domingo, abril 03, 2011

ETHEVALDO SIQUEIRA - A agonia de uma indústria


A agonia de uma indústria
ETHEVALDO SIQUEIRA

O Estado de S.Paulo - 03/04/11

A indústria brasileira de telecomunicações está em frangalhos. Diante dessa situação, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, promete divulgar dentro de 30 dias uma política industrial para o setor.

Mais do que adotar medidas pontuais e de emergência, seria oportuno que o Ministério das Comunicações preparasse, em conjunto com outros setores do governo e com a participação de especialistas, um ambicioso projeto nacional de microeletrônica e telecomunicações.

Esperemos, também, que a nova política não introduza nenhum tipo de reserva de mercado, mas se traduza em apoio efetivo às empresas brasileiras, com melhores financiamentos, desoneração de tributos, formação de mão de obra e recursos humanos de alto nível.

Foram múltiplas as causas da crise da indústria nacional de equipamentos de telecomunicações.

A primeira foi a abertura total do mercado, a partir da privatização da Telebrás, em 1998, sem que a indústria nacional estivesse preparada para a competição com os grandes fornecedores internacionais.

Altamente protegida pela política industrial da Telebrás durante mais de 25 anos, a indústria brasileira foi arrasada diante da competição mundial.

A segunda causa da crise decorreu de uma mudança de paradigmas tecnológicos, exatamente no momento do fim da bolha da internet, no ano 2000, quando as centrais telefônicas baseadas na tecnologia de comutação de circuitos passaram a ser substituídas por equipamentos baseados na comutação de pacotes (com o protocolo IP), como os roteadores e comutadores, totalmente diferentes das centrais e muito mais baratos.

O fim da comutação de circuitos nas telecomunicações teve efeitos catastróficos sobre os maiores fabricantes mundiais de centrais telefônicas - Lucent, Alcatel, Siemens, Ericsson, NEC e Nortel, entre outras.

Em consequência, a Nortel faliu. A Lucent teve que ser adquirida pela Alcatel. A Siemens, muito mais diversificada, fechou praticamente sua divisão de telecomunicações.

A NEC encolheu dramaticamente suas atividades e seu faturamento. Para sobreviver, dedicou-se muito mais à área de microeletrônica, serviços e gestão de redes, inclusive como provedora de internet para milhões de assinantes no Japão.

Entre as maiores empresas, apenas a Ericsson, a Nokia, a Samsung e a Motorola tiveram sucesso nesse novo cenário, porque tinham posição de maior destaque em telefonia móvel ou noutros segmentos da eletrônica.

No Brasil, até as filiais dos maiores fabricantes mundiais de centrais telefônicas - Ericsson, NEC, Siemens e Alcatel - deixaram de produzir e de fornecer centrais de comutação e paralisaram totalmente sua produção. Fabricantes de cabos telefônicos, como a Pirelli, fecharam suas fábricas.

Imagine, leitor, o efeito dessa crise sobre as pequenas e médias empresas que participavam da cadeia produtiva das telecomunicações no País. Hoje, o pouco que restou dessa indústria se concentra na prestação de serviços e na montagem de equipamentos de transmissão e de redes.

TVs e computadores. Outros segmentos da indústria eletrônica brasileira, entretanto, vivem uma situação muito diferente. É o caso dos fabricantes de computadores e de televisão, cuja produção vem crescendo há quase 10 anos.

A produção anual brasileira já supera os 12 milhões de computadores e 13 milhões de televisores.

O grande problema que esses segmentos enfrentam é sua extrema dependência da importação de componentes eletrônicos, que já chega a mais de US$ 18 bilhões por ano.

O resultado desse desequilíbrio se reflete na balança comercial do complexo eletrônico do País, cujo déficit vem crescendo ao longo dos últimos 15 anos e superou os US$ 16 bilhões em 2010.

Esse é o preço do atraso de nossa indústria de componentes eletrônicos. Vale lembrar que o País não produz sequer circuitos integrados de nível intermediário nem a maioria dos componentes eletrônicos.

Pensar grande. Por que não aproveitar a oportunidade de formulação de uma política industrial de telecomunicações para elaborar um grande projeto nacional de desenvolvimento de toda a eletrônica brasileira, em especial, em microeletrônica?

O Brasil precisa hoje de um grande projeto nacional, de longo prazo, tão ambicioso quanto aqueles que nos ajudaram a superar o subdesenvolvimento em outras áreas, como:

1) Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em 1950, base da competência nacional que possibilitou a criação o sucesso da Embraer;

2) Petrobrás, em 1954, que nos capacitou para a indústria e a exploração do petróleo, inclusive em águas profundas;

3) Embratel, em 1965, que nos permitiu a decolagem em telecomunicações de longa distância, nacionais e internacionais via satélite;

4) Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973, responsável em grande parte pela competência nacional nesse setor.

Reflitamos nos frutos extraordinários desses projetos e de outros como a Universidade de São Paulo (USP), em 1934, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), durante a Segunda Guerra Mundial, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em 1952, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1966; e a Telebrás, em 1972, que assegurou a decolagem das telecomunicações no País. Por que não pensar grande outra vez?

GOSTOSA

ANCELMO GÓIS


Vidas ganhas
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 03/04/11


Que bom. Em quatro anos, caiu à metade no Rio o número de vítimas de balas perdidas. Segundo o Instituto de Segurança Pública, foram 279 em 2007; 236 em 2008; 193 em 2009; e 139 em 2010.

Viagem pela metade 
Dilma, ao antecipar sua volta ao Brasil, por causa da morte de José Alencar, frustrou empresários brasileiros com interesses em Portugal. Acabou não tratando com autoridades lusas de temas de interesse da Petrobras e da Camargo Corrêa. A empreiteira, por exemplo, tem uma construtora portuguesa e 33% da maior cimenteira de lá, a Cimpor.

Maldição
Roger Agnelli é mais um que tropeçou depois de ganhar o prêmio Homem do Ano, da Câmara de Comércio Brasil-EUA. Na lista da maldição do “Person of the Year” há ainda Jorge Atalla (Copersucar), Mário Garnero (Brasilinvest), Ângelo Calmon de Sá (Banco Econômico), Luís Eulálio Bueno Vidigal (Cobrasma) Luiz Furlan (Sadia). 

Satiagraha no STJ
A 5a- turma do STJ deve retomar esta semana o julgamento do recurso de Daniel Dantas contra a Operação Satiagraha, da Polícia Federal, em 2004, que levou o empresário à prisão. O placar está em dois a zero a favor de Dantas. 

Ainda faltam 
votar três ministros. Apagão da Dilma O bairro paulistano de Higienópolis, onde vive FH, ficou sem luz três horas sexta à noite. 

As brasileiras
Ivete Sangalo, Alice Braga, Juliana Paes, Cláudia Jimenes e Giovana Antonelli estão no time de 16 mulheres da nova série de Daniel Filho, “As brasileiras”. O formato é igual ao de “As cariocas”, com uma mulher por capítulo.

