quarta-feira, junho 24, 2020

A trincheira do farol - LEANDRO KARNAL

ESTADÃO - 24/06

O vendedor dos cruzamentos é um termômetro rápido que daria inveja a muitos especialistas


As grandes corporações possuem departamentos de marketing, gestores de estratégia, pensadores sofisticados que acompanham as mais recentes Ted Talks sobre tendências estudadas em Harvard e Yale. Por vezes, imagino, deveriam abrir mais o vidro do carro parado em um sinal na esquina das grandes cidades do Brasil. Nonsense?

O vendedor dos cruzamentos é um termômetro rápido que causaria inveja a muitos especialistas. Ele mede com precisão o “humor” do mercado e do consumidor. O tempo nublou? Nuvens pesadas anunciam tormenta? Capas de plástico e guarda-chuvas surgem nas mãos laboriosas do ambulante. Choveu e os mosquitos se multiplicaram? Raquetes elétricas serpenteiam entre os espelhos retrovisores. Joga o Corinthians? Preto e branco se espalham entre bandeiras, camisetas e bolas customizadas. O homem talvez tenha time em casa, o vendedor da rua tem público e mercado: pode estar de verde no dia seguinte.

O dia termina e os carros voltam da sua jornada. O ágil mercador identifica veículos dirigidos por homens. Chega e oferece um buquê de rosas pronto e bonito. Sugere levar algo para a esposa. O empresário pensa na boa ideia e, por amor ou culpa, compra em rápida negociação. O tempo é curto. Não é a barganha elaborada e ritualística de um tapete no Grande Bazar de Istambul. A leitura do rosto e da intenção do comprador deve ser mais ágil do que o diligente turco com o kilim nas mãos. Tudo deve ser resolvido no prazo máximo de um minuto. Terminado o tempo, o sinal abre e o cliente foge.

Horários de fome do meio da tarde? “Larica” espalhando sua influência na metrópole? Surgem frutas em bandejas e até casquinhas crocantes acompanhadas de um sorriso. Cajus enfileirados causam impacto visual. O notável é que as comidas são oferecidas pelo mesmo ambulante que, uma hora antes, empunhava mapas. Sim, vendem-se peças cartográficas nas esquinas! Enrolados ou abertos, apelam a pessoas mais velhas que os usaram na escola. Talvez aquele senhor septuagenário compre para dar ao neto. Também provável que o adolescente presenteado agradeça com educação e pense que tem um aplicativo mais prático no seu celular para aprender Geografia.

Quando é seguro, deixo o vidro aberto nas esquinas. Escuto e aprendo. Sou chamado de “doutor”, “campeão”, “grande”, “bacana” e recebo um sorriso embebido em treino de palco urbano. Vender é esbanjar simpatia. Frases de impacto, gestos marcados e eficazes: tudo ajuda naquela luta instantânea. Um autônomo de farol poderia dar cursos muito instrutivos para uma pós-graduação em técnicas de venda.

Há espaço para a criatividade empreendedora. As pessoas comuns vendem garrafas plásticas de água. O empreendedor original se veste de garçom. Por quê? A camisa branca, a calça preta, a gravata-borboleta e a pochete com dinheiro trocado (ok, ninguém é perfeito) agregam rápida identificação com uma personagem confiável. Quem faz propaganda na televisão ou foto publicitária sabe que o consumidor necessita identificar uma enfermeira ou professora em segundos rápidos. O estereótipo é eficaz. O público precisa conhecer em um olhar quem é e o que vende. A personagem vende muito mais.

Todo trabalho honesto é digno. Eu substituí meu azedume de outrora pela tentativa de ver e aprender. Ali andam, rápidos, seres humanos lutando para sobreviver, como eu. Apenas algumas coisas me irritam muito: crianças usadas para esse fim. Sabendo que somos mais simpáticos ao vendedor mirim, constato, em pleno horário escolar, os pequenos passando entre os carros. Em geral, mais adiante, gordos progenitores descansam sob uma sombra. Nunca compro de menores e ainda reafirmo forte: “Você deveria estar na escola”. Uma única vez parei o carro e fui vociferar contra um senhor (pai?) que colocava três meninas vendendo. É perigoso fazer o que eu fiz, mas o fato me tira do cercadinho da razão.

Há mais ambiguidades no comércio que estou tratando além da exploração do mundo infantil. Há produtos sem nota fiscal, contrabando frequente, controle de qualidade inexistente, condições sanitárias claudicantes com a comida oferecida, falta de licenças ou alvarás e uma concorrência com aquele comerciante que, na sua loja, paga impostos altos para ter o direito que o da rua obteve gratuitamente. A concorrência é real e marcada pela desigualdade. A informalidade é um imperativo que deve crescer ainda mais na crise atual.

Aprendi algo novo conversando com vendedores. Nem sempre, ao lado do seu carro, está um autônomo que vende seus produtos. Por vezes, há um chefe por detrás dele. Alguém que tem capital para comprar mais, organizar, trazer o vendedor e constituir um novo tipo de empresário. Assim, sem nenhum amparo trabalhista, surgem formas de ocupação que geram recursos para alguém bem distante daquele sorridente ser humano ali presente.

Por fim, com suas genialidades e ambiguidades, temos algo a aprender observando mais e conversando mais. Independentemente de tudo, um ser humano merece sempre nossa simpatia por estar ali, de pé, lutando. Para mim ou para você, muitas vezes, chama-se importunação. Para ele, sempre, intitula-se sobrevivência. Compro pouco, mas tento ver que existe alguém. Ser invisível é um castigo enorme para quem tem pressa em comer. O farol é a trincheira de uma guerra difícil e sorridente. É preciso ter esperança e um pouco de empatia em momentos bicudos como o atual.

Uma visão de dentro do governo - MÍRIAM LEITÃO

O Globo - 24/06

Ministros admitem que o presidente comete erros, mas discordam mais da forma do que do conteúdo. Ecoa no governo previsão feita por Mandetta


A visão de dentro do governo Bolsonaro é de que o ex-ministro Abraham Weintraub prejudicava muito. O presidente o defendia, mas a maioria dos ministros civis e militares o define com palavras como “doido” ou “idiota”. Esse último ato teria dado a impressão de que o presidente arquitetou um plano contra uma lei americana, me disse um ministro. Bolsonaro é criticado por suas declarações, mesmo por pessoas que estão próximas, mas ao mesmo tempo o presidente convenceu a equipe de boa parte das suas teses, como a de que o Supremo estaria invadindo prerrogativas do Executivo.

Mais um ruído está marcado para acontecer com o pedido, ontem, feito pela Polícia Federal ao decano Celso de Mello para ouvir o presidente no inquérito que investiga a suspeita de interferência na PF. Há uma expectativa de que Bolsonaro responda por escrito. Mas o ministro Celso de Mello, em decisão recente, conforme escrevi aqui no dia 7 de maio, registrou seu entendimento de que o presidente, o vice-presidente, os presidentes da Câmara e do Senado têm essa prerrogativa, pelo artigo 221 do Código de Processo Penal, mas apenas quando são testemunhas. O decano escreveu: “Caso estejam na condição de pessoas investigadas ou acusadas não terão acesso a tal favor legal.” Sendo assim, Bolsonaro seria ouvido presencialmente.

No entorno do presidente o que se diz é que o ministro Celso de Mello deveria ser impedido de continuar à frente desse inquérito depois de ter sido divulgada a mensagem dele fazendo comparação entre o clima na Alemanha, no período que antecedeu ao nazismo, e o Brasil atual.

Quando se conversa com integrantes do governo é possível ouvir críticas ao presidente, mas mais à forma do que ao conteúdo. Acham que Bolsonaro não deveria ter feito as afirmações dando a impressão de que arquiteta um golpe, como o “está chegando a hora” ou a declaração feita na manifestação em frente ao QG do Exército, em Brasília, de que “as Forças Armadas estão conosco”. Mas há um forte apoio entre os ministros militares e civis à interpretação de que houve invasão da prerrogativa do Executivo, no caso do veto à nomeação de Alexandre Ramagem, por exemplo.

Hoje, na verdade, essa é a menor das preocupações. Há outros fantasmas rondando o Planalto. Um deles, o inquérito das fake news. Mas o de preocupação mais imediata é o da prisão do Queiroz, ainda mais tendo sido na casa do então advogado de Flávio e do presidente. O que se fala no governo sobre esse episódio é que esse é um problema de Flávio Bolsonaro e não de corrupção do governo Bolsonaro. Difícil separar, até porque a família sempre teve os mesmos códigos, as mesmas convicções e os mesmos métodos. Queiroz sempre foi homem de confiança do pai, antes de ser o chefe de gabinete do filho. A presença frequente de Frederick Wassef no Planalto e no Alvorada mostra que não há separação fácil neste caso.

Na questão da pandemia, o entendimento no entorno do presidente é que ele tem razão de se preocupar com a economia, porque será uma grande tragédia em termos de quebradeira de empresas e de desemprego. A flexibilização, no entanto, só pode ocorrer — me disse um ministro — se for com protocolos corretos. Mas ouvi críticas às declarações do presidente de que era uma “gripezinha”. Até porque ainda ecoa internamente a previsão feita pelo ex-ministro Mandetta.

— Ele disse, quando ainda estava no governo, que em junho nós teríamos 50 mil mortos. Eu achei que ele estava exagerando — admitiu um ministro.

A avaliação interna é que o auxílio emergencial foi muito mais importante para o país, para as famílias e para as economias dos estados, do que o governo consegue comunicar. Chegou retorno inclusive de governadores da oposição, do Nordeste, das vantagens do auxílio. E por isso defende-se a sua extensão, mas em valor menor. Dizem que foi uma boia lançada no meio de uma tempestade no mar. Ela não pode ser retirada de repente, mas o país não tem capacidade fiscal de manter o mesmo valor. Claro que os ministros mais próximos do presidente criticam a imprensa. Ela é, segundo me disse um ministro, parcial, exagera as más notícias e dá pouco destaque às boas. Contudo, a avaliação é de que o presidente erra mantendo esse clima de permanente confronto.

Descarbonários - MERVAL PEREIRA

O Globo 24/06

O próprio setor agropecuário terá que certificar a produção, assumir um compromisso de moratória de queimadas


O que o governo Bolsonaro acusava de “ecoterrorismo” acabou se concretizando. O aumento do desmatamento e a política de direitos humanos em relação aos povos indígenas provocaram carta de um grupo de investidores internacionais, que gere US$3,75 trilhões, a seis embaixadas brasileiras na Europa, além de Estados Unidos e Japão.

Nela, advertem que o que classificam de “desmantelamento” de políticas ambientais e de direitos humanos poderá levar empresas expostas a eventual desmatamento em suas operações no Brasil e cadeias de fornecedores a enfrentar dificuldade crescente para acessar os mercados internacionais.

Essa preocupação não é por desinformação, como quer o presidente Bolsonaro, mas pelo excesso de informações, pois como diz a presidente do partido Rede Sustentabilidade, Marina Silva, a mais importante líder ambientalista do país, “os satélites não mentem”.

Ela teme que a situação se agrave com a União Europeia se juntando aos Estados Unidos na questão ambiental com o democrata Joe Biden derrotando Trump nas próximas eleições presidenciais. Há poucos dias, Marina participou de um webinar organizado em parceria com a Climate Alliance, a Rainforest Foundation Norway e a Society for Threatened Peoples, com deputados do parlamento europeu Kathleen Van Brempt e Anna Cavazzini, representantes de povos indígenas e de ONGs dedicadas aos direitos humanos e ao clima, intitulado “Como a Europa pode apoiar o Brasil na atual crise humanitária e ambiental?”

Marina fez uma ressalva: “Nem todo setor produtivo pode ser colocado na mesma vala comum”. E nem o governo brasileiro representa hoje a maioria do povo. Na webinar, ela falou sobre a necessidade de ajuda internacional ao país, e ontem me detalhou a proposta.

Pela gravidade da situação, avalia que será preciso tomar “medidas de emergência”, e como o governo não merece confiança, esta tarefa terá que ser cumprida pelo próprio setor agropecuário: certificar a produção, assumir um compromisso de moratória de queimadas, um programa de baixo carbono e rastreabilidade, tudo com marcos temporais e supervisionado por um comitê de acompanhamento da sociedade civil.

