sábado, janeiro 02, 2010

TIMOTHY GARTON ASH

Risco cresce, poder se fragmenta

O ESTADO DE SÃO PAULO - 02/01/10


A década poderia ter acabado com um novo atentado como o 11 de Setembro. Será que, afinal, George W. Bush estava certo? Será que a "guerra total ao terror" é o conflito que define nosso tempo? Nesse caso, e as mudanças climáticas? E o fato de que mais de um bilhão de pessoas precisar sobreviver com menos de US$ 1 ao dia? E a proliferação nuclear, a ameaça de uma pandemia mundial, a crise do capitalismo globalizado?

Será necessária uma longa luta para reduzir a ameaça do terrorismo a um mínimo suportável, e esta luta terá de ser conduzida de modo mais inteligente do que nos últimos dez anos. Mas o problema da década que começa agora é que já temos meia dúzia de outras ameaças colossais à liberdade e ao modo de vida da maioria que vive sob democracias desenvolvidas.

Neste momento, nos defrontamos com um número crescente de ameaças que dizem respeito às pessoas de país, mas que se originam em outros países, e só podem ser resolvidos com a colaboração de muitos países. É o caso da crise financeira, do crime organizado, da migração em massa, do aquecimento global, das pandemias e do terrorismo internacional, para mencionar apenas alguns. A necessidade de cooperação internacional nunca foi tão grande, mas a oferta não acompanha a demanda.

LIMITAÇÕES
Sob vários e importantes aspectos, esta cooperação se tornou muito difícil. O poder dos governos nacionais é cada vez mais limitado por companhias, bancos, mercado internacional, mídia, organizações não governamentais e fluxos de informação. Além da difusão vertical, há a horizontal, com o surgimento de novas grandes potências que competem com os EUA, Europa e Rússia. A ascensão da China é a mais importante e constituirá uma história central da nova década, mas há também Índia, Brasil, África do Sul e outros.

Nada disso está ainda devidamente expresso nos arranjos institucionais das organizações internacionais nascidas depois de 1945 - quer na participação permanente no Conselho de Segurança da ONU, quer no direito de voto no Fundo Monetário Internacional (FMI).

Historicamente, as principais mudanças das relações de poder entre Estados foram acompanhadas por guerras. A releitura de O choque de civilizações, de Samuel Huntington, de 1996, faz recordar que ele imagina uma guerra entre China e EUA supostamente deflagrada em ... 2010. A situação ainda não se agravou a este ponto, mas nas próximas décadas, o mero fato de se evitar uma guerra maior, seja ela entre a China e os EUA ou na Ásia, exigirá o esforço consciente e a diplomacia de uma ordem superior. Entretanto, esta época de problemas transnacionais exige não apenas que os Estados não guerreiem entre si - a condição mais fundamental da ordem internacional - mas que cooperem ativamente entre si como nunca fizeram até agora.

Em 2000, os EUA ainda detinham uma liderança decisiva, mas desperdiçaram uma enorme oportunidade nos oito anos do governo Bush. O especialista em política externa americana, Richard Haas, que fez parte do governo Bush nos primeiros anos, fala de "uma década de distração estratégica". Agora Barack Obama tenta juntar os pedaços, mas talvez seja tarde demais. Os historiadores poderão dizer: Bush poderia, mas não quis; Obama pretendia, mas não pôde.

No final da década, a cúpula do clima em Copenhague foi a ilustração perfeita deste mundo de problemas globalizados sem uma governança global. Em teoria, os quase 200 países da chamada "comunidade internacional" poderiam, sob os auspícios da ONU, selar um acordo internacional juridicamente compulsório para resolver o problema mais obviamente global do nosso tempo. Na prática, quase nada aconteceu.
Timothy Garton Ash é historiador e analista político

VILAS-BÔAS CORRÊA - COISAS DA POLÍTICA

As férias de Lula e dos convidados

JORNAL DO BRASIL - 02/01/10

CONTRA FATOS NÃO HÁ ARGUMENTOS: o presidente Lula é uma das mais poderosas vocações de líder popular da história deste país.

E não é provável que este século produza rival que lhe faça sombra. Nada a estranhar nas merecidas férias, com numerosos convidados nas praias paradisíacas da Base Militar de Aratu, da Bahia dos balangandãs, de Dorival Caymmi e do Senhor do Bonfim.

Os planos de descanso em local reservado, com pouca gente, não resistiram à amistosa pressão de parentes, amigos mais chegados e convidados especiais. O governador da Bahia, Jaques Wagner, é um dos penetras oficiais. Lurian, a filha de Lula, não podia faltar. A praia é imensa, espaço é o que não falta, e Lula e Marisa Letícia terão os seus momentos de privacidade. Afinal, no próximo Natal e Ano-Novo o presidente Lula será um ex-presidente sonhando com mais dois mandatos.

