domingo, setembro 09, 2012

A madrinha do inferno - MAC MARGOLIS


O Estado de S.Paulo - 09/09


Baixinha e rechonchuda, ela parecia uma avó modelo. Mas ninguém chamava Griselda Blanco de vovozinha. A colombiana de 69 anos fez sua fama - e fortuna - tramando crimes hediondos, de sequestro e tráfico internacional de drogas a homicídios em série. Sua especialidade: encomendar assassinatos para pistoleiros de aluguel que executavam o serviço de motocicleta. Nesse caminho, ela fez inimigos e, pelo jeito, um deles a alcançou esta semana nas ruas de Medellín.

Na semana passada, Griselda fazia compras em um açougue da cidade quando um motoqueiro se aproximou, sacou uma pistola de calibre grosso e disparou duas vezes, à queima-roupa, contra sua cabeça. Uma ex-nora que a acompanhava e testemunhou o crime saiu ilesa, deixando apenas uma Bíblia no peito da vítima, já sem vida na calçada. Não se sabe que fim levou a última compra da criminosa: R$ 300 em carne de primeira.

Griselda morreu assim como viveu. Uma rara matriarca no universo machão latino-americano da droga, ela já era conhecida como narcotraficante de gabarito quando Pablo Escobar ainda roubava carros nas ruas de Medellín. De trombadinha, virou garota de programa, assaltante e, depois, tornou -se a "Madrinha da Cocaína" quando a mercadoria colombiana ainda estreava nos mercados globais. Tinha 1,5 metro de altura, um pouco mais com a cabeleira de salão, mas era tão cruel quanto qualquer capo da coca. Agentes federais americanos atribuem a ela 40 homicídios, enquanto fontes não oficiais falam em 250.

Griselda sobreviveu a três maridos, todos mortos em disputas de drogas, um deles - reza a lenda colombiana - por sua própria mão. Após um desentendimento nos negócios, ela teria sacado uma pistola de sua bota e o matado com um disparo na cara. Seu apelido era "Viúva Negra" e, ao seu filho caçula, ela deu o nome de Michael Corleone, em homenagem ao personagem mafioso herdeiro da Cosa Nostra nos EUA, no livro e nos filmes O Poderoso Chefão.

Com o tempo, é claro, a fama de Griselda também atraiu os olhares de cineastas, que a tornaram protagonista de dois documentários badalados, a série Cocaine Cowboys, da dupla Billy Corben e Alfred Spellman. O astro de Hollywood Mark Wahlberg está filmando uma versão romanceada da vida da criminosa para o cinemão, com Jennifer Lopez cotada para o papel de Griselda.

No fim dos anos 70, ela mudou-se para Miami, onde ergueu uma dinastia do crime, com 1,5 mil traficantes e movimentação de mais de 3 toneladas de cocaína ao ano. Coroava seu reinado com festas decadentes e violência cinematográfica. Usuários e traficantes caloteiros morriam sem misericórdia. Seu golpe mais dramático foi um ataque à luz do dia, em 1979, em um shopping de Dadeland, subúrbio de Miami. Morreram metralhados três traficantes rivais.

Presa em 1985, ela foi condenada a mais de 50 anos de prisão nos EUA, mas, numa trapalhada dos promotores, cumpriu 19 anos e foi deportada para Colômbia em 2004. De volta a Medellín, tentou se refazer, mas, para a confraria da droga, seus crimes jamais prescreveram.

A morte brutal de Griselda Blanco, porém, parece menos um sinal dos tempos do que uma relíquia de um pesadelo passado. Há duas décadas, traficantes arrogantes, como Griselda, em parceria com a narcoguerrilha, como as Farc, converteram cidades como Medellín e Cartagena em campos letais e a Colômbia em nação quase falida.

Os crimes violentos, como sequestro e homicídio, tiveram queda recorde. A guerrilha recuou e o país é a nova vedete da emergente América Latina. Sim, a cocaína ainda faz estragos e os cartéis deslocaram o tráfico e a violência para o México e a América Central. Mais difícil é imaginar outra madrinha do inferno, pelo menos fora do telão do Cineplex.

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