Alfredo Sirkis, que foi coordenador da campanha presidencial de Marina Silva, marca essa luta ambiental com o lançamento de um novo livro, em versões ecologicamente corretas: e-book, audiobook e impressão sob encomenda. Um dos fundadores do Partido Verde brasileiro há 35 anos, depois de ter sido vereador, secretário municipal, deputado Federal, Alfredo Sirkis hoje preside o Centro Brasil do Clima, que representa a fundação do ex-vice-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz Al Gore.

“Descarbonário” é uma bela sacada semântica que relembra seu livro de memórias guerrilheiras “Os carbonários”, lançado há 40 anos, e sua crença atual, a necessidade de descarbonizar o planeta. A narrativa se encerra na última semana de 2018, quando entregou, na qualidade de secretário executivo do Forum Brasileiro de Mudança do Clima, ao então presidente Michel Temer, o documento “Mudanças Climáticas: riscos e oportunidades para o Brasil”.

Hoje, o antigo carbonário define-se como “centro radical” e rejeita cabalmente a esquerda autoritária, leninista ou populista, e a direita reacionária ou fascistoide”. Ele, que foi vereador e deputado federal ao lado de Jair Bolsonaro, considera que, por perceber que uma parte dos ambientalistas era de esquerda, “em sua sesquipedal desinformação, passou a catalogar a questão ambiental e climática na “caixinha” do comunismo e a se identificar com todo grupo de atividade devastadora que avalia como progresso: grilagem, garimpo ilegal, invasão de terras indígenas, poluição.”

Desenvolveu uma antipatia visceral “por uma causa cujos pioneiros, ironicamente, foram ilustres militares, como o marechal Candido Rondon, o major Francisco Archer ou o almirante Ibsen de Gusmão.

Para Alfredo Sirkis, é besteira frequentemente repetida dizer que a mudança climática ameaça o planeta. “Quem está seriamente ameaçado é o Homo sapiens habitante do planeta”, que pode ter “como sina a de outras espécies dominantes no passado, como os dinossauros”.

Um ano perdido - VERA MAGALHÂES

O Estado de S.Paulo - 24/06

Fuga de Weintraub é símbolo final de desastre da Educação na pandemia


A fuga canhestra de Abraham Weintraub do País e seu desembarque caricato em Miami foram o apogeu de uma gestão daninha na Educação.

O pior ministro da Educação que o Brasil já teve se despediu com um bilhete em papel de pão, um abracinho no presidente e uma banana para o País. Para poder entrar nos Estados Unidos, se valeu de uma fraude ao Diário Oficial, mais um expediente que vai se tornando rotina no governo coalhado de ilegalidades de Jair Bolsonaro.

Antes de mais essas cenas de pastelão, no entanto, o dono da cachorrinha Capitu entregou um ano perdido, em que os alunos não foram apenas expostos aos riscos para a saúde física e mental decorrentes da pandemia, mas à completa falta de perspectiva para seu futuro escolar graças à inépcia do Ministério da Educação.

Depois de, por pura birra, tentar obrigar alunos do Ensino Médio a fazer o Enem sem ter aulas, ou tendo sido jogados de paraquedas num ensino à distância com mais buracos que a superfície da Lua, e ser forçado a recuar pela Justiça e pelo Congresso, Weintraub simplesmente desligou as operações.

Não houve, por parte do MEC, uma diretriz sequer de retomada a Estados e municípios de como planejar a retomada das aulas, e a que tempo.

Além disso, o ministério, que já era um ator tardio e secundário na discussão do financiamento da educação básica a partir do ano que vem, se esqueceu deliberadamente do assunto.

O ministro-clown preferiu gastar seus últimos dias à frente da pasta conspirando contra a democracia, confraternizando com milicianos golpistas, tentando impor às universidades federais reitores biônicos e exterminar as políticas de ação afirmativas adotadas para franquear o acesso à pós-graduação a negros, indígenas e deficientes.

Numa calamidade sanitária, empenhou toda a sua energia na destruição, na apologia ao golpismo, à obsessão de fechar portas àqueles para os quais a Educação deveria ser uma ponte para o futuro.

O estrago é tão indisfarçável que Bolsonaro, que também não está nem aí para a Educação, tem de cobrar dos candidatos a ministro um plano para a volta às aulas, já que a equipe que o fujão deixou não tem nada a apresentar, ao que parece.

As consequências recaem sobre alunos de todos os ciclos, de todo o País e das redes pública e privada. E a borduna, como sempre, vai bater mais forte na cabeça dos mais pobres. As iniciativas municipais e estaduais de ensino à distância são um conjunto irregular e fake, em que uns saíram levemente na frente e outros não conseguiram nem se organizar três meses depois.

Não há compensação possível, por exemplo, para alunos de universidades federais cujas instituições nem tentaram implementar ensino à distância. Jogados em casa, muitas vezes sem acesso a entretenimento ou cultura, esses alunos questionam se o plano que haviam traçado para o próprio futuro ainda fará sentido após a pandemia ter varrido perspectivas acadêmicas, empregos e cadeias produtivas inteiras.

Os pais dos estudantes de escolas e faculdades privadas podem até ter a ilusão de que as aulas online supriram esse buraco, mas basta acompanhar um dia da rotina de alunos jogados diante de telas que jogam conteúdos incompatíveis com a nova realidade para saber que isso é conversa mole para cobrar mensalidade integral.

Cabe a esses pais e estabelecimentos se entenderem, mas no caso da Educação pública a responsabilidade é dos governantes. É urgente que o MEC exume o fantasma Weintraub e assuma um mínimo de articulação de estratégia educacional. E governadores e prefeitos têm de deixar de pensar em reabrir shoppings e focar em dar a pais e alunos um protocolo responsável para redução de danos de um ano perdido.

Governo suspendeu multa de R$ 27 milhões a consórcio com empresa da ex-mulher de Wassef

O GLOBO - 24/06


Punição aplicada pela Dataprev em 2018 foi revista na gestão Bolsonaro

Juliana Dal Piva


RIO — O governo federal suspendeu em 15 de março do ano passado uma multa de R$ 27 milhões aplicada a um consórcio de empresas contratado em 2014 mas que não entregou os serviços previstos pela Dataprev, a Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência, vinculada ao Ministério da Economia. Entre os membros do consórcio multado está a Globalweb Outsourcing, que possui como fundadora e presidente do conselho de administração a empresária Cristina Boner Leo, ex-mulher de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. A Dataprev diz que o caso ainda está em análise e nega interferência política na decisão.

Contratada por R$ 17 milhões para estruturar um sistema de tecnologia para a Dataprev até 2015, com prazo prorrogado primeiramente para 2016, o consórcio MG2I não havia entregue o serviço até abril de 2018, ainda no governo Michel Temer, conforme relatado em documento da Divisão de Gestão e Fiscalização Administrativa de Contratos do Dataprev, assinado pela servidora Luciana Lopes Bon no dia 6 daquele mês.As mudanças nas decisões da Dataprev Foto: Reprodução

No documento, a Dataprev faz relato do atraso na entrega dos serviços e informa ao consórcio que, “devido aos constantes descumprimentos contratuais retratados”, o órgão havia decidido “rescindir o contrato unilateralmente, assim como suspender o direito de licitar e de contratar de todas as empresas participantes deste consórcio”.

Além disso, a Dataprev comunicou a aplicação de uma multa de R$ 27,1 milhões. O valor foi calculado levando em conta o valor do contrato, o não cumprimento dos prazos e o fato de o consórcio ter recebido até então R$ 1,7 milhão sem entregar os serviços.

No dia 15 de março do ano passado, já no governo Bolsonaro, o Diário Oficial da União registrou que a Dataprev e o consórcio MG2I “acordam pela suspensão de comunicação de rescisão e da aplicação de sanções contratuais previstas na CE/DGFC nº 428/2018”, e que o contrato foi prorrogado até outubro deste ano.

Quando o governo Bolsonaro publicou o acordo, Frederick Wassef já era advogado do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na investigação sobre a suspeita de “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio na Alerj. Wassef viveu em união estável com Cristina Boner Leo desde 2011 e diz estar separado dela há dois anos. No dia da prisão do ex-assessor de Flávio Fabrício Queiroz, na casa do advogado em Atibaia (SP), Wassef estava na casa de Cristina, em Brasília. Além de ter Cristina na diretoria, a Globalweb possui Bruna Boner Leo, sua filha, como sócia.

Rescisão unilateral

O texto do setor de Fiscalização de Contratos da Dataprev justifica a multa e rescisão ao dizer que havia um “percentual de conclusão extremamente baixo, mesmo passados 19 meses do prazo”. O consórcio venceu o pregão em 2014 e tinha como prazo para a entrega dos serviços 21 de julho de 2015. Três aditivos foram feitos para que o serviço fosse concluído até setembro de 2016, o que não tinha ocorrido em abril de 2018, quando a Dataprev optou pela rescisão.

Procurada para explicar como conseguiu o acordo publicado em março de 2019, a Globalweb informou, por nota do CEO Pedro Rondon, que o consórcio negociou o acordo durante o ano de 2018 e apenas “o processo burocrático de validação jurídica e assinatura do aditivo se estendeu até fevereiro de 2019, com publicação no Diário Oficial em março de 2019”. Segundo ele, não houve “qualquer interferência política do governo Bolsonaro, dado que a decisão foi tomada exclusivamente com base nos planos de ação e implantação apresentados pelo consórcio”. O GLOBO solicitou os documentos da negociação, mas eles não foram fornecidos.

A Globalweb alega que os atrasos ocorreram porque, após a contratação e início das atividades, houve mudanças nas especificações do sistema. De acordo com a empresa, o pedido de rescisão unilateral foi uma surpresa e que, após o acordo, “uma nova solução que atende totalmente o edital foi apresentada”, com um novo prazo para conclusão.

Procurada, a Dataprev informou inicialmente em nota que “sob nova gestão, em 14 de março de 2019, a Diretoria Executiva da Dataprev, em razão do histórico de sucessivos atrasos na execução contratual, desde a sua assinatura, decidiu por, novamente, suspender a execução do contrato”. E acrescentou que, caso a análise do caso encontre irregularidades, a multa será aplicada.Segundo o Portal da Transparência no site da Dataprevi, contrato do consórcio MG2I segue vigente Foto: Reprodução

Alertada de que a data mencionada era a véspera da publicação no D.O. que suspendia a multa e retomava o contrato, a Dataprev se retificou e afirmou então que a nova suspensão do contrato se deu no dia 30 de abril de 2019. O GLOBO não encontro registro público, no Diário Oficial, dessa nova suspensão. Além disso, o portal da transparência no site da Dataprev indica o contrato como “vigente”.

A Dataprev afirma ainda que todas as decisões da atual diretoria baseiam-se em análises e critérios técnicos.

Procurado, o advogado Frederick Wassef não retornou.

Se o comunismo ameaça capitalismo nativo, nosso maior comunista é Bolsonaro - REINALDO AZEVEDO

UOL - 24/06

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Saída de Bolsonaro é um pouco mais demorada. Depredador ambiental tem de cair já. Para o bem do agronegócio e do país


O melhor que o capitalismo brasileiro poderia fazer em favor de si mesmo e do povo seria demitir Jair Bolsonaro. Mas isso não é coisa, se acontecer, que se faça da noite para o dia. Então, por ora, para se preservar de uma encrenca monumental, o país tem de botar na rua o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Já não se trata mais de um risco. A questão chegou ao nível das advertências — e, pois, das ameaças: no caso, é a civilização ameaçando a barbárie, o que não deixa de ser um momento raro na história da humanidade.

A verdade inequívoca é que a política ambiental é a principal fragilidade do Brasil quando este é submetido aos olhos do mundo que interessa. Na toada em que a coisa vai, investimentos externos tendem a ignorar o país, e o setor mais virtuoso de sua economia, o agronegócio, pode sofrer sucessivos golpes em razão da estupidez que reina na área.

A referência da antipolítica ambiental do atual governo não é preservação do meio ambiente somada às virtudes do agronegócio de ponta. Tomam-se medidas para agradar madeireiros ilegais, invasores de terras indígenas e pistoleiros disfarçados de empreendedores rurais.

OS FUNDOS
Nesta segunda, 29 fundos de investimentos que administram a bagatela de US$ 4,1 trilhões (R$ 21,6 trilhões) enviaram uma carta a sete embaixadas brasileiras -- EUA, Japão, Noruega, Suécia, Dinamarca, Reino Unido, França e Holanda -- pedindo uma reunião para discutir o desmatamento na Amazônia.

