segunda-feira, fevereiro 15, 2010

CLÁUDIO HUMBERTO

"Foi um dia histórico... o Brasil falou chega de impunidade"
Senador Pedro Simon (PMDB-RS), sobre a prisão do governador Arruda, no DF

Punições de Arruda serão agravadas, avisa STJ

Por ser funcionário público, o governador José Roberto Arruda, que está preso na Polícia Federal, em Brasília, deverá ter sua punição agravada por haver "instigado, organizado e dirigido" a participação dos demais envolvidos no "DEMsalão", segundo advertiu o ministro-relator do caso no Superior Tribunal de Justiça, Fernando Gonçalves. Ou seja, se Arruda for condenado, as penas aumentam de um sexto a um terço.

Cana dura

Pelos crimes que o levaram à prisão, Arruda está sujeito a três anos de reclusão por falsidade ideológica e quatro por coação de testemunha.

Penas maiores

Por serem servidores, Haroaldo de Carvalho, Rodrigo Arantes, Antônio Bento e Weligton Moraes, também poderão ter as penas aumentadas.

Caixa de Pandora

Para o ministro-relator, Domingos Lamoglia, do Tribunal de Contas do DF, teve papel "marcante e consistente" no desvio de verbas públicas.

Mudança

Mudou o tom do Movimento Fora Arruda. Agora, os manifestantes de partidos de oposição pedem: "Fica, Arruda". Na Polícia Federal.

Concessão

Apesar dos apagões diários em Brasília, a situação poderia estar muito pior. Nos oito anos do ex-governador Joaquim Roriz, a estatal de energia CEB foi multada pelo menos três vezes pela Aneel, por falta de investimentos. A concessão só não foi cassada porque José Roberto Arruda, oriundo da CEB, prometeu investir na empresa. E cumpriu: R$ 150 milhões por ano na CEB. Mesmo assim, não resolveu o problema.

Jobim fica

O ministro Nelson Jobim (Defesa) decidiu ficar no governo até o final do mandato do presidente Lula. Não disputará qualquer cargo eletivo.

Denucci também

O PTB pressionou muito, mas Guido Mantega (Fazenda) decidiu manter no cargo o presidente da Casa da Moeda, Luiz Felipe Denucci.

De Brasília para o mundo

A prisão do governador Arruda foi destaque nos principais jornais e sites de notícias da Europa, América Latina e EUA.

Suborno

Foi no valor de R$ 2 milhões a primeira oferta para Edson Sombra mudar seu depoimento à PF, favorecendo Arruda. Mas, segundo despacho do ministro Fernando Gonçalves, do STJ, o ex-secretário de Comunicação Weligton Moraes aumentou a oferta para R$ 3 milhões.

Tá feia a coisa

Não chamem para o mesmo voo de aviões-caça o ministro Nelson Jobim (Defesa) e o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. Será um passeio indigesto.

Longe do Rio

Em Paris, aonde vai com frequência, até se entende. Mas em São Paulo, onde se hospeda no carésimo Hotel Emiliano, o governador Sérgio Cabral não usa carro blindado com seu motorista particular.

Fala com ele

Prêmio Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi disse à agência Efe que a visita de Lula ao Irã em maio faria sentido se, além de fazer negócios, ele falasse com a oposição. "Seria violar os direitos humanos".

O bom guerrilheiro

O novo presidente do Uruguai, o ex-guerrilheiro José "Pepe" Mujica, que nem gravata usa, vai doar a entidades sociais 87% do salário, de cerca de R$ 25 mil, espanta-se o Le Monde. Esses franceses...

PODER SEM PUDOR

Papo de pescador
Certa vez, no aeroporto de Curitiba, um grupo de deputados do PP, sem cargos no Governo federal, bolava como tirar proveito do escândalo Waldomiro Diniz. O mais experiente no balcão de negócios políticos ensinou:
- Temos que assinar o requerimento da CPI, sim! É como pescar dourado: se o peixe fica quietinho, a gente espera. Quando começa a se debater, a gente dá um puxão para o outro lado.

JOSÉ GOLDEMBERG

A sociedade de consumo e políticas públicas

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


Existem no mundo hoje cerca de 700 milhões de automóveis, um para cada dez habitantes. Nos Estados Unidos já existem quase tantos automóveis quanto pessoas (incluindo as crianças). No Brasil são quase sete pessoas para cada automóvel, mas em 2014 deveremos ter quatro pessoas por automóvel - em outras palavras, cada família deverá ter um automóvel. A China e a Índia são menos motorizadas, mas, mesmo assim, prevê-se que dentro de 20 anos haverá 2 bilhões de automóveis circulando no mundo.

A posse de um automóvel reflete as aspirações de boa parte da população mundial, para a qual eles representam a liberdade de ir e vir. Sucede que um mundo totalmente motorizado terá de enfrentar problemas muito maiores do que os que enfrentamos hoje: congestão urbana, poluição, acidentes, expansão da rede de estradas e o fato de que os combustíveis que usamos hoje não deverão durar mais de 40 anos - antes disso, seu custo aumentará substancialmente.

Apesar disso, muitos governos encorajam a motorização, entre os quais o do Brasil, que até reduziu os impostos sobre automóveis para encorajar as vendas, sem exigir das montadoras nenhuma contrapartida, como a de melhorar os padrões de desempenho desses veículos. Nos Estados Unidos essa exigência foi feita como precondição para o governo salvar a indústria automobilística da bancarrota.

A China está revelando preocupações com a tendência à motorização do país, que ainda é pequena (29 pessoas por automóvel), e está iniciando a instalação de uma rede de ferrovias com trens rápidos - do tipo TGV francês (train à grande vitesse ou, em português, trem de alta velocidade) - que vai cobrir todo o território chinês (9.596.960 km2), que é maior que o do Brasil (8.514.876,599 km2). A China, por meio de uma decisão política, tenta seguir o modelo europeu de ênfase ao tráfego ferroviário.

São muitos os exemplos que se poderiam citar dos problemas que uma sociedade orientada para o consumo vai criar para a grande maioria da população mundial, no futuro.

Poder-se-ia argumentar que os Estados Unidos conseguiram se tornar o paraíso do consumismo que são hoje e que a tendência é imitá-lo. Acontece que a população dos Estados Unidos é de apenas 4% da população mundial e se consome lá um quarto de toda a energia produzida no mundo. Em outras palavras, não existem no mundo recursos de energia e minerais suficientes para que uma população mundial 25 vezes maior que a dos Estados Unidos adote seus padrões de consumo.

Por outro lado, não existe a menor dúvida de que o restante do mundo não aceitará viver com menos conforto que os americanos e que uma sociedade de consumo de algum tipo acabará por se impor.

Assim sendo, o que fazer?

Negar o progresso econômico é impossível, mas o fato é que políticas públicas podem orientar esse progresso e existem novas tecnologias - que não existiam há 50 anos - que permitem fazê-lo. Ninguém, em sã consciência, vai negar o direito de as pessoas terem acesso a uma iluminação decente à noite, mesmo que morem numa favela. Hoje, no entanto, existem lâmpadas que iluminam tão bem (ou melhor!) e usam dez vezes menos eletricidade, além de durarem mais tempo do que as antigas. Esse é só um exemplo de tecnologias mais eficientes, das quais existem muitas.

Nos países em desenvolvimento, cuja população está crescendo - e a infraestrutura ainda é incipiente -, a estratégia é crescer adotando essas tecnologias mais eficientes desde o início.

Outra estratégia é a de evitar uma dependência completa do uso de combustíveis fósseis, introduzindo energias renováveis em grande escala, como a dos ventos e a solar. Em alguns casos, as próprias forças do mercado farão isso, porque algumas delas já são competitivas, mas, em outros, políticas públicas são necessárias para fazê-lo.