A ausência da candidata, ministra Dilma Rousseff, que não desgruda do presidente nas viagens domésticas da pré-campanha para os comícios nas visitas às obras do PAC e do Minha Casa Minha Vida é explicada pela cautela com a saúde.

Claro que nem tudo são flores em dois mandatos, com a agenda entupida de compromissos internacionais, pois Lula não recusa convite nem para missa de sétimo dia ou para visita a qualquer país dos cafundós da África. Mas os sinais de fadiga são desculpa mais conveniente para os escorregões presidenciais, cada vez mais frequentes, comentados em surdina por assessores, parlamentares e raros ministros.

Na véspera da viagem, na solenidade da sanção do projeto de lei que beneficia os taifeiros da Aeronáutica, Lula não apenas escolheu o mais inadequado momento como o pior tema para criticar a imprensa. E o presidente com o maior, mais sofisticado e competente sistema de publicidade no mundo, para criticar os repórteres que suportam a humilhação de cobrir o pior, mais escandaloso e desmoralizado Congresso da história deste país, virou as costas à evidência e apelou para o sofisma: “Se a gente for analisar o conjunto do trabalho produzido pelo Congresso durante o ano, vai perceber que tem muito mais coisa positiva do que negativa”.

Ora, com todo o respeito, será que o presidente não lê as manchetes dos jornais? Nem folheia as revistas? Ou não passa os olhos pelos resumos da sua competente equipe de excelentes profissionais? Será que não viu nos noticiários das redes de TV a degradante sequência do governador de Brasília, José Roberto Arruda, derreado na poltrona do seu gabinete e distribuindo pacotes de notas com as propinas milionárias de R$ 100 mil, R$ 200 mil que cada um escondia nas meias, na cueca, nos bolsos, nos sapatos e uma senhora na bolsa de confiança para o transporte dos maços de notas? Mas este é um episódio do big boss de araque, um governador que não devia existir na cidade construída para ser a capital do Brasil.

Mas, e a roubalheira com as verbas do Senado? E se remexer no lixo da Câmara, teremos um bis de arromba para o início do próximo ano parlamentar.

E que tal a sutileza da lógica presidencial: “Não fazemos distinção de que partido é o governador ou o prefeito. Você não pode deixar de dar comida a um porco porque não gosta do dono do porco”.

A degringolada do governador do DF, Roberto Arruda, tocou na corda sensível do coração presidencial, inspirando esta frouxa desculpa: “A imagem não fala por si. O que fala por si é todo o processo de investigação e de apuração”.

Lula também encaixa observações sutis e generosas. No acaso de uma visita ao quartel de comando do II Exército, no Ibirapuera, onde Dilma Rousseff esteve presa e foi torturada, quando o helicóptero parou, a ministra-candidata olhou para o presidente e comentou: “Engraçado, eu não tenho raiva. Eu vim para cá quando fui presa”.

Na cerimônia recente, em 21 de dezembro, do lançamento do Programa Nacional de Direitos Humanos, a ministra Dilma Rousseff, estreando o novo cabelo ainda curto, emocionou-se às lágrimas ao lembrar os dias de prisioneira: “Muitas pessoas foram presas, torturadas e mortas pelo regime militar”.

Testemunho de uma possível presidenta da República.

A degringolada do governador do DF tocou na corda sensível de Lula

FELIPE PATURY

REVISTA VEJA
Panorama

Holofote


Felipe Patury

Lula vacinado

Marcos de Paula/AE


O governo prepara uma campanha publicitária para melhorar a imagem de sua política de saúde - setor que recebe as piores avaliações nas pesquisas de opinião e poderá prejudicar a campanha da candidata petista a presidente, Dilma Rousseff. Na última semana do ano, por exemplo, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, reuniu seus assessores para planejar medidas em relação aos surtos de dengue e de gripe A. Temporão decidiu concentrar os recursos de combate à dengue no Nordeste, a região que mais sofreu com a doença em 2009. Enfrentará, ainda, a gripe A com uma campanha de vacinação. Ele próprio e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva serão os primeiros a receber o medicamento.

FGTS recorde em 2009

Ricardo Marques/Folha Imagem


Os primeiros meses de 2009 apontavam para um ano catastrófico para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A crise econômica fez com que, em março, o fundo registrasse uma captação negativa, resultado do aumento dos saques que são feitos pelos desempregados e da redução dos depósitos dos empregados. A situação mudou no segundo semestre. Em novembro, o número de contribuintes chegou a 31,8 milhões, um recorde. Três dias antes do Natal, a arrecadação líquida (depósitos menos saques) bateu 7,5 bilhões de reais, outra marca histórica. Os números serão divulgados nos próximos dias pelo vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Wellington Moreira Franco.