Esses fundos acompanham o que acontece no país em detalhe. O documento especifica até número de expedientes legais que regularizam invasão de área pública e exploração de terra indígena e, ora vejam!, fazem referência explícita àquela intervenção indecorosa de Salles da reunião ministerial macabra do dia 22 de abril.

Segundo o texto, as "declarações recentes do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que usou a crise da Covid-19 a fim pressionar pela desregulamentação ambiental", são um exemplo de "ameaça da desregulamentação das políticas de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos no Brasil".

PARLAMENTARES EUROPEUS
Na quinta, dia 18, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, recebeu uma carta de 29 integrantes do Parlamento Europeu que manifestam a sua preocupação com o que veem como uma escalada no país contra o Meio Ambiente.

Os digníssimos integram a Comissão de Ambiente e comitês que tratam de agricultura e comércio exterior. Sem a concordância, entre outros, do Parlamento Europeu, não existe acordo Mercosul-União Europeia. Vai ver é precisamente isso o que querem os lunáticos que se dizem antiglobalistas. Vai ver o comércio internacional é prejudicial aos tradicionais valores do nosso povo, não é mesmo?

Também nesse caso, a situação é acompanhada com lupa. Os eurodeputados citam como perigo ao meio ambiente e aos direitos humanos o PL 2.633, que trata da regularização de terras públicas invadidas; o PL 3.729, que muda regras de licenciamento ambiental, e o PL 191, sobre extração mineral em terras indígenas.

E, claro!, também nesse caso, Salles, que envergonhou o Brasil na mais recente Cúpula do Meio Ambiente, é apontado como uma ameaça — o que, de resto, ele de fato é. Os parlamentares europeus pedem que seus congêneres brasileiros "ajam para manter e restaurar as leis e a estrutura necessária para proteger as florestas brasileiras e os direitos dos povos indígenas".

ENTIDADES
A terceira iniciativa é mais do que um puxão de orelha. Trata-se de uma ação prática. Cinco entidades internacionais de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos -- ClientEarth, Fern, Veblen Institute, FIDH e Fondation pour la Nature et l'Homme -- apresentaram uma queixa à ombudsman da União Europeia pedindo a suspensão das tratativas do acordo do bloco com o Mercosul até que a questão ambiental no Brasil seja devidamente debatida.

Eis aí: sob o pretexto de combater o comunismo e o globalismo, o governo Bolsonaro é hoje a maior ameaça ao capitalismo no Brasil, muito especialmente a seu setor mais dinâmico, o único que não foi à breca com a crise do coronavírus: o agronegócio.

Os fundos de investimento chegam a citar nomes de empresas brasileiras que já estão sendo prejudicadas pela má reputação da política ambiental. E má reputação justificada. Também nessa área, o governo Bolsonaro mais se ocupou em destruir as políticas que estavam em curso do que em construir alternativas virtuosas.

O Brasil tem uma bancada ruralista numerosa e influente. Cabe a seus membros decidir se apostam no fortalecimento do agronegócio ou se dão sustentação a uma política que ampara a pistolagem no campo, ameaçando as exportações brasileiras e os investimentos.

MST? Não representa risco nenhum ao agronegócio. O nome do perigo, hoje, com reputação internacional já firmada, é mesmo Ricardo Salles. Que seja removido como medida imediata possível. Ou o país quebra a cara. Se o comunismo é mesmo uma ameaça ao capitalismo brasileiro, como querem os malucos, o maior comunista da nossa história se chama Jair Bolsonaro.

Caça acuada, caçadores em vigília - ROSÂNGELA BITTAR

O Estado de S.Paulo - 24/06

Os fatores que sustentam a mudança de rumo estão em plena ebulição


Aparentemente, há fatos e indícios demais que justificam o afastamento do presidente Jair Bolsonaro. O consenso na política, porém, é de que o cenário ainda exige cautela. A caça foi avistada, está acuada, mas ainda não pode ser alcançada.

Os fatores que sustentam a mudança de rumo estão em plena ebulição. Apenas a reeleição, que Bolsonaro sempre considerou favas contadas, está fora de cogitação. Sucumbiu junto com os milhões de vítimas da covid-19 e dos desempregados por ela. Ainda há quem acredite na reabilitação do candidato nesses próximos dois anos e pouco, mas estes são raros.

Ninguém mais discute, porém, se o presidente resistirá até o fim do mandato. A dúvida é sobre como vai sair, se pela impugnação da chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou pela deposição via Congresso, o impeachment. Para os dois desfechos ainda não existem as condições necessárias, em provas, perdas de apoio, enfraquecimento político.

A novidade atual é a troca de posição das probabilidades. A impugnação no TSE, que até há duas semanas era vista como a hipótese mais fácil, perdeu favoritismo. A equação se inverteu.

Duas razões se destacam para a desistência desta aposta. A cassação eleitoral padece de provas incontestáveis. Robôs espalhando notícias falsas, com formação de rede do ódio e seus efeitos decisivos na eleição, são provas “tênues” politicamente, questões áridas e técnicas, de difícil compreensão, até mesmo para os juízes da corte eleitoral.

A impugnação da chapa tornou-se menos palatável. Também, pelo longo tempo que se passou desde a eleição e a extensão da punição ao general Hamilton Mourão, vice-presidente, que não assumiria o poder. Está prevalecendo, no momento, o argumento oposto ao de um grupo da oposição que prefere esta saída exatamente para se livrar de Mourão. Mas já não é a mais realista.

Não por temor de um levante militar. Como mostrou reportagem de Tânia Monteiro, no Estadão, na segunda-feira, o chamado poder militar, representado pelos 11 comandantes que têm o controle das tropas, não tem gabinete no Palácio do Planalto. Atingir Mourão na derrubada de Bolsonaro pode ser um passo em falso e desnecessário.

Quanto ao impeachment, há muita coisa para se imaginar, mas ainda pouca coisa a ver.

A pandemia impede que os líderes e negociadores realizem reuniões. Ninguém articula deposição de presidente da República via internet. Bolsonaro está sendo favorecido justamente pela avassaladora e cruel doença que renegou, desprezou e ironizou. A pandemia da covid-19 tende a manter a política sob pressão até o fim do ano, no mínimo.

Por isto, a análise de pedidos de impeachment é considerada sem viabilidade no momento. Depois das eleições municipais, quem sabe?

A imagem do presidente dificilmente se reerguerá. Foi contaminada pelos piores símbolos do seu governo: os apoiadores presos por atos antidemocráticos, os empresários periféricos financiadores da baixaria, os advogados saídos de becos de arranjos. A tradução do governo, hoje, são as Saras, os Queiroz, os Hangs, os Wassefs.

Estão apenas no começo as investigações sobre os escândalos da “rachadinha”, do gabinete do ódio e dos atos que pedem a volta do AI5.

A equipe econômica pioneira já começou a se dissolver. Até quando o ministro da Economia resistirá?

O presidente fez um cálculo objetivo ao apostar todas as suas fichas no Centrão, alimentado pelos melhores cargos políticos, como os Ministérios das Comunicações, possivelmente o da Educação, os bem nutridos Fundos de financiamento da Educação e da Saúde.

Com este arsenal, o Centrão entra forte na campanha municipal. O que fará depois, são outros quinhentos. Se o cofre a proteger estiver vazio, enfraquecido, isolado, o grupo embarcará, como é de sua natureza, na expectativa de poder futuro.

Brasil: o destino de nunca ser liberal - CRISTIANO ROMERO

Valor Econômico - 24/06

Aqui, liberalismo e liberal são palavras demonizadas


Uma das palavras mais demonizadas do nosso vocabulário é "liberalismo". Sim, o vocábulo, porque, no fundo, não importa discutir seu significado real, a ideia, a doutrina ou o modelo de funcionamento de uma economia. Na Ilha de Vera Cruz, mesmo nas universidades, lócus por definição do debate de ideias, não se vai muito longe na discussão do tema. Ora, por quê? Porque o liberalismo econômico, nos ensinam os livros didáticos desde a tenra infância, é coisa de capitalista selvagem, empresário malvado e banqueiro usurpador, assim como de duas categorias cuja existência, para os anti-liberais, dispensa adjetivos: os investidores da bolsa de valores e os investidores estrangeiros.

A história nos conta por que somos assim, desde as capitanias hereditárias, a forma encontrada pelo já decadente reino de Portugal de ocupar esta imensa "ilha", antes que alguém o fizesse.

"Descoberta" em 1500, Cabrália só começou a ser realmente colonizada 34 anos depois, quando D. João III dividiu o território à régua _ sem levar em consideração os acidentes geográficos que costumam demarcar cidades, Estados e até países _ em 15 capitanias. Como o reino estava falido, cada área foi concedida a um donatário que tivesse recursos para ocupar e administrar a sua área, que não lhe pertencia, mas a Portugal.

A ocupação era urgente porque franceses vieram aos baldes, nas três primeiras décadas de existência da América Portuguesa, depenar a vasta Mata Atlântica para extração de pau-brasil, madeira resistente usada na fabricação de móveis, instrumentos musicais e, ainda, no tingimento (vermelho) de tecidos. Antes das capitanias, funcionaram as feitorias, um monopólio concedido pelo reino português aos exploradores e comercializadores de pau-brasil. Mais adiante, em 1550, os franceses tentaram tomar a pulso parte da Ilha de Vera Cruz do domínio português...

Os donatários das capitanias começaram a desenvolver a lavoura de cana de açúcar e a produção de açúcar, principal produto da colônia dali em diante e por mais de dois séculos. Ali, criou-se a ignomínia que nos caracteriza como sociedade: a escravização de indígena e de africanos. No tempo das feitorias, os índios faziam o trabalho pesado de derrubar as árvores de pau-brasil, mas, em troca, recebiam bugigangas europeias dos feitores. Era um tipo de escravidão, mas esta só foi posta em prática oficialmente com o início do plantio de cana-de-açúcar. À medida que o cultivo da cana foi avançando, o tráfico de africanos escravizados na colônia de Portugal nas Américas cresceu exponencialmente. Como se sabe, apenas em 1888, quase quatro séculos depois, a escravidão foi abolida no Brasil, o último país do Novo Mundo a fazer isso. Tarde demais.

Este país habitado hoje por 210 milhões jamais conseguiu superar as capitanias hereditárias (cartórios), as feitorias (monopólios), a escravidão (a forma mais perversa de não se reconhecer no outro, obstáculo intransponível para o florescimento de uma nação). Grosso modo, esses elementos sempre estiveram presentes na forma como nossa economia funciona. A história nos ensina que grupos específicos, minoritários quando comparados ao conjunto da população, dividem entre si os sempre parcos recursos do Estado.

A tradução moderna e contemporânea do modelo de formação econômica e política está, por exemplo, no poder autóctone da burocracia estatal _ que, isolada em Brasília, goza de privilégios, como o direito absoluto à estabilidade no emprego, e toma decisões em seu próprio benefício ao arrepio da sensatez e da opinião de quem lhe paga os salários. Revela-se, também, na manutenção sob o guarda-chuva do Estado de um sem-número de empresas estatais, periodicamente flagradas malversando recursos públicos em prol de interesses de empresas privadas.

Nossa herança maldita se manifesta na inaceitável tolerância do Estado com a existência de monopólios e de setores com elevado grau de concentração. Este não só provoca ineficiências na economia como um todo, mas representa também uma ameaça à própria democracia. Nos regimes democráticos, têm enorme vantagem sobre os outros os detentores de poder econômico e informação. Esses ativos são comumente usados nas disputas de poder e não raramente de maneira desonesta. A razão disso é simples: a posse dessas vantagens gera assimetrias que podem desequilibrar a luta política e, assim, fragilizar a democracia.

O atraso secular se traduz, ainda, na concessão, pelos governantes, de uma miríade de incentivos fiscais (que reduzem a capacidade da União, dos Estados e municípios de investir onde são mais necessários, ou seja, em educação e saúde) a grandes companhias, que têm acesso a crédito bancário e ao mercado de capitais. Ao mesmo tempo, é negada aos pequenos empreendedores e empresas qualquer forma de ajuda. Ao contrário das grandes companhias, as pequenas têm que buscar crédito no mercado, onde os juros são muito mais altos.