O sucesso do Programa do Álcool no Brasil se deve a isso. A decisão do governo, décadas atrás, foi a de substituir gasolina por álcool de cana-de-açúcar. A mistura adotada começou com alguns por cento e aumentou para 25%. Muitos outros países estão fazendo isso com misturas menores, mas ainda assim significantes.

É por essa razão que a decisão recente do governo de reduzir a mistura para 20%, por causa da falta de álcool, passa uma mensagem errada. O motivo para essa redução foi mesmo a falta de álcool, que provocou o aumento do seu preço e fez as vantagens econômicas de usá-lo desaparecerem. A medida é temporária e a mistura deve voltar aos 25% no início da próxima safra, mas teria sido melhor reduzir as exportações de açúcar para aumentar a produção de álcool do que reduzir a porcentagem na gasolina.

Políticas públicas não são necessariamente estabelecidas somente por governos. Estratégias adotadas por grandes bancos ou por grandes empresas tornam-se às vezes verdadeiras políticas públicas. Exemplo claro disso foi a criação da "bolha imobiliária" nos Estados Unidos, que levou à crise financeira global de 2008. Grandes bancos facilitaram de tal forma empréstimos imobiliários, exigindo poucas garantias em seus financiamentos, que milhões de pessoas contraíram empréstimos que não podiam pagar. Outro exemplo foi a "bolha de informática" dez anos atrás, quando um entusiasmo irracional por investimentos de risco nessa área levou o setor a uma grave crise. Em todos esses casos, o aumento do controle governamental foi necessário para evitar males maiores.

O que é fundamental são políticas públicas que orientem as forças de mercado, e não simplesmente se curvem a interesses econômicos imediatistas.

José Goldemberg é professor da Universidade de São Paulo

GUSTAVO LOYOLA

Conta movimento, versão 2010

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


A ideia de animais vindos do passado atemorizando os viventes é tema recorrente na ficção. Michael Crichton, por exemplo, explora o assunto no romance Jurassic Park, cuja versão cinematográfica alcançou grande sucesso. Felizmente, para a tranquilidade geral, experimentos como o da clonagem de dinossauros não chegaram ainda ao mundo real e, nesse particular, podemos todos seguir dormindo tranquilos.

No campo das políticas públicas, contudo, as coisas se passam de modo diferente e criaturas jurássicas recém-clonadas podem fazer mal, muito mal. Não raro, os viventes são surpreendidos e atemorizados por criaturas do passado que se julgavam extintas e apenas de interesse histórico. Esse é tipicamente o caso do ensaio de ressurreição, pelo governo Lula, de um animal institucional que tem o DNA da extinta conta movimento, para permitir a realização de gigantescos aportes de recursos a bancos oficiais.

Trata-se das operações de emissão de dívida pública mobiliária para capitalizar ou realizar empréstimos a bancos públicos oficiais, notadamente o BNDES. O que ocorre nessas operações é a expansão do endividamento bruto do Tesouro e a criação simultânea de um direito contra o BNDES ou outro banco oficial federal, sob forma de capital ou de crédito. Embora sob a ótica da dívida líquida do setor público tal operação pareça inofensiva, suas implicações fiscais e monetárias são bem menos benignas, haja vista a expansão do endividamento bruto do governo.

Nos tempos jurássicos das finanças públicas, a conta movimento era o mecanismo pelo qual o Banco Central (BC) supria o Banco do Brasil (BB) de recursos que eram utilizados na expansão dos ativos consolidados do sistema bancário (em particular do próprio BB). Essa conta permitia a liberação de empréstimos e financiamentos, no interesse de programas de governo, sem que estes constassem do orçamento fiscal.

A conta movimento teve seu auge nos anos 1970, pois era peça-chave da estratégia desenvolvimentista dos governos de então, que exigia a utilização do Banco Central como banco de fomento, num processo continuado de expansão monetária ou de elevação da dívida mobiliária.

A extinção da conta movimento só veio no final dos anos 1980, com a reforma das finanças públicas, quando também houve a incorporação do orçamento monetário ao Orçamento-Geral da União, a perda das funções de fomento pelo Banco Central e a criação da Secretaria do Tesouro Nacional.

De todo modo, a bagunça monetária e fiscal viabilizada pela conta movimento foi um dos responsáveis diretos pela instalação do processo inflacionário crônico no País, que somente foi revertido no Plano Real. Assim, o fim da conta movimento representou um grande avanço para assegurar a estabilidade e o crescimento econômico sustentado no País.

A tendência recente à banalização das emissões de dívida mobiliária para sustentar o crescimento dos ativos dos bancos públicos implica pôr em marcha um mecanismo que tem semelhança genética com a conta movimento, pelas suas implicações no mercado monetário, não obstante tais operações integrarem o orçamento fiscal. Em 2009, por exemplo, houve emissão de dívida pública federal no montante de R$ 105 bilhões, sem contrapartida financeira, sendo os papéis correspondentes entregues ao BNDES para venda em mercado, à medida que o banco tenha necessidade de caixa. A questão é que a venda desses títulos provoca, "ceteris paribus", um desequilíbrio no mercado monetário, o que implica a necessidade de o Banco Central monetizar tais papéis, gerando expansão da liquidez. Dependendo do montante e da frequência desse tipo de operação, o BC pode se tornar tão passivo no processo quanto o era nos tempos da conta movimento.

Por óbvio, o problema não está na realização de operações isoladas de capitalização dos bancos oficiais federais com recursos advindos da emissão de dívida pública, no bojo de um processo normal de expansão dessas instituições e no contexto de uma política fiscal responsável. Igualmente não haveria inconveniente, sob esse aspecto, se o crescimento desses bancos estiver baseado em captações no mercado. Grave erro seria o governo embarcar numa política de desmedida expansão das operações oficiais de crédito via emissão de dívida pública, replicando a perversa estratégia dos anos 1970 e 1980. No momento, esse risco existe, dado o forte discurso ideológico de alguns integrantes do governo a respeito do papel do Estado e de suas instituições financeiras no desenvolvimento econômico.

Em conclusão, a réplica nos dias atuais do modelo "desenvolvimentista" baseado no crescimento das operações oficiais de crédito, tendo como agentes os bancos federais, representaria um grande retrocesso institucional que poderia colocar em sério risco as conquistas econômicas dos últimos anos.

Por tudo isso, seria recomendável que o governo Lula (e seu sucessor, obviamente) abandonasse definitivamente a ideia de trazer à vida dinossauros extintos. Deixemos isso para os ficcionistas. É muito mais seguro.

Gustavo Loyola, sócio-diretor da Tendências Consultoria, foi presidente do BC

BRASIL S/A

Chineses no topo

CORREIO BRAZILIENSE - 15/02/10


Nos campos político e institucional, a China não tem nada a ensinar. A lista de malfeitos, passados e atuais, é grande

Ninguém aguenta mais ouvir falar na China. Como as celebridades de ocasião, o país passa por uma superexposição. Deveria se retirar do palco por um tempo, senão acaba reduzido a uma espécie de Geisy Arruda recauchutada. Mas o assunto é obrigatório. A revista Foreign Policy abriu um debate sobre o tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) chinês em 30 anos e seu peso no mundo. A polêmica começou com um artigo do acadêmico Robert Fogel, que dividiu o Prêmio Nobel de 1993 com Douglass North por tentar explicar a evolução econômica e institucional por meio de métodos matemáticos. Fogel fez os cálculos e concluiu que, em 2040, a China vai gerar riquezas no estrondoso valor de US$ 123 trilhões.

