sexta-feira, dezembro 03, 2010

MÍRIAM LEITÃO

Conflito criado
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 03/12/10


Os estados produtores de petróleo começaram a perder quando o governo decidiu mudar o sistema de concessão para o de partilha; perderam de novo quando foram cedidos os bilhões de barris para a Petrobras e perderão outra vez, mesmo que o presidente Lula vete a emenda da nova distribuição dos royalties. Estão também sob ataque as leis, os contratos e a paz federativa.

Nem o Rio, nem o Espírito Santo são contra a ideia de que a riqueza do pré-sal seja compartilhada. E por causa dessa disposição é que se fechou um acordo numa longa reunião noturna que foi presidida e patrocinada pelo presidente Lula, no Centro Cultural Banco do Brasil.

Naquela reunião, o presidente Lula garantiu que as mudanças da distribuição dos royalties só ocorreriam com áreas a serem licitadas futuramente no pré-sal. Mas tudo o que foi feito até agora - mesmo que seja vetado - muda o passado.

Lula prometeu também que não misturaria mudança de marco regulatório com nova distribuição de royalties. Mas acabou misturando sim, por ação de aliados. Depois, o que já era ruim piorou quando o deputado Ibsen Pinheiro e depois o senador Pedro Simon incluíram emendas que redistribuíam de forma mais radical os royalties. O ministro Alexandre Padilha disse que o acordo Cabral-Lula não vale mais porque o Congresso derrubou, mas é nesse acordo que o governador Sérgio Cabral está confiando.

O presidente Lula muito provavelmente vetará a emenda Simon. Apenas porque está preocupado com a União, porque no texto da proposta aprovada pelo Congresso está escrito que a União compensará os estados produtores pelas suas perdas. É bem verdade que o texto é vago: não diz como nem em quanto compensará. Mesmo que vete, o estrago já está feito: algumas perdas já aconteceram e outras podem acontecer. O governador Paulo Hartung, do Espírito Santo, diz que o estado está mobilizado para lutar por seus direitos e está preparado para a batalha judicial que virá:

-Não temos nada contra a riqueza do pré-sal ser partilhada com todos os estados, uma parte grande ficará com a União que a distribuirá, os estados não produtores vão receber também, como negociamos. Mas o que não se pode é jogar 24 estados contra dois, não se pode é mudar contratos, do contrário estará legitimada a ideia de que se pode ver a fruta bonita no quintal alheio e ir lá pegar.

Já o governador Sérgio Cabral disse ontem o seguinte:

- Se existe uma pessoa a quem o Rio tem que agradecer é ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nem parece ser o mesmo governador que dias atrás entrou no Supremo Tribunal Federal (STF) reclamando perdas de R$25 bilhões impostas pela União ao estado na cessão onerosa de petróleo para a Petrobras. A verdade é que, a despeito de acertos nas relações entre União e o Rio, as decisões do presidente Lula na área de petróleo implicam em perdas principalmente para o Rio.

O modelo atual de concessão dá dois tipos de impostos para os estados produtores: participação especial e royalties. O novo modelo acaba com a participação especial. A alíquota dos royalties aumenta, mas a receita passa a ser dividida de outra forma. Qual? Isso é que está em discussão. Em qualquer modelo, os estados produtores perderão, mas o modelo aprovado no Congresso é uma verdadeira expropriação. Outra dúvida é: para que petróleo vale a nova regra? O ex-diretor da Petrobras Wagner Freire entende que vale para todo o petróleo no pré ou no pós-sal, ou seja, rasga contratos existentes:

-A proposta fala em todos os campos em produção no "polígono do pré-sal", isso significa que abrange o que estiver também no pós-sal. E nesse polígono estão 85% do que o Brasil produz hoje, o que significa dizer que retroage a contratos já existentes, o que é obviamente inconstitucional.

O Rio é o estado que mais perde porque ele tem outra fonte de sangria na cessão onerosa: 85% dos blocos cedidos à Petrobras pela União estão na área do Rio, 15%, em São Paulo, e nada, no Espírito Santo. Mesmo que o Rio receba royalties por esse petróleo, quando ele for extraído, não receberá participação especial. Quando foi feita a cessão, o novo marco regulatório, que acaba com a participação especial, não estava aprovado no Congresso. A aprovação acaba de acontecer agora, e a cessão já ocorreu em setembro.

O assunto é confuso mesmo, mas quem confundiu tudo, para dividir e ficar com a melhor parte foi o governo Lula, a quem, segundo o governador, os cariocas têm que agradecer.

No Espírito Santo, o atual e o futuro governador estão com outra atitude.

-O estado sempre foi colocado à margem do desenvolvimento nacional, o petróleo é nossa janela de oportunidade e não vamos perdê-la. Vamos reagir e estamos preparados juridicamente para a discussão. No volume de produção atual perdemos R$300 milhões por ano, o que é muito para nós, mas a produção está aumentando, e a perda subiria para R$500 milhões. Mas a pior perda de todo esse processo é que a solidariedade federativa, que sempre prevaleceu no Brasil, está virando um vale tudo - diz Hartung.

Há outras confusões. Tanto o Rio quanto o Espírito Santo venderam royalties à União. Como a mudança pega inclusive o que já está em produção, isso significa que está sendo redistribuído o que os dois estados já venderam. Isso vai sendo descontado dos estados. O do Espírito Santo vence daqui a três anos. O do Rio, só em 2019.

Mas o pior prejuízo é o causado pelo clima de conflito entre os entes federados que o governo Lula iniciou com esse processo.