Por, não se deve esquecer que a nossa (de)formação histórica aparece, com nitidez desconcertante, na convivência cínica das elites (todas) com vergonhosos indicadores de violência (60 mil homicídios por ano), pobreza (50 milhões de miseráveis), desigualdade (1% da população detém 28,3% da renda, enquanto os 50% mais pobres ficam com 13,9%) e de qualidade da educação (no país onde se destacam tantos especialistas nessa área, entra ano, sai ano, e nossos adolescentes ocupam sempre as últimas colocações do Pisa, programa da OCDE que mede e compara o desempenho de estudantes de dezenas de nações em provas de matemática, ciências e língua pátria.

Nada disso tem qualquer relação com o liberalismo econômico. É justamente o oposto. Na verdade, neste imenso pedaço de terra, ideias liberalizantes jamais frutificaram. Não há liberais de verdade por aqui. No fundo, o liberalismo - concebido por Milton Friedman - é uma utopia. A saga continua...

A quitanda está abandonada - ELIO GASPARI

O GLOBO/FOLHA DE SP - 24/06

É necessário que o presidente se associe à administração


Hoje completam-se dois meses da saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. Parece que foram dois anos. De lá para cá, no meio de uma epidemia, caíram dois ministros da Saúde e escafedeu-se o da Educassão. Isso, esquecendo-se da novela de Regina Duarte. O czar da Economia está atordoado, prestes a abandonar a emenda constitucional que aliviaria as finanças de estados e municípios. Do outro lado do balcão há mais de um milhão de pessoas infectadas pelo coronavírus e 12 milhões de desempregados.

Desde o dia em que assumiu a Presidência, Jair Bolsonaro sabe que precisa respeitar a primeira Lei de Delfim Netto: “Tem que abrir a quitanda às nove da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco na caixa para atender à freguesia.”

Entra-se na quitanda e lá discutem-se as prerrogativas do Judiciário, o silêncio de Fabrício Queiroz, o paradeiro de sua mulher, a fidelidade de Frederick Wassef e as virtudes da cloroquina. Berinjelas? Só quando se souber o que será colocado no lugar do PróBrasil, aquele ex-Plano Marshall. Troco? Só quando o gerente e o caixa chegarem a um acordo a respeito do valor do auxílio para os “invisíveis”. O secretário do Tesouro está de malas prontas.

Depois de encrencar com meio mundo, Bolsonaro diz que a imagem do Brasil “não está boa” porque há muita desinformação. Está ruim porque seu governo ampara os agrotrogloditas que dificultam os negócios de empresas competitivas e até mesmo a vida de sua ministra da Agricultura, obrigada a apagar incêndios da Europa à China. Nas palavras do presidente da Cargill, a maior exportadora de soja e milho, “é preocupante ver oficiais do governo insultando nosso principal cliente”. Se a quitanda está emperrada por desinformação, ela vem do governo. Em agosto de 2019, quando começaram as trapalhadas do governo, o empresário Blairo Maggi avisou: “O governo não fez nenhuma mudança aqui internamente, não facilitou a vida de ninguém, no entanto, estamos pagando um preço muito alto. Acho que teremos problemas sérios. Não tem essa que o mundo precisa do Brasil”. Maggi conhece todos os cantos da quitanda, é um dos maiores produtores de grãos do país, foi senador, ministro da Agricultura e governou Mato Grosso.

Esticando cordas, o capitão atrapalhou até a vida de parte de sua base de apoio nas Forças Armadas. Cumpriu uma escrita fracassada, confundindo generais de palácio (reservistas, em muitos casos) com generais de quartéis.

Nos últimos dias, de Bolsonaro e de sua família partiram mais elogios a Fabrício Queiroz e ao doutor Wassef do que a todos os seus ministros. Assef e Abraham Weintraub foram os únicos colaboradores a quem se deu direito a uma saída honrosa. Ela foi negada a Sergio Moro e a Luiz Henrique Mandetta. A audácia do breve Nelson Teich construiu-lhe na saída uma honra que a entrada no ministério não lhe havia concedido.

É compreensível que os Bolsonaro queiram se dissociar dos milicianos com quem se meteram, mas é necessário que o presidente se associe à administração. Seria boa ideia ouvir a canção de Carlos Lyra:

“Vou pedir ao meu babalorixá/ Pra fazer uma oração pra Xangô/ Pra pôr pra trabalhar gente que nunca trabalhou.”

Chegam contas da destruição da Amazônia - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 24/06

Pedido de explicações a embaixadas é o primeiro passo rumo a boicotes a exportações brasileiras de alimentos


O conselho que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deu na reunião ministerial de 22 de abril a seus colegas de governo, de aproveitarem que as atenções estavam voltadas à epidemia do coronavírus para derrubar regulações e fazer “a boiada passar”, piorou a já danificada imagem do Brasil perante empresas globais de comercialização de commodities alimentícias e grande fundos de investimento que atuam neste setor. Aquela participação de Salles na reunião não passou despercebida a grandes operadores no comércio internacional e a fundos de investimento que participam de empresas deste ramo. Mas mesmo sem a divulgação do vídeo a situação não estaria melhor.

Muito antes de 22 de abril, o avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia, na fase inicial do governo do novo presidente, já confirmou ser alto o risco Bolsonaro para este segmento de gestão de grandes negócios com alimentos e matérias-primas em geral, cada vez mais pressionado por seus acionistas a ter um comportamento responsável do ponto de vista ambiental e de direitos humanos.

Carta aberta enviada segunda-feira a embaixadas brasileiras em oito países — seis na Europa, Estados Unidos e Japão — manifestando preocupação com a velocidade do desmatamento no Brasil e com a desmontagem de políticas ambientais e de direitos humanos, leia-se, índios — pediu reuniões virtuais com os embaixadores para abordar o assunto. O grupo que subscreve a carta administra ativos de US$ 3,75 trilhões ou o equivalente a R$ 20 trilhões. A preocupação é com o risco de as empresas que controlam e que atuam na produção e/ou comercialização de alimentos brasileiros passem a ter dificuldades de acesso aos grandes mercados.

O ministro Ricardo Salles, como todo bolsonarista, é contra o “globalismo” — mesmo que não diga. Esquece que, com dificuldades para exportar carnes e grãos, caso ocorram os boicotes no exterior devido ao descontrole ambiental e o descuido com as reservas indígenas, o Brasil terá ainda mais dificuldades para sair da recessão que chega no vácuo da Covid-19. E sem uma agricultura moderna, dependente da globalização, o governo Bolsonaro ou qualquer outro terá enormes dificuldades para manter as contas externas em dia e a inflação sob controle.

Este tipo de reação não ocorre apenas a partir de grupos empresariais. Na sexta-feira da semana passada, a Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia, pediu sugestões de uma estratégia mais incisiva para impedir a chegada de produtos oriundos de regiões de desmatamento da Amazônia ao comércio de todos os países do bloco.

Em risco imediato está a maior parte das exportações de commodities agrícolas. Em um ano e meio de governo, Bolsonaro abala vantagens que o Brasil conquistou em meio século de investimentos e esforços. Também haverá dificuldades na venda de títulos de dívida brasileiros. Bolsonaro prefere explicar tudo como fruto de “desinformação”. É o contrário: o boicote pode vir porque não faltam informações.

O bandido Adriano e a famiglia Bolsonaro - JOSÉ NÊUMANNE

ESTADÃO - 24/06

MP do Rio desvenda relações promíscuas entre ex-faz-tudo de Flávio e milícia carioca


As patranhas que envolvem o escândalo no gabinete do senador Flávio, primogênito do presidente Jair Bolsonaro, quando era deputado estadual começam na denominação íntima da prática criminosa investigada pelo Ministério Público (MP) do Rio: “rachadinha” ou “rachid”. Para chamar delitos por sua gravidade real urge usar nomes com que os define o Código Penal: peculato (uso de dinheiro público para proveito pessoal), corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Os seis anos da Operação Lava Jato familiarizaram o brasileiro com o que se faz em Casas Legislativas do País por parlamentares de todos os entes federativos e sem exceção de legendas. Ou seja, contratar por vencimentos superiores à média servidores dispensados do expediente e obrigados a entregar parte do que ganham aos empregadores.

O filhote 01 do fundador da “nova política” é acusado de chefiar malfeitores que atuaram em seus quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Conforme o MP do Rio, cuidava disso o ex-subtenente da Polícia Militar (PM) fluminense Fabrício Queiroz, preso numa operação conjunta das Polícias Civis do Rio e de São Paulo com autorização do juiz Flávio Itabaiana e supervisão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Esta se tornou necessária pelo expediente a que recorreu o dono da casa, onde foi encontrado o acusado, de pôr na parede a placa do escritório de advocacia Wassef & Sonnenberg (nome da cidade polonesa de um campo de concentração nazista e sobrenome da prima e sócia). Imagens do vídeo produzido pelas autoridades revelam a associação entre tirania, representada por um cartaz referente ao AI-5, sigla com que se sintetiza a ditadura militar, e a Máfia, simbolizada pelo boneco de Tony Montana, personagem do filme Scarface, gângster cruel da Chicago da Lei Seca.

A biografia profissional do dono do imóvel que serviu de cativeiro ao protagonista do escândalo acrescenta a essas referências a atuação do ex-advogado do presidente da República e de seu filho senador em denúncias de infanticídios. Frederick Wassef era devoto da seita satânica Lineamento Universal Superior (LUS), liderada por Catarina de Andrade, autora do livro Deus, a Grande Farsa, acusada e inocentada por falta de provas do desaparecimento de dois garotos de 6 anos em Guaratuba (PR), em 1992. Ele também advogou para Catarina, indiciada como mentora intelectual de 18 homicídios de meninos com idades entre 8 e 14 anos, de 1989 a 1993, no Pará e no Maranhão. Segundo os autos, os assassinatos faziam parte de um ritual de “magia negra”. Desses, cinco corpos não foram encontrados, três sobreviveram mutilados e 11 foram assassinados e castrados em Altamira (PA).

Wassef, que se jacta de ter dado ao deputado Bolsonaro a ideia de se candidatar à Presidência, obteve liminar do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, paralisando por seis meses as investigações financeiras do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para beneficiar Flávio e outros. Mas o plenário anulou seus efeitos. Com isso foi retardada, mas não impedida a investigação do MP do Rio, que contém imagens de Fabrício pagando boletos de escolas das filhas e mensalidades de planos de saúde do chefe na Alerj.

O inquérito resultou na prisão preventiva do ex-companheiro de pescarias do presidente na casa do ex-advogado da famiglia Bolsonaro, desnudando a relação de Fabrício com o capitão Adriano da Nóbrega, chefão da milícia do Rio das Pedras e do Escritório do Crime. O depósito de mais de R$ 400 mil em dinheiro vivo do miliciano na conta do ex-faz-tudo do 01 soma-se agora às manifestações de simpatia do presidente e do senador pelo criminoso executado na Bahia. Jair, então deputado federal, prestigiou seu julgamento por homicídio e ordenou que o filho o condecorasse com a Medalha Tiradentes na cela onde vivia. Flávio ainda manifestou seu apreço por Adriano à época de sua morte, ocasião em que Fabrício se disse muito triste por ter perdido um amigo.

Embora peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa sejam tipificações penais muito graves, elas não são comparáveis à conexão com milícias, grupos mafiosos que espoliam comunidades pobres e matam quem atravessar o seu caminho. Nunca foi secreta a generosidade com que o presidente e o senador transformaram seus gabinetes em associações assistencialistas de familiares “desamparados” de milicianos, empregando-os sem exigir que trabalhassem. Foi o caso de Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano. Outra beneficiária da caridade com chapéu alheio (dinheiro público) do clã presidencial, Márcia Aguiar, mulher de Fabrício, é agora foragida da Justiça.

Com mais de 1 milhão de casos e de 50 mil mortos pela covid-19, aos quais o presidente Jair Bolsonaro nunca deu a mínima atenção, tratando a pandemia como um “resfriadinho”, a crise sanitária e a depressão econômica são usadas por líderes das instituições democráticas como pretextos para não fazerem o que urge ser feito: fora, Bolsonaros. Fazem o que de pior pode acontecer com o Brasil.

JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

Salve-se quem puder - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 24/06

Presidente confirma que não compreendeu a dimensão da crise que lhe coube administrar


O presidente Jair Bolsonaro disse que o governo não tem como pagar mais duas parcelas de R$ 600 de auxílio emergencial para os trabalhadores que sofreram drástica perda de renda em razão da pandemia de covid-19. Segundo Bolsonaro, “a União não aguenta outro (pagamento) com esse mesmo montante”. Desse modo, o presidente confirma que não compreendeu a dimensão da crise que, quiseram os fados, lhe coube administrar.