Isso representaria três vezes mais do que o produto mundial em 2000 e levaria o país a ser responsável por 40% da economia global, já bem longe dos Estados Unidos, que minguariam para 14% e da União Europeia, com 5%. O cidadão chinês teria uma renda per capita de US$ 85 mil, mais do dobro da europeia, mas ainda abaixo da norte-americana. “É assim que o futuro será em uma geração. Isso vai acontecer mais cedo do que imaginamos”, garantiu. Neste ano, o PIB chinês pode chegar a US$ 5,5 trilhões, empurrando o Japão para o terceiro lugar no ranking. Segundo Fogel, os analistas não entendem direito o que ocorre no país. Ele cita cinco fatores que o levarão a esse salto.

1º. O enorme investimento feito em educação e capacitação profissional vai adicionar 6 pontos percentuais na taxa de crescimento anual do país, que deve fechar este ano em 9,5%. 2º. Os analistas costumam olhar só para as fábricas e o mercado financeiro, mas o setor rural, onde ainda moram 700 milhões de pessoas, é responsável por um terço da expansão atual e continuará ganhando produtividade. 3º. As estatísticas do governo subestimam o tamanho da economia, pois não capta direito o faturamento de pequenas e médias empresas, especialmente no setor de serviços. 4º. Embora a maioria pense que a política econômica é dirigida com mãos de aço pelo governo central, há um razoável nível de debate na sociedade e a maior parte das reformas é gerida localmente. 5º. A tendência consumista chinesa, reprimida por décadas, vai explodir.

O mundo está pronto?
A resposta veio nas páginas da própria FP e ficou a cargo de Nicholas Consonery, especialista em China da consultoria Eurasia Group. Segundo ele, Fogel convenientemente diminuiu a importância de sérios problemas que ameaçam o desenvolvimento chinês, confiando demais na habilidade do governo de superar os enormes desafios políticos, econômicos e ambientais. Além disso, baseia as projeções no crescimento recorde atual, que pode não se repetir. Consonery apresenta alguns argumentos. A crise global estancou o processo de liberalização na China e fortaleceu o papel do Estado no mercado, o que tende a tornar a gestão econômica mais ineficiente e prejudicar o crescimento. Como o governo está concedendo mais incentivos à exportação, as empresas vão produzir em excesso, aumentando a dependência das vendas para os Estados Unidos, Europa e Japão, com todos os riscos que isso traz.

Sem uma genuína reforma política e econômica que estimule a expressão individual e a criatividade, a inovação tecnológica ficaria prejudicada, com os talentos saindo dos bancos escolares para empresas estatais ou a burocracia. Até 2025, um quarto da população terá mais de 60 anos de idade, o que trará enormes dificuldades para o já problemático sistema previdenciário. “Mas a razão mais importante pela qual não veremos 1,4 bilhão de chineses ganhando uma renda média de US$ 85 mil por ano é que o planeta simplesmente não pode sustentar uma expansão tão rápida”, diz. Hoje, só 4% dos chineses têm automóveis, número que poderia ser multiplicado por 20, com todas as consequências ambientais. O país deve enfrentar um deficit de 25% no fornecimento de água em 2030 — Pequim já sofre com a escassez. “O mundo está pronto para a China que Fogel descreve? A China está?”, perguntou Consonery.

Economia não é tudo
Num artigo publicado na revista The New York Review of Books, o historiador britânico Tony Judt afirma que, nos últimos 30 anos, as pessoas se acostumaram a pensar de forma apenas econômica ao avaliar políticas públicas. Em vez de se perguntarem se a medida proposta é boa ou má, querem saber se ela é eficiente e aumenta o PIB. Essa constatação cabe perfeitamente no caso da China. Em todo lugar só se quer saber do seu desempenho econômico. Pouco importa saber hoje se eles produzirão US$ 123 trilhões em 2040. Se ocorrer mesmo, e daí? Economia não é tudo. Civilização implica liberdades civis, tolerância, respeito à diferença, igualdade de condições, acesso à cultura e a um banheiro limpo.

Nos campos político e institucional, a China não tem nada a ensinar. A lista de malfeitos, passados e atuais, é grande. Desrespeita direitos humanos, do consumidor e o meio ambiente, proíbe a plena liberdade de expressão, a Justiça não se rege pelo devido processo legal e o regime político desconhece os princípios básicos da democracia. Tiraniza seu próprio povo. No artigo, Fogel afirma que uma economia dominada pela China pode soar estranho, mas representaria apenas uma volta ao passado, pois o país foi o mais rico em 18 dos últimos 20 séculos. Fiquem eles com o poder econômico. Nós nos contentamos com os valores ocidentais.

Ricardo Allan é repórter de economia

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO

Clima de desconfiança

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10


Sucessão de erros abala credibilidade de órgão global para estudo da mudança climática, que precisa ser reformulado

DIFICILMENTE o IPCC -Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, órgão criado pela ONU e pela Organização Meteorológica Mundial- sairá incólume da crise de credibilidade que o acossa. Uma sucessão de erros e desvios de conduta de membros do painel vieram à tona. Para um colegiado de base científica, configura-se uma hemorragia de prestígio que poderá levá-lo à morte.
Entre as gafes mais espetaculares do IPCC figura o pedido de desculpas, no mês passado, pela inclusão, no relatório de 2007, da previsão de que as geleiras desapareceriam do Himalaia "muito provavelmente" no ano de 2035.
Rajendra Pachauri, presidente do órgão, reconheceu que "os padrões claros e bem estabelecidos de evidências apontam que procedimentos do IPCC não foram aplicados apropriadamente".
Pouco antes, em Copenhague, gerava polêmica a revelação de uma série de e-mails capturados por "hackers" dos computadores da Universidade de East Anglia. As mensagens trocadas entre climatólogos britânicos e norte-americanos sugeriam o uso deliberado de artifícios para reforçar a tese do aquecimento global.
Agora, por todo lado surgem propostas de reformulação do IPCC. E não são só os "céticos" do aquecimento global: na última edição do influente periódico "Nature", por exemplo, 4 de 5 colaboradores do painel manifestaram-se a favor de mudanças.
De fato parece esgotado o modelo surgido há duas décadas. Centenas de pesquisadores participam da produção dos relatórios de avaliação do IPCC, sumários da melhor ciência sobre o clima publicados com intervalos de cerca de seis anos. Os autores são selecionados entre nomes indicados por governos.
Com o passar dos anos, produziu-se uma tendência para a uniformidade de pensamento, indesejável num órgão encarregado de fornecer informação científica relevante -mas não prescritiva- para a tomada de decisão. Para alguns críticos também é perceptível um substrato anticapitalista em certas postulações anunciadas pelo painel como verdades científicas.
Mesmo que acusações de manipulação e relações problemáticas entre ciência e política não sejam suficientes para conspurcar a maior parte das constatações e previsões dos relatórios, não há dúvida de que uma atmosfera de desconfiança envolverá o que se publicar doravante.
Há várias ideias sobre como restaurar a credibilidade. A medida mais urgente seria desvincular o IPCC, ou o órgão que o venha substituir, da influência direta da ONU e dos governos.
Não é uma tarefa simples. Cogita-se uma agência com mais autonomia, que teria a incumbência de produzir relatórios mais específicos e frequentes, talvez bienais, sob um regime transparente de revisão por especialistas externos.
É um bom ponto de partida para discutir uma nova e necessária fase de avaliação dos efeitos da atividade humana sobre o clima.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

PAC do Rebolation

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


No ritmo meio-carnaval-meio-palanque, Dilma Rousseff mostrou firmeza ontem, em Salvador. Referindo-se à música que toma conta da cidade, garantiu, ao deixar o bloco Ilê Ayê:

"Se eu treinar, sei que consigo dançar o Rebolation".

Sem desgrudar de Jaques Wagner, a ministra mandou beijinhos a todo lado, enquanto as assessorias dela e de Serra se esfalfavam para impedir que se cruzassem.


O sem-tempo

Ao chegar ao camarote de Daniela Mercury, sábado à noite, Serra atacou um prato de carneiro com arroz ao vinho tinto. Em público.