Bons ventos para a energia

Andre Dusek/AE


O governo anunciará neste mês que fará dois leilões de energia eólica em 2010. A decisão foi tomada nos últimos dias do ano e está baseada no primeiro pregão desse tipo, realizado em meados de dezembro, quando foi aprovada a construção de projetos que, uma vez prontos, produzirão 750 megawatts médios, o suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Salvador. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, evita fazer previsões sobre as futuras licitações. Espera, no entanto, repetir o deságio de mais de 20% obtido na concorrência do ano passado.

Está faltando lata

Divulgação


O mercado de latas de alumínio cresceu 11% em 2009. A expansão da demanda foi tão grande que o número de unidades consumidas no país, 14,6 bilhões, ultrapassou a capacidade instalada da indústria, que é de 14,4 bilhões. Por isso, os principais fabricantes já planejam novas unidades. Neste ano, a Crown, presidida por Rinaldo Lopes, começará a construir uma planta no Paraná. A Rexam, de André Balbi, também deverá ampliar sua capacidade produtiva em 2011.

My king, how can I say axé?

Marcio Lima


A cantora baiana Ivete Sangalo está pagando curso de inglês para toda a sua trupe. No mês que vem, a rainha do axé se apresentará ao lado da pop star Beyoncé, e quer que seus músicos, bailarinos e assessores se entendam com a equipe da americana. Não é só. Ivete deseja que 2010 seja lembrado como o ano em que sua carreira internacional deslanchou - outro motivo para sua equipe aprender inglês. Marcou até data para o bloco adquirir alguma fluência: setembro, quando ela gravará um DVD no Madison Square Garden, em Nova York.

Com reportagem de Leonardo Coutinho

GIORA BECHER

Querem a paz?

O GLOBO - 02/01/10


O compromisso com a paz tem sido o objetivo central dos governos de Israel desde a criação de nosso Estado, em 1948. Se por um lado os esforços resultaram na conclusão de acordos com o Egito e a Jordânia, por outro as tentativas de paz com os vizinhos palestinos têm sido repetidamente rechaçadas.

Em discurso na Universidade BarIlan, em junho de 2009, o primeiro-ministro Netanyahu declarou claramente sua aceitação de um estado-nação palestino em paz e segurança. Líderes dos EUA e da Europa elogiaram. Infelizmente, o discurso de Netanyahu foi rejeitado pelos palestinos.

Na 6aconferência do Fatah, resolveuse “adotar todas as formas legítimas de luta” contra Israel, além de “ser criativo ao buscar novas maneiras de luta e resistência”.

Apesar disso, Netanyahu tem reiterado o chamado à paz com os palestinos.

O governo de Israel reconhece que o chamado do Estado palestino à paz é necessário, mas não é o suficiente, e implementou medidas mais abrangentes para melhorar o clima político e para o avanço da reconciliação. Os passos tomados por Israel incluem medidas para aumentar a liberdade de movimento dentro da Cisjordânia e entre a Cisjordânia e Israel, como a remoção de postos de controle e barreiras, cooperação de perto com a Autoridade Palestina na construção da capacidade das forças de segurança civis palestinas e na melhoria da coordenação entre Israel e os serviços de segurança palestinos.

Estas medidas contribuíram com as estatísticas impressionantes e encorajadoras do Banco Mundial, que mostram um aumento de 8% de crescimento anual na economia da Cisjordânia.

Apesar de a vida na Cisjordânia ter melhorado significativamente, como resultado desses esforços israelenses, os líderes palestinos continuam com uma campanha internacional para tirar a legitimidade de Israel, prejudicar sua economia e minar sua habilidade para se defender. Na citada conferência do Fatah foi adotada uma plataforma conclamando “o boicote de todos os produtos e instituições israelenses dentro dos territórios e no exterior”.

Em novembro de 2009, o governo israelense anunciou uma moratória, sem precedentes, de dez meses, na construção de um conjunto habitacional na Cisjordânia, que Netanyahu considerou um passo “objetivando encorajar o retorno das conversações de paz” e “uma oportunidade” no caminho da paz.

Infelizmente, o porta-voz palestino rejeitou a moratória. Já demonstramos, com palavras e ações, nosso comprometimento para avançar com a paz e estamos dispostos a fazer as concessões necessárias. A rejeição às iniciativas, e a recusa de negociar, deixa Israel pensando se de fato seus vizinhos estão comprometidos com a paz.

GIORA BECHER é embaixador de Israel no Brasil.

BRASÍLIA -DF

Voo ascendente

CORREIO BRAZILIENSE - 02/01/10


A ala tucana favorável à candidatura de Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo leva sobre o braço uma nova rodada de pesquisas que apontam o atual secretário de Desenvolvimento Econômico como a via mais segura para o PSDB prolongar os 15 anos passados à frente do Palácio do Bandeirante. Mais do que corroborar os resultados da mais recente pesquisa Datafolha, a sondagem amplia a vantagem do Alckmin em relação a Marta Suplicy (PT) e ao deputado Ciro Gomes (PSB), cenário em que venceria com 57% dos votos — a mais estreita margem aferida.

