terça-feira, março 08, 2011

XICO GRAZIANO

Carnaval rural
XICO GRAZIANO
O Estado de S.Paulo - 08/03/11

Dizem aqui, no Brasil, que o mundo somente volta a funcionar após o carnaval. Parece verdade. Desde meados de dezembro, tudo anda devagar. Mas o dito vale apenas na cidade. Porque lá, no campo, exatamente esse período do ano configura um pega no serviço. Época de correria brava na roça.

O motivo se relaciona com a safra agrícola. Normalmente plantadas entre meados de outubro e início de dezembro, as lavouras se encontram em processo final de desenvolvimento. Primeiro, floresceram seus cachos, agora maturam seus frutos, logo secam as sementes. Nenhum descuido se permite ao agricultor nesta hora para garantir boa colheita de grãos.

Grãos alimentícios se denominam aquelas culturas temporárias, de ciclo curto, semeadas todos os anos. Algumas são também conhecidas por cereais (arroz, milho, trigo e feijão), outras, como oleaginosas (soja e amendoim). Mais difícil de catalogar é o algodão, planta notoriamente fibrosa, mas cujo caroço oferece bom óleo e excelente ração animal. Vacas adoram sua torta no cocho.

Essas culturas anuais se distinguem das lavouras permanentes, como a laranja ou a maçã, cacau e café, cujas mudas crescem e viram pequenas árvores que permanecem produzindo por décadas. Azeitonas também vêm de árvores longevas, centenárias.

Há, ainda, aquelas lavouras de duração intermediária, a exemplo da cana de açúcar, cujo ciclo de produção demora ao redor de sete anos. Nesse caso, os colmos açucarados são seccionados todos os anos da planta mãe, que rebrota novamente e lança novos perfilhos, a serem cortados no ano seguinte. Algo semelhante à cultura da bananeira.

Existem nuances, claro, como em qualquer sistematização. Certas frutas, como o mamão ou o maracujá, apresentam ciclos de produção bem mais curtos que os da fruticultura em geral. As plantas, mais frágeis, sofrem o ataque de terríveis viroses, impedindo sua permanência no mesmo terreno por um longo período. Podem ser apelidadas de rotativas.

As plantações, na agronomia clássica, sempre foram muito dependentes das estações climáticas. Na Europa, por exemplo, aguarda-se o degelo do inverno para semear o trigo e o centeio. No Sudeste brasileiro, a safra de grãos normalmente se inicia quando as chuvas, trazidas pelo calor da primavera, chegam. Mas a evolução da tecnologia anda alterando tal determinismo climático.

Vários fatores contribuem para romper o fatalismo natural que amordaçava a roça, destacando-se a irrigação, o melhoramento genético, a mecanização intensiva e sistemas de plantio. Atuando em conjunto, a tecnologia foi alterando os costumes antigos. Surgiram variedades de ciclo mais curto ou mais longo, outras precoces ou tardias, algumas resistentes ao frio ou ao calor e à seca. Chegou o plantio direto na palha.

A revolução verde ocorrida permite que hoje os agricultores de ponta sequenciem plantios na mesma área. A soja precoce, colhida cedo em fevereiro, permite ainda o plantio do milho chamado "safrinha", que amarelará em maio. Em algumas regiões do Paraná, uma terceira lavoura, chamada de inverno, é semeada - quase sempre o trigo. Já no Cerrado, após o cultivo do grão, entra a semente da braquiária, gramínea que troca a lavoura pela pecuária. É incrível.

Em suma, alternativas foram surgindo, tornando mais autônoma, porém mais complexa, a produção rural. Antes, podia-se dizer que o agricultor vivia mais calmo, embora mais apreensivo. Ele preparava o terreno e aguardava a hora de o trovão anunciar a semeadura. Depois, acendia vela contra a seca, rezava para chover no momento certo da florada e torcia contra as pestes agrícolas. Dizem, aliás, que por motivos religiosos tantas fazendas foram no passado batizadas com o nome da fé: Fazenda Sta. Clementina, Fazenda S. Rafael...!

Com a modernidade produtiva, porém, o credo cedeu lugar ao conhecimento tecnológico. E, na labuta rural, o aumento das áreas plantadas pressionou a ecologia, resultando, como consequência, no aparecimento de pragas e doenças inusitadas, algumas estrangeiras, resistentes aos agrotóxicos, difíceis de controlar. Haja trabalho no campo.

No mercado, então, nem se fale. Antes, bastava colher e enviar para a feira ou o armazém. Agora, na gôndola dos supermercados, a qualidade se impõe na produção, donas de casa refugam defeitos na mercadoria, certificação se requer. Por essas e outras, o agricultor abandonou o amadorismo e engraxou as canelas para enfrentar a correria da plantação e do comércio. Vida nada fácil.

Repare nisso. Ao contrário da cidade, onde fábricas e lojas fecham suas portas no fim de semana e nos feriados, no campo nunca cessa a produção. As plantas não deixam de crescer no domingo de carnaval, nem o gado para de pastar na quarta-feira de cinzas. Nas granjas, frangos e suínos desconhecem desfile de fantasia.

Noutro dia me irritei, novamente, com um jornalista noticiando que iria chover: "tempo ruim", disse o rapaz. Ora, depende para quem, conversei tolamente sozinho, virando-me para o rádio. Nas férias, carnaval rolando, o pessoal da cidade quer curtir a praia, desfilar bonito na passarela, namorar no portão de madrugada. Torce para não chover, quer secura na rua.

Acontece que lá no interior, não sendo brava tempestade, a chuva é uma dádiva. O solo úmido garante fartura para abastecer a turma da cidade. Além do mais, é exatamente naquela horinha boa da chuva que, sem poder trabalhar o trator por causa do barro, o homem do campo dá uma pausa para descansar na varanda. Depois, sol a pique, retoma a vida corrida.

Na brincadeira do samba, espiando a farra na televisão, pense um pouco: será que essa turma da folia conhece a dureza do carnaval rural?

Vai saber.

AGRÔNOMO, FOI SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO.

RUBENS BARBOSA

Visita de Obama e visão de futuro
RUBENS BARBOSA
 O Estado de S.Paulo - 08/03/11

Ao contrário dos Estados Unidos, no Brasil a mensagem ao Congresso Nacional, embora importante, é um ato de rotina, protocolar. O Executivo dá um tratamento burocrático ao seu conteúdo e o Congresso não se dá ao trabalho de discuti-la por sua pouca relevância.

Nos Estados Unidos, a fala do presidente à nação, chamada de "Estado da União", tão aguardada pela classe política e pela imprensa, tem um caráter mais profundo e solene. A mensagem ao Congresso faz um balanço da situação política, econômica, social e de política externa do país no ano que passou, traça as principais linhas estratégicas e apresenta propostas para o ano entrante.