Nenhum chefe de Estado digno do cargo que ocupa poderia sequer imaginar a hipótese de deixar à própria sorte milhões de concidadãos que repentinamente se viram privados de quase tudo por motivos alheios à sua vontade. E esses motivos não cessaram - muito ao contrário, como mostram os terríveis números do avanço da doença no País.

Para Bolsonaro, contudo, é preciso ter “responsabilidade”. E por “responsabilidade” o presidente entende que é a preservação das contas nacionais à custa da penúria de seus concidadãos.

Isso, numa hipótese benevolente, mostra que o presidente não entendeu nem seu papel na condução do País nem o risco que correm seus desafortunados governados. Já numa hipótese menos benevolente, pode-se especular, dada a insistência de Bolsonaro no erro mesmo diante de inquestionáveis evidências, que haja aí algum propósito político inconfessável - como, por exemplo, o de atribuir a governadores, muitos deles seus desafetos, a responsabilidade pela privação que afeta milhões de eleitores.

Afinal, desde sempre o presidente insiste, como tornou a fazer agora, que “talvez tenha havido um certo exagero no trato dessa questão”, referindo-se à imposição de isolamento social nos Estados, medida que desacelerou brutalmente a economia. O consenso entre todos os que prezam a ciência e não a irresponsabilidade é o de que esse, afinal, é o custo de salvar milhares de vidas e que cabe aos governos encontrar maneiras de mitigar os efeitos econômicos.

O auxílio emergencial é uma dessas maneiras, e uma das mais importantes. Seu custo integra o chamado “orçamento de guerra”, que dá ao governo liberdade de gastar o que for necessário para enfrentar a crise, sem as amarras fiscais do Orçamento regular e enquanto durar o estado de calamidade pública - que originalmente vai até o fim do ano.

Ou seja, o presidente não tem razão quando invoca o risco de insolvência da União como pretexto para deixar de pagar o auxílio emergencial no atual valor. “É exagero de quem diz isso”, afirmou, com razão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ao comentar a observação do presidente. “O governo não pode esperar mais para prorrogar o auxílio. A ajuda é urgente e é agora”, enfatizou o deputado, que defende o pagamento dos R$ 600 por mais dois ou três meses, enquanto o governo estuda pagar mais duas parcelas, mas com valor inferior - especula-se algo em torno de R$ 200 ou R$ 300.

Em vez de tratar do auxílio emergencial como uma questão puramente fiscal e de tentar transformar a pandemia em ativo eleitoral, Bolsonaro - que, nunca é demais lembrar, é também presidente do comitê de gestão da crise criado junto com o “orçamento de guerra” - deveria empenhar-se para que esse auxílio chegue a quem precisa desesperadamente dele. Deveria assumir a coordenação dos esforços para lidar com a doença e com o impacto econômico. Deveria lamentar por cada um dos mais de 50 mil mortos nessa tragédia. Assim faria um estadista.

Mas Bolsonaro sempre preferiu fazer pouco da doença, dos doentes e dos que cuidam deles, investindo as energias nacionais em debates inúteis sobre remédios miraculosos e sobre supostas fraudes nos números de mortos para prejudicá-lo. Desfez-se de dois ministros da Saúde porque estes se recusaram a avalizar seus devaneios e segue dizendo que “não podemos deixar que o efeito colateral do tratamento da pandemia”, isto é, a paralisia econômica, “seja mais danoso do que a própria pandemia” - como se o fechamento de fábricas fosse mais grave do que a morte de milhares de cidadãos. Para Bolsonaro, cabe a seus desafortunados governados encontrar maneiras de sobreviver como puderem à pandemia, porque, se depender da disposição do presidente, o máximo que os milhões que correm o risco de ficar sem auxílio emergencial ouvirão de seu governo é: “E daí?”.

terça-feira, junho 23, 2020

Não há paixão mais letal do que a que sentimos pela nossa virtude - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 23/06

É a mensagem de '1984': a tirania sobre o mundo começa sempre pela guerra à linguagem


1. Soube através desta Folha que o ônibus não está mais lá. Falo do ônibus que fez sucesso no filme “Na Natureza Selvagem”, uma obra-prima inesperada dirigida por Sean Penn. O ano era 2007 e foi uma das melhores introduções ao pensamento utópico que tive na vida.

Então encontramos Chris McCandless (um notável Emile Hirsch) que está cansado da civilização. Tudo é uma mentira aos seus olhos: os pais, a escola, os amigos. O capitalismo. O mundo.

Ele, que procura uma forma laica de santidade, decide partir, abandonar o carro algures. E avançar para o Alasca, onde encontrará a solidão mais radical.

O ônibus aparece nas sequências finais, quando Chris passa a habitá-lo, a dormir nele, a comer, a ler.

Mas o corpo, macilento e frágil, começa a não suportar os rigores do estado da natureza. Nem o corpo nem a alma, sobretudo quando Chris, lendo Tosltói, encontra a frase mais luminosa e mais terrível: “A felicidade só é real quando é partilhada”.

Confrontado com esse pensamento, o rosto de Chris é consumido por um esgar de dor —física e metafísica. Na sua busca de uma pureza imaginária, ele acreditou na sua autossuficiência narcísica e foi sempre cego à presença e à generosidade dos outros. Mas agora é tarde, não há retorno.

Depois do filme, o ônibus converteu-se em atração turística e vários imitadores de Chris procuraram alcançar esse nirvana no Alasca. Alguns morreram.

De duas, uma: ou não entenderam a mensagem do filme e o seu terrível final; ou entenderam, mas o apelo do martírio falou mais alto. Não há paixão mais funesta do que a paixão que sentimos pela nossa própria virtude.

Que o digam os novos zelotes do momento, que pretendem submeter a história, a arte, o pensamento e todas as opiniões heterodoxas ao julgamento inquisitorial do presente.

Tal como Chris McCandless, eles são imunes à ambiguidade, à complexidade ou à compaixão. Querem começar do zero, transformando o presente no Alasca.

Nesse sentido, o filósofo John Gray tem razão quando, recentemente, em artigo para o site UnHerd, desautorizou qualquer comparação entre a violência dos “wokes” e a violência clássica dos bolcheviques.

Para Lênin, a violência era só um meio para atingir um fim —a famosa sociedade sem classes da teologia marxista.

Para os “wokes”, a violência é um fim em si —um momento terapêutico, ou catártico, que tem como objetivo libertar o mundo do pecado.

Se existe uma comparação válida, acrescenta Gray, é entre os “wokes” e os milenaristas medievais, que aterrorizaram a Europa com o mesmo tipo de infalibilidade moral.

A grande diferença é que os milenaristas congregavam os pobres e ofendidos que habitavam a miséria rural ou o “bas-fond” das cidades da Baixa Idade Média.

Os milenaristas de hoje provêm da burguesia urbana, letrada e afluente. Exatamente como o personagem do filme, Chris McCandless, para quem o privilégio e o conforto eram as marcas do demônio.

2. Leio na imprensa que Minnesota removeu das suas escolas “O Sol É para Todos”, de Harper Lee, e “As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain. Pelas razões conhecidas: existem expressões racistas nessas obras de ficção —e quanto mais depressa elas forem expurgadas do espaço público, mais depressa o racismo propriamente dito acabará por desaparecer.

A lógica é totalmente orwelliana, porque essa é a mensagem de “1984”, um romance que, sintomaticamente, virou best-seller no mundo inteiro, Brasil incluso: a tirania sobre o mundo começa sempre pela guerra à linguagem. Controlando certas palavras e abolindo outras, será possível refundar a natureza humana.

Como afirma um dos personagens mais sinistros de “1984”, o inesquecível Syme, o assalto à linguagem tem como objetivo “restringir o campo do pensamento”. E acrescenta, deliciado: “Ano após ano, [haverá] cada vez menos palavras, e o alcance da consciência [será] cada vez mais limitado”.

Sem termos acesso à linguagem do passado, viveremos literalmente na inconsciência. Até acordarmos um dia e, como o personagem Winston, sentirmos apenas a memória difusa e ancestral de que houve um tempo de liberdade em que as coisas eram diferentes.

João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Contrato fabuloso da ex de Wassef com gestão Bolsonaro ecoa poema Quadrilha - REINALDO AZEVEDO

UOL - 23/06




A vida é uma festa: Wassef e Ana Cristina, agora ex-mulher, andando de moto aquática no lago Paranoá, em Brasília. A empresa da ex tem contratos com o governo que chegam a R$ 250 milhões. Ela já foi condenada por improbidade e responde a processo por corrupção ativaImagem: Reprodução


Frederick Wassef, íntimo de Jair Bolsonaro e oportuno ex-advogado de Flávio — só foi destituído da função neste domingo — pode ter adquirido uma imprudência muito típica dos que pertencem ao círculo de influência dos poderosos, mas não é burro. Ele sabe que que mal nenhum lhe advirá por ter acoitado Fabrício Queiroz em uma propriedade sua em Atibaia. De fato, não havia ordem nenhuma de prisão contra o amigão dos Bolsonaros e das milícias. Ele não era um foragido. Nem réu é ainda. Não há crime nenhum em abrigá-lo. O problema não está aí, mas no que parece ser um círculo de amizades que pode ser chamado de explosivo. O UOL chegou primeiro ao que pode ser o paiol de pólvora da turma.

Reportagem publicada no domingo informa que Maria Cristina Boner Leo, ex-mulher de Wassef, sua amiga ainda hoje — os dois são sócios em outro empreendimento —, é dona de uma empresa que já faturou, neste ano e meio de governo Bolsonaro, em contratos com a administração federal e com estatais, a bolada de R$ 41,6 milhões. A Global Outsourcing trabalha há tempos com o governo federal. Na gestão anterior, Dilma-Temer, levou quatro anos para atingir valor parecido: R$ 42 milhões.

Segundo a apuração do Ministério Público de Contas, o valor pago na gestão Bolsonaro é, na verdade, maior: R$ 26.085.973,18 no exercício de 2019 e R$ 20.014.583,61 em 2020, totalizando R$ 46.100.556,79.

O total dos contratos chega a R$ 250 milhões. A desculpa de que as relações são antigas não cola. Contratos foram renovados no governo Bolsonaro com aditivos que somam R$ 165 milhões. E outros novos foram celebrados no valor de R$ 53 milhões. Um espetáculo!

Dado notável: a Global Outsourcing não está mais em nome de Maria Cristina. Quem responde agora pela empresa é Bruna Boner Leo Silva, sua filha, junto com sócios da empresária em outros empreendimentos. Ela já foi condenada por improbidade administrativa em primeira instância, mas recorreu da decisão.

Também é ré por corrupção ativa em processo que corre na 7ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal relativo ao chamado mensalão do DEM — o escândalo que derrubou José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal. O MPF a acusa de 168 atos de corrupção e pede pena de 15 anos e dez meses de prisão, além de ressarcimento de R$ 43 milhões aos cofres públicos.

Maria Cristina e Wassef estão oficialmente separados, mas são muito próximos. No dia da prisão de Fabrício, por exemplo, o advogado estava em sua casa. A Global Outsourcing, claro!, repudia qualquer insinuação de privilégio.

AFINIDADES ELETIVAS
Já escrevi aqui sobre as afinidades eletivas da turma. Em 2015, o então deputado Jair Bolsonaro comprou uma Land Rover preta, blindada, modelo 2010, por anunciados R$ 50 mil, embora o valor de mercado, à época, fosse de R$ 77 mil. Quem vendeu? Uma empresa chamada a Compusoftware, que pertencia a Maria Cristina. O veículo foi posto à venda em abril do ano passado.

Bruna, a filha, tem o mesmo sangue empreendedor da mãe. É dona de uma outra empresa, a Dinamo Networks, que também conseguiu faturar um contrato com um órgão público — no caso, o Banco Central — no valor de R$ 1 milhão.

O enredo das afinidades não para por aí. Paulo Emílio Catta Preta, ex-advogado do miliciano Adriano Magalhães e que agora tem Fabrício em sua carteira de clientes, é amigo de Maria Cristina e a representa em dois de seus processos.

Lembra aquele poema de Carlos Drummond chamado Quadrilha: "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili..."