A pesquisa tem sido tratada com discrição pelos alckmistas, já repreendidos uma vez pelo governador José Serra (PSDB), pelo vazamento de uma edição anterior. Avesso à antecipação da disputa estadual, Serra não quer marola com o outro postulante ao governo paulista, seu chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira.


Campo

O governo federal acelerou, em 2009, aumento no número de imóveis rurais de interesse social para a reforma agrária que, em 2008, chegou a apenas 6,4 mil hectares, a menor marca dos últimos 14 anos. No ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou 137 decretos, prevendo a desapropriação de 408 mil hectares


Comparativo

Apesar da retomada, a área destinada à reforma agrária ficou 19% abaixo da média dos primeiros seis anos do governo Lula, de 500 mil. Em relação à gestão de Fernando Henrique Cardoso, o número se distancia ainda mais da média do governo tucano, de 1,2 milhão de hectares.


Relógio

A Câmara dos Deputados deve gastar R$ 2,2 milhões para implementar o sistema de ponto eletrônico dos funcionários da Casa. O registro das horas trabalhadas — que sofre resistência de setores — funcionará no início, de forma experimental, em quatro setores da administração da Casa.


Minguante

Deputados escolados no eleitorado do Rio de Janeiro fazem prognósticos desanimadores para a bancada do DEM. Dos cinco parlamentares eleitos em 2006, preveem, só dois devem se reeleger: Índio da Costa e o presidente nacional da legenda, Rodrigo Maia, que concorrerá com seu pai, o ex-prefeito César Maia, fora da máquina pública carioca.


Composição

Aspirante ao governo do Maranhão, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, desistiu de concorrer ao Palácio dos Leões. Disputará a reeleição para o Senado na chapa da governadora Roseana Sarney (PMDB). Um dos ministros mais próximos da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, Lobão declarou também apoio para que o vice da “mãe do PAC” seja o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP).


Entorno
Uma proposta do deputado Tadeu Fillippeli (PMDB-DF), que prevê a incorporação de seis municípios goianos do Entorno ao Distrito Federal, acendeu uma disputa com a bancada do estado vizinho. Apresentado no fim de outubro, o projeto recebeu pedido de vistas do deputado João Campos (PSDB-GO), que monta resistência ao avanço da matéria.

Missivas
Entre a enxurrada de e-mails enviados, em 2009, para a Presidência da Câmara dos Deputados, o projeto que mais recebeu atenção dos eleitores foi a PEC 300/08, que unifica o piso nacional de policiais e bombeiros militares. A proposta foi tema de 36.636 mensagens. Em seguida, veio o PL 3.299/08, que prevê o fim do fator previdenciário, com 35.159 correspondências.

Prudência
Presença certa em feiras e praças de Planaltina, por onde costumava circular nesta época entre o eleitorado da cidade, o distrital Aylton Gomes (PR) mudou o roteiro de fim de ano. Depois de ser citado nas investigações da Operação Caixa de Pandora, o neo-republicano decidiu passar férias na cidade de Valparaíso (GO), a 60km de distância.


Sonhar pode

Entusiastas da candidatura do vice-governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia (PSDB), ao Palácio da Liberdade apontam como cenário ideal, nas próximas eleições, uma aliança de peso com o PMDB. Ao partido, seria entregue a vice e a segunda cadeira ao Senado, com prioridade ao ministro das Comunicações, Hélio Costa.

"TAMO FUDIDO"

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA
Roberto Pompeu de Toledo

Recomeços passados e presentes

"A noção de que se está reinaugurando o país traz o duplo prejuízo
de poder ser interpretada como um embuste, de um lado, e induzir
ao autoengano, de outro"

Em 2010 completam-se 100 anos da morte de Joaquim Nabuco e Brasília faz cinquenta anos. São duas efemérides que dizem dos destinos da pátria de forma semelhante – ambas têm a ver com recomeços, ou tentativas de recomeço. Lembrar de Nabuco é lembrar da abolição da escravatura, movimento do qual ele foi talvez o principal dos agentes, e com certeza o mais elegante. Com a abolição pretendeu-se um recomeço. Com Brasília, 72 anos depois da abolição, pretendeu-se outro. Era a aurora de um país destemido, porque avançava por sertões ignotos; dinâmico, porque ousara um empreendimento que só em sonho outros ousariam; justo, porque na nova capital as diferenças de classe e de hierarquia se dissolveriam na homogeneidade das superquadras e das vias expressas; e moderno, porque os terrenos baldios daquele naco do Planalto Central seriam preenchidos por uma arquitetura de riscos deslumbrantemente avançados.

