sábado, agosto 20, 2011

KÁTIA ABREU - Agricultura tropical e saúde

Agricultura tropical e saúde
KÁTIA ABREU 
FOLHA DE SP - 20/08/11

A agricultura orgânica é uma coisa ótima, mas seus preços, no mercado real, são 160% mais altos


OS BRASILEIROS sabem que temos uma agricultura moderna e eficiente. O que muita gente não sabe é que o desenvolvimento dessa agricultura enfrentou e ainda enfrenta grandes desafios.
A agricultura moderna, que desmentiu as previsões pessimistas de que a produção de alimentos não poderia acompanhar o crescimento da população, nasceu e se desenvolveu nos países de clima temperado.
Até bem pouco tempo atrás, era crença generalizada que os países tropicais não seriam capazes, em razão do clima e do ambiente, de repetir a experiência dos países desenvolvidos. A experiência brasileira foi a primeira demonstração prática de que aquela crença era um mito, como tantos outros disseminados pela má ciência.
Fazer uma grande agricultura nos trópicos não foi uma realização trivial. As novas variedades de plantas e as novas práticas agrícolas, que constituíram a revolução agrícola no mundo, foram desenvolvidas nas condições de solo e de clima da região temperada e não podiam simplesmente ser transplantadas para a faixa tropical. O Brasil teve de aprender sozinho como conviver e tirar proveito das nossas condições ambientais. Mas, enfim, soube fazê-lo, com o esforço conjunto da Embrapa, das grandes universidades rurais e dos nossos modernos agricultores.
Os solos da região tropical são mais pobres do que os anteriormente cultivados no país, e o clima quente e úmido dessas áreas produz, infelizmente, uma maior quantidade e variedade de insetos e de pragas, que atacam as plantas. O trópico é uma fonte excepcional de vida -mas de todas as formas de vida. Nossa agricultura só prosperou devido ao uso de insumos modernos, como fertilizantes e defensivos. Sem os fertilizantes, os rendimentos agrícolas no cerrado seriam muito baixos, e a agricultura comercial seria inviável. E, diante das inumeráveis doenças que acometiam as plantações, deveríamos desistir ou usar os recursos da tecnologia para combatê-las.
Com essas tecnologias o Brasil produz muito, e produz alimentos saudáveis, exportados para todo o mundo. Nosso principal comprador, destino de 27% de nossas vendas externas, é a União Europeia, o mais regulado e exigente mercado mundial em termos sanitários. O mundo todo consome os alimentos produzidos no Brasil, e a nossa própria população tornou-se visivelmente mais forte e mais saudável quando pôde consumir mais o que produzimos. E pôde consumir porque a tecnologia e a escala de produção reduziram os preços. A agricultura puramente orgânica é uma coisa ótima, mas seus preços, no mercado real, são em média 160% mais altos. A esses custos, como ficaria a fome no mundo?
Para nós, a questão mais sagrada é atender os interesses dos consumidores brasileiros. E, dentre esses interesses, o mais vital é a sua saúde. Com esse objetivo, lutamos em várias frentes. O esforço principal é incentivar a pesquisa agronômica para que se obtenham variedades de plantas resistentes às pragas e às doenças, sem a necessidade de aplicação de defensivos. Para isso, é indispensável ampliarmos a adoção de variedades transgênicas resistentes, que são uma resposta efetiva da ciência à necessidade de reduzir o uso de agroquímicos. Infelizmente, o licenciamento dessas novas variedades tem encontrado, às vezes, inexplicável oposição.
De outra parte, lutamos para que produtos mais modernos e mais amigos do ambiente sejam licenciados com mais presteza, para que possam substituir produtos mais tóxicos.
O esforço da pesquisa em todo o mundo está concentrado hoje na descoberta de princípios ativos com o mínimo de efeitos colaterais. E desejamos que se reforce a fiscalização, para que a aplicação de produtos químicos seja limitada e obedeça estritamente a nossa legislação, que é moderna, rigorosa e de padrão mundial.
Nesse assunto como em tantos outros, a ciência e a tecnologia são instrumentos mais eficientes do que a política. É perfeitamente possível e desejável conciliar grande produção e produção saudável, e assim alimentar os bilhões de seres humanos que habitam o planeta.

ANCELMO GÓIS - Morro é mais seguro

Morro é mais seguro
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 20/08/11

Ontem, houve uma espécie de arrastão na Praia do Leme, no Rio.
Acredite. Teve gente que correu para se proteger no Morro do Chapéu Mangueira, libertado pela UPP.

JÁ...
As relações entre os policiais do Bope que ocupam a Mangueira e a população local não são boas.

TE CUIDA, ANA
Os museus federais podem amanhecer fechados segunda-feira. Entre eles, o Imperial, o de Belas Artes e até mesmo a Biblioteca Nacional.
É que os funcionários do Ministério da Cultura prometem entrar em greve por salários.

ORELHA QUENTE...
Aliás, a orelha da ministra Ana de Hollanda deve ter ardido esta semana, por ocasião da reunião da Frente Parlamentar pela Cultura, em Brasília.
Teve gente do setor que saiu do recinto por não concordar com as críticas à ministra da Cultura.

TEM CULPA EU?
Do telepastor Silas Malafaia, aquele acusado de homofobia, em entrevista à revista Época que chega hoje às bancas:
– Violência contra gay é conversa para boi dormir. Por trás das editorias dos jornais, da televisão, há uma bicharada desgramada que dá toda essa ênfase para eles.
No mais...
Calma, santa.

GULLAR, DOIS TEMPOS
Ferreira Gullar, o grande poeta, entregou à Editora José Olympio os originais de dois livros inéditos.
Um monólogo teatral e um para crianças, chamado A menina Cláudia e o rinoceronte, com colagens do escritor.

A CONTA
Corre na 14ª Vara Cível do Rio, contra a Airbus, uma ação conjunta de 76 pessoas, uma das maiores já movidas no Brasil.
Os autores são parentes de vítimas do acidente com o A320 da TAM, em 2007. Pedem indenização de R$ 500 milhões.

ALIÁS...
O Itaú Seguros também processa a Airbus, só que na 36 Vara Cível de São Paulo.
Pede R$ 350 milhões, que podem chegar a R$ 600 milhões, corrigidos. A seguradora do banco tem como cliente a TAM, que indenizou os parentes. O objetivo da ação é ressarcir o Itaú.

DE VOLTA
Bibi Ferreira, 89 anos, volta aos palcos hoje, em Florianópolis, com o espetáculo de seus 70 anos de carreira.
Semana passada, havia ficado sem voz e cancelado shows.

VIVA BEATRIZ LYRA!
Beatriz Lyra, 78 anos, a atriz veterana sempre presente nas novelas de Manoel Carlos (Laços de família, Mulheres apaixonadas...), implantou um marcapasso no Hospital TotalCor, em Ipanema. á teve alta e passa bem.

HÁ ESPERANÇA
Outro dia, uma dentista esqueceu num ônibus da linha 2016 (Centro-Barra), no Rio, um livro sobre odontologia. Ficou passada, porque, além de emprestado, está esgotado.
Dias depois, seu filho pegou o mesmo ônibus e pediu para a trocadora perguntar na garagem se haviam achado.
Deixou telefone, e a dentista foi chamada para resgatar o tesouro perdido. O fiscal nem aceitou recompensa.

RUTH DE AQUINO - Seremos algum dia japoneses?


Seremos algum dia japoneses?
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA

Época
RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA
raquino@edglobo.com.br
O dinheiro e as barras de ouro estavam em cofres e carteiras de vítimas do tsunami no Japão. Em casas e empresas destruídas. Nas ruas, entre escombros e lixo. Ao todo, o equivalente a R$ 125 milhões. Dinheiro achado não tem dono. Certo? Para centenas ou milhares de japoneses que entregaram o que encontraram à polícia, a máxima de sua vida é outra: não fico com o que não é meu. E em quem eles confiaram? Na polícia, que localizou as pessoas em abrigos ou na casa de parentes e já conseguiu devolver 96% do dinheiro.
A reportagem foi do correspondente da TV Globo na Ásia, Roberto Kovalick. A história encantou. “Você viu o que os japoneses fizeram?” Natural a surpresa. Num país como o Brasil, onde a verba destinada às inundações na serra do Rio de Janeiro vai para o bolso de prefeitos, secretários e empresários, em vez de ajudar as vítimas que perderam tudo, esse exemplo de cidadania parece um conto de fadas. O que aconteceu em Teresópolis e Nova Friburgo não foi um mero e imoral desvio de dinheiro público. Foi covardia.
Político japonês não é santo. Mas digamos que, em alguns países, os valores da população são menos complacentes do que em nosso cordial patropi. E a impunidade não é regra. Em que instante a nossa malandragem deixa de ser folclórica e cultural e passa a ser crime de desonestidade? Por que a lei de tirar vantagem em tudo está incrustada na mente de tantos brasileiros? A tal ponto que os honestos passam a ser otários porque o mundo seria dos espertos?
A presidente Dilma Rousseff não parece fazer parte do time dos espertos. É o que tem atraído para ela um tsunami de simpatia popular. Você deve ter reparado. Ao discursar, Dilma não faz piada, não diz palavrão, nem comete analogias com o futebol. Ao contrário. Ela é a antítese do palanqueiro populista. Tem dificuldade em falar a linguagem do povão até quando coloca o chapéu das Margaridas, as trabalhadoras rurais. Promete “implantar, implementar, disponibilizar”.
Eles devolveram às vítimas do tsunami R$ 125 milhões. Precisamos – nós e a polícia – aprender a agir assim
Seu desconforto com o palco é evidente. Dilma lê. Não é bom para ela, porque os olhos baixam. A leitura torna o discurso mais frio e hesitante, porque há vírgulas. Ela tropeça nos travessões. Seu pensamento não flui. É pedir demais que ela se torne um dia uma oradora que arrebate multidões. Mas a ausência de carisma parece não importar ao brasileiro. O eleitor não aguenta mais a cambada que suga recursos de nossa Saúde, nossa Educação. Dilma parece um peixe fora do aquário de piranhas políticas. E por isso conquista.
“Quero reafirmar a importância concreta e simbólica do pacto que firmamos hoje. É o Brasil fazendo a faxina que tem que fazer, a faxina contra a miséria”, disse Dilma na sede do governo de São Paulo. Foi um discurso para calar quem tenta isolar a presidente. Ela quis mostrar que está acima das disputas palacianas e não está sozinha coisa nenhuma. O “pacto republicano” de Dilma é suprapartidário. As fotos do “flerte” com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso devem ter causado urticária ao PT. Onde está mesmo a “herança maldita”?
Leitores me pediram para encampar a campanha anticorrupção do gaúcho Pedro Simon. Esta coluna não precisa encampar nada. Simon disse: “A sociedade tem que liderar o movimento”. É patético o coro de “volta, Lula”, ensaiado pelos que comiam churrasco no Palácio da Alvorada e hoje se veem privados da picanha presidencial.
As redes sociais começam a se mobilizar. Cariocas marcaram para 20 de setembro um grande ato contra a corrupção, na Cinelândia, centro do Rio, onde 200 mil pediram em 1984 as Diretas Já. “Queremos evitar batuque, por isso não escolhemos a orla”, dizem os organizadores. Há a sensação de que o movimento precisa estar nas ruas para ganhar legitimidade.
Políticos incomodados tentam nos impingir o medo. Uma frente anticorrupção jogaria o país na anarquia ou na ditadura. Isso é conversa para brasileiro dormir. Um dia, todos precisaremos aprender que não se coloca no bolso, na bolsa, nas meias e nas cuecas um dinheiro que não nos pertence. É roubo.