Com Alvaro Gribel

GOSTOSA

MARCOS SÁ CORRÊA

Só falta quilombo no Jardim
Marcos Sá Corrêa 


O Estado de S.Paulo - 03/12/10
Não podia faltar o dedo da ONG Koinonia no projeto para entronizar as invasões do Jardim Botânico num Museu do Horto, contando a própria história do arboreto bicentenário. O museu deve ser coisa grande e urgente. Tem R$ 1,8 milhão para se instalar e quase a metade de seu orçamento reservada ao pagamento do pessoal que, mesmo trabalhando pela causa, não é de ferro.
Com essa verba, daria para fazer um programa habitacional de fina lavra para os moradores que se sentem na fila do despejo judicial. Mas a ideia, ali, não é bem essa. Patrocinada por uma rede ecumênica de doadores que inclui a Fundação Ford, a Agência Canadense de Desenvolvimento, a Igreja norueguesa e até um Fundo Mundial para o Socorro dos Primatas, a Koinonia devota seus melhores esforços ao avanço de "grupos histórica e culturalmente vulneráveis".
Recuar, portanto, não é com ela. E nós, brasileiros, temos, não é de hoje, "grupos histórica e culturalmente vulneráveis" para todas vocações catequéticas. Já era assim quando os missionários desembarcaram aqui, na proa do comércio ultramarino, para dilatar "a Fé e o Império" em nome de organizações sem fins lucrativos, como a Koinonia. Ela tem sede em Greenville, na Carolina do Norte. Mas se sente num mundo sem fronteiras, abarcando "numerosas etnias, realidades socioeconômicas, modos de vida e idades".
Busca uma "unidade multicultural" de "alcance global". Afinal, koinonia, em grego, é comunhão. E ela se declara "uma igreja em movimento pelo, para e via o poder de Deus". Instalou-se como tal no Brasil em 1994.
Desde então, parece estar em todas. Na última campanha presidencial, durante a crise de fervor religioso da candidata Dilma Rousseff, veiculou um abaixo-assinado com as promessas de voto, as queixas e as expectativas do Povo Tradicional de Terreiro. A carta criticava o conchavo da candidata "com pastores evangélicos", num "infeliz episódio". Reavivava "as denúncias e mais denúncias" sobre o "repasses de verbas, convênios e parcerias de governos municipais, estaduais e federal" a entidades pentecostais, "que não foram cumpridos ou foram usados de forma indevida, criminosa até".
Prometia-lhe o apoio da "População Negra". E agendava com a presidente um encontro formal com os representantes nacionais do Povo Tradicional de Terreiro, "após as eleições, onde a senhora, com a ajuda dos Vòdúns, Nkices, Òrisá''s, Encantados, Caboclos, Castiços e Exús, será vitoriosa".
O encontro lhe encomendaria a revisão do Estatuto da Igualdade Racial, que até agora não ouviu "a População Negra e suas demandas".
Como pode acontecer com o Museu do Horto, um dos vínculos que selaram a aliança da Koinonia com o Povo Tradicional de Terreiro foi a organização de centros de memória para o candomblé.
E, com a População Negra, funciona um pacto de apoio incondicional à titulação fundiária dos quilombos, em sua acepção mais vaga - a da semântica antropológica, que ultimamente passou a considerar quilombo tudo o que se diz quilombo. Eles já são 743, em 21 estados. A Secretaria Especial para a Promoção da Igualdade Racional - gestora do tal estatuto que o Povo Tradicional de Terreiro acha insatisfatório - estima seu número em "pelo menos" 3 mil.
A vereadora Andrea Gouvêa Vieira levantou uma ponta desse novelo, ao declarar que não é só o futuro das invasões do arboreto que está em jogo no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Talvez esteja em gestação um quilombo do Horto. Não seria a primeira semente exótica a vingar naquele espaço, onde tudo pega. Nem no Brasil, onde já prevenia a Carta do Descobrimento que a terra "de tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". 

ANCELMO GÓIS

Saudades de Paul
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 03/12/10



Piadinha que circulava ontem em Madri depois da derrota da Espanha para a Rússia na disputa para sediar a Copa de 2018.
“Depois que morreu o polvo Paul, que previu todas as vitórias da Espanha na Copa, o país só leva surras no futebol, inclusive, nos jogos contra Argentina (4 a 1) e Portugal (4 a 0).”

PERDE E GANHA...


Ricardo Teixeira, que era eleitor da Espanha, ajudou o Qatar na disputa pela sede da Copa de 2022. O emir Hamad bin Khalifa Al-Thani, assim que saiu o resultado, abraçou Teixeira e disse: – Nunca vou esquecer o que você fez pelo meu país.


ALIÁS...


O Brasil continua sendo o único país que organiza, ao mesmo tempo, uma Copa (14) e uma Olimpíada (16).
É que a Inglaterra, organizadora dos Jogos de 2012, não foi escolhida para a Copa de 2018.


SEGURANÇA EM DOBRO


Lula confirmou presença, segunda, na festa Craques do Brasileirão, no Municipal do Rio.
Mas, como o bicho está pegando na cidade, a segurança do presidente vai revistar todo mundo, e as portas do teatro serão fechadas às 20 horas.


30 MOEDAS DO PASTOR


Em agosto, o pastor Everaldo, que vinha pedindo aos fiéis orações e votos em Serra, mudou de lado, levou seu PSC a apoiar Dilma e garantiu a petista mais três minutos na TV. Ontem, o TSE divulgou que o PT doou ao PSC, na campanha, R$ 4,7 milhões.


COLEGUINHA


Fernando Gabeira, que deixa a Câmara depois de perder a eleição para governador do Rio, vai voltar às redações.
O deputado, que foi redator do JB antes de entrar na luta armada, vai fazer reportagens, fotografar e escrever artigos no Estadão e na revista Piauí.


PEDAÇO DO MARACANÃ


Sérgio Cabral ainda ganha o prêmio de marketing do ano.
No jantar, quarta, em Buenos Aires, com o governador da capital argentina, Daniel Scioli, Cabral deu, veja a sacada, uma caixa com uma pedra tirada da demolição do Maracanã.


MURO DE BERLIM...


O mimo não se compara a um pedaço Muro de Berlim, que, até hoje, é vendido em lojas na Alemanha.
Mas o Maracanã tem seu valor no mundo todo.


PRA NÃO DIZER QUE...


Geraldo Vandré, terça, foi assistir a uma palestra de Frei Betto, em Teresópolis, RJ.
O autor de Pra não dizer que não falei das flores é, hoje, um homem recluso.


A VEZ DO MORRO I


O programa Empresa Bacana, parceria da prefeitura do Rio com o Sebrae para formalizar pequenos negócios em comunidades com UPP, chegou à marca de 1.000 empresas regularizadas nas favelas do Borel, da Providência e na Cidade de Deus.
O desafio posto agora ao pessoal por Eduardo Paes é entrar no Alemão e na Vila Cruzeiro.


A VEZ DO MORRO II


Nestes dias de guerra no Rio, a Secretaria municipal de Cultura e o Ministério da Justiça lançaram um edital para financiar 300 projetos culturais de artistas miúdos em favelas e comunidades da cidade.
As inscrições, só para jovens de 15 a 29 anos, ficam abertas até 30 de dezembro.