Joaquim Nabuco (1849-1910) forma, com José Bonifácio, o Patriarca da Independência (1763-1838), a dupla de maiores estadistas da história do Brasil. Eles merecem esse título não só pelo que fizeram, mas também pela ideia geral que os movia – a ideia rara, lúcida e generosa de construção de uma nação. José Bonifácio está fora das datas redondas que serão lembradas neste ano, mas é outro que personifica um recomeço – merece uma carona neste texto, por isso. Ele personifica a independência, assim como Nabuco personifica a abolição. Ambos venceram, no sentido de que, em grande parte pelas manobras de Bonifácio, o Brasil em 1822 se tornou independente, assim como, em grande parte pela pregação de Nabuco, a escravidão foi legalmente abolida em 1888. Ambos perderam, porém, no que propunham como sequên-cia necessária de tais objetivos.

Bonifácio ousou querer dotar o jovem estado brasileiro de um povo. Ora, um povo não podia ser formado por uma sociedade dividida entre senhores e escravos. Daí que, três gerações antes de Nabuco, ele já propusesse a abolição da escravidão. Falaram mais alto os interesses dos traficantes e dos senhores de escravos. Nabuco, se pegou a fortaleza escravista já mais desgastada, pronta para o assalto final, não teve êxito na segunda parte de sua pregação: a distribuição de terras entre os antigos escravos (ele dizia que a questão da "democratização do solo" era inseparável da emancipação) e o investimento num sistema de educação abrangente o bastante para abrigá-los. Tal qual o de José Bonifácio, o recomeço pretendido por Nabuco ficou pela metade.

Que dizer do recomeço representado por Brasília? Há versões segundo as quais, entre os motivos que levaram o presidente Juscelino Kubitschek a projetá-la, estaria a estratégia de fugir da pressão popular presente numa metrópole como o Rio de Janeiro. Uma espúria síndrome de Versalhes contaminaria, desse modo, as nobres razões oficiais para a mudança da capital. Mais perverso que a even-tual mancha de origem, no entanto, é o destino que estava reservado à "capital da esperança". Meros quatro anos depois de inaugurada, ela viraria, com seu isolamento dos grandes centros e suas avenidas tão propícias à investida dos tanques, a capital dos sonhos da ditadura militar. Hoje, é identificada com a corrupção e a tramoia. Pode ser injusto. Falta demonstrar que, em outra cidade, a corrupção e a tramoia teriam curso menos desimpedido. Não importa. Para a desgraça de Brasília, o estigma grudou-lhe na pele.

"Falo, falo, e não digo o essencial", costumava escrever Nelson Rodrigues. O essencial é o seguinte: nunca antes neste país houve um governo tão imbuído da ideia de que veio para recomeçar a história. Embalado por um lado em seus próprios mitos, e por outro em festivos, se não interesseiros, louvores internacionais, chega a esta quadra acreditando que preside a uma inédita mudança de estruturas, na ordem interna, ao mesmo tempo em que é premiado com uma promoção pela comunidade internacional. Assim como ocorreu pelo menos duas vezes, em décadas recentes – com o "desenvolvimentismo" de JK e com o "milagre econômico" dos militares –, propaga-se a ideia de que "desta vez vai". A noção de que se está reinaugurando o país traz o duplo prejuízo de poder ser interpretada como um embuste, de um lado, e induzir ao autoengano, de outro. Não há refundação possível. Raras são as oportunidades de recomeço. O poder das continuidades é sempre maior.

P.S.: É ano novo. Bom recomeço, para quem acredita neles.

ARI CUNHA

Trotes e vírus

CORREIO BRAZILIENSE - 02/01/10


No início de Brasília, a criançada não tinha lá muito o que fazer. Uma das diversões era trote por telefone. Eram ingênuos e alegres. Nada das maldades de usar serviços de emergência. Hoje são piadas velhas, mas na década de 70 os mais velhos caíam em todas. Tem vidro verde? Quando tiver maduro eu compro. Tem um carro gelo aí? Então deve ter derretido. O máximo que o interlocutor sentia era raiva. Alguns até riam. Atualmente os trotes telefônicos foram substituídos por vírus no e-mail. Nada ingênuos e causam prejuízos incalculáveis. Abrir uma correspondência de estranhos pode fazer que todas as fotos, filmes, músicas do computador desapareçam. As mensagens levam à curiosidade. Sexo, fortuna, mensagens carinhosas. Abra esse arquivo. Veja a nossa foto. Mensagens para você. Leia-me. Carta de amor. Teste de QI. Tudo cilada. Cuidado. (Circe Cunha)


A frase que não foi pronunciada

“Votar mal é a melhor maneira de jogar fora o dinheiro pago nos impostos.”
Myrtes Maya, preparando a comida do Leão




Estradas
» Aristides Junior, da Polícia Rodoviária Federal, prevê que o feriado do ano- novo terá acidentes. A chuva continua e o movimento aumenta. No Natal foram 477 acidentes com 30 mortes. Em 2008, na mesma época, foram 538 acidentes com 27 mortos.

