro qual deve ser, mas está convencido de que as pesquisas é que não podem ser. Por que Serra estaria na frente? "Não, porque não deu certo na última vez." De qualquer forma ele acha que os dois devem conversar e se dispõe a "fazer uma aproximação mais sólida" a fim de somar esforços.

Candidato a ferro e fogo Aécio pode até não ser, mas fará por onde ser. "Não vou deixar esse jogo solto demais, vou conversar, vou viajar, construir minhas condições." Por enquanto, só "administrando o tempo" para não ficar no sereno com muita antecedência. Na opinião dele, a definição do candidato deve ocorrer em 2013. "Mas não pode passar disso. Candidatura em cima da hora não funciona." Bem, mas daqui até lá é preciso um discurso e o de Aécio soa oposicionista de menos.

"O melhor candidato não é necessariamente o que só se contrapõe, até porque precisa estar preparado para tirar os votos que hoje são do governo." Faz a crítica sobre a paralisia do governo, a incapacidade do PT de "pensar o Brasil" e, a respeito da dita faxina ética, não compartilha do entusiasmo geral: "O governo apenas reage a denúncias e torce para que não ocorram novas denúncias".

E Lula, o que fará já que Aécio considera a candidatura de Dilma à reeleição inevitável? "Será candidato ao governo de São Paulo. Não vai aguentar ficar longe do poder." Uma aposta com jeito de torcida.

MÍRIAM LEITÃO - Noivas em fuga


Noivas em fuga
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 28/08/11

O machismo virou problema econômico. Sempre foi uma trava no progresso, mas agora ganhou até capa de revista econômica pelos dilemas que está criando na sociedade asiática, que tem sido a mais refratária aos avanços. As mulheres asiáticas, que estão no mercado de trabalho e trabalham dez vezes mais em casa que seus maridos, estão fugindo do casamento e não tendo filhos.

Com maior ou menor intensidade, é mundial a ideia de que o trabalho em casa e os cuidados com os filhos é obrigação da mulher. O homem - quando quer - "ajuda". Se no Ocidente isso está mudando, no mundo oriental o problema é pior e produziu equações difíceis de serem resolvidas do ponto de vista econômico e social.

A Economist tratou disso na semana passada: o movimento das asiáticas de fuga do casamento representa uma queda mais rápida da população, que pode representar envelhecimento ainda mais rápido, criando dificuldades maiores ao sistema previdenciário.

Um terço das mulheres nos seus trinta e poucos anos na Ásia não se casaram; e no Japão 21% delas encerraram o período reprodutivo sem se casar. Em Tóquio, a taxa chegou a 30%. Em Cingapura, 27% das mulheres com curso superior entre 40 e 44 anos não se casaram. Essas taxas estão subindo também na Tailândia, Coreia e até na China, entre mulheres mais escolarizadas e com renda maior. Lá, há muito preconceito contra nascimentos fora do casamento, porque a Ásia não passou pela revolução de costumes que houve no Ocidente. Por isso, não casar significa não ter filhos.

No Ocidente, é alta a taxa de crianças nascidas fora do casamento tradicional. Na Suécia, 55% das crianças nascidas em 2008 foram fora do casamento; na Islândia, 66%. Na Ásia, a média é 2%. O problema é que a carga a se carregar no casamento é pesada demais para uma asiática, diz a revista. Uma mulher asiática que trabalhe 40 horas semanais tem, em média, mais 30 horas de trabalhos domésticos. Os homens dedicam, em média, 3 horas a esse serviço. Além disso, considera-se que a mulher é responsável pelo cuidado das crianças e também dos idosos da família. Normalmente, a mulher por lá é responsável pelos cuidados do sogro e da sogra. Por isso, muitas asiáticas, principalmente as de alta escolaridade, estão preferindo apostar na carreira.

Aumenta também o que era inaceitável tempos atrás: relacionamento sem casamento, sem filhos e sem compromisso. As taxas de mulheres no mercado de trabalho estão aumentando rapidamente. Na Coreia do Sul, a taxa de mulheres empregadas na faixa dos 20 anos superou a de homens. Com opções e independência financeira, elas impõem os termos: ou a sociedade muda por uma divisão mais igualitária do peso da vida familiar ou elas continuam solteiras. "Por que mudaria minha vida para preparar sopa de tofu como minha mãe?" disse uma entrevistada à revista.

Na Índia e China, há outro problema: o aborto seletivo que impede o nascimento de meninas. Em 2050, haverá nestes dois países 60 milhões de homens a mais que mulheres em idade de se casar, diz a Economist . Já há cálculos mostrando aumento do porcentual de homens que não vão conseguir se casar por falta de mulheres na China nas próximas décadas.

O interessante da reportagem é que normalmente as matérias sobre casamento apresentam a versão de que mulheres querem muito se casar e os homens fogem. É como se o casamento fosse um sonho compulsivo feminino. O texto da Economist , naquele estilo sóbrio e fundamentado em estatísticas, sustenta o contrário: elas é que estão dizendo não e justamente na sociedade asiática, que, até recentemente, proclamava-se a região do mundo que era superior por ter valores e princípios familiares mais arraigados.

A reportagem diz que esses valores eram na verdade a visão conservadora e ultrapassada de que cabe apenas à mulher carregar o peso da renovação da população e ainda ser o amparo dos mais velhos.