ILIMAR FRANCO - Marta desiste


Marta desiste
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 20/08/11
 
A senadora Marta Suplicy (PT-SP) se rendeu à vontade do ex-presidente Lula. Nesta semana, ela confidenciou, a senadores e amigos, que vai retirar sua pré-candidatura à prefeitura de São Paulo para deixar o caminho livre para o ministro Fernando Haddad (Educação). Hoje está previsto um encontro entre Marta e Lula. Ela ainda não sabe quando anunciará publicamente a decisão.

A rebelião dos novos deputados

O diagnóstico do Palácio do Planalto, para as divisões nas bancadas do PP, do PMDB e do PT, é o de que os líderes partidários não sabem como lidar com os deputados novos. Eles representam 50% da Casa, mas não têm emendas ao Orçamento, não são designados para relatar projetos ou Medidas Provisórias e nem são consultados. Para os articuladores políticos do governo, essa realidade fez com que o PP mudasse seu líder para um deputado de primeiro mandato, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). São também os deputados novos do PMDB que querem vetar que Eduardo Cunha (RJ) seja o relator do novo Código de Processo Civil.

"Se fizermos isso, vamos frustrar aqueles que acreditaram que teríamos no país o contraditório” — Álvaro Dias, senador (PSDB-PR), discordando de FH, que propôs que a oposição desista da CPI da Corrupção

ELE NÃO PERDE A PIADA. Diante do efusivo encontro do expresidente Fernando Henrique Cardoso e da presidente Dilma Rousseff, o governador Sérgio Cabral comentou, jocoso: “Hum... Acho que o Lula vai ficar com ciúme vendo você (Fernando Henrique) juntinho com a Dilma. Ele não vai gostar”. Imediatamente, FH sai em defesa da presidente: “Ela (Dilma) pode dizer que fui eu que forcei a barra”. Risos.

Convertidos
Ainda sobre a votação da MP que reestrutura os Correios, o deputado Chico Alencar ( PSOL - RJ ) diz : "DEM e PSDB mudaram de discurso, mas PT, PCdoB e PSB também, defendendo projeto ’coerente com a visão de Estado de FHC’".

Ufa!
Os aliados sofrem nas mãos dos petistas. Francisco Carneiro foi nomeado ontem superintendente do Incra em Santarém (PA). Ele
ficou seis meses de molho. O deputado José Priante (PMDB-PA) fez a indicação para o cargo em fevereiro.

Cabral quer ganhar tempo para negociar

O governador Sérgio Cabral está pressionando o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), para retirar sua assinatura do requerimento de urgência para a votação do projeto que distribui os royalties do petróleo para todos os estados. Renan ficou de avaliar,
argumentando que, como há três Medidas Provisórias trancando a pauta, ainda há tempo para construir um acordo com os estados não produtores.

Uns mais iguais

Em solenidade recente no Ceará, o cerimonial do Planalto pôs o senador José Pimentel (PT) na primeira fila. Ele apareceu na TV. Na
segunda fila, os senadores Eunício Oliveira (PMDB) e Inácio Arruda (PCdoB) ficaram fora da telinha.

Outro lado
O deputado Washington Reis (PMDB-RJ) diz que o vídeo que estava vendo, durante o depoimento do ministro Paulo Passos (Transportes), era de evento beneficente. E que o vídeo era do deputado Francisco Escórcio (PMDB-MA).

 OS AMIGOS do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resumem numa palavra a relação de FH com a presidente Dilma Rousseff: “Inquebrantável”.
 SIMPATIA. Nesta semana, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) saudou o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) como “prefeito”. Chinaglia desistiu de sua pré-candidatura à prefeitura de São Paulo.
● O DEPUTADO Brizola Neto (PDT-RJ) fala sobre as eleições do Rio: “Vamos apoiar a reeleição do prefeito Eduardo Paes (PMDB). Com o PT ao seu lado, não há espaço para outras candidaturas”.

GOSTOSA


JOSÉ SIMÃO - Oba! Um Brasil sem normas!

Oba! Um Brasil sem normas!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 20/08/11

E tamo livre do Casal Pastel: Pedro e Marina. O casal que dá chulé em pé de mesa. Dá tédio em natureza morta!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a faixa numa loja na Vila Leopoldina: "Assim como os ministros, nossos preços também caíram". UFA! Insensato Novelão! ACAAABÔ! A novela terminou como o Brasil: sem Norma nenhuma. Oba! Continuamos sem normas!
E sabe o que o cara da banca me disse ontem? "Quem matou a Norma eu não sei, mas a daqui do prédio eu tô louco pra matar." Rarará!
E eu já disse que quem matou a Norma gramatical foi o Lula. Então ele é um serial killer! Rarará! E o site QMerda revela que o vilão Leo vai se filiar ao PMDB e descobrir que é filho do Michel Temer, a Natalie vai engravidar do Neymar e a Marina vai pra Disney e se apaixona pelo Pateta. Rarará!
E mataram tanta gente nessa novela que devia se chamar "Insensato Chacinão". Não foi uma novela, foi uma chacina. Mataram mais gente que o Gaddafi na Líbia! Esgotaram o estoque de ketchup! Insensato Ketchup!
Fizeram uma festa pra despedida do elenco e os mortos voltaram. E tamo livre daquele Casal Pastel: Pedro e Marina. O casal que dá chulé em pé de mesa. Dá tédio em natureza morta! E um amigo meu disse: "Eu pegava a Marina". E eu pegava o saco do Pedro e apertava até ele esboçar alguma reação. Cigano Igor 2!
Ele estudou na Escola Cigano Igor de Interpretação!
E a Natalie Perigueti vira ministra da Dilma. É isso que tá faltando no Periquitério da Dilma: uma perigueti. E o Cortez vai virar ministro do Turismo! Rarará!
E adorei mesmo a Bibi! A ninfo maluca! Slogan da ninfo Bibi: "Feliz sempre, satisfeita nunca!". Rarará! E sabe por que eu adorei essa ninfo Bibi? Porque ela é ninfo sem culpa! E esta da Globo News: "Hosni Mubarak é o primeiro presidente do Egito a sentar no banco dos réus". E na foto ele tá deitado numa maca!
E adorei a charge do Pater com a Dilma e a secretária: "Qual a agenda de hoje?". "Primeiro teremos reunião com o PR, que estará devolvendo os cargos no governo, e depois teremos reunião com o PMDB querendo os cargos do PR". Rarará!
E o chargista Frank está lançando o xampu antiqueda de ministro! Rarará! E depois desse Insensato Novelão vou ter que fazer um rehab na UTI DO PASTEL. É assim que estou me sentindo: um pastel. Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

SILVIANO SANTIAGO - Raízes do Brasil cosmopolita


Raízes do Brasil cosmopolita
SILVIANO SANTIAGO
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

A publicação do opúsculo Ideia de Uma História Universal do Ponto de Vista Cosmopolita (Martins Fontes, 2011), de Immanuel Kant, realça uma bela página do pensamento brasileiro. Refiro-me ao terceiro capítulo de Minha Formação (1900), de Joaquim Nabuco, intitulado Atração do Mundo. As nove proposições avançadas pelo filósofo germânico liberam o "fio condutor" de que se vale Nabuco para refletir sobre o modo como o brasileiro, caso perca a menoridade política, pode transformar-se em sujeito da história nacional, embora ainda fique sujeito à formação ministrada pela Europa moderna e à dependência da cultura ocidental. A ambivalência dos significados de "sujeito" (autonomia /subordinação) indica que Nabuco se aproxima de Machado de Assis e teria em polo oposto o nacionalista José de Alencar e o antropófago Oswald de Andrade.

O caudal cosmopolita eurocêntrico também deságua na escrita rememorativa da vida nômade levada por Nabuco, dividida entre os dois lados do Atlântico oitocentista. Observa ele: "De um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país". Na autobiografia, Nabuco se rende ao movimento e processo de universalização da história ocidental e, cidadão letrado, se entristece com a função que o Brasil teve como colônia e se entusiasma pelo papel que o país livre pode vir a ocupar. O movimento da escrita de Nabuco retoma a Primeira Proposição kantiana: "Todas as disposições naturais de uma criatura estão destinadas a um dia se desenvolver completamente e conforme um fim". Confessa Nabuco: "Sou antes um espectador do meu século do que do meu país; a peça é para mim a civilização, e se está representando em todos os teatros da humanidade, ligados hoje pelo telégrafo". Se se atualizar a telegrafia pela televisão e a internet, teremos o brasileiro letrado de hoje.