2 ESCROTOS

JOÃO MELLÃO NETO

Dona Dilma

João Mellão Neto 


O Estado de S.Paulo - 03/12/10
A partir do ano que vem, estará em suas mãos o destino de nosso país. A senhora já parou para refletir sobre o que isso significa? Quase 200 milhões de pessoas clamando o seu nome - e depositando nele o seu destino e suas esperanças - e a senhora sozinha, lá no topo do morro, com os ventos da História açoitando o seu rosto... Sem dúvida, é uma responsabilidade descomunal. Perguntas incômodas hão de lhe assaltar a mente: por que eu e não outro? Será que tenho condições para me desincumbir bem do papel que me foi atribuído? Eu tenho realmente todas as qualidades necessárias para essa tarefa? Deus estará sempre me guiando, protegendo e abençoando?
Esses questionamentos são naturais. Ocorrem sempre a quem assume o poder. E não raramente, a partir deles, os governantes desenvolvem um recorrente senso místico.
Não foram poucos os presidentes dos Estados Unidos da América que relataram ter conversado com Deus. No sentido figurado ou não. Outros disseram que de madrugada, na vastidão dos corredores da Casa Branca, teriam consultado seus antecessores - cujos retratos se encontram todos nas paredes.
Aqui, na nossa mágica América Latina - onde o misticismo faz parte da cultura do cotidiano -, tais epifanias ocorrem com frequência ainda maior. É de praxe os dignitários, por aqui, afirmarem que chegaram ao poder para cumprir uma missão divina. E acreditam sinceramente nisso. O problema é que, no nosso subcontinente, as instituições são ainda muito frágeis. A gente acostumou-se a atribuir à pessoa do presidente tudo de bom e de ruim que acontece no país. É muita responsabilidade. A quem ou a que recorrer - ou evocar - na hora de tomar decisões difíceis?
Não dá, na verdade, para confiar cegamente em ninguém. Todos os áulicos que infestam a sua corte não passam, realmente, disso. São meros bajuladores. Os conselhos que eles venham a dar-lhe não são sábios nem desinteressados. Geralmente, segui-los é caminho certo para o abismo.
O jeito, mesmo, é se abrir com Deus. Somente a Ele a senhora pode expor suas dúvidas, fraquezas e inseguranças. Se, no passado, a fé ideológica lhe bastava e a munia de grandes certezas (lembra-se de sua opção juvenil pela luta política clandestina?), agora as coisas são diferentes. Se, por acaso, até aqui a senhora, intimamente, não acreditava em Deus, é melhor começar a acreditar. Ele, e só Ele, pode dar-lhe, com total isenção, as respostas de que a senhora precisa.
Não se deixe levar pelas bravatas do seu antecessor. A partir de janeiro, quem terá o poder e a responsabilidade por tudo o que vier a acontecer é a senhora. Os conselhos de Lula pouco lhe hão de ser úteis. A experiência de vida dele é única e intransferível. Não caia na tentação de imitá-lo. Lembre-se de que essa autoconfiança que hoje ele exibe foi esculpida a partir de um primeiro mandato presidencial - no qual ele só levou bordoada - e de três candidaturas fracassadas. A pele dele já está curtida. Não é o seu caso.
Por falar em Lula, por acaso a senhora já pensou no que vai fazer com ele depois de sua posse? O homem está em êxtase. Quem haverá de desligá-lo da tomada?
Não há, em nossa História republicana e democrática, um único caso em que a criatura não se tenha voltado contra o criador. E é natural que assim seja. Chorar um morto não significa querer ressuscitá-lo...
Por mais grata a ele que a senhora seja, depois que se sentar naquela cadeira as coisas mudam de figura. A caneta que nomeia e demite estará exclusivamente em suas mãos. E todo e qualquer palpite que ele vier a dar, depois disso, será recebido como extremamente importuno. Se não pela senhora, com certeza pelos seus auxiliares. Uma nova corte se formará no seu entorno, dona Dilma. E seus membros se sentirão ameaçados por qualquer intervenção que o seu ex venha a fazer.
Pois já não é voz corrente, nos meios políticos, que Lula pretende voltar em 2014? Se isso for verdade, é melhor a senhora se precaver. A candidatura natural é a sua, para postular a reeleição. A senhora comprometeu-se com ele a não se recandidatar? Isso a senhora diz agora. Com exceção de Pôncio Pilatos, ninguém jamais entrou na História por acaso.
Lula só sairá vitorioso - se for esse o seu intento - se o governo da senhora for um fracasso. Já pensou nisso?
Outro aspecto para o qual a senhora deveria atentar é com relação àqueles que estarão ao seu redor: no dia 1.º de janeiro, a senhora vai dormir no Palácio do Alvorada, em companhia da senhora sua mãe. Antes de se deitar, preste atenção aos ruídos. No palácio vizinho, o do Jaburu, estará instalado o seu vice. E, pelo que se conhece dele e de seu partido, todas as noites, por ali, haverá festa.
Ao apagar as luzes de sua residência, a senhora perceberá que logo ali ao lado as luzes nunca se apagam. Todas as noites haverá um entra e sai permanente de políticos. Enquanto eles estiverem apenas festejando, tudo bem. O problema surgirá quando eles começarem a urdir intrigas e conspirações. E isso está inscrito no DNA da categoria.
Ciente de tal circunstância, a senhora conseguirá repousar tranquila? Durma-se com um barulho desses...
Uma coisa que eu gostei na senhora foi o pensamento que atribuiu ao seu pai: "Não se deve nunca confiar nas virtudes dos homens, deve-se apostar é nas instituições."
Interessante. Quem sempre pregou isso somos nós, os liberais. Essa é a pedra fundamental de nossa doutrina. É muito auspicioso saber que a senhora também pensa assim.
No mais, além de desejar boa sorte, arrisco dar-lhe um conselho. Já vivi em Brasília muitos anos e pude acompanhar muitos presidentes. Nunca pule de alegria. Alguém tratará de lhe puxar o tapete.
JORNALISTA, DEPUTADO ESTADUAL, FOI DEPUTADO FEDERAL, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO

LUIZ GARCIA

Apetites
LUIS GARCIA
O GLOBO - 03/12/10


Como é mesmo que se monta uma equipe de governo? Um inocente pode imaginar algo mais ou menos assim:

1. Para cada posição, escolhe-se a pessoa considerada mais capaz de uma gestão eficiente e honesta.

2. Verifica-se se o escolhido está interessado.

3. Assina-se o decreto de nomeação.

Na vida real pelo menos na nossa vida real: na Finlândia, talvez seja como imaginamos ? não é bem assim. Acompanhemos o exemplo da formação da equipe da presidente eleita, Dilma Rousseff. Ela está escolhendo nomes dentro de um sistema de quotas (ou cotas, como se preferir), atribuídas aos partidos e facções políticas que a elegeram. Em países com apenas dois partidos, é bem mais fácil. Aqui, a coisa pode se complicar bastante.

Por exemplo, no caso do aliadíssimo PMDB. O governador Sérgio Cabral indicou o seu secretário de Saúde para o Ministério idem, sem problema. Mas o que não é comum vetou a ressurreição do ex-governador Moreira Franco para a pasta das Cidades.

Moreira andava meio fora de foco desde a sua passagem não exatamente gloriosa pelo governo fluminense. Agora, quer ser ministro das Cidades. Tem o apoio do vice-presidente eleito, Michel Temer, mas frágil adesão dos peemedebistas do Rio que, pelo visto, têm boa memória. A passagem de Moreira pelo governo fluminense não foi exatamente brilhante.

E há o curioso problema das quotas. Dilma até aceita nomear Moreira, desde que ele faça parte da quota da Câmara dos Deputados. Não pode ser na fatia do PMDB, segundo Dilma, porque esta já estaria lotada. O partido apoia Wagner Rossi, também apadrinhado por Temer. Insistindo no nome do ex-governador, ele teria, pelo menos em tese, de desistir da indicação de Rossi.

Dilma tem ainda pela frente outro problema, que também envolve as relações com o PMDB: o deputado Eduardo Cunha ? por acaso, ou não, também da bancada fluminense ? é considerado o pai do bloco de cinco partidos, com 202 deputados, que disputa com o PT fatias do poder no próximo governo. É um problema para Dilma com certeza mais preocupante do que o aborrecimento em relação a Moreira Franco. E, talvez, sintoma de que a aliança PT-PMDB funcionou muito melhor na disputa eleitoral do que na divisão do poder.

Quem sabe, existe na imensa máquina oficial um lugar para Moreira que satisfaça o vice-presidente sem irritar a bancada aliada. Se for assim, o atual desentendimento pode se reduzir a um lembrete: nos banquetes políticos, o apetite à volta da mesa é sempre maior do que o que é servido nas bandejas.