No caso, o enredo é mais complexo: Bolsonaro comprou um carro de Maria Cristina, que era mulher de Wassef, que era advogado de Flávio, que empregava Fabrício, que contratou Catta Preta, que advogava para o miliciano Adriano, que tinha mãe e mulher lotadas no gabinete de Flávio, que tinha como advogado Wassef, que abrigava Fabrício, que é amigo de Bolsonaro.

Para continuar com Drummond, agora apareceu no meio do caminho dessa quadrilha junina uma montanha de dinheiro: R$ 46,1 milhões já desembolsados pelo governo e por estatais e um montante em contratos fabuloso: um quarto de bilhão de reais. Que se faça o levantamento: poucas empresas, creio, sozinhas, mantêm vínculos tão profícuos com o governo federal.

O subprocurador geral Lucas Rocha Furtado, do Ministério Público de Contas, entrou com uma representação junto ao Tribunal de Contas da União pedindo que se apure se Wassef teve alguma interferência na relação entre a Global Outsourcing e o governo. Na representação, ele discrimina a penca de contratos em vigência.

No "Quadrilha" de Drummond, um elemento chega de fora e desestrutura a cadeia de relações. Vamos ver nesse caso.

Paciência - ANA CARLA ABRÃO

ESTADÃO - 23/06

Na ausência de planejamento, a recuperação no Brasil deverá frustrar as expectativas


O mundo parou, o Brasil parou. A atividade econômica foi desligada pela pandemia e agora começa a ser religada – de forma mais ou menos organizada, a depender da existência ou não de um plano estruturado de gestão das medidas de isolamento.

Nesse processo de volta, várias pesquisas estão sendo feitas com o objetivo de se entender o que mudou no comportamento das pessoas e qual será a intensidade da retomada econômica. Há algo de boa notícia em boa parte delas. Assim como há uma clara alteração nos padrões de comportamento das pessoas. Essas alterações deverão afetar de forma relevante as decisões econômicas dos agentes.

Pelo lado da boa notícia, há alguns sinais de recuperação da confiança. Eles estão presentes, por exemplo, no Observatório da Febraban, um tracking nacional realizado entre 1.º e 3 de junho, com uma amostra de 1.000 entrevistados que visa a representar a população adulta brasileira bancarizada. Os resultados não deixam de surpreender positivamente ao sugerirem que 49% dos entrevistados acreditam que suas finanças voltarão ao que eram antes da pandemia no prazo de até 1 ano. Desses, 21% acham que isso acontecerá ainda este ano. Quando a pergunta se volta para o Brasil, percebe-se um otimismo menor, mas algo positivo se considerarmos que 24% acreditam numa recuperação da economia brasileira em até 1 ano e outros 43% em 2 anos, ou seja, até 2022. Homens e jovens se mostram mais otimistas nas duas dimensões. Certamente porque também foram menos impactados pela crise que reforçou as desigualdades sociais, em particular as de gênero.

O Observatório segue com outras informações onde também surgem sinais de que há uma demanda que os meses de isolamento não fez sumir. Dentre os entrevistados, 14% afirmam que seu volume de compras vai crescer e 15% pretendem buscar financiamento para adquirir um imóvel residencial. Outros 14% declararam intenção de comprar um carro ou uma moto financiados. O crédito consignado aparece como a linha de desejo para 15% dos entrevistados. Desejo que certamente deixará de ser atendido se prosperar o Projeto de Lei 1.328/2020 de autoria do senador Otto Alencar (PSD-BA) e aprovado no Senado Federal na última semana. Assim como serão afetados todos os demais que indicaram a intenção de buscar linhas de financiamento e os outros 16% que demonstram intenção de recorrer a empréstimos bancários. Sim, o populismo sai muito caro e prejudica a população.

Na dimensão comportamental, segue o Observatório, 46% da população bancarizada tende a priorizar as soluções digitais, ante apenas 14% que vão se manter fiéis ao atendimento presencial. No consumo, as respostas apontam na direção de manutenção ou aumento de hábitos, como as idas ao supermercado (78%), a salões de beleza (66%) ou a comércios de rua (55%). O resultado é contudo ambíguo quando a pergunta se volta a bares e restaurantes ou shoppings, com parcelas quase iguais das pessoas entrevistadas afirmando que vão manter/aumentar ou diminuir sua frequência nesses serviços.

Há outras pesquisas circulando, todas com algum grau de otimismo e sinalizando mudanças comportamentais relevantes. A pesquisa feita pela revista Fortune, com presidentes das 500 maiores empresas mostra uma expectativa de recuperação um pouco mais lenta, iniciando-se em 2021, mas se concentrando no início de 2022. Ali também, há claras indicações de mudanças comportamentais, em particular no que tange a volta ao local de trabalho, à retomada das viagens a trabalho e à aceleração digital, todos fatores que continuarão impondo desafios às companhias do mundo todo e com grandes impactos em alguns setores econômicos.

Os desafios são muitos aqui e lá fora. Mas na ausência de planejamento, a recuperação no Brasil deverá frustrar as expectativas daqui e ficar aquém da realidade de lá. A mesma paciência que tem nos mantido em isolamento social e tantas vidas já salvou deveria se reverter em impaciência com a ausência de uma coordenação, pelo Executivo, das agendas nos diversos níveis federativos e entre os três Poderes constituídos.

Uma crise dessa magnitude exige que o Executivo defina e apresente à sociedade com clareza quais são suas prioridades no Parlamento e quais serão as ações nas áreas social, econômica e de crédito para tirar o País da crise. No campo federativo, há que se discutir como Estados e municípios poderão sair da crise fiscal que já os assolava e que agora se agravou. Não há como contar só com o otimismo do mercado e as expectativas positivas da população como motores de recuperação. À economia que já vinha frágil, juntou-se o agravamento das condições sociais e o tombo que jogou produtividade e crescimento para o campo negativo. A continuar esse quadro, nem as expectativas terão paciência.

ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN

Começam as baixas na caserna - ANDREA JUBÉ

Valor Econômico - 23/06

Prisão de Queiroz amplia desconforto no Exército


Apesar de esforços de vários atores em várias frentes para arejar a cena política, a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), aumentou a tensão em todos os ambientes, inclusive em uma das bases mais caras de Jair Bolsonaro: as esposas dos oficiais militares.

Uma evidência do derretimento da popularidade do presidente é a progressiva perda de apoio nesse segmento, refletida nos vários grupos de WhatsApp em que as mulheres dos oficiais da ativa e da reserva trocam impressões sobre os fatos políticos. A prisão de Queiroz e as circunstâncias que a envolveram provocaram uma debandada nesse grupo, inclusive de defensoras obstinadas do presidente.

Nem a saída do ex-juiz Sergio Moro do governo nem a postura negacionista de Bolsonaro sobre a pandemia - e a indiferença diante das mais de 50 mil vítimas fatais da covid-19 - haviam espantado essas apoiadoras.

Mas o esconderijo no escritório do advogado Frederick Wassef, que não saía dos dois palácios, Planalto e Alvorada, é visto como um detalhe estarrecedor. Ainda que Wassef tenha deixado a defesa do senador, até ontem suas digitais estavam lá, próximas da família, e suas declarações para tentar blindar o presidente são consideradas artificiais.

Outra convicção do grupo de mensagens das esposas é de que mais do que um auxiliar, Queiroz era um personagem do entorno do presidente, frequentador de churrascos e pescarias da família. Em um dos primeiros episódios em que se viu obrigado a esclarecer esses laços, Bolsonaro teve de responder por que Queiroz depositou um cheque de R$ 24 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Um general que viu algumas das mensagens trocadas entre elas assegura que até “o grupo mais radical sumiu”. Os grupos de mensagens das esposas dos oficiais antecipam tendências, diz este general.

É uma análise sem dúvida empírica. Mas em 2018, antes dos institutos de pesquisas e dos analistas políticos, as trocas de mensagens nesses grupos já indicavam a vitória de Bolsonaro.
Se o presidente amarga as primeiras baixas no estrato feminino da caserna, generais da ativa afirmam que a prisão de Queiroz acentuou o desconforto da cúpula com a persistente vinculação do governo ao Exército.

A imagem mais clara desse vínculo para o grupo do comandante Edson Leal Pujol é a permanência de dois generais da ativa no primeiro escalão: os ministros Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e Eduardo Pazuello, da Saúde.

É com esse pano de fundo que a cúpula militar espera que nesta semana, em que o Alto Comando do Exército está reunido para definir promoções e analisar a conjuntura, o ministro Ramos finalmente anuncie a sua transferência para a reserva.

Há 15 dias, Ramos anunciou a aposentadoria, mas não falou em data. Na próxima semana ele completará um ano como general da ativa em um cargo civil, para desassossego de Pujol.

Quanto o general Braga Netto, ainda na ativa, tomou posse como ministro-chefe da Casa Civil, para assumir a gerência do governo, em menos de um mês formalizou sua transferência para a reserva.
Aposentando a farda, entretanto, Ramos perde a oportunidade de ser indicado para a próxima vaga para o Superior Tribunal Militar (STM), que será aberta no segundo semestre de 2022, com a aposentadoria compulsória do ministro Luís Carlos Gomes Mattos.

A cúpula da caserna, entretanto, distingue a situação de Ramos e Pazuello. Ambos ainda têm um ano e meio na ativa para galgar outros postos na carreira. Mas há uma leitura de que como general de Exército, Ramos atingiu o topo da carreira - acima, só o posto de Pujol.

Enquanto Pazuello, oficial de intendência (especializado em tarefas administrativas ou logísticas), teria a prerrogativa de buscar outras colocações porque como ministro interino da Saúde estaria cumprindo missão das mais espinhosas, sem chance de deserção.

Mas se há o desconforto com o vínculo direto do governo Bolsonaro com o Exército, a cúpula militar também não está satisfeita com as recorrentes insinuações de que tentariam um golpe militar, tampouco com o que classificam como excessos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Foi por esse motivo que o ministro do STF Gilmar Mendes pediu a audiência com o comandante do Exército na semana passada. A reunião foi salutar, mas a conversa nem de longe foi conclusiva.
Os generais reconhecem os excessos de Bolsonaro, mas da mesma forma enumeram episódios em que a seu ver, os ministros do STF teriam extrapolado.

O episódio mais recente que irritou os generais foi a declaração do ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, de que a nomeação de militares para vários cargos era a “chavização” do governo. “Ele praticamente nos chamou de bandidos”, indignou-se um general da ativa.

Outro gesto considerado desrespeitoso é atribuído ao decano do STF, Celso de Mello. ele incluiu no mandado para ouvir Ramos e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, a advertência de que se não comparecessem na data agendada para a oitiva, estariam sujeitos “como qualquer cidadão à condução coercitiva ou debaixo de vara”. Eles seriam ouvidos sobre a acusação de Moro da suposta interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal.

“Bolsonaro tem excessos, mas o Supremo está fora da casinha, o tribunal está politizado há muito mais tempo”, ressaltou um general.
A cúpula do Exército avalizou a declaração de Ramos à revista “Veja” de que os militares não cogitam nenhum golpe, mas a oposição não pode esticar a corda. O entendimento na cúpula da caserna é de que as instituições devem ser preservadas: o Judiciário, o Legislativo e o Executivo.

Investigações e processos que mirem o presidente e algum de seus familiares devem seguir o curso normal, sem açodamentos nem ardis. A reiteração do que a cúpula classifica como excessos será compreendida como cutucar a onça com vara curta. E a onça está dormindo com um olho aberto.

Entre parentes e milicianos - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 23/06

Vínculos a Queiroz e ao falecido capitão do Bope Adriano da Nóbrega levaram o clã Bolsonaro a introduzir o submundo das milícias na rotina do Planalto e do Congresso


Resumir o atual governo talvez não venha a ser difícil para historiadores. Há 20 meses a prioridade de Jair Bolsonaro tem sido a mesma de três décadas na política, proteger a parentela, nutrida no orçamento público. “Defendemos a família”, escreveu no domingo 7 de outubro de 2018, no epílogo da primeira etapa da campanha. “Tratamos criminosos como tais e não nos envolvemos em esquemas de corrupção.”

Lá se foram 80 semanas, e o presidente continua refém da agenda que aprisionava o candidato.

Ela começa no uso do erário para acolher parentes e amigos. Vício antigo. Nos últimos 28 anos, ele e seus filhos parlamentares abrigaram mais de uma centena de pessoas com parentesco ou relação familiar.