Por a ideia de uma história universal modelar a vida de Nabuco (e não o personagem fictício de Machado de Assis), o estudante de Kant, antes de dar continuidade à leitura comparativa dos dois autores, consultaria o ensaio de Michel Foucault intitulado Qu"Est-ce Que les Lumières?. Neste, o francês analisa dois textos sucessivos sobre o Iluminismo, assinados pelo mesmo Kant. Datado de 1784, o primeiro evita definir o que seja o Iluminismo para discorrer sobre o modo como o movimento configura o século 18 pela questão do seu presente. Pergunta Kant: O que se passa agora? E o que é esse "agora" que define o momento no interior do qual nós e os contemporâneos somos e em que eu escrevo? O texto seguinte de Kant vem datado de 1798. O filósofo indaga sobre a causa possível para o constante progresso do gênero humano. Ela não está na trama teleológica da História, mas em acontecimento singular (a Revolução Francesa), a ser lido como "signo" da causa que assegura o progresso como tendência geral do ser humano. Como signo, a revolução rememora, demonstra e prognostica o progresso permanente do homem.

Atualidade e finalismo se suplementam na ideia de uma história universal cosmopolita.

Na leitura do primeiro texto mencionado, Foucault salienta que, ao se autodenominar Iluminismo e ganhar consciência de si, o movimento procura ser um processo cultural singular. Situa-se em relação a seu passado e a seu futuro e designa as operações políticas que deve levar a efeito internamente. O uso privado da razão se soma ao exercício dela no plano público e torna o filósofo elemento e ator de um processo crítico. Não pertence a essa doutrina ou àquela tradição nem a uma comunidade humana. Pertence a um "nós" que, no caso de Nabuco, ultrapassa o estágio da menoridade política decorrente da independência da nação. A escrita subjetiva ilumina a atualidade, que se torna para o filósofo - e para o memorialista brasileiro- objeto de análise.

No texto de 1798, Kant desqualifica o modo como o pensamento tradicional enxerga a revolução para afirmar que ela não está na queda dos impérios, ou nas grandes catástrofes que levam os Estados bem estabelecidos a desaparecerem. Está em acontecimentos menos grandiosos e menos perceptíveis. Afirma Kant: "Não esperem que esse evento consista em gestos nobres ou em crimes importantes cometidos pelo homem, motivo para que o que era grande se torne pequeno e o que era pequeno se torne grande..."

Significativo na revolução - infere Foucault das palavras de Kant e o leitor das memórias de Nabuco - "é o modo pelo qual ela se faz espetáculo e passa ser acolhida pelos espectadores a seu redor. Estes dela não participam, mas a veem, assistem a ela e, para o bem ou para o mal, se deixam arrastar". O fundamento da revolução está no transbordamento duma disposição moral da humanidade. Faz irromper no mundo, diz Kant, "uma simpatia de aspiração que beira o entusiasmo". E continua: "a partir das aparências e dos signos precursores de nossa época, sem espírito profético, , posso predizer ao gênero humano que ele chegará a um estado tal que os homens possam se dar a Constituição que eles querem e a Constituição que impedirá a guerra ofensiva".

Voltemos agora os olhos para as páginas finais do opúsculo de Kant, ora em português. Lá lemos: "o louvável cuidado do pensador com os detalhes que escrevem a história de seu tempo deve levar cada um naturalmente à seguinte inquietação: como nossos longínquos descendentes irão arcar, depois de alguns séculos, com o fardo da história que nós lhes deixaremos". Em Nabuco, o uso da razão no plano privado ganha a tribuna para ser força crítica contra o escravismo e requer as memórias para se escrever como reflexão crítica sobre país periférico propenso ao bem-estar da elite no atraso. Afiança Nabuco que, em sua vida, viveu "muito da Política, com P grande, isto é, da política que é história".

ZUENIR VENTURA - Obras do descaso


Obras do descaso
Zuenir Ventura
O GLOBO - 20/08/11

Entre a execução da juíza Patrícia Acioli e o acidente que matou dois adolescentes e feriu outros seis no parque Glória Center, há um paralelo: essas tragédias talvez pudessem ter sido evitadas. Não se trata de "fatalidade", como disse um dos donos do parque, assim como atribuir a culpa à juíza por sua própria morte é no mínimo injusto. Não foram obras do acaso, e sim do descaso. Tanto num episódio quanto no outro não faltou sorte, faltou foi previdência dos que tinham por obrigação zelar pela segurança das vítimas. O histórico do parque, com os equipamentos corroídos, um engenheiro displicente e uma fiscalização leniente demonstram que se não houve muitos acidentes iguais a esse antes foi por milagre.

O crime contra a juíza foi ainda mais grave, porque a morte não era apenas previsível; foi anunciada. "Até as paredes do fórum de São Gonçalo sabiam", escreveu o desembargador Siro Darlan no seu blog, indignado com o suposto desinteresse do Tribunal de Justiça, cujo presidente teria alegado que ela não requisitara proteção por ofício.

"Fica, assim, solucionado o crime", ironizou Darlan. "Patrícia era uma incompetente, uma servidora pública incapaz de fazer um ofício! Não é isso que o senhor quer dizer, Presidente?" A alegação é posta em dúvida também pelo fato de que em 2007 a juíza endereçou ofício ao TJ reclamando da redução de sua escolta. Cópias desse e de outros documentos foram entregues esta semana ao presidente do Tribunal pelo advogado Técio Lins e Silva.

Outro desembargador, Rogério de Oliveira Souza, foi testemunha de que há um ano e meio Patrícia Acioli esteve no gabinete do então presidente do TJ, Luiz Zveiter, para solicitar proteção. Mais: dois dias antes do assassinato, um policial civil da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) esteve na Polícia Federal para denunciar um plano de execução da juíza. Nessa mesma direção, o Disque-Denúncia recebeu em 2009 duas delações, logo repassadas para a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco).

Por outro lado, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma implacável e corajosa ação contra milicianos e a banda podre da polícia, a juíza teve como segurança, segundo um documento publicado ontem, um oficial da PM em quem confiava como "amigo" e que, no entanto, foi apontado à CPI da Assembleia como membro das milícias de São Gonçalo.

Espera-se que as investigações esclareçam essa zona de sombra, feita de versões e rumores que desviam o foco para outras direções, inclusive a passional. São hipóteses mais que discutíveis. O que não se discute é a certeza de que a juíza Patrícia Acioli estava marcada para morrer, e morreu. O alvo dos 21 tiros que a atingiram era também a própria Justiça, que tinha por obrigação defendê-la.

MÔNICA BERGAMO - BOLO DE CHOCOLATE


BOLO DE CHOCOLATE
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 20/08/11

Guiomar Mendes, mulher do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, reuniu amigos e familiares, anteontem, em Brasília, para celebrar seu aniversário; parlamentares, advogados, ministros e ex-ministros e quase todos os colegas dele na Corte foram à festa.

CORAÇÃO DE ATLETA
A cardiologista Luciene Azevedo, do Incor, estudou como a modalidade esportiva altera o coração de atletas profissionais. Durante cinco anos, ela acompanhou 13 ciclistas, 13 corredores e 11 remadores de elite, entre 20 e 36 anos, saudáveis. Os ciclistas fazem mais força com o coração, que fica maior que o de corredores e remadores. Quem corre tem maior queda da frequência cardíaca durante o repouso do que quem pedala.

LEI
"Nem entre esses atletas, que fazem esforço máximo, foram observadas complicações cardíacas decorrentes das atividades", diz ela. Na Itália, esportistas são obrigados por lei a fazer avaliação cardíaca para poder competir. No Brasil, há projetos de lei nesse sentido. O estudo, orientado por Luciana de Matos, permite identificar se há crescimento excessivo do coração e sintomas de doenças, auxiliando na avaliação cardíaca.

LÁGRIMAS
Thais Gulin, 31, namorada de Chico Buarque, 67, chorou após cantar a música "Se Eu Soubesse", anteontem, no Tom Jazz, em São Paulo. Ela deu as costas para o público e enxugou as lágrimas. A canção, disse, "o Chico fez pra mim". Foi aplaudida.

DE OLHO NO VIZINHO
Uma comitiva da Secretaria de Turismo do Distrito Federal desembarcou nesta semana em São Paulo para reuniões com a SPTuris. Eles queriam informações sobre o modelo de gestão do órgão na área de convenções e eventos para adaptar ao DF. Caio Carvalho, presidente da SPTuris, disponibilizou uma equipe de técnicos para acompanhar a delegação.

VIVA A FOTOGRAFIA
Depois da "Serrote", voltada a ensaios, o Instituto Moreira Salles lançará uma revista de fotografia.

TURMA DE 31
Fernando Henrique Cardoso papeava no lançamento do livro "Cultura das Transgressões", no MAM, anteontem: "Tenho vários amigos com 80 anos". O ex-ministro Marcílio Moreira disse: "Também sou da turma de 31". Alguém emendou: "É um bom jeito de dizer a idade".

BOCA PEQUENA
FHC comentava o governo Dilma Rousseff. Questionado se a punição é maior agora do que em seu governo, respondeu: "Não estou falando de governo. Pelo menos a opinião pública, ou opinião publicada, está mais aberta a essa questão. Há uma preocupação crescente porque a corrupção está virando sistêmica. É transversal, atravessa todas as camadas da sociedade, dos partidos".

PANO DE FUNDO
E o ex-presidente avalia como "luta política" a crise econômica internacional. "No fundo, [a questão] é saber quem paga pelos prejuízos. Você vai aumentar os impostos ou vai deixar voltar a inflação? [É saber] quem vai impor os custos pro outro. Leva tempo."

MODA AFRO
O estilista Oskar Metsavaht, da Osklen, criará uma camiseta para promover o Museu Afro Brasil.