Eram 9 da noite e ele não tinha comido nada o dia inteiro. Apesar disso, manteve um sorriso por horas a fio.


Em todas

A tarefa de ciceronear o tucano não tirou o pique de ACM Neto. Ele saiu na quinta em dois blocos e, na sexta, era um dos mais animados no camarote de Daniela Mercury.


Circuito Fashion

E quem apareceu em Salvador sem avisar ninguém? Paulo Borges, direto de NY, onde esteve com Anna Wintour, da Vogue americana.

Ele disse que tem surpresa para o Brasil. Boas?


Na arquibancada

Fábio Assunção fugiu da folia. Está quietinho na Costa do Sauípe assistindo a jogos de tênis com a namorada Karina Tavares.


Bola ou samba?

Antes de entrar na avenida com a Gaviões, Mano Menezes explicou à coluna a diferença entre treinar um time ou escola de samba:

"Bem, uma escola eu nunca treinei, né? Mas sei que o carnaval ainda é uma coisa alegre, uma festa. O futebol virou uma guerra, muito competitivo. Os erros de uma escola na avenida desaparecem. Os de um time, em campo, são decisivos."


Sambódromo 2.0

Kassab deixou promessa antes de sair do sambódromo, sábado de madrugada.

Para 2011 o sambódromo será ampliado, chegando até o fim da rua, onde há um posto de gasolina.


A Cervejada de Paris

Onze da noite, outra noite de calor africano no Rio e uma fila de homens de smoking, mulheres de longo e drag queens vai se formando em frente à entrada principal do Copacabana Palace, no Rio. Perto dali, multidão de foliões e turistas tenta localizar, na confusão, alguma celebridade.

Eis que Paris Hilton e o namorado, Doug Reinhardt, saem pela porta principal, acenam e entram rápido em uma perua blindada que sai cantando pneu. O destino? O pier Mauá, onde está começando a festa da cerveja que contratou Paris como garota-propaganda.

Ao desembarcar, Paris faz malabares. Posa para fotos, tenta equilibrar bolsa, celular - do qual não desgrudou -, a mão do namorado e a cerveja. Por fim sobe ao palco, onde Zé Pedro é o Dj. Lá bebe e faz a alegria do pessoal: dança, engatinha e até joga cerveja para o alto.

Susana Vieira chegou desdenhando Paris. "Acho que seria mais simpático se fosse uma brasileira no papel de devassa. Temos muitas que se encaixariam perfeitamente no papel."

Horas depois, Susana entra no cercadinho vip e se apresenta à ilustre convidada. Beijinhos, apresenta o namorado, Sandro Pedroso, e sai comemorando: "Ela é o máximo".

O imprevisto, na noite do Copa, ficou para o príncipe-herdeiro do Catar, Tamin bin Hamad al-Thani. Ele nunca entra sem seguranças armados e seguranças armados não entram no Copa.

Foram sentidas as ausências de Paris, de Jennifer Aniston e Quincy Jones, entre outras.

Vincent Cassel - que veio sem Monica Belucci - falou de seu próximo filme "brasileiro": "Desta vez vim a trabalho. Estou procurando lugares para uma comédia romântica".

Depois de Grazi Massafera em 2007 e Natália Guimarães em 2008, a rainha da vez, no Copa, foi Guilhermina Guinle. "Aceitei o convite como forma de homenagear meu avô", explicou a neta de Otávio Guinle.

Mais animada que o baile foi a manhã de sábado na piscina do hotel. Sem economizar no champanhe, alguns famosos disputavam as espreguiçadeiras - Rodrigo Santoro, Gerard Butler, Vincent Cassel, Lucilia Diniz e Marco Antonio Di Biaggi. Paris preferiu sua piscina privativa, na suíte presidencial.

"Adoraria me casar"

Antes de sair praticamente carregada da festa que ganhou no Píer Mauá, sábado, no Rio, Paris Hilton conversou com a coluna. A bordo de vestido transparente e fio-dental à mostra, nem precisou explicar muito como incorporou tão bem o papel de "musa devassa".

Depois da conversa, desceu do palco enxugando o suor com um guardanapo de papel e se junta aos amigos para beber. Cerveja? Não, tequila, com fatia de limão. Mais duas doses.

Você se esforça para parecer sexy no palco? Me chamaram até aqui para realizar um trabalho. Era isso o que eles esperavam que eu fizesse. E eu fiz.

Pensa em promover projetos sociais no Brasil, como Madonna? Adoraria fazer caridade no Brasil. Já estive na Guatemala, na África do Sul, ando pesquisando sobre o assunto.

Qual personalidade brasileira gostaria de encontrar? Na verdade, já conheço muita gente famosa. Então, gostaria mesmo é de conhecer gente comum. Os brasileiros são tão quentes, tão sexies e gostam de aproveitar a vida. Exatamente como eu.

O que gostaria de fazer no Brasil que ainda não fez? Queria ir à praia. Mas não para ficar dentro de um navio. Uma praia de verdade.

Pretende se casar? Ah, eu adoraria me casar um dia, com certeza.

O BONECO ABILOLADO

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA

Mudando de paradigma

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10



Não há mais como evitar, a atividade seguradora deve, rapidamente, se debruçar sobre as profundas mudanças que afetam o planeta e que fazem com que seus produtos não cumpram mais com sua função de proteger a sociedade.

A verdade é que boa parte das apólices em vigor, aqui e no exterior, não está adequada à realidade atual, quer por não cobrirem os riscos que ameaçam os segurados, quer por estarem com os preços defasados em função da sinistralidade.

Ao longo dos últimos anos o mundo mudou. E a mudança que se vê foi radical. Como estávamos no meio dela, demoramos a perceber, mas agora as coisas começam a clarear. Por este motivo é hora de sintonizar na frequência do planeta, assimilando as mudanças dos riscos, para desenvolver novas coberturas pensadas em função delas.

Da 1ª Guerra Mundial para cá, a expectativa de vida do ser humano subiu em todos os lugares do mundo, dos mais ricos aos mais pobres. O Japão, por exemplo, atingiu a média de mais de 80 anos.

A riqueza também se democratizou e se espalhou pelo planeta. Em contrapartida, a violência urbana assola todas as nações, matando milhares de pessoas anualmente, ainda que não havendo guerra declarada na maior parte delas.

Os meios de produção atingiram uma capacidade jamais vista ao longo da história. As novas tecnologias de comunicação ligam todos os cantos da terra em tempo real. A internet torna acessível a todos os usuários uma gama de informações inédita, pela quantidade e variedade de temas.

Por conta da crise de 2008, nações antes vistas como secundárias passam a desempenhar papel cada vez mais relevante para garantir a estabilidade e o funcionamento organizado da humanidade.

China, Rússia, Índia e Brasil se destacam pelos avanços positivos, enquanto Espanha, Irlanda, Grécia e Portugal ameaçam a recuperação internacional com o fantasma do não pagamento de suas dívidas.

Para completar o quadro, mudanças climáticas cada vez mais radicais modificam a realidade do planeta, com eventos de origem natural chegando a níveis de violência inimagináveis e atingindo regiões completamente desacostumadas aos seus impactos.

Tufões, vendavais, furacões, tempestades, tornados, granizo, chuvas fortes, ventanias, tempestades tropicais, nevascas, enchentes, secas e o mais que se imaginar em eventos de origem climática cobram fortunas das comunidades atingidas.

Pragas, doenças, endemias e epidemias se espalham pelo mundo matando e levando pânico. A cada vitória da medicina, surge uma nova ameaça, representada por um novo vírus ou uma bactéria desconhecida ou resistente aos medicamentos tradicionais.

Entre as atividades econômicas mais afetadas está o setor de seguros.