"As mulheres estão rejeitando o casamento na Ásia e isso tem sérias implicações sociais", diz o subtítulo do editorial da revista. "Os governos asiáticos têm há muito tempo a visão de que a superioridade de seus valores familiares era uma das grandes vantagens que tinham em relação ao Ocidente. Isso não está mais garantido. Eles precisam acordar para as profundas mudanças sociais que acontecem em seus países e pensar em como podem enfrentar as consequências", alerta a Economist .

Na visão da revista, é difícil uma política pública acabar com o preconceito que produz essa distribuição desigual dos pesos na família, mas os governos têm algo a fazer. Ela sugere licenças-paternidades, para que homens se envolvam mais com os recém-nascidos e as crianças em crescimento, e subsídio ou oferta de serviços que facilitem o cuidado da criança.

Em alguns países europeus e nórdicos, a ideia de licença-maternidade evoluiu para a "licença para cuidar da criança", que é concedida à pessoa da família que se dispõe a fazer o trabalho. Após o fim do período de amamentação, essa pessoa não tem de ser necessariamente a mãe. Numa nova sociedade, com outros valores, é preciso pensar em novas políticas públicas atualizadas aos novos desafios.

GAUDÊNCIO TORQUATO - A sustentável leveza dos setentões

A sustentável leveza dos setentões
GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADÃO - 28/08/11
A questão está na ordem do dia, sob tiroteio de combatentes e defensores dos dois lados: a aposentadoria compulsória do servidor público aos 70 anos deve ser mantida ou estendida para 75 anos? Os defensores da posição garantida pelo artigo 40 da Constituição federal amparam-se na tese da renovação de quadros e oxigenação das estruturas, reforçada pela crescente pressão dos grupamentos que o País incorpora a cada ano à massa de trabalho e que enxergam na administração pública larga via de acesso. Sob esse argumento, que deixa transparecer algum resíduo de civismo (é preciso acreditar nesse sentimento louvável), embutem-se traços do ethos nacional, particularmente os que explicam a acomodação e o gosto brasileiro de se amamentar nas tetas do Estado. Por isso a aposentadoria, quanto mais precoce, cai bem. Quando isso não ocorre, os exércitos setentões são barrados na vanguarda da administração pela espada compulsória. Cheios de vitalidade, dão meia volta e se integram rapidinho aos batalhões que lutam na arena do mercado. São poucos os que recolhem suas armas. Em alguns espaços - altas Cortes do Judiciário e universidade - a batalha pela aposentadoria mais retardada, aos 75 anos, ganha relevo por abrigar componentes conceituais e valorativos de monta. Merece maior atenção.

O arsenal argumentativo parte da leitura de que no auge do vigor intelectual, quando exibe densa bagagem jurídica, domínio pleno das técnicas processuais e vívida identificação com a alma social, o magistrado é retirado de sua "casa", abrindo um vácuo cujo preenchimento se dá apenas quando o substituto adquire a experiência do antecessor.

Depois de certo tempo, preenchido o vazio e reposto o acervo da Corte - pelo entendimento de que o exercício do debate e do convívio é fundamental para a elevação do discurso de seus componentes -, chega-se, novamente, ao ponto de quebra: outro setentão chega ao final da jornada. Final? Sim, por conta da determinação constitucional. Certas leis, porém, não respiram o cheiro do tempo, caindo na obsolescência. Ora, aos 70 anos os magistrados ascendem àquele patamar onde Bacon os homenageia com respeitosa expressão: "Instruídos, sábios, reverendos, circunspectos, íntegros, preparam o caminho para a justa sentença, como Deus costuma abrir o seu caminho elevando os vales e abaixando as montanhas".

Demonstração cabal da vitalidade de juízes que se aposentam no ápice da vida profissional é o reingresso no mercado do trabalho pela porta da advocacia, por onde muitos começaram a trajetória.

A troca da toga pela beca tem sido comum entre nós, a denotar que o percurso do magistrado poderia durar mais uns aninhos. Retirar de campo parcela da plêiade da Justiça quando esta brilha no ponto mais alto de sua carreira parece uma medida desprovida de bom senso. Um luxo desnecessário. Alguém poderá objetar: nada se perde porque os magistrados continuarão a prestar serviços ao País em outros campos. Em termos. As instâncias superiores do Poder Judiciário são, por excelência, as que mais carecem de quadros de invulgar cultura jurídica para fazer correta interpretação das leis e exercer, de maneira exemplar, a sagrada liturgia de aplicação da justiça. Portanto, estender a obrigatoriedade da aposentadoria ao limite de 75 anos seria decisão condizente com o figurino de um país que zela pelo patrimônio do saber acumulado.

Compreende-se a necessidade de dar oportunidade aos mais jovens e abrir os pulmões das instituições. Mas na esfera mais alta do Judiciário a balança pende para a carga da sapiência, que não pode ser deixada de lado.

A par dessa abordagem, há o fator científico, que põe em relevo a taxa crescente de expectativa de vida dos cidadãos - no caso brasileiro, estimada em 73 anos em 2008, e com possibilidade de atingir em 2015 quase 75 anos (em 2050 a projeção é de 81,2 anos de vida). Em dez anos, entre 1998 e 2008, esse indicador cresceu 3,3 anos, segundo o IBGE, a denotar que os avanços tecnológicos, ao esticarem a régua da vida, contribuem para alongar os ciclos profissionais. Assim, o tempo para um servidor público entrar na compulsória, sob as conquistas da ciência da longevidade, é diferente do espaço de duas décadas atrás, ou, para ser mais claro, da baliza gerada pela Carta de 88. Se considerarmos que a taxa de mortalidade infantil, no Brasil, declina há bom tempo - caiu quase 30% de 1998 para 2008 - e a população idosa continua a se expandir, poderemos prever o impacto da "bomba-relógio" que se arma nas imediações do sistema da Previdência.