A importância e os resultados da primeira visita do presidente Barack Obama ao Brasil têm merecido pertinentes análises, pelas novas possibilidades de cooperação e de entendimento em áreas mantidas em segundo plano durante os últimos oito anos. Às vésperas da chegada do mandatário americano, parece-me útil analisar a mensagem de Obama e nela destacar exemplos de políticas voltadas para o futuro e chamar a atenção para a semelhança da agenda norte-americana com a nossa.

Com grande dose de realismo, Obama deixou registrado que o mundo mudou e que, para enfrentar os desafios do crescimento da economia e da geração de emprego, os Estados Unidos precisam contar mais com seus próprios recursos e se reinventar em quatro áreas: inovação para aumentar a competitividade; educação; energia e infraestrutura; e redução dos déficits públicos, inclusive pelo enxugamento da máquina governamental.

A gravidade da crise econômica interna e as rápidas transformações no cenário internacional impuseram uma nova pauta, com forte presença do Estado, com vistas à recuperação, no médio e no longo prazos, da influência dos Estados Unidos. Apropriadamente, Obama lembrou que o futuro não é uma dádiva, mas uma conquista.

O primeiro passo para ganhar o futuro seria o estímulo à inovação a partir de investimentos do setor privado e do governo em áreas estratégicas. O programa de pesquisa e desenvolvimento atualmente em execução não tem paralelo desde o desafio do lançamento do Sputnik, um satélite, na órbita terrestre pela URSS, em 1957. Os recursos financeiros solicitados ao Congresso para investimentos em pesquisa biomédica, tecnologia da informação e, especialmente, em tecnologia de energia limpa deverão tornar realidade a utilização de energia renovável e melhorar a produtividade das usinas nucleares. Com mais pesquisas, incentivos e com a eliminação dos subsídios à indústria petrolífera, o objetivo é reduzir a forte dependência em relação ao petróleo e tornar os Estados Unidos o primeiro país a ter 1 milhão de veículos elétricos.

O segundo item é a melhoria na educação. Nos próximos dez anos, quase metade de todos os empregos nos Estados Unidos exigirá um nível de educação que irá além do diploma em escolas superiores. Incentivos serão aumentados para aprimorar a qualidade do estudo de Matemática e da Ciência e para atrair mais e melhores professores.

A terceira prioridade nesta visão de futuro é a infraestrutura. O programa "Reconstrução para o Século 21", o PAC dos Estados Unidos, será ampliado para incluir a reparação de estradas e pontes, segundo critérios econômicos, e não por manipulação política. Em 25 anos, o objetivo é fazer com que 80% dos americanos tenham acesso a trens de alta velocidade. Na área de comunicações, em cinco anos o setor privado poderá estender a próxima geração de banda larga sem fio para 98% dos americanos.

Para ajudar as empresas, o governo de Washington tem a clara percepção de que será necessário eliminar o "custo USA", barreiras que reduzem a competitividade dos produtos de exportação. Para ampliar as vendas ao exterior e gerar empregos, foi fixada a meta de dobrar as exportações até 2014. Para reduzir as barreiras ao crescimento e ao investimento, o governo de Washington está revendo a regulamentação e simplificando a burocracia interna. Regras que colocam ônus desnecessário no setor privado serão eliminadas e, na área de defesa comercial, salvaguardas serão criadas para proteger o emprego.

Um último e crítico aspecto nesta visão do futuro é a questão da dívida pública. O governo de Washington, nos próximos cinco anos, a partir de 2011, deverá cortar os gastos públicos para reduzir o déficit em mais de US$ 400 bilhões durante a próxima década. Os cortes afetarão muitos setores, como o salário dos servidores públicos federais pelos próximos dois anos e os gastos com defesa, que serão reduzidos em cerca de US$ 40 bilhões.

Como pano de fundo, o governo norte-americano está propondo uma mudança de paradigma industrial. As metas de redução do uso da energia fóssil (80% da eletricidade, em 2035, será gerada por fontes de energia limpa, eólica, solar, nuclear, carvão limpo ou gás natural) e a utilização do carro elétrico terão impacto sobre a demanda de petróleo e de etanol nas próximas décadas. Essas políticas afetarão profundamente a economia dos Estados Unidos e terão repercussões globais, inclusive no Brasil.

A visita do presidente Obama criará condições para o desenvolvimento de uma nova agenda positiva entre os dois países. A visão de futuro do governo dos Estados Unidos nas áreas de energia, em pesquisa, desenvolvimento e educação - prioridades para os dois países - é coincidente com a nossa.

Seria importante, para os próximos quatro anos, que o exemplo de determinação e ousadia do governo Obama sirva de inspiração para que, também no Brasil, políticas e objetivos sejam claramente definidos e executados, tendo como único objetivo o interesse nacional. Caso não nos consigamos reinventar, o custo político será alto e o futuro do País estará comprometido.

PRESIDENTE DO CONSELHO DE COMÉRCIO EXTERIOR DA FIESP

GOSTOSA

MÔNICA BERGAMO

O BANHEIRO DO REI
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

Em pleno Carnaval da Sapucaí, Roberto Carlos fecha a cara. Contrariado, manda desligar todas as TVs do camarote que montou para a família, amigos e funcionários no sambódromo do Rio. "Ele está horrorizado", explicava Genival Almeida, que trabalha com o rei há décadas.

Roberto ficou incomodado com as caveiras, os fantasmas, as alegorias -e, principalmente, com o tema da escola de samba Unidos da Tijuca, que passava pela avenida depois de 1h da manhã de domingo: "Esta Noite Levarei a Sua Alma". "Ele não pode com isso", dizia Dodi Sirena, empresário do rei.

No restante da madrugada, só alegria. No camarote, Roberto recebeu, além da família e dos melhores amigos, os motoristas, a copeira, a cozinheira e as empregadas que trabalham com ele há décadas -alguns há 46 anos, como Osmar Ferreira. "Fui motorista de caminhão dele. O Segundinho [filho de Roberto] me chama de pai preto. Todos os meninos encostaram nesse braço aqui", dizia Ferreira.

"Eu estou mais nervoso do que um f.d.p!", dizia o rei à coluna. Na madrugada seguinte, ele seria a estrela da Beija-Flor. Tinha receio do horário, já perto do amanhecer? "Não, eu durmo todos os dias às 3h", dizia o rei. Preparo físico ele também tem para a maratona -faz musculação todos os dias. "É que eu só sei cantar!" Desfilaria sozinho: "Você e Jesus, né?", sugere um repórter. "Boa dica! Bota aí, eu e Jesus."