Moeda
» Notas de R$10 e R$ 1 não são mais emitidas pelo Banco Central. Mas, se estiverem malconservadas, podem ser trocadas nos bancos. Por enquanto continuam valendo no mercado. Já as de R$ 50 e R$ 100 são as mais falsificadas. No Brasil não há o hábito de usar uma caneta própria para identificar notas falsas. Há casos até de caixas eletrônicos que emitiram essas cédulas.

Integração
» Especialistas iniciam um projeto para criar pela internet um sistema de cadastro nacional de informações sobre documentos perdidos ou roubados. O Ministério da Justiça coordena o programa. Ideia simples.

Tudo errado
» A meta não deveria ser só reduzir a emissão de gases do efeito estufa. O certo seria também triplicar a emissão de oxigênio. Assim, cada árvore derrubada teria que ser compensada com o plantio de três em área próxima. O espetáculo do crescimento seria verde.

Concurso
» Das 360 mil vagas no serviço público, 77 mil já foram autorizadas. Não importa que seja ano eleitoral. Até 1º de julho, o resultado deve ser publicado no Diário Oficial. O problema é quando todo o aparato é criado apenas para formar um cadastro de reserva. É bom ficar de olho. No mais, vale o estudo e o progresso.

Meu rei
» Bahia é o melhor destino turístico do Brasil. O dado é resultado de pesquisa do Ministério do Turismo. Salvador, Ilhéus, Porto Seguro e a Chapada Diamantina são os pontos prediletos. O presidente Lula acatou a pesquisa. Hoje ele está em uma base da Marinha no litoral baiano, em Aratu. Volta a trabalhar no dia 11.

Extinta
» Decisão já assinada pelo presidente determina a extinção da Administração Regional da Funai em 17 localidades do país. Surpresa geral para seus dirigentes. Pernambuco tem a terceira maior população indígena do Brasil. Tem também projetos importantes que foram subitamente interrompidos. O decreto 7.056 não é em vão. A estrutura será repensada e fortalecida.

Pela paz
» Depois das barbáries cometidas por quilombolas do Suriname a brasileiros, o Brasil pensa em uma integração maior com aquele país. É assim que se governa pela paz. As cenas de terror foram intensas. Mas serviram para chamar a atenção para o descaso nas fronteiras. É preciso intensificar o trabalho nas bordas do Brasil. Sempre com o objetivo pacificador. Isso, se não houver interesse em ampliar o terror que traz uma guerra.

Detrito Federal
» A política é mesmo um carnaval. Foram R$ 3 milhões do GDF empregados no carnaval da Beija-Flor. Na passarela do samba, o tema será Brasília. Uma aniversariante que não está no melhor dos seus dias. Vamos ver quanto vale o aplauso ou quanto foi gasto pela vaia.



História de Brasília

O jeep azul 1-68-30, pertencente a um engenheiro da Novacap, foi roubado da porta do cinema. Imediatamente, seu proprietário comunicou-se com a polícia, que não pôde dar caça ao ladrão sob a alegação de que não tinha viatura para isso. (Publicado em 22/2/1961)

GOSTOSA

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CLÓVIS ROSSI

Sobre verdades e venenos

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/01/10


Episódio de envenenamento de opositores à ditadura de Augusto Pinochet no Chile tem pista brasileira revelada


A COMISSÃO da Verdade, proposta pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, bem que poderia começar procurando a verdade nos argumentos contra ela esgrimidos pelos comandantes militares. Não vai encontrar.
O argumento mais popular, a julgar pelo Painel do Leitor de ontem desta Folha, é o de que a proposta quer investigar os abusos de um lado (o dos militares) e ignorar os do outro (os militantes da esquerda armada). Ou é desinformação ou má-fé.
Todos os abusos da esquerda armada foram punidos. Alguns, na forma da lei. Outros, muitos, à margem da lei, por meio de assassinatos, torturas, exílio, banimento, desaparecimentos.
Já os abusos praticados pelo aparato repressivo não foram nem investigados, com pouquíssimas exceções.
Para ficar apenas no âmbito mais próprio para este espaço, o internacional, está mais do que na hora de buscar a verdade sobre a Operação Condor, o mecanismo repressivo multinacional armado pelas ditaduras militares do Cone Sul, nos anos 70/80.
Deve haver, escondido em algum arquivo bem protegido, um documento assinado por chefes militares da época anulando a soberania de cada país para que militantes da oposição às ditaduras pudessem ser caçados livremente.
Eu mesmo andei atrás desse papel, quando estava para cair a ditadura boliviana da época (começo dos 80), a primeira brecha que se abriria para ter acesso a arquivos oficiais. Um coronel, que fazia a ligação entre o candidato presidencial Hernán Siles Zuazo e as Forças Armadas, me disse que teria, sim, que haver um documento oficializando, digamos assim, a Operação Condor.
Pena que um novo golpe adiou a vitória de Siles, e perdi a pista.
Ainda nesse terreno de repressão internacional, a nova comissão poderia procurar a verdade sobre o envenenamento de opositores à ditadura de Augusto Pinochet. No domingo, o jornal espanhol "El País" fez um belo levantamento sobre a morte, por aparente envenenamento, do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, pai de Eduardo Frei Ruiz-Tagle, também ex-presidente e hoje candidato de novo.
A investigação indica que Frei foi assassinado com três doses de mostarda sulfúrica, tálio e um fármaco não identificado.
No percurso para chegar a essa suspeita surgiu o caso de quatro militantes políticos presos em uma cadeia de segurança máxima em Santiago. Todos foram também envenenados, juntamente com quatro presos comuns, mas Ricardo Aguilera, então com 28 anos, sobreviveu.
Para encurtar a história, descobriu-se que o agente venenoso era a bactéria "clorstridium botulinum", que provoca botulismo, e chegara ao Chile "em um pacote letal enviado do Brasil por valise diplomática", segundo "El País".
Em vez de incomodar-se com uma "Comissão da Verdade" não seria mais lógico que os comandantes militares brasileiros se