Não poderia ser diferente, já que o seu negócio é a proteção da sociedade pelo pagamento das indenizações dos sinistros.

Diz o ditado que "não existe risco ruim, existem seguros mal precificados". E é isto que se vê cada vez com mais frequência, inclusive em seguros com mais de um século de existência.

Diante da nova realidade, as estatísticas até agora usadas para calcular os prêmios deixaram de ser eficazes.

As estatísticas se baseiam na experiência passada, que não serve mais porque os sinistros atuais são inéditos, ou melhor, são eventos novos, pelas características, pela ordem de grandeza, pela frequência e pelos locais onde ocorrem.

Isto quer dizer que é hora da atividade fazer a lição de casa. Se os conceitos, as garantias, os resseguros, as taxas e as políticas de aceitação não forem profundamente revistos, em poucos anos as seguradoras e resseguradoras terão perdido mais do que podem suportar, colocando em risco todo o sistema.

Não dá mais para esperar. Ou as seguradoras, inclusive as nacionais, levam em conta a nova realidade, representada pela velocidade vertiginosa do mundo e pelo aumento brutal da violência urbana e pelos danos causados pelos fenômenos naturais de origem climática ou não, ou suas taxas serão insuficientes para fazer frente às suas obrigações contratuais.

Antonio Penteado Mendonça é advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas e comentarista da Rádio Eldorado.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

Os Estados Unidos saindo na frente

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


Qual é o país, no mundo desenvolvido, que está saindo da crise da maneira mais vigorosa?
Pensou na Alemanha, no Japão? Errado. São os Estados Unidos.


Na semana passada saíram os números europeus para o quarto trimestre de 2009. A Alemanha, que fora o primeiro dos ricos a registrar algum crescimento, estagnou. A França conseguiu um magro crescimento de 0,6%. Do Japão já se sabia que continua devagar.

Enquanto isso, os Estados Unidos registraram um fortíssimo crescimento de 5,7% no último trimestre de 2009, em termos anualizados. Mais ainda, a produtividade cresceu espantosos 6,2%, o que equivale a três vezes a média histórica.

Isso mostra uma economia flexível, com enorme capacidade de adaptação. Se a produtividade cresceu esse tanto, isso significa que as empresas reagiram à queda de demanda com corte de custos (inclusive de pessoal), mas de um modo tal a aproveitar melhor os fatores disponíveis. Resultado: estão prontas para, dada a recuperação, aumentar rapidamente a produção.

Com a crise, o desemprego nos Estados Unidos praticamente dobrou - saiu da média dos 5% para mais de 10% (recentemente caiu um pouco, para 9,7%). Já na Alemanha o desemprego não aumentou, o que foi considerado um êxito e, como se discutia nos Estados Unidos, uma política exemplar.

Olhando a coisa mais de perto, verifica-se que o desemprego alemão ficou na taxa histórica de... 9%! Ou seja, a pior taxa nos Estados Unidos é equivalente à normalidade na Alemanha.

E por que o desemprego não aumentou na Alemanha? Porque o governo pagou. As empresas foram estimuladas a, em vez de demitir, colocar os trabalhadores em licença ou em horários parciais. As horas não trabalhadas passaram a ser pagas pelo governo.

Com isso, as empresas, que vinham de um ambiente de forte expansão, pré-crise, não precisam se adaptar aos tempos de recessão. Apenas mandam trabalhadores para casa (e para a conta do governo) e esperam a crise passar. E o governo aumenta seus gastos de custeio, limitando sua capacidade de investimento.

Evita-se com isso um problema social de curto prazo, o aumento do desemprego. Mas não se prepara a economia para a nova situação.

Já nos Estados Unidos, onde a rede de proteção social é menor e mais fina, a economia é levada a rápidas adaptações. As empresas registram logo os prejuízos, fecham fábricas, demitem, cortam salários e buscam meios de aumentar a produtividade. O ajuste é imediato.

E selvagem.

O custo social, e político, é maior, mas permite uma saída da crise mais rápida. Como está acontecendo.

E como ocorre fora das crises. Flexível, com ampla capacidade de mudança e aberta a inovações, a economia americana cresce mais do que as europeias e gera mais empregos. O símbolo maior da Europa, a Alemanha, com sua ampla rede de proteção social e suas regras que limitam a ação das empresas, cresce menos e emprega menos.

Mas - argumenta-se - os desempregados lá vivem melhor que nos Estados Unidos. Verdade. Só que uma economia sem dinamismo não cria as oportunidades para os mais jovens.

Modelos a escolher.

Curioso que o debate na Alemanha seja o de como ganhar mais flexibilidade e controlar o gasto público com a rede social (aposentadorias, saúde e auxílio-desemprego). Já nos Estados Unidos o presidente Barack Obama pede que os dois partidos se entendam em torno de uma política pública de geração de empregos. Mesmo aqui, porém, prevalece algum sentido de flexibilidade: uma das ideias, por exemplo, é tornar a contratação mais simples e ainda menos onerosa para pequenas e médias empresas.

Aliás, uma boa ideia para o Brasil, não é mesmo?

A conta voltou - Sob pressão para apresentar um programa crível de redução de seu déficit, o governo grego está propondo, entre outras maldades: aumentar a idade mínima de aposentadoria, uma elevação imediata dos impostos sobre combustíveis e o congelamento dos salários do funcionalismo. Para tentar conter a ira popular, promete cortar os vencimentos de governantes e de dirigentes de estatais.

Os governos da Espanha e de Portugal lidam com o mesmo dilema. É preciso cortar gastos e aumentar impostos, pois déficits e dívidas públicas passaram dos limites, mas isso se opõe a compromissos e ideologias.

Eis o ponto: a conta chegou mais cedo do que se esperava. Na verdade, lá na Europa, como aqui, muita gente acreditava ter eliminado esse tipo de conta. O gasto público parecia ter-se tornado o principal motor da economia. Assim, quem se preocuparia com essas coisas tão aborrecidas quanto austeridade e equilíbrio fiscais?

Desgraçadamente, porém, mais uma vez verificou-se que dinheiro não sai do nada. É preciso financiar o déficit e amortizar a dívida.

Eis uma lição para o Brasil. Na gestão da crise, aproveitando o embalo internacional, o governo Lula aumentou ainda mais os gastos e a intervenção do Estado na economia. As contas pioraram, a dívida aumentou. Se ainda assim o mercado continua financiando o Brasil e se o presidente ganha prêmios no exterior, isso prova uma mudança de paradigma, certo?

Errado.

A confiança no governo Lula, mantida, se baseia na crença generalizada, aqui e lá fora, de que as contas públicas serão reorganizadas neste ano, que a dívida voltará a cair, que a inflação ficará na meta e que a estabilidade será preservada - como promete o governo.

Promessa não cumprida, confiança perdida. E perde-se muito mais depressa do que se conquista.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

JAPA GOSTOSA

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Setor vitivinícola quer revisão de acordo com Chile

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10


Um acordo comercial entre os governos de Brasil e Chile, firmado há mais de uma década, está tirando o sono de quem cultiva vinhas e fabrica vinhos no Brasil.
A Câmara Setorial da Vitivinicultura encaminhou ao Ministério do Desenvolvimento, na semana passada, a queixa do setor em relação ao acordo firmado pelo Mercosul com o Chile, que prevê redução progressiva da tarifa de importação de vinhos finos.
Em 2005, o vinho chileno tinha taxa de importação de 27% no Mercosul. Hoje, o percentual é de 4,59% e, a partir de 2011, deverá cair a zero.
"Queremos que o governo brasileiro reveja essa redução do imposto de importação, porque isso prejudica a produção nacional. O risco para os investimentos será grande", disse Júlio Fante, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho.
O ideal, segundo Fante, é que a alíquota do imposto volte ao patamar de 27%.
"Outro fator agravante é que as importações do Chile são as que mais tem crescido."
No ano passado, o Brasil comprou 22,5 milhões de litros de vinho fino do Chile, o que representa 40% do total importado pelo país. Esse volume é 25% maior que a venda do produto nacional, de 18 milhões de litros de vinhos finos. A comercialização de vinhos nacionais como um todo, incluindo finos e de mesa, aumentou 12% no ano passado. Para este ano, a expectativa é manter o mesmo nível de expansão, disse Fante.