"Vem conhecer o meu banheiro", dizia Roberto para a publicitária Bia Aydar. "Ele está relaxado, ótimo, uma maravilha", comentava Bia.

No camarote do prefeito Eduardo Paes, logo ao lado, petiscos de frango, bolinhos de peito de pato, miniquiches de queijo. Tudo, menos o presidente Lula, que, depois de tão anunciado, não apareceu. "Ah, o Lula parou de beber!", dizia Paes.

"Vem conhecer o meu banheiro"
ROBERTO CARLOS
na Sapucaí, antes do desfile, convidando a publicitária Bia Aydar

CERVEJA

SANDY: "É CLARO
QUE ME ENCHE!"

Só Caetano Veloso e sua namorada, a argentina Natália Mendez, causaram tanto tumulto quanto Sandy na chegada ao espaço da cervejaria Devassa no sambódromo. Ele pediu para ir -"Nós já atingimos esse patamar bem alto, não precisamos correr atrás. As pessoas querem vir ao nosso camarote", dizia a promoter Priscila Borgonovi. O cantor só pediu uma coisa: para não vestir camiseta de cerveja. Ele usou uma blusa de bebidas não alcoólicas. "Eu vim só olhar, não ganhei cachê nenhum. Tô aqui com a minha propaganda de refrigerante [na camiseta] e meu casaquinho jeans [que cobria parcialmente a marca]."

Já Sandy foi mesmo trabalhar. Seu contrato de publicidade da cervejaria previa a presença dela no camarote. A cantora teria embolsado pouco mais de R$ 1 milhão pelo pacote. "Ela vale muito mais", desconversava José Augusto Schincariol. "São muitas especulações", dizia o publicitário Aaron Suiton, da agência Mood, que contratou Sandy.

A cantora conversou com a coluna, com todas as respostas na ponta da língua. Abaixo, um resumo:

Folha - É verdade que você não gosta de cerveja?

Sandy - Eu realmente já disse isso [numa entrevista]. Mas a gente não precisa gostar exatamente do produto para fazer a propaganda. E não é que eu não gosto. É que não é a minha bebida preferida. [Cruza os dedos e beija] Mas juro por Deus que eu experimentei [a Devassa] e gostei. Achei boa, bem suave. Para quem não gosta do amargo da cerveja, é uma ótima opção.

É sempre polêmico um artista associar sua imagem a bebidas alcoólicas.
Essa é uma discussão que não cabe a nós, artistas. Somos contratados para fazer propaganda. Se é bom para nós, a gente vai lá e faz. Todos são autorizados a beber. Essa responsabilidade não cabe aos artistas. Essa discussão é para psicólogos, deputados, especialistas. Não quero me meter. A bebida é liberada. E, mesmo assim, as propagandas dizem "beba moderadamente", "se beber, não dirija".

Uma das polêmicas é que você tem uma imagem de certinha. Isso te enche?

É claro que me enche, né?! É uma imagem falsa, batida, passada e repassada! As pessoas não param para pensar que a Sandy tem família, trabalho, amigos, é um ser humano. Passam essa imagem plana, chapada, uma coisa que só a mídia coloca no ar. A vida é mais complexa que isso. Sou multifacetada.

Glória Pires entrou no espaço da Devassa vestindo a camiseta de outro camarote. Uma blusa da cervejaria logo foi providenciada para que ela segurasse, como um cartaz, para fotos. "Ai, meu Deus", reclamou Antônia, filha da atriz, com ar contrariado. Após as fotos, a família foi para o banheiro se trocar e aí, sim, circular pelo local.

A caminho da saída, Sandy para diante do músico Diogo Nogueira, que se apresentava entre os desfiles. Um grupo puxa gritos: "Devassa! Devassa!". Ela levanta o braço e responde, em tom de voz baixo: "Devassa sou eu!".

BOLEIROS

RONALDO FUMA,
BEBE E BELISCA

"O presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, me pediu pra te perguntar quando você vai para o time", diz a coluna para Neymar, no Sambódromo do Rio. "Quando ele for para o Santos", responde o craque.

Sanchez não fez a pergunta, mas aproveita a brincadeira. "Ele não vem, mas quem sabe o Ganso?" Os dois passaram boa parte do desfile das escolas no último andar do prédio da Brahma, numa espécie de camarim "VIP do VIP do VIP", onde, além de Neymar, só Ronaldo e seus amigos entravam.

"Pensei que, [com a aposentadoria], o assédio acalmasse. Um dia vai, né? Essa fase tá difícil", diz a mulher de Ronaldo, Bia Antony.

O craque começa a noite, no andar reservado, tomando Gatorade de tangerina, entre uma e outra tragada no cigarro. Perto das 4h30 da madrugada, a festa esquenta. O casal vai para a pista ver a discotecagem de Will.i.am, do Black Eyed Peas. Ronaldo rebola, dança, belisca o bumbum de amigos. "Tá estressado? Vai pescar!", diz. Toma duas latas de cerveja e três chopes em uma hora. Três seguranças interpelam fotógrafos toda vez que alguém pega uma câmera. E assim vai até as 5h30, quando o ex-jogador entra num carro preto bebendo e fumando. E, com a mulher, toma o rumo de casa.

ASTRO

AS GAROTAS DE JUDE

Com a barra da calça social preta dobrada e sapatos Oxford sem meia, Jude Law fala sobre seu encontro com Ronaldo Fenômeno, no Camarote Brahma. "Fiquei sem palavras", diz o ator inglês. O ex-craque, segundo ele, contou que vai se mudar para Londres "e me pediu algumas dicas de lugares legais para morar".

O ator conta que "prefere" cerveja a uísque. "Quando tomo bastante uísque, me meto em encrenca." "Não vejo nenhum problema em associar meu nome a uma marca de cerveja. Estou feliz em me associar a uma boa bebida e a bons anfitriões. Ok?", afirma Jude Law, já encerrando a conversa.

Depois do desfile da Portela, a que assiste com um chope claro na mão, o ator segue para uma área ainda mais reservada. Duas modelos da agência Mega são convidadas a entrar no local e ficam em um canto. "Me chamaram pra vir pra cá, mas nem falo inglês. Aliás, nem sei quem é ele", diz Rafaela Gewehr, ganhadora do concurso "Menina Fantástica", da Globo. "Nossa, ele é gayzaço. Olha essa calça!", comenta Raphaela Sirena, ex-miss Porto Alegre. "Hey, Jude! I'm an actress. My name is Narjara", grita Narjara Turetta, pedindo um autógrafo.