Esse, porém, é um capítulo à parte nessa história.

Voltemos aos danos causados ao País pela aposentadoria compulsória de servidores com 70 anos. Estudo da Fiesp mostra que o Brasil economizaria R$ 1,4 milhão/ano por trabalhador se o período de trabalho fosse estendido para 75 anos.

Em cinco anos, a economia na esfera federal seria de R$ 2,4 bilhões. Jogando a planilha nos Estados e municípios, a conta chegaria aos R$ 5,6 bilhões em cinco anos. Sob esse dado, ganha força a PEC 457/05, aprovada no Senado e tramitando na Câmara, que propõe alterar a idade para a aposentadoria compulsória do servidor. A trombeta corporativa de grupos que lutam para galgar a escada do poder fará muito barulho. Espera-se, contudo, que o argumento racional não seja engolfado pelo adjetivo emocional.

Vale, por último, um rápido olhar na nação que se esforça em proclamar a força de suas instituições democráticas: os Estados Unidos da América. Ali os juízes da Suprema Corte podem permanecer no cargo até a morte. São inamovíveis. Enquanto tiverem boa saúde, física e mental, permanecem na ativa. Contam-se na mais alta Corte americana juízes com quase 80 anos.

A conclusão é irretorquível: os setentões daqui e de lá, do alto de seu vigor, escrevem as páginas mais memoráveis dos livros de sua vida. Não são dispensáveis. Ao contrário, são plenamente sustentáveis em seus postos.

EM EXECUÇÃO


ELIO GASPARI - O protocolo antiprivataria do Dr. Laredo


O protocolo antiprivataria do Dr. Laredo
ELIO GASPARI
O GLOBO - 28/08/11

O cidadão era do SUS e estava infartando, mas o leito do CTI estava reservado a clientes de planos de saúde


UMA ESTATÍSTICA E um incidente expuseram a extensão do ataque da privataria dos planos de saúde contra a rede pública do SUS. O repórter Antônio Gois mostrou que o mercado das operadoras cresceu 9% entre março de 2010 e março deste ano, incorporando 4 milhões de novos clientes. O faturamento das empresas aumentou em torno de 20%.
Já o número de leitos oferecidos à freguesia cresceu apenas 3%. Basta fazer a conta para que surja a pergunta: para onde vão os clientes dos planos privados? Para a rede pública. Está em curso um processo de apropriação do bem coletivo pelos interesses privados. Essa tendência se agrava quando se vê que as operadoras oferecem planos baratinhos, sabendo que não podem honrar os serviços que oferecem. Plano de saúde individual que cobra menos de R$ 500 por mês é administrado por apostadores ou faz os fregueses de bobos.
Em hospitais públicos como o Incor e o das Clínicas de São Paulo já existem duas portas, uma para o SUS e outra para os planos. (Quando o Incor quebrou, tentou se internar no CTI financeiro da Viúva do SUS.) O governador Geraldo Alckmin quer privatizar 40% das unidades administradas por organizações sociais. Na Santa Casa de Sertãozinho (SP), instituição filantrópica que, legitimamente, atende tanto ao SUS quanto aos convênios, deu-se um episódio que pode servir de lição e exemplo.
O médico Paulo Laredo Pinto atendia um paciente de 55 anos, diabético, obeso e hipertenso (como a doutora Dilma), internado há dias.
Ele sentiu dores no peito, e Laredo, cirurgião vascular, diagnosticou um processo de infarto: "Ele podia morrer se ficasse mais cinco minutos na enfermaria". Diante do quadro, pediu a transferência do paciente para o CTI. Nem pensar. O homem era do SUS e, mesmo havendo vaga no Centro de Terapia Intensiva, estava à espera de algum paciente dos planos privados. Com o apoio de dois colegas, desconsiderou a negativa e transferiu o doente. Fez mais: chamou a polícia: "Registrei um boletim de preservação de direito. Existe o crime de omissão de socorro. O leito não é de ninguém, é de quem precisa".
O paciente ficou no CTI e, dias depois, seu quadro era estável. Pelo protocolo da privataria, talvez estivesse morto. Se os médicos começarem a chamar a PM, as coisas ficarão claras. Um caso de polícia, caso de polícia será.

SURTO
Na quarta-feira, quando o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi defenestrado da relatoria do projeto de reforma do Código Civil, ameaçou aderir à lista de parlamentares que pedem a criação da CPI da Corrupção. Na cena, ocorrida no gabinete de Michel Temer, um dos presentes murmurou: "Deixa ele assinar. Se fizer isso, todos os outros retirarão seus nomes".

TUNGA NA BN
A Biblioteca Nacional cobra R$ 10 para que um contribuinte fotografe uma página de documento com sua câmera digital. Pior: a vítima precisa preencher um formulário, e o pagamento deve ser feito numa agência bancária, fora do prédio. A Casa de Rui Barbosa, também subordinada ao Ministério da Cultura, nada cobra.

HOMEM DE SORTE
Assaltado em sua casa do Morumbi, o deputado Antonio Salim Curiati, do PP, queixou-se: "A Dilma vem falar do Bolsa Família. Aí você agracia a comunidade carente, e eles começam a ter filhos à vontade. É preciso controlar a paternidade". Fiel escudeiro de Paulo Maluf, que o nomeou prefeito de São Paulo em 1982, e seu secretário em três ocasiões, Salim Curiati nasceu em 1928. A pilula anticoncepcional só chegou ao mercado em 1960, com 32 anos de atraso.