GOSTOSA

WASHINGTON NOVAES

Cancún entre a cruz e a caldeirinha

Washington Novaes 


O Estado de S.Paulo - 03/12/10
Não surpreenderá nem mesmo os empregados do setor da limpeza, encarregados a cada dia de retirar algumas toneladas de resíduos deixados por milhares de participantes da reunião da Convenção do Clima, em Cancún, se esta terminar sem nenhum acordo importante, apesar da gravidade da situação no mundo, que já provocou alertas até de Osama bin Laden (Associated Press, 2/10). Afinal, o próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, já disse que não espera um acordo global para este ano ("talvez em 2011"); a secretária-geral da Convenção, Christiana Figueres, deixou claro que o "business" e as divergências entre países industrializados e os demais bloqueiam as negociações; Todd Stern, o representante norte-americano, afirma que seu país não abre mão de compromissos obrigatórios de redução de emissões na China e na Índia - que não os aceitam, com apoio dos demais "emergentes", inclusive o Brasil. E não bastasse tudo isso, a crise econômica no mundo leva cada um dos 194 países participantes a agir com extrema cautela. Como chegar, nessas condições, a acordos relevantes, se as convenções da ONU exigem, para isso, consenso?
Não bastasse tudo isso, o malogro da agenda ambiental do presidente Barack Obama - bloqueada pelos republicanos no Congresso - está levando mesmo os países industrializados a descrer de acordos em âmbito global. Já não falta quem proponha que se tente chegar a acordos parciais no âmbito do G-8 ou do G-20, capazes de influenciar também acordos comerciais e levar à redução das emissões de gases que intensificam mudanças do clima. Até mesmo uma prorrogação do Protocolo de Kyoto (que expira em 2012) parece difícil a esta altura, embora tenha ajudado países industrializados a reduzir seu balanço de emissões e criado um mercado mundial de carbono. A Rússia (que baixou suas emissões em 33% com o processo de desindustrialização) já deixou claro que novo protocolo só com a adesão dos Estados Unidos e da China; e o Japão não quer novo protocolo.
Enquanto isso, relatório do WWF alerta que as emissões de poluentes podem superar 40 gigatoneladas em 2020 e comprometer a meta de a temperatura não aumentar mais que 2 graus Celsius; se for feito apenas o que se pensou em Copenhague, as emissões daqui a dez anos ficarão entre 47,9 e 53,6 gigatoneladas. Sir Nicholas Stern, o respeitado consultor do governo britânico, adverte que até 2030 as emissões não podem ultrapassar o nível em que estão hoje, também para não ultrapassar 2 graus. Segundo a revista Nature, citada pela New Scientist (19/9), nada menos que 750 gigatoneladas de poluentes podem ser liberadas na atmosfera até 2050 (hoje, só Estados Unidos e China, juntos, emitem 12 gigatoneladas por ano). A própria ONU (Folha de S.Paulo, 23/11) acha muito difícil que não se ultrapassem os 2 graus na temperatura. Em 2009 as emissões globais caíram 1,3% (em relação a 2008), com as reduções nos países industrializados, por causa da crise econômica. Mas aumentaram 8% na China, 6,2% na Índia. E podem voltar a crescer no balanço de 2010. Um dos números mais favoráveis é o que aponta queda de 25% nas emissões por desmatamento nesta primeira década do século 21.
Para o Brasil o panorama parece um pouco melhor. Foi, afinal, regulamentada a lei da política nacional do clima e as emissões baixaram do pico de 2,675 gigatoneladas equivalentes de dióxido de carbono (2004) para 1,775 gigatonelada (2009), segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia - ou seja, menos 33,6%, graças em grande parte à queda do desmatamento na Amazônia (a meta é reduzi-lo em 80% até 2020, juntamente com 40% no Cerrado).
Uma das áreas mais complicadas é a da emissão de metano pelo gado bovino, várias vezes já comentada neste espaço. Afirma o Financial Times (29/11) que as emissões na pecuária superam as de aviões, trens e automóveis, juntos. No mundo, seriam 1,3 bilhão de cabeças de gado bovino (além de 1 bilhão de ovelhas e 16 bilhões de frangos). Cada boi emitindo 58 quilos por ano e o metano sendo 23 vezes mais prejudicial na atmosfera que o carbono, chega-se a números astronômicos (no Brasil, 205 milhões de cabeças multiplicadas por 58 quilos/ano serão quase 12 milhões de toneladas anuais; multiplicadas por 23, darão o total de mais de 270 milhões de toneladas).
No mundo, diz aquele jornal, o consumo de carne tem crescido muito, assim como o de laticínios e ovos. Na China, quase cinco vezes em 25 anos, para chegar a 59,5 quilos anuais. Nos países industrializados, o consumo de carne está em mais de 80 quilos anuais por pessoa, embora com a tendência de deslocar-se da carne bovina para a de frangos e peixes. Nos demais países, a média está em 13,3 quilos anuais.
É um panorama muito preocupante também para o Brasil o do clima, já que o próprio Boletim do Ipea (n.º 4) registra que a temperatura por aqui pode elevar-se até 8 graus neste século. O Serviço Geológico do Brasil diz que o volume de chuvas no Distrito Federal e em Goiás caiu 6,58% entre 1974 e 2008. A seca do Rio Negro, no Amazonas, foi este ano a maior em um século.
Como se fará, em Cancún e outros fóruns, para superar questões como as da China e da Índia, que querem urbanizar e aumentar o consumo de milhões de pessoas - e pretendem usar mais carvão para gerar energia? Ou para resolver o problema de 1 bilhão de pessoas que passam fome no mundo? Ou a passividade dos países mais ricos, mergulhados em crise econômica? Mas pelo outro lado, como lembra o ex-secretário da ONU Kofi Annan, mudanças climáticas e consumo insustentável de recursos "ameaçam a sobrevivência da espécie humana". E o relatório da ONG Oxfam agora divulgado aponta 21 mil mortos por desastres climáticos em nove meses deste ano, entre centenas de milhões de atingidos e desabrigados e centenas de bilhões de dólares em prejuízos materiais.
JORNALISTA

CLÁUDIO HUMBERTO

“O primeiro passo [ao sair do cargo] é desencarnar da Presidência”
LULA SOBRE O MOMENTO DE “SE MANCAR” QUE NÃO SERÁ MAIS O PRESIDENTE DO BRASIL

PMDB QUER INDICAR MOREIRA PARA PREVIDÊNCIA 
O ex-governador do Rio Wellington Moreira Franco (PMDB), que é ligado ao vice-presidente eleito Michel Temer, é agora o nome mais cotado para assumir o Ministério da Previdência Social, no governo Dilma Rousseff. Ele ainda reluta, porque prefere o Ministério de Cidades, mas seu nome recebeu uma espécie de sinal verde da equipe de transição. A indicação desagrada o governador Sérgio Cabral.

TROCO IMEDIATO 
A tentativa de Sérgio Cabral de emplacar Sérgio Cortes como ministro à revelia do PMDB foi determinante na aprovação projeto dos royalties.

DRÁUZIO CONVIDADO 
Sergio Cabral tentou atropelar o convite de Dilma ao médico Dráuzio Varella, na quinta (25), para ser ministro da Saúde. Ele ficou de pensar.

AINDA NO PÁREO 
Dilma não descarta a opção de Sérgio Côrtes para ministro da Saúde. Apenas não havia feito o convite, como Sérgio Cabral trombeteou. 

PARRILLADA 
Sérgio Cabral esquece na Argentina a mancada de tentar “nomear” ministro: foi a uma inauguração em Buenos Aires. 

EMPREITEIRAS CONHECEM O SEGREDO DO ALEMÃO 
As empreiteiras Odebrecht, OAS e Delta, que retomam as obras de R$ 493 milhões de um teleférico no Complexo do Alemão, deveriam ser solicitadas a informar as autoridades do Rio de Janeiro como operaram o “milagre” de trabalhar na região, desde abril de 2008, sem que os bandidões do tráfico as importunasse. No mesmo período – dois anos! – as experientes forças policiais nem sequer entravam na área.