DA ALEMANHA PARA O BRASIL

Já aportou na costa brasileira navio com dois contêineres de produtos da alemã Roto Frank, do setor de ferragens e acessórios para caixilhos. A empresa anuncia nesta semana a entrada no mercado brasileiro. Com faturamento mundial de 650 milhões, a companhia planeja receita de 1,5 milhão para o primeiro ano de operações no Brasil. A Roto Frank, que detém 30% de participação no mercado mundial, traz novas tecnologias e tipologias sofisticadas de maçanetas, puxadores, fechos e dobradiças para portas e janelas de alumínio e PVC.
"Queremos nos tornar líder de mercado nos próximos cinco anos. E, no médio prazo, chegar a produzir no Brasil", disse Nikolaus Knops, diretor da Roto Frank para a América Latina. "Chegamos à conclusão de que a América do Sul será uma das maiores oportunidades de crescimento. E o Brasil tem de longe o maior potencial." A estratégia da companhia, que terá sede na cidade de São Paulo, será focar nos diferenciais de janelas com redução sonora, com alta segurança e com economia de energia, afirmou Knops.

Brazil.com é vendido por US$ 500 mil

O endereço brazil.com foi negociado no ano passado por US$ 500 mil, um dos valores mais altos obtidos por um domínio na internet em 2009, segundo monitoramento da empresa Sedo, de compra e venda de domínios. O endereço está registrado em nome da companhia Domains by Proxy e, atualmente, a página tem apenas classificados, sem nenhum conteúdo específico.
A Sedo afirma que, no ano passado, houve uma maior procura por endereço de regiões geográficas.
Russia.com, kiev.com e sudan.com, além de brazil.com, aparecem entre os que atingiram maior valor nas negociações em 2009.
"Isso é muito provavelmente um indicador de que mais dessas vendas devem ocorrer em 2010, à medida que os investidores globais continuam a expandir seu alcance de mercado aos domínios de países específicos", afirma a Sedo, em estudo trimestral sobre as transações nesse setor no ano passado.

NATUREBA AUDITADA
A rede Mundo Verde, que vende produtos naturais, não quer saber de nada alternativo em sua contabilidade. O balanço de 2009 já será auditado. A contratação de uma auditoria independente faz parte da implementação da governança corporativa, pelo fundo de "private equity" Axxon Group, que adquiriu a rede em julho passado. "A auditoria dá segurança de que os processos estão sendo feitos de forma correta", diz Sergio Bocayuva, diretor-executivo da rede. A Mundo Verde tem 150 lojas no Brasil, uma em Portugal, e quer chegar a 430 pontos de vendas em cinco anos. Cerca de 50% das novas unidades serão em São Paulo.

com JOANA CUNHA e ALESSANDRA KIANEK e ÁLVARO FAGUNDES

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Geisy na folia

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10

SÃO PAULO - Com a palavra, o apresentador do "Fantástico": "A polêmica acabou em samba. Lembra da Geisy, aquela do vestidinho rosa que provocou um rebuliço numa universidade em São Paulo? Ela está de volta, modificada, revista e ampliada". Assim começava a reportagem do dominical da Globo sobre a lipoescultura a que se submeteu a estudante Geisy Arruda. Tratava-se de mostrar em primeira mão o "novo visual" que a musa acidental da Uniban iria exibir durante os festejos momescos.
"Samba, vestidinho rosa, rebuliço" -as expressões engraçadinhas do locutor dão o tom acafajestado do suflê destinado a entreter os lares no final do domingão.
Uma das coisas que mais chamam a atenção no caso Geisy é a conversão do trauma em oportunidade, da humilhação em dinheiro, da selvageria em diversão de massa. A passagem entre uma coisa e outra se deu de maneira instantânea, sem que houvesse tempo para a elaboração do luto ou preocupação em refletir sobre o que aconteceu.
Depois de dizer que cinco litros de gordura foram pelo ralo, que "a barriga virou bumbum" e que Geisy ganhou quase meio litro de silicone em cada peito, o repórter pergunta: "Será que uma lourona dessas passa despercebida nas ruas?"
Vemos então miss Uniban desfilar pelos bares, entre marmanjos ouriçados a emitir sons de aprovação e correr para clicar a "nova Geisy" com os celulares. A cena lembra a turba em fúria nos corredores da universidade.
Aquilo que a escola prometia como perspectiva remota (uma vida melhor com o canudo na mão), Geisy alcançou num estalo, não pelo que aprendeu, mas como vítima da estupidez e da atrocidade do ambiente de ensino que frequentava.
Talvez ainda exista a tentação de criticar o deslumbramento da garota com sua fama descartável. Mas por quê? Ela não é mais vulgar do que as apelações da mídia a seu respeito. Ela não é mais frívola do que o jornalismo de celebridades e seus espectadores.

MARCO ANTONIO ROCHA

Agora é hora da folia. E depois dela?

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02/10


Quarta-feira sempre desce o pano.

É o que dizia Chico Buarque de Holanda em Sonho de um Carnaval. Mas nesta quarta-feira, depois de amanhã, no Brasil-2010, o pano sobe: "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo" - diria Fiori Gigliotti no seu inesquecível bordão. Aliás, dois soberbos espetáculos do ano: eleições para presidente da República e Copa do Mundo. Os brasileiros terão um olho na África do Sul, outro nas urnas de outubro. Torcendo para que o ano não seja um desengano.

Não será, se os candidatos à sucessão de Lula tomarem tento do que realmente é preciso fazer para que a economia brasileira continue surfando na onda de bonança e, sobretudo, se o setor privado brasileiro sair da modorra de só falar de juros ou impostos e se empenhar, de fato, em avanços tecnológicos e da produtividade.

Por enquanto, a sucessão de Lula está emaranhada no passado, mais do que comprometida com o futuro. Na oposição e na situação os discursos são sobre quem teve mais méritos e quem merece mais créditos pelo que já foi feito no País, e não sobre o que se pretende fazer para que as boas perspectivas não se desvaneçam. Pode ser que depois de quarta-feira essa fala entediante ceda lugar a alguma coisa de mais "sustança" - como se diz - para a moderna consciência cidadã. Tomara, pois o momento é crítico e o País não pode perder o foco da oportunidade que a economia mundial está abrindo nem perder tempo com um debate ideológico ultrapassado.

Quem revisar um pouco da história recente da economia brasileira verá que uma oportunidade como essa apareceu no final da 2ª Guerra Mundial, durante a qual as grandes potências em luta disputaram avidamente matérias-primas estratégicas, alimentos e outros fornecimentos brasileiros, o que encheu nossas burras de ricas divisas internacionais - que seriam dilapidadas logo depois pelos governos de um país completamente infantil em termos de planejamento estratégico (que nem existia) e de defesa dos seus próprios interesses. O azar foi que o fim da guerra e a oportunidade por ele oferecida coincidiram com o fim de uma ditadura de cerca de 15 anos num Brasil que se viu, por isso mesmo, mais empenhado em criar uma democracia (que nunca tinha tido) do que em cuidar das suas finanças e do seu futuro. Qualquer semelhança com o período de 1985 para cá deveria ser tema de estudos...