Trem da alegria
O chamego dos empresários estrangeiros com o Brasil tem lá seus motivos. Um deles: a remessa de lucros nos últimos 12 meses
chegou a US$ 33,8 bilhões. Ou um trem-bala Rio-SP e meio. 

Canudos 2, a missão
O cineasta Sérgio Rezende, autor do longa “Guerra de Canudos”, foi a Rondônia filmar a rebelião dos 22 mil trabalhadores da Usina de Jirau. As imagens vão para o documentário “Sertão, sertões”. 

No mais 
A queixa de Paulinho, da Força Sindical, naquela reunião no
Planalto, sobre a ausência de um bordel em Jirau, parece romance de Mario Vargas Llosa.No livro “Pantaleón e as visitadoras”, que virou filme, Llosa fala de um homem que, por ordem do Exército peruano, monta um bordel para reduzir estupros nas zonas militarizadas.

Martinho do Brasil 
Martinho da Vila vai ganhar uma estátua (foto) em sua homenagem. Será inaugurada em Duas Barras, RJ, sua cidade natal, dia 7 de maio, pelo governo do estado. A escultura de bronze, assinada por Ique, retrata o sambista de corpo inteiro cantando. 

A crise na OSB 
O maestro Roberto Tibiriçá e a pianista Cristina Ortiz pediram para sair da temporada da OSB Jovem, que começa este mês. — Somos profissionais e não estamos encontrando condições para reger a nossa música com todo o contexto e pressão em que se encontra a
OSB — diz Tibiriçá. 

Viva a Marrom!
Alcione foi escolhida para dar nome à nova lona cultural de São João de Meriti, RJ. Retratos da vida Desde 23 de março, um menino
de 10 anos é mantido vivo graças a um coração artificial no Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio. A criança precisa de um transplante com urgência. O doador tem de ter até 45kg. 

Cena carioca 
Veja como o cigarro é um vício que escraviza. Quarta, por volta de 18h, em Copacabana, um parceiro da coluna desceu do escritório para fumar na calçada e ouviu de um camelô: — Ei, patrão, quer trocar este cigarro por um cacho de uva?! Ele topou. Fez bem.

ZONA FRANCA
 José Conde Caldas assume amanhã a presidência da Ademi. 
 A decoradora Lourdes Catão embarca hoje para Nova York. 
 O professor José Galvão-Alves organiza a XXI Jornada de Gastroenterologia, no CBC, com a participação do hepatologista Vicente Arroyo. 
 O blog Mulher 7x7, da “Época”, bateu recorde de visitantes em março: mais de 1,8 milhão. 
 Estudo do economista Wilson Diniz assegura que Dilma foi eleita com os votos de eleitores beneficiários do Bolsa Família (12 milhões).
 A Osklen de Icaraí faz bazar hoje. 
 Roberta Spindel lança CD no Teatro Fashion Mall, terça, às 21h. 
● Luiz Paulo Nenen é o representante brasileiro em Simpósio Internacional de Design de Luz, na China.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - Brasil: está frio ou está quente?



Brasil: está frio ou está quente?
VINÍCIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Economia começa a esfriar, mas "mercado" acha que ainda não o bastante para conter o ritmo da inflação 


ALÉM DE espezinhar a nova direção do Banco Central, os povos dos mercados estão entretidos no debate sobre a redução do ritmo da economia. Já começou? Se começou, qual a intensidade da freada? Será o bastante para conter a inflação?
O júri, economistas de bancos e consultorias privadas, ainda está reunido, porém. Enfim, o ano mal começou, em termos estatísticos.
Mas alguns duvidam desde já que o "ajuste" vai bastar, pois não acreditam que o governo esteja preocupado com a inflação. Outros dizem mesmo que, apesar de alguma desaceleração neste ano, o caldo tende a entornar logo em 2012.
No ano que vem, haveria aumentos pesados de despesas públicas e outros estímulos econômicos, como o reajuste de 14% do salário mínimo e o aperto no ritmo dos investimentos (Copa, Olimpíada, petróleo etc.).
O pessoal do Itaú observava em texto de sexta-feira que o gasto do governo tem crescido menos. No trimestre encerrado em fevereiro, a despesa aumentou ao ritmo anualizado de 5,6%, ante 7,4% em janeiro. "Os números de 2011 apontam para um desempenho melhor que em 2009-2010 (anos de forte expansão fiscal), mas ainda abaixo do esforço médio verificado nos anos de [superavit] primário elevado (2003 a 2008)", observam porém.
O total de novos empréstimos está em nível 9% inferior ao volume anterior a dezembro, quando o BC começou a apertar o crédito. A confiança do consumidor caiu um pouco em março. O uso da capacidade produtiva da indústria foi alto e estável de abril a dezembro de 2010, mas cai desde então, de leve. As tendências inflacionárias, porém, continuam preocupantes, diz o pessoal do Itaú, com risco alto de indexação e com IPCA em 12 meses batendo nos 6,5% em meados do ano.
O pessoal da consultoria MBA é mais crítico. O valor médio do salário real (descontada a inflação) cresce menos, mas os nominais crescem rápido. Isto é, a inflação está sendo realimentada. As medidas de contenção de crédito não tiveram efeito bastante em itens importantes, como a venda de automóveis.
O PIB do primeiro trimestre teria crescido em ritmo semelhante ao de 2010. Sim, a economia e a inflação vão se desacelerar, diz o pessoal da MBA, que, porém, duvida que isso será o bastante. Motivo? "Desta vez, o BC e a Fazenda estão coordenados numa trajetória de desequilíbrio da inflação", diz o relatório de sexta-feira da consultoria. Não teria sido assim sob Lula 1, quando BC e Fazenda combatiam a inflação, nem sob Lula 2, em que pelo menos o BC mantinha o rigor, com a Fazenda estimulando a economia.
O pessoal do Bradesco viu crescimento forte da indústria em fevereiro. Mas isso deve passar. Alta dos juros, os primeiros sinais de contenção de crédito, corte de gastos do governo "em curso" e "primeiros sinais" de contenção dos salários indicam que a "desaceleração da economia seguirá ao longo dos próximos meses", dizem em comentário também da sexta-feira. Mas "a magnitude" da desaceleração se mostra "menor do que a esperada".
Em suma, não parece uma visão muito diferente da apresentada pelo BC na semana que passou. Uma inflação de uns 5,6%, PIB crescendo a 4%. A diferença é que o pessoal "do mercado" não está gostando nada da coincidência. Querem menos PIB e menos inflação.

DANUZA LEÃO - Receita para uma união feliz



Receita para uma união feliz
DANUZA LEÃO

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Algum homem, nos últimos tempos, disse a alguma mulher que por ela seria capaz de tudo? 