O SUPER PT
É impossível prever um resultado eleitoral, mas, tomando por base base votações passadas, com a imposição do voto de lista para o preenchimento de metade das cadeiras da Câmara, o PT elegeria 40% dos deputados. Atualmente tem 17%. Pode ser um cálculo exagerado, mas uma coisa é certa, o partido com mais condições para tirar proveito na mudança será o dos companheiros.

DIPLOMACIA
Definição malvada para a diplomacia da doutora Dilma na Líbia e na Síria:
"É o oportunismo desprovido de senso de oportunidade."

DNIT NA FIOCRUZ
A Fiocruz assinou um contrato com a empresa portuguesa Alert para criar um sistema de gestão eletrônica em dois de seus institutos, o Fernandes Figueira e o Evandro Chagas.
Compraram uma mercadoria importada, sem licitação, ao preço de R$ 365 milhões. (Mais ou menos o que já se jogou fora com o Cartão SUS.)
Chutando por cima, nos dois institutos informatizados haverá 300 mil prontuários. Nesse caso, cada pasta processada custará cerca de R$ 1.200, mais do que a maioria dos tratamentos.
A gloriosa Fiocruz está rodando algum software vindo do Dnit.

GALERIA DO ATRASO
São 13 os governadores que nada fizeram para retirar o ICMS cobrado aos usuários de serviços de banda larga popular. Onde se cobra o imposto a assinatura mensal custa R$ 35. Sem ele, sai por R$ 30.
A galeria dos vorazes é composta pelos seguintes doutores:
Antonio Anastasia (PSDB), de Minas Gerais; André Puccinelli (PMDB), de Mato Grosso do Sul; Silval Barbosa (PMDB), de Mato Grosso; Anchieta Junior (PSDB), de Roraima; Confúcio Moura (PMDB), de Rondônia; Jaques Wagner (PT), da Bahia; Omar Aziz (PMN), do Amazonas; Ricardo Coutinho (PSB), da Paraíba; Rosalba Ciarlini (DEM), do Rio Grande do Norte; Roseana Sarney (PMDB), do Maranhão; Teotônio Vilela (PSDB), de Alagoas; Wilson Martins (PSB), do Piauí; Siqueira Campos (PSDB), de Tocantins.

OITO MINUTOS DE HISTÓRIA E POESIA
Em março de 1842, na noite de estreia da ópera "Nabucco", de Giuseppe Verdi, a plateia do Scala de Milão transformou os aplausos ao "Coro dos Escravos" numa manifestação política pelo ressurgimento da Itália, parcialmente ocupada pelos austríacos. Nos meses seguintes as paredes das cidades apareciam pichadas com "Viva Verdi". Elas queriam dizer "Viva Vittorio Emanuele Re d'Italia". Do glorioso momento do Scala restaram memória e melodia.
Passados 150 anos, a cena repetiu-se, mas desta vez foi gravada e está na rede. Depois de reger o coro do terceiro ato na Ópera de Roma, o maestro Riccardo Muti respondeu aos aplausos com um breve discurso contra os cortes orçamentários de programas culturais, bisou a peça e pediu à plateia que o acompanhasse. Da torrinha, atiravam-se pedaços de papel. São oito minutos de poesia e história capazes de alegrar qualquer domingo, sobretudo sabendo-se que o primeiro-ministro Silvio Berlusconi estava no teatro.
O coro dos escravos hebreus é o lamento de um povo que chora pela "pátria minha, tão bela e perdida". Quando o bis de Muti terminou, enxugavam-se lágrimas no palco e na plateia.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Não é bem assim
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 28/08/11

Parecer que será apresentado nesta semana por Renan Calheiros (PMDB-AL) contestará entendimento até agora vigente segundo o qual o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais foi rejeitado durante confusa sessão da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, na quarta-feira passada.
Com base numa sequência de votações de resultado apertado e sentido conflitante, Renan sustentará que a matéria teria sido na verdade aprovada em caráter terminativo. Portanto, seguirá para apreciação da Câmara a menos que alguém apresente recurso para antes levar o tema ao plenário do Senado.


Alerta máximo Relator do projeto, Aloysio Nunes (PSDB-SP) adverte: "O PT e o PMDB têm todo o interesse em aprovar isso. Para barrar, será necessária a pressão da opinião pública".

Tenho dito Fala Renan: "A interpretação é a de que o teor do projeto original foi aprovado por 10 a 9 e, portanto, deve ser proclamado".

Quem diria Um observador da instabilidade do tempo na Esplanada comenta a situação da titular da Cultura, que meses atrás parecia com os dias contados: "Depois de tantas demissões, a Ana de Hollanda virou uma das ministras mais firmes do governo Dilma!".

Plus Para o Planalto, a escolha de Mendes Ribeiro para a Agricultura tem a vantagem de vitaminar uma nova liderança no PMDB gaúcho. Espera-se que o ministro dialogue com o PT e ajude a superar a histórica rivalidade entre as duas siglas no Estado. Compor chapa única para disputas majoritárias é antigo sonho de Lula.

Impedimento O Planalto avisa: se a CBF pretende dar um drible no governo ao convidar Henrique Meirelles para ser diretor-executivo do comitê da Copa, pode esquecer. Só o ministro Orlando Silva (Esporte) fala em nome de Dilma nesse tema.