AUTÓGRAFOS NO MAM
O livro "Cultura das Transgressões no Brasil - Cenários do Amanhã" teve lançamento, anteontem, no MAM. A obra reúne artigos de intelectuais como Paul Singer e Renato Janine Ribeiro. André Franco Montoro Filho, Guilherme Affonso Ferreira e Denise Steagall garantiram seus exemplares.

CURTO-CIRCUITO

José Gregori foi eleito para a Academia Paulista de Letras. O ex-ministro ocupará a cadeira de número 19, que pertenceu a José Altino Machado.

As bandas Restart e CW7 fazem amanhã, às 20h, o "Happy Rock Sunday", no HSBC Brasil. 14 anos.

O projeto Tessituras, que reunirá duplas de cantores populares e eruditos, começa hoje, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, com Agnaldo Rayol e Sebastião Teixeira. Classificação etária: livre.

Começa hoje e vai até sexta-feira a 1ª São Paulo Boteco Week, dedicada à culinária de botequim.

O grupo Pequeno Cidadão se apresenta hoje, às 20h30, no parque Ibirapuera, dentro do Festival Sesi Bonecos do Mundo. Livre.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

LÚCIA GUIMARÃES - Nos EUA, e-books dominam a preferência


Nos EUA, e-books dominam a preferência
LÚCIA GUIMARÃES
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Com os eletrônicos, as editoras norte-americanas registraram um crescimento de 3,1% nas vendas entre 2008 

As vendas de livros de papel continuam a cair nos Estados Unidos, mas, na semana passada, o mercado editorial encontrou motivo para comemorar. Graças aos livros eletrônicos, as editoras americanas registraram um crescimento de 3.1% nas vendas entre 2008 e 2010. Os números foram compilados pelo projeto BookStats, que monitorou as vendas de 1.965 editoras. O segmento que mais cresce no mercado americano é o de livros universitários e o único que registrou declínio foi o de obras educativas, que cobrem o período que vai do jardim de infância ao final do ensino médio.

As vendas de e-books de ficção para adultos dispararam 1.000% nos EUA desde 2008. Este avanço, que deu ao e-book 13.6% do mercado de ficção, explica a queda contínua das vendas de ficção em papel. Os livros de ficção em capa dura foram os que perderam mais terreno: em 2009, os americanos compraram 8.5 milhões de cópias; em 2010, o número caiu para 7 milhões e, até julho deste ano, o serviço Nielsen BookScan registrou uma queda de 10% nas vendas em relação a 2010.

O jornal Financial Times batizou esta temporada de "verão do Kindle". O tablet da Amazon continua líder do mercado. A empresa acaba de lançar o Kindle Cloud Reader, um aplicativo para a web que permite acesso ao catálogo da Amazon com ou sem o Kindle. Mais uma dor de cabeça para a Apple, cujo popular iPad não vai poder cobrar pedágio do novo aplicativo. As vendas de e-readers têm triplicado a cada ano. Os leitores já têm até seus prediletos. Pela primeira vez, em julho, a revista Consumer Reports, respeitada pela independência em relação às corporações, apontou o Nook Simple Touch, da rede de livrarias Barnes & Noble, como favorito do público leitor.

O avanço da leitura eletrônica provoca também uma reinvenção do livro como produto. Assim como os DVD"s incorporaram cenas inéditas de filmes, versões mais autorais dos diretores e entrevistas com atores e roteiristas, os livros eletrônicos vão sendo lançados com atrativos além do conteúdo original escrito pelo autor. Nem toda obra merece o tratamento, é claro. Mas clássicos ou títulos de autores-celebridades já começam a chegar ao público com "extras".

A nova edição de A Terra Desolada (The Waste Land), de T.S. Eliot, lançada pela Faber Digital inglesa, por exemplo, pode ser baixada no iPad com áudio do próprio poeta e mais versos declamados pela estimada atriz irlandesa Fiona Shaw e pelo megafamoso ator americano Viggo Mortensen, além de cópias do original, datado de 1922.

Na última terça-feira, a editora independente Melville House, baseada no Brooklyn, em Nova York, lançou sua série HybridBook, que pretende deter a canibalização da palavra impressa, oferecendo incentivos digitais. Ela começa com romances que têm em comum o título O Duelo, dos autores Giacomo Casanova, Anton Chekhov, Joseph Conrad, Heinrich Von Kleist e Alexander Kuprin. Quem comprar o livro impresso vai encontrar, na última página, um link para os extras digitais presentes na edição eletrônica para o Kindle.

A tecnologia da leitura eletrônica está em evolução e ainda predominam os dois formatos representados pelo Kindle - e-Ink, a tinta eletrônica - e a tela de cristal líquido do iPad. No prestigiado laboratório de ergonomia da Universidade de Cornell, o professor Alan Hedge parece a autoridade ideal para opinar sobre o efeito da leitura na tela. Afinal, no começo deste século, ele fazia parte da equipe que desenvolvia o multitoque para uma pequena companhia que foi engolida pela Apple e, como se diz, o resto é história. "Qual é a escolha ideal para quem quer proteger a vista?", pergunto. A resposta vem fulminante: "O papel!". As árvores que o perdoem, mas o pesquisador diz que ainda não foi inventada a tela capaz de competir com o papel em matéria de conforto para a leitura. É o suficiente para o velho livro?

BRAZIU: O PUTEIRO


CELSO MING - Solução distante


Solução distante
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

O mercado financeiro não viu razões para apostar no sucesso da proposta de criação de um "governo econômico" para a área do euro. Essa foi a principal conclusão a que chegaram os dois mais importantes chefes de Estado do euro, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, no seu encontro de cúpula de terça-feira passada.

À primeira vista, um mínimo de unidade política é o que mais se espera como precondição do fortalecimento do euro e, por consequência, de superação das graves crises que atacam o bloco. E, afinal, foi por esse caminho que a dupla enveredou.

No entanto, o mercado não viu firmeza na proposta, por um punhado de razões. A primeira delas: não ficou claro o que seria esse governo econômico do bloco. As declarações da dupla Merkel e Sarkozy sugerem que o Conselho Europeu, constituído pelos ministros de Finanças dos 17 membros do bloco do euro, representantes dos outros dez países que também compõem a União Europeia e, ainda, o presidente do Banco Central Europeu, se reúna duas vezes por ano para coordenar a política econômica da área.

Não ficou claro o alcance da proposta: se o objetivo é subordinar todas as políticas econômicas nacionais a um governo central europeu; ou evitar que cada país-membro infrinja o pacto de equilíbrio orçamentário (estabilidade fiscal).

No primeiro caso, seria necessário um amplo e profundo projeto de Constituição Europeia. Mas essa proposta já fracassou há alguns anos, quando um projeto de Constituição Europeia, mesmo que vago e pouco abrangente, foi rejeitado em alguns plebiscitos nacionais e, por isso, abandonado. Ou seja, se é para ir mais longe, como garantir sua aprovação pelo eleitorado que não quer abrir mão das soberanias nacionais?

E se é para somente fiscalizar o desempenho das contas públicas dos integrantes do bloco do euro, fica difícil acreditar que apenas reuniões semestrais garantiriam a observância de rígidas regras fiscais, até agora, amplamente desobedecidas. Em outras palavras, até o momento não se vê como conseguir impor os interesses comuns do bloco sobre os nacionais (enforcement, na expressão inglesa).

O problema de fundo é a necessidade de unificar enormes desigualdades entre os países-membros da área que, em vez e encolher, se aprofundam.

Neste momento, por exemplo, Grécia, Portugal e Irlanda amargam forte retração econômica. O grupo intermediário (França, Espanha e Itália) enfrenta crescimento próximo de zero. E há os em melhor situação (Alemanha, Holanda e Áustria), que devem crescer mais de 2% ao ano.

A periferia paga por sua dívida juros de 4% a 8% ao ano. Os países do núcleo pagam entre 2% e 3%. Enfim, o aprofundamento das desigualdades parece complicar ainda mais a instituição de uma governança comum.

A falta de vontade política ainda é o maior obstáculo para o resgate do euro. Isso sugere que o forte risco de naufrágio coletivo ainda não foi percebido. A maioria dos governos do bloco parece contar com que os países mais fortes, especialmente Alemanha e França, os que mais teriam a perder com o colapso do euro, paguem a conta. Mas isso pode não acontecer. Nesse caso, a crise do euro pode ter de piorar para só então começar a melhorar.

MÍRIAM LEITÃO - Maré vermelha


Maré vermelha
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 20/08/11

A crise não é nossa, mas pelo menos 20 grandes empresas brasileiras que fazem parte do índice Ibovespa estão sofrendo quedas expressivas no valor de suas ações. Algumas perderam mais que 50% em um ano e meio. Ao analisar o desempenho de cada companhia que faz parte do índice, dá para ver que há setores e empresas que vão muito bem, apesar da turbulência. Certos movimentos não fazem sentido.

Há setores que conseguem ter bom desempenho nas Bolsas, mesmo durante a turbulência, como telefonia e energia. São segmentos vistos como de proteção pelos investidores, porque têm um consumo estável mesmo em tempos de crise.

Mas a maioria dos setores está no vermelho. A América Latina Logística sofre uma queda de 74% no valor de suas ações ON desde março de 2010. A B2W, que vende produtos pela Internet, cai 56% este ano e 75% desde novembro de 2009. A Fibria, empresa resultante da fusão entre Aracruz e Votorantim Celulose, cai 47% este ano e acumula queda de 65% desde março de 2010.

A Gol, apesar do forte crescimento da demanda por voos nacionais, vê suas ações PN caírem 58% somente este ano. A queda é a mesma nos papéis negociados na bolsa de Nova York. A TAM também sente. Redução de 28% desde novembro de 2010 nas ações PN. O curioso é que no ano passado o Brasil foi o país do mundo onde o setor de transporte aéreo de passageiros mais cresceu. Superou a China.

Do setor de siderurgia, a fuga de investidores é generalizada. A demanda por aço caiu no mundo, e há mais de 500 milhões de toneladas de capacidade ociosa de produção. A CSN tem queda de 44% este ano. Desde abril de 2010, o tombo acumulado chega a 58%.