QUEM QUISER conhecer mesmo a evolução do mundo feminino nos últimos tempos basta fazer uma pesquisa tomando como base músicas do passado. As letras, é claro.
Outro dia acordei me lembrando de uma delas -isso me acontece às vezes- e me diverti. Não sei quem foi o compositor, mas ele era um gênio (e mais folgado, impossível).
Faz uma grande declaração de amor, nos moldes dele, a Celina, e penso que nenhuma mulher, nos dias de hoje, é venerada como ela foi. Começa assim: "Mulher, mulher é Celina, as outras são imitação" -até aí, tudo bem, tudo lindo, mas emenda com "me lava os pés quando chego, e me chama de papai". Alguma mulher recebe seu homem assim? A declaração continua: "duvido que as outras façam o que a Celina me faz, e por causa da Celina de tudo eu serei capaz". Pena que o jornal não tenha áudio -ainda.
Vamos combinar: algum homem, nos últimos tempos, disse a alguma mulher que por ela seria capaz de tudo? É claro que não; elas, que se queixam tanto dos homens, tinham que aprender com Celina, mas pensa que acabou? Não duvide, pois Celina fazia ainda mais, muito mais.
"De manhã me faz a barba, de tarde me dá beijinho, engoma o meu terno branco, e eu saio bonitinho", diz o samba.
E tudo isso, penso eu, sem pedir nada em troca, sem querer que ele assuma seu lado feminino, que ajude a lavar os pratos, sem discutir a relação, tem melhor do que a Celina? É claro que esse homem devia ser muito especial, para ter uma mulher com quem não dividia as despesas -"mulher minha não trabalha fora", ele devia dizer- e que só pensava em uma coisa: fazer feliz o homem que amava, grande Celina.
E vamos agora ao grand finale: "Se eu finjo ficar zangado, ela diz que sou um à toa", e conclui "você pode chegar muito tarde, que lugar de homem é no meio da rua", e aí vem o breque, "Celina".
Uma obra-prima, e penso que foram as tantas comemorações do dia, ou do mês ou do ano, nem sei mais, da Mulher -com maiúscula- que me fizeram lembrar desse samba e fazer uma pequena homenagem aos homens.
Não são as mulheres que têm do que se queixar, mas sim eles; qual a mulher, em 2011, que engoma o terno do marido para ele sair bonitinho? Elas são emancipadas, livres, têm os mesmos direitos que eles, como queriam, e ainda reclamam? Celina não reclamava de nada, e parecia ser bem feliz.
Mas esse homem também devia ser o máximo -e qual homem, em 2011, é assim? Eles hoje chegam em casa cansados, falando da sórdida troca do presidente da Vale, da taxa Selic, se a usina de Belo Monte deve ou não ser construída, se a importação de produtos da China está atrapalhando o comércio do Brasil. Qual a mulher que quer saber dessas coisas? Só Dilma.
Quando ele chegava em casa, Celina, enquanto lavava seus pés, devia ouvir as mais ternas e safadas declarações de amor, e é disso que mulher gosta, aliás, gostava. Se as mulheres aprendessem com Celina, a vida conjugal poderia ser muito mais bela, e isso sem nem falar da heroína nacional, Amelia, que achava bonito não ter o que comer.
Qual, já não se fazem mulheres como antigamente. E nem homens.

GOSTOSA

MÔNICA BERGAMO


ABAIXO OS DECOTES
MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

O padre Michelino 

faz campanha contra o uso de roupas inapropriadas ou escandalosas na tradicional igreja Nossa Senhora do Brasil, em SP O padre Michelino Roberto, da igreja Nossa Senhora do Brasil, na avenida Brasil, uma das mais requintadas de São Paulo, está em uma feroz campanha pelos bons modos de seus fiéis. Ele está incomodado com pessoas que vão de bermuda e chinelo às missas, falam ao celular e, nos casamentos, exibem busto e costas em decotes exuberantes.

"Estou, sim, 

numa campanha, tentando formar a consciência dos fiéis para se vestirem bem, de forma adequada a uma cerimônia sagrada. Já me senti constrangido de ver no altar pessoas usando decotes excessivamente ousados", diz ele.

Nos casamentos, 

o negócio "pega pesado", segundo o religioso. "Porque aí entra a ditadura da moda, a ditadura da malhação, em que a pessoa, para valer alguma coisa, tem que ter um corpo vistoso. A gente impôs algumas regras e temos pedido aos noivos que conversem com seus padrinhos e convidados para virem vestidos de forma que respeite a virtude do pudor", diz o padre à repórter Thais Bilenky.

No Vaticano, 

lembra Michelino, seguranças impedem que pessoas vestidas com regatas ou bermudas entrem nos templos. "O brasileiro já é, culturalmente, mais desleixado. Ele vê a igreja como uma extensão da casa dele, cê tá entendendo? Ele tem um tal nível de familiaridade que acaba vindo de uma forma inadequada."

Há alguns dias, 

Michelino estava organizando um evento no Jockey Club de SP e um de seus funcionários foi impedido de entrar no restaurante local porque estava de bermuda. "Caiu a ficha! Eu estava pegando leve na igreja", lembra o padre.

Muitos fiéis têm ido 

às missas de sábado e de domingo de bermuda, chinelo de dedo e camiseta. "Você percebe que o cara depois vai para o clube numa boa." A paróquia fica no Jardim Paulista, perto dos clubes Pinheiros, Paulistano e Harmonia. "Olha, o verão tá chegando. Cuidado com o modo como você vem vestido [à igreja]", repete o pároco durante as celebrações.

O padre 

até convidou a consultora Élide Helzel para escrever no "Guia de Noivos 2011" da paróquia. "Um colo menos descoberto, uma manguinha, um bolero não tiram de forma alguma a graça do modelo e a beleza da noiva e das madrinhas. Ao contrário, vão revesti-las de um certo ar de mistério que até aumenta seu encanto", escreve Élide.

Agora, pede-se 

às mulheres que aderem a cortes mais ousados que se cubram com echarpes.

Para as desprevenidas, 

a igreja reserva um cabide com xales, de todas as cores e tons, para que não falte um que combine com seus vestidos. Gabriela Mendonça, 24, chegou ao casamento de Daniele Fiumari no sábado, 19 de março, usando um tomara que caia azul. Foi interceptada pela cerimonialista Carolina Soares, que a levou à sala de espera dos padrinhos e lhe apresentou ao cabide.

"É chato, né? 

Eu não sabia que precisava [de echarpe]", reclama a madrinha. A prima da noiva, Natália Fiumari, 22, se certifica de que Gabriela achou uma echarpe e tranquiliza sua mãe. "Mas esse padre é um chato. Ele implica com tudo, com o decote, com os ombros, com as costas!", desabafa Natália.

Carolina é filha 

de Bráz Geraldo Soares, 57, cerimonialista da Nossa Senhora do Brasil há 37 anos. Para ele, "a fase mais crítica, graças a Deus, já passou". "Para você ver como estamos melhor, hoje [sábado], foram seis casamentos e só dois casos [de madrinhas que precisaram de echarpes]." Sua filha fica na entrada identificando os vestidos "críticos". "Algumas [mulheres] estão completamente fora do padrão."