De repente, 15 meninas entram no cercadinho em que ele está. Thamiris Flazake, miss Rio de Janeiro, e Vanessa Tomé, ambas da agência 40 Graus, o cercam. Ele coloca as mãos nas cinturas delas e cochicha no ouvido. "Estamos falando do Carnaval. Ele tá adorando", diz Thamiris. Jude acha que "tem alguma coisa na água daqui. As brasileiras são as mais lindas mulheres do mundo".

com DIÓGENES CAMPANHA e LÍGIA MESQUITA, do Rio, e THAIS BILENKY, de São Paulo

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Nova lei atrai investimentos brasileiros ao Peru
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

Empresas brasileiras pretendem aumentar os investimentos no Peru depois que o governo local adotou, em janeiro, uma medida que facilitou a criação de parcerias público-privadas (PPPs) para obras de infraestrutura.
A flexibilização também atraiu novas companhias, que já fazem consultas sobre as regras vigentes nas licitações peruanas.
"A construtora EIT já se propôs a participar de um projeto da área de saneamento", diz o presidente da Câmara Brasil-Peru, César Augusto Maia.
O decreto, do dia 18 de janeiro, faz elogios aos investimentos privados e cria um procedimento de aprovação sumária de PPPs.
O governo do Peru também garante impostos mais baixos por dez anos às empresas que investem mais de US$ 5 milhões no país.
"Uma empresa do Rio Grande do Sul fechou seu primeiro contrato recentemente e recebemos consultas de diversas marcas do interior de São Paulo", afirma o conselheiro comercial do Peru no Brasil, Antonio Castillo.
A advocacia Manesco, Ramires, Perez, Azevedo Marques, que tem parceria com um escritório peruano, foi consultada por três empresas nos últimos dois meses.
"O decreto acelerou a burocracia para projetos de infraestrutura e estabeleceu as prioridades do país", diz o sócio Eduardo Ramires.
Hoje, mais de 40 empresas brasileiras de grande porte do setor energético e de infraestrutura têm negócios no Peru. Entre elas estão Braskem, Camargo Corrêa, Gerdau, OAS, Odebrecht, Petrobras, Vale e Votorantim.

NEGÓCIOS DA NOITE
O empresário Facundo Guerra, sócio de casas noturnas que colocaram na moda o Baixa Augusta, abrirá quatro negócios.
Serão três em São Paulo e um no Rio de Janeiro.
"Estou em busca de outras áreas para levar meus negócios a novos nichos. Houve muitos lançamentos de casas para até 700 pessoas no ano passado", diz o sócio do Vegas e do Lions.
Um dos projetos é um local para shows voltado para pessoas mais "maduras". "Há uma carência nesse segmento", afirma.
Outro setor com oportunidades de investimento, segundo Guerra, é o de casas noturnas para o público homossexual.
Os quatro imóveis já estão alugados, cada um deles com sócios diferentes.
"A primeira inauguração deve ocorrer em junho e a última delas será em dezembro", diz o empresário.

De cara nova 
A modernização de construções antigas correspondeu a cerca de 70% do faturamento da construtora carioca Lafem no ano passado. Em 2010, a empresa faturou R$ 75 milhões.

Investimento 
A Informa Exhibitons, do grupo inglês Informa, adquiriu a ExpoFarmácia, feira de negócios do setor farmacêutico. Em 2010, a empresa comprou outros dois eventos que ocorrem no Brasil. Neste ano, a companhia vai investir R$ 250 milhões nesses eventos.

Tropa... 
Ministros da Defesa de oito países, além do Brasil, confirmaram presença na abertura da Laad 2011, feira do setor de defesa e segurança na América Latina. O evento acontecerá no Rio de Janeiro, no mês de abril.

...de elite 
Os ministros são de potências militares (China, Reino Unido, Rússia e Turquia) e países emergentes (Guatemala, Paraguai, Suriname e Uruguai). A feira terá 550 empresas expositoras, de acordo com a organização.

Mulheres pedem menos aumento salarial do que homens
Pedir aumento ou promoção é hábito mais comum entre homens do que entre mulheres, segundo pesquisa da Accenture com mais de 3.400 profissionais, em 29 países, incluindo o Brasil. Enquanto 39% dos homens já pediram uma promoção, só 28% das mulheres fizeram o mesmo.
Se 48% deles pediram para ganhar mais, entre elas a parcela é de 44%.
As executivas também demonstram menos ambição de atingir cargo de diretoria, segundo o estudo. Cerca de 22% deles querem chegar lá, ante apenas 14% delas.
A pesquisa aponta que a maioria das mulheres está insatisfeita com o emprego que têm. Cerca de 43% delas está feliz na função atual. Ainda assim, 70% pretendem permanecer na companhia.

AZEITADO
A produtora de azeite de oliva Oliviers & CO abrirá mais duas lojas no Brasil até o final do ano.
As unidades serão construídas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, mas as cidades não foram definidas.
A principal executiva da empresa, Mélanie Costaris, passou cinco dias no país para analisar as potencialidades do mercado nacional.
"O Brasil tem ingredientes exclusivos e estamos discutindo a sua incorporação em nossos produtos", diz.
Nesta semana, a empresa fechará sua loja no Rio de Janeiro para implementar um novo modelo, já usado nas filiais de São Paulo.

Consignado 
A Lecca quer ampliar sua atuação no mercado de crédito consignado em SP e RJ por meio de parcerias com cidades que tenham até 2.500 servidores.

Know-how 
As parcerias público-privadas serão tema de seminário em junho, na Eslovênia. O evento é promovido pelo Azevedo Sette Advogados com o International Center for Promotion of Enterprises e o governo da Índia.

O QUE ESTOU LENDO
Caroline Daniels, CEO da Aircraft T. Publishers
"The Women", (As Mulheres), de T. C. Boyle, é o livro que a americana Caroline Daniels, CEO da Aircraft Technical Publishers, lê atualmente. O livro descreve a vida do arquiteto Frank Lloyd Wright, "seus casamentos, casos de amor, escândalos, suas finanças desorganizadas, além de seus sucessos e fracassos ligados às quatro mulheres que ele amou. Wright era fascinante, ainda que nem sempre agradável. Você tem que imaginar o que tornou esse homem brilhante tão dependente da adoração dessas mulheres", diz ela.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e ANDRÉA MACIEL

BRAZIU: O PUTEIRO

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

"O que tem na água deste País?"
SONIA RACY

O ESTADO DE SÃO PAULO - 08/03/11

Jude Law foi a maior aposta do camarote da Brahma deste ano. O ator inglês, escalado para o próximo filme de Fernando Meirelles, 360, cruzou o Atlântico para passar apenas uma noite no Brasil e, na bagagem, trouxe cinco amigos. Surgiu, sorriu, beijou a boca de Hebe e falou à coluna.