Somaram a afinidade com lobbies de armas e de cassinos, neste caso refletindo a disputa entre grupos americanos, como o de Sheldon Adelson, e asiáticos, como o Shun Tak. Na campanha Bolsonaro se reuniu com Adelson, financiador do Partido Republicano. Entrou no hotel pela cozinha.

Até agora, o governo só conseguiu acenar ao país sob pandemia com um futuro baseado na abertura de cassinos e no comércio de armas, com isenção de rastreamento.

A retrospectiva mostra o presidente concentrado na guarida ao filho senador e ao antigo companheiro paraquedista Fabrício Queiroz, hoje em Bangu 8. Vínculos a Queiroz e ao falecido capitão do Bope Adriano da Nóbrega levaram o clã Bolsonaro a introduzir o submundo das milícias na rotina do Planalto e do Congresso.

As iniciativas presidenciais desses 20 meses foram balizadas pela proteção à parentela e amigos. Daí o repentino silêncio sobre o fim da prisão para condenados em segunda instância, a remoção do Coaf da Justiça, os acordos para bloqueio da CPI da Lava-Toga, o rompimento com o governador Wilson Witzel e a crise da demissão do ex-ministro Sergio Moro.

Na raiz está uma peculiar visão de Estado, sintetizada pelo filho Flávio numa homenagem a milicianos: “Não podemos generalizar, dizendo que esses policiais, que estão tomando conta de algumas comunidades, estão vindo para o lado do mal. Não estão.”

Anjo do anjo - CARLOS ANDREAZZA

O GLOBO - 23/06

Será Wassef o Queiroz do futuro?


Quem ouvir o senador Flávio Bolsonaro terá de repente a impressão de que nunca foi deputado estadual e de que o gabinete na Alerj era de Fabrício Queiroz. Não era; isto embora — justiça seja feita — fosse mesmo o ex-policial quem trabalhasse à vera ali. Nada a ver com a atividade parlamentar.

Quem ouvir, nos próximos dias, a família Bolsonaro terá de repente a impressão de que o destituído Frederik Wassef nunca foi advogado de Flávio e Jair Bolsonaro, e de que sua presença nos palácios onde mora e trabalha o presidente da República jamais houve. Houve; isto embora — justiça seja feita — nada de errado haja em cliente se reunir com defensor, tanto mais sendo este um amigo daquele.

Junta-se o útil ao agradável; assim se ergueu o patrimonialismo neste país.

O destino já uniu Queiroz e Wassef, o novo ex. Tudo a ver com o fato de este ter escondido aquele. Será Wassef o Queiroz do futuro? E quem seria, no caso, o Wassef de Wassef? Wassef deseja saber. Como Queiroz no passado, o advogado manda recados. Não quer ser abandonado. Teria até celular exclusivo para contatos com a família. Verbaliza mesmo a fé — pura mensagem — de que armariam contra ele para atingir o presidente. A acusação de armadilha é gentileza para com Bolsonaro; mas não turva a clareza da missiva: “eu sou você”.

Funcionou com Queiroz — logo lhe apareceu o anjo. Quem será o anjo de um anjo falador que — debatendo-se contra o fado — não parece ter vocação para Queiroz?

Seria mesmo Wassef o anjo de Queiroz?

Queiroz não foi descoberta de Flávio; uma aquisição sua para a gestão, em dinheiro vivo, do gabinete. Não. Queiroz, amigo de Jair desde que 01 era guri, foi designado pelo pai — que sempre dispôs dos mandatos dos filhos como extensões do seu. Queiroz é tanto Jair Bolsonaro quanto Flávio é Jair Bolsonaro.

Wassef tampouco foi descoberta de Flávio; uma revelação sua para a defesa judicial da família. Não. Wassef foi designado pelo pai para a defesa do clã — e ora reivindica ser Jair tanto quanto Queiroz é Jair. Intui que será investigado. A fotografia captura flagrante comprometedor: o então advogado de Flávio guardando em casa, homiziado, um outro investigado no inquérito, cuja detenção preventiva impôs-se por estar ele, desde o covil, movendo-se para obstruir a Justiça.

Isto mesmo: Wassef, defensor de Flávio até ontem, abrigava Queiroz — operador num esquema de corrupção no gabinete de seu cliente — enquanto o abrigado cuidava de interferir para dirigir testemunhas; nenhuma delas maior do que a mãe do miliciano Adriano da Nóbrega.

A senhora Raimunda Veras Magalhães esteve — longamente, assim como a nora — na folha de pagamento do gabinete; e sua movimentação em espécie é capítulo à parte. É quando entra na equação a mulher de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar, ora foragida, talvez a principal agente no esforço para lesar as investigações, possivelmente incumbida de comandar o silêncio dos que compunham a vertente miliciana em que também se investiria o dinheiro amealhado por aquele modelo de rachadinha.

Lembremos. No único depoimento que deu ao MP, em fevereiro de 2019, Queiroz admitiu que o sistema de rachadinha era regra no escritório de Flávio. Apresentou, porém, ressalva que supunha atenuante: os recursos colhidos ali não iriam para o bolso do chefe, mas para um caixa paralelo destinado a ampliar, informalmente, o número de colaboradores do mandato. Ao serem contratados, os assessores eram informados de que teriam de dar parte da remuneração para sustentar aquela expansão. Tudo pago por fora — num exercício que chamou de “desconcentração de remuneração” e que seria desconhecida pelo deputado.

Com Queiroz preso, será natural que os investigadores lhe cobrem a lista desses auxiliares informais — e quanto ganhavam. Isto porque, em face do volume girado no esquema, ainda que gabinete estendido houvesse, seria algo marginal; e o MP tem como norte que esse programa de rachadinha alimentaria — aí, sim — uma indústria de lavagem de dinheiro por meio sobretudo de operações imobiliárias, entre as quais estariam contidos investimentos no ramo empreiteiro das milícias.

Exatamente: o dinheiro daquele caixa paralelo seria destinado também a financiar construções ilegais de prédios em localidades como a Muzema — ali onde dois edifícios irregulares caíram em 2019.

Rachadinha é recurso delinquente comum em legislativos Brasil adentro — já dizem os passapanistas para relativizar o crime. A prática, no entanto, agrava-se quando se questiona com que frequência terá servido para financiar a atividade econômica de milícias. Essa é, aliás, a razão por que sou cético acerca da possibilidade de Queiroz delatar. Para quê? Qual vantagem teria? Ou não será o delator aquele que entrega outrem em busca de se safar? E que alívio teria em liberdade aquele que delata uma organização criminosa conhecida por ter mui eficiente esquadrão da morte?

Haja anjo.

Medo e barbeiragem - ELIANE CANTANHÊDE

ESTADÃO - 23/06

De erro em erro, Bolsonaros embolam Queiroz, Adriano, Wassef e demonstram medo


Nesse oceano de pessoas e fatos inacreditáveis, destacam-se as barbeiragens da família Bolsonaro ao tratar do amigão Fabrício Queiroz e de todas as questões nebulosas, e sob investigação do Ministério Público, que envolvem o agora senador Flávio Bolsonaro e resvalam perigosamente para o próprio presidente Jair Bolsonaro.

Tudo começa com a rachadinha operada por Queiroz no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, chega a funcionários fantasmas ali e também no gabinete de Jair na Câmara em Brasília, evolui para suspeita de lavagem de dinheiro e traz à tona as ligações de Jair, Flávio e Queiroz com um líder da milícia fluminense, o capitão Adriano, morto pela polícia. Engrossa esse novelo Frederick Wassef, falastrão, exibicionista e longe de ser um criminalista com dimensão para representar um senador, quanto mais o presidente.

Não bastasse a barbeiragem de abrir as portas dos palácios da Alvorada e do Planalto a Wassef, que tal permitir (ou pedir?) que ele escondesse Queiroz na sua casa de Atibaia? Não foi Queiroz que se meteu lá. Logo, meteram o Queiroz justamente na casa do advogado do presidente da República e do seu filho senador. Equivale a jogar Queiroz definitivamente no colo de Bolsonaro e Flávio. Coisa de gênio.

A barbeiragem seguinte vem com as reações de ambos. Numa live para tentar dizer que não tem nada com Queiroz, Jair põe-se a defendê-lo. A prisão foi “espetaculosa”, o amigo não estava foragido e não havia mandado de prisão contra ele, mas “pareciam estar prendendo o maior bandido do mundo”. Bolsonaro está solidário com o amigo que quebrava os maiores galhos do filho? Ou não pode atirá-lo às feras porque Queiroz tem muito revelar?

Segundo depoimentos, Queiroz chegou chorando e muito abalado à prisão no Rio, o que é uma péssima notícia para Jair e Flávio Bolsonaro. Nada pior do que um potencial homem bomba imprevisível e desestruturado emocionalmente, inclusive porque sua mulher, Márcia, fugiu e pode entrar para a lista de procurados da Interpol. Aliás, ela própria tem muito o que contar, se contar.

Outra barbeiragem é o advogado de Queiroz. Nada contra ele, mas contra a simbologia. Paulo Emílio Catta Preta era advogado do miliciano Adriano. Aprofundar os elos entre Queiroz, Adriano, Flávio e Jair Bolsonaro? Depois de Flávio condecorar o líder da milícia, Jair elogiá-lo publicamente e a família empregar a mãe e a mulher dele em seus gabinetes?

A primeira família tem de se preocupar também com Wassef, que está em evidência – e adorando. Se usufruía da intimidade dos Bolsonaro a ponto de abrigar Queiroz em casa, ele sabe de muita coisa. E não tem cara de guardar segredos, nem de dar a vida por alguém. Daí porque enxotaram Wassef dos casos de Flávio, mas o senador fez rasgados elogios ao enxotado em redes sociais: “A lealdade e competência do advogado Frederick Wassef são ímpares e insubstituíveis”. A cobrança de “lealdade” e o adjetivo “insubstituível” para quem está sendo substituído têm um sinônimo: medo.

E aí vem a última barbeiragem - até agora. O substituto do insubstituível Wassef é respeitável, mas foi advogado de Sérgio Cabral e de militares acusados de “excessos” na ditadura. Cabral é um dos maiores símbolos de corrupção. E a sensação de que generais sugeriram advogado para o caso Flávio-Queiroz vai na contramão do desejável: que eles fiquem (ficassem) a léguas dessa lambança toda.

É hora de todos desconfiarem de todos e de todos quererem se livrar de todos – presidente, Flávio, militares, Queiroz, Márcia, Wassef, advogados, a mãe e a mulher de Adriano -, mas quanto mais barbeiragens vão fazendo, mais eles se embolam perigosamente. O clima é de medo. E isso tudo ainda vai muito longe.

Uma retumbante banana ao STF e ao Brasil - CRISTINA SERRA

FOLHA DE SP - 23/06

Esse foi o último ato de Abraham Weintraub ao escafeder-se na calada da noite


Em um ano e quatro meses na cadeira de ministro da Educação, o que fez Abraham Weintraub? Boneco de ventríloquo de um astrólogo de araque, dedicou-se a atacar os pilares da universidade genuinamente democrática: a inclusão, a diversidade e a autonomia de gestão. Cortou verbas, programas, bolsas de pesquisa. Tentou nomear interventores, iniciativa felizmente anulada.

Antes de escafeder-se na calada da noite, revogou portaria que reservava cotas para negros, índios e portadores de deficiência em cursos de pós-graduação. E deixou no Congresso o mal formulado projeto de lei “Future-se”, que muda a forma de financiamento do ensino superior. Por vício de origem, tal “legado” merece apenas um destino: a lata do lixo.

Weintraub semeou desvarios ideológicos e distorções históricas, como a infame referência à “noite dos cristais”, na Alemanha nazista. De sua boca suja porejaram ofensas, conforme registrado no vídeo da indecorosa reunião do dia 22 de abril: “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”. Como é próprio dos covardes, fugiu para não ter que responder a dois inquéritos na corte.

Weintraub e educação não combinam na mesma frase. Que isso tenha acontecido, nesse desvão da história em que estamos atolados, é uma desonra à memória de gente como Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e Paulo Freire, pensadores da educação como forma de emancipação civilizatória.

Em janeiro de 1989, o Brasil parou para assistir ao último capítulo da novela Vale Tudo. Na última cena, um executivo mau caráter fugia do Brasil num jatinho, dando uma banana para o país. A cena me ocorreu quando soube da fuga de Abraham Weintraub para Miami, usando indevidamente a condição de ainda ministro para burlar a proibição da entrada de brasileiros nos EUA. Ao que tudo indica, Weintraub cometeu mais um crime, segundo ele mesmo, com a ajuda de “dezenas” de pessoas. Seus cúmplices. Em seu último ato, Abraham Weintraub deu uma retumbante banana ao STF e ao Brasil.