CONLUIO TERCEIRIZADO 
Segundo oficiais de Inteligência, o governo do Rio sempre fez acordo com os traficantes, por meio de ONGs amigas”, para inaugurar obras.

ESTRANHA INCOMPETÊNCIA 
Há dois anos sem entrar no Complexo do Alemão, a polícia poderia ter infiltrado agentes entre trabalhadores de obras do PAC, mas não o fez.

ESTRANHA OMISSÃO 
Com sua estranha omissão, a polícia carioca ignorou (de propósito?) as alterações nas obras do PAC que criaram a rota de fuga dos bandidos.

FARRA NOS PORTOS APOSTA... 
A operadora Hamburg Süd embarcou na farra da privatização informal dos portos brasileiros, sob a omissão cúmplice da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), e apressa as obras de seu porto de Itapoá (SC) para inaugurá-lo no dia 20, mesmo sem estrada de acesso.

... NO FATO CONSUMADO 
Ganhou tempo precioso a malandragem que pretende privatizar na marra os portos brasileiros: o pedido de vista no processo, feito pelo ministro Aroldo Cedraz, do Tribunal de Contas da União, virou “a perder de vista”. Ele viajou e adiou o julgamento do caso para 2011. 

ADIDÂNCIA DE ENCOMENDA 
O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Félix, tenta convencer o governo a criar, a toque de caixa, posto de “adido de inteligência”... na Argélia. O general tem origem libanesa.

LOBÃO DE VOLTA 
A presidente Dilma Rousseff confirma nesta sexta-feira o que esta coluna antecipou há semanas: o senador Edison Lobão (PMDB-MA) retomará o cargo de ministro de Minas e Energia.

ESTOU FORA 
Ex-presidente dos Correios e atual secretário de governo em Teresina (PI), João Henrique – que foi cotado para o Ministério dos Transportes – recusou convite para ser o chefe de gabinete do vice Michel Temer.

DOENÇA DO CALOTE 
O minigovernador do DF, Rogério Rosso, aplicou um maxi-calote de R$ 103 milhões em hospitais privados de Brasília, que atendeu doentes que a arruinada rede pública não conseguiu assistir. Com a saúde financeira abalada, dois hospitais já demitiram oitenta funcionários.

REDE TERCEIROMUNDISTA 
Não é só a Caixa que deixa correntistas internautas na mão. Há dois meses, os clientes não conseguem acesso ao site do cartão Máster TAM. Aparece a mensagem “cliente inexistente”. E ontem à tarde o gerenciador financeiro do Banco do Brasil permanecia inoperante.

UM DIA A CGU CAI 
A Controladoria-Geral da União está às voltas com o controle de pilares: o STJ manteve a construção de um edifício que abalaria seu velho prédio, em Brasília. Estaria tudo chacoalhando...

PERGUNTA SECRETA 
Será que a ONG WikiLeaks descobriu também quanto Lula “vaza” de “combustível” líquido todo dia? 

PODER SEM PUDOR
AMEAÇA DE CARREGADOR 
Carroceiro e aspirante a vereador, Braz Batista da Silva chegou revoltado no comitê do saudoso Marcos Freire, à procura de Bayron Sarinho, que o contratara para carregar “espontaneamente” o senador nos comícios.
– Dr. Byron, se não me pagar hoje, não carrego mais. E se não pagar certo daqui pra frente, eu jogo o senador no canal, em Casa Amarela...
Marcos Freire perdeu a eleição, mas Braz recebeu o dele.

URUBUS

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Exército quer ficar menos no Alemão por temer corrupção

Folha: Exército terá poder de polícia em favela do RJ

Estadão: Lula propõe pré-sal com novo rateio de royalties

JB: Tomada do Alemão já anima o comércio

Correio: Caos na saúde leva Agnelo a pedir ajuda

Valor: Tesouro cortará os subsídios de juros ao BNDES

Estado de Minas: O Haiti é aqui

Zero Hora: Descoberta nova forma de vida

quinta-feira, dezembro 02, 2010

JOSÉ SIMÃO


Buemba! A Hillary é abelhuda!
JOSÉ SIMÃO 
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/12/10

E o segredo do Gerson? Sexo sujo. Vai transar no Tietê então! Ele gosta de cheiro de pum de velha


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Socuerro! Todos para o abrigo! Capitão do Bope na Ana Maria Braga. Mais que droga! Ela quase deu uns pegas nele. Rarará!
Eu acho que esse pessoal do Bope assinou contrato com a Globo! E o capitão deu pra Ana Maria Brega o símbolo do Bope, uma caveira.
E ela: "Uma caveira na vida, para o bem". Mas ela é que parece o símbolo do Bope. Uma caveira EM vida! Rarará! Vão botar a foto dela no Caveirão. Eu entregava tudo e me declarava culpado! Rarará!
E o buraco por onde os traficantes fugiram dava acesso ao MORRO DO ADEUS! Não morro e digo adeus, e pimba pelo buraco! Rarará!
E esta: "PMDB exige mais três pastas". Eu daria as três pastas: Close-Up, Colgate e Sensitive!
Adoro as exigências do PMDB: "Dez pastas, frigobar lotado, caixa de Moet et Chandon, cesta de frutas exóticas e 300 toalhas brancas". O camarim da Madonna! Eles querem ficar com o dinheiro todo. PMDB quer dizer Pomos a Mão no Dinheiro do Brasil!
Predestinado: adivinha o nome do cotado para o Ministério das Relações Exteriores? Antonio PATRIOTA! Tem de ser muito patriota mesmo para encarar o King Jong e a Hillary Clinton. King Jongou a Bomba e a Hillary Chifre Mal Curado!
E o babado internacional! WikiLeaks! Site que vazou documentos secretos dos Estados Unidos. Falando mal de todo mundo.
E hoje vazaram mais documentos comprometedores: "Angela Merkel é feia pra caraca". "Chávez é louco e tem a cara inchada." "Sarkozy é baixinho, tem o pau pequeno e mania de grandeza." "Berlusconi é indecente." "Lugo é o maior comedor da América." "E a Hillary é abelhuda." Eu tô dizendo isso há meses: "A HILLARY É ABELHUDA!". E sabe por que ela é abelhuda? Porque tem o chifre mal curado.
E o segredo do Gerson? Sexo sujo. Então vai transar no Tietê! E no Twitter já tem o Gersonfacts. Sabe o que deixa o Gerson Sexo Sujo excitado? Cheiro de Big Mac. Rarará!
Cheiro de pum de velha! Xixi de traveca! E, quando vê um limpa-fossa, tem orgasmos! O sexo do Gerson sujô! Ninguém gostou!
E existe sexo limpo? Sexo limpo nem com a Margarida do Pato Donald. Reparou que os patos da Disney não têm sexo? Blusinha, barriguinha e perninhas. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MÔNICA BERGAMO

ESPÍRITO NATALINO 
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 02/12/10

Mira Falchi, do Instituto Pró-Queimados, Cesar Giobbi, o executivo Paulo Zottolo e sua mulher, Patu, da ONG Lar do Caminho, promoveram jantar anteontem, em prol do evento Natal do Bem, que atende a nove instituições de caridade. Luiza Brunet e a advogada Gabriela Monteiro de Barros circularam pelo evento.

DIETA FORÇADA Lucilia Diniz, irmã do empresário Abilio Diniz e herdeira do Grupo Pão de Açúcar, acaba de ganhar processo contra a Nestlé, gigante mundial de alimentos. A empresa era responsável pela produção e distribuição de produtos da linha Good Light, de baixa caloria, criada pela empresária. A parceria foi rompida depois de desavenças e ela pediu na Justiça indenização de R$ 20 milhões.