Élide, a consultora de noivas, 

afirma que é possível ser "sensual" sem ser "vulgar". "Não sou nenhuma puritana, mas se você está num ambiente religioso, não custa se cobrir um pouco mais." Ela sugere modelos com alças e/ou caudas removíveis, para "a noiva se mostrar mais comportada na igreja do que na festa".

As primeiras reclamações 

partiram de fiéis que relataram seu incômodo aos padres. Lucy Di Cunto, 70, acha um "absurdo": "Vi uma moça com vestido de alça, as costas todas à mostra e o peito de fora. Outra estava de tomara que caia e legging. Não sei o que está acontecendo". Ela frequenta as missas de domingo. "Viajo o mundo e não é assim. O padre está coberto de razão."

Rosemeire Slavim e o marido, 

o nova-iorquino Eoin Slavim, 52, também concordam com o padre Michelino. "É como ele falou outro dia: parece que as pessoas estão indo à praia. Em NY, elas se arrumam para ir à missa", compara Rosemeire.

A fiel Wanda Arroyo Lima, 

84, lembra que "antigamente, o padre da minha cidade [Monte Azul Paulista] mandava quem estava vestido inadequadamente se retirar da igreja. Simplesmente não permitia. A igreja é a casa de Deus".

A paróquia Nossa Senhora do Brasil 

é palco de casamentos famosos, como os do conde Chiquinho Scarpa e Carola Oliveira e o do piloto de F-1 Felipe Massa e Raffaela Bassi. As cerimônias no templo custam, em média, R$ 20 mil, mais R$ 2.500 para reserva da data, feita com antecedência de pelo menos dois anos.

"Quando cheguei 

aqui, há quase quatro anos, me incomodava muito essa imagem comercial que existia da igreja, dos casamentos glamourosos", afirma o padre Michelino Roberto. "Falei: "Um ponto que precisa ser trabalhado é que [aqui] deixe de ser a paróquia casamenteira e passe a ser a paróquia promotora da família".

FERREIRA GULLAR - Em terras de Macunaíma



Em terras de Macunaíma
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Só no Brasil um político de projeção nacional, prefeito de São Paulo, cria um partido por oportunismo 


COMO TODOS sabem, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, eleito pelo DEM, decidiu de uma hora para outra fundar um novo partido que apoiará o governo de Dilma Rousseff, do PT, inimigo figadal dos democratas.
Kassab ganhou expressão na vida política de São Paulo graças a José Serra, do PSDB, o adversário político número 1 do PT. Como se vê, a nova performance do prefeito paulistano, aparentemente, não guarda nenhuma coerência com coisa alguma que o eleitorado pensava que ele fosse.
Não obstante, tudo isso está sendo feito como a coisa mais natural do mundo. Por que ele está deixando seu partido, ninguém sabe, mas o fato de criar um outro partido para si tem explicação: ele, assim, não perderá o mandato que, conforme decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), não pertence ao eleito, mas ao partido.
E você, como eu, perguntará: se o mandato pertence ao partido, Kassab, pela lógica, ao deixá-lo, perderia o mandato, não? Isso é o que você pensa! O mesmo STF, que decidiu que pertencem aos partidos os mandatos de seus integrantes, admite que, se o eleito deixar o partido para fundar outro, não o perde.
Diante disso, Kassab decidiu fundar um novo partido e seu mandato está salvo. Simples assim.
Eu não sou ninguém para questionar uma decisão do STF. Não obstante, data vênia, não consigo calar minha perplexidade: se o mandato é do partido, significa que o eleitor, ao votar em Kassab, o fez por ser ele do DEM, isto é, de determinado partido. Mas, se ao deixar o DEM, para fundar outro partido, levará o mandato consigo, então o mandato é dele, Kassab? Ou levará o que não lhe pertence? Nesse caso, para não dizer que é roubo, digamos que seja apropriação indébita. Mas com o aval do Supremo? Devo estar equivocado, não pode ser considerado roubo o que se faz dentro da lei. Seria, na pior das hipóteses, um roubo legal (nos dois sentidos).
Uma coisa temos que admitir: o Brasil é único no mundo. Só mesmo em terras de Macunaíma, um político de projeção nacional, prefeito da maior cidade do país, resolve criar um partido apenas para aproveitar a brecha que a Justiça lhe oferece, ou seja, por puro oportunismo político. Esperteza feita às claras, como se criar um partido fosse a mesma coisa que trocar de camisa.
E vai ver que é. Eu é que estou fora de moda, sem ter ainda me dado conta de que partido político não tem nada a ver com sonho de como deveria ser a sociedade, mobilização da opinião pública para promover mudanças importantes que venham torná-la melhor e mais justa.
Nada disso. Estou por fora. Não é à toa que, no Brasil, há dezenas de partidos, sem conteúdo ideológico, sem nenhum programa ou projeto que justifique sua existência.
Partido político, hoje em dia, existe apenas para cumprir uma exigência da lei eleitoral. Como a maioria deles não tem eleitores, sobrevive como siglas de aluguel, juntando-se a outros partidos, em coligações que são mais um modo de enganar o eleitor desavisado.
Mas não vamos jogar tudo nas costas do Kassab. O partido que ele pretende fundar tem a mesma sigla -PSD- de um dos partidos que Vargas criou, nos anos 1940, para dar aparência democrática ao Estado Novo; o outro foi o PTB.
Aquele era o partido dos patrões; esse, o dos trabalhadores. As duas classes fundamentais da sociedade estavam neles representadas, harmoniosamente, sem luta de classes, como convinha ao regime.
Os generais de 64 fizeram coisa parecida, criando a Arena, governista, e o MDB, oposicionista. Tudo bem comportado, claro, para não atrapalhar o sonho do Brasil grande. Mas eis que jovens políticos, que sonhavam com uma sociedade melhor, fundaram dois partidos de verdade: o PT, que reunia a esquerda radical, e o PSDB, de linha social-democrata. Essas foram as duas forças que, findo o regime militar, passaram a disputar o poder.
Em 1994, o PSDB chegou à Presidência com FHC e, em 2002, o PT venceu as eleições com Lula, apropriando-se do programa do adversário e imprimindo-lhe um cunho tipicamente populista. Cumpriram seu papel e se esvaziaram. Chegou a vez dos Kassab e companhia.