Os tuítes de Weintraub



Cristina Serra
Cristina Serra é jornalista.

'Eu não sabia' tornou-se um código da desfaçatez - JOSIAS DE SOUZA

UOL - 22/06


A coreografia executada na troca do defensor de Flávio Bolsonaro acentua a degradação da situação política do clã presidencial. No momento, o principal álibi dos Bolsonaro no caso da rachadinha é o cinismo. A exemplo de Lula, que "não sabia" da existência do mensalão; ou de Dilma, que não sabia que o PT e seus aliados plantavam bananeira dentro dos cofres da Petrobras; Flávio e Jair Bolsonaro, que nunca souberam das estripulias financeiras de Fabrício Queiroz, também não sabiam que o faz-tudo estava guardado num simulacro de escritório que o advogado da família, Frederick Wassef, mantinha em Atibaia.

A prisão de Queiroz, na semana passada, deixou Fred, como o agora ex-advogado dos Bolsonaro é chamado na intimidade do Alvorada, mais próximo da condição de investigado do que da posição de defensor. A troca de advogado tornou-se inevitável. Fred ainda não explicou como Queiroz foi parar no seu imóvel. Mas ele matou a encrenca no peito. Assumiu toda a responsabilidade pela irresponsabilidade ainda pendente de explicação.

Ironicamente, a lambança foi elogiada por Flávio Bolsonaro, que enalteceu "a lealdade e a competência do advogado Frederick Wassef". E lamentou que, contra a sua vontade, o doutor tenha deixado a causa. Os elogios do Zero Um são tão sinceros quanto o medo de que o agora ex-defensor se torne um detrator, jogando segredos no ventilador. O novo advogado de Flávio, Rodrigo Roca, atuará em parceria com a colega Luciana Pires, que já auxiliava a defesa do filho do presidente.

A dupla requereu ao Ministério Público do Rio de Janeiro que Flávio seja ouvido. Trata-se de uma mudança de estratégia. Até aqui, o primogênito fugia dos depoimentos. Agora, quer acomodar nos autos do processo a versão segundo a qual seu patrimônio é compatível com a renda e que não tinha conhecimento do que Queiroz fazia no seu gabinete na época em que era deputado estadual.

Nesse ritmo, o "eu não sabia" passará à história como uma espécie de código da desfaçatez. Sempre que a expressão é mencionada, a plateia já sabe que aqueles políticos que se apresentavam como exemplos de retidão pedem para ser vistos como cegos abobalhados, incapazes de enxergar o que acontece ao seu redor.

Confundindo as coisas - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 23/06

Talvez não passe pela cabeça do presidente que os problemas que ele e os bolsonaristas enfrentam na Justiça sejam fruto de suspeitas de malfeitos diversos


O presidente Jair Bolsonaro enviou três representantes graduados para conversar com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes na sexta-feira passada. Consta que foi um gesto político de Bolsonaro para tentar construir um canal de diálogo com o Supremo, depois de sucessivos reveses judiciais de bolsonaristas, do próprio presidente e de seus familiares.

Bolsonaro parece, mais uma vez, confundir as coisas. Talvez imagine que seus dissabores no Judiciário tenham sido motivados por ressentimento dos magistrados diante dos constantes reptos que há tempos lança contra o Supremo – inspirando inclusive seus seguidores e até um ministro de Estado a defender explicitamente o fechamento da Corte e a prisão de seus ministros.

Talvez não passe pela cabeça do presidente que os problemas que ele e os bolsonaristas enfrentam na Justiça sejam na verdade fruto de consistentes suspeitas de malfeitos diversos, que devem ser devidamente investigadas. Bolsonaro parece julgar que um gesto seu de apaziguamento seria suficiente para interromper esses processos, que os bolsonaristas entendem ser “políticos”.

Nesse sentido, a escolha do ministro Alexandre de Moraes para receber a visita dos emissários de Bolsonaro tinha o objetivo específico de afagar aquele que hoje concentra alguns dos mais espinhosos casos envolvendo bolsonaristas no Supremo. Não se sabe se o ministro Alexandre de Moraes se deixou comover pela atitude de Bolsonaro, mas é improvável que a embaixada bolsonarista tenha o efeito desejado pelo presidente.

Tampouco há notícias de que o ministro pretenda mudar o curso dos processos que preside depois que Bolsonaro, como suposta prova de disposição ao diálogo, sacrificou seu ministro mais bolsonarista, Abraham Weintraub, porque este havia ofendido os integrantes do Supremo.

O Supremo já deixou claro, em diversas oportunidades, que não se dobra nem às ameaças nem às artimanhas de Bolsonaro. Há hoje na Corte clara disposição de seguir adiante com as investigações que podem comprometer os camisas pardas bolsonaristas, alguns dos parlamentares mais fiéis ao presidente e um punhado de empresários acusados de financiar a máquina de destruição de reputações a serviço do bolsonarismo. Um dos processos, inclusive, pode levar a questionamentos a respeito da lisura da campanha que elegeu Bolsonaro em 2018.

A esta altura, é preciso ser muito ingênuo para acreditar que o presidente queira realmente distender sua relação com o Supremo, especialmente depois de ter dito, quase sempre aos gritos, que era preciso impor “limites” àquela Corte, que não cumpriria ordens judiciais “absurdas” e que “está chegando a hora de tudo ser colocado no seu devido lugar”. E ingenuidade não parece ser um traço encontradiço entre os ministros do Supremo.

Bolsonaro não está, como nunca esteve, interessado em “harmonia” com os demais Poderes, pois essa palavra não consta do léxico de um movimento que surgiu com o objetivo explícito de desmoralizar as instituições democráticas que se interpuserem em seu caminho. É o confronto permanente que justifica e alimenta esse movimento liberticida, razão pela qual todo recuo é apenas tático, quando não simplesmente um embuste para enganar incautos.

O aceno do presidente ao Supremo é, assim, somente uma encenação de maus atores, incapazes sequer de fingir que aceitam a democracia. Um presidente que espera que a mais alta Corte do País se submeta a seus caprichos só porque mandou ministros para uma visita de cortesia ou porque demitiu um ministro inconveniente é um presidente que não entendeu nem seu papel institucional nem a Constituição do País que governa.

Confiar na disposição de Bolsonaro para buscar uma “trégua” é o mesmo que crer em sua capacidade de se tornar o estadista que ele jamais foi. O único propósito do presidente é atrair o Supremo para seu pantanoso território, em que os interesses privados de sua encrencada família são confundidos com os mais altos interesses públicos.

Espera-se que o Supremo resista a mais essa tentativa do presidente de envolvê-lo em politicagem rasteira e, estritamente conforme a lei, determine diligentemente a punição dos que cometeram crimes, sejam eles quem forem.

Um golpe que passa do delírio à farsa - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 23/06

Com a descoberta de Queiroz, devem ganhar nitidez ligações perigosas do clã Bolsonaro com o submundo das milícias


Os delírios golpistas do bolsonarismo que surgiram com ares de tragédia se aproximam da farsa. O fraseado do ex-capitão, modulado nos 28 anos de baixo clero na Câmara, em favor de torturadores do ciclo de chumbo da ditadura militar, as ameaças ao Supremo, as palavras de ordem de pequenos grupos por um novo regime de exceção verde-oliva gritadas em manifestações bolsonaristas, mantendo o ex-capitão no Planalto, prenunciavam um impossível retorno ao início dos anos 1960, sem Guerra Fria e sem comunistas escondidos em todos os lugares, mas prontos para conseguir o que não foi possível no levante fracassado de 35, a Intentona.

Ainda houve tentativas de criá-los usando redes sociais e seus robôs. Sem sucesso, porque não há mais União Soviética e nem existe o comunismo. A verdade é que não se sustenta algum discurso pretensamente civilizado para justificar o estrangulamento da democracia. Uma das virtudes inalcançáveis deste regime é que ele pode ser aperfeiçoado sem cataclismos políticos, econômicos, sociais, humanitários. No Brasil, o golpe bolsonarista, se fosse possível, implicaria um regime de força, truculento, isolado no mundo, com uma economia já conectada a mercados globais, em um país com mais de 200 milhões de habitantes, repleto de desníveis sociais, mas com todas as condições de reduzi-los dentro das liberdades constitucionais.

Bolsonaro sempre foi transparente ao pregar inconstitucionalidades. Não deveria surpreender. Na crise da saída de Moro, afirmou que desejava fazer trocas na sua “segurança” — era na Polícia Federal, nunca se teve dúvida —, porque queria “interagir” com o comando da PF, a diretoria-geral e a superintendência do Rio, área sensível para o presidente e família — sabe-se cada vez mais por quê —, sempre preocupado com que investigações e denúncias pudessem ser feitas contra “amigos” e filhos.

Porém, amigos e um filho já haviam entrado no radar de instituições que coíbem crimes, o que explica a sensibilidade presidencial ao tema. Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz são investigados pelo Ministério Público do Rio, e Fabrício desde o final de 2018. O noticiário sobre o roubo de dinheiro público por meio do esquema na Assembleia Legislativa fluminense batizado de forma singela como “rachadinha” concorreu por espaço na imprensa com a formação do governo e a posse do presidente.

Não deixaram de ser veiculadas informações sobre o caso, mas o novo governo era insuperável como fator de atração das atenções. O caso da “rachadinha” criou tensões no Supremo, depois da decisão monocrática do presidente da Corte, ministro Dias Toffoli, tomada a pedido da defesa de Flávio, de paralisar todas as investigações iniciadas com base em relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), sobre movimentações bancárias atípicas que não houvessem tido autorização da Justiça em todas as suas etapas de elaboração.

Muitos inquéritos sobre lavagem de dinheiro ficaram em suspenso junto com os de Flávio e Queiroz, já então desaparecido. O Brasil chegou a ser ameaçado com a saída de acordos multilaterais que facilitam a troca de informações entre os Estados nacionais, para coibir crimes financeiros, crescentemente globais, cometidos para esconder grandes volumes de dinheiro gerados na corrupção, no tráfico de drogas e armas, em todo tipo de operação gerenciada pelo crime organizado. O plenário da Corte reviu aquela decisão, e o próprio Toffoli recuou no julgamento final.

O processamento das informações sobre as traficâncias financeiras de Flávio Bolsonaro, com a ajuda de Fabrício, terminou sendo retomado no MP do Rio de Janeiro, e parte das descobertas foi conhecida com o resgate de Queiroz, que se escondia numa casa em Atibaia, próximo a São Paulo, de propriedade de Frederick Wassef, advogado do presidente da República. O imóvel parecia receber uma maquiagem para parecer um escritório de advocacia do novo frequentador assíduo do Alvorada e do Planalto, e dessa forma se beneficiar da inviolabilidade legal do espaço de trabalho dos advogados. Mas a polícia chegou antes, na quinta-feira.

O PM aposentado, amigo de Jair Bolsonaro e depois dos filhos, comprovadamente pagou despesas de Flávio e família com dinheiro de origem desconhecida. Todas as evidências indicam que veio do desfalque nos cofres públicos dado com a subtração de parte dos salários dos assessores do ainda deputado estadual Flávio, muitos deles da família de Queiroz e de Bolsonaro. Este tem de ser um negócio em família, literalmente.

Junto com a descoberta de Queiroz sob proteção do advogado presidencial devem ganhar nitidez ligações no mínimo arriscadas do clã Bolsonaro com o submundo das milícias cariocas. O próprio Queiroz explorava transporte de vans em Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio, QG de uma quadrilha de bandidos fardados — da ativa ou da reserva. É preciso muita intimidade com os homens fortes do pedaço para entrar nesses negócios.

O bolsonarismo entra agora em nova fase, pelo menos em um primeiro momento menos voluntariosa. Diante do que já se sabe e do que está por vir, é natural que todos se perguntem — incluindo militares que emprestam a honorabilidade da instituição ao governo — qual mesmo o objetivo do golpe de que tanto se fala. Ou pelo menos se falou. Se não há comunistas, e o país demonstra ter instituições que garantem a governabilidade, resta a suposição muito plausível de que tudo é mesmo para proteger família e amigos, num puro estilo caudilhesco. Esta é a farsa.