Cinzas Embora tenha evitado sinalizar a Gabriel Chalita que trabalhará pela aliança PT-PMDB já no primeiro turno da eleição paulistana, Lula diz a aliados que aguardará a semana do Carnaval de 2012 para agir em prol da coalizão. Até lá, analisará o desempenho de seu candidato, Fernando Haddad, nas pesquisas.

Vertical Em privado, o ex-presidente afirma que a união de petistas e peemedebistas no maior colégio eleitoral do país seria simbólica para pavimentar a reedição da dobradinha em 2014.

Companheiro Sem acordo para atrair PDT, PMDB e PSB ao governo do recém-empossado Demétrio Vilagra, o núcleo sindical petista passa a defender a candidatura do presidente da CUT, Arthur Henrique, à Prefeitura de Campinas.

Lembrete Enquanto alguns trabalham pelo lançamento do líder tucano na Câmara, Duarte Nogueira, em Ribeirão Preto, os "demos" lembram que a prefeita Darcy Vera permaneceu no partido, em vez de acompanhar Gilberto Kassab rumo ao PSD, após obter de Geraldo Alckmin o compromisso de apoio à sua reeleição.

Lição verde O governo paulista vai expandir o modelo do programa "Criança Ecológica", hoje restrito à capital, para os seis milhões de alunos da rede estadual.

Picanha Na visita que fará ao canteiro de obras do Itaquerão neste sábado, Lula será recebido com um churrasco oferecido pela Odebrecht, com a qual negociou a construção da arena.


 com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"Uma coisa é corrupção, outra é carona em avião de amigo. Não acho que alguém vá se vender porque pegou uma carona".
DO LÍDER DO GOVERNO NA CÂMARA, CÂNDIDO VACCAREZZA (PT-SP), sobre os deslocamentos de políticos em aeronaves de empresários. Ao menos no caso do presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), não se tratou de simples carona

contraponto

Pré-Minas


Em recente audiência pública na Câmara com o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, Gilmar Machado (PT-MG) aproveitou para agradecer os investimentos da empresa em Minas, feitos a despeito do fato de o Estado não ter exploração de petróleo.
O deputado lembrou que a Universidade de Uberlândia realiza pesquisas sobre técnicas de exploração profunda, o que levou Simão Sessim (PP-RJ) a brincar:
-É, embora Minas não tenha acesso ao mar, os mineiros estão nadando de braçada na Petrobras...

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO - Tempo perdido

Tempo perdido
EDITORIAL 
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/08/11
Pesquisa sobre nível de alunos no ensino básico mostra desigualdade alarmante entre escolas públicas e particulares


Depois de três anos na escola, a maioria das crianças brasileiras não sabe calcular o troco, desconhece a diferença entre um triângulo e um retângulo, não identifica o tema de um texto simples e é incapaz de ler as horas.
Ler as horas, diga-se de passagem, não num relógio comum. Seria exigir demais. A incapacidade se verifica diante do mostrador de um relógio digital.
Tempo perdido, portanto: a frase, talvez excessivamente dramática, aplica-se ao que acontece nas salas de aula de grande parte das escolas do país, num período crucial para a aquisição de habilidades básicas na leitura, na escrita e na aritmética.
É o resultado a que chegou uma pesquisa em 250 escolas brasileiras, públicas e particulares, realizada pelo movimento Todos pela Educação. A chamada Prova ABC avaliou 6.000 alunos que concluíram o 3º ano (antiga 2ª série) do ensino fundamental, em todas as capitais do país. São crianças que em geral têm 8 anos de idade.
Mais do que as deficiências substantivas constatadas na pesquisa, é o abismo entre alunos de escolas públicas e particulares o que chama a atenção.
Nas escolas pagas, 3/4 das crianças atingiram os resultados esperados em matemática; a porcentagem reduziu-se a 43% entre os alunos da rede pública. Disparidades gritantes também se manifestaram nos testes de leitura (79% contra 49%) e de escrita (82% contra 53%).
Há também diferenças conforme as regiões do país. No Sudeste e no Sul, o índice de desempenho satisfatório dos alunos é superior (respectivamente, 63% e 64%) ao do Nordeste (43%) e ao da região Norte (44%).
Em todas as partes do país, entretanto, o hiato entre escola pública e privada constitui o dado mais impressionante da pesquisa.
Apenas um exemplo. Na região Sudeste, 81% dos alunos de escolas particulares foram bem em matemática. Na rede pública, a proporção cai para 37%.
Confirma-se, é claro, a constatação de que o Brasil tarda a enfrentar o desafio que se segue ao processo, bem-sucedido, de universalização do ensino básico. Garantido o acesso ao ensino fundamental, falta fazer com que se torne, de fato, ensino.
Não é apenas o aluno que marca passo, diante do absenteísmo e da má remuneração dos professores, da carência de material escolar e de orientação pedagógica adequada. É o país inteiro, que se gaba de avançar rumo ao grupo das potências econômicas mundiais, que arrasta, no plano da qualificação da mão de obra e da formação dos cidadãos, o peso de seu passado.