A oportunidade que aparece agora é dupla, vem de fora e de dentro. As grandes economias do mundo não estão em guerra como em 1939-45, mas buscam um lugar estável e promissor para ancorar seus capitais, depois do vendaval financeiro de 2008. Dos quatro Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) - não duvidemos - o Brasil é o mais promissor e o mais estável no que se refere a oportunidades de investimentos. Digam o que disserem e escrevam o que escreverem, é um rematado idiota o investidor institucional ou individual que, em busca de oportunidades, acredite numa Rússia, cheia de máfias estranhas, onde até o governo é mafioso; ou numa Índia, com dezenas de dialetos, de seitas, de castas, de religiões e milhões de famintos; ou numa China, com população maior e quadro cultural ainda pior, além de um governo que pode fuzilar quem lhe aprouver sem dar satisfações ao mundo; e menospreze o Brasil como plataforma de bons negócios...

Mas, ao cenário externo propício, junta-se uma novidade interna importante, que vem sendo identificada por diversos economistas e analisada em publicações especializadas: a rápida ascensão das classes mais baixas de renda para faixas mais altas, causando, na prática, uma expansão inusitada da classe média brasileira, em tempo relativamente curto.

O professor Yoshiaki Nakano, em artigo publicado no jornal Valor (Dinamismo Doméstico, 9/2/2010, página A11), dizia que "a economia brasileira se está convertendo numa economia com mercado de consumo de massa das maiores do mundo". E quantificava sua opinião estimando que a classe "C", nos últimos 15 anos, passou de 32% para 52% da população, o que representa hoje "mais de 90 milhões de consumidores incorporados ao mercado". E, já que estamos em tempo de Copa, basta dizer que isso equivale à população inteira do Brasil na Copa de 1970 - "Noventa milhões em ação, salve a seleção..." era o hino.

Ora, um dos principais fatores entre os que contribuíram para tornar gigantes as economias gigantes do mundo moderno foi a formação de um grande mercado interno de consumo de massa, que atrai investimentos externos, estimula investimentos internos, aumenta a produção, reduz os preços médios e gera empregos, num círculo virtuoso contínuo. O fenômeno que o professor Nakano aponta cresceu sobre dois pilares: o fim da inflação galopante, a partir de 1994, e o início das políticas afirmativas de distribuição de renda, acentuadas a partir de 2003. E teve três instrumentos: disciplina fiscal dos governos (ainda incompleto), câmbio flutuante e metas de inflação - mantidos por FHC e por Lula da Silva.

Há riscos adiante - de ressurgimento da inflação e de crise cambial. Por isso os economistas afirmam que o programa vitorioso precisa ser reforçado para exorcizar os riscos, ainda neste próximo mandato governamental. Mas quem já ouviu os presumíveis candidatos falando disso? Ou seus seguidores? Ou seus partidos? Quem apresentou algum programa antiborrasca?

Só o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem feito advertências. No governo, o PT está para aprovar, depois do carnaval, um programa que, se for o que já se divulgou, é pró-borrasca. E tanto no governo como na oposição o papo é de fofoqueiras de telenovela.

Mais seriedade e debates menos levianos sobre um verdadeiro projeto nacional são o que desejamos para depois do carnaval. E na campanha eleitoral.

Marco Antonio Rocha é jornalista

RUY CASTRO

Aritmética do Carnaval

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10


RIO DE JANEIRO - Todo Carnaval é assim. Enquanto milhões se jogam na folia, outros amarram a cara pelo fato de que, num país de miseráveis, onde a fome, a doença e a morte campeiam e não faltam assuntos sérios, como inundações, desabamentos e demais desgraças, a mídia dá tanto espaço à cobertura de blocos, escolas de samba, mulatas e outras futilidades.
Velho adepto de futilidades, há alguns anos comecei a me perguntar sobre a aritmética do Carnaval. Exemplos. Quantas pessoas estariam envolvidas no desfile de uma única escola de samba, entre designers, folcloristas, pintores, figurinistas, escultores, costureiras, chapeleiros, bordadeiras, carpinteiros, eletricistas, ferreiros, soldadores e outros artesãos? Quem paga essa turma? Sem contar os empurradores de alegorias, os manobristas do carvalhão e os adorados garis, que passam varrendo e sambando depois de cada escola.
Quem mede a quantidade de tecidos, plumas, pedrarias, lantejoulas, miçangas e vidrilhos que cobrem os cerca de 4.000 figurantes dessa escola? E a de isopor, madeira e ferragens usados nos cenários dos carros? Quem calcula e compra tudo isso em nome da escola? E compra de que fornecedores? Há concorrência por preços mais competitivos? E qual é a margem de recuperação do investimento quando, passado o Carnaval, a escola revende o que sobreviveu do material a escolas de praças menores?
Isto apenas no que se refere à mecânica das escolas. Mas, e o dinheiro movimentado pelos blocos, bailes, feijoadas, televisões, patrocínios, publicidade, comércio, hotelaria, táxis, cerveja, água de coco, reciclagem de latas, carros de som, engov, buscopan na veia, fotos da Madonna etc.?
Fútil ou não, o Carnaval oferece emprego e sustenta mais famílias brasileiras do que supõem os que amarram a cara contra ele.

DENIS LERRER ROSENFIELD

A criação de quilombos
O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/02Q10
Há todo um processo em curso, encampado pela FUNDAÇÃO PALMARES, pelo Incra e pelo Ministério Público Federal (particularmente a sua 6ª Câmara), de ressignificação da palavra quilombo, visando a enquadrar todas as suas ações numa interpretação do artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição de 1988. Esse processo conta até com o apoio de setores da comunidade de antropólogos. Foi igualmente essa posição que fundamentou o Decreto 4.887, de 2003, estabelecendo os critérios de desapropriação baseados na autoatribuição e na autodefinição. Desde então, tais formulações só se têm reforçado.

A Constituição de 1988 é inequívoca no uso do conceito de quilombo, significando, na época, uma comunidade de escravos fugidios, mormente negros, que constituíram povoados em regiões longínquas com o intuito de oferecer resistência aos que vinham em sua perseguição. Ela é igualmente inequívoca ao assinalar, naquela data, as terras que eram efetivamente ocupadas, de forma continuada, por negros, entendidas como terras públicas ou devolutas. Concebia-se a existência de, no máximo, cem quilombos no País.

Ora, o movimento da dita ressemantização, assumido oficialmente pela FUNDAÇÃO PALMARES, pelo Incra e pelo Ministério Público Federal, altera radicalmente os termos da questão, com o intuito de justificar invasões e contenciosos jurídicos. Calcula-se, a partir da nova significação, a "existência" no País de praticamente 4 mil quilombos, podendo esse número ser ainda muito maior. Uma primeira estimativa, provisória, seria de 22 milhões de hectares a serem destinados a essa "nova reforma", agrária num sentido, mas, em outro, atingindo diretamente centros urbanos.

Um quilombo passa, então, a ser definido segundo uma identidade simbólica baseada na autoatribuição. Basta um determinado grupo autointitular-se quilombola, a partir de uma suposta comunidade de raça, religião e sentimentos, para que se estabeleça uma pretensão territorial. É interessante observar que não se trata mais de terras ou propriedades, mas de "territórios", supostamente fundados nessa identidade simbólica, cultural. O trabalho do antropólogo se reduziria, por assim dizer, a colher relatos orais que justificariam uma pretensão, de antemão reconhecida como justa.

Ocorre o que é denominado redimensionamento do próprio conceito de quilombo, sua ressemantização, num processo de construção teórica, que não se contenta com o que os constituintes de 1988 consideravam como sendo um quilombo. De um lado, temos o que a Constituição estabelece conforme o que era pensado com esse conceito; de outro, temos os antropólogos conferindo à Constituição um significado que não é dela, significado esse não pensado pelos constituintes. A situação política é assaz curiosa, porque os antropólogos se colocam na posição de verdadeiros constituintes, sem terem sido eleitos com tal finalidade.