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Buraco na pista

O ESTADO DE SÃO PAULO - 02/01/10


A Embraer começa o ano com um desafio. É que a Nigerian Eagle Airlines anda pensando em transformar um pedido de 10 aviões - três deles EMB 190 - em contrato de leasing.
Sorte que quatro aparelhos já foram entregues, e sempre se pode dar um jeito no caixa baixo do comprador. Mas até lá, a Boeing voa por perto, com muitos 737-300 velhos para alugar.

Pista livre

Nas contas do pessoal do Turismo, passou dos 55 milhões o total de passageiros embarcados em 2009. O recorde anterior - 50,5 milhões em 2007 - já tinha caído em novembro.
Dúvida no fim da pista: se o ritmo continua, os aeroportos vão resistir em 2010?


Harpa e corda

Yan Tortelier acertou ponteiros com a Osesp: vai reger a orquestra doze vezes em 2010.
Trabalho que será complementado, ao longo do ano, por regentes da Europa e dos EUA.


Sampa na Sapucaí

O carnaval entra na linha para amaciar as rixas entre SP e Rio. A Estácio, cujo desfile é patrocinado pelo Metrô-RJ, vai por um trem na Sapucaí. Homenagem à Terra da Garoa.


Sobre as águas

Cesar Cielo está nadando de braçada... fora das piscinas.
Na véspera da virada, foi até um café de Florianópolis conferir o novíssimo BMW X1 - que chega às lojas em março.
O preço? R$ 185.000


Força especial

A candidata Keila Garcia Rodrigues superou outras 50.
E o Brasil terá, nos EUA, sua 1.ª representante na SWAT.

Na contramão

Uma grande parada com personagens da Disney, promovida em várias capitais do País pela Columbia Tristar e a Nestlé, pode acabar parando.

O radialista Miguel Vaccaro Neto alega na Justiça que o título Momentos Mágicos é dele.

Virada na ilha

Ronaldo Fenômeno só apareceu às 5 e meia da manhã, mas teve tempo de sobra para se divertir - afinal, a festa seguiu animada até as 9 horas. Aécio Neves e Eike Batista chegaram bem mais cedo, assim como Carolina Dieckmann. Como eles, cerca de 900 convidados de Henrique Pinto e Márcio Camargo deram as boas-vindas a 2010 num réveillon alegre, na Ilha do Arroz, em Angra dos Reis.

Problemas? Só quando, na chuva forte, pousou o helicóptero com o DJ Erick Morillo. No mais, o barco entregou todo mundo em perfeita ordem.

Mas Luciano Huck, que dava outra festa em sua casa, perto dali, resumiu o sentimento geral na cidade: "A festa não foi para todos." No pé da serra, a Pousada Sankay e casas vizinhas, com seus 19 mortos, viviam um drama que ficará na história de Angra. E do qual os convidados da ilha foram embora sem nada saber.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

LYA LUFT

REVISTA VEJA
Lya Luft

O ano de pensar

"A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida,
nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja
realmente importante"


Mudança de ano, que, com o Natal, para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia.

O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de".

Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.

Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamadoCriança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.

Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.

Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud. Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.

E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante.

Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto?

Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.

Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem". Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.

Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010.