GOSTOSA


CLÓVIS ROSSI - Diplomacia de baixa voltagem

Diplomacia de baixa voltagem
CLÓVIS ROSSI 
FOLHA DE SP - 28/08/11
Dilma sepulta diplomacia presidencial, mas o Brasil continua a ser ator relevante no palco internacional


Depois dos oito trepidantes anos da diplomacia de Luiz Inácio Lula da Silva/Celso Amorim, a discrição de Dilma Rousseff/Antonio Patriota parece um silêncio ensurdecedor.
Afinal, Lula dava palpites, às vezes despropositados, sobre todos os assuntos da realidade internacional, do teor da democracia na Venezuela de Hugo Chávez ao caráter supostamente futebolístico dos protestos contra a reeleição do iraniano Ahmadinejad.
Dilma, passados oito meses de governo, não disse uma só palavra sobre temas internacionais, por mais que o Oriente Médio tenha começado a ferver exatamente nos primeiros dias de sua gestão.
A diferença é visível a olho nu, mas não se trata apenas de falar mais ou falar menos. O silêncio e a discrição passam a impressão de que o Brasil se afastou -ou foi afastado- da grande cena internacional, na qual até forçou a entrada no período anterior.
O Itamaraty admite a diferença: "Não é o estilo do atual ministro se mostrar frequentemente na mídia", diz Antonio Tovar Nunes, o porta-voz de Patriota.
Mas nega que o Brasil tenha ficado descolocado na cena global. Que negue, é natural. Seria ilógico que um alto funcionário, de qualquer departamento, aceitasse que o desempenho de sua área caiu de patamar.
Há, no entanto, pelo menos uma fonte relevante que dá razão a Tovar quando diz que o Brasil continua na foto internacional: "Nesses meus dois meses de Brasil, não passa um dia sem que eu converse com alguém do Itamaraty ou de outro Ministério", depõe Todd Chapman, encarregado de negócios dos Estados Unidos no Brasil, enquanto o titular, Thomas Shannon, exerce provisoriamente o posto de número 3 do Departamento de Estado. E, completa Chapman, a agenda com o Brasil é vasta e não exclui, por exemplo, Líbia e Síria, por mais que as posições de Brasília e de Washington tenham sido diferentes.
Chapman minimiza a divergência, ao dizer que Brasil e EUA concordam nos princípios essenciais que estão em jogo, a saber democracia e direitos humanos.
Não é apenas com os EUA que o discreto Brasil de Dilma/Patriota mantém o ritmo da elétrica gestão anterior: o chanceler fez 36 viagens internacionais nos seis primeiros meses do governo. Uma a cada cinco dias, o que demonstra que manteve o ritmo frenético que Amorim impôs. Mais, seria desnecessário: "Amorim levou o Brasil ao palco. Já o temos, portanto, e não é o caso de ampliá-lo", diz o porta-voz.
De todo modo, o novo estilo diplomático do Brasil é menos impulsivo. No caso, por exemplo, da Líbia, a pauta da semana, o Brasil prefere conversar e conversar, com seus parceiros no Conselho de Segurança, com os demais integrantes do BRICs (Rússia, Índia, China e África do Sul), com a Turquia e outros, antes de reconhecer o Conselho Nacional de Transição como legítimo representante líbio, mesmo depois de a Liga Árabe tê-lo feito.
No caso da Síria, o Itamaraty leva em conta até a posição da comunidade síria no Brasil que não demonstra nenhuma ansiedade por ver Bashar Assad defenestrado.
Tudo somado, tem-se uma diplomacia de baixa voltagem, mas não por isso fora do jogo global.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Jânio


Jânio
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 28/08/11

Confissão. Meu primeiro voto foi para o Jânio Quadros. Não espalhe. Parafraseando o samba antigo: se eu soubesse, naquele tempo, o que sei agora, eu não seria este ser que tenta se explicar e explicar as anomalias da política brasileira. Que me lembre, estava-se votando contra a corrupção do governo Kubitschek, que Jânio varreria. Mas Jânio não era só o anti-JK. Seu sucesso se devia em grande parte à sua personalidade diferente, justamente ao fato de ser uma anomalia. Como aconteceria anos depois com o Collor, um Jânio Quadros sem a caspa, a suspeita de que fosse meio louco era uma credencial. O Brasil  precisava de um presidente não-convencional para fazer o que os convencionais não faziam. Mas Jânio foi anômalo demais.
Não sei se votei na figura excêntrica ou na sua promessa de limpar a sujeira de Brasília. A sujeira, vista desta distância no tempo, não parece tanta assim, a ponto de justificar o Jânio. Não demorou para a História – ou a falta de memória – absolver JK, que hoje é homenageado como um presidente exemplar, e foi até citado como tal no discurso de posse do Fernando Henrique. Mas na época foi a corrupção do seu governo que levou muitos eleitores – inclusive estreantes como eu – a votar na vassoura. Mais intrigante do que o breve governo do Jânio e o entusiasmo da maioria do eleitorado de então pelas suas esquisitices, que já prefiguravam o que viria depois, foi essa absolvição do Juscelino pelo tempo, essa sua lenta transformação de corrupto em exemplo. Talvez enaltecer JK seja uma espécie de penitência por termos acreditado no Jânio, sua alternativa maluca. Eu não posso rasurar meu currículo de eleitor mas a nação pode corrigir suas opções do passado, esquecendo-as. Também não perdoamos o Collor?
Ou talvez se tenha chegado à conclusão que para Juscelino fazer o que fez, industrializando o país, construindo Brasília, etc., a promiscuidade do governo com empreiteiras e empreendedores era quase obrigatória e, em retrospecto, louvável. O governo só precisava se preocupar com eventuais críticas da UDN e de parte da imprensa, a Polícia Federal da época não se metias nessas coisas. Portanto do governo JK se podia dizer que não era corrupto, era despreocupado. Fomos injustos com ele. Pela minha parte, um pouco atrasado, peço desculpas.