A inversão é total.

Foi introduzida, graças a um grupo de antropólogos, uma distinção de cunho ideológico e político entre o quilombo propriamente dito, renomeado "quilombo histórico", e o quilombo então dito "conceitual", que seria o "verdadeiro" quilombo. Trata-se de uma oposição entre o que seria o "reconhecimento" de um quilombo pelo Estado, num ato oficial, administrativo, político e jurídico de consagração de uma realidade, e o que seria um ato próprio de criação, produto de uma ressemantização, uma nova atribuição de significado à palavra quilombo, um quilombo imaginário.

Observe-se que, no primeiro caso, estaríamos diante do que é denominado "quilombo histórico", reconhecimento de uma realidade dada, de algo existente, e, no segundo, de uma produção propriamente simbólica, à qual se seguiria uma atribuição de existência. Num caso, há o reconhecimento de algo existente, no segundo, a produção de uma nova existência, não anteriormente dada. Ainda nesta última alternativa, a produção de uma nova existência, a criação de quilombos, obedece a um PROJETO de ONGs e movimentos sociais, que se conjugam naquilo que vem a ser um empreendimento político, também denominado criação de "novos sujeitos políticos".

De fato, o quilombo histórico não serve à causa quilombola. Como a lei, no entanto, deve ser observada, e como eles se reivindicam do artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição, torna-se necessário empreender um processo de metaforização, no qual, a rigor, tudo passa a caber, na medida em que são os próprios antropólogos que conferem a símbolos culturais e religiosos uma realidade medida em acres e hectares. Para que a sua finalidade política seja preenchida, uma operação preliminar é condição imprescindível, a da "conversão simbólica", que deixa para trás, precisamente, o significado da palavra quilombo e, com ela, a própria Constituição.

O quilombo histórico é atestado pela própria sociedade brasileira, com suas leis e instituições administrativas, que tomam essa realidade em seu significado aceito e reconhecido. O dicionário é o veículo dessa aceitação e desse reconhecimento, tomado por válido durante décadas e séculos. Trata-se da condição mesma mediante a qual pensamos e nos entendemos, atribuindo o mesmo significado às mesmas palavras. Se assim não fosse, viveríamos entre loucos e insensatos, cada um atribuindo um significado diferente às mesmas palavras e instrumentalizando, por meio dessa atribuição de significados, a essa ressemantização, uma luta propriamente política.

Confúcio dizia: "Quando palavras perdem o seu sentido, o povo vai perder a sua liberdade." Muitas vezes, as palavras mudam para que novos significados sejam introduzidos, embora tais mudanças, frequentemente, sejam ditas meras mudanças nas palavras, sem alteração em seus significados. A linguagem jurídica, e mesmo moral, torna-se, então, um instrumento da luta política e ideológica.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS

PAINEL DA FOLHA

Última que morre

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/02/10

Embora Lula mande informar à praça que Henrique Meirelles, como o restante da equipe econômica, ficará onde está até o final do governo, nem o Planalto nem o presidente do Banco Central desistiram da ideia de transformá-lo em companheiro de chapa de Dilma Rousseff. Os interessados reconhecem que, se a escolha tivesse de ser feita hoje, tal desfecho seria inviável, dada a rejeição do PMDB a entregar esse posto a um recém-chegado. Mas, como resta tempo pela frente e Dilma cresce nas pesquisas, há quem aposte que o governo estará em situação de força para convencer o PMDB a aceitar compensações em troca de garantir à petista um vice do tipo sossega-mercado.




Dote. No esforço para evitar que José Fogaça (PMDB) ofereça palanque a José Serra (PSDB), Lula e Dilma acenam ao prefeito de Porto Alegre com a possibilidade de apoio do PC do B e do PTB. Como Fogaça já tem o PDT, o PT teme ficar isolado. Não seria novidade no Rio Grande do Sul.

Impublicável. Mas e Tarso Genro, candidato petista ao governo gaúcho? Bem, depois da entrevista em que ele atribui a escolha de Dilma ao "vazio" no partido pós-mensalão, o círculo palaciano passou a chamá-lo dos piores nomes. Um deles faz trocadilho com a expressão "filho do Brasil".

Em campo. Eduardo Suplicy está perto de conseguir as 2.970 assinaturas de apoio exigidas pela direção do PT paulista para registrar pré-candidaturas ao governo. O senador ficou todo feliz ao obter o endosso da ex-mulher. "Quando passar a lista da Marta eu assino também", promete.

Números. Sobre a possibilidade de apoiar Ciro Gomes (PSB), como deseja o Planalto, Suplicy diz que vai depender das pesquisas. "Em 2006, tive 48% dos votos para o Senado. O Ciro aparece com 13% no Datafolha para o governo. Você acha que eu deveria abrir mão para ele?".

Lavanderia. Serra usa sempre a mesma camiseta polo azul em suas aparições carnavalescas. Tucanos que o acompanhavam tiveram de providenciar uma lavagem rápida da peça entre o desfile do Galo da Madrugada, em Recife, e o dos blocos em Salvador.

Cabeça cortada. O PSDB não renovou contrato com o Instituto Análise, do sociólogo Alberto Carlos Almeida. Não há motivo oficial. Tucanos vinham apontando distorções nos cenários estaduais feitos pelo instituto.

Caça-ministro. O presidente do STF, Gilmar Mendes, ainda não conseguiu confirmar a presença de todos os ministros do tribunal para julgar, na Quarta-Feira de Cinzas, o habeas corpus do governador licenciado do DF, José Roberto Arruda.

Batata quente. Pela lei, não é necessário ter o plenário lotado para julgar esse tipo de ação. Mas os ministros do STF querem fazê-lo com a casa cheia, dada a sensibilidade do caso. Resultado: a decisão pode ser empurrada para a semana seguinte.

Na selva. Gilmar Mendes, que está para completar o ciclo de visitas de trabalho às 27 unidades da federação como presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, disse, em evento dias atrás, que seu périplo pelo país não se deu "no circuito Elizabeth Arden": "Foi no circuito Indiana Jones mesmo".

É a eleição 1. O pacote de bondades aos aposentados acaba de ser ressuscitado por meio de emendas de deputados à MP que eleva o salário mínimo de R$ 465 para R$ 510. A maioria das propostas estende aos aposentados as mesmas diretrizes de valorização do mínimo.

É a eleição 2. PTB, PSOL e PMN apresentaram emendas propondo uma elevação ainda maior do mínimo em 2010. Os valores variam de R$ 550 a R$ 664.




com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

Tiroteio

Não sei se isso é amor ou se as diferenças "desapareceram" de uma hora para outra. Do deputado BETO ALBUQUERQUE (PSB-RS), sobre as recentes declarações pró-Dilma do PMDB gaúcho, rival histórico do PT.

Contraponto

Efeito gangorra

Maurício Fruet (1939-1998), pai do também deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), viajava de Brasília para Curitiba na companhia de colegas da bancada do Paraná quando notou que uma passageira próxima sofria mais acentuadamente os efeitos da turbulência no voo.
O peemedebista, que era conhecido pelo jeito brincalhão, levantou-se, percorreu a aeronave até a cabine e, ao retornar, sentou-se ao lado da moça indisposta usando o chapéu do comandante.
-O senhor é o piloto?- perguntou ela, algo surpresa.
-Sim, sou o piloto. Como estávamos com problema de peso, resolvi sentar aqui para ajudar a balancear...

CAGANDO FINO

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Moinho ameaça sonho da Ilha


- Folha: Brasil não pune lavagem de dinheiro, diz relatório


- Estadão: Brasileiros têm dívida recorde de R$ 555 bi


- JB: Ilha na luta e Imperatriz com fé


- Correio: Supremo reprova tese de intervenção


- Jornal do Commercio: Enquanto isso...