quinta-feira, agosto 14, 2014

“Coisas estúpidas” - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 14/08


Dias atrás, enquanto começavam os ataques aéreos americanos no Norte do Iraque, um alto oficial do Pentágono, o general William Mayville, esclareceu seus limites. “De forma nenhuma pretendo sugerir que nós estamos, de fato, contendo ou de algum modo destruindo a ameaça posta pelo Estado Islâmico (EI).” Os bombardeios têm os objetivos táticos de romper o cerco aos yazidis no Monte Sinjar e retardar o avanço dos jihadistas rumo a Irbil, oferecendo tempo para os curdos reforçarem as defesas de sua capital. Mas, reconheceu Mayville, “dificilmente afetarão a capacidade militar do EI ou suas operações em outras áreas do Iraque e da Síria”. Barack Obama substituiu o triunfalismo da Doutrina Bush por algo como uma doutrina de retirada estratégica. As implicações da segunda revelam-se tão desastrosas quanto as da primeira.

Até há pouco, a política externa de Obama sofria apenas críticas públicas dos republicanos, que nunca acertaram as contas com a falência da visão neoimperial de Bush. A proclamação do califado jihadista do EI, contudo, provocou uma ruptura na aparente unidade dos democratas – e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton expôs o cisma à luz do dia. Numa longa entrevista à publicação The Atlantic, a provável candidata presidencial disparou obuses certeiros contra a “doutrina Obama”. Hillary disse que “grandes nações precisam de princípios organizadores” e que “não faça coisas estúpidas” não é “um princípio organizador”.

“Não faça coisas estúpidas”, a expressão irônica cunhada pelo presidente para sintetizar sua política externa, é uma referência óbvia à invasão do Iraque, a “guerra estúpida” de Bush, na definição célebre de Obama. Mas a síntese pela negativa representa também uma adesão ao sentimento isolacionista que perpassa a sociedade americana. Uma expressão sofisticada da orientação política isolacionista, que emerge amiúde nos raciocínios de Obama, é a crítica à noção neoconservadora de “difusão da democracia”. Os EUA não podem moldar o Oriente Médio, ou o mundo muçulmano, segundo um figurino político desenhado em Washington. Hillary está de acordo com isso, mas rejeita as duas alternativas polares: “Quando você está se entrincheirando e recuando, não tomará decisões melhores do que quando está avançando de modo agressivo e beligerante”.

A centelha da cisão foram as decisões sobre a guerra civil na Síria, o evento crucial que congelou a “Primavera Árabe”. Como revelou em Hard choices, seu livro de memórias sobre os quatro anos à frente do Departamento de Estado, Hillary alinhou-se com as propostas de Robert S. Ford, o embaixador que indicara para a Síria, finalmente rejeitadas pela Casa Branca. Inutilmente, Ford tentou convencer o governo americano a respaldar as correntes moderadas da oposição interna síria, fornecendo armas e treinamento para suas improvisadas forças militares. Temendo as consequências de longo prazo do compromisso estratégico, Obama preferiu operar quase exclusivamente no tabuleiro diplomático.

A “coisa estúpida” seria, na análise do presidente, transferir armas que poderiam terminar nas mãos dos jihadistas. Entretanto, como registra Hillary, estúpido foi contribuir, pela inação, para o fracasso do Exército dos Sírios Livres. “O insucesso em ajudar a criar uma força combatente viável dos que estiveram na origem dos protestos contra Assad – correntes islamistas, secularistas e intermediárias – abriu um grande vácuo, que os jihadistas agora ocuparam”, pontuou a ex-secretária de Estado. A instalação de um califado do EI em Mossul, que ameaça provocar a implosão definitiva do Iraque, é uma prova de que a “guerra ao terror” não se concluiu com a eliminação de Osama bin Laden – e um indício clamoroso do erro estratégico de Obama na Síria.

As convicções de Obama sobre política externa foram esculpidas durante os anos loucos de George W. Bush, por oposição à arrogância unilateralista dos neoconservadores, e cimentaram-se na hora de sua chegada à Casa Branca, quando o colapso financeiro forçou o país a desviar o olhar para a reconstrução econômica interna. “Não faça coisas estúpidas” é um reflexo dessa experiência. Contudo, não é exato acusar o presidente de fechar os EUA na concha do isolacionismo – ou mesmo de incapacidade de formular uma estratégia geral de política externa. A estratégia existe, mas passa ao largo do Oriente Médio e subestima as ameaças postas pelo jihadismo.

Confrontado com a ascensão histórica da China, Obama promove um “giro estratégico” na direção da Ásia, uma orientação de largo alcance que se articula em iniciativas políticas, econômicas e militares. As retiradas do Afeganistão e do Iraque são componentes lógicos dessa estratégia, que também se encontra na raiz das hesitações em confrontar a Rússia no teatro da crise ucraniana. Mas “coisas estúpidas” acontecem em rápida sequência no Oriente Médio – e o desengajamento da maior potência do mundo potencializa as instabilidades geopolíticas.

A escolha errada na Síria fechou dramaticamente o leque de opções no Iraque. Mesmo assim, Obama ainda tem a oportunidade de ordenar uma campanha massiva de bombardeios aéreos contra o EI, no Iraque e na Síria, enquanto manobra na esfera diplomática para, com o auxílio paradoxal do Irã, costurar uma coalizão governamental inclusiva em Bagdá. Mas o “não faça coisas estúpidas” paralisa a Casa Branca, que opera por impulsos reativos, a reboque dos eventos. Os ataques aéreos “muito limitados”, nas palavras de Obama, junto com o desesperado fornecimento de armas aos curdos, apenas prolongam os estertores do Iraque, que se inscrevem na moldura de uma guerra regional entre sunitas e xiitas.

Hillary está dizendo que um sinal vermelho não é uma doutrina estratégica. “Coisas estúpidas”, conta-nos a história, costumam acompanhar o desengajamento das grandes potências.

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