LUIZ GUILHERME PIVA - Obama, Dilma, economia e política

Obama, Dilma, economia e política 
LUIZ GUILHERME PIVA
FOLHA DE SP - 28/08/11
Embora acertem no factual, as análises relativas a Obama e Dilma erram ao abrigar a ideia de que comando político e negociação são incompatíveis


Todas as análises atestam a derrota de Obama ao ceder às exigências dos republicanos para aumentar o limite da dívida. Mas poderia ser diferente? Não vale recuar e responder com "se, no início, ele tivesse feito isso ou aquilo".
Devem-se ter em conta a maioria republicana na Câmara, a iminência do calote e as condições políticas que faltavam a Obama, enfraquecido por seu insucesso ou inação na recuperação da economia -afinal, ele foi eleito para superar a crise do governo republicano.
Ou seja, a alternativa à derrota seria um confronto com impactos duros para o mundo todo, a começar pelo próprio governo Obama.
Mas vejo ainda um outro aspecto. As mesmas análises falam de irresponsabilidade e radicalismo dos republicanos. Com isso, dividem as perdas políticas: uma parte para Obama, outra para os republicanos. Daí emerge uma ponta de vitória do presidente, calculada ou não.
Seus opositores podem tê-lo desgastado, mas ingressaram no rol dos responsáveis pela decisão tão criticada. E terão consequências.
Haverá mudança na repartição de culpas que Obama carregava sozinho pela crise. Agora, os dois lados chegarão desgastados -dado o provável fracasso das medidas- à eleição de 2012, o que será uma boa melhora na atual posição de Obama. No caso, bem menos provável, de sucesso das medidas, os ganhos serão também repartidos, e o que se chama hoje de pusilanimidade de Obama poderá ser analisada como gesto de alguma inteligência -involuntária que seja.
No caso da presidente Dilma, as análises elogiam, em alguns casos, sua postura rígida e sua recusa às barganhas e pressões de alguns aliados. E criticam, em outros casos, sua suposta leniência diante de outras forças aliadas, às quais faria concessões em excesso.
Discordo. Há, nessa leitura, confusão entre rigidez e comando político e entre leniência e negociação.
Diferentemente de Obama, Dilma foi eleita em função da confiança do eleitorado na continuidade da economia. E ela tem atuado nesse sentido, fazendo uso de ações estatais na dinamização da atividade e nos programas sociais com bons resultados. Esse quadro lhe dá apoio social e força para dialogar com o mundo político e partidário.
Ao mesmo tempo, é do apoio social e dos atores políticos que ela obtém força para atuar na economia e seguir obtendo bons resultados. Observe-se, a propósito, que, desde a queda do ministro Palocci, a presidente assumiu diretamente a articulação política.
Embora acertem muito no factual, as análises relativas a Obama e Dilma erram ao abrigar a ideia de que comando político e negociação são incompatíveis. Daí a minha discordância. A meu ver, os casos de Obama e de Dilma mostram que comando político e negociação são, mais do que compatíveis, reciprocamente necessários.

QUERO NÃO, DEIXO NÃO, FAXINA NÃO


VALDO CRUZ - Humores presidenciais

Humores presidenciais
VALDO CRUZ
FOLHA DE SP - 28/08/11
BRASÍLIA - Dilma repete com insistência que o Brasil está mais forte do que em 2008 para enfrentar um agravamento da crise econômica. Tem boa dose de razão, só que poderíamos estar bem melhores.
Não estamos por conta e obra do mesmo governo que faz questão de alardear nossa fortaleza na economia, mas se furta a adotar medidas estáveis de controle dos gastos públicos no médio e longo prazos.
Por enquanto, Dilma repete seu antecessor e faz o famoso ajuste fiscal na boca do caixa. Com bons resultados, é justo reconhecer, basta ver os últimos dados do Tesouro indicando que mais de 80% da meta de superavit já foi atingida.
Só que esse tipo de controle fica dependente dos humores presidenciais. Amanhã, diante de uma pressão aqui, uma eleição ali, basta uma ligação presidencial para que as torneiras sejam abertas.
O cenário fiscal seria muito mais previsível e seguro caso o governo adotasse medidas que sua equipe, inclusive, chegou a prometer, mas estão esquecidas nas gavetas.
O Palácio do Planalto não quer nem ouvir falar de reforma da Previdência, desistiu de trabalhar pela aprovação do projeto que reduz os gastos com pessoal e arquivou a ideia de fazer as despesas públicas crescerem menos que o PIB.
Não só isso. A presidente vetou medida aprovada no Congresso que proibia as despesas de custeio do setor público de crescerem mais que os investimentos.
Se tais projetos tivessem sido aprovados, dariam ao mercado e ao Banco Central garantia de que o país teria regras fixas e duradouras na área fiscal -tornando mais real o sonho presidencial de reduzir a taxa de juros a níveis civilizados ao final de seu mandato.
Mas tudo indica que, por falta de convicção no modelo já classificado pela própria presidente de rudimentar, tudo deve ficar como está. A não ser que surpresas sejam anunciadas. O pragmatismo da cadeira presidencial costuma fazer milagres. A conferir.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Eu tive, na verdade, um desarranjo intestinal”
EX-MINISTRO DA DEFESA NELSON JOBIM EXPLICANDO SUA AUSÊNCIA NA POSSE DO SUBSTITUTO

PROJETO DE DILMA PRETENDE ‘FLEXIBILIZAR’ EMENDA 29 
A presidente Dilma agravou o “clima de beligerância” com o Congresso, ao vazar, por seus líderes, a ideia de propor um projeto flexibilizando a rigidez da Emenda 29, que obriga a União, Estados e municípios a destinarem, em seus orçamentos, percentuais mínimos de gastos com saúde pública. A ideia gerou a rebelião de parte dos deputados do PT, PMDB e PCdoB, que ameaçam votar a regulamentação da Emenda 29.