O que você acha das garotas brasileiras?


O que é isso? Vocês querem me meter em confusão?

Não, agora você está solteiro, então, pode falar tudo.

(Risos) Eu estava discutindo exatamente isso com meus amigos. O que tem na água deste País? São as mulheres mais lindas do mundo.

Como conheceu o diretor Fernando Meirelles?

Foi em uma festa na embaixada brasileira em Londres. Apesar de não conhecer muito bem o cinema brasileiro, achei maravilhosos os filmes que eu vi. O último foi com Alice Braga, minha amiga, mas não me lembro o nome (refere-se a Cidade Baixa, de Sérgio Machado).

Você pediu para se encontrar com o jogador Ronaldo no camarim. Como foi?

Uau, fiquei sem palavras. Sou um grande fã de futebol. Mas ele ficou me perguntando como é a vida em Londres. Ele quer se mudar para lá.

E sobre a Inglaterra? Você está satisfeito com as mudanças no Parlamento e a atual situação política do seu país?

A Inglaterra está ganhando uma nova roupagem. O governo, desde que foi eleito, não está fazendo exatamente o que disse que faria. Então não diria que é a melhor época para se viver lá. Mas é minha casa, então sempre manterei uma imagem positiva, especialmente porque meus filhos estão crescendo em Londres. Agora, confesso, não é, definitivamente, o melhor dos tempos da Inglaterra, inclusive comentei isso com Ronaldo.

Por quê?

Principalmente por causa da economia. Este problema causa muita apatia ou agressividade nas ruas.

Um casamento na família real está se aproximando. O que você acha da realeza?

Eu gosto da associação da família com a História. Isso é realmente interessante. Mas o casamento real? Para mim significa apenas mais um feriado. /DÉBORA BERGAMASCO

Samba, suor e...vassouras

Enquanto celebridades ocupam cada vez mais espaço na Sapucaí para desfilar, assistir a evolução das escolas, tirar fotos e fazer contatos, muita gente da comunidade aproveita o carnaval para... trabalhar.

É o caso de Maria Auxiliadora - que, como todos os entrevistados aqui, preferiu não divulgar o sobrenome. A enfermeira mangueirense optou por assistir - em vez de desfilar - sua escola de coração na avenida. Motivo? Complementar a renda familiar fazendo bico como faxineira no camarote da Devassa. "Achei mais vantagem no momento. Depois eu volto. E sobre o carnaval em si, percebo que as pessoas, de um modo geral, estão mal educadas", avalia.

Denielle, que cuida da limpeza do camarote rival, o da Brahma, e é frequentadora dos ensaios do Salgueiro, contou à coluna que não se importava com "o tal ator de Hollywood" que acabara de passar cercado por seguranças e que quase a derrubou no chão. "Menina, bonito mesmo é aquele delegado de Os Mutantes (Juan Alba, da novela da Record). Passo mal com ele."

Aliás, entre os que trabalham no camarote, Jude Law causou bem menos frisson do que o unânime Ronaldo Fenômeno. Até o ator tietou o craque: pediu que o brasileiro fosse encontrá-lo no camarim. E os dois trocaram figurinhas sobre Londres, como se pode conferir acima.

Além de Jude, quem também estreou na Sapucaí foi seu Damião. Com a ajuda de uma cunhada, ele, que nos anos anteriores assistia a festa pela televisão, conseguiu vaga de garçom no camarote da Brahma. E dá um bom argumento para estar ali a trabalho: "Quando o carnaval terminar, vai estar todo mundo duro e eu cheio de dinheiro", gargalha, revelando que já tem planos de trocar a TV.
Dentre as funcionárias mais antigas está Flávia Cristina, da Devassa. Há dez anos trabalha em "controle" do camarote. O que é controle? "Manter a ordem". Sua opinião é a de que a folia está menos alegre: "Os foliões não brincam como antigamente", afirma. Para ela, "parecem soldadinhos de chumbo desfilando".

Barman há quatro anos, Rui também concorda: "Às vezes nem parece carnaval. Não toca marchinha nem nada". E os famosos? "Não sei se gostam tanto de samba".

Ao seu lado no camarote, Caetano Veloso, que sabe sambar, sim, preferiu levantar o filho Tom nos ombros para ovacionar Ronaldinho Gaúcho que também desmente Rui. Saiu em duas escolas: Portela e Mangueira.

/DÉBORA BERGAMASCO E MARÍLIA NEUSTEIN

NIZAN GUANAES

Júnior
NIZAN GUANAES 
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

Se quiser pensar diferente, ver como o mundo está mudando, ouça seus filhos, seus netos, a turma deles


NASCI EM 9 de maio de 1958, numa casa bem modesta no Carmo.
Tem gente que tem vergonha de sua origem. Eu tenho muito orgulho. O chão da nossa casa era de cimento, não havia água encanada. Tomávamos banho a partir de uma lata de água esquentada no fogo, usando a embalagem de queijo prato como cuia.
Inesquecível.
Televisão e refrigerante, só aos sábados. Meu avô era comunista ferrenho, me botava para ler Castro Alves, Monteiro Lobato.
São essas coisas que dão forma à vida. Você é o que você é. A sua história é a sua maior diferença. O que só você pode contribuir será sempre a sua maior contribuição ao longo da sua vida toda.
Hoje, tenho 52 anos, e tudo isso ecoa numa carcaça cada vez mais velha. Ter 52 anos é chato, mas a outra opção é dramática...
Passei 157 dias no exterior no ano passado. Vendo, ouvindo, me reciclando e aprendendo.
Sou de 1958, e não há quem seja de 58 que não precise de uma boa reforma.
Sou um homem de meia-idade.
Tenho gastrite, quase uma hérnia de disco, refluxo, minha memória, principalmente a recente, se foi, minha vista é péssima.
Por causa do refluxo, meu médico disse que devo evitar gelo, água com gás, refrigerante, bebida, cigarro, pimenta, comidas condimentadas.
Ou seja, ele está pedindo a um baiano que seja um suíço.
Tudo na vida tem seu lado bom.
Eu, que sempre fui arrogante, intolerante, de péssimo humor, eu, que de tão mala, quando viajo sem mala, pago excesso, estou aprendendo com os anos a não me levar tão a sério.
Tenho três filhos. Uma menina de 25 anos e dois aborrecentes.
Os dois aborrecentes me botaram o apelido de Júnior. Porque, segundo eles, sou mais infantil e mais mimado do que eles dois.
Nem meu pior inimigo poderia ter me dado um apelido mais cáustico e mais cirúrgico.
É uma desmoralização e ao mesmo tempo uma graça ser chamado de Júnior.
Delícia maior é viajar com eles e ser esculhambado e desmoralizado na frente dos outros por criaturas que eu amo tanto.
Antes, ser pai era ensinar. Hoje, ser pai é aprender.
A última campanha do Itaú foi criada com eles. Eles me ensinam muito. Animam-me quando estou triste, baixam a minha bola quando estou me achando demais.
Adoro viajar sozinho com eles para descobrir o mundo em dimensões diferentes da minha. Passam semanas e dias inteiros comigo na China, em Roma, em Dubai, na Cidade do Cabo, na Sardenha.
Odeio e amo. Além de me chamarem de Júnior na frente das outras pessoas, no particular eles ainda me chamam de Juju.
Juju é a suprema desmoralização.
A verdade é que, como pai tardio, sou quase como um avô para meus filhos. E eles me renovam mais do que qualquer vitamina. Tantas vezes eles já me fizerem mudar de roupa, de cabelo, de pensamento.
A moral da história deste artigo é que, se você quer pensar diferente, se quer ver como o mundo está mudando, posicionar sua empresa na forma moderna, para que o futuro não seja uma ameaça, mas uma promessa, não contrate só consultores.
Ouça seus filhos, seus netos, a turma deles.
Eles esculhambam a gente, o nosso trabalho, os nossos clientes. Mas eles são ar puro entrando pela janela, guias para o presente e um atalho para o futuro.
A gente fica possesso na hora da esculhambação, dorme pensando e acorda iluminado.
E eu, Júnior, agradeço aos meus filhos por me desmoralizarem a cada segundo e me iluminarem a cada dia.
NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC

GOSTOSA

ELIANE CANTANHÊDE

Tudo igual
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

BRASÍLIA - Enquanto a Câmara e o Senado instalam comissões especiais para a reforma política, tentando, em tese, moralizar a atividade político-partidária, o quadro técnico discute como melhorar a imagem do Congresso. Não é simples.
O Datafolha detecta há tempos a descrença da opinião pública com o Congresso e, um ano atrás, registrou que 39% das pessoas têm uma má imagem do Parlamento.
Isso, porém, não é jabuticaba. A desconfiança na política e no Congresso é mundial. Na América Latina, diz o Latinobarómetro, 58% indicam o governo como instituição com mais poder; 48%, as empresas; e só 25%, o Congresso, empatado com os partidos políticos. O governo mais forte é, ora, ora, o da Venezuela (79%). O do Brasil (52%) fica pouco abaixo da média.
Nos EUA, o Gallup registrou em 2010 um recorde negativo na avaliação do Congresso: 11%, pior índice entre 16 instituições pesquisadas. Em primeiro, ficaram as Forças Armadas (76%); em segundo, as pequenas empresas (66%); em terceiro, a polícia (59%).
Na União Europeia, o índice de confiança no Parlamento é 30%, desde 74% na Dinamarca até 19% no Reino Unido, monarquia parlamentarista e sólida democracia.
Diante desses dados, a jornalista e doutora em filosofia Rejane Xavier, funcionária concursada da Câmara, disse à direção da Casa que não há muito a fazer para que os brasileiros caiam de amores (e de confiança) pelo Congresso.
"Não parece haver nada em vista que possa modificar essa situação a curto ou médio prazo", avaliou. Encerrou com o título "Inconclusão": "Terá sentido, nesse contexto, criar um indicador e aplicá-lo, sabendo que os resultados serão previsivelmente decepcionantes?"
Não, não tem. Mas faria sentido, sim, evitar nomear mensaleiros e fichas-sujas para cargos de comando e presidências de comissões no Senado e na Câmara. Seria um bom começo. Ou melhor: teria sido...

RUY CASTRO

De um jeito ou de outro, será sempre Carnaval
RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

O CARNAVAL de hoje não é mais o dos meus dez anos, em que meu pai me punha um lança-perfume na mão e me deixava na porta do baile infantil, fantasiado de Zorro. Nem o dos meus 20 anos, já como repórter, cobrindo o baile do Quitandinha para a "Manchete". Nem o dos meus 30, 40, 50 ou 60.
A cada década, novidades se incorporaram, nem todas do meu agrado. Nem por isso o Carnaval deixou de acontecer, para gáudio das gerações que o adotaram como seu e que também não devem ter gostado das novidades que se incorporaram. O Carnaval muda. Mas, em seus 300 anos de história só no Rio, "puro" e inocente ele nunca foi.
Nos séculos 18 e 19, consistia em molhar e humilhar as pessoas. Aos poucos, a agressividade foi dando lugar à alegria, à dança e a uma quase libertinagem. E, desde sempre, submeteu-se ao comércio. Por que, em 1906, surgiu o Carnaval do confete, da serpentina e do lança-perfume? Porque firmas brasileiras resolveram importá-los da França.
Não temos mais as marchinhas? Mas só as tivemos por pouco mais de 30 anos, de 1930 a meados dos anos 60. Significa que, antes de 1930, não tínhamos Carnaval? E como era a música de Carnaval antes delas? Era a que se cantava no resto do ano. Isso quer dizer que as marchinhas nos foram impostas pela Victor e pela Odeon, gravadoras estrangeiras que começavam a se instalar aqui?
E quem inventou o concurso das escolas? Os negros que "desceram dos morros"? Não. Foram os jornalistas, aliados dos foliões e que, desde o século 19, viam no Carnaval uma forma de vender jornal. Mas só em 1932 Mario Filho teve a ideia de criar um desfile oficial.
Sim, hoje o desfile das escolas está mais para um grande teatro a céu aberto, e o apelo visual esmaga a qualidade musical -não que essa fosse uma característica das escolas. Mas, há mais de 40 anos, acontece a mesma coisa na Broadway, em Nova York: os efeitos especiais para turistas sufocaram a produção de grandes melodias. Aliás, nenhum país produz hoje grandes melodias -todos continuam a cantar as velhas.
Mesmo assim, na Sapucaí, às vezes se assiste a grande samba no pé, como o dos passistas mirins da Portela, o show da bateria da Imperatriz e o possante samba que pontuou ritmicamente as loucuras de Paulo Barros na Unidos da Tijuca, na noite de domingo.
Noite que viu também a presença de Paulinho da Viola na avenida e a estreia do rubro-negro Ronaldinho Carioca (ex-Gaúcho, desfilando de graça por Portela e Mangueira) e de Gisele Bündchen (pela Vila Isabel, mas provavelmente patrocinada por um fabricante de xampu).
Um dia, talvez, as escolas troquem de vez seus passistas por trapezistas e seus diretores de harmonia por engenheiros hidráulicos. Mas, gostemos ou não, ainda será Carnaval.