A Gerdau tem queda de 53% nas ações ON, no mesmo período, enquanto as ações PN caem 59%. No ano, as ações ON caem 34% e as ações PN caem 44%. A Usiminas tem queda de 35% nas ações PN este ano.

O setor de construção civil tem uma contradição. Há a impressão de um boom no setor de empreendimentos residenciais. Tanto que as empresas reclamam dos problemas causados por excesso de atividade: falta de terrenos e mão de obra qualificada. As ações ON da Gafisa têm queda de 41% este ano. Se o recorte for feito desde novembro, o tombo chega a 52%.

A Rossi cai 40% desde outubro. A Brookfield Incorporações cai 37% desde outubro, a mesma queda da PDG Realty desde novembro. A Duratex, que produz móveis e materiais de construção, vê as ações ON caindo 36% este ano.

Algumas empresas de fato apostaram demais no segmento de baixa renda e estão tendo problemas, porque no Minha Casa, Minha Vida há teto para o valor dos imóveis, mas não há teto para o aumento dos custos.

A desaceleração mundial só agora começou a afetar o preço das commodities, mas as cotações continuam altas. Mesmo assim, os papéis das empresas de matérias-primas e alimentos estão em queda há muito tempo. O frigorífico Marfrig cai 46% no ano. Desde janeiro de 2010, a queda chega a 65%. O JBS-Friboi cai 41% no ano e acumula 59% de redução desde novembro de 2009.

As empresas do Grupo EBX, do empresário Eike Batista, também perderam muito em valor de mercado. A OGX, que explora petróleo e gás, tem queda de 46% este ano. Desde novembro, o tombo acumulado chega a 53%. Uma das explicações é que ela é uma empresa pré-operacional, com muito investimento para fazer. A MMX, de mineração, cai 51% desde novembro, e a LLX, de logística, cai 66% desde setembro.

Mesmo com lucros recordes no ano, e sendo a empresa dominante de um grande mercado como o Brasil, a Petrobras consegue ter queda de 25% nas ações PN desde janeiro. A partir de dezembro de 2009, a redução no valor das ações ON chega a 48%.

O mercado explica que a empresa tem forte influência política. A Vale sente pelo mesmo motivo. O preço do minério de ferro disparou nos últimos dois anos e a empresa mantém resultados expressivos, trimestre após trimestre. Mesmo assim, no ano, as ações ON caem 22% e as ações PN caem 19%.

Há outras quedas expressivas: a Ecodiesel cai 52% desde outubro de 2010; a Hypermarcas tem redução de 60% no mesmo período.

Mas há também algumas boas surpresas. A Cielo, que presta serviço para o pagamento de cartões de crédito, sobe 21% no ano. A mesma coisa acontece com a Redecard: 22% de alta. A Ambev subiu no ano 5,2% e desde março de 2009 está numa trajetória de alta que triplicou o valor de seus papéis: 218%.

Empresas de energia também têm valorização este ano. A Cesp, por exemplo, sobe 15%. A Cemig tem alta de 14,8% nas ações ON. A Eletropaulo sobe 10,5% este ano e 166% desde outubro de 2008. Empresas de telecomunicações também estão em alta: a Tim sobe 30%; a Telesp, 20% nas ações PN e ON. Em comum, todas essas empresas conseguem manter o consumo estável mesmo em tempos de crise. Geralmente, as famílias deixam para cortar por último os gastos com energia, bebidas, telefones. Pelo menos é isso que pensam os investidores.

Olhando de perto, o que se vê são poucas boas notícias e um enorme mar vermelho no Ibovespa.

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - A contratação de concursados


A contratação de concursados
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) deve contribuir para a moralização dos concursos públicos no País. Em um julgamento que tem efeito vinculante vertical, ou seja, aplica-se a todos os casos do gênero em todas as instâncias, o STF entendeu que os aprovados em concursos públicos, dentro do número de vagas estabelecido no edital, têm direito à nomeação pelos órgãos da administração direta ou indireta que os promoveram. A decisão, que transforma uma expectativa de direito em direito líquido e certo, vem fazer justiça a inúmeros cidadãos que passaram em concursos, mas deixaram de ser nomeados por displicência, má-fé ou injunções políticas para os cargos aos quais se candidataram em concurso público. A decisão tem também a vantagem de aliviar a pressão sobre a Justiça, na qual tramitam milhares de ações de candidatos aprovados em concurso para vagas especificadas e que não foram aproveitados, apesar de julgamentos a seu favor até mesmo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Mas a principal consequência da decisão é que os órgãos públicos deverão, de ora em diante, realizar concursos somente quando forem estritamente necessários para suprir vagas efetivamente existentes, em vez de trabalhar com base em estimativas muitas vezes infladas, como vinha ocorrendo.

O STF foi provocado por um recurso extraordinário interposto pelo Estado de Mato Grosso, que questionava a obrigação da administração pública de nomear candidatos aprovados para o cargo de agente auxiliar de perícia da Polícia Civil. O governo daquele Estado terá agora de dar posse aos habilitados pelas provas a que foram submetidos.

Quanto à existência ou não de verbas específicas para tanto, a presunção é que elas constem do orçamento, condição essencial para que seja determinada a realização de concurso público. Ocorre, no entanto, que frequentemente as verbas destinadas a esse fim são remanejadas pelos governos, razão pela qual eles deixam de admitir concursados em seus quadros permanentes. Há também os casos em que, as vagas realmente existem, mas foram preenchidas por funcionários interinos, que, incapazes de passar pelas provas de seleção, pressionam para continuar em seus cargos, contando com apadrinhamento político.

O STF não se pronunciou sobre o prazo de validade dos concursos públicos, geralmente de dois anos depois de divulgada a lista dos aprovados. Pode perfeitamente acontecer que um novo gestor público chegue à conclusão de que os concursos anteriormente marcados para preenchimento de vagas se tornaram desnecessários em consequência de medidas de racionalização administrativa ou de economia de recursos. Em casos como esses, advogados especializados aconselham os concursados que suspeitarem de que podem vir a ser prejudicados a entrar com uma mandado de segurança preventivo até 120 dias antes do término do prazo de validade do concurso, pleiteando uma liminar capaz de garantir a nomeação. Isso significa que a decisão do STF, apesar da amplitude de sua aplicação, não deve eliminar inteiramente as ações desse tipo na Justiça, embora deva reduzi-las consideravelmente.

De qualquer forma, a decisão do Supremo impõe ao poder público a adoção de critérios rigorosos antes de decidir pela abertura de concursos. Em primeiro lugar, as vagas de cargos burocráticos ou técnicos não deveriam ser ocupadas, em hipótese alguma, por interinos, o que, aliás, contraria disposições constitucionais. Isso se aplica também às empresas estatais, como, por exemplo, a Petrobrás.

Espera-se que o julgamento do STF surta efeito na contenção das despesas de pessoal no setor público, de acordo com uma política firme de austeridade fiscal. Significativamente, o Ministério do Planejamento congelou a realização de concursos em órgãos sob o seu controle. O número de nomeações autorizadas por aquela pasta, por sinal, foi 90% menor no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2010.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Luzes, por favor
SONIA RACY
O ESTADÃO - 20/08/11

Ponto para a Frente Nacional dos Prefeitos. A ANEEL aceitou reabrir discussão sobre a quem cabe a responsabilidade (leia-se custos) na operação dos fios de transmissão de energia elétrica e seus postes de sustentação.

A agência determinou, em dezembro do ano passado, que as prefeituras deveriam assumir todos esses ativos até 2012.

Luzes 2

Segundo João Coser, da FNP, os municípios não têm condição financeira para cumprir a regra. "As empresas se dispõem a nos ajudar desde que paguemos pelos serviços", lamenta.

Olha eu!

Paulo Maluf não teve chance no Palácio dos Bandeirantes. Gastou seu latim, quinta-feira, tentando entrar na área reservada para Dilma e convidados. Sem sucesso.

Ex com ex

Wagner Rossi nem sequer se despediu dos colegas. Fez as malas e voou para Ribeirão Preto. Antes, porém, recebeu vários telefonemas de solidariedade: inclusive de Lula.

Sem fronteiras

Paulo Chap Chap viajou para a Cisjordânia. Tenta intercâmbio de conhecimentos sobre transplante de fígado entre pessoas vivas. O projeto, que estava sendo desenvolvido na Síria, foi congelado ante a situação política local.

Mi casa, su casa

Jorge Perez chega a Sampa. Dono do Related Group, gigante imobiliário americano, pretende fincar o pé por aqui.

Back to the future

Cláudio Afif e filhos são os novos sócios da Segurar.com.

Suado

O MAC resiste a se mudar para o prédio do Detran. E o motivo não é financeiro.

Tipo exportação

Terminou mais uma edição do Festival de Cinema de Lima, no Peru. Com júri composto por nomes como Bruno Barreto e Geraldine Chaplin. Petrobrás e Ambev patrocinaram 50% do evento.

Fados

Manoel da Lupa, da Portuguesa, quer trocar o nome do time para arregimentar legiões de torcedores País afora. A Leões da Fabulosa, maior organizada do clube, não quer nem ouvir falar do assunto.

Vale tudo

O PSDB de SP convidou Caco Ricci para ser candidato a vereador.

O modelo e ex-A Fazenda tem até dia 30 de setembro para decidir.

Dona do jogo

Thais Gulin tem ritual pré-show todo particular. Antes de subir ao palco do Tom Jazz, anteontem, comeu macarrão sem molho, fez nebulização - por causa do ar seco - e escutou música indiana. "Para me deixar ligada", contou a cantora.

Já a banda da moça, no camarim, estava ligada... no penúltimo capítulo de Insensato Coração.

Dona do jogo 2

E a eleita de Chico Buarque não segurou as lágrimas na hora de cantar Se Eu Soubesse.

Tímida, enxugou o choro antes de identificar a música: "Chico fez pra mim", declarou.