MISTURA
Lucilia confirma a vitória e diz, por meio de assessoria: "É muito bom sentir que a Justiça está do nosso lado. O Ivan Zurita [presidente da Nestlé] tem errado muito ao misturar interesses da companhia com sua vida privada, o que acaba comprometendo a organização. Tomara que a companhia perceba logo isso e não fique querendo atrasar a Justiça com uma série de recursos". Já a Nestlé afirma que "trata-se de uma decisão em primeira instância" da qual recorrerá. A empresa informa ainda que "não se manifesta sobre processos 'sub judice'".

LONGE DO ALTAR
Silvio Santos estudou várias propostas de igrejas que queriam comprar horários na madrugada do SBT. Recusou todas. E pretende continuar, até segunda ordem, a manter distância de bispos e pastores que anseiam pelos horários noturnos da emissora.

FÉRIAS
Silvio, por sinal, está em Los Angeles estudando "novos formatos" para TV, de acordo com um interlocutor. De lá, embarca para Miami para as festas de fim de ano.

DISTRIBUIÇÃO DE ARTE
O juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal de SP e recém-promovido a desembargador, está oferecendo a museus obras de arte apreendidas em investigações do colarinho branco. O Masp já aceitou duas -uma delas, um quadro de Rebolo que vai se juntar a outras duas gravuras do artista.

VAQUINHA
O PSDB fez força-tarefa na semana passada para convencer doadores a anteciparem contribuições que cobririam dívidas da campanha do presidenciável José Serra e que só estavam prometidas para 2011. Participaram o presidente do partido, Sérgio Guerra, o secretário da Cultura de SP, Andrea Matarazzo, Márcio Fortes e Sérgio Freitas. Levantaram R$ 6 milhões com cinco doadores, segundo José Gregori, tesoureiro da campanha.

DILMA LÁ
Lally Weymouth, filha da publisher Katharine Graham (1917-2001), do "Washington Post", entrevista hoje a presidente eleita Dilma Rousseff (PT) para o jornal americano. O encontro será no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília.

BEM-VINDA
E a senadora eleita Marta Suplicy (PT-SP) receberá Arianna Huffington, criadora do site americano The Huffington Post, para almoço em sua casa, no dia 22.

POUCOS E BONS
Um exemplar do livro "A Portrait of Oscar Wilde" , edição luxuosa e limitada de 525 exemplares, com manuscritos do escritor, está exposto na Loja do Bispo, de Pinky Wainer, em SP. A renda da venda da obra, editada por Lucia Moreira Salles, será integralmente revertida para a ONG Riovoluntário.

COFRE VERDE
O BNDES aprovou financiamento inédito de R$ 33 milhões para transformar lixo urbano em energia. A empresa beneficiada coletará até mil toneladas de resíduos por dia, nas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas. Reciclado, o combustível será usado em fornos de usinas de cimento e álcool.

UM BRINDEVeva e Guto Quintella ofereceram uma festa no Bar Des Arts do Itaim, anteontem, para lançar a Edição Única 2010 da Cachaça da Tulha. A tiragem é limitada e a bebida é produzida na Fazenda São José do Mato Seco, em Mococa (SP). O ex-ministro Luiz Gushiken estava entre os convidados.

CURTO-CIRCUITO O livro "Lugar de Repórter Ainda É na Rua - O Jornalismo de Ricardo Kotscho", de Mauro Junior e José Roberto de Ponte, será lançado hoje, às 19h, na livraria Saraiva do shopping Vila Olímpia.

A Daspre, grife das presidiárias de SP, inaugura na segunda, às 18h, seu bazar de Natal, na rua Dr. Vila Nova, 268.

Fábio Farah lançou o livro "A Diversão dos Mortos", novo volume da série infantojuvenil "Clube dos Mistérios".

Zeca Pagodinho apresenta o show "Vida da Minha Vida", amanhã e no sábado, no Credicard Hall. 16 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

GOSTOSA

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

O povo sou eu
EDITORIAL
O Estado de S. Paulo - 02/12/2010

O mesmo presidente Lula que aconselhou um repórter deste jornal a fazer psicanálise para se tratar da "doença do preconceito", revelou ter dito de si certa vez algo que deveria levá-lo ao divã do terapeuta mais próximo. Não fosse a inconfidência, a sua grosseria com o jornalista Leonencio Nossa, baseado no Palácio do Planalto, mereceria ser largada no aterro onde se amontoam os incontáveis rompantes, bravatas e despautérios do mais prolixo dos governantes brasileiros. Mas o encadeamento das coisas obriga a revolver as palavras do presidente, em consideração ao interesse público.
As cenas constrangedoras se passaram quando Lula visitava as obras da hidrelétrica de Estreito, no Maranhão, para o fechamento simbólico da primeira das 14 comportas da usina. Perguntado pelo repórter do Estado se a visita era uma forma de agradecer o apoio da oligarquia Sarney ao seu governo, ele perdeu as estribeiras. Embora o presidente do Senado seja o patriarca do clã que sabidamente controla a vida política maranhense há cerca de meio século e embora seja também notória a sua sintonia com os interesses do lulismo - e vice-versa -, Lula reagiu com indisfarçada hostilidade.
A pergunta "preconceituosa", investiu, demonstraria que o jornalista não teria aprendido que o Senado é uma instituição autônoma e que, ao se eleger e tomar posse, todo político "passa a ser uma instituição". "Sarney não é meu presidente", emendou. "É o presidente do Senado deste país." Lula domina com maestria o tipo de mentira que consiste em omitir uma parte, a mais importante, da verdade. No caso, o pacto de mútua conveniência entre ambos - que se sobrepõe ao caráter institucional das relações entre dois chefes de Poderes.
Que o diga o PT do Maranhão, obrigado este ano a desistir da candidatura própria no Estado em favor da reeleição da governadora Roseana Sarney. Foi ao pai que Lula se dirigiu em dada ocasião para transmitir uma ameaça ao Congresso. Segundo a história que o presidente contou na sua fala de improviso em Estreito, no decorrer da crise do mensalão, em 2005, pediu que Sarney advertisse os parlamentares da oposição de que, "se tentassem dar um passo além da institucionalidade, não sabem o que vai acontecer". Porque "não é o Lula que está na Presidência, mas a classe trabalhadora"
Ou, mais precisamente, porque ele é "a encarnação do povo". Não há o mais remoto motivo para duvidar de que isso é o que ele enxerga quando se olha ao espelho. Luiz XIV teria dito que "o Estado sou eu". Era, de toda sorte, uma constatação política - e a mais concisa definição que se conhece do termo autocracia. Mas nem o Rei Sol, que via a sua onipotência iluminando a França, tinha a pretensão de encarnar os seus súditos. Não ousaria dizer "o povo sou eu". Em psiquiatria há diversas denominações para o que em linguagem leiga se chama mania de grandeza.
Lula disse ainda que de início tinha medo do que lhe poderia acontecer à luz de um passado que incluía o suicídio de Vargas, a tentativa de impedir a posse de Juscelino, a deposição de Jango, a renúncia de Jânio e o impeachment de Collor. A julgar por sua versão, o migrante que passou fome e privações e refez a vida sem renegar as suas origens seria um candidato natural a engrossar a lista dos governantes brasileiros apeados do poder de uma forma ou de outra, no que seria uma interminável conspiração dos descontentes. Mas "eles", teria dito naquela conversa com Sarney, "vão saber que eu sou diferente".
O que espanta, além da teoria encarnatória, são as circunstâncias que levaram Lula a invocar alguns dos momentos mais turbulentos da história nacional. Em 2005, a oposição não conspirava para "dar um passo além da institucionalidade" nem o País estava convulsionado por um confronto ideológico que se resolveria pela força. Os brasileiros, isso sim, estavam aturdidos com as evidências de que o lulismo usava dinheiro que transitava pelos desvãos da política e do governo para comprar votos na Câmara dos Deputados - o mensalão. Lula não estava nem um pouco preocupado com as instituições. Queria dar dimensão histórica ao que não passava de um caso de polícia. Encarnou uma mistificação.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Cerimônia do adeus 
Renata Lo Prete 