BRAZIU: O PUTEIRO

GILBERTO DIMENSTEIN -O que é meu é seu


O que é meu é seu
GILBERTO DIMENSTEIN

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

A tendência a trocar ou alugar em vez de comprar tem feito cada vez mais gente ganhar dinheiro
 


O SUSHIMAN RECLAMA de dor nas costas, gostaria de fazer sessões de acupuntura, mas está sem dinheiro.
Resolve seus problemas ao descobrir um acupunturista que adora sushi e também está com o orçamento apertado. Nada mais antigo do que esse tipo de troca, comum quando não existia dinheiro. Está prosperando um movimento que aposta que esse tipo de acerto está entre os negócios do futuro -segundo a revista "Time", já é uma das dez mais importantes tendências.
A tendência a trocar ou alugar em vez de comprar foi batizada de consumo colaborativo. Isso tem feito cada vez mais gente ganhar ou economizar dinheiro. Em certos casos, muito dinheiro.
Estão se disseminando até bancos para administrar a troca de serviços, num complexo sistema de crédito e débito de tempo.

A troca do sushi pelas agulhas de acupuntura foi possível por causa do TimeBank (Banco do Tempo), em Nova York. "Nossas trocas não param de crescer", me diz Mashi Blech, que gerencia um sistema de compensação de créditos e débitos de permutas.
Exemplo: uma pessoa que ajudou a consertar um computador durante duas horas vai ao banco e requisita duas horas de um baby-sitter para cuidar de seu filho."O efeito mais interessante é a revitalização da comunidade, afinal as pessoas, na maioria das vezes, têm de se encontrar", conta Mashi.

Prosperam milionários e diferentes tipos de negócio na onda do consumo colaborativo. Um deles eu testei aqui em Cambridge e funciona muito bem. É o Zipcar, que se espalhou pelo país. O carro é alugado por apenas algumas horas e deixado em pontos estratégicos da cidade. Serve para rápidos trajetos, como uma ida ao supermercado.
É muito mais barato que comprar e manter um carro. Essa é, em suma, a ideia provocativa do consumo colaborativo.
Graças a empresas como o NetFlix, não é necessário colecionar DVDs. Basta ter uma assinatura mensal e assistir a filmes 24 horas por dia, pagando por mês menos do que o preço de um DVD.
Está crescendo o número de usuários que trocam livros pela internet. No Brasil, foi criado um projeto para promover esse tipo de acerto. Em São Paulo, desenvolveram um projeto para, além de compartilhar o carro, pegar táxi em conjunto. Até um mercado para trocas de livros eletrônicos começa a ser desenvolvido.

Se você precisa de uma máquina de filmar para uma viagem com a família, basta alugá-la por uma semana. É um dinheiro a mais para quem oferece o aluguel e menos custo para quem aluga em vez de comprar.
Cresce 700% ao ano o número de sites de ofertas de quartos para alugar em casas, segundo estimativa feita por Rachel Botsman, a maior especialista do país em consumo colaborativo, autora do provocativo livro "O que é meu é seu", a ser lançado neste mês no Brasil. Ela me pergunta: "Por que é necessário comprar um CD se é possível baixar uma música?".
Segundo ela, a tendência vai crescer ainda mais quando as crianças que nasceram na era das redes sociais se tornarem consumidoras.

Para fugir do custo da intermediação de bancos, há programas que apresentam pela internet quem tem dinheiro para emprestar e quem precisa do empréstimo.
Assim como aquela troca do sushi é velha e levava o antiquado nome de escambo, o empréstimo pessoal do dinheiro também pode ser chamado de agiotagem. Conseguir descontos nas lojas é a conhecida pechincha, mas, agora, com a internet, chama-se compra coletiva e atrai centenas de milhões de pessoas.
A aposta no consumo colaborativo deve-se a três fatores: a crise econômica que afetou o Bolsa dos países desenvolvidos (agora as pessoas pensam mais antes de gastar), a disseminação da banda larga e o surgimento das redes sociais. Além disso, o tempero ecológico: consumir menos coisas novas seria forçar menos os recursos do planeta.

Daí coisas curiosas podem ocorrer: virando parte da internet, até mesmo empoeirados sebos e brechós ganham um toque de modernidade.
Igualmente, a camaradagem de vizinhança, tão antiga e perdida nos grandes centros urbanos, se revitaliza com projetos como o Banco do Tempo.

PS- Fiz uma seleção de alguns desses projetos citados na coluna para você testar o consumo colaborativo

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA



De carona
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

Para evitar que um novo tema arestoso chegue às mãos de deputados e senadores por meio de medida provisória, o Planalto analisa a possibilidade de incluir as mudanças no regramento de licitações dentro da Lei de Diretrizes Orçamentárias, a ser enviada ao Congresso até 15 de abril. O texto da LDO precisa ser votado até julho, sob pena de adiamento do início do recesso parlamentar.
De início, a flexibilização nas exigências se restringiria a obras relacionadas à Copa de 2014 e às Olimpíadas de 2016. Agora, porém, há quem defenda que o texto seja mais abrangente, para cobrir todo e qualquer "evento especial".
A mão... Após muita discussão, o governo tende a adotar solução ainda mais generosa do que esperavam os congressistas em relação aos restos a pagar de anos anteriores, que, segundo decreto baixado no apagar das luzes da gestão Lula, seriam cancelados em 30 de abril.

...e o braço 
Primeiro, cogitou-se garantir apenas as obras que já haviam começado a sair do papel. Agora, o Planalto fala em simplesmente prorrogar, por meio de novo decreto, o prazo de expiração para 31 de dezembro.

Ufa! 

Na reunião de quinta-feira entre governo e centrais sindicais, na qual se buscou uma solução para o problema dos "gatos" -agenciadores de mão-de-obra que atuam em segmentos da construção civil-, um sindicalista brincou: "Finalmente! Achávamos que esse gato tinha sete vidas!".

Afiado 

Quem conversa com Lula sai impressionado com o grau de detalhamento das informações do ex-presidente sobre as ações do governo de sua sucessora. Ele gosta de enumerar exemplos de sua sintonia com Dilma.

Foi ele 

Em privado, Lula atribui a Roger Agnelli, que o governo resolveu defenestrar da presidência da Vale, a origem dos rumores sobre desentendimentos entre Antonio Palocci (Casa Civil) e Guido Mantega (Fazenda).

É a economia 
O PT paulistano dará a largada no debate sobre estratégia eleitoral para 2012 no congresso de seus diretórios zonais, entre os dias 15 e 17 de abril. Na ocasião, o partido tratará de calibrar o discurso para atingir a "nova classe média".

Cofre oficial 
Tucanos refratários à recondução de Sérgio Guerra ao comando do PSDB argumentam que a vice-presidência da Comissão de Orçamento da Câmara é incompatível com a direção do maior partido de oposição. Recém-eleito para o posto, o deputado lidará com os pleitos dos congressistas por emendas do governo.

Toga justa 1 
Cobrado publicamente pela OAB e por desembargadores no evento que abriu o Ano Judiciário, Geraldo Alckmin fez chegar ao TJ-SP a notícia de que fará repasses além dos previstos no Orçamento ano tão logo a arrecadação aumente e que ouvirá as reivindicações dos servidores para evitar uma paralisação no setor.