NÓS NA FITA

VLADIMIR SAFATLE

O pior imposto
VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

Sempre encontramos nos jornais pregações contra a carga tributária brasileira. Não são poucos aqueles que compreendem como o maior desafio do governo desonerar os contribuintes de impostos que corroeriam os salários sem a devida contrapartida em termos de serviços públicos.
Podemos então aproveitar esse debate e lembrar: se o governo brasileiro quer, de fato, desonerar o contribuinte pessoa física, ele deveria combater esse que é o pior de todos os impostos, a saber, a mensalidade da escola particular.
Uma família de classe média que tiver dois filhos pagará, muito facilmente, entre R$ 2.000 e R$ 3.000 por mês com educação. Retirando a dedução do imposto de renda de, no máximo, R$ 2.592,29, vê-se como o gasto com educação corrói brutalmente os rendimentos.
Devemos falar, no caso das mensalidades, em imposto porque essa família não tem escolha. Ela deve pagar isso se quiser que seus filhos tenham alguma formação minimamente adequada. Atualmente, salvo raras exceções, só se coloca filho em escola pública quando não há outra opção.
Na maioria dos países desenvolvidos, a escola privada é uma escolha feita pela família, muitas vezes motivada pela procura de uma educação de cunho confessional. No Brasil, ela é uma imposição.
Assim, quando o governo discutir diminuição de impostos, deveria começar por permitir à população voltar a ter escolha entre matricular seus filhos em uma escola pública ou privada. Dar a ela a verdadeira liberdade de escolher.
Podemos ver isso como uma questão econômica fundamental. Pois, se há um imposto que trava o desenvolvimento econômico brasileiro, esse imposto é a mensalidade das escolas privadas.
Sem ele, teríamos mais dinheiro para as famílias desenvolverem seus projetos, seu empreendedorismo e seus ideais de consumo.
Mas, para além disso, teríamos ainda uma escola realmente inclusiva, onde o convívio e o respeito aos cidadãos de classes sociais distintas poderia, enfim, começar. Abandonaríamos um modelo segregacionista em que jovens de classe média passam a vida toda sem contato com classes mais baixas no ambiente escolar, isto a não ser quando alguma escola resolve fazer "estudo de meio" em favelas.
Neste momento, em que a economia brasileira transformou-se na sétima maior do mundo e que ruma, certamente, para a quinta posição dentro de uma década, chegou a hora de aprendermos algo com a China.
O plano quinquenal que ditará o desenvolvimento chinês nos próximos cinco anos tem como grande tema o "crescimento inclusivo". Isto significa deixar de pensar apenas no volume do crescimento e entender a relevância econômica da questão social.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Elogio a Moacyr Scliar
JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11

Será possível pensar na vitalidade cultural de Nova York ou São Paulo sem a impressão digital judaica?


SOUBE DA morte de Moacyr Scliar quando lia Moacyr Scliar. Haverá coisa mais irônica? Talvez não. Nem mais apropriada à leitura em causa: a editora portuguesa Cotovia resolveu publicar alguns livros fundamentais sobre o judaísmo. E um deles é "Judaísmo - Dispersão e Unidade", uma interpretação pessoal de Scliar sobre a matéria, originalmente lançada no Brasil em 2001.
E, nessa interpretação, o que abunda é a ironia: não apenas no estilo de Scliar, que sempre tive como um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos. Mas em atribuir ao humor um dos traços fundamentais da condição judaica.
O que não deixa de ser bizarro: os judeus, explica Scliar, estão longe de ser os únicos perseguidos na história. Como lembrava Churchill, a história da humanidade é a história dos seus recorrentes massacres.
Mas o que distingue os judeus não é a perseguição "per se". É a continuidade milenar dela. Como explicar essa continuidade?
Não existem respostas definitivas. Mas a melhor tentativa é de George Steiner, para quem a humanidade nunca perdoou os judeus pela suprema ousadia de terem criado um deus vigilante e castigador. A humanidade nunca perdoou os judeus por eles terem oferecido uma consciência moral aos homens.
Moacyr Scliar ocupa-se dessa "consciência moral" e, recuando até os tempos bíblicos de Canaã, desenha com palavras a monotonia do deserto e o Deus único que dele só poderia emergir. É fácil ser politeísta quando a natureza em volta reflete riqueza e diversidade. Mas, no deserto, monotonia é monoteísmo.
O monoteísmo teve consequências. Scliar não se ocupa das consequências científicas dessa verdadeira revolução intelectual: a existência de um único Deus criador, capaz de dotar o mundo de leis que podem ser racionalmente descobertas, é a base do pensamento crítico.
Scliar prefere as consequências filosóficas e, uma vez mais, humorísticas. Falar com um Deus só é diferente de falar com vários. Uma questão de "intimidade". Um Deus só, sobretudo um Deus que gosta de testar as suas criaturas com provas e provações, é mais do que um patriarca; é um companheiro de estrada, com quem vamos conversando, debatendo, por vezes provocando.
Um dos casos notáveis desse espírito encontra-se em Tevie, personagem de "Um Violinista no Telhado", que vai polvilhando a sua submissão a Deus com críticas e remoques. Inevitável: quando a vida terrena não é fácil, o cliente tem toda razão para protestar com a chefia.
E a vida não foi fácil para os judeus da diáspora. O humor é o produto dessas privações. Mas, na era moderna, o humor não foi a única saída para a condição precária dos judeus dispersos.
Muitos judeus preferiram pegar em armas, seguir o camarada Karl Marx e construir o socialismo, sobretudo na Rússia de 1917. Iniciavam um processo que, sobretudo com Stálin, acabaria por destruir a eles também.
Outros, depois do vergonhoso caso Dreyfus, que mostrou à Europa o caráter inapelável do antissemitismo mesmo na mais cosmopolita das cidades modernas, entenderam que a solução para a precariedade residia num lar nacional judaico. A criação de Israel, já depois da Segunda Guerra e do Holocausto, foi a resposta a essas aspirações.
E os restantes optaram pela emigração. Para os Estados Unidos. Para a América Latina. Para o Brasil. Será possível pensar na vitalidade cultural e científica de Nova York ou de São Paulo sem a impressão digital judaica? Sei do que falo: a perseguição e a expulsão dos judeus da península Ibérica no século 16 foi uma contribuição determinante para o atraso econômico e mental de Portugal e Espanha.
O livro de Moacyr Scliar é uma introdução brilhante para a história do judaísmo: cruzando fontes bíblicas com documentos históricos, sem esquecer a tradição oral e o sr. Woody Allen, meu único lamento é não poder continuar uma conversa epistolar com Scliar, que começou anos atrás, quando publiquei na Folha um texto crítico sobre sua santidade Simone Weil.
Minha derradeira esperança é poder continuar a conversa lá em cima, quando minha hora chegar. Só espero que, nas portas do paraíso, Scliar possa dizer a mim o que ele esperava que Deus lhe dissesse: "Já não era sem tempo".