Folha de S.Paulo - 02/12/2010

Ao final de um mês de dezembro no qual Lula comandará, em média, duas inaugurações por semana, além de "iniciar" Dilma Rousseff na visita natalina aos catadores de lixo em São Paulo, o presidente fará no dia 29, em Caetés, o último evento governamental antes de passar a faixa à sucessora.
Em sua cidade natal, Lula será homenageado e cortará a fita de uma nova agência do INSS. Em seguida, visitará regiões de Pernambuco castigadas pela chuva neste ano. O programa terminará à noite em Recife, onde o governador Eduardo Campos (PSB) promoverá um grande ato de despedida.

Cruz credo Ontem pela manhã, lembrando que se tratava de 1º de dezembro, o ministro Franklin Martins (Comunicação Social) brincou: "Presidente, hoje começa a contagem regressiva...". E Lula: "Nem me fale nisso!".

Não fui eu Em privado, Dilma usou o termo "incompreensível" para classificar a atitude de Sérgio Cabral, que anunciou no Rio de Janeiro e sem conversa prévia com Michel Temer o nome de seu secretário Sérgio Côrtes para ocupar o Ministério da Saúde. De acordo com a presidente eleita, ela havia pedido explicitamente ao governador que "costurasse" antes a indicação com seu partido.

Too much Segundo quem conhece bem Temer, o vice eleito começa a se dar conta de que dificilmente realizará todos os seus três desejos da transição: instalar Moreira Franco nas Cidades, promover o gaúcho Mendes Ribeiro a ministro, abrindo vaga na Câmara para Eliseu Padilha, e indicar Geddel Vieira Lima para uma estatal.

Caveirão De um aliado, sobre a insatisfação de Temer e Moreira diante da desenvoltura do governador do Rio nas nomeações: "Não dá para combater o Cabral no auge da popularidade. Agora que ele virou o Capitão Nascimento, aguenta".

Curinga Na Assembleia Legislativa paulista e no QG da transição, são apontados dois destinos possíveis para o ex-secretário da Segurança Pública Saulo de Abreu Filho: Transportes ou a nova supersecretaria de Governo e Gestão Pública.

Veja bem Ainda que apoie a escolha de José Agripino para presidir o DEM, num desenho concebido para encurtar em alguma medida o mandato prorrogado de Rodrigo Maia, Gilberto Kassab avisou a seus aliados no partido -o senador incluído- que essa inflexão não o faria abandonar automaticamente os planos de migrar logo mais para o PMDB.

Marcado Será as 10h do dia 17 a diplomação, no TRE, dos 172 eleitos em São Paulo -94 deputados estaduais, 70 federais, 2 senadores, 4 suplentes, governador e vice. A solenidade, na qual Geraldo Alckmin disputará os holofotes com o palhaço Tiririca (PR), acontecerá no plenário da Assembleia Legislativa.

Outro lado O superintendente da Receita em SP, José Guilherme Antunes Vasconcelos, diz que não há ineditismo na substituição simultânea de cinco delegados do órgão no Estado, tal como ocorrida num mesmo dia da semana passada. Afirma ainda que o processo seletivo imediato, pelo qual serão realizadas as substituições, é pautado por critérios essencialmente objetivos.

Visita à Folha Antonio Anastasia (PSDB), governador reeleito de Minas Gerais, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Hugo Teixeira, chefe da assessoria de imprensa.

tiroteiro

"A formação do ministério mostra que Dilma não fará o terceiro governo Lula, mas quase uma prorrogação de seu segundo mandato."

DO DEPUTADO MENDES THAME, presidente do PSDB-SP, sobre o protagonismo do presidente na escolha dos integrantes do primeiro escalão de sua sucessora.

contraponto

#transiçãofeelings


Pouco depois de Yeda Crusius postar no Twitter comentário sobre um novo aeroporto no Rio Grande do Sul, Beto Albuquerque (PSB), futuro secretário da Infraestrutura de Tarso Genro (PT) rebateu:
-A um mês de acabar meu governo, eu não estaria anunciando decisões, mas sim fazendo as malas.
A tucana rebateu sem demora:
-Ô, Beto, não te mete no meu governo, que eu não vou me meter no teu.
O deputado não se deu por vencido:
-No meu Twitter sou eu que escrevo e de forma livre dou opinião. Se serviu o chapéu, pode usá-lo!

JAPA GOSTOSA

DORA KRAMER

Sob a ótica do eleitor
 Dora Kramer

 O Estado de S.Paulo - 02/12/2010

Conversando sobre reforma política, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ricardo Lewandowski, chamou atenção para a necessidade de a sociedade se incluir e ser incluída nesse debate, sob pena de não se contemplar o principal interessado nessa discussão que há anos não ata nem desata.

Talvez exatamente pela falta do que o ministro chama de "perspectiva da sociedade".

Por mais óbvio que isso seja, quando se fala em reforma política pensamos numa tarefa a ser executada pelo Congresso Nacional, mas nunca acentuamos que enquanto o eleitorado não entrar para valer nesse debate, dificilmente os meios e os modos da política vão se modernizar.

Na verdade, a conversa com o ministro Lewandowski era sobre a pesquisa encomendada pelo TSE ao instituto Sensus para avaliar o trabalho da Justiça Eleitoral e alguns comportamentos do público na última eleição.

O dado divulgado com destaque nos jornais foi sobre o grau de lembrança do eleitor em relação aos candidatos escolhidos por ele no primeiro e no segundo turnos - 3 e 31 de outubro respectivamente.

Quase todo mundo lembra em quem votou para presidente: 89,3% lembram. Menos um pouco, 80,6%, recordam do voto para governador. Mas 20,6% esqueceram os candidatos a senador, 21,7% não sabem mais quem escolheram para deputado federal e 23% já não fazem a mais pálida ideia quais os nomes que teclaram na urna para deputado estadual.

Preocupante? O presidente do TSE não acha. Também vê com naturalidade o índice de 20% de abstenção. "Considerando que a sanção por não comparecer para votar é quase inócua, acho a presença significativa." Aliás, na mesma pesquisa mais de 80% dos consultados se consideraram muito bem preparados para votar e mais de 70% motivados a participar.

Mas, voltando ao apagão dos que já se esqueceram das escolhas para a Câmara e o Senado, Lewandowski considera o porcentual encontrado até baixo. Isso porque, com todos os defeitos do sistema proporcional, que não produz vínculo algum entre representantes e representados, ainda assim quase 70% lembram dos senadores escolhidos, 67,2% não se esqueceram dos deputados federais e 65,4% sabem quem foram seus candidatos a deputado estadual dois meses depois das eleições.