Toga justa 2 
Além da fatia orçamentária maior, os magistrados insistem numa reivindicação histórica: as remessas das custas processuais arrecadadas no âmbito do tribunal, a exemplo do que vale em outros Estados.

Princípios 

Com o presidente Barros Munhoz (PSDB) envolvido em denúncias de fraude em licitações e após dobrar a cota de assessores parlamentares como primeira medida da nova legislatura, a Assembleia paulista começou a discutir projeto que cria o "programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" do Estado de SP. O texto é de Vinícius Camarinha (PSB).

Em família 
Relator até o ano passado do projeto de lei que disciplina as consultas públicas nas agências reguladoras, o ex-deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), derrotado na disputa pelo Senado, tenta emplacar sua mulher, Cida Borghetti (PP-PR) para sucedê-lo no posto.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"Cada um carrega para dentro do gabinete a representação de seu mandato."
DO DEPUTADO EDUARDO CUNHA (PMDB-SP), a propósito da contratação, como secretários parlamentares de Tiririca (PR-SP), de dois humoristas do programa "A Praça é Nossa" e do grupo Café com Bobagem.

contraponto

Cláusula pétrea

Numa roda de autoridades que aguardavam, na manhã de quarta-feira, a chegada do corpo de José Alencar para o velório no Palácio do Planalto, José Antonio Dias Toffoli, mais jovem integrante do Supremo, brincou com Romero Jucá (PMDB-RR), líder no Senado do atual governo, bem como dos de Lula e de FHC:
-O sr. é mais inamovível do que ministro do STF!

GOSTOSA

JOÃO UBALDO RIBEIRO - As novidades de sempre



As novidades de sempre 
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO - 03/04/11


Roubar dinheiro e malocá-lo na Suíça pode sem pagar, mas gastar dinheiro suado, só pagando 
Sempre que saio do Brasil, volto um pouco apreensivo. Faltam notícias lá fora e aqui as coisas mudam muito depressa - onde havia um cinema brota à noite uma igreja, onde se enxergava um político honesto pulula um meliante, o que ontem era a via correta vira contramão e assim por diante. A partir de certa idade, convém ser precavido, acabar de chegar em casa com calma, não ligar a televisão imediatamente e deixar para abrir os jornais depois de falar com alguns amigos. Eles saberiam contar jeitosamente qualquer novidade inquietante ou capaz de nos abalar a fé no futuro da nação.
Com alívio, logo vejo que não me esperavam novidades inquietantes. Fala-se ainda na visita do presidente Obama e até a vi reprisada, num desses canais anônimos de televisão a cabo que ficam perto daqueles especializados em selvas com aborígenes australianos que só sabem contar até dois e costumam comer os miolos de visitantes e vizinhos. Não entendi direito a razão da vinda dele. Muito simpático, dizendo frases em português e sorrindo para lá e para cá, mas causando a sensação de que se tratava de uma visita sem a qual ou com a qual tudo permaneceria tal e qual. Como, aliás, se não me ludibria a pérfida memória, todas as visitas de presidentes americanos ao Brasil, inclusive aquela em que Reagan achou que estava na Colômbia. Desta vez, creio que podemos ufanar-nos em ter certeza de que Obama sabia que não estava na Colômbia, mas acho que até o George Bush também já sabia, de maneira que, como sempre, não aconteceu nada.
Uma reportagem mostra a situação das estradas do Brasil. Acho que somos o povo que mais assistiu e assiste a documentários sobre a situação de estradas. Acredito mesmo que, se alguém fizer a conta, vai concluir que oito em cada dez reportagens longas feitas no Brasil, desde o começo das reportagens filmadas, são sobre a péssima situação das estradas, a queda de barreiras e pontes, os atoleiros, o isolamento de cidades, os acidentes calamitosos, a falta de fiscalização e outros itens de uma lista que qualquer um tem na cabeça. Apenas um detalhe novo: descobriram que se vende cocaína em postos de abastecimento nas estradas, aceitando-se cartões de crédito para pagamento. Possivelmente, o comércio de cocaína nos postos sofrerá um abalo, mas, ao mesmo tempo, sabe-se que os caminhoneiros trabalham sob pressão e muitos recorrem a drogas, ilícitas ou não, para trabalhar em turnos absurdos, o que é certamente causa para acidentes. Quanto a isto, não se fará nada.
Os cartões de crédito, por falar neles, agora vão pagar mais impostos, quando usados por brasileiros no exterior. O Estado (o governo, aliás; é besteira a gente querer insistir, por implicância terminológica, em distinguir governo de Estado - isso é em outros países, aqui é a mesma coisa) agora vai morder quase sete por cento do que se comprar com cartão de crédito em moeda estrangeira. O novo classe média comprou lembrancinha em Buenos Aires para trazer para um amigo, imposto nele. Não é por nada, não, mas não se pode deixar de observar - cala-te, boca - que roubar dinheiro e malocá-lo na Suíça pode sem pagar nada, mas quem quiser gastar dinheirinho suado, só pagando. Inventar impostos e taxas e aumentar os existentes permanece uma característica nacional, dir-se-ia mesmo um esporte para os nossos governantes. E, na nossa postura habitual - rabo entre as pernas, mas com altivez - continuaremos a falar, escrever, dar entrevistas e fazer discursos sobre nossa tosquiadora carga fiscal e a não fazer nada para combatê-la. E, se insistirmos em protestar, algum burocrata cria o imposto sobre reforma tributária, a ser pago por todos os que proponham diminuir ou extinguir qualquer imposto.
Aquela conversa da ficha limpa, demonstração do tão falado poder da opinião pública e da Internet, parece ter desandado um pouco, durante minha ausência. Quer dizer, desandou para quem foi na onda de a vontade popular isso e aquilo, pois não sei qual é a vontade popular que anda aqui assim tão levada em conta. O que se viu, por decisão do governo (o Supremo também é governo e aqui no Brasil é governo mesmo, se bem me expresso), é que a tal lei da ficha limpa só vai valer depois. E, ouso acrescentar, quando chegar esse depois, aí ela só vai valer depois desse depois. Teremos muitos depois pela frente, até esquecermos essa bobajada de ficha limpa.
Finalmente, encontrei um certo auê em torno da corrupção nas áreas de saúde e educação. As reportagens sobre condições de atendimento nos hospitais públicos são somente um pouquinho menos abundantes que as dos problemas das estradas. Não se passa dia sem que a gente veja duas ou três, uma sobre a senhora que esperou atendimento numa maca ao relento e morreu desassistida depois de cinco dias nessas condições, outra sobre a grávida que foi recusada em maternidades até morrer, outra sobre a criança em cuja veia injetaram glicerina. Isso entremeado por intervalos em que o governo, em comerciais às vezes melosos, às vezes vibrantes, nos mostra como a saúde está mais bem atendida do que nunca e como somos um povo cada dia mais feliz, robusto e de dentes reluzentes.
Robustos, de dentes reluzentes e rindo para as paredes estão, sim, os planos de saúde privados, que metem a mão no que querem, do jeito que querem, sem que ninguém proteja os usuários pagantes, cada vez mais tratados como indigentes. E estão as centenas de máfias internacionais, nacionais, regionais e locais em torno da saúde pública. São as máfias dos remédios, dos equipamentos, dos funerais, dos falsos atestados, dos desvios de verba e de tudo mais que adeja como abutre por cima da saúde pública. Tudo, enfim, é mais um pouco das novidades de sempre. Pensando bem, nada aqui muda.
JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor. 