De cadeira

No tributo a Oswaldo Bratke, que acontece quarta-feira na Etel Interiores, será lançada uma cadeira desenhada pelo arquiteto em 1948. Pela primeira vez, com edição limitada. Serão 104 peças, alusão à idade que Oswaldo faria neste ano.

Durante o evento, Marcelo Bratke, neto de Oswaldo, dará concerto para convidados. E substituirá o banquinho do piano pela cadeira criada por seu avô.

Forno quente

Mauro Salles cumpre, com antiga alegria, uma velha promessa: lançar novo livro de poesias. O nome, Torvelinho, foi sugerido por Augusto Frederico Schmidt poucos anos antes de o poeta falecer. "Na época, só 20% do trabalho estavam feitos", explica Salles.

Lembrete: seu primeiro livro de poesias, com 77 poemas, se chama Coisas de Crianças.

LUIZ FELIPE LAMPREIA - A crise de 2011 é a mais grave de todas


A crise de 2011 é a mais grave de todas
LUIZ FELIPE LAMPREIA
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Após o desmoronamento da URSS, o capitalismo emergiu, vitorioso, de 50 anos de guerra fria e parecia destinado a reinar absoluto dali por diante. Era a mensagem do fim da História, do grande pensador Francis Fukuyama.

Passados 20 anos, a aposta revelou-se parcialmente falsa. O capitalismo prevaleceu e não existe, nem sequer como utopia, uma alternativa que tenha a mínima credibilidade.

Com a crise de 2008, que representou um golpe duro no setor financeiro, principalmente, começou uma fragilização do sistema político/econômico, o que, por sua vez, conduziu à crise atual. Hoje a relativa incapacidade dos líderes políticos ficou patente. Eles são obrigados a manter os olhos postos nas pesquisas e governar por elas. Sua habilidade é meramente tática, os gigantes de visão estratégica, como Franklin Delano Roosevelt, Konrad Adenauer, Charles de Gaulle ou Felipe González, pertencem ao passado.

O sistema de governança global foi confrontado com uma situação que pôs a nu a sua precariedade, seja pelo incrível espetáculo que foi o recente cabo de guerra do orçamento e da dívida no Congresso americano, seja na cabra-cega de Bruxelas para resolver os problemas das dívidas dos Estados-membros. Tudo o que parecia sólido - a ascensão triunfal dos Brics incluída - se tornou questionável.

A única aposta certa entre os países ricos, hoje, é a Alemanha, com seu alto nível de renda, sua produtividade incomparável, sua homogeneidade social e seus talentos inatos, que permitiram que após a derrota violenta e total de 1945 o país apresentasse nos dez anos seguintes o maior exemplo de recuperação e criação de valor da História das nações.

Mas não é indiscutível que a Alemanha continuará a ser a coluna mestra da Europa e o banqueiro de todos os países que não possuem suas virtudes ou sua disciplina. Hoje ela é primus inter pares na Europa e cada vez mais exerce o poder que daí decorre sem as cautelas e os temores do passado. É óbvio que a Alemanha tem enorme interesse no construção europeia, da qual é a maior beneficiária. Mas as opiniões dos eleitores alemães não obedecem a análises apenas racionais e isso poderá obrigar os políticos seguirem os veredictos das urnas ou das sondagens, indicando que a Alemanha não está mais disposta a cobrir todos os excessos e a resgatar os naufrágios de seus sócios irresponsáveis, que se embriagaram de dívidas e de más políticas públicas, como se a União Europeia fosse uma festa interminável para todos.

Os Estados Unidos vivem um de seus piores momentos. Barack Obama mostrou-se muito mais fraco como presidente do que a imensa expectativa que gerou como candidato. O Congresso transformou-se numa arena de enfrentamentos em que inexiste clima para atitudes construtivas e compromissos sobre medidas que interessam a toda a nação. É como se para destruir Obama e os democratas os republicanos radicais do Tea Party fossem até capazes de atear fogo à Casa Branca.

Na recente discussão, o sistema político americano revelou-se disfuncional. John Micklethwaite, editor da grande revista inglesa The Economist, descreveu os partidos americanos como "duas placas tectônicas ideológicas que se movem em direções opostas, aumentam a distância entre si e causam abalos sísmicos". As guerras malsucedidas do Iraque e do Afeganistão representam a terceira ocasião, com o Vietnã, em que todo o imenso poder militar americano não consegue emergir vitorioso, malgrado os enormes custos e todos os meios empregados.

Está hoje patente que os Estados Unidos estão deslizando na ladeira do poder, onde já foram absolutos, embora nada indique que deixarão de ser uma superpotência ou que vão desmoronar como o sistema comunista. Ainda assim, as credenciais americanas persistem. A maior economia mundial, três vezes superior à segunda colocada, Forças Armadas como nunca houve na História, os Estados Unidos são e serão, por longo tempo, uma superpotência. Mas não possuem mais a faculdade de ser, na famosa frase de Madeleine Albright, a "nação indispensável" que dava sempre o tom nas relações internacionais.

Na China, o país hoje mais bem posicionado para desafiar a supremacia de Washington, já existe um questionamento - ainda incipiente, mas claro - quanto à supremacia do Partido Comunista. Em que ponto as atuais contestações - em sua maioria, protestos locais de todo tipo - tomarão volume? Ninguém pode prever, só se sabe que tem havido aumentos de efetivos militares em diversas províncias chinesas, em claro sinal de nervosismo de Pequim. Por outro lado, com a desaceleração econômica, haverá dificuldades para seguir absorvendo rapidamente os grandes contingentes de excluídos que ainda estão no interior do território chinês. Crescer a 10% ao ano não pode ser um moto perpétuo. A médio prazo, é difícil que se mantenha a combinação virtuosa de fatores que permitiu a espetacular emergência da China nos últimos 30 anos.

Não sou daqueles que veem os quatro cavaleiros da Apocalipse nos cantos do céu assim que se instala uma crise. Todos os povos acima mencionados passaram por situações muito mais graves - anos de depressão econômica, guerras, sofrimentos e perdas indizíveis - e terminaram por se recuperar.

A crise de 2011 é a mais grave de todas as que ocorreram nas últimas décadas. Mas o mundo sairá dela. É da essência do capitalismo que essas convulsões ocorram - trata-se do processo de destruição criativa de que falava o grande economista austríaco Joseph Schumpeter. Os fatores produtivos combinados das principais economias do mundo, entre as quais, obviamente, está o Brasil, representam uma força imbatível e acabarão por prevalecer. Até que sobrevenha nova crise mais adiante...

GOSTOSA


FÁBIO TOFIC SIMANTOB - O Planalto, a PF e as prisões escandalosas



O Planalto, a PF e as prisões escandalosas
FÁBIO TOFIC SIMANTOB 
 O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Quando nos deparamos com as notícias das últimas operações da Polícia Federal (PF) envolvendo o alto escalão do governo, convém indagar se o mais preocupante é o interesse do governo em saber da operação com antecedência ou a alegação da PF de que não precisa prestar contas de nada a ninguém.

Sim, porque ninguém duvida de que num Estado republicano é promíscua a interferência indevida do poder no desenvolvimento de atividades de polícia judiciária, mas todo mundo concorda que a PF está subordinada ao Executivo e não está, digamos, desobrigada de prestar contas de sua atuação aos escalões superiores, que, em última instância, são o ministro de Estado da Justiça e a presidente da República.

Causa certo espanto a afirmação do presidente do Sindicato dos Delegados da Polícia Federal no Estado de São Paulo, Amaury Portugal, de que os delegados não precisam dar satisfações de nada a ninguém, senão ao juiz do caso. É verdade que uma das funções institucionais da PF é dar cumprimento às decisões judiciais proferidas durante as investigações, tal como mandados de busca e apreensão e de prisão temporária ou preventiva. O fato de estar obrigado a cumprir a decisão judicial, sob pena de incorrer em crime de desobediência, porém, não exime de modo algum o delegado de se submeter às regras de hierarquia do Poder ao qual está subordinada, o Executivo.

A questão que se coloca, então, é se é lícito o Planalto saber da operação com antecedência, ou seja, antes de ela ser deflagrada. Sobre isso não existe regra clara no nosso ordenamento, mas também não existe nenhuma norma que proíba a prévia comunicação.

À primeira vista parece estranho o interesse da presidente Dilma em conhecer os detalhes da operação antes da sua realização. Por outro lado, é preciso reconhecer que comunicar a existência da investigação e os detalhes da operação que se avizinha não é obrigatoriamente ilegal.

O motivo para a questão ter atraído os olhos atentos da opinião pública não é, obviamente, o fato de a presidente Dilma querer saber da operação, mas o receio de que, ao tomar ciência prévia dela, o Planalto possa desvirtuar o objeto da investigação e influenciar a normal obtenção da prova.

Aqui parece situar-se o ponto fulcral da questão. Nosso ordenamento jurídico dispõe de mecanismos de proteção da legalidade, como a cominação de pena criminal para os agentes públicos que pratiquem ou deixem de praticar ato de ofício para satisfazer interesse pessoal, dando ordem, por exemplo, para que a operação seja abortada sem nenhum fundamento jurídico válido. Ou, pior até, prevê penas para quem fraude provas ou outros elementos da investigação com a operação já deflagrada, comunicando previamente os sujeitos alvos da operação, a fim de que previnam a descoberta de provas comprometedoras.

Veja-se, pois, que a questão toda gira em torno de uma presunção, qual seja, a de que a presidente poderia usar o poder que tem para frear a atuação policial; logo, quando a PF busca evitar que a presidente saiba da operação, não está fazendo outra coisa senão questionar a credibilidade e as boas intenções da chefe do Executivo. Novamente não se sabe o que é mais grave, se o elo político estreito que liga o Planalto aos investigados ou a suspeita da PF de que o sucesso da operação correria risco se ela fosse antecipadamente comunicada à presidente da República.

O interesse prévio da presidente pelas investigações pode, no máximo, ser objeto de crítica política. E, nesse aspecto, não faltam bons argumentos para questionar sua atuação. O fato, porém, é que, do ponto de vista jurídico, causa mais espanto a aparente insubordinação do órgão policial do que a curiosidade demonstrada pelo Planalto tocante aos atos investigativos.

É sabido que o poder torna as pessoas mais suscetíveis à prática de atos ilegais. Essa, a propósito, é a força motriz dos casos de corrupção que assolam o País e desencadearam as recentes operações da PF. É certo também que, quanto maior o poder que a pessoa detém, maior a capacidade de ser subvertida a legalidade para a satisfação de interesses pessoais e políticos. É preciso, todavia, enfrentar os desafios do Estado de Direito dentro da legalidade, por mais difícil que isso possa ser. Não é porque a presidente tem, em tese, o poder - ou a mera possibilidade, na acepção vulgar da palavra - de atrapalhar as investigações que deveremos concordar, então, que seja anulada a subordinação da PF ao chefe do Poder Executivo.

Com todo o respeito às opiniões contrárias, deveríamos propor-nos a fazer o exercício pedagógico de boa convivência republicana e eleger a lógica inversa à que está colocada. Deveríamos partir do pressuposto de que a presidente da República, tendo em vista a importância do cargo que ocupa e a legitimidade com que governa, eleita pela maioria da população para comandar o destino do País, não se arriscaria a sujar suas mãos com a lama que assola alguns setores do governo, sabedora de que sua permanência no cargo não resistiria um dia sequer caso viesse à tona alguma tentativa do Planalto, mínima que fosse, de acovardar os agentes policiais ou boicotar as investigações da PF.

Por mais difícil que seja confiar tamanho poder à presidente da República, isso ainda parece mais condizente com o espírito republicano do que permitir o afrouxamento dos laços que ligam a PF ao Poder Executivo, dando margem a que, em vez de prestar contas na linha hierárquica legalmente constituída - e prestar contas não implica perder a autonomia técnica -, o órgão de repressão estatal atue nos subterrâneos do poder anônimo, muito mais pernicioso à saúde do Estado de Direito, já tão combalida pelas mazelas estampadas todos os dias nas páginas dos jornais.

ADVOGADO CRIMINALISTA, É CONSELHEIRO DA COMISSÃO DE PRERROGATIVAS DA
SECCIONAL PAULISTA DA OAB

WALTER CENEVIVA - Ora, a lei?


Ora, a lei?
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 20/08/11

A constatação clara é que não há meio de afastar da sociedade os delinquentes, trancando-os em prisões


GETÚLIO VARGAS, que foi ditador e presidente constitucional do Brasil, era -além de líder popular e populista- um bom orador. Na campanha eleitoral em que foi referendado pelo voto livre e eleito presidente da República, proferiu célebre discurso. Nele Vargas usou a mesma frase do título, com outro sentido, sem o ponto de interrogação. Criticava o desrespeito das leis pelos seus opositores. Atribuía a eles maus comportamentos, para depois dizer que a lei apontaria para outro rumo, se fosse para ser respeitada. Aditava em tom zombeteiro: "Mas a lei? ... Ora, a lei!". Esse é o caso no desrespeito das leis que a presidente Dilma Rousseff tem enfrentado, gerando reações graves e agitando o Congresso Nacional.
O leitor está informado de que, neste agosto, entrou em vigor a lei nº. 12.403, de maio último, que alterou 40 artigos do Código de Processo Penal. Editado sob as ordens do mesmo Getúlio Vargas, o Código passou a vigorar em 1º de janeiro de 1942, ou seja, há 69 anos. O ministro da Justiça na época era Francisco Campos, cujo apelido de Chico Ciência homenageava seus conhecimentos jurídicos.
Uma mudança tão extensa se explica pela transformação radical na realidade social brasileira e mundial nesse período. Conforme se tem dito e repetido, a história terminou em meados do século 20. Uma outra história começou desde o crescimento do índice de natalidade e com as grandes emigrações estrangeiras (não só europeias, mas também asiáticas). O fenômeno foi planetário, mas -no caso do Brasil- basta lembrar a conquista de todo o interior do território central, sobretudo no oeste. Paralelamente, verificou-se uma concentração urbana do sudeste do Rio de Janeiro até Porto Alegre, dominante nos quase 40 milhões de habitantes do Estado de São Paulo.
Na área penal, para explicar a lei nº. 12.403, a constatação clara é que não há meio de afastar da sociedade todos os delinquentes, trancando-os em prisões. A razão é óbvia: a adição de celas disponíveis em nosso sistema penitenciário não acompanhou o crescimento da criminalidade. Com isso, a roda da vida estimula o aumento de delitos e da violência empregada. O círculo vicioso caminhou para um desastre social ainda mais grave do que aquele que se tem visto. Numa simplificação extrema, cabe dizer que a lei nº. 12.403 tem em vista reduzir o número de presos de nossas cadeias. Há lógica inspiração jurídica nesse caminho: a prisão em condições subumanas só estimula o aumento de criminalidade.
Esse aumento tem sido geométrico na experiência dos últimos 60 anos. A solução que inspirou os autores da lei nº. 12.403 consiste, "grosso modo", na simplificação dos processos penais, evitando levar os condenados a prisões que não têm condições de acolhê-los. A solução pode ser acompanhada pelos métodos de controle eletrônico das deslocações do condenado, permitindo o rigoroso monitoramento de suas andanças, minuto a minuto, todos os dias.
Mesmo qualificada, a tentativa de pormenorizar o que pode acontecer a partir de agora talvez seja inútil. Temos de esperar para ver. Orar pela lei, orar por seus bons efeitos, alterando o sentido da frase célebre no discurso de Vargas, enquanto súmula de nossa esperança. Certeza absoluta de sua eficácia não dá para afirmar, mas é um começo.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Como está fica?
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 20/08/11

Quando dizem ser importante que o recém-indicado Mendes Ribeiro possa "escolher sua equipe" na Agricultura, os peemedebistas estão de olho, antes de tudo, na secretaria-executiva do ministério, ocupada, desde a remoção do encrencado Milton Ortolan, pelo engenheiro agrônomo José Gerardo Fontelles.

Incomoda ao PMDB não apenas a proximidade de Fontelles com Guido Mantega (Fazenda), mas também com o ex-ministro Reinhold Stephanes, filiado ao partido, porém mal visto pela cúpula atual.
Outro recado: no que depender do PMDB, a parentada abrigada na Conab continua toda onde está.

Por que não? O pleito peemedebista de reocupação da Agricultura encontra respaldo em gabinetes do Planalto. Um assessor de Dilma pondera que "secretário-executivo e chefe de gabinete são cargos da confiança do ministro", considerando natural a eventual troca de Fontelles. Sobre o cabide da Conab, contemporiza: "Não dá para demitir só por ser parente. Tem de ver o trabalho que eles estão fazendo".

Constatação Com a adesão do deputado Tiririca (PR-SP) ao requerimento da CPI da Corrupção, a piada começou a correr a Congresso: "Ele deve ter percebido que pior do que está fica!".

Maracatu 
Aécio Neves não é o único tucano empenhado em instalar a deputada Ana Arraes (PSB-PE) no TCU. Também o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), pede votos na Câmara para a mãe do governador Eduardo Campos (PSB-PE).

Na selva 
Dilma planeja lançar a versão Norte do Brasil sem Miséria em 5 de setembro, Dia da Amazônia. Ali, o Ministério do Desenvolvimento Social iniciará o pagamento do Bolsa Verde, programa pelo qual serão destinados R$ 300, trimestralmente, a famílias de baixa renda que fizerem ações de conservação em florestas e áreas de extrativismo.

Next 
Convicto de que obterá registro, o PSD já mobiliza seu corpo jurídico rumo à segunda batalha, desta vez para amealhar o tempo de TV dos partidos de origem de seus recém-filiados. Ancorados na tese segundo a qual a adesão à legenda ocorre na brecha legal da "justa causa", advogados provocarão o TSE para rever a partilha da propaganda eleitoral.

Brecha legal
Os advogados de Gilberto Kassab entendem que, uma vez reconhecida a legitimidade da mudança, a agremiação anterior perde, além do mandato, todas as suas prerrogativas legais. Hoje, o cálculo do palanque eletrônico é baseado na bancada empossada.

Calendário 
Mesmo que a manobra não prospere para 2012, o PSD quer se fortalecer para a eleição de 2014, principal objetivo eleitoral do prefeito paulistano.

Falta combinar 
O DEM, principal prejudicado caso a tentativa vingue, não admite a hipótese de revisão da regra. "Seria um atentado à lei" diz o presidente da sigla, Agripino Maia (RN).

Será possível? 
Também acionando o PSD na Justiça, Campos Machado (PTB) desdenha das chances de o partido obter registro formal para 2012: "Tudo o que vem sendo feito para que isso ocorra não passa de uma jogada de marketing político".

Visita à Folha 
Abina M. Dann, cônsul-geral do Canadá em São Paulo, visitou ontem a Folha. Estava com Jaqueline Aguilar, agente regional para Educação na América Latina, e Angelo Raposo, assessor de imprensa.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"A "faxina" de Dilma é lenda, mera reação às denúncias da imprensa. É desrespeitoso comparar o que a presidente faz com o trabalho das faxineiras, este sim duríssimo."
DO SENADOR FLEXA RIBEIRO (PSDB-PA), rejeitando a ideia de que exista uma deliberação do Planalto para atacar focos de corrupção na máquina federal.

contraponto

Nada de estranho


Ao fim das quatro horas em que Pedro Novais depôs na Câmara sobre os problemas no Turismo -"se é que existiram", minimizou-, Chico Alencar (PSOL-RJ) resolveu contar uma parábola ao distraído ministro:
-O senhor me faz lembrar a história daqueles pescadores que estavam na barranca do rio, à tardinha, e viram dois elefantes passarem voando. Depois de uns cinco minutos de silêncio, um comentou com o outro: "É, compadre, esses bichos estão voltando pra casa. Mas, me diga, pra que morar tão longe do serviço?".