GOSTOSA

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Digressões momescas
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/03/11


SÃO PAULO - Aécio Neves chega para fazer a sua boquinha na badalada Feijoada do Amaral. Vestido a caráter, estampando a "Devassa" no peito, se deixa fotografar com os patrocinadores da comilança momesca. "É um grande parceiro nosso", diz o anfitrião Adriano Schincariol. Uma socialite de São Paulo se levanta para beijar o senador mineiro: "Você jura que vai ser o nosso presidente?". É o sexo explícito no país do Carnaval.
Políticos não deveriam fazer propaganda de empresas privadas -parece elementar. Mas trocam seu prestígio e influência pelas mordomias dos espaços VIPs. São parceiros da promiscuidade entre o público e o particular, porta-estandartes do exclusivismo social a abrilhantar dos camarotes descolados a "festa bonita do povo".
Artistas, astros do futebol, modeletes, figurinhas que orbitam a "high society" se oferecem ao voyeurismo telecarnavalesco. A folia, de certa forma, se confunde com esse desfile vulgar de celebridades. Estão se divertido ou estão trabalhando? Curtem as delícias do ócio ou estão ali fazendo o seu negócio? Quanto vale cada fantasia? Oh, quanto riso, oh, quanta alegria!...
Salpicada de purpurinas, mamãe Galisteu exibe o corpucho, mais pelado do que vestido, para as câmeras. "Ela emagreceu 16 quilos em poucos meses", informa a repórter, reverenciando tanta determinação. Galisteu é uma sobrevivente num mercado ultracompetitivo, a rainha da reciclagem num mundo de descartáveis.
O culto ao peladismo, no entanto, parece em baixa. As "musas" estão mais pudicas e mais musculosas. A moda, pelo que espio, são barrigas-tanquinho e coxas parrudas, acintosamente modeladas pela malhação. O narcisismo de hoje é viril, de inspiração ultraesportiva.
Submetida aos caprichos do dinheiro, a festa da transgressão e do orgulho nacionais chega aos lares em versão familiar. Devassa, agora, é só um nome de cerveja. E até os políticos podem brincar o Carnaval.

CLÁUDIO HUMBERTO


"Hoje acho possível dizer: o Brasil tem alcance global verdadeiro"
Antonio Patriota (Relações Exteriores)sobre o País que se “comunica com o mundo”

Vagão de metrô do Rio 'entala' em túnel
A polêmica linha 4 do metrô do Rio, que, ao custo de R$ 5 bilhões, ligará Ipanema (Sul) à Barra (Oeste) para as Olimpíadas de 2016, pode atrasar por um inusitado detalhe: a altura dos trens, já comprados, impedirá a passagem pelos três túneis do trajeto. O problema é alvo de um estudo do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, que critica o traçado e o alto custo do projeto da expansão do metrô carioca.

Negócio da China

Comprados da China por US$ 1,3 milhão, os vagões têm ar condicionado na parte superior - diferente dos trens da SuperVia.

Supervisão

O túnel de serviço já está pronto, e o governo prometeu o metrô nos trilhos no final de 2015, supervisionado pelo Consórcio de Madri.

Carrinho

O Brasil tem, em dezembro de 2012, um jogo amistoso com a Líbia, em Tripoli. Teria: a construção do "maior estádio do Norte da África" já era.

Hibernando

Deve ser para manter o "perfil baixo": a presidenta Dilma, que prometeu "conversar mais em 2011", abandonou o Twitter em dezembro.

Suborno

As imagens são a prova mais contundente de que a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) recebeu dinheiro sujo de Durval Barbosa, o delator do mensalão do DEM. Mas o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), condiciona eventuais providências a "informações" que pretende solicitar ao Ministério Público Federal. Até acha as imagens "fortes", mas nem sequer encaminhou o caso à Corregedoria da Casa.

Mais um

O deputado Marco Maia, aos poucos, vira mais um político que esquece a própria pregação moralizadora e transformadora.

Pizzaria

A coreografia da impunidade está definida: como o suborno a Jaqueline Roriz ocorreu antes da última eleição, o mandato dela não corre risco.

Na onda

O Egito é longe, mas convocação na internet promete "um milhão de pessoas na Av. Paulista, sábado (12), pela "demissão dos políticos".

Última fila

Dados de 2010, do Ministério do Planejamento: militares ganham 32% menos que deputados e senadores, 36% menos que o Judiciário, enquanto a administração direta recebe 74% mais. Todos civis.

Reviravolta?

Na primeira semana após o carnaval, o STF decidirá sobre a Lei do Ficha Limpa. Podem deixar o Senado Wilson Santiago (PB), Gilvan Borges (AP) e Marinor Brito (PA). Entrariam Cassio Cunha Lima (PSDB-PB), João Capiberibe (PSB-AP) e Jáder Barbalho (PMDB-PA).

Primo rico

Estranho país, o Brasil, onde presidentes passam férias e feriados por nossa conta, em paraísos variados. Nos EUA, Obama foi chamado de "novo rico" por tirar do bolso US$ 35 mil para alugar uma casa na praia.

Ela é sabida

Para se valorizar, a senadora Marta Suplicy (PT-SP) ameaça criar confusão na escolha do candidato do PT à prefeitura paulista. Aposta no impasse para ser chamada a ocupar ministério do Governo Dilma.

Tramitação a jato

O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), tem pressa de votar o projeto liberando a exploração da TV a cabo para empresas de telefonia. Cumpre missão de Dilma para levá-lo ao plenário.

PODER SEM PUDOR

Criação divina
Quando era presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, certa vez, quase teve um troço de tanto rir. Com ar sério, o 4º secretário da mesa, deputado João Caldas (PR-AL), ensaiou a defesa de nomear filhos de políticos para cargo público, como faz Severino, "desde que sejam bem preparados". E arrematou:
- Se Deus, que é Deus, quando quis salvar o mundo, confiou a tarefa ao filho, por que nós, seus servos, não podemos fazer o mesmo?...

CARNAVAL

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Tem Darwin na Passarela
Folha: EUA cogitam enviar armas aos rebeldes anti-Gaddafi
Estadão: Forças de Kadafi avançam e Otan estuda intervir na Líbia
Correio: Até a Câmara admite investigar Jaqueline
Jornal do Commercio: A folia é delas
Zero Hora: Sem conseguir impor teto, Piratini já paga salário de R$ 52,6 mil