RUBENS RICUPERO - Aniversários desconfortáveis


Aniversários desconfortáveis
RUBENS RICUPERO

FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

A Itália comemora os 150 anos da reunificação de forma tímida; sem o país, mundo seria mais apagado


"HÁ VITÓRIAS que não se devem comemorar", sentenciava o barão do Rio Branco. Entre elas talvez estejam efemérides desconfortáveis por obrigarem a comparações melancólicas entre o sonho e sua frustrante realização, como os 150 anos da unificação alemã e italiana.
Os alemães até que encontraram uma saída. Festejam os 20 anos da reunificação, data respeitável. Com isso, podem esquecer a proclamação na Galeria dos Espelhos de Versalhes do Segundo Reich, de infausta memória (18/1/1871).
Para não falar no infame Terceiro Reich, o mais abominável Estado da história em termos da morte e do sofrimento que levou a dezenas de milhões de pessoas no mundo inteiro.
No caso da Itália, o problema não se deve à culpa em razão da destruição infligida aos outros, mas à vergonha pela dor causada aos próprios cidadãos.
A interminável crise das instituições culminou num abismo de degradação moral incompatível com a mera evocação dos nomes dos fundadores da unidade, Mazzini, Garibaldi e Cavour.
Compreende-se, portanto, que tenha passado quase em envergonhado silêncio a comemoração dos 150 anos da unificação, em 17 de março. Redimiu-se a data com a execução no Scala de Milão do "Nabucco" de Verdi, na presença do presidente Giorgio Napolitano e do triste personagem que ora chefia o governo.
Quando lentamente se ergueu, majestosa e comovente, a profunda massa coral do canto dos Exilados, quem a ouviu no teatro ou na imaginação não ousaria duvidar de que, sem a Itália, o mundo seria muito mais pobre e apagado.
A dádiva da Itália é o espírito de Francisco de Assis e Dante, o gênio de Tomás de Aquino e Galileu, a invenção de Leonardo e Michelangelo, a graça de Giotto e Fra Angelico, a elegância de Rafael e Botticelli, a majestade de Masaccio e Piero della Francesca, o vigor de Ticiano e Caravaggio, o traço de Bramante e Palladio, a harmonia de Palestrina a Vivaldi, o teatro da Commedia Dell"Arte a Pirandello, a voz humana de Rossini a Verdi e Puccini, a agudeza do pensamento crítico de Maquiavel a Croce e Gramsci.
Notável mais pelas omissões que as presenças, esta lista mostra como é vão tentar resumir o que recebemos da cultura italiana.
Mesmo a beleza e a vida do espírito não bastam para definir o inconfundível na maneira de ser italiana: o profundo sentido de humanidade, aquilo que deu a "Ladrões de Bicicleta", de Vittorio De Sica, e a "Noites de Cabíria", de Fellini, sua marca inesquecível.
É essa humanidade que emanava dos velhos imigrantes italianos anônimos e humildes, que, no poema de Ferlinghetti, se sentavam nas praças de todas as sonhadas Américas dando migalhas aos pombos, esperando um a um a hora de morrer, o "nonino" de Piazzolla na Argentina, o nosso Volpi de mãos nodosas construindo suas molduras e fabricando suas tintas.
Em um romance de Cesare Pavese, um aluno pergunta: "Professor, o senhor ama a Itália?" E ele responde: "A Itália, não; eu amo os italianos".
Como separá-los? No amor da beleza, na luta pela justiça e por tudo aquilo que torna os homens mais humanos, pode-se dizer que somos todos italianos, aplicando à Itália o que diz o salmo: "Em Jerusalém nasceu todo homem", pois nela estão nossas fontes

QUADRILHA DO PT

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Produção de energia no RN é adiada por falta de linha
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/04/11

A produção de energia em pelo menos 20 parques eólicos do Rio Grande do Norte vai atrasar em oito meses devido à falta de linhas de transmissão (linhão), segundo empresários do setor.
Os parques deveriam começar a operar em janeiro de 2013, mas o linhão (que será licitado em maio) não estará pronto a tempo.
"O governo federal não previa que a maioria dos parques [30 de 51] arrematados no leilão de agosto de 2010 seriam instalados no Rio Grande do Norte, onde há pouca capacidade de transmissão", diz o secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Benito Gama.
Para escoar a energia que será produzida, algumas linhas precisarão ser reforçadas, outras, construídas e ainda será necessário erguer uma subestação.
As empresas geradoras deveriam entregar energia a partir de janeiro, de acordo com o edital do leilão. Caso contrário, teriam de comprar o produto no mercado.
Para evitar isso, o cronograma das obras dos parques será alinhado ao da construção das linhas.
O acordo foi definido em reunião com a Aneel na última semana.
"Não é a solução ideal, mas é melhor do que as empresas terem que comprar energia", diz o secretário
Os empresários aguardam a oficialização da proposta.
No total, R$ 8,3 bilhões serão injetados em usinas eólicas no Estado até 2013. Nos parques que serão adiados, serão cerca de R$ 2,5 bilhões.

"Vai haver prejuízo para os geradores, mas foi a solução possível. Qualquer coisa diferente demandaria ação na Justiça. Prefiro um mau acordo a uma boa briga"
OTÁVIO SILVEIRA
presidente da Galvão Energia

Empresas serão prejudicadas com atraso no fluxo de caixa
Empresários obrigados a adiar o início da produção de energia dizem que terão prejuízo porque contratos com fornecedores já foram fechados e os pagamentos terão de ser feitos antes que haja um fluxo de caixa.
Otávio Silveira, presidente da Galvão Energia, afirma que precisará alterar os planos que tinha para as obras de seus quatro parques que dependem do novo linhão.
O total dos contratos da Galvão no Rio Grande do Norte é de R$ 400 milhões. A empresa planeja investir R$ 2 bilhões em energia eólica nos próximos sete anos.
Outra afetada pelo atraso é a Bioenergy. O presidente da empresa, Sérgio Marques, diz que já pagou por alguns equipamentos dos parques. A Bioenergy terá colocado R$ 340 milhões em suas usinas do Estado até 2012.
Outras quatro empresas precisarão mudar seus cronogramas.

"O atraso tira, pelo menos, o risco de exposição dos investidores, mas posterga o início das nossas operações e mostra a falta de planejamento do governo federal"
SÉRGIO MARQUES
presidente da Bioenergy

O QUE EU ESTOU LENDO
Alexandre Schwartsman, ex-BC

Ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, Alexandre Schwartsman lê "The Language Instinct" ("O Instinto da Linguagem", Martins Editora), de Steven Pinker. O autor explica o funcionamento da linguagem e como as crianças aprendem. "Explora o trabalho do [linguista] Noam Chomsky e argumenta que a linguagem é um instinto humano, moldado pela evolução." Doutor em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Schwartsman acabou de ler "Why The West Rules - For Now", de Ian Morris, ed. Farrar, Straus and Giroux. "É um apanhado de milênios de história. O ponto de partida é que a geografia, mais do que as pessoas, é a responsável por padrões de evolução. A partir de um índice, Morris constrói um painel das sociedades ocidental e oriental e mostra por que uma prevaleceu sobre a outra, à exceção dos séculos 6 e 18", diz.

DEFASAGEM ESTRUTURAL
A situação da infraestrutura brasileira é semelhante à de El Salvador, de acordo com pesquisa da EIU (Economist Intelligence Unit).
O Brasil obteve 47 dos 80 pontos possíveis e ficou na 55ª posição entre as 82 nações analisadas no estudo.
Apesar do resultado, a consultoria ponderou que o país receberá grandes investimentos nos próximos anos devido à Copa do Mundo de 2014 e à Olimpíada de 2016.
A expectativa, segundo a EIU e o BNDES, é que o governo federal invista em infraestrutura, entre 2010 e 2013, 56% a mais que o realizado de 2005 a 2008.
O Chile foi o país latino-americano mais bem avaliado, com 56 pontos.

Exportações para a Tunísia crescem 288% em um ano

As exportações do Brasil para a Tunísia no primeiro bimestre de 2011 cresceram 288% em relação ao mesmo período do ano passado.
O crescimento coincide com a instalação do novo governo após a queda do ditador Zine Ben Ali, em janeiro.
O incremento comercial, de 31,4% apenas entre o último bimestre de 2010 e o primeiro deste ano, é consequência de dois fatores, segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
"Já havia uma tendência de alta, mas, além disso, o novo governo reforçou o abastecimento de comida para evitar novas rebeliões", diz o secretário-geral da entidade, Michel Alaby.
Os cinco produtos que renderam as maiores receitas ao Brasil no comércio bilateral em 2011 foram alimentos.
Quatro deles, como milho e trigo, não eram exportados para a Tunísia em 2010.
"O governo tunisiano também está comprando mais alimentos devido ao fluxo de refugiados que tem recebido com os conflitos na sua vizinha Líbia", diz o cientista político Thiago Rodrigues.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

ALON FEUERWERKE Para completar a coisa



Para completar a coisa

ALON FEUERWERKE

CORREIO BRAZILIENSE - 03/04/11

Sem máquina partidária ou orçamentária, e sem poder buscar dinheiro na sociedade, não haverá como alguém de fora competir. E aí a obra estará arrematada 

Escrevi outro dia que, apesar do bom número de partidos, a tendência era surgirem novos. Por cissiparidade, a forma reprodutiva na qual um ser nasce da bipartição do anterior. Aritmeticamente, há excesso de partidos no Brasil.
E pelo ângulo da política? A esmagadora maioria das siglas não é propriamente partido. São tendências, facções de um megapartido, o do governo (PG).
Se você acha que alguém está fazendo um novo partido, olhe bem para ver se não é só uma sublegenda do PG.
Alianças são normais e desejáveis em sistemas multipartidários, mas o Brasil não tem coalizões de governo. O fenômeno é mais perceptível na União, mas se reproduz em estados e municípios.
No Brasil, nos diversos níveis, uma facção concentra o poder e as posições estratégicas. Às demais reserva situações orçamentárias com possibilidade de garantir alguma sobrevivência eleitoral. E só.
A dinâmica é unipartidária, não multipartidária.
Um bom exemplo é a União. Dilma Rousseff governa com um cacho de siglas, mas o PT é a única que conta quando entram em debate os assuntos decisivos.
Sobre inflação, política econômica, planejamento, política externa, defesa, educação, saúde, só dá o PT.
Os outros aparecem no noticiário atrás de cargos ou tentando escapar das confusões.
Por que a dinâmica unipartidária é hegemônica?
Porque a opinião pública concluiu que a desorganização e os vínculos privados são os principais problemas da política brasileira. Foi uma dura jornada de convencimento, mas a opinião pública chegou lá.
Todas as pressões são para organizar. E estatizar. Prazo de filiação, fidelidade partidária, poder de vida e morte outorgado às cúpulas dos partidos, constrangimentos crescentes ao financiamento privado da política. Os ingredientes estão todos aí.
Um sistema completamente organizado e estatizado vai reforçar o poder, nunca a contestação do poder.
A oposição nasce do desejo de desorganizar a ordem vigente. O sistema brasileiro vem sendo aperfeiçoado, cuidadosamente, para retirar o oxigênio de toda contestação. Contestar está cada vez mais perigoso e desestimulante.
Esta semana a comissão da reforma política do Senado aprovou o que será, se referendado pelo Congresso Nacional, o arremate no modelo. As listas fechadas e o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais.
Na lista fechada, o eleitor vota na sigla. Ela elege para as câmaras municipais, as assembleias legislativas e a Câmara dos Deputados “n” cadeiras. E manda ao Legislativo os “n” primeiros nomes de uma lista elaborada pelos dirigentes partidários.
Vale a pena olhar para uma consequência do financiamento exclusivamente público. Parece que os donos do clube decidiram que está na hora de colocar limite à entrada de novos sócios.
Quem está fora não deve se atrever a tentar entrar. E quem está dentro deve pensar duas vezes antes de fazer besteira.
Marina Silva, por exemplo, enfrenta dificuldades no PV. A cúpula do partido vai embicada para aderir a alguma outra candidatura em 2014. Deve ser a do PT, se o governo estiver bem. Mas nada impede que adira ao PSDB.
Como a lei brasileira oferece o monopólio da representação, além de dinheiro público, aos partidos, mas não exige deles qualquer democracia interna, e como Marina precisará estar filiada pelo menos um ano antes da eleição, é prudente que ela saia do PV e forme uma nova legenda.
A alternativa seria mendigar aos pés de algum dono de cartório. Concorrendo com o imbatível poder de atração orgânica do governo, ou de uma oposição que só consegue existir por ser governo em outras esferas.
E sem nenhuma garantia.
O financiamento exclusivamente público vai prever verba aos partidos novos, que não disputaram a eleição anterior? Não seria lógico. Até para não instituir, aí sim, uma linha de montagem de siglas.
Sem dinheiro público, sem máquinas orçamentárias e sem poder buscar dinheiro na sociedade, não haverá como alguém de fora nem pensar em competir.
E aí a obra estará completa. 

GOSTOSA