FERNANDO RODRIGUES - De besta a bestial


De besta a bestial 
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 20/08/11
BRASÍLIA - Foi uma semana de intensos contatos políticos para Dilma Rousseff. Recebeu dirigentes partidários. Deputados e senadores tiveram encontros avulsos. Na quinta-feira, rodeada de tucanos, ouviu do governador paulista, Geraldo Alckmin, que a integração dos programas antimiséria se dava sob o "protagonismo" dela, Dilma. Os jornais estamparam a imagem da presidente ao lado de FHC.
A blitz levou os "spin doctors" do governo a produzir uma robusta rodada de inseminação de ideias. Dilma seria agora um gênio da política. A presidente teria dado uma aula de coordenação para seus aliados. Os problemas graves de relacionamento estariam, por essa lógica, todos se liquefazendo por causa da destreza mostrada pela petista nos últimos dias.
Menos, menos.
Não há na natureza uma besta que em uma semana se torne bestial -no sentido da gíria em Portugal. Dilma tem experiência política sólida. Ela está longe de ser a néscia das fofocas propagadas pelos próprios governistas. Mas tampouco há laivos de genialidade em seus movimentos recentes.
A única certeza, por enquanto, é que os problemas de gerenciamento político continuam a vicejar em Brasília. O comando da micropolítica do dia a dia segue capenga.
As ações empreendidas por Dilma nesta semana ajudam a mitigar suas dificuldades. Não são, porém, garantia de céu de brigadeiro mais adiante. Os estragos causados por meses de inapetência gerencial na política já estão contratados.
Dilma passou meses sem arbitrar sobre desavenças e picuinhas oriundas da Esplanada. Ânimos crispados deixaram escapar pistas sobre os malfeitos ali produzidos durante anos. Informações vazaram. Não há como "desvazá-las".
A presidente disse "basta". Está operando mais na política. Muito bem. Mas a ordem dilmista vale para a frente. Não há como retroagir e eliminar danos já causados.

A CASA DO CU SEM DONO


FERNANDO RODRIGUES - César de ponta-cabeça


César de ponta-cabeça
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 20/08/11
SÃO PAULO - O governo de Sérgio Cabral acaba de firmar oito contratos emergenciais, com dispensa de licitação, com a empreiteira Delta, do empresário Fernando Cavendish, seu grande amigo.
São contratos que totalizam R$ 37,6 milhões e vêm se somar aos R$ 58,7 milhões que a Delta já recebeu sem licitação do governo fluminense somente neste ano.
Foi um acidente aéreo no litoral baiano, há dois meses, que jogou luz sobre as relações quentes do governador. Ele e o empresário viajaram juntos no jatinho emprestado por Eike Batista. Iam comemorar o aniversário de Cavendish e aguardavam o helicóptero que caiu, matando a namorada do filho de Cabral e familiares do empreiteiro.
Cabral e Cavendish já haviam usado o jatinho do mesmo Eike para ir às Bahamas, a passeio. Ambos têm casa de férias no mesmo condomínio de endinheirados em Mangaratiba, litoral sul do Rio.
Essa bonita relação de amizade não foi suficiente para constranger negócios com o Estado, que devem se pautar pela impessoalidade. Pelo contrário, tudo parece pertencer a uma mesma festa. A Delta abocanhou mais de R$ 1,3 bi em contratos na gestão Cabral, dos quais R$ 214 milhões são "emergenciais".
O dinheiro aprovado nesta semana, por exemplo, se destina a reparar danos provocados pelas chuvas de janeiro de... 2010 -um caso de "emergência retroativa". A Delta vai receber 40% dos R$ 96,3 milhões reservados às obras.
O que chama a atenção nessa história toda é a sem-cerimônia com que a promiscuidade se apresenta. Tudo é muito didático e ostensivamente escancarado. Como se o governador estivesse empenhado não mais em agredir a inteligência do contribuinte -já passamos desse ponto-, mas em testar os limites da sua impunidade e o grau de omissão das instituições do Estado.
No Brasil, as coisas funcionam de ponta-cabeça. Não é que invertemos a máxima da mulher de César?

CLÁUDIO HUMBERTO

“Confio em ti, toca a fita”
PRESIDENTA DILMA AO NOVO MINISTRO DA AGRICULTURA, MENDES RIBEIRO FILHO

PF ATÉ CANCELOU OPERAÇÃO POR FALTA DE RECURSOS 
O corte no orçamento da Polícia Federal para este ano já causou a primeira baixa na corporação. O Departamento de Inteligência Policial, que coordena todas as ações, teve de cancelar uma operação em andamento no estado do Tocantins. Além do susto dos delegados com a decisão, o tiro mortal ficou por conta da justificativa: faltou dinheiro para passagens e hospedagem, o custo mais baixo no rol de despesas. 

QUEM? O QUÊ? 
Não há regra que obrigue o diretor-geral da PF a contar ao ministro da Justiça sobre as operações em andamento. Só relata se quiser.

CAMPO MINADO 
O diretor-geral da PF, Leandro Coimbra, quer ganhar a confiança da classe. Por isso não passa nada para o padrinho, o ministro Cardozo.

O QUINTO 
Em pesquisa interna em janeiro, Coimbra surgiu em 5º. O preferido da PF para diretor era Sandro Avelar, hoje secretário de Segurança do DF.

Ô SAUDADE! 
Do líder do PR, Lincoln Portela, com saudade do poder: “Esse negócio de deixar de ser estatutário para ser celetista é complicado”.

ROUBO DE CARROS: MT REJEITA CONSULADO DA BOLÍVIA 
Os roubos de carros em Mato Grosso, vendidos por atravessadores bolivianos por R$ 5 mil, fizeram o deputado estadual Emanuel Pinheiro (PR) pedir o fechamento do consulado da Bolívia em Cuiabá. Cerca de 60 veículos são roubados por mês, no Estado, e levados para a Bolívia, muitos deles picapes importadas, onde, pela lei nº 133, do cocaleiro Evo Morales, podem ser emplacados. O fato revoltou nas vítimas.

APELO OFICIAL 
O deputado Emanuel Pinheiro observa que “o Brasil dispensa as relações diplomáticas e não há reciprocidade”.

BANALIDADE 
Há meses, um travesti sequestrou e matou um empresário para vender o carro dele na Bolívia. Queria o dinheiro para um implante de silicone.

CERCA E ALGEMA O PAÍS 
O estado-bandido da Bolívia “regulariza” carros roubados no Brasil e os receptadores protestam contra taxas fixadas para a tal “regularização”.

DESQUALIFICADO, NÃO
O conselho curador da EBC, que controla a TV Brasil, indicou Murilo Ramos, especialista da UnB, para a presidência da estatal. É uma tentativa de barrar a indicação de Nelson Breve, considerado sem qualificação, que tem apoio do ex-ministro Franklin Martins.

TREMAM OS CÉUS 
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse nesta sexta que “ainda” não assinou a CPI da Corrupção, mas que poderá fazê-lo. Se o fizer, ajudará o ministro Carlos Lupi (Trabalho) a ser o próximo defenestrado.

SINAL DE ALERTA 
Pesquisa do instituto O&P Brasil com mil eleitores do DF, entre os dias 13 e 17, mostrou que a avaliação positiva (ótimo e bom) do governo de Agnelo Queiroz (PT) soma 26% e que 56% já não acreditam que ele cumpra os compromissos assumidos durante a campanha.

CAIXA REGISTRADORA 
O ministro Celso Amorim (Defesa), que recebe como diplomata aposentado, foi ontem à reunião do conselho de administração da Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR), faturar o jeton de R$ 12 mil.

BARRICADAS 
Os inevitáveis cacique Raoni e a ex-primeira-dama da França, Danielle Mitterrand, vão dividir os holofotes neste sábado nas ruas de Paris, no Dia Mundial Contra a Construção de Belo Monte, informa o Le Monde. 

FOI PARA O BREJO 
O Superior Tribunal de Justiça negou mandado de segurança da Bancoop contra a quebra de sigilo bancário do tesoureiro do PT e ex-dirigente da cooperativa, João Vaccari Neto, por suposto desvio de recursos a campanhas petistas. É a terceira derrota na Justiça. 

ZONA DO AGRIÃO 
Da série melhor não dizer: “O novo ministro pode ser, de fato, não conhecido no Brasil, mas logo será” (Dilma sobre Mendes Ribeiro, substituto do “firme como uma rocha”na Agricultura).

NOTÍCIAS DO FRONT 
A marcha da missão do ex-delegado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) no Twitter: “A caminho da cidade Ben Gardane, Tunísia, fronteira com Líbia, observar (sic) refugiados líbios e socorrer crianças feridas.”

CELEBRIDADE 
Se o papel de “faxineira” não der certo, Dilma vai tentar ser “A Herdeira”. 

PODER SEM PUDOR
OS FEITOS DE MEM DE SÁ 
Parlamentar que faz falta ao Congresso, Gustavo Fruet (PSDB-PR) era candidato a vereador em 1996, em Curitiba, e visitou escolas acompanhado do pai, o saudoso deputado Maurício Fruet. Numa delas, um estudante resolveu testar o candidato, fazendo-lhe perguntas sobre vultos históricos como Juscelino, Getúlio, Jango etc. E atacou:
– E Mem de Sá, o que ele fez pelo Brasil?
Maurício resolveu intervir, encerrando o papo e a insistência do pirralho:
– Ele fez o que pôde, meu filho. Fez o possível.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Denunciados no STF irão revisar processos judiciais

Folha: Quadrilhas já atacaram 500 caixas eletrônicos

Estadão: Ditador sírio desafia Ocidente e volta a reprimir opositores


- Correio Braziliense
: Proposta de reajuste a servidor vai de 2% a 31%



- Estado de Minas: Minas tem 20 juízes ameaçados de morte


- Jornal do Commercio: Ladrões atiram em idosa na Zona sul

Zero Hora: Piratini vai endurecer punição a quem vender álcool a adolescentes