PAINEL DA FOLHA

Alvo preferencial

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/01/09


Em meio à saia-justa de Lula com os militares sobre o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos, a oposição tentará fazer com que a polêmica chegue à ministra-candidata Dilma Rousseff. O PPS preparou um pedido de informações para que ela se pronuncie sobre o episódio. "Dizem que Lula não conhecia o texto, e o que acabou publicado, segundo os militares, não era o acordado. Das duas uma: ou o presidente de fato concordou com a redação, ou a Casa Civil, última instância por onde passa este tipo de documento até sua publicação, vendeu gato por lebre", diz o deputado Raul Jungmann (PE). Os oposicionistas ainda tentam fazer colar a ideia de que Dilma não pode arbitrar o conflito pelo seu passado de guerrilheira.



Bases 1. Extrato da pesquisa Datafolha sobre o ranking das personalidades mais confiáveis do país mostra que a avaliação de José Serra (PSDB), cuja nota média foi de 6,23, sobe junto da idade do eleitor, atingindo pico a partir dos 45 anos. O tucano também tem desempenho melhor entre as mulheres.

Bases 2. Já os índices de Dilma Rousseff (média de 5,4) são melhores entre os homens do que com as mulheres. Ela tem desempenho irregular nas diferentes faixas etárias: as notas mais altas foram dadas por eleitores jovens (de 16 a 24 anos) e no recorte entre 45 e 59 anos.

Faixa. Os percentuais da candidata verde Marina Silva (AC) disparam entre os entrevistados que afirmaram ter nível superior e ganhar mais de dez salários mínimos.

Tira-gosto. O telespectador de São Paulo viu, na passagem do ano, uma espécie de trailer da campanha eleitoral. Revezam-se no horário nobre um comercial do governo Serra sobre realizações nos transportes e outro do Banco do Brasil sobre conquistas recentes do país que, na prática, funciona como propaganda do governo federal.

Telemarketing. Prefeitos do PT em São Paulo foram surpreendidos antes da virada do ano com um telefonema do senador Eduardo Suplicy, que buscava apoio para tentar consolidar seu nome como pré-candidato ao governo.

Muito a perder. Não obstante os 22% de Netinho de Paula (PC do B) no Datafolha para o Senado, concorrentes se perguntam se o cantor-vereador está mesmo disposto a abrir mão de seu polpudo contrato com o SBT para abraçar a empreitada.

Corpo a corpo. O governador de Alagoas, Teotônio Vilela Filho (PSDB), resolveu testar a popularidade na véspera do Ano Novo. De sunga, cumprimentou o público num quiosque da praia de Ponta Verde, em Maceió.

Ressaca. Do ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) no Twitter, trocando figurinhas com o colega de Esplanada Paulo Bernardo (Planejamento) sobre a noite da virada: "Já se foi meu tempo em que o que mais doía pós-Revéillon era a cabeça. Tô começando a era de dores no joelho e tornozelo. Culpa do VJ que era muito bom".

Trio. Tudo caminha para que o PT não tenha candidato ao Senado pela Bahia em 2010. Aliados do governador Jaques Wagner não escondem que a chapa ideal para o petista teria a dupla Otto Alencar, do PP, e César Borges, do PR.

Longe do fim. Quem acompanha de perto a construção do palanque presidencial tucano em Santa Catarina diz que muita água ainda vai rolar antes de se saber se o candidato ao governo será Raimundo Colombo (DEM) ou Leonel Pavan (PSDB).

Mandinga. Ainda sob o fogo cruzado do Arrudagate em Brasília, um deputado do DEM incluiu em sua mensagem de fim de ano votos para que 2010 "seja um ano ético".

com SILVIO NAVARRO e LETÍCIA SANDER

Tiroteio

"Em meio à tragédia, causa perplexidade o fato de o prefeito de Angra sequer ter conseguido localizar o governador nas primeiras horas."

Do deputado RODRIGO MAIA (RJ), presidente do DEM, sobre a ausência de Sérgio Cabral (PMDB) durante boa parte do dia para acompanhar os deslizamentos de terra que provocaram mortes no Estado.

Contraponto

Sem censura A ex-deputada Denise Frossard (PPS-RJ) presidia uma reunião da subcomissão de Contratos da CPI dos Correios, em 2005, quando precisou se ausentar da sessão. Sentado ao seu lado, José Eduardo Cardozo (PT-SP), que tinha o cargo de relator, foi convocado a exercer também a função de Frossard por alguns minutos.
-Você é suficientemente isento para enfeixar em mãos essa dúplice função-, brincou a deputada.
Cardozo não perdeu a piada:
-O problema vai ser quando eu tiver que indeferir minhas próprias perguntas... Ficarei bastante intimidado!

"TAMO FUDIDO"

SÁBADO NOS JORNAIS

- O Globo: Tragédia no réveillon - Chuvas fazem 30 mortos em Angra e 51 em todo o estado

- Folha: Soterramentos matam 30 em Angra

- O Estadão: Tragédia de Angra eleva para 56 total de mortos pela chuva

- JB: Natureza em fúria

- Correio: Chuvas matam ricos e pobres no Rio