CONTA SOLTA 
Aprovada em 2000, a Emenda 29 obriga o governo federal a investir em Saúde 10% do Orçamento, Estados (12%) e municípios (15%).

DIAS CONTADOs 
O novo projeto promete inibir a maquiagem de Estados e municípios que põem na rubrica de saúde gatos com a previdência dos servidores.

TURMA DO CONTRA 
FHC, Lula e Dilma não regulamentaram a Emenda 29 “pela pressão dos governadores”, diz Humberto Costa (PT-PE), ex-ministro da Saúde. 

APOIO DISCRETO 
Como agora sabe onde aperta o calo, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) apoia discretamente a regulamentação da Emenda 29.

PROJETO DE INICIATIVA POPULAR PROPÕE REFORMA 
Diante da omissão do Congresso Nacional e do próprio governo, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral prepara um novo projeto de lei de iniciativa popular, a exemplo do Ficha Limpa, do qual foi um dos idealizadores. Trata-se de um projeto de reforma política, com prioridade para financiamento público de campanha e lista mista de candidatos. Como no Ficha Limpa, terá apoio da OAB, ONGs e Igreja. 

BLÁ, BLÁ, BLÁ 
Expoentes da sociedade que lutaram pelo Ficha Limpa perceberam que há muito debate e pouca vontade nas comissões do 
Congresso.

CAUSA PRÓPRIA 
Parlamentares criam dificuldades para a reforma política porque não pretendem alterar regras das quais se beneficiam, a cada eleição.

É A CRISE... 
A crise na base governista foi o principal argumento do PMDB de Minas Gerais para romper com o PT local. A aliança nunca foi boa mesmo.

GIGANTE ENTALADO 
O ex-ministro da Defesa Nelson Jobim foi vítima da própria promessa não cumprida de exigir mais espaço entre as poltronas: no voo da TAM Brasília-SP, às 9h35 de sexta (26), ele mal se mexeu no assento 11.

DESAFIO NO XADREZ 
O governador do DF, Agnelo Queiroz, e o ministro Fernando Haddad (Educação) toparam encarar um mico: estarão entre os adversários simultâneos do campeão de xadrez Garry Kasparov, nesta segunda, na sede do Sebrae, em Brasília. Prometem resistir alguns lances. Alguns.

BUMBUM DE FORA 
O embaixador da Líbia em Brasília, Salem Zubeidi, fez o que o Ministério das Relações Exteriores não teve coragem: reconheceu o novo governo que derrubou Muammar Gaddafi, o tirano que o nomeou.

CIÚMES DE CANDIDATO 
No aniversário da advogada Guiomar Mendes, sra. Gilmar Mendes, o ministro Luís Adams (AGU), típico gaúcho, reagiu com brevíssimo “oi” ao cumprimento da mineira ministra Maria Elizabeth Rocha (STM). Ou seja, ele ainda sonha 
com a vaga no STF para a qual ela é cotada.

COM NOSSO BONÉ 
O MST pediu sexta-feira ao ministro Paulo Bernardo (Comunicações), expansão da banda larga, 500 lan houses e rádios comunitárias nos assentamentos. Jatinho, por enquanto, os malucos ainda não pediram.

PURA DEMAGOGIA 
A presidenta Dilma achou de “mau gosto” o projeto da deputada Erika Kokay (PT-DF) que amplia a licença paternidade de cinco para trinta dias. O País já não tolera projetos demagógicos desse tipo.

MENSALÃO AFRICANO 
A Justiça da Costa do Marfim expediu mandados de prisão ao Brasil, EUA, Angola e África do Sul contra sete ex-ministros de Laurent Gbagbo, diz site local. Com o ex-presidente, pilharam os cofres. 

FÉ NA PRANCHETA 
A Igreja Católica fixou a meta para seus arcebispos, preocupada com a perda de fiéis: erguer o maior número possível de igrejas nos estados. O de Brasília, d. Sérgio da Rocha, já mapeia áreas no entorno do DF. 

PERGUNTA TURÍSTICA 
Pedro, afinal Vais ou no Vais? 

PODER SEM PUDOR
MORANDO NA FILOSOFIA 
Reza o folclore que ao assumir o poder, em 1964, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco encomendou ao romancista baiano Adonias Filho “uma filosofia para a revolução” de março de 1964, porque, para ele, “não há revolução sem filosofia”. O escritor encerrou a conversa com uma lição:
– O senhor está enganado. A revolução já tem filosofia há mais de dois mil anos. Ela se chama democracia.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Falta de cadastro permite até 27 identidades por habitante

Folha: Embaixada do Brasil nos EUA foi grampeada

Estadão: Rebeldes avançam para tomar cidade natal de Kadafi

Correio: Verba federal para empresa de fachada

Estado de Minas: A nova corrida do ouro

Jornal do Commercio: Carro invade banca de revista e mata idosa

Zero Hora: Gosto pelo confronto emperra o Rio Grande