Isso sem contar que a eleição parlamentar tende a ficar em segundo plano quando é "casada" com a presidencial.

Embora não considere os esquecimentos nada de muito extraordinário, o presidente do TSE não acha que as coisas funcionam a contento no sistema político-eleitoral. É, como a maioria, um pregador da reforma.

É a favor do voto distrital misto, do financiamento público de campanha, do voto facultativo, do fim das legendas de aluguel, bem como vê necessidade de se alterar a legislação eleitoral, a propaganda, publicação de pesquisas, o tempo de duração das campanhas etc.

"Sem a pretensão de subtrair prerrogativas de quem as tem para elaborar as leis", defende a ampliação do debate para além das fronteiras do Congresso.

Lembra que a Ordem dos Advogados do Brasil já começou uma rodada e anuncia a disposição de promover a discussão na Escola Judiciária Eleitoral ao longo do ano que vem.

Professor de "Teoria do Estado" na Universidade de São Paulo, o presidente do TSE diz que os temas precisam ser muito bem esmiuçados pela sociedade antes de se chegar à proposição de mudança. Por exemplo: ele é a favor do voto facultativo, mas acha que antes de se instituir esse sistema é preciso que os partidos funcionem de fato como representantes de correntes políticas. "Estimula a participação."

Lewandowski também defende o voto distrital misto - em que o eleitor tem dois votos, um por votação majoritária no distrito e outro em votação proporcional com lista fechada -, mas considera que se não houver alteração da sistemática de decisão interna das legendas o voto em lista só alimentaria o poder das oligarquias partidárias.

Esse tipo de assunto difícil de a maioria compreender é que seria difundido com tradução popular se a reforma política deixasse de ser assunto de uso exclusivo dos partidos e dos políticos.

MERVAL PEREIRA

A rampa 
Merval Pereira 

O Globo - 02/12/2010

O vazamento de documentos sigilosos da diplomacia dos Estados Unidos pelo blog WikiLeaks revelou diversos “segredos de Polichinelo”, coisas que todo mundo sempre comentou mas que, ditas assim em tom de segredo de Estado e reveladas por vazamentos, ganham uma dimensão política que pode ser catastrófica para o Departamento de Estado americano.

É o caso, por exemplo, da relação entre o presidente russo Dmitri Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin, comparada, em um dos telegramas, à relação entre Batman e Robin, com o problema adicional de que Batman, “o macho alfa”, é Putin, ficando Medvedev no papel de submisso, sendo o Robin.

Relatei aqui na coluna, durante a campanha presidencial, uma conversa que tive com um investidor estrangeiro interessado no que aconteceria no país na sucessão presidencial, e me surpreendi com sua pergunta:

“Dilma vencendo, não pode ser como na Rússia, com Lula ficando por trás manejando os cordões?”.

Respondi que, se fôssemos uma República parlamentarista, o presidente Lula poderia fazer como Vladimir Putin, que, depois de presidir o país por dois mandatos, transformou-se em primeiroministro e indicou Dmitri Medvedev para presidente.

O que a oposição brasileira acusava como defeito da candidata oficial, ser um mero títere de Lula, era a esperança desse investidor — dos grandes — de que tudo continuaria como está na economia brasileira, com Lula dando seu suporte à sua sucessora.

O modelo chegou a ganhar um apelido que revelava a visão crítica da situação — “Dilmedvedev” —, mas foi vendido subliminarmente pela campanha de Dilma ao eleitorado como garantia de que Lula continuaria a dar as cartas.

Sem dúvida, foi essa “garantia” que pesou muito na eleição de Dilma à Presidência, mas eu achava o modelo de difícil implementação, dadas as condições brasileiras.
É mais provável, dizia, que Dilma, eleita, ficasse dependente de partidos como o PT e o PMDB do que de Lula, pois o presidencialismo brasileiro dá muitos poderes ao presidente da República.

Mas Lula, mais uma vez, está desmentindo a tradição histórica, e a dificuldade de implementação que eu via para que influenciasse a montagem do Ministério de Dilma está se transformando, na verdade, em uma facilidade surpreendente.

Talvez nem mesmo Dilma estivesse preparada para uma atuação tão contundente de seu preceptor, mas Lula não tem constrangimentos em sua ação política.

Há uma parte disso que é natural. Se a ministra Dilma Rousseff foi candidata porque Lula quis, porque Lula decidiu, e a elegeu presidente da República, nada mais natural que ele continue atuando na montagem do Ministério.

Esse é um governo de continuidade, argumentam os governistas, alegando que foi isso que foi aprovado nas urnas.

O que espanta e preocupa, no entanto, é que ela não transparece nenhuma vontade de dar marca própria ao governo que está montando.

Era exatamente essa a grande crítica que se fazia a ela, que não existe politicamente, que não tem luz própria, e seria um mero fantoche do presidente Lula.

E ela parece estar aceitando esse papel com muita resignação.

Até o momento, ela está ressaltando o que de pior há na sua indicação para presidente, que é a de ser uma continuidade no sentido de estar “esquentando a cadeira” para a volta de Lula.

Demonstra não ter capacidade de promover mudanças do governo para imprimir sua marca própria, mesmo dando continuidade às políticas.

Se manteve as mesmas pessoas nos mesmos lugares, ou em lugares semelhantes, por que mudariam de maneira de pensar e agir?

Há, porém, indicações de que algumas diretrizes poderão ser mudadas, se levarmos em conta o discurso que a presidente eleita fez logo depois do anúncio oficial de sua vitória, ou as declarações dos primeiros escolhidos para a equipe econômica.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por exemplo, continuará no cargo, mas com uma motivação totalmente contrária à sua atuação nos últimos anos.

Ele mesmo diz que o Estado gastou muito nos últimos anos e agora chegou a hora da contenção de gastos.

A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, um nome novo no primeiro escalão, mas bastante antigo na hierarquia petista, já atuava no Palácio do Planalto.

Foi casada com o prefeito de Santo André Celso Daniel, assassinado misteriosamente em 2002, assassinato sendo julgado só agora em São Paulo e cuja motivação o Ministério Público atribui a uma estrutura de corrupção montada pelo PT nas prefeituras que administrava à época.

Pois Miriam Belchior, que continuará cuidando das obras do PAC, está anunciando que chegou a hora de fazer mais com menos recursos, o que seria uma boa novidade.

Pode ser, portanto, que, em vez de estar subjugada pela pressão de Lula e do petismo, a presidente eleita esteja só dando demonstrações de habilidade política e deixando para montar seu verdadeiro governo mais adiante, quando já estiver com as rédeas do poder nas mãos.

Há um precedente histórico, que já relatei aqui na coluna. O governo do general João Figueiredo começou com uma estrutura baseada no governo do antecessor, general Geisel, principal responsável por sua indicação.

Em pouco tempo, Figueiredo começou a montar seu governo sobre o que herdara de Geisel: Golbery, que permanecera no Gabinete Civil, acabou saindo, dando lugar a Leitão de Abreu; o economista Mario Henrique Simonsen saiu, deixando em seu lugar Delfim Neto, e assim por diante.

Golbery então comentou que, quando o presidente eleito sobe a rampa do Palácio do Planalto com todos aqueles guardas batendo continência, ao chegar no topo já está convencido de que chegou ali por méritos próprios, e terá sempre algum amigo para garantir isso a ele.

Dilma ainda não subiu a rampa